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Outras EspecialidadesOftalmologia

Superfície ocular: o mês de lubrificante que decide a fila

Teste terapêutico, sinais de alarme e encaminhamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma equipe de vigilância revisa a estratégia de eliminação do tracoma como problema de saúde pública em um distrito endêmico. Já estão implantados a distribuição de antibiótico, a promoção da limpeza facial e as obras de acesso à água e ao esgoto. Qual componente ainda falta, e por que ele é indispensável?

02

Como esse tema cai

A superfície ocular é a fronteira entre o olho e o mundo, e quase todo desconforto ocular crônico nasce dela. O capítulo reúne três problemas que compartilham essa fronteira: o pterígio, que cresce da conjuntiva sobre a córnea; o olho seco, que é perda de homeostase do filme lacrimal; e as conjuntivites crônicas, o vermelho que já dura semanas e que não é mais o quadro agudo autolimitado.

A régua brasileira aqui é curta e por isso mesmo muito cobrável. O protocolo de doenças da córnea e da superfície ocular dá à atenção primária um único tratamento — colírio lubrificante, de três a seis vezes ao dia — e um único prazo — um mês. A partir daí, três condições vão para a oftalmologia eletiva: pterígio associado à diminuição da acuidade visual; pterígio sintomático sem alívio com lubrificante por um mês; e olho seco sem alívio com lubrificante por um mês.

O mesmo protocolo mantém uma lista de emergência que atravessa o capítulo por contraste: queimadura ocular química, trauma por radiação sem melhora, olho vermelho agudo com hiperemia predominando ao redor da córnea ou localizada setorialmente, conjuntivite hiperaguda com secreção purulenta abundante, conjuntivite aguda que não melhora após o segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico, e qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato. Nada disso é assunto de superfície crônica — e reconhecer o que não pertence à lista crônica é metade do trabalho.

Entra ainda a doença que o Brasil está tentando declarar eliminada e que continua caindo em prova: o tracoma, com suas cinco formas clínicas, sua estratégia de quatro letras e sua dose única. Fica de fora o olho vermelho agudo, que tem endereço próprio, e ficam de fora as vias lacrimais e a pálpebra como estrutura — aqui a pálpebra aparece apenas pela glândula que ela abriga e pelo filme que essa glândula sustenta.

03

O que muda decisão

O filme lacrimal tem três camadas e uma delas quase sempre é a culpada

O filme que cobre a córnea é fino e tem três contribuições. A camada oleosa mais externa vem das glândulas de Meibômio, dentro do tarso, e sua função é retardar a evaporação. A porção aquosa vem da glândula lacrimal principal e das acessórias, e carrega eletrólitos, proteínas de defesa e fatores de crescimento. A mucina, produzida pelas células caliciformes da conjuntiva e pelo próprio epitélio, faz a superfície ser molhável — sem ela, a lágrima escorreria da córnea como água em vidro engordurado.

Perder a homeostase desse conjunto desencadeia um ciclo que se alimenta. O filme fica instável e rompe cedo demais entre uma piscada e outra; a área exposta perde água e a lágrima remanescente fica hiperosmolar; a hiperosmolaridade agride o epitélio e ativa inflamação; a inflamação danifica células caliciformes e a própria glândula, o que instabiliza mais o filme. Some-se a alteração neurossensorial, que explica por que sintoma e sinal se descolam tanto — pacientes com córnea bem corada e pouca queixa, e pacientes com queixa incapacitante e coloração discreta.

Na prática, o motor mais frequente do ciclo é o da camada oleosa. A disfunção das glândulas de Meibômio deixa a secreção espessa, obstrui os orifícios da margem palpebral e reduz a barreira contra evaporação — e por isso o exame da margem palpebral e a expressão digital das glândulas fazem parte da avaliação de qualquer olho seco, mesmo quando a queixa parece puramente aquosa.

Duas consequências clínicas saem disso e valem para o resto do capítulo. A primeira: tratar a margem palpebral com calor e higiene não é conduta acessória em olho seco, é tratamento da causa mais comum. A segunda: qualquer coisa que agrida cronicamente essa superfície — conservante de colírio usado muitas vezes ao dia, lente de contato, exposição por má oclusão palpebral, cílio invertido — entra no mesmo ciclo pela porta da inflamação, e nenhuma quantidade de lubrificante compensa a agressão que continua.

Olho seco: o que a pessoa conta e o que o exame mostra

A queixa típica é ardor, sensação de areia e corpo estranho, fotofobia e — o mais enganoso — visão que oscila e melhora depois de piscar repetidamente. Essa flutuação é característica: cada piscada refaz o filme, e enquanto ele se mantém a visão melhora; quando rompe, borra de novo. Paciente que conta que a visão piora ao ler e ao usar tela e melhora quando pisca está descrevendo instabilidade do filme, não erro de refração.

O agravamento tem padrão ambiental reconhecível: piora ao fim do dia, com ar-condicionado, com vento direto e durante atividades de atenção sustentada, em que a frequência de piscar cai pela metade sem que a pessoa perceba.

