Ginecologia e ObstetríciaPuerpério, aleitamento e vitalidade fetal

Infecção puerperal e mastite

A prova cobra duas febres do puerpério com réguas diferentes: a que vem do útero — endometrite, internação e antibiótico venoso — e a que vem da mama — mastite, amamentação mantida e cefalexina. Saber os números de definição e o que fazer quando a febre não cede é o que separa acerto de erro.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Puérpera de 25 anos, no 5º dia após parto vaginal, retorna com febre de 38,8 °C, dor em baixo ventre e lóquios fétidos e purulentos. PA = 110/70 mmHg, FC = 96 bpm. Ao toque, útero amolecido e doloroso à mobilização, colo pérvio. Qual é o esquema antibiótico de escolha para o tratamento?

02

Como esse tema cai

Infecção é o terceiro vértice da tríade que mata gestante e puérpera no Brasil, ao lado de hipertensão e hemorragia — e é o vértice que a prova cobra com menos vinheta dramática e mais régua numérica. O examinador quer saber se você reconhece a febre que precisa de internação e antibiótico venoso imediato (endometrite), a febre que se trata mantendo a amamentação (mastite) e a coleção que nenhum antibiótico resolve sem drenagem (abscesso).

O recorte nacional tem dono claro em cada ponta. Para a infecção puerperal, não há PCDT: o documento brasileiro de referência é o Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), que segue a linha do RCOG e da OMS. Para a mastite lactacional, a régua do SUS é o Caderno de Atenção Básica nº 23 do Ministério da Saúde (2ª edição, 2015) — é dele que saem as condutas de atenção primária que a prova do MEC espera: manter a amamentação, cefalexina e reavaliação em 48 horas.

Há ainda uma camada recente que as bancas começaram a explorar: o protocolo nº 36 da Academy of Breastfeeding Medicine (2022) reescreveu o manejo da mastite como um espectro inflamatório e aposentou condutas que o material brasileiro ainda descreve, como a massagem e a ordenha para 'esvaziar' a mama. Este capítulo entrega as duas versões e ensina a identificar qual delas a questão está cobrando.

03

O que muda decisão

A régua da febre no puerpério

A definição clássica de morbidade febril puerperal, herdada da Joint Commission on Maternal Welfare e repetida pelos livros-texto, é temperatura oral de 38,0 °C ou mais, em pelo menos dois dos dez primeiros dias pós-parto, excluídas as primeiras 24 horas. A exclusão das primeiras 24 horas existe porque febre baixa e autolimitada é comum logo após o parto, sem significar infecção. Mas essa exclusão é estatística, não clínica: a sepse pelo estreptococo do grupo A (Streptococcus pyogenes) pode ser precoce e fulminante, e febre alta nas primeiras 24 horas com queda do estado geral se investiga como sepse, não se observa.

A OMS definiu em 1992 a sepse puerperal como infecção do trato genital ocorrendo entre a rotura das membranas (ou o trabalho de parto) e o 42º dia pós-parto, com dois ou mais dos seguintes achados: dor pélvica; febre com temperatura oral de 38,5 °C ou mais em qualquer ocasião; corrimento vaginal anormal (purulento); odor anormal do corrimento; e atraso na involução uterina, definido como redução menor que 2 cm por dia nos primeiros oito dias. Repare que são duas réguas de temperatura diferentes — 38,0 °C na morbidade febril, 38,5 °C na definição de sepse puerperal da OMS — e a prova gosta de trocar uma pela outra.

A infecção puerperal complica de 1% a 15% dos partos e, nos países desenvolvidos, a sepse já ultrapassou a hipertensão como primeira causa de morte materna obstétrica direta. O Protocolo Febrasgo nº 117 organiza as formas clínicas em três degraus: localizada (vulvoperineal, vaginite, cervicite e endometrite), propagada (endomiometrite, salpingite, anexite, parametrite, pelviperitonite e tromboflebite pélvica) e generalizada (peritonite difusa, sepse e choque séptico). A febre do puerpério também pode vir de fora do útero — mama, trato urinário, pulmão, ferida operatória e sítio de punção — e o exame físico da puérpera febril percorre todos esses territórios antes de fechar diagnóstico.

