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Pneumonia na criança

Pneumonia adquirida na comunidade na criança: etiologia por idade e classificação de gravidade (AIDPI)

A prova cobra três números e um algoritmo: o corte de frequência respiratória de cada faixa etária, a etiologia que muda com a idade e as três classificações do AIDPI, cada uma com a conduta escrita ao lado. A tiragem subcostal é o sinal que tira a criança de casa.

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Questão de abertura

Escolar de 7 anos apresenta há 10 dias tosse seca progressiva, febre baixa (37,9 °C) e mal-estar. Ao exame: bom estado geral, ausculta com estertores finos bibasais discretos, FR 26 ipm, SatO2 97%. A radiografia mostra infiltrado intersticial difuso, desproporcional ao exame físico ('achados clínicos escassos'). Qual é o antibiótico de escolha?

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Como esse tema cai

A pneumonia da criança não é a do adulto em escala menor. No adulto, o diagnóstico chega pronto na vinheta e o escore só decide o destino; na criança, o diagnóstico é justamente o que está em jogo, e ele se faz contando a respiração. Não há CURB-65 aqui, nem equivalente. A régua brasileira é o AIDPI — uma classificação que se aplica na unidade básica sem laboratório e sem radiografia, e que já vem com a conduta escrita ao lado de cada caixa.

Isso define o que a prova pode cobrar. Ela cobra o corte de frequência respiratória de cada faixa etária, porque é ele que separa a criança com pneumonia da criança com resfriado. Cobra a etiologia por idade, porque é ela que escolhe o antibiótico e explica por que o lactente de seis semanas e o escolar de nove anos não recebem a mesma coisa. E cobra a tiragem subcostal, porque é o sinal isolado que tira a criança do tratamento em casa e a manda para o hospital.

A PAC da criança não tem PCDT — ao contrário da asma. O corpo nacional de referência são os quadros de procedimentos do AIDPI, do Ministério da Saúde, e os documentos científicos do Departamento de Pneumologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Vale saber o alcance de cada peça: o quadro do AIDPI Criança cobre dos 2 meses aos 5 anos incompletos, e é só dentro dessa faixa que as classificações existem. Abaixo de 2 meses a criança corre por outro quadro e por outra lógica; acima de 5 anos, o algoritmo não se aplica e a decisão volta a ser inteiramente clínica.

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O que muda decisão

Taquipneia é o sinal-âncora, e ele tem três cortes

Toda criança com febre e tosse tem a frequência respiratória avaliada. Não é um dado a mais no exame: é o dado que decide. Na ausência de sibilância, a criança com taquipneia pode ser diagnosticada com pneumonia adquirida na comunidade — esta é a formulação do documento da SBP, e ela explica por que a contagem da respiração aparece antes de qualquer exame complementar em todo protocolo brasileiro.

Os cortes são três e são por idade: 60 ou mais incursões por minuto abaixo de 2 meses, 50 ou mais dos 2 aos 11 meses, 40 ou mais de 1 ano até os 5 anos incompletos. O quadro de procedimentos do AIDPI Criança imprime só os dois últimos, porque ele começa aos 2 meses; o corte de 60 pertence ao caminho do menor de 2 meses, e o documento da SBP reproduz os três juntos. A fronteira que mais se erra é a do meio: o degrau de 50 para 40 fica aos 12 meses, não aos 24.

A contagem tem técnica, e a técnica é cobrada. Conta-se por um minuto inteiro, não por quinze segundos multiplicados por quatro, e conta-se com a criança tranquila. Criança chorando, com dor ou sendo contida respira rápido por motivo nenhum, e uma contagem feita nessas condições transforma resfriado em pneumonia. Se a criança está agitada, acalma-se primeiro — no colo da mãe, sem despir bruscamente — e conta-se depois.

Acima de 5 anos não existe corte oficial no algoritmo. A criança maior e o adolescente saem da lógica do AIDPI e voltam para a avaliação clínica completa: o padrão respiratório continua importando, mas nenhum número o substitui, e a queixa de dor torácica e o achado focal na ausculta ganham peso que não tinham no lactente.

Sibilância desvia o algoritmo antes de qualquer classificação

Há uma regra de ordem no quadro brasileiro que se perde com facilidade e que resolve questão sozinha: se a criança com tosse ou dificuldade para respirar também tem sibilância, classifica-se e trata-se a sibilância primeiro, e só depois se volta para classificar a tosse. A exceção é a sibilância grave ou a doença muito grave, que não esperam nada — vão direto para a referência urgente.

A lógica é etiológica. Sibilo não é achado comum na pneumonia: quando ele domina o quadro, a hipótese mais provável é outra — bronquiolite viral aguda no lactente, crise de asma no pré-escolar e no escolar, aspiração de corpo estranho quando o início foi súbito e não há resposta ao broncodilatador. A tuberculose entra como diferencial de sibilância na criança pequena por um mecanismo próprio: o gânglio infartado comprime a via aérea. Fibrose cística, refluxo, cardiopatia e displasia broncopulmonar completam a lista abaixo de 1 ano.

O desvio tem uma consequência prática que também é cobrada. Depois de tratada a crise, reavalia-se: se a frequência respiratória permanecer elevada após o tratamento da sibilância, a criança é classificada também como pneumonia e recebe antibiótico. Ou seja, tratar o chiado não encerra a consulta — ele apenas tira de cima da contagem o efeito da broncoconstrição, para que o número que sobrar signifique alguma coisa.

A etiologia muda com a idade — e é ela que escolhe o antibiótico

Vírus respondem pela maioria das pneumonias da criança: cerca de 90% até 1 ano de idade e ainda cerca de 50% no escolar. O vírus sincicial respiratório é o de maior incidência, seguido por influenza, parainfluenza, adenovírus e rinovírus, com metapneumovírus e bocavírus reconhecidos mais recentemente. Isso não significa que a criança fique sem antibiótico — significa que a decisão de tratar se apoia no conjunto clínico, e não na certeza etiológica, que raramente existe.

Entre as bactérias, o pneumococo é o agente que organiza toda a terapêutica: é o mais frequente, é o de pior comportamento fora dos extremos de idade e é ele que a amoxicilina cobre. Os demais mudam com a faixa: no recém-nascido de até 3 dias dominam o estreptococo do grupo B, os bacilos Gram-negativos e a Listeria monocytogenes; dos 3 aos 28 dias entram Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis e Gram-negativos; de 1 a 3 meses convivem vírus, Chlamydia trachomatis, Ureaplasma urealyticum, pneumococo e S. aureus; dos 4 meses aos 5 anos o quadro é o de vírus mais pneumococo, S. aureus, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis e já os atípicos; acima de 5 anos ficam pneumococo, S. aureus, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae.

