184 min de leitura

Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtorno depressivo maior

Critérios diagnósticos, dose terapêutica e duração do tratamento

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos procura a UBS relatando tristeza persistente, anedonia, insônia e cansaço há 6 semanas, com prejuízo no trabalho. Nega ideação suicida, sintomas psicóticos ou episódios prévios de euforia. Exame físico e TSH normais. Segundo o manejo da depressão na APS, qual é a conduta inicial mais adequada para um episódio depressivo moderado?

02

Como esse tema cai

Depressão é a doença psiquiátrica mais cobrada em residência porque ela cabe na atenção primária inteira: o diagnóstico é clínico, o remédio está na farmácia da UBS e o seguimento é do médico de família. A questão quase nunca pergunta "o que este paciente tem" — isso o enunciado entrega. Ela pergunta o número: quantos sintomas por quanto tempo, qual dose, quantas semanas até dizer que falhou, quantos meses até suspender.

O transtorno depressivo não tem PCDT — ao contrário do transtorno afetivo bipolar tipo I e da esquizofrenia, que têm. O documento nacional que organiza a conduta é a Linha de Cuidado da Depressão no Adulto, do Ministério da Saúde, atualizada em 2022, e é dele que saem as doses e os prazos usados nos protocolos municipais. Ao lado dele, o Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013) dá a tabela de psicofármacos que a UBS de fato tem, e as diretrizes da AMB com a Associação Brasileira de Psiquiatria dão a régua de especialidade. Os três não dizem exatamente o mesmo número em dois pontos — manutenção e tempo de ensaio terapêutico — e é justamente aí que a prova mora.

O outro eixo cobrado é epidemiológico e de política de saúde: 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais relataram diagnóstico de depressão feito por profissional de saúde mental na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, contra 7,6% em 2013, com 14,7% entre as mulheres e 5,1% entre os homens. Esse crescimento é o pano de fundo da pergunta que separa a régua brasileira da americana: rastrear todo adulto ou detectar quem procura.

03

O que muda decisão

Duas semanas e uma contagem de sintomas

O diagnóstico é clínico e opera por contagem, não por escala. No DSM-5-TR, são necessários cinco ou mais de nove sintomas presentes na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas, e ao menos um deles tem de ser humor deprimido ou perda de interesse e prazer. Os nove são: humor deprimido, anedonia, alteração de peso ou apetite, alteração do sono, agitação ou lentificação psicomotora observável, fadiga, sentimento de inutilidade ou culpa excessiva, prejuízo de concentração e pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida. Exige-se ainda prejuízo funcional e que o quadro não seja atribuível a substância ou a outra condição médica.

O SUS registra e classifica pela CID-10 — F32 para o episódio depressivo e F33 para o transtorno depressivo recorrente. A CID-10 separa três sintomas fundamentais (humor deprimido, perda de interesse e prazer, redução de energia com fadiga) de sete acessórios (concentração reduzida, autoestima e autoconfiança reduzidas, ideias de culpa e inutilidade, visão pessimista do futuro, ideias ou atos autolesivos, sono perturbado, apetite diminuído). A gravidade sai da conta: leve exige dois fundamentais e dois acessórios; moderado, dois fundamentais e três a quatro acessórios; grave, os três fundamentais e pelo menos quatro acessórios. Grave ainda se subdivide em com e sem sintomas psicóticos.

Esse detalhe muda resposta de prova. Um enunciado que descreve "humor deprimido, anedonia, insônia, culpa e dificuldade de concentração há três semanas" fecha episódio depressivo moderado pela CID-10, não leve — dois fundamentais mais três acessórios. E como a gravidade é que define se o primeiro passo é medicamento ou intervenção psicossocial, errar a contagem erra a conduta inteira.

Antes de chamar de depressão

O Caderno de Atenção Básica nº 34 é explícito ao lembrar que sintomas depressivos aparecem em vários quadros clínicos e que isso exige boa anamnese para diagnóstico diferencial — cita anemia, hipotireoidismo e desnutrição. Some-se a isso o uso de álcool, corticoide e outras substâncias, o hipotireoidismo subclínico do idoso e o delirium hipoativo, que no idoso internado é confundido com apatia depressiva com frequência desconfortável.

