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Rinossinusites aguda e crônica

Duração, gravidade, antibiótico e indicação de imagem

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 34 anos, procura atendimento com quadro de obstrução nasal, rinorreia mucopurulenta anterior e posterior, dor/pressão facial e hiposmia iniciados há 6 dias, após um resfriado. Refere que os sintomas pioraram a partir do 5º dia, com aumento da dor facial e retorno da febre (38,2 °C). Ao exame, há secreção purulenta em meato médio à rinoscopia anterior. Sem sinais de complicação orbitária ou intracraniana. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Rinossinusite é inflamação da mucosa do nariz e dos seios paranasais, e o diagnóstico se faz com duas queixas e um relógio. Duas ou mais entre obstrução nasal, rinorreia anterior ou posterior, dor ou pressão facial e redução do olfato — tosse no lugar do olfato quando o paciente é criança — fecham rinossinusite aguda se durarem até doze semanas. O consenso brasileiro de 2024 é explícito: não há necessidade de complementação radiológica ou endoscópica para esse diagnóstico. O nome da doença é a parte fácil. A prova cobra o que vem depois dele.

O que vem depois é separar viral de bacteriana, porque é essa separação que decide o antibiótico. E ela não se faz por sintoma isolado: secreção purulenta tem sensibilidade de 77% e especificidade de 54% para etiologia bacteriana, e obstrução nasal, 83% e 24%. Especificidade de 24% significa que três em cada quatro pacientes sem doença bacteriana também têm o sinal. O que separa é o binômio duração e evolução — o desenho da curva, não a cor da secreção.

Aqui mora a divergência que a banca adora. A Academia Brasileira de Rinologia chama de bacteriana a rinossinusite aguda com dupla piora depois de melhora nos primeiros cinco dias, ou com manutenção do quadro intenso inicial sem melhora gradual após 14 dias. O EPOS 2020 europeu trabalha com 10 dias e pede pelo menos três de cinco sinais. As duas réguas concordam num ponto que a alternativa errada costuma ignorar: duração maior que dez dias, sozinha, não transforma resfriado em sinusite bacteriana.

E há a camada do SUS, que Revalida e acesso direto cobram sem avisar. A Rename 2024 traz amoxicilina 500 mg, amoxicilina com clavulanato 500 + 125 mg, budesonida e beclometasona para inalação nasal e cloreto de sódio 0,9% solução nasal, todos no Componente Básico. Quem responde 875 mg de 12 em 12 horas acerta a farmacologia e descreve uma apresentação que a lista nacional não padroniza — detalhe que separa a questão de conduta da questão de política de saúde.

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O que muda decisão

Duas queixas, doze semanas e nenhuma radiografia

A definição é de contagem e de calendário. Rinossinusite aguda: duas ou mais entre obstrução ou congestão nasal, rinorreia anterior ou posterior, dor ou pressão facial e redução ou perda do olfato, com duração de até doze semanas. Em paciente pediátrico, o critério de alteração do olfato é substituído por tosse — a criança pequena não relata hiposmia, e exigir esse item dela seria exigir uma queixa que ela não sabe formular.

Rinossinusite crônica é a mesma lista de sintomas por mais de doze semanas, com uma exigência a mais: precisa haver evidência de inflamação na endoscopia nasal e/ou na tomografia computadorizada. Esse segundo requisito é o que separa rinossinusite crônica de rinite crônica, e é também o que explica por que o diagnóstico de crônica não se faz por telefone. Nem todo paciente que preenche os critérios sintomáticos de crônica tem doença sinusal quando a endoscopia e a tomografia entram.

Rinossinusite aguda recorrente, na régua brasileira, são quatro ou mais episódios de rinossinusite aguda bacteriana ao ano, com períodos de normalidade comprovada entre as crises. Os dois recortes são deliberados: contar só episódios bacterianos evita que excesso de resfriados vire diagnóstico de recorrência, e exigir a normalidade entre as crises evita confundir recorrência com crônica que nunca cede.

Vale registrar o que o próprio consenso registra sobre a classificação: ela é arbitrária e se baseia no tempo, não na fisiopatologia. A rinossinusite aguda é predominantemente infecciosa; a crônica é um guarda-chuva de doenças com mecanismos distintos, que só se separam quando se olha o endótipo. Para a prova, a consequência prática é simples — o relógio é o critério, e o relógio não sabe o que é a doença.

Gráfico de linha do tempo com intensidade de sintomas no eixo vertical e dias no eixo horizontal, mostrando três curvas: rinossinusite aguda viral com pico entre o segundo e o terceiro dia e queda até o décimo quarto dia; viral prolongada com a mesma subida e queda mais lenta, arrastando-se até a quarta semana; e bacteriana, que desce a partir do quinto dia e volta a subir, formando um segundo pico.
A curva com segundo pico é a dupla piora — o único desenho que muda a conduta. As outras duas são virais, e a mais arrastada delas tem nome próprio no Brasil: rinossinusite aguda viral prolongada.

A curva do resfriado, desenhada dia a dia

O adulto tem de dois a cinco episódios de rinossinusite aguda viral por ano; a criança em idade escolar, de sete a dez resfriados. É uma das doenças mais diagnosticadas em ambiente ambulatorial, respondendo por 2% a 10% das consultas de atenção primária e de otorrinolaringologia somadas. Quase tudo isso é autolimitado, e quase tudo isso recebe medicamento.

A evolução viral tem sequência reconhecível. Rinorreia, espirros, dor de garganta e cefaleia abrem o quadro; obstrução nasal, mal-estar, mialgia e calafrios aparecem no dia seguinte; a tosse vem por último. O pico de intensidade fica nos dois ou três primeiros dias, e a melhora começa a se desenhar depois do quinto. Essa intensidade alta do começo não sugere bactéria e não deve ser usada como gatilho de antibiótico.

