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Lesões por sobrecarga no esporte: o osso quebra sem trauma, e a causa quase nunca está no osso

Fratura por estresse, sítios de risco e deficiência energética

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 32 anos, jogador de futebol, apresenta dor inguinal crônica ao esforço, sem hérnia palpável, com dor à palpação do tubérculo púbico e do anel inguinal superficial e piora com adução resistida do quadril. Qual é a hipótese diagnóstica?

02

Como esse tema cai

A lesão por sobrecarga não é um acidente: é uma conta que fecha no vermelho. Osso, tendão e músculo respondem à carga adaptando-se, e essa adaptação exige tempo. Quando a carga sobe mais rápido do que a capacidade de reconstruir, o tecido acumula microdano e a queixa aparece. Nada disso é traumático, e é justamente por isso que o paciente demora a procurar atendimento e o médico demora a acreditar.

O capítulo gira em torno da fratura por estresse porque ela é a que tem consequência mais grave e a régua mais clara. A decisão que se cobra tem três camadas: reconhecer o padrão de dor que sobe a escada, saber que a radiografia normal não encerra nada, e olhar o sítio — porque a mesma doença, no mesmo paciente, é repouso relativo num osso e cirurgia em outro.

A terceira camada é a que mais escapa e a que mais muda o desfecho. A carga que quebrou o osso pode ser só metade da explicação; a outra metade é a energia que o atleta não ingeriu e o eixo hormonal que se apagou por causa disso. Tratar o osso e devolver o paciente ao mesmo déficit energético é garantir a próxima fratura, e é por isso que a consulta inclui perguntas sobre alimentação e sobre ciclo menstrual que parecem estar fora do assunto e não estão.

03

O que muda decisão

Sobrecarga não é trauma: a conta entre carga e capacidade

Toda estrutura biológica submetida a carga responde em duas fases: primeiro sofre microdano, depois reconstrói mais resistente. É por isso que o treino funciona. O problema aparece quando o intervalo entre estímulos é curto demais para a fase de reconstrução, e o dano se acumula ciclo após ciclo. A lesão por sobrecarga é, então, um problema de ritmo, e não de intensidade absoluta.

No osso, essa dinâmica tem nome fisiológico. A carga repetida ativa a remodelação, que começa por reabsorver o osso danificado antes de depositar osso novo. Existe, portanto, uma janela em que a região está temporariamente mais frágil do que antes do estímulo. Repetir a carga dentro dessa janela é o mecanismo exato pelo qual a lesão progride, e explica por que a queixa costuma piorar justamente na semana em que o atleta insiste.

A consequência clínica é que a pergunta certa não é quanto ele corre, e sim o que mudou. Aumento rápido de volume ou de intensidade, troca de piso, calçado no fim da vida útil, retorno depois de um período parado, mudança de calendário de provas. Em quase todo caso existe uma mudança nas semanas que antecederam o início da dor, e encontrá-la é metade do tratamento — porque é a metade que o paciente controla.

Circula uma regra de bolso segundo a qual a progressão semanal de carga não deveria exceder cerca de dez por cento. Ela é útil como linguagem comum com o atleta e não tem sustentação experimental correspondente: não existe limiar validado que separe progressão segura de perigosa. Use-a como conversa, nunca como critério de conduta, e desconfie de enunciado que a trate como norma.

A dor que sobe a escada, e o dedo que aponta o ponto

A história da fratura por estresse é estereotipada e vale mais do que qualquer exame de primeira linha. A dor começa insidiosa, sem trauma, e aparece apenas no final do treino. Nas semanas seguintes ela antecipa: passa a surgir no meio do treino, depois no começo, depois durante a marcha comum e, por fim, em repouso — inclusive à noite. Cada degrau dessa escada corresponde a uma lesão mais avançada.

O segundo elemento é a topografia. Peça ao paciente que aponte onde dói com a ponta de um dedo. Na lesão óssea por estresse ele aponta sempre o mesmo ponto, com precisão de centímetros. Quando a resposta é uma área difusa que ele percorre com a palma da mão ao longo de vários centímetros da borda da tíbia, o quadro mais provável é a síndrome de estresse tibial medial, que tem tratamento e prognóstico distintos.

O exame confirma o que a história sugeriu. Palpe o ponto e procure dor bem localizada, com ou sem espessamento perceptível. Percuta o osso a distância do ponto doloroso, transmitindo a vibração pela diáfise: dor referida ao foco reforça a hipótese. Peça um salto em apoio unipodal: dor que impede ou limita o salto no membro acometido é achado simples e útil. Nenhum desses testes é definitivo isoladamente; juntos, com a história, sustentam a conduta antes da imagem.

Alguns elementos afastam a hipótese e precisam ser perguntados na mesma consulta: febre, sudorese noturna, perda de peso não intencional, dor óssea em outros sítios, massa palpável e dor que não guarda relação com a atividade. Esse conjunto desloca a investigação para causa tumoral ou infecciosa, e o preço de não perguntar é alto — o paciente jovem com dor óssea persistente é exatamente a apresentação em que um diagnóstico grave se disfarça de lesão esportiva.

A radiografia normal não encerra o caso

A radiografia simples é o primeiro exame, é barata e está disponível — e é pouco sensível no início. Nas primeiras semanas, o osso ainda não formou reação periosteal visível e o traço, quando existe, é incompleto e não atravessa a espessura da cortical. Uma proporção grande das lesões, portanto, tem radiografia normal exatamente quando o diagnóstico mais importaria.