O diferencial que mais muda a receita, porém, é o transtorno bipolar. Episódio depressivo é a apresentação mais comum do bipolar, e antidepressivo em monoterapia pode precipitar virada maníaca ou acelerar a ciclagem. Perguntar sobre período prévio de humor elevado, redução da necessidade de sono sem cansaço no dia seguinte, gastos e projetos incomuns não é refinamento de especialista: é pré-requisito para prescrever ISRS na UBS. História familiar de bipolaridade, início antes dos 25 anos, episódios recorrentes e curtos, e depressão com sintomas psicóticos aumentam essa suspeita.

O terceiro grupo é o que o Caderno nº 34 chama de sofrimento mental comum: cerca de uma em cada quatro pessoas que procuram a atenção básica tem algum transtorno mental pela CID-10, e a proporção chega a uma em cada duas se forem incluídos os quadros abaixo do limiar diagnóstico. Tristeza contextual, reação a perda e sobrecarga social não são transtorno depressivo maior, e medicá-las é o erro que o próprio Ministério da Saúde nomeia no documento — a prescrição vira a resposta rápida para a angústia do profissional, não para a do paciente.

Rastrear todo mundo ou detectar quem chega

O instrumento que a Linha de Cuidado coloca na porta da UBS é o PHQ-2: duas perguntas, sobre humor deprimido e sobre anedonia nas duas últimas semanas, cada uma pontuada de 0 a 3. Resultado acima de 2 pontos encaminha para avaliação médica. Ele é gatilho de consulta, não diagnóstico.

O PHQ-9 é o questionário de nove itens que espelha os critérios do DSM e pontua de 0 a 27. Na validação brasileira de base populacional feita em Pelotas, com 447 participantes e o mini aplicado por psiquiatras e psicólogos como padrão-ouro, o ponto de corte acima de 9 foi o de melhor equilíbrio: sensibilidade de 77,5% e especificidade de 86,7%. Usado no modo algoritmo — exigindo a combinação de sintomas do DSM em vez do escore somado — a sensibilidade cai para 42,5% e a especificidade sobe para 95,3%. É o par clássico da bioestatística: o mesmo instrumento vira rastreio ou confirmação conforme o modo de leitura.

O PHQ-9 também serve de régua de acompanhamento, e é para isso que ele rende mais na prática: aplicado no início e a cada reavaliação, ele mostra em número se o paciente está respondendo. Resposta costuma ser definida como queda de pelo menos 50% no escore, e remissão como escore abaixo de 5. E há o item 9, sobre pensamentos de morte ou de autolesão: qualquer pontuação nele obriga a avaliação de risco de suicídio na mesma consulta, independentemente do escore total.

Qual antidepressivo, em que dose

A Linha de Cuidado lista cinco fármacos para o adulto na atenção primária: fluoxetina (ISRS), amitriptilina, nortriptilina e clomipramina (tricíclicos) e bupropiona. A fluoxetina começa com 20 mg/dia, que já é a dose mínima efetiva, com faixa usual de 20 a 80 mg/dia. A amitriptilina começa com 25 mg/dia e vai a 75 a 300 mg/dia; a clomipramina, a 100 a 250 mg/dia; a nortriptilina, a 25 a 100 mg/dia; a bupropiona começa com 75 mg e vai a 150 a 300 mg/dia.

A escolha de primeira linha recai sobre os ISRS pela tolerabilidade e, sobretudo, pela segurança em superdose — argumento que as diretrizes da AMB com a ABP usam de forma direta e que pesa mais ainda em quem tem ideação suicida. Tricíclico é eficaz, e a eficácia não é o problema: o problema é o perfil anticolinérgico (boca seca, constipação), a sedação, a hipotensão postural e a cardiotoxicidade, que o Caderno nº 34 resume na instrução de evitar amitriptilina em idosos.

