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Outras EspecialidadesOftalmologia

Glaucoma crônico de ângulo aberto

Confirmação diagnóstica, dano estrutural e início do tratamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 62 anos, negro, hipertenso em uso de losartana, comparece à Unidade Básica de Saúde para consulta de rotina. Nega dor ocular, olho vermelho, halos coloridos ou embaçamento súbito; queixa-se apenas de dificuldade para leitura, corrigida com óculos. Refere que o pai perdeu a visão por "pressão alta dentro do olho". Ao exame: acuidade visual 20/25 em ambos os olhos com correção, conjuntivas normocoradas, córneas transparentes, câmara anterior de profundidade aparentemente normal, pupilas isocóricas e fotorreagentes. À fundoscopia com oftalmoscópio direto, observa-se escavação do disco óptico de 0,8 no olho direito e 0,5 no olho esquerdo, com afinamento da rima neural inferior à direita. Qual é, respectivamente, a hipótese diagnóstica mais provável e a conduta adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo é a metade lenta do glaucoma. A crise aguda de fechamento angular — dor abrupta, halos, náusea, córnea fosca, globo tenso, iridotomia — está no capítulo de olho vermelho desta mesma apostila, que a ensina pelo consenso brasileiro da crise e devolve explicitamente para cá o tratamento contínuo do protocolo nacional. Aqui se estuda o que não dói: a neuropatia óptica que come o campo visual pela periferia, ao longo de anos, e que só é encontrada por quem procura.

O recorte, então, é o do documento. A régua deste capítulo é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma aprovado em dezembro de 2023: quem entra no tratamento, com que dois achados, com que colírio, em que ordem, com que pressão-alvo, com que intervalo de retorno. Em volta dele, três documentos que discordam em pontos específicos — e são essas discordâncias, não os consensos, que decidem alternativa.

Ficam de fora, com capítulo próprio: a crise aguda e o restante do olho vermelho; a retinopatia diabética e a hipertensiva, que estão na apostila de clínica médica dentro das complicações microvasculares do diabetes; e a catarata. Entra de raspão, apenas onde a régua muda: o glaucoma secundário ao corticoide e o congênito.

03

O que muda decisão

A doença é do nervo óptico, e a pressão é apenas o fator de risco

O protocolo nacional em vigor abre com uma definição que já resolve metade das questões: glaucoma é uma neuropatia óptica com repercussão característica no campo visual, cujo principal fator de risco é o aumento da pressão intraocular e cujo desfecho principal é a cegueira irreversível. A doença é do nervo. A pressão é o fator de risco mais estudado e o único alvo terapêutico que existe hoje — mas não é a doença, e não define ninguém sozinha.

Os valores normais de pressão intraocular situam-se entre 10 e 21 mmHg. O próprio protocolo relativiza esse teto poucas linhas adiante, ao registrar que apenas uma proporção dos pacientes com pressão acima de 21 mmHg tem glaucoma, o que sugere a arbitrariedade de tal valor. Quem lê essa frase com atenção já entende por que existem os dois vizinhos deste capítulo: o paciente com pressão alta e nervo intacto, e o paciente com nervo lesado e pressão normal.

A força-tarefa norte-americana de serviços preventivos diz o mesmo em outra chave: o aumento da pressão intraocular já foi considerado parte importante da definição, mas hoje se sabe que muitas pessoas com glaucoma de ângulo aberto não têm pressão elevada e nem todas as pessoas com pressão elevada têm ou desenvolverão glaucoma. Daí a consequência que a prova cobra: tonometria isolada é inadequada para detectar a doença.

Os números brasileiros vêm de dois documentos que concordam na faixa: prevalência de 2% a 3% acima dos 40 anos, chegando a 6% ou 7% depois dos 70, com risco dez vezes maior em parente de primeiro grau. Entre os brasileiros com glaucoma, o relatório do conselho da especialidade estima 50% a 60% de forma primária de ângulo aberto e cerca de 20% de ângulo fechado. Some: 70% a 80%. Os 20% a 30% restantes não recebem nome no documento — são os secundários, os congênitos e os de pressão normal, e é essa fatia sem nome que a vinheta usa quando descreve um paciente que não cabe nas duas caixas grandes.

Uma ressalva de leitura, e ela conversa com o capítulo de medidas de frequência desta mesma apostila: o relatório do conselho escreve que a incidência do glaucoma é estimada em 1% a 2% na população geral, e no parágrafo seguinte usa a mesma ordem de grandeza para dizer quantos brasileiros acima de 40 anos têm a doença. Casos existentes num momento é prevalência, não incidência — e é assim que o protocolo nacional chama o mesmo número. Numa questão que peça o indicador pelo nome, a leitura correta é prevalência.

O disco óptico engana quem olha só o tamanho da escavação

O exame do nervo é o que separa glaucoma de pressão alta, e o protocolo descreve o que se olha em quatro camadas. Primeiro, o formato e o tamanho do disco óptico: a forma usual é oval, com grande variação de tamanho na população, e ambos influenciam os demais parâmetros. Segundo, o tamanho e a forma da escavação. Terceiro, a área e a configuração do anel neural, formado pelos axônios das células ganglionares. Quarto, a camada de fibras nervosas.

A escavação normal costuma ser central e arredondada ou ovalada. Uma escavação maior no eixo vertical é fortemente indicativa de glaucoma, porque menos de 7% dos olhos normais apresentam relação maior entre escavação e disco nesse eixo. Ela se identifica pela deflexão dos vasos e pela visibilidade da lâmina cribiforme, e é quantificada como fração decimal, idealmente medida nos dois sentidos.

Agora o número que desmonta a leitura preguiçosa. Na maior parte da população, a relação escavação/disco é igual ou inferior a 0,4 — mas em indivíduos normais é possível encontrar relação de até 0,8. Discos de maior diâmetro comportam escavação fisiológica maior, e por isso o tamanho do disco tem de ser considerado antes de qualquer aferição. Traduzindo para a prova: uma escavação de 0,7 num disco grande pode ser normal, e sozinha não diagnostica ninguém.

O que discrimina melhor não é o tamanho, é a diferença entre os dois olhos. O protocolo registra que a presença de assimetria de escavação é mais importante que o tamanho, porque menos de 0,5% dos indivíduos normais apresenta assimetria acima de 0,2. Compare as duas taxas: até 0,8 cabe dentro da normalidade, mas uma diferença de 0,3 entre os olhos cabe em meio por cento dos normais. Uma vinheta que dá 0,4 num olho e 0,7 no outro está apontando para o diagnóstico com muito mais força que uma que dá 0,7 nos dois.