E há o paradoxo que mais confunde: o olho seco lacrimeja. A superfície irritada dispara descargas reflexas da glândula lacrimal, e o resultado é epífora intermitente e intensa num paciente que tem, na verdade, filme instável. Quem interpreta o lacrimejamento como excesso de lágrima prescreve a conduta oposta à necessária, ou manda investigar via lacrimal que está pérvia.

O exame de consultório tem cinco manobras, e nenhuma exige equipamento caro. Medir o tempo de ruptura do filme lacrimal: instila-se fluoresceína, pede-se uma piscada e cronometra-se até aparecer a primeira falha no filme; ruptura precoce indica instabilidade. Corar a córnea com fluoresceína, procurando ceratite puntata, que é o dano epitelial. Corar a conjuntiva com verde de lissamina, que evidencia células desvitalizadas onde a fluoresceína não pega. Fazer o teste de Schirmer, que estima a produção aquosa. E examinar a margem palpebral com expressão digital das glândulas de Meibômio, que revela o componente evaporativo.

Dois achados adicionais mudam o plano quando aparecem: filamentos aderidos à córnea, que indicam doença grave, e sintomas fora de proporção com o exame, que apontam para o componente neurossensorial e explicam por que lubrificar sozinho pode não resolver.

O que a atenção primária tem, e o que ela não tem

Aqui está a parte brasileira do assunto, e ela é mais específica do que a maioria dos alunos imagina.

O protocolo de doenças da córnea e da superfície ocular define o tratamento sintomático disponível na atenção primária: colírios lubrificantes, também chamados de lágrimas artificiais, usados de três a seis vezes por dia, com dupla finalidade — reduzir o desconforto ocular e prevenir defeitos corneanos em situações de exposição. Existe ainda a apresentação em gel, mais viscosa, indicada quando o colírio não alivia o suficiente; ela borra temporariamente a visão e por isso deve ser usada preferencialmente antes de dormir.

O quadro de apresentações traz uma informação que resolve questão de conduta e costuma surpreender: entre os princípios ativos listados, a hipromelose é a única assinalada como disponível no sistema público. Carmelose sódica, hialuronato de sódio, associações com dextrana e as apresentações em gel aparecem todas como não disponíveis. E o mesmo quadro fecha com uma frase que evita discussão inútil: não há evidência de benefício de uma formulação de colírio lubrificante sobre outro.

Existe uma tensão embutida nesse arranjo e ela merece ser nomeada, porque explica um impasse real de consultório. As apresentações que o quadro assinala como isentas de conservante são justamente as de hialuronato de sódio e as de flaconete de uso único — e nenhuma delas está marcada como disponível no sistema público. Quem precisa lubrificar seis vezes ao dia é quem mais se beneficia de fórmula sem conservante, porque a exposição repetida ao conservante agride o epitélio e realimenta o ciclo. Na prática, isso desloca o argumento para o outro lado da mesa: quando a frequência necessária é alta, a formulação deixa de ser indiferente, e essa é uma das razões clínicas legítimas para o encaminhamento.

Há ainda detalhes do quadro com utilidade prática direta: algumas apresentações não devem ser usadas com lentes de contato gelatinosas, outras não são recomendadas na gestação e na lactação, e o gel exige remover a lente antes do uso. São informações extraídas das bulas, e são o tipo de dado que o enunciado usa para montar um caso com restrição.

O mês que decide a fila

A régua de encaminhamento do protocolo é curta o suficiente para caber numa frase, e é ela que a maior parte das questões de conduta cobra.

Vão para a oftalmologia, em caráter eletivo: pterígio associado à diminuição da acuidade visual; pterígio sintomático, com irritação ocular, sem alívio com tratamento clínico com colírio lubrificante por um mês; olho seco sem alívio com tratamento clínico com colírio lubrificante por um mês; e outras doenças da córnea sintomáticas, como ceratocone, distrofia, displasia, leucoma, edema de córnea e ceratopatia bolhosa.

Repare no desenho da regra. Para o olho seco e para o pterígio sintomático, o critério não é o diagnóstico e não é a intensidade da queixa: é a falha de um tratamento definido, aplicado por um tempo definido. Isso tem duas consequências. A primeira é que encaminhar sem ter prescrito o lubrificante, ou tendo prescrito por duas semanas, é encaminhar antes de cumprir o protocolo. A segunda é que o encaminhamento precisa dizer o que foi feito — o conteúdo descritivo mínimo do protocolo pede exatamente isso, junto com sinais e sintomas e a medida de acuidade visual de cada olho, informando se foi feita com ou sem a lente corretiva.

E repare no que sai da regra do mês: pterígio associado à diminuição da acuidade visual não espera prazo nenhum. Basta a queda de visão para o encaminhamento estar indicado, porque aí o tecido já interfere na função, e nenhum lubrificante muda isso.

A lista de emergência do mesmo protocolo serve de contraste e vale de cor, porque é o que tira o caso do trilho crônico: queimadura ocular química; trauma ocular por radiação sem melhora com o tratamento instituído, ou com suspeita de corpo estranho não removido; olho vermelho agudo, principalmente com hiperemia ao redor da córnea ou localizada setorialmente; conjuntivite hiperaguda, instalada em 12 a 24 horas, com secreção purulenta abundante; conjuntivite aguda com secreção catarral ou mucopurulenta sem melhora após o segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico; e qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato.

