Outras EspecialidadesOtorrinolaringologia

Vertigem periférica: o relógio pergunta antes do ouvido

Duração da crise, sintomas auditivos e sinais de origem central

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 52 anos procura atendimento por vertigem rotatória de início súbito ao virar-se na cama, com duração de segundos, recorrente há 3 dias, sem hipoacusia ou zumbido. Ao exame, a manobra de Dix-Hallpike à direita desencadeia nistagmo torcional geotrópico com latência e fatigabilidade. PA 126x78 mmHg, FC 76 bpm, ausência de sinais neurológicos focais. Qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

A vertigem periférica cai em prova por um caminho estreito e repetido. O enunciado descreve uma crise, informa quanto ela dura, diz o que a desencadeia e menciona — ou nega com todas as letras — hipoacusia, zumbido e plenitude auricular. Com esses três dados o caso já está resolvido antes de qualquer exame, e a pergunta final costuma ser sobre a manobra, sobre o remédio ou sobre o que precisa ser afastado.

A ordem importa. O primeiro classificador é o relógio, porque as três doenças do tema ocupam ordens de grandeza diferentes: a vertigem posicional dura segundos, a crise de Ménière dura de vinte minutos a horas, e a neurite vestibular dura dias. O segundo é o gatilho, que separa a crise provocada por mudança de posição da cabeça daquela que começa sozinha. O terceiro é o ouvido, e ele existe para uma coisa só: presença de sintoma auditivo agudo desmonta o diagnóstico de neurite e obriga a pensar em outra coisa.

O que a prova explora não é o caso típico, e sim a borda. Ela dá uma duração que não cabe em nenhuma das três réguas, ou dá uma manobra diagnóstica negativa e espera que o candidato conheça a segunda manobra, ou descreve um exame de beira de leito cujo resultado normal é justamente o achado preocupante. Este capítulo trata as bordas como conteúdo principal.

Há ainda um recorte de conduta que sai caro. O remédio que apaga a vertigem na primeira hora é o mesmo que, mantido por semanas, adia a recuperação e adiciona um efeito adverso próprio. Saber prescrever aqui é saber quando suspender.

03

O que muda decisão

Os três relógios, e o que cada um mede

A primeira pergunta do tema é sempre a mesma: quanto dura uma crise. Ela resolve mais casos do que qualquer manobra, porque as três doenças ocupam ordens de grandeza diferentes de tempo e praticamente não se sobrepõem.

A vertigem posicional paroxística benigna é a doença dos segundos. A crise começa depois de uma latência curta a partir do movimento da cabeça, cresce, e se esgota em menos de um minuto, mesmo que o paciente permaneça na posição que a provocou. Entre as crises não há vertigem — há, com frequência, um mal-estar de fundo e medo de deitar, que o paciente descreve como tontura contínua se ninguém perguntar direito.

A doença de Ménière é a doença das horas. O consenso de 2015 exige pelo menos dois episódios espontâneos de vertigem com duração entre vinte minutos e doze horas para a forma definida. A crise não é provocada por posição: começa por conta própria, costuma vir com náusea e vômito, e cede deixando o paciente exausto por horas ou dias. Entre as crises o exame neurológico é normal, e é por isso que o diagnóstico se faz pela história somada à audiometria, e não pelo que se encontra no dia da consulta.

A neurite vestibular — que o consenso de 2022 nomeia vestibulopatia unilateral aguda — é a doença dos dias. O critério exige vertigem contínua, de intensidade moderada a grave, com sintomas durando pelo menos vinte e quatro horas. Não é uma crise que vai e volta: é um estado que se instala e depois cede devagar, ao longo de dias a semanas, à medida que o sistema nervoso central compensa a perda de função de um lado. O paciente melhora sem que o labirinto se recupere — quem se ajusta é o cérebro, e esse detalhe governa toda a conduta medicamentosa do capítulo.

Os três relógios medem coisas diferentes, e vale explicitar. O da vertigem posicional mede a duração de cada crise dentro de um dia cheio de crises. O da doença de Ménière mede a duração de cada episódio dentro de uma história de meses. O da vestibulopatia unilateral aguda mede há quanto tempo o sintoma está instalado sem interrupção. Quando o enunciado diz que o paciente tem tontura há três meses, ele não está informando nenhum dos três: está informando o tempo de doença, que não classifica nada sozinho. O dado que classifica é a duração do episódio.

Os quatro vãos, e o caso que cai dentro de cada um

Postas em sequência, as réguas do tema deixam faixas de tempo sem dono. Elas não são curiosidade: são o lugar preferido do avaliador. São quatro, e cada um tem um caso típico e um erro típico.

O primeiro vão fica entre o teto da vertigem posicional, que é de um minuto, e o piso da crise de Ménière, que é de vinte minutos — dezenove minutos que nenhuma das duas reivindica. O caso que cai aqui é o da mulher de quarenta e poucos anos com crises espontâneas de oito a dez minutos, várias por semana, muitas vezes com fotofobia, náusea e história pessoal de enxaqueca. O erro típico tem duas versões: marcar vertigem posicional porque a crise é breve, ignorando que ela não é provocada por posição e passa de um minuto; ou marcar Ménière porque é espontânea e recorrente, ignorando que não alcança o piso de vinte minutos. Nessa faixa moram a migrânea vestibular, a paroxismia vestibular e a isquemia transitória de circulação posterior.

O segundo vão fica dentro da própria doença de Ménière, entre o teto da forma definida e o teto da forma provável: doze horas em que o diagnóstico existe, mas só pode receber o rótulo mais fraco. O caso que cai aqui é o do paciente com nove meses de crises espontâneas de dezesseis a dezoito horas, zumbido e plenitude flutuantes num ouvido e audiometria documentando perda de frequências baixas desse lado. O erro típico é marcar a forma definida, atraído pela audiometria — que é justamente o item mais difícil de obter e o único que a forma provável dispensa. Documentação não compensa duração.

