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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Esquizofrenia: dois relógios e a régua que libera a clozapina

Esquizofrenia e transtornos psicóticos

Duração da psicose, resistência terapêutica e critérios para clozapina

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 22 anos é levado por familiares por comportamento estranho há 8 meses. Relatam que ele ouve vozes que comentam suas ações, acredita que a televisão envia mensagens direcionadas a ele, isolou-se socialmente e abandonou os estudos. Ao exame, apresenta discurso por vezes desorganizado. Nega uso de drogas e exames toxicológicos são negativos. Qual é o diagnóstico MAIS provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre o eixo diagnóstico e o eixo de acesso ao tratamento da esquizofrenia: como as três classificações em circulação contam sintomas e medem tempo, o que cada uma faz com o mesmo paciente, e qual é a régua medida que libera a clozapina no SUS. É o recorte que as questões de prova sobre o tema efetivamente cobram — vinhetas com duração cronometrada e cenários de refratariedade documentada.

O que este capítulo não cobre, por pertencer a vizinhos: a farmacologia dos antipsicóticos fica com o capítulo que percorre as quatro vias dopaminérgicas e explica a janela de ocupação do receptor D2 entre 60% e 80%, a agranulocitose da clozapina como reação idiossincrática e o ganho de peso que o bloqueio de dopamina não explica. Aqui a clozapina aparece só como degrau de um fluxograma, com o critério que a autoriza e o calendário de hemograma que a acompanha; por que ela funciona onde as outras falham é matéria dele.

A agitação psicomotora, a tranquilização rápida e a síndrome neuroléptica maligna têm capítulo próprio e ficam de fora, ainda que a esquizofrenia seja o pano de fundo de boa parte daquelas vinhetas. A organização da rede — reforma psiquiátrica, centros de atenção psicossocial e rede de atenção psicossocial — também é de outro capítulo; deste, entra apenas o critério de inclusão do protocolo que exige familiar ou responsável participativo, porque ele é condição formal de acesso ao medicamento e não descrição de serviço.

O transtorno esquizoafetivo é citado como diagnóstico de exclusão, não desenvolvido: ele está fora do protocolo de esquizofrenia por decisão explícita do texto e tem protocolo próprio, publicado à parte.

03

O que muda decisão

O relógio é o critério

Nenhum sintoma de esquizofrenia é patognomônico. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde diz isso na primeira linha do capítulo de diagnóstico, e a frase é mais importante do que parece: se nenhum achado isolado fecha o diagnóstico, o que fecha é a combinação de dois eixos — quais sintomas e por quanto tempo. O primeiro eixo o aluno decora sem esforço, porque alucinação auditiva comentadora e delírio persecutório são a imagem popular da doença. O segundo é onde a prova mora, e é onde quase todo mundo erra, porque existem três réguas de tempo em circulação no Brasil e elas não dão a mesma resposta para o mesmo paciente.

As treze questões de prova que hoje carregam este tema no acervo descrevem quadros com três semanas, quatro semanas, três meses, oito meses, nove meses, dez meses e dezoito meses de evolução. Não é variedade decorativa: cada uma dessas durações cai num degrau diferente da régua, e duas delas caem em degraus diferentes dependendo de qual régua se usa. Um rapaz de vinte e quatro anos com quatro semanas de delírio de controle do pensamento e vozes comentadoras recebe um rótulo pela classificação que o SUS adota e outro pela classificação que a maioria dos enunciados de residência usa. Ele é a mesma pessoa, com a mesma história, no mesmo dia.

Este capítulo é sobre esse desencontro. Não porque ele seja uma curiosidade acadêmica, mas porque ele decide coisas concretas: quando o paciente entra no protocolo, quando o serviço pode chamar o quadro de refratário e, no fim da fila, em que dia a clozapina pode ser dispensada. A conta que fecha esse capítulo mostra uma diferença de cinco meses entre os dois caminhos, para o mesmo paciente.

A régua do SUS pede um mês

O protocolo brasileiro é explícito sobre em que se apoia: o diagnóstico de esquizofrenia é clínico e baseado nos critérios da CID-10. Não há menção ao manual da associação americana em nenhum ponto do documento. A classificação é usada inteira, inclusive na lista de códigos que abre o protocolo — F20.0 paranoide, F20.1 hebefrênica, F20.2 catatônica, F20.3 indiferenciada, F20.4 depressão pós-esquizofrênica, F20.5 residual, F20.6 simples e F20.8 outras.

A régua de tempo aparece com todas as letras, e vale a pena ler a frase como ela está escrita, porque o aluno costuma guardar uma versão mais forte do que a original: os sintomas devem estar presentes na maior parte do tempo de um episódio de doença psicótica que dure pelo menos um mês, ou por algum tempo durante a maioria dos dias. A cláusula entre vírgulas afrouxa a exigência de continuidade — não é preciso um mês ininterrupto de psicose plena; basta que o episódio tenha essa duração e que os sintomas tenham ocupado a maior parte dele.

