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Vias lacrimais e pálpebras: a linha do tendão cantal medial decide a porta

Anatomia da lesão, urgência e critérios de encaminhamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Médica de família vai encaminhar uma paciente de 71 anos com ptose da pálpebra superior direita, progressiva há dois anos, sem diplopia, sem dor e sem variação ao longo do dia. Ela já descreveu no formulário os sinais e sintomas com tempo de evolução e o tratamento prévio realizado. Segundo o conteúdo descritivo mínimo do protocolo brasileiro para doenças das pálpebras, vias lacrimais e órbita, qual item ainda falta e é específico deste protocolo?

02

Como esse tema cai

Lacrimejar é sintoma comum e quase sempre benigno, e por isso mesmo é onde a prova esconde a decisão de porta. O capítulo cobre o caminho da lágrima do ponto lacrimal ao nariz, os dois motivos pelos quais ela transborda, e o que muda quando o saco lacrimal infecta. Cobre também a pálpebra: o nódulo, a posição da margem e a lesão que se disfarça de inflamação crônica.

A régua brasileira usada aqui é o protocolo de regulação ambulatorial de oftalmologia adulto, e ele organiza tudo em duas listas dentro do mesmo protocolo. Na primeira, o que vai hoje para a emergência oftalmológica: trauma orbitopalpebral com suspeita de fratura, de corpo estranho intraorbitário ou com laceração palpebral e de vias lacrimais; infecção aguda de vias lacrimais, nomeadamente dacriocistite e canaliculite; e proptose de início agudo. Na segunda, o que espera a fila: alteração de posição da pálpebra, lesão palpebral com suspeita de neoplasia, hordéolo recorrente ou calázio sem resposta ao tratamento clínico, epífora crônica, dacriocistite ou canaliculite crônicas ou recorrentes, e as doenças de órbita de curso lento.

Duas coisas atravessam o capítulo inteiro. A primeira é anatômica e resolve mais questão do que qualquer lista: a posição da tumefação em relação ao tendão cantal medial. A segunda é de idade: a mesma obstrução da via lacrimal tem história natural, exame e tratamento completamente diferentes no lactente e no adulto.

Fica de fora o olho vermelho agudo com hiperemia ao redor da córnea, que tem endereço próprio, e fica de fora a superfície ocular como doença — pterígio, olho seco e conjuntivite crônica —, que é assunto vizinho. Aparecem aqui apenas como causa de lacrimejamento reflexo, que é a armadilha mais frequente do assunto.

03

O que muda decisão

O caminho da lágrima, e a linha que decide tudo

A lágrima é produzida pela glândula lacrimal principal, no quadrante superolateral da órbita, e pelas glândulas acessórias. Ela se espalha pela superfície a cada piscada e escorre em direção ao canto medial, onde se acumula no lago lacrimal. Dali entra pelos dois pontos lacrimais, um em cada pálpebra, segue pelos canalículos superior e inferior, que se juntam num canalículo comum, e chega ao saco lacrimal. Do saco desce o ducto nasolacrimal, que se abre no meato inferior do nariz, sob a válvula de Hasner. A drenagem não é passiva: a cada piscada, a musculatura ao redor dos canalículos e do saco funciona como uma bomba.

Esquema do canto medial mostrando os dois pontos lacrimais, os canalículos que convergem num canal único, o saco lacrimal e o ducto que desce até o nariz, com uma linha tracejada horizontal marcando o nível do tendão cantal medial.
O saco lacrimal fica abaixo da linha. Tumefação abaixo dela é do saco até prova em contrário; tumefação acima dela quase nunca é, e essa única distinção reorganiza o diagnóstico diferencial inteiro do canto medial.

O tendão cantal medial cruza horizontalmente essa região e serve de referência de superfície. O saco lacrimal fica abaixo dele. Essa frase, sozinha, resolve boa parte das questões de massa no canto medial. Abaixo do tendão, o primeiro diagnóstico é doença do saco lacrimal — mucocele, dacriocistite aguda ou crônica, dacriocistocele no recém-nascido. Acima do tendão, a lista muda de dono: lesão de seio etmoidal, tumor, e, no lactente, encefalocele — que não se punciona e não se drena.

O ducto nasolacrimal termina por uma válvula que se abre no primeiro choro da vida. Quando ela não abre, o líquido represa e o quadro é o lacrimejamento persistente do lactente. No adulto, o mesmo trajeto obstrui por outro motivo: inflamação crônica, fibrose, trauma, cirurgia nasal prévia, e a estenose resultante não se resolve com manobra nenhuma.

Um detalhe anatômico com consequência prática fecha a seção. Os canalículos correm rentes à margem palpebral, na porção medial, entre o ponto lacrimal e o canto. Qualquer laceração de pálpebra situada medialmente ao ponto lacrimal pode ter seccionado um canalículo — e canalículo seccionado que não é reparado nas primeiras horas cicatriza estenosado, com epífora permanente. É por isso que laceração palpebral e de vias lacrimais está na lista de emergência do protocolo brasileiro, mesmo quando o ferimento parece pequeno e limpo.

Epífora: transbordar por excesso ou por falta de saída

Só existem duas razões para a lágrima escorrer pelo rosto. Ou está sendo produzida demais, ou não está saindo. Separar as duas é o primeiro passo, e errar aqui manda o paciente para o procedimento errado.

