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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Transtornos de personalidade: o padrão que já estava lá antes da consulta

Padrão longitudinal, critérios e tratamento das comorbidades

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 26 anos com transtorno de personalidade borderline é acompanhada no ambulatório. Não há episódio depressivo, transtorno de ansiedade nem uso de substância em curso, e ela não está em crise. Pergunta ao médico qual será o tratamento principal. Qual é a resposta correta?

02

Como esse tema cai

Personalidade é o jeito estável de perceber, sentir, relacionar-se e reagir. Vira transtorno quando esse jeito é inflexível, atravessa contextos muito diferentes, produz sofrimento ou prejuízo, e está lá desde a adolescência ou o início da vida adulta. A palavra que carrega o diagnóstico inteiro é estável: nada aqui se decide numa consulta isolada.

A prova cobra quatro coisas. Primeiro, os critérios gerais — o que separa traço de transtorno, e por que não se firma o diagnóstico no meio de um episódio depressivo, maníaco ou de intoxicação. Segundo, a identificação dos tipos, quase sempre dentro do agrupamento dramático e errático, com os pares que se confundem: borderline e histriônica, antissocial e narcisista. Terceiro, as duas idades do quadro antissocial, que são o dado numérico mais cobrado do assunto. Quarto, o tratamento — e aqui a resposta certa quase sempre diz psicoterapia e quase sempre nega que exista fármaco para o transtorno em si.

Entra também a organização do cuidado: o que se pactua na primeira consulta, por que consulta por demanda piora o quadro, e como o sistema brasileiro de regulação lida com um paciente que não tem protocolo de encaminhamento próprio.

Fica de fora o detalhe processual da internação sem consentimento e a mecânica do sigilo e da comunicação a terceiros, que têm endereço próprio e réguas legais que não se resumem em uma linha. Fica de fora também a psicopatia como construto forense: ela não é diagnóstico do manual, e enunciado que a use como sinônimo de transtorno de personalidade antissocial está trocando as coisas.

03

O que muda decisão

Seis critérios gerais, e o quinto é o que derruba a maioria

Antes de qualquer tipo, existe uma lista comum que todos os dez precisam cumprir. Vale ler devagar, porque a questão costuma atacar exatamente um deles.

O padrão duradouro de experiência interna e comportamento desvia de forma acentuada do que a cultura da pessoa espera, e se manifesta em pelo menos duas de quatro áreas: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle de impulsos. Esse padrão é inflexível e abrange uma ampla gama de situações pessoais e sociais — não é um jeito de ser no trabalho que desaparece em casa. Ele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida. É estável e de longa duração, e seu início pode ser rastreado pelo menos até a adolescência ou o começo da vida adulta.

Os dois últimos critérios são de exclusão, e são os mais cobrados. O padrão não é melhor explicado como manifestação ou consequência de outro transtorno mental, e não é atribuível aos efeitos fisiológicos de substância ou de outra condição médica.

A consequência prática é grande. Uma pessoa em episódio depressivo grave parece dependente, indecisa e sem iniciativa; em mania parece impulsiva, grandiosa e sedutora; em intoxicação crônica parece irresponsável e desonesta. Nada disso é personalidade enquanto o estado agudo estiver em curso. Por isso a caracterização do padrão se faz com história longitudinal — como a pessoa era aos vinte, aos vinte e cinco, aos trinta —, com informação de quem convive há tempo, e preferencialmente fora do episódio.

Há ainda uma trava de idade que passa despercebida. O diagnóstico pode ser feito em menores de 18 anos, desde que os traços estejam presentes por pelo menos um ano — com uma única exceção: o transtorno de personalidade antissocial não se diagnostica antes dos 18. E há a trava cultural: comportamento que se explica pelo contexto de migração, de crença religiosa ou de subcultura não preenche o critério, porque a régua é o que a cultura da própria pessoa espera.

Duas palavras do primeiro critério merecem atenção porque decidem alternativa. A primeira é abrangente: o padrão precisa aparecer em uma ampla gama de situações pessoais e sociais, e não apenas numa relação específica ou num emprego específico. Alguém rígido e controlador só com o cônjuge, e flexível com todo o resto, está descrevendo um problema de relação, não um transtorno de personalidade. A segunda é inflexível: o padrão não se ajusta quando o contexto muda e quando as consequências se acumulam. É essa rigidez que produz a repetição — a mesma sequência de perda de emprego, de rompimento e de conflito, ano após ano, com atores diferentes e o mesmo enredo.

Vale ainda separar duas coisas que a alternativa mal escrita costuma juntar. Traço de personalidade acentuado não é transtorno: só há transtorno quando existe sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida — trabalho, relações, saúde. Uma pessoa meticulosa e exigente que prospera na profissão e mantém vínculos estáveis tem um traço, não um diagnóstico. Enunciado que descreva um padrão marcante e negue explicitamente prejuízo e sofrimento está pedindo a resposta que diz traço, e não transtorno.