A segunda metade do critério é a que a prova adora e o aluno esquece: a CID-10 não conta sintomas em bloco único, ela os hierarquiza. O critério de sintomas, que o documento chama de G1, se divide em dois grupos. No grupo de maior hierarquia estão eco, inserção, roubo ou irradiação do pensamento; delírios de controle, influência ou passividade claramente ligados ao corpo ou aos movimentos; percepção delirante; vozes que comentam o comportamento do paciente ou discutem entre si; e delírios persistentes culturalmente inapropriados e completamente impossíveis. No grupo de menor hierarquia estão alucinações persistentes de qualquer modalidade acompanhadas de delírios, neologismos e interrupções do curso do pensamento, comportamento catatônico e sintomas negativos.

A aritmética é o que decide: um achado do grupo de maior hierarquia basta; do grupo de menor hierarquia são necessários dois. Um paciente com percepção delirante isolada, e nada mais, preenche o critério de sintomas da CID-10. Um paciente só com embotamento afetivo e isolamento não preenche, porque precisaria de um segundo achado do mesmo grupo. Some-se a isso o critério G2, que é de exclusão: humor, doença cerebral orgânica, intoxicação, dependência e abstinência têm de estar afastados antes de o rótulo ser aplicado.

A régua da prova pede seis meses

A maioria dos enunciados de residência brasileiros não usa a régua do protocolo. Usa o manual diagnóstico da associação americana, que exige que os sinais contínuos do transtorno persistam por pelo menos seis meses, dos quais ao menos um mês precisa ser de sintomas de fase ativa. Os cinco meses restantes podem ser preenchidos por sintomas prodrômicos ou residuais — não é necessário meio ano de psicose franca.

Essa exigência de seis meses cria uma categoria que a classificação internacional de doenças simplesmente não tem: o transtorno esquizofreniforme, reservado ao quadro que já passou de um mês mas ainda não chegou a seis. Abaixo de um mês, com retorno ao funcionamento prévio, o rótulo é transtorno psicótico breve. Acima de seis meses, esquizofrenia. São três gavetas para uma única doença, separadas apenas pelo calendário.

O efeito prático é desconcertante. Um paciente com três meses de delírio persecutório e vozes comentadoras é esquizofrenia pela régua que o SUS adota e transtorno esquizofreniforme pela régua que o enunciado costuma cobrar. Não há erro em nenhum dos dois rótulos; há duas jurisdições. O protocolo do Ministério da Saúde governa quem entra na dispensação de antipsicótico pelo componente especializado. O manual americano governa a redação da maior parte das questões. Saber qual está sendo cobrado é ler o enunciado: quando ele cita o nome do manual, ou quando oferece 'transtorno esquizofreniforme' entre as opções, a régua é a de seis meses, porque a categoria só existe lá.

A CID-11 mudou a contagem, não o relógio

A décima primeira revisão entrou em vigor em 2022 e o aluno costuma assumir que ela se aproximou do manual americano. Aproximou-se em uma coisa e afastou-se em outra, e a assimetria é exatamente o que a questão difícil explora.

No tempo, não houve harmonização. O grupo de trabalho chegou a examinar argumentos para igualar a duração mínima aos seis meses do manual americano, mas, por falta de evidência que favorecesse uma duração sobre a outra, manteve o critério de um mês herdado da CID-10. A justificativa declarada é clínica e não burocrática: a exigência mais curta, somada a um qualificador de primeiro episódio, existe para estimular o início precoce do tratamento. O transtorno esquizofreniforme continua sem existir na classificação internacional.

Na contagem, houve mudança, e ela é silenciosa. A CID-11 abandonou a hierarquia de dois grupos e passou a exigir pelo menos dois sintomas de uma lista de sete domínios, com ao menos um vindo dos quatro domínios nucleares. Aquele paciente com percepção delirante isolada, que preenchia o critério de sintomas na CID-10 com um único achado, deixa de preencher na CID-11. É uma elevação da barreira que não aparece em nenhum resumo, porque todo mundo repete que 'a CID manteve o um mês' e para por aí.

A terceira mudança é a que mais mexe no vocabulário: os subtipos foram omitidos. Paranoide, hebefrênica e catatônica saíram, substituídas por qualificadores de sintoma e de evolução — estado do episódio, estado de remissão e dimensões sintomáticas positiva, negativa, depressiva, maníaca, psicomotora e cognitiva. O detalhe que importa para quem vai prescrever no Brasil é que a saída dos subtipos não os aposentou por aqui: o protocolo nacional em vigor segue listando F20.0 a F20.8 como a nomenclatura de trabalho do SUS. Um nome pode estar simultaneamente revogado na classificação internacional mais recente e vigente no documento que autoriza a dispensação.

Quantos dias até a clozapina

Aqui a diferença entre as réguas deixa de ser semântica. O protocolo define falha terapêutica como o uso de um antipsicótico por pelo menos seis semanas, em doses adequadas, sem melhora de pelo menos trinta por cento na escala de Avaliação Psiquiátrica Breve. E define o acesso à clozapina como refratariedade a pelo menos dois medicamentos usados nessas condições.

Some os dias pelo caminho que o SUS usa. O diagnóstico se completa aos trinta dias, porque é o que a CID-10 exige. O primeiro antipsicótico consome seis semanas, isto é, quarenta e dois dias, e a falha se declara no dia setenta e dois. O segundo consome outros quarenta e dois e a falha se declara no dia cento e quatorze. A clozapina fica autorizada no dia 114, cerca de três meses e três semanas depois do primeiro sintoma.