Isso não a torna inútil. A radiografia serve para excluir outras coisas — lesão lítica, esclerose suspeita, deformidade — e, mais tarde, para acompanhar a consolidação. Repeti-la após duas a três semanas às vezes revela a reação periosteal que não existia no primeiro filme. O que ela não pode é encerrar a investigação de um paciente cuja história é típica.

A ressonância magnética é o exame que hoje responde a pergunta. Ela mostra o contínuo da lesão: edema periosteal isolado nas fases iniciais, edema medular à medida que progride, e por fim o traço de fratura visível como linha hipointensa nas sequências ponderadas em T1 atravessando a cortical. Essa graduação, descrita a partir de corredores com sintomas tibiais, é o que permite dizer se o paciente tem reação de estresse ou fratura estabelecida — e o tempo de afastamento acompanha o grau.

A cintilografia óssea é muito sensível e pouco específica: capta em qualquer processo com remodelação aumentada, incluindo tumor, infecção e artropatia, e não distingue bem os estágios do contínuo. Ela mantém papel quando há suspeita de acometimento em múltiplos sítios ou quando a ressonância não está disponível. A tomografia entra depois, e com outra pergunta: ela avalia a cortical com detalhe, mede a falha e mostra se há ponte óssea — informação necessária quando se discute a consolidação de um sítio problemático.

Alto risco e baixo risco: o sítio decide o tratamento

A classificação que muda a conduta não é a de gravidade da imagem: é a do sítio. Ossos submetidos predominantemente a compressão, com boa vascularização e envelope muscular generoso, consolidam com repouso relativo e progressão de carga. Ossos submetidos a tração, com vascularização terminal ou pouco tecido mole ao redor, consolidam mal e evoluem para não consolidação, deslocamento ou refratura.

Fazem parte da lista de alto risco a cortical anterior da tíbia, a face superior do colo femoral, o maléolo medial, o navicular do tarso, a base do quinto metatarso na junção com a diáfise, os sesamoides do primeiro dedo do pé e a pars interarticularis da coluna lombar. Fazem parte da lista de baixo risco a face posteromedial da tíbia, a fíbula, o calcâneo, a diáfise dos metatarsos centrais, o sacro, as costelas e a diáfise umeral.

A diferença prática é grande. No sítio de baixo risco, a conduta é redução da carga com manutenção de atividade sem impacto, correção do fator desencadeante, controle da dor e retorno progressivo, com retomada em semanas. No sítio de alto risco, entra descarga efetiva — bota imobilizadora, muletas, às vezes ausência total de apoio —, seguimento por imagem, e discussão precoce de fixação cirúrgica quando não há sinal de consolidação.

Por isso a primeira frase do raciocínio, depois de suspeitar da lesão, é sempre a mesma: em qual osso, e em qual face desse osso. Duas fraturas por estresse da tíbia no mesmo corredor podem ter destinos opostos conforme estejam na cortical anterior ou na borda posteromedial.

Contorno esquemático do membro inferior e da pelve, com marcas circulares preenchidas sobre a face superior do colo femoral, a face anterior da tíbia, o maléolo interno, o navicular, a base do quinto metatarso e a região sob a cabeça do primeiro metatarso; e marcas vazadas sobre a borda posterointerna da tíbia, a fíbula, o calcâneo e as diáfises do segundo e terceiro metatarsos.
O mapa que decide a conduta. As marcas preenchidas assinalam sítios de alto risco de não consolidação — regiões submetidas a tração, com vascularização terminal ou pouco tecido mole ao redor —, em que a conduta inclui descarga efetiva, seguimento por imagem e discussão precoce de fixação. As marcas vazadas assinalam sítios de baixo risco, submetidos predominantemente a compressão e bem vascularizados, que consolidam com redução de carga, correção do fator desencadeante e retorno progressivo. Duas lesões na mesma tíbia têm destinos opostos conforme a face acometida.

A cortical anterior da tíbia: a face que traciona

A tíbia é o osso mais acometido nas séries clínicas de fratura por estresse, e as lesões nela se dividem em duas histórias diferentes. A grande maioria acomete a borda posteromedial, face de compressão, e se comporta como lesão de baixo risco. A minoria acomete a cortical anterior do terço médio, face de tração — e essa é uma das lesões que mais dá trabalho em toda a ortopedia esportiva.

A razão é mecânica. Na marcha e na corrida a tíbia sofre flexão, e a face anterior fica sob tração. Tração afasta as bordas do traço a cada ciclo, e osso que se separa não consolida. Some-se a vascularização relativamente pobre dessa região e o resultado é um traço que persiste por meses, com bordas escleróticas, sem ponte óssea.

O achado radiográfico correspondente é uma linha radiotransparente transversa e incompleta na cortical anterior, com espessamento periosteal ao redor. Ela é conhecida na literatura esportiva pelo apelido que descreve o que o cirurgião sente ao vê-la, e o que ela declara é objetivo: risco elevado de não consolidação e de fratura completa se a carga continuar.

A conduta muda de patamar. Suspensão da atividade de impacto, descarga com bota e muletas, correção agressiva dos fatores metabólicos e nutricionais, e seguimento por imagem com tomografia para avaliar a existência de ponte cortical. Diante de ausência de consolidação após meses de tratamento adequado, entra a discussão de fixação — tipicamente intramedular — com o cirurgião. Atleta com essa lesão que continua treinando é o cenário clássico da fratura completa da tíbia numa corrida.

O colo do fêmur, o navicular e os outros que não perdoam

No colo femoral, a face inferior, ou medial, é a de compressão, e a face superior, ou lateral, é a de tração. Lesão da face de compressão em paciente jovem e colaborativo pode ser tratada com descarga e seguimento estreito; lesão da face de tração tem indicação de fixação, porque a progressão para fratura completa e desviada nesse osso é catastrófica em qualquer idade — e no adulto jovem significa risco de necrose da cabeça femoral.

