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Complicações das fraturas: o osso que não colou, o que colou torto e o que morreu

Retardo, pseudoartrose, consolidação viciosa e necrose

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 44 anos, tabagista, com fratura exposta IIIB de tíbia tratada há 9 meses, mantém dor ao apoio e ausência de consolidação radiológica. O principal fator de risco modificável para esse desfecho é:

02

Como esse tema cai

Uma fratura tratada pode terminar de três maneiras ruins, e cada uma tem uma pergunta própria. Ela pode não consolidar, e a pergunta é por que — se faltou estabilidade, se faltou biologia, ou se existe infecção escondida. Ela pode consolidar fora do eixo, e a pergunta é se aquele desvio produz limitação funcional ou apenas incomoda quem lê a radiografia. E ela pode consolidar num osso cujo fragmento proximal perdeu a irrigação, e aí a pergunta é quando o colapso vai chegar.

As três aparecem meses depois, num paciente que já foi tratado e que muitas vezes já recebeu alta. Isso muda a natureza do atendimento: o médico que recebe esse paciente não está diagnosticando uma fratura, está auditando um tratamento — o que exige reconstituir o que foi feito, quando, com qual dispositivo, e o que o paciente fez com aquele membro no intervalo.

O eixo do capítulo é a leitura do calo. Um foco com calo abundante e sem ponte cortical não é um osso que está quase colando: é um osso cuja biologia funciona e cuja mecânica falhou, e essa leitura decide o tratamento. Um foco sem calo nenhum é o contrário. Saber essa inversão, e saber que nenhuma das duas leituras vale antes de afastar infecção, é o que separa quem conduz de quem encaminha sem saber para quê.

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O que muda decisão

O relógio e a ausência de progressão

A definição mais citada de não consolidação combina duas condições: a fratura tem pelo menos nove meses de evolução e não apresenta sinais radiográficos de progressão para a consolidação por três meses consecutivos. Repare que são duas exigências, e que a segunda é a que carrega o conteúdo clínico: o que caracteriza a falha não é o tempo passado, é a ausência de movimento na direção certa.

A definição nasceu para uniformizar critérios de inclusão em estudos de dispositivos, e essa origem explica a sua rigidez. Ela é uma régua administrativa útil e uma régua clínica pobre, porque trata todos os ossos como iguais. Uma tíbia sem qualquer progressão aos seis meses já é um problema estabelecido; um úmero pode consolidar depois disso; e uma criança consolida em prazos que tornariam a régua absurda.

Ao lado dela existe o retardo de consolidação, que é a fratura que passou do prazo esperado para aquele osso mas ainda mostra progressão entre um exame e o seguinte. A diferença entre os dois não é semântica: no retardo, corrigir os fatores contribuintes e proteger o foco pode bastar; na falha estabelecida, esperar mais é perder tempo, porque o processo parou.

A pergunta operacional, portanto, não é quantos meses se passaram. É se existe diferença entre a radiografia de hoje e a de dois meses atrás, e se ela vai na direção da ponte óssea. Por isso o seguimento precisa de exames comparáveis — mesma incidência, mesmo posicionamento — e por isso um único filme, isolado, raramente responde à pergunta.

Foi essa insuficiência que motivou propostas de pontuação que combinam características do osso, da lesão de partes moles e do hospedeiro para estimar a dificuldade esperada do tratamento. A lógica delas é a que interessa aqui, mesmo que os pontos não sejam decorados: o prognóstico de uma falha de consolidação depende de qual osso, de quanto tecido mole restou ao redor e de quem é o paciente.

Calo abundante e calo ausente: a leitura que decide

A classificação que muda a conduta separa os focos pela atividade biológica que eles demonstram. No padrão com calo exuberante — massa óssea abundante ao redor do foco, com bordas alargadas, e ainda assim sem ponte cortical atravessando —, o osso está claramente tentando: há células, há vascularização, há formação de matriz. O que faltou foi estabilidade, e o movimento repetido no foco impediu a ponte de se completar.

No padrão sem calo, com extremidades afiladas, escleróticas e um vão entre elas, o osso não está tentando. Aí a falha é biológica: pode ser desvascularização por trauma de alta energia, por descolamento excessivo do periósteo na cirurgia, por perda óssea, ou por condição do hospedeiro que impede a resposta. Existe ainda um padrão intermediário, com pouco calo, em que os dois componentes contribuem.

A leitura inverte a intuição do paciente e, com frequência, a do médico que vê a radiografia pela primeira vez. Calo grande parece boa notícia e não é: ele mede a instabilidade, porque o osso responde ao movimento formando mais calo periférico na tentativa de aumentar o braço de alavanca. Quanto mais calo sem ponte, mais evidente é que o foco se mexe.

Daí sai o tratamento, e ele é quase dedutível. O padrão com calo abundante precisa de estabilidade: fixação rígida, com compressão do foco quando possível, e frequentemente sem necessidade de abrir o foco nem de acrescentar enxerto. O padrão sem calo precisa de biologia — decorticação, enxerto ósseo, restabelecimento do leito vascular — somada à estabilidade, porque estabilizar um foco que não tem células não produz osso.

Três painéis com o mesmo osso longo em corte longitudinal. À esquerda, extremidades separadas por linha fina envolvidas por massa volumosa e irregular, sem faixa contínua atravessando o foco. No meio, extremidades afiladas e escleróticas separadas por vão vazio, sem massa ao redor. À direita, extremidades em contato com faixa contínua unindo as corticais e contorno externo liso.
Os dois padrões que decidem o tratamento, e o desfecho desejado. À esquerda, o foco com calo exuberante e sem ponte cortical: há células, vascularização e formação de matriz, e o que faltou foi estabilidade — o calo mede o movimento, e o tratamento é fixação rígida com compressão. No meio, o foco sem calo, com extremidades afiladas e escleróticas separadas por um vão: a falha é biológica, e a estabilidade sozinha não produz osso, sendo necessário acrescentar decorticação, enxerto e leito vascular. À direita, a ponte cortical contínua que define a consolidação e que a tomografia procura quadrante por quadrante.

