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Puncionar o queimado: atravessar a pele queimada ou procurar área sã
Acesso venoso no grande queimado: puncionar a pele queimada ou não
Três documentos brasileiros mandam obter a mesma linha e terminam a decisão de modos opostos — e o volume calculado não espera.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 50 anos com queimadura de 45% da superfície corporal está internado há 6 dias, com acesso venoso central em veia femoral inserido na admissão, em área queimada. A equipe planeja as próximas intervenções cirúrgicas. Considerando o que o Capítulo 02 da Sociedade Brasileira de Queimaduras orienta sobre o planejamento cirúrgico, qual conduta relativa ao acesso é apropriada?
Como esse tema cai
Este capítulo decide por onde entra o volume. Não recalcula superfície nem profundidade, não deduz a fórmula de reposição, não repete a lista de transferência e não discute o tubo na via aérea — isso está resolvido nos capítulos anteriores desta apostila, e aqui só se usa o resultado: há indicação de reposição venosa e alguém precisa puncionar.
O que se faz aqui é confrontar as três frases brasileiras sobre a mesma punção. A Cartilha do Ministério manda obter o acesso periférico calibroso mesmo em área queimada. O material da Sociedade Brasileira de Queimaduras manda puncionar em cintura escapular e fora das queimaduras. O Projeto Diretrizes não qualifica a pele, manda cateterizar a veia periférica de grosso calibre e guarda a frase para depois da internação. Mesmo doente, mesma hora, três instruções.
A pergunta prática chega antes da fórmula: com a pele que receberia a agulha queimada, o edema começando e o volume calculado esperando, onde se punciona, com que calibre, quantas vezes e em que momento se desiste do periférico. Linha errada custa hora, e hora perdida na reposição do queimado não se recupera com velocidade depois.
O que muda decisão
A linha é uma decisão, não um reflexo
O grande queimado recebe litros nas primeiras horas, e recebe com hora marcada. Quem sustenta essa vazão não é a veia escolhida por acaso: é o cateter curto e de bom calibre, porque o fluxo obedece ao raio e ao comprimento do tubo antes de obedecer à pressa de quem punciona. Um periférico curto e grosso entrega mais volume por hora do que o cateter longo e fino de um acesso central — e é por isso que os três documentos brasileiros começam pelo periférico e tratam o central como recurso, não como sofisticação.
A janela também fecha sozinha. O edema que a própria reposição produz é progressivo e generalizado, e o membro que tem veia visível na admissão tem sulco apagado poucas horas depois. Puncionar cedo não é zelo, é aproveitar a única fase em que a anatomia ainda ajuda. Adiar a punção para depois da conta de superfície é trocar uma veia fácil por uma veia que já não existe.
A superfície que receberia a agulha é a superfície que queimou, e isso muda três coisas ao mesmo tempo. A referência anatômica some sob edema e escara. O curativo que fixaria o cateter não adere a leito exsudativo. E o tecido atravessado está colonizado desde as primeiras horas, porque a barreira que impedia a colonização é justamente a que se perdeu. Nenhuma dessas três impede a punção; todas encarecem.
Sobra a assimetria dos erros, que é o que de fato separa os documentos. Procurar pele sã custa minutos de reposição num doente cujo relógio começou no acidente e não na chegada. Puncionar depressa dentro da queimadura custa risco de infecção num cateter que talvez seja trocado em poucos dias de qualquer modo. Os dois erros não pesam igual, e quem decide precisa saber qual dos dois está aceitando.
As três frases brasileiras sobre a mesma punção
A Cartilha do Ministério da Saúde escreve o acesso como um item numerado do atendimento inicial, entre expor a área queimada e passar a sonda vesical, e a frase é esta: obtenha preferencialmente acesso venoso periférico e calibroso, mesmo em área queimada, e somente na impossibilidade desta utilize acesso venoso central. Há três decisões numa frase só: a via preferida é a periférica, o calibre é condição, e a pele queimada não é impedimento.
O material da Sociedade Brasileira de Queimaduras escreve o acesso dentro da ressuscitação hídrica, no parágrafo que manda iniciar o Ringer com lactato no adulto e na criança que ultrapassam o corte de superfície: em via venosa, preferencialmente por punção periférica, com cateter calibroso, em cintura escapular e fora das queimaduras. As duas primeiras exigências são as mesmas da Cartilha. A terceira é o oposto exato da terceira exigência da Cartilha, e vem sem ressalva de impossibilidade.
O Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina tem a frase mais curta e o rótulo mais revelador. Sob o título de internação, manda cateterizar preferencialmente a veia periférica de grosso calibre e calcular a reposição inicial. Repete a preferência periférica e a exigência de calibre, e simplesmente não qualifica a pele: não autoriza atravessar a queimadura nem manda desviar dela.
Vale medir o tamanho do desacordo antes de tomar partido. Das três exigências que compõem a instrução, duas são idênticas nos três textos, e a discórdia se concentra numa só, a da pele. Isso muda o que se estuda: não há dúvida sobre preferir periférico, nem sobre exigir calibre, nem sobre a ordem em que o central entra. Há uma pergunta única, e ela é respondida de modos opostos por dois documentos brasileiros vigentes, um deles federal. Quem trata o assunto como se tudo estivesse em disputa perde a parte estável, que é a maior; quem trata como se nada estivesse perde justamente o ponto que decide onde a agulha entra neste doente.
O resultado é um consenso de dois terços e uma divergência frontal no terço restante. Todos preferem periférico; todos exigem calibre; e o mesmo doente, na mesma hora, recebe de um documento a autorização expressa para puncionar dentro da queimadura e de outro a ordem expressa de procurar longe dela. Não é diferença de fase, de população nem de desenho de estudo: é a mesma operação terminada de dois modos opostos, e quem punciona escolhe um deles antes de encostar a agulha.
Onde o acesso entra na sequência, e o passo que não tem linha
Antes de discutir onde a agulha entra, vale ver onde a frase mora. A Cartilha coloca o acesso venoso como item do primeiro atendimento, na mesma lista em que estão a via aérea, a busca por queimadura circular e a exposição do doente. Ali, a punção é ato de sala de emergência e concorre com o tempo.