Endometrite: diagnóstico e investigação

A endometrite puerperal é uma infecção ascendente e polimicrobiana: a flora vaginal e entérica — aeróbios como Escherichia coli e estreptococos, anaeróbios da cavidade — coloniza a decídua cruenta depois do parto. O parto cesáreo é o principal fator de risco isolado, e é por isso que a profilaxia com cefazolina antes da incisão é universal na cesariana. O restante da lista do Protocolo Febrasgo nº 117 é previsível quando se entende o mecanismo: amniorrexe e trabalho de parto prolongados, toques vaginais repetidos, monitoração interna, retenção de restos ovulares, hemorragia, más condições de assepsia, anemia, obesidade, diabetes, imunossupressão e baixo nível socioeconômico.

O quadro típico é febre nos primeiros dias pós-parto acompanhada de dor e hipersensibilidade uterina, útero subinvoluído e lóquios aumentados, purulentos ou fétidos. O aspecto dos lóquios orienta a etiologia: odor fétido sugere anaeróbios; lóquios serossanguinolentos e pouco fétidos sugerem infecção estreptocócica. O protocolo da Febrasgo lista os sinais de alarme ('sinal vermelho') que indicam doença sistêmica: temperatura acima de 38 °C, taquicardia sustentada acima de 90 bpm, frequência respiratória acima de 20 irpm, dor abdominal ou torácica, diarreia ou vômitos e mal-estar generalizado. Dor abdominal com febre acima de 38 °C e frequência cardíaca acima de 90 bpm já é, por si, indicação de internação e antibiótico intravenoso.

A investigação inicial é objetiva: hemograma completo, hemoculturas, cultura de material endocervical/endometrial e ultrassonografia — que é o exame fundamental para dois diagnósticos que mudam a conduta, a retenção de restos ovulares e o abscesso (intracavitário ou de parede). Nenhum resultado é pré-requisito para tratar: numa paciente com sinais sistêmicos, o antibiótico entra imediatamente após a coleta, porque a deterioração da sepse puerperal é medida em horas. Vale lembrar o agente que mais mata: o estreptococo do grupo A, responsável direto por 13 dos 29 óbitos maternos por infecção no Reino Unido entre 2006 e 2008.

Tratamento da endometrite

O tratamento é hospitalar, com antibiótico intravenoso de amplo espectro em dose plena, iniciado sem esperar culturas. O Protocolo Febrasgo nº 117 oferece dois esquemas equivalentes: (1) ampicilina-sulbactam 3 g IV a cada 6 horas + aminoglicosídeo (gentamicina 180 a 240 mg, IV ou IM, 1 vez ao dia, ou amicacina 1 g 1 vez ao dia); ou (2) clindamicina 600 mg IV a cada 6 horas ou metronidazol 500 mg IV a cada 8 horas + aminoglicosídeo. A revisão Cochrane de 2015 dá o pano de fundo: clindamicina + gentamicina teve menos falhas terapêuticas que os esquemas com penicilinas (RR 0,65), e esquemas com má cobertura de anaeróbios resistentes à penicilina falharam quase o dobro. É essa cobertura anaeróbia — clindamicina ou metronidazol — que não pode faltar, sobretudo na endometrite pós-cesariana.

Duração pela régua da Febrasgo: 7 a 10 dias de tratamento, mantendo a via intravenosa por pelo menos 24 a 48 horas após o último pico febril. Duas observações do protocolo caem em prova: evitar usar terapeuticamente o mesmo antibiótico que foi usado na profilaxia da cesariana; e, não havendo melhora clínica em 24 a 48 horas, pedir avaliação da infectologia e reavaliar a terapêutica. A evidência internacional discorda da duração — o bloco de divergências deste capítulo detalha — mas o número que o protocolo brasileiro imprime é 7 a 10 dias.