O que o osso precisa para colar, item por item

Uma formulação bastante usada organiza a consolidação em elementos que precisam estar presentes ao mesmo tempo: células com capacidade osteogênica, matriz que sirva de arcabouço para elas, sinalização de crescimento que as recrute e as diferencie, e estabilidade mecânica que permita ao tecido novo maturar. Formulações posteriores acrescentaram a vascularização do leito e as condições do hospedeiro.

A utilidade dessa lista não é teórica: ela transforma o planejamento numa checagem. Diante de um foco que não consolidou, pergunte item por item qual está faltando. Se o calo é abundante, os três primeiros estão presentes e o quarto falhou. Se não há calo, a pergunta se desloca para células e vascularização — houve descolamento periosteal excessivo, houve perda óssea, o trauma foi de alta energia, o tecido mole ao redor está cicatricial.

O item do hospedeiro é o que mais se negligencia porque não aparece na imagem. Tabagismo, diabetes descompensado, desnutrição, deficiência de vitamina D com hiperparatireoidismo secundário, uso de corticoide, insuficiência renal e idade avançada compõem um terreno em que a mesma cirurgia tem desempenho diferente. Nenhum deles é contraindicação; todos são variáveis que se mede e, quando possível, se corrige antes.

Por isso o preparo de uma reoperação por falha de consolidação inclui exames que parecem fora do assunto: cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, vitamina D, paratormônio, função tireoidiana, albumina e glicemia. Encontrar deficiência de vitamina D com paratormônio elevado num paciente que não consolidou não é achado incidental — é um item da lista que estava faltando e que se corrige por via oral.

Antes de qualquer plano: este foco está infectado?

Toda falha de consolidação é infectada até que se demonstre o contrário, e essa frase não é retórica: o tratamento das duas é diferente do começo ao fim. Numa falha asséptica, o objetivo é estabilizar e biologizar num tempo cirúrgico. Numa falha infectada, o objetivo é erradicar a infecção — desbridamento, remoção do material colonizado, antibiótico guiado por cultura, muitas vezes em mais de um tempo — antes de pensar em consolidação.

As pistas clínicas clássicas são pouco sensíveis. Fístula, drenagem de secreção, eritema e febre fecham o diagnóstico quando estão presentes, e a maioria dos casos não os tem. História de fratura exposta, de cirurgia prévia com complicação de ferida, de antibiótico prolongado no pós-operatório, e de dor desproporcional e contínua, que não melhora com o repouso, pesa mais do que o exame físico.

Os exames laboratoriais têm o mesmo problema: proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação normais não afastam infecção de baixa virulência, e alteradas não a confirmam. A cintilografia com leucócitos marcados acrescenta informação quando a dúvida persiste, com limitações próprias. Nenhum desses recursos substitui o que decide.

O que decide é a coleta de culturas no intraoperatório, em múltiplas amostras de tecido do próprio foco, obtidas antes da administração do antibiótico profilático e enviadas com solicitação de incubação prolongada, porque agentes de baixa virulência crescem devagar. Somam-se as amostras para exame anatomopatológico. Essa coleta se faz mesmo quando tudo indica que o foco é limpo — e é justamente aí que ela rende, porque uma parcela dos focos considerados assépticos devolve crescimento bacteriano.

O paciente também trata: os fatores que se corrigem

O tabagismo é o fator modificável de maior peso. Revisão sistemática de desfechos após fratura mostra aumento de complicações de consolidação e de infecção em fumantes, e o efeito é observado tanto no tratamento inicial quanto nas reoperações. O mecanismo combina vasoconstrição, redução da oferta de oxigênio ao foco e interferência na atividade celular do reparo.

Isso muda a conversa pré-operatória. Dizer que fumar faz mal é inútil; dizer que a chance de o osso colar depois da próxima cirurgia cai de forma importante se ele continuar fumando é informação clínica sobre o próprio procedimento, e é o argumento que costuma funcionar. Ofereça encaminhamento a programa de apoio, e não apenas a recomendação.

O uso crônico de anti-inflamatório não esteroidal entra na mesma conversa com uma nuance que o candidato precisa dominar, porque a literatura não é unânime — o assunto reaparece adiante. Na prática, num paciente que já falhou em consolidar, retirar o anti-inflamatório de uso diário e substituí-lo por outra analgesia é medida de baixo custo e baixo risco.

Complete a lista com o que se mede: controle glicêmico, estado nutricional com albumina, vitamina D e paratormônio, função tireoidiana e adequação do aporte de cálcio. Some as condições que o paciente não escolheu — insuficiência renal, uso de corticoide por doença de base, radioterapia prévia no segmento — e que mudam a expectativa sem mudar a indicação.

Há ainda o fator comportamental que a história costuma revelar e o prontuário costuma omitir: abandono precoce da imobilização, retorno prematuro à carga ou ao trabalho pesado, e ausência de seguimento. Perguntar isso sem tom de acusação é o que permite corrigir a mesma falha depois da nova cirurgia — e uma reoperação impecável seguida do mesmo comportamento produz o mesmo resultado.