Três agrupamentos, e o que cada um faz o interlocutor sentir

O manual organiza os dez tipos em três agrupamentos. Eles têm validade limitada, e o próprio manual diz isso, mas continuam sendo o dispositivo que a prova usa para ordenar as alternativas — vale saber de cor.

O agrupamento A é o estranho e excêntrico: paranoide, esquizoide e esquizotípica. A pergunta que o identifica é se o modo de pensar e de se relacionar parece esquisito para quem está do outro lado.

O agrupamento B é o dramático, emocional e errático: antissocial, borderline, histriônica e narcisista. A pergunta que o identifica é se a relação com o outro é intensa, instável e cara para quem convive. É o agrupamento que domina a prova, porque é o que mais chega ao serviço de saúde.

O agrupamento C é o ansioso e temeroso: evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva. A pergunta que o identifica é se o motor do comportamento é o medo — de crítica, de abandono, de erro.

Uma pista de leitura ajuda a atravessar alternativa mal escrita: os agrupamentos descrevem a impressão predominante, não uma lista fechada. Uma pessoa pode preencher critérios para mais de um tipo, e isso é comum — a comorbidade entre tipos é regra, não exceção, e é uma das razões pelas quais a classificação categorial vem sendo revista. Enunciado que exija encaixar o paciente em um único tipo puro está descrevendo um paciente que raramente existe.

Antissocial: as duas idades que decidem

Se houver um único dado numérico para levar deste assunto, é este par.

O transtorno de personalidade antissocial exige que o indivíduo tenha pelo menos 18 anos para receber o diagnóstico, e exige evidência de transtorno de conduta com início antes dos 15 anos. As duas coisas ao mesmo tempo. A primeira reconhece que o padrão precisa ter atravessado a adolescência; a segunda garante que ele não começou na vida adulta, o que apontaria para outra explicação — uso de substância, lesão cerebral, episódio de humor.

O núcleo do critério é um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos alheios, desde os 15 anos, indicado por pelo menos três de sete manifestações: incapacidade de se conformar às normas sociais no que diz respeito a comportamentos legais, com atos repetidos passíveis de detenção; tendência à falsidade, com mentiras repetidas, uso de nomes falsos ou fraude para proveito pessoal; impulsividade ou fracasso em planejar o futuro; irritabilidade e agressividade, com lutas corporais ou agressões físicas repetidas; desrespeito imprudente pela segurança própria ou alheia; irresponsabilidade consistente, com falha repetida em manter trabalho ou honrar obrigações financeiras; e ausência de remorso, com indiferença ou racionalização diante do prejuízo causado.

Fecha com a exclusão: a ocorrência do comportamento não é exclusivamente durante o curso de esquizofrenia ou de transtorno bipolar. É a linha que separa o padrão vitalício do comportamento transgressor de um episódio maníaco, e é o que a questão esconde quando descreve um paciente que só passou a transgredir aos 32 anos.

Duas correções de vocabulário poupam pontos. A primeira: transtorno de conduta é o diagnóstico da infância e da adolescência, com o mesmo tipo de comportamento — faltas escolares reiteradas, fugas, crueldade com animais, furtos, agressividade —, e ele é pré-requisito histórico, não sinônimo. A segunda: psicopatia não é diagnóstico do manual. Ela é um construto avaliado por instrumentos próprios, com ênfase em traços afetivos e interpessoais, e alternativa que a apresente como categoria diagnóstica está errada pelo simples fato de a categoria não existir ali.

Borderline, histriônica e narcisista: o mesmo grupo, três motores

Os três disputam a mesma descrição na prova, e a discriminação se faz por três achados que não se repetem entre eles.

No transtorno de personalidade borderline, o motor é a instabilidade — de relações, de autoimagem e de afeto — somada a impulsividade acentuada. São nove critérios, dos quais se exigem cinco: esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado; relações intensas e instáveis alternando idealização e desvalorização; perturbação da identidade; impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autolesivas; comportamento suicida recorrente, gestos, ameaças ou automutilação; instabilidade afetiva com episódios que duram horas e raramente mais que poucos dias; sentimento crônico de vazio; raiva intensa e inadequada; e ideação paranoide transitória ou sintomas dissociativos graves relacionados a estresse. Os três achados que quase só aparecem aqui são o vazio crônico, a autolesão repetida e o pavor do abandono.

No transtorno de personalidade histriônica, o motor é a emocionalidade excessiva e a busca de atenção, com cinco de oito manifestações: desconforto quando não é o centro das atenções; comportamento sedutor ou provocativo inadequado ao contexto; expressão emocional superficial e mutável; uso da aparência física para atrair atenção; discurso impressionista e pobre em detalhes; teatralidade e autodramatização; sugestionabilidade; e a percepção de relações como mais íntimas do que de fato são. O que a separa do quadro borderline é o que falta: sem vazio crônico, sem autolesão repetida, sem pavor do abandono, sem a instabilidade de identidade.

No transtorno de personalidade narcisista, o motor é a grandiosidade, a necessidade de admiração e a falta de empatia — com sensação de merecimento, exploração das relações, inveja e arrogância. A dor aqui não é o abandono nem a falta de plateia: é a ferida do reconhecimento negado.