Quando a febre persiste apesar de esquema adequado, a sequência de raciocínio é: reexaminar (ferida operatória, mamas, urina, membros inferiores, sítios de punção), repetir a ultrassonografia e procurar causa cirúrgica. Restos ovulares pedem curetagem; abscesso pede drenagem — perineal, da incisão, ou colpotomia se a coleção está no fundo de saco de Douglas; fasciíte necrosante (dor desproporcional é a marca) pede desbridamento amplo; miometrite e infecção por Clostridium podem exigir histerectomia. Se nada disso aparece e a febre em picos continua, o diagnóstico de exclusão é a tromboflebite pélvica séptica: trombose infectada das veias pélvicas, invisível ao exame, cujo teste diagnóstico é terapêutico — heparina intravenosa (5.000 UI em bolus, seguidas de 700 a 2.000 UI/h, titulando o TTPA para 1,5 a 2 vezes o controle). A defervescência em 48 a 72 horas de anticoagulação confirma a suspeita.

Prevenção em uma linha: profilaxia antibiótica na cesariana (detalhada no capítulo de cesariana), técnica asséptica e parcimônia de toques vaginais no trabalho de parto prolongado.

Mastite lactacional

Mastite é a inflamação de um ou mais segmentos da mama lactante, que pode ou não evoluir para infecção bacteriana. O pico é na 2ª e 3ª semanas pós-parto. Na descrição do Caderno de Atenção Básica nº 23, o evento inicial é a estase láctea: a pressão intraductal aumentada abre espaços entre as células alveolares, componentes do plasma passam ao interstício e a inflamação se instala; sobre esse terreno, bactérias — Staphylococcus aureus à frente, tendo a fissura mamilar como porta de entrada — produzem a mastite infecciosa. Tudo que perpetua estase predispõe: mamadas em horários fixos, redução súbita das mamadas, chupetas e mamadeiras, sucção fraca, produção excessiva, desmame abrupto e fadiga materna.

Clinicamente, o segmento afetado está doloroso, vermelho, edemaciado e quente; quando há infecção, somam-se febre alta (acima de 38 °C), calafrios e mal-estar importante. Não há exame que separe com segurança a forma inflamatória da infecciosa no primeiro atendimento — a distinção é evolutiva. A cultura do leite com antibiograma é reservada a cinco situações: falta de resposta ao antibiótico, mastite recorrente (mais de duas), mastite hospitalar, casos graves e mastite epidêmica.

O manejo pelo CAB 23 tem uma hierarquia clara. Primeiro, manter a amamentação — inclusive na mama afetada: o leite com bactérias não oferece risco ao recém-nascido a termo sadio, e o esvaziamento pelo próprio lactente é descrito como o componente mais importante do tratamento, complementado por ordenha se a mamada não esvazia. Segundo, suporte: analgesia com anti-inflamatório (ibuprofeno é o mais efetivo), repouso, líquidos e sutiã firme. Terceiro, antibiótico — indicado quando há sintomas graves desde o início, fissura mamilar, ou ausência de melhora após 12 a 24 horas de remoção efetiva do leite. As opções do Ministério da Saúde: cefalexina 500 mg VO a cada 6 horas; amoxicilina 500 mg ou amoxicilina-clavulanato 500/125 mg a cada 8 horas; eritromicina 500 mg a cada 6 horas na alergia a betalactâmicos; vancomicina se MRSA. Duração mínima de 10 dias — cursos mais curtos recidivam. Sem regressão em 48 horas de antibiótico, pensar em abscesso e referenciar.