Quadros com mais de dez dias ainda são predominantemente virais, desde que não haja piora significativa nem sinal de complicação, e a recuperação completa pode levar três a quatro semanas. A Academia Brasileira de Rinologia deu nome a essa cauda longa: rinossinusite aguda viral prolongada. O nome existe para uma finalidade única — lembrar que arrastado não é sinônimo de bacteriano.

A transformação bacteriana é rara. O EPOS 2020 estima que 0,5% a 2% das rinossinusites agudas virais do adulto evoluam para quadro bacteriano, número que o consenso brasileiro reproduz. Na criança o consenso brasileiro imprime dois valores diferentes em capítulos diferentes — uma faixa de 5% a 13% no capítulo da rinossinusite aguda e um teto de 7,5% no capítulo pediátrico. A ordem de grandeza é a mesma e é o que importa na banca: a imensa maioria dos resfriados termina em resfriado.

Dupla piora: o desenho que muda o dia

Segundo a Academia Brasileira de Rinologia, considera-se rinossinusite aguda bacteriana quando o paciente preenche os critérios de rinossinusite aguda e apresenta uma de duas coisas. A primeira é piora importante do quadro — aumento de intensidade ou gravidade e/ou sinais de unilateralidade — após melhora dos primeiros cinco dias. A segunda é manutenção do quadro intenso inicial, sem melhora gradual, após 14 dias.

Cada metade dessa frase tem definição própria. Aumento de intensidade é a piora de sintomas, especialmente dor e rinorreia, ou o aparecimento de febre, depois do pico normal dos primeiros dois a três dias — ou seja, uma recaída em quem já estava melhorando. Sinais de unilateralidade são a mudança de padrão com claro predomínio de um lado, de novo especialmente dor e rinorreia, depois do início difuso e bilateral típico do vírus. Dupla piora não é sentir-se mal no quinto dia. É melhorar e voltar a piorar.

Os melhores preditores isolados entre os sintomas são a dor facial e a dor dentária, sobretudo quando unilaterais. A rinorreia purulenta, apesar da fama, não serve: a prevalência de crescimento bacteriano em punção de seio maxilar ou cultura guiada por endoscopia variou de 31% a 61,1% nesses pacientes. Purulência é achado de fase, não de agente.

O número que fecha o argumento vem de um estudo citado pelo consenso: mesmo entre pacientes com os três principais sintomas — secreção nasal, obstrução nasal e dor facial — por mais de dez dias, apenas 40% a 50% tinham rinossinusite bacteriana comprovada. Metade das pessoas que preenchem o retrato clássico não tem a doença. Por isso o EPOS acrescenta unilateralidade e gravidade ao critério: não para ser mais rigoroso por esporte, mas para elevar a especificidade de um diagnóstico que, feito só por sintoma, erra na metade das vezes.

Quem ganha com antibiótico, em número

O consenso brasileiro de 2024 põe o benefício em escala de cem pacientes. Com os critérios clínicos correntes, 5 em cada 100 se beneficiam do antibiótico — um número necessário para tratar de 20. Com critérios mais específicos, o número sobe para 11 e para 28 em cada 100, o que corresponde a tratar cerca de 9 e cerca de 4 pacientes para beneficiar um. Do outro lado da balança, essa classe de medicamento carrega mais de 20% de eventos adversos.

Daí a recomendação, que é de restrição e não de proibição: antibióticos somente em rinossinusite aguda bacteriana inequívoca e nas formas mais graves. Nas apresentações moderadas cabe a espera cuidadosa, também chamada de prescrição adiada — acompanhar a evolução e usar o antibiótico já prescrito caso não haja melhora ou haja piora após 48 a 72 horas. Nos quadros leves a moderados as diretrizes sugerem simplesmente não prescrever.

Há uma frase do consenso que vale decorar porque desmonta a justificativa mais comum da prescrição defensiva: a antibioticoterapia melhora a evolução e o desfecho das complicações de rinossinusite aguda, porém a prescrição de antibióticos não previne a ocorrência de complicações supurativas. Tratar não é escudo. Quem prescreve para evitar celulite orbitária está pagando o efeito adverso sem comprar a proteção.

Insucesso terapêutico tem definição operacional: ausência de melhora clínica relevante após 48 a 72 horas de tratamento, ou piora em qualquer momento. Não é o sétimo dia. É o terceiro — e é nele que a conduta se revê, não no fim da caixa.

A receita, e o que dela existe na farmácia básica

Quando se opta por tratar, a primeira escolha segue sendo amoxicilina, com ou sem ácido clavulânico, por 7 a 10 dias. No adulto: amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas ou 875 mg de 12 em 12 horas; com clavulanato, 500 + 125 mg de 8 em 8 horas ou 875 + 125 mg de 12 em 12 horas. A associação com clavulanato é a escolha quando se suspeita de bactéria produtora de betalactamase, ao custo de diarreia em 1% a 10%.

Em alergia não grave à penicilina entram as cefalosporinas — axetilcefuroxima 250 a 500 mg de 12 em 12 horas, ou cefdinir 600 mg ao dia por 10 dias — e ambas ficam contraindicadas em quem teve reação alérgica grave a penicilinas. Nessa situação a saída são os macrolídeos, com claritromicina 500 mg de 12 em 12 horas. As quinolonas aparecem na tabela, mas com advertência expressa: usar em rinossinusite bacteriana somente quando não houver outra opção, pelos eventos adversos.

Na criança, amoxicilina 25 a 50 mg/kg/dia divididos de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas, por 7 a 10 dias, sobe para 90 mg/kg/dia quando há suspeita de pneumococo resistente. Quem não tolera a via oral pode receber ceftriaxona parenteral por poucos dias e completar por via oral. A bacteriologia pediátrica mantém o trio de sempre, com Haemophilus influenzae na frente, seguido de Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis.

