Outras EspecialidadesOtorrinolaringologia

Perda auditiva no adulto: a que é emergência, a que é do trabalho e a que espera fila

Perdas auditivas do adulto e surdez súbita

Teste com diapasão, perda súbita e prioridade de encaminhamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 39 anos com perda auditiva neurossensorial súbita à direita, com 4 dias de evolução, é atendida em serviço com fila de 8 semanas para ressonância magnética. O médico plantonista decide aguardar o resultado do exame antes de prescrever qualquer tratamento, para não medicar sem diagnóstico definido. Qual é a avaliação correta dessa decisão?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a perda auditiva do adulto na porta de entrada: como separar condutiva de neurossensorial sem audiômetro, qual perda é emergência, o que se pede e o que não se pede, quais são as janelas de tratamento da perda súbita e para qual das quatro filas cada paciente vai. O eixo é o tempo de instalação — porque é ele, e não o grau da perda, que decide o destino.

Fica de fora o que tem dono. A vertigem periférica — vertigem posicional, neurite vestibular e doença de Ménière — é do capítulo 2 desta apostila, e aqui a tontura entra só como sinal que muda a urgência. As otites externa, média aguda e crônica, o colesteatoma e a perda condutiva que a otoscopia explica são do capítulo 5. A rolha de cerume e o corpo estranho de conduto são dos capítulos 3 e 5. A perda auditiva da criança, a triagem auditiva neonatal e a otite média com efusão da infância são das apostilas de Pediatria e de Pneumologia Pediátrica.

E fica de fora, por decisão de fronteira, a perda auditiva induzida por ruído. Ela tem capítulo próprio na apostila de Medicina do Trabalho, junto com a audiometria ocupacional comparativa, o nexo causal e a comunicação de acidente de trabalho. A divisão é simples de enunciar: o que é ocupacional é de lá; o que não é ocupacional é daqui. Ainda assim, o padrão audiométrico da perda por ruído aparece aqui — não para tratar do trabalhador, e sim porque é o desenho que mais se confunde com o da perda que é emergência, e porque um trabalhador exposto a ruído que perde audição de um lado, de uma hora para outra, não tem doença ocupacional: tem urgência otológica.

As fontes são de três funções. Um protocolo brasileiro de regulação diz para onde encaminhar e com que prioridade. Uma diretriz clínica estrangeira diz o que fazer com a perda súbita, e é dela que vêm os números e as janelas. E um guia federal de vigilância descreve a perda ocupacional, que é o desenho de contraste. O protocolo brasileiro, ao imprimir a tabela de graus, traz uma data no título do quadro e outra na linha da fonte, e deixa um decibel inteiro fora de qualquer classe.

03

O que muda decisão

O diapasão separa o compartimento antes do audiômetro

O protocolo brasileiro de encaminhamento começa a avaliação sem nenhum equipamento. Recomenda excluir causas reversíveis — cerume obstrutivo, infecção — e testar a audição pelo teste do sussurro: o médico se posiciona atrás do paciente, a cerca de trinta centímetros, oclui a orelha contralateral e sussurra uma informação, pedindo que ele repita. Confirmada a hipoacusia, seguem-se os testes com diapasão.

O teste de Weber coloca o diapasão vibrando na linha média, de preferência no vértice do crânio. Em audição simétrica, não há lateralização. Na perda condutiva, o som é ouvido do lado doente; na perda neurossensorial, é ouvido do lado bom. A regra parece invertida e não é: a orelha condutivamente bloqueada perde o ruído ambiente e escuta melhor a condução óssea, enquanto a orelha com cóclea doente não consegue processar o som que chega por nenhuma via.

O teste de Rinne compara condução aérea e óssea na mesma orelha: coloca-se o diapasão na mastoide até o som sumir e leva-se à frente do meato acústico. Normalmente a condução aérea vence, e o som volta a ser ouvido. A nomenclatura é a armadilha do tema: quando a condução óssea supera a aérea, o teste é chamado de negativo ou anormal, e isso significa perda condutiva; quando a aérea supera a óssea, o teste é positivo ou normal, o que ocorre na audição normal e também na perda neurossensorial.

Junte os dois e o resultado é um par que resolve a maioria dos enunciados. Rinne positivo nas duas orelhas com Weber lateralizando para a orelha que ouve bem: perda neurossensorial do lado oposto. Rinne negativo do lado da queixa com Weber lateralizando para esse mesmo lado: perda condutiva. Repare que Rinne positivo bilateral não significa audição normal — significa apenas que a via aérea vence dos dois lados, o que é compatível com uma cóclea gravemente doente.

Esse par de testes é o que transforma uma queixa vaga em decisão. Perda condutiva com otoscopia alterada tem causa na orelha externa ou média e é assunto do capítulo das otites. Perda condutiva com otoscopia normal é motivo de encaminhamento à otorrinolaringologia, depois de confirmada por audiometria, porque aponta problema na cadeia ossicular. E perda neurossensorial muda o eixo inteiro: o que passa a importar é o tempo de instalação.

Vale a nota do protocolo sobre acesso: a oferta de exames audiológicos varia conforme as pactuações regionais, e o documento orienta contato com a coordenadoria regional quando é preciso solicitar audiometria. Isso explica por que os testes com diapasão continuam sendo cobrados — em boa parte do país, eles são a única audiometria disponível na primeira consulta.

A perda que é emergência, e o que a define em números

Existe uma perda auditiva que não espera fila, e ela se reconhece pelo relógio. A perda auditiva neurossensorial súbita é definida, na diretriz que organiza o tema, como queda de pelo menos 30 decibéis em três frequências contíguas, instalada em até 72 horas. Quando nenhuma causa é identificada pela história e pelo exame, ela recebe o nome de idiopática — e é assim que chega à maior parte dos enunciados.