O protocolo nº 36 da ABM (2022) redesenhou essa doença como espectro: estreitamento ductal inflamatório (o 'leite empedrado' não é um plug macroscópico que se possa expulsar), mastite inflamatória, mastite bacteriana, fleimão e abscesso. As mudanças práticas: amamentar em livre demanda sem tentar 'esvaziar' a mama (bombas extras hiperestimulam a produção e alimentam o ciclo); evitar massagem profunda e aparelhos vibratórios (pioram edema e lesão microvascular e favorecem fleimão); evitar compressas de soro e calor prolongado; preferir gelo e anti-inflamatório; e reservar o antibiótico para a mastite bacteriana, porque tratar inflamação estéril com antibiótico desorganiza o microbioma mamário e facilita a progressão. O esquema empírico da ABM: dicloxacilina ou flucloxacilina 500 mg 6/6 h, ou cefalexina 500 mg 6/6 h, por 10 a 14 dias; segunda linha com clindamicina 300 mg 6/6 h ou sulfametoxazol-trimetoprima na dose dobrada 12/12 h — este último evitado se o lactente tem deficiência de G6PD e usado com cautela em prematuros e ictéricos com menos de 30 dias.

Corte sagital de mama lactante mostrando ductos normais, segmento inflamado com ductos estreitados e abscesso encapsulado.
O espectro da mastite num só desenho: ductos pérvios, segmento inflamado com estreitamento ductal e, na extremidade, a coleção que já não responde a antibiótico — o abscesso.

Fleimão, abscesso mamário e galactocele

O abscesso mamário complica 3% a 11% das mastites agudas — em geral mastite não tratada, tratada tarde ou interrompida junto com a amamentação sem esvaziamento. O quadro é dor intensa, febre, calafrios e área de flutuação à palpação; a ultrassonografia confirma a coleção e indica o melhor ponto para drenar. O diagnóstico diferencial obrigatório: galactocele, fibroadenoma e carcinoma — mama que não melhora como deveria depois do quadro agudo precisa de reexame e imagem até a resolução.

A conduta tem três pilares inegociáveis: drenar a coleção, manter o antibiótico e manter a amamentação. Pelo CAB 23, a drenagem é cirúrgica, de preferência sob anestesia local, com cultura do material; a ABM 2022 prefere, quando há estrutura, punção aspirativa ou colocação de dreno guiadas por ultrassom — a punção isolada frequentemente recorre, por isso o dreno (mantido por gravidade, nunca a vácuo) é o manejo definitivo no próprio procedimento inicial. A amamentação continua inclusive na mama drenada — o risco de fístula láctea é menor que 2% — e, se a dor impedir, a pausa é temporária e só na mama afetada, mantendo a sadia. Supressão farmacológica da lactação não está indicada quando a mãe quer amamentar. O estrago de não tratar bem: cerca de 10% dos abscessos comprometem lactações futuras, além de necrose e deformidade nos casos negligenciados.

Dois vizinhos do abscesso completam o espectro da ABM. O fleimão é a massa endurecida, mal definida e sem flutuação que aparece tipicamente depois de massagem agressiva sobre mastite — trata-se com antibiótico e paciência, não com bisturi, e pode levar semanas para desaparecer. A galactocele é o cisto de leite formado quando o estreitamento ductal represa grande volume: massa pouco dolorosa, sem sinais sistêmicos, que flutua de tamanho com as mamadas; só exige drenagem (e antibiótico) quando infecta.

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Duas réguas: a febre do útero e a da mama

Comece pela fonte provável da febre. Endometrite é diagnóstico predominantemente clínico e recebe antibiótico intravenoso; ferida infectada exige inspeção e controle de foco; mastite percorre um espectro em que inflamação não significa automaticamente bactéria; coleção exige imagem e drenagem.