Quando o olho seco é a ponta de outra doença

Uma parte dos casos graves não é problema local, e o exame que denuncia é feito fora do olho.

Os sinais que devem ser procurados ativamente diante de olho seco intenso e progressivo em adulto são: boca seca, com necessidade de líquido para engolir alimento seco e despertares noturnos para beber água; aumento súbito de cáries em pessoa que não as tinha; aumento das glândulas parótidas e submandibulares; artralgia com rigidez matinal; e fadiga. A associação de secura ocular e bucal com aumento de glândula salivar levanta a hipótese de doença autoimune das glândulas exócrinas, e o passo seguinte é a investigação sistêmica com o especialista adequado — não a intensificação isolada do colírio.

Há causas alternativas que a anamnese resolve e que a prova gosta de esconder no meio da lista de medicamentos. Anti-histamínicos, alguns indutores do sono, antidepressivos com ação anticolinérgica e outros fármacos de efeito antimuscarínico reduzem a secreção; a suspensão do que foi iniciado por conta própria costuma ser a intervenção mais eficaz da consulta. Somam-se uso prolongado de lente de contato, cirurgia refrativa prévia, radioterapia de cabeça e pescoço e doença do enxerto contra o hospedeiro.

O tratamento ocular do quadro grave tem elementos que a alternativa correta costuma listar: lubrificação em alta frequência e sem conservante; higiene palpebral com compressa morna, dirigida ao componente evaporativo; medidas ambientais, com umidificação, pausas nas atividades de atenção sustentada e evitar vento direto e ar-condicionado; e discussão, na especialidade, de oclusão dos pontos lacrimais e de imunomodulador tópico de uso prolongado. Encaminhamento paralelo à reumatologia e à odontologia entra quando a suspeita sistêmica se confirma, porque a boca seca cobra o seu preço em cáries.

Fecham a seção os sinais de alarme que a pessoa precisa levar para casa por escrito, porque o olho seco grave tem complicação: dor intensa de início súbito, mancha branca na córnea e piora abrupta da visão significam retorno imediato, e não aumento da frequência do colírio.

Pterígio: o que é, e o que o faz sair da observação

O pterígio é um crescimento fibrovascular da conjuntiva bulbar que invade a córnea, tipicamente pelo lado nasal, associado à exposição solar acumulada — daí sua prevalência em quem trabalha ao ar livre e em latitudes de alta radiação. A lesão nasce sobre tecido elastótico degenerado, avança sobre a membrana de Bowman e traciona a superfície corneana, e é essa tração que produz o efeito óptico que decide a conduta.

Esquema do segmento anterior visto de frente, com uma faixa triangular de tecido avançando do limbo nasal sobre a córnea, uma linha graduada medindo a extensão do limbo até o vértice e uma linha tracejada marcando o eixo visual.
A medida que importa vai do limbo até o vértice da lesão, em milímetros, e o que ela persegue é a distância que falta até o eixo visual. Antes de chegar lá, o tecido já cobra pela tração: o astigmatismo induzido aparece bem antes de a lesão tapar a pupila.

A avaliação de consultório é feita de coisas simples. Medir em milímetros a extensão do tecido sobre a córnea, do limbo até o vértice da lesão. Medir a acuidade visual de cada olho, com e sem correção — porque o astigmatismo induzido pode ser corrigível com óculos, e isso muda a urgência. Registrar o número de episódios inflamatórios no último ano e o que foi usado neles. Avaliar a motilidade ocular, porque lesão extensa e cicatricial pode restringir a abdução. E examinar a lesão sob magnificação, procurando aspecto que não pertença a um pterígio comum.

A régua brasileira de encaminhamento é a que já foi vista: queda da acuidade visual encaminha de imediato; sintoma de irritação encaminha se não houver alívio com lubrificante por um mês. Dentro da especialidade, os critérios que sustentam a indicação cirúrgica são objetivos e vale conhecê-los: invasão do eixo visual ou proximidade dele, astigmatismo induzido documentado por topografia, episódios inflamatórios de repetição, restrição da motilidade e dúvida diagnóstica quanto à natureza da lesão.

Enquanto se observa, o tratamento é sintomático e preventivo: lubrificação, e fotoproteção permanente com óculos com filtro ultravioleta e chapéu, sobretudo em quem trabalha exposto. A fotoproteção não é conselho genérico — é o único fator de risco modificável do quadro, e vale igualmente para o olho contralateral, que costuma trazer a mesma lesão em estágio inicial.

A cirurgia, a recidiva e a peça que vai ao patologista

Operar pterígio é fácil; operar sem recidiva é que é o problema, e a técnica escolhida muda o resultado de forma dramática.

A exérese simples, deixando a esclera exposta, é a técnica antiga e foi abandonada por taxa de recidiva inaceitável. A cobertura do leito é o que muda o desfecho, e a comparação melhor estudada é entre transplante autólogo de conjuntiva e transplante de membrana amniótica. Uma revisão sistemática reuniu 10 ensaios e 1.021 olhos e encontrou, aos seis meses, recidiva variando de 3,3% a 16,7% com o autotransplante de conjuntiva e de 6,4% a 42,3% com a membrana amniótica, com risco relativo de 0,53 e intervalo de confiança de 0,33 a 0,85 a favor do autotransplante.