A hemorragia de disco fecha o quadro e tem duas facetas. Não é patognomônica: aparece também em hipertensão arterial, diabetes melito e descolamento posterior do vítreo. Mas em ensaios aleatorizados foi um dos fatores de risco mais importantes para a progressão do glaucoma, é mais frequente nas regiões temporal inferior e temporal superior e nas áreas de maior perda neural, e é mais frequente no glaucoma de pressão normal do que na forma com pressão elevada. Encontrá-la muda o alvo pressórico.

Dois de três: por que nenhum achado isolado inclui alguém no protocolo

O protocolo nacional inclui no tratamento o paciente com diagnóstico de glaucoma que apresente pelo menos dois dos três critérios seguintes: pressão intraocular média acima de 21 mmHg, sem tratamento; dano típico ao nervo óptico com perda da rima neurorretiniana identificado por biomicroscopia de fundo, com escavação igual ou acima de 0,5; ou campo visual compatível com o dano ao nervo óptico.

A regra dos dois de três é a resposta estrutural ao problema da seção anterior. Cada um dos três achados, isolado, tem sobreposição grande com a normalidade: a pressão acima de 21 mmHg identifica muita gente que nunca desenvolverá a doença; a escavação de 0,5 cai dentro da faixa que os olhos normais alcançam; e defeito de campo visual pode vir de dezenas de outras causas. Dois achados concordantes, não. Por isso a questão que oferece um único achado e pergunta se trata está pedindo que se responda encaminhar ou investigar, nunca prescrever.

Há uma fronteira que o texto deixa aberta, e ela decide alternativa. O critério de inclusão pela pressão exige valor acima de 21 mmHg; o critério de gravidade menor, mais adiante no mesmo protocolo, é definido como 21 a 26 mmHg. Uma pressão de exatamente 21 mmHg, portanto, não inclui e classifica. É consequência de o mesmo número servir de teto da normalidade num lugar e de piso de faixa noutro — mas quem responde de memória troca os dois.

A segunda consequência da regra dos dois de três é o que ela faz com o glaucoma de pressão normal. Se por definição a pressão nunca passa de 21 mmHg, esse paciente nunca cumpre o primeiro critério. Logo, para ser incluído, tem obrigatoriamente de cumprir os outros dois: escavação igual ou acima de 0,5 e campo visual compatível. A régua é aritmética, não clínica — com um só critério disponível fora da pressão, o paciente fica de fora. É por isso que, nessa forma, a campimetria não é exame de refinamento: é condição de acesso ao tratamento.

Hipertensão ocular e pressão normal: os dois vizinhos que a prova troca

Hipertensão ocular é a pressão intraocular aumentada, acima de 21 mmHg, na ausência de perda de campo visual ou de dano glaucomatoso no nervo óptico. Para o diagnóstico, o protocolo exige todos os cinco critérios: pressão média acima de 21 mmHg sem tratamento; ângulo aberto à gonioscopia; ausência de dano típico ao nervo com perda da rima; ausência de defeitos de campo visual; e ausência de causa secundária para a elevação.

Repare na diferença de arquitetura, porque é ela que a questão cobra. O glaucoma entra no protocolo com dois de três achados. A hipertensão ocular exige cinco de cinco, e quatro deles são ausências. Diagnosticar hipertensão ocular é afirmar que não há dano em lugar nenhum — e é justamente por isso que ela não é um diagnóstico de triagem rápida, e sim uma conclusão de exame oftalmológico completo.

A prevalência estimada de hipertensão ocular é de 2,7% a 7,5%, e ela é considerada fator de risco para conversão em glaucoma de ângulo aberto. Os principais fatores associados à conversão são idade, etnia negra, pressão aumentada, exfoliação em pacientes com mais de 65 anos, miopia, diabetes melito, história familiar de glaucoma e espessura corneana diminuída.

E aqui está a decisão que separa o protocolo brasileiro da prática de consultório. O texto reconhece haver evidência de que reduzir a pressão nesses pacientes diminui a progressão para a doença glaucomatosa, e reconhece controvérsia de custo-efetividade. Em seguida registra o número que fecha a conta — 90% deles não desenvolvem glaucoma — e conclui que este protocolo não preconiza medicamento com essa finalidade. A ressalva é a porta de saída: se o campo ou a escavação vierem a preencher os critérios de inclusão, o paciente deve ser tratado. Não é abandono; é acompanhamento até o segundo achado aparecer.

O glaucoma de pressão normal é o espelho. Exige também os cinco critérios: pressão média igual ou inferior a 21 mmHg sem tratamento; ângulo aberto à gonioscopia sem achados patológicos; dano típico ao nervo com perda da rima; campo visual compatível; e ausência de causa secundária. Diferente da hipertensão ocular, este o protocolo trata, desde que preenchidos os critérios de inclusão. Quem guardar apenas o par de nomes vai errar; o que se guarda é a assimetria de conduta entre os dois.

Os exames, e o que mudou entre 2018 e 2023

A gonioscopia avalia o ângulo iridocorneano e não é opcional: o diagnóstico da forma de ângulo aberto requer gonioscopia para excluir o fechamento angular e outras causas de aumento da pressão, como recesso angular, dispersão pigmentar, sinéquias anteriores periféricas, neovascularização do ângulo e precipitados inflamatórios. Sem ela, o que se tem é pressão alta com mecanismo desconhecido.

A paquimetria ultrassônica mede a espessura corneana central, que varia conforme a etnia e situa-se, em média, entre 534 e 556 micrômetros. O efeito sobre a leitura é o que interessa: córneas mais finas tendem a subestimar a pressão intraocular, e as mais espessas a superestimam. Uma paciente com córnea de 500 micrômetros e tonometria de 20 mmHg pode ter pressão real acima disso, e é por essa razão que a espessura corneana diminuída aparece na lista de fatores de conversão. A vinheta que informa a paquimetria está pedindo essa correção mental.

A campimetria computadorizada estática acromática é o padrão-ouro para detectar o dano funcional e monitorar a progressão. Os programas de 24 a 30 graus centrais servem aos danos iniciais e moderados; os avançados exigem avaliação detalhada dos 10 graus centrais. Os defeitos típicos são localizados: escotoma paracentral, aumento da mancha cega, degrau nasal e escotoma arqueado. Para julgar progressão, o protocolo manda compor a base com dois ou mais exames estáveis e evitar incluir o primeiro, por inconsistência de resultado.

