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Outras EspecialidadesOftalmologia

Olho vermelho

Diferenciar conjuntivite das condições que ameaçam a visão

01

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, 6 dias de vida, apresenta secreção ocular purulenta bilateral abundante e edema palpebral acentuado, iniciados no 4º dia de vida. A mãe não realizou pré-natal. Ao exame, hiperemia conjuntival intensa e quemose. Considerando o agente mais associado a complicações graves (perfuração de córnea) nessa faixa etária, qual é a conduta antimicrobiana mais adequada?

02

Como esse tema cai

Olho vermelho é sintoma, não diagnóstico. A grande maioria é conjuntivite e se resolve sozinha; uma minoria pequena — ceratite, uveíte anterior, crise de fechamento angular e conjuntivite hiperaguda gonocócica — cega em dias ou horas. A prova cobra exatamente a fronteira entre os dois grupos, e cobra sempre pelos mesmos três dados: acuidade visual, dor verdadeira e o lugar onde o olho está mais vermelho.

Não existe protocolo clínico nacional dedicado ao olho vermelho. A régua brasileira é de encaminhamento: o protocolo de Oftalmologia Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS, de 2017, lista quais quadros não podem esperar consulta ambulatorial. Os fármacos vêm de outros documentos — o PCDT de IST dá os esquemas do gonococo e da oftalmia neonatal, o PCDT do Glaucoma dá o tratamento contínuo, e o consenso da Sociedade Brasileira de Glaucoma dá o esquema da crise aguda. Saber de qual documento cada número sai é o que permite reconhecer o recorte da questão.

O segundo eixo cobrado é iatrogenia. Dois frascos aparecem em vinheta com frequência desproporcional à sua utilidade: o corticoide tópico, que prolonga infecção por adenovírus, agrava ceratite herpética e sobe a pressão intraocular; e o anestésico tópico, que alivia na hora e destrói o epitélio corneano quando repetido. Quem prescreve olho vermelho sem lâmpada de fenda erra por esses dois.

03

O que muda decisão

Os três dados que separam o banal do grave

Acuidade visual é o primeiro. Meça em cada olho separadamente, com a correção que o paciente já usa, na tabela de optotipos a 4 a 6 metros; considere como acuidade a menor linha lida corretamente e, se o paciente acertar só parte dela, registre a linha de cima. Conjuntivite não derruba visão — no máximo embaça transitoriamente por secreção sobre a córnea, e melhora ao piscar. Visão pior que a habitual em olho vermelho é achado de encaminhamento, não de observação.

Dor verdadeira é o segundo, e depende de perguntar direito. Ardor, prurido, areia nos olhos e sensação de sujeira são queixas de superfície e acompanham conjuntivite e olho seco. Dor profunda, latejante, que atrapalha o sono, ou fotofobia que faz o paciente fechar o olho no consultório, vem de córnea, íris ou pressão intraocular.

O padrão da hiperemia é o terceiro e o mais subestimado. Vermelhidão difusa, mais carregada nos fórnices e sob as pálpebras, com vasos que se movem quando se desloca a conjuntiva, é conjuntival. Vermelhidão concentrada em anel ao redor da córnea, que desbota em direção à periferia e não se move, é ciliar — também chamada periquerática — e aponta córnea, câmara anterior ou pressão. O protocolo do TelessaúdeRS trata esse detalhe como gatilho de emergência: olho vermelho agudo cuja hiperemia predomina ao redor da córnea, ou é setorial, vai para a emergência oftalmológica.

Fecham o exame duas observações de dez segundos: a transparência da córnea, olhada contra o reflexo de uma lanterna, e a pupila. Córnea fosca com pupila em midríase média que não reage à luz é crise de fechamento angular até prova em contrário. Pupila menor que a do outro olho, com dor e fotofobia, é uveíte anterior. Fluoresceína, quando há dor, sensação de corpo estranho ou uso de lente de contato, revela a úlcera que a olho nu não aparece.

Dois olhos vistos de frente: à esquerda, vermelhidão espalhada por toda a esclera e mais intensa junto às pálpebras, com córnea transparente e pupila normal; à direita, anel de vermelhidão concentrado em volta da córnea, córnea embaçada e pupila em midríase média.
Hiperemia conjuntival difusa, à esquerda, contra hiperemia ciliar ou periquerática, à direita. O segundo padrão põe córnea, íris e pressão intraocular no topo da lista e tira o caso da conduta expectante.