A leitura prática é direta: quando o enunciado oferece a escolha entre exérese simples, membrana amniótica e transplante autólogo de conjuntiva, a resposta é o autotransplante — e o comentário que a sustenta é a recidiva, não a facilidade técnica. Vale registrar que a recidiva é mais comum em jovens, em lesões extensas e carnosas e em quem volta à exposição solar sem proteção, e que ela costuma ocorrer nos primeiros meses.

Há um cuidado que a alternativa incompleta esquece e que a prova pontua: a peça excisada vai para exame anatomopatológico. O motivo é a neoplasia intraepitelial da superfície ocular, que ocupa a mesma região limbar, incide na mesma população exposta ao sol e pode se apresentar como uma lesão que parece pterígio. Achados que aumentam a suspeita são crescimento rápido, aspecto gelatinoso ou leucoplásico, vasos nutridores proeminentes e localização atípica.

Fecham o cuidado pós-operatório a lubrificação, a fotoproteção permanente — porque a exposição que produziu a lesão continua sendo a mesma — e o seguimento do olho contralateral, que costuma abrigar a lesão pequena e quiescente que ninguém mediu.

Conjuntivite crônica: quando o vermelho passa de semanas

Conjuntivite aguda é bilateral ou sequencial, autolimitada e resolve em dias a duas semanas. Quando o vermelho persiste por semanas ou meses, o raciocínio muda de trilho, e a lista de causas é outra.

A causa mais comum é a blefarite com disfunção das glândulas de Meibômio: vermelhidão bilateral discreta e persistente, ardor, crostas na base dos cílios, margem palpebral espessada e orifícios glandulares obstruídos. O tratamento é da margem, com calor e higiene, e não do olho com colírio antibiótico.

A segunda é a conjuntivite tóxica ou medicamentosa, e ela é iatrogênica. O paciente usa colírio há semanas ou meses — vasoconstritor, antibiótico, associação com corticoide, ou lubrificante com conservante em alta frequência — e mantém hiperemia que só piora quando ele aumenta a dose, porque o agente da irritação é o próprio colírio. O achado característico é hiperemia difusa com reação folicular e comprometimento da pálpebra inferior, e o tratamento é suspender tudo e lubrificar sem conservante. É a causa que a alternativa correta nomeia quando o enunciado lista uma sequência de colírios.

A terceira é a conjuntivite de inclusão do adulto, causada por clamídia e transmitida sexualmente. Apresenta-se como conjuntivite folicular crônica, com frequência unilateral, com secreção mucopurulenta escassa e adenopatia pré-auricular, que dura semanas e não responde a antibiótico tópico. O tratamento é sistêmico, e o caso inclui investigação de outras infecções sexualmente transmissíveis e tratamento das parcerias — sem isso, a recontaminação é regra.

Completam a lista a conjuntivite alérgica perene, o molusco contagioso da margem palpebral, que semeia partículas virais na superfície, a canaliculite, que se disfarça de conjuntivite unilateral com secreção teimosa, e o tracoma nas áreas onde ele ainda circula. A pista que organiza tudo é dupla: lateralidade e resposta ao que já foi tentado. Unilateral e crônico afasta a maioria das causas comuns; e a lista de colírios já usados sem resposta é, muitas vezes, o próprio diagnóstico.

Tracoma: cinco letras, quatro ações e uma dose

O tracoma é a ceratoconjuntivite crônica causada por sorotipos específicos de clamídia, transmitida por contato direto, por objetos e por moscas, ligada a condições de aglomeração e de baixo acesso a água. Ele ainda cai em prova brasileira por dois motivos: é a principal causa infecciosa de cegueira evitável no mundo, e o país passou pelo processo de validação da eliminação como problema de saúde pública.

A classificação simplificada tem cinco formas, e a divisão que importa é entre as que transmitem e as que são sequela. As duas formas ativas e transmissíveis são a inflamação folicular, definida pela presença de cinco ou mais folículos na conjuntiva tarsal superior, e a inflamação intensa, em que a conjuntiva tarsal superior fica vermelha, espessada e áspera, com os vasos normais mascarados pela infiltração. As três formas sequelares e não transmissíveis são a cicatriz conjuntival, com linhas, bandas ou manchas brancas na conjuntiva tarsal; a triquíase, em que a cicatrização repetida inverte a margem palpebral e leva os cílios contra a córnea; e a opacificação corneana, que é a perda de transparência e a cegueira.

A cadeia inteira cabe numa frase: repetidas infecções na infância produzem cicatriz; a cicatriz produz entrópio e triquíase na vida adulta; e o atrito dos cílios sobre a córnea produz a opacificação. Por isso o tratamento antibiótico age no começo da história natural e a cirurgia age no fim — e por isso a criança e o adulto do mesmo domicílio precisam de intervenções diferentes.