O lacrimejamento reflexo é a produção aumentada em resposta a algo que irrita a superfície: cílio invertido roçando a córnea, margem palpebral virada para dentro, corpo estranho, erosão epitelial, blefarite, e — o mais contraintuitivo — o olho seco, em que o filme instável dispara descargas reflexas e produz o paradoxo de um olho que lacrimeja porque está seco. Nesses casos a via lacrimal está pérvia, e sondar não resolve nada.

A epífora obstrutiva é a que se acumula porque não drena. Costuma vir com menisco lacrimal elevado, secreção mucoide, crostas ao despertar e, quando há saco distendido, refluxo pelos pontos à compressão. É unilateral com frequência, e a história é de meses ou anos.

Três manobras de consultório resolvem quase toda a discriminação, e nenhuma delas exige aparelho. A primeira é a inspeção da altura do menisco lacrimal, a faixa de lágrima que se acumula sobre a margem palpebral inferior: menisco alto sugere falha de drenagem. A segunda é a compressão suave do saco lacrimal, feita com a polpa digital logo abaixo do tendão cantal medial: refluxo de material mucoide ou purulento pelos pontos confirma que há conteúdo represado no saco. A terceira é o teste do desaparecimento da fluoresceína: instila-se o corante no fundo de saco e observa-se, após cerca de cinco minutos, quanto sobrou; retenção do corante indica drenagem lenta, e a comparação entre os dois olhos vale mais que o valor absoluto.

A ordem importa. Examinar a margem palpebral, os cílios e a superfície antes de pensar em via lacrimal poupa procedimento e resolve o caso mais comum do idoso — a margem virada para dentro que raspa a córnea a cada piscada. Tratar a posição da pálpebra faz o lacrimejamento cessar sem que ninguém precise tocar o ducto.

O lactente que lacrimeja desde as primeiras semanas

A obstrução congênita do ducto nasolacrimal é a causa mais comum de lacrimejamento persistente no primeiro ano de vida, e o quadro é bastante estereotipado.

A epífora é contínua, presente fora dos episódios de choro, começa nas primeiras semanas de vida e costuma ser unilateral. A lágrima transborda para a região malar, formam-se crostas mucopurulentas aderidas aos cílios ao despertar, e a compressão do saco devolve material mucoide pelos pontos. O olho não está vermelho de forma sustentada, a criança não tem fotofobia, e a córnea é transparente. Episódios intercorrentes de secreção purulenta respondem parcialmente a colírio antibiótico e recidivam assim que ele termina — porque o antibiótico trata a colonização, não a obstrução.

O que precisa ser excluído em toda consulta é o glaucoma congênito, e ele se anuncia por uma tríade que não pertence ao quadro obstrutivo: fotofobia, blefaroespasmo e lacrimejamento, somados a aumento do diâmetro corneano e a córnea que perde a transparência. Medir o diâmetro corneano nos dois olhos e comparar, avaliar o reflexo vermelho e observar a reação da criança à claridade são manobras de consultório, e a alteração de qualquer uma delas troca a porta imediatamente. Diâmetro corneano assimétrico ou aumentado em lactente que lacrimeja é encaminhamento com prioridade, não conduta expectante.

A conduta padrão do quadro obstrutivo tem quatro elementos. Higiene ocular com soro fisiológico e remoção das crostas. Massagem do saco lacrimal, ensinada e demonstrada à pessoa que cuida: a polpa do dedo é apoiada sobre o saco, logo abaixo do tendão cantal medial, e desliza para baixo com pressão firme e contínua, várias vezes seguidas, repetindo o ciclo algumas vezes ao dia — o objetivo é gerar pressão hidrostática dentro do saco capaz de romper a membrana que fecha a extremidade inferior do ducto. Colírio antibiótico limitado aos episódios de secreção purulenta, e não em uso contínuo. E conduta expectante, com retorno programado.

A justificativa da espera é a história natural: a grande maioria dessas obstruções resolve sozinha ao longo do primeiro ano. Por isso a régua clássica indica aguardar até os doze meses antes de considerar sondagem, reservando a antecipação para dois cenários — infecções de repetição e episódio de infecção aguda do saco lacrimal.

A massa azulada do recém-nascido, e por que ela pode fazer barulho

Uma variante do quadro anterior aparece já nos primeiros dias e assusta a família: a dacriocistocele congênita.

Ela é uma distensão do saco lacrimal fechada nas duas pontas — obstruída embaixo, na válvula de Hasner, e funcionalmente fechada em cima, no canalículo comum. O resultado é uma tumefação tensa, arredondada e de tonalidade azulada, situada abaixo do tendão cantal medial, presente ao nascimento ou nas primeiras semanas, sem sinais inflamatórios da pele nem febre. A cor azulada assusta e leva a pensar em hemangioma; a posição resolve.

O detalhe que muda a gravidade é nasal. Com frequência a distensão se estende para dentro do nariz, formando um cisto no meato inferior. Recém-nascido respira preferencialmente pelo nariz, e cisto bilateral pode produzir obstrução respiratória, ruído e dificuldade durante a mamada. É por isso que a avaliação inclui olhar o nariz, e por isso a apresentação bilateral com ruído respiratório é prioridade alta.