Conjuntivites: viral, bacteriana e alérgica

A viral é a mais comum e quase sempre adenovírus. Começa em um olho e passa para o outro em dois a três dias, com secreção aquosa, folículos na conjuntiva tarsal e, o sinal mais útil, linfonodo pré-auricular palpável e doloroso — que a bacteriana e a alérgica não têm. Costuma vir com quadro de vias aéreas ou contato com caso semelhante. Acuidade visual preservada, sem dor verdadeira. O tratamento é sintomático: compressa fria, lubrificante, higiene das mãos, toalha e travesseiro separados. O período de transmissão dura de dez a catorze dias desde o início, e o afastamento de escola e trabalho nessa fase vale mais que qualquer colírio.

A bacteriana dá secreção francamente purulenta ou mucopurulenta, que reaparece pouco depois de limpa e cola as pálpebras ao acordar. Costuma ser unilateral no início, sem adenopatia. Em adulto imunocompetente, o quadro leve é autolimitado; o antibiótico tópico de amplo espectro por cinco a sete dias antecipa a remissão nos primeiros dias e reduz transmissibilidade, e nenhum agente é superior a outro. A regra prática do protocolo brasileiro é a do prazo: conjuntivite catarral ou mucopurulenta que não melhora até o segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico deixa de ser conjuntivite banal e vira encaminhamento para a emergência oftalmológica.

A alérgica é bilateral, simétrica, recorrente e sazonal, e o sintoma dominante é prurido — não ardor, não dor. Vem com quemose, edema palpebral e história de rinite ou atopia. Trata-se com afastamento do alérgeno, compressa fria, lubrificante gelado e anti-histamínico ou estabilizador de mastócito tópico. Corticoide tópico só entra em formas graves, por tempo curto e sob acompanhamento de quem consegue medir pressão intraocular.

A pergunta que desmonta a maioria das vinhetas de conjuntivite é sempre a mesma: a visão caiu? Se caiu, ou se dói de verdade, ou se o vermelho está em anel ao redor da córnea, o diagnóstico de conjuntivite já não se sustenta.

Conjuntivite hiperaguda: o gonococo

É a exceção mais cobrada. Instala-se em doze a vinte e quatro horas, com secreção purulenta tão abundante que reaparece em minutos após a limpeza, edema palpebral acentuado, quemose e linfonodo pré-auricular. Aparece em adulto sexualmente ativo, muitas vezes com uretrite ou cervicite recente, e no recém-nascido contaminado no canal de parto. O gonococo é dos poucos agentes capazes de atravessar epitélio corneano íntegro: a conjuntivite gonocócica não tratada pode chegar a perfuração de córnea e perda visual em vinte e quatro horas.

O tratamento é sistêmico — colírio não resolve. O PCDT de IST prescreve, para conjuntivite gonocócica do adulto, ceftriaxona 1 g por via intramuscular em dose única. Associam-se lavagem ocular com soro fisiológico e avaliação oftalmológica no mesmo dia, porque comprometimento corneano muda o tratamento. Como se trata de infecção sexualmente transmissível, entram junto o rastreamento das demais IST, a testagem e o tratamento das parcerias sexuais e a notificação quando indicada.

No recém-nascido, a oftalmia neonatal é definida como conjuntivite purulenta no primeiro mês de vida e é urgência. O risco de transmissão vertical no parto vaginal fica entre 30% e 50%, tanto para Neisseria gonorrhoeae quanto para Chlamydia trachomatis, o que explica por que a profilaxia ocular ao nascer é conduta universal e por que a ausência de pré-natal pesa tanto na vinheta. O PCDT de IST trata com ceftriaxona 25 a 50 mg/kg por via intramuscular, em dose única e no máximo 125 mg, associada a instilação local de soro fisiológico de hora em hora; instilação local de penicilina não é indicada. A conjuntivite neonatal por clamídia é bem menos grave e tem incubação de cinco a catorze dias, contra dois a cinco dias do gonococo — a diferença de tempo entre o parto e o início dos sintomas é a pista que a vinheta costuma dar.

Ceratite e úlcera de córnea

Ceratite é dor, e dor forte: o paciente lacrimeja, fotofobia intensa, sensação de corpo estranho que não passa ao piscar, hiperemia periquerática e visão reduzida quando a lesão fica no eixo visual. A fluoresceína cora o defeito epitelial sob luz azul de cobalto. Infiltrado esbranquiçado no estroma, com ou sem hipópio, é úlcera infecciosa e emergência.