A dose alta do adulto merece leitura cuidadosa, porque a aritmética não é intuitiva. Amoxicilina isolada em dose alta é 1000 mg de 8 em 8 horas, o que dá 3 g por dia. Os 4 g diários que o texto do consenso menciona só aparecem no esquema com clavulanato, 2000 + 125 mg de 12 em 12 horas: a amoxicilina dobra de 1,75 g para 4 g e o clavulanato permanece nos mesmos 250 mg diários do esquema comum. É esse o sentido de aumentar a amoxicilina sem aumentar o clavulanato.

E é aqui que a lista nacional entra na conta. A Rename 2024 padroniza amoxicilina em 500 mg e amoxicilina com clavulanato em 500 + 125 mg, ambas no Componente Básico e ambas classificadas no grupo Acesso da régua AWaRe. Montar 2000 + 125 mg com o comprimido de 500 + 125 exigiria quatro comprimidos por tomada — e quadruplicaria o clavulanato para 500 mg por dose, 1 g por dia, exatamente o contrário do que o esquema pretende. O esquema que a rede básica sustenta é amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas.

Corticoide: o tópico entra cedo, o oral entra tarde, o injetável não entra

A recomendação mais categórica do consenso sobre corticoide é negativa e vale para todos os tipos de rinossinusite aguda: contra o uso de corticosteroides intramusculares de depósito. Não há recorte, faixa etária nem gravidade que reabram essa porta.

O corticoide intranasal em dose dobrada é o medicamento que atravessa o capítulo inteiro. Pode ser usado desde o início do quadro, ciente de efeito pequeno nessa fase; é opção ao antibiótico nas formas leves de rinossinusite bacteriana, onde a monoterapia com dose dobrada se mostrou superior ao antibiótico isolado; e associa-se ao antibiótico nas formas mais graves. Sem estudo definindo duração, usa-se o mínimo de dias necessário para a melhora.

O corticoide oral tem posição estreita e bem marcada: reservado aos quadros bacterianos com dor intensa que não melhoraram satisfatoriamente após 48 a 72 horas de antibiótico associado a analgésico comum e terapia tópica nasal, pelo menor tempo possível, tipicamente 3 a 5 dias em dose única matinal. Uma revisão sistemática calculou em sete o número de pacientes a tratar para que um tenha maior alívio dos sintomas — e após duas semanas não há diferença entre quem recebeu e quem não recebeu.

A solução salina nasal fica no território do conforto: usar desde o início, na frequência e na tonicidade que o paciente preferir, e manter apenas se houver alívio. Dispositivos de alto volume não se mostraram superiores aos de baixo volume e produzem mais efeitos adversos, em especial entrada de líquido na orelha média. Descongestionantes, anti-histamínicos, mucolíticos, fitoterápicos e probióticos não têm grau de recomendação para tratar rinossinusite aguda.

A órbita é o endereço da complicação

As complicações da rinossinusite decorrem da extensão extrassinusal, com incidência de 2 a 5 casos por milhão de habitantes por ano. A órbita é o sítio mais comum, respondendo por 60% a 80% dos casos, seguida das complicações intracranianas e das ósseas. São mais frequentes em crianças pequenas: lâmina papirácea mais fina e porosa, maior vascularização durante a pneumatização e um sistema venoso avalvular que permite fluxo retrógrado. Os seios mais envolvidos são o etmoidal e o maxilar.

Os sinais que obrigam a suspeitar são de exame físico, não de laboratório: edema e hiperemia periorbitária, proptose, diminuição da mobilidade ocular, diplopia e redução da acuidade visual. A história costuma ser frustra justamente porque o paciente é criança. O exame de escolha é a tomografia computadorizada com contraste, que diferencia edema e flegmão de abscesso e avalia o osso; a ressonância fica para dúvida diagnóstica e para preocupação com envolvimento intracraniano.

A classificação de Chandler organiza cinco degraus: edema inflamatório, celulite orbitária, abscesso subperiosteal, abscesso orbitário e trombose do seio cavernoso. O consenso registra as críticas a ela — os grupos I e V não são complicações propriamente orbitárias, e a sequência não ordena gravidade, já que a celulite orbitária pode ameaçar mais a visão que um abscesso subperiosteal. A alternativa brasileira, de Velasco e Cruz e Anselmo-Lima, exclui o acometimento pré-septal e fica com três categorias: celulite orbitária, abscesso subperiosteal e abscesso orbitário.

O tratamento é internação com antibiótico endovenoso cobrindo aeróbios e anaeróbios e acompanhamento oftalmológico rigoroso. Celulite orbitária sem comprometimento da acuidade visual pode ser tratada clinicamente, com intervenção cirúrgica imediata se houver deterioração visual ou nenhuma melhora dos sinais orbitários após 48 horas de antibiótico endovenoso. Abscessos subperiosteais e orbitários são cirúrgicos, com uma exceção estreita: abscesso subperiosteal medial pequeno pode ser manejado clinicamente se a largura no corte axial for de até 4 mm, com visão, pupila e retina normais, sem oftalmoplegia, pressão intraocular abaixo de 20 mmHg e proptose de até 5 mm.

As complicações intracranianas são raras e graves. Cerca de 3% dos pacientes pediátricos hospitalizados por rinossinusite aguda apresentam uma delas, e o seio frontal é o mais associado à supuração intracraniana. A mortalidade, que era de 40% em 1980, caiu para 2% a 3% nas revisões recentes. A trombose do seio cavernoso responde por apenas 10% das complicações intracranianas e se anuncia com proptose, ptose, diplopia, quemose, comprometimento de nervos oculomotores e do trigêmeo, papiledema e sinais meníngeos — começando em um olho e podendo passar para o outro.

