PediatriaPuericultura e Desenvolvimento

Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor

A prova cobra o instrumento brasileiro: os quatro marcos de cada faixa da Caderneta da Criança, a classificação em adequado / alerta / provável atraso e a conduta de cada uma. Marco que falta da faixa ANTERIOR não é alerta — é provável atraso; e perder o que já fazia é bandeira vermelha em qualquer idade.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 7 anos, com atraso na aquisição da marcha e dificuldade para correr e subir escadas, apresenta ao exame hipertrofia de panturrilhas, marcha anserina e sinal de Gowers positivo. Os reflexos aquileus estão presentes. A dosagem de creatinofosfoquinase (CPK) está em torno de 15.000 U/L (VR até 200). A mãe tem um irmão que faleceu na adolescência por causa semelhante. Qual é o exame que confirma o diagnóstico com maior especificidade e menor morbidade?

02

Como esse tema cai

Este capítulo resolve uma pergunta prática: a criança chegou à consulta de puericultura, você olhou para ela — o desenvolvimento está adequado, em alerta ou em provável atraso, e o que você faz agora. O eixo é o instrumento brasileiro, o da Caderneta da Criança, porque é ele que o aluno vai usar na UBS e é dele que a banca tira o marco. Quem decora uma lista genérica de marcos ('senta aos 6, anda aos 12, fala aos 12') acerta a metade das questões e erra exatamente as que separam candidatos: as que dão um marco ausente e pedem a classificação e a conduta.

Os 48 marcos das 12 faixas etárias, do nascimento aos 42 meses, foram lidos na Caderneta da Criança e conferidos coluna a coluna, para não errar a qual faixa cada um pertence. A classificação em três categorias — desenvolvimento adequado, alerta para o desenvolvimento e provável atraso no desenvolvimento — e a conduta de cada uma vêm do Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança, impresso na própria Caderneta. Os sinais de alerta por idade e o vocabulário esperado aos 18 e aos 24 meses vêm do documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre a campanha da Caderneta. A pontuação do M-CHAT-R veio do documento oficial do instrumento em português. AAP e USPSTF entram para contraste, com o ano de cada posição.

O que fica de fora: crescimento. Peso, estatura, índice de massa corporal e as curvas da OMS têm capítulo próprio nesta apostila, e não são a mesma vigilância. O perímetro cefálico aparece aqui em uma única função — a que o instrumento lhe dá — como critério de provável atraso quando está abaixo de -2 ou acima de +2 escores Z. Triagem neonatal (pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho) também tem capítulo próprio; aqui ela reaparece só onde a conduta exige, que é na criança com atraso de linguagem, em quem a audição precisa ser reavaliada mesmo que a triagem neonatal tenha passado.

03

O que muda decisão

Vigilância, triagem e teste: três coisas diferentes, e a prova sabe disso

Como usar este capítulo: comece pela idade cronológica ou corrigida e pergunte se o marco apareceu, se está atrasado ou se houve perda de habilidade. Depois aplique a regra de classificação, reconheça sinais de alerta e decida entre vigilância, triagem padronizada e encaminhamento.

Vigilância do desenvolvimento é processo contínuo: acompanhar, em todas as consultas, se a criança está adquirindo o que se espera, cercando isso de fatores de risco, exame físico e — a Caderneta é explícita nesse ponto — da opinião do cuidador sobre o próprio filho. Não produz escore, não produz diagnóstico, não tem ponto de corte. Produz uma decisão: seguir a rotina, marcar retorno em 30 dias ou encaminhar. É isso que o instrumento da Caderneta faz.

Triagem é outra coisa: um instrumento padronizado, aplicado em idades definidas, com pontuação e ponto de corte, que separa quem precisa de avaliação diagnóstica de quem não precisa. O M-CHAT-R é triagem. O Denver II é triagem. Nenhum dos dois diagnostica nada. Diagnóstico é o terceiro nível: avaliação especializada, multiprofissional, com instrumentos e tempo que a consulta de puericultura não tem.

No Brasil essa arquitetura tem uma peculiaridade jurídica que vale nota. A Lei nº 13.438/2017 tornou obrigatória, na consulta pediátrica de toda criança nos primeiros 18 meses de vida, a aplicação de protocolo destinado a detectar risco para o desenvolvimento psíquico. O Ministério da Saúde respondeu em novembro de 2017, por ofício, orientando o uso da Caderneta da Criança como o instrumento de maior alcance para essa vigilância — inclusive na dimensão psíquica. Ou seja: no SUS, o instrumento não é uma sugestão pedagógica, é a resposta oficial a uma obrigação legal.

A Caderneta marca consultas na 1ª semana e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12, 18, 24 e 36. Em cada uma dessas páginas de registro existe um campo numerado 'Desenvolvimento' com três quadradinhos: adequado para a idade, alerta para o desenvolvimento, provável atraso no desenvolvimento. Isso responde a uma pergunta que aparece em prova disfarçada de detalhe: com que frequência se avalia o desenvolvimento? Em toda consulta de puericultura, e o resultado se registra por escrito na Caderneta, porque o valor da vigilância é longitudinal — uma classificação isolada vale pouco, a sequência de classificações vale muito.

Guarde a diferença de vocabulário, porque ela denuncia o recorte da questão. 'Instrumento de vigilância', 'faixa etária anterior', 'alerta para o desenvolvimento', 'provável atraso' são palavras da Caderneta. 'Teste de triagem', 'normal, questionável ou anormal', 'setores pessoal-social, motor fino-adaptativo, linguagem e motor grosseiro' são palavras do Denver II. 'Triagem nas consultas de 9, 18 e 30 meses' é vocabulário da American Academy of Pediatrics e não existe no calendário brasileiro.

A tabela: quatro marcos por faixa, do nascimento aos 3 anos e meio

O instrumento tem uma arquitetura simples e é ela que torna a memorização possível. São 12 faixas etárias e cada faixa tem exatamente quatro marcos — na Caderneta, quatro linhas coloridas da mesma cor. As faixas são estreitas no começo, quando tudo muda rápido, e vão alargando: 0 a 1 mês, 1 a 2, 2 a 4, 4 a 6, 6 a 9, 9 a 12, 12 a 15, 15 a 18, 18 a 24, 24 a 30, 30 a 36 e 36 a 42 meses. O marco é esperado até o fim da faixa: a criança de 7 meses que ainda não senta sem apoio está dentro do intervalo 6 a 9 meses e não está atrasada; a de 9 meses e meio que não senta perdeu o prazo.