A Sociedade Brasileira de Queimaduras coloca a mesma punção depois, dentro do gerenciamento de fluidos, e o texto é explícito ao dizer que esse gerenciamento deve ser abordado uma vez calculada a superfície corporal queimada. Ali, a punção é a execução de uma prescrição que já existe, e não a primeira coisa que se faz com o doente.
O Projeto Diretrizes é o mais radical dos três nessa arrumação. O exame básico do primeiro atendimento resume a etapa circulatória em quatro perguntas — condição da circulação, condição da coluna cervical, conter com colar, condição cardíaca — e nenhuma delas é a linha. O cateter só aparece páginas depois, sob o rótulo de internação. Quem seguisse esse documento ao pé do texto faria a avaliação circulatória inteira do queimado sem puncionar ninguém.
Essa dispersão explica boa parte da confusão de plantão. Duas equipes podem estar seguindo documentos brasileiros legítimos e discordar sobre se a punção é urgência ou tarefa de admissão, sem que nenhuma delas esteja errada quanto à sua própria fonte. A saída prática é a mesma dos outros pontos deste tema: quem decide escreve por qual régua decidiu, e a hora da punção fica registrada junto com a hora da queimadura.
Atravessar a queimadura: o que se sabe e o que se supõe
Nenhum dos dois documentos brasileiros que discordam apresenta dado ao lado da sua instrução. A Cartilha autoriza a punção na pele queimada sem citar estudo, e o material da Sociedade Brasileira de Queimaduras manda desviar dela sem citar estudo. Divergência sem dado é divergência, não é fato, e a honestidade de quem estuda é dizer isso antes de escolher um lado.
O que existe é observação, e ela é de outro compartimento. Um hospital de queimados revisou por um ano os cateteres venosos centrais dos seus internados e encontrou uma parte substancial deles inserida dentro de área queimada, com associação estatisticamente significativa entre essa inserção e a cultura positiva do cateter. A série também separou o sítio femoral do par jugular interna e subclávia, com diferença a favor do segundo.
Os limites dessa leitura precisam ser ditos em voz alta, e os próprios autores os declaram. É centro único e é retrospectivo. Mede cateter central, não punção periférica — exatamente a via sobre a qual os brasileiros divergem. E não separa o sítio da gravidade de quem precisou dele: o doente cuja queimadura não deixou pele sã costuma ser o doente mais extenso, mais operado e mais tempo internado, e essa é a explicação alternativa que um desenho retrospectivo não elimina.
Fechando antes de acusar: a série não contradiz a Cartilha, porque não fala do que a Cartilha autoriza. O que ela faz é dar preço a uma escolha e não anular a outra. Traduzindo para a beira do leito, atravessar a queimadura é decisão de tempo, não de conforto: vale quando o outro caminho é atrasar a reposição, e não vale quando existe pele sã acessível na mesma velocidade.
Periférico primeiro, central por exclusão
A hierarquia é o ponto em que os três documentos brasileiros se abraçam, e ela é mais forte do que costuma parecer. A Cartilha não escreve que o central é uma opção paralela: escreve que ele entra somente na impossibilidade do periférico. O Projeto Diretrizes e o material da Sociedade Brasileira de Queimaduras dizem a mesma preferência com outras palavras, sem nunca inverter a ordem.
A razão fisiológica já foi dada e é de tubo: para reposição volumosa, o periférico curto e grosso vence o central longo e fino. A razão infecciosa é a segunda, e no queimado ela pesa mais do que na enfermaria. O cateter central do queimado atravessa ou vizinha uma superfície colonizada, permanece por semanas e convive com trocas de curativo, com idas ao centro cirúrgico e com bacteremias de origem cutânea. A série observacional citada mediu uma taxa por cateteres-dia alta o bastante para que a decisão de puncionar o central não seja tomada por comodidade.
Há ainda a razão de sequência, que é a menos lembrada. O grande queimado vai precisar de acesso por muito tempo, e o material da Sociedade Brasileira de Queimaduras chega a escrever a rotação de acessos venosos entre as coisas que o planejamento cirúrgico precisa considerar ao longo da internação. A primeira punção é a primeira de uma série, e quem queima o sítio mais fácil no primeiro dia paga por isso na terceira semana.
Na prática, o central entra quando a punção periférica falhou de fato, e não quando ela pareceu difícil. Falhou de fato significa tentativas suficientes por quem sabe puncionar, em mais de um território, com o doente já exposto e aquecido. Antes disso, o que muda o resultado é mudar de sítio e de operador, não mudar de categoria de cateter.
Vale distinguir a indicação de reposição da indicação de monitorização, porque elas se confundem no leito. O acesso central do queimado costuma ser pedido por um terceiro motivo, que é medir e infundir droga, e não por vazão. Quando esse é o motivo, a decisão deixa de pertencer a este tema e passa a pertencer ao cuidado intensivo, com os seus próprios critérios. O que não muda é a ordem inicial: a reposição das primeiras horas não espera um central para começar, e um doente que ainda não tem acesso periférico não tem indicação de central por antecipação, e sim por fracasso demonstrado.
Calibre, número e território da punção
As três fontes brasileiras exigem calibre e nenhuma delas escreve um número de calibre. Isso não é descuido de redação: o que importa é a vazão que aquele cateter sustenta com aquela veia, e a escolha se faz com o que existe no carro. O critério prático é o do próprio cálculo: se o volume da hora não passa pelo cateter que está na mão, o cateter está errado, mesmo que esteja pérvio e bem fixado.
O número de linhas é o ponto em que a prática brasileira e o texto brasileiro se afastam um pouco. A Cartilha e o Projeto Diretrizes escrevem o acesso no singular; a conduta consagrada no grande queimado, e a que aparece nas respostas de prova, é obter dois acessos periféricos calibrosos. A justificativa não é redundância burocrática: é que a linha do queimado é perdida com frequência por edema, por curativo encharcado e por transporte, e a segunda linha é o que impede que a reposição pare enquanto alguém repunciona.