A tomografia de coerência óptica é o ponto em que os dois documentos nacionais divergem no tempo. Em 2018, a comissão nacional de incorporação escreveu que não havia estudos com nível elevado de evidência que embasassem seu uso no diagnóstico e no tratamento do glaucoma. O protocolo de 2023 diz o contrário em duas passagens: a tomografia é preconizada para confirmação diagnóstica em suspeitos pelo aspecto do disco, por alteração de campo ou por pressão elevada. Questão antiga e questão nova podem, com razão, ter gabaritos opostos aqui.

Duas notas de fronteira. A mesma resposta de 2018 registra que gonioscopia e paquimetria fazem parte do diagnóstico da doença, mas não são critérios de inclusão — o que explica a lista dos três critérios não as mencionar. E a retinografia colorida estereoscópica é superior à simples por permitir melhor quantificação do anel neural, mas a simples pode bastar para o seguimento.

Gravidade menor e maior: a tabela que escolhe a primeira gota

Confirmado o diagnóstico, o tratamento é definido pelos critérios de gravidade, e são duas listas. São critérios menores: pressão de 21 a 26 mmHg na ausência de medicamento antiglaucomatoso; alargamento da escavação entre 0,5 e 0,8; e alteração de campo visual compatível com glaucoma sem comprometimento dos 10 graus centrais em nenhum dos olhos.

São critérios maiores: pressão acima de 26 mmHg na ausência de medicamento; cegueira por dano glaucomatoso em um olho; alargamento da escavação acima de 0,8; e comprometimento em três ou mais quadrantes ou dano nos 10 graus centrais em um dos olhos.

Some as fronteiras antes de decorar as listas. Na pressão, a faixa menor começa em 21 e a maior começa acima de 26 — as duas se encaixam sem sobra para cima, mas nada é dito para baixo: uma pressão de 17 mmHg não é critério menor nem maior. Isso não é descuido; é a consequência de a tabela ter sido escrita para a doença com pressão elevada. Só que o mesmo protocolo manda tratar o glaucoma de pressão normal. Resultado: nesse paciente a gravidade é decidida apenas pela escavação e pelo campo, e a linha da pressão fica vazia.

Na escavação, a faixa menor vai de 0,5 a 0,8 e a maior começa acima de 0,8 — de novo fechadas para cima, e de novo com a faixa abaixo de 0,5 fora das duas listas, coerentemente com o critério de inclusão. No campo visual, porém, há uma sobreposição real: um defeito em três ou mais quadrantes que poupe os 10 graus centrais satisfaz a redação do critério maior (três ou mais quadrantes) e também a do menor (alteração sem comprometimento dos 10 graus centrais). O mesmo achado conta duas vezes, em listas opostas.

Essa sobreposição não é acadêmica, porque a contagem escolhe o remédio. O protocolo manda timolol em monoterapia para dois ou mais critérios menores, ou um menor e um maior; e prostaglandina para dois ou mais maiores, ou um maior e dois ou mais menores. Lidas ao pé da letra, as duas regras se cruzam: um paciente com um maior e dois menores satisfaz as duas ao mesmo tempo. A leitura que o resto do documento sustenta é a de escalonamento — o perfil mais grave manda —, e é essa que a banca cobra; mas quem percebe a ambiguidade lê a alternativa com cuidado em vez de contar no automático.

A escada do protocolo começa no timolol

O objetivo primário do tratamento é a redução da pressão intraocular, e o protocolo trabalha com cinco categorias de fármacos tópicos: betabloqueadores, parassimpaticomiméticos, agonistas alfa-adrenérgicos, inibidores da anidrase carbônica e análogos das prostaglandinas com as prostamidas.

Os betabloqueadores não seletivos reduzem a pressão em média 25%, e os beta-1 seletivos têm ação hipotensora menos marcada — razão pela qual os não seletivos são preferidos. O timolol é o mais estudado e é a primeira escolha do protocolo. Guarde os dois fenômenos de perda de resposta: o escape de curto prazo, dias após um bom efeito inicial, que obriga a esperar um mês antes de julgar; e o escape de longo prazo, entre três meses e um ano, em que suspender e reintroduzir pode recuperar a eficácia.

A escada, em ordem. Timolol em monoterapia para dois ou mais critérios menores, ou para um menor e um maior. Segunda linha — dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina — em monoterapia quando há falha primária, contraindicação ou evento adverso ao timolol. Prostaglandina em monoterapia para dois ou mais critérios maiores, ou um maior com dois ou mais menores, e também após falha primária ou terapêutica da segunda linha ou da associação de timolol com segunda linha.

Guarde esse desvio, porque ele é o que mais derruba candidato treinado em material estrangeiro: contraindicação ao timolol leva à segunda linha, não à prostaglandina. O asmático com glaucoma leve, no protocolo brasileiro, começa com um inibidor tópico da anidrase carbônica ou com brimonidina — não com latanoprosta.

As associações seguem regra própria. Timolol com segunda linha entra na falha terapêutica do timolol ou na falha primária com prostaglandina; timolol com prostaglandina, na falha terapêutica da monoterapia com prostaglandina; segunda linha com prostaglandina, na falha terapêutica da monoterapia de segunda linha. O protocolo manda evitar dois de segunda linha juntos, substituindo a associação por monoterapia com prostaglandina. Não atingida a pressão-alvo com o arsenal disponível, considera-se cirurgia.

Duas exclusões que viram alternativa errada. As associações de dose fixa não estão previstas no protocolo, por não existirem evidências com análise adequada de custo-efetividade — e isso apesar de o mesmo texto descrever a combinação fixa de timolol com dorzolamida como comercialmente disponível e equivalente ao uso separado. E a tafluprosta é descrita como inferior às demais prostaglandinas e semelhante ao timolol, e não consta da lista de fármacos.

Os esquemas, que o nível da prova permite cobrar por dose e frequência: timolol 0,5%, 1 gota 2 vezes ao dia; dorzolamida 2%, brinzolamida 1% e brimonidina 0,2%, 1 gota 2 a 3 vezes ao dia em monoterapia e 2 vezes ao dia quando associadas; latanoprosta 0,005%, travoprosta 0,004% e bimatoprosta 0,03%, 1 gota à noite, dose única. Como ponte para procedimento, acetazolamida 250 mg por via oral de até 6 em 6 horas, pilocarpina 2% de 6 em 6 horas e, em âmbito hospitalar, manitol a 20% na dose de 1,5 a 2 g/kg por via intravenosa de 8 em 8 horas.