Duas assinaturas valem memorização porque montam vinheta. O Staphylococcus aureus é doença do lactente jovem, associa-se a infecção cutânea, piora rápido e progressivamente, e quase sempre chega como pneumonia complicada — com empiema e pneumatoceles. Já o Mycoplasma pneumoniae é doença do escolar e do adolescente, responde por 10% a 40% das PAC e por 15% a 18% das internações por PAC, ocorre o ano inteiro em ciclos epidêmicos e costuma dar quadro menos grave. A criança de 5 meses com pneumatocele e a criança de 9 anos com tosse arrastada e bom estado geral estão contando duas histórias etiológicas diferentes.

A Chlamydia trachomatis merece nota à parte pela idade em que aparece — entre 1 e 3 meses, transmitida no canal de parto, tipicamente sem febre e com tosse em acessos — e por um achado laboratorial que a denuncia: a eosinofilia é frequente nessa infecção.

Viral, bacteriano ou atípico: o que a vinheta usa para dizer

Nenhum sinal isolado separa os três, e é por isso que a prova monta a distinção com um conjunto. O quadro viral começa devagar, vem precedido de coriza, dá febre baixa a moderada, sibila e ausculta difuso. O bacteriano típico começa abrupto, dá febre alta com toxemia, não costuma sibilar e ausculta focal — crepitações e murmúrio vesicular reduzido num ponto. O atípico é insidioso, arrasta-se por dias, dá febre baixa surpreendentemente bem tolerada e uma dissociação característica: a ausculta e a radiografia parecem piores do que a criança.

Os marcadores inespecíficos ajudam pouco e a prova gosta de testar exatamente isso. Proteína C-reativa, procalcitonina, velocidade de hemossedimentação e contagem de leucócitos têm valor limitado para presumir a etiologia da PAC; sugerem infecção bacteriana apenas quando muito elevados, acima do percentil 90 ou mais. Nenhum deles decide começar ou suspender antibiótico numa criança com quadro clínico compatível.

A sorologia tem lugar quando a suspeita é de atípico, mas o tempo dela precisa ser conhecido: na infecção por Mycoplasma, a IgM se eleva em sete a dez dias após o início do processo, e a IgG deve quadruplicar numa segunda coleta com duas a três semanas de intervalo — ou cair na mesma proporção, se a criança foi avaliada já na fase de resolução. É exame de confirmação retrospectiva, não de decisão na primeira consulta.

No paciente internado, a hemocultura é recomendada para todos. A pesquisa viral em secreção respiratória é sensível e pouco invasiva, e ajuda a entender o caso, mas um resultado viral positivo não autoriza, sozinho, suspender o antibiótico de uma criança que está sendo tratada por pneumonia.

Os sinais que classificam: perigo geral, tiragem subcostal, estridor

O AIDPI verifica os sinais gerais de perigo antes de qualquer queixa específica, e eles são seis. Três se perguntam: a criança não consegue beber ou mamar no peito, vomita tudo o que ingere, apresentou convulsão ou movimento anormal há menos de 72 horas. Três se observam: letargia ou inconsciência, tempo de enchimento capilar acima de 2 segundos, batimento de asa do nariz ou gemência. Qualquer um deles, isolado, já leva a criança à caixa mais grave — e a caixa mais grave manda referir urgentemente.

Depois vêm os três achados do exame dirigido: a frequência respiratória contada por um minuto, a presença de tiragem subcostal e a presença de estridor em repouso ou de sibilância. Estridor em repouso pesa como sinal grave porque denuncia obstrução alta — e obstrução alta não se trata com amoxicilina em casa.

A tiragem subcostal é o sinal que muda o destino da criança. Ela aparece na mesma caixa dos sinais gerais de perigo no quadro brasileiro: uma criança que respira rápido e tem tiragem não recebe antibiótico e retorno em dois dias — recebe a primeira dose do antibiótico e vai para o hospital. Junto dela, a SBP escalona os demais sinais em ordem crescente de gravidade: tiragem subcostal, dificuldade para ingerir líquidos, sinais de dificuldade respiratória mais grave (movimentos involuntários da cabeça, gemência, batimento de asa do nariz) e cianose central. O consenso britânico acrescenta febre acima de 38,5 °C e sinais de infecção grave, como enchimento capilar lento.

Quando há oximetria disponível, a saturação periférica abaixo de 92% é o critério mais objetivo de pneumonia grave que existe no capítulo. Ela não substitui os sinais clínicos — o quadro do AIDPI foi desenhado para funcionar sem oxímetro —, mas quando o número está na vinheta, ele carrega peso de decisão.

Abaixo de 2 meses a lista de sinais graves é outra e é mais longa, porque a doença nessa idade quase nunca fica confinada ao pulmão: frequência respiratória de 60 ou mais, tiragem subcostal, febre alta ou hipotermia, recusa do seio materno por mais de três mamadas, sibilância, estridor em repouso e sensório alterado com letargia, sonolência anormal ou irritabilidade excessiva. Nenhum desses lactentes é classificado como 'pneumonia' para tratamento em casa.

Tórax de uma criança pequena vista de frente durante a inspiração, com o tecido logo abaixo do rebordo costal puxado para dentro dos dois lados.
Tiragem subcostal: na inspiração, a região logo abaixo do rebordo costal é puxada para dentro. No quadro brasileiro do AIDPI é o sinal que, sozinho, tira a criança do tratamento em casa e dispara a referência urgente.

Radiografia: por que ela não entra na criança que vai para casa

A radiografia de tórax não deve ser realizada de rotina para diagnosticar pneumonia em criança sem sinais de gravidade e sem necessidade de tratamento hospitalar. O argumento não é econômico: não há evidência de que ela altere o resultado clínico desse grupo. A criança que respira rápido, está bem, aceita líquidos e não tem tiragem é diagnosticada e tratada pela clínica — pedir a radiografia atrasa o antibiótico sem mudar a conduta.

As indicações são quatro e todas têm em comum o fato de que o resultado pode mudar alguma coisa: dúvida diagnóstica; pneumonia com hipoxemia, desconforto respiratório ou outros sinais de gravidade; falha de resposta ao tratamento em 48 a 72 horas ou piora progressiva, aí para procurar complicação — empiema, pneumotórax, escavação; e paciente hospitalizado, em que se pede PA e perfil. Convém lembrar a limitação nos dois sentidos: radiografia normal não exclui pneumonia, e radiografia alterada pode ser lida como normal.