Usuário de lente de contato é categoria à parte. Qualquer sintoma agudo — baixa de visão, dor ou secreção — em quem usa lente é encaminhamento imediato para a emergência oftalmológica, sem tentativa terapêutica na atenção primária, pela chance de ceratite por Pseudomonas, que evolui em horas, e por Acanthamoeba, que dá dor desproporcional aos achados. A lente é suspensa e levada ao serviço junto com o estojo e a solução, que servem para cultura.

A ceratite herpética tem a lesão dendrítica característica à fluoresceína, com bordas em bulbo, e costuma reduzir a sensibilidade corneana. É o cenário em que o corticoide tópico faz o maior estrago: a Academia Americana de Oftalmologia é explícita em que corticoide pode prolongar a infecção adenoviral e piorar a infecção por herpes simples. Tratamento antiviral, tópico ou sistêmico, e acompanhamento com oftalmologista.

Três condutas não devem ser tomadas em olho com suspeita de ceratite: prescrever corticoide, entregar anestésico tópico para uso domiciliar — que atrasa a reepitelização e produz ceratopatia tóxica — e ocluir o olho de usuário de lente de contato, porque a oclusão cria estufa para a Pseudomonas.

Uveíte anterior

Uveíte anterior — irite ou iridociclite — é dor em peso, fotofobia marcante, lacrimejamento e visão levemente reduzida, geralmente unilateral e sem secreção. O olho está vermelho em anel ao redor da córnea. A pupila fica miótica e responde mal à luz, e sinéquias posteriores deixam o contorno pupilar irregular. À lâmpada de fenda há células e proteína no humor aquoso — o efeito Tyndall — e precipitados ceráticos no endotélio.

A ausência de secreção é o que mais separa da conjuntivite na vinheta escrita: dor com fotofobia, sem secreção e com pupila menor do que a do outro olho é uveíte até prova em contrário. O tratamento é do oftalmologista e combina corticoide tópico em esquema de retirada progressiva com cicloplégico, que alivia o espasmo ciliar e previne sinéquias — e é uma das poucas situações em que se dilata deliberadamente um olho vermelho.

A investigação etiológica vale a pena nas recorrentes, nas bilaterais e nas que vêm com sintoma sistêmico: espondiloartrites e HLA-B27, artrite idiopática juvenil, sarcoidose, doença inflamatória intestinal, além de sífilis, tuberculose e toxoplasmose. O acometimento ocular da sífilis se dá principalmente como uveíte posterior e panuveíte, associa-se com frequência a meningite sifilítica e é indicação formal de punção lombar para investigar neurossífilis. A toxoplasmose ocular aguda ou reativada, no protocolo brasileiro de encaminhamento, é caso de emergência oftalmológica.

Crise aguda de fechamento angular

É o quadro mais dramático da lista e o mais reconhecível: dor ocular intensa de início abrupto, cefaleia, náusea e vômitos, visão turva e halos coloridos ao redor das luzes. O consenso da Sociedade Brasileira de Glaucoma descreve pressão intraocular frequentemente acima de 40 mmHg, edema de córnea predominantemente epitelial, câmara anterior rasa, midríase média paralítica ou pupila hiporreativa, hiperemia conjuntival com injeção ciliar e globo tenso à palpação bidigital. Náusea e vômito desviam o raciocínio para abdome e enxaqueca — a vinheta costuma explorar isso.

O terreno é anatômico. O PCDT do Glaucoma lista, entre os fatores de risco do fechamento angular, idade acima de 40 anos, hipermetropia e etnia amarela — nessa população acima de 40 anos a prevalência do glaucoma primário de ângulo fechado varia de 3% a 5%. Some-se câmara anterior rasa. O gatilho é a midríase média, que empurra a íris contra o trabeculado: daí a crise em ambiente escuro, em estresse emocional e após anticolinérgicos, descongestionantes, antidepressivos tricíclicos e colírios midriáticos. É o motivo pelo qual dilatar a pupila de um olho vermelho com dor intensa e câmara rasa é conduta a evitar fora do serviço especializado.

O manejo é simultâneo, não sequencial: paciente em decúbito dorsal, hiperosmótico, inibidor da anidrase carbônica, hipotensor tópico, pilocarpina e corticoide tópico, com as doses da tabela adiante, mais indentação central da córnea com o cone do tonômetro para forçar a abertura do seio camerular. O tratamento clínico interrompe a crise em cerca de 90% dos casos nas primeiras doze a vinte e quatro horas — mas nada disso resolve o bloqueio pupilar.