Como se prova que consolidou

A radiografia é o exame de seguimento, e ela avalia a consolidação pela presença de ponte óssea atravessando o foco em cada cortical visível na incidência. A leitura sistemática que se popularizou soma o comportamento de cada cortical — presença de calo e visibilidade da linha de fratura — nas duas incidências, produzindo um escore que serve para comparar exames ao longo do tempo e reduzir a subjetividade entre observadores.

O limite da radiografia é geométrico: ela mostra as corticais tangenciais ao feixe e esconde as outras, e a sobreposição do material de síntese piora isso. Dois observadores olhando o mesmo filme discordam com frequência sobre se há ponte, e essa discordância é a razão de a decisão de reoperar não se apoiar num único exame.

A tomografia é o que responde quando a decisão é essa. Ela avalia a cortical quadrante por quadrante e permite dizer em quantos dos quatro existe ponte óssea contínua, além de mostrar a interposição de tecido fibroso no foco e medir a falha. É o exame que transforma a impressão de que não consolidou em um dado que sustenta a indicação cirúrgica.

A ressonância não é o exame para julgar ponte óssea, e entra por outra pergunta: coleção, edema medular sugestivo de infecção, avaliação de partes moles. E o exame clínico continua valendo mais do que se costuma admitir: dor à palpação do foco, dor à compressão axial e mobilidade anormal detectável ao exame são sinais de que aquele osso não está consolidado, qualquer que seja o laudo.

O implante também falha, e a falha dele conta uma história

Todo material de síntese trabalha emprestado: ele suporta a carga enquanto o osso não a assume de volta. Metal não cansa por uso normal em prazos curtos, mas cansa por ciclos repetidos quando o osso nunca passa a dividir o esforço. Por isso a quebra de uma placa ou de um parafuso, meses depois, quase nunca significa que o implante era ruim — significa que o osso embaixo dele não consolidou e o metal ficou sozinho até romper.

A leitura dos sinais no filme é direta e vale treinar. Halo radiotransparente ao redor de um parafuso indica micromovimento naquele ponto e perda de ancoragem. Migração do implante, com mudança de posição entre exames sucessivos, indica que a fixação perdeu apoio ósseo. Deformação ou fratura do material indica ciclos de carga acumulados sem partilha. Nenhum desses achados é o problema em si: os três são o problema anterior, que é a falha de consolidação, tornado visível.

Isso muda a sequência do raciocínio diante de um paciente que retorna com dor e um implante quebrado. A pergunta não é qual placa mais forte usar, e sim por que a primeira ficou sozinha: faltou estabilidade desde o início, faltou biologia, ou existe infecção corroendo a interface entre o osso e o metal. Trocar o material sem responder a essa pergunta reproduz o mesmo desfecho num prazo parecido.

Há também a situação inversa, menos intuitiva: fixação excessivamente rígida em foco com vão, em que o metal absorve toda a carga e o osso, protegido do estímulo mecânico, não recebe o sinal para remodelar. O resultado é osso que rarefaz sob a placa e um foco que permanece aberto sem que nada esteja quebrado. É a razão pela qual estabilidade absoluta e contato entre os fragmentos precisam vir juntos.

Do ponto de vista prático, ao receber esse paciente, peça exames seriados e compare a posição do implante entre eles, meça o halo ao redor dos parafusos, procure descontinuidade do material e registre tudo por escrito. Essas três observações, somadas ao padrão de calo, entregam ao cirurgião quase todo o planejamento antes mesmo da tomografia.

Consolidação viciosa: qual desvio vira doença

O osso pode consolidar fora do alinhamento em três dimensões, e elas não pesam igual. O desvio angular altera o eixo mecânico e transfere carga para um compartimento articular; o encurtamento cria discrepância de comprimento, tolerada até certo ponto nos membros inferiores e quase indiferente nos superiores; e o desvio rotacional é o menos tolerado, porque as articulações vizinhas não o compensam e ele altera a orientação da mão ou do pé no espaço.

A tolerância varia enormemente entre segmentos, e o exemplo mais didático é a diáfise umeral. Graças à amplitude do ombro, ela aceita desvios que seriam inaceitáveis em outro lugar: angulação anterior de até cerca de vinte graus, desvio em varo ou valgo de até cerca de trinta graus e encurtamento de até cerca de três centímetros costumam ser compatíveis com função normal e aparência aceitável. É por isso que o tratamento conservador com órtese funcional continua sendo opção legítima nesse osso.

No membro inferior a régua é mais estreita, porque o eixo mecânico determina a distribuição de carga no joelho e no tornozelo, e desvio residual acelera a degeneração articular ao longo de anos. E na coxa e na perna a rotação incorreta produz queixa imediata de marcha e de posicionamento do pé, mesmo com o osso consolidado e sem dor no foco.

A consequência prática é que o desvio se mede pelo que ele custa, e não pelo que ele parece. Um paciente com angulação de vinte e cinco graus no úmero que trabalha, veste-se e não tem dor não tem indicação de osteotomia. Um paciente com dez graus de rotação interna residual no fêmur que tropeça e não consegue correr pode ter.

Por isso a avaliação inclui, além da radiografia: medida do comprimento dos dois membros, avaliação do arco de movimento das articulações acima e abaixo, teste funcional específico da queixa, e a pergunta direta sobre o que ele deixou de fazer. Quando a decisão é corrigir, o planejamento se faz por imagem que permita medir a rotação com precisão, o que a radiografia simples não oferece.

Osteonecrose pós-traumática: onde uma artéria só decide tudo

A necrose óssea pós-traumática não acontece em qualquer lugar: ela se concentra em regiões cuja irrigação chega em sentido retrógrado, isto é, de distal para proximal, atravessando ou contornando o local onde a fratura ocorre. Quando o traço interrompe esse trajeto, o fragmento proximal fica sem aporte e morre, mesmo que a fratura consolide.