Os quatro marcos de cada faixa não são aleatórios: eles varrem os quatro domínios do desenvolvimento — motor grosseiro, motor fino ou adaptativo, linguagem e pessoal-social. Na faixa de 6 a 9 meses, por exemplo, 'senta-se sem apoio' é motor grosseiro, 'transfere objetos de uma mão para a outra' é motor fino, 'duplica sílabas' é linguagem e 'brinca de esconde-achou' é social e cognitivo ao mesmo tempo — é a permanência do objeto virando brincadeira. Ler a tabela por domínio, e não como lista, é o que permite reconstruir um marco esquecido na hora da prova.

A linha do motor grosseiro é a mais cobrada e a mais fácil de encadear: postura em flexão e elevar a cabeça no primeiro mês; levantar a cabeça apoiando-se nos antebraços em decúbito ventral entre 2 e 4 meses; rolar entre 4 e 6; sentar sem apoio entre 6 e 9; andar com apoio entre 9 e 12; andar sem apoio entre 12 e 15; andar para trás entre 15 e 18; chutar a bola entre 18 e 24; pular com os dois pés entre 24 e 30; arremessar a bola entre 30 e 36; equilibrar-se em um pé por um segundo entre 36 e 42 meses. A regra biológica por trás é céfalo-caudal e próximo-distal: primeiro a cabeça, depois o tronco, depois os membros; primeiro o ombro, depois a mão, depois os dedos.

A linha da linguagem começa antes da palavra e é a que mais engana. Emitir sons que não sejam choro é marco de 1 a 2 meses; rir alto entra entre 2 e 4; duplicar sílabas (papá, dadá, mamã) entre 6 e 9; o jargão — aquela conversa incompreensível com entonação de frase — entre 9 e 12; a primeira palavra com significado, que não seja nome de familiar nem de bicho de estimação, entre 12 e 15; três palavras entre 15 e 18; frases de duas palavras com sentido de ação ('quer água') entre 24 e 30 meses. Repare que a Caderneta não põe frase de duas palavras aos 24 meses redondos, e essa diferença de meio ano em relação ao que a SBP e a AAP chamam de sinal de alerta está no bloco de divergências, porque é exatamente onde o aluno erra.

A linha do motor fino tem um encadeamento próprio que vale decorar junto: abrir as mãos espontaneamente (1 a 2 meses) precede segurar objeto oferecido (2 a 4), que precede a busca ativa do objeto (4 a 6), que precede transferir de uma mão para a outra (6 a 9), que precede a pinça (9 a 12). A pinça só nasce depois que a preensão palmar reflexa some — motivo pelo qual reflexo primitivo persistente atrasa marco de motor fino, e não por acaso. Depois vem a construção: colocar bloco na caneca (12 a 15), torre de 2 cubos (15 a 18), de 3 cubos (18 a 24) e de 6 cubos (24 a 30).

A linha pessoal-social é a que a triagem de autismo vai reencontrar mais adiante: sorrir quando estimulada (1 a 2 meses), responder ativamente ao contato social (2 a 4), esconde-achou (6 a 9), imitar gestos como bater palmas e dar tchau (9 a 12), mostrar o que quer sem chorar — apontando, estendendo a mão ou falando (12 a 15) —, tirar a roupa (18 a 24), vestir-se com supervisão (24 a 30) e brincar com outras crianças (30 a 36). Quase todos os sinais precoces de transtorno do espectro autista moram nesta coluna, e é por isso que ela não é enfeite.

Sequência ilustrada do desenvolvimento motor grosseiro: recém-nascido em flexão, lactente em decúbito ventral apoiado nos antebraços, rolando, sentado sem apoio, engatinhando, de pé com apoio, andando sem apoio e equilibrando-se em um pé.
A linha do motor grosseiro do instrumento da Caderneta, na ordem em que ela é cobrada. O sentido é céfalo-caudal: primeiro a cabeça, depois o tronco, depois os membros — e cada etapa depende da anterior ter chegado na hora.

A regra que decide a classificação (e o erro que ela pune)

A lógica do instrumento é de dois degraus e cabe numa frase: o que decide a gravidade não é quantos marcos faltam, é de qual faixa eles faltam. Falta marco da faixa em que a criança está agora — alerta para o desenvolvimento. Falta marco da faixa anterior — provável atraso no desenvolvimento. Essa é a distinção que o instrumento existe para fazer e é a que a questão de prova costuma testar, dando um marco ausente e três alternativas que diferem apenas na classificação e no prazo de retorno.

Por isso a Caderneta manda, quando falta algum marco da faixa atual, voltar à faixa anterior e verificar os marcos dela também. Sem esse passo você não consegue classificar: as duas categorias começam com 'falta um marco'. Um lactente de 10 meses que não senta sem apoio parece, à primeira vista, um caso de alerta — afinal, falta um marco. Mas sentar sem apoio pertence à faixa de 6 a 9 meses, que já passou: é provável atraso, e a conduta muda de 'retorno em 30 dias' para 'acionar a rede especializada agora'.

Há uma exceção declarada, e é no recém-nascido: na faixa de 0 a 1 mês não existe faixa anterior, então a ausência de um ou mais marcos da própria faixa já classifica como provável atraso. Faz sentido clínico — no primeiro mês de vida, o que se avalia são posturas e respostas primitivas, e a ausência delas não é lentidão de aquisição, é sinal neurológico.

Dois critérios classificam como provável atraso mesmo com todos os marcos presentes. O primeiro é o perímetro cefálico abaixo de -2 ou acima de +2 escores Z: microcefalia e macrocefalia entram no instrumento como achado de alarme por si sós, e é aqui — só aqui — que uma medida de crescimento decide desenvolvimento. O segundo é a presença de três ou mais alterações fenotípicas entre as que a Caderneta lista: fenda palpebral oblíqua, olhos afastados, implantação baixa de orelhas, lábio leporino, fenda palatina, pescoço curto ou largo, prega palmar única e quinto dedo da mão curto e recurvado. Três ou mais delas juntas sugerem síndrome genética, e criança sindrômica se avalia, não se observa.

