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Cirurgia GeralQueimados

Intubar o queimado: a janela que fecha antes de o exame ficar anormal

Quando intubar o queimado: o sinal clínico contra o critério gasométrico

Três documentos definem o gatilho do tubo de maneiras que classificam o mesmo doente de formas opostas, e a decisão de vigiar precisa ser tão escrita quanto a de intubar.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 52 anos é retirada inconsciente de um incêndio em residência com portas e janelas fechadas. Chega à emergência sonolenta, com queimaduras cutâneas em menos de 5% da superfície corporal. A oximetria de pulso mostra SpO2 de 99% em ar ambiente. Qual é a interpretação correta desse valor de saturação?

02

Como esse tema cai

Este capítulo decide uma coisa só: colocar ou não colocar o tubo na via aérea de quem se queimou, e quando tirá-lo. Não recalcula superfície nem profundidade, não deduz a fórmula de reposição e não repete a lista de transferência — isso está resolvido nos capítulos anteriores desta apostila, e aqui só se usa o resultado. Também não se discute ventilação mecânica avançada nem tratamento da lesão pulmonar já instalada.

O que este capítulo faz é confrontar três documentos que definem o gatilho da intubação de maneiras diferentes o bastante para classificar o mesmo doente de formas opostas, e transformar isso numa regra que sobrevive ao plantão: quem se intuba de imediato, quem se vigia com prescrição escrita, o que se faz antes do tubo, o que muda depois que ele entrou e por que a primeira impressão de que o doente já pode ser extubado costuma ser cedo demais.

O antídoto do cianeto aparece uma vez, dentro da divergência sobre o que não entra na conduta inicial — o esquema completo é do capítulo de Toxicologia desta coleção, que o traz com dose.

03

O que muda decisão

A via aérea do queimado não é um problema de pulmão

A via aérea do queimado mata por geometria, não por troca gasosa. Duas lesões diferentes dividem o mesmo nome, e confundi-las é o começo de quase todo erro nesse tema. A lesão supraglótica é térmica e mecânica: o ar superaquecido escalda a faringe e a laringe, a mucosa incha, o lúmen estreita. A lesão subglótica é química: fuligem e produtos de combustão incompleta descem até os brônquios, provocam inflamação, secreção espessa e formação de moldes que obstruem por dentro. Uma pode existir sem a outra.

Os relógios delas são diferentes. A supraglótica fecha em horas, e é ela que decide o tubo. A subglótica se manifesta em dias, como insuficiência respiratória progressiva, e é ela que decide o ventilador. Um doente pode chegar com voz rouca e ausculta limpa, e outro com ausculta cheia de sibilos e laringe intacta. A pergunta do primeiro atendimento é sempre a primeira, e é a única cujo prazo se conta em minutos.

Há um detalhe cruel nessa aritmética. O líquido que o grande queimado precisa receber, e que não é opcional, alimenta exatamente o edema que vai fechar a laringe. Ressuscitar é obrigatório e não é neutro: a conduta certa para a pele piora o problema da glote. Não existe manobra que separe as duas coisas — reduzir volume para poupar a via aérea troca uma obstrução por uma insuficiência renal —, e é por isso que a decisão precisa ser tomada cedo, enquanto ainda há laringe para ver.

A lesão térmica direta raramente passa da glote, porque a via aérea alta é um trocador de calor eficiente: dissipa em poucos centímetros o calor do ar seco. A exceção é o vapor, que carrega muito mais energia por volume e alcança a árvore brônquica. Por isso escaldadura de face em ambiente aberto e incêndio em ambiente fechado, embora ambos queimem pele, produzem riscos de via aérea que não se comparam, e a história do acidente vale mais que a extensão da queimadura para decidir o tubo.