O quadro típico é bastante estável. Adulto de meia-idade percebe, muitas vezes ao acordar, que uma orelha ficou surda ou distorcida. Acompanham plenitude auricular e zumbido do mesmo lado. Não há otalgia, otorreia, febre nem infecção recente. A otoscopia é normal dos dois lados, e é justamente essa normalidade que faz o quadro ser subestimado: não há o que ver.

O protocolo brasileiro de encaminhamento manda esse paciente para urgência ou emergência com duas redações complementares. Uma cobre a perda auditiva aguda quando há suspeita de condição subjacente grave; a outra, mais importante para o caso idiopático, cobre a perda auditiva de início agudo sem condição subjacente identificável pela história ou pelo exame físico. Ou seja: não encontrar causa não é motivo para tranquilizar — é o próprio critério de urgência.

O mesmo documento coloca a hipoacusia súbita, depois da avaliação na emergência, entre as condições que têm preferência no encaminhamento à otorrinolaringologia, ao lado de colesteatoma e de mastoidite crônica com drenagem. E o protocolo de vertigem, no mesmo arquivo, lista a perda auditiva neurossensorial unilateral aguda sem causa óbvia entre os sinais que mandam o paciente com tontura para a emergência. O achado aparece três vezes, em três lugares, e nunca em fila eletiva.

A lista de condições graves que produzem perda auditiva aguda vale ser lida uma vez, porque ela organiza o que o exame procura: infecção aguda grave, com meningite, mastoidite e neurossífilis; trauma, incluindo traumatismo cranioencefálico, trauma de orelha média e perfuração por corpo estranho; doença neurológica aguda, com destaque para o acidente vascular; tumores; doença autoimune aguda associada a doença sistêmica descompensada; e otite externa necrosante.

Os sinais de gravidade que acompanham a perda aguda completam o roteiro: sintomas ou sinais neurológicos, vertigem de padrão central, desequilíbrio grave com dificuldade de caminhar ou de ficar em pé, e história de trauma com hemotímpano. Perda súbita com vertigem intensa e nistagmo de características centrais não é apenas surdez súbita: é suspeita de infarto no território que irriga o labirinto e o cerebelo, e muda o fluxo inteiro.

O que não se pede — e por que essa é a parte cobrada

A diretriz de perda súbita tem duas recomendações negativas, e elas costumam ser o alvo da questão. A primeira: não se pede tomografia de crânio de rotina na avaliação inicial da perda súbita presumida. A tomografia não enxerga a patologia que interessa nessa doença, expõe a radiação e atrasa o tratamento.

A segunda: não se pedem exames laboratoriais de rotina. Bateria ampla de sorologias, marcadores autoimunes e provas metabólicas solicitada sem hipótese não altera a conduta na maioria dos casos e serve, na prática, para adiar o corticoide enquanto os resultados não voltam.

O que se pede é curto. Audiometria tonal e vocal com urgência, para documentar a perda e classificá-la — é ela que confirma o caráter neurossensorial e mede a queda nas três frequências contíguas. E ressonância magnética dos condutos auditivos internos ou potencial evocado auditivo de tronco encefálico para investigar patologia retrococlear, sobretudo o schwannoma vestibular, que se manifesta em parcela pequena mas relevante dos casos de perda súbita.

Dois graficos de limiares: a esquerda, uma curva normal e outra que cai de forma acentuada em tres posicoes seguidas e nao retorna; a direita, duas curvas sobrepostas com uma depressao em V perto do fim que sobe parcialmente na ultima posicao.
Dois desenhos que se confundem e não se parecem. À esquerda, a queda profunda em três posições vizinhas de uma orelha só, com a outra intacta: é a perda que tem relógio de horas e janela de tratamento. À direita, a depressão simétrica nas duas orelhas perto do fim do eixo, com retorno parcial no último ponto: é o padrão da exposição a ruído, que se instala em anos e pertence a outro capítulo.

Há uma ordem que o candidato precisa acertar, e ela é contraintuitiva: o tratamento começa antes da ressonância. A investigação retrococlear pode levar semanas para acontecer no sistema público, e a janela do corticoide é de duas semanas. Segurar o tratamento até a imagem ficar pronta é o erro que transforma um caso tratável em perda definitiva, e é a alternativa incorreta mais escolhida nessas questões.

Uma exceção brasileira merece registro. A lista de causas graves inclui a neurossífilis, e a sífilis é doença de alta incidência no país. Investigar sífilis, e o vírus da imunodeficiência humana, é conduta defensável quando a história ou o contexto epidemiológico sugerem — não como bateria de rotina disparada em todo paciente, mas como exame dirigido que pode revelar uma causa tratável por outro caminho.

Duas coisas mais fecham a avaliação. A imitanciometria com pesquisa do reflexo estapediano ajuda a caracterizar a orelha média e a lateralidade, e a audiometria de controle é obrigatória: a diretriz pede reavaliação ao término do tratamento e dentro de seis meses, porque a recuperação pode ser parcial e tardia, e porque a perda residual define a reabilitação.

As janelas do corticoide, e a diferença entre poder e dever

O tratamento da perda súbita se organiza em duas janelas, e a redação da diretriz distingue as duas com cuidado que a prova costuma cobrar.

A primeira janela é a do corticoide sistêmico como terapia inicial, oferecido dentro de duas semanas do início dos sintomas. A diretriz usa aí o verbo mais fraco de sua escala — os médicos podem oferecer —, e isso não é descuido: reflete evidência limitada e conflitante sobre o benefício, num quadro em que parte expressiva dos pacientes recupera espontaneamente. É uma opção, com decisão compartilhada e conversa sobre efeitos adversos.