  1. 1TRIAGEM — avaliar estabilidade e sepse; examinar útero/lóquios, ferida abdominal e períneo, mamas, trato urinário, pulmões, membros inferiores e acessos venosos.
  2. 2ENDOMETRITE PROVÁVEL — febre com dor uterina, subinvolução e/ou lóquios purulentos ou fétidos sustenta diagnóstico clínico. Hemocultura, cultura endometrial e ultrassonografia não são obrigatórias em toda paciente estável.
  3. 3TRATAMENTO INICIAL — internar quando indicado e iniciar esquema intravenoso de amplo espectro com cobertura anaeróbia, como clindamicina mais gentamicina, ajustado a alergia, função renal, gravidade e protocolo local.
  4. 4BOA RESPOSTA — manter via intravenosa até melhora clínica e ausência de febre por 24–48 horas. Após resposta de endometrite não complicada, antibiótico oral de rotina não acrescenta benefício; exceções dependem do foco e do protocolo.
  5. 5SEM RESPOSTA EM 24–48 HORAS — rever diagnóstico, culturas e imagem; procurar restos ovulares, abscesso, hematoma infectado, tromboflebite pélvica séptica, resistência antimicrobiana e foco extrauterino. Controlar o foco confirmado.
  6. 6FERIDA OU PERÍNEO — abrir e drenar coleção/pus, coletar material quando útil e avaliar extensão. Dor desproporcional, crepitação, bolhas ou necrose exigem cirurgia imediata por suspeita de fasciíte.
  7. 7MASTITE INFLAMATÓRIA — manter amamentação ou retirada fisiológica, corrigir manejo, usar frio e analgesia; evitar massagem profunda e esvaziamento excessivo. Febre precoce isolada não obriga antibiótico.
  8. 8MASTITE BACTERIANA — iniciar antibiótico quando o quadro for persistente, progressivo ou claramente bacteriano. Cultura do leite é seletiva: falha terapêutica, recorrência, gravidade, aquisição hospitalar ou surto.
  9. 9FLEIMÃO, ABSCESSO OU GALACTOCELE INFECTADA — realizar ultrassonografia e drenagem quando houver coleção; manter a lactação sempre que possível e reavaliar até resolução.

Ingurgitamento patológico (3º-5º dia)

Mama difusamente distendida, dolorosa e brilhante, mamilo achatado, com ou sem febre baixa. Conduta: livre demanda, ordenha da aréola antes da pega, analgesia/AINE, crioterapia por até 20 minutos. Sem antibiótico.

Mastite inflamatória

Cunha dolorosa, quente e avermelhada num segmento, sem sinais sistêmicos importantes. Conduta ABM: livre demanda sem 'esvaziar', gelo, AINE, sem massagem profunda e sem antibiótico — reavaliar em 12-24 h.

Mastite bacteriana

A mesma cunha, agora com febre acima de 38 °C, calafrios e queda do estado geral, ou sem melhora após 12-24 h de manejo conservador. Conduta: manter amamentação + antibiótico anti-estafilocócico por 10-14 dias.

Fleimão → abscesso

Massa dura sem flutuação (fleimão) ou coleção flutuante com febre (abscesso). Ultrassom confirma. Abscesso: drenagem (incisão ou punção/dreno guiado) + antibiótico + amamentação mantida, inclusive na mama drenada.

Esquema (endometrite — Febrasgo nº 117)Droga, dose e viaIntervaloObservação
Esquema 1Ampicilina-sulbactam 3 g IV6/6 hAssociar aminoglicosídeo; reações alérgicas raras
Esquema 1 (aminoglicosídeo)Gentamicina 180-240 mg IV/IM ou amicacina 1 g IV/IM1×/diaMonitorar função renal e ototoxicidade
Esquema 2Clindamicina 600 mg IV6/6 hAssociar aminoglicosídeo; menos falhas na Cochrane 2015
Esquema 2 (alternativa)Metronidazol 500 mg IV8/8 hAssociar aminoglicosídeo; garante cobertura anaeróbia

Antibióticos na mastite lactacional — CAB 23 (MS, 2015) × ABM nº 36 (2022)