O controle depois do tratamento é onde mais se erra. Não se repete radiografia após pneumonia tratada com boa resposta clínica — a imagem demora a limpar e a criança melhorada não ganha nada com o exame. O controle em 4 a 6 semanas fica reservado a três situações: pneumonias de repetição sempre no mesmo lobo, suspeita de malformação e suspeita de aspiração de corpo estranho. Considera-se também nos casos de pneumonia redonda, de colapso pulmonar e de sintomas persistentes.

Três radiografias de tórax pediátricas mostram consolidação lobar com broncograma aéreo, padrão intersticial bilateral e derrame pleural unilateral com sinal do menisco.
A radiografia não é exame de rotina na pneumonia ambulatorial. Estes exemplos devem treinar a interpretação quando há gravidade, dúvida diagnóstica, complicação ou falha terapêutica.

Tratamento ambulatorial: amoxicilina, 50 mg/kg/dia, sete dias

A amoxicilina é a primeira opção do tratamento ambulatorial, na dose de 50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas — ou de 12 em 12 horas na formulação BD. A duração é de sete dias. Vale dos 2 meses aos 5 anos e vale também acima dos 5 anos, com a mesma dose: a idade maior não muda a droga de escolha, muda apenas a probabilidade de que um atípico esteja envolvido.

A segunda linha do quadro do Ministério da Saúde é a amoxicilina com clavulanato, na mesma dose e no mesmo esquema, ou a eritromicina em 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas, também por sete dias. Há ainda uma saída para o impasse prático de quem não consegue tratar por via oral: nos casos de pneumonia em que a criança não aceita o antibiótico oral ou não apresenta melhora, pode ser usada penicilina procaína na dose de 50.000 UI/kg/dose.

O macrolídeo não é o antibiótico inicial do escolar por padrão. Iniciar a PAC com macrolídeo em crianças maiores de 5 anos não se mostrou mais eficaz do que o tratamento convencional com amoxicilina — ele entra quando há suspeita clínica de pneumonia atípica, e aí com esquema próprio: azitromicina 10 mg/kg/dia em dose única diária por 5 dias, ou claritromicina 7,5 mg/kg/dose de 12 em 12 horas por 10 dias.

A consulta de reavaliação faz parte da prescrição, não é opcional. Toda criança tratada em casa sai com retorno agendado — em 48 a 72 horas pela régua da SBP, em 2 dias pelo quadro do AIDPI — e com a orientação de voltar imediatamente a qualquer momento se piorar. A mãe precisa sair sabendo o que é piorar: a criança que passa a não conseguir beber, que fica gemente, que respira com esforço visível ou que fica prostrada volta na hora, sem esperar a data marcada.

Tratamento hospitalar e o que muda no lactente jovem

Internada com pneumonia grave, a criança recebe betalactâmico parenteral: ampicilina 50 mg/kg/dose de 6 em 6 horas ou penicilina cristalina 150.000 U/kg/dia a cada 6 horas. Nos menores de 2 meses associa-se gentamicina 7,5 mg/kg/dia a intervalos de 12 horas — essa associação é a marca da faixa etária, e existe para cobrir os Gram-negativos e a Listeria que dominam a etiologia neonatal. Como segunda opção, por via oral ou parenteral em doses habituais, entram a amoxicilina com inibidor de betalactamase (clavulanato ou sulbactam) e a cefuroxima.

A criança internada que não tem tiragem subcostal não precisa necessariamente de via parenteral: a recomendação aplicável à nossa realidade mantém, nesse caso, amoxicilina oral 50 mg/kg/dia em duas ou três tomadas por sete dias. Estar no hospital e estar em antibiótico venoso são decisões separadas.

Nas formas complicadas, o esquema empírico se ajusta ao cenário. Abaixo de 3 meses, ampicilina EV 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas associada a cefotaxima EV 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas. Entre 3 e 6 meses, amoxicilina-clavulanato EV 150 mg/kg/dia de 6 em 6 horas. Na criança não vacinada para Haemophilus influenzae tipo b, amoxicilina-clavulanato EV na mesma dose ou cefuroxima EV 150 mg/kg/dia. Na suspeita de S. aureus sensível à meticilina — pneumatoceles, necrose, cocos Gram-positivos no líquido pleural, infecção de pele prévia —, oxacilina EV 150 a 200 mg/kg/dia de 6 em 6 horas associada a cefotaxima EV. Em abscesso ou necrose pulmonar, cefotaxima EV com clindamicina EV 30 a 40 mg/kg/dia, e o tratamento do abscesso se estende por pelo menos 3 a 4 semanas.

Antes de referir, a criança classificada na caixa vermelha não sai de mãos vazias: dá-se a primeira dose do antibiótico recomendado, trata-se para evitar hipoglicemia e oferece-se oxigênio se disponível. Transferir sem a primeira dose é perda de tempo terapêutico num paciente que já demonstrou que não pode esperar.

Quem interna e quem vai para a UTI

A gravidade da pneumonia no lactente e na criança é avaliada predominantemente por critérios clínicos, e os critérios de gravidade são, eles próprios, as indicações formais de hospitalização. São eles: tiragem subcostal, dificuldade para ingerir líquidos, sinais de dificuldade respiratória mais grave — movimentos involuntários da cabeça, gemência, batimento de asa do nariz — e cianose central, aos quais se somam a saturação abaixo de 92% e qualquer sinal geral de perigo.

Fora da lista formal, três circunstâncias pesam na decisão e aparecem nas vinhetas: a idade muito baixa, a comorbidade e a impossibilidade prática de tratamento domiciliar — família sem condição de retornar, distância, insegurança sobre a administração do medicamento. Uma criança sem critério clínico de internação mas sem quem garanta a dose de 8 em 8 horas não é uma criança de tratamento ambulatorial.

Para a UTI existem duas portas, e só duas: insuficiência respiratória e sepse. Traduzidas em critérios operacionais: incapacidade de manter a saturação acima de 92% com fração inspirada de oxigênio acima de 0,6; aumento da taquipneia e da taquicardia com dificuldade respiratória grave; fadiga respiratória; e apneias ou respiração irregular. Este último é o mais traiçoeiro da lista, porque parece melhora — a criança que estava taquipneica e passa a respirar devagar e irregularmente está exaurindo, não melhorando.

Derrame pleural e empiema: suspeitar, medir, drenar

Derrame parapneumônico é a complicação a ter sempre em mente, e é a manifestação mais comum da PAC complicada. Suspeita-se dele na criança cujo estado geral está mais comprometido do que a pneumonia explicaria, e que ganha sinais novos: dor pleurítica, dor abdominal, vômitos, halitose, apetite diminuído, letargia. Um achado descreve bem a criança com derrame — ela se deita sobre o lado acometido para imobilizar o hemitórax e conseguir alguma analgesia.