O território é onde a Sociedade Brasileira de Queimaduras dá a instrução mais específica: cintura escapular. A escolha tem lógica. O membro superior e a raiz do ombro sofrem menos com o decúbito, são mais fáceis de manter elevados enquanto o edema se instala, e ficam longe do sítio femoral, que a série observacional apontou como o de pior desempenho entre os centrais. Um acesso de membro inferior num queimado costuma ser a linha que menos dura e a que mais preocupa.
Duas advertências fecham a escolha do território. A primeira é que o membro escolhido para a punção pode ser o membro que precisará de descompressão adiante, e uma linha atravessando a área a ser incisada complica os dois atos. A segunda é que fixação circunferencial em membro que vai edemaciar se comporta como garrote — o mesmo raciocínio dos anéis e adornos que saem na admissão vale para o esparadrapo que dá a volta.

Os primeiros minutos: o que corre antes da fórmula
Obtida a linha, resta o que corre por ela antes de a conta ficar pronta, e aqui há uma segunda divergência brasileira. O Projeto Diretrizes escreve uma abertura fixa: no grande queimado adulto, iniciar dois mil mililitros de Ringer com lactato para correr rápido, em menos de meia hora; na criança, vinte mililitros por quilo para correr em vinte minutos, e só depois calcular. É uma prescrição de rotina, dada antes de qualquer estimativa de superfície.
O material da Sociedade Brasileira de Queimaduras vai por outro caminho. Escreve que a administração de fluidos em bolus deve ter indicação precisa, pois pode gerar mais edema. Não proíbe o bolus; retira dele o estatuto de rotina e exige uma razão para cada um.
Vale separar o que é contradição do que é diferença de padrão. Os dois textos falam do mesmo doente e do mesmo momento, então não é questão de fase nem de população. Mas um deles define um volume de abertura e o outro define uma regra de indicação, e as duas coisas convivem quando o doente chega hipotenso e mal perfundido. A diferença real está no doente estável: para um documento ele abre com dois mil mililitros correndo depressa, para o outro ele não abre com bolus nenhum.
A escolha entre as duas tem consequência direta sobre a linha. Um volume de abertura em meia hora exige um cateter que sustente essa vazão — o mesmo argumento de raio e comprimento da primeira seção, agora com prazo. Quem adota a abertura fixa não pode adotar um cateter fino, e quem só infunde por indicação tem mais folga para aceitar o acesso que conseguiu. Calibre e estratégia de abertura são a mesma decisão, vista de dois lados.
A rota que os documentos brasileiros não escrevem
Há uma terceira via de infusão que resolve exatamente o caso mais difícil deste tema — o queimado extenso, sem pele sã acessível, sem veia periférica e sem tempo para um central — e ela não aparece em nenhum dos três documentos brasileiros lidos aqui. A via intraóssea não é citada por nenhum deles, nem pelo nome nem pelos sítios de punção.
A ausência foi medida, não suposta. Os três arquivos foram lidos por dois extratores diferentes, e o padrão de busca foi conferido nos dois sentidos: acendeu no termo que sabidamente existe em cada documento e não acendeu num termo inventado; além disso, uma marca de controle foi inserida no meio de cada texto e acendeu uma única vez. O zero é dos documentos, não do instrumento. O único acendimento próximo, a palavra tibial na segunda parte do Projeto Diretrizes, é a artéria tibial posterior num trecho de anatomia vascular do pé.
Isso não transforma a via intraóssea em conduta proibida, e também não a transforma em conduta recomendada por essas fontes. Significa que o médico brasileiro que a utiliza num queimado está agindo por conhecimento de reanimação geral, transportado de outro contexto, e não por regra escrita nesses documentos de queimaduras. A consequência prática é de registro, não de coragem: a decisão se escreve, com a razão pela qual as duas vias anteriores não serviram e a hora em que cada tentativa foi feita.
A consequência pedagógica é a inversa da que se costuma tirar de um silêncio. Silêncio de documento não é permissão nem proibição: é lacuna. Quem estuda só por essas fontes chega ao plantão sem essa rota na cabeça, e o momento de descobrir que ela existe não é diante do doente extenso cuja reposição já atrasou.
Fica também um alerta de leitura que vale além deste ponto. Ausência num documento não vira conduta: não se transforma uma lacuna em recomendação nem em proibição, e quem responde por eliminação costuma errar aqui nos dois sentidos. A rota que o texto não escreve continua sendo decidida à beira do leito, com a hierarquia que os textos escrevem — periférico primeiro, central por exclusão — mantida antes dela. O que muda quando se sabe da lacuna é o ônus: a decisão precisa vir acompanhada da razão pela qual as duas vias escritas não serviram, do número de tentativas e da hora de cada uma.
A linha que não fica: edema, fixação e rotação
Puncionar é metade do problema; a outra metade é manter. O queimado perde linha por motivos que não existem em outros doentes, e todos eles são previsíveis. O edema progressivo desloca o cateter e transforma qualquer fixação circunferencial em compressão. O leito exsudativo e o tópico do curativo desfazem a aderência de qualquer adesivo. E o transporte, as trocas de curativo e as idas ao centro cirúrgico mobilizam o membro repetidas vezes.
Daí a regra que atravessa o tema: a linha do queimado se planeja para durar, não para funcionar agora. Isso quer dizer escolher o sítio pensando no décimo dia e não só na próxima hora, evitar o membro que provavelmente será operado ou descomprimido, manter o membro elevado enquanto o edema se instala e conferir a linha a cada reavaliação, com a mesma disciplina com que se confere a diurese.
O material da Sociedade Brasileira de Queimaduras é o único dos três que olha para esse horizonte, e o faz num lugar inesperado: no planejamento das intervenções cirúrgicas, entre as coisas a considerar, aparece a rotação de acessos venosos em caso de necessidade ao longo da internação. A frase reconhece que a linha do grande queimado é consumível e que a troca é evento programável, não acidente.