Uma quarta separação importa porque a questão gosta dela: o narcisista explora o outro e não tem empatia, o que se parece com o antissocial. O que os separa é o histórico. Sem transtorno de conduta antes dos 15 anos e sem o padrão de transgressão legal desde os 15, o critério antissocial não fecha, por mais exploradora que a pessoa seja. A idade continua sendo o dado que decide.

Agrupamentos A e C, e o quadro do outro eixo que cada um imita

Aqui a prova monta pares em que a resposta errada é um diagnóstico de outro capítulo. Vale ter o discriminador na ponta da língua.

A personalidade paranoide traz desconfiança difusa e suspeita de que os outros a exploram ou enganam, com leitura hostil de comentários benignos e rancor persistente. O que a distingue do transtorno delirante persecutório é a ausência de crença falsa fixa e inabalável: o paranoide desconfia de muita coisa, o delirante sustenta uma convicção específica contra qualquer evidência.

A personalidade esquizoide é o desinteresse pelas relações, incluindo as familiares, com escolha consistente de atividades solitárias e afeto restrito. O que a distingue da personalidade evitativa é o desejo: o esquizoide não quer proximidade; o evitativo quer e não se aproxima por medo de crítica e por sentimento de inadequação. E o que a distingue do transtorno do espectro do autismo é o desenvolvimento — no autismo há alteração precoce da comunicação social e padrões restritos e repetitivos, presentes desde os primeiros anos.

A personalidade esquizotípica soma o desconforto nas relações a distorções cognitivas e perceptivas e a excentricidade: pensamento mágico, experiências perceptivas incomuns, discurso vago ou metafórico, ideias de referência. Não há episódio psicótico sustentado, e é isso que a separa da esquizofrenia.

No agrupamento C, dois pares se repetem. A personalidade evitativa e a fobia social generalizada compartilham tanto que muitos autores as consideram gradações da mesma coisa; a régua prática é a abrangência e a autoimagem — na personalidade, a evitação atravessa a vida inteira e vem acompanhada da convicção de inadequação pessoal. E a personalidade obsessivo-compulsiva não é o transtorno obsessivo-compulsivo: aqui há preocupação com ordem, perfeccionismo que atrapalha a conclusão de tarefas, rigidez e teimosia, sem obsessões verdadeiras e sem compulsões, e o padrão é egossintônico — a pessoa acha que está certa, e quem sofre costuma ser quem convive.

A entrevista é longitudinal, e a figura mostra por quê

A diferença entre traço e estado é a coisa mais fácil de errar na prática e a mais cobrada na conduta. Um transtorno episódico sobe e volta à linha de base; um transtorno de personalidade é a própria linha de base deslocada.

Sobre um mesmo eixo horizontal, uma faixa espessa corre deslocada da linha de base do começo ao fim, enquanto uma curva fina fica colada à linha de base e forma três picos isolados que voltam ao ponto de partida.
O transtorno episódico é a curva que sobe e volta; o transtorno de personalidade é a faixa que nunca esteve na linha de base. Consulta única mede um instante do eixo — e no alto de um pico as duas coisas se parecem.

Daí saem três regras de entrevista que a questão de conduta cobra. A primeira: caracterizar o padrão exige perguntar como a pessoa era antes do quadro atual, em pelo menos três domínios — trabalho, amizades e relações amorosas — e em mais de uma fase da vida adulta. A segunda: informação de quem convive há tempo tem peso próprio, porque a autodescrição é justamente uma das funções afetadas. A terceira: adiar a nomeação do tipo enquanto houver episódio depressivo, maníaco, psicótico ou intoxicação em curso não é excesso de cautela — é o critério de exclusão sendo cumprido.

Adiar não significa não fazer nada. Registra-se o que se observou, trata-se o episódio agudo, e a caracterização do padrão se retoma na remissão. O documento brasileiro de regulação, aliás, pede exatamente esses elementos no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento: idade de início, evolução dos sintomas, tratamentos já realizados, história de outros transtornos e internações, presença atual ou passada de ideação e de tentativa de suicídio com método e data, e prejuízo funcional descrito.

Uma armadilha fecha a seção. Rótulo colocado no meio de uma crise costuma virar carimbo permanente no prontuário e mudar o modo como a equipe inteira trata a pessoa. O custo de nomear cedo demais não é acadêmico: é assistencial.

O tratamento que muda desfecho, e o que não existe

A frase que a resposta correta quase sempre contém: não há fármaco indicado para tratar o transtorno de personalidade em si. O que muda desfecho é psicoterapia estruturada, específica e de duração suficiente.

No quadro borderline, quatro abordagens acumulam evidência: a terapia comportamental dialética, construída para regulação emocional e redução de autolesão; a terapia baseada em mentalização; a terapia focada em esquemas; e a psicoterapia focada na transferência. A primeira é a mais estudada e a que costuma aparecer nomeada nas alternativas. Todas compartilham o mesmo esqueleto e é ele que a prova cobra quando não nomeia a escola: enquadre explícito, contrato de tratamento, previsibilidade de horário e de duração, plano de crise escrito, e equipe com supervisão.

