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Otite externa e otite média: a mesma orelha, réguas opostas

Otites externa, média aguda e crônica: otalgia, otorreia e critérios de encaminhamento

Localização da infecção, integridade timpânica e complicações

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, diabético mal controlado (HbA1c 10,2%), procura o pronto-socorro com otalgia intensa e persistente à esquerda há 3 semanas, refratária a analgésicos, e otorreia purulenta. Ao exame: T 37,4 °C, otoscopia com tecido de granulação no assoalho do conduto auditivo externo na junção osteocartilaginosa; há paralisia facial periférica ipsilateral incipiente. Qual é o agente etiológico mais provável e o exame mais adequado para avaliar extensão óssea desta condição?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre a orelha externa e a orelha média com dor, secreção ou ambas: otite externa aguda difusa, otite externa necrosante, otite média aguda, otite média com efusão, otite média crônica e colesteatoma. O eixo é a decisão dos primeiros minutos: em qual compartimento está a doença, se o tratamento é tópico ou sistêmico, se a membrana está inteira ou aberta, e a partir de que prazo o caso deixa de ser da atenção primária.

Fica de fora o que já tem dono. A tontura de origem vestibular é do capítulo 2 desta apostila. O corpo estranho de conduto e de vias aéreas é do capítulo 3. A perda auditiva induzida por ruído é da apostila de Medicina do Trabalho. E a régua de idade que decide entre observar e antibiotizar a criança pequena com otite média aguda é da apostila de Pediatria — aqui ela aparece só como fronteira, para o candidato saber que existe e não a confundir com a regra do adulto.

As fontes são de dois tipos, e a diferença importa. Documentos clínicos dizem o que prescrever: o protocolo assistencial de um hospital universitário federal e a monografia da Organização Mundial da Saúde sobre otite média crônica supurativa. Documentos de regulação dizem quando encaminhar: os protocolos de encaminhamento de um serviço universitário de telessaúde, de duas secretarias estaduais e de três municípios. Boa parte da confusão de prova nasce de misturar as duas: um protocolo de regulação que não diz o que prescrever não está omitindo nada, não é o papel dele.

O capítulo foi escrito a partir de oito documentos públicos, todos baixados e conferidos byte a byte. Três deles são, comprovadamente, descendentes do mesmo texto: compartilham dezenas de frases idênticas. E é exatamente na frase copiada que o número muda — o que dá ao candidato a chance de entender que seis semanas e três meses não são duas escolas de pensamento, e sim a mesma linha editada por mãos diferentes.

03

O que muda decisão

O compartimento decide antes do antibiótico

A orelha externa é pele: o pavilhão e o conduto até a membrana timpânica. A orelha média é mucosa: a cavidade atrás da membrana, ventilada pela tuba auditiva e contínua com a mastoide. São dois territórios com flora, doença e tratamento diferentes, separados por uma película de poucos décimos de milímetro. Toda a decisão deste capítulo é saber de qual lado dessa película está o problema.

O sinal que separa os dois é mecânico e não custa nada. O protocolo municipal de Jundiaí o registra em uma frase: “Um sinal muito característico da otite externa é a dor que o paciente refere à compressão do tragus, o que pode ser útil no diferencial com otite média.” Puxar o pavilhão ou comprimir o tragus movimenta a pele inflamada do conduto e dói; não movimenta a mucosa da orelha média e não dói. É um teste de localização, não de gravidade: a otite média pode ser muito mais grave e ter tração indolor.

A otoscopia fecha. Na otite externa o achado está no caminho: conduto estreitado por edema, paredes espessadas, descamação e secreção, e a membrana — quando dá para vê-la — normal. Na otite média aguda o achado está no fundo: membrana abaulada, opaca e hiperemiada, com perda dos referenciais. O mesmo protocolo descreve a otite externa como inflamação difusa da pele da orelha externa com dor intensa, edema, hiperemia, secreção e descamação, “na ausência de alteração de membrana timpânica”, e a otite média aguda por “dor intensa e exsudação mucóide da orelha média, hiperemia de membrana timpânica, abaulamento da membrana”.

Daí sai a consequência terapêutica inteira. A otite externa é infecção de pele, dominada por Pseudomonas aeruginosa e estafilococos, e o medicamento chega por cima, dentro do conduto. A otite média aguda é infecção de mucosa fechada, dominada por pneumococo, hemófilo e moraxela, e o medicamento tem de chegar pelo sangue. Prescrever amoxicilina para otite externa é tratar uma bactéria que não está lá com uma via que não alcança o lugar.

Tres cortes de orelha sobre a mesma base: canal estreitado com membrana intacta, canal livre com membrana abaulada, canal livre com membrana perfurada. Uma gota desce sobre os dois primeiros e aparece cruzada por uma faixa sobre o terceiro.
O compartimento decide antes do antibiotico. Canal estreitado com membrana intacta e a doenca e da pele; membrana abaulada com cavidade cheia e a doenca e da mucosa atras dela; membrana aberta e a mesma gota que servia nos dois primeiros passa a ser escolhida por outra regra.

A prova explora esse par com uma economia notável. Quando o enunciado quer otite externa, ele planta piscina, cotonete, aparelho auditivo ou dor ao mastigar e ao tocar a orelha. Quando quer otite média, planta coriza dos dias anteriores, febre, irritabilidade e a criança levando a mão à orelha. Os dois pacotes são estáveis o suficiente para que a leitura do primeiro parágrafo já resolva metade da questão.

A gota que cura de um lado e envenena do outro

Com a membrana íntegra, o conduto é um fundo de saco: o que se pinga fica na pele e não alcança a orelha interna. Com a membrana perfurada, o conduto passa a se comunicar com a orelha média, e a gota escorre até a janela redonda, que é a porta da cóclea. A mesma solução muda de classe de risco por causa de um furo.