Pressão-alvo e as duas falhas: a aritmética que decide a alternativa

Antes de tratar, o protocolo manda documentar o nervo com retinografia binocular colorida, fazer campimetria, paquimetria, fundo de olho, tomografia de coerência óptica e medir a pressão basal — com aferições em dias diferentes, considerando-se a de maior valor. A pressão é remedida quatro semanas após o início ou a modificação do tratamento, e é nesse mesmo prazo que se escolhe a pressão-alvo.

A pressão-alvo é aquela em que não há progressão documentada. Seu valor inicial é, em geral, 25% a 30% inferior à pressão basal, e desce ainda mais em cinco situações: pressão basal já baixa, dano pré-tratamento maior, progressão rápida, paciente mais jovem e presença de agravantes como exfoliação ou hemorragia de disco. É por isso que a hemorragia de disco da segunda seção reaparece aqui: ela não muda o diagnóstico, muda o alvo.

Faça a conta numa pressão basal de 24 mmHg. O alvo fica entre 16,8 e 18,0 mmHg. O timolol reduz, em média, 25% — o que leva exatamente a 18,0, a borda rasa do alvo. Ou seja, a monoterapia com o fármaco de primeira linha, no paciente médio, encosta na fronteira e só a ultrapassa em quem responde acima da média. A latanoprosta reduz cerca de 30%, o que leva a 16,8 — a outra borda. As duas pontas do alvo correspondem, quase exatamente, às duas pontas do arsenal.

Agora a conta que quase ninguém faz. A dorzolamida reduz em média 18% a 22% em 24 horas; a brinzolamida, 20,1%; a pilocarpina, cerca de 20%; e a brimonidina tem efeito médio inferior ao das prostaglandinas, do timolol e dos inibidores da anidrase carbônica. Como o alvo pede no mínimo 25%, a média de qualquer fármaco de segunda linha fica abaixo da borda rasa — e isso independe da pressão basal, porque a comparação é de porcentagem contra porcentagem. Ou seja: a monoterapia de segunda linha, prescrita a quem tem contraindicação ao timolol, é etapa que a própria aritmética do protocolo espera ver escalonada.

Barras horizontais de redução média da pressão intraocular sobre eixo de 0% a 35%, com faixa sombreada de 25% a 30% marcando a pressão-alvo. Latanoprosta com cerca de 30% e timolol com 25% alcançam a faixa; dorzolamida com 18% a 22%, brinzolamida com 20,1% e pilocarpina com cerca de 20% terminam abaixo dela. Um eixo paralelo converte a partir de pressão basal de 24 mmHg: 25% leva a 18,0 mmHg e 30% leva a 16,8 mmHg. Nota registra que a brimonidina não recebe porcentagem no protocolo.
A pressão-alvo pede reduzir ao menos 25%: o timolol encosta exatamente na borda rasa e a prostaglandina alcança a outra, enquanto a média de qualquer fármaco de segunda linha fica abaixo do alvo.

As duas falhas têm definição numérica e uma fronteira aberta entre elas. Falha primária é redução inferior a 10% após 4 semanas. Falha terapêutica é redução superior a 10% sem atingir a pressão-alvo em 4 semanas, ou progressão documentada mesmo com o alvo atingido. Uma redução de exatamente 10% não é nem uma coisa nem outra: cai no vão entre o inferior a e o superior a. Numa basal de 24 mmHg, esse ponto é 21,6 mmHg — e a alternativa correta, ali, será a que evita nomear a falha.

Repare ainda que a falha terapêutica tem duas portas independentes: a pressórica, em que se reduziu sem chegar ao alvo, e a funcional, em que se progrediu apesar do alvo atingido. A segunda porta prova que a pressão-alvo é hipótese de trabalho, não desfecho — quando ela se abre, o alvo é que estava errado, e desce.

Monitoramento, e os efeitos adversos que reescrevem a receita

A periodicidade do acompanhamento sai de um quadro com quatro combinações possíveis, e ele é exaustivo — não sobra caso sem linha. Alvo atingido e sem progressão, com controle de até 6 meses: reavaliar em 6 meses. Alvo atingido, sem progressão, com controle acima de 6 meses: 12 meses. Havendo progressão do dano, com ou sem o alvo atingido: 1 a 2 meses. Alvo não atingido e sem progressão: 3 a 6 meses.

Leia a lógica em vez de decorar as linhas. A progressão manda mais que a pressão: as duas linhas com progressão colapsam no mesmo intervalo curto, independentemente de o alvo ter sido alcançado. E o paciente que não atingiu o alvo mas não progrediu volta antes do que o controlado — 3 a 6 meses contra 6 ou 12. A avaliação consta de exame, documentação do nervo, de preferência com retinografia binocular colorida, e campimetria; os intervalos são o tempo máximo entre consultas, não o recomendado.

Os efeitos adversos importam porque reescrevem a escada. O timolol tem toxicidade sistêmica mais frequente que a ocular: bradicardia, arritmia, infarto e síncope pelo bloqueio beta-1; broncoespasmo pelo beta-2; e depressão, ansiedade, alucinações e sonolência. As contraindicações são asma brônquica ou doença pulmonar obstrutiva grave, bradicardia sinusal, bloqueio atrioventricular de segundo e de terceiro graus, choque cardiogênico e propensão a insuficiência cardíaca. Um colírio com lista de contraindicações de comprimido.

A brimonidina causa alergia ocular, folículos conjuntivais e edema palpebral que podem aparecer até 18 meses depois do início; deve ser evitada em crianças com menos de 12 anos por atravessar a barreira hematoencefálica; e é contraindicada em quem usa inibidores da monoamino oxidase. Dorzolamida e brinzolamida causam sobretudo blefaroconjuntivite alérgica e gosto amargo, pedem cautela na disfunção endotelial corneana e não devem ser usadas junto com o inibidor por via oral.

As prostaglandinas concentram efeitos locais: hiperemia ocular como o mais comum, aumento da pigmentação iriana — que é permanente — e da pigmentação periocular e crescimento de cílios, estes reversíveis com a suspensão. Duas cautelas viram vinheta: em paciente com história de ceratite por herpes simples é aconselhável iniciar hipotensor de outra classe, pelos relatos de reativação; e o grupo deve ser evitado em gestantes e em mulheres férteis sem contracepção, pela possibilidade teórica de efeito sobre a musculatura lisa uterina.