No quadro antissocial, a régua é outra e mais sóbria. Não há tratamento farmacológico para o transtorno, e a psicoterapia isolada tem resultados modestos. O alvo modificável mais consistente é a comorbidade por uso de substâncias, cujo tratamento reduz agressividade, encarceramento e desfechos adversos — e é por isso que, num caso com uso de cocaína e de álcool, a conduta que a alternativa correta descreve é encaminhar ao serviço de atenção psicossocial para álcool e outras drogas, não iniciar um estabilizador de humor.

O fármaco entra por três portas, e apenas por elas: comorbidade psiquiátrica identificada e tratada pelo protocolo dela — episódio depressivo, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, transtorno por uso de substância; sintoma-alvo definido, por tempo definido, com o desfecho combinado antes de começar; e a crise, com as ressalvas que o bloco de divergências detalha. Fora disso, o padrão que se instala é a polifarmácia acumulada consulta a consulta, que ninguém revisa e que ninguém suspende.

Duas notas de segurança que valem pontos. Benzodiazepínico de manutenção em quadro borderline soma desinibição, dependência e risco em superdosagem a um paciente que já tem impulsividade e autolesão. E antipsicótico iniciado por sintoma dissociativo transitório relacionado a estresse costuma virar uso crônico sem revisão — o sintoma que motivou a prescrição é, por definição, transitório.

Comorbidade não é detalhe: é o quadro inteiro e é a porta do sistema

Transtorno de personalidade quase nunca chega sozinho ao serviço. Depressão, transtorno por uso de substâncias, transtornos alimentares e transtornos de ansiedade convivem com ele com frequência alta, e a apresentação típica no pronto-atendimento é a comorbidade em crise, não o traço.

Isso tem três consequências práticas. A primeira é diagnóstica: o quadro agudo precisa ser tratado antes que o padrão possa ser caracterizado, pelo critério de exclusão já discutido. A segunda é prognóstica: a presença do transtorno de personalidade muda a resposta ao tratamento da comorbidade — episódios depressivos tendem a ser mais longos e a recair mais, o que não é motivo para tratar menos, e sim para acompanhar mais de perto. A terceira é operacional, e é a que resolve a questão de conduta no Brasil.

O protocolo de regulação ambulatorial de psiquiatria adulto organiza o acesso em nove protocolos — depressivos, ansiedade e obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático, bipolar, psicoses, uso de substâncias, incongruência de gênero, alimentares e um residual. Nenhum deles é de transtornos de personalidade, e o residual cobre apenas agitação associada a deficiência intelectual ou a transtorno do espectro do autismo e os transtornos do controle de impulsos.

Na prática, portanto, o encaminhamento se justifica pela comorbidade que tem protocolo próprio, e o encaminhamento correto a descreve. Um paciente com padrão borderline e episódio depressivo maior entra pelo protocolo de transtornos depressivos; um paciente com padrão antissocial e uso de cocaína entra pelo de transtornos por uso de substâncias. Escrever apenas o nome do transtorno de personalidade no formulário não abre porta nenhuma, e é o erro administrativo mais comum do assunto.

Restam os quatro critérios universais de emergência psiquiátrica, válidos para qualquer transtorno: risco agudo de suicídio; risco agudo de auto ou heteroagressão, quando não existir suporte sociofamiliar capaz de conter o risco; risco agudo de exposição moral, na mesma condição; e sintomas psicóticos agudizados. E a lista de prioridade quando há indicação de encaminhamento: tentativa de suicídio recente, alta de internação psiquiátrica nos últimos três meses, anorexia nervosa com índice de massa corporal abaixo de 15, sintomas psicóticos atuais e gestantes.

Risco crônico e risco que mudou: duas leituras do mesmo paciente

Um paciente com padrão borderline pode conviver por anos com autolesão repetida e ideação intermitente. Se cada episódio disparar uma ida à emergência e uma internação, o que se ensina é que o comportamento funciona — e a frequência sobe.

A leitura correta separa dois planos. Existe um nível de risco que é a linha de base daquela pessoa, conhecido, documentado e manejado no plano de crise combinado por escrito. E existe a mudança em relação a essa linha: método novo, letalidade maior, perda abrupta de suporte, associação com uso de substância, desesperança nova, término de vínculo terapêutico. O que muda a conduta é a mudança, não a presença do comportamento.

Isso não relativiza risco. A autolesão sem intenção de morrer e a tentativa de suicídio coexistem no mesmo paciente com frequência, e história de autolesão é fator de risco reconhecido para suicídio consumado. O que a leitura por variação faz é dar critério objetivo para decidir entre manter o cuidado ambulatorial e acionar a emergência, em vez de decidir pela ansiedade de quem atende.

O plano de crise que sustenta essa decisão tem elementos concretos, e a alternativa correta costuma listá-los: quem chamar e em que ordem, o que fazer nas primeiras horas, a restrição de acesso a meios pactuada com a família, o horário da próxima consulta já marcado, e o critério explícito que indica procurar a emergência. Ele é escrito com o paciente, fora da crise, e revisado depois de cada uma.