O protocolo assistencial de otites externas do hospital universitário federal de Uberaba, na versão de 2025, escreve a regra de forma direta: “A escolha dos antibióticos tópicos ou gotas otológicas (neomicina, polimixina B, cloranfenicol, ciprofloxacina) depende da presença ou da ausência de perfuração prévia da MT. Diante dos casos de integridade da MT, qualquer uma das drogas citadas acima pode ser prescrita.” E, na sequência: “Quando na presença de perfuração da MT (ex. otite média crônica), pelo risco de ototoxicidade induzida por aminoglicosídeos, apenas o cloranfenicol e a ciprofloxacina devem ser prescritos nesse caso.”

Guarde a estrutura: membrana inteira, qualquer gota; membrana aberta, só as que não são aminoglicosídeo. Neomicina é aminoglicosídeo e sai da lista assim que existe furo. A quinolona tópica, ciprofloxacino ou ofloxacino, é a que atravessa as duas situações, e é por isso que ela aparece como resposta correta em vinhetas muito diferentes entre si.

Agora o ponto que faz o tema valer. A monografia da Organização Mundial da Saúde sobre otite média crônica supurativa, de 2004, contradiz a si mesma nessa exata regra. No capítulo de manejo, ela relata a decisão de um órgão regulador britânico com aspas próprias: gotas de aminoglicosídeo são “contraindicated when the patient has a perforation of the ear drum because of the risk of ototoxicity”. Traduzido: contraindicadas quando o paciente tem perfuração da membrana, pelo risco de ototoxicidade.

No mesmo documento, o roteiro operacional de conduta manda o oposto. O passo 7 do primeiro cenário de manejo instrui a “instil wide-spectrum topical antibiotics such as neomycin-polymyxin for 1–2 weeks” — pingar antibiótico tópico de largo espectro, como neomicina-polimixina, por uma a duas semanas. E o passo 8, se não resolver e a cultura mostrar Pseudomonas, manda trocar “to topical quinolone or another aminoglycoside such as gentamicin”: quinolona tópica ou outro aminoglicosídeo, como a gentamicina.

Repare no que a doença é. Otite média crônica supurativa é, por definição da própria monografia, secreção que sai através de uma perfuração. Ou seja: o texto do documento cita um regulador declarando o aminoglicosídeo contraindicado no ouvido perfurado, e o algoritmo do mesmo documento prescreve aminoglicosídeo exatamente no ouvido perfurado, duas vezes. Não é ambiguidade de redação — é o texto discordando do fluxograma dentro da mesma capa.

A monografia até explica por que se permite: argumenta que boa parte da evidência de ototoxicidade vem de experimentos em animais, com a droga aplicada em orelhas normais ou pintada sobre a janela redonda de chinchilas, ratos e babuínos, e que em duas séries clínicas a gentamicina tópica não produziu desvio significativo de limiar. É um argumento honesto e datado. O protocolo brasileiro de 2025 não o acompanha, e a prova brasileira segue o protocolo brasileiro: com furo, quinolona.

O comprimido que não trata a bactéria que se quer tratar

Na otite externa aguda difusa, o tratamento é tópico. Limpeza do conduto, analgesia, gota com cobertura para Pseudomonas e proteção contra a água. O protocolo de Uberaba dá a posologia: “em geral com a posologia de 3 (três) gotas, de 8/8 hs, durante 1 (uma) semana”, e, nas medidas gerais, “não molhar a orelha (exemplo: durante o banho de chuveiro e piscina) por um período de 15 (quinze) dias”.

Duas contagens no mesmo parágrafo, e a maior é a que o paciente esquece: a gota dura sete dias e a proibição de molhar dura quinze. O dobro. O paciente que interrompe o cuidado quando acaba o frasco cumpre metade da prescrição, e a recidiva que aparece na semana seguinte costuma ser lida como falha do antibiótico.

O antibiótico sistêmico na otite externa é exceção, e o mesmo protocolo lista as três situações: “presença de febre”, “edema acentuado do CAE, impedindo a visualização da MT” e “edema periauricular”. Traduzindo o padrão: o comprimido entra quando a infecção saiu do conduto — quando há repercussão sistêmica ou quando o tecido mole ao redor da orelha está tomado. Enquanto a doença for da pele do conduto, a via tópica alcança concentrações que nenhum comprimido alcança ali.

O exemplo que o protocolo dá para o sistêmico é a cefalexina, que não cobre Pseudomonas. Parece incoerente e não é: o alvo do comprimido não é o mesmo alvo da gota. A gota trata a Pseudomonas do conduto; o comprimido trata a celulite periauricular, que é estafilocócica e estreptocócica. São dois medicamentos para duas infecções vizinhas, e o mesmo protocolo acrescenta que, para infecção acentuada ou resistente, a fluorquinolona oral entra em associação com o tópico, não no lugar dele.

Há um erro de endereço que a prova adora e que aparece impresso em documento público. O protocolo municipal de Jundiaí abre uma seção cujo título reúne, na mesma linha, as otites e a otalgia, e logo abaixo imprime um único bloco de tratamento: para o quadro viral, “analgésicos, antitérmicos, hidratação”; para o quadro bacteriano, “Amoxicilina, penicilina benzatina, macrolideos (alérgicos), Amoxicilina-clavulanato, Acetil-cefuroxima, Clindamicina”. O título cobre otite externa e otite média; a lista serve só à segunda. Um leitor apressado sai dali prescrevendo amoxicilina para o nadador com dor ao tocar o tragus.

A monografia da Organização Mundial da Saúde reforça o mesmo princípio do outro lado da membrana, e com uma frase curta: “There is no evidence that the addition of oral antibiotics confers increased benefit” — não há evidência de que acrescentar antibiótico oral traga benefício adicional. Ela fala da otite média crônica supurativa, não da externa; mas as duas doenças chegam à mesma conclusão pela mesma razão física: o medicamento precisa estar onde a infecção está, e a boca é longe.

Quando o ouvido deixa de ser agudo: cinco relógios para a mesma pergunta

A pergunta é banal e a resposta pública é caótica: quanto tempo de furo, ou de secreção, transforma um caso agudo em crônico e manda encaminhar? Nos oito documentos deste capítulo há cinco respostas diferentes, e duas delas convivem no mesmo arquivo.