O terceiro vão é o mais grave, porque é interno a uma norma só. O consenso de 2022 reconhece a vestibulopatia unilateral aguda com vinte e quatro horas ou mais de sintoma contínuo, e criou a forma em evolução para o paciente que ainda não completou esse tempo. O caso que cai aqui é o do paciente que chega ao pronto atendimento com duas horas de vertigem contínua: não alcança a forma estabelecida nem a forma em evolução. O erro típico é rotular como neurite vestibular e liberar com sintomático, quando a pergunta correta nessa janela não é qual o nome do quadro periférico.

O quarto vão não é de tempo, e sim de régua. O piso de vinte minutos vale para a régua de 2015 e para a diretriz norte-americana de 2020; os critérios japoneses admitem episódios a partir de dez minutos. O caso que cai aqui é o da paciente com crises espontâneas de quinze minutos, com zumbido, plenitude e audiometria alterada — quadro que fica fora da doença de Ménière pela régua que a prova brasileira usa e dentro dela por outra régua nacional. O erro típico é raciocinar pelo teto e marcar a forma provável, esquecendo que o piso é comum às duas formas: abaixo de vinte minutos não há nem definida nem provável.

Linha do tempo em escala logarítmica, de 1 segundo a 48 horas, com quatro faixas. Vertigem posicional paroxística benigna ocupa até 1 minuto; doença de Ménière definida vai de 20 minutos a 12 horas; Ménière provável vai de 20 minutos a 24 horas; vestibulopatia unilateral aguda tem trecho vazio até 3 horas, forma em evolução de mais de 3 horas até 24 horas e forma estabelecida a partir de 24 horas. Três vãos hachurados: 1 a 20 minutos, 12 a 24 horas e as três primeiras horas. Um marcador pontilhado em 10 minutos indica o piso dos critérios japoneses.
As três doenças ocupam ordens de grandeza de tempo diferentes, e o que classifica é a duração do episódio — mas as réguas deixam faixas de tempo que nenhuma delas reivindica.

Vale fixar a lógica que atravessa os quatro. Piso e teto não têm o mesmo comportamento: o teto separa duas formas da mesma doença, e o piso separa a doença de tudo o que não é ela. Errar o teto rebaixa o rótulo; errar o piso troca de diagnóstico.

As três horas que a norma não nomeia

O consenso de 2022 organizou a vestibulopatia unilateral aguda em quatro categorias: a forma estabelecida, a forma em evolução, a forma provável e a história de vestibulopatia unilateral aguda. As duas primeiras se separam por relógio, e é aí que aparece a lacuna.

A forma estabelecida exige sintomas contínuos durando pelo menos vinte e quatro horas. A forma em evolução foi criada exatamente para o intervalo anterior, e o texto a define por sintomas contínuos por mais de três horas e ainda não completadas as vinte e quatro. Somando as duas definições, sobram as três primeiras horas sem categoria alguma — e, por rigor de leitura, exatamente três horas também fica de fora, porque a norma diz mais de três horas, e não três horas ou mais.

A lacuna importa porque não é uniforme em risco. As primeiras horas de uma vertigem contínua são justamente aquelas em que o infarto de fossa posterior ainda está dentro da janela em que o tratamento muda o desfecho. A norma criou uma categoria para o paciente incompleto e a fez começar depois do período mais crítico. O efeito prático é que, nessas três horas, o candidato que procura um rótulo periférico no enunciado não vai encontrar nenhum que caiba — e a ausência de rótulo é a informação.

A leitura correta inverte a pergunta. Antes das três horas, e mesmo antes das vinte e quatro, a decisão não é escolher entre neurite, Ménière e vertigem posicional: é estabelecer se o quadro é periférico. Isso se faz com o exame oculomotor de beira de leito e com a leitura dos fatores de risco vascular, não com o nome da doença. Um paciente hipertenso e diabético, com vertigem contínua há duas horas e incapacidade de ficar em pé sem apoio, está numa situação em que a hipótese que precisa ser afastada primeiro é a central, independentemente de quanto tempo falta para completar as vinte e quatro horas.

Há ainda uma consequência sobre a palavra provável, que no consenso de 2022 significa outra coisa que na doença de Ménière. Ali, a forma provável não trata de duração: ela cobre o caso em que o déficit unilateral do reflexo vestíbulo-ocular não foi claramente observado ou documentado. Duas doenças do mesmo capítulo usam a mesma palavra para afrouxar itens diferentes, e trocar uma pela outra é erro que o enunciado explora sem precisar avisar.

O gatilho: provocada, ou apenas piorada pelo movimento

Este é o passo em que mais candidato tropeça, porque o enunciado costuma dizer que os sintomas pioram com a movimentação da cabeça — e isso é verdade em todos os casos. Vertigem de qualquer origem periférica piora quando a cabeça se move, e a frase, sozinha, não seleciona nada.

O que separa é outra coisa: a crise cessa quando o paciente fica parado? Na vertigem posicional, sim. A queixa existe em episódios ligados a deitar, virar na cama, olhar para cima ou abaixar-se, e desaparece por completo entre eles. Na vestibulopatia unilateral aguda e na crise de Ménière, a vertigem persiste em repouso; o movimento apenas a agrava. Quando o enunciado escreve que os sintomas persistem mesmo em repouso, ele está afastando a doença posicional, por mais que também mencione piora ao movimento duas linhas antes.

Vale a mesma distinção para a palavra espontâneo, que a régua de Ménière usa com peso. A forma definida exige episódios espontâneos. Uma vertigem que só aparece quando a cabeça muda de posição, ainda que dure vinte minutos, não satisfaz esse item — e a forma provável, embora aceite vertigem ou tontura, também descreve episódios que não dependem de posição.