Agora refaça a conta partindo do rótulo de seis meses. A esquizofrenia só se nomeia aos cento e oitenta dias; antes disso o quadro é esquizofreniforme. Somando os mesmos dois ensaios de quarenta e dois dias, chega-se ao dia duzentos e sessenta e quatro. São 150 dias de diferença — quase cinco meses — para o mesmo paciente, com a mesma resposta às mesmas drogas. A diferença inteira vem do momento em que cada régua concorda em chamar o quadro pelo nome.

Vale conferir esse piso contra o que os enunciados costumam descrever. Um cenário recorrente traz risperidona 6 mg por dia durante oito semanas seguida de olanzapina 20 mg por dia durante dez semanas. São cinquenta e seis mais setenta, ou cento e vinte e seis dias de ensaio; somados aos trinta do diagnóstico, dia cento e cinquenta e seis. O enunciado descreve quarenta e dois dias além do mínimo exigido. Isso não invalida o caso — ensaio mais longo é bom tratamento —, mas quem guardou 'oito e dez semanas' como se fosse a regra vai recusar refratariedade num paciente que fez seis e seis e já cumpriu o protocolo.

A cláusula que atropela o relógio

Toda a aritmética acima tem uma porta de saída, e ela está escrita no mesmo parágrafo do protocolo que define a refratariedade. A clozapina também pode ser usada em caso de risco alto de suicídio e de discinesia tardia de repercussão significativa, mesmo antes de se completarem as seis semanas ou de se observar a melhora de trinta por cento na escala. A seção de casos especiais é ainda mais firme e troca o verbo: pacientes com risco de suicídio atual e aqueles que desenvolverem discinesia tardia com repercussão significativa deverão ser tratados com clozapina.

O efeito no calendário é brutal. Presente qualquer uma das duas condições, o gatilho da clozapina deixa de ser a falha de dois ensaios e passa a ser o próprio diagnóstico: dia trinta. São oitenta e quatro dias poupados em relação ao piso de cento e quatorze, e duzentos e trinta e quatro em relação ao caminho de duzentos e sessenta e quatro. Uma cláusula de duas linhas encurta em quase oito meses o acesso ao medicamento mais eficaz da classe.

Três trilhas sobre um eixo de dias. Na régua de um mês: diagnóstico no dia 30, falha no 72 e clozapina no 114. Na régua de seis meses: diagnóstico no dia 180 e clozapina no 264. Na trilha do risco de suicídio ou discinesia tardia, clozapina no dia 30. Colchetes marcam 150, 84 e 234 dias.
O mesmo paciente chega à clozapina no dia 114 pela régua de um mês e no dia 264 pela de seis meses; com risco de suicídio ou discinesia tardia, a fila desaparece e o acesso cai para o dia 30.

O aluno erra esta por excesso de rigor. Ele decorou 'clozapina é para refratário', vê no enunciado um paciente em primeiro tratamento com ideação suicida estruturada, e recusa a clozapina porque 'ainda não falhou dois'. A regra do protocolo é o contrário: nessas duas situações a fila não se aplica.

Refratariedade é medida, não impressão

A palavra que o protocolo usa para o desfecho não é 'sem melhora clínica' e sim um número: melhora de pelo menos trinta por cento na escala de Avaliação Psiquiátrica Breve, aplicada antes e depois. O documento vai além e transforma a escala em rotina de seguimento, pedindo escores trimestrais. Falha terapêutica, no vocabulário do protocolo, é um delta medido — não é o que o médico achou da consulta.

Há uma armadilha de nomenclatura embutida nessa régua e ela atravessou uma década de documentos oficiais. O protocolo expande a sigla como British Psychiatric Rating Scale. A tradução portuguesa que ele mesmo oferece na frase anterior — Avaliação Psiquiátrica Breve — denuncia o deslize: o instrumento é a Brief Psychiatric Rating Scale, publicada por Overall e Gorham em 1962, com dezoito itens pontuados de um a sete. O protocolo de transtorno esquizoafetivo repete a expansão trocada duas vezes, e um protocolo estadual de 2023 a copiou de novo. A revisão das diretrizes da federação mundial publicada em português em 2006 escreve o nome certo. A régua não muda por causa disso: seguem valendo as seis semanas e os trinta por cento. O que muda é o que o candidato deve reconhecer quando vir a sigla expandida de um jeito estranho num enunciado.

A intolerância entra como caminho paralelo à falha. Eventos adversos persistentes que impossibilitem a continuidade do medicamento — sintomas extrapiramidais, citopenia, alterações hormonais — contam como motivo de troca sem que seja preciso completar as seis semanas. E a hiperprolactinemia sintomática tem estatuto próprio: relato de galactorreia, irregularidade menstrual ou alteração da libido já indica trocar o antipsicótico, sem esperar o fim do ensaio.

Depois que a clozapina entra, o relógio do próprio medicamento é outro. Para os demais antipsicóticos o critério de interrupção por ineficácia se aplica após seis semanas; para a clozapina, após seis meses de uso de 300 a 800 mg por dia. Quem transporta a régua de seis semanas para a clozapina desiste dela quatro meses e meio cedo demais.

O exame que o nó exige e a lista não pede

O critério G2 da CID-10, reproduzido no protocolo, manda excluir transtornos atribuíveis a doença cerebral orgânica antes de aplicar o rótulo. É um nó obrigatório do fluxograma. A pergunta que quase ninguém faz é: com qual exame?