A lista é curta e vale decorar. A cabeça femoral, nutrida por ramos que sobem pelo colo, é a razão pela qual a fratura intracapsular do colo carrega esse risco. O polo proximal do escafoide, que recebe sangue por vasos que entram na porção distal do osso. O corpo do tálus, com boa parte da superfície coberta por cartilagem e pouco espaço para entrada vascular. A cabeça umeral, dependente de um ramo ascendente. E o semilunar, com padrão vascular variável.

A apresentação é tardia e insidiosa: dor articular progressiva meses depois de uma fratura que parecia resolvida, com perda de amplitude e piora aos movimentos que carregam a superfície acometida. Radiografia inicialmente normal, depois com esclerose e rarefação, depois com uma linha subcondral que denuncia a fratura sob a cartilagem, e por fim com achatamento da superfície.

O estadiamento mais usado organiza justamente essa sequência: alteração detectável apenas por ressonância, com radiografia normal; alteração radiográfica sem colapso; fratura subcondral e colapso da superfície; e artrose secundária com acometimento do outro lado da articulação. A fronteira que decide o tratamento é o colapso: antes dele, procedimentos que preservam a articulação são discutíveis; depois dele, a conversa migra para a substituição articular.

Isso torna o diagnóstico precoce clinicamente relevante e não apenas acadêmico. Paciente com fratura em sítio de risco que retorna com dor articular progressiva e radiografia normal merece ressonância, porque é nessa janela que ainda existe algo a preservar.

O plano de tratamento, deduzido do defeito

Reunindo as peças, o plano de uma falha de consolidação se escreve em quatro decisões encadeadas. A primeira é a infecção: afastada por história, exame, laboratório e — sobretudo — pela cultura intraoperatória, ou tratada primeiro quando presente. A segunda é o defeito predominante: mecânica, biologia, ou ambas, lida pelo padrão de calo.

A terceira decisão é o método de estabilização, e ela pertence ao cirurgião: fixação com placa em compressão, substituição por dispositivo intramedular, fixação externa em situações de perda óssea ou de infecção, e as técnicas de transporte ósseo quando há falha segmentar. O que o generalista precisa saber é o princípio — o foco tem de parar de se mexer — e o vocabulário suficiente para explicar ao paciente o que vai ser feito.

A quarta decisão é o suporte biológico, quando indicado: enxerto autólogo, que continua sendo a referência por reunir células, matriz e sinalização; substitutos ósseos; e as técnicas que estimulam a resposta local. A escolha depende do tamanho da falha e da qualidade do leito.

Em paralelo, corrija o que está fora do osso: cessação do tabagismo com apoio, retirada do anti-inflamatório de uso crônico, correção de vitamina D e de cálcio, suporte nutricional e controle glicêmico. E programe a reabilitação das articulações vizinhas, que passaram meses imobilizadas e frequentemente estão rígidas — no membro superior, ombro e cotovelo costumam ser a parte mais demorada da recuperação.

Por fim, ajuste a expectativa. O tratamento de uma falha de consolidação é longo, pode exigir mais de um procedimento e não garante retorno à função anterior. Dito antes, isso constrói adesão; dito depois de um resultado parcial, soa a desculpa — e a diferença entre as duas conversas é a mesma em todas as complicações tardias reunidas aqui.

A audição do caso: o que reconstituir e o que escrever

O paciente com complicação tardia chega com uma história fragmentada, e reconstituí-la é metade do atendimento. Registre: mecanismo e energia do trauma inicial, se houve ferida aberta na ocasião, qual tratamento foi realizado e quando, qual dispositivo foi usado, se houve complicação de ferida ou uso prolongado de antibiótico, por quanto tempo a imobilização foi mantida e quando a carga foi retomada.

Acrescente o que o paciente fez no intervalo: quando voltou a trabalhar, se abandonou o dispositivo antes do prazo, se usou anti-inflamatório por conta própria e por quanto tempo, se fuma e quanto, e se houve perda de peso. Cada um desses itens é um fator que se corrige e que, sem a pergunta, não aparece.

Do exame, registre o que decide: dor à palpação do foco, dor à compressão axial, mobilidade anormal no foco, estado da pele e cicatrizes, medida comparativa do comprimento dos membros, arco de movimento das articulações acima e abaixo, e — no membro superior — o exame do nervo que corre junto ao osso acometido, cuja função precisa estar documentada antes de qualquer reoperação.

No encaminhamento, escreva a hipótese com o padrão que a imagem mostra — foco com calo abundante e sem ponte cortical, ou foco sem calo com extremidades escleróticas —, o tempo decorrido desde a fratura, a comparação entre exames sucessivos, os resultados de provas inflamatórias e da investigação metabólica, e os fatores do hospedeiro que já estão sendo corrigidos. Anexe as imagens seriadas, e não apenas a mais recente.

E separe o que não espera. Sinais de infecção ativa com repercussão sistêmica, déficit neurológico novo no membro, e dor com piora rápida acompanhada de sinais inflamatórios não pertencem à fila eletiva de revisão — e escrever isso com todas as letras é o que muda a data da consulta.

04

As réguas, lado a lado

Quatro decisões, nessa ordem: há infecção; qual defeito predomina, mecânico ou biológico; o que no hospedeiro se corrige antes; e o que a articulação vizinha vai cobrar. O tempo decorrido dimensiona o problema e não o define — quem define é a ausência de progressão entre exames comparáveis.