O que resolve é a iridotomia, de preferência com YAG-laser, feita depois que a córnea clareia. O PCDT do Glaucoma diz o mesmo em outras palavras: quando o mecanismo é bloqueio pupilar, o tratamento básico é criar comunicação entre as câmaras posterior e anterior, por iridotomia a laser ou cirurgia fistulizante. E o olho contralateral, que tem a mesma anatomia, quase sempre recebe iridotomia profilática. O tratamento medicamentoso contínuo do PCDT — timolol como primeira linha, dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina como segunda, prostaglandinas depois — é para o glaucoma crônico, não para a crise.

Os que parecem e não são

Hemorragia subconjuntival é uma mancha vermelho-vivo, homogênea, de limites nítidos, sem dor, sem secreção e sem queda de visão. Assusta o paciente e não é doença ocular: reabsorve em uma a duas semanas. O que muda a conduta é o contexto — trauma, manobra de Valsalva, uso de antiagregante ou anticoagulante, hipertensão descontrolada e recorrência, que pede investigação de coagulopatia.

Episclerite é hiperemia setorial, de um quadrante, com desconforto leve e visão normal; costuma ceder sozinha ou com anti-inflamatório. Esclerite dói fundo, piora à noite, tem tonalidade violácea, dor à palpação do globo e associa-se a doença reumatológica sistêmica, com risco de perda visual. As duas entram no mesmo gatilho do protocolo de encaminhamento: olho vermelho agudo com hiperemia setorial vai para a emergência oftalmológica, porque separar uma da outra depende de exame que a atenção primária não tem.

Blefarite e olho seco produzem vermelhidão crônica, com ardor, sensação de areia e piora ao fim do dia — não olho vermelho agudo. Pterígio irritado dá hiperemia localizada no lado nasal. O protocolo brasileiro só manda ao oftalmologista o pterígio que reduz acuidade visual, e o pterígio sintomático ou o olho seco que não aliviam com lubrificante ocular três a seis vezes ao dia por um mês.

Hordéolo e calázio são nódulos palpebrais, não conjuntivite: tratam-se com compressa morna, massagem e pomada oftálmica de antibiótico, e só vão ao especialista quando o hordéolo é recorrente ou o calázio não responde a catorze dias de tratamento clínico. Já a celulite orbitária — proptose, dor à movimentação ocular, restrição da motilidade e comprometimento sistêmico — é internação e antibiótico endovenoso, e não pode ser confundida com celulite pré-septal.

04

Triagem do olho vermelho em cinco minutos

A triagem não tenta fechar diagnóstico: ela decide quem fica e quem vai para a emergência oftalmológica hoje. Cinco passos, todos executáveis numa UBS com lanterna, tabela de optotipos e fluoresceína.

  1. 1Meça a acuidade visual de cada olho em separado, com a correção que o paciente já usa — é o dado que mais separa conjuntivite de tudo o que ameaça a visão.
  2. 2Pergunte por dor profunda e fotofobia, e não aceite ardor, prurido ou sensação de areia como resposta equivalente.
  3. 3Olhe onde está o vermelho: difuso e mais forte nos fórnices é conjuntival; em anel ao redor da córnea, ou setorial em um quadrante, tira o caso do grupo benigno.
  4. 4Olhe a córnea contra o reflexo da lanterna e compare as pupilas: córnea fosca com pupila em midríase média fixa é crise de fechamento angular; pupila miótica com dor e fotofobia é uveíte anterior.
  5. 5Pingue fluoresceína se houver dor, sensação de corpo estranho, trauma ou uso de lente de contato — e encaminhe qualquer defeito epitelial ou infiltrado.
  6. 6Usuário de lente de contato com qualquer sintoma agudo vai para a emergência oftalmológica sem tentativa terapêutica prévia.

Ceratite e úlcera de córnea

Dor forte, fotofobia, corpo estranho que não passa, hiperemia periquerática e fluoresceína positiva. Usuário de lente de contato é emergência por definição. Nunca corticoide, nunca anestésico para casa, nunca oclusão em usuário de lente.

Uveíte anterior

Dor em peso, fotofobia, sem secreção, pupila miótica e irregular, hiperemia em anel ao redor da córnea. Tratamento com corticoide tópico e cicloplégico é do oftalmologista; investigar espondiloartrite, sífilis, tuberculose e toxoplasmose nas recorrentes.

Crise de fechamento angular

Dor abrupta, cefaleia, náusea e vômito, halos coloridos, PIO em geral acima de 40 mmHg, córnea fosca, midríase média fixa e globo tenso. Reduzir a pressão já, encaminhar na hora, e iridotomia a laser como tratamento definitivo.