A lista de avaliação obrigatória do protocolo, aquela que precede o início de qualquer medicamento, é inteiramente metabólica e cardiovascular: idade, peso, altura, circunferência abdominal e do quadril, três medidas de pressão arterial em datas diferentes, colesterol total e frações, triglicerídios e glicemia de jejum. O seguimento repete antropometria e pressão aos três, seis e doze meses, e o perfil lipídico com a glicemia aos três e aos doze. Não há neuroimagem, não há eletroencefalograma e não há teste de gravidez nessa lista. Ela foi desenhada para vigiar o efeito adverso do antipsicótico, não para cumprir o critério de exclusão que o próprio documento impõe algumas páginas antes.

Quem preenche a lacuna é a diretriz internacional. A revisão da federação mundial das sociedades de psiquiatria biológica, publicada em português em 2006, determina que ressonância magnética ou tomografia computadorizada e eletroencefalograma sejam realizados em pacientes com um primeiro episódio esquizofrênico, ou diante de quadro clínico atípico, ou quando exames de rotina mostrarem achados anormais. O mesmo texto pede a fração beta da gonadotrofina coriônica em mulheres em idade fértil.

Repare no que isso significa para o enunciado. Quando a questão diz 'tomografia de crânio sem alterações' ou 'exame neurológico normal e triagem toxicológica negativa', ela não está enfeitando o caso: está cumprindo, dentro do texto, o critério de exclusão que a lista de exames do protocolo não pede. A ausência dessa frase no enunciado é informação — significa que a exclusão não foi feita, e a conduta correta passa a ser investigar antes de nomear.

Os números do prognóstico e as bases que eles não compartilham

O protocolo abre com uma frase de prognóstico que circula em todo resumo: cerca de trinta por cento dos casos com recuperação completa ou quase completa, cerca de trinta por cento com remissão incompleta e prejuízo parcial, e cerca de trinta por cento com deterioração importante e persistente. Some: noventa. Faltam dez pontos percentuais para fechar a população. A redação se protege com 'aproximadamente' e 'cerca de' em cada uma das três fatias, o que torna a soma defensável como arredondamento — mas quem trata os três trinta como uma partição exata vai construir uma conta que não fecha.

O segundo número é mais traiçoeiro porque parece contradizer o primeiro. O protocolo estadual que reproduz essa mesma frase acrescenta antes dela que cerca de oitenta por cento dos pacientes se recuperam de um primeiro surto sem maiores sequelas. Oitenta e trinta, no mesmo parágrafo, sobre a mesma doença. Não há contradição: as bases são diferentes. Os oitenta por cento medem remissão de um episódio agudo; os trinta por cento medem o desfecho funcional ao longo de toda a evolução. Sair de um surto e ficar bem para sempre são desfechos distintos, e a distância entre eles é o que a doença faz da vida da pessoa.

A revisão da federação mundial dá o elo que falta e fecha a reconciliação com um terceiro oitenta. Aproximadamente metade dos pacientes tratados em serviços convencionais recidiva e precisa de readmissão nos primeiros dois anos, chegando a até oitenta por cento de recidivas em cinco anos; de dez a vinte e cinco por cento não terão internações posteriores. Os dois oitenta por cento apontam para lados opostos — oitenta saem do surto, até oitenta voltam a ter surto em cinco anos — e são perfeitamente compatíveis, porque um mede saída do episódio e o outro mede reentrada ao longo do tempo. Quem lê 'oitenta por cento se recuperam' e conclui 'bom prognóstico de longo prazo em oitenta por cento' juntou duas frases que nunca falaram da mesma coisa.

A prevalência tem seu próprio detalhe de redação. O protocolo afirma que os transtornos esquizofrênicos afetam aproximadamente 0,6% da população, com variação de 0,6% a 3% conforme os critérios diagnósticos empregados. A estimativa pontual coincide com o piso do próprio intervalo declarado, o que é legítimo se 0,6% for a melhor estimativa e 3% o teto sob critérios amplos, mas soa estranho lido como média. Convertido para gente, sobre os 203.080.756 residentes apurados pelo Censo de 2022, o piso corresponde a cerca de 1,2 milhão de pessoas e o teto a cerca de 6,1 milhões — uma amplitude de quase 4,9 milhões de brasileiros, decidida apenas por qual critério diagnóstico se adota. É a mesma escolha de régua deste capítulo, agora medida em população.

A não adesão tem conduta própria, e ela não é insistir

Há um terceiro caminho de troca no protocolo, ao lado da falha medida e da intolerância, e ele não depende de escala nenhuma: a má adesão. A instrução é direta — diante de má adesão ao tratamento, substituir o medicamento em uso por decanoato de haloperidol. Na impossibilidade de adesão adequada ao uso oral de qualquer dos medicamentos previstos, indica-se um medicamento de depósito. Não se reforça a orientação e se espera outro ciclo: troca-se a via.

Os números que justificam essa pressa estão no protocolo estadual que reproduz o nacional. Estima-se abandono de até vinte e cinco por cento nos primeiros dez dias após a saída de uma internação psiquiátrica — e o texto acrescenta que esse abandono duplica o risco de nova hospitalização — chegando a mais de cinquenta por cento depois de um ano. Convertido para gente sobre a estimativa de prevalência do próprio protocolo, mais de meio milhão de brasileiros com o diagnóstico estariam fora de tratamento ao fim do primeiro ano.