O diferencial se organiza pela mesma linha do tendão. Abaixo dele, além da dacriocistocele, entram mucocele e dacriocistite. Acima dele, a lista é outra e mais perigosa de puncionar: encefalocele, que pode pulsar, aumentar com o choro e comunicar-se com o compartimento intracraniano; glioma nasal; e lesões de seio etmoidal. Massa acima do tendão cantal medial em lactente não se punciona nem se drena antes de imagem.

A dacriocistocele que infecta vira dacriocistite aguda do recém-nascido, e aí o quadro muda de categoria: dor, calor, eritema, febre e risco de disseminação. Recém-nascido com infecção aguda do saco lacrimal é situação de internação e antibiótico sistêmico, não de ambulatório.

Dacriocistite aguda: a única infecção que a régua brasileira manda hoje

Aqui está a decisão mais cobrável do capítulo, e ela está escrita com todas as letras no protocolo brasileiro de regulação: infecção aguda de vias lacrimais, nomeadamente dacriocistite e canaliculite, é encaminhamento para emergência oftalmológica. Não é fila, não é consulta em serviço de média complexidade, não é reavaliação em uma semana.

O quadro típico do adulto tem um antecedente e uma apresentação. O antecedente é epífora crônica do mesmo olho, muitas vezes de meses ou anos, nunca investigada — a estase é o que permite a infecção. A apresentação é a instalação em dois a três dias de tumefação dolorosa, quente, eritematosa e por vezes flutuante, situada abaixo do tendão cantal medial, com refluxo purulento pelos pontos à compressão, edema da pálpebra inferior e frequentemente febre com calafrio. A dor é latejante e desproporcional ao tamanho.

O exame tem uma finalidade principal: descobrir se a infecção ficou à frente do septo orbitário ou se atravessou para dentro da órbita. Sinais que apontam para acometimento orbitário e mudam o plano são proptose, dor à movimentação ocular, restrição da motilidade extrínseca, diplopia, queda da acuidade visual, alteração da visão de cores e defeito pupilar aferente relativo. A ausência de todos eles, com visão preservada e motilidade completa e indolor, caracteriza acometimento anterior ao septo. Diante de qualquer um deles, entra imagem da órbita com contraste e o manejo passa a ser hospitalar.

O tratamento inicial é antibioticoterapia sistêmica com cobertura para germe da pele, com a via escolhida pela gravidade e pela repercussão sistêmica, associada a analgesia e calor local. Quando há abscesso pontiagudo e tenso, a drenagem alivia rapidamente a dor e permite coletar material para bacterioscopia e cultura — coleta que se faz no momento da drenagem, e não antes.

O que não se faz na fase aguda: sondar, irrigar ou massagear vigorosamente uma via lacrimal infectada. E o que se faz depois: a obstrução que causou tudo continua lá, e a cirurgia definitiva de derivação lacrimal é programada para depois de controlada a infecção. Encerrar o episódio com antibiótico e alta, sem endereçar a obstrução, garante a recidiva — e é o erro que a alternativa incompleta oferece.

Dacriocistite crônica e canaliculite: as duas que esperam a fila

Nem toda infecção da via lacrimal é emergência, e a régua brasileira separa com clareza: dacriocistite crônica ou recorrente e canaliculite crônica ou recorrente são encaminhamento eletivo para oftalmologia.

A dacriocistite crônica é a versão silenciosa da mesma obstrução: epífora persistente, secreção matinal recorrente, saco distendido que devolve material à compressão, sem dor e sem sinais flogísticos. Ela é fator de risco para o episódio agudo e é contraindicação relativa a qualquer cirurgia intraocular eletiva enquanto não for resolvida, porque mantém um reservatório de material infectado em contato direto com a superfície ocular.

A canaliculite é a que mais engana. Apresenta-se como conjuntivite unilateral crônica que não cede, com hiperemia limitada à porção medial, secreção persistente e desconforto, tratada com colírio após colírio por meses. Os achados que denunciam são locais e específicos: o ponto lacrimal fica proeminente e edemaciado, e a compressão do canalículo expele grânulos ou concreções amareladas. O agente clássico é um actinomiceto, e o tratamento envolve remover mecanicamente as concreções — antibiótico tópico isolado não resolve, porque o material fica alojado dentro do canalículo.

A pista de leitura, para a prova, é a lateralidade combinada ao tempo. Conjuntivite bilateral aguda e autolimitada é conjuntivite. Olho vermelho unilateral, crônico, com secreção que não cessa apesar de vários colírios, e com hiperemia concentrada no canto medial, é canalículo até que alguém examine o ponto lacrimal.

No adulto, uma advertência de conduta fecha a seção: a sondagem que se faz no lactente não tem lugar aqui. A obstrução adquirida é fibrótica e cicatricial, e a sondagem não restabelece a drenagem — o tratamento definitivo é a criação cirúrgica de uma nova via de drenagem para o nariz. Alternativa que ofereça sondagem para adulto com epífora obstrutiva crônica está transportando a conduta pediátrica para a idade errada.

Hordéolo e calázio: a mesma glândula, dois processos

A margem palpebral abriga fileiras de glândulas. As de Meibômio, dentro do tarso, produzem a camada oleosa do filme lacrimal; as de Zeis e Moll abrem-se junto aos cílios. Dois quadros nascem dali, e o exame separa em segundos.

