PediatriaPuericultura e Desenvolvimento

Escore-z e percentil: a régua por trás das curvas

Avaliação e interpretação de escores Z e percentis antropométricos

A prova entrega o gráfico ou o número e cobra três gestos: converter percentil em escore-z, aplicar o rótulo da faixa etária certa e não confundir posição na distribuição com porcentagem da medida.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente do sexo masculino, 9 meses, nascido a termo, é levado à Unidade Básica de Saúde para consulta de puericultura. A mãe relata boa aceitação da dieta e ausência de queixas. Ao plotar as medidas na caderneta da crianca (curvas da OMS), o pediatra encontra: peso para idade no escore Z entre -1 e 0; comprimento para idade no escore Z entre -3 e -2; e peso para comprimento no escore Z entre +1 e +2. A crianca sempre manteve esse padrao nas consultas anteriores. Qual a interpretacao antropometrica CORRETA deste caso?

02

Como esse tema cai

Toda curva de crescimento — as da Caderneta da Criança, as do consultório, as impressas nas provas — é a mesma ideia estatística desenhada: uma distribuição normal da medida para cada idade e sexo, resumida em linhas de escore-z ou de percentil. A banca raramente pergunta "o que é escore-z" de forma seca. Ela entrega um número ("IMC-para-idade com escore-z +2,4") ou um gráfico e cobra o gesto seguinte: dizer o percentil equivalente, aplicar o rótulo nutricional correto para a idade ou apontar o erro de leitura embutido no enunciado.

Este capítulo é a gramática comum a todos os temas de crescimento e nutrição: a fórmula do escore-z, a leitura correta do percentil, a tabela de conversão entre os dois, o motivo técnico de a OMS trabalhar em z — e as faixas de classificação em que esses números viram diagnóstico. A escolha de qual índice usar em cada idade, as curvas do prematuro, velocidade de crescimento e perímetro cefálico têm capítulo próprio nesta apostila; aqui o assunto é a régua em si, porque é nela que as questões separam quem decorou figura de quem sabe ler o gráfico.

03

O que muda decisão

A curva de Gauss por trás do gráfico: mediana, desvio-padrão e o que o z mede

Peso, estatura, IMC e perímetro cefálico, medidos em milhares de crianças saudáveis da mesma idade e sexo, distribuem-se em curva de Gauss — simétrica, com média, mediana e moda praticamente coincidindo no centro. Essa propriedade é o alicerce de tudo: se a distribuição é normal, basta conhecer dois números — a mediana (o centro) e o desvio-padrão (a dispersão em torno do centro) — para localizar qualquer criança dentro da população de referência.

O escore-z faz exatamente isso. A fórmula é: escore-z = (valor medido − mediana de referência para idade e sexo) ÷ desvio-padrão de referência. O resultado diz quantos desvios-padrão a medida está acima (sinal positivo) ou abaixo (sinal negativo) da mediana. O exemplo clássico do manual da SBP: aos 6 anos, mediana de estatura de 106 cm com desvio-padrão de 3 cm. Uma menina com 112 cm tem z = (112 − 106) ÷ 3 = +2; outra com 103 cm tem z = (103 − 106) ÷ 3 = −1. Mesma idade, mesma curva, posições opostas — e o número carrega as duas informações de uma vez: direção e distância.

Escore-z 0 não significa "sem alteração" nem "peso ideal": significa estar exatamente na mediana da população de referência. E cada unidade de z vale um desvio-padrão inteiro — por isso a diferença entre z −2 e z −3 não é um degrau burocrático, e sim uma distância populacional enorme, como a próxima seção mostra em percentis.

Um refinamento evita conta errada: nem toda medida se distribui com simetria perfeita. Peso e IMC têm cauda superior mais longa (há mais crianças muito pesadas do que muito leves), e os referenciais modernos modelam essa assimetria ao construir tabelas e curvas. A consequência prática é que, longe da mediana — sobretudo no polo superior do peso —, a distância em quilos entre linhas vizinhas de z não é constante, e o z exato se lê na curva ou na tabela oficial, não por regra de três a partir de um único desvio-padrão. Perto do centro, a fórmula manual funciona bem; nos extremos, ela é aproximação.