E há o critério que produz a classificação mais contraintuitiva de todas: criança com todos os marcos da faixa presentes, mas com um ou mais fatores de risco, é alerta para o desenvolvimento — não é desenvolvimento adequado. Os fatores de risco que o instrumento lista são ambientais e biológicos: violência doméstica, depressão materna, álcool ou drogas entre os moradores da casa, suspeita de abuso sexual, infecção na gestação (o grupo STORCH mais Zika), pré-natal ausente ou incompleto, problemas na gestação, no parto ou no nascimento, prematuridade abaixo de 37 semanas, peso ao nascer abaixo de 2.500 g, icterícia grave, internação neonatal, meningite, traumatismo craniano ou convulsões, e parentesco entre os pais. A criança de mãe deprimida que atingiu tudo o que devia atingir não recebe alta da vigilância: recebe retorno em 30 dias.

A conduta de cada categoria também é padronizada e é cobrada literalmente. Desenvolvimento adequado: elogiar o cuidador, orientar que continue estimulando, retornar conforme a rotina do serviço e informar quais sinais fazem voltar antes. Alerta: orientar a estimulação de forma específica para a faixa, marcar retorno em 30 dias e informar os sinais de alerta que fazem voltar antes desses 30 dias — e, no retorno, refazer a classificação, porque é a evolução que decide. Provável atraso: acionar a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento. Note o que não está em lugar nenhum: pedir exame antes de encaminhar.

Reflexos primitivos: aparecer na hora certa, sumir na hora certa

O instrumento da Caderneta fala em 'reflexos, posturas e habilidades' — e no primeiro mês o que ele checa é justamente postura e resposta primitiva: membros fletidos com a cabeça lateralizada, reagir ao som, observar um rosto, elevar a cabeça. Os reflexos primitivos são respostas de tronco encefálico e medula que existem porque o córtex ainda não assumiu o comando. Eles precisam existir no início e precisam desaparecer depois, e ambas as coisas são informação clínica.

As idades de desaparecimento que valem como referência de livro-texto: reflexo de Moro presente ao nascimento e ausente por volta dos 6 meses (completo até cerca de 3 meses, esboçado depois); preensão palmar até 3 a 4 meses, porque a mão precisa se abrir para que a preensão voluntária e depois a pinça apareçam; reflexo tônico-cervical assimétrico — o 'esgrimista' — mais evidente por volta de 1 a 2 meses e ausente por volta de 4 a 6 meses; marcha reflexa e reação de apoio dos primeiros dias desaparecendo por volta de 2 meses; sucção e procura (busca do mamilo) desaparecendo entre 3 e 4 meses, dando lugar à sucção voluntária; reflexo de Galant até cerca de 4 meses; preensão plantar até 12 a 15 meses, a última a sair, porque só some quando a criança passa a apoiar o pé para andar; e resposta plantar em extensão, que pode ser fisiológica até a marcha estar madura, entre 12 e 24 meses.

Persistir além do prazo significa que o córtex não assumiu o controle sobre o tronco: é o padrão da paralisia cerebral e de outras encefalopatias. Moro presente aos 8 meses, tônico-cervical assimétrico obrigatório aos 6, preensão palmar mantida aos 8 — nenhum desses é variação do normal, e todos costumam vir acompanhados de atraso do motor fino, exatamente porque o reflexo ocupa o lugar do movimento voluntário. O oposto também informa: ausência precoce do Moro nos primeiros dias, com hipotonia, sugere depressão grave do sistema nervoso central.

A assimetria é o achado mais rentável e o mais esquecido. Moro assimétrico ou preensão palmar ausente de um lado no recém-nascido aponta lesão focal — lesão de plexo braquial, fratura de clavícula, fratura de úmero. No lactente maior, preferência manual estabelecida antes dos 18 meses tem o mesmo significado com outro nome: não é 'canhoto precoce', é suspeita de hemiparesia, porque a lateralidade normalmente só se define depois dos 2 anos. Diante de assimetria, a resposta nunca é observar mais um pouco.

Sinais de alerta: 'ainda não fez' é diferente de 'perdeu o que já fazia'

A Caderneta traz, na parte escrita para a família, uma lista de sinais de alerta que não depende de marco nenhum: a criança que não busca interação, que se irrita ao contato, que não responde ao olhar, à voz ou ao toque durante a mamada, que se interessa mais por objetos do que por pessoas, que fica habitualmente isolada, que tem dificuldade com fala e comandos, que faz gestos e movimentos repetitivos, que não responde ao próprio nome, que sorri pouco e devolve pouca reciprocidade social, que tem sensibilidade exagerada a ruídos, que apresenta agitação intensa, impulsividade ou agressividade fora do esperado. Essa lista é escrita para o cuidador reconhecer sem tabela — e a Caderneta orienta valorizar o que o cuidador diz, o que na prova aparece como a alternativa 'valorizar a preocupação da mãe'.

Os sinais de alerta ancorados em idade que a Sociedade Brasileira de Pediatria destaca para as duas idades-chave: aos 18 meses, não andar sem ajuda, apontar apenas para demonstrar interesse (e não para compartilhar) e não usar pelo menos seis palavras; aos 24 meses, não andar com destreza, não imitar ações ou palavras, não sustentar contato visual, usar poucas palavras, não formar sentenças de duas palavras e não obedecer a comandos simples. Some a esses os limites clássicos de exame: não sustentar a cabeça aos 4 meses, não sentar sem apoio aos 9, ausência de balbucio aos 12, ausência de gesto de apontar aos 12 a 18 meses.

Agora a regra que vale para qualquer idade e supera todas as tabelas: perder habilidade já adquirida é bandeira vermelha imediata. Regressão de linguagem, de contato social ou de motricidade não é lentidão, é doença em curso — e a lista de causas é grave: transtorno do espectro autista com padrão regressivo, síndrome de Rett, epilepsias com regressão (espasmos infantis da síndrome de West, síndrome de Landau-Kleffner), doenças neurodegenerativas e erros inatos do metabolismo, hidrocefalia, tumor de sistema nervoso central, e maus-tratos ou negligência grave. Regressão motora com espasticidade progressiva é avaliação neurológica urgente, não retorno em 30 dias.

O instrumento da Caderneta captura a regressão, mas só se você fizer o passo que ele manda fazer. Uma criança de 20 meses que falava dez palavras e hoje fala nenhuma tem ausentes marcos das faixas de 12 a 15 e de 15 a 18 meses — faixas anteriores à dela. Ou seja: provável atraso, encaminhar. Quem só verifica os marcos da faixa atual e anota 'ainda não fala frases, é cedo' perde o caso. Por isso a regra prática vale a pena decorar como pergunta feita ao cuidador em toda consulta: 'tem alguma coisa que ela fazia e parou de fazer?'.