Repare no que a sequência de dez dias faz com a leitura do enunciado. Um paciente que reinternou duas semanas depois da alta não é necessariamente refratário: ele está na janela de maior abandono descrita pelo documento, e a pergunta a fazer antes de escalonar a droga é se ele chegou a tomá-la. Refratariedade exige uso documentado em dose adequada; sem adesão, não há ensaio, e sem ensaio não há falha terapêutica a declarar. É por isso que a definição do protocolo fala em uso do fármaco, e é por isso que o protocolo estadual pede o histórico de uso e os valores da escala antes e depois, descritos em relatório médico.

Uma consequência de prova: entre um paciente com dois ensaios irregulares e um paciente com dois ensaios completos e medidos, apenas o segundo abre a porta da clozapina. O primeiro tem indicação de antipsicótico de depósito, que é a resposta que o protocolo escreve para o problema que ele tem.

O critério de inclusão que não é clínico

O protocolo tem uma exigência que não aparece em nenhum resumo e que surpreende quem espera só critérios de doença. Para ser incluído, o paciente precisa de duas coisas: diagnóstico de esquizofrenia e a presença de um familiar ou responsável legal interessado, participativo, disponível, com funcionamento global adequado e com adesão ao serviço de atendimento psiquiátrico. Para o paciente cronicamente asilado, exige-se um funcionário da instituição disponível e capaz de manejar estressores do ambiente de forma continuada.

É um critério social operando como critério de acesso a medicamento. A seção de regulação reforça: o gestor deve observar as condições de boa adesão e acompanhamento contínuo apresentadas pelo paciente e seu familiar. Some-se a lista de exclusão — hipersensibilidade aos fármacos, psicose alcoólica ou tóxica, dependência ou abuso atual de psicoativos, impossibilidade de adesão e acompanhamento contínuo, e quem tiver apenas mania, apenas depressão, transtorno esquizoafetivo ou transtorno bipolar — e o desenho fica claro: o protocolo foi escrito para tratamento ambulatorial sustentado, não para o episódio isolado.

Duas consequências para a prova. A primeira é que transtorno esquizoafetivo está explicitamente fora deste protocolo e tem protocolo próprio; confundi-los custa a questão. A segunda é que 'paciente sem rede de apoio' não é apenas um dado de contexto social no enunciado — no desenho do protocolo, é um obstáculo formal de inclusão, e o que a questão tende a cobrar é a construção dessa rede junto com o início do tratamento, não em vez dele.

04

Do primeiro sintoma ao rótulo, e do rótulo à clozapina

O fluxo abaixo é o do protocolo nacional, que roda sobre a CID-10. Onde o enunciado cobrar a régua de seis meses, só muda o instante em que o nome 'esquizofrenia' é aplicado; os degraus de tratamento seguem idênticos, apenas deslocados no calendário.

  1. 1Confirmar sintoma psicótico e afastar humor, doença cerebral orgânica, intoxicação, dependência e abstinência (critério G2)
  2. 2Contar os sintomas na hierarquia: um do grupo de maior hierarquia basta; do grupo de menor hierarquia são precisos dois
  3. 3Aplicar o relógio: pelo menos um mês de episódio pela CID-10 e CID-11; pelo menos seis meses, com um mês de fase ativa, pelo manual americano
  4. 4Checar o critério não clínico de inclusão: familiar ou responsável legal participativo e aderente ao serviço
  5. 5Avaliação obrigatória antes da primeira dose: antropometria, três medidas de pressão, perfil lipídico e glicemia de jejum
  6. 6Antipsicótico em monoterapia, sem ordem de preferência entre eles, exceto a clozapina, que fica reservada
  7. 7Reavaliar em seis semanas com a escala: melhora abaixo de trinta por cento em dose adequada é falha terapêutica
  8. 8Segundo antipsicótico em monoterapia por mais seis semanas, mesma aferição
  9. 9Duas falhas medidas: clozapina liberada (dia 114 contando do primeiro sintoma)
  10. 10Atalho: risco alto de suicídio atual ou discinesia tardia com repercussão significativa levam à clozapina sem cumprir a fila

Degrau 1 — seis semanas medidas

Antipsicótico em monoterapia, dose adequada, reavaliação com escala aos 42 dias

Degrau 2 — mais seis semanas

Segundo antipsicótico, também em monoterapia, mesma aferição de trinta por cento

Degrau 3 — clozapina

Liberada após duas falhas medidas, ou de imediato diante de risco de suicídio ou discinesia tardia

As três réguas sobre o mesmo paciente

RéguaDuração mínimaContagem de sintomasSubtiposEsquizofreniforme
CID-10 (a que o protocolo do Ministério da Saúde usa)1 mês de episódio1 de maior hierarquia ou 2 de menorF20.0 a F20.8, em usoNão existe
CID-11 (6A20), em vigor desde 20221 mês (harmonização recusada por falta de evidência)Ao menos 2 de 7 domínios, 1 deles nuclearOmitidos; qualificadores de curso e dimensõesNão existe
Manual diagnóstico americano, 5ª edição6 meses, com ao menos 1 mês de fase ativaAo menos 2 de 5, 1 entre delírio, alucinação e discurso desorganizadoAbolidosExiste: de 1 a 6 meses