Um achado encaminha, dois tratam: a costura com a atenção primária

O protocolo de regulação ambulatorial em oftalmologia adulto do serviço de telessaúde gaúcho organiza o outro lado da porta, e o corte é diferente do corte do protocolo clínico. Para a emergência oftalmológica vai a suspeita de glaucoma agudo. Para a média complexidade vão três situações: suspeita de glaucoma — e o exemplo dado é aumento da pressão intraocular ou aumento da escavação do disco —, diagnóstico confirmado por oftalmologista e clinicamente controlado sem indicação cirúrgica, e glaucoma com indicação de cirurgia contemplada no próprio serviço.

Para a alta complexidade vão o glaucoma não controlado clinicamente com indicação de cirurgia antiglaucomatosa indisponível na referência regional, o glaucoma de fechamento angular com indicação de iridotomia a laser em caráter não emergencial quando o procedimento não estiver disponível, e o glaucoma avançado em paciente com visão em olho único.

Compare os dois limiares e guarde a diferença, porque ela resolve a vinheta de unidade básica. Para encaminhar basta um achado — pressão alta ou escavação aumentada. Para incluir no tratamento são precisos dois de três. Os dois documentos não se contradizem: eles atuam em pontos diferentes da linha. Um homem de 55 anos, assintomático, com tonometria de 24 mmHg num rastreio oportunístico, tem indicação de encaminhamento e não tem, ainda, indicação de colírio. Alternativa que prescreve timolol nesse caso erra por atropelar a etapa, não por escolher o fármaco errado.

O conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento é cobrável e é curto: sinais e sintomas com tempo de evolução e data do diagnóstico; acuidade visual de cada olho, informando se foi medida com ou sem correção; tratamento prévio ou atual com posologia, cirurgia ou laser; descrição do exame oftalmológico quando feito por especialista, incluindo o tamanho da escavação; se há indicação de iridotomia a laser não emergencial; laudo de campimetria anexado ou descrito na íntegra com data; e o número da teleconsultoria, se houve.

Do lado do financiamento, o protocolo clínico manda que os doentes sejam atendidos em serviços especializados e descreve duas modalidades de habilitação para o fornecimento dos colírios: uma em que o próprio estabelecimento habilitado fornece, no âmbito da política nacional de atenção oftalmológica, e outra em que o fornecimento se dá pelas secretarias estaduais no âmbito do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. É por isso que a alternativa que manda a receita para a farmácia básica costuma estar errada.

Duas costuras finais. O glaucoma secundário — por doença ocular predisponente, trauma ou medicamento, com o corticoide tópico à frente — trata a causa básica primeiro e, removida ela, reavalia se o tratamento contínuo ainda é necessário. E o glaucoma congênito é primariamente cirúrgico, entrando neste protocolo apenas se a pressão permanecer alta depois da cirurgia.

04

Ler o glaucoma crônico na ordem em que a decisão acontece

Quase toda questão do tema se resolve identificando em que ponto da linha o paciente está — rastreio, suspeita, inclusão, escolha do fármaco, reavaliação — porque cada ponto tem documento próprio e limiar próprio. O erro típico não é errar o fármaco: é responder pela etapa seguinte à que a vinheta descreve.

  1. 11. O paciente tem queixa ocular aguda? Se sim, o capítulo é outro — olho vermelho, com a crise de fechamento angular à frente. Aqui, o paciente é assintomático ou tem perda periférica insidiosa.
  2. 22. Quantos dos três achados de inclusão a vinheta entregou? Com um só, a resposta é encaminhar à oftalmologia em serviço de média complexidade e completar a investigação. Com dois ou três, siga.
  3. 33. A gonioscopia foi feita e o ângulo é aberto? Sem isso, não se nomeia a forma nem se exclui causa secundária. Corticoide tópico em uso é a causa secundária mais cobrada.
  4. 44. A pressão é normal ou elevada? Se for igual ou inferior a 21 mmHg com nervo e campo alterados, é glaucoma de pressão normal — e o protocolo trata. Se for alta com nervo e campo intactos, é hipertensão ocular — e o protocolo não trata.
  5. 55. Conte os critérios de gravidade, menores e maiores, e escolha a monoterapia pela regra. Depois cheque as contraindicações do timolol: asma, doença pulmonar obstrutiva grave, bradicardia, bloqueio de segundo ou terceiro grau, insuficiência cardíaca.
  6. 66. Calcule o alvo: 25% a 30% abaixo da basal, mais baixo ainda se há dano avançado, progressão rápida, paciente jovem, exfoliação ou hemorragia de disco. Remeça a pressão em 4 semanas.
  7. 77. Classifique a resposta em falha primária, falha terapêutica ou alvo atingido, e só então avance na escada ou marque o retorno pelo quadro de periodicidade.

A pergunta que abre o caso

Há queixa? Se o paciente é assintomático e chega por achado de exame, a pergunta é de rastreio e encaminhamento. Se já tem diagnóstico, a pergunta é de escada terapêutica ou de intervalo de retorno. Trocar esses dois eixos é o que produz a alternativa plausível-e-errada.

Conte os achados antes de contar os critérios

Pressão acima de 21 mmHg sem tratamento, escavação igual ou acima de 0,5 e campo visual compatível. Dois deles incluem; um só, não. Antes de escolher colírio, confirme que a vinheta entregou dois.

Gonioscopia é pré-requisito, não refinamento

Chamar de ângulo aberto exige ter excluído fechamento angular, recesso, dispersão pigmentar, sinéquias, neovascularização e precipitados. Vinheta sem gonioscopia que já classifica a forma está pedindo o exame, não o tratamento.

Some os critérios de gravidade, dos dois lados

Menores: pressão de 21 a 26, escavação de 0,5 a 0,8, campo poupando os 10 graus centrais nos dois olhos. Maiores: pressão acima de 26, escavação acima de 0,8, três ou mais quadrantes ou dano central em um olho, cegueira glaucomatosa em um olho.

Só então escolha o frasco

Dois menores, ou um menor com um maior: timolol. Dois maiores, ou um maior com dois menores: prostaglandina. Contraindicação ou falha primária ao timolol desvia para a segunda linha, não para a prostaglandina.

Feche com a aritmética do alvo

Alvo inicial 25% a 30% abaixo da basal. Menos de 10% de queda em 4 semanas é falha primária; mais de 10% sem atingir o alvo, ou progressão com o alvo atingido, é falha terapêutica.