Daí a estranheza que confunde quem está começando: o doente que se intuba costuma ser aquele que ainda fala, ainda satura bem e ainda tem gasometria normal. Nada nos primeiros minutos anuncia a sexta hora, exceto a direção do movimento. Quem espera o exame ficar anormal para agir troca uma laringoscopia possível por uma via aérea cirúrgica num pescoço queimado e edemaciado, à noite, longe do bloco e do material de resgate.

Três cortes transversais de uma via aérea alinhados, com o mesmo diâmetro externo e a parede cada vez mais espessa, reduzindo a luz central até quase fechá-la.
O calibre se estreita de fora para dentro, e o diâmetro externo continua o mesmo enquanto isso acontece.

Três documentos, três gatilhos

O material da Sociedade Brasileira de Queimaduras é o mais direto: a intubação precoce está indicada na lesão inalatória sintomática ou em qualquer lesão térmica de face, boca ou orofaringe que ameace a permeabilidade da via aérea. E vai além, ao dizer que os achados clínicos — pelos faciais chamuscados, expectoração carbonosa, fuligem dentro ou ao redor da boca, rouquidão, estridor, aumento do trabalho respiratório e incapacidade de tolerar secreções — indicam intubação imediata.

A Cartilha do Ministério da Saúde organiza a mesma matéria de outro jeito, e a diferença não é de estilo. Ela lista os sinais de suspeita de lesão inalatória num item, e as indicações de intubação orotraqueal em outro, separado. As indicações são cinco: escala de coma de Glasgow abaixo de oito; pressão parcial de oxigênio abaixo de sessenta; pressão parcial de gás carbônico acima de cinquenta e cinco na gasometria; dessaturação abaixo de noventa na oximetria; e edema expressivo de face e orofaringe.

Leia a lista literalmente e o problema aparece sozinho. Quatro das cinco entradas são números que só se movem depois que o dano está feito: o doente rouco, com escarro carbonáceo e vibrissas chamuscadas, lúcido e saturando bem, não preenche nenhuma delas. Só a quinta entrada é clínica, e ela descreve um edema que já está expressivo — isto é, chega tarde na linha do tempo do próprio edema, quando a laringoscopia já ficou difícil.

O terceiro documento vem de um centro de queimados e desmonta a confiança nos dois lados: nem todos os doentes se apresentam com os sinais clássicos, e a presença ou a ausência desses fatores não é indicador confiável da existência nem da gravidade da lesão inalatória. O mesmo texto acrescenta uma regra de contenção que costuma faltar nos manuais nacionais: não se intuba com a finalidade única de realizar broncoscopia diagnóstica.

Vale uma ressalva antes de chamar isso de contradição, porque nem toda diferença é uma. Documentos escritos para públicos diferentes, em épocas diferentes e com finalidades diferentes divergem sem que ninguém esteja errado — um deles orienta o socorrista da porta, outro orienta a equipe de um centro terciário. Aqui, porém, a diferença morde de verdade, e morde no doente: quem lê a Cartilha ao pé da letra deixa em observação exatamente o queimado que a sociedade manda intubar de imediato.

O sinal que não é critério

A lista de sinais é uma afirmação sobre exposição, não uma medida de lúmen. Rouquidão diz que a laringe foi alcançada; não diz quanto de laringe sobrou. Fuligem na boca diz que o doente respirou fumaça; não diz se a mucosa vai inchar em quarenta minutos ou nunca. Confundir uma coisa com a outra é o que produz os dois erros simétricos do tema, e eles custam caro em direções opostas.

O primeiro erro é intubar todo mundo que tem sinal. Vítimas de incêndio chegam às dezenas com fuligem, tosse e voz arranhada, e a maioria delas não obstrui. O segundo erro é liberar quem não tem sinal. Queimadura profunda de face, ambiente fechado, resgate demorado e nenhuma rouquidão ainda é uma combinação que fecha via aérea depois — e a lista, nesse doente, está negativa justamente no momento em que a decisão seria fácil de executar.