Programar a troca tem um limite honesto: a série observacional que forneceu os números de infecção declara que não teve dados suficientes sobre troca por fio-guia, e não existe aqui um intervalo fixo apoiado em evidência brasileira. O que se sustenta é o princípio — inspeção diária do sítio, retirada assim que a via deixar de ser necessária e escolha do próximo sítio antes de perder o atual —, e não um número de dias que ninguém demonstrou.
A ordem dos atos: quando a punção espera
A punção tem urgência, mas não é o primeiro ato. Antes dela vêm três coisas que os três documentos colocam na frente e que mudam o próprio resultado da linha. Interromper o processo da queimadura e remover roupas e adornos, porque o agente continua queimando e porque o edema vai transformar anel e pulseira em garrote. Garantir a via aérea, porque o doente que perde a via aérea não é salvo por volume. E expor e aquecer, porque a punção às cegas em doente vestido e frio falha mais.
Depois desses, a punção compete com pouca coisa. A avaliação circulatória do queimado inclui procurar queimadura circunferencial de tórax e de membros e conferir perfusão distal, e essa busca acontece com o doente exposto, na mesma passagem em que se escolhe o sítio. Achar uma escara circunferencial no membro que ia receber a linha muda o plano de imediato — muda o sítio, e às vezes muda a ordem, porque descomprimir vem antes de infundir naquele segmento.
Há também o queimado em que a punção simplesmente não entra na conta. Nem toda queimadura tem indicação de reposição venosa, e a decisão sobre isso é aritmética e já está feita nos capítulos anteriores desta apostila. Puncionar quem não precisa não é zelo: é submeter a agulha, e às vezes o cateter permanente, um doente que ia para casa com curativo e retorno marcado.
Por fim, a punção não espera exame. Nenhum exame autoriza ou desautoriza a linha, e a espera por gasometria, por hemograma ou pelo cálculo definitivo de superfície é a forma mais comum de perder a veia fácil. A sequência que funciona é curta: interrompeu, avaliou via aérea, expôs, puncionou, e só então terminou a conta.
Há uma exceção de ordem que vale nomear, porque troca a posição da punção na fila. O doente resgatado de ambiente fechado recebe oxigênio a cem por cento e tem a via aérea decidida antes de tudo, e essa decisão pode consumir a equipe inteira por vários minutos. Nesse cenário a linha não some da lista: ela passa a ser tarefa de quem não está no tubo, obtida em paralelo e não em série. Equipe pequena que faz uma coisa de cada vez chega ao fim da via aérea com um membro edemaciado e sem acesso — e o volume que estava calculado desde a admissão ainda não começou a correr.
O que a linha não resolve
Obter dois acessos calibrosos não é reanimar. A linha é condição, não é conduta, e o erro clássico de quem estuda por lista é tratar a punção como se ela encerrasse a alínea da circulação. O que decide o desfecho da fase de reposição é o volume prescrito e a correção horária dele pela resposta do doente, e nada disso melhora porque o cateter é bonito.
A linha também não substitui as decisões que correm em paralelo. Continua sendo preciso decidir destino, escrever a analgesia, cuidar da ferida e proteger a via aérea de quem inalou fumaça — cada uma dessas com sua própria régua e nenhuma delas resolvida pela existência de um acesso. Duas linhas ótimas não fazem um doente bem cuidado.
Existe ainda o risco oposto, mais silencioso: a linha que dá falsa segurança. Cateter pérvio e bomba ligada não garantem que o volume esteja entrando na velocidade prescrita, e infusão por gravidade num cateter de bom calibre pode ficar muito abaixo do programado sem que ninguém perceba. A conferência é o volume infundido de fato, comparado com o que estava prescrito para aquela hora, e não a presença do acesso.
Fechando o tema no que o médico faz: a punção do queimado é um ato de janela curta, com sítio escolhido por durabilidade, calibre escolhido por vazão, número escolhido por redundância e pele escolhida por tempo — atravessando a queimadura quando procurar pele sã atrasaria a reposição, e desviando dela quando não atrasa. Feito isso, a linha sai do centro da cena e volta a ser o que sempre foi: o cano por onde passa a decisão de outra pessoa, tomada uma hora antes, sobre quanto volume aquele doente precisa.
As três frases, lado a lado
A tabela põe as três instruções brasileiras sobre a mesma punção na mesma linha de leitura. As duas primeiras colunas mostram um consenso quase completo; a terceira é onde a Cartilha e o material da SBQ se contradizem, e onde o Projeto Diretrizes se cala.
A janela que fecha sozinha
A veia visível na admissão desaparece sob o edema que a própria reposição produz. Puncionar cedo aproveita a única fase em que a anatomia ainda ajuda.
Vazão é raio e comprimento
O periférico curto e grosso entrega mais volume por hora do que o central longo e fino. Por isso a preferência periférica é regra nos três documentos, e o central é recurso.
Cada documento num ponto da sequência
Atendimento inicial na Cartilha, ressuscitação hídrica na SBQ, internação no Projeto Diretrizes. O mesmo ato ocupa três posições diferentes da mesma sequência.