Duas verificações obrigatórias antes de aceitar qualquer explicação social para um atraso. Primeira: audição. Todo atraso de linguagem é surdez até que se prove o contrário, e triagem auditiva neonatal normal não encerra a questão — existe perda auditiva de instalação pós-natal, e a criança precisa ser reavaliada com emissões otoacústicas ou potencial evocado auditivo de tronco encefálico. Segunda: visão, quando o atraso é de motor fino ou de interação. Atribuir atraso a 'família que fala pouco', 'menino é mais lento' ou 'ficou com a avó' antes de excluir déficit sensorial é o erro que mais custa tempo — e tempo, aqui, é prognóstico.

Prematuro: corrigir a idade antes de olhar a tabela

A primeira instrução do instrumento, antes de localizar a faixa etária, é corrigir a idade da criança que nasceu prematura. Sem isso, o instrumento classifica como atrasado quem apenas nasceu antes — e essa é uma das armadilhas mais fáceis de montar num enunciado.

A conta tem dois passos. Primeiro, calcule quanto faltou para o termo: 40 semanas menos a idade gestacional ao nascer. Um bebê de 28 semanas nasceu com 12 semanas faltando, ou seja, 3 meses. Segundo, desconte esse tempo da idade cronológica: essa mesma criança, com 6 meses de vida, tem 3 meses de idade corrigida, e é pelos marcos de 2 a 4 meses que ela deve ser avaliada. Um bebê de 34 semanas nasceu com 6 semanas (cerca de 1 mês e meio) faltando; aos 12 meses de vida, sua idade corrigida é de 10 meses e meio.

Até quando se corrige, segundo a Caderneta: até os 2 anos de idade cronológica; e até os 3 anos quando a idade gestacional ao nascer foi menor que 28 semanas. Passado esse prazo, avalia-se pela idade cronológica sem desconto.

Duas delimitações que a prova gosta de misturar. A idade corrigida vale para desenvolvimento e para o acompanhamento do crescimento nas curvas da OMS — a Caderneta ainda registra que, se forem usadas as curvas Intergrowth-21 para prematuros, elas vão até 64 semanas pós-concepcionais e a transição para as curvas da OMS se faz sem correção adicional. Já o calendário vacinal não se corrige: vacina-se pela idade cronológica, a partir da data de nascimento, porque a resposta imune depende do tempo de vida extrauterina e não da maturidade gestacional. Prematuridade abaixo de 37 semanas, além disso, é fator de risco listado no próprio instrumento — o que significa que o ex-prematuro com todos os marcos presentes já entra, por definição, em alerta para o desenvolvimento.

Triagem de autismo: qual instrumento, em que idade, e o que dispara o encaminhamento

O instrumento que a Caderneta imprime e manda aplicar é o M-CHAT-R/F — Checklist Modificado para Autismo em Crianças Pequenas, versão revisada com consulta de seguimento. São 20 perguntas de sim ou não respondidas pelo cuidador, sobre comportamento habitual, aplicadas e pontuadas em menos de dois minutos. A faixa etária é de 16 a 30 meses, e a Caderneta escreve a instrução dentro do formulário da consulta do 18º mês: realizar a avaliação M-CHAT-R nessa consulta. É a única triagem padronizada que o instrumento brasileiro incorpora.

A pontuação é o que a prova cobra. Para todos os itens, a resposta 'não' indica risco — exceto nos itens 2, 5 e 12, em que 'sim' é que indica risco (perguntar-se se a criança pode ser surda; movimentos estranhos com os dedos perto dos olhos; incômodo exagerado com barulhos do dia a dia). Total de 0 a 2 é baixo risco: nenhuma avaliação adicional é necessária, mas se a criança tinha menos de 24 meses na aplicação, ela deve ser reavaliada depois do segundo aniversário. Total de 3 a 7 é risco médio: aplica-se a consulta de seguimento, a segunda etapa; se depois dela o escore permanecer maior ou igual a 2, a triagem é positiva e a criança vai para avaliação diagnóstica E para intervenção precoce; se cair para 0 ou 1, a triagem é negativa. Total de 8 a 20 é risco elevado: não se faz a consulta de seguimento — encaminha-se imediatamente para avaliação diagnóstica e intervenção precoce.

Triagem positiva não é diagnóstico, e isso não é ressalva de rodapé: o instrumento foi desenhado para maximizar sensibilidade, e os próprios autores registram que a taxa de falso-positivo é alta por construção. O detalhe que muda a conduta é o seguinte: mesmo as crianças que não recebem diagnóstico de TEA depois de uma triagem positiva são crianças de alto risco para outros atrasos e transtornos do desenvolvimento — portanto, continuam em acompanhamento. 'Triagem positiva, avaliação negativa para TEA, alta' é errado.

Antes dos 16 meses, o que existe é vigilância — e ela tem sinais próprios que aparecem na coluna pessoal-social da tabela: não responder ao próprio nome aos 12 meses, não apontar para compartilhar interesse (o apontar declarativo) entre 12 e 18 meses, não olhar para onde o adulto aponta, ausência de imitação de gestos aos 12 meses, ausência de faz-de-conta aos 18, pouco contato visual e pouca reciprocidade no sorriso.

A conduta brasileira diante da suspeita é explícita na Caderneta e vale como princípio geral do capítulo: medidas de estimulação, diante da detecção da ausência de qualquer marco, devem ser tomadas imediatamente pela equipe, porque a intervenção precoce favorece melhor desfecho independentemente de confirmação diagnóstica posterior. Traduzindo: a estimulação não espera o diagnóstico. O Ministério da Saúde mantém, além disso, uma Linha de Cuidado para crianças com TEA que organiza o percurso pelos níveis de atenção.

Atraso identificado: o que se faz — e o que não se faz

Encaminhar, na linguagem do instrumento, é 'acionar a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento'. Na prática do SUS isso significa a equipe multiprofissional da própria atenção primária (eMulti) para começar a estimulação já, e o Centro Especializado em Reabilitação (CER) ou serviço de estimulação precoce equivalente para a avaliação e a terapia; neuropediatria quando há sinal neurológico duro (regressão, assimetria, reflexo persistente, alteração de perímetro cefálico, convulsão); genética clínica quando há três ou mais alterações fenotípicas; e, sempre que a queixa envolve linguagem, avaliação auditiva formal. Na suspeita de TEA, o percurso da Linha de Cuidado inclui os serviços de saúde mental infantojuvenil, sem que isso substitua a intervenção sobre linguagem e comportamento.