O hordéolo é a inflamação aguda e supurativa de uma dessas glândulas. Dói, a pele que o recobre está vermelha e quente, e há ponto de flutuação. Chama-se externo quando envolve as glândulas junto aos cílios e interno quando envolve uma glândula de Meibômio, com apontamento pela face conjuntival.

O calázio é outra coisa: um granuloma lipogranulomatoso estéril, consequência do bloqueio do orifício da glândula de Meibômio e do extravasamento de conteúdo lipídico para o tarso. É um nódulo firme, bem delimitado, tipicamente indolor, sem hiperemia da pele que o recobre e sem repercussão sistêmica. Pode ser residual de um hordéolo que resolveu, e pode simplesmente aparecer.

O tratamento clínico é o mesmo para os dois e o protocolo brasileiro o descreve com precisão ao tratar do hordéolo recorrente: medidas para controle da blefarite, com aplicação de calor local por cinco a dez minutos, de três a cinco vezes ao dia, e leve compressão local, associada a pomada de antibiótico quando necessário. O calor amolece o conteúdo lipídico e a compressão o desloca; a frequência é o que faz a diferença, e é exatamente o que a família costuma não cumprir.

Duas condutas que a alternativa errada oferece merecem descarte explícito. Espremer o hordéolo com as unhas ou com instrumento improvisado dissemina a infecção para a pálpebra inteira. E corticoide tópico prescrito às cegas na pálpebra, sem exame com lâmpada de fenda, repete a iatrogenia mais cara da oftalmologia: mascara infecção, agrava ceratite herpética e eleva a pressão intraocular em quem responde a corticoide.

O nódulo que volta sempre no mesmo lugar

O protocolo brasileiro traz, numa nota de rodapé fácil de pular, a advertência mais importante do capítulo sobre pálpebra: atenção a casos de hordéolos recorrentes e blefarite crônica em pacientes idosos, pela possibilidade de lesão maligna palpebral.

O motivo é um tumor que nasce exatamente das glândulas sebáceas da pálpebra e que tem por hábito imitar inflamação: recorre no mesmo local depois de drenado, produz blefarite unilateral persistente que não responde a nada, destrói a arquitetura da margem palpebral e faz cair os cílios daquele segmento. Cada um desses achados é um sinal de alarme, e a combinação de recorrência no mesmo ponto com perda de cílios em paciente idoso muda a conduta de tratamento clínico para biópsia.

A lista de alarme da lesão palpebral é curta e vale de cor. Recorrência repetida no mesmo local. Lesão unilateral e persistente com aparência de blefarite que não responde ao tratamento. Perda de cílios no segmento acometido. Destruição ou irregularidade da margem palpebral. Ulceração, bordas endurecidas, sangramento fácil ou pigmentação. Crescimento em semanas. Idade avançada como agravante de todas as anteriores.

O mesmo protocolo já contempla essa situação na lista eletiva, com a entrada de lesão palpebral com suspeita de neoplasia — descrita como lesão ulcerada, pigmentada ou nodular. O que a nota de rodapé acrescenta é a advertência de que a suspeita também precisa ser levantada quando a lesão não parece tumor, e sim inflamação teimosa.

A consequência prática é assimétrica e vale registrar. Tratar como calázio uma lesão que é tumor custa meses de crescimento. Encaminhar para avaliação um calázio banal custa uma consulta. Diante de nódulo palpebral que recorre no mesmo ponto em pessoa idosa, a assimetria decide sozinha.

Posição da pálpebra: quando o lacrimejamento é da margem, não do ducto

O idoso que lacrimeja tem, com frequência, um problema de posição, e não de drenagem. O protocolo brasileiro reúne essas condições numa lista eletiva única, e vale saber quais são e o que cada uma faz.

O ectrópio é a eversão da margem palpebral, mais comum na pálpebra inferior e mais comum por frouxidão relacionada à idade. O ponto lacrimal deixa de encostar no lago lacrimal e a lágrima transborda; a conjuntiva exposta resseca e se inflama. O entrópio é a inversão da margem, e traz os cílios contra a córnea, produzindo sensação de corpo estranho, hiperemia, lacrimejamento reflexo e, se persistir, erosão epitelial e risco de úlcera. A triquíase é o cílio mal direcionado sem que a margem esteja invertida, e produz o mesmo atrito.

Somam-se a esses o lagoftalmo, a má oclusão palpebral, que deixa a superfície exposta durante o sono e produz ceratopatia na porção inferior da córnea; a ptose, que é a queda da pálpebra superior; e a dermatocálase, o excesso de pele palpebral superior, cujo critério de encaminhamento é objetivo — obstrução do eixo visual. Fecham a lista o simbléfaro, que é a aderência entre a pálpebra e a superfície ocular, e os espasmos involuntários, blefaroespasmo e espasmo hemifacial.

A leitura clínica que a prova cobra é a inversão da ordem habitual. Diante de epífora, examine a margem palpebral e os cílios antes de investigar a via lacrimal — porque a causa mais comum de lacrimejamento no idoso é mecânica e visível a olho nu, e porque corrigir a posição resolve o sintoma sem que nenhuma sonda entre no canalículo. Encaminhar para sondagem quem tem entrópio é tratar o cano quando o problema é a torneira.