A punção do queimado nos três documentos brasileiros
| Documento | Onde a frase aparece | Via e calibre | Pele queimada |
|---|---|---|---|
| Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras (MS/CFM, 2012) | Item f do atendimento inicial, entre expor a área queimada e passar a sonda vesical | Periférico e calibroso; central somente na impossibilidade do periférico | Autoriza expressamente: 'mesmo em área queimada' |
| SBQ, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado (2019/2020) | Dentro do gerenciamento de fluidos, depois de calculada a superfície queimada | Preferencialmente punção periférica, com cateter calibroso | Manda desviar: 'em cintura escapular e fora das queimaduras' |
| Projeto Diretrizes AMB/CFM — Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial (2008) | Sob o rótulo 'NA INTERNAÇÃO'; a etapa circulatória do exame básico não menciona a linha | Cateterizar preferencialmente a veia periférica de grosso calibre | Não qualifica: nem autoriza nem proíbe |
O que a série observacional de cateteres centrais mediu, e o que ela não mede
| Achado | Número | Como ler |
|---|---|---|
| Cateteres inseridos em área queimada | 37,2% de 191 pacientes acompanhados por um ano | Descreve a prática de um centro, não a recomendação de uma diretriz |
| Inserção em área queimada e cultura positiva do cateter | Associação significativa, p < 0,0001 | Associação em desenho retrospectivo; não separa o sítio da gravidade de quem precisou dele |
| Infecção de corrente sanguínea relacionada a cateter | 20,64 por mil cateteres-dia | Dá preço ao acesso central no queimado; sustenta a hierarquia periférico-primeiro |
| Femoral contra jugular interna e subclávia somadas | 32,93% contra 29,13% (p = 0,048) | Argumento a favor do território superior, coerente com a cintura escapular da SBQ |
| Punção periférica através da queimadura | Não medida | É exatamente o ponto em que a Cartilha e a SBQ divergem, e a série não o toca |
A etapa circulatória do exame básico do Projeto Diretrizes tem quatro perguntas — condição da circulação, condição da coluna cervical, conter com colar, condição cardíaca — e nenhuma delas é o acesso venoso.
A via intraóssea não aparece em nenhum dos três documentos: zero ocorrências nos dois extratores usados, com controle positivo, controle negativo e marca plantada no meio de cada texto.
Os dois documentos que divergem sobre a pele queimada não citam estudo ao lado da instrução. Os números de infecção disponíveis são de cateter CENTRAL, em série retrospectiva de centro único, e não decidem a questão da punção periférica.
As três fontes exigem calibre e nenhuma escreve um número de calibre. O critério que sobra é funcional: o cateter serve se sustenta o volume prescrito para aquela hora.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Pode atravessar a queimadura
Obtenha preferencialmente acesso venoso periférico e calibroso, mesmo em área queimada, e somente na impossibilidade desta utilize acesso venoso central.
Ministério da Saúde / CFM. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item f do atendimento inicial
Puncione fora das queimaduras
A administração venosa de ringer lactato deve ser iniciada em pacientes adultos com queimaduras maiores ou iguais a 20%SC e em crianças com queimaduras maiores ou iguais a 10% SC, em via venosa, preferencialmente por punção periférica, com cateter calibroso, em cintura escapular e fora das queimaduras.
Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020
Não qualifica a pele
Cateterizar preferencialmente a veia periférica de grosso calibre e calcular reposição inicial.
Projeto Diretrizes AMB/CFM — Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008, seção 'NA INTERNAÇÃO'
Na prova
O enunciado costuma entregar de qual régua está falando, e quando não entrega, entrega o cenário. Vinheta de grande queimado sem pele sã acessível, com reposição indicada e tempo correndo, está pedindo a leitura da Cartilha: acesso periférico calibroso mesmo em área queimada, com o central reservado à impossibilidade do periférico — é essa a redação de documento federal e é a que mais aparece como gabarito. Vinheta que descreve o planejamento da ressuscitação hídrica depois de calculada a superfície, ou que cita a SBQ, está pedindo cintura escapular e fora das queimaduras. Distrator recorrente: oferecer acesso venoso central como primeira escolha no grande queimado — nenhum dos três documentos autoriza isso, e a Cartilha escreve a exclusão com a palavra 'somente'. Segundo distrator: dissecção venosa como conduta inicial, que nenhuma das três fontes menciona.
Abertura fixa antes da conta
Grande queimado adulto: iniciar 2.000 ml de Ringer com lactato para correr rápido (menos de 30 minutos); Grande queimado criança: iniciar 20 ml/kg para correr em 20 minutos.
Projeto Diretrizes AMB/CFM — Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008, seção 'NA INTERNAÇÃO'
Bolus só com indicação
A administração de fluidos em “bolus” deve ter uma indicação precisa, pois esta pode levar a uma maior formação de edema.
Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020
Na prova
Esta é diferença de padrão, não contradição absoluta, e o enunciado costuma resolvê-la pela hemodinâmica. Queimado chocado ou mal perfundido recebe volume rápido nas duas leituras. Queimado estável é onde as duas se separam: pelo Projeto Diretrizes ele abre com 2.000 ml em menos de 30 minutos antes mesmo do cálculo, e pela SBQ ele não recebe bolus sem indicação, porque bolus gera mais edema. Quando a alternativa correta menciona o volume de abertura, o enunciado quase sempre trouxe instabilidade ou transporte prolongado sem reposição. Cuidado com o distrator que confunde o volume de abertura com a primeira metade da fórmula de reposição: são contas diferentes, e a fórmula é assunto do capítulo de reposição desta apostila.
Silêncio medido, não presumido
Nenhum dos quatro arquivos menciona via intraóssea, agulha intraóssea ou sítio esternal, tibial ou umeral de punção óssea. Zero ocorrências nos dois extratores, com controle positivo e negativo e marca plantada no meio de cada texto.
Cartilha MS/CFM 2012; SBQ Capítulo 02 (2019/2020); Projeto Diretrizes AMB/CFM 2008, partes I e II
Não consultada, e por isso não citada
O texto integral não foi aberto. Nenhuma recomendação, número ou nível de evidência desta diretriz é atribuído aqui.
ISBI Practice Guidelines for Burn Care, Burns 2016 e 2018 (acesso negado: HTTP 403)
Na prova
Ausência de fonte não vira alternativa correta. O que cai é a hierarquia escrita — periférico, depois central — e a autorização da Cartilha para atravessar a queimadura. Uma alternativa que ofereça via intraóssea como conduta de primeira linha no grande queimado não encontra apoio nos documentos brasileiros; uma que a ofereça depois de periférico e central falharem descreve prática de reanimação geral, e enunciado que a cobre costuma vir de contexto pediátrico ou de parada, não do capítulo de queimaduras. O uso da palavra 'somente' pela Cartilha ao restringir o central é o detalhe que a redação explora.