O que não se faz é tão cobrado quanto o que se faz. Não se pede ressonância magnética, cariótipo, eletroencefalograma ou painel metabólico como porta de entrada: a porta é a avaliação especializada somada à estimulação, e o exame vem depois, orientado pela hipótese que a avaliação levantar. Não se suspende nem se adia a estimulação enquanto se aguarda diagnóstico. Não se aceita explicação social antes de excluir déficit auditivo ou visual. E não se pratica espera vigilante prolongada — o famoso 'vamos reavaliar em seis meses, cada criança tem seu tempo' — porque o período em que a intervenção rende mais é justamente o que se está gastando na espera.

Isso não é o mesmo que negar o retorno em 30 dias. O retorno de 30 dias é uma conduta ativa e determinada pelo próprio instrumento para a categoria alerta: orienta-se a estimulação, ensina-se ao cuidador quais sinais fazem voltar antes, e reavalia-se com prazo curto. A diferença entre o retorno em 30 dias e a espera vigilante é a diferença entre um prazo curto com tarefa e um prazo longo sem tarefa. E se, no retorno, a classificação permanecer em alerta sem progresso, o caso deixou de ser observação e virou encaminhamento.

Por fim, registre. A classificação vai no campo 'Desenvolvimento' da página da consulta correspondente da Caderneta, com as três opções impressas. Parece burocracia e não é: o instrumento se sustenta na comparação entre consultas — é a sequência 'adequado, adequado, alerta' que produz decisão, e uma Caderneta em branco transforma vigilância em impressão pessoal. Vale lembrar o dado que a própria SBP usa para justificar a insistência no tema: revisão de estudos brasileiros encontrou preenchimento adequado da Caderneta em apenas 8% a 20% dos casos.

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Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança (Caderneta da Criança)

É o instrumento oficial da vigilância do desenvolvimento no SUS, aplicado em toda consulta de puericultura (1ª semana e meses 1, 2, 4, 6, 9, 12, 18, 24 e 36). São 12 faixas etárias com quatro marcos cada, do nascimento aos 42 meses. A classificação final tem três degraus e cada degrau tem uma conduta escrita — o que muda o degrau não é o número de marcos ausentes, é a faixa a que eles pertencem.

  1. 1Corrija a idade se a criança nasceu prematura: 40 semanas menos a idade gestacional ao nascer, descontado da idade cronológica (até os 2 anos; até os 3 anos se a idade gestacional foi menor que 28 semanas).
  2. 2Localize a faixa etária na tabela e verifique os quatro marcos dela, anotando P (presente), A (ausente) ou NV (não verificado).
  3. 3Observe você mesmo os marcos; aceite o relato do cuidador apenas nos itens em que a própria Caderneta autoriza (por exemplo, mostrar o que quer, usar colher, tirar a roupa, brincar com outras crianças).
  4. 4Se faltar algum marco da faixa atual, volte à faixa ANTERIOR e verifique os marcos dela — é esse passo que separa alerta de provável atraso.
  5. 5Meça o perímetro cefálico, procure alterações fenotípicas e levante os fatores de risco ambientais e biológicos.
  6. 6Pergunte ao cuidador o que ele acha do desenvolvimento da criança e valorize a resposta.
  7. 7Classifique em um dos três degraus, aplique a conduta correspondente e registre a classificação no campo Desenvolvimento da página da consulta.

Desenvolvimento adequado

Todos os reflexos, posturas e habilidades da faixa etária presentes e nenhum fator de risco. Conduta: elogiar o cuidador, orientar que continue estimulando, retorno conforme a rotina do serviço e informar quais sinais de alerta fazem voltar antes.

Alerta para o desenvolvimento

Falta um ou mais marcos da PRÓPRIA faixa etária (de 1 mês a 6 anos); ou todos os marcos presentes, mas com um ou mais fatores de risco. Conduta: orientar o cuidador sobre a estimulação, marcar retorno em 30 dias e informar os sinais de alerta que fazem voltar antes dos 30 dias. No retorno, refaz-se a classificação.

Provável atraso no desenvolvimento

Falta um ou mais marcos da faixa etária ANTERIOR; ou perímetro cefálico abaixo de -2 ou acima de +2 escores Z; ou três ou mais alterações fenotípicas. Na faixa de 0 a 1 mês, a ausência de marco da própria faixa já classifica aqui. Conduta: acionar a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento.