O gatilho também tem valor de alarme. Vertigem posicional que se repete há semanas, não fatiga, não responde a manobra e vem acompanhada de qualquer sinal neurológico deve ser lida como posicional de origem central até prova em contrário. Lesões de fossa posterior produzem nistagmo de posicionamento, e o rótulo benigno que consta do nome da doença não protege ninguém: ele qualifica a evolução da forma comum, não a origem de todo nistagmo que aparece ao deitar.

Definida e provável não medem a mesma coisa

A régua de 2015 tem exatamente duas categorias para a doença de Ménière: definida e provável. Nomes como possível e certa circulam em material antigo e não pertencem à classificação vigente, que foi construída para reduzir a quatro itens o que se exige de cada caso.

A forma definida pede quatro coisas ao mesmo tempo: dois ou mais episódios espontâneos de vertigem com duração entre vinte minutos e doze horas; perda auditiva neurossensorial de frequências baixas e médias documentada por audiometria no ouvido afetado, em pelo menos uma ocasião; sintoma coclear flutuante no mesmo ouvido — hipoacusia, zumbido ou plenitude auricular; e ausência de outra explicação vestibular melhor. Guardar que basta um dos três sintomas cocleares evita erro, porque outras réguas nacionais exigem os três.

A forma provável afrouxa dois pontos e mantém os outros dois. Afrouxa a duração, que passa a ir de vinte minutos a vinte e quatro horas, e afrouxa o sintoma vestibular, aceitando vertigem ou tontura. E dispensa por completo a audiometria. Continuam exigidos o sintoma coclear flutuante e a ausência de explicação melhor.

Daí sai o resultado que o acervo de questões ainda não explorava e que a prova gosta: a documentação não compensa a duração. Um paciente com crises de dezoito horas, zumbido e plenitude flutuantes e audiometria completa documentando a perda recebe o rótulo de provável — o mesmo que receberia um paciente sem audiometria alguma. O item mais caro de obter não resgata o item que falhou, porque os quatro requisitos da forma definida são cumulativos, não compensatórios.

O inverso também vale como pegadinha, e é mais sutil. Como a forma provável dispensa a audiometria, um exame auditivo normal não afasta o rótulo de provável, desde que haja sintoma coclear flutuante relatado. O que um exame normal afasta é a forma definida. Enunciado que informa audiometria sem alterações não está encerrando o caso: está escolhendo entre as duas formas.

Na conduta, a distinção entre definida e provável muda pouco: as duas seguem o mesmo caminho de orientação alimentar e de estilo de vida, controle sintomático das crises e acompanhamento otorrinolaringológico. A distinção existe para pesquisa, para uniformizar quem entra em estudo, e para prova, que a usa como teste de leitura de critério. Saber que ela quase não muda a conduta é, em si, uma resposta que aparece em questão de manejo.

O ouvido entra: o que a audição faz com cada diagnóstico

O terceiro dado do enunciado é o ouvido, e ele tem sinais opostos conforme a doença. Na doença de Ménière é constitutivo: sem sintoma coclear flutuante não há nem forma definida nem forma provável. Na vertigem posicional não entra, e o enunciado quase sempre nega hipoacusia e zumbido de propósito, porque é o dado que fecha o caso.

Na vestibulopatia unilateral aguda o ouvido não apenas não entra — ele é critério de exclusão. Os itens do consenso de 2022 pedem ausência de sintomas otológicos ou audiológicos agudos e ausência de sinais audiológicos ou otológicos agudos. Um paciente com síndrome vestibular aguda e perda auditiva súbita no mesmo ouvido, portanto, não recebe o rótulo de neurite vestibular por definição, e não por julgamento clínico.

Essa é a armadilha mais perigosa do tema, porque a alternativa errada é confortável. Vertigem contínua com surdez súbita ipsilateral pede investigação de infarto no território da artéria cerebelar ântero-inferior, que irriga o labirinto e parte do cerebelo, e também de labirintite propriamente dita. A artéria explica a combinação: um único território vascular pode produzir, ao mesmo tempo, perda vestibular periférica, perda auditiva e sinais cerebelares discretos. Chamar isso de neurite e mandar para casa com sintomático é o desfecho que a prova quer que o candidato recuse.

Convém aposentar a palavra labirintite como diagnóstico de trabalho. Ela designa inflamação do labirinto com comprometimento auditivo, e é justamente esse comprometimento que a separa da neurite. Usada como sinônimo genérico de tontura — que é como circula na conversa do paciente e às vezes no prontuário — esconde três doenças com relógios, manobras e condutas distintas, e costuma vir acompanhada de anos de sintomático contínuo.

Há ainda a flutuação, que é palavra técnica na régua de Ménière. Sintoma coclear flutuante significa que piora e melhora acompanhando as crises, e não que existe de forma estável. Zumbido contínuo e invariável há dez anos, ou perda auditiva fixa e progressiva, não satisfazem esse item e apontam para outras hipóteses, entre elas o schwannoma vestibular, que caracteristicamente cursa com perda unilateral progressiva e pouca vertigem.

A manobra certa para o canal certo, e o canal que quase ninguém testa

A vertigem posicional é uma doença mecânica de um canal específico, e cada canal tem seu par de manobras: uma que diagnostica e outra que trata. Trocar o par não funciona, porque cada manobra move partícula num plano só.

Para o canal semicircular posterior, responsável pela maior parte dos casos, o teste é a manobra de Dix-Hallpike, com o paciente sentado, a cabeça rodada para o lado a testar e o tronco levado rapidamente ao decúbito com a cabeça pendente. O achado descrito é nistagmo misto, torcional e vertical, com o polo superior do olho batendo em direção ao ouvido que está por baixo e para cima, surgindo após alguns segundos e esgotando-se em menos de um minuto. Ao retornar o paciente à posição sentada, o nistagmo pode reaparecer em direção oposta. O tratamento é a manobra de reposicionamento de Epley.