Corte esquemático sagital da órbita mostrando o septo orbitário como uma membrana que vai da borda óssea às pálpebras, separando o compartimento pré-septal, à frente, do pós-septal, atrás; identificam-se ainda a periórbita revestindo a parede óssea, o espaço subperiosteal entre elas e o cone formado pelos músculos retos extraoculares em torno do globo.
O septo orbitário é a linha que separa o edema palpebral banal da complicação de verdade. Os espaços orbitário e subperiosteal são pós-septais — é onde moram a celulite orbitária e os abscessos.

Crônica: doze semanas, uma tomografia e o lado que importa

Na rinossinusite crônica, a tomografia computadorizada é fundamental na investigação, e a radiografia simples não é recomendada pela maioria das diretrizes para essa finalidade. A ressonância fica restrita a situações específicas, como preocupação com a base do crânio ou inflamação nasossinusal relacionada a tumor. A recomendação brasileira é de ao menos um exame tomográfico, preferencialmente fora de exacerbações agudas — e de que não se façam tomografias em série para avaliar resposta ao tratamento.

O raciocínio por trás da tomografia é de custo de oportunidade, e o consenso o explicita: trata-se de paciente que já acumulou pelo menos três meses de sintomas e que fará no mínimo mais três meses de tratamento clínico. Um erro diagnóstico nesse ponto atrasa o tratamento correto em pelo menos seis meses. É o que justifica a radiação de um exame numa doença que não é aguda.

A gravidade se estadia pelo sistema de Lund-Mackay, que pontua cada seio como 0 quando não há opacificação, 1 quando é parcial e 2 quando é completa, e acrescenta o bloqueio do complexo ostiomeatal como 0 se desbloqueado ou 2 se bloqueado. São cinco seios de cada lado — maxilar, etmoidal anterior, etmoidal posterior, frontal e esfenoidal — o que dá 10 pontos, mais 2 do complexo ostiomeatal: 12 por lado, 24 no total.

Um achado merece reflexo próprio: opacificação unilateral do seio maxilar. É sugestiva de sinusite odontogênica, e o consenso aconselha encaminhar esses pacientes para avaliação odontológica especializada, preferencialmente com endodontista, mesmo quando a tomografia não mostra anormalidade dentária — porque lesões como a periodontite apical com frequência escapam ao exame. Os sinais de alerta são odor nasal fétido, dor facial unilateral, dor dentária ipsilateral, dente em mau estado, inflamação gengival e manipulação dentária prévia, e a ausência de dor dentária não exclui o diagnóstico.

A cirurgia entra por indicações nomeadas: complicações orbitárias, intracranianas ou ósseas; rinossinusite aguda recorrente refratária ao tratamento clínico; rinossinusites crônicas secundárias, em que se elimina o fator causador — bola fúngica, sinusite odontogênica, pólipo antrocoanal, neoplasia; correção de complicações pós-cirúrgicas como sinéquias e lateralização da concha média; e rinossinusite crônica primária refratária, com a refratariedade confirmada por alteração inflamatória à endoscopia ou à tomografia. Na criança, lembrar que o seio frontal só começa a se desenvolver por volta dos 4 anos e que apenas 20% a 30% têm seio frontal visível à radiografia aos 6 anos: os seios de importância clínica na primeira infância são o etmoidal e o maxilar.

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Da consulta à decisão: os cortes que a prova cobra

Quatro rótulos, dois gatilhos e uma tabela de doses. O que decide não é o sintoma que o paciente traz, e sim o dia em que ele o traz e o que aconteceu com a curva antes disso.

  1. 1Conte os sintomas: duas ou mais entre obstrução nasal, rinorreia, dor/pressão facial e hiposmia (tosse na criança). Menos que duas, não é rinossinusite.
  2. 2Ponha no relógio: até 12 semanas é aguda; mais de 12 semanas exige endoscopia e/ou tomografia para virar crônica.
  3. 3Desenhe a curva: pico nos primeiros 2-3 dias e melhora gradual depois do quinto dia é viral, inclusive quando se arrasta por 3 a 4 semanas.
  4. 4Procure a dupla piora ou os 14 dias sem melhora gradual. Sem um dos dois, não há rótulo de bacteriana — e sem o rótulo não há discussão de antibiótico.
  5. 5Trate o sintoma desde o primeiro dia: analgésico ou anti-inflamatório, solução salina conforme o conforto e corticoide intranasal em dose dobrada, que pode substituir o antibiótico nas formas leves.
  6. 6Se houver indicação, amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 a 10 dias, com ou sem clavulanato — e reavalie em 48 a 72 horas, não depois.
  7. 7A qualquer momento, procure o olho e o estado geral: sinal orbitário ou neurológico interrompe o algoritmo e manda para a emergência com tomografia contrastada.

Dupla piora

Melhorou depois do quinto dia e voltou a piorar — dor e rinorreia que recrudescem, febre que aparece depois do pico, quadro que vira unilateral. É o gatilho mais forte de rinossinusite bacteriana, e é o único que dispensa esperar o décimo quarto dia.

Unilateralidade nova

Vírus começa difuso e bilateral. Dor e rinorreia que passam a predominar claramente de um lado depois desse começo mudam a probabilidade. Em quadro crônico, opacificação unilateral do maxilar pede avaliação odontológica, mesmo sem alteração dentária na tomografia.

Olho comprometido

Edema e hiperemia periorbitária, proptose, diplopia, mobilidade ocular reduzida ou queda de acuidade visual tiram o caso da atenção primária. Tomografia com contraste e internação com antibiótico endovenoso, com avaliação oftalmológica no mesmo dia.