Critérios de gravidade, e a faixa que fica fora das duas listas

AchadoGravidade menorGravidade maiorFora das duas listas
Pressão intraocular sem medicamento21 a 26 mmHgAcima de 26 mmHgAbaixo de 21 mmHg — o caso do glaucoma de pressão normal
Escavação do disco óptico0,5 a 0,8Acima de 0,8Abaixo de 0,5 — também não é critério de inclusão
Campo visualAlteração compatível sem comprometimento dos 10 graus centrais em nenhum olhoTrês ou mais quadrantes, ou dano nos 10 graus centrais em um olhoCampo normal
VisãoCegueira por dano glaucomatoso em um olho

A escada medicamentosa do protocolo nacional

SituaçãoConduta preconizada
Dois ou mais critérios menoresTimolol 0,5% em monoterapia, 1 gota 2 vezes ao dia
Um critério menor e um maiorTimolol em monoterapia
Falha primária, contraindicação ou evento adverso ao timololSegunda linha em monoterapia: dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina
Dois ou mais critérios maiores, ou um maior com dois ou mais menoresProstaglandina em monoterapia, 1 gota à noite
Falha terapêutica do timolol, ou falha primária com prostaglandinaTimolol associado a um fármaco de segunda linha
Falha terapêutica da monoterapia com prostaglandinaTimolol associado à prostaglandina
Falha terapêutica da monoterapia de segunda linhaSegunda linha associada à prostaglandina
Dois fármacos de segunda linha juntosA evitar; substituir por monoterapia com prostaglandina
Pressão-alvo não atingida com o arsenal disponívelConsiderar cirurgia antiglaucomatosa

Periodicidade máxima do acompanhamento

Pressão-alvo atingidaProgressão do danoDuração do controleIntervalo entre avaliações
SimNãoIgual ou inferior a 6 meses6 meses
SimNãoAcima de 6 meses12 meses
SimSimNão se aplica1 a 2 meses
NãoSimNão se aplica1 a 2 meses
NãoNãoNão se aplica3 a 6 meses

O número 21 aparece duas vezes com sentidos distintos no mesmo protocolo: como teto da normalidade e piso da inclusão, onde o critério exige pressão acima de 21; e como início da faixa de gravidade menor, definida como 21 a 26. Pressão de exatamente 21 mmHg, portanto, não inclui e classifica.

A faixa de escavação considerada gravidade menor, de 0,5 a 0,8, sobrepõe-se inteiramente à variação que o próprio protocolo admite em olhos normais, que vai até 0,8. É a exigência de dois critérios concordantes, e não o valor da escavação, que sustenta o diagnóstico.

Um defeito de campo em três ou mais quadrantes que poupe os 10 graus centrais satisfaz, ao pé da letra, tanto a redação do critério maior quanto a do menor. A leitura de escalonamento, que faz o perfil mais grave prevalecer, é a que o resto do documento sustenta.

A média de redução de qualquer fármaco de segunda linha fica entre 18% e 22%, abaixo do mínimo de 25% que a pressão-alvo exige. A conta é de porcentagem, então vale para qualquer pressão basal.

Redução de exatamente 10% em 4 semanas não é falha primária nem falha terapêutica: a primeira é definida como inferior a 10% e a segunda como superior a 10%.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual classe abre o tratamento do glaucoma de ângulo aberto

Betabloqueador primeiro, no sistema público

O protocolo nacional coloca o timolol como monoterapia inicial de quem tem dois critérios menores, ou um menor e um maior, e reserva a prostaglandina para os perfis mais graves e para as falhas. Ao responder à consulta pública que pedia prostaglandinas como primeira escolha, a comissão nacional de incorporação escreveu que o protocolo objetiva o uso racional do tratamento tópico com a melhor evidência disponível e que, para pacientes que não possuem glaucoma avançado, a escolha do maleato de timolol é justificada.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, Relatório de Recomendação nº 333, abril de 2018, resposta às contribuições da consulta pública nº 56; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma, dezembro de 2023, item 7.1.1.

Prostaglandina na primeira linha, ao lado do betabloqueador

A contribuição rejeitada pedia a inclusão dos análogos das prostaglandinas como tratamento de primeira escolha junto com os betabloqueadores, invocando o consenso da sociedade brasileira da área, no capítulo de tratamento clínico. Pedia ainda que se permitisse associar inibidor da anidrase carbônica a agonista alfa-adrenérgico por terem mecanismos complementares — ponto em que a resposta foi que não há proscrição de combinação, desde que justificada.

Contribuição à consulta pública nº 56 citando o III Consenso Brasileiro de Glaucoma Primário de Ângulo Aberto, de 2009, da Sociedade Brasileira de Glaucoma, capítulo 6 — reproduzida integralmente no Relatório de Recomendação nº 333 da comissão nacional, que é onde o texto pode ser lido.

Medicamento ou laser, com prostaglandina predominando

A academia norte-americana de oftalmologia recomenda medicamentos — mais frequentemente prostaglandinas — ou trabeculoplastia a laser como terapia inicial na maioria dos pacientes, reservando cirurgia para perda de campo grave já na avaliação inicial ou para doença avançada sem resposta.

Recomendação da academia norte-americana de oftalmologia conforme reproduzida pela força-tarefa norte-americana de serviços preventivos em sua recomendação sobre rastreamento do glaucoma primário de ângulo aberto, publicada no Journal of the American Medical Association em 2022 — o documento original da academia não é de acesso aberto.

Na prova

A pista está no cenário, não no fármaco. Enunciado que cita unidade básica, fornecimento pelo sistema público, componente especializado da assistência farmacêutica ou o próprio protocolo nacional está pedindo o timolol; enunciado que descreve consultório privado ou cita a academia norte-americana admite a prostaglandina. Se o enunciado não der cenário, prefira a régua nacional — é a que a banca brasileira usa para gabaritar. E lembre-se de checar as contraindicações antes: elas desviam para a segunda linha, e não para a prostaglandina.

Rastrear glaucoma em adulto assintomático

Evidência insuficiente para rastrear

A força-tarefa norte-americana conclui que a evidência é insuficiente para avaliar o balanço entre benefícios e danos do rastreamento de glaucoma em adultos, e a população considerada são adultos de 40 anos ou mais atendidos na atenção primária sem sinais nem sintomas. O raciocínio é explícito: há evidência adequada de que os testes detectam a doença e de que o tratamento melhora desfechos intermediários, mas evidência inadequada de que rastrear na atenção primária melhore desfechos de saúde.

Força-tarefa norte-americana de serviços preventivos, declaração de recomendação sobre rastreamento do glaucoma primário de ângulo aberto, Journal of the American Medical Association, 2022.

Rastreio dirigido a grupos de risco

O conselho brasileiro da especialidade lista três medidas prioritárias para reduzir a cegueira por glaucoma no país, e a segunda é garantir que a população dos grupos de risco seja submetida a um bom exame oftalmológico. Os grupos nomeados são maiores de 50 anos, pessoas com história familiar, afrodescendentes e portadores de pressão intraocular elevada. Note a idade: 50 anos, não 40.