A segunda janela é a do corticoide intratimpânico como resgate, para quem teve recuperação incompleta, entre duas e seis semanas do início. Aqui a diretriz usa um verbo mais forte: os médicos devem oferecer, ou encaminhar a quem possa oferecer. A injeção transtimpânica entrega concentração alta na orelha interna sem a exposição sistêmica, e é justamente a etapa que exige serviço especializado — daí a importância do encaminhamento com prioridade.

Guarde a assimetria, porque ela é o miolo da questão bem escrita: a terapia inicial é opção dentro de duas semanas; o resgate intratimpânico é recomendação entre duas e seis semanas. Quem decora só o número perde a diferença entre as duas frases.

O oxigênio hiperbárico aparece como possibilidade adicional, combinado ao corticoide dentro de duas semanas como terapia inicial, ou como resgate dentro de um mês do início. A revisão sistemática que reuniu os estudos encontra melhora de limiares em casos agudos, com significado clínico incerto e evidência de qualidade limitada — e a disponibilidade do recurso no país é restrita, o que o mantém fora da resposta esperada na maioria dos enunciados.

Falta a parte da conversa, que a estação prática pontua. A diretriz orienta educar o paciente sobre a história natural: parte dos casos recupera de forma espontânea, parte recupera parcialmente e parte não recupera, e o benefício do tratamento depende de começar cedo. Isso se diz sem prometer recuperação e sem apagar a urgência — as duas coisas ao mesmo tempo, que é o que torna a comunicação difícil neste tema.

A fronteira ocupacional: por que isto aqui não é perda por ruído

A perda auditiva induzida por ruído tem capítulo próprio na apostila de Medicina do Trabalho, e é lá que moram a audiometria admissional, periódica, demissional, de mudança de função e de retorno ao trabalho, o nexo causal e a notificação. O que interessa aqui é apenas o desenho, porque ele é o principal contraste da perda súbita — e porque o mesmo paciente pode circular entre os dois mundos.

O guia federal de vigilância descreve a perda por ruído como neurossensorial, decorrente de comprometimento das células ciliadas da orelha interna, e geralmente bilateral. O primeiro sinal audiométrico é o rebaixamento do limiar em 3, 4 ou 6 kHz, com a média das frequências baixas melhor que a média dessas três, e com o limiar de 8 kHz melhor que o pior limiar — é o entalhe que sobe de volta na última frequência, e é isso que dá ao gráfico a forma que se reconhece de longe. O texto do guia imprime a frequência de 500 hertz como 500 kHz nessa mesma passagem, valor que nenhum audiômetro testa.

O guia também fixa limites que a exposição isolada não ultrapassa: a exposição ao ruído, sozinha, não produz perdas maiores que 75 dB nas frequências altas nem maiores que 40 dB nas baixas. Perda além disso pede outra explicação, somada ou alternativa. E a progressão é maior nos primeiros 10 a 15 anos, tendendo a diminuir conforme os limiares pioram.

O ponto que decide a fronteira está no capítulo de tratamento do mesmo guia: a perda é irreversível, mas, uma vez cessada a exposição, não há progressão. Isso convive com a descrição inicial, que chama a doença de progressiva conforme o tempo de exposição — as duas frases dizem a mesma coisa lida com cuidado: ela avança enquanto o ruído continua, e para quando ele para. Quem lê só o adjetivo da descrição responde que a perda continua piorando depois do afastamento, e erra.

Dois vizinhos da perda por ruído completam o campo e o próprio guia manda diferenciá-los. O trauma acústico é a lesão produzida por um único evento sonoro de intensidade muito alta — explosão, disparo —, que pode ser unilateral, doer no momento e produzir perda imediata; ele quebra a regra da instalação lenta e, quando recente, entra na conversa da urgência. A mudança transitória de limiar é a piora de audição que aparece depois de uma jornada em ambiente ruidoso e regride com horas de repouso acústico; é justamente para não confundi-la com perda permanente que a audiometria ocupacional é feita depois de um intervalo sem exposição, em cabina, com equipamento calibrado. Quem examina alguém logo depois do turno pode medir uma perda que não existe amanhã.

Agora o contraste que resolve questões. A perda por ruído é bilateral, simétrica, insidiosa, de anos, com entalhe nas frequências altas e retorno parcial em 8 kHz, e não é emergência. A perda súbita é unilateral, abrupta, de horas, com queda profunda em três frequências vizinhas e sem retorno, e é emergência com janela de tratamento. O trabalhador exposto a ruído que acorda surdo de um ouvido não está apresentando doença ocupacional acelerada: está apresentando outra doença, que precisa de corticoide hoje.

A consequência administrativa também muda de lado. A perda ocupacional aciona audiometria comparativa, avaliação de nexo, comunicação de acidente de trabalho e vigilância do ambiente — tudo isso na apostila de Medicina do Trabalho. A perda súbita aciona emergência, audiometria de urgência, corticoide e encaminhamento prioritário. Confundir os dois fluxos manda o paciente certo para a fila errada.

A tabela de graus, as duas datas e o decibel sem classe

Documentada a perda, ela é graduada pela média dos limiares nas frequências de 0,5, 1, 2 e 4 kHz. O protocolo brasileiro imprime a tabela e ela é a que se usa no encaminhamento: audição normal de 0 a 25 dB; perda leve de 26 a 40; moderada de 41 a 60; severa de 61 a 80; e profunda acima de 81.