Caso resolvido
- primeiro
- Complete o que vem antes da linha: interromper o processo da queimadura, remover roupas e adornos pelo efeito garrote do edema que se instala, garantir via aérea (aqui pérvia, sem sinal de inalação) e expor o doente com controle térmico. A punção não espera exame nenhum, e nenhum resultado laboratorial autoriza ou desautoriza a linha.
- segundo
- Na avaliação circulatória, registre a queimadura circunferencial de ambos os membros superiores e confira perfusão distal em cada um. Esse achado muda o plano da linha antes de ela existir: o segmento que pode vir a precisar de descompressão não é o sítio de eleição, e a decisão sobre incisar corre em paralelo, não depois.
- terceiro
- Escolha a régua e diga qual. Pela Cartilha do Ministério, obtém-se acesso venoso periférico e calibroso mesmo em área queimada — e aqui essa é a leitura aplicável, porque não há pele sã acessível nos membros superiores e procurar alternativa atrasaria a reposição. Pela redação da SBQ, a orientação seria cintura escapular e fora das queimaduras, o que este doente não oferece.
- quarto
- Obtenha dois acessos periféricos calibrosos, preferindo o território superior e o cateter mais curto e grosso que a veia aceitar. A segunda linha não é luxo: é o que mantém a reposição correndo quando o edema, o curativo ou o transporte tirar a primeira. Membros inferiores poupados são alternativa de último recurso, não de conveniência.
- quinto
- Não indique acesso venoso central de saída. A Cartilha o reserva 'somente na impossibilidade' do periférico, e impossibilidade significa tentativas suficientes, por quem sabe puncionar, em mais de um território, com o doente exposto e aquecido. Cateter central longo e fino também entrega menos volume por hora do que o periférico obtido.
- sexto
- Fixe pensando no transporte. Evite fixação circunferencial no membro que vai edemaciar, mantenha o membro elevado, e confira a linha a cada reavaliação com a mesma disciplina com que se confere a diurese. Registre a hora da punção junto com a hora da queimadura.
- sétimo
- Escreva no prontuário qual documento orientou a punção na pele queimada e por quê. O relatório que viaja com o doente precisa dizer onde estão as linhas, quando foram obtidas e que a inserção foi em área queimada — informação que muda a vigilância de infecção e o planejamento de rotação de acessos no destino.
Agora feche você
- 1
- Decida em que membro puncionar e diga por qual régua — e explique por que, neste caso, as três fontes brasileiras concordam entre si.
- 2
- Diga quantos acessos obter e justifique pela durabilidade da linha no queimado, não pela gravidade da doente.
- 3
- Resolva a divergência do volume de abertura: pelo Projeto Diretrizes e pela SBQ, o que esta doente recebe nos primeiros minutos?
- 4
- Diga o que NÃO se faz aqui em matéria de acesso, nomeando as duas condutas que nenhum dos três documentos autoriza como primeira escolha.
Onde a banca derruba
- 1Esperar a conta para puncionar O cálculo de superfície e a fórmula não precisam estar prontos para a linha existir. Quem adia a punção até fechar a conta punciona um membro que já edemaciou, e troca uma veia fácil por um procedimento difícil no mesmo doente.
- 2Ir direto ao acesso central porque a pele está queimada A Cartilha reserva o central 'somente na impossibilidade' do periférico, e a pele queimada não configura essa impossibilidade — o próprio texto autoriza puncionar através dela. Central de rotina troca vazão por risco de infecção sem necessidade.
- 3Tratar cateter fino e pérvio como acesso resolvido Vazão depende do raio e do comprimento do cateter. Um acesso que não sustenta o volume prescrito para aquela hora está errado mesmo funcionando, e a conferência é o volume de fato infundido comparado ao programado.
- 4Puncionar o membro inferior por comodidade A instrução específica manda buscar cintura escapular. O território inferior é o de pior desempenho entre os acessos centrais na série disponível, é o mais difícil de manter elevado e o que menos dura em membro que vai edemaciar.
- 5Escolher o membro que vai precisar de descompressão Queimadura circunferencial de membro entra na avaliação circulatória e pode exigir incisão. Linha atravessando a área que será incisada atrapalha os dois atos, e a busca por escara circunferencial acontece na mesma passagem em que se escolhe o sítio.
- 6Fixação circunferencial no membro que vai inchar Esparadrapo dando a volta no membro se comporta como garrote quando o edema chega, pelo mesmo motivo que anéis e adornos saem na admissão. O adesivo também não adere a leito exsudativo, e a linha é perdida no transporte.
- 7Uma linha só no grande queimado A prática consagrada são dois acessos periféricos calibrosos. A segunda linha não é redundância: é o que mantém a reposição correndo enquanto alguém repunciona o acesso que o edema, o curativo encharcado ou o transporte tirou.
- 8Usar dado de cateter central para decidir a punção periférica Os números de infecção associados à inserção em área queimada vêm de série retrospectiva de centro único e são de acesso central. Eles dão preço ao central e não resolvem a divergência brasileira, que é sobre a punção periférica.
- 9Achar que linha obtida é circulação resolvida Acesso é condição, não conduta. O desfecho da fase de reposição depende do volume prescrito e da correção horária dele, e continua sendo preciso decidir destino, analgesia, ferida e via aérea, cada uma com sua própria régua.
O texto da Sociedade Brasileira de Queimaduras inclui, entre os pontos que o planejamento das intervenções cirúrgicas deve considerar, a rotação de acessos venosos em caso de necessidade ao longo da internação, ao lado das áreas prioritárias e da eventual traqueostomia. A linha do grande queimado é consumível, e a troca é evento programável. Esperar hemocultura positiva para agir ignora esse planejamento. Retirar todo acesso central por data não é conduta apoiada em texto. Nenhuma das fontes brasileiras fixa intervalo de troca por fio-guia, e a série observacional disponível declara não ter tido dados suficientes sobre isso. O território inferior é justamente o de pior desempenho na série citada.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Sobre a fixação e a manutenção do acesso venoso no paciente queimado nas primeiras 24 horas, qual conduta é apropriada?