Para o canal horizontal, o teste é o roll test, com o paciente em decúbito dorsal e a cabeça rodada para cada lado no próprio plano do canal. O achado é nistagmo horizontal que muda de lado conforme a cabeça roda. O tratamento é a manobra de rotação, também chamada de Lempert ou barbecue, cuja eficácia relatada na comparação das diretrizes internacionais gira em torno de setenta e cinco por cento, com resultados entre cinquenta por cento e quase cem por cento entre os estudos revisados.

A consequência prática é direta e pouco praticada: Dix-Hallpike negativo não exclui vertigem posicional — exclui o canal posterior. Antes de descartar o diagnóstico, testa-se o canal horizontal.

Sobre a latência do nistagmo, convém uma advertência de leitura. Textos diferentes atribuem faixas de latência distintas às duas formas mecânicas da doença, e essas faixas não coincidem entre si nem cobrem todos os tempos possíveis. Por isso a latência não serve como discriminador confiável em prova. O que é consensual e discrimina é a duração: nistagmo que se esgota em menos de um minuto na posição provocadora, contra nistagmo que persiste enquanto a posição for mantida.

As manobras de habituação de Brandt-Daroff ocupam outro lugar. São exercício domiciliar para queixa residual e leve, depois de resolvido o quadro agudo, e não substituem o reposicionamento na crise ativa.

A vertigem que não é do ouvido: migrânea vestibular

Nenhuma das três doenças do título cobre a paciente com crises de minutos, recorrentes há anos, sem perda auditiva documentada e com história de enxaqueca. Essa é a migrânea vestibular, e ela ocupa o primeiro vão do capítulo — a faixa entre um e vinte minutos — além de invadir as vizinhas.

A comparação entre as duas entidades mostra por que a confusão é frequente. A duração da crise na migrânea vestibular vai de segundos a dias, concentrando-se em minutos a horas, enquanto a crise de Ménière tipicamente dura de vinte minutos a doze horas, com duração mediana de duas a quatro horas. A frequência de crises na migrânea vestibular costuma ser de pelo menos uma por mês; na doença de Ménière ela flutua, podendo aumentar para periodicidade semanal ou mensal com a progressão.

O gatilho é o que mais separa as duas na anamnese. A migrânea vestibular é frequentemente deflagrada por mudança de posição da cabeça e por estímulo visual em movimento, com intolerância ao movimento descrita numa proporção grande dos pacientes, ao passo que a crise de Ménière é majoritariamente espontânea, ocasionalmente associada a estresse ou a fatores alimentares.

O ponto que fecha o diagnóstico diferencial é o ouvido. A migrânea vestibular não exige e tipicamente não apresenta perda auditiva neurossensorial flutuante documentada, que é o item constitutivo da forma definida de Ménière. Quando o enunciado entrega audiometria alterada de frequências baixas num ouvido, com sintoma coclear flutuante, ele está apontando para Ménière; quando entrega fotofobia, fonofobia, história de enxaqueca e nenhuma alteração auditiva, aponta para a migrânea vestibular.

A profilaxia segue a lógica da enxaqueca, com bloqueadores de canal de cálcio, antidepressivos tricíclicos, betabloqueadores e antiepilépticos entre as opções descritas. Convém notar desde já uma coincidência que o capítulo retoma adiante: a flunarizina aparece tanto entre os profiláticos citados para a migrânea vestibular quanto entre as causas mais frequentes de parkinsonismo medicamentoso na pessoa idosa. A mesma droga muda de papel conforme a idade do paciente e a duração do uso.

O exame de três passos e a fronteira onde ele deixa de significar

Diante de síndrome vestibular aguda — vertigem contínua, com náusea, vômito e nistagmo espontâneo — o exame oculomotor de três passos organiza a decisão. Ele avalia o teste de impulso cefálico, o padrão do nistagmo e a presença de desalinhamento vertical dos olhos.

O resultado que assusta é o normal. Num paciente com vertigem contínua há horas, teste de impulso cefálico normal significa que o reflexo vestíbulo-ocular está preservado — ou seja, o labirinto e o nervo não sofreram a perda que explicaria o quadro. Em vertigem periférica aguda espera-se o contrário: impulso cefálico alterado, com sacada de correção visível, do lado da lesão. É a única situação do tema em que o achado normal é o achado ruim, e o enunciado costuma escondê-lo no meio de dados tranquilizadores.

Os outros dois passos apontam para dentro do crânio quando positivos. Nistagmo que muda de direção conforme a direção do olhar, e desalinhamento vertical dos olhos, são sinais centrais. O próprio critério de 2022 da vestibulopatia unilateral aguda os incorpora como exclusão, ao exigir que não haja desalinhamento vertical pronunciado nem nistagmo evocado pelo olhar, além de exigir que o nistagmo espontâneo seja de direção fixa e aumente com a remoção da fixação visual.

A fronteira de aplicação é o que a prova cobra por dentro, e ela é estreita. O exame foi construído para o paciente com vertigem contínua e nistagmo espontâneo presente no momento do exame. Aplicá-lo fora disso produz resultado sem significado, e há duas situações em que isso acontece com frequência. A primeira é o paciente com crises posicionais de segundos, avaliado entre crises: ele está assintomático, não tem nistagmo espontâneo para caracterizar, e seu reflexo vestíbulo-ocular está íntegro porque a doença dele não destrói função vestibular. A segunda é o paciente com doença de Ménière fora da crise, pela mesma razão.

O erro que isso induz é previsível e perigoso na direção contrária à intuição. Como um impulso cefálico normal é lido como sinal de origem central dentro da síndrome vestibular aguda, aplicá-lo a um paciente com vertigem posicional — que naturalmente terá impulso cefálico normal — produz um resultado que parece indicar causa central num quadro inteiramente mecânico e benigno. O exame não erra: erra quem o aplica fora do contexto para o qual seu significado foi definido.