O que resolve não é a lista, é o exame da própria via aérea. Olhar a orofaringe com fonte de luz e descrever o que se viu: mucosa corada ou pálida, úvula de tamanho habitual ou empastada, fuligem aderida, bolhas, secreção. Ouvir a voz e compará-la com a voz de cinco minutos atrás. Perguntar se está engolindo a própria saliva, e observar se está. Sentir se a língua ainda cabe na boca e se a boca ainda abre.

Três achados merecem peso maior que o resto, porque falam de lúmen e não de exposição: estridor, que é ruído de fluxo turbulento em via aérea já estreitada; a saliva que se acumula, porque quem não deglute a própria secreção tem faringe comprometida; e a mudança de voz ocorrida sob observação. Nenhum dos três é sensível, e é por isso que a ausência deles não libera ninguém; mas a presença de qualquer um encerra a discussão.

Nada disso é sofisticado, e é justamente por isso que funciona em hospital sem centro de queimados. A lista de sinais abre a pergunta; quem fecha é o exame repetido da via aérea, feito pela mesma pessoa, em intervalo combinado e anotado. Um achado isolado é uma fotografia; a decisão precisa do filme.

O que decide é a trajetória

Três coisas convertem suspeita em decisão, e nenhuma delas é um valor de gasometria. A primeira é o estado atual da faringe, examinada e descrita. A segunda é a direção da mudança: comparar o que se viu na chegada com o que se vê agora, no mesmo doente, pelo mesmo par de olhos. A terceira é o tempo até a próxima equipe capaz de resolver uma via aérea difícil.

A direção da mudança é o dado mais subestimado do atendimento inicial. Voz normal que virou rouca em quarenta minutos é um doente completamente diferente daquele que chegou rouco e continua igual há três horas. Saliva que começou a acumular é diferente de saliva que sempre acumulou. Por isso a reavaliação precisa ser prescrita como se prescreve medicamento: quem examina, de quanto em quanto tempo, o que se registra e qual achado dispara o tubo.

Registrar é parte da técnica, não burocracia. Anotar a hora, a voz, o aspecto da orofaringe e a deglutição transforma impressões sucessivas em uma curva, e é a curva que decide. Sem registro, o plantonista das duas da manhã recebe um doente sem passado e precisa julgar tudo de novo, com a agravante de não ter visto o ponto de partida — e é nesse buraco de memória que a via aérea costuma se perder.

O tempo até a equipe seguinte é o item que muda a resposta em hospital de porta. Se a unidade de referência fica a quatro horas de ambulância, a janela em que a laringoscopia ainda é fácil pode fechar no meio do caminho, e a decisão que parecia adiável vira decisão de agora. O mesmo doente, num hospital com centro de queimados no andar de baixo e anestesista de plantão, pode ser vigiado com segurança.

A regra prática que sobrevive ao plantão é curta: intuba-se a trajetória, não o instante. Se a resposta honesta à pergunta "eu intubaria esse doente nas próximas horas, aqui, com esta equipe?" for sim, o momento certo é enquanto a anatomia ainda existe. E quando for não, esse não também precisa estar escrito.

Antes do tubo: oxigênio para todos e o oxímetro que mente

Antes de qualquer decisão sobre a via aérea, todo doente resgatado de incêndio em ambiente fechado recebe oxigênio a cem por cento em máscara não reinalante. Isso não espera dosagem, não espera gasometria e não depende de o doente estar bem. A razão é o monóxido de carbono, que se liga à hemoglobina com afinidade muito maior que a do oxigênio e a mantém ocupada, e cuja eliminação depende exclusivamente da fração inspirada que se oferece.

A armadilha é o oxímetro de pulso. O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina: ele lê as duas como saturadas e devolve um número tranquilizador em alguém gravemente intoxicado. A gasometria arterial engana pelo motivo vizinho, porque mede oxigênio dissolvido no plasma, que continua normal enquanto o transporte pela hemoglobina está bloqueado. Quem afasta intoxicação por monóxido olhando o monitor está afastando com o instrumento errado.