O mesmo quadro, sete durações, dois rótulos

Tempo de evoluçãoPela CID-10 e CID-11Pelo manual americanoOnde diverge
3 semanas (21 dias)Transtorno psicótico agudo e transitórioTranstorno psicótico breveConcordam
4 semanas (28 dias)Ainda não: faltam 2 dias para o mêsAinda não: faltam 152 dias para os 6 mesesConcordam no 'ainda não', divergem em 76 vezes na espera
3 mesesEsquizofreniaTranstorno esquizofreniformeDivergem no nome
8, 9 e 10 mesesEsquizofreniaEsquizofreniaConcordam
18 meses com dois ensaios falhosEsquizofrenia refratáriaEsquizofrenia refratáriaConcordam

Quantos dias até a clozapina

CaminhoDiagnósticoDois ensaiosTotalDiferença
Régua de 1 mês (protocolo brasileiro)dia 3042 + 42 diasdia 114piso
Régua de 6 meses aplicada ao rótulodia 18042 + 42 diasdia 264+150 dias
Cenário de enunciado (8 e 10 semanas)dia 3056 + 70 diasdia 156+42 dias sobre o piso
Atalho por risco de suicídio ou discinesia tardiadia 30dispensadosdia 30−84 dias sobre o piso

O protocolo expande a sigla da escala como 'British Psychiatric Rating Scale'. O instrumento é a Brief Psychiatric Rating Scale, de Overall e Gorham, 1962 — e a própria tradução oferecida na mesma frase, 'Avaliação Psiquiátrica Breve', confirma qual era a palavra pretendida. A expansão trocada reaparece duas vezes no protocolo de transtorno esquizoafetivo e foi copiada por um protocolo estadual de 2023. A régua que ela governa — trinta por cento em seis semanas — não é afetada.

O critério de interrupção por ineficácia usa unidades diferentes conforme o medicamento: seis semanas para risperidona, olanzapina, quetiapina e ziprasidona; seis meses para a clozapina, na faixa de 300 a 800 mg por dia. A troca de unidade é fonte comum de erro.

As três fatias de prognóstico do protocolo somam noventa por cento, não cem. Cada uma vem precedida de 'aproximadamente' ou 'cerca de', o que torna a redação defensável como arredondamento; a soma, porém, não constitui partição exata da população.

O monitoramento hematológico da clozapina segue calendário próprio: hemograma completo semanal e a cada aumento de dose nas primeiras dezoito semanas, depois mensal por todo o tratamento. Suspende-se com leucócitos abaixo de 3.000 por milímetro cúbico, neutrófilos abaixo de 1.500 ou plaquetas abaixo de 100.000.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Duração mínima para nomear esquizofrenia

Um mês de episódio basta

Os sintomas devem estar presentes na maior parte do tempo de um episódio de doença psicótica que dure pelo menos um mês, ou por algum tempo durante a maioria dos dias. A CID-11 manteve o critério após examinar e recusar a harmonização, por falta de evidência que favorecesse uma duração sobre a outra.

Brasil, Ministério da Saúde, Portaria SAS/MS nº 364, de 9 de abril de 2013 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Esquizofrenia, seção 4 (Diagnóstico); e Nervenarzt, v. 96, supl. 1, 2025, p. 11-16.

Seis meses de sinais contínuos

Exige-se que os sinais contínuos do transtorno persistam por pelo menos seis meses, dos quais ao menos um mês de sintomas de fase ativa; os cinco meses restantes podem ser prodrômicos ou residuais. O intervalo de um a seis meses recebe o rótulo próprio de transtorno esquizofreniforme, categoria que a classificação internacional não possui.

World Psychiatry, v. 20, n. 1, 2021, p. 34-51, comparação item a item entre a CID-11 e a 5ª edição do manual diagnóstico americano.

Na prova

O enunciado entrega a régua sem dizer que a entregou. Se 'transtorno esquizofreniforme' aparece entre as opções, a régua é a de seis meses, porque a categoria só existe nela — e então a duração descrita precisa ser lida contra o corte dos seis meses. Se as opções giram em torno de conduta no SUS, dispensação, componente especializado ou código F20, a régua é a de um mês. Quando o enunciado informa a duração com precisão incomum (quatro semanas, três meses), a duração é o que está sendo testado, não o sintoma.

Quantos sintomas bastam para preencher o critério

Um, se for de maior hierarquia

Exige-se pelo menos uma das síndromes, sintomas ou sinais do grupo de maior hierarquia, ou pelo menos dois do grupo de menor hierarquia. Percepção delirante isolada, portanto, preenche o critério de sintomas.

Brasil, Ministério da Saúde, Portaria SAS/MS nº 364/2013, critério G1 da CID-10 reproduzido na seção de diagnóstico.

Dois, sempre, com um deles nuclear

A CID-11 abandonou a hierarquia e passou a exigir ao menos dois sintomas de uma lista de sete domínios, sendo ao menos um deles de um dos quatro domínios nucleares. A barreira subiu sem que a duração mudasse.

Nervenarzt, v. 96, supl. 1, 2025, p. 11-16, 'Schizophrenia and catatonia: from ICD-10 to ICD-11'.