O protocolo de encaminhamento do serviço universitário de telessaúde do Rio Grande do Sul, na versão digital de 2023, lista, em bullets consecutivos, dois prazos distintos. O primeiro: “membrana timpânica perfurada persistente após 6 semanas do tratamento da otite média aguda”. O segundo, para a otite média crônica: “com otorreia (drenagem de líquido na orelha externa, resultante de perfuração da membrana timpânica) que persiste por mais de 3 meses”. O buraco é encaminhado com seis semanas; o líquido que sai do buraco, só com três meses.

Duas reguas de tempo empilhadas: quatro marcas na de cima descem por linhas pontilhadas, duas encontram marcas na de baixo e duas terminam no vazio. Ao lado, uma barra lisa sem marcas.
Os relogios do ouvido que escorre, empilhados. A regua de cima e a dos documentos que marcam o furo; a de baixo, a dos que marcam a secrecao. Duas das descidas encontram par e duas terminam no vazio, porque o documento correspondente nao marca aquele ponto. A barra lisa da direita e a definicao que nao carrega prazo nenhum.

O protocolo estadual do Espírito Santo, no mesmo lugar da lista, escreve outra coisa: “Membrana timpânica perfurada após três meses de acompanhamento na APS”. Dobrou o prazo do furo, de seis semanas para três meses, e, de quebra, trocou a âncora: o documento gaúcho conta a partir do fim do tratamento da otite média aguda, e o capixaba conta a partir do início do acompanhamento na atenção primária. Duas réguas com origens diferentes não medem a mesma coisa nem quando o número coincide.

O protocolo municipal de Jundiaí inverte a relação. Ele define a cronicidade em três meses — “otite média crônica se a perfuração manter-se por mais de 3 meses” — mas manda encaminhar antes: “Nos casos de otite média aguda com supuração, onde a otorreia se mantém por mais de 4 semanas, deve-se encaminhar com prioridade para avaliação com especialista para tentar evitar a evolução para otite média crônica.” O relógio do encaminhamento dispara em quatro semanas, antes do relógio do diagnóstico, e por um motivo defensável: encaminha-se para impedir que a doença que se define em três meses chegue a existir.

A monografia da Organização Mundial da Saúde entra com o prazo mais curto de todos e depois o desautoriza. Na orientação para o trabalhador da atenção primária: “A history of at least 2 weeks of persistent ear discharge should alert primary health workers to the problem” — pelo menos duas semanas de secreção persistente. E o algoritmo de manejo abre com “Patient with ear discharge of 2 weeks or more”.

Mas o corpo do texto, na discussão diagnóstica, diz o contrário. Como oitenta por cento das otites médias agudas de crianças levam de dois a três meses para resolver, a “persistence of ear discharge beyond 2 weeks does not necessarily indicate” a doença crônica: a persistência de secreção além de duas semanas não indica necessariamente cronicidade, e o diagnóstico, diz a monografia, só pode ser presuntivo na atenção primária. O texto do documento está mais perto do prazo brasileiro de três meses do que do algoritmo do próprio documento.

E há o quarto caso, o mais fácil de ignorar: a definição da monografia não tem prazo nenhum. Otite média crônica supurativa é definida como “a chronic inflammation of the middle ear and mastoid cavity, which presents with recurrent ear discharges or otorrhoea through a tympanic perforation” — inflamação crônica da orelha média e da mastoide que se apresenta com secreção recorrente através de uma perfuração timpânica. Nem duas semanas, nem três meses: nenhuma semana. Quem cita a definição não restringe; quem cita o algoritmo restringe em duas semanas; quem cita o protocolo brasileiro restringe em seis semanas ou três meses.

A própria monografia admite que essa bagunça contaminou os números que ela publica. Sobre os estudos de prevalência que alimentam sua tabela global, ela registra que nenhum dos inquéritos mencionou o termo do relatório nem forneceu definição semelhante à dele, e conclui, na letra: “The terms used (‘chronic otitis media', ‘perforation' and ‘otorrhoea') did not appear to be synonymous.” Os termos empregados não eram sinônimos entre si. A tabela existe; o denominador de cada linha, não.

O mesmo texto, o número trocado

Os prazos acima parecem opiniões técnicas concorrentes. Não são. Os documentos foram comparados frase a frase, e o protocolo de Itu compartilha trinta e duas frases idênticas com o de Jundiaí, vinte com o do serviço gaúcho de telessaúde e nove com o do Espírito Santo — frases longas, de sessenta caracteres ou mais, iguais até a pontuação. O documento de Itu chega a citar a origem por escrito no rodapé de uma seção: “Fonte: TelesaúdeRS-UFRGS (2018) adaptado”.

Ou seja: existe um texto-mãe, de 2018, e existem cópias estaduais e municipais dele. A frase do encaminhamento é literalmente a mesma nos dois lados da divergência; o que mudou foi o numeral dentro dela e o ponto de onde se começa a contar. Isso muda a natureza do que o candidato precisa decorar: não são duas correntes de pensamento com fisiopatologias distintas, é uma linha editada.

A consequência prática é a que interessa na prova. Quando a questão pedir um prazo, o que importa é qual documento ela está usando como régua, e isso o enunciado quase sempre entrega: se fala em encaminhamento para o especialista, é protocolo de regulação, e o intervalo grande — três meses para secreção e efusão — é o mais seguro. Se a questão descreve uma criança com secreção há três semanas, ela não está perguntando prazo: está perguntando se você reconhece que ainda é agudo.

Vale registrar o que essa cópia não explica. As divergências de prazo não vieram da tradução do texto da Organização Mundial da Saúde: o documento internacional não aparece na lista de referências dos protocolos municipais examinados, e o prazo de duas semanas não sobreviveu em nenhum deles. As duas semanas ficaram só no documento de origem, e os documentos brasileiros, sem exceção, adotaram prazos maiores.

A otite que deixou de ser otite: a necrosante do diabético

Existe uma otite externa que não é doença de pele e não se resolve com gota: a otite externa necrosante, ainda chamada de maligna na literatura mais antiga e nos enunciados de prova. É osteomielite da base do crânio que começa no conduto e caminha pelo osso. O nome duplo é herança e vale conhecer os dois, porque a mesma prova usa ora um, ora outro: o protocolo de Uberaba registra os dois termos lado a lado nos descritores de busca.