SituaçãoCAB 23 (Ministério da Saúde)ABM 2022
Primeira linhaCefalexina 500 mg VO 6/6 h; ou amoxicilina 500 mg ou amoxicilina-clavulanato 500/125 mg 8/8 hDicloxacilina/flucloxacilina 500 mg 6/6 h; cefalexina 500 mg 6/6 h como alternativa de espectro mais largo
Alergia a betalactâmicoEritromicina 500 mg VO 6/6 hClindamicina 300 mg VO 6/6 h
MRSA / segunda linhaVancomicina (ambiente hospitalar)Clindamicina 300 mg 6/6 h ou sulfametoxazol-trimetoprima dose dobrada 12/12 h (evitar se lactente com deficiência de G6PD; cautela em prematuro e ictérico < 30 dias)
DuraçãoMínimo 10 dias (cursos curtos recidivam)10-14 dias

Endometrite: manter a via IV por pelo menos 24-48 h após o último pico febril e evitar tratar com o mesmo antibiótico usado na profilaxia da cesariana (Febrasgo nº 117).

Cultura do leite com antibiograma só em cinco situações (CAB 23): falha do antibiótico, mastite recorrente (> 2 episódios), mastite hospitalar, casos graves e mastite epidêmica.

Sem melhora da endometrite em 24-48 h: avaliação da infectologia e reavaliação terapêutica; sem melhora da mastite em 48 h de antibiótico: pensar em abscesso e referenciar.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Duração do antibiótico na endometrite: 7-10 dias ou parar 24-48 h após ficar afebril?

Protocolo Febrasgo nº 117 (2018)

Tratamento por 7 a 10 dias, com via IV mantida por pelo menos 24-48 h após o último pico febril. Segue a linha do RCOG (Green-top 64b, 2017), orientada para sepse materna, com evidências classificadas pelo próprio protocolo como grau 3-4.

Febrasgo, Protocolo Obstetrícia nº 117, 2018

Cochrane 2015 (e a prática norte-americana derivada dela)

Na endometrite não complicada, o esquema IV (clindamicina + gentamicina) é suspenso 24-48 h após a melhora clínica/afebrilidade, sem continuação oral: três ensaios não mostraram diferença de recorrência ao adicionar antibiótico oral depois da resposta ao venoso.

Mackeen et al., Cochrane Database Syst Rev 2015;(2):CD001067

Na prova

O enunciado que cita Febrasgo, rotina de maternidade brasileira ou 'completar o tratamento' está no mundo dos 7-10 dias; o que descreve endometrite não complicada com resposta rápida e pergunta se há benefício em antibiótico oral de alta está citando a evidência da Cochrane. As alternativas denunciam o recorte: '7 a 10 dias' e 'suspender 24-48 h após afebril, sem esquema oral' raramente convivem na mesma questão por acaso.

Mastite: 'esvaziar a mama' e massagear, ou livre demanda sem esvaziamento extra?

CAB 23 — Ministério da Saúde (2015)

O esvaziamento adequado da mama é o componente mais importante do tratamento: mamada pelo lactente, ordenha complementar se necessário e massagens delicadas nas regiões afetadas. Reflete o entendimento OMS da época, centrado na estase láctea.

Ministério da Saúde, CAB nº 23, 2ª ed., 2015

ABM Protocolo nº 36 (2022)

Amamentar em livre demanda sem tentar 'esvaziar' a mama; evitar massagem profunda, aparelhos vibratórios, bombas extras e compressas de soro — o excesso de estímulo e o trauma mecânico pioram o edema e empurram o quadro para fleimão. A fisiopatologia é inflamação e estreitamento ductal com disbiose, não um 'plug' macroscópico removível.