O remédio que alivia hoje e atrasa a recuperação depois

A crise aguda intensa justifica sedação vestibular e controle do vômito por poucos dias. Depois disso, o mesmo remédio trabalha contra o paciente: a recuperação da vestibulopatia unilateral aguda depende de compensação central, e a compensação depende do estímulo assimétrico que o supressor abole. A literatura registra a posição de que a medicação pode ser contraprodutiva para a compensação vestibular central, sobretudo se usada por períodos longos, e que os sintomáticos causam sedação e depressão de funções do sistema nervoso central. À medida que os sintomas cedem, o rumo é retirar a droga e iniciar reabilitação vestibular.

Na vertigem posicional a regra é mais dura ainda, porque a doença é mecânica: nenhum comprimido recoloca otólito no lugar. As duas diretrizes internacionais confrontadas na literatura brasileira divergem sobre quase tudo nesse tema — inclusive sobre qual manobra recomendar —, mas convergem em que a medicação não substitui a manobra de reposicionamento. Quando o enunciado apresenta um paciente que já vem tomando sintomático há semanas sem melhora, a resposta esperada é suspender, manobrar e encaminhar à reabilitação, e não trocar de sintomático.

Há um efeito adverso que fecha o circuito com outro capítulo. Flunarizina e cinarizina são bloqueadores de canal de cálcio com ação antidopaminérgica, e uso prolongado em pessoa idosa produz parkinsonismo medicamentoso — quadro simétrico, de instalação subaguda, sem os sinais prodrômicos não motores da doença degenerativa, que regride com a suspensão e que rotineiramente é tratado como doença de Parkinson por meses.

Quanto ao que o sistema público financia, convém saber o que está na lista nacional. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz o cloridrato de prometazina no componente básico, em comprimido de vinte e cinco miligramas e solução injetável de vinte e cinco miligramas por mililitro, além de metoclopramida e ondansetrona para o controle do vômito. Betaistina, dimenidrinato, flunarizina, cinarizina e meclizina — largamente prescritas para o rótulo popular de labirintite — ficam fora dessa relação.

Isso cria uma tensão que o candidato precisa saber ler, porque as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. O manejo internacional corrente da doença de Ménière inclui orientação de restrição de sódio, cafeína, álcool e tabaco associada a betaistina e a diurético para controle das crises, e é assim que bancas de residência escrevem o gabarito. A lista nacional, por sua vez, governa o que o serviço dispensa, e não o que a literatura recomenda. A leitura correta é reconhecer que a régua da prova é a do manejo clínico descrito na literatura, enquanto a régua do acesso é a da lista de medicamentos, que pode ser complementada por relações municipais próprias.

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Do enunciado ao diagnóstico, em três perguntas

As três perguntas têm ordem e não se substituem. A primeira é quanto dura a crise, e ela sozinha resolve a maior parte dos casos. A segunda é se a crise cessa em repouso, e ela separa a doença provocada da doença que apenas piora com o movimento. A terceira é se o ouvido entra, e ela tem dois usos opostos: confirma Ménière e exclui neurite.

quanto dura a crise< 1 minvertigem posicional (VPPB)1-20 minvao: nenhuma das tres reivindica20min-12hMeniere definida (espontanea)12-24 hso cabe em Meniere provavel24 h ou +vestibulopatia unilateral aguda

Os três relógios

Segundos, com esgotamento em menos de um minuto, é vertigem posicional. De vinte minutos a doze horas, com início espontâneo, é crise de Ménière na forma definida. Vinte e quatro horas ou mais de sintoma contínuo é vestibulopatia unilateral aguda. As faixas entre uma régua e outra não pertencem a nenhuma das três: crise recorrente de cinco a quinze minutos fica de fora de todas, e é onde entram migrânea vestibular, paroxismia vestibular e isquemia transitória de circulação posterior.

duracao da crise, em horasdefinida20 min ate 12 hprovavel20 min ate 24 has 12 h de terra de ninguem da definidadefinida exige audiometria; provavel dispensadefinida exige episodio espontaneo; provavel aceita tontura

Ménière: a definida e a provável não medem a mesma coisa

A definida pede dois ou mais episódios espontâneos de vinte minutos a doze horas, perda neurossensorial de frequências baixas e médias documentada por audiometria e sintoma coclear flutuante. A provável abre a duração até vinte e quatro horas, aceita vertigem ou tontura, e dispensa a audiometria. Duas consequências aritméticas: crise de dezoito horas nunca alcança a forma definida, por mais completa que seja a documentação; e o teto da definida é o único ponto em que uma hora a mais rebaixa o diagnóstico sem mudar nada no paciente.

o par diagnostico-tratamentocanal posteriormaioria dos casosDix-Hallpikemanobra de Epleycanal horizontalDix-Hallpike negativoroll testrotacao (Lempert)

Canal e manobra andam em par

Canal posterior: diagnostica-se com Dix-Hallpike e trata-se com Epley. Canal horizontal: diagnostica-se com roll test e trata-se com a manobra de rotação, também chamada de Lempert ou barbecue. Trocar o par não funciona, porque cada manobra move partícula num plano só. Dix-Hallpike negativo exclui o canal posterior, não a doença.

tempo de sintoma continuo0 a 3 hmais de 3 h, ate 24 h24 h ou maissem categoria na normaem evolucaoestabelecidajanela do infarto de fossa posteriorexatamente 3 h tambem fica de fora: a norma diz mais de 3 h

As três horas que a norma não nomeia

O consenso de 2022 reconhece a vestibulopatia unilateral aguda com vinte e quatro horas ou mais de sintoma contínuo, e criou a forma em evolução para sintomas contínuos por mais de três horas ainda sem completar as vinte e quatro. As três primeiras horas ficam sem categoria, e exatamente três horas também fica de fora, porque a norma diz mais de três horas. Não é falha de redação sem consequência: é a janela em que o infarto de fossa posterior ainda muda de rumo, e por isso, nela, a pergunta correta não é qual o nome do quadro, e sim o que precisa ser afastado.