Insucesso é 48-72 h

Ausência de melhora clínica relevante em 48 a 72 horas de antibiótico, ou piora em qualquer momento, define insucesso. A revisão da conduta acontece nesse prazo — não no fim da caixa nem no retorno de sete dias.

Radiografia de seios não decide nada

Velamento e opacificação aparecem em quadro viral, alérgico e até por seio ainda não pneumatizado. O diagnóstico da aguda é clínico; na crônica, quem investiga é a tomografia, e uma só, de preferência fora de exacerbação.

Os quatro rótulos da rinossinusite aguda (ABR/ABORL-CCF, 2024)

RótuloCritériosO que muda
Rinossinusite aguda (RSA)Dois ou mais sintomas por até 12 semanas: obstrução/congestão nasal, rinorreia anterior/posterior, dor/pressão facial, redução do olfato (tosse em crianças). Sem necessidade de exame físico ou radiológico.É o guarda-chuva. Sozinho não indica nada além de sintomático.
RSA viral (RSAV)Critérios de RSA, sintomas mais intensos nos primeiros 2-3 dias e melhora gradativa, normalmente até 14 dias.Sinônimo de resfriado comum e de IVAS nesta diretriz. Recomendação CONTRA antibiótico.
RSA viral prolongada (RSAVP)Critérios de RSA, mesmo pico inicial, melhora gradativa mais lenta, podendo durar 3-4 semanas ou mais.Continua viral. Recomendação CONTRA antibiótico, apesar da duração.
RSA bacteriana (RSAB)Critérios de RSA E dupla piora após melhora dos primeiros 5 dias, OU manutenção do quadro intenso inicial sem melhora gradual após 14 dias.Só aqui o antibiótico entra na mesa — e ainda assim restrito às formas inequívocas e mais graves.

Antibiótico na RSAB não complicada do adulto (ABR, 2024)

SituaçãoOpçãoPosologiaDuração
Primeira escolhaAmoxicilina500 mg 8/8 h ou 875 mg 12/12 h7 a 10 dias
Suspeita de produtor de betalactamaseAmoxicilina + clavulanato500/125 mg 8/8 h ou 875/125 mg 12/12 h7 a 10 dias
Alergia não grave a penicilinaAxetilcefuroxima250 a 500 mg 12/12 h7 a 10 dias
Alergia não grave a penicilinaCefdinir600 mg 24/24 h10 dias
Alergia grave a penicilinaClaritromicina500 mg 12/12 h (ou 24/24 h na liberação lenta)7 a 10 dias
Insucesso (sem melhora em 48-72 h ou piora)Amoxicilina alta dose1000 mg 8/8 h (= 3 g/dia)7 a 10 dias
Insucesso, suspeita de pneumococo resistenteAmoxicilina alta dose + clavulanato2000/125 mg 12/12 h (= 4 g/dia de amoxicilina, 250 mg/dia de clavulanato)7 a 10 dias
Somente sem alternativaLevofloxacino ou moxifloxacinoLevofloxacino 500-750 mg ou moxifloxacino 400 mg, 24/24 h5 a 7 dias

Antibiótico na RSAB da criança (ABR, 2024)

SituaçãoOpçãoPosologiaDuração
Primeira escolhaAmoxicilina25-50 mg/kg/dia, 8/8 h ou 12/12 h7 a 10 dias
Suspeita de pneumococo resistenteAmoxicilina90 mg/kg/dia, 8/8 h ou 12/12 h7 a 10 dias
Produtor de betalactamaseAmoxicilina + clavulanato25-50 mg/kg/dia (90 mg/kg/dia se pneumococo resistente)7 a 10 dias
Alergia não grave a penicilinaAxetilcefuroxima25-50 mg/kg/dia, 12/12 h7 a 10 dias
Alergia grave a penicilinaClaritromicina15 mg/kg/dia, 12/12 h7 a 10 dias
Não tolera via oralCeftriaxona IM ou EV20 a 80 mg/kg/dia, 24/24 h, seguida de via oral3 a 5 dias parenterais

O EPOS 2020 imprime a própria lista de cinco sinais de rinossinusite bacteriana em redações que não coincidem: no item 2.3.1.3 são secreção descolorida, dor local intensa, febre acima de 38 °C, PCR/VHS elevados e dupla piora; na figura da via de cuidado, secreção descolorida sai e entra doença unilateral; no capítulo de antibióticos, a unilateralidade aparece dentro do item da dor. O que atravessa as três versões é o mesmo: são precisos pelo menos três itens, e nenhum deles vale sozinho.

Cuidado com o papel de cada corte. Os 10 dias do EPOS marcam a passagem para rinossinusite aguda pós-viral, não para bacteriana; a bacteriana exige, além disso, três dos cinco sinais. Citar 'mais de 10 dias' como se fosse critério isolado de infecção bacteriana é o erro que a alternativa distratora explora.

Duas febres, dois papéis. O 38 °C é item da lista diagnóstica de cinco sinais do EPOS. O 38,3 °C aparece em outro lugar do consenso brasileiro, como marcador de sintomatologia intensa que justifica restringir o antibiótico a quem realmente ganha. Números próximos, funções diferentes.

O consenso brasileiro classifica a amoxicilina em dose alta de duas formas dentro do mesmo capítulo: o texto a apresenta como aumento possível para o paciente com risco de pneumococo resistente, e a tabela a rotula como conduta de exceção sem evidências de eficácia clínica. Na dúvida entre as duas leituras, a tabela é a mais conservadora e é a que se sustenta na prova.