Curva de Gauss com sete linhas verticais igualmente espaçadas marcando os escores-z inteiros e faixas sombreadas simétricas sob a curva
A distribuição normal por trás de toda curva de crescimento: cada linha vertical é um escore-z inteiro (de −3 a +3) e a área acumulada à esquerda de cada linha é o percentil correspondente.

Percentil: a posição na fila — e duas leituras erradas que a prova adora

O percentil apresenta a mesma distribuição de outro jeito: ordena os valores de referência como se fossem 100 e informa a posição relativa. Estar no percentil 50 significa que metade das crianças daquela idade e sexo mede mais e metade mede menos; estatura no percentil 10 significa que 90% dos pares são mais altos. É a linguagem mais intuitiva para conversar com a família — "de cada 100 meninos da idade dele, ele é mais alto que 10" — e por isso domina a prática ambulatorial.

Duas leituras erradas aparecem repetidamente em alternativas de prova. A primeira é tratar percentil como porcentagem da medida: peso no percentil 15 não é "peso 15% abaixo do esperado" — é posição na distribuição, não fração da mediana. A segunda é confundir percentil com frequência do valor: dizer que uma criança está no percentil 85 de IMC afirma que 85% das crianças de referência têm IMC menor que o dela (frequência acumulada à esquerda), e não que "85% têm esse mesmo IMC" ou que o IMC dela "é 85% do máximo".

A terceira leitura errada é tratar o percentil 50 como meta individual. A mediana é o centro estatístico da referência, não o alvo terapêutico de cada criança: metade das crianças saudáveis vive a vida inteira abaixo dele. Filho de pais baixos, estável no percentil 10 com velocidade de crescimento normal, não precisa "subir para o 50" — e conduta que persegue esse número (fórmulas hipercalóricas, estimulantes de apetite) trata o gráfico, não o paciente.

Vale lembrar que todo valor dentro da curva de referência veio de crianças supostamente saudáveis: percentis extremos são raros, não automaticamente patológicos. É essa raridade crescente em direção às pontas que fundamenta os pontos de corte — quanto mais extremo o percentil, maior o risco de anormalidade, embora o diagnóstico nunca se feche por antropometria isolada.

A tabela de conversão que resolve metade das questões

Como a distribuição é normal, cada escore-z inteiro corresponde a um percentil fixo — e essa correspondência é a chave de conversão que a prova cobra de forma direta ou disfarçada. Os valores exatos: z −3 → percentil 0,1; z −2 → percentil 2,3; z −1 → percentil 15,9; z 0 → percentil 50; z +1 → percentil 84,2; z +2 → percentil 97,7; z +3 → percentil 99,9. Na prática clínica e nos documentos do Ministério da Saúde, os equivalentes são arredondados para as linhas que os gráficos efetivamente trazem: 0,1 — 3 — 15 — 50 — 85 — 97 — 99,9.

Duas âncoras evitam a pegadinha mais batida: percentil 3 equivale a escore-z −2 (não a −3, apesar da rima), e percentil 85 equivale a escore-z +1. Quem grava esses dois pares reconstrói o resto por simetria: 97 é o espelho do 3 (z +2), 15 é o espelho do 85 (z −1), e as pontas 0,1 e 99,9 pertencem aos z ±3.

A mesma matemática dá as frequências que contextualizam gravidade: entre z −1 e +1 está cerca de 68% da população de referência; entre −2 e +2, cerca de 95%; entre −3 e +3, 99,7%. Fora de ±3 resta aproximadamente 0,1% de cada lado — na nomenclatura do manual da SBP, um adolescente abaixo do percentil 0,1 de IMC é 1 em 1.000: achado que exige investigar distúrbio alimentar, e não apenas anotar o número.

Na prática da prova, o ponto raramente cai em cima de uma linha — cai entre duas, e a resposta se escreve como intervalo. O raciocínio é sempre o mesmo: z −2,5 está entre as linhas −3 e −2, logo entre os percentis 0,1 e 3; um IMC "no percentil 90" aos 7 anos está entre as linhas +1 (percentil 85) e +2 (percentil 97), logo na faixa de sobrepeso do escolar. Enunciado em percentil com alternativas em z (ou o contrário) não é sofisticação: é só a conversão desta tabela cobrada no sentido menos ensaiado.