  1. 1Paciente com dor persistente no foco meses após uma fratura tratada: reconstitua o tratamento inicial, o dispositivo usado, o tempo de imobilização e quando a carga foi retomada.
  2. 2Compare radiografias seriadas na mesma incidência. Ausência de progressão para a ponte óssea entre exames sucessivos define a falha; progressão lenta, mas presente, é retardo de consolidação.
  3. 3Rastreie infecção: fratura exposta prévia, complicação de ferida, antibiótico prolongado, dor contínua desproporcional, fístula ou drenagem. Provas inflamatórias normais não afastam.
  4. 4Leia o padrão de calo na imagem. Calo abundante sem ponte cortical aponta falha de estabilidade; extremidades afiladas e escleróticas com vão e sem calo apontam falha biológica.
  5. 5Solicite tomografia quando a decisão de reoperar depender de saber se há ponte óssea: ela avalia a cortical quadrante por quadrante e mostra a interposição fibrosa.
  6. 6Investigue o hospedeiro: glicemia e hemoglobina glicada, albumina, cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, vitamina D, paratormônio e função tireoidiana.
  7. 7Corrija o modificável antes de operar: cessação do tabagismo com encaminhamento a programa de apoio, retirada do anti-inflamatório de uso crônico, reposição de vitamina D e suporte nutricional.
  8. 8Documente a função do nervo que acompanha o osso acometido antes de qualquer reoperação — no úmero, o nervo radial.
  9. 9Programe a coleta de múltiplas culturas intraoperatórias com incubação prolongada, antes do antibiótico profilático, mesmo no foco que parece asséptico.
  10. 10Foco com falha mecânica: estabilização rígida com compressão, frequentemente sem necessidade de enxerto. Foco com falha biológica: decorticação, enxerto e leito vascular, somados à estabilidade.
  11. 11Consolidação viciosa: meça o desvio nos três planos, o comprimento comparativo dos membros e o arco de movimento das articulações vizinhas, e decida pela repercussão funcional, não pelo ângulo isolado.
  12. 12Lembre a tolerância do segmento: a diáfise umeral aceita angulação e encurtamento que seriam inaceitáveis no membro inferior; desvio rotacional é o menos tolerado em qualquer segmento.
  13. 13Dor articular progressiva meses após fratura em sítio de irrigação retrógrada — colo femoral, polo proximal do escafoide, corpo do tálus, cabeça umeral, semilunar — com radiografia normal: solicite ressonância.
  14. 14Na osteonecrose, a fronteira que decide o tratamento é o colapso da superfície articular: antes dele cabem procedimentos que preservam a articulação; depois dele a conversa migra para substituição articular.
  15. 15Não pertencem à fila eletiva: infecção ativa com repercussão sistêmica, déficit neurológico novo no membro e piora rápida com sinais inflamatórios.

O padrão do foco diz qual elemento faltou

O que a imagem mostraO que faltouO que o tratamento precisa acrescentar
Calo abundante ao redor, sem ponte corticalEstabilidade mecânicaFixação rígida com compressão; enxerto em geral dispensável
Extremidades afiladas e escleróticas, vão sem caloCélulas e vascularizaçãoDecorticação, enxerto e leito vascular, somados à estabilidade
Pouco calo, com algum sinal de atividadeOs dois componentes, em graus variáveisEstabilidade somada a suporte biológico
Qualquer padrão em foco com história de ferida abertaA pergunta ainda não respondida sobre infecçãoCulturas intraoperatórias antes de qualquer plano de consolidação

Retardo, falha estabelecida e o que muda entre eles

Retardo de consolidaçãoFalha estabelecida
Comportamento entre examesHá progressão, ainda que lentaNenhuma progressão por meses consecutivos
RelógioPassou do prazo esperado para aquele ossoNove meses na definição regulatória mais citada
CondutaCorrigir fatores contribuintes e proteger o focoIntervir; esperar mais não muda o processo
Papel da tomografiaRaramente necessáriaDefine ponte cortical e sustenta a indicação

Sítios de irrigação retrógrada e o que a necrose custa

SítioPor que morreComo se apresenta
Cabeça femoralRamos que sobem pelo colo são cruzados pelo traço intracapsularDor inguinal progressiva com perda de rotação interna
Polo proximal do escafoideVasos entram pela porção distal do ossoDor radial do punho persistente após fratura tratada
Corpo do tálusSuperfície amplamente coberta por cartilagem, pouca entrada vascularDor e rigidez do tornozelo meses após a lesão
Cabeça umeralDependência de ramo ascendente interrompido no colo anatômicoDor e perda de elevação após fratura proximal
SemilunarPadrão vascular variável, com aporte por vezes únicoDor central do punho com perda de força de preensão

O que se mede no hospedeiro antes de reoperar

ItemPor que entra
Tabagismo, com quantificaçãoFator modificável de maior peso sobre consolidação e infecção
Uso crônico de anti-inflamatório não esteroidalRetirada de baixo custo e baixo risco em quem já falhou
Vitamina D e paratormônioDeficiência com hiperparatireoidismo secundário é corrigível por via oral
Albumina e estado nutricionalSubstrato para a síntese de matriz e para a cicatrização
Glicemia e hemoglobina glicadaDescontrole aumenta infecção e prejudica o reparo
Função tireoidianaDistúrbio não tratado interfere na remodelação

A definição regulatória de nove meses com três meses sem progressão nasceu para uniformizar estudos de dispositivos e trata todos os ossos como iguais; a régua clínica é por segmento e por hospedeiro.

Calo abundante sem ponte cortical mede instabilidade e não proximidade da consolidação — a leitura intuitiva é o contrário do que a imagem informa.