A estratégia recomendada tem quatro componentes, e cada letra endereça um elo: cirurgia da triquíase, para interromper o atrito antes da opacificação; antibiótico, para tratar a infecção ativa e reduzir a carga de transmissão; limpeza facial, que reduz o contato com secreções; e melhoria ambiental, com acesso a água e saneamento, que ataca a base da transmissão. Programa que faz apenas o antibiótico trata e reinfecta.

O tratamento recomendado no Brasil é a azitromicina, 20 mg/kg em dose única por via oral, com dose máxima de 1 g, regulamentada por portaria ministerial de 2005 e disponibilizada em comprimido e em suspensão. Como alternativa oral figura a tetraciclina, 250 mg de 6 em 6 horas por três semanas, restrita a maiores de dez anos. E os limiares que definem a eliminação como problema de saúde pública são dois: inflamação folicular em menos de 5% das crianças de 1 a 9 anos, e triquíase em menos de 1 caso por 1.000 habitantes.

O que escrever no encaminhamento, e o erro que devolve o pedido

O protocolo de córnea e superfície ocular define quatro itens de conteúdo descritivo mínimo, e a ordem deles revela o que o serviço especializado precisa para priorizar.

Primeiro, sinais e sintomas, com menção explícita a diminuição da acuidade visual, dor ou desconforto, lacrimejamento intenso e secreção ocular. Segundo, a medida de acuidade visual de cada olho, informando se foi realizada com ou sem a lente corretiva. Terceiro, a descrição do tratamento realizado para a condição, quando indicado. Quarto, o número da teleconsultoria ou do telediagnóstico, se o caso tiver sido discutido.

O segundo e o terceiro itens são os que fazem o encaminhamento funcionar, e são justamente os mais esquecidos. A acuidade medida separa o pterígio que já cobra função do pterígio apenas incômodo, e a informação sobre a correção evita que erro refrativo seja lido como doença de córnea. A descrição do tratamento é o que prova que o mês de lubrificante aconteceu — sem ela, não há como saber se o caso é refratário ou se nunca foi tratado, e o critério de encaminhamento é literalmente definido pela falha do tratamento clínico.

Vale uma observação sobre como medir. A acuidade se mede um olho de cada vez, com a correção que a pessoa usa habitualmente, e registram-se os dois valores — a assimetria entre os olhos carrega mais informação do que qualquer valor isolado, e no pterígio ela é o dado que documenta o efeito do tecido sobre a função.

Fecha o capítulo o resumo que atravessa os três assuntos: na superfície ocular crônica, o tempo é parte do critério. Um mês de lubrificante bem prescrito, na frequência certa, é o que separa a fila de quem precisa da fila de quem apenas ainda não foi tratado — e quando a acuidade visual cai, esse relógio deixa de correr.

04

A régua na mão

Três perguntas resolvem quase tudo: a acuidade visual caiu, o tratamento clínico foi feito por um mês, e o quadro é agudo ou crônico. As duas primeiras decidem a fila; a terceira decide se o caso ainda pertence a este capítulo.

  1. 1Meça a acuidade visual de cada olho, com a correção habitual, e registre os dois valores. Queda de acuidade em pterígio encaminha de imediato, sem prazo.
  2. 2Se não há queda de acuidade, prescreva o tratamento que a atenção primária tem: colírio lubrificante, de três a seis vezes ao dia, por um mês, com gel à noite se o colírio não bastar.
  3. 3Trate a margem palpebral junto: calor local e higiene atacam o componente evaporativo, que é o motor mais comum do olho seco.
  4. 4Retire a agressão que continua: colírio com conservante em alta frequência, vasoconstritor, fármaco de ação antimuscarínica iniciado por conta própria, lente de contato e exposição por má oclusão palpebral.
  5. 5Reavalie em um mês. Sem alívio, encaminhe — é este o critério, tanto para o olho seco quanto para o pterígio sintomático — descrevendo o que foi feito e a acuidade medida.
  6. 6Diante de secura ocular e bucal com aumento de glândula salivar, artralgia e fadiga, some a investigação sistêmica ao tratamento ocular.
  7. 7Se o vermelho é crônico, percorra a lista: margem palpebral, colírio em uso há meses, infecção de transmissão sexual, alergia perene, canalículo e, na área endêmica, tracoma.
  8. 8E confira se o caso não pertence à lista de emergência: queimadura química, radiação sem melhora, hiperemia ao redor da córnea ou setorial, conjuntivite hiperaguda, conjuntivite aguda sem melhora após o segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico, e qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato.
SituaçãoTratamento na atenção primáriaCritério de encaminhamento
Pterígio com queda de acuidade visualLubrificante e fotoproteção enquanto aguardaEncaminhamento imediato, sem prazo
Pterígio sintomático sem queda de acuidadeLubrificante 3 a 6 vezes ao dia e fotoproteçãoEncaminhar se não houver alívio em 1 mês
Olho secoLubrificante 3 a 6 vezes ao dia, gel à noite, higiene palpebralEncaminhar se não houver alívio em 1 mês
Olho seco com boca seca e parótida aumentadaO mesmo, mais retirada de fármaco antimuscarínicoSomar investigação sistêmica ao encaminhamento
Conjuntivite tóxica por colírioSuspender os colírios e lubrificar sem conservanteEncaminhar se persistir após a suspensão
Conjuntivite crônica por clamídia no adultoTratamento sistêmico e das parceriasInvestigar outras infecções sexualmente transmissíveis
Tracoma ativoAzitromicina 20 mg/kg em dose única, máximo 1 gTriquíase encaminha para cirurgia palpebral

Entre os lubrificantes listados no protocolo, a hipromelose é a única assinalada como disponível no sistema público, e o próprio quadro registra que não há evidência de benefício de uma formulação sobre outra.