O exame físico é unilateral e reprodutível: expansibilidade diminuída do lado afetado, frêmito toracovocal abolido, macicez à percussão e murmúrio vesicular diminuído ou ausente. Saturação abaixo de 92% nesse contexto aponta pior prognóstico.

A ultrassonografia de tórax é o método de imagem mais sensível para avaliar o espaço pleural na criança, e é o recomendado para estimar a quantidade de líquido — porque o tamanho do derrame é o que decide a conduta. Ela é superior à tomografia para mostrar loculações e fibrina, é portátil, não irradia, é barata e dispensa sedação. A radiografia continua entrando na avaliação inicial em PA e perfil, e no Brasil ainda serve para não atrasar a abordagem do derrame; a tomografia fica para avaliar necrose, pneumatoceles, abscesso e fístula broncopleural.

O líquido pleural fala. Tem características de empiema quando se apresenta com pus franco, organismos visíveis à coloração de Gram ou leucócitos aumentados de predomínio neutrofílico, e caracteriza-se por pH abaixo de 7,20, proteína acima de 30 g/L, glicose baixa e desidrogenase lática frequentemente igual ou acima de 1000 U/L — este último refletindo lesão do parênquima. Um pH abaixo de 7,0 indica alto risco de formar septações.

A drenagem pleural simples é indicada quando o volume excede 1 cm à visualização pela ultrassonografia, e a lista formal de indicações é esta: presença de pus no espaço pleural; presença de germes Gram-positivos na coloração; glicose abaixo de 50 mg/dL; LDH acima de 1000 UI; comprometimento da função pulmonar por derrame extenso; e presença de septações ou loculações na cavidade torácica. O dreno sai quando o débito é mínimo — 40 a 60 mL em 24 horas, ou menos de 1 a 1,5 mL/kg/dia.

Falha da drenagem tem definição própria: persistência ou aumento da febre após 72 horas da drenagem, débito escasso com persistência da imagem radiológica, septações ou loculações que continuam visíveis à ultrassonografia, e piora do quadro respiratório. É aí que entram os fibrinolíticos pelo dreno — uroquinase, estreptoquinase ou alteplase, com o dreno pinçado por 4 horas e mudanças posturais. A videotoracoscopia fica para o derrame maciço persistente que falhou à drenagem e ao fibrinolítico, para a fístula broncopleural não resolvida e para a necrose extensa.

Falha terapêutica: o prazo é 48 a 72 horas

A janela de reavaliação é curta e é a mesma nos dois documentos: 48 a 72 horas na régua da SBP, 2 dias no quadro do AIDPI. Melhorou — mantém-se o tratamento até completar os sete dias. Não melhorou ou piorou — a conduta muda, e ela é escalonada.

O quadro de retorno do AIDPI dá o roteiro. Se a criança ganhou tiragem subcostal, estridor em repouso ou qualquer sinal geral de perigo, ela piorou: refere-se urgentemente ao hospital depois de dar uma dose do antibiótico recomendado. Se a frequência respiratória continua inalterada, mas não há febre e a criança aceita alimentação, mantém-se ou troca-se por outro antibiótico recomendado, com novo retorno em dois dias — ou refere-se. Se a respiração diminuiu, não há febre e a criança se alimenta, completa-se o esquema de sete dias.

Quando o antibiótico falha, quatro hipóteses competem e vale percorrê-las na ordem. Primeira e mais comum: complicação — e é aqui que a radiografia finalmente é pedida, procurando empiema, pneumotórax ou escavação. Segunda: o agente não está coberto — S. aureus no lactente com piora rápida, ou atípico no escolar com quadro arrastado. Terceira: não é pneumonia bacteriana — o diagnóstico pode ser viral, ou pode ser corpo estranho, tuberculose ou malformação. Quarta, e nunca descartável: o antibiótico não está sendo tomado como prescrito, na dose ou no intervalo.

A pneumonia por Staphylococcus aureus merece suspeita ativa quando a evolução é arrastada e não melhora com antibiótico para germes comuns, mesmo sem porta de entrada cutânea aparente e sem internação prévia. O S. aureus resistente à meticilina adquirido na comunidade não tem prevalência estabelecida no Brasil, mas essa etiologia entra na consideração dos quadros que não respondem, em qualquer faixa etária.

Prevenção: as vacinas que redesenharam a etiologia

Duas vacinas mudaram a epidemiologia da pneumonia da criança no Brasil e continuam sendo a resposta correta em qualquer questão de prevenção. A vacina contra Haemophilus influenzae tipo b, implantada em 1999 e hoje dentro da pentavalente, praticamente apagou a PAC por esse agente — que sobrou como preocupação em duas situações específicas: a criança não vacinada e o imunodeprimido, em quem o não tipável pode aparecer. E a vacina pneumocócica conjugada, que derrubou a incidência da doença pneumocócica e cujos sorotipos remanescentes explicam por que a vigilância continua.

O esquema, a idade de aplicação e a valência da pneumocócica em uso no Programa Nacional de Imunizações são assunto do capítulo do calendário vacinal, e é lá que eles estão atualizados — inclusive a transição de valência que o PNI vem executando. O que importa aqui é o raciocínio inverso, que é o que a vinheta usa: diante de uma criança com pneumonia complicada, a caderneta é parte do exame. Vacinação incompleta é fator de risco reconhecido para PAC complicada, e a criança não vacinada para Hib tem esquema empírico diferente da criança vacinada.

Completam o quadro de prevenção o aleitamento materno — cuja ausência é fator de risco para complicação — e a vacinação contra influenza, que reduz a infecção viral que abre a porta para a pneumonia bacteriana. Os demais fatores de risco do hospedeiro compõem a lista que a vinheta usa para sinalizar gravidade antes mesmo de descrever o exame: desnutrição, baixa idade, comorbidades, baixo peso ao nascer e episódios prévios de sibilos e pneumonias.

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Contar a respiração, olhar o tórax, decidir o destino

O quadro do AIDPI Criança vale dos 2 meses aos 5 anos incompletos e produz três classificações, em escala crescente. A criança entra na classificação mais grave em que se encaixar — basta um sinal daquela caixa. A conduta não é deduzida: ela vem escrita ao lado, e é ela que a prova cobra junto com o rótulo.