O sinal clínico útil é o desencontro: vítima de ambiente fechado com cefaleia, náusea, tontura, confusão, sonolência ou torpor e monitor impecável. Alteração de consciência em queimado nunca se explica pela queimadura, e a lista de causas a procurar inclui traumatismo craniano, hipóxia, drogas e monóxido. O exame que confirma é a dosagem de carboxi-hemoglobina, e ela vem depois do oxigênio, nunca antes.

A duração da oxigenação é onde os documentos brasileiros divergem: a Cartilha manda manter por três horas; o material da sociedade escreve pelo menos seis. A meia-vida da carboxi-hemoglobina sob fração inspirada de cem por cento é da ordem de uma hora, e essa ordem de grandeza acomoda as duas prescrições — três horas removem a maior parte, seis removem quase tudo. É divergência de desfecho escolhido, não de farmacologia, e reconhecê-la assim evita transformar uma diferença de redação em erro de conduta.

O custo do tubo que não precisava

A decisão tem dois lados, e o lado do excesso quase nunca é ensinado. Um tubo desnecessário traz sedação contínua, imobilidade, risco de pneumonia associada à ventilação, dias de suporte que não seriam gastos e ocupação de um leito de terapia intensiva num país onde leito de queimado é recurso escasso e distante. Em criança, soma-se o risco de lesão da mucosa subglótica pelo próprio tubo.

Existe ainda um custo menos visível. O doente intubado sem indicação some do exame clínico: não fala, não engole, não descreve dor, não avisa que a mão ficou fria dentro do curativo. A equipe perde justamente os sinais que orientariam o resto do cuidado, e passa a depender de monitor num doente cuja principal complicação nas horas seguintes — a isquemia sob escara circunferencial — é diagnosticada por exame físico.

Por isso vigiar precisa ser uma prescrição, e não uma omissão com nome bonito. Vigiar é monitorização contínua de ritmo cardíaco, saturação, frequência respiratória, frequência cardíaca e pressão arterial; cabeceira elevada entre trinta e quarenta e cinco graus, que reduz o edema por gravidade; umidificação do ar inspirado; oxigenoterapia; e reavaliação da via aérea em intervalo definido, por profissional nomeado.

E vigiar tem lugar. Só se vigia onde o tubo pode ser colocado imediatamente: material de via aérea difícil conferido e ao alcance, alguém capaz de usá-lo presente no serviço, e plano escrito para o caso de a laringoscopia falhar. Doente em observação de via aérea não desce para exame de imagem sozinho, não fica em corredor e não muda de setor sem que a mesma estrutura o acompanhe.

Quem escreve "manter em observação" sem dizer onde, com quem, de quanto em quanto tempo e diante de qual achado se muda de conduta decidiu menos do que parece — e transferiu para o próximo plantão uma decisão que era sua.

A ambulância: a via aérea que viaja

A transferência é o ponto em que a decisão deixa de ser reversível. A Cartilha é explícita quanto ao transporte do doente grave: acompanhado de médico, em ambulância com unidade de terapia intensiva móvel e com possibilidade de assistência ventilatória. A exigência existe porque a deterioração no trajeto é previsível, não excepcional, e porque o recurso que falta na estrada é justamente quem sabe resolver via aérea difícil.

Mesmo cumprida a exigência, uma laringoscopia dentro de veículo em movimento não é o mesmo procedimento que no pronto-socorro. Espaço estreito, maca alta, iluminação ruim, vibração, aspiração limitada, ninguém livre para auxiliar. Some-se que o edema no trajeto avança embalado pelo volume que corre na veia, exatamente como planejado — de modo que o doente chega ao destino com a via aérea pior do que a que partiu.

A regra de transferência é, então, uma consequência aritmética da regra de trajetória: se a via aérea seria intubada nas próximas horas no hospital de origem, ela se intuba antes de embarcar. O tubo colocado com calma, com material conferido e equipe completa, e o tubo colocado com pressa no acostamento são procedimentos com riscos que não se comparam.