O gel borra temporariamente a visão e deve ser usado preferencialmente antes de dormir.

Recidiva de pterígio aos seis meses: 3,3% a 16,7% com autotransplante de conjuntiva e 6,4% a 42,3% com membrana amniótica, com risco relativo de 0,53 a favor do autotransplante.

Toda peça de pterígio excisada vai para exame anatomopatológico, pela possibilidade de neoplasia intraepitelial da superfície ocular.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a régua diagnóstica do olho seco

Relatório de 2017

Exige sintomas positivos em questionário — pontuação igual ou maior que 13 no instrumento de treze itens, ou igual ou maior que 6 no de cinco itens — somados a pelo menos um marcador de perda de homeostase, entre três possíveis: tempo de ruptura não invasivo abaixo de 10 segundos, osmolaridade lacrimal igual ou maior que 308 mOsm/L em qualquer dos olhos ou diferença entre os olhos maior que 8, e coloração da superfície ocular. A coloração da superfície entra como marcador de pleno direito.

Wolffsohn JS et al. TFOS DEWS II Diagnostic Methodology report. Ocul Surf. 2017;15(3):539-74.

Relatório de 2025

Simplifica em três passos e troca o instrumento de triagem por um questionário de seis itens, com ponto de corte igual ou maior que 4. O resultado positivo precisa vir acompanhado de tempo de ruptura não invasivo abaixo de 10 segundos ou, alternativamente, de hiperosmolaridade lacrimal. A coloração da superfície ocular passa a ser usada para avaliar dano com limiares definidos, e não como um dos marcadores que fecham o diagnóstico.

Wolffsohn JS et al. TFOS DEWS III: Diagnostic Methodology. Am J Ophthalmol. 2025.

Na prova

As duas réguas concordam no que interessa à conduta e discordam no que interessa à contagem. Para identificar o recorte, olhe o número no enunciado: pontuação de corte 13 ou 6 e menção à coloração como critério apontam para o documento de 2017; ponto de corte 4 num questionário de seis itens aponta para o de 2025. O tempo de ruptura abaixo de 10 segundos e a osmolaridade a partir de 308 mOsm/L atravessam os dois, e por isso são os números seguros de decorar. Enunciado que descreva o quadro clínico e pergunte diagnóstico ou conduta não depende dessa escolha: sintoma compatível com ruptura precoce do filme e coloração puntata é olho seco em qualquer das duas casas.

Corticoide tópico no olho seco: quem prescreve, e quando

Manejo internacional em degraus

Organiza o tratamento em quatro degraus. O primeiro reúne educação, medidas ambientais, lubrificante e higiene palpebral. O segundo, para quem não responde, inclui medicamentos de prescrição, entre eles corticoide tópico de curta duração, imunomodulador tópico, secretagogos, antibiótico tópico ou oral e oclusão dos pontos lacrimais. Corticoide tópico de uso prolongado só reaparece no quarto degrau, para doença refratária.

Jones L et al. TFOS DEWS II Management and Therapy Report. Ocul Surf. 2017;15(3):575-628.

Regulação brasileira da atenção primária

Não prevê corticoide tópico em nenhum momento na atenção primária. O tratamento sintomático disponível é o colírio lubrificante, de três a seis vezes ao dia, com o gel como alternativa mais viscosa, e a ausência de alívio após um mês é o próprio critério de encaminhamento para a oftalmologia.

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Oftalmologia Adulto: versão digital 2023, Protocolo 7.

Na prova

Não é discordância sobre o fármaco, é discordância sobre quem o prescreve — e o enunciado quase sempre entrega qual das duas casas está em jogo pelo cenário. Caso ambientado em unidade básica de saúde, com médico de família, sem lâmpada de fenda e sem medida de pressão intraocular, espera a conduta brasileira: lubrificante, higiene palpebral, medidas ambientais e encaminhamento se não houver alívio em um mês. Caso ambientado em consultório oftalmológico, com exame de superfície descrito em detalhe e falha do primeiro degrau, admite o segundo degrau. Alternativa que prescreva corticoide tópico na atenção primária, sem exame especializado, é errada nas duas casas — porque nenhuma delas autoriza corticoide ocular sem quem consiga medir a pressão intraocular e examinar a córnea.