  1. 1Pergunte há quanto tempo há tosse ou dificuldade para respirar e se há sibilância.
  2. 2Havendo sibilância, classifique e trate a sibilância primeiro e depois volte para classificar a tosse — exceto na sibilância grave ou na doença muito grave, que vão direto para a referência urgente.
  3. 3Verifique os sinais gerais de perigo: não consegue beber ou mamar no peito, vomita tudo o que ingere, convulsão ou movimento anormal há menos de 72 horas, letargia ou inconsciência, enchimento capilar acima de 2 segundos, batimento de asa do nariz ou gemência.
  4. 4Conte a frequência respiratória por um minuto inteiro, com a criança tranquila, e compare com o corte da faixa etária.
  5. 5Observe se há tiragem subcostal e se há estridor em repouso.
  6. 6Classifique na caixa mais grave em que a criança se encaixar e execute a conduta escrita ao lado dela.
  7. 7Se a frequência respiratória permanecer elevada após tratar a crise de sibilância, classifique também como pneumonia e trate.

Não é pneumonia — nenhum dos sinais

Sem sinal geral de perigo, sem tiragem subcostal, sem estridor em repouso e com frequência respiratória abaixo do corte da idade. Conduta: aliviar a tosse com medidas caseiras, informar a mãe sobre quando retornar imediatamente e seguimento em cinco dias caso não melhore. Tosse há mais de 14 dias exige investigação.

Pneumonia — respiração rápida

Frequência respiratória igual ou acima do corte da idade, sem tiragem subcostal, sem estridor em repouso e sem sinal geral de perigo. Conduta: antibiótico recomendado por sete dias, aliviar a tosse com medidas caseiras, informar a mãe sobre quando retornar imediatamente e marcar o retorno em dois dias.

Pneumonia grave ou doença muito grave — tiragem, estridor ou sinal de perigo

Qualquer sinal geral de perigo, ou tiragem subcostal, ou estridor em repouso. Conduta: dar a primeira dose de um antibiótico recomendado, tratar a criança para evitar hipoglicemia, oferecer oxigênio se disponível e referir urgentemente ao hospital.

Faixa etáriaRespiração rápida (taquipneia)Onde está impresso
Menor de 2 meses60 irpm ou maisQuadro 1 do documento da SBP (2018); a criança corre pelo quadro do menor de 2 meses, não pelo do AIDPI Criança
2 meses a menor de 12 meses50 irpm ou maisQuadro de procedimentos do AIDPI Criança (MS, 2017) e Quadro 1 da SBP (2018)
1 ano a menor de 5 anos40 irpm ou maisQuadro de procedimentos do AIDPI Criança (MS, 2017) e Quadro 1 da SBP (2018)
5 anos ou maisSem corte no algoritmoFora do alcance do quadro; a avaliação volta a ser inteiramente clínica

Etiologia da PAC por faixa etária

Faixa etáriaAgentes principais
Recém-nascido até 3 diasEstreptococo do grupo B, bacilos Gram-negativos, Listeria monocytogenes
Recém-nascido de 3 a 28 diasStaphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Gram-negativos
1 a 3 mesesVírus, Chlamydia trachomatis, Ureaplasma urealyticum, Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus
4 meses a 5 anosVírus, Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae
Acima de 5 anosStreptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae

Viral, bacteriano típico e atípico: o conjunto que separa

PistaViralBacteriano típicoAtípico
Idade em que predominaLactente e pré-escolarQualquer idade, com o pneumococo atravessando todasEscolar e adolescente
InstalaçãoGradual, precedida de corizaAbruptaInsidiosa, ao longo de dias
FebreBaixa a moderadaAlta, com toxemiaBaixa e bem tolerada
SibilânciaComumIncomumPode ocorrer
AuscultaDifusa, com sibilosFocal, com crepitações e murmúrio reduzidoDifusa e desproporcional ao estado geral
Peso na etiologiaCerca de 90% até 1 ano e 50% no escolarPneumococo é quem define o antibiótico empíricoMycoplasma responde por 10% a 40% das PAC

Antibiótico: cenário, dose e duração

CenárioEsquemaDose e intervaloDuração
Ambulatorial, 2 meses a 5 anosAmoxicilina VO50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas, ou de 12 em 12 horas na formulação BD7 dias
Ambulatorial, acima de 5 anosAmoxicilina VO50 mg/kg/dia, mesmo esquema7 dias
Ambulatorial, segunda linhaAmoxicilina-clavulanato VO ou eritromicina VOClavulanato 50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas; eritromicina 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas7 dias
Suspeita de atípicoAzitromicina VO ou claritromicina VOAzitromicina 10 mg/kg/dia em dose única diária; claritromicina 7,5 mg/kg/dose de 12 em 12 horasAzitromicina 5 dias; claritromicina 10 dias
Recusa da via oral ou sem melhora, antes de referirPenicilina procaína IM50.000 UI/kg/doseDose prévia à referência
Hospitalar, pneumonia sem tiragemAmoxicilina VO50 mg/kg/dia em duas ou três tomadas7 dias
Hospitalar, pneumonia graveAmpicilina EV ou penicilina cristalina EVAmpicilina 50 mg/kg/dose de 6 em 6 horas; penicilina cristalina 150.000 U/kg/dia a cada 6 horasConforme evolução
Hospitalar, menor de 2 mesesAssociar gentamicina ao betalactâmico7,5 mg/kg/dia a intervalos de 12 horasConforme evolução

Internação e UTI

DecisãoCritérios
InternarTiragem subcostal; dificuldade para ingerir líquidos; movimentos involuntários da cabeça, gemência ou batimento de asa do nariz; cianose central; saturação abaixo de 92%; qualquer sinal geral de perigo. O consenso britânico acrescenta febre acima de 38,5 °C e sinais de infecção grave, como enchimento capilar lento.
UTIInsuficiência respiratória ou sepse. Operacionalmente: incapacidade de manter saturação acima de 92% com FiO2 acima de 0,6; taquipneia e taquicardia crescentes com dificuldade respiratória grave; fadiga respiratória; apneias ou respiração irregular.

Derrame pleural: caracterizar e drenar

PerguntaResposta operacional
Com que exame medirUltrassonografia de tórax — o método mais sensível para o espaço pleural na criança e o recomendado para estimar o volume, que é o que decide a conduta
O que caracteriza empiemaPus franco, germes ao Gram ou leucocitose de predomínio neutrofílico; pH abaixo de 7,20, proteína acima de 30 g/L, glicose baixa e LDH frequentemente igual ou acima de 1000 U/L
Quando drenarVolume acima de 1 cm à ultrassonografia; pus no espaço pleural; germes Gram-positivos à coloração; glicose abaixo de 50 mg/dL; LDH acima de 1000 UI; comprometimento da função pulmonar por derrame extenso; septações ou loculações
Quando retirar o drenoDébito mínimo: 40 a 60 mL em 24 horas, ou menos de 1 a 1,5 mL/kg/dia
O que é falha da drenagemFebre que persiste ou aumenta após 72 horas da drenagem; débito escasso com imagem persistente; septações ou loculações que continuam à ultrassonografia; piora respiratória
O que vem depois da falhaFibrinolítico pelo dreno (uroquinase, estreptoquinase ou alteplase), com o dreno pinçado por 4 horas e mudanças posturais; videotoracoscopia no derrame maciço persistente, na fístula broncopleural não resolvida e na necrose extensa

A contagem vale por um minuto inteiro e com a criança tranquila. Criança chorando ou contida respira rápido sem doença, e a contagem feita assim converte resfriado em pneumonia.