Conselho Brasileiro de Oftalmologia, As Condições de Saúde Ocular no Brasil, 2019, capítulo sobre cegueira e baixa visão no Brasil.

Triagem populacional não, focada talvez

O protocolo nacional registra que a triagem populacional para glaucoma não se mostrou custo-efetiva nos Estados Unidos e que parece ser mais útil quando focada em populações de risco — idosos, pacientes com familiares glaucomatosos e indivíduos latinos e afrodescendentes —, acrescentando que no Brasil há carência de estudos de custo-efetividade da triagem.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma, dezembro de 2023, item 3.

Na prova

Questão que pergunta se cabe rastreamento populacional de glaucoma na atenção primária tem resposta negativa nos três documentos, por caminhos diferentes. O que varia é o que se oferece no lugar: a força-tarefa não recomenda nem desaconselha e devolve ao julgamento clínico; os dois documentos brasileiros apontam para exame oftalmológico dirigido a grupos de risco. Se a alternativa oferecer tonometria isolada como método de rastreio, ela está errada nos três, porque pressão não é necessária nem suficiente para o diagnóstico.

A tomografia de coerência óptica entra no diagnóstico

Em 2018, sem evidência que embasasse

Respondendo a uma contribuição que pedia a inclusão de campimetria, retinografia e tomografia de coerência óptica para análise de progressão, a comissão nacional escreveu que não havia estudos na literatura com nível elevado de evidência que embasassem o uso da tomografia para o diagnóstico e o tratamento dos pacientes com glaucoma, e lembrou que campimetria e retinografia já estavam no acompanhamento pelo sistema público.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, Relatório de Recomendação nº 333, abril de 2018.

Em 2023, preconizada para confirmar

O protocolo em vigor afirma que o desempenho diagnóstico da tomografia evidencia a possibilidade de otimizar a acurácia quando associada aos exames tradicionais e conclui, em duas passagens, que ela é preconizada para confirmação diagnóstica em pacientes suspeitos pelo aspecto do disco óptico, por alteração do campo visual ou por pressão intraocular elevada. O exame passou a integrar a avaliação prévia ao início do tratamento.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma, dezembro de 2023, itens 3 e 7.

Na prova

O ano do enunciado importa, e a pista costuma estar na citação da prova ou no verbo da alternativa. Se a alternativa disser que a tomografia confirma diagnóstico em paciente suspeito, ela está alinhada ao documento vigente. Se disser que a tomografia é o exame de escolha para acompanhar progressão, cuidado: quem monitora progressão, nos dois textos, é a campimetria, e ela permanece o padrão-ouro funcional.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos, negro, comparece a consulta de rotina na unidade básica. Está assintomático e não tem queixa visual. Refere que o pai perdeu a visão de um olho por glaucoma. Tem asma em uso de corticoide inalatório, com uma crise no último ano. Encaminhado à oftalmologia, retorna com o laudo: acuidade visual corrigida 20/25 nos dois olhos; pressão intraocular de 24 mmHg à direita e 23 mmHg à esquerda, em duas aferições em dias diferentes, sem medicamento; gonioscopia com ângulo aberto nos dois olhos, sem sinéquias, pigmentação anômala ou neovasos; relação escavação/disco de 0,6 à direita e 0,5 à esquerda, com alargamento vertical à direita; campimetria com degrau nasal superior à direita, poupando os 10 graus centrais; paquimetria de 505 micrômetros à direita. Nega uso de corticoide tópico ocular.
achado
Os três critérios de inclusão estão presentes: pressão média acima de 21 mmHg sem tratamento, escavação igual ou acima de 0,5 com perda de rima, e campo visual compatível. Bastariam dois. A gonioscopia com ângulo aberto e a ausência de corticoide tópico afastam fechamento angular e a causa secundária mais cobrada.
leitura da paquimetria
505 micrômetros está abaixo da média de 534 a 556, e córnea fina subestima a pressão medida. A pressão real provavelmente é maior que 24 mmHg, e a espessura corneana diminuída consta da lista de fatores associados à conversão. Isso não muda o critério — que usa o valor aferido — mas pesa na escolha de um alvo mais baixo.
gravidade
Pressão de 24 mmHg é critério menor, por estar na faixa de 21 a 26. Escavação de 0,6 é critério menor, por estar entre 0,5 e 0,8. Campo alterado sem comprometimento dos 10 graus centrais em nenhum olho é critério menor. Três critérios menores, nenhum maior.
primeira gota
A regra dos dois ou mais critérios menores aponta o timolol. A asma o proíbe: história de asma brônquica está entre as contraindicações dos betabloqueadores tópicos. Contraindicação ao timolol desvia para a segunda linha em monoterapia — dorzolamida 2%, brinzolamida 1% ou brimonidina 0,2%, 1 gota 2 a 3 vezes ao dia.
alvo e aritmética
Pressão basal de 24 mmHg dá alvo inicial de 16,8 a 18,0 mmHg, e a córnea fina puxa a escolha para a borda baixa. A dorzolamida reduz em média 18% a 22% em 24 horas, o que levaria a 18,7 a 19,7 mmHg — acima do alvo. A aritmética já avisa que a monoterapia provavelmente será insuficiente, e que a próxima etapa é a associação, não a troca.
erro a evitar
Saltar para a latanoprosta porque é a classe mais potente e o paciente não pode usar timolol. Também erra quem prescreve a combinação fixa de timolol com dorzolamida, que além de conter o fármaco contraindicado não está prevista no protocolo, e quem se contenta em repetir a tonometria em um ano por a pressão estar abaixo de 26 mmHg.
seguimento
Remedir a pressão em 4 semanas. Redução inferior a 10% define falha primária e troca o fármaco; redução superior a 10% sem alcançar o alvo define falha terapêutica e manda associar. Alcançado o alvo e sem progressão, o quadro de periodicidade dá retorno em até 6 meses no primeiro semestre de controle.
07