O erro de dose é o campeão de questão. O Caderno de Atenção Básica nº 34 é literal: para imipramina e amitriptilina, os efeitos antidepressivos só são observados em doses acima de 100 mg/dia, com máximo em torno de 200 a 250 mg/dia considerando o risco cardiovascular; e o escalonamento se faz iniciando com 25 mg e subindo 25 mg a cada dois ou três dias até atingir o nível terapêutico. Amitriptilina 25 mg à noite é dose de dor crônica, de profilaxia de enxaqueca, de insônia — não é tratamento de depressão. Quem prescreve assim e depois anota "não respondeu ao tricíclico" não tratou o paciente: apenas o expôs a efeito adverso sem chance de benefício.

Detalhes de fármaco que caem: a fluoxetina tem meia-vida longa e inibe o citocromo P-450, com potencial de interação; a paroxetina é a que mais dá síndrome de retirada e por isso pede desmame mais lento; efeitos sexuais (anorgasmia, retardo de ejaculação) são a causa mais comum de abandono silencioso, especialmente em homens; e ansiedade, agitação e insônia nos primeiros dias de ISRS são efeito de início, não piora da doença — subir a dose nessa hora é reação intuitiva e errada.

O relógio: latência, ensaio adequado e falha

O efeito antidepressivo não é imediato. O Caderno nº 34 fala em início após cerca de duas semanas de uso, e as diretrizes da AMB situam a resposta entre a segunda e a quarta semana. Nesse intervalo o paciente sente efeito adverso antes de sentir benefício — o que explica a maior parte dos abandonos e justifica a orientação explícita na primeira consulta.

A Linha de Cuidado recomenda intervalo de duas a três semanas entre as avaliações clínicas no início do tratamento. Isso não é para trocar o remédio a cada visita: é para checar adesão, efeito adverso e, principalmente, risco de suicídio no período em que a energia retorna antes do humor.

O número que define falha é outro. Só se pode dizer que uma tentativa terapêutica falhou depois de monoterapia em dose efetiva média por, no mínimo, 8 semanas — é o critério da Linha de Cuidado. E o encaminhamento ao especialista se justifica quando o paciente não respondeu a pelo menos duas intervenções terapêuticas efetivas implementadas por 8 semanas cada. Traduzindo para a beira do leito: dezesseis semanas de tratamento correto antes de a palavra "resistente" ser cabível. Quem encaminha na quarta semana está encaminhando um paciente subtratado, e quem chama de refratário o que nunca subiu de dose está trocando o nome do próprio erro.

Linha do tempo com as três fases do tratamento antidepressivo e a curva de sintomas caindo na primeira fase e permanecendo baixa nas seguintes
As três fases: aguda (até a remissão), continuação (6 a 9 meses após a remissão) e manutenção (2 anos ou mais nos casos de risco de recaída). A melhora clínica marca o fim da primeira fase, não o fim do tratamento.

Quanto tempo manter depois que melhora

Suspender o antidepressivo assim que o paciente melhora é o erro que devolve o paciente à UBS três meses depois. A Linha de Cuidado é objetiva: manter a medicação por ao menos 6 a 9 meses após a resolução dos sintomas. Para quem tem fatores de risco para recaída, o tratamento vai por pelo menos 2 anos.

As diretrizes da AMB com a ABP trabalham com o mesmo piso de seis meses de continuação, mas esticam bem mais a manutenção no paciente recorrente: pelo menos cinco anos para quem teve três ou mais episódios em cinco anos. São documentos com público diferente — um organiza o cuidado longitudinal na atenção primária, o outro é régua de especialidade —, e a diferença entre 2 e 5 anos aparece em prova como pegadinha de leitura do enunciado.

A retirada é gradual. O Caderno nº 34 orienta sempre propor reduções graduais e lembra que apresentações em gotas ou xarope ajudam a titular. A paroxetina, pela meia-vida curta, é a que mais cobra desmame lento; a fluoxetina, pela meia-vida longa, é a mais tolerante. Síndrome de descontinuação — tontura, parestesias em choque, náusea, irritabilidade, sintomas gripais — começa dias após a suspensão e melhora em horas com a reintrodução, o que a distingue de recaída, que é mais lenta e reproduz os sintomas originais.