Vale registrar o que muda a porta de eletivo para hoje nesse mesmo grupo: trauma da região orbitopalpebral com suspeita de fratura orbitária — sobretudo com baixa de acuidade visual, suspeita de ruptura ocular, sinais de síndrome compartimental com dor, proptose e defeito pupilar aferente relativo, aprisionamento muscular, distopia do globo ou enoftalmo —, suspeita de corpo estranho intraorbitário, laceração palpebral e de vias lacrimais, e proptose de início agudo.

O encaminhamento que abre porta: o que o formulário exige

Toda a decisão clínica do capítulo termina num formulário, e o protocolo brasileiro define exatamente o que ele precisa conter para as doenças de pálpebras, vias lacrimais e órbita. A lista tem seis itens e um deles é específico deste protocolo.

Primeiro, sinais e sintomas, com descrição da alteração palpebral, de vias lacrimais ou de órbita, tempo de evolução e recorrência. Segundo — e é o item que não aparece nos outros protocolos de oftalmologia — anexar fotografias das alterações. Terceiro, se há comprometimento funcional ou obstrução do eixo visual, e a descrição desse comprometimento. Quarto, se foi realizado tratamento prévio para a condição, quando indicado, e qual. Quinto, em caso de doença orbitária, anexar laudo de exame de imagem, tomografia ou ressonância, ou descrever integralmente o resultado com a data. Sexto, o número da teleconsultoria ou do telediagnóstico, se o caso tiver sido discutido.

A exigência da fotografia não é burocracia. Alteração de posição de pálpebra, ptose, ectrópio, dermatocálase e lesão de margem são diagnósticos essencialmente visuais, e a descrição em texto de uma pálpebra caída não permite priorizar. A foto transforma uma fila cega numa fila ordenada, e encaminhamento sem ela costuma voltar.

A menção ao tratamento prévio também tem função de triagem, e explica por que o protocolo escreve calázio sem resposta ao tratamento clínico e hordéolo recorrente, em vez de simplesmente calázio e hordéolo. Sem o registro de que o calor local foi aplicado na frequência recomendada e por tempo suficiente, o serviço especializado não tem como saber se o caso é refratário ou se apenas nunca foi tratado.

Fecha o raciocínio a informação sobre comprometimento funcional. É ela que separa a dermatocálase estética da dermatocálase que obstrui o eixo visual, e é ela que justifica prioridade em ptose que cobre a pupila. Escrever apenas o nome da condição, sem dizer o que ela impede a pessoa de fazer, é o modo mais comum de um encaminhamento correto ficar no fim da fila.

04

A régua na mão

Duas perguntas resolvem a porta: a tumefação está abaixo ou acima do tendão cantal medial, e o quadro é agudo ou crônico. Depois disso, a idade decide o tratamento.

  1. 1Diante de lacrimejamento, examine primeiro a margem palpebral, os cílios e a superfície ocular. Entrópio, triquíase, ectrópio e irritação de superfície produzem lacrimejamento reflexo, com via lacrimal pérvia.
  2. 2Se a suspeita é obstrutiva, some as três manobras de consultório: altura do menisco lacrimal, compressão do saco à procura de refluxo e teste do desaparecimento da fluoresceína comparado entre os dois olhos.
  3. 3Havendo tumefação no canto medial, localize-a em relação ao tendão cantal medial. Abaixo, pense em saco lacrimal — dacriocistite, mucocele, dacriocistocele. Acima, pense em seio, tumor e, no lactente, encefalocele — que não se punciona.
  4. 4Decida a porta pelo tempo. Agudo com dor, calor e eritema, ou laceração palpebral e de vias lacrimais, ou proptose de início agudo: emergência oftalmológica hoje. Crônico ou recorrente, alteração de posição de pálpebra, epífora crônica, calázio sem resposta e hordéolo recorrente: fila eletiva.
  5. 5Na dacriocistite aguda, procure ativamente proptose, dor à movimentação, restrição de motilidade, diplopia, queda de acuidade e defeito pupilar aferente relativo. Presente qualquer um, entra imagem de órbita e manejo hospitalar.
  6. 6Escolha o tratamento pela idade: no lactente, higiene, massagem do saco e conduta expectante até os doze meses; no adulto, a obstrução adquirida é fibrótica e o tratamento definitivo é cirúrgico, nunca sondagem.
  7. 7Escreva o encaminhamento com os seis itens, e não esqueça o que só este protocolo pede: fotografias das alterações.
QuadroDorSinais flogísticosAchado que decidePorta
Dacriocistite agudaSim, latejantePresentes, com febre possívelTumefação abaixo do tendão cantal medial com refluxo purulentoEmergência oftalmológica hoje
Dacriocistite crônicaNãoAusentesEpífora persistente com refluxo mucoide à compressãoOftalmologia eletiva
Canaliculite crônicaDesconfortoHiperemia só na porção medialPonto lacrimal proeminente com concreções à expressãoOftalmologia eletiva
Obstrução congênita do ductoNãoAusentes entre episódiosEpífora desde as primeiras semanas, córnea clara e diâmetro normalAtenção primária até 12 meses
Glaucoma congênitoFotofobia e blefaroespasmoAusentesDiâmetro corneano aumentado e córnea que perde transparênciaEncaminhamento prioritário
HordéoloSimPresentes na pele que recobrePonto de flutuação em glândula da margemTratamento clínico; eletivo se recorrente
CalázioNãoAusentesNódulo firme e indolor, sem hiperemia da peleTratamento clínico; eletivo se sem resposta
Lesão maligna palpebralVariávelPodem simular blefariteRecorrência no mesmo local, perda de cílios, margem destruídaOftalmologia com suspeita de neoplasia

Laceração palpebral medial ao ponto lacrimal pode ter seccionado canalículo: é emergência, mesmo quando o ferimento parece pequeno.