O paciente é estável demais para o que tem. O protocolo de Uberaba é explícito: “A febre e a taquicardia também são incomuns”. É o padrão do déficit que apaga o sinal: no diabético idoso com resposta inflamatória comprometida, a osteomielite da base do crânio corre sem os sinais que fariam qualquer médico interná-lo. Esperar febre para levar o caso a sério é esperar por um sinal que o hospedeiro não consegue produzir.

Os três números do quadro clínico contam uma história contraintuitiva, e o protocolo os cita com as fontes originais. A otorreia “ocorre em 78% dos indivíduos portadores desta patologia, porém é pouco específica”. O tecido de granulação, “geralmente situado entre as porções ósteo-cartilagínea do CAE, é uma condição específica da doença, observada em 75% dos casos”. E o nervo facial “é o nervo craniano mais acometido (31% das OEN)”, mas “embora isto esteja associado à maior extensão da doença, não se comprovou tratar-se de um preditor prognóstico”.

Leia os três juntos. O achado mais frequente, com setenta e oito por cento, é o que menos decide, porque qualquer otite externa escorre. O achado logo abaixo, com setenta e cinco, é o que fecha o caso, porque tecido de granulação na junção entre osso e cartilagem não pertence a nenhuma outra otite externa. E o achado mais dramático, a paralisia facial em trinta e um por cento, impressiona, marca extensão e não prediz desfecho. Três pontos percentuais separam o primeiro do segundo, e uma distância enorme de utilidade clínica: é a diferença entre sensibilidade e especificidade escrita em números.

O protocolo gaúcho descreve o mesmo quadro do lado da regulação, com uma lista de gatilhos: “suspeita de otite externa maligna (otite externa severa com otalgia que não responde ao tratamento da dor, dor em mastoide, tecido de granulação, necrose no conduto ou paralisia facial)”, e classifica isso como encaminhamento para urgência ou emergência, não para ambulatório. É a única otite externa que sai da fila eletiva.

Corrente de quatro blocos com duas chaves de tamanhos diferentes embaixo e, acima, um bloco tracejado fora da corrente ligado por uma seta que sai e nao retorna.
A cadeia do encaminhamento e o caso que sai dela. Os elos ligam a unidade basica, o ambulatorio de especialidade e a cirurgia; a chave curta cobre so o ultimo elo. O bloco tracejado, ligado por uma seta que sai e nao volta, e a otite que deixou de ser otite: quem entra nele passa a ser tratado por outro servico, com outra pergunta.

O tratamento também troca de escala. O protocolo de Uberaba coloca o ciprofloxacino como antimicrobiano de escolha, por via oral e tópica nos casos menos graves, e a ceftazidima como primeira escolha intravenosa, acrescentando que “30% de cepas de Pseudomonas apresentaram resistência ao ciprofloxacino”, o que explica por que alguns autores associam as duas. A tomografia contrastada é o padrão-ouro de extensão, mas o próprio protocolo avisa que ela “não colabora para a avaliação evolutiva, haja vista que as alterações ósseas geralmente são persistentes”, e por isso o seguimento se faz com cintilografia e com provas inflamatórias.

Guarde esse par, porque é armadilha frequente: o exame que fecha o diagnóstico não é o exame que acompanha a resposta. O osso continua alterado na imagem muito depois de a infecção ter cedido. Quem pede tomografia de controle para decidir alta lê melhora inexistente como falha e prolonga tratamento sem motivo.

O ouvido que escorre há meses: crônica e colesteatoma

Quando a secreção passa de semanas para meses, o vocabulário muda e as opções de resposta ficam mais parecidas entre si. O protocolo gaúcho organiza o campo em três formas. A otite média crônica benigna ou inativa é a “perfuração seca da membrana timpânica, sem infecção ativa”. A otite média crônica com efusão é “condição inflamatória crônica com líquido no ouvido médio sem sinais ou sintomas agudos”, com a membrana íntegra. E a forma supurativa é diagnosticada “quando há drenagem purulenta persistente através de uma MT perfurada”.

O colesteatoma é outra coisa, e a prova insiste nele. O mesmo documento o define como “coleção epitelial queratinizada e descamativa na orelha média ou mastóide”, que “pode ocorrer secundariamente à perfuração da MT ou como lesão primária”. Não é uma infecção que se resolve, é epitélio crescendo no lugar errado e corroendo o que encontra pela frente. O sinal de prova é a otorreia fétida persistente com perda auditiva condutiva, eventualmente com vertigem ou paralisia facial quando a erosão avança.

A consequência de conduta é a que separa as alternativas: colesteatoma não se trata com gota nem com ciclo de antibiótico. Ele se opera. A gota trata a infecção secundária que o acompanha e melhora o cheiro; a doença continua crescendo. Por isso os protocolos brasileiros colocam a suspeita de colesteatoma na lista de encaminhamento com prioridade, e o documento gaúcho o inclui entre as condições que “devem ter preferência no encaminhamento” ao lado de mastoidite crônica com drenagem e hipoacusia súbita.

A otite média com efusão fecha o grupo pelo lado silencioso. Sem dor e sem febre, ela se manifesta como perda auditiva de condução — e, na criança, como a queixa indireta que os protocolos descrevem: dificuldade de escutar a televisão, desatenção, atraso de fala. É o único quadro deste capítulo que costuma chegar sem otalgia, e por isso escapa da suspeita de quem só pensa em ouvido quando dói.

Emergência, ambulatório e o que fica na atenção primária

O protocolo gaúcho separa três destinos, e a separação é a espinha das questões de conduta. Vão para urgência ou emergência a suspeita de otite externa necrosante e a “otite média com complicações graves (como mastoidite aguda, paralisia facial e meningite)”. São os quadros em que a infecção saiu da orelha: entrou no osso, no nervo ou nas meninges.