Por que a OMS trabalha em escore-z (e onde o percentil trava)

O percentil tem um defeito estrutural: satura nos extremos. Abaixo do percentil 0,1, toda criança vira "<0,1" — a escala simplesmente acaba, e uma criança gravemente desnutrida com z −3,2 fica indistinguível de outra, muito pior, com z −4,5. O escore-z segue contando além da borda do gráfico, em unidades de significado constante. É por isso que a OMS e o Ministério da Saúde definem e monitoram as formas graves pelo z, e é o z que gradua a distância da normalidade quando a doença importa mais.

A segunda vantagem é aritmética. Percentil é ordenação, e ordenação não se soma nem se promedia; escore-z é número em escala contínua, que permite calcular média e desvio de um grupo, comparar populações e medir mudança individual. No seguimento, a variação do z (o delta z) quantifica a resposta ao tratamento mesmo onde o percentil não enxerga: a criança que sai de z −3,4 para z −1,9 atravessou 1,5 desvio-padrão de recuperação, enquanto em percentis ela apenas saiu de "<0,1" para "cerca de 3" — quase invisível.

O percentil devolve o favor na comunicação: família entende posição na fila, não desvio-padrão. Os dois idiomas descrevem o mesmo ponto da mesma curva, e o profissional precisa transitar entre eles sem atrito — que é exatamente a habilidade que as questões testam.

Do número ao rótulo: as faixas de z e o aniversário que muda o nome

Aplicada a fórmula ou lido o gráfico, o número precisa virar diagnóstico nutricional — e os rótulos vigentes, adotados pelo Ministério da Saúde a partir da nomenclatura da OMS e reproduzidos pela SBP, são definidos por faixas de escore-z. No polo do déficit a régua é estável em todas as idades: abaixo de −2 há comprometimento (baixo peso, magreza, baixa estatura, conforme o índice) e abaixo de −3 o prefixo agrava (muito baixo peso, magreza acentuada, muito baixa estatura). No polo do excesso, avaliado pelo IMC-para-idade, a fronteira dos rótulos é sempre +1, +2 e +3 — mas o nome de cada faixa muda no aniversário de 5 anos.

No déficit, o nome acompanha o índice: peso-para-idade abaixo de −2 é baixo peso (abaixo de −3, muito baixo peso); estatura-para-idade, baixa estatura (muito baixa abaixo de −3); peso-para-estatura e IMC-para-idade, magreza (acentuada abaixo de −3). O padrão é único — fronteira em −2, prefixo agravado em −3 — e o que muda é apenas o substantivo, denunciando qual dimensão do crescimento está comprometida: o peso global, o crescimento linear ou a proporção entre massa e estatura.

De 0 a 5 anos incompletos: z entre +1 e +2 é risco de sobrepeso; entre +2 e +3, sobrepeso; acima de +3, obesidade. De 5 a 19 anos: entre +1 e +2 já é sobrepeso; entre +2 e +3, obesidade; acima de +3, obesidade grave. O mesmo z +2,4 rotula sobrepeso numa criança de 3 anos e obesidade numa de 8 — sem que nada tenha mudado no corpo, apenas na régua. A lógica é assumidamente conservadora no lactente e pré-escolar, em que adiposidade transitória é comum e o rótulo "obesidade" precoce tem custo; a partir da idade escolar, a mesma distância da mediana prediz risco metabólico com mais força e o nome endurece.

Duas notas da própria tabela oficial derrubam alternativas frequentes. Primeira: no peso-para-idade, z acima de +2 recebe o rótulo "peso elevado para a idade" — que não é diagnóstico de obesidade; excesso de peso se avalia por IMC-para-idade (ou peso-para-estatura no menor de 5 anos). Segunda: estatura-para-idade só classifica para baixo; acima de +3 a criança é muito alta e isso raramente é problema, mas a suspeita de causa endócrina ou tumoral indica avaliação especializada.