Na rinossinusite aguda o consenso considera resfriado comum, infecção de vias aéreas superiores e rinossinusite aguda viral como sinônimos. Questão que oferece 'resfriado comum' e 'rinossinusite aguda viral' como alternativas mutuamente excludentes está, por essa régua, oferecendo o mesmo diagnóstico duas vezes.

Duas remissões úteis. O quadro pediátrico de resfriado, com a régua do AIDPI e os escores de faringoamigdalite, está no capítulo Faringoamigdalite e rinofaringite, na apostila de Pneumologia Pediátrica — e ele trabalha com o corte de 10 dias, de origem americana, e não com os 14 dias da Academia Brasileira de Rinologia. A discussão de por que síndrome viral com nome de bactéria não pede antimicrobiano está no capítulo Antibioticoterapia racional e resistência antimicrobiana, na apostila de Infectologia, e conversa com a classificação AWaRe que põe a amoxicilina no grupo Acesso.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Em que dia a rinossinusite aguda passa a ser tratada como bacteriana

Academia Brasileira de Rinologia / ABORL-CCF (2024)

Dupla piora após melhora dos primeiros 5 dias, OU manutenção do quadro intenso inicial sem melhora gradual após 14 dias. A duração isolada não basta em nenhuma das duas vias.

ABORL-CCF/ABR. Rinossinusites: Evidências e Experiências — 2024, Quadro 2.1.

EPOS 2020 (europeu)

Aumento de sintomas após 5 dias ou persistência após 10 dias define rinossinusite aguda pós-viral; a bacteriana exige pelo menos três de cinco sinais, entre eles febre acima de 38 °C, dupla piora, dor intensa e PCR/VHS elevados.

EPOS 2020, itens 2.3.1.2 e 2.3.1.3 e Figura 2.3.1.

ICAR-RS 2021 (americano), como reportado no consenso brasileiro

No adulto, considera sobretudo duração e evolução, com foco na dupla piora; em criança, adota o mesmo critério de unilateralidade e gravidade do EPOS. Feito o diagnóstico, ainda recomenda aguardar mais uma semana antes de iniciar o antibiótico.

ABORL-CCF/ABR, 2024, item 2.1.2, ao descrever o ICAR-RS-2021.

Na prova

Repare no enunciado: se ele cita sociedade brasileira, diretriz da ABORL-CCF ou a sigla ABR, o corte de 14 dias é o esperado. Se cita EPOS, consenso europeu ou traz uma lista de cinco sinais para contar, o corte é 10 dias e a resposta tem de contar pelo menos três itens. Quando o enunciado não nomeia régua nenhuma mas descreve dupla piora, as três posições concordam — e é por isso que a banca prefere a dupla piora como vinheta: ela não depende da referência escolhida.

Corticoide intranasal na fase viral da rinossinusite aguda

EPOS 2020

Recomendação contra o uso na fase viral, por considerar que o efeito modesto não justifica o custo no início do quadro; passa a considerar benéfico na forma viral prolongada com sintomas intensos.

ABORL-CCF/ABR, 2024, item 2.3.4.1, resumindo o EPOS 2020.

ICAR-RS 2021

Recomendação forte a favor do uso em todas as rinossinusites agudas, por entender que a melhora de congestão e rinorreia e a redução do tempo de doença com dose dobrada compensam um benefício modesto diante de risco baixíssimo.

ABORL-CCF/ABR, 2024, item 2.3.4.1, resumindo o ICAR-RS-2021.

Academia Brasileira de Rinologia (2024)

Posição intermediária: considera opção o uso na rinossinusite aguda viral, com benefício nos quadros mais graves. Na bacteriana, indica dose dobrada como opção ao antibiótico nas formas leves e em associação nas mais graves.

ABORL-CCF/ABR. Rinossinusites: Evidências e Experiências — 2024, itens 2.3.4.1 e 2.3.4.2.

Na prova

A palavra do enunciado entrega o gabarito. Verbo forte — indicado, recomenda-se, deve — combina com a leitura americana; contraindicado ou não recomendado, com a europeia na fase viral. A régua brasileira usa o vocabulário do meio: é opção. Quando o caso descreve rinossinusite bacteriana leve, a monoterapia com corticoide intranasal em dose dobrada é resposta defensável em qualquer das três, porque as três a admitem.

O que conta como episódio na rinossinusite aguda recorrente

Academia Brasileira de Rinologia (2024)

Quatro ou mais episódios bacterianos ao ano, com normalidade comprovada entre as crises. Excluir episódios virais é deliberado, para não confundir excesso de resfriados com doença recorrente.

ABORL-CCF/ABR. Rinossinusites: Evidências e Experiências — 2024, itens 1.1 e 3.1.

EPOS 2020

Quatro ou mais episódios ao ano com intervalos livres de sintomas, exigindo que os episódios sejam pós-virais ou bacterianos e que ao menos um deles tenha sido comprovado por endoscopia e/ou tomografia.

EPOS 2020, item 1.4.1.

ICAR-RS 2021, como reportado no consenso brasileiro

Contabiliza qualquer episódio de rinossinusite aguda, viral ou bacteriano, mas exige comprovação endoscópica ou tomográfica da normalidade entre as crises.

ABORL-CCF/ABR, 2024, item 3.1.

Na prova

As três exigem quatro episódios por ano — o número não é a divergência. A divergência é o que se conta e o que se comprova: episódio bacteriano na régua brasileira, episódio pós-viral ou bacteriano com um deles documentado na europeia, qualquer episódio com a normalidade documentada na americana. Enunciado que descreve um paciente com seis resfriados por ano e nenhum exame não fecha o diagnóstico em nenhuma delas.