Faixa etáriaOs quatro marcos da faixaComo se pesquisa (resumo da Caderneta)
0 a 1 mêsPostura em flexão (pernas e braços fletidos, cabeça lateralizada) · Observa um rosto · Reage ao som · Eleva a cabeçaDeitada de costas: membros fletidos, cabeça lateralizada. Rosto do examinador a 30 cm: olha de forma evidente. Palmas ou chocalho a 30 cm de cada orelha: movimento ocular ou mudança de expressão. De bruços: levanta a cabeça e desencosta o queixo sem virar para o lado.
1 a 2 mesesSorri quando estimulada · Abre as mãos · Emite sons · Movimenta os membrosSorria e converse sem tocar a face nem fazer cócegas. Observe abertura espontânea das mãos. Sons que não sejam choro (vale o relato do cuidador). Movimentação ativa de braços e pernas.
2 a 4 mesesResponde ativamente ao contato social · Segura objetos · Emite sons e ri alto · Levanta a cabeça e apoia-se nos antebraços, de bruçosDe frente, converse: responde com sorriso e sons, como se conversasse. Objeto oferecido no dorso da mão: abre a mão e segura alguns segundos. Gargalhada. De bruços em superfície firme: levanta a cabeça apoiando-se nos antebraços.
4 a 6 mesesBusca ativa de objetos · Leva objetos à boca · Localiza o som · Muda de posição (rola)Objeto ao alcance, chamando a atenção: tenta alcançá-lo. Objeto na mão vai à boca. Som suave perto de cada orelha: vira a cabeça na direção. De barriga para cima, incentivada, vira de bruços.
6 a 9 mesesBrinca de esconde-achou · Transfere objetos de uma mão para a outra · Duplica sílabas · Senta-se sem apoioAparecer e desaparecer atrás de um pano: procura o examinador. Oferecido um objeto, transfere de mão. Fala papá, dadá, mamã (vale o relato). Sentada em superfície firme, segurando objeto, sem apoiar as mãos.
9 a 12 mesesImita gestos · Faz pinça · Produz jargão · Anda com apoioBater palmas ou dar tchau: imita. Pega objeto pequeno com qualquer parte do polegar associada ao indicador. Conversa incompreensível consigo mesma ou com o cuidador. Dá alguns passos com apoio.
12 a 15 mesesMostra o que quer · Coloca blocos na caneca · Diz uma palavra · Anda sem apoioPede sem chorar (aponta, estende a mão, fala). Coloca ao menos um bloco dentro da caneca e o solta. Diz uma palavra que não seja nome de familiar nem de animal de estimação. Anda com bom equilíbrio, sem se apoiar.
15 a 18 mesesUsa colher ou garfo · Constrói torre de 2 cubos · Fala 3 palavras · Anda para trásCome com colher ou garfo derramando pouco (vale o relato). Empilha 2 cubos sem derrubar. Diz três palavras que não sejam nome de familiar nem de bicho. Dá dois passos para trás sem cair ao abrir porta ou gaveta.
18 a 24 mesesTira roupa · Constrói torre de 3 cubos · Aponta 2 figuras · Chuta bolaRemove sapato, casaco, calça ou camiseta (vale o relato). Empilha 3 cubos. Aponta duas de um grupo de cinco figuras. Chuta a bola sem se apoiar.
24 a 30 mesesVeste-se com supervisão · Constrói torre de 6 cubos · Frases com 2 palavras · Pula com ambos os pésVeste meia, sapato, roupa íntima ou casaco com supervisão. Empilha 6 cubos. Combina duas palavras com sentido de ação (quer água, chuta bola). Pula com os dois pés atingindo o chão ao mesmo tempo.
30 a 36 mesesBrinca com outras crianças · Imita o desenho de uma linha · Reconhece 2 ações · Arremessa bolaParticipa de brincadeiras com crianças da mesma idade (relato). Após demonstração, faz uma linha de ao menos 5 cm. Responde a quem mia, quem late. Arremessa a bola acima do braço.
36 a 42 mesesVeste uma camiseta · Move o polegar com a mão fechada · Compreende 2 adjetivos · Equilibra-se em cada pé por 1 segundoVeste camiseta ou casaco sem botão nem zíper, sozinha (relato). Faz o sinal de polegar para cima. Responde coerentemente ao que faz com fome, frio ou cansaço. Equilibra-se em um pé por 1 segundo, em até três tentativas, repetindo no outro pé.

Alterações fenotípicas que o instrumento lista (três ou mais classificam como provável atraso): fenda palpebral oblíqua, olhos afastados, implantação baixa de orelhas, lábio leporino, fenda palatina, pescoço curto e/ou largo, prega palmar única, quinto dedo da mão curto e recurvado.

Fatores de risco que o instrumento lista: violência doméstica, depressão materna, drogas ou alcoolismo entre os moradores da casa, suspeita de abuso sexual; infecção na gestação (STORCH e Zika); pré-natal ausente ou incompleto; problemas na gestação, no parto ou no nascimento; prematuridade abaixo de 37 semanas; peso ao nascer abaixo de 2.500 g; icterícia grave; internação no período neonatal; meningite, traumatismo craniano ou convulsões; parentesco entre os pais.

Na consulta do 18º mês, o formulário da Caderneta acrescenta uma tarefa à classificação: aplicar o M-CHAT-R, questionário de triagem de autismo para crianças entre 16 e 30 meses.

Alteração do desenvolvimento é mais sensível e mais precoce que alteração do crescimento da cabeça — perímetro cefálico normal não exclui nada; ele só entra no instrumento quando está fora da faixa de -2 a +2 escores Z.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual instrumento usar na consulta de rotina — vigilância da Caderneta, teste de triagem Denver II ou o esquema de triagem da AAP

Caderneta da Criança / metodologia AIDPI (Ministério da Saúde)

Vigilância, não triagem: quatro marcos por faixa etária somados a fatores de risco, perímetro cefálico, alterações fenotípicas e à percepção do cuidador, aplicados em toda consulta de puericultura por qualquer profissional da equipe, sem escore e sem material especial. A saída não é um resultado, é uma classificação em três degraus com conduta definida. É o instrumento distribuído gratuitamente a toda criança brasileira e o que o Ministério da Saúde indicou para cumprir a Lei nº 13.438/2017. Convém saber que instrumentos diferentes não classificam as mesmas crianças da mesma forma: um estudo brasileiro comparando a Caderneta ao manual de vigilância da AIDPI encontrou concordância baixa (kappa 0,27).

Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania (MS, 3ª ed. 2021; 7ª ed. vigente) e Ofício nº 35-SEI/2017/CGSCAM/DAPES/SAS/MS; dado de concordância em Revista Paulista de Pediatria.

Denver II (teste de triagem padronizado)

É teste de triagem, com material próprio, examinador treinado e classificação em normal, questionável, anormal ou inaplicável, cobrindo quatro setores (pessoal-social, motor fino-adaptativo, linguagem e motor grosseiro). Tem tradução e adaptação brasileiras com manual em português desde 2017 e estudo de propriedades psicométricas publicado em 2022, e é o teste padronizado mais usado no ensino e na pesquisa no Brasil. Não é, porém, o instrumento que o SUS distribui nem o que a Caderneta imprime — usá-lo exige treinamento e tempo de consulta que a rotina da atenção primária não tem.

Propriedades psicométricas da versão brasileira do Denver II. Ciência & Saúde Coletiva, 2022;27(3):1097-1106.

American Academy of Pediatrics / Bright Futures

Combina vigilância em todas as consultas com aplicação de instrumento padronizado de triagem do desenvolvimento em idades fixas — 9, 18 e 30 meses —, além da triagem específica de TEA aos 18 e 24 meses. É o modelo de dois níveis: vigilância contínua mais triagem formal em pontos definidos do calendário.

American Academy of Pediatrics — Bright Futures e clinical report de 2020 sobre TEA.