Provas inflamatórias normais não afastam infecção de baixa virulência; a cultura intraoperatória em múltiplas amostras com incubação prolongada é o que responde.

A radiografia mostra apenas as corticais tangenciais ao feixe e sofre com a sobreposição do implante; a tomografia é o exame que conta em quantos quadrantes há ponte.

O estadiamento da osteonecrose usa a fratura subcondral e o colapso como fronteira: é ela, e não o tamanho da lesão, que separa preservar de substituir a articulação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de quando uma fratura que não colou é falha estabelecida

Nove meses, com três meses sem progressão

A definição regulatória mais citada, adotada para o registro de dispositivos destinados ao tratamento dessa condição, exige que a fratura tenha pelo menos nove meses e não apresente sinais radiográficos de progressão por três meses consecutivos. É a régua que permite comparar séries entre si.

Definição regulatória da agência norte-americana de medicamentos e dispositivos para produtos indicados ao tratamento de falhas de consolidação.

Depende do osso, do tecido mole e do paciente

A proposta de pontuação que combina características do osso acometido, da lesão de partes moles e das condições do hospedeiro sustenta que o prognóstico e o momento da intervenção variam entre segmentos e entre pacientes, de modo que um prazo único aplicado a todos atrasa uns e apressa outros.

Calori GM, Phillips M, Jeetle S, Tagliabue L, Giannoudis PV. Classification of non-union: need for a new scoring system? Injury. 2008;39(Supl. 2):S59-S63.

Na prova

Repare no que o enunciado oferece. Se ele traz o par de números — nove meses e três meses sem progressão —, está cobrando a definição consagrada, e é ela que se marca. Se ele descreve um caso concreto, com o osso nomeado e a comparação entre exames sucessivos, o que se cobra é a leitura clínica: ausência de progressão em osso de consolidação esperada mais rápida já autoriza intervir antes dos nove meses. O elemento que aparece nas duas leituras é a ausência de progressão, e não o tempo isolado.

Anti-inflamatório não esteroidal atrapalha a consolidação óssea

Sim; há associação clínica com falha de consolidação

Coorte de fraturas de ossos longos encontrou taxa maior de falha de consolidação entre pacientes expostos a anti-inflamatório não esteroidal, achado coerente com o papel das prostaglandinas na fase inicial do reparo demonstrado em modelos experimentais.

Jeffcoach DR, Sams VG, Lawson CM, et al. Nonsteroidal anti-inflammatory drugs' impact on nonunion and infection rates in long-bone fractures. The Journal of Trauma and Acute Care Surgery. 2014;76(3):779-783.

A evidência disponível é de baixa qualidade

Revisão sistemática dedicada a avaliar a qualidade metodológica dos estudos sobre o tema concluiu que a literatura é predominantemente de baixo nível e sujeita a confusão por indicação — quem recebe mais analgésico costuma ter fratura mais grave —, de modo que a associação observada não estabelece a relação causal.

Marquez-Lara A, Hutchinson ID, Nuñez F Jr, Smith TL, Miller AN. Nonsteroidal Anti-Inflammatory Drugs and Bone-Healing: A Systematic Review of Research Quality. JBJS Reviews. 2016;4(3).

Na prova

A conduta prática é a mesma nas duas leituras, e é isso que se cobra: em paciente que já falhou em consolidar, retirar o anti-inflamatório de uso crônico e substituí-lo por outra analgesia custa pouco e arrisca pouco. O que muda é a linguagem. Enunciado que pede a força da evidência não aceita a afirmação de que está demonstrado que o medicamento causa a falha; enunciado que pede a conduta num caso de falha estabelecida espera a suspensão do uso crônico entre as medidas.

Coletar culturas no foco que parece asséptico

Sim, sempre e em múltiplas amostras

Estudo que comparou cultura convencional e métodos moleculares em focos considerados assépticos encontrou presença bacteriana em parcela relevante deles, sustentando que a ausência de sinais clínicos e de alteração laboratorial não exclui colonização, e que a coleta sistemática muda a conduta em parte dos casos.

Palmer MP, Altman DT, Altman GT, et al. Can we trust intraoperative culture results in nonunions? Journal of Orthopaedic Trauma. 2014;28(7):384-390.

Sim, mas o resultado positivo isolado não fecha diagnóstico

O mesmo campo registra o problema inverso: agentes de baixa virulência e da própria flora cutânea aparecem como contaminantes de amostra, e tratar toda cultura positiva como infecção expõe o paciente a antibioticoterapia prolongada e a procedimentos adicionais desnecessários. Daí a exigência de múltiplas amostras e da concordância entre elas e com o exame anatomopatológico.

Mesma referência, discussão sobre interpretação de resultados positivos e o papel de amostras múltiplas e de exame histopatológico concomitante.

Na prova

As duas posições concordam em coletar e divergem em como ler. O que se cobra costuma ser a coleta: enunciado que descreve reoperação de foco sem sinais inflamatórios espera que o candidato inclua as culturas intraoperatórias entre as medidas, e não que as dispense por o foco parecer limpo. Quando o enunciado traz uma única amostra positiva para agente de pele em paciente sem qualquer outro sinal, a leitura esperada é cautela, com valorização da concordância entre amostras.