O degrau de 50 para 40 irpm fica aos 12 meses. Trocar essa fronteira pelos 24 meses é o erro numérico mais comum do capítulo.

Basta um sinal da caixa mais grave. Tiragem subcostal isolada, em criança sem nenhum outro achado, já classifica como pneumonia grave ou doença muito grave no quadro brasileiro.

Saturação abaixo de 92% é o critério objetivo de gravidade quando há oxímetro — mas o quadro do AIDPI foi desenhado para funcionar sem ele, e a ausência de oximetria não adia nenhuma decisão.

Radiografia não entra na criança sem sinais de gravidade que vai ser tratada em casa, e não se repete depois de pneumonia que respondeu bem. Ela volta na falha de 48 a 72 horas, para procurar complicação.

Reavaliação agendada faz parte da prescrição ambulatorial: 48 a 72 horas pela SBP, 2 dias pelo quadro do AIDPI, e retorno imediato a qualquer momento se piorar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A tiragem subcostal classifica a criança como grave e obriga a referência?

Sim — tiragem subcostal entra na caixa vermelha e dispara referência urgente

No quadro brasileiro, a tiragem subcostal aparece ao lado dos sinais gerais de perigo e do estridor em repouso, na classificação 'pneumonia grave ou doença muito grave'. A conduta é dar a primeira dose de um antibiótico recomendado, tratar para evitar hipoglicemia, oferecer oxigênio se disponível e referir urgentemente ao hospital. O documento da SBP reforça a leitura, listando a tiragem subcostal como o primeiro dos sinais de gravidade e como indicação formal de hospitalização.

Ministério da Saúde/OPAS/UNICEF, Manual de Quadros de Procedimentos AIDPI Criança 2 meses a 5 anos (2017); SBP, Documento Científico nº 3 (2018)

Não — a revisão de 2014 juntou tiragem e respiração rápida numa só categoria tratada em casa

A OMS reduziu as três categorias antigas (pneumonia por respiração rápida, pneumonia grave por tiragem, pneumonia muito grave por sinal de perigo) a duas: 'pneumonia', que reúne respiração rápida e/ou tiragem subcostal e é tratada em casa com amoxicilina oral, e 'pneumonia grave', definida por qualquer sinal geral de perigo, que exige referência e antibiótico injetável. A base foi a demonstração de equivalência entre ampicilina parenteral no hospital e amoxicilina oral no domicílio para a pneumonia com tiragem.

World Health Organization, Revised WHO classification and treatment of childhood pneumonia at health facilities (2014), para crianças de 2 a 59 meses

Na prova

O recorte se identifica pelo cenário e pelo vocabulário. Enunciado que cita AIDPI, unidade básica, agente comunitário de saúde, Caderneta da Criança ou 'quadro de procedimentos' está no corpo do Ministério da Saúde, em que a tiragem subcostal divide caixa com os sinais gerais de perigo. Enunciado que nomeia a OMS, fala em 'classificação revisada' ou descreve amoxicilina dispersível em casa está no corpo de 2014. As alternativas denunciam o mundo da questão: se uma delas oferece tratamento domiciliar para criança com tiragem, a discussão é sobre a revisão da OMS; se todos os caminhos com tiragem levam ao hospital, o recorte é o do quadro brasileiro. A distância entre os dois documentos não é de mérito técnico: a OMS reescreveu a régua olhando para sistemas de saúde em que referir significa a criança não chegar a lugar nenhum, e o Brasil manteve a régua mais conservadora com hospital disponível na retaguarda. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

Por quantos dias tratar a pneumonia não complicada da criança

Sete dias — os dois documentos brasileiros

O quadro do AIDPI prescreve o antibiótico recomendado durante sete dias e traz a tabela de amoxicilina por faixa de peso já calculada para esse período. O documento da SBP fecha do mesmo modo: havendo melhora na reavaliação de 48 a 72 horas, o tratamento é mantido até completar sete dias. É também a duração que a SBP registra para a pneumonia sem tiragem tratada com amoxicilina oral no hospital.

Ministério da Saúde, AIDPI Criança (2017); SBP, Documento Científico nº 3 (2018)

Cinco dias — a classificação revisada da OMS

A OMS recomenda amoxicilina oral, preferencialmente em comprimido dispersível, duas vezes ao dia por cinco dias para a categoria 'pneumonia', com redução possível para três dias em locais de baixa prevalência de HIV. Para a pneumonia grave, o esquema injetável tem duração mínima de cinco dias.

World Health Organization, Revised WHO classification and treatment of childhood pneumonia at health facilities (2014)

Três a cinco dias — os ensaios de não inferioridade publicados em 2021

O CAP-IT randomizou 814 crianças entre três e sete dias de amoxicilina e encontrou não inferioridade do curso curto para a necessidade de retratamento em 28 dias. O SAFER randomizou 281 crianças de 6 meses a 10 anos tratadas ambulatorialmente entre cinco e dez dias de amoxicilina em dose alta, com cura clínica de 88,6% contra 90,8% na análise por protocolo — também não inferior.

CAP-IT Randomized Clinical Trial, JAMA (2021); Pernica JM et al., SAFER Randomized Clinical Trial, JAMA Pediatrics (2021)

Na prova

A duração é sensível ao documento que o enunciado ancora. Vinheta construída sobre o AIDPI ou sobre o documento da SBP trabalha com sete dias; vinheta que nomeia a classificação revisada da OMS trabalha com cinco; enunciado que descreve desenho de ensaio clínico, usa a expressão 'não inferioridade' ou nomeia CAP-IT e SAFER está discutindo evidência de curso curto, e não conduta de rotina no Brasil. O cenário reforça: unidade básica, programa do SUS e Caderneta apontam para o corpo brasileiro, enquanto discussão de uso racional de antimicrobianos e de duração mínima eficaz aponta para o corpo dos ensaios. Registre também o descompasso de data — os documentos brasileiros são de 2017 e 2018, a revisão da OMS é de 2014 e os ensaios são de 2021.