Mitchell et al., Breastfeed Med 2022;17(5):360-76

Na prova

A data e o vocabulário do enunciado entregam o recorte: questão que fala em 'esvaziamento da mama' e 'massagem' está na régua do CAB 23, a régua do SUS e da prova do MEC; questão que fala em 'espectro da mastite', 'disbiose' ou cita a ABM cobra as condutas de 2022. Os dois mundos concordam no essencial: amamentação mantida, anti-inflamatório e antibiótico anti-estafilocócico quando a mastite é bacteriana.

Abscesso mamário: incisão cirúrgica ou punção/dreno guiado por ultrassom?

CAB 23 — Ministério da Saúde (2015)

Drenagem cirúrgica, de preferência sob anestesia local, com cultura da secreção — a conduta clássica, executável em qualquer nível de atenção com centro cirúrgico.

Ministério da Saúde, CAB nº 23, 2ª ed., 2015

ABM Protocolo nº 36 (2022)

Punção aspirativa ou, de preferência, colocação de dreno guiado por ultrassom já no primeiro procedimento (a aspiração isolada recorre com frequência); dreno mantido por gravidade, nunca sistema a vácuo na mama lactante. Depende de ultrassom e, idealmente, radiologia intervencionista.

Mitchell et al., Breastfeed Med 2022;17(5):360-76

Na prova

Cenário de UBS/hospital geral do SUS conversa com a drenagem cirúrgica do CAB 23; cenário com ultrassom à beira-leito e serviço de mama conversa com punção/dreno da ABM. Nos dois mundos a resposta tem os mesmos três pilares — drenar, antibiótico e amamentação mantida — e a alternativa que suspende a lactação está errada em ambos.

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Caso resolvido

Puérpera de 29 anos, 4º dia pós-cesariana de emergência por falha de progressão após 14 horas de trabalho de parto com bolsa rota. Procura a maternidade com febre de 38,7 °C, calafrios e dor em baixo ventre. Exame: FC 108 bpm, FR 18 irpm, PA 100 × 62 mmHg; útero palpável 2 cm acima da cicatriz umbilical, amolecido e muito doloroso; lóquios abundantes, purulentos e fétidos; ferida operatória sem coleção; mamas sem sinais flogísticos.
achado
Febre > 38 °C com taquicardia sustentada (> 90 bpm), útero subinvoluído e doloroso, lóquios purulentos e fétidos no 4º dia pós-cesariana — trabalho de parto prolongado com bolsa rota e via cesariana somam os principais fatores de risco.
diagnóstico
Endometrite puerperal com sinais sistêmicos ('sinal vermelho' da Febrasgo: febre + FC > 90). O odor fétido sugere participação de anaeróbios. Ferida e mamas examinadas e afastadas como foco.
conduta
Internação; hemograma, hemoculturas e cultura de lóquios; ultrassonografia para afastar restos ovulares e coleção; antibiótico IV imediato sem aguardar culturas — clindamicina 600 mg 6/6 h + gentamicina em dose única diária (cobertura anaeróbia garantida, essencial pós-cesariana). Evitar reutilizar a cefalosporina da profilaxia como tratamento.
reavaliação
Afebril a partir de 36 h de esquema, com útero menos doloroso: manter IV por 24-48 h após o último pico febril e completar a régua Febrasgo de 7-10 dias. Se a febre tivesse persistido por 48 h, o caminho seria nova ultrassonografia (restos → curetagem; abscesso → drenagem) e, com investigação negativa e febre em picos, heparina como teste terapêutico para tromboflebite pélvica séptica.
07