Risco de suicídio muda a receita

Perguntar sobre ideação suicida de forma direta é parte da consulta, e não induz o ato. A avaliação estrutura-se por gradação: ideação passiva de morte, ideação ativa, plano, meio disponível, tentativa prévia. Tentativa prévia é o preditor isolado mais forte, e homem idoso, morando só, com doença clínica limitante e uso de álcool concentra fatores.

A conduta prática que o Caderno nº 34 registra e que a prova adora: havendo risco de tentativa de suicídio, o fornecimento de antidepressivos — principalmente tricíclicos — deve ser feito em pequenas quantidades ou ficar sob a guarda de um cuidador. Tricíclico é letal em superdose por arritmia, e é essa a razão prática de o ISRS ser preferido nesse cenário, não uma questão de eficácia.

A tentativa de suicídio é de notificação compulsória imediata, em até 24 horas, à vigilância epidemiológica municipal, pela Lista Nacional de Notificação Compulsória. Risco iminente, plano estruturado com meio disponível, sintomas psicóticos ou incapacidade de autocuidado tiram o caso da UBS: o destino é a urgência, o CAPS de referência ou a internação, conforme a rede do município. Fora do risco iminente, o CAPS é o serviço de referência para o cuidado intensivo dos casos graves e persistentes, e o ambulatório de saúde mental atende os casos de gravidade moderada — a atenção primária segue como coordenadora do cuidado mesmo depois do encaminhamento.

04

Da suspeita à dose: o caminho do adulto com humor deprimido na UBS

O algoritmo abaixo é o da Linha de Cuidado da Depressão no Adulto (2022) somado à tabela de psicofármacos do Caderno de Atenção Básica nº 34 (2013). Ele decide três coisas em sequência: se é transtorno depressivo, quão grave é, e o que a UBS faz com isso.

  1. 1Queixa espontânea de tristeza ou suspeita na escuta: aplicar o PHQ-2. Acima de 2 pontos, avaliação médica.
  2. 2Confirmar critério: cinco ou mais sintomas por pelo menos duas semanas (DSM-5-TR), com humor deprimido ou anedonia entre eles, e prejuízo funcional.
  3. 3Excluir causa clínica e substância: hipotireoidismo, anemia, álcool, corticoide. Perguntar sobre episódio prévio de humor elevado antes de prescrever antidepressivo.
  4. 4Classificar a gravidade pela contagem da CID-10 (leve, moderado, grave) e avaliar risco de suicídio em todos.
  5. 5Leve a moderado: intervenção psicossocial estruturada como primeira linha; antidepressivo conforme prejuízo funcional, preferência do paciente e episódios prévios. Grave: antidepressivo desde o início.
  6. 6Iniciar fluoxetina 20 mg/dia (ou tricíclico com escalonamento de 25 mg a cada 2 a 3 dias) e reavaliar a cada 2 a 3 semanas.
  7. 7Manter monoterapia em dose efetiva por no mínimo 8 semanas antes de julgar a tentativa. Sem resposta, otimizar dose ou trocar de fármaco e contar outras 8 semanas.
  8. 8Duas tentativas adequadas de 8 semanas sem resposta: encaminhar. Resposta obtida: manter 6 a 9 meses após a remissão, e ao menos 2 anos se houver fator de risco para recaída.

Episódio leve (CID-10)

Dois sintomas fundamentais mais dois acessórios. O paciente mantém a maior parte das atividades, com esforço. Intervenção psicossocial, atividade estruturada e reavaliação programada vêm antes do fármaco.

Episódio moderado (CID-10)

Dois fundamentais mais três a quatro acessórios. Há dificuldade considerável em manter trabalho, casa e vida social. Antidepressivo entra combinado à abordagem psicossocial, com reavaliação a cada 2 a 3 semanas.