O sinal clínico é discreto e por isso perigoso: dor inguinal ou na face anterior da coxa em corredor, que piora com a atividade, com limitação e dor à rotação passiva do quadril nos extremos. Radiografia de bacia normal em corredor com esse quadro é indicação de ressonância, não de alta.

O navicular do tarso dói no dorso do meio do pé, num ponto que a literatura descreve como ponto central, e a radiografia é notoriamente pouco sensível ali. É lesão de alto risco, com conduta de descarga sem apoio por semanas e tomografia para avaliar a consolidação. Diagnóstico atrasado nesse osso significa meses adicionais de afastamento.

A base do quinto metatarso, na junção entre a metáfise e a diáfise, é a terceira armadilha frequente. Ali a vascularização é pobre, o traço consolida mal, e em atleta a fixação precoce é discussão legítima em vez de exceção. Não confunda essa lesão com a avulsão da tuberosidade, mais proximal, que consolida bem com tratamento conservador.

Completam a lista de alto risco o maléolo medial, os sesamoides do primeiro dedo e a pars interarticularis da coluna lombar — esta última em adolescentes de esportes com hiperextensão repetida, apresentando-se como lombalgia que piora à extensão e frequentemente tratada por meses como lombalgia mecânica comum.

A causa que não está no osso: energia que falta

Há um subgrupo em que a fratura por estresse não é consequência apenas da carga externa: é consequência da baixa disponibilidade energética. O conceito é simples e mensurável em princípio: energia ingerida menos energia gasta no exercício, relativa à massa magra. Quando essa sobra cai abaixo do necessário, o organismo reduz funções que considera dispensáveis — e a reprodução e a formação óssea estão entre as primeiras.

A consequência hormonal é uma supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com queda dos hormônios que sustentam a massa óssea. Na mulher isso aparece como amenorreia ou irregularidade menstrual sem outra causa; no homem, como queda da testosterona, redução da libido e alterações de desempenho, com apresentação menos evidente e por isso menos diagnosticada.

O quadro completo aparece em quem restringe alimentação para reduzir peso de prova, em esportes com componente estético ou por categoria de peso, e em quem simplesmente aumentou o volume de treino sem aumentar a ingestão. A pista mais barata está na anamnese: perda de peso intencional recente, restrição de grupos alimentares, treino em jejum, e — na mulher — quantos meses sem menstruar.

Perguntar isso exige cuidado. São temas em que julgamento fecha a conversa, e o atleta que se sente julgado esconde o que importa. A formulação que funciona é descritiva e sem valor moral: quanto você tem comido antes dos treinos longos, você mudou alguma coisa na alimentação nos últimos meses, quando foi a última menstruação. E, no homem, as mesmas perguntas com o mesmo cuidado — deixar de perguntar por ser homem é a razão pela qual esse diagnóstico demora mais nele.

A investigação laboratorial acompanha: hemograma, ferritina, vitamina D, cálcio, função tireoidiana e, na mulher com amenorreia, o eixo gonadal com dosagem de gonadotrofinas, estradiol e prolactina, além de excluir gestação antes de qualquer conclusão. A densitometria entra para medir a consequência óssea acumulada.

A densitometria no jovem: escore Z, e um corte que diverge

Em pessoa jovem, a densitometria óssea se lê pelo escore Z, que compara o resultado com a média esperada para a mesma idade e sexo, e não pelo escore T, construído sobre o adulto jovem de referência e destinado à avaliação após a menopausa. Aplicar escore T a uma atleta de vinte e dois anos é erro de leitura que produz um rótulo de osteoporose sem sentido clínico naquela faixa etária.

Sobre onde fica o corte, existe divergência declarada e ela tem consequência. A régua geral considera abaixo do esperado para a idade o escore Z igual ou inferior a menos dois. O consenso dedicado à atleta propõe corte mais exigente, na faixa de menos um, com o argumento de que o esporte de impacto deveria produzir massa óssea acima da média populacional, e não igual a ela — de modo que uma densidade apenas mediana num corredor já sinaliza algo errado.

A leitura prática que concilia as duas: em atleta de modalidade com impacto, um escore Z entre menos um e menos dois não é achado tranquilizador, e sim gatilho para investigar disponibilidade energética, função menstrual e ingestão de cálcio e de vitamina D. Abaixo de menos dois, com fratura por fragilidade ou por estresse associada, o quadro é de doença óssea estabelecida e o tratamento é do conjunto.

A densitometria não é exame de rastreamento indiscriminado no esporte. Ela se justifica diante de fratura por estresse, sobretudo em sítio de alto risco ou recorrente, de amenorreia com duração relevante, de história de transtorno alimentar, ou da combinação desses elementos. Pedir densitometria e não perguntar sobre alimentação é medir a consequência sem tocar na causa.

Nem toda dor de perna em corredor é fratura

A síndrome de estresse tibial medial é o diferencial mais frequente e o mais confundido. A dor é difusa, percorre vários centímetros ao longo da borda posteromedial da tíbia, costuma melhorar com o aquecimento e não se aponta com a ponta do dedo. Ela pertence ao mesmo contínuo de sobrecarga óssea, mas sem traço de fratura, e responde a redução de carga e correção de fatores mecânicos, com retorno bem mais rápido.

A síndrome compartimental crônica de esforço tem assinatura própria: a dor aparece de forma previsível depois de um tempo ou distância determinados de corrida, com sensação de pressão e às vezes parestesia, obriga a parar, e alivia em minutos com o repouso. Ao contrário da fratura por estresse, o exame em repouso é normal e a dor não é focal à palpação óssea.