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Caso resolvido

Homem de 47 anos, motorista, sofreu fratura da diáfise do úmero direito há dez meses, após queda de uma escada de dois metros, tratada de forma conservadora com órtese funcional. Abandonou o dispositivo antes do prazo prescrito e voltou a dirigir cedo. Persiste com dor no terço médio do braço ao usar o membro, sensação de que o osso se mexe e incapacidade de carregar peso, sem melhora nos últimos meses. Nega febre, drenagem de secreção, ferida aberta na ocasião do trauma e uso de antibiótico no período. Nega dormência da mão, queda do punho e dificuldade para estender os dedos. Usou anti-inflamatório quase diariamente por conta própria nos primeiros seis meses. Fuma um maço e meio por dia desde os dezesseis anos. Alimenta-se de forma irregular na estrada e perdeu peso no último ano. A radiografia mostra traço persistente no terço médio, com esclerose das extremidades e calo exuberante sem ponte cortical.
Estabelecer que o processo parou
Dez meses de evolução, dor ao uso, mobilidade percebida no foco e ausência de melhora nos últimos meses. Se houver imagens anteriores, compare-as com a atual na mesma incidência: o que define a falha não é o relógio isolado, é a ausência de progressão para a ponte óssea entre exames comparáveis.
Ler o padrão antes de pensar em técnica
Calo exuberante com esclerose das extremidades e sem ponte cortical: a biologia funciona — há células, vascularização e formação de matriz — e o que faltou foi estabilidade. O abandono precoce da órtese e o retorno à direção explicam o movimento repetido no foco. O tratamento aponta para fixação rígida com compressão, e não para acrescentar biologia.
Confirmar a leitura com o exame que conta quadrantes
Solicite tomografia do úmero para verificar em quantos dos quatro quadrantes corticais existe ponte óssea e se há interposição de tecido fibroso no foco. É esse dado que transforma a impressão radiográfica em indicação sustentada, porque a radiografia mostra apenas as corticais tangenciais ao feixe.
Fazer a pergunta que precede o plano
Não houve ferida aberta, não houve complicação de ferida, não houve antibiótico prolongado, não há fístula, drenagem, febre nem eritema. Solicite hemograma e provas inflamatórias sabendo que resultados normais não afastam infecção de baixa virulência, e considere cintilografia com leucócitos marcados se a dúvida persistir. Independentemente disso, programe culturas intraoperatórias em múltiplas amostras.
Documentar o nervo antes de qualquer coisa
O nervo radial acompanha a diáfise umeral. Registre extensão do punho e dos dedos, extensão e abdução do polegar e sensibilidade do dorso da mão, com o resultado escrito no prontuário. O paciente nega déficit, e negar não é o mesmo que ter sido examinado — esse registro precisa existir antes da nova cirurgia.
Medir o hospedeiro
Solicite vitamina D, cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, paratormônio, função tireoidiana, albumina e glicemia. Este paciente reúne tabagismo pesado, alimentação irregular com perda de peso e uso crônico de anti-inflamatório: três itens da lista, todos com correção possível antes da cirurgia.
Tratar o que não é osso
Cessação do tabagismo com encaminhamento a programa de apoio, apresentada como informação sobre o próprio procedimento — a chance de consolidar após a nova cirurgia cai de forma importante se ele continuar fumando. Suspensão do anti-inflamatório de uso diário com troca da analgesia. Correção da deficiência de vitamina D e suporte nutricional.
Encaminhar com o que sustenta a indicação
Encaminhamento à ortopedia com: mecanismo e data do trauma, tratamento realizado e abandono precoce do dispositivo, dez meses sem consolidação com a comparação entre exames, descrição do padrão — calo exuberante sem ponte cortical —, tomografia, exame neurológico documentado, fatores do hospedeiro já em correção e provas inflamatórias. Registre também a expectativa conversada: tratamento longo, possibilidade de mais de um procedimento, e reabilitação de ombro e cotovelo depois.
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Agora feche você