Entre z −2 e −1 (percentis 3 a 15) fica a faixa que os documentos chamam de vigilância: o diagnóstico é de adequação, mas criança nessa faixa — sobretudo com linha descendente no gráfico — requer atenção redobrada de profissional e cuidadores. A faixa não é pequena: concentra cerca de 13% da população de referência, uma em cada sete ou oito crianças saudáveis. A nomenclatura antiga "risco nutricional" para essa faixa foi abandonada: rotular de baixo peso quem está em −1,6 antecipa um diagnóstico que a régua não dá.

Um último limite de aplicação derruba questão inteira: adolescente não se classifica pelos cortes absolutos do adulto. IMC 24 kg/m² é eutrofia num homem de 30 anos e pode ser sobrepeso ou obesidade num menino de 12 — no menor de 20 anos, o IMC só ganha significado posicionado na curva de IMC-para-idade, porque o valor normal muda ano a ano. Os cortes fixos 18,5, 25 e 30 passam a valer a partir dos 20 anos; a transição é suave porque, aos 19, os valores absolutos correspondentes aos cortes de z se aproximam dos do adulto — mas o caminho até lá é sempre pela curva, nunca pela tabela do adulto.

O z na prática: medida repetida, ponto no contexto e o número absurdo

O escore-z herda todos os defeitos da medida que o alimenta. Antes de rotular — e antes de responder a questão — vale o reflexo: z discrepante da clínica pede medida repetida com técnica correta, porque erro de balança destravada, comprimento aferido de pé em lactente ou roupa pesada desloca desvios-padrão inteiros. Um z incompatível com a criança que se enxerga (z +6 de peso, z −9 de estatura) denuncia, quase sempre, erro de digitação, de unidade ou de idade lançada — não um fenômeno biológico.

Boa parte dos z errados nasce antes mesmo da fita métrica: idade lançada errada (as curvas trabalham com idade em meses completos — arredondar 4 meses e 25 dias para 5 meses desloca o ponto), sexo trocado na hora de escolher o gráfico, estatura medida em pé antes dos 2 anos ou deitada depois deles — a medida em pé é sistematicamente um pouco menor que a deitada, e perto de fronteira essa diferença troca o rótulo. Conferir os dados de entrada é o primeiro passo da interpretação, não burocracia.

O número isolado também não conta a história: um ponto é fotografia, a série é o filme. Uma criança estável no percentil 10 desde o nascimento provavelmente é saudável e pequena; outra que veio do percentil 85 e hoje cruza o 15 tem z "normal" e trajetória francamente anormal. A leitura em série — canais de crescimento e velocidade — tem capítulo próprio; o que pertence a este é a regra de ouro: classificar pelo ponto, decidir pela trajetória.

Por fim, o z é a moeda comum entre serviços: o mesmo lactente descrito como "peso no percentil 1" na carta de encaminhamento e como "P/I z −2,6" na contrarreferência está no mesmo lugar da curva. Saber que as duas frases são sinônimos — e que ambas ficam entre as linhas de −3 e −2 do gráfico de peso-para-idade — é o que impede tanto o alarme desnecessário quanto a falsa tranquilidade.

O que o número não decide sozinho

A antropometria é triagem, não veredito. O próprio manual da SBP é explícito: exceto nos casos muito pronunciados, as medidas corporais servem para selecionar quem merece avaliação mais fina — o diagnóstico nutricional se confirma com anamnese, exame físico e, quando indicado, exames complementares. O escore-z abre a investigação; ele não a encerra. E como toda a curva foi construída com crianças supostamente saudáveis, existir criança saudável em z −2,3 ou +2,8 não é paradoxo: é a definição da cauda da distribuição.

Diante de um z alterado, a sequência que evita tanto o sobrediagnóstico quanto o atraso é sempre a mesma: confirmar a medida (técnica e equipamento), conferir os dados de entrada (idade, sexo, unidade), posicionar o ponto na série da própria criança e só então interpretar à luz da clínica — alimentação, sintomas, contexto familiar, estatura dos pais. Uma criança com z −2,2 de estatura, pais baixos, velocidade de crescimento normal e exame normal conta uma história; o mesmo z com queda de canal e sintomas conta outra — e é a história, não o número, que decide entre observar, investigar e encaminhar.