Na prova

Esta divergência é recente e ainda pouco explorada, o que a torna candidata a questão discriminativa. O sinal de que ela está em jogo é o enunciado descrever um único achado de primeira linha — percepção delirante, irradiação do pensamento, vozes que discutem entre si — e nada mais, perguntando se o critério está preenchido. Quem responde precisa saber por qual classificação a pergunta foi feita antes de contar.

Nomenclatura dos subtipos no Brasil

Subtipos vigentes na prática do SUS

O protocolo nacional em vigor lista F20.0 paranoide, F20.1 hebefrênica, F20.2 catatônica, F20.3 indiferenciada, F20.4 depressão pós-esquizofrênica, F20.5 residual, F20.6 simples e F20.8 outras como a nomenclatura de trabalho, e um protocolo estadual de 2023 reproduz a mesma lista.

Brasil, Ministério da Saúde, Portaria SAS/MS nº 364/2013, seção 3; e Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, protocolo complementar de esquizofrenia, novembro de 2023.

Subtipos omitidos na classificação vigente

Os subtipos foram omitidos e substituídos por qualificadores de sintoma e de evolução: estado do episódio, estado de remissão e dimensões positiva, negativa, depressiva, maníaca, psicomotora e cognitiva.

Nervenarzt, v. 96, supl. 1, 2025, p. 11-16, sobre a CID-11 (6A20), em vigor desde 2022.

Na prova

O recorte se revela pela pergunta. Questão de classificação e codificação tende a cobrar o subtipo porque o SUS ainda codifica por ele; questão de atualização diagnóstica tende a cobrar que ele saiu. Um nome revogado numa classificação e vigente num protocolo nacional não é contradição — é jurisdição, e o candidato precisa identificar qual documento o avaliador tem na mão.

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Caso resolvido

Homem de 24 anos é levado pela família à unidade de pronto atendimento. Há cerca de quatro semanas afirma que os vizinhos controlam seus pensamentos e relata ouvir vozes que comentam suas ações. Está afebril, orientado, com exame neurológico sem alterações. Nega uso de substâncias. Não há relato de episódio de humor deprimido ou elevado em nenhum momento do quadro.
achado
Delírio de controle do pensamento e vozes comentadoras são dois achados do grupo de maior hierarquia da CID-10 — qualquer um deles, isolado, já preencheria o critério de sintomas.
exclusão
Afebril, orientado, exame neurológico normal e sem substâncias: o critério G2 está sendo cumprido dentro do próprio enunciado. A ausência de episódio de humor afasta o transtorno esquizoafetivo e o bipolar com sintomas psicóticos.
duração
Quatro semanas são 28 dias. Pela CID-10 e pela CID-11 faltam dois dias para o mês exigido. Pelo manual americano faltam 152 dias para os seis meses — uma espera 76 vezes maior a partir do mesmo dia.
o rótulo agora
Nas duas réguas o nome 'esquizofrenia' ainda não se aplica. Pelo manual americano o quadro é transtorno psicótico breve enquanto não completa um mês, depois esquizofreniforme até seis meses. Pela classificação internacional é transtorno psicótico agudo e transitório até virar o mês.
o que não muda
O tratamento não espera o rótulo. O antipsicótico em monoterapia está indicado agora, e a avaliação obrigatória do protocolo — antropometria, três medidas de pressão, perfil lipídico e glicemia de jejum — precede a primeira dose.
o exame que falta
Sendo primeiro episódio, a diretriz internacional pede ressonância ou tomografia e eletroencefalograma, que a lista de avaliação do protocolo brasileiro não contempla. O enunciado dá exame neurológico normal, não neuroimagem.
seguimento
Reavaliar com a escala em seis semanas. Melhora abaixo de trinta por cento em dose adequada declara a primeira falha e abre o segundo degrau.
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Agora feche você

Mulher de 28 anos, em acompanhamento há seis anos por esquizofrenia, mantém alucinações auditivas imperativas e delírios persecutórios. Recebeu risperidona 6 mg por dia durante oito semanas e, em seguida, olanzapina 20 mg por dia durante dez semanas, ambas em dose adequada e com adesão documentada. Os escores da escala aplicados antes e depois de cada tratamento mostram redução de 12% e de 9%. O hemograma é normal.
achado
Dois antipsicóticos distintos, cada um por tempo superior ao mínimo de seis semanas, em dose adequada, com adesão documentada e aferição por escala antes e depois.
o que isso caracteriza
Reduções de 12% e 9% ficam abaixo do corte de trinta por cento que o protocolo usa para definir falha terapêutica. Duas falhas medidas configuram a refratariedade que autoriza a clozapina — e o hemograma normal remove o obstáculo hematológico à introdução.
conduta
Iniciar clozapina, com 12,5 mg à noite e aumentos de 25 mg a cada um ou dois dias até 300 a 400 mg por dia, sob hemograma semanal e a cada aumento de dose nas primeiras dezoito semanas. A avaliação de ineficácia da clozapina só se faz após seis meses, não após seis semanas.
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Onde a banca derruba