Duas coisas nessa tabela merecem o olho do candidato. A primeira é a data: o título do quadro atribui a classificação à Organização Mundial da Saúde de 2014, e a linha de fonte, logo abaixo, credita a mesma tabela a 2006. Duas datas para o mesmo quadro, no mesmo espaço de página.

A segunda é aritmética. A faixa de perda severa termina em 80 dB e a de perda profunda começa acima de 81. Uma média de 80,5 dB, ou de exatamente 81, não pertence a nenhuma das duas classes: há um decibel inteiro sem endereço entre as faixas. É um vão pequeno e real, do tipo que aparece quando um documento reproduz uma tabela de outro sem refazer as contas.

Há ainda uma divergência de geração. O relatório mundial sobre audição publicado em 2021 reorganizou os graus e baixou o limiar da normalidade: a perda leve passa a começar em 20 dB, não em 26, e o relatório define a perda incapacitante do adulto a partir de 35 dB na melhor orelha. Pela tabela do protocolo brasileiro, uma média de 22 dB é audição normal; pela classificação de 2021, é perda leve. O mesmo paciente muda de rótulo conforme o documento que a questão estiver usando.

A utilidade prática da graduação é o destino. Perda neurossensorial confirmada por audiometria em paciente motivado a usar aparelho de amplificação sonora individual vai para a reabilitação auditiva. Perda condutiva ou mista com otoscopia normal, confirmada por audiometria, vai para a otorrinolaringologia. Perda neurossensorial unilateral progressiva também vai para a otorrinolaringologia — e essa linha merece atenção, porque perda que piora só de um lado levanta a suspeita de lesão retrococlear.

No topo da escala está o implante coclear. Os critérios do protocolo pedem perda severa e profunda nas duas orelhas com desempenho em campo aberto, usando aparelho convencional, igual ou pior que 50 dB nas frequências de 500 a 4000 Hz, somados a anatomia favorável, condições clínicas, estrutura de reabilitação disponível e motivação do paciente e da família. Os critérios específicos do adulto acrescentam linguagem oral estabelecida, ausência de limite de idade e discriminação em campo aberto, sem leitura labial, pior que 50% em uso de aparelho.

As contraindicações são igualmente objetivas e explicam a lógica do dispositivo: surdez pré-lingual em adolescente ou adulto não reabilitado por método oral, agenesia coclear ou do nervo coclear bilateral, e contraindicações clínicas. O implante substitui a cóclea, não o nervo nem o córtex que aprendeu a interpretar som — por isso quem nunca desenvolveu linguagem oral não se beneficia da mesma forma.

As outras perdas, e quando pedir o exame de tronco

Fora da emergência, a maior parte das perdas do adulto é lentamente progressiva e bilateral, e a mais comum é a presbiacusia, com predomínio nas frequências agudas, dificuldade de entender fala em ambiente ruidoso e queixa que costuma chegar pela família antes de chegar pelo paciente. É o quadro que caminha para a reabilitação auditiva, e não para a investigação de urgência.

A perda condutiva com otoscopia normal em adulto jovem, em geral mulher, com piora progressiva e às vezes história familiar, aponta comprometimento da cadeia ossicular, e o protocolo a encaminha à otorrinolaringologia depois de confirmada por audiometria. É a perda que o diapasão identifica melhor que a impressão clínica: Rinne negativo do lado da queixa, Weber lateralizando para o mesmo lado, e nada de anormal à otoscopia.

A perda neurossensorial unilateral progressiva é a que exige mais atenção diagnóstica fora do cenário agudo. Assimetria persistente entre as orelhas, sobretudo com zumbido unilateral e discriminação de fala desproporcionalmente ruim para o grau de perda, levanta a suspeita de lesão retrococlear e leva à investigação por imagem ou por potencial evocado.

O potencial evocado auditivo de tronco encefálico tem indicações listadas e vale conhecê-las, porque delimitam o que o exame faz. Ele serve à mensuração objetiva da audição para fins diagnósticos e legais, incluindo simulação e dissimulação; a pacientes difíceis de avaliar pelos métodos audiológicos de rotina; à avaliação de pacientes com transtornos neurológicos ou cognitivos; ao diagnóstico diferencial da deficiência auditiva quando há baixa discriminação em testes de fala, suspeita de neuropatia auditiva ou audição flutuante; e à detecção de tumores do nervo acústico e de lesões entre o oitavo nervo e o mesencéfalo.

Duas orientações práticas fecham a seção. A primeira é sobre o conteúdo do encaminhamento, que o protocolo detalha: descrever duração e gravidade dos sintomas, presença de zumbido, plenitude auricular e vertigem, informar se já houve uso de aparelho auditivo, descrever a otoscopia e anexar o laudo da audiometria com grau e tipo da perda em cada orelha, com data. Encaminhamento sem esses dados volta.

A segunda é o hábito que salva casos: diante de qualquer queixa de perda auditiva, pergunte quando começou e em quanto tempo se instalou. Semanas ou meses colocam o paciente numa fila; horas colocam o paciente numa emergência. É a única pergunta do capítulo que muda o destino do paciente independentemente de todo o resto.

Como o enunciado entrega

Adulto que acorda com uma orelha surda, plenitude e zumbido do mesmo lado, otoscopia normal nas duas orelhas, Rinne positivo bilateral e Weber lateralizando para a orelha sadia: perda auditiva neurossensorial súbita. A pergunta seguinte é sobre a janela do corticoide ou sobre o que não pedir.

O mesmo quadro acrescido de vertigem intensa, nistagmo que não se inibe com a fixação do olhar, incapacidade de ficar em pé ou déficit neurológico: perda súbita como parte de quadro central, com suspeita de infarto no território que irriga labirinto e cerebelo. A resposta muda de otorrinolaringologia para emergência neurológica.