O rótulo, por fim, é porta de entrada de conduta, não sentença: risco de sobrepeso pede orientação e reavaliação; obesidade pede abordagem ativa e busca de comorbidades; magreza acentuada pede avaliação imediata. Cada uma dessas portas tem capítulo próprio — o que este capítulo entrega é a chave: ler o número certo, na curva certa, com o nome certo.

04

Da medida ao rótulo: conversão e leitura em quatro passos

Qualquer questão de antropometria se resolve com a mesma sequência: localizar o ponto, ler a posição, converter de idioma se a banca trocar (percentil por z ou o contrário) e aplicar o rótulo da faixa etária certa.

  1. 1Localize o ponto: calcule z = (medida − mediana) ÷ desvio-padrão, ou plote a medida na curva do índice adequado à idade.
  2. 2Leia a posição: identifique entre quais linhas de escore-z (ou percentil) o ponto caiu.
  3. 3Converta se preciso: z −2 ≈ percentil 3; z −1 ≈ 15; z +1 ≈ 85; z +2 ≈ 97; z ±3 ≈ 0,1 e 99,9.
  4. 4Aplique o rótulo da faixa etária (0-5 ou 5-19 anos para o IMC) e registre o z exato — é ele que permitirá medir a evolução na próxima consulta.

Abaixo de −2: déficit

Menos de 3% da população de referência. Baixo peso, magreza ou baixa estatura conforme o índice; abaixo de −3 (percentil 0,1), o prefixo agrava: formas acentuadas, 1 em 1.000.

Entre −2 e +1: adequação

Faixa da eutrofia em todos os índices. Entre −2 e −1 (percentis 3 a 15), adequação com vigilância: atenção à trajetória, sem rótulo de doença.

Acima de +1: excesso

No IMC-para-idade, é onde o rótulo depende da idade: +1 a +2 é risco de sobrepeso antes dos 5 anos e sobrepeso a partir deles; cada linha acima sobe um degrau.

Escore-zPercentil exatoLinha usada nas curvasLeitura rápida
−30,130,11 em 1.000 abaixo; formas acentuadas
−22,283fronteira do déficit
−115,915piso da faixa de vigilância
05050mediana da referência
+184,285fronteira inferior do excesso (IMC)
+297,797sobe um degrau o rótulo de excesso
+399,8799,91 em 1.000 acima; degrau máximo

Quanto da população de referência cabe em cada faixa

Faixa de escore-zProporção esperada
entre −1 e +1cerca de 68%
entre −2 e +2cerca de 95%
entre −3 e +399,7%
abaixo de −3 (ou acima de +3)cerca de 0,1% de cada lado — 1 em 1.000

Rótulos do IMC-para-idade por faixa de escore-z (OMS/MS)

Faixa de z0 a 5 anos incompletos5 a 19 anos
abaixo de −3magreza acentuadamagreza acentuada
−3 a −2magrezamagreza
−2 a +1eutrofiaeutrofia
+1 a +2risco de sobrepesosobrepeso
+2 a +3sobrepesoobesidade
acima de +3obesidadeobesidade grave

Entre −2 e −1 o diagnóstico é de adequação com vigilância — a nomenclatura antiga "risco nutricional" para essa faixa foi abandonada.

No peso-para-idade, z acima de +2 é "peso elevado para a idade", que não fecha diagnóstico de obesidade: excesso de peso se avalia pelo IMC-para-idade.

O percentil 3 das curvas é arredondamento do exato 2,3 (z −2); a rima "percentil 3, z −3" é armadilha, não equivalência.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Excesso de peso antes dos 5 anos: a nomenclatura preliminar do SISVAN (2008) contra a régua vigente

Material preliminar da Norma Técnica do SISVAN (fev/2008)

Classificava o IMC-para-idade de toda criança menor de 10 anos numa régua única: sobrepeso entre +1 e +2 e obesidade a partir de +2, sem a categoria "risco de sobrepeso" e sem "obesidade grave".