Conjuntivite hiperaguda gonocócica

Instalação em 12 a 24 horas com secreção purulenta profusa que reaparece em minutos, edema palpebral e adenopatia pré-auricular. Antibiótico sistêmico, não colírio: ceftriaxona intramuscular, avaliação oftalmológica no mesmo dia e manejo como IST.

QuadroAcuidade visualDorHiperemiaPupila e córneaO que fecha
Conjuntivite viralPreservadaArdor, sem dor verdadeiraDifusa, bilateral em 2-3 diasNormaisSecreção aquosa, folículos e linfonodo pré-auricular doloroso
Conjuntivite bacterianaPreservadaArdor, pálpebras coladasDifusa, começa unilateralNormaisSecreção purulenta que reaparece após a limpeza, sem adenopatia
Conjuntivite alérgicaPreservadaPrurido dominanteDifusa e bilateral, com quemoseNormaisSazonalidade, atopia e recorrência
Conjuntivite gonocócicaPode cairDor e edema palpebral intensosDifusa e exuberanteCórnea em risco de ulceraçãoInstalação em 12-24 h com secreção profusa e IST recente
Ceratite / úlceraReduzida se centralIntensa, com fotofobiaPeriqueráticaCórnea com defeito ou infiltradoFluoresceína positiva; lente de contato ou trauma no relato
Uveíte anteriorLevemente reduzidaEm peso, fotofobiaPeriqueráticaPupila miótica e irregularAusência de secreção; Tyndall e precipitados ceráticos
Fechamento angular agudoMuito reduzidaIntensa, com náusea e vômitoDifusa com injeção ciliarCórnea fosca, midríase média fixaHalos coloridos, globo tenso, PIO em geral acima de 40 mmHg
Episclerite / escleritePreservadaLeve na episclerite, profunda na escleriteSetorial, um quadranteNormaisTom violáceo e dor à palpação apontam esclerite
Hemorragia subconjuntivalPreservadaAusenteMancha homogênea de limites nítidosNormaisValsalva, trauma, antiagregante ou hipertensão no contexto

Olho vermelho que não espera consulta ambulatorial (TelessaúdeRS-UFRGS, 2017)

SituaçãoPor que não espera
Hiperemia que predomina ao redor da córnea, ou setorialAponta ceratite, úlcera, corpo estranho, episclerite ou esclerite
Conjuntivite hiperaguda, instalada em 12 a 24 h, com secreção purulenta abundanteSuspeita de conjuntivite gonocócica, que perfura córnea
Conjuntivite catarral ou mucopurulenta sem melhora após o 2º ou 3º dia de antibiótico tópicoFalha terapêutica muda o diagnóstico presumido
Qualquer sintoma agudo — baixa de visão, dor ou secreção — em usuário de lente de contatoCeratite bacteriana e por Acanthamoeba evoluem em horas
Suspeita de glaucoma agudo: olho vermelho unilateral, dor grave abrupta, náusea e vômito, olho tensoPerda de campo visual definitiva se a pressão não cair
Uveíte aguda, incluindo suspeita de toxoplasmose ocularPrecisa de corticoide e cicloplégico sob controle da pressão
Corpo estranho ocular, úlcera de córnea ou trauma ocular de qualquer tipoRisco de perfuração e de perda visual permanente
Baixa de acuidade visual aguda, ou associada a dor, sombra em cortina, fotopsias ou metamorfopsiaRetina, nervo óptico ou córnea em sofrimento agudo

Crise aguda de fechamento angular — esquema clínico (I Consenso da Sociedade Brasileira de Glaucoma, 2006)

MedidaComo
PosiçãoDecúbito dorsal
HiperosmóticoManitol 20% IV, 1,5 a 2 g/kg (80 a 100 gotas/min), 8/8 h; ou glicerina 50% VO, 1,5 g/kg, 8/8 h — vômito costuma inviabilizar a via oral
Inibidor da anidrase carbônicaAcetazolamida 250 mg VO 6/6 h, podendo começar com ataque de 500 mg
MióticoPilocarpina 2% colírio, 1 gota por hora nas três primeiras horas, depois 1 gota 6/6 h
Betabloqueador tópicoMaleato de timolol 0,5% colírio, 1 gota 12/12 h
Alfa-agonista tópicoTartarato de brimonidina 0,15% ou 0,2%, 1 gota 12/12 h, quando há contraindicação ao timolol
Anti-inflamatório tópicoColírio de corticosteroide, 1 gota 2/2 h nas primeiras 24 h
Manobra mecânicaIndentação central da córnea com o cone do tonômetro ou lente de indentação, três compressões de dez segundos, logo após iniciar as medicações
Tratamento definitivoIridotomia, de preferência com YAG-laser, após clareamento da córnea; iridotomia profilática no olho contralateral

O esquema clínico interrompe a crise em cerca de 90% dos casos nas primeiras 12 a 24 horas, mas não desfaz o bloqueio pupilar: sem iridotomia, a crise volta.