A mesma lógica vale dentro do hospital. Doente com via aérea limítrofe que precisa descer para tomografia, subir para o centro cirúrgico ou atravessar o prédio para o curativo está, em miniatura, fazendo uma transferência — e a pergunta é a mesma: quero que esse tubo seja colocado aqui ou lá?

Vale ainda lembrar que o queimado com frequência é também traumatizado: explosões, quedas e colisões produzem os dois de uma vez. O material da sociedade registra que a avaliação da coluna cervical é válida nesses casos, o que muda a técnica — estabilização manual alinhada, sem hiperextender o pescoço, e escolha do dispositivo compatível com isso.

O tubo que entrou: o que muda porque a face vai inchar

Depois do tubo, o cuidado é dominado por um fato: a face vai inchar por mais de um dia. Isso muda três coisas que, em qualquer outro doente, seriam detalhe. A primeira é o comprimento do tubo. Não se encurta tubo de queimado de face: o que hoje sobra, amanhã é a margem que impede a extubação acidental quando lábios e bochechas dobram de volume.

A segunda é a fixação. Fita adesiva não cola em pele queimada, exsudativa ou coberta de tópico, e a fixação que solta durante o transporte perde a via aérea mais difícil do hospital. A alternativa é o cadarço passado ao redor da cabeça, com dois cuidados opostos: apertado o bastante para não escorregar e frouxo o bastante para não estrangular a pele quando o pescoço inchar. Isso exige reconferência periódica, não uma amarração definitiva.

A terceira é a posição do tubo. Registrar a marca na altura dos dentes ou da comissura labial no momento da intubação, e reconferir a cada checagem, é o que separa o deslocamento percebido do deslocamento descoberto tarde. A cabeceira permanece elevada, e a pressão do balonete entra na rotina, porque a mucosa laríngea já está agredida por calor e tolera mal a compressão adicional.

Some-se o cuidado com a via aérea por dentro. A lesão subglótica produz secreção espessa e moldes que obstruem o tubo, de modo que aspiração e umidificação deixam de ser rotina de enfermagem e passam a ser parte do tratamento: queda súbita de volume corrente ou aumento de pressão de pico em queimado com fuligem é obstrução do tubo até prova em contrário.

Por trás de tudo está a mesma ideia: nesse doente, reintubar é um procedimento de outra categoria. A face que se laringoscopia bem na primeira hora pode ser irreconhecível na décima, e o plano tem de ser feito para que a segunda tentativa nunca precise acontecer.

A extubação que parece possível cedo demais

O protocolo do centro de queimados registra uma observação que salva doente: eles frequentemente parecem preencher critérios de extubação já nas primeiras vinte e quatro horas. Parecem, e não estão. A razão é que os critérios habituais medem troca gasosa e mecânica ventilatória, e o problema desse doente é o calibre da via aérea alta, que não aparece em nenhum desses números.

Duas curvas explicam a armadilha. A do edema de face e pescoço sobe alimentada pela ressuscitação e só começa a ceder depois que o volume infundido cai — o que costuma acontecer no segundo dia, não no primeiro. A da mucosa lesada é ainda mais lenta: a descamação é tardia e o risco de hipoxemia persiste por até setenta e duas horas nas lesões de maior gravidade à broncoscopia.

O que se examina antes de extubar, então, não é só o pulmão. É o rosto: a face desincha, a língua volta a caber, o pescoço recupera o contorno, a pálpebra torna a fechar. É a prova de escape ao redor do balonete, que estima grosseiramente se existe lúmen além do tubo. E é a garantia de que, se a extubação falhar, há quem reintube, com o quê e em quanto tempo.