As tendinopatias de sobrecarga — do tendão calcâneo, do tibial posterior, da fáscia plantar — doem no tendão ou na sua inserção, com espessamento palpável e dor à contração resistida do músculo correspondente, e não à percussão do osso a distância.

As duas hipóteses que não podem passar em branco são o tumor ósseo e a osteomielite subaguda. Dor noturna que não guarda relação com a atividade, sintomas sistêmicos, massa palpável, dor em mais de um sítio esquelético ou imagem com destruição óssea e massa de partes moles exigem investigação em outro trilho e com outra pressa. Adolescentes e adultos jovens são justamente a faixa em que essas doenças aparecem, e a história de esporte é a explicação conveniente que atrasa o diagnóstico.

Por fim, considere a fratura por insuficiência, que é a mesma mecânica com o vetor invertido: carga normal sobre osso anormal. Ela aparece no idoso, no paciente com uso prolongado de corticoide, na doença metabólica óssea e após radioterapia. Não é lesão esportiva, e o tratamento passa obrigatoriamente pela doença de base.

O retorno se ganha por critério, não por data

A pergunta que o atleta faz na primeira consulta é quando ele volta, e a resposta honesta é que a data não se estabelece na primeira consulta. O retorno é definido por critérios encadeados: ausência de dor à palpação do ponto e à percussão a distância, capacidade de caminhar e depois de saltar sem dor, sinais de consolidação compatíveis com o sítio, e correção documentada do fator desencadeante.

A progressão respeita a mesma lógica que produziu a lesão, agora ao contrário. Substitua o impacto por atividade sem carga — água, bicicleta, elíptico — para preservar condicionamento; reintroduza a caminhada, depois o trote alternado com caminhada, depois a corrida contínua em volume reduzido, e só então a intensidade. Dor que reaparece num degrau manda voltar ao anterior, não parar tudo.

Enquanto isso, trate o que não é osso. Fortalecimento de quadril e de tronco, correção de padrão de treino, calçado adequado à quilometragem, e — o mais importante quando existe déficit energético — acompanhamento nutricional que restabeleça a disponibilidade de energia, com retorno da função menstrual como um dos marcadores de sucesso.

Existe uma tentação previsível e ela precisa de nome: a data da prova. Atleta que negocia o retorno para chegar a uma competição específica é a apresentação em que a lesão de baixo risco vira de alto risco e a de alto risco vira cirúrgica. Levar a sério a meta esportiva e negociar um alvo mais distante, em vez de simplesmente proibir, é o que mantém o paciente em tratamento — quem apenas proíbe costuma perder o paciente para outro serviço e para a mesma decisão.

Documente por escrito o plano em degraus, com o critério de passagem de cada um. É o que permite ao próprio atleta conduzir a progressão entre as consultas, e é o que impede que a alta seja dada por telefone na véspera de uma competição.

O que escrever, e o que não pedir

No encaminhamento e no prontuário, três informações organizam tudo o que vem depois: o sítio exato da lesão, incluindo qual face do osso; o degrau em que a dor está na escada de progressão; e o que mudou na carga nas semanas anteriores ao início. Sem a face do osso, quem recebe o caso não consegue decidir entre repouso relativo e descarga com muletas.

Acrescente o que a investigação da causa já levantou: perda de peso, restrição alimentar, tempo de amenorreia, resultados de ferritina e de vitamina D, e se há densitometria com escore Z. Um encaminhamento que traz apenas a imagem devolve ao especialista a tarefa de refazer a anamnese inteira.

Do lado do que não se pede: cintilografia como primeiro exame em quadro localizado e típico, ressonância com contraste de rotina para lesão óssea por estresse, e repetição de radiografia a cada duas semanas na expectativa de ver algo que a radiografia dificilmente mostrará no prazo. Também não se pede tomografia para diagnosticar — ela responde outra pergunta, a da consolidação.

E, do lado do que não se faz: liberar retorno por data, prescrever anti-inflamatório continuado como estratégia para permitir treinar, e infiltrar o ponto doloroso. As três condutas têm em comum a supressão do sintoma que serve de freio, e um osso que dói menos e continua carregado é exatamente o osso que fratura por completo.

Vale um registro final que muda a conversa com o paciente: a lesão por estresse é, em regra, previsível e evitável, e o que a previne é a progressão gradual de carga somada à alimentação compatível com o treino. Dito na primeira consulta, esse par de frases transforma o afastamento de castigo em plano — e é o que sustenta a adesão nos meses seguintes.

04

As réguas, lado a lado

Três perguntas decidem o caso, nessa ordem. Em que degrau da escada a dor está. Em qual osso e em qual face dele. E de onde veio a carga que sobrou — do treino, da alimentação, ou dos dois. A imagem entra depois das três, e a data do retorno não entra nunca.