Vão para o ambulatório de otorrinolaringologia a membrana perfurada persistente após o prazo, a otite média crônica com otorreia ou hipoacusia, a otite média com efusão que persiste, a suspeita de colesteatoma, a mastoidite crônica e os casos de otite externa necrosante já manejados na emergência. Repare que a necrosante aparece nas duas listas, em momentos diferentes: primeiro na emergência, depois no ambulatório, no seguimento.

Fica na atenção primária tudo o que sobra, e é a maior parte: otite externa aguda difusa não complicada, otite média aguda sem complicação, cerume e a reavaliação marcada. O fluxograma do protocolo de Uberaba resume a linha de frente em uma sequência: tratamento na unidade básica ou no pronto atendimento com “analgésico, anti-inflamatório, antibiótico tópico ou gotas otológicas, antibiótico sistêmico”, “reavaliação em 48 a 72 hs” e, se não houver melhora, encaminhamento pelo complexo regulador ao ambulatório de especialidades.

A mastoidite merece parágrafo próprio porque é a complicação que a prova usa como divisor. A criança em tratamento de otite média aguda que volta pior depois de três ou quatro dias de antibiótico adequado, com febre nova, dor retroauricular e pavilhão deslocado, não precisa de troca de gota nem de mais uma semana de amoxicilina: precisa de internação, antibiótico endovenoso, imagem do osso temporal e avaliação especializada. É a situação em que o tempo de resposta do primeiro esquema vira sinal de alarme, não de paciência.

O que a prova mede quando descreve a otoscopia

Vale fechar com o dicionário que os enunciados usam, porque a descrição da otoscopia carrega quase toda a informação diagnóstica das questões deste tema. Membrana abaulada, opaca e hiperemiada, com perda do triângulo luminoso: otite média aguda. Conduto edemaciado, com descamação e secreção, membrana normal ou não visualizada, dor à compressão do tragus: otite externa aguda difusa.

Tecido de granulação no assoalho do conduto, na junção entre osso e cartilagem, em diabético com otalgia que não cede à analgesia: otite externa necrosante, até prova em contrário. Perfuração com secreção purulenta há meses: otite média crônica supurativa. Secreção fétida com perda auditiva condutiva e massa esbranquiçada: colesteatoma. Membrana íntegra, retraída ou com nível líquido, sem dor e sem febre, com hipoacusia: otite média com efusão.

Duas confusões merecem nome porque aparecem em alternativa quase toda vez. A primeira: otorreia alivia a dor. A otite média aguda que perfura espontaneamente melhora a otalgia e passa a escorrer; o paciente que diz que doía muito e que ontem estourou não está melhorando por acaso, está descrevendo uma perfuração. A segunda: a otite externa também escorre. Secreção não é sinônimo de orelha média; o que localiza é o conduto, o tragus e a membrana, não o fato de sair líquido.

E uma fronteira que a prova respeita: a régua de idade que decide entre observar por quarenta e oito a setenta e duas horas ou antibiotizar de imediato a criança com otite média aguda pertence à Pediatria, e é lá que ela deve ser estudada. Neste capítulo ela aparece apenas para o candidato não a aplicar onde não vale: no adulto com otalgia e conduto edemaciado não existe observação, existe gota.

04

Da otalgia ao encaminhamento, na ordem em que se decide

A sequência vale para o adulto e para a criança com dor de ouvido, secreção ou ambas, na primeira avaliação. Ela não substitui a régua pediátrica de idade para escolher entre observar e antibiotizar a otite média aguda, que é assunto da apostila de Pediatria. Cada passo só faz sentido depois do anterior: o compartimento antes do agente, o agente antes da via, a via antes do prazo.

  1. 1Comprima o tragus e tracione o pavilhão. Dor a essa manobra localiza a doença na pele do conduto e afasta, na prática, a otite média isolada como explicação da dor.
  2. 2Faça a otoscopia com a pergunta certa: o achado está no caminho ou no fundo? Conduto estreitado e descamativo com membrana normal é orelha externa; membrana abaulada, opaca e hiperemiada é orelha média.
  3. 3Se a membrana não pode ser vista por edema do conduto, registre isso: além de ser critério para antibiótico sistêmico na otite externa, é o que impede afirmar que a orelha média está livre.
  4. 4Procure tecido de granulação no assoalho do conduto, na junção entre osso e cartilagem, sempre que houver diabetes, imunossupressão ou dor desproporcional que não cede à analgesia.
  5. 5Na otite externa não complicada, prescreva tópico: limpeza, analgesia, gota com cobertura para Pseudomonas por cerca de sete dias e orelha seca por quinze. Não acrescente antibiótico oral por reflexo.
  6. 6Acrescente o antibiótico sistêmico apenas nas três situações do protocolo: febre, edema do conduto que impede ver a membrana e edema periauricular. O alvo dele é o tecido mole, não o conduto.
  7. 7Antes de escolher a gota, decida se há perfuração. Com membrana íntegra, qualquer uma das opções serve; com membrana aberta, exclua o aminoglicosídeo e fique com cloranfenicol ou ciprofloxacina.
  8. 8Na otite média aguda, o tratamento é sistêmico e a reavaliação é marcada para quarenta e oito a setenta e duas horas. Piora nesse intervalo, sob esquema adequado, é sinal de complicação e não motivo de paciência.
  9. 9Diante de dor retroauricular, pavilhão deslocado e febre nova em criança já tratada, pense em mastoidite: internação, antimicrobiano endovenoso, imagem do osso temporal e avaliação especializada.
  10. 10Conte o relógio da cronicidade a partir do que o protocolo do seu serviço define, e registre a data de início da secreção no prontuário. Sem essa data, nenhum dos prazos publicados pode ser aplicado.
  11. 11Encaminhe para urgência a suspeita de otite externa necrosante e a otite média com mastoidite, paralisia facial ou meningite. Encaminhe para ambulatório a perfuração persistente, a otite média crônica, a efusão que não resolve e a suspeita de colesteatoma.