A contrapartida institucional é a estabilidade da equipe. Trocar de profissional a cada consulta, atender por demanda e por profissionais diferentes, e responder a cada crise com uma conduta nova reproduz na assistência exatamente o padrão de relações instáveis que o quadro descreve. Consulta em intervalo fixo, com a mesma equipe, e independente de haver sintoma novo, é intervenção — não é comodidade de agenda.

A consulta difícil: o que se pactua e o que se recusa

A parte do assunto que a prova prática cobra e que quase ninguém estuda é o comportamento do médico. Três situações se repetem.

A primeira é a hostilidade e a tentativa de manipulação. A conduta pontuada é manter postura firme e respeitosa ao mesmo tempo — não entrar na disputa, não retaliar, não ceder para encerrar o desconforto. Nomear o que está acontecendo em voz alta e devolver ao objetivo da consulta funciona melhor que qualquer argumento.

A segunda é o pedido que não se pode atender. Documento sem fundamento clínico não se emite, e medicamento controlado não se prescreve por pressão, sobretudo em quem usa substâncias. O que a resposta correta acrescenta é a segunda metade: recusar e explicar o motivo da recusa, com registro objetivo no prontuário do que foi pedido, do que foi recusado e por quê. Recusa sem explicação encerra a consulta; recusa explicada mantém o vínculo e protege o profissional.

A terceira é o comportamento sedutor, típico do quadro histriônico e frequente no borderline. A conduta é manter limites profissionais claros sem humilhar e sem moralizar, e sem interpretar o comportamento em voz alta como se fosse defeito de caráter. Validar o sofrimento e recusar o enquadre são coisas compatíveis, e a questão costuma oferecer alternativas que fazem uma e abandonam a outra.

Há uma quarta situação que a prova prática adora e que quase sempre aparece como item de comunicação: explicar o diagnóstico ao próprio paciente. Transtorno de personalidade carrega estigma pesado, inclusive dentro do serviço de saúde, e o nome costuma ser omitido por receio de ferir. Omitir tem custo: sem o nome, a pessoa não entende por que a psicoterapia proposta é longa, por que as consultas têm horário fixo e por que não se prescreve um remédio que resolva. A explicação útil descreve o padrão em linguagem comum — o modo de reagir que se repete, de onde vem o sofrimento, o que o tratamento consegue mudar —, nomeia o quadro sem transformá-lo em sentença e diz que o prognóstico com tratamento é melhor do que a fama do diagnóstico sugere.

Vale fechar com o que atravessa as quatro. O sentimento que o paciente desperta em quem atende — irritação, tédio, encantamento, vontade de resolver tudo — é informação clínica sobre o padrão, e é péssimo guia de conduta. Quando a equipe começa a discordar entre si sobre o mesmo paciente, com metade defendendo rigor e metade defendendo exceção, o que está em curso costuma ser a reprodução do padrão dentro da equipe. A solução é combinar a conduta entre todos e escrever, não vencer a discussão.

04

A régua na mão

Primeiro os critérios gerais, que valem para os dez tipos. Depois o tipo, pela pergunta que só ele responde. Por fim o destino, que no Brasil quase sempre passa pela comorbidade.

  1. 1Confirme os critérios gerais: padrão inflexível em pelo menos duas de quatro áreas, abrangente, com sofrimento ou prejuízo, estável desde a adolescência ou o início da vida adulta.
  2. 2Aplique os dois critérios de exclusão antes de nomear o tipo: o padrão não é melhor explicado por outro transtorno mental e não é efeito de substância ou de condição médica. Havendo episódio agudo em curso, trate primeiro e caracterize depois.
  3. 3Identifique o agrupamento pela impressão dominante: estranho e excêntrico, dramático e errático, ou ansioso e temeroso.
  4. 4Dentro do agrupamento dramático, use os três achados que não se repetem: vazio crônico com autolesão e pavor de abandono é borderline; centro das atenções com sugestionabilidade e discurso impressionista é histriônica; grandiosidade com merecimento e inveja é narcisista; e transgressão desde os 15 anos, com conduta antes dos 15 e idade atual de pelo menos 18, é antissocial.
  5. 5Trate: psicoterapia estruturada como base, comorbidade tratada pelo protocolo dela, e fármaco apenas por sintoma-alvo definido e por tempo definido.
  6. 6Decida o destino: sem protocolo próprio na regulação ambulatorial, o encaminhamento se justifica pela comorbidade — e a emergência, pelos quatro critérios universais.

Borderline

Cinco de nove critérios. Os três que quase só aparecem aqui: sentimento crônico de vazio, autolesão ou comportamento suicida recorrente, e esforços desesperados para evitar abandono. Instabilidade afetiva medida em horas, raramente além de poucos dias.