  1. 1Dor de início insidioso, sem trauma, em quem treina: pergunte se ela começou no fim do treino e se hoje aparece mais cedo, ou em repouso. A escada de progressão dimensiona a gravidade antes de qualquer exame.
  2. 2Peça que aponte o ponto com a ponta do dedo. Ponto único e reprodutível aponta lesão óssea por estresse; área difusa ao longo de vários centímetros da borda da tíbia aponta síndrome de estresse tibial medial.
  3. 3Palpe o ponto, percuta o osso a distância dele e peça um salto em apoio unipodal. Nenhum teste isolado fecha; o conjunto com a história sustenta a conduta.
  4. 4Pergunte o que mudou na carga: volume, intensidade, piso, calçado, retorno após pausa, calendário de provas.
  5. 5Pergunte sobre alimentação, perda de peso intencional, restrição de grupos alimentares e treino em jejum. Na mulher, a data da última menstruação; no homem, as mesmas perguntas, sem exceção.
  6. 6Rastreie sinais de alarme: febre, sudorese noturna, emagrecimento não intencional, dor em outros sítios ósseos, massa palpável, dor sem relação com a atividade.
  7. 7Solicite radiografia em duas incidências como primeiro exame, sabendo que ela é pouco sensível nas primeiras semanas e que resultado normal não afasta a hipótese.
  8. 8Com suspeita clínica e radiografia inconclusiva, a ressonância magnética é o exame que responde: separa reação de estresse de fratura estabelecida e orienta o tempo de afastamento.
  9. 9Classifique o sítio antes de prescrever. Alto risco: cortical anterior da tíbia, face superior do colo femoral, maléolo medial, navicular do tarso, base do quinto metatarso na junção com a diáfise, sesamoides do primeiro dedo e pars interarticularis lombar.
  10. 10Sítio de baixo risco: redução de carga com atividade sem impacto, correção do fator desencadeante, retorno progressivo em semanas.
  11. 11Sítio de alto risco: descarga efetiva com bota e muletas, seguimento por imagem, tomografia para avaliar ponte cortical e discussão precoce de fixação na ausência de consolidação.
  12. 12Investigue a causa metabólica e nutricional: hemograma, ferritina, vitamina D, cálcio, função tireoidiana; na mulher com amenorreia, eixo gonadal e exclusão de gestação.
  13. 13Densitometria diante de fratura por estresse em sítio de alto risco ou recorrente, amenorreia prolongada ou história de transtorno alimentar. Leia por escore Z, nunca por escore T.
  14. 14Encaminhe à nutrição esportiva e à ginecologia ou endocrinologia quando houver déficit energético, amenorreia ou massa óssea reduzida. Tratar só o osso garante a próxima fratura.
  15. 15Defina o retorno por critérios encadeados — ausência de dor à palpação e à percussão, marcha e salto sem dor, consolidação compatível com o sítio, fator desencadeante corrigido — e nunca pela data da competição.

A escada da dor, e o que cada degrau significa

Quando a dor apareceO que isso sugereO que fazer
Só no final do treino, cede com o repousoFase inicial do contínuo de sobrecargaReduzir carga e corrigir o fator desencadeante
No meio do treino, limita o desempenhoProgressão da lesãoSuspender o impacto e investigar por imagem
Durante a marcha comumLesão estabelecidaDescarga conforme o sítio e imagem obrigatória
Em repouso, inclusive à noiteLesão avançada, ou hipótese alternativaImagem imediata e rastreio de causa tumoral e infecciosa

Sítios: o mesmo diagnóstico, dois tratamentos

Alto risco de não consolidaçãoBaixo risco
Cortical anterior da tíbia (face de tração)Borda posteromedial da tíbia (face de compressão)
Face superior do colo femoralDiáfise da fíbula
Maléolo medialCalcâneo
Navicular do tarsoDiáfise dos metatarsos centrais
Base do quinto metatarso na junção com a diáfiseSacro e costelas
Sesamoides do primeiro dedo do péDiáfise umeral
Pars interarticularis lombarRamo púbico

Qual exame responde qual pergunta

ExamePara que serveLimite
Radiografia em duas incidênciasPrimeiro exame; exclui lesão lítica e acompanha consolidaçãoPouco sensível nas primeiras semanas; normal não afasta
Ressonância magnéticaSepara reação de estresse de fratura e gradua o contínuoDisponibilidade e custo; contraste não é rotina
Cintilografia ósseaSensível; útil na suspeita de acometimento múltiploPouco específica; capta em tumor, infecção e artropatia
Tomografia computadorizadaAvalia a cortical, mede a falha e mostra ponte ósseaResponde à consolidação, não ao diagnóstico inicial
Densitometria ósseaMede a consequência óssea acumuladaLer por escore Z no jovem; não é rastreio indiscriminado

Diferenciais de dor de perna em quem corre

HipóteseComo a dor se comportaAchado que separa
Fratura por estresseFocal, progressiva, apontada com a ponta do dedoDor à percussão a distância e ao salto unipodal
Síndrome de estresse tibial medialDifusa ao longo da borda posteromedial, melhora ao aquecerNão se aponta com um dedo; sem traço na imagem
Síndrome compartimental crônica de esforçoPrevisível após distância determinada, com pressão e parestesiaExame em repouso normal; alívio em minutos ao parar
Tendinopatia de sobrecargaNo tendão ou na inserção, à contração resistidaEspessamento palpável do tendão; osso indolor
Tumor ósseo ou osteomielite subagudaNoturna, sem relação com a atividade, progressivaSintomas sistêmicos, massa, destruição óssea na imagem

A regra prática de progressão de cerca de dez por cento por semana é linguagem de conversa com o atleta e não limiar validado de conduta.

No jovem, densitometria se lê por escore Z; escore T pertence à avaliação após a menopausa e produz rótulo sem sentido nessa faixa etária.

Anti-inflamatório continuado e infiltração do ponto doloroso suprimem o sintoma que serve de freio — um osso que dói menos e continua carregado é o que fratura por completo.

A amenorreia da atleta é diagnóstico de exclusão: gestação, hiperprolactinemia e disfunção tireoidiana entram na investigação antes de atribuí-la ao treino.