A duração classifica, mas o piso de vinte minutos da doença de Ménière é piso da crise, não da doença: um paciente com dois anos de queixa e crises de quinze minutos continua fora da régua, por mais longa que seja a história.

Sintoma auditivo agudo tem sinais opostos em duas doenças do tema: constitui a forma definida de Ménière e exclui a vestibulopatia unilateral aguda.

Exame oculomotor de três passos só classifica dentro da síndrome vestibular aguda e contínua. Aplicado a crise posicional de segundos, o resultado não significa nada.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto tempo uma crise pode durar e ainda ser doença de Ménière?

De vinte minutos a doze horas na definida, até vinte e quatro na provável

São exigidos dois ou mais episódios espontâneos de vertigem com duração entre vinte minutos e doze horas para a forma definida, somados à perda auditiva neurossensorial de frequências baixas e médias documentada por audiometria e a sintoma coclear flutuante. A forma provável estende a duração até vinte e quatro horas, aceita vertigem ou tontura e dispensa a documentação audiométrica.

Bárány Society e demais sociedades signatárias, Diagnostic criteria for Menière's disease, Journal of Vestibular Research, 2015; e a diretriz norte-americana de 2020, que repete os mesmos tetos

A partir de dez minutos, com hidropsia confirmada por imagem

A duração admitida por episódio começa em dez minutos e vai a várias horas, sem o teto de doze. Em compensação, a régua é mais exigente noutros pontos: pede perda auditiva de frequências baixas ou de todas as frequências, exige os três sintomas cocleares na forma típica, requer sinal periférico como nistagmo e trata a confirmação de hidropsia endolinfática por ressonância como obrigatória.

Critérios japoneses de 2017, conforme alinhados na tabela comparativa de Sun e colaboradores, Frontiers in Neurology, 2025

Mesmos tetos de duração, exigência coclear maior

Adota os mesmos limites de doze e vinte e quatro horas, mas exige os três sintomas cocleares — hipoacusia flutuante, zumbido e plenitude auricular — para a forma definida, em vez de ao menos um dos três, e lista doze doenças de exclusão explícita.

Diretriz chinesa de 2017, conforme alinhada na mesma tabela comparativa de Sun e colaboradores, Frontiers in Neurology, 2025

Na prova

O enunciado brasileiro trabalha com a régua de 2015, que é a mesma da diretriz norte-americana de 2020: quando ele quer a forma definida, cuida de manter a crise dentro das doze horas, dizer que é espontânea e entregar a audiometria. Quando estende a crise para além de doze horas, ou substitui a vertigem por tontura, ou omite a audiometria, está pedindo a forma provável. Duração de dez a dezenove minutos é sinal de que o recorte não é Ménière pela régua vigente — e o avaliador que a aceitasse estaria usando régua japonesa, o que precisaria estar dito no enunciado.

A manobra de Semont deve ser oferecida na vertigem posicional?

Possivelmente eficaz, recomendação de nível C

A manobra liberatória é classificada como possivelmente eficaz e recebe recomendação de nível C, permanecendo como opção de tratamento ao lado da manobra de reposicionamento e da reabilitação vestibular.

Diretriz da American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery, conforme confrontada por Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011

Menos eficaz que não tratar

A conclusão registrada é a de que a manobra seria menos eficaz do que nenhum tratamento ou do que os exercícios de Brandt-Daroff — posição que, na mesma comparação, contrasta com a avaliação favorável da outra diretriz sobre o mesmo procedimento.

Diretriz da American Academy of Neurology, conforme confrontada por Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011

Na prova

Duas diretrizes contemporâneas chegando a leituras opostas sobre a mesma manobra explicam por que a alternativa que menciona Semont raramente é o gabarito e quase nunca é o distrator eliminatório. O que é consenso nas duas, e por isso vira gabarito, é a manobra de reposicionamento para o canal posterior. Quando o enunciado pedir a conduta de primeira escolha, o candidato deve procurar o reposicionamento; quando oferecer Semont como única opção de manobra, o recorte provavelmente está em outro ponto da questão.

Medicamento tem lugar no tratamento da vertigem posicional?

Melhoram a vertigem vestibular

É sustentado que betaistina, cinarizina, clonazepam, flunarizina e extrato de Ginkgo biloba melhoram a vertigem de origem vestibular, o que embasa a prescrição sintomática difundida na prática ambulatorial brasileira.

Posição de autores registrada por Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011, ao revisar a literatura sobre medicação na vertigem

Aliviam a crise e prejudicam a compensação

A melhora sintomática na crise aguda é reconhecida, mas o uso por períodos mais longos é apontado como potencialmente contraproducente para a compensação vestibular central, com sedação e depressão de funções do sistema nervoso central; a medicação não deve substituir a manobra de reposicionamento, e deve ser retirada à medida que os sintomas cedem, dando lugar à reabilitação vestibular.

Posição contraposta na mesma revisão de Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011, e recomendação da diretriz da American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery ali confrontada

Nenhuma medicação recomendável

Não foi identificada evidência que sustentasse a recomendação de qualquer medicação para o tratamento da vertigem posicional paroxística benigna.

Diretriz da American Academy of Neurology, conforme confrontada por Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011

Na prova

As três posições convergem num ponto e é dele que sai o gabarito: comprimido nenhum recoloca otólito no lugar, e a conduta da vertigem posicional é a manobra. A divergência aparece no papel do sintomático, e o avaliador a usa de duas maneiras — ou oferece a prescrição isolada como distrator confortável, ou monta o caso do paciente que já vem tomando sintomático há semanas sem melhora, e a resposta esperada é suspender, manobrar e encaminhar à reabilitação.

A revisão de 2025 contradiz a própria tabela sobre o nome das categorias

No texto corrido: a categoria definida teria sido eliminada

O texto afirma que a revisão de 2015 teria eliminado a categoria definida, mantendo apenas diagnósticos confirmados e prováveis — no original, que a revisão "eliminated the 'definite' category, retaining only 'confirmed' and 'probable' diagnoses". O nome confirmada não corresponde a nenhuma categoria das classificações em causa.