06

Caso resolvido

Homem de 46 anos, pescador com exposição solar ocupacional intensa desde a adolescência e sem uso de proteção ocular, notou há oito anos uma lesão avermelhada na conjuntiva nasal do olho direito, inicialmente pequena e assintomática. Nos últimos dois anos houve crescimento acelerado com avanço sobre a córnea, distorção das imagens e queda da acuidade visual do olho direito, a ponto de precisar ocluir esse olho para tarefas de precisão. Teve três episódios inflamatórios nos últimos doze meses, cada um com cerca de uma semana, com hiperemia local, ardor e sensação de corpo estranho, tratados com colírio comprado sem prescrição. Nega dor intensa, secreção purulenta, perda visual súbita e trauma. Há lesão semelhante, menor e quiescente, no olho contralateral. Ao exame, o tecido fibrovascular nasal avança 4,2 mm sobre a córnea do olho direito, alcançando a borda do eixo visual, com astigmatismo induzido de três dioptrias.
1. O dado que encerra a discussão sobre prazo
Há queda da acuidade visual do olho direito. Na régua brasileira, pterígio associado à diminuição da acuidade visual é encaminhamento para oftalmologia por si só — não se aplica aqui a exigência de um mês de colírio lubrificante, que vale apenas para o pterígio sintomático sem repercussão visual. Discutir se o lubrificante já foi tentado é irrelevante diante de acuidade caída.
2. Os critérios objetivos que sustentam a indicação cirúrgica
Três estão descritos e se somam: extensão de 4,2 mm alcançando a borda do eixo visual; astigmatismo induzido de três dioptrias, que explica a distorção das imagens; e três episódios inflamatórios em doze meses. Cada um isolado já pesaria; juntos, a indicação é objetiva e não depende de queixa estética. Vale quantificar o astigmatismo por topografia corneana e documentar a lesão por fotografia do segmento anterior, para comparação evolutiva.
3. A técnica, e o número que a escolhe
Exérese associada a transplante autólogo de conjuntiva. A exérese simples com esclera exposta foi abandonada pela recidiva, e o autotransplante é superior à membrana amniótica: aos seis meses, recidiva de 3,3% a 16,7% contra 6,4% a 42,3%, com risco relativo de 0,53 e intervalo de confiança de 0,33 a 0,85, medidos em 1.021 olhos de 10 ensaios. É esse dado que se explica ao paciente quando ele traz o receio baseado na recidiva de um familiar.
4. O que se manda ao patologista, e por quê
A peça excisada vai para exame anatomopatológico. A neoplasia intraepitelial da superfície ocular ocupa a mesma região limbar, atinge a mesma população exposta ao sol e pode se apresentar com aparência de pterígio; crescimento acelerado nos últimos dois anos, como aqui, é justamente um dos achados que aumentam a suspeita. Diante de dúvida ainda maior, cabe citologia de impressão conjuntival antes da cirurgia.
5. O que fica depois da cirurgia
Fotoproteção permanente com óculos com filtro ultravioleta e chapéu no trabalho, porque a exposição que produziu a lesão continua sendo a mesma e é o único fator de risco modificável. Lubrificação no pré e no pós-operatório, e afastamento do trabalho no período de cicatrização. E seguimento do olho contralateral, que já abriga a lesão pequena e quiescente — medi-la agora é o que permitirá saber, daqui a dois anos, se ela cresceu.
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Agora feche você