O PCDT do Glaucoma trata do uso contínuo — timolol na primeira linha, dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina na segunda, prostaglandinas depois. Ele não é a régua da crise aguda.

Dilatar a pupila de um olho com câmara anterior rasa pode deflagrar a crise. Em olho vermelho com dor intensa e córnea fosca, a fundoscopia com midriático espera o oftalmologista.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual agente usar na profilaxia da conjuntivite neonatal

Nitrato de prata 1% (método de Credé) ou tetraciclina 1%, na primeira hora de vida

O Quadro 32 do PCDT de IST mantém a dupla clássica para prevenção da oftalmia neonatal: nitrato de prata a 1% em aplicação única ou colírio de tetraciclina a 1%, ambos na primeira hora após o nascimento. É o texto de um protocolo clínico vigente, publicado sob portaria.

Ministério da Saúde. PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022 (Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19/04/2021), Quadro 32

Iodopovidona 2,5%, eritromicina 0,5% ou tetraciclina 1%, com nitrato de prata só na falta dos demais

A nota técnica de 2024 da Atenção Primária determina a substituição do nitrato de prata: iodopovidona a 2,5% tem eficácia contra gonococo e clamídia, não gera conjuntivite química nem tem problema de conservação, e o nitrato de prata fica reservado aos serviços que não dispuserem das opções anteriores. O argumento é o aumento relativo da conjuntivite por Chlamydia trachomatis e a irritação química causada pelo nitrato.

Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 11/2024-CACRIAD/CGACI/DGCI/SAPS/MS

Na prova

São dois documentos brasileiros do mesmo ministério, de 2021/2022 e de 2024, e os dois circulam. Enunciado que cita nominalmente o PCDT de IST, ou que descreve o método de Credé pelo nome, está ancorado no protocolo mais antigo; enunciado que fala em substituição do nitrato de prata, cita iodopovidona a 2,5% ou menciona conjuntivite química no recém-nascido está ancorado na nota técnica de 2024. Quando as alternativas trazem iodopovidona entre as opções, a questão foi escrita depois da mudança.

Antibiótico tópico na conjuntivite bacteriana leve do adulto

Antibiótico tópico como padrão na atenção primária, com prazo de reavaliação

O protocolo brasileiro de encaminhamento pressupõe o colírio antibiótico já iniciado e usa a falha dele como gatilho: conjuntivite catarral ou mucopurulenta aguda sem melhora após o segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico vira encaminhamento para a emergência oftalmológica. O prazo curto dá um critério objetivo a quem não tem lâmpada de fenda.

TelessaúdeRS-UFRGS / SES-RS. Protocolos de Encaminhamento para Oftalmologia Adulto, 2017, protocolo 7

Quadro leve é autolimitado e a prescrição é decisão individual

A Academia Americana de Oftalmologia registra que a conjuntivite bacteriana leve costuma resolver espontaneamente em adulto imunocompetente; o antibiótico tópico antecipa a remissão clínica e microbiológica entre o segundo e o quinto dia, com benefício que diminui com o tempo, e nenhum agente é superior a outro. O uso indiscriminado de antibiótico e de corticoide tópicos deve ser evitado.

American Academy of Ophthalmology. Conjunctivitis Preferred Practice Pattern, 2023

Na prova

A distância aqui não é de evidência, e sim de função do documento: um organiza fila de encaminhamento em rede pública sem oftalmologista à mão e precisa de um prazo objetivo, o outro orienta o especialista que examina à lâmpada de fenda. Cenário de UBS, protocolo estadual citado ou alternativa que fala em reavaliar em 48 a 72 horas indica o recorte brasileiro; enunciado que discute resistência antimicrobiana, autolimitação ou prescrição diferida indica o recorte da sociedade internacional.

Esquema sistêmico da conjuntivite gonocócica do adulto

Ceftriaxona 1 g IM em dose única

O PCDT de IST separa a conjuntivite gonocócica dos demais sítios: infecção gonocócica não complicada de uretra, colo, reto e faringe recebe ceftriaxona 500 mg IM mais azitromicina 1 g VO, enquanto a conjuntivite do adulto recebe ceftriaxona 1 g IM em dose única. A dose maior reflete a gravidade do sítio ocular, que pode perfurar córnea em 24 horas.