Primeiro degrau: a doença está no caminho

Conduto estreitado por edema e descamação, membrana ao fundo íntegra, dor à compressão do tragus. Otite externa aguda difusa. Gota com cobertura para Pseudomonas por sete dias, analgesia e orelha seca por quinze. Antibiótico oral só com febre, edema que impede ver a membrana ou edema periauricular.

Segundo degrau: a doença está no fundo

Conduto livre, membrana abaulada, opaca e hiperemiada, cavidade atrás dela preenchida. Otite média aguda. O tratamento é sistêmico porque a mucosa doente está atrás de uma barreira fechada; a gota não chega lá. Reavaliação marcada em quarenta e oito a setenta e duas horas.

Terceiro degrau: a barreira se abriu

Membrana com perfuração e secreção saindo por ela. A partir daqui a gota volta a alcançar a orelha média, e por isso o aminoglicosídeo sai da lista: só cloranfenicol e ciprofloxacina. Secreção que persiste conta o relógio da cronicidade e vira motivo de encaminhamento.

Quarto degrau: a doença saiu da orelha

Tecido de granulação na junção entre osso e cartilagem, dor que não cede à analgesia, diabético ou imunossuprimido, febre em geral ausente. Otite externa necrosante, que é osteomielite de base de crânio: encaminhamento para urgência, antimicrobiano sistêmico antipseudomonas e imagem.

Os seis quadros, lado a lado

QuadroO que a otoscopia e o exame mostramVia do tratamentoDestino
Otite externa aguda difusaConduto edemaciado e descamativo, membrana íntegra, dor à compressão do tragusTópica: gota com cobertura para Pseudomonas; sistêmico só nas três exceçõesAtenção primária, reavaliação em 48 a 72 horas
Otite externa necrosanteTecido de granulação na junção osso-cartilagem, dor refratária, diabético, febre incomumSistêmica antipseudomonas, oral ou intravenosa, mais tópicaUrgência ou emergência; depois, ambulatório para seguimento
Otite média agudaMembrana abaulada, opaca e hiperemiada, precedida de coriza, com febre e otalgiaSistêmica; a gota não alcança a mucosa atrás da membrana íntegraAtenção primária; especialista se falha de primeira e segunda escolha
Otite média com efusãoMembrana íntegra, retraída ou com nível líquido, sem dor e sem febre, com hipoacusiaObservação; nenhuma gota resolve líquido atrás de membrana fechadaEspecialista se persiste por mais de três meses
Otite média crônica supurativaPerfuração com drenagem purulenta persistente através delaLimpeza e tópico sem aminoglicosídeo; oral não acrescenta benefícioEspecialista pelo prazo do protocolo local
ColesteatomaOtorreia fétida persistente, perda auditiva condutiva, massa esbranquiçadaCirúrgica; a gota trata a infecção associada, não a doençaEspecialista com prioridade

O relógio de cada documento para a mesma pergunta

Documento e anoPerfuração após otite média agudaOtorreia ou efusãoDe onde se conta
Organização Mundial da Saúde, 2004A definição não traz prazo algumDuas semanas no algoritmo; o texto diz que duas semanas não bastamDo início da secreção
Serviço de telessaúde do Rio Grande do Sul, 2023Seis semanasTrês mesesDo fim do tratamento da otite média aguda
Município de Itu, 2023Seis semanasTrês mesesDo fim do tratamento da otite média aguda
Estado do Espírito Santo, 2020 e 2021Três mesesTrês mesesDo início do acompanhamento na atenção primária
Município de Jundiaí, 2023Três meses para nomear a doençaQuatro semanas para encaminhar com prioridadeDo início da supuração

A dor à compressão do tragus localiza, não gradua. Uma otite média com complicação intracraniana pode ter tração do pavilhão completamente indolor, e nem por isso é o quadro mais leve dos dois.

Os prazos da tabela de relógios não são graus de rigor de escolas diferentes: três dos documentos descendem do mesmo texto, e a frase é literalmente a mesma nos dois lados da divergência. O que muda é o numeral e a âncora da contagem.

Nenhum dos oito documentos consultados declara conflito de interesse, fonte de financiamento, patrocínio ou ausência deles. Isso inclui a monografia internacional e o protocolo assistencial do hospital universitário, em que a declaração seria esperada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Gota de aminoglicosídeo em orelha com membrana perfurada

Contraindicada. O protocolo assistencial brasileiro de 2025 é categórico: com perfuração da membrana, pelo risco de ototoxicidade induzida por aminoglicosídeos, apenas o cloranfenicol e a ciprofloxacina devem ser prescritos. A mesma posição é atribuída, dentro da monografia internacional, a um órgão regulador britânico, que declarou as gotas de aminoglicosídeo contraindicadas quando existe perfuração da membrana, pelo risco de ototoxicidade.

Protocolo Manejo Clínico das Otites Externas, hospital universitário federal de Uberaba, versão 2, 2025; e Chronic suppurative otitis media, Organização Mundial da Saúde, 2004, capítulo de manejo.

Permitida como primeira linha. O roteiro operacional da mesma monografia internacional instrui a instilar antibiótico tópico de largo espectro, dando como exemplo a associação de neomicina com polimixina, por uma a duas semanas, em orelha cuja doença é definida como secreção através de uma perfuração; e, se não houver resolução com cultura mostrando Pseudomonas, oferece como alternativa trocar por quinolona tópica ou por outro aminoglicosídeo, como a gentamicina.

Chronic suppurative otitis media, Organização Mundial da Saúde, 2004, cenários de manejo, passos 7 e 8.

Na prova

A divergência está dentro do mesmo documento: o texto cita o regulador que proíbe e o algoritmo prescreve o proibido, na mesma doença. A prova brasileira segue o protocolo brasileiro, e a resposta esperada é a quinolona tópica sempre que o enunciado mencionar perfuração, otite média crônica ou secreção saindo pela membrana. Se o enunciado descrever membrana íntegra, a restrição desaparece e outras gotas voltam a ser aceitáveis.

Quantas semanas de perfuração após otite média aguda mandam encaminhar

Seis semanas, contadas do fim do tratamento. A condição escrita é membrana timpânica perfurada persistente após seis semanas do tratamento da otite média aguda, e ela aparece com a mesma redação em dois documentos, um estadual de origem universitária e um municipal que declara ter copiado dele.