Episódio grave (CID-10)

Os três fundamentais mais quatro ou mais acessórios, com incapacidade para as atividades habituais. Antidepressivo desde o início, avaliação de risco de suicídio em toda consulta e pesquisa de sintomas psicóticos, que definem a subdivisão do grupo.

FármacoClasseDose inicialFaixa usualO que pesa na escolha
FluoxetinaISRS20 mg/dia20–80 mg/diaPrimeira linha na UBS. Meia-vida longa (desmame mais fácil, interações pelo P-450). Perfil mais ativador: pode piorar insônia.
SertralinaISRS50 mg/dia50–200 mg/diaPoucas interações; opção quando há polifarmácia. Consta na tabela do Caderno nº 34.
ParoxetinaISRS20 mg/dia10–50 mg/diaA que mais dá síndrome de retirada: desmame lento obrigatório.
AmitriptilinaTricíclico25 mg/dia, subindo 25 mg a cada 2–3 dias75–300 mg/dia (efeito antidepressivo só acima de 100 mg/dia)Sedativa e cardiotóxica; evitar em idosos. Letal em superdose.
NortriptilinaTricíclico25 mg/dia25–100 mg/diaMenos hipotensão postural que a amitriptilina; alternativa tricíclica no idoso quando não há ISRS.
ClomipraminaTricíclico25 mg/dia, com escalonamento100–250 mg/diaBoa indicação também em transtornos de ansiedade; doses maiores no TOC.
BupropionaInibidor da recaptação de dopamina e noradrenalina75 mg/dia150–300 mg/diaSem disfunção sexual; reduz limiar convulsivo. Não usar em quem tem risco de convulsão ou transtorno alimentar.

Os dois instrumentos e o que cada corte significa

InstrumentoItensCorteO que fazer com o resultado
PHQ-22 (humor deprimido e anedonia nas 2 últimas semanas, 0–3 cada)Acima de 2 pontosGatilho de avaliação médica na UBS, conforme a Linha de Cuidado (2022). Não fecha diagnóstico.
PHQ-9 (escore somado)9 (0–27)Acima de 9Na validação brasileira: sensibilidade 77,5% e especificidade 86,7%. Leitura de rastreio — exige entrevista clínica para confirmar.
PHQ-9 (modo algoritmo)9, combinados pelos critérios do DSMAlgoritmo positivoSensibilidade 42,5% e especificidade 95,3%: perde caso, mas erra menos ao apontar. Leitura de confirmação.
PHQ-9, item 91 (pensamentos de morte ou autolesão)Qualquer pontuação acima de zeroAvaliação de risco de suicídio na mesma consulta, independentemente do escore total.

As três fases e quanto dura cada uma

FaseComeça quandoDuraçãoObjetivo
AgudaNo início do tratamentoAté a remissão; a tentativa só conta como adequada com 8 semanas em dose efetivaLevar o paciente à remissão, reavaliando a cada 2 a 3 semanas
ContinuaçãoNa resolução dos sintomas6 a 9 meses após a remissão (Linha de Cuidado, 2022); pelo menos 6 meses (AMB/ABP)Evitar recaída do mesmo episódio
ManutençãoAo fim da continuação, nos casos de riscoPelo menos 2 anos com fator de risco para recaída (Linha de Cuidado, 2022); pelo menos 5 anos com 3 ou mais episódios em 5 anos (AMB/ABP)Evitar novo episódio

Dose efetiva por 8 semanas é o que transforma uma prescrição em tentativa terapêutica. Antes disso, não existe falha — existe tratamento em curso.

Duas tentativas adequadas sem resposta é o critério de encaminhamento da Linha de Cuidado. Risco de suicídio, sintomas psicóticos e suspeita de bipolaridade encaminham antes, sem esperar as 16 semanas.