Trabalhador exposto a ruído por anos, com perda bilateral e simétrica, entalhe nas frequências altas e retorno parcial na frequência mais aguda, queixa de zumbido e dificuldade de conversar em ambiente ruidoso: perda induzida por ruído, com fluxo ocupacional próprio. Se o mesmo trabalhador descreve perda de um lado só, instalada em horas, o desenho não é esse, e o caso vira urgência.

Adulto jovem com perda progressiva, otoscopia normal, Rinne negativo do lado da queixa e Weber lateralizando para esse lado: perda condutiva com otoscopia normal, encaminhamento à otorrinolaringologia depois da audiometria.

Idoso com dificuldade de entender fala em ambiente ruidoso, perda bilateral e simétrica de predomínio agudo, trazido pela família: presbiacusia, com destino na reabilitação auditiva. E o mesmo idoso com perda severa a profunda bilateral que não se beneficia de aparelho, com linguagem oral estabelecida: avaliação para implante coclear, segundo critérios objetivos de desempenho em campo aberto.

04

Esquemas e tabelas

A sequência vale para o adulto com queixa de perda auditiva na primeira avaliação, com ou sem audiômetro disponível. A ordem manda: excluir o reversível, separar o compartimento com o diapasão, cronometrar a instalação e só então escolher a fila. O tempo de instalação vence o grau da perda em todas as decisões que seguem.

  1. 1Pergunte quando começou e em quanto tempo se instalou, antes de qualquer outra coisa. É a resposta que separa emergência de fila.
  2. 2Exclua causas reversíveis: rolha de cerume, corpo estranho e infecção ativa. Otoscopia das duas orelhas, sempre comparando.
  3. 3Faça o teste do sussurro por trás do paciente, a cerca de trinta centímetros, ocluindo a orelha contralateral.
  4. 4Confirmada a hipoacusia, aplique Weber e Rinne e escreva o resultado com a nomenclatura correta, lembrando que Rinne negativo significa perda condutiva.
  5. 5Procure sinais de gravidade: déficit neurológico, nistagmo de padrão central, desequilíbrio que impede ficar em pé, história de trauma com hemotímpano.
  6. 6Diante de perda aguda sem causa identificável, trate como urgência e solicite audiometria tonal e vocal com urgência.
  7. 7Não peça tomografia de crânio de rotina nem bateria laboratorial ampla na avaliação inicial da perda súbita presumida.
  8. 8Inicie o corticoide sistêmico dentro de duas semanas do início dos sintomas, sem aguardar a ressonância, com conversa sobre benefício incerto e efeitos adversos.
  9. 9Solicite ressonância dos condutos auditivos internos ou potencial evocado de tronco para investigar patologia retrococlear, em paralelo ao tratamento.
  10. 10Encaminhe com prioridade à otorrinolaringologia, informando que a recuperação incompleta entre duas e seis semanas indica corticoide intratimpânico de resgate.
  11. 11Programe audiometria de controle ao término do tratamento e dentro de seis meses, porque a perda residual define a reabilitação.
  12. 12Nas perdas crônicas, gradue pela média de 0,5, 1, 2 e 4 kHz e escolha a fila: otorrinolaringologia, reabilitação auditiva ou avaliação para implante.

Primeiro degrau: o que a otoscopia resolve sozinha

Cerume obstrutivo, corpo estranho e infecção são causas reversíveis e devem ser excluídos antes de tudo. Resolvida a obstrução, a queixa pode desaparecer. Otoscopia alterada com perda condutiva remete ao capítulo das otites; otoscopia normal mantém o paciente aqui.

Segundo degrau: para onde o Weber vai

Na perda condutiva o som lateraliza para a orelha doente e o Rinne é negativo desse lado. Na perda neurossensorial o som lateraliza para a orelha boa e o Rinne permanece positivo nas duas. Rinne positivo bilateral não significa audição normal.

Terceiro degrau: em quanto tempo se instalou

Queda de pelo menos trinta decibéis em três frequências contíguas dentro de setenta e duas horas define a perda súbita, que é emergência com janela de tratamento. Instalação em meses ou anos coloca o paciente em fila eletiva, e o grau da perda decide apenas para qual fila.

Quarto degrau: as duas janelas do corticoide

Corticoide sistêmico como terapia inicial dentro de duas semanas, oferecido como opção. Corticoide intratimpânico como resgate entre duas e seis semanas na recuperação incompleta, oferecido como recomendação. O tratamento começa antes de a ressonância ficar pronta.

Dois desenhos que se confundem no gráfico e não se parecem na clínica

ItemPerda neurossensorial súbitaPerda induzida por ruído
Tempo de instalaçãoAté 72 horas, em geral percebida ao acordarAnos de exposição, com progressão maior nos primeiros 10 a 15
LateralidadeQuase sempre unilateralGeralmente bilateral e com padrões semelhantes nos dois lados
Padrão audiométricoQueda de pelo menos 30 dB em três frequências contíguasRebaixamento em 3, 4 ou 6 kHz, com 8 kHz melhor que o pior limiar
Limites descritosNão há teto: a perda pode ser profundaA exposição isolada não passa de 75 dB nas altas nem de 40 dB nas baixas
Depois de cessada a causaNão se aplica; o que corre é a janela de tratamentoIrreversível, mas sem progressão depois de cessada a exposição
DestinoUrgência, corticoide e encaminhamento prioritárioFluxo ocupacional, na apostila de Medicina do Trabalho