Ministério da Saúde. PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022, Quadro 31

Ceftriaxona 500 mg IM associada a azitromicina 1 g VO ou doxiciclina por 7 dias

O apêndice de antibioticoterapia sistêmica da Academia Americana de Oftalmologia traz, para conjuntivite gonocócica em adultos e adolescentes, ceftriaxona 500 mg IM em dose única associada a azitromicina 1 g VO em dose única ou a doxiciclina 100 mg VO duas vezes ao dia por sete dias — isto é, dose menor de cefalosporina e cobertura formal para clamídia dentro do mesmo esquema.

American Academy of Ophthalmology. Conjunctivitis Preferred Practice Pattern, 2023, Apêndice 4

Na prova

As duas réguas concordam no essencial — infecção ocular pelo gonococo se trata por via sistêmica, não com colírio — e divergem na dose e na cobertura simultânea da clamídia. Vinheta em português com paciente do SUS, referência a IST e manejo de parcerias sexuais aponta o documento nacional; enunciado que traz doxiciclina por sete dias no mesmo esquema, ou alternativas com cefixima e gentamicina, sinaliza o corpo internacional.

06

Caso resolvido

Mulher de 71 anos, hipermetrope, chega ao pronto-socorro às 22h com dor intensa no olho direito, cefaleia frontal e dois episódios de vômito, iniciados há cinco horas enquanto assistia a um filme numa sala escura. Refere ver halos coloridos em volta das lâmpadas e que a visão do lado direito embaçou de repente. Ao exame: acuidade visual conta dedos a um metro no olho direito e 20/30 no esquerdo; olho direito com hiperemia difusa e mais intensa ao redor da córnea, córnea fosca, pupila em midríase média sem reação à luz e globo tenso à palpação bidigital. Pressão intraocular de 52 mmHg no olho direito e 16 mmHg no esquerdo. Nega trauma e secreção.
achado
Olho vermelho unilateral com dor abrupta, náusea e vômito, halos coloridos, queda acentuada de acuidade visual, córnea fosca, midríase média fixa e globo tenso. Cinco desses achados constam da descrição da forma aguda no consenso brasileiro de glaucoma primário de ângulo fechado, que registra pressão intraocular frequentemente acima de 40 mmHg.
leitura
Náusea e vômito com cefaleia desviam para abdome agudo ou enxaqueca, e é o exame ocular que corrige a rota: pupila em midríase média fixa com córnea fosca não pertence a nenhum dos dois. O gatilho está no relato — ambiente escuro provoca midríase média, que empurra a íris contra o trabeculado num olho hipermetrope de câmara rasa.
conduta imediata
Decúbito dorsal, acetazolamida 250 mg VO 6/6 h com ataque de 500 mg, manitol 20% IV 1,5 a 2 g/kg de 8/8 h — a via oral fica inviável pelo vômito —, timolol 0,5% 12/12 h, pilocarpina 2% de hora em hora nas três primeiras horas e corticoide tópico 2/2 h nas primeiras 24 h. Contato imediato com o oftalmologista: o quadro é emergência oftalmológica no protocolo brasileiro de encaminhamento.
definitivo
Controlada a pressão e clareada a córnea, iridotomia com YAG-laser rompe o bloqueio pupilar. O olho esquerdo tem a mesma anatomia e recebe iridotomia profilática. Sem esse passo, o esquema medicamentoso apenas adia a próxima crise.
erro a evitar
Pingar midriático para fazer fundoscopia, prescrever analgésico e mandar voltar de manhã, ou atribuir os vômitos a causa digestiva sem medir a pressão intraocular. Anticolinérgico prescrito para o enjoo piora o mecanismo.
seguimento
Quem teve uma crise pode já ter glaucoma crônico por baixo, ou desenvolvê-lo depois: acompanhamento periódico com campo visual e avaliação do disco óptico, e tratamento contínuo pelo PCDT do Glaucoma se a pressão permanecer alta.
07