Massa no canto medial acima do tendão cantal medial em lactente não se punciona nem se drena antes de imagem.

Sondagem é conduta do lactente. No adulto, a obstrução adquirida é fibrótica e o tratamento é a criação cirúrgica de nova via de drenagem.

Tratamento clínico do hordéolo recorrente conforme o protocolo: calor local por 5 a 10 minutos, de 3 a 5 vezes ao dia, com leve compressão, e pomada de antibiótico quando necessário.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Sondar cedo ou esperar, na obstrução congênita do ducto nasolacrimal

Sondagem imediata em consultório

Defende a sondagem entre os 6 e os 10 meses, feita em consultório com contenção e anestesia tópica, sem anestesia geral. O argumento é encerrar o quadro mais cedo, poupar meses de secreção e de colírios, e evitar o procedimento em ambiente cirúrgico com sedação. No ensaio que comparou as duas estratégias em 163 lactentes com obstrução unilateral, esta foi a estratégia com resolução mais rápida do sintoma.

Pediatric Eye Disease Investigator Group. A randomized trial comparing the cost-effectiveness of 2 approaches for treating unilateral nasolacrimal duct obstruction. Arch Ophthalmol. 2012;130(12):1525-33.

Observação com sondagem diferida

Defende manter higiene, massagem e conduta expectante, reservando a sondagem em ambiente cirúrgico para quem persistir sintomático. O argumento é a história natural: no mesmo ensaio, 66% dos lactentes do braço de observação resolveram espontaneamente ao longo dos seis meses de acompanhamento, o que significa que dois terços das sondagens imediatas teriam sido feitas em crianças que iam melhorar sozinhas.

Pediatric Eye Disease Investigator Group. A randomized trial comparing the cost-effectiveness of 2 approaches for treating unilateral nasolacrimal duct obstruction. Arch Ophthalmol. 2012;130(12):1525-33.

Na prova

As duas posições saem do mesmo ensaio e diferem no que se prioriza — tempo até a resolução ou número de procedimentos evitados. Para identificar o recorte do enunciado, olhe a idade e o cenário. Enunciado brasileiro de atenção primária, com criança de menos de um ano, sem infecção de repetição e sem episódio agudo, espera a resposta conservadora: higiene, massagem e conduta expectante, porque a régua nacional de encaminhamento e a estrutura do sistema público supõem a espera. Enunciado que descreva infecção de repetição do saco lacrimal, episódio agudo prévio ou persistência depois do primeiro ano está pedindo a antecipação, e aí a divergência não existe — as duas escolas indicam intervir. Quando o enunciado nomeia a faixa de 6 a 10 meses e oferece explicitamente as duas condutas, a fonte precisa estar citada, ou a pergunta não tem resposta única.

O que fazer com o abscesso do saco lacrimal na dacriocistite aguda

Conservador, com drenagem apenas se necessário

Antibiótico sistêmico como base, com drenagem percutânea reservada ao abscesso tenso e pontiagudo, à dor não controlada, à celulite periorbitária associada e à falha do antibiótico isolado; a cirurgia definitiva de derivação lacrimal é programada para depois de resolvida a fase aguda. O custo é o tempo até a resolução, em média cerca de dez dias, com variação de sete a vinte e oito, e o risco de fístula cutânea.

Dacryocystitis. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. NCBI Bookshelf NBK470565.

Intervenção precoce da via lacrimal

Defende operar a via lacrimal já na fase aguda, por via endoscópica, iniciando o antibiótico imediatamente ou um dia antes e mantendo-o no pós-operatório. O argumento é resolução mais rápida, encurtamento do tempo de antibiótico e resolução simultânea da obstrução que causou o episódio. A série multicêntrica que mediu fístula persistente após incisão e drenagem encontrou 2 casos em 39 pacientes, o que relativiza o receio clássico de fistulizar.

Kominek P et al. Acquired lacrimal sac fistula after incision and drainage for dacryocystitis: a multicenter study. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2010;26(6):422-4.

Na prova

O que não é divergente é o começo, e é o começo que a prova cobra: infecção aguda do saco lacrimal vai para a emergência oftalmológica no mesmo dia, e antibiótico sistêmico entra antes de qualquer procedimento em ambas as escolas. Para identificar o recorte, olhe o que o enunciado pergunta. Pergunta de conduta inicial na atenção primária ou no pronto-socorro geral tem resposta única: antibiótico sistêmico e encaminhamento imediato. Pergunta que ofereça a escolha entre drenar agora e operar a via lacrimal agora está dentro da especialidade e depende da fonte citada. E qualquer alternativa que proponha cirurgia antes de iniciar antibiótico está fora das duas posições.