Histriônica

Cinco de oito critérios. Desconforto quando não é o centro das atenções, comportamento sedutor inadequado ao contexto, emoção superficial e mutável, discurso impressionista e pobre em detalhes, sugestionabilidade. Sem vazio crônico e sem autolesão repetida.

Antissocial

Idade mínima de 18 anos e transtorno de conduta com início antes dos 15. Três de sete manifestações de desconsideração pelos direitos alheios desde os 15 anos. Não se conta o comportamento ocorrido apenas durante esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Narcisista

Grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, com sensação de merecimento, exploração e inveja. Explora como o antissocial, mas sem conduta antes dos 15 e sem o padrão de transgressão legal — a idade é o que separa.

O diagnóstico pode ser feito antes dos 18 anos se os traços estiverem presentes por pelo menos um ano — exceto o antissocial, que exige 18 anos completos.

Nenhum fármaco tem indicação para tratar o transtorno de personalidade em si; a psicoterapia estruturada é a base, e o fármaco entra por comorbidade ou por sintoma-alvo com prazo definido.

No quadro antissocial, o alvo modificável mais consistente é o transtorno por uso de substâncias.

Os quatro critérios universais de emergência: risco agudo de suicídio; de auto ou heteroagressão sem suporte sociofamiliar capaz de contê-lo; de exposição moral na mesma condição; e sintomas psicóticos agudizados.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Categorias ou dimensões: como se classifica um transtorno de personalidade

Manual americano, seção principal

Mantém dez tipos categoriais organizados em três agrupamentos, cada um com uma lista de critérios e um limiar numérico próprio — cinco de nove no borderline, cinco de oito no histriônico, três de sete no antissocial. O modelo dimensional aparece apenas em seção separada, apresentado como alternativa proposta para estudo, e não substitui o oficial.

American Psychiatric Association. DSM-5-TR, seção de transtornos da personalidade e modelo alternativo apresentado à parte.

Classificação internacional, décima primeira revisão

Abandonou os tipos categoriais. Classifica primeiro a gravidade num gradiente — dificuldade de personalidade, transtorno leve, moderado e grave — e depois acrescenta domínios de traço proeminentes: afetividade negativa, distanciamento, dissocialidade, desinibição e anancasmo. Do arranjo antigo sobrevive apenas um qualificador de padrão borderline, mantido por sua utilidade no planejamento do tratamento.

Bach B, First MB. Application of the ICD-11 classification of personality disorders. BMC Psychiatry. 2018;18:351; e Tyrer P, Reed GM, Crawford MJ. Lancet. 2015;385(9969):717-26.

Na prova

As duas classificações não competem pelo mesmo paciente: competem pela pergunta. Enunciado que peça o número de critérios, o nome do tipo ou o agrupamento está ancorado no manual americano, e no Brasil é o vocabulário do ensino de graduação e de residência — é o padrão a assumir quando a fonte não é citada. Enunciado que fale em gravidade leve, moderada ou grave, em dificuldade de personalidade, ou que liste domínios de traço como dissocialidade e anancasmo, está ancorado na revisão mais nova da classificação internacional. Um sinal seguro: se a alternativa correta possível descrever o paciente sem nomear nenhum dos dez tipos, a fonte é a classificação internacional.

Farmacoterapia no transtorno de personalidade borderline

Diretriz inglesa

Recomenda que não se use fármaco especificamente para o transtorno nem para os sintomas e comportamentos isolados associados a ele — autolesão repetida, instabilidade emocional acentuada, comportamento de risco e sintomas psicóticos transitórios —, e desaconselha antipsicótico em uso de médio e longo prazo. Admite, com cautela, sedativo de curta duração como parte do plano numa crise, por no máximo uma semana, com fármaco único, dose mínima efetiva e sintoma-alvo, monitorização e duração combinados de antemão.

National Institute for Health and Care Excellence. Borderline personality disorder: recognition and management. Clinical guideline CG78. Londres: NICE, 2009.

Diretriz americana de prática

Organiza o tratamento por dimensões de sintoma e recomenda farmacoterapia dirigida a cada uma delas, associada à psicoterapia — antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina para desregulação afetiva e descontrole impulsivo, e antipsicótico em dose baixa para os sintomas cognitivo-perceptuais.

American Psychiatric Association. Practice Guideline for the Treatment of Patients With Borderline Personality Disorder. Am J Psychiatry. 2001;158(10 Suppl):1-52.

Na prova

Os dois documentos concordam no essencial e discordam na margem, e é a margem que o enunciado usa. Ambos colocam a psicoterapia estruturada como base e ambos rejeitam a polifarmácia crônica; a diferença está em admitir ou não prescrição dirigida a sintoma isolado fora da crise. Para identificar o recorte, olhe o verbo do enunciado: pergunta sobre o tratamento de primeira linha do transtorno tem resposta única e é psicoterapia, em qualquer das duas casas. Pergunta que ofereça um fármaco para um sintoma isolado, sem crise e sem comorbidade nomeada, está pisando na divergência — e nesse caso a pista é a fonte citada e a data. Enunciado que descreva crise aguda com sedação de curta duração e prazo curto explicitado não é divergência: está dentro da ressalva do documento inglês.