Há um caso particular que confunde: o doente intubado profilaticamente, sem lesão inalatória confirmada, que acorda bem no dia seguinte. Ele é o candidato natural à extubação precoce — e continua sendo, desde que o rosto esteja desinchando e a prova de escape seja favorável. O que não se faz é generalizar a experiência boa desse doente para aquele que tinha fuligem até os brônquios.

Extubar cedo demais é caro pelo mesmo motivo que intubar tarde demais: a via aérea que se perde nesse doente é a via aérea que ninguém quer recuperar. Quando as duas leituras estão em conflito, a ordem correta é esperar o rosto, não o ventilador.

A criança: a mesma via aérea com metade do diâmetro

A criança queimada tem a mesma laringe da descrição anterior, com um agravante de física. A resistência ao fluxo aéreo sobe muito rapidamente quando o raio diminui, de modo que uma espessura de edema que estreita modestamente a laringe do adulto pode reduzir à metade, ou menos, o lúmen de um lactente. O mesmo milímetro produz consequências desproporcionais, e é essa desproporção que justifica um limiar diferente.

Some-se a anatomia: laringe mais alta e anterior, língua proporcionalmente maior, occipital volumoso que flete o pescoço quando a criança é deitada em superfície plana. Esses três fatos, somados ao edema, tornam a laringoscopia tardia da criança queimada uma das piores situações da emergência pediátrica — e a postura da cabeça, que no adulto é detalhe, aqui muda o sucesso da tentativa.

E há a hidratação. A criança recebe volume proporcionalmente maior que o adulto, porque o limiar de reposição é menor e porque à reposição se soma a hidratação de manutenção — de modo que o mesmo mecanismo que salva a perfusão empurra o edema com mais força justamente em quem tem menos lúmen de reserva. O relógio da glote, na criança, corre mais rápido do que o do adulto que sofreu a mesma queimadura.

Os sinais, por fim, são mais difíceis de ler. Rouquidão em criança que chora há uma hora é achado ambíguo; estridor pode ser confundido com quadro infeccioso de via aérea alta; a colaboração para examinar a orofaringe é pequena e o exame costuma piorar o choro, que por sua vez piora o esforço. Na prática, isso desloca o limiar em dois sentidos: intuba-se com menos hesitação e extuba-se com mais paciência.

O que não entra: corticoide, antibiótico e o antídoto empírico

Duas condutas são recusadas com todas as letras pelo material da sociedade brasileira: corticoide e antibiótico não estão indicados na lesão inalatória. O corticoide não reverte o edema já formado e acrescenta risco infeccioso e hiperglicemia num doente já imunodeprimido pela própria queimadura. O antibiótico profilático seleciona resistência antes de existir infecção — e infecção pulmonar, nesse doente, vem depois, com diagnóstico próprio e cultura própria.

A recusa vale também para o que parece inofensivo. Nebulização de rotina em quem não está intubado não tem evidência que a sustente, e o próprio protocolo internacional que prescreve nebulizações no doente intubado registra que o uso no não intubado permanece pouco estudado. Prescrever por analogia, nesse terreno, é criar rotina sem base.

A terceira recusa é mais recente e não é consensual. O protocolo do centro de queimados afirma que a hidroxocobalamina não deve ser administrada de rotina no incêndio em ambiente fechado, alegando risco de lesão renal aguda e ausência de evidência consistente de benefício, e a reserva para a acidose que não responde à ressuscitação adequada, após discussão com o cirurgião responsável.

Essa posição é minoritária no material brasileiro que circula, e o conflito precisa ser dito sem maquiagem: um protocolo institucional de dois mil e vinte e três, apoiado num estudo retrospectivo multicêntrico, contra uma prática difundida de tratar empiricamente a vítima de fumaça com acidose láctica desproporcional. Estudo retrospectivo não separa bem o efeito do antídoto do efeito da gravidade de quem o recebeu, e essa checagem não foi feita aqui, porque o estudo não foi aberto.