As quatro filas do protocolo, e o que manda o paciente para cada uma

DestinoCondições que o indicamO que precisa estar documentado
Urgência ou emergênciaPerda aguda com suspeita de condição grave; perda de início agudo sem causa identificável pela história ou pelo exameTempo de instalação, otoscopia, testes com diapasão e sinais de gravidade
OtorrinolaringologiaPerda condutiva ou mista com otoscopia normal confirmada por audiometria; perda neurossensorial unilateral progressiva; perda associada a otite média crônicaLaudo de audiometria com grau e tipo por orelha, com data, e descrição da otoscopia
Reabilitação auditivaPerda neurossensorial confirmada em paciente motivado ao aparelho; perda severa ou profunda bilateral sem resposta ao aparelho; perda condutiva ou mista com indicação de próteseAudiometria, uso prévio de aparelho e avaliação em serviço de referência regional
Preferência no encaminhamentoHipoacusia súbita, depois da avaliação na emergência, ao lado de colesteatoma e mastoidite crônica com drenagemRegistro da avaliação de emergência e do tratamento já iniciado

A nomenclatura do teste de Rinne é contraintuitiva: negativo ou anormal significa condução óssea maior que a aérea, isto é, perda condutiva. Positivo ou normal ocorre na audição normal e também na perda neurossensorial.

O quadro de graus impresso no protocolo brasileiro traz uma data no título e outra na linha da fonte, e a faixa de perda severa termina em 80 dB enquanto a de profunda começa acima de 81, deixando um decibel sem classe.

Na perda súbita, o tratamento não espera a imagem. A investigação retrococlear corre em paralelo, porque a janela do corticoide sistêmico é de duas semanas e a fila da ressonância costuma ser maior que isso.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em que decibel a audição deixa de ser normal

A partir de 26 dB. O quadro reproduzido no protocolo brasileiro de encaminhamento classifica como audição normal a média de 0 a 25 dB nas frequências de 0,5, 1, 2 e 4 kHz, e abre a perda leve em 26 dB, com moderada de 41 a 60, severa de 61 a 80 e profunda acima de 81. O título do quadro atribui a tabela ao ano de 2014 e a linha de fonte, ao ano de 2006.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento em Otorrinolaringologia Adulto, versão digital de 2023, quadro de classificação do grau da perda auditiva em adultos.

A partir de 20 dB. O relatório mundial sobre audição publicado em 2021 reorganizou os graus e deslocou o limiar de normalidade para baixo, abrindo a perda leve em 20 dB e definindo a perda incapacitante do adulto a partir de 35 dB na melhor orelha, com faixas subsequentes redesenhadas.

World Health Organization. World report on hearing. Genebra, 2021.

Na prova

As duas tabelas coexistem em documentos vivos, e o mesmo paciente com média de 22 dB é normal em uma e tem perda leve na outra. Questão de encaminhamento no sistema brasileiro usa a tabela do protocolo; questão que cite explicitamente a classificação mais recente usa a de 2021. Quando o enunciado não nomeia a régua, o grau raramente é o que decide — o que decide é o tempo de instalação e o tipo da perda. Vale ainda notar o vão entre 80 e 81 dB na tabela do protocolo, que não pertence a nenhuma classe.

Quanto vale o corticoide sistêmico na perda súbita

É opção, não recomendação. A diretriz enuncia que os médicos podem oferecer corticoide como terapia inicial dentro de duas semanas do início dos sintomas, usando deliberadamente o verbo mais fraco da escala, o que reflete evidência limitada e conflitante e a recuperação espontânea de parte expressiva dos casos.

Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update), 2019, declaração sobre corticoide como terapia inicial.

É conduta a oferecer sem demora. A mesma diretriz recomenda, com verbo mais forte, oferecer ou encaminhar para corticoide intratimpânico quando a recuperação for incompleta entre duas e seis semanas do início, e o protocolo brasileiro classifica a perda aguda sem causa identificável como encaminhamento para urgência ou emergência. As duas janelas só existem para quem foi tratado cedo.

Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update), 2019, declaração sobre corticoide intratimpânico de resgate; e TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolo 6, condições que indicam encaminhamento para urgência ou emergência.

Na prova

A distinção entre poder oferecer e dever oferecer é o miolo da questão bem escrita, e ela separa a terapia inicial do resgate. Em conduta, a resposta esperada é iniciar o corticoide sistêmico dentro de duas semanas e encaminhar com prioridade, informando que a recuperação incompleta entre duas e seis semanas indica a via intratimpânica. Alternativa que mande aguardar a ressonância para começar o tratamento é a errada mais escolhida, porque a fila do exame costuma ser maior que a janela.

Pedir ou não sorologias na perda auditiva súbita

Não pedir de rotina. A diretriz enuncia que os médicos não devem obter exames laboratoriais de rotina em pacientes com perda neurossensorial súbita, porque a bateria ampla raramente altera a conduta e, na prática, adia o tratamento enquanto os resultados não voltam.

Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update), 2019, declaração contra exames laboratoriais de rotina.

Investigar o que é grave e prevalente. O protocolo brasileiro lista, entre as causas de perda auditiva aguda por condições graves, a infecção aguda grave com neurossífilis, além de doença autoimune aguda associada a doença sistêmica descompensada — de modo que o exame dirigido, escolhido pela história e pelo contexto epidemiológico, tem papel diferente da bateria disparada em todos.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento em Otorrinolaringologia Adulto, versão digital de 2023, quadro de perda auditiva aguda em adultos por condições graves.

Na prova

As duas posições convivem porque a palavra que as separa é rotina. A resposta esperada em questão de conduta é não solicitar bateria laboratorial ampla e não solicitar tomografia de crânio de rotina, iniciando o tratamento e investigando o compartimento retrococlear. Investigação dirigida de sífilis ou de causa autoimune permanece defensável quando o enunciado planta o contexto — e é isso que distingue o exame escolhido do exame automático.