Protocolos de encaminhamento em Otorrinolaringologia, serviço de telessaúde universitário do Rio Grande do Sul, versão digital de 2023; e protocolo do município de Itu, 2023.

Três meses, contados do início do acompanhamento. A condição escrita é membrana timpânica perfurada após três meses de acompanhamento na atenção primária, com a mesma posição na lista e o mesmo vizinho de bullet, mas com o numeral dobrado e a origem da contagem trocada.

Protocolo de regulação formativa em Otorrinolaringologia, secretaria estadual de saúde do Espírito Santo, novembro de 2020; e protocolo de Otorrinolaringologia do instituto capixaba de ensino, 2021.

Na prova

O candidato não precisa escolher um lado, precisa reconhecer o eixo: perfuração que não fecha depois do tratamento é motivo de encaminhamento eletivo, e o prazo publicado varia por documento entre seis semanas e três meses. Questão que cobre prazo costuma dar o desenho do serviço no enunciado. Quando não der, o intervalo maior é o mais defensável, porque é o que mais documentos adotam.

Quanto tempo de otorreia define a otite média crônica

Duas semanas. A orientação para o trabalhador da atenção primária diz que uma história de pelo menos duas semanas de secreção persistente deve alertar para o problema, e o algoritmo de manejo abre justamente com o paciente que tem secreção de duas semanas ou mais.

Chronic suppurative otitis media, Organização Mundial da Saúde, 2004, resumo e algoritmo de manejo.

Duas semanas não bastam. O corpo do mesmo documento afirma que, como oitenta por cento das otites médias agudas de crianças levam de dois a três meses para resolver, a persistência de secreção além de duas semanas não indica necessariamente doença crônica, e o diagnóstico só pode ser presuntivo na atenção primária.

Chronic suppurative otitis media, Organização Mundial da Saúde, 2004, discussão diagnóstica.

Três meses, com encaminhamento antes disso. Os protocolos brasileiros usam três meses de otorreia ou de efusão como critério de encaminhamento, e um deles antecipa o encaminhamento prioritário para quatro semanas de supuração, explicitamente para evitar que a doença de três meses se instale.

Protocolos de encaminhamento do Rio Grande do Sul, 2023; do Espírito Santo, 2021; e protocolo do município de Jundiaí, 2023.

Na prova

Três posições e um detalhe que fecha o assunto: a definição formal da monografia internacional não traz prazo nenhum. Ela descreve inflamação crônica da orelha média e da mastoide com secreção recorrente através de uma perfuração, sem contar semanas. Quem decorou duas semanas está citando o algoritmo; quem decorou três meses está citando o protocolo de encaminhamento; quem cita a definição não deveria citar prazo nenhum.

06

Caso resolvido

Homem de 71 anos, com diabetes há vinte anos e hemoglobina glicada de 10,4%, procura a unidade básica com dor na orelha direita há três semanas. Já usou gotas otológicas prescritas em outro serviço, sem melhora, e refere que a dor piora à noite e não cede com analgésico comum. Está afebril, com frequência cardíaca de 78 batimentos por minuto. À otoscopia, o conduto tem edema e secreção, e há tecido de granulação no assoalho, junto à junção entre a parte óssea e a cartilaginosa. A membrana timpânica não é visualizada.
primeiro, localize o compartimento antes de nomear a doença
O achado está no caminho, não no fundo: edema, secreção e granulação no conduto. Isso é orelha externa. A membrana não visualizada não permite afirmar que a orelha média está livre, e esse registro importa: é um dos critérios de antibiótico sistêmico e uma limitação declarada do exame.
segundo, some os quatro elementos que mudam a doença de categoria
Diabetes malcontrolado, idade avançada, dor refratária ao tratamento tópico já tentado e tecido de granulação na junção entre osso e cartilagem. Esses quatro juntos deixam de descrever otite externa aguda difusa e passam a descrever otite externa necrosante, que é osteomielite de base de crânio.
terceiro, não use a ausência de febre para tranquilizar
Estar afebril e sem taquicardia é o esperado neste quadro, não um sinal de benignidade. A fonte é explícita: febre e taquicardia são incomuns na otite externa necrosante. O hospedeiro com defesa comprometida não produz o sinal que o médico está esperando.
quarto, mude o destino antes de mudar a prescrição
A suspeita de otite externa necrosante é, nos protocolos de encaminhamento, condição de urgência ou emergência, e não de fila eletiva. Prescrever outra gota e reavaliar em uma semana é o erro central da vinheta: o caso saiu do escopo da unidade básica no momento em que a granulação apareceu.
quinto, escolha o antimicrobiano pelo agente e pela via certa
O agente é Pseudomonas na maioria dos casos. O ciprofloxacino é o antimicrobiano de escolha, por via oral e tópica nos casos menos graves; a ceftazidima é a primeira escolha intravenosa. A associação das duas é proposta por parte dos autores porque cerca de trinta por cento das cepas mostram resistência ao ciprofloxacino.
sexto, separe o exame que diagnostica do exame que acompanha
A tomografia contrastada de orelhas e mastoides define a extensão e é o padrão-ouro para isso, mas não serve para acompanhar resposta, porque as alterações ósseas persistem. O seguimento se faz com cintilografia e com provas inflamatórias, além da avaliação clínica e do controle glicêmico.
07