06

Caso resolvido

Mulher de 31 anos, primeira consulta, encaminhada pela unidade básica após múltiplos atendimentos por queixas somáticas. No último ano teve episódios de palpitação, sensação de bolo na garganta, tontura e dor torácica atípica, que motivaram seis consultas com profissionais diferentes e investigação previamente negativa, cujos resultados ela traz consigo. A entrevista longitudinal revela, desde o início da vida adulta e de forma estável, desconforto marcado quando não é o centro das atenções, comportamento sedutor inadequado ao contexto, expressão emocional teatral e superficial com mudanças rápidas, uso da aparência para atrair atenção, discurso impressionista e pobre em detalhes, sugestionabilidade acentuada e percepção de relações como mais íntimas do que são. Nega sentimento crônico de vazio, nega autolesão e nega pavor de abandono. Nega ideação suicida atual e prévia. Não há episódio depressivo nem episódio de humor elevado. Não usa substâncias.
1. Os critérios gerais estão preenchidos, e a descrição diz onde
O padrão é descrito como presente desde o início da vida adulta e estável ao longo do tempo, atravessa mais de uma área — afetividade e funcionamento interpessoal —, e produz prejuízo, visível na peregrinação por seis profissionais. Os dois critérios de exclusão também estão fechados pela própria descrição: não há episódio de humor em curso e não há uso de substância. É o que autoriza nomear o tipo agora, e não depois.
2. O tipo, pelos achados que estão e pelos que não estão
Cinco de oito manifestações do quadro histriônico estão descritas com folga. E a descrição nega explicitamente os três achados que fariam o diagnóstico virar borderline — vazio crônico, autolesão e pavor do abandono. Essa negação não é enfeite: é o dado que fecha a discriminação dentro do mesmo agrupamento. Também não há grandiosidade, merecimento nem inveja, o que afasta o quadro narcisista, e não há transgressão desde os 15 anos, o que afasta o antissocial.
3. O que fazer com a pasta de exames
Revisar o que já foi feito antes de pedir qualquer coisa, e explicar por que novos exames não são necessários, checando o entendimento. Diante da palpitação, cabe apenas a complementação ainda não realizada e pertinente — provas de função tireoidiana. Repetir exame já feito e normal, sem dado clínico novo, alivia por dias e realimenta a busca.
4. O tratamento, e o que não entra nele
Psicoterapia como tratamento principal, com a explicação do que ela faz. Fármaco reservado a comorbidade identificada — e aqui não há nenhuma, o que torna errada qualquer alternativa que inicie antidepressivo, ansiolítico ou antipsicótico. Profissional de referência e consultas regulares em prazo definido e duração combinada de antemão, em vez de atendimento por demanda com profissionais diferentes, que é justamente o padrão que trouxe a paciente até aqui.
5. O comportamento do médico é item pontuado
Duas coisas ao mesmo tempo: limites profissionais claros diante do comportamento sedutor e dos elogios insistentes, e validação do sofrimento sem desqualificar as queixas somáticas como invenção. A alternativa que faz só a primeira é fria e perde vínculo; a que faz só a segunda perde o enquadre. E vale registrar objetivamente no prontuário o que foi combinado — prazo do retorno, duração da consulta, sinais que indicariam procura imediata.
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Agora feche você

Homem de 34 anos comparece ao ambulatório por determinação judicial de acompanhamento, sem queixa espontânea de sofrimento psíquico. A demanda que apresenta é a emissão de um laudo e a prescrição de medicamento controlado para insônia. A anamnese longitudinal documenta faltas escolares reiteradas desde os doze anos, fugas do domicílio, agressividade física a pares, crueldade com animais e furtos a partir dos treze anos. Desde o início da vida adulta mantém atos ilícitos repetidos, duas prisões, uso de documento de terceiro para obter crédito, mentiras e nomes falsos para proveito pessoal, impulsividade, irritabilidade com três brigas físicas no último ano e ausência de remorso pelos prejuízos causados. Usa cocaína e álcool, com tentativas de interrupção sem sucesso. Não há sintomas psicóticos e não há história de episódio de humor elevado. Durante a consulta alterna hostilidade e cordialidade excessiva, e insiste no pedido do controlado.
Primeiro
Enuncie o diagnóstico e aponte, na própria descrição, os dois requisitos etários que o sustentam. Diga o que aconteceria com o diagnóstico se um deles não estivesse presente.
Segundo
Aponte os dois dados que a descrição fornece para fechar o critério de exclusão do quadro antissocial, e explique por que essa exclusão existe.
Terceiro
Diga qual é o alvo terapêutico modificável mais consistente neste caso e para onde se encaminha, e explique por que não se inicia fármaco dirigido ao transtorno de personalidade.
Quarto
Descreva como responder aos dois pedidos que ele traz, incluindo o que se registra no prontuário, e diga o que sustenta o vínculo depois de uma recusa.
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Onde a banca derruba