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Caso resolvido

Mulher de 46 anos, professora, procura o pronto-atendimento por hipoacusia à direita percebida ao despertar há 36 horas, sem pródromos. Refere plenitude auricular contínua e zumbido agudo permanente do mesmo lado, com distorção do som ao telefone. Nega otalgia, otorreia, febre e infecção de via aérea recente. Teve um episódio isolado de instabilidade postural de poucos minutos no primeiro dia, sem recorrência, e nega vertigem rotatória, oscilopsia e náuseas. Nega trauma, mergulho, barotrauma e manipulação do conduto. Tem dislipidemia sem tratamento regular. Ao exame, otoscopia normal nas duas orelhas, Rinne positivo bilateral, Weber lateralizando para a esquerda, teste do impulso cefálico sem sacada de correção, sem nistagmo espontâneo, motricidade facial e demais pares cranianos normais.
primeiro, use o diapasão para nomear o tipo de perda
Rinne positivo nas duas orelhas com Weber lateralizando para a orelha esquerda, que é a que ouve bem, define perda neurossensorial à direita. Se fosse condutiva, o Rinne seria negativo do lado da queixa e o Weber lateralizaria para esse mesmo lado. A otoscopia normal já havia afastado obstrução e otite.
segundo, cronometre e reconheça a definição
Instalação em poucas horas, percebida ao acordar, com 36 horas de evolução: está dentro das 72 horas que definem a perda súbita. O que falta é a audiometria documentando queda de pelo menos 30 dB em três frequências contíguas — exame a solicitar com urgência, e não em fila.
terceiro, procure o que tornaria o caso ainda mais grave
Ausência de nistagmo espontâneo, impulso cefálico sem sacada de correção, sem déficit neurológico, sem trauma e sem hemotímpano afastam os sinais de gravidade que apontariam evento central ou condição subjacente grave. O episódio isolado de instabilidade, sem recorrência e sem vertigem rotatória, não muda o fluxo.
quarto, decida o que não pedir
Nada de tomografia de crânio de rotina e nada de bateria laboratorial ampla. A investigação do compartimento retrococlear se faz por ressonância dos condutos auditivos internos ou por potencial evocado de tronco, e ela corre em paralelo ao tratamento. Sorologia dirigida para sífilis é defensável pelo contexto epidemiológico brasileiro, não como rotina automática.
quinto, comece o tratamento ainda neste atendimento
Corticoide sistêmico em curso curto, dentro da janela de duas semanas, oferecido como opção e conversado quanto a benefício incerto e efeitos adversos. Não se aguarda a ressonância: a fila do exame é maior que a janela, e a perda de prazo é irreversível.
sexto, deixe o próximo passo marcado antes de ela sair
Encaminhamento com prioridade à otorrinolaringologia, avisando que a recuperação incompleta entre duas e seis semanas indica corticoide intratimpânico de resgate, e audiometria de controle ao término do tratamento e dentro de seis meses. Sobre o prognóstico: parte recupera espontaneamente, parte recupera em parte e parte não recupera — dito sem prometer e sem minimizar.
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Agora feche você

Homem de 38 anos, operador de prensa em metalúrgica há 12 anos, comparece à unidade básica encaminhado pelo serviço de saúde ocupacional da empresa por dificuldade para entender conversas em ambientes ruidosos, com zumbido bilateral. A audiometria ocupacional periódica mostra perda neurossensorial bilateral e simétrica, com rebaixamento em 4 kHz e limiar de 8 kHz melhor que o de 4 kHz, e médias das frequências de 0,5, 1 e 2 kHz preservadas. Na mesma consulta, ele relata que há dois dias, ao acordar, percebeu que a orelha esquerda ficou abafada e com um zumbido agudo diferente do habitual, com sensação de ouvido cheio, e que agora não entende o telefone desse lado. Otoscopia normal nas duas orelhas. Ao Weber, o som lateraliza para a direita; o Rinne é positivo nas duas orelhas.
Passo 1
Interprete a audiometria ocupacional: nomeie o padrão, diga quais três elementos do laudo o caracterizam e a qual capítulo pertence o seguimento desse achado.
Passo 2
Explique por que o quadro instalado há dois dias não pode ser lido como piora da perda ocupacional, citando a afirmação do guia federal sobre progressão depois de cessada a exposição e as três características que separam os dois desenhos.
Passo 3
Use os testes com diapasão para nomear o tipo da perda nova e diga qual seria o resultado esperado se ela fosse condutiva.
Passo 4
Defina a conduta imediata, listando o exame a solicitar com urgência, os dois exames que não se pedem de rotina e a janela de tratamento que já está correndo.
Passo 5
Organize os dois destinos deste paciente, dizendo o que vai para o fluxo ocupacional e o que vai para o fluxo otológico, e o que deve constar do encaminhamento.
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Onde a banca derruba