  1. 1Aplicar os seis meses a um paciente do SUS O protocolo brasileiro não usa a régua de seis meses em nenhum ponto: ele se declara baseado na CID-10 e pede um mês de episódio. Quem exige seis meses antes de iniciar o antipsicótico atrasa o tratamento em cinco meses sem amparo no documento que rege a dispensação.
  2. 2Procurar transtorno esquizofreniforme na CID A categoria existe apenas no manual americano, para o intervalo de um a seis meses. Se ela aparece entre as opções, o enunciado está rodando naquela régua; se a pergunta é sobre codificação no SUS, a categoria não é uma resposta possível.
  3. 3Contar dois sintomas quando um bastava Na CID-10 um único achado do grupo de maior hierarquia preenche o critério de sintomas. Exigir dois é importar a regra da CID-11 ou do manual americano para um caso que está sendo julgado pela régua antiga.
  4. 4Guardar oito e dez semanas como o mínimo de ensaio O piso do protocolo é de seis semanas por antipsicótico, em dose adequada. Enunciados que descrevem oito e dez semanas estão acima do mínimo, não definindo-o. Recusar refratariedade em quem fez seis e seis é aplicar uma régua que o documento não escreveu.
  5. 5Segurar a clozapina de quem tem risco de suicídio Risco de suicídio atual e discinesia tardia com repercussão significativa dispensam a fila das duas falhas: o protocolo usa o verbo no imperativo e diz que esses pacientes deverão ser tratados com clozapina, mesmo antes das seis semanas ou da aferição de trinta por cento.
  6. 6Trocar a unidade do critério de interrupção da clozapina Para os demais antipsicóticos a ineficácia se declara após seis semanas; para a clozapina, após seis meses de 300 a 800 mg por dia. Transportar as seis semanas encerra o único tratamento superior da classe quatro meses e meio antes da hora.
  7. 7Chamar de falha terapêutica a impressão da consulta Falha terapêutica, no protocolo, é um delta medido: melhora abaixo de trinta por cento na escala, aplicada antes e depois, com o medicamento em dose adequada por pelo menos seis semanas. Sem a aferição, o pedido de clozapina não cumpre o critério documental que o gestor confere.
  8. 8Ler oitenta por cento como bom prognóstico de longo prazo Os oitenta por cento descrevem recuperação do primeiro surto. O desfecho de longo prazo está nos trinta por cento de recuperação completa, e a mesma literatura registra até oitenta por cento de recidivas em cinco anos. Os dois oitenta apontam para lados opostos porque medem coisas diferentes.
  9. 9Confundir transtorno esquizoafetivo com esquizofrenia O transtorno esquizoafetivo está entre os critérios de exclusão explícitos do protocolo de esquizofrenia e possui protocolo próprio. Também estão excluídos quem apresenta apenas mania, apenas depressão ou transtorno bipolar.
  10. 10Tratar a rede de apoio como detalhe social do enunciado A presença de familiar ou responsável legal interessado, participativo e aderente ao serviço é critério formal de inclusão no protocolo, ao lado do diagnóstico. No paciente cronicamente asilado, o papel cabe a um funcionário da instituição.
  11. 11Chamar de refratário quem não chegou a tomar o remédio Refratariedade exige uso documentado em dose adequada por pelo menos seis semanas. Diante de má adesão, o protocolo manda substituir por decanoato de haloperidol, não escalonar para clozapina — e registra abandono de até vinte e cinco por cento nos dez primeiros dias após uma alta psiquiátrica.
  12. 12Esperar que a lista de exames cubra a exclusão orgânica A avaliação obrigatória do protocolo é metabólica e cardiovascular e não inclui neuroimagem nem eletroencefalograma. Quem exclui doença cerebral orgânica é a diretriz internacional, que pede ressonância ou tomografia e eletroencefalograma no primeiro episódio.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: alucinações auditivas, delírios de referência, discurso desorganizado e sintomas negativos (isolamento, perda funcional) por mais de 6 meses definem esquizofrenia. Transtorno psicótico breve dura menos de 1 mês. Transtorno esquizofreniforme dura de 1 a 6 meses. Transtorno delirante tem delírios não bizarros sem alucinações proeminentes nem desorganização, com funcionamento relativamente preservado. Esquizoafetivo exige episódio de humor (depressivo/maníaco) proeminente concomitante, não descrito aqui.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Duas réguas, dois relógios: um mês pela classificação internacional que o SUS usa, seis meses pelo manual americano que a prova costuma cobrar. Entre um e seis meses existe o transtorno esquizofreniforme, que só existe lá. Refratariedade é dois antipsicóticos, seis semanas cada, melhora abaixo de trinta por cento na escala.

em 30 dias

Refaça a linha do tempo inteira sem consultar: dia 30 do diagnóstico, dia 72 da primeira falha, dia 114 da clozapina liberada; dia 264 se o rótulo esperar os seis meses; dia 30 se houver risco de suicídio ou discinesia tardia. Depois reconstrua a contagem de sintomas nas três réguas e diga por que a CID-11 subiu a barreira sem mexer no relógio.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 21 anos é trazido pelos pais ao ambulatório de saúde mental. Há cerca de nove meses vem se isolando, abandonou o curso e descuidou da higiene pessoal; nos últimos meses passou a ouvir vozes que comentam seus atos e a acreditar que colegas conspiram para prejudicá-lo. Colha a história, separe o que é sintoma de maior e de menor hierarquia, verifique o que falta para cumprir o critério de exclusão e explique aos pais por que o tratamento começa antes de o rótulo estar fechado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Esquizofrenia e transtornos psicóticos – Esquizofrenia: dois relógios e a régua que libera a clozapina — Preparatório para provas | OsceLabs