Na prova

O recorte se identifica pelo vocabulário e pelo cenário. Termos como faixa etária anterior, alerta para o desenvolvimento e provável atraso só existem no instrumento brasileiro; cenário de UBS, equipe de saúde da família, Caderneta na mão do cuidador ou menção ao SUS aponta para o mesmo corpo. Normal, questionável ou anormal, e a divisão em quatro setores com material padronizado, é linguagem de Denver II. Triagem nas consultas de 9, 18 e 30 meses é calendário da AAP e não existe na Caderneta, que classifica em todas as consultas. Repare também nas alternativas: um distrator que oferece encaminhar para aplicar teste padronizado antes de qualquer conduta só faz sentido no mundo em que triagem formal é a etapa seguinte — e prova oficial do MEC tende a conduta SUS.

Triagem universal de autismo em idades fixas

American Academy of Pediatrics (2020)

Todas as crianças devem ser triadas para TEA com instrumento específico e validado nas consultas de 18 e de 24 meses, sobre um pano de fundo de vigilância do desenvolvimento em todas as consultas. A justificativa é o ganho de tempo até a intervenção: parte dos casos identificados aos 24 meses passou despercebida aos 18.

American Academy of Pediatrics, clinical report sobre identificação, avaliação e manejo do TEA (Pediatrics, 2020) e Bright Futures.

US Preventive Services Task Force (2016)

Recomendação de grau I: a evidência é insuficiente para pesar benefícios e danos da triagem de TEA em crianças de 18 a 30 meses nas quais nenhuma preocupação com TEA foi levantada por pais ou profissionais. Grau I não significa recomendar contra triar — significa que a evidência disponível não permite concluir, e a própria USPSTF registra que o tópico está em atualização. A recomendação não se aplica a crianças com sinais ou preocupação já levantada, que devem ser avaliadas.

US Preventive Services Task Force. Screening for Autism Spectrum Disorder in Young Children: Recommendation Statement. JAMA, fevereiro de 2016.

Brasil — Ministério da Saúde (Caderneta da Criança)

O M-CHAT-R vem impresso na Caderneta, para crianças de 16 a 30 meses, e o formulário da consulta do 18º mês traz a instrução de aplicá-lo; a 7ª edição acrescentou orientações de aplicação e interpretação e o link da consulta de seguimento (M-CHAT-R/F). Ou seja, o Brasil incorporou a triagem em instrumento universal, distribuído com a criança, apoiado também na obrigação legal de detectar risco ao desenvolvimento psíquico nos primeiros 18 meses.

Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania (MS) e Lei nº 13.438/2017.

Na prova

O enunciado costuma entregar o corpo de origem pelo número. Dezoito e 24 meses é o par da AAP; 16 a 30 meses com M-CHAT-R e Caderneta é o corpo brasileiro; 18 a 30 meses acompanhado de expressões como evidência insuficiente, rastreamento populacional ou grau de recomendação é vocabulário de USPSTF. Cenário de UBS, puericultura e Caderneta puxa o corpo nacional; discussão sobre custo-efetividade de rastreamento populacional puxa o corpo da USPSTF. E um distrator que diga que não se deve rastrear TEA por falta de evidência só é coerente dentro do recorte da força-tarefa americana — e mesmo ali não se aplica à criança com sinal presente.

A idade do marco de linguagem: quando a Caderneta e a SBP/AAP não coincidem

Caderneta da Criança (instrumento de vigilância)

Uma palavra com significado é marco da faixa de 12 a 15 meses; três palavras, da faixa de 15 a 18 meses; frases de duas palavras com sentido de ação, da faixa de 24 a 30 meses. Andar sem apoio é marco de 12 a 15 meses. O instrumento trabalha com intervalos e cobra a aquisição até o fim de cada intervalo.

Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania (MS), tabelas de marcos do desenvolvimento.

Sociedade Brasileira de Pediatria (Documento Científico nº 4.5, 2020) e literatura de marcos (Scharf, 2016)

Aos 18 meses o vocabulário esperado é de 10 a 25 palavras, e o sinal de alerta é usar menos de seis palavras; aos 24 meses espera-se mais de 50 palavras com cerca de 50% de inteligibilidade e frases de duas palavras, sendo sinal de alerta não formar sentenças de duas palavras nessa idade. Aos 18 meses também é sinal de alerta não andar sem ajuda.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 4.5 (junho de 2020), Campanha da Caderneta da Criança — Avaliação do Desenvolvimento de 18 a 24 meses.

Na prova

As duas leituras convivem porque respondem a perguntas diferentes: uma classifica (marco cumprido dentro do intervalo), a outra alerta (limite abaixo do qual se investiga). Se o enunciado pedir a classificação do desenvolvimento, descrever a consulta de puericultura ou citar a Caderneta, o intervalo do instrumento é o que dá a resposta coerente. Se o enunciado perguntar por sinal de alerta, citar a SBP, a AAP ou o CDC, ou usar contagem de vocabulário (seis palavras, 50 palavras), o corpo é o dos marcos por domínio. Uma alternativa que fale em frases de duas palavras exigidas aos 24 meses redondos denuncia o segundo recorte; uma alternativa que fale em faixa de 24 a 30 meses denuncia o primeiro.

06

Caso resolvido

Lactente de 10 meses, nascido a termo, sem intercorrências neonatais, comparece à UBS para consulta de puericultura atrasada. A mãe não tem queixas. No exame, a criança imita gestos de tchau, faz pinça com polegar e indicador, produz jargão e dá passos com apoio. Colocada sentada em superfície firme com um brinquedo na mão, cai para o lado e precisa apoiar as mãos para não tombar. Perímetro cefálico no percentil habitual da criança, sem alterações fenotípicas, sem fatores de risco.
faixa etária
Nasceu a termo: não há idade a corrigir. Aos 10 meses, a criança está na faixa de 9 a 12 meses — imita gestos, faz pinça, produz jargão e anda com apoio. Os quatro marcos da faixa dela estão presentes.
achado
Sentar-se sem apoio está ausente. Esse marco não pertence à faixa atual: é da faixa de 6 a 9 meses, que já terminou. Por isso o instrumento manda voltar à faixa anterior sempre que algo destoa — e aqui o que destoa é justamente um marco antigo que nunca foi adquirido.
classificação
Ausência de um ou mais marcos da faixa etária ANTERIOR classifica como provável atraso no desenvolvimento. Não é alerta, ainda que os quatro marcos da faixa atual estejam presentes e ainda que não haja fator de risco algum.
conduta
Acionar a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento — e, ao mesmo tempo, orientar a estimulação e começá-la já, sem esperar o resultado da avaliação. Registrar a classificação no campo Desenvolvimento da página da consulta na Caderneta.
o que não fazer
Marcar retorno em 30 dias (conduta da categoria alerta), tranquilizar a mãe com o argumento de que cada criança tem seu tempo, ou solicitar exames de imagem antes de encaminhar. No exame físico, ainda vale procurar ativamente o que uma sentada tardia costuma acompanhar: hipotonia, assimetria e reflexos primitivos persistentes.
07