O que fica é a conduta que os três documentos autorizam sem disputa: oxigênio a cem por cento imediato para todos, dosagem de carboxi-hemoglobina quando disponível, e ressuscitação volêmica adequada antes de atribuir a acidose ao cianeto. Quando a acidose persiste apesar disso, a suspeita de envenenamento por cianeto sobe, e a decisão sobre o antídoto passa a ser deliberada e registrada, com o esquema que está no capítulo de Toxicologia desta coleção.

04

As três réguas do tubo, lado a lado

A tabela compara o gatilho de intubação nos três documentos lidos. A coluna da direita mostra o que acontece com um mesmo doente — vítima de incêndio em ambiente fechado, com queimadura de face, rouquidão, escarro carbonáceo e vibrissas chamuscadas, lúcido, PA 120x80 mmHg, SpO2 97% em ar ambiente, gasometria com PaO2 92 mmHg e PaCO2 38 mmHg.

A janela que fecha sozinha

O lúmen laríngeo estreita enquanto a reposição corre. A laringoscopia fácil existe na faixa clara; depois dela, a mesma anatomia vira via aérea cirúrgica.

O monitor que não separa os dois

A oximetria de pulso lê carboxi-hemoglobina como se fosse oxi-hemoglobina. O traçado fica igual; o transporte de oxigênio, não.

A fixação que precisa ser reconferida

Cadarço, não fita: pele queimada não segura adesivo. O laço que servia agora aperta quando o pescoço incha, e por isso volta a ser checado.

O gatilho da intubação em cada documento

DocumentoGatilho declaradoO doente do exemplo
SBQ, Capítulo 02 (2019/2020)Lesão inalatória sintomática OU qualquer lesão térmica de face, boca ou orofaringe que ameace a permeabilidade. Os achados clínicos (pelos chamuscados, expectoração carbonosa, fuligem, rouquidão, estridor, esforço, intolerância a secreções) indicam intubação imediataINTUBA agora
Cartilha MS/CFM (2012)Glasgow < 8; PaO2 < 60; PaCO2 > 55; dessaturação < 90; edema expressivo de face e orofaringeNÃO preenche nenhum dos quatro critérios numéricos; depende de julgar o edema como expressivo
Vanderbilt Burn Center (06/2023)Nenhum gatilho por lista: presença ou ausência dos sinais clássicos não é indicador confiável de existência nem de gravidade. Não intubar apenas para broncoscopia diagnósticaDecisão individual pelo exame da via aérea e pela trajetória

Antes do tubo, com o tubo e para tirar o tubo

MomentoO que se fazO erro que corresponde
AntesO2 a 100% em máscara não reinalante para todo resgatado de ambiente fechado, sem esperar dosagem; cabeceira 30-45°; ar umidificado; monitorização contínua; reavaliação da via aérea em intervalo prescritoAfastar intoxicação por monóxido pela SpO2 do monitor
Ao intubarTubo do maior calibre viável; NÃO encurtar o tubo; fixação por cadarço (fita adesiva não cola em pele queimada); registrar a marca na arcadaFixar com fita e descobrir o deslocamento na ambulância
Com o tuboReconferir marca e aperto do cadarço a cada checagem; pressão de balonete na rotina; cabeceira elevada; aspiração e umidificação como tratamento, não como rotinaCadarço que servia na 1ª hora e estrangula na 6ª
Para extubarEsperar o edema de face regredir; prova de escape ao redor do balonete; material e pessoa para reintubar disponíveisExtubar nas primeiras 24 h porque a mecânica ventilatória já está boa

Os quatro critérios numéricos da Cartilha (Glasgow < 8, PaO2 < 60, PaCO2 > 55, SpO2 < 90) só se alteram depois que a obstrução ou a lesão pulmonar se instalou. Em nenhum deles a via aérea alta é medida.

A meia-vida da carboxi-hemoglobina sob FiO2 100% é da ordem de 1 hora, o que torna compatíveis as 3 horas da Cartilha e as 6 horas do material da SBQ: são desfechos diferentes para a mesma farmacologia.