  1. 1Traduzir Rinne negativo como perda neurossensorial A nomenclatura é o contrário do que a intuição sugere. Rinne negativo, ou anormal, significa condução óssea maior que a aérea, isto é, perda condutiva. Rinne positivo, ou normal, ocorre na audição normal e também na perda neurossensorial, porque nela a via aérea continua vencendo a óssea.
  2. 2Ler Rinne positivo bilateral como audição normal O teste compara duas vias na mesma orelha, e não duas orelhas entre si. Uma cóclea gravemente doente mantém a via aérea melhor que a óssea, de modo que o resultado permanece positivo. Quem precisa da comparação entre lados é o Weber, e quem quantifica é a audiometria.
  3. 3Tranquilizar o paciente porque não se achou causa O protocolo brasileiro lista a perda auditiva de início agudo sem condição subjacente identificável pela história ou pelo exame entre as indicações de encaminhamento para urgência ou emergência. A ausência de causa não é sinal de benignidade — é o próprio critério que define a urgência.
  4. 4Aguardar a ressonância para iniciar o corticoide A janela da terapia inicial é de duas semanas do início dos sintomas, e a fila da imagem costuma ser maior. A investigação retrococlear corre em paralelo, não antes. Segurar o tratamento até o exame ficar pronto é o erro que transforma perda tratável em perda definitiva.
  5. 5Pedir tomografia de crânio na avaliação inicial A diretriz enuncia que não se deve solicitar tomografia de crânio de rotina na avaliação inicial da perda súbita presumida: ela não enxerga o que interessa, expõe a radiação e atrasa a conduta. A investigação do compartimento retrococlear se faz por ressonância dos condutos auditivos internos ou por potencial evocado de tronco.
  6. 6Disparar bateria laboratorial ampla em todo paciente Exames de rotina não estão indicados e servem, na prática, para adiar o corticoide. Isso não proíbe exame dirigido: sífilis e doença autoimune constam da lista de causas graves, e a escolha se justifica pela história e pelo contexto. O que se recusa é a bateria automática.
  7. 7Confundir opção com recomendação nas duas janelas A terapia inicial com corticoide sistêmico dentro de duas semanas é enunciada como opção, com decisão compartilhada. O corticoide intratimpânico de resgate, entre duas e seis semanas na recuperação incompleta, é enunciado como recomendação. Decorar apenas os números perde a diferença que a questão cobra.
  8. 8Chamar de perda ocupacional a queda unilateral e abrupta A perda por ruído é neurossensorial, geralmente bilateral, com entalhe em 3, 4 ou 6 kHz e retorno parcial em 8 kHz, e se instala em anos. Trabalhador exposto a ruído que acorda surdo de um lado tem outra doença, com janela de tratamento correndo — e mandá-lo para a audiometria ocupacional perde o prazo.
  9. 9Afirmar que a perda por ruído continua progredindo após o afastamento O guia federal descreve a doença como progressiva conforme o tempo de exposição e, no capítulo de tratamento, afirma que a perda é irreversível mas que, cessada a exposição, não há progressão. As duas frases dizem a mesma coisa: ela avança enquanto o ruído continua e para quando ele para.
  10. 10Ignorar a vertigem intensa que acompanha a perda súbita Perda auditiva aguda com nistagmo que não se inibe com a fixação do olhar, desequilíbrio que impede ficar em pé ou déficit neurológico não é apenas surdez súbita: entra no rol de perda aguda por condição grave, com suspeita de evento vascular no território que irriga labirinto e cerebelo, e muda o fluxo para emergência neurológica.
  11. 11Indicar implante coclear pelo grau da perda apenas Os critérios pedem perda severa e profunda bilateral com desempenho em campo aberto usando aparelho convencional igual ou pior que 50 dB entre 500 e 4000 Hz, além de anatomia favorável, condições de reabilitação e motivação. Surdez pré-lingual em adulto não reabilitado por método oral e agenesia coclear ou do nervo bilateral são contraindicações.
  12. 12Encaminhar sem o laudo da audiometria O protocolo exige, no conteúdo mínimo do encaminhamento, duração e gravidade dos sintomas, presença de zumbido, plenitude e vertigem, descrição da otoscopia e o laudo da audiometria com grau e tipo de perda em cada orelha, com data. Encaminhamento incompleto volta e o paciente perde a vez na fila.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A terapia inicial com corticoide sistêmico é oferecida dentro de duas semanas do início dos sintomas, e a investigação de patologia retrococlear por ressonância ou por potencial evocado de tronco ocorre em paralelo, não antes. Com fila de oito semanas, aguardar o exame significa perder a janela inteira e transformar perda tratável em perda definitiva. O corticoide não mascara nem retarda o diagnóstico de lesão retrococlear, que continua sendo investigada. Reduzir o problema ao tamanho da fila ignora que a ordem correta independe dela: o tratamento precede a imagem em qualquer cenário. E o corticoide intratimpânico tem lugar definido como resgate, entre duas e seis semanas, diante de recuperação incompleta, não como primeira medida.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a tabela de Weber e Rinne com as duas linhas, dizendo em cada uma para onde o som lateraliza e como o Rinne é chamado. Em seguida, enuncie a definição audiométrica da perda súbita com os três números que a compõem. Feche listando o que não se pede na avaliação inicial e as duas janelas do corticoide, dizendo qual delas é opção e qual é recomendação.

em 30 dias

Refaça de cabeça a tabela que separa a perda súbita da perda por ruído, com as seis linhas, e explique em voz alta por que um trabalhador exposto a ruído com perda unilateral instalada em horas não tem doença ocupacional. Depois reconstrua as quatro filas do protocolo, dizendo o que manda o paciente para cada uma e o que precisa estar documentado. Termine explicando o vão entre as faixas de perda severa e profunda na tabela de graus e por que o mesmo paciente muda de rótulo conforme a classificação usada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mulher de 46 anos chega ao pronto-atendimento dizendo que acordou ontem de manhã com o ouvido direito abafado e um apito contínuo, e que agora não entende nada ao telefone desse lado. Não tem dor nem secreção. Conduza o atendimento: separe o tipo de perda com o que você tem na mão, cronometre a instalação e decida o que começa hoje e o que pode esperar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Perdas auditivas do adulto e surdez súbita – Perda auditiva no adulto: a que é emergência, a que é do trabalho e a que espera fila — Preparatório para provas | OsceLabs