Amoxicilina em dose padrão ou em dose alta

50 mg/kg/dia — os documentos brasileiros

A amoxicilina é a primeira opção ambulatorial na dose de 50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas ou de 12 em 12 horas na formulação BD, tanto dos 2 meses aos 5 anos quanto acima dos 5 anos. É a dose impressa na tabela por faixa de peso do quadro de procedimentos e a dose registrada no documento da SBP, inclusive para a pneumonia sem tiragem tratada por via oral no hospital.

Ministério da Saúde, AIDPI Criança (2017); SBP, Documento Científico nº 3 (2018)

80 a 90 mg/kg/dia — OMS revisada e PIDS/IDSA

A OMS recomenda 40 mg/kg/dose duas vezes ao dia, o que perfaz 80 mg/kg/dia. A diretriz conjunta da Pediatric Infectious Diseases Society com a IDSA recomenda 90 mg/kg/dia divididos em duas tomadas, ou 45 mg/kg/dia em três, como primeira linha ambulatorial acima de 3 meses. O argumento é farmacodinâmico: garantir concentração acima da CIM diante de pneumococo com sensibilidade reduzida à penicilina.

World Health Organization (2014); Bradley JS et al., PIDS/IDSA Clinical Practice Guidelines, Clinical Infectious Diseases (2011)

A dose alta não se mostrou superior no ensaio que a testou

No CAP-IT, a amoxicilina em dose baixa (35 a 50 mg/kg/dia) foi não inferior à dose alta (70 a 90 mg/kg/dia) para a necessidade de retratamento antibiótico em 28 dias, com 12,6% contra 12,4%. O achado desloca o debate: a dose alta nasceu de um raciocínio de resistência, e o desfecho clínico não separou os dois braços.

CAP-IT Randomized Clinical Trial, JAMA (2021)

Na prova

A dose separa os corpos com nitidez, e a própria unidade denuncia o documento. Cinquenta miligramas por quilo por dia é a linguagem dos textos brasileiros; oitenta a noventa é a linguagem da OMS revisada e da PIDS/IDSA. Um distrator que traz 90 mg/kg/dia dividido em duas tomadas é vocabulário norte-americano e sinaliza que a questão foi montada no corpo internacional. Enunciado que menciona pneumococo com sensibilidade reduzida à penicilina está construindo o argumento farmacodinâmico da dose alta; enunciado que descreve a tabela por faixa de peso da unidade básica está no corpo nacional. Aqui a distância não é de atualização, e sim de perfil epidemiológico e de forma farmacêutica disponível: a suspensão padronizada na rede pública brasileira está calculada para o esquema de 50 mg/kg/dia.

06

Caso resolvido

Lactente de 10 meses, previamente hígido, levado à unidade básica com tosse há quatro dias e febre de 38,4 °C há dois. A mãe conta que ele está mamando menos, mas mama. Ao exame, criança ativa e reativa no colo, sem sibilância, sem estridor. Frequência respiratória contada com a criança tranquila: 56 incursões por minuto. Sem tiragem subcostal, sem batimento de asa do nariz, sem gemência, enchimento capilar de 2 segundos. Ausculta com crepitações em base direita. Não há oxímetro disponível na unidade.
sinais gerais de perigo
Ausentes. A criança bebe e mama, não vomita tudo, não teve convulsão, não está letárgica, o enchimento capilar não passa de 2 segundos e não há batimento de asa do nariz nem gemência. Nenhum sinal da caixa vermelha por esta via.
sibilância
Ausente. O algoritmo segue direto para classificar a tosse, sem desvio para o quadro da sibilância.
frequência respiratória
56 irpm com 10 meses de idade. O corte dos 2 aos 11 meses é 50 ou mais: há respiração rápida. Note que a contagem foi feita por um minuto e com a criança tranquila — condição sem a qual o número não valeria.
tiragem e estridor
Ambos ausentes. É esse par de negativas que mantém a criança fora da classificação mais grave.
classificação
Pneumonia. Respiração rápida sem tiragem subcostal, sem estridor em repouso e sem sinal geral de perigo.
conduta
Amoxicilina 50 mg/kg/dia, de 8 em 8 horas (ou de 12 em 12 horas na formulação BD), por sete dias. Medidas caseiras para a tosse. Orientar a mãe sobre os sinais que exigem retorno imediato. Marcar o retorno em dois dias.
o que não fazer
Não pedir radiografia de tórax. A criança não tem sinais de gravidade e não precisa de tratamento hospitalar; nesse cenário a radiografia não muda o resultado clínico e só atrasa o antibiótico. A ausência de oxímetro na unidade também não adia nada: o quadro foi desenhado para funcionar sem ele.
o retorno
Em dois dias, avalia-se se ele respira mais lentamente, se ainda tem febre e se está se alimentando. Respiração diminuída, sem febre e alimentando-se: completar os sete dias. Frequência inalterada, sem febre e alimentando-se: manter ou trocar o antibiótico, com novo retorno em dois dias, ou referir. Surgindo tiragem, estridor ou qualquer sinal de perigo: piorou — primeira dose do antibiótico e referência urgente.
07