No homem, o déficit energético se manifesta por queda de testosterona, de libido e de desempenho, e demora mais a ser diagnosticado porque as perguntas deixam de ser feitas.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Como nomear e delimitar o quadro do atleta com déficit energético

Três componentes interligados, com estratificação própria

O consenso dedicado à atleta descreve a condição como três componentes que se relacionam entre si — disponibilidade energética, função menstrual e massa óssea —, cada um num espectro do saudável ao patológico, e oferece uma estratificação cumulativa de risco com critérios explícitos de liberação para o esporte.

De Souza MJ, Nattiv A, Joy E, Misra M, Williams NI, et al. 2014 Female Athlete Triad Coalition Consensus Statement on Treatment and Return to Play of the Female Athlete Triad. British Journal of Sports Medicine. 2014;48(4):289.

Síndrome ampla, nos dois sexos, com a energia na raiz

O consenso do comitê olímpico sustenta que a formulação de três componentes é estreita demais: a baixa disponibilidade energética repercute em imunidade, metabolismo, síntese proteica, saúde cardiovascular e psicológica, além do osso e da menstruação, e acomete também atletas do sexo masculino, que ficariam de fora de um conceito construído no feminino.

Mountjoy M, Sundgot-Borgen J, Burke L, et al. The IOC consensus statement: beyond the Female Athlete Triad — Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S). British Journal of Sports Medicine. 2014;48(7):491-497; atualizado em Br J Sports Med. 2023;57(17):1073-1097.

Na prova

As duas formulações concordam no essencial — a energia é a causa e o osso é a consequência — e divergem no recorte. Enunciado que descreve atleta do sexo feminino com amenorreia e fratura por estresse e pede o nome do conjunto cobra a formulação de três componentes. Enunciado que descreve atleta do sexo masculino, ou que enumera repercussões fora do eixo osso e menstruação, está pedindo a formulação ampliada. E enunciado que pergunta a conduta tem a mesma resposta nas duas leituras: restabelecer a disponibilidade energética.

Qual escore Z define massa óssea reduzida no atleta

Menos dois, como na população geral

A régua geral de leitura densitométrica no jovem considera abaixo do esperado para a idade o escore Z igual ou inferior a menos dois, aplicando o mesmo critério a atletas e a não atletas.

Prática densitométrica consolidada na avaliação de crianças, adolescentes e adultos jovens, em que o escore Z substitui o escore T e o corte de menos dois delimita o abaixo do esperado para a idade.

Menos um, porque o impacto deveria ter construído mais osso

O consenso dedicado à atleta propõe corte mais exigente, na faixa de menos um, com o argumento de que a prática de modalidade com impacto deveria produzir densidade acima da média populacional; densidade meramente mediana num corredor já indicaria falha de aquisição óssea.

De Souza MJ, Nattiv A, Joy E, Misra M, Williams NI, et al. 2014 Female Athlete Triad Coalition Consensus Statement. British Journal of Sports Medicine. 2014;48(4):289 — definição de baixa massa óssea em atletas.

Na prova

O ponto estável, e o que a pergunta costuma cobrar, é que no jovem se lê escore Z e nunca escore T. Sobre o corte, repare no contexto: enunciado que traz atleta de modalidade de impacto com fratura por estresse e escore Z entre menos um e menos dois quer que o candidato reconheça o valor como anormal para aquele contexto e investigue disponibilidade energética. Enunciado sobre população geral usa o corte de menos dois.

Qual exame vem depois da radiografia normal

Ressonância magnética

A ressonância mostra o contínuo da lesão — edema periosteal isolado, edema medular, e por fim o traço atravessando a cortical — e permite graduar o estágio, o que se traduz em tempo de afastamento. Não usa radiação ionizante e tem especificidade muito superior à da cintilografia.

Fredericson M, Bergman AG, Hoffman KL, Dillingham MS. Tibial stress reaction in runners. The American Journal of Sports Medicine. 1995;23(4):472-481 — graduação por ressonância correlacionada a sintomas e cintilografia.

Cintilografia óssea de três fases

A cintilografia foi historicamente o exame de escolha diante de radiografia normal, por sensibilidade muito alta e por varrer o esqueleto inteiro numa única aquisição, o que a mantém útil quando se suspeita de acometimento em múltiplos sítios ou quando a ressonância não está disponível no serviço.

Matheson GO, Clement DB, McKenzie DC, Taunton JE, Lloyd-Smith DR, MacIntyre JG. Stress fractures in athletes. A study of 320 cases. The American Journal of Sports Medicine. 1987;15(1):46-58 — série diagnosticada predominantemente por cintilografia.

Na prova

Quando o enunciado descreve dor localizada num sítio único com radiografia normal e pede o próximo exame, a resposta é ressonância. Quando o enunciado enfatiza indisponibilidade do método, suspeita de lesões em vários ossos ou contexto de rastreamento esquelético, a cintilografia volta à mesa. Note que sensibilidade alta não é o mesmo que utilidade: a cintilografia capta também em tumor, infecção e artropatia, e é essa inespecificidade que a tirou do primeiro lugar.