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Caso resolvido

Mulher de 62 anos chega ao pronto-socorro com dor no canto interno do olho esquerdo há três dias. Relata lacrimejamento contínuo do mesmo olho há mais de um ano, com secreção matinal ocasional, nunca investigado. Há três dias surgiu uma tumefação que aumentou progressivamente, com calor e vermelhidão da pele, e em vinte e quatro horas a pálpebra inferior inchou. A dor é latejante e não cede a analgésico comum. Teve febre de 38,5 graus com calafrio na noite anterior. Tentou espremer a lesão em casa e saiu secreção amarelada espessa pelo canto interno. Ao exame, a tumefação é quente, dolorosa e flutuante, situada abaixo do tendão cantal medial, com refluxo purulento pelos pontos à compressão. A acuidade visual é igual à habitual nos dois olhos, a motricidade ocular é completa e indolor, não há proptose e as pupilas respondem normalmente à luz.
1. A posição da tumefação nomeia o órgão
Tumefação abaixo do tendão cantal medial, com refluxo purulento pelos pontos à compressão, é doença do saco lacrimal. Isso encerra o diferencial com celulite de pele por outra porta de entrada, com abscesso de origem dentária e com lesão de seio etmoidal, que ficariam acima da linha ou não devolveriam material pelos pontos. O antecedente de epífora crônica de mais de um ano no mesmo olho fornece o mecanismo: a estase é o que permitiu a infecção.
2. O exame responde à pergunta que decide o plano
A pergunta é se a infecção ficou anterior ao septo orbitário. Acuidade visual preservada, motricidade completa e indolor, ausência de proptose e pupilas normais compõem a resposta: acometimento anterior ao septo, sem sinais de extensão para dentro da órbita. Se qualquer um desses itens estivesse alterado — proptose, dor à movimentação, restrição de motilidade, diplopia, queda de acuidade, alteração da visão de cores ou defeito pupilar aferente relativo —, entraria imagem de órbita com contraste e o manejo passaria a ser hospitalar.
3. A porta, segundo a régua brasileira
Infecção aguda de vias lacrimais está nominalmente na lista de encaminhamento para emergência oftalmológica do protocolo de doenças das pálpebras, vias lacrimais e órbita — junto de dacriocistite e canaliculite agudas, laceração palpebral e de vias lacrimais, trauma orbitopalpebral com suspeita de fratura ou corpo estranho, e proptose de início agudo. Não é fila, não é reavaliação em uma semana e não é consulta em serviço de média complexidade.
4. O tratamento, e a ordem das coisas
Antibioticoterapia sistêmica com cobertura para germe da pele, com a via definida pela gravidade e pela repercussão sistêmica, associada a analgesia e calor local. Diante de abscesso tenso e pontiagudo, a drenagem alivia rapidamente a dor, e é no momento dela que se coleta material para bacterioscopia e cultura. Febre com calafrio justifica hemograma, provas inflamatórias e hemoculturas, e vale rastrear diabetes não diagnosticado com glicemia e hemoglobina glicada. Na fase aguda não se sonda, não se irriga e não se massageia a via lacrimal.
5. O que fica combinado para depois
A obstrução que causou o episódio continua lá depois que a infecção passar, e é ela que precisa ser resolvida cirurgicamente, com a criação de uma nova via de drenagem para o nariz, programada para após o controle da fase aguda. Encerrar com antibiótico e alta garante a recidiva. Vale ainda orientar que espremer a lesão em casa é o que dissemina a infecção pelos tecidos vizinhos, e explicar à paciente a ligação entre o lacrimejamento antigo e a infecção atual — é o que sustenta a adesão à cirurgia que virá depois, quando ela já estiver sem dor.
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Agora feche você