Ministério da Saúde. Norma Técnica SISVAN — material preliminar, fevereiro de 2008.

Régua vigente (nomenclatura OMS 2006 adotada pelo MS e pela SBP)

Separa as faixas etárias: de 0 a 5 anos, +1 a +2 é risco de sobrepeso, +2 a +3 é sobrepeso e só acima de +3 é obesidade; de 5 a 19 anos, +1 a +2 é sobrepeso, +2 a +3 é obesidade e acima de +3 é obesidade grave. É a nomenclatura da Norma Técnica do SISVAN de 2011, dos relatórios atuais do sistema e do manual da SBP.

MS, Norma Técnica SISVAN, 2011 (nomenclatura do curso de capacitação da OMS, 2006); SBP, Manual de Avaliação Nutricional, 2009.

Na prova

A data do documento e as categorias presentes nas alternativas denunciam a régua em uso: "risco de sobrepeso" e "obesidade grave" só existem na nomenclatura vigente; material antigo (e questão antiga reaproveitada) chama de obesidade o pré-escolar com z entre +2 e +3. Enunciado com criança menor de 5 anos e alternativa "sobrepeso" ao lado de "obesidade" para o mesmo z é teste da régua vigente.

Classificar o excesso de peso por faixas de escore-z ou por percentil fixo

OMS / Ministério da Saúde / SBP — faixas de escore-z

O Brasil adota as curvas OMS 2006 e 2007 com rótulos definidos por escore-z (+1, +2, +3) e nomes que mudam aos 5 anos. É a régua da Caderneta da Criança, do SISVAN e das provas que citam documentos nacionais.

MS, Norma Técnica SISVAN, 2011; SBP, Manual de Avaliação Nutricional, 2009.

CDC 2000 — percentis fixos, tradição norte-americana

As curvas do CDC de 2000, usadas nos Estados Unidos a partir dos 2 anos, definem sobrepeso como IMC do percentil 85 ao 95 e obesidade a partir do percentil 95, sem a categoria intermediária de risco. Literatura e questões traduzidas dessa tradição trazem P85/P95 como pontos de corte.

CDC Growth Charts, 2000 (referidas e comparadas às curvas OMS no manual da SBP, 2009).

Na prova

O vocabulário das alternativas identifica o recorte: pontos de corte em percentil 85/95 apontam para a referência norte-americana (CDC); faixas de escore-z com "risco de sobrepeso" apontam para OMS/MS. Cenário de UBS, Caderneta ou SISVAN pede a régua brasileira; prova oficial do MEC tende à conduta SUS. A diferença é de referencial adotado por cada país, não de erro de uma das escolas.

06

Caso resolvido

Menino de 3 anos e 8 meses em consulta de rotina na UBS. Peso 18,0 kg, estatura 100 cm; IMC 18,0 kg/m². Plotado no gráfico de IMC-para-idade da Caderneta, o ponto cai pouco acima da linha de escore-z +2. A mãe pergunta, assustada, se o filho "já é obeso".
achado
IMC-para-idade acima da linha de +2 e abaixo da de +3 — escore-z entre +2 e +3, equivalente a percentil entre 97 e 99,9.
leitura
Criança com menos de 5 anos: a faixa +2 a +3 recebe o rótulo sobrepeso — não obesidade, que antes dos 5 anos exige z acima de +3.
verificação
Repetir as medidas com técnica correta (balança calibrada, sem sapatos) e conferir a trajetória na Caderneta: ponto novo ou canal que vem subindo há meses mudam a urgência da abordagem.
conduta
Responder à mãe com a régua na mão: "é sobrepeso, e é o momento certo de agir" — orientação alimentar e de atividade, seguimento marcado, sem rótulo de obesidade que a curva não dá.
07

Agora feche você

Menina de 8 anos, assintomática, IMC-para-idade com escore-z +2,3. A mãe traz anotação de consulta feita aos 3 anos de idade: "IMC/idade z +2,1 — sobrepeso". Está convencida de que a filha "engordou de categoria" porque o rótulo de hoje veio diferente.
achado
Aos 8 anos, IMC-para-idade entre +2 e +3 — percentil entre 97 e 99,9.
classificação e explicação à mãe
08