Mulher de 57 anos procura a unidade básica com ardor, sensação de areia e fotofobia nos dois olhos há dois anos, com piora nos últimos seis meses. A visão oscila e melhora quando ela pisca repetidamente. Piora ao fim do dia, em ambiente com ar-condicionado e durante leitura e uso de tela, e há episódios paradoxais de lacrimejamento intenso. Nega secreção purulenta, prurido intenso e olho vermelho de instalação súbita com dor. Conta que precisa de líquido para engolir alimento seco, acorda à noite para beber água e fez cinco restaurações dentárias no último ano sem nunca ter tido cárie antes; nota também que o rosto ficou mais cheio abaixo das orelhas. Refere rigidez matinal nas mãos e cansaço. Comprou por conta própria um anti-histamínico e um indutor do sono, que usa todas as noites há oito meses, e vem usando um colírio lubrificante com conservante seis a oito vezes ao dia. Acuidade visual 20/30 nos dois olhos com a correção habitual.
Primeiro
Explique por que esta paciente lacrimeja, e diga qual dado da história confirma que o problema é a instabilidade do filme e não a produção excessiva de lágrima.
Segundo
Aponte os cinco achados extraoculares descritos que mudam a hipótese e diga o que eles levantam. Depois nomeie os dois medicamentos da história que agravam o quadro e explique o mecanismo.
Terceiro
Diga o que há de errado no colírio que ela já usa, mesmo sendo um lubrificante, e qual é a tensão prática que isso cria no sistema público brasileiro.
Quarto
Defina a conduta na unidade básica, com posologia e prazo, e diga em que condição exata o encaminhamento à oftalmologia fica indicado segundo a régua brasileira.
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler o lacrimejamento como excesso de lágrima O olho seco lacrimeja: a superfície irritada dispara descargas reflexas e produz epífora intermitente num paciente cujo filme é instável. Quem interpreta o sintoma pelo nome manda investigar via lacrimal pérvia ou prescreve a conduta oposta. O que separa é o resto do quadro — ardor, sensação de areia, visão que melhora ao piscar e piora com tela e ar-condicionado.
  2. 2Encaminhar antes de cumprir o mês, ou depois de duas semanas Para olho seco e para pterígio sintomático, o critério da régua brasileira não é o diagnóstico nem a intensidade da queixa: é a ausência de alívio com colírio lubrificante por um mês, usado de três a seis vezes ao dia. Encaminhamento que não descreve o tratamento realizado não permite distinguir o caso refratário do caso nunca tratado.
  3. 3Aplicar o prazo de um mês ao pterígio que já derrubou a visão O prazo vale para o pterígio sintomático, com irritação ocular. Pterígio associado à diminuição da acuidade visual é encaminhamento por si só, sem prazo de tratamento clínico, porque o tecido já interfere na função e nenhum lubrificante reverte tração corneana.
  4. 4Tratar conjuntivite crônica com mais um colírio A hiperemia que só piora conforme o paciente aumenta a dose é a assinatura da conjuntivite tóxica por colírio — vasoconstritor, antibiótico prolongado, associação com corticoide ou lubrificante com conservante em alta frequência. O tratamento é suspender tudo e lubrificar sem conservante, e a lista de colírios já usados é, muitas vezes, o próprio diagnóstico.
  5. 5Tratar conjuntivite folicular crônica do adulto só com colírio Conjuntivite folicular crônica, com frequência unilateral, com adenopatia pré-auricular e sem resposta a antibiótico tópico, em adulto sexualmente ativo, é conjuntivite de inclusão por clamídia. O tratamento é sistêmico, e sem tratar as parcerias e investigar outras infecções sexualmente transmissíveis a recontaminação é regra.
  6. 6Escolher a técnica de pterígio pela facilidade A exérese deixando esclera exposta foi abandonada pela recidiva. Comparado à membrana amniótica, o autotransplante de conjuntiva teve recidiva aos seis meses de 3,3% a 16,7% contra 6,4% a 42,3%, com risco relativo de 0,53. E a peça excisada sempre vai ao exame anatomopatológico, pela possibilidade de neoplasia intraepitelial da superfície ocular na mesma população exposta ao sol.
  7. 7Achar que antibiótico sozinho elimina o tracoma A estratégia tem quatro componentes e cada um endereça um elo: cirurgia da triquíase, antibiótico, limpeza facial e melhoria ambiental com acesso a água e saneamento. Programa que faz apenas a dose única trata e reinfecta. E a triquíase já instalada não responde a antibiótico: ela exige cirurgia palpebral, porque o dano em curso é mecânico.
  8. 8Prescrever corticoide tópico na unidade básica Nem o manejo internacional em degraus nem a regulação brasileira autorizam corticoide ocular sem quem consiga medir a pressão intraocular e examinar a córnea. Na atenção primária o arsenal é lubrificante, higiene palpebral, medidas ambientais e retirada da agressão; o degrau seguinte pertence a quem tem lâmpada de fenda.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A estratégia recomendada tem quatro componentes e cada um endereça um elo diferente da história natural: cirurgia da triquíase, antibiótico, limpeza facial e melhoria ambiental com acesso a água e saneamento. O que falta no distrito descrito é a cirurgia — e ela é indispensável porque a triquíase é forma sequelar, resultante de cicatrizações repetidas que inverteram a margem palpebral, de modo que os cílios seguem raspando a córnea mesmo depois de erradicada a infecção; o dano em curso é mecânico e progride para opacificação corneana. Não existe vacina contra o tracoma. Rastreamento sorológico de contatos não integra a estratégia, cujo diagnóstico é clínico e cuja busca é ativa por exame ocular. As moscas participam da transmissão, mas não são o único mecanismo — há contato direto e contato com objetos —, e o controle químico não é um dos componentes. E colírio lubrificante alivia sintoma sem interromper cadeia nem prevenir cegueira.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três condições de encaminhamento eletivo do protocolo de córnea e superfície ocular, com o prazo de cada uma, e diga qual delas não tem prazo e por quê. Depois recite a posologia do colírio lubrificante e diga quando entra o gel. Feche listando as cinco manobras do exame do olho seco e o que cada uma mede.

em 30 dias

Reconstrua a tabela inteira sem consultar. Em seguida responda, em uma frase cada: por que o olho seco lacrimeja; qual formulação de lubrificante o protocolo assinala como disponível no sistema público e qual ressalva o mesmo quadro faz; qual técnica de exérese de pterígio tem menor recidiva e com que números; e quais são as cinco formas clínicas do tracoma, separando as que transmitem das que são sequela.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 46 anos, pescador, entra no consultório dizendo que uma carne cresceu no canto do olho direito e que de uns dois anos para cá as imagens ficaram tortas desse lado. Conta que o olho fica vermelho e arde por uma semana inteira, várias vezes por ano, e que compra colírio na farmácia. Tem medo da cirurgia porque um tio operou e a lesão voltou. Colha a história ocupacional e a evolução, meça o que precisa ser medido, indique a conduta com critérios objetivos e explique a ele o que muda com a técnica proposta. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Superfície ocular: o mês de lubrificante que decide a fila — Preparatório para provas | OsceLabs