  1. 1Nomear o tipo no meio do episódio agudo Depressão grave parece dependência, mania parece impulsividade e grandiosidade, e intoxicação crônica parece irresponsabilidade. O critério de exclusão manda justamente isso: o padrão não é melhor explicado por outro transtorno mental nem atribuível a substância. A conduta correta trata o episódio e caracteriza o padrão depois, com história longitudinal e informação de quem convive.
  2. 2Diagnosticar antissocial em quem tem menos de 18 anos É a única exceção à regra que permite diagnosticar transtorno de personalidade antes dos 18 quando os traços têm pelo menos um ano de duração. Para o quadro antissocial exige-se idade mínima de 18 anos, e exige-se também evidência de transtorno de conduta com início antes dos 15 — as duas coisas juntas. Faltando qualquer uma, a alternativa que nomeia o transtorno está errada.
  3. 3Trocar histriônica por borderline pela cena dramática As duas se apresentam com emoção intensa e relações turbulentas. Os três achados que decidem só aparecem no quadro borderline: sentimento crônico de vazio, autolesão ou comportamento suicida recorrente, e esforços desesperados para evitar abandono. Enunciado que descreva teatralidade, sugestionabilidade e discurso impressionista, e negue explicitamente esses três, está pedindo o quadro histriônico.
  4. 4Tratar psicopatia como categoria diagnóstica Ela não existe no manual. É um construto avaliado por instrumento próprio, com ênfase em traços afetivos e interpessoais, e não substitui o critério do transtorno de personalidade antissocial. Alternativa que apresente psicopatia como diagnóstico psiquiátrico está errada antes mesmo do conteúdo clínico.
  5. 5Prescrever fármaco para o transtorno em si Nenhum tem indicação para isso. O fármaco entra pela comorbidade tratada com o protocolo dela, ou por sintoma-alvo com prazo e desfecho combinados antes de começar. Benzodiazepínico de manutenção em quadro borderline acrescenta desinibição, dependência e risco em superdosagem a um paciente que já tem impulsividade e autolesão.
  6. 6Escrever só o nome do transtorno no encaminhamento Nenhum dos nove protocolos de regulação ambulatorial de psiquiatria adulto é de transtornos de personalidade, e o residual cobre apenas agitação associada a deficiência intelectual ou a autismo e os transtornos do controle de impulsos. O encaminhamento que abre porta é o que descreve a comorbidade com protocolo próprio, com idade de início, evolução, tratamentos já feitos e prejuízo funcional.
  7. 7Responder a cada autolesão com uma conduta nova Internar a cada episódio de comportamento crônico ensina que o comportamento funciona e eleva a frequência. O que muda a conduta é a mudança em relação à linha de base conhecida — método novo, letalidade maior, perda abrupta de suporte, uso de substância associado, desesperança nova. Fora disso, vale o plano de crise escrito e a consulta em intervalo fixo com a mesma equipe.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O tratamento principal do quadro borderline é psicoterapia estruturada e específica, com a terapia comportamental dialética como a mais estudada, acompanhada do esqueleto que sustenta qualquer das escolas com evidência: enquadre explícito, contrato de tratamento, previsibilidade de horário e duração e plano de crise escrito. Nenhum fármaco tem indicação para tratar o transtorno em si, e é por isso que antipsicótico contínuo, estabilizador do humor sem transtorno bipolar associado e benzodiazepínico de manutenção estão errados como resposta ao que se pergunta — o benzodiazepínico ainda acrescenta desinibição, dependência e risco em superdosagem a quem já tem impulsividade e autolesão. Internação eletiva prolongada em unidade fechada não estabiliza o padrão, afasta a pessoa dos vínculos e do trabalho de reabilitação e tende a reforçar o ciclo de crise seguida de acolhimento institucional; a internação, quando ocorre, é breve e dirigida a risco agudo.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os seis critérios gerais, em ordem, e sublinhe os dois de exclusão. Depois diga as duas idades do quadro antissocial e por que são duas. Feche listando os três achados que separam o quadro borderline do histriônico e a razão pela qual o narcisista que explora o outro não recebe o rótulo antissocial.

em 30 dias

Reconstrua os três agrupamentos com os dez tipos, sem consultar. Depois responda em uma frase cada: o que separa personalidade paranoide de transtorno delirante, personalidade esquizoide de personalidade evitativa, e personalidade obsessivo-compulsiva de transtorno obsessivo-compulsivo. Termine descrevendo por que o encaminhamento pela regulação ambulatorial precisa nomear a comorbidade, e quais são os quatro critérios universais de emergência.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos entra no consultório do ambulatório dizendo que só está ali porque um juiz mandou. Não se queixa de nada, quer um laudo e uma receita de remédio controlado para dormir, e trata o atendimento como uma formalidade a cumprir. Alterna hostilidade e cordialidade excessiva conforme percebe que o pedido pode ser negado. Colha a história desde a infância, avalie o uso de substâncias e o risco, e conduza os dois pedidos que ele traz sem perder o vínculo nem ceder à pressão. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Transtornos de personalidade: o padrão que já estava lá antes da consulta — Preparatório para provas | OsceLabs