A fixação que dá a volta no membro se comporta como garrote quando o edema chega, pelo mesmo motivo que anéis e adornos são removidos na admissão, e o adesivo tem aderência ruim sobre leito exsudativo. Manter o membro elevado enquanto o edema se instala e conferir a linha a cada reavaliação, com a disciplina com que se confere a diurese, é o que preserva o acesso. Posição pendente favorece justamente o edema que se quer limitar. Confiar apenas no alarme da bomba deixa passar deslocamento e infiltração. E não existe, nas fontes brasileiras, troca programada de cateter periférico em intervalo tão curto; o que se sustenta é inspeção do sítio e retirada quando a via deixar de ser necessária.
A respeito do território de punção no grande queimado, o material da Sociedade Brasileira de Queimaduras (Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado) orienta iniciar a administração venosa de Ringer com lactato por qual via e em que região?
O texto da Sociedade Brasileira de Queimaduras é literal ao indicar via venosa preferencialmente por punção periférica, com cateter calibroso, em cintura escapular e fora das queimaduras. O território superior é mais fácil de manter elevado enquanto o edema se instala e sofre menos com o decúbito. A opção pelo acesso central inverte a hierarquia que as três fontes brasileiras compartilham e ignora que um cateter longo e fino entrega menos volume por hora. O membro inferior é o território de pior desempenho entre os acessos centrais na série disponível. A via intraóssea não é mencionada em nenhum dos documentos brasileiros lidos. Dissecção venosa também não aparece neles como conduta inicial.
Mulher de 32 anos, 60 kg, com queimadura de espessura parcial em tronco anterior e membro superior direito chega estável uma hora após escaldadura, sem sinais de inalação ou trauma associado. Comparando especificamente o Projeto Diretrizes de 2008 e o Manual de Queimaduras para Estudantes da SBQ/ESCS de 2021, qual diferença textual existe na orientação de reposição inicial?
O Projeto Diretrizes de 2008 descreve uma abertura fixa de Ringer com lactato no grande queimado adulto antes do cálculo da reposição. Já o capítulo de cuidados iniciais do Manual de Queimaduras para Estudantes da SBQ/ESCS de 2021 orienta não administrar fluidos em bolus, pelo risco de hiper-hidratação e aumento do edema, e recomenda reposição guiada e monitorização. A comparação se limita a essas versões e à reposição da queimadura no paciente estável descrito. Não deve ser generalizada para proibir ressuscitação de choque por outra causa, como hemorragia associada.
Criança com queimadura extensa apresenta choque descompensado. As tentativas de acesso venoso periférico falharam, e a obtenção de acesso central atrasaria a reposição inicial. Não há fratura, lesão vascular ou infecção no sítio ósseo considerado. Sobre o acesso intraósseo, qual conduta é adequada?
No choque descompensado, a dificuldade de acesso venoso não deve atrasar a ressuscitação. A via intraóssea permite infundir fluidos e medicamentos e funciona como acesso de emergência até a obtenção de uma via definitiva. Prefere-se pele não queimada quando há um sítio adequado, mas a queimadura sobrejacente, isoladamente, não é contraindicação absoluta. Fratura proximal, lesão vascular no membro e infecção sobre o local precisam ser consideradas. Confirmam-se o posicionamento e a ausência de extravasamento durante a infusão.
Compare a organização textual de Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, do Projeto Diretrizes SBCP/AMB/CFM de 2008, com Tratamento de Emergência das Queimaduras, documento de cinco páginas disponibilizado pelo CFM. Quanto à localização da orientação sobre acesso venoso nesses textos, qual afirmação é correta?
No Projeto Diretrizes de 2008, a orientação para cateterizar veia periférica calibrosa aparece sob o título de internação; o item circulatório do exame básico não menciona o acesso. No segundo documento identificado, ele consta do atendimento na sala de emergência, após exposição da área e antes da sonda vesical. Ambos indicam preferência por via periférica. Essa é uma comparação da organização dos textos: a posição de um item no documento não deve ser interpretada como autorização para adiar um acesso necessário à estabilização.
Um grande queimado com dois acessos periféricos calibrosos está recebendo Ringer com lactato por gravidade, conforme prescrição horária calculada. Na terceira hora, a equipe percebe que o balanço infundido está bem abaixo do programado, embora os dois cateteres estejam pérvios e sem sinais flogísticos. Qual é a leitura correta dessa situação?
Acesso é condição e não conduta: cateter pérvio, sem flogose e com bomba ou equipo ligado não garante que o volume esteja entrando na velocidade prescrita, e a infusão por gravidade pode ficar muito abaixo do programado sem sinal aparente. A conferência que vale é o volume de fato infundido comparado ao prescrito para aquela hora. Reduzir a prescrição ao valor infundido consagra o erro e subtrata o doente. Atribuir a discrepância a fenômeno autolimitado do edema não tem apoio. Trocar por cateter central de imediato inverte a hierarquia e ainda troca vazão por um tubo mais longo e fino. E esperar a queda da diurese para agir transforma um problema mecânico corrigível em hipoperfusão.
Homem de 38 anos, 75 kg, é admitido 40 minutos após queimadura por chama em incêndio domiciliar. Está consciente, orientado, sem rouquidão, estridor ou escarro carbonáceo. PA 120x76 mmHg, FC 110 bpm, SpO2 97% em ar ambiente. As queimaduras acometem circunferencialmente ambos os membros superiores e o tronco anterior; não há pele íntegra acessível para punção nos membros superiores. A superfície queimada já foi estimada e há indicação de reposição venosa. Segundo a Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras do Ministério da Saúde, qual é a conduta quanto ao acesso venoso?