Agora feche você

Dois pacientes são avaliados na mesma manhã no ambulatório de oftalmologia. O primeiro é uma mulher de 62 anos, assintomática, com pressão intraocular de 25 mmHg à direita e 24 mmHg à esquerda em duas aferições sem medicamento, gonioscopia com ângulo aberto, relação escavação/disco de 0,3 nos dois olhos sem perda de rima, campimetria normal nos dois olhos e nenhuma causa ocular ou medicamentosa de elevação pressórica. O segundo é um homem de 70 anos, também assintomático, com pressão de 17 mmHg à direita e 16 mmHg à esquerda sem medicamento, gonioscopia com ângulo aberto e sem achados patológicos, relação escavação/disco de 0,8 à direita com alargamento vertical e hemorragia na borda temporal inferior do disco, campimetria com escotoma arqueado superior à direita poupando os 10 graus centrais, e nenhuma causa secundária identificada.
Nomeie cada quadro pelos critérios completos
Para cada paciente, percorra as cinco condições da hipertensão ocular e as cinco do glaucoma de pressão normal, e diga qual das duas listas fecha inteira. Lembre que as duas exigem todos os itens, e que quatro deles são ausências.
Conte os critérios de inclusão de cada um
Aplique a regra dos dois de três a cada paciente e diga quantos critérios cada um cumpre. Explique, no segundo caso, por que a linha da pressão está indisponível por definição.
Decida quem recebe colírio
Diga qual dos dois o protocolo manda tratar e qual ele manda acompanhar, e cite a frase do documento que sustenta cada decisão. Depois diga o que faria o primeiro paciente mudar de categoria.
Classifique a gravidade e escolha a monoterapia
No paciente que será tratado, conte os critérios de gravidade linha a linha, note qual linha da tabela fica vazia, e aplique a regra da escada. Calcule a pressão-alvo e diga se a hemorragia de disco muda esse número.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever colírio para hipertensão ocular isolada É a alternativa errada mais frequente do tema, e o motivo não é falta de eficácia: o protocolo reconhece que reduzir a pressão nesses pacientes diminui a progressão para a doença. O que decide é o denominador — 90% dos pacientes com hipertensão ocular não desenvolvem glaucoma — somado à controvérsia de custo-efetividade. A conduta é acompanhar, e tratar no dia em que o nervo ou o campo entregarem o segundo critério.
  2. 2Diagnosticar pela pressão, ou rastrear com tonometria Pressão acima de 21 mmHg é um dos três critérios de inclusão, nunca o suficiente: são precisos dois. E a força-tarefa norte-americana é explícita ao dizer que, como a pressão elevada não é necessária nem suficiente para o diagnóstico, a tonometria isolada é inadequada para detectar a doença. Alternativa que oferece tonometria como método de rastreio erra por essa razão específica.
  3. 3Levar o asmático direto para a prostaglandina O raciocínio parece impecável — timolol é contraindicado na asma, e a prostaglandina é a classe mais potente — e é justamente esse o desvio que a régua nacional não faz. A contraindicação ao timolol manda para a segunda linha: dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina. A prostaglandina em monoterapia entra por gravidade ou por falha, não por contraindicação ao betabloqueador.
  4. 4Oferecer a associação de dose fixa como conduta do protocolo A armadilha é boa porque o próprio texto descreve a combinação fixa de timolol com dorzolamida como disponível comercialmente e com efeito equivalente ao uso separado. Duas páginas adiante, exclui as apresentações em associação de dose fixa por não haver análise adequada de custo-efetividade. No sistema público, a resposta é dois frascos, não um.
  5. 5Ler uma escavação de 0,7 como diagnóstico O protocolo admite relação escavação/disco de até 0,8 em olhos normais, e discos grandes comportam escavação fisiológica maior. O que discrimina é a assimetria — menos de 0,5% dos normais tem diferença acima de 0,2 entre os olhos — e a orientação vertical do alargamento. Vinheta que dá um número de escavação e nada mais está pedindo o segundo critério, não o gabarito.
  6. 6Achar que no glaucoma crônico a pressão sempre sobe A frase de manual — a pressão sobe devagar e sem dor, e a perda começa pela periferia — descreve o curso típico, não a doença inteira. O glaucoma de pressão normal tem pressão igual ou inferior a 21 mmHg sem tratamento, nervo lesado, campo alterado e é tratado pelo protocolo. Quando a alternativa generaliza com um sempre ou um todos os casos, é ela que fica errada; quando descreve o curso típico sem generalizar, sobrevive.
  7. 7Contar critérios de gravidade no automático Um defeito de campo em três ou mais quadrantes que poupe os 10 graus centrais cabe, ao pé da letra, nas duas listas. E um paciente com um critério maior e dois menores satisfaz ao mesmo tempo a regra do timolol e a da prostaglandina. Em vez de somar às cegas, verifique se a vinheta descreveu dano central ou extensão em quadrantes — é esse detalhe que a banca usa para desempatar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Paciente assintomático, com fatores de risco clássicos (idade >40 anos, ascendência negra, história familiar de primeiro grau) e escavação aumentada e ASSIMÉTRICA (0,8 vs 0,5) com afinamento da rima neural: quadro típico de glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA), doença crônica, indolor e assintomática até fases avançadas. A confirmação exige avaliação oftalmológica com tonometria, gonioscopia (para definir que o ângulo é aberto) e campimetria — daí o encaminhamento. Glaucoma agudo de ângulo fechado é descartado: cursa com dor intensa, olho vermelho, halos, midríase média fixa e câmara anterior rasa, nada disso presente. Catarata senil não altera a escavação do disco e cursa com opacidade do cristalino/baixa de acuidade não corrigível. Retinopatia hipertensiva produz cruzamentos AV patológicos, exsudatos e hemorragias, e não escavação assimétrica do disco óptico; aguardar um ano permitiria perda irreversível de campo visual.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três critérios de inclusão do protocolo, diga quantos são necessários, e explique por que o glaucoma de pressão normal só pode ser incluído por dois deles em particular. Em seguida, reconstrua as duas listas de gravidade e aponte, em cada linha, a faixa que fica fora das duas.

em 30 dias

Refaça a aritmética inteira a partir de uma pressão basal de 26 mmHg: calcule a pressão-alvo, diga qual valor caracteriza falha primária em 4 semanas, qual caracteriza falha terapêutica, e qual valor cai no vão entre as duas definições. Depois diga, com a média de redução de cada classe, quais fármacos podem levar esse paciente ao alvo em monoterapia.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 55 anos chega à consulta com um exame de vista feito na ótica do shopping, que registrou pressão de 24 mmHg nos dois olhos e sugeriu procurar um médico. Ele enxerga bem, nunca teve dor ocular e quer saber se vai ficar cego como o irmão. Colha a história dirigida aos fatores de risco, decida o que se pode e o que não se pode afirmar com uma tonometria isolada, e conduza o encaminhamento com o conteúdo mínimo que o protocolo de regulação exige. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Glaucoma crônico de ângulo aberto — Preparatório para provas | OsceLabs