Sun H, Zhang G, Zhang Y, Li T, Du X, Fang Z. Frontiers in Neurology, volume 16, artigo 1653509, 2025, seção de critérios diagnósticos

Na tabela do mesmo artigo: definida e provável seguem em uso

A tabela comparativa do próprio artigo rotula as colunas de 2015 e de 2020 com as expressões definida e provável, atribuindo à primeira a duração de vinte minutos a doze horas e à segunda a de vinte minutos a vinte e quatro horas. A tabela coincide com o consenso e com a diretriz que o adotou; o texto corrido é que destoa.

Sun H, Zhang G, Zhang Y, Li T, Du X, Fang Z. Frontiers in Neurology, volume 16, artigo 1653509, 2025, tabela 2

Na prova

Serve de treino de leitura de fonte, que é competência cobrada em questão de interpretação: quando o texto corrido de um artigo e a tabela do mesmo artigo discordam, a tabela costuma reproduzir o documento original e o texto costuma ser paráfrase. Para efeito de prova, as categorias em vigor para a doença de Ménière são duas e se chamam definida e provável. Alternativa que ofereça as categorias possível, certa ou confirmada está usando vocabulário que não pertence à classificação vigente, e isso por si só a elimina.

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Caso resolvido

Mulher de 61 anos chega à unidade de pronto atendimento com tontura rotatória iniciada há cerca de duas horas, contínua desde então, acompanhada de náusea e dois episódios de vômito. Refere que qualquer movimento da cabeça piora muito o sintoma, mas que a sensação não desaparece quando fica imóvel. Nega hipoacusia, zumbido e plenitude auricular. É hipertensa e diabética. Ao exame: nistagmo horizontal espontâneo de direção fixa, que aumenta quando a fixação visual é removida; teste de impulso cefálico sem sacada de correção nos dois lados; sem desalinhamento vertical dos olhos; marcha muito instável, com necessidade de apoio para ficar em pé.
Primeiro relógio
Duas horas de sintoma contínuo. Isso já exclui a vertigem posicional, cuja crise se esgota em menos de um minuto, e fica abaixo do piso de vinte minutos por episódio da doença de Ménière apenas em aparência — o que realmente afasta Ménière aqui é o caráter contínuo, e não episódico, do quadro.
A categoria que a norma não oferece
Duas horas também não alcançam a vestibulopatia unilateral aguda, que exige vinte e quatro horas, nem a forma em evolução, que exige mais de três horas. A paciente está dentro das três horas que o consenso não nomeia. A ausência de rótulo, aqui, é informação: significa que o passo seguinte não é nomear a doença periférica, e sim afastar a central.
O gatilho
A vertigem piora com o movimento, mas persiste em repouso. Trata-se de vertigem contínua agravada pelo movimento, e não de vertigem provocada por posição. O dado que o enunciado oferece para confundir é justamente a piora ao movimento, comum a todos os quadros do tema.
O ouvido
Sem hipoacusia, zumbido ou plenitude. Isso retira sustentação de Ménière, que exige sintoma coclear flutuante em qualquer das duas formas, e mantém aberta a possibilidade de vestibulopatia unilateral aguda quanto a esse item — mas apenas quanto a esse item.
O exame de três passos
O contexto é o correto para aplicá-lo: vertigem contínua com nistagmo espontâneo. O impulso cefálico está normal nos dois lados, e é esse o achado que decide. Reflexo vestíbulo-ocular preservado num paciente com síndrome vestibular aguda aponta para causa central, porque não houve a perda periférica que explicaria a intensidade do quadro.
Os outros dois passos e a marcha
Nistagmo de direção fixa e ausência de desalinhamento vertical, isoladamente, seriam compatíveis com origem periférica. O peso do impulso cefálico normal, porém, não é anulado por eles. Some-se a incapacidade de ficar em pé sem apoio, desproporcional para uma vestibulopatia periférica, e a leitura converge.
Conclusão e conduta
O quadro deve ser conduzido como síndrome vestibular aguda de provável origem central, com investigação de infarto de fossa posterior em paciente hipertensa e diabética. A conduta é neuroimagem e manejo de acidente vascular, e não sintomático com alta. Prescrever supressor vestibular e liberar seria o desfecho que o caso foi construído para testar.
O que fica
Nas três primeiras horas de vertigem contínua, nenhuma das réguas periféricas dá nome ao quadro. Nessa janela a pergunta útil não é qual das três doenças é, e sim se é periférica — e o achado que responde é o impulso cefálico normal.
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Agora feche você