A Cartilha do Ministério da Saúde escreve, no item de acesso venoso do atendimento inicial, que se deve obter preferencialmente acesso periférico e calibroso mesmo em área queimada, e utilizar o acesso central somente na impossibilidade do periférico. A alternativa que manda puncionar o central de imediato inverte essa hierarquia e ainda troca um cateter curto e grosso por um longo e fino, de menor vazão. Adiar a punção pelo cálculo ou pela gasometria perde a fase em que a veia ainda é visível, e nenhum resultado laboratorial autoriza ou desautoriza a linha. Dissecção venosa não é mencionada por nenhuma das fontes brasileiras como via inicial. A reposição oral não se aplica a quem tem indicação formal de reposição venosa.
Um serviço apresenta dados próprios de um ano de cateteres venosos centrais em queimados, mostrando associação significativa entre inserção do cateter em área queimada e cultura positiva do cateter, em série retrospectiva de centro único. Como esse achado deve ser incorporado à decisão sobre puncionar acesso periférico através da pele queimada?
O achado é uma associação observada em desenho retrospectivo de centro único, e mede cateter central, não punção periférica. Como o desenho não separa o sítio da gravidade de quem precisou dele, e como a via medida não é a via sobre a qual as fontes brasileiras divergem, o dado dá preço à escolha do acesso central sem resolver a questão da punção periférica através da queimadura. Falar em relação causal extrapola o desenho. Descartar o dado como inútil também é errado: ele sustenta a hierarquia periférico-primeiro. Dizer que ele confirma ausência de risco inverte o resultado. E a própria publicação declara não ter tido dados suficientes sobre troca por fio-guia, de modo que nenhum intervalo fixo se apoia nela.
Um residente pergunta por que, num grande queimado que precisa receber grande volume nas primeiras horas, se prefere um cateter periférico curto e calibroso a um cateter venoso central. Qual é a justificativa correta?
A preferência é hidráulica antes de ser infecciosa: a vazão de um tubo cresce com o raio e cai com o comprimento, de modo que o cateter periférico curto e de bom calibre entrega mais volume por hora do que o cateter central, longo e fino. Não existe contraindicação formal ao acesso central pelo edema; ele é reservado, pela Cartilha, à impossibilidade do periférico. A conferência do volume de fato infundido é obrigatória em qualquer via, e é justamente ela que revela infusão abaixo do prescrito. A restrição por especialidade do puncionador não é o argumento das fontes. Ringer com lactato pode correr por via central sem esse tipo de restrição.
Durante a avaliação circulatória de um queimado com lesão circunferencial de espessura total em antebraço direito, a equipe planeja obter acesso venoso. Qual consideração deve modificar a escolha do sítio de punção?
A avaliação circulatória do queimado inclui procurar queimadura circunferencial de tórax e de membros e conferir a perfusão distal, e essa busca acontece com o doente exposto, na mesma passagem em que se escolhe onde puncionar. Um segmento que pode precisar de incisão descompressiva não é sítio de eleição, porque a linha atrapalha o procedimento e o procedimento atrapalha a linha. Preferir o antebraço acometido pela suposta fixação da veia pela escara não encontra apoio em nenhuma fonte. Ignorar o achado adia uma decisão que corre em paralelo à reposição. Puncionar distalmente à lesão infunde a jusante de um segmento comprometido. E a lesão circunferencial não contraindica punção periférica nem obriga acesso central.
Homem de 34 anos é trazido ao pronto-socorro após incêndio em oficina, com queimaduras de 2º e 3º graus estimadas em 35% da superfície corporal, acometendo tórax anterior, abdome e ambos os membros superiores. Está consciente, PA 118/70 mmHg, FC 112 bpm. A equipe já assegurou via aérea e oxigênio. Ao examinar os sítios para punção, observa-se que a cintura escapular e a região cervical estão preservadas, sem sinais de queimadura. Considerando a orientação da Cartilha do Ministério da Saúde/CFM e da Sociedade Brasileira de Queimaduras para o atendimento inicial, qual é a conduta mais adequada para obtenção de acesso vascular neste paciente?
As três fontes brasileiras (Cartilha MS/CFM 2012, SBQ 2019/2020 e Projeto Diretrizes AMB/CFM 2008) convergem que a via preferencial no grande queimado é o acesso venoso periférico calibroso. A SBQ especifica ainda que, quando possível, deve-se puncionar em pele sã na cintura escapular, fora das áreas queimadas. Central e dissecção são recursos posteriores. Referências: Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras - MS/CFM 2012 — https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_tratamento_emergencia_queimaduras.pdf The Emergency Management and Treatment of Severe Burns (ABA/ANZBA/SABS) — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3195355/
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em 7 dias
Escreva de memória as três frases brasileiras sobre a punção do queimado e marque em cada uma a via preferida, a exigência de calibre e o que ela diz sobre a pele queimada. Depois diga em que ponto da sequência cada documento coloca o acesso: atendimento inicial, gerenciamento de fluidos ou internação. Termine recitando as quatro perguntas da etapa circulatória do exame básico do Projeto Diretrizes e conferindo que nenhuma delas é a linha.
em 30 dias
Pegue um grande queimado com os dois membros superiores queimados de forma circunferencial e decida em voz alta, por cada uma das três réguas: onde punciona, com que calibre, quantas linhas e quando desiste do periférico. Em seguida, faça a mesma decisão para um queimado estável e diga o que corre nos primeiros minutos por cada documento, separando o volume de abertura da primeira metade da fórmula. Por último, escreva a justificativa que você deixaria no prontuário caso precisasse usar uma via que nenhuma das três fontes menciona.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você é o médico de plantão de um pronto-socorro sem centro de queimados. Chega um homem de 45 anos resgatado de incêndio, consciente, com queimaduras extensas nos dois membros superiores e no tronco, sem pele sã acessível para punção acima dos punhos. A reposição está indicada e a transferência foi acionada. Conduza os primeiros minutos em voz alta: diga o que se faz antes da punção, escolha o sítio e diga por qual documento está decidindo, defina calibre e número de linhas, e explique ao residente que o acompanha por que o acesso central não é a primeira escolha aqui. Ao final, dite o que vai escrito no relatório de transferência a respeito das linhas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