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Caso resolvido

Mulher de 22 anos, corredora amadora, procura atendimento por dor na face anterior da perna direita há seis semanas, de início insidioso durante uma corrida longa, sem trauma. A dor é bem localizada e ela a aponta sempre no mesmo ponto do terço médio da tíbia. No começo aparecia só no fim do treino; depois passou a aparecer no meio, depois durante a marcha e, nas últimas duas semanas, também em repouso à noite. Nega edema, calor, vermelhidão e febre. Aumentou o volume de treino de trinta para setenta quilômetros semanais em dois meses, passou a treinar em asfalto e usa o mesmo tênis há dezoito meses. Adotou restrição de carboidratos para reduzir o peso de prova, perdeu seis quilos em oito meses e treina sem comer antes. Está sem menstruar há dez meses, não usa contraceptivo hormonal e nega possibilidade de gestação. Nunca fez densitometria. A mãe tem osteoporose em tratamento.
Ler a escada antes de pedir exame
A dor percorreu os quatro degraus em seis semanas: fim do treino, meio do treino, marcha comum e repouso noturno. Isso já dimensiona a lesão como avançada e retira do horizonte a conduta de reduzir carga e reavaliar em um mês. A localização apontada com a ponta do dedo, sempre no mesmo ponto, afasta a dor difusa da síndrome de estresse tibial medial.
Fazer os dois testes que custam nada
Palpe o ponto e percuta a tíbia a distância dele, transmitindo a vibração pela diáfise; dor referida ao foco reforça a hipótese. Peça um salto em apoio unipodal na perna direita. Inspecione procurando edema, calor e eritema, cuja ausência afasta processo infeccioso agudo, e compare os pulsos distais.
Nomear o sítio e a face
Face anterior do terço médio da tíbia é a face de tração. Na marcha e na corrida a tíbia sofre flexão, e a tração afasta as bordas do traço a cada ciclo; com vascularização relativamente pobre nessa região, o resultado é um traço que persiste e não consolida. Esse é o sítio de alto risco por excelência, e a face precisa estar escrita no prontuário.
Pedir a imagem certa, e não a mais disponível
Radiografia da perna em duas incidências como primeiro exame; se ela mostrar linha radiotransparente transversa incompleta na cortical anterior com espessamento periosteal, o diagnóstico está feito. Se vier normal ou duvidosa, ressonância magnética, que separa reação de estresse de fratura estabelecida. A tomografia entra depois, com outra pergunta: existe ponte cortical.
Ver a segunda doença por trás da primeira
Restrição alimentar, perda de seis quilos, treino em jejum e amenorreia de dez meses compõem um quadro de baixa disponibilidade energética com supressão do eixo gonadal. Não é achado acessório: é a causa que fez o osso falhar sob uma carga que outro osso teria suportado. Investigue hemograma, ferritina, vitamina D, cálcio, função tireoidiana, eixo gonadal com gonadotrofinas, estradiol e prolactina, e exclua gestação antes de concluir.
Medir a consequência óssea
Densitometria de coluna lombar e fêmur proximal, lida por escore Z e não por escore T. Em corredora, um valor entre menos um e menos dois já não é tranquilizador, porque a modalidade de impacto deveria ter produzido densidade acima da média; abaixo de menos dois, com fratura por estresse associada, o quadro é de doença óssea estabelecida.
Tratar com o patamar que o sítio exige
Suspensão da corrida, descarga com bota imobilizadora e muletas, analgesia que permita marcha e sono — e não que permita treinar. Reposição de cálcio, de vitamina D e de ferro conforme os resultados. Encaminhamento à nutrição esportiva e à ginecologia para tratar o déficit energético e a amenorreia. Seguimento por imagem, com discussão de fixação intramedular se não houver consolidação.
Combinar o retorno por critério, e negociar a meta
Escreva os degraus: atividade sem impacto para manter condicionamento, depois marcha, depois trote alternado, depois corrida contínua em volume reduzido, e só então intensidade — com o critério de passagem de cada um. Não estabeleça data de prova como alvo terapêutico. Leve a meta esportiva a sério e proponha um calendário mais distante: quem apenas proíbe perde a paciente, e a lesão volta pior.
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Agora feche você

Homem de 19 anos, atleta de meio-fundo em clube, procura o ambulatório por dor na virilha direita há cinco semanas. A dor começou como desconforto ao final dos treinos longos e hoje aparece já nos primeiros minutos de corrida e ao subir escadas; nas últimas noites acordou com dor. Aponta a região inguinal e a face anterior da coxa. Nega trauma, nega febre e nega emagrecimento. Aumentou de sessenta para cem quilômetros semanais em seis semanas para uma seletiva, e passou a treinar duas vezes ao dia. Relata que reduziu a alimentação para 'ficar mais leve', perdeu cinco quilos em três meses e frequentemente treina antes do café da manhã. Refere queda do rendimento, cansaço e desinteresse sexual nos últimos meses. Ao exame, marcha antálgica, dor e limitação nos extremos da rotação passiva do quadril direito, sem sinais inflamatórios locais. A radiografia de bacia em ântero-posterior foi laudada como normal.
Primeiro
Diga qual é a hipótese principal e enumere os elementos da história e do exame que a sustentam. Explique por que a radiografia normal não permite dar alta a este paciente.
Segundo
Diga qual exame você solicita agora e por que ele, e não outro. Explique o que esse exame permite decidir que os demais não permitem.
Terceiro
Explique por que este sítio pertence ao grupo de alto risco e diga qual detalhe anatômico, dentro do próprio osso, muda radicalmente a conduta. Descreva as duas condutas possíveis conforme esse detalhe.
Quarto
Identifique a segunda doença presente no caso, nomeie-a nas duas formulações que a literatura usa e diga qual das duas o enunciado favorece e por quê. Liste a investigação que você solicita.
Quinto
Defina a conduta imediata, incluindo o que NÃO se prescreve, e escreva o encaminhamento com os itens sem os quais o serviço de referência precisará refazer a anamnese inteira.
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Onde a banca derruba