Lactente de 8 meses é levado à unidade básica pela avó, que é a cuidadora principal. Há lacrimejamento contínuo do olho direito desde a terceira semana de vida, presente fora dos episódios de choro, com transbordamento para a face e crostas mucopurulentas aderidas aos cílios ao despertar. Houve dois episódios de hiperemia conjuntival com secreção abundante, tratados com colírio antibiótico prescrito na puericultura, com melhora parcial e retorno do quadro basal ao término. O olho esquerdo é assintomático. A avó nega recusa à claridade, apertar os olhos à luz, aumento do volume do olho e opacificação da córnea, e nega abaulamento, vermelhidão da pele, dor e febre na região do canto interno. Nunca recebeu orientação sobre massagem. Ao exame, o menisco lacrimal está elevado à direita, a compressão do saco devolve material mucoide pelos pontos, o corante instilado permanece retido após cinco minutos à direita, a córnea é transparente nos dois olhos, o diâmetro corneano é igual e normal nos dois olhos e o reflexo vermelho está presente e simétrico.
Primeiro
Enuncie o diagnóstico e liste os três achados do exame descrito que o sustentam, dizendo o que cada um demonstra.
Segundo
Nomeie o diagnóstico que precisava ser excluído em toda consulta desse lactente, diga por quais achados ele foi excluído aqui e o que aconteceria com a conduta se um deles estivesse alterado.
Terceiro
Explique à avó, em linguagem de consultório, por que o colírio antibiótico melhorou e o quadro voltou. Depois descreva a manobra que ela precisa aprender, com o ponto de apoio, a direção e a frequência.
Quarto
Defina a conduta e o prazo, e diga quais dois cenários antecipariam a indicação de sondagem antes desse prazo.
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar epífora como problema de ducto sem olhar a margem palpebral A causa mais comum de lacrimejamento no idoso é mecânica e visível a olho nu: entrópio, triquíase ou ectrópio. Nesses casos a via lacrimal está pérvia e o lacrimejamento é reflexo, de modo que sondagem, irrigação e cirurgia de derivação não resolvem nada. Examine cílios e margem antes de pensar em drenagem.
  2. 2Transportar a sondagem do lactente para o adulto No lactente a obstrução é uma membrana que a pressão rompe, e a sondagem faz sentido. No adulto a obstrução adquirida é fibrótica e cicatricial, e a sondagem não restabelece a drenagem — o tratamento definitivo é a criação cirúrgica de uma nova via de drenagem para o nariz. Alternativa que ofereça sondagem para adulto está errada pela idade.
  3. 3Chamar de conjuntivite a canaliculite Olho vermelho unilateral, crônico, com secreção que não cessa apesar de vários colírios e hiperemia concentrada no canto medial é canalículo até que alguém examine o ponto lacrimal. O achado que decide é o ponto proeminente e edemaciado que expele concreções à compressão, e o tratamento exige remover mecanicamente esse material.
  4. 4Puncionar massa acima do tendão cantal medial em lactente Abaixo do tendão a lista é do saco lacrimal. Acima dele entram lesões de seio etmoidal, glioma nasal e encefalocele, que pode pulsar, aumentar com o choro e comunicar-se com o compartimento intracraniano. Massa acima da linha não se punciona nem se drena antes de imagem.
  5. 5Deixar passar o glaucoma congênito no lactente que lacrimeja A tríade que não pertence ao quadro obstrutivo é fotofobia, blefaroespasmo e lacrimejamento, somada a aumento do diâmetro corneano e perda da transparência da córnea. Medir o diâmetro corneano nos dois olhos e comparar é manobra de consultório, e a alteração troca a porta na hora: encaminhamento prioritário, não conduta expectante.
  6. 6Tratar como calázio o nódulo que recorre no mesmo lugar em idoso O protocolo brasileiro adverte, em nota de rodapé, para a possibilidade de lesão maligna palpebral em hordéolos recorrentes e blefarite crônica em pacientes idosos. Recorrência no mesmo ponto, perda de cílios naquele segmento, destruição da margem e blefarite unilateral que não responde a nada mudam a conduta de tratamento clínico para biópsia.
  7. 7Encerrar a dacriocistite aguda com antibiótico e alta O antibiótico resolve o episódio; a obstrução que o causou continua lá. Sem a programação da cirurgia definitiva de derivação lacrimal para depois da fase aguda, a recidiva é questão de tempo. E na fase aguda não se sonda, não se irriga e não se massageia vigorosamente uma via lacrimal infectada.
  8. 8Encaminhar sem foto e sem dizer o que a alteração impede Este protocolo, e só ele entre os de oftalmologia, exige anexar fotografias das alterações. Também exige informar se há comprometimento funcional ou obstrução do eixo visual e descrever o tratamento prévio realizado — é isso que separa o calázio refratário do calázio nunca tratado e a dermatocálase estética da que obstrui a visão.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O conteúdo descritivo mínimo desse protocolo tem seis itens: sinais e sintomas com descrição da alteração, tempo de evolução e recorrência; anexar fotografias das alterações; informar se há comprometimento funcional ou obstrução do eixo visual e descrevê-lo; descrever tratamento prévio realizado; anexar laudo de imagem em caso de doença orbitária; e o número da teleconsultoria, se houver. A fotografia é o item que distingue este protocolo dos demais de oftalmologia, e a razão é prática: ptose, ectrópio, dermatocálase e lesão de margem são diagnósticos visuais, e a descrição em texto não permite priorizar a fila. Campimetria pertence ao protocolo de glaucoma, e topografia corneana ao de superfície ocular e córnea. Medida da pressão intraocular não integra a lista deste protocolo. E cultura de secreção conjuntival não tem indicação em ptose progressiva sem secreção — o dado que ainda faria falta, além da foto, é dizer se a pálpebra obstrui o eixo visual.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Desenhe de memória o caminho da lágrima, do ponto lacrimal ao meato inferior, e marque onde passa o tendão cantal medial. Ao lado, escreva o que é a lista de diagnósticos abaixo da linha e o que é a lista acima dela. Depois recite as duas listas do protocolo brasileiro: o que vai hoje para a emergência e o que espera a fila.

em 30 dias

Reconstrua a tabela inteira sem consultar. Em seguida responda, em uma frase cada: por que a sondagem serve ao lactente e não ao adulto; qual é a tríade que faz suspeitar de glaucoma congênito na criança que lacrimeja; quais achados no nódulo palpebral do idoso trocam tratamento clínico por biópsia; e quais são os seis itens do conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, incluindo o que só este protocolo pede.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 62 anos chega ao pronto-socorro segurando o canto interno do olho esquerdo, com a pálpebra inchada e a pele vermelha. Diz que começou há três dias, que a dor não passa com remédio nenhum e que teve febre na noite passada. Conta que esse olho lacrimeja há mais de um ano e que nunca deu importância. Tentou espremer a lesão em casa e saiu pus. Colha a história, examine a região e o olho procurando o que separa a infecção anterior ao septo da que entrou na órbita, defina a conduta imediata e explique a ela por que o lacrimejamento antigo e a infecção de agora são a mesma coisa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Vias lacrimais e pálpebras: a linha do tendão cantal medial decide a porta — Preparatório para provas | OsceLabs