Homem de 54 anos é atendido no ambulatório com queixa de crises de tontura rotatória há sete meses. Descreve episódios que começam sem aviso, sem relação com movimento ou posição, com náusea intensa, e que duram entre catorze e dezesseis horas antes de ceder. Relata que, nas semanas de crise, o ouvido esquerdo fica abafado e com zumbido, e que a audição desse lado melhora depois. Traz audiometria realizada há dois meses documentando perda neurossensorial de frequências baixas à esquerda. Exame neurológico normal, sem nistagmo espontâneo, sem sinais centrais.
Passo 1 — meça o relógio contra as duas réguas
Compare a duração relatada com o teto da forma definida e com o teto da forma provável da doença de Ménière, e diga em qual das duas o caso cabe. Escreva o intervalo em horas antes de decidir.
Passo 2 — confira os itens que a forma definida exige
Liste os quatro itens da forma definida e marque quais o caso preenche: número e caráter dos episódios, duração, perda auditiva documentada e sintoma coclear flutuante. Verifique se algum item falha e por quê.
Passo 3 — explique o paradoxo da documentação
O paciente tem audiometria documentando a perda, que é o item mais difícil de obter. Ainda assim, o rótulo que lhe cabe é o mais fraco dos dois. Escreva em uma frase por que a documentação não compensa o item que falhou.
Passo 4 — teste a régua alternativa
Diga o que aconteceria com a classificação se a régua aplicada fosse a japonesa, e o que ela pediria a mais que a régua de 2015 não pede. Aponte o exame de imagem que aquela régua trata como obrigatório.
Passo 5 — feche a conduta
Defina o que muda, e o que não muda, no manejo entre a forma definida e a provável. Diga também por quanto tempo faz sentido manter sintomático, e o que deve substituí-lo.
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler impulso cefálico normal como sinal tranquilizador Num paciente com vertigem contínua há horas, o reflexo vestíbulo-ocular preservado é o achado que preocupa: significa que não houve a perda periférica capaz de explicar o quadro, e empurra a hipótese para dentro do crânio. A vertigem periférica aguda cursa com impulso cefálico alterado, com sacada de correção do lado da lesão.
  2. 2Descartar vertigem posicional porque o Dix-Hallpike foi negativo A manobra testa o canal posterior. Uma parcela menor, mas relevante, dos casos acomete o canal horizontal, e esse só aparece no roll test, com o paciente em decúbito dorsal e a cabeça rodada para cada lado no plano do canal. Encerrar a investigação no primeiro teste negativo é o erro que devolve o paciente à fila com o rótulo de tontura inespecífica.
  3. 3Aceitar labirintite como diagnóstico O termo circula na conversa do paciente e às vezes no prontuário, mas designa inflamação do labirinto com comprometimento auditivo. Usado como sinônimo genérico de tontura, esconde três coisas diferentes: vertigem posicional, vestibulopatia unilateral aguda e crise de Ménière — que têm relógios, manobras e condutas distintas.
  4. 4Chamar de neurite o quadro com perda auditiva súbita O critério de 2022 exclui explicitamente sintoma e sinal audiológico agudo. Vertigem contínua acompanhada de surdez súbita no mesmo ouvido pede investigação de infarto no território da artéria cerebelar ântero-inferior e de labirintite, não a rotulação como neurite vestibular.
  5. 5Aplicar o exame de três passos fora da síndrome vestibular aguda Ele foi construído para o paciente com vertigem contínua e nistagmo espontâneo. Em crises posicionais de segundos, ou no intervalo entre crises de Ménière, o exame não tem contexto e o resultado não classifica. A prova monta esse cenário com frequência, oferecendo o exame como conduta plausível num caso claramente posicional.
  6. 6Confundir vertigem que piora ao movimento com vertigem provocada pelo movimento Toda vertigem periférica piora quando a cabeça se move. O que caracteriza a doença posicional é a crise cessar em repouso e reaparecer só com a mudança de posição. Enunciado que diz que os sintomas persistem mesmo em repouso está afastando a vertigem posicional, por mais que também mencione piora ao movimento.
  7. 7Manter supressor vestibular por semanas A recuperação depende de compensação central, e a compensação depende do estímulo que o supressor abole. Passados os primeiros dias da crise, manter a droga adia a melhora. Com flunarizina e cinarizina soma-se o parkinsonismo medicamentoso, quadro simétrico e de instalação subaguda que regride com a suspensão.
  8. 8Tratar como benigna a vertigem breve e recorrente do paciente vascular Crise de poucos minutos que se repete em pessoa com fatores de risco cardiovascular cai justamente na faixa de tempo que nenhuma das três doenças do tema reivindica. Brevidade não é sinônimo de benignidade: ataque isquêmico transitório de circulação posterior pode se apresentar assim.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é típico de vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) do canal semicircular posterior direito: vertigem posicional breve, Dix-Hallpike com nistagmo torcional geotrópico, latência e fatigabilidade. O tratamento de escolha é a manobra de reposicionamento canalicular de Epley, altamente eficaz. Betaistina não trata a causa mecânica. TC de urgência não se justifica sem sinais centrais (nistagmo vertical puro, ausência de latência/fadiga, déficit focal). Corticoide é usado na neurite vestibular, não na VPPB. Não há infecção bacteriana a tratar.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três relógios com seus limites: menos de um minuto, de vinte minutos a doze horas, e vinte e quatro horas ou mais — dizendo a doença de cada faixa. Depois nomeie as duas faixas de tempo que sobram entre eles e diga o que se pensa em cada uma. Recite os quatro itens da forma definida da doença de Ménière e diga os dois que a forma provável dispensa ou afrouxa. Diga o par de manobras do canal posterior e o par do canal horizontal, e o que um Dix-Hallpike negativo exclui exatamente. Termine dizendo qual resultado do teste de impulso cefálico é o preocupante, e por quê.

em 30 dias

Monte, sem consultar, a tabela das três doenças com quatro colunas: duração, gatilho, sintoma auditivo e conduta de primeira escolha. Em seguida escreva as três horas que o consenso de 2022 não nomeia e explique por que essa lacuna importa mais que as outras. Reconstrua a divergência de duração entre a régua de 2015 e os critérios japoneses, dizendo qual crise de quinze minutos muda de diagnóstico conforme a régua. Liste os cinco medicamentos de uso corrente na tontura que não figuram na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 e diga qual sintomático dessa relação está no componente básico. Feche declarando por que manter supressor vestibular por semanas atrasa a recuperação.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 49 anos procura a unidade básica relatando que, há cinco dias, sente tontura rotatória de poucos segundos sempre que se deita, vira na cama para a direita ou olha para cima em direção ao varal. Entre os episódios está bem, embora evite deitar-se. Nega hipoacusia, zumbido, cefaleia e qualquer déficit neurológico. Já tomou por conta própria um sintomático que uma vizinha lhe deu, sem melhora. Conduza a consulta: colha a história com atenção ao tempo e ao gatilho, execute a manobra diagnóstica adequada, interprete o nistagmo e defina o tratamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Vertigem periférica: o relógio pergunta antes do ouvido — Preparatório para provas | OsceLabs