Agora feche você

Menina de 18 meses, nascida a termo, na consulta do 18º mês. Anda com bom equilíbrio e anda para trás, come sozinha com colher derramando pouco, empilha dois cubos, mostra o que quer apontando. Diz apenas duas palavras com significado além de nomes da família. Todos os marcos das faixas anteriores estão presentes. Perímetro cefálico dentro da faixa normal, sem alterações fenotípicas e sem fatores de risco na lista do instrumento.
faixa etária
Aos 18 meses ela está no fim da faixa de 15 a 18 meses, cujos marcos são: usa colher ou garfo, constrói torre de 2 cubos, fala 3 palavras e anda para trás.
achado
Três dos quatro marcos da faixa atual estão presentes. Falta 'fala 3 palavras'. Os marcos das faixas anteriores estão todos cumpridos.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de 'alerta' o que é provável atraso Atrai porque as duas categorias começam do mesmo jeito — falta um marco. A diferença está na faixa: marco ausente da faixa atual é alerta e rende retorno em 30 dias; marco ausente da faixa anterior é provável atraso e rende encaminhamento. Quem não volta à faixa anterior nunca consegue distinguir as duas.
  2. 2Avaliar o prematuro pela idade cronológica É a armadilha mais barata de montar num enunciado: dão a idade de nascimento em semanas no meio da história e a idade atual no fim. Sem corrigir, um bebê de 28 semanas com 6 meses de vida parece atrasado; corrigido, ele tem 3 meses e está adequado. Corrige-se até os 2 anos, e até os 3 quando a idade gestacional foi menor que 28 semanas — mas o calendário vacinal não se corrige.
  3. 3Achar que criança com todos os marcos presentes está sempre adequada O instrumento classifica como alerta a criança que atingiu tudo o que devia atingir mas tem um ou mais fatores de risco — depressão materna, violência doméstica, prematuridade, baixo peso, internação neonatal, entre outros. Parece excesso de zelo e é o desenho do instrumento: risco ambiental cobra vigilância mais estreita, com retorno em 30 dias.
  4. 4Tratar regressão como lentidão 'Ela falava algumas palavras e parou' não é variação do ritmo, é perda de habilidade adquirida — e isso é bandeira vermelha em qualquer idade, com uma lista de causas que inclui TEA regressivo, síndrome de Rett, epilepsias com regressão, doenças neurodegenerativas e metabólicas, e tumor. Pelo próprio instrumento a criança já se classifica como provável atraso, porque os marcos perdidos pertencem a faixas anteriores.
  5. 5Ler M-CHAT-R positivo como diagnóstico de autismo É triagem desenhada para maximizar sensibilidade, com falso-positivo alto por construção. Escore de 3 a 7 pede a consulta de seguimento antes de qualquer conclusão; 8 a 20 encaminha direto. E a recíproca também erra: criança com triagem positiva que depois não recebe diagnóstico de TEA continua sendo de alto risco para outros atrasos, e continua em acompanhamento.
  6. 6Pedir exame antes de encaminhar Ressonância, eletroencefalograma, cariótipo e painel metabólico não são a porta de entrada do atraso do desenvolvimento — a porta é a avaliação especializada somada à estimulação imediata. A alternativa que 'investiga primeiro' soa cuidadosa e custa os meses em que a intervenção renderia mais.
  7. 7Aceitar explicação social antes de excluir déficit sensorial Atraso de linguagem é surdez até prova em contrário, e triagem auditiva neonatal normal não encerra a questão, porque existe perda de instalação pós-natal. 'Fala pouco porque em casa todo mundo adivinha o que ela quer' pode até ser verdade — depois da audiometria, não antes.
  8. 8Confundir retorno em 30 dias com espera vigilante São opostos. O retorno de 30 dias é conduta ativa, com estimulação orientada, sinais de alarme ensinados ao cuidador e reclassificação no retorno. A espera vigilante prolongada é prazo longo sem tarefa — e se, no retorno de 30 dias, a classificação continuar em alerta sem progresso, o caso virou encaminhamento.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro de distrofia muscular de Duchenne (sinal de Gowers, pseudo-hipertrofia de panturrilhas, CPK muito elevada, herança ligada ao X) é hoje confirmado de forma preferencial pela análise molecular do gene da distrofina (deleções/duplicações por MLPA e sequenciamento), evitando a biópsia. A biópsia com imuno-histoquímica confirma, mas é mais invasiva e reservada quando a genética é inconclusiva. A eletroneuromiografia é inespecífica (padrão miopático). A RM muscular apenas orienta e não confirma. A aldolase é inespecífica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite a tabela por linha de domínio, não por faixa: motor grosseiro (eleva a cabeça 0-1 · antebraços 2-4 · rola 4-6 · senta sem apoio 6-9 · anda com apoio 9-12 · anda sem apoio 12-15 · anda para trás 15-18 · chuta bola 18-24 · pula com os dois pés 24-30) e linguagem (sons 1-2 · ri alto 2-4 · duplica sílabas 6-9 · jargão 9-12 · uma palavra 12-15 · três palavras 15-18 · frases de 2 palavras 24-30). Depois responda sem olhar: marco ausente da faixa atual, qual classificação e qual prazo? E da faixa anterior?

em 30 dias

Reconstrua o instrumento inteiro de memória: as três classificações com os critérios completos (incluindo perímetro cefálico fora de -2 a +2 escores Z, três ou mais alterações fenotípicas e a exceção da faixa 0-1 mês) e a conduta de cada uma; a conta da idade corrigida e até quando ela vale; a pontuação do M-CHAT-R (0-2, 3-7, 8-20) e em que consulta a Caderneta manda aplicá-lo; as idades de desaparecimento do Moro, da preensão palmar e do tônico-cervical assimétrico. Feche resolvendo um caso de regressão e um caso de ex-prematuro.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Consulta de puericultura na UBS: lactente de 9 meses trazido pela mãe, que acha que ele é mais molinho que a irmã na mesma idade. Aplique o instrumento da Caderneta, classifique o desenvolvimento e conduza. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor — Preparatório para provas | OsceLabs