Agora feche você

Menino de 2 anos é levado à unidade básica com febre de 39 graus e choro há um dia, levando a mão à orelha esquerda. Há quatro dias teve coriza. À otoscopia, a membrana timpânica esquerda está abaulada, opaca e hiperemiada; a direita é normal. Recebeu amoxicilina em dose adequada e foi orientado a retornar. Volta no quarto dia com febre nova, dor atrás da orelha e o pavilhão esquerdo deslocado para frente e para fora. A mãe pergunta se pode trocar por uma gota, porque a criança não gosta do xarope.
Passo 1
Nomeie o quadro inicial usando os três adjetivos da otoscopia e diga por que o tratamento tinha de ser sistêmico, e não tópico.
Passo 2
Explique por que a resposta à mãe sobre a gota é negativa em duas frentes: a barreira anatômica e o momento clínico em que a pergunta foi feita.
Passo 3
Diga o que significa piorar no quarto dia sob antibiótico adequado e nomeie a complicação sugerida pela dor retroauricular com deslocamento do pavilhão.
Passo 4
Defina o destino do paciente e liste as quatro medidas que a complicação exige, incluindo o exame de imagem apropriado.
Passo 5
Suponha agora que, em vez de piorar, a criança tivesse melhorado, mas a secreção pela orelha persistisse por semanas. Diga a partir de que prazo cada família de documentos manda encaminhar e por que os números divergem.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prescrever amoxicilina para otite externa O agente é Pseudomonas ou estafilococo de pele, e a via é a gota. A amoxicilina não cobre o agente e não alcança o conduto em concentração útil. O erro é reforçado por protocolo público que imprime uma lista de antibióticos orais sob um título que abrange otite externa e otite média.
  2. 2Usar gota com aminoglicosídeo em orelha perfurada Com a membrana aberta, a solução alcança a janela redonda. Neomicina e gentamicina saem da lista; cloranfenicol e ciprofloxacina ficam. Se o enunciado mencionar perfuração, otite média crônica ou secreção que sai pela membrana, a quinolona tópica é a escolha.
  3. 3Ler tração indolor do pavilhão como caso leve A manobra localiza o compartimento, não mede gravidade. Uma otite média com mastoidite ou complicação intracraniana tem tração indolor, e é muito mais grave do que a otite externa que doeu ao toque.
  4. 4Esperar febre para levar a sério a otite do diabético Na otite externa necrosante, febre e taquicardia são incomuns. O que decide é dor refratária à analgesia com tecido de granulação na junção entre osso e cartilagem, em hospedeiro com defesa comprometida. Esperar o sinal sistêmico é esperar por algo que o paciente não consegue produzir.
  5. 5Tratar a otorreia como sinal de gravidade da necrosante A secreção aparece em setenta e oito por cento dos casos e é pouco específica, porque qualquer otite externa escorre. O achado que fecha o diagnóstico é o tecido de granulação, presente em setenta e cinco por cento; a diferença de frequência é pequena e a diferença de utilidade é enorme.
  6. 6Usar a paralisia facial como marcador de prognóstico O nervo facial é o par craniano mais acometido, em cerca de trinta e um por cento dos casos, e isso marca extensão da doença. Não está comprovado que seja preditor de desfecho; a fonte que traz o número é explícita nesse ponto.
  7. 7Pedir tomografia de controle para decidir a alta A tomografia contrastada é padrão-ouro para extensão, mas não serve ao acompanhamento evolutivo, porque as alterações ósseas persistem depois da cura. O seguimento se faz com provas inflamatórias e cintilografia; quem controla por tomografia lê melhora inexistente como falha.
  8. 8Tratar colesteatoma com antibiótico Não é infecção que se resolve: é epitélio queratinizado crescendo na orelha média ou na mastoide e erodindo o que encontra. A gota melhora o cheiro e a infecção associada, e a doença continua. A conduta é encaminhamento com prioridade para avaliação cirúrgica.
  9. 9Achar que secreção significa orelha média A otite externa também escorre. O que localiza é o conduto, a dor ao toque e o estado da membrana, não a presença de líquido. E a otite média aguda que perfura espontaneamente melhora a dor justamente quando começa a escorrer.
  10. 10Aplicar o prazo de um protocolo sem saber de onde ele conta Seis semanas do fim do tratamento e três meses do início do acompanhamento não são a mesma régua com números diferentes: são réguas com origens diferentes. Sem a data de início registrada em prontuário, nenhum dos dois prazos pode ser aplicado.
  11. 11Suspender o cuidado quando acaba o frasco Na otite externa aguda difusa, a gota dura cerca de sete dias e a orelha deve ficar seca por quinze. A recidiva que aparece na semana seguinte à alta costuma ser lida como falha do antibiótico, quando é reexposição à água.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é otite externa necrotizante (maligna): idoso diabético, otalgia desproporcional e refratária, tecido de granulação na junção osteocartilaginosa e acometimento de par craniano (facial), indicando osteomielite da base do crânio. O agente clássico é Pseudomonas aeruginosa. A cintilografia com gálio-67 (ou tecnécio-99m) avalia atividade osteomielítica e acompanhamento; a TC define erosão óssea. S. aureus, S. pneumoniae e Candida não são os agentes típicos desta entidade. Radiografia simples e audiometria não avaliam extensão óssea da base do crânio, e USG/RM só de partes moles não caracterizam a osteomielite.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a diferença entre orelha externa e orelha média em três linhas: qual é o tecido, qual é o agente típico e qual é a via do tratamento. Depois, sem consultar, diga as três situações em que a otite externa ganha antibiótico sistêmico e explique por que o exemplo dado nos protocolos não cobre Pseudomonas. Feche dizendo qual gota é proibida quando a membrana está perfurada e por quê.

em 30 dias

Refaça de cabeça a tabela dos relógios, com as cinco linhas, e diga em voz alta, para cada uma, de onde a contagem começa. Em seguida, reconstrua a contradição interna da monografia internacional: qual frase proíbe o aminoglicosídeo, qual passo do algoritmo o prescreve e por que as duas falam da mesma orelha. Termine explicando por que a otorreia, presente em setenta e oito por cento das otites externas necrosantes, decide menos do que o tecido de granulação, presente em setenta e cinco.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de 69 anos entra no consultório com um chumaço de algodão na orelha direita e diz que já usou duas gotas diferentes e que a dor não passa, principalmente à noite. Ele conta que é diabético e que faz tempo que não mede a glicemia. Está sem febre. Conduza a consulta: descubra o que muda esta otite de categoria e decida para onde ele vai. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Otites externa, média aguda e crônica – Otite externa e otite média: a mesma orelha, réguas opostas — Preparatório para provas | OsceLabs