  1. 1Dar alta porque a radiografia veio normal Nas primeiras semanas o osso ainda não formou reação periosteal visível, e o traço, quando existe, não atravessa a cortical. Uma parte grande das lesões tem radiografia normal exatamente quando o diagnóstico mais importaria. Diante de história típica e ponto doloroso reprodutível, radiografia normal significa que aquele exame não ajudou naquele momento — e a conduta segue pela clínica, com ressonância quando a resposta muda o manejo.
  2. 2Tratar toda fratura por estresse da tíbia do mesmo jeito A borda posteromedial é face de compressão e consolida com redução de carga; a cortical anterior é face de tração, afasta as bordas do traço a cada ciclo e evolui para não consolidação. Duas lesões no mesmo osso e no mesmo paciente têm condutas opostas, e a informação que separa as duas é qual face está acometida — que precisa estar escrita no prontuário e no encaminhamento.
  3. 3Confundir dor difusa da borda tibial com fratura Quando o paciente percorre vários centímetros da borda posteromedial com a palma da mão e descreve melhora ao aquecer, o quadro mais provável é a síndrome de estresse tibial medial, de retorno bem mais rápido. Quando ele aponta um ponto único com a ponta do dedo e a dor progrediu para o repouso, é lesão óssea localizada. Trocar as duas custa ou meses de afastamento desnecessário, ou uma fratura completa.
  4. 4Ler densitometria de jovem pelo escore T O escore T compara com o adulto jovem de referência e destina-se à avaliação após a menopausa. Em atleta de vinte e poucos anos, a leitura é pelo escore Z, que compara com o esperado para a mesma idade e sexo. Aplicar escore T nessa faixa produz um rótulo de osteoporose sem correspondência clínica, e desvia a conversa do que importa, que é a disponibilidade energética.
  5. 5Não perguntar sobre menstruação e alimentação A carga externa explica parte dos casos; a energia que faltou explica outra parte, e as duas se somam. Amenorreia sem outra causa, perda de peso intencional, restrição de grupos alimentares e treino em jejum são a informação que impede a próxima fratura. Deixar de perguntar por constrangimento — ou por o paciente ser homem — é a razão mais comum pela qual esse diagnóstico demora.
  6. 6Prescrever anti-inflamatório para o atleta continuar treinando A dor é o único freio disponível numa lesão que não aparece na radiografia. Suprimi-la com analgesia continuada, ou pior, com infiltração do ponto doloroso, mantém a carga sobre um osso em falência e é o caminho conhecido para a fratura completa. Analgesia tem lugar para permitir a marcha e o sono, não para permitir o treino.
  7. 7Liberar o retorno pela data da prova O retorno se define por critérios encadeados: ponto indolor à palpação e à percussão a distância, marcha e salto sem dor, consolidação compatível com o sítio, e fator desencadeante corrigido. Negociar a data de uma competição como meta terapêutica é o mecanismo pelo qual uma lesão de baixo risco vira de alto risco. Leve a meta esportiva a sério e proponha um alvo mais distante — proibir sem negociar costuma transferir o paciente para outro serviço, não para o repouso.
  8. 8Atribuir ao esporte uma dor óssea com sinais de alarme Dor noturna sem relação com a atividade, febre, sudorese noturna, emagrecimento não intencional, massa palpável ou acometimento de mais de um sítio esquelético não pertencem ao quadro de sobrecarga. Adolescentes e adultos jovens são a faixa etária dos tumores ósseos primários, e a história de treino é a explicação conveniente que atrasa o diagnóstico. Perguntar leva trinta segundos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A pubalgia do atleta, também chamada de hérnia do esportista, cursa com dor inguinal crônica ao esforço, sem hérnia palpável, associada a lesão da parede posterior do canal inguinal, da inserção do reto abdominal e da musculatura adutora; a dor à adução resistida e à palpação do tubérculo púbico compõe o quadro. O diagnóstico é clínico com apoio da ressonância, e o tratamento começa por fisioterapia, com cirurgia reservada aos casos refratários. Rotular como hérnia e operar de imediato é o erro que produz insucesso e frustração no atleta.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas sem abrir o texto. Os quatro degraus da escada da dor, do fim do treino ao repouso noturno. As duas perguntas de exame físico que reforçam a hipótese sem imagem. Por que a radiografia normal não encerra o caso e qual exame responde. Os sete sítios de alto risco. Por que a face anterior da tíbia consolida mal, com o argumento mecânico. Qual escore da densitometria se lê no jovem e por quê. E os quatro critérios encadeados que liberam o retorno.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Corredora de vinte e dois anos com dor na face anterior da perna há seis semanas, hoje presente em repouso, e radiografia com linha transversa incompleta na cortical anterior: qual a conduta e por que ela difere da de uma lesão na borda posteromedial. Corredor com dor inguinal e radiografia de bacia normal: o que você pede e por que não pode dar alta. Atleta de vinte e três anos com escore Z de menos um e meio em modalidade de impacto: como você interpreta e o que investiga. Corredor com dor previsível após quatro quilômetros, com pressão e formigamento, e exame em repouso normal: qual a hipótese. E adolescente com dor óssea noturna sem relação com o treino e emagrecimento: qual o trilho de investigação.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

No próximo corredor com dor na perna, faça três coisas antes de pedir qualquer exame. Peça que ele aponte onde dói com a ponta de um dedo: ponto único é osso, área difusa percorrida com a palma é outra doença, e essa diferença cabe numa linha. Pergunte em que momento do treino a dor aparece hoje e em que momento ela aparecia há um mês — a comparação entre as duas respostas dimensiona a lesão melhor do que a primeira radiografia. E, antes de ele sair, pergunte o que ele tem comido antes dos treinos longos e, se for mulher, quando foi a última menstruação; se for homem, faça a pergunta equivalente sobre libido e rendimento. É a pergunta que impede a segunda fratura, e é a que quase nunca é feita. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Lesões por sobrecarga no esporte: o osso quebra sem trauma, e a causa quase nunca está no osso — Preparatório para provas | OsceLabs