Tratamento clínico da rinossinusite crônica antes de encaminhar pelo SUS

Protocolo de regulação estadual (SESA/ICEPi-ES, baseado em TelesaúdeRS-UFRGS 2018)

Define tratamento empírico otimizado como prednisona por dez dias associada a antibiótico oral por três a quatro semanas (amoxicilina com clavulanato ou clindamicina) e terapia adjuvante com soro e corticoide intranasal; o encaminhamento ao especialista pressupõe refratariedade a esse esquema por três meses.

SESA/ICEPi-ES. Protocolo de Otorrinolaringologia (adulto), item 4 e Quadro 2, com origem declarada em TelesaúdeRS-UFRGS (2018) adaptado de Hamilos (2018).

ABORL-CCF / Academia Brasileira de Rinologia (2024)

Trata a rinossinusite crônica por fenótipo e endótipo, com corticoide intranasal e irrigação nasal como base do tratamento clínico e sem esquema antibiótico prolongado de rotina; reserva antibiótico guiado por cultura a situações específicas, como exacerbação em discinesia ciliar e fibrose cística.

ABORL-CCF/ABR. Rinossinusites: Evidências e Experiências — 2024, itens 8.5.3 e 8.6.

Na prova

Quando o enunciado for de regulação — fila, encaminhamento, critério de acesso à especialidade —, a resposta esperada costuma ser a do protocolo de rede, com tratamento otimizado por três meses antes de referenciar. Quando for de conduta clínica com o paciente à frente, a régua é a do consenso de 2024. Repare que os documentos de regulação em uso na rede têm data anterior ao consenso, e é essa distância de anos, não uma discordância conceitual, que produz a diferença.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos procura a UBS no oitavo dia de um quadro que começou com espirros, coriza clara e dor de garganta. Conta que os dois primeiros dias foram os piores, que no quarto e no quinto dia já se sentia quase bem e voltou a trabalhar, e que no sexto dia a dor voltou — agora concentrada na face, do lado direito, junto com secreção espessa predominantemente pela narina direita e temperatura aferida de 38,4 °C em casa. Nega alergia medicamentosa e não usou antibiótico nos últimos meses. Ao exame: consciente, corado, sem toxemia. Rinoscopia anterior com mucosa hiperemiada e secreção em fossa nasal direita. Sem edema periorbitário, sem proptose, motilidade ocular preservada, acuidade visual referida como normal, sem rigidez de nuca.
Passo 1
Conte os sintomas antes de nomear qualquer coisa. Obstrução nasal, rinorreia e dor facial: três dos quatro itens, com oito dias de duração. Está dentro das doze semanas, então o guarda-chuva é rinossinusite aguda. Nada disso pede imagem — o diagnóstico de rinossinusite aguda é clínico por definição.
Passo 2
Desenhe a curva. Pico nos dois primeiros dias, melhora clara no quarto e no quinto, piora no sexto: é exatamente a dupla piora. A piora veio depois do pico normal e depois de um período de melhora, e trouxe consigo o segundo elemento que o consenso descreve — a mudança para predomínio unilateral, em dor e em rinorreia.
Passo 3
Aplique o rótulo. Critérios de rinossinusite aguda mais dupla piora fecham rinossinusite aguda bacteriana pela régua brasileira, sem esperar o décimo quarto dia — o prazo de 14 dias é a via alternativa, para quem nunca melhorou. Pelo EPOS, este paciente também alcança pelo menos três dos cinco sinais em qualquer das redações do documento: secreção espessa e descolorida, febre acima de 38 °C e dupla piora.
Passo 4
Verifique a gravidade e as complicações antes de decidir a conduta. Dor intensa e febre acima de 38,3 °C com predomínio unilateral colocam este caso no grupo em que a restrição do antibiótico aos sintomáticos intensos favorece o benefício. E o exame afasta o que interrompe o algoritmo: não há edema periorbitário, proptose, diplopia, restrição de mobilidade ocular nem sinal meníngeo.
Passo 5
Prescreva o que a rede sustenta. Amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas por 7 a 10 dias — apresentação padronizada na Rename 2024, no Componente Básico. Sem uso prévio de antibiótico nos últimos 30 dias e sem fator de risco para resistência, não há razão para começar com clavulanato.
Passo 6
Componha o resto do tratamento. Analgésico ou anti-inflamatório para a dor, solução salina nasal conforme o conforto e corticoide intranasal em dose dobrada associado ao antibiótico, pelo menor tempo necessário. O corticoide oral fica guardado: só entra se a dor intensa não melhorar satisfatoriamente após 48 a 72 horas desse conjunto.
Passo 7
Marque o prazo de reavaliação em 48 a 72 horas, não em sete dias. Ausência de melhora clínica relevante nesse intervalo, ou piora em qualquer momento, define insucesso e reabre a escolha. E oriente o retorno imediato diante de edema ao redor do olho, visão dupla, queda de visão ou alteração do estado geral.
07