Onde a banca derruba

  1. 1"Percentil 3 equivale a escore-z −3" A rima dos números atrai, mas percentil 3 é z −2. O z −3 corresponde ao percentil 0,1 — três degraus de gravidade abaixo. É a troca mais rentável para a banca porque parece detalhe e muda o diagnóstico.
  2. 2"z +2 de IMC é obesidade em qualquer idade" Antes dos 5 anos, +2 a +3 é sobrepeso; obesidade exige z acima de +3. A alternativa "obesidade" para o pré-escolar com z +2,4 está errada pela régua vigente — e correta pela régua de material antigo, que é exatamente o que a questão testa.
  3. 3"Peso-para-idade acima de +2 = criança obesa" O rótulo ali é "peso elevado para a idade", e a nota da própria tabela manda avaliar excesso de peso pelo IMC-para-idade (ou peso-para-estatura no menor de 5 anos). Peso-para-idade serve mal ao excesso porque não separa massa de estatura: criança alta carrega peso alto sem sobrar gordura.
  4. 4"Está fora do gráfico, então não dá para avaliar" Abaixo do percentil 0,1 o percentil satura, mas o escore-z continua: −3,8 é mensurável, comparável e é o número que gradua a desnutrição grave e mede a resposta ao tratamento (delta z). Ponto fora das linhas impressas pede cálculo, não desistência.
  5. 5"Entre −2 e −1 é baixo peso leve" A faixa dos percentis 3 a 15 é adequação com vigilância — atenção redobrada, sobretudo se a linha vem descendo. Rotular de baixo peso quem está em −1,6 antecipa diagnóstico que a régua não dá; a nomenclatura antiga "risco nutricional" foi abandonada.
  6. 6"IMC 26 aos 13 anos é sobrepeso, como no adulto" Os cortes absolutos 18,5/25/30 só valem a partir dos 20 anos. No adolescente, o mesmo IMC 26 pode ser obesidade — o valor precisa ser posicionado na curva de IMC-para-idade e lido em escore-z. Alternativa que classifica menor de 20 anos por corte fixo de adulto está errada por método, antes mesmo do número.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Pela classificacao da OMS, comprimento/estatura para idade entre Z -3 e -2 define BAIXA ESTATURA para a idade (stunting). O peso para comprimento entre Z +1 e +2 esta dentro da faixa de eutrofia (risco de sobrepeso comeca acima de +2), portanto o peso e adequado para o comprimento atual. Erra: ha um indice claramente alterado (estatura Z entre -3 e -2), logo o crescimento nao e adequado. Erra: magreza exige peso/comprimento abaixo de Z -2, e aqui esta positivo (+1 a +2). Erra: muito baixo peso para idade exige peso/idade abaixo de Z -3, mas aqui o peso/idade esta entre -1 e 0 (normal). Erra: sobrepeso exige peso/comprimento acima de Z +2; +1 a +2 ainda e faixa de eutrofia/risco, nao sobrepeso, e a estatura esta reduzida, nao adequada.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a tabela de conversão (z −3, −2, −1, 0, +1, +2, +3 → percentis 0,1, 3, 15, 50, 85, 97, 99,9) e os rótulos do IMC-para-idade nas duas faixas etárias, marcando onde o mesmo z muda de nome aos 5 anos.

em 30 dias

Pegue duas questões antigas com curva ou escore-z no enunciado e resolva convertendo para o outro idioma (percentil ↔ z) antes de olhar as alternativas; confira se o rótulo mudaria caso a criança tivesse mais ou menos de 5 anos e se alguma alternativa usa a régua de percentil fixo do CDC.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Consulta de puericultura: a família chega com a Caderneta aberta no gráfico, assustada com "o ponto perto da linha de baixo". Cabe a você medir, plotar, converter o número em rótulo — e em explicação que os pais entendam. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Avaliação e interpretação de escores Z e percentis antropométricos – Escore-z e percentil: a régua por trás das curvas — Preparatório para provas | OsceLabs