A ansiedade crônica se trata com antidepressivo em doses equivalentes às da depressão. O Caderno nº 34 chama de iatrogênica a prescrição de benzodiazepínico isolado para queixa crônica de ansiedade.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rastrear depressão em todo adulto que passa pela atenção primária

Rastreamento universal do adulto, grau B

Rastrear depressão em toda a população adulta, incluindo gestantes, puérperas e idosos, com instrumento validado como o PHQ. O mesmo documento classifica o rastreamento de risco de suicídio em adultos como grau I, por evidência insuficiente, e condiciona o benefício do rastreio de depressão à existência de sistemas capazes de diagnosticar, tratar e acompanhar quem for positivo.

US Preventive Services Task Force, JAMA, 2023

Detecção na escuta, com PHQ-2 diante de suspeita

A atenção primária faz detecção e manejo inicial a partir do acolhimento e da escuta ativa, aplicando o PHQ-2 quando há suspeita de sintomas depressivos e encaminhando para avaliação médica o resultado acima de 2 pontos. A organização é por demanda e por seguimento longitudinal, não por varredura populacional programada.

Linha de Cuidado da Depressão no Adulto, Ministério da Saúde, 2022

Na prova

A distância entre as duas posições é de capacidade de resposta da rede, não de acurácia do instrumento — o próprio documento americano condiciona o benefício do rastreio à retaguarda de tratamento e seguimento, que no SUS esbarra na oferta de psicoterapia e no tamanho das equipes. Um enunciado ambientado em UBS, ESF, acolhimento ou programa do SUS trabalha com o corpo brasileiro. Enunciado que cita nominalmente a USPSTF, usa grau de recomendação (A, B, I) ou fala em rastreamento populacional anual trabalha com o corpo americano. As alternativas denunciam o recorte: um distrator do tipo 'aplicar PHQ-9 em todos os adultos na consulta de rotina' só faz sentido no mundo do rastreio universal.

Por quanto tempo manter o antidepressivo depois da remissão

6 a 9 meses após a resolução, 2 anos se houver risco de recaída

Manter a medicação por ao menos 6 a 9 meses após a resolução dos sintomas; pacientes com fatores de risco para recaída seguem em tratamento por pelo menos 2 anos.

Linha de Cuidado da Depressão no Adulto, Ministério da Saúde, 2022

Pelo menos 6 meses de continuação, 5 anos no recorrente

Continuar o antidepressivo por pelo menos seis meses após a remissão, e manter por pelo menos cinco anos quem teve três ou mais episódios em cinco anos.

Diretrizes da Associação Médica Brasileira com a Associação Brasileira de Psiquiatria para o tratamento da depressão (versão integral), Revista Brasileira de Psiquiatria

Na prova

Documento brasileiro contra documento brasileiro, com propósitos diferentes: um organiza o cuidado longitudinal na atenção primária e o outro é régua de especialidade sobre o paciente recorrente. O enunciado costuma entregar o recorte pelo cenário e pela história: primeiro episódio, UBS, médico de família e alta programada puxam a faixa de 6 a 9 meses; terceiro episódio em cinco anos, acompanhamento com psiquiatra e discussão de profilaxia de longo prazo puxam a faixa de anos. Quando o enunciado descreve fator de risco para recaída sem contar episódios, o número de 2 anos é o que o documento do Ministério da Saúde sustenta.

Quantas semanas até dizer que o antidepressivo não funcionou

Melhora começa entre a 2ª e a 4ª semana

A resposta ao antidepressivo não é imediata e costuma ocorrer entre a segunda e a quarta semana de uso, horizonte usado para avaliar se houve algum grau de melhora.

Diretrizes da Associação Médica Brasileira com a Associação Brasileira de Psiquiatria para o tratamento da depressão (versão integral), Revista Brasileira de Psiquiatria; latência de cerca de duas semanas também no Caderno de Atenção Básica nº 34, Ministério da Saúde, 2013

Tentativa só é adequada com 8 semanas em dose efetiva

Considerar mudança terapêutica apenas após monoterapia em dose efetiva média por, no mínimo, 8 semanas; o encaminhamento ao especialista se dá quando não houve resposta a pelo menos duas intervenções efetivas de 8 semanas cada.