Agora feche você

Menino de 3 anos, trazido ao pronto atendimento com febre alta há três dias e tosse. A mãe diz que hoje ele 'não quis nem água' e que está mais quieto do que o normal. Ao exame: prostrado mas responsivo, sem sibilância, sem estridor em repouso. Frequência respiratória 46 irpm, com a criança quieta no colo. Há tiragem subcostal visível. Enchimento capilar de 2 segundos. Ausculta com murmúrio vesicular diminuído em terço médio e inferior do hemitórax esquerdo e macicez à percussão do mesmo lado. Ele se recusa a deitar em decúbito dorsal e prefere ficar deitado sobre o lado esquerdo.
sinais gerais de perigo
Presente pelo menos um: não consegue beber. A recusa de líquidos, relatada como 'não quis nem água', já é sinal geral de perigo. A prostração levanta a suspeita de letargia e deve ser avaliada com atenção.
frequência respiratória
46 irpm aos 3 anos. O corte de 1 ano a menos de 5 anos é 40 ou mais: há respiração rápida.
tiragem subcostal
Presente. Sozinha, já bastaria para a classificação mais grave.
achado que muda o caso
Murmúrio vesicular diminuído com macicez à percussão de um lado só, em criança que prefere deitar sobre o lado acometido. É a descrição clássica do derrame pleural parapneumônico — o exame unilateral com posição antálgica.
classificação
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Contar a respiração com a criança chorando Atrai porque a criança doente costuma chorar quando é despida e examinada, e a pressa do plantão empurra para contar assim mesmo. Só que choro, dor e contenção elevam a frequência respiratória sem doença nenhuma, e o quadro exige explicitamente que a criança esteja tranquila. Contagem feita durante o choro transforma resfriado em pneumonia e enche a unidade de amoxicilina desnecessária.
  2. 2Colocar o degrau de 50 para 40 irpm aos 2 anos Atrai porque a faixa 'de 1 a 4 anos' aparece escrita de várias formas e a memória gosta de arredondar para 2 anos, idade que marca outras transições em pediatria. A fronteira é 12 meses: dos 2 aos 11 meses o corte é 50, e de 1 ano a menos de 5 anos o corte é 40. Uma criança de 14 meses com 44 irpm tem respiração rápida — pelo corte errado, ela iria para casa sem antibiótico.
  3. 3Pedir radiografia para confirmar antes de tratar em casa Atrai porque parece cuidado e porque a imagem dá segurança ao prescritor. Mas a radiografia não deve ser feita de rotina na criança sem sinais de gravidade e sem necessidade de hospitalização, já que não altera o resultado clínico. Pior: radiografia normal não exclui pneumonia e radiografia alterada pode ser lida como normal, de modo que o exame nem sequer resolve a dúvida que motivou o pedido.
  4. 4Tratar em casa a criança com tiragem subcostal Atrai porque a criança pode estar em bom estado geral no resto do exame e porque quem estudou pela classificação revisada da OMS aprendeu que respiração rápida e tiragem foram fundidas numa categoria de tratamento domiciliar. No quadro brasileiro isso não vale: tiragem subcostal divide caixa com os sinais gerais de perigo e dispara primeira dose do antibiótico mais referência urgente. Num cenário de unidade básica do SUS, é o quadro do Ministério da Saúde que está sendo aplicado.
  5. 5Classificar a tosse antes de tratar a sibilância Atrai porque a queixa que abre a consulta é a tosse e o raciocínio segue a queixa. A ordem do quadro é a inversa: havendo sibilância, classifica-se e trata-se a sibilância primeiro e só depois se volta para a tosse. A consequência é numérica — a broncoconstrição infla a frequência respiratória, e classificar antes de tratá-la rotula como pneumonia uma criança que era crise de sibilância. Se a frequência permanecer alta depois do tratamento, aí sim se classifica também como pneumonia.
  6. 6Aplicar o algoritmo do AIDPI num escolar Atrai porque o algoritmo é confortável e dá conduta pronta. Mas o quadro cobre dos 2 meses aos 5 anos incompletos: não há corte de frequência respiratória para o escolar, e não há caixa em que encaixá-lo. Acima de 5 anos a avaliação volta a ser inteiramente clínica — e é justamente nessa faixa que o Mycoplasma passa a pesar, o que muda a leitura da vinheta.
  7. 7Começar macrolídeo no pré-escolar com pneumonia Atrai porque o macrolídeo cobre 'tudo' na cabeça de quem prescreve e porque a azitromicina tem posologia cômoda. O agente que decide o antibiótico empírico é o pneumococo, e a amoxicilina é a primeira opção em todas as faixas do tratamento ambulatorial. O macrolídeo entra quando há suspeita clínica de pneumonia atípica — e mesmo acima de 5 anos, iniciar com macrolídeo não se mostrou mais eficaz do que iniciar com amoxicilina.
  8. 8Repetir a radiografia depois da alta em criança que melhorou Atrai porque a imagem inicial impressionou e porque parece cuidadoso documentar a resolução. A recomendação é explícita em sentido contrário: não se faz radiografia após pneumonia tratada com boa resposta clínica. O controle em 4 a 6 semanas fica para pneumonias de repetição sempre no mesmo lobo, suspeita de malformação e suspeita de aspiração de corpo estranho, além dos casos de pneumonia redonda, colapso pulmonar e sintomas persistentes.
  9. 9Ler a bradipneia como melhora Atrai porque o número caiu e porque a criança parece mais calma. Numa criança que estava taquipneica e em esforço, a respiração que se torna lenta e irregular é fadiga respiratória, e apneias ou respiração irregular são critério de UTI. A leitura correta depende de olhar o conjunto — esforço, nível de consciência e saturação — e não a frequência isolada.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Tosse arrastada, febre baixa, infiltrado intersticial e dissociação clínico-radiológica em escolar são típicos de pneumonia atípica por Mycoplasma pneumoniae, cujo tratamento de escolha é um macrolídeo (azitromicina). Amoxicilina é a escolha para pneumonia bacteriana típica (pneumococo), que cursa com febre alta e consolidação — não cobre Mycoplasma (bactéria sem parede celular). Ceftriaxona é para casos graves/hospitalizados de pneumonia típica. Amoxicilina-clavulanato amplia cobertura para germes produtores de betalactamase, mas também não age em Mycoplasma. Oseltamivir é antiviral para influenza, não indicado nesse quadro.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três cortes de frequência respiratória com as faixas etárias exatas, e diga em que idade fica o degrau de 50 para 40. Depois liste os seis sinais gerais de perigo do AIDPI, separando os três que se perguntam dos três que se observam. Em seguida reconstrua as três classificações do quadro de tosse ou dificuldade para respirar, com os sinais e a conduta de cada uma — e verifique se você colocou a tiragem subcostal na caixa certa. Por fim, escreva a dose, o intervalo e a duração da amoxicilina no tratamento ambulatorial.

em 30 dias

Refaça os cortes de frequência respiratória e as três classificações sem consultar. Depois reconstrua a tabela de etiologia por faixa etária, das cinco faixas, e diga o que sugere viral, bacteriano típico e atípico. Liste as quatro indicações de radiografia e as três situações de radiografia de controle. Escreva os critérios de internação e os quatro critérios de UTI. Liste as seis indicações de drenagem pleural simples e diga a partir de que volume à ultrassonografia se drena. Finalmente, para cada uma das três divergências do capítulo, escreva as posições, quem sustenta cada uma e a marca no enunciado que revela em qual documento a questão foi montada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 11 meses chega à unidade básica com tosse há cinco dias e febre. A mãe conta que ele acordou hoje 'respirando esquisito' e que mamou pouco no peito desde ontem, mas ainda mama. Conduza a consulta: colha a história, examine a criança com atenção à contagem da respiração e ao tórax, classifique pelo quadro do AIDPI e defina a conduta, incluindo o que orientar à mãe antes de ela sair da unidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Pneumonia adquirida na comunidade na criança – Pneumonia na criança — Preparatório para provas | OsceLabs