Agora feche você

Homem de 26 anos procura a unidade básica com olho esquerdo vermelho que começou há 18 horas. A secreção é amarelo-esverdeada e tão abundante que reaparece poucos minutos depois de o próprio paciente limpar; há edema palpebral acentuado, quemose e linfonodo pré-auricular doloroso. Acuidade visual 20/40 no olho esquerdo, 20/20 no direito, sem halos e sem dor à movimentação ocular. Relata corrimento uretral há uma semana, tratado por conta própria com azitromicina que sobrara em casa. Não usa lente de contato e nega trauma.
achado
Conjuntivite hiperaguda: instalação em menos de 24 horas, secreção purulenta profusa e recidivante, edema palpebral marcado, quemose e adenopatia pré-auricular, em adulto com uretrite recente e tratamento incompleto.
leitura
O tempo de instalação é o que separa esta do resto. O gonococo atravessa epitélio corneano íntegro e a infecção não tratada pode chegar a perfuração de córnea e perda visual em 24 horas — por isso o protocolo brasileiro de encaminhamento coloca a conjuntivite hiperaguda com secreção purulenta abundante entre os quadros de emergência oftalmológica.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de conjuntivite todo olho vermelho É o diagnóstico mais provável e por isso o mais perigoso: a vinheta escolhe justamente o caso em que a acuidade visual caiu, ou em que a dor é profunda, e conta com o automatismo. Três perguntas desfazem a armadilha — a visão caiu, dói de verdade, o vermelho está em anel ao redor da córnea.
  2. 2Prescrever corticoide tópico para desinflamar Alivia rápido e é justamente por isso que atrai. Corticoide prolonga a infecção por adenovírus, agrava a ceratite herpética, eleva a pressão intraocular e catarateia com o uso continuado. Quem não examina à lâmpada de fenda não tem como excluir a úlcera dendrítica que o corticoide vai aprofundar.
  3. 3Entregar anestésico tópico para o paciente usar em casa O alívio é imediato e a lógica parece humanitária, mas o uso repetido atrasa a reepitelização e produz ceratopatia tóxica, com perda visual. Anestésico tópico serve para examinar, não para tratar.
  4. 4Ocluir o olho de usuário de lente de contato A oclusão é reflexo antigo do curativo ocular e, em usuário de lente, cria ambiente favorável à Pseudomonas, que fura a córnea em dias. Qualquer sintoma agudo em usuário de lente é encaminhamento imediato, com a lente suspensa e o estojo levado ao serviço.
  5. 5Ler náusea e vômito como sinal digestivo Na crise de fechamento angular, os sintomas vagais roubam a cena e o olho vira detalhe da história. Pior: o antiemético anticolinérgico prescrito para o enjoo piora a midríase e alimenta o mecanismo da crise.
  6. 6Tratar conjuntivite hiperaguda só com colírio A palavra conjuntivite empurra a conduta para o tópico, mas o gonococo é infecção sistêmica com porta de entrada ocular e perfura córnea em 24 horas. O tratamento é intramuscular, o encaminhamento é no mesmo dia, e o caso obriga a manejar parcerias sexuais e rastrear outras IST.
  7. 7Confundir midríase média fixa com pupila miótica É o par de achados que decide entre crise de fechamento angular e uveíte anterior, e a vinheta costuma dar apenas esse detalhe. Pupila em midríase média que não reage, com córnea fosca, é pressão; pupila menor que a do outro olho, com fotofobia e sem secreção, é íris inflamada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro de conjuntivite neonatal hiperaguda purulenta iniciada entre o 2º e 5º dia, em filho de mãe sem pré-natal, é altamente sugestivo de oftalmia gonocócica (Neisseria gonorrhoeae), que pode levar a ulceração/perfuração corneana. O tratamento é ceftriaxona parenteral (dose única) além de irrigação ocular. O nitrato de prata é profilaxia (Credé), não tratamento, e nem cobre gonococo estabelecido. Eritromicina oral é o tratamento da conjuntivite/pneumonia por Chlamydia, que costuma iniciar mais tardiamente (5-14 dias). Aciclovir trata conjuntivite herpética (vesículas). Colírio isolado é insuficiente para a doença gonocócica invasiva.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória a tabela de diferenciação pelas três colunas que decidem — acuidade visual, dor e padrão da hiperemia — e diga em voz alta, para cada uma das quatro causas que ameaçam a visão, qual achado do exame físico a denuncia. Depois liste os oito gatilhos de encaminhamento imediato do protocolo brasileiro.

em 30 dias

Escreva o esquema da crise aguda de fechamento angular com as doses (manitol, acetazolamida, pilocarpina, timolol, corticoide tópico) e explique por que nada disso substitui a iridotomia. Em seguida, contraste os dois documentos brasileiros sobre profilaxia da conjuntivite neonatal, com os anos, e as duas doses de ceftriaxona para conjuntivite gonocócica do adulto.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 68 anos chega ao pronto-socorro com dor forte no olho direito e vômitos que começaram no fim da tarde. Diz que enxerga halos coloridos em volta das lâmpadas e que a vista do lado direito embaçou de repente. Está com a mão sobre o olho e pede para apagarem a luz da sala. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Olho vermelho — Preparatório para provas | OsceLabs