Linha de Cuidado da Depressão no Adulto, Ministério da Saúde, 2022

Na prova

Os dois números medem coisas distintas e o enunciado costuma dizer qual está em jogo pelo verbo. Pergunta sobre quando o paciente começa a melhorar, quando orientá-lo sobre o que esperar ou quando reavaliar trabalha no horizonte de 2 a 4 semanas. Pergunta sobre quando trocar o fármaco, quando declarar falha terapêutica ou quando encaminhar trabalha com as 8 semanas por tentativa — e, no encaminhamento, com duas tentativas. Alternativa que oferece 'trocar o antidepressivo após 3 semanas sem melhora' existe para capturar quem confundiu latência com ensaio terapêutico.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos vem à UBS por insônia. Ao ser ouvida, conta que há cerca de seis semanas está triste na maior parte dos dias, parou de sair com as amigas e não sente prazer em nada, acorda às 4h e não volta a dormir, perdeu 4 kg sem dieta, sente-se culpada por 'não dar conta' e tem dificuldade de concentração no trabalho, onde já errou tarefas simples. Nega pensamentos de morte. Nega uso de álcool ou drogas. Nunca teve período de humor elevado, gastos incomuns ou redução da necessidade de sono com disposição preservada. Sem doenças prévias, sem medicamentos. TSH e hemograma recentes, normais.
achado
Seis semanas de humor deprimido e anedonia (dois sintomas fundamentais) somados a insônia, perda de peso, culpa e prejuízo de concentração (quatro acessórios), com prejuízo funcional no trabalho. Fecha episódio depressivo pelos critérios de duração e contagem.
classificação
Pela CID-10, dois fundamentais com quatro acessórios e comprometimento das atividades caracterizam episódio depressivo moderado. Sem sintomas psicóticos e sem ideação suicida à avaliação direta.
diferencial
Hipotireoidismo e anemia afastados por exames recentes; sem substância envolvida; e a pergunta sobre episódio prévio de humor elevado, feita antes de prescrever, afasta a suspeita de depressão bipolar e libera o antidepressivo em monoterapia.
conduta
Fluoxetina 20 mg/dia pela manhã, com orientação de que o efeito começa em cerca de duas semanas e de que ansiedade ou insônia nos primeiros dias são efeito de início. Intervenção psicossocial associada e retorno em duas a três semanas para checar adesão, efeito adverso e risco de suicídio.
seguimento
Na oitava semana em dose efetiva, avalia-se a tentativa: com resposta parcial, otimiza-se a dose dentro da faixa; sem resposta, troca-se de fármaco e conta-se novo período de 8 semanas. Encaminhamento só depois de duas tentativas adequadas.
manutenção
Obtida a remissão, o antidepressivo segue por 6 a 9 meses contados a partir da resolução dos sintomas, e a suspensão é gradual — não no dia em que a paciente diz que está bem.
07