Agora feche você

Lactante de 24 anos, 18º dia pós-parto vaginal, em uso de cefalexina 500 mg 6/6 h há 3 dias por mastite à direita, sem melhora: mantém febre de 38,4 °C e dor. Exame: quadrante superolateral direito com área endurecida, hiperemiada, de 5 cm, com ponto de flutuação central; fissura mamilar cicatrizada; segue amamentando com dor.
achado
Mastite que não regrediu após 48-72 h de antibiótico adequado, agora com área de flutuação — a evolução esperada da mastite mal resolvida para coleção purulenta.
diagnóstico
Abscesso mamário lactacional (diferenciais: galactocele infectada, fibroadenoma, carcinoma). Ultrassonografia confirma a coleção e marca o melhor ponto de acesso.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Suspender a amamentação na mastite ou no abscesso Atrai porque 'o leite está infectado'. Errado nas duas réguas: o leite com bactérias não faz mal ao recém-nascido a termo sadio, e a estase de leite é justamente o motor da doença — suspender piora. Mantém-se a amamentação inclusive na mama afetada e na mama drenada; a pausa, quando a dor exige, é temporária e unilateral.
  2. 2Ignorar febre nas primeiras 24 horas porque 'a definição exclui' A exclusão das primeiras 24 h na morbidade febril puerperal é estatística — febre baixa autolimitada é comum. Mas sepse por estreptococo do grupo A é precoce e mata em horas: febre alta com taquicardia, taquipneia ou queda do estado geral nas primeiras 24 h se trata como sepse, não como fisiologia.
  3. 3Antibiótico de rotina para toda mama dolorida Ingurgitamento e mastite inflamatória não são infecção. Pela régua do CAB 23, o antibiótico entra com sintomas graves, fissura ou falta de melhora após 12-24 h de remoção efetiva do leite; pela ABM, só na mastite bacteriana — antibiótico na inflamação estéril desorganiza o microbioma mamário e facilita a progressão.
  4. 4Esquecer a tromboflebite pélvica séptica na febre que não cede Endometrite em esquema adequado, ultrassom sem restos nem coleção, exame sem outro foco — e a febre em picos continua. O diagnóstico é de exclusão e o teste é terapêutico: heparina IV com queda da febre em 48-72 h. Quem não lembra dela escala antibiótico indefinidamente ou indica cirurgia sem alvo.
  5. 5Tratar abscesso só com antibiótico Coleção purulenta com cápsula não responde a antibiótico isolado — sem drenagem o quadro recorre, necrosa e deforma. O par obrigatório da questão é drenagem + antibiótico; a alternativa que oferece 'trocar o antibiótico e reavaliar' diante de flutuação é o distrator clássico.
  6. 6Repetir na terapêutica o antibiótico da profilaxia A Febrasgo manda evitar o uso terapêutico do antibiótico que já foi usado na profilaxia da cesariana — a falha da profilaxia sugere flora não coberta por ele. Na endometrite pós-cesariana, o esquema terapêutico precisa de cobertura anaeróbia (clindamicina ou metronidazol), que a cefazolina profilática não dá.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a endometrite puerperal é polimicrobiana (aeróbios e anaeróbios); o esquema clássico é clindamicina + gentamicina EV até melhora clínica e afebril por 24–48h. Azitromicina isolada não cobre adequadamente a flora anaeróbia/mista da endometrite. Nitrofurantoína trata ITU baixa, não endometrite. Penicilina benzatina é para sífilis. Fluconazol é antifúngico, sem indicação neste quadro bacteriano.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória as duas réguas de temperatura (38,0 °C na morbidade febril; 38,5 °C na sepse puerperal da OMS), os dois esquemas IV da endometrite com doses e o gatilho de antibiótico na mastite pelo CAB 23. Depois confira no capítulo e marque o que errou.

em 30 dias

Monte a árvore da febre puerperal que não cede em 48 h (restos → curetagem; abscesso → drenagem; nada → heparina) e liste as quatro condutas de mastite que a ABM 2022 aposentou. Termine resolvendo de novo o caso para completar.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Puérpera no 4º dia de uma cesariana de urgência chega com febre, calafrios e dor em baixo ventre. O útero está doloroso, os lóquios fétidos — e a ferida operatória parece limpa. Conduza o caso: o que colher, o que iniciar e o que fazer se a febre não ceder. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecção puerperal e mastite — Preparatório para provas | OsceLabs