Agora feche você

Menina de 5 anos é levada à consulta no décimo segundo dia de coriza. A mãe descreve febre e irritabilidade nos três primeiros dias, que cederam; desde então, secreção nasal que mudou de clara para espessa e amarelada por volta do sexto dia, tosse noturna e um cansaço que vem melhorando devagar. Nos últimos quatro dias a criança voltou a brincar, come bem e não teve mais febre. Ao exame: ativa, hidratada, afebril, orofaringe sem exsudato, otoscopia normal, sem edema periorbitário, sem proptose, ausculta pulmonar limpa. A mãe pede o antibiótico que a vizinha usou e pergunta se não seria melhor fazer uma radiografia dos seios da face.
Passo 1
Quais critérios de rinossinusite aguda esta criança preenche, e qual item da lista de quatro sintomas é substituído por outro na faixa pediátrica?
Passo 2
O quadro tem doze dias e a secreção ficou amarelada no sexto. Isso é suficiente para chamar de bacteriana pela régua brasileira? E pela régua do EPOS 2020?
Passo 3
A radiografia de seios da face resolveria a dúvida? O que a idade de 5 anos acrescenta a essa resposta?
Passo 4
Qual é a conduta, e o que precisa ser dito à mãe para que a ausência de antibiótico não seja lida como ausência de tratamento?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar dez dias como se fossem o diagnóstico Quadro com mais de dez dias ainda é predominantemente viral quando não há piora significativa nem sinal de complicação, e pode levar 3 a 4 semanas para resolver. O que muda o rótulo é a forma da curva — dupla piora, ou ausência de melhora gradual após 14 dias na régua brasileira — e não o número de dias no calendário.
  2. 2Ler purulência como bactéria Secreção purulenta tem sensibilidade de 77% e especificidade de 54% para etiologia bacteriana, e a prevalência de crescimento bacteriano em pacientes com rinorreia purulenta variou de 31% a 61,1%. Os melhores preditores isolados são a dor facial e a dor dentária, sobretudo unilaterais. Cor de secreção é fase da inflamação, não identidade do agente.
  3. 3Pedir radiografia de seios da face O diagnóstico da rinossinusite aguda é clínico e dispensa imagem. Opacificação e velamento aparecem em quadro viral, alérgico, tumoral e até por seio ainda não desenvolvido — crianças com IVAS de seis dias já mostram comprometimento sinusal na imagem. Na crônica quem investiga é a tomografia, e a radiografia simples não é recomendada pela maioria das diretrizes.
  4. 4Prescrever antibiótico para prevenir complicação A antibioticoterapia melhora a evolução das complicações já instaladas, mas a prescrição de antibiótico não previne a ocorrência de complicações supurativas. Prescrever com esse argumento paga o efeito adverso — mais de 20% dessa classe — sem comprar a proteção esperada.
  5. 5Usar corticoide intramuscular de depósito É a recomendação mais categórica do consenso, e é negativa: contra o uso de corticosteroides intramusculares de depósito em todos os tipos de rinossinusite aguda. O corticoide que tem lugar é o intranasal em dose dobrada; o oral fica para dor intensa que não cedeu em 48 a 72 horas de antibiótico com analgésico e terapia tópica.
  6. 6Confundir edema palpebral com celulite orbitária O septo orbitário separa o pré-septal do pós-septal, e é o pós-septal que ameaça a visão. Proptose, diplopia, restrição da mobilidade ocular e queda de acuidade visual são o que definem complicação orbitária — e pedem tomografia com contraste e internação, não colírio e retorno.
  7. 7Chamar de recorrente quem só pega muito resfriado Na régua brasileira, rinossinusite aguda recorrente são quatro ou mais episódios bacterianos ao ano, com normalidade comprovada entre as crises. Contar episódios virais infla o diagnóstico; não comprovar a normalidade entre eles confunde recorrência com crônica que nunca cedeu.
  8. 8Ignorar o lado na opacificação maxilar Opacificação unilateral do seio maxilar é sugestiva de sinusite odontogênica e pede avaliação odontológica especializada mesmo sem alteração dentária visível na tomografia, porque a periodontite apical escapa com frequência ao exame. E a ausência de dor dentária não exclui o diagnóstico — odor fétido, dor facial unilateral e manipulação dentária prévia contam.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a presença de sintomas de rinossinusite aguda com padrão de "dupla piora" (double sickening) — melhora inicial seguida de agravamento após o 5º dia, com retorno da febre, dor facial e secreção purulenta — caracteriza rinossinusite aguda bacteriana, conforme os critérios das diretrizes (EPOS/ III Consenso Brasileiro). A rinossinusite viral tipicamente melhora progressivamente em até 10 dias e não apresenta o padrão de piora após melhora inicial. A forma fúngica invasiva aguda ocorre em imunocomprometidos, com evolução fulminante e necrose de mucosa, não descritos aqui. A rinite alérgica cursa com prurido, espirros e rinorreia clara, sem secreção purulenta ou febre. A rinossinusite crônica exige duração maior que 12 semanas, incompatível com quadro de 6 dias.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os quatro rótulos e o que separa cada um: RSA é o guarda-chuva (dois sintomas, até 12 semanas); RSAV tem pico em 2-3 dias e melhora até 14 dias; RSAVP é a mesma curva arrastada por 3-4 semanas; RSAB exige dupla piora após melhora dos primeiros 5 dias OU quadro intenso sem melhora gradual após 14 dias. Depois diga em voz alta a dose de primeira escolha do adulto (amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 a 10 dias) e o prazo de reavaliação (48 a 72 horas).

em 30 dias

Reconstrua as três divergências sem consultar: 14 dias da régua brasileira contra 10 dias do EPOS; corticoide intranasal na fase viral como opção no Brasil, contra no EPOS e recomendação forte no ICAR; e o que conta como episódio na recorrente. Em seguida percorra a lista de sinais que tiram o caso da atenção primária — edema e hiperemia periorbitária, proptose, diplopia, restrição de mobilidade ocular, queda de acuidade visual — e diga o exame que se pede (tomografia com contraste) e por que a radiografia simples não entra. Fecha calculando de cabeça o Lund-Mackay máximo: 5 seios por lado com até 2 pontos cada, mais 2 do complexo ostiomeatal, dá 12 por lado e 24 no total.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine a conversa que segura a mão da prescrição: um adulto no décimo dia de resfriado, melhorando devagar, pedindo antibiótico porque a secreção ficou amarelada. O desafio não é o diagnóstico — é explicar a curva, nomear o sinal que faria você mudar de ideia e combinar o retorno em 48 a 72 horas sem que o paciente saia com a sensação de ter sido dispensado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Rinossinusites aguda e crônica — Preparatório para provas | OsceLabs