Agora feche você

Homem de 68 anos retorna à UBS acompanhado da filha. Está em uso de amitriptilina 25 mg à noite há três meses, prescrita para 'depressão e insônia'. Dorme melhor, mas segue sem vontade de sair de casa, sem apetite e chorando com frequência. É o terceiro episódio depressivo da vida, os dois anteriores com remissão. Queixa-se de boca seca e de constipação. Refere tontura ao levantar. Nega ideação suicida. Hipertenso em uso de losartana, sem outras comorbidades.
achado
Três meses de uso, mas em dose de 25 mg/dia — abaixo do piso em que a amitriptilina tem efeito antidepressivo. O que o paciente apresenta de resposta é o efeito sedativo, e o que apresenta de boca seca, constipação e tontura postural é o perfil anticolinérgico e hipotensor do tricíclico.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de refratária a depressão que nunca chegou à dose É o erro mais comum e o mais cobrado. Sem monoterapia em dose efetiva por pelo menos 8 semanas, não houve tentativa — houve exposição. A alternativa que oferece 'encaminhar ao psiquiatra por falha terapêutica' depois de quatro semanas de dose baixa parece diligente e é subtratamento com outro nome.
  2. 2Amitriptilina 25 mg à noite como tratamento de depressão A dose atrai porque funciona — para insônia e para dor. O Caderno de Atenção Básica nº 34 é literal ao dizer que amitriptilina e imipramina só têm efeito antidepressivo acima de 100 mg/dia. Abaixo disso o paciente recebe todo o efeito adverso do tricíclico e nenhum benefício antidepressivo.
  3. 3Benzodiazepínico como tratamento de base O paciente melhora na primeira semana e agradece, o que reforça a prescrição. Mas o tratamento de base dos sintomas de ansiedade que se cronificam é o antidepressivo, em doses equivalentes às da depressão; o Caderno nº 34 chama de iatrogênica a prescrição isolada de benzodiazepínico para queixa crônica. Ansiolítico é ponte de curto prazo, não terapia.
  4. 4Prescrever ISRS sem perguntar sobre mania O enunciado que traz 'episódio de duas semanas dormindo três horas por noite, cheio de energia e com gastos incomuns' há dois anos está descrevendo bipolaridade, e o antidepressivo em monoterapia pode precipitar virada maníaca. A pergunta sobre humor elevado prévio é pré-requisito da prescrição, não refinamento.
  5. 5Suspender assim que o paciente melhora A remissão marca o fim da fase aguda e o começo da continuação, que dura 6 a 9 meses. Suspender na melhora é a receita da recaída do mesmo episódio, e o paciente volta em três meses achando que 'o remédio parou de funcionar'.
  6. 6Tricíclico em quem tem ideação suicida A escolha soa razoável quando há insônia importante. Só que o tricíclico é letal em superdose por arritmia, e a orientação do Caderno nº 34 nesse cenário é dispensar quantidades pequenas ou deixar o medicamento com um cuidador. A segurança em superdose é o principal argumento pró-ISRS aqui — não a eficácia.
  7. 7Tratar tristeza contextual como transtorno Perda recente, sobrecarga e adoecimento social produzem sofrimento que não preenche critério e não responde a medicamento. O próprio Ministério da Saúde nomeia esse ponto: prescrever aqui é oferecer resposta rápida para a angústia do profissional. Escuta, vínculo e adiamento deliberado da prescrição são conduta, não omissão.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Episódio depressivo moderado com prejuízo funcional tem indicação de ISRS (1ª linha por perfil de segurança) associado a intervenção psicossocial, com reavaliação precoce (correta). Encaminhamento imediato ao CAPS não se justifica em quadro moderado sem risco, manejável na APS. Benzodiazepínico não trata depressão e tem risco de dependência. Amitriptilina (tricíclico) não é primeira escolha por efeitos adversos e toxicidade em superdose. Aguardar 3 meses adia tratamento indicado.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite os três números do relógio: latência de 2 a 4 semanas, tentativa adequada de 8 semanas em dose efetiva, continuação de 6 a 9 meses após a remissão. Depois refaça a contagem da CID-10 (leve 2+2, moderado 2+3 ou 4, grave 3+4 ou mais) e diga em voz alta o piso de dose antidepressiva da amitriptilina.

em 30 dias

Pegue três enunciados de depressão e classifique cada um antes de olhar as alternativas: o enunciado cobra diagnóstico (contagem e duração), dose (piso do tricíclico, faixa do ISRS) ou tempo (latência, falha, manutenção)? Em seguida, decida se o cenário é brasileiro (UBS, ESF, PHQ-2) ou internacional (grau de recomendação, rastreio universal) e verifique se as alternativas confirmam esse recorte.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 41 anos chega à UBS dizendo que 'não está aguentando mais'. Dorme mal há dois meses, emagreceu, parou de ir ao trabalho duas vezes na última semana e chora ao falar da mãe, falecida há oito meses. Conduza a consulta: caracterize os sintomas e a duração, classifique a gravidade, investigue risco de suicídio e episódio prévio de humor elevado, e defina a conduta inicial com o que a farmácia da unidade tem. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transtorno depressivo maior — Preparatório para provas | OsceLabs