Homem de 34 anos, pedreiro, sofreu fratura exposta da diáfise da tíbia esquerda há treze meses em acidente de motocicleta, tratada com desbridamento e fixação. Evoluiu com deiscência parcial da ferida no primeiro mês, tratada com curativos e antibiótico por seis semanas. Persiste com dor ao apoiar o membro e não consegue trabalhar. Nega febre atual e nega drenagem, mas refere que a cicatriz 'abriu e fechou' duas vezes no primeiro semestre. Ao exame, cicatriz aderida com áreas de pele fina na face anteromedial da perna, dor à palpação do foco e à compressão axial, sem eritema e sem calor. A radiografia mostra traço persistente no terço médio, com extremidades afiladas e escleróticas separadas por um vão, sem calo ao redor, e material de síntese íntegro. Proteína C reativa de 6 mg/L e velocidade de hemossedimentação de 22 mm na primeira hora. Ele fuma um maço por dia e tem vitamina D de 12 ng/mL com paratormônio de 96 pg/mL.
Primeiro
Classifique a situação quanto ao tempo e à progressão, e diga por que este caso preenche a definição consagrada. Aponte qual das duas exigências dessa definição é a que carrega o conteúdo clínico.
Segundo
Leia o padrão que a radiografia mostra, nomeie qual elemento da consolidação está faltando e diga o que o tratamento precisa acrescentar além da estabilidade. Explique por que a leitura seria oposta se o foco tivesse calo abundante.
Terceiro
Diga qual é a pergunta que precede todo o planejamento neste paciente e enumere os elementos da história e do exame que a tornam obrigatória. Explique o que os valores laboratoriais apresentados permitem e não permitem concluir, e como essa pergunta é efetivamente respondida.
Quarto
Liste os fatores do hospedeiro presentes no caso e diga o que se faz com cada um antes da reoperação. Nomeie explicitamente o achado metabólico e o que ele significa.
Quinto
Descreva o plano em sequência, dizendo o que muda se as culturas intraoperatórias vierem positivas, e o que precisa constar do encaminhamento e da conversa com o paciente.
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler calo abundante como consolidação em andamento Massa óssea volumosa ao redor do foco, com bordas alargadas e sem ponte cortical atravessando, não é osso quase colado: é a resposta a um foco que se mexe. O calo periférico mede instabilidade. A leitura correta inverte a intuição e leva a um tratamento que dispensa enxerto na maioria das vezes, porque a biologia está funcionando — o que falta é fixação rígida.
  2. 2Contar apenas os meses e ignorar a comparação entre exames A definição consagrada tem duas exigências, e a que carrega o conteúdo clínico é a ausência de progressão por meses consecutivos. Fratura com sete meses e sem qualquer mudança entre três exames comparáveis é um processo parado; fratura com dez meses que mostra ponte se formando é um processo lento. Tratar as duas pelo relógio inverte as condutas.
  3. 3Descartar infecção porque as provas inflamatórias vieram normais Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação normais não afastam infecção de baixa virulência, e a maioria dos focos infectados não tem fístula, febre nem eritema. O que responde é a cultura intraoperatória em múltiplas amostras, colhida antes do antibiótico profilático e com incubação prolongada, somada ao exame anatomopatológico — e ela se colhe mesmo quando tudo indica que o foco é limpo.
  4. 4Indicar osteotomia pelo ângulo, sem medir o que ele custa A tolerância a desvio varia muito entre segmentos: a diáfise umeral aceita angulação e encurtamento que seriam inaceitáveis no membro inferior, graças à amplitude do ombro. Ângulo residual em paciente que trabalha, veste-se e não tem dor não é indicação. Já um desvio rotacional pequeno pode incapacitar, porque a articulação vizinha não o compensa — e ele não se mede bem na radiografia simples.
  5. 5Estabilizar um foco sem calo e esperar que baste Extremidades afiladas, escleróticas e separadas por um vão indicam que a resposta biológica está ausente. Acrescentar apenas rigidez a um foco sem células e sem leito vascular não produz osso, e a reoperação falha pelo mesmo motivo da primeira. O tratamento aí precisa somar decorticação, enxerto e restabelecimento do leito à estabilidade.
  6. 6Operar de novo sem tocar no tabagismo O tabagismo é o fator modificável de maior peso sobre consolidação e infecção após fratura, e o efeito persiste nas reoperações. A frase que funciona não é sobre saúde geral: é que a chance de o osso colar depois da próxima cirurgia cai de forma importante se ele continuar fumando. Encaminhar a programa de apoio faz parte do preparo cirúrgico, como o jejum e os exames.
  7. 7Não documentar a função nervosa antes de reoperar No membro superior, o nervo que corre junto ao osso acometido precisa ter a função registrada antes da nova cirurgia — no úmero, o radial, com extensão do punho e dos dedos e sensibilidade do dorso da mão. Sem esse registro, um déficit encontrado depois não tem como ser situado no tempo, com consequência clínica para a conduta e consequência óbvia fora dela.
  8. 8Esperar a radiografia mostrar necrose no sítio de risco Dor articular progressiva meses após fratura em região de irrigação retrógrada, com radiografia normal, é exatamente a janela em que ainda existe algo a preservar. A radiografia só se altera depois, e o colapso da superfície é a fronteira que fecha a porta dos procedimentos que preservam a articulação. Nessa situação a ressonância não é exame de exceção.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A nicotina prejudica a microcirculação e a atividade osteoblástica, e o tabagismo é consistentemente o fator modificável mais associado a retardo de consolidação e pseudoartrose — abordá-lo faz parte do tratamento, não é conselho acessório. Gravidade da lesão de partes moles, infecção e perda óssea também pesam, mas não são modificáveis pelo paciente. A fisioterapia com carga progressiva favorece a consolidação, e apontá-la como culpada inverte a relação.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas sem abrir o texto. As duas exigências da definição consagrada de falha de consolidação, e qual das duas carrega o conteúdo clínico. O que o calo abundante sem ponte cortical informa, e por que a leitura intuitiva erra. O que acrescentar no foco sem calo. O que responde à pergunta sobre infecção, e por que provas inflamatórias normais não bastam. O exame que conta ponte cortical quadrante por quadrante. Os cinco sítios de irrigação retrógrada. E a fronteira que separa preservar de substituir a articulação na osteonecrose.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Motorista com fratura de úmero tratada com órtese, dez meses depois com dor e mobilidade no foco, calo exuberante e sem ponte cortical: qual o defeito, qual o tratamento e o que você faz antes de encaminhar. Paciente com foco sem calo, extremidades afiladas e antecedente de fratura exposta: o que precisa ser respondido primeiro. Fratura de úmero consolidada com trinta graus de varo em paciente que trabalha e não tem dor: indica correção. Adulto jovem com dor no punho meses após fratura de escafoide tratada, radiografia sem consolidação: qual é o risco específico do polo proximal. E paciente com dor inguinal progressiva e radiografia normal um ano após fratura do colo: qual exame e por quê.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No próximo paciente que voltar meses depois de uma fratura dizendo que o osso não colou, faça três coisas antes de encaminhar. Peça as radiografias antigas e compare com a de hoje na mesma incidência: o que define a falha é a ausência de progressão, e um filme isolado não responde. Olhe o calo antes de olhar o traço — abundante e sem ponte significa que faltou fixação, ausente significa que faltou biologia, e essa leitura muda o que o cirurgião vai fazer. E examine o nervo que corre junto àquele osso, escrevendo o resultado no prontuário: no úmero, peça para ele estender o punho e os dedos. Depois da reoperação, esse registro não pode mais ser feito. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Complicações das fraturas: o osso que não colou, o que colou torto e o que morreu — Preparatório para provas | OsceLabs