Broncoscopia nas primeiras 24 h é o padrão diagnóstico da lesão inalatória, mas o protocolo de Vanderbilt registra que não se intuba com a única finalidade de realizá-la.

A Cartilha manda obter acesso venoso periférico calibroso mesmo em área queimada, e reserva o acesso central para a impossibilidade do periférico.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O gatilho da intubação: sinal clínico ou número de gasometria

Sinal clínico dispara o tubo

A intubação precoce está indicada na lesão inalatória sintomática ou em qualquer lesão térmica de face, boca ou orofaringe que ameace a permeabilidade; os achados clínicos indicam intubação imediata.

Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020

Número de gasometria dispara o tubo

Indique intubação orotraqueal quando a escala de coma de Glasgow for menor que 8, a PaO2 menor que 60, a PaCO2 maior que 55 na gasometria, a dessaturação menor que 90 na oximetria, ou houver edema expressivo de face e orofaringe. Os sinais de suspeita de lesão inalatória ficam num item separado, que não é lista de indicação.

Ministério da Saúde / CFM, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2.b

Nenhuma lista é confiável

Nem todos os doentes se apresentam com os sinais clássicos, e a presença ou ausência desses fatores não é indicador confiável da existência ou da gravidade da lesão inalatória; não se intuba apenas para realizar broncoscopia diagnóstica.

Vanderbilt University Medical Center, Burn Center, Adult Inhalation Injury Guideline, junho de 2023

Na prova

O enunciado quase sempre entrega qual régua está em jogo. Quando descreve sinais (rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas, queimadura de face) e pergunta a conduta prioritária ou imediata, está na régua da sociedade e a resposta é intubação precoce — foi assim em todas as questões medidas com essa redação. Quando entrega Glasgow, PaO2, PaCO2 e saturação e pergunta se há indicação formal, está na régua da Cartilha, e aí um doente com sinais e números normais pode legitimamente ser vigiado. Enunciado que cita centro de queimados, broncoscopia ou confiabilidade dos sinais está no vocabulário do protocolo internacional recente. A distinção importa porque as duas primeiras réguas classificam o MESMO doente de formas opostas.

Por quanto tempo manter oxigênio a 100% na suspeita de intoxicação por monóxido

Três horas

Administre oxigênio a 100% em máscara umidificada e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, mantenha a oxigenação por três horas.

Ministério da Saúde / CFM, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2.b

Pelo menos seis horas

Nos pacientes com suspeita de intoxicação por monóxido de carbono deve-se administrar oxigênio por máscara não reinalante com FiO2 100% por pelo menos 6 horas.

Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020

Na prova

Isto NÃO é contradição, e tratar como se fosse leva a errar por excesso de zelo: com meia-vida de carboxi-hemoglobina da ordem de 1 hora sob FiO2 100%, 3 horas removem a maior parte e 6 horas removem quase tudo — os dois textos escolheram desfechos diferentes para a mesma farmacologia. O que nenhum dos dois admite é iniciar depois da dosagem: em qualquer redação, o oxigênio a 100% começa antes do exame. Se as opções oferecerem 'aguardar carboxi-hemoglobina para decidir', essa é a única que os três documentos recusam juntos.

Hidroxocobalamina empírica na vítima de incêndio em ambiente fechado

Tratar empiricamente diante de acidose desproporcional

Incêndio em ambiente fechado obriga a lembrar do cianeto junto do monóxido, e nesse cenário a hidroxocobalamina é a escolha, justamente porque os agentes metemoglobinizantes (nitrito de sódio) estão contraindicados quando há monóxido concomitante.

Prática difundida no material brasileiro de toxicologia de emergência; esquema e dose no capítulo de Toxicologia desta coleção

Não administrar de rotina

A hidroxocobalamina não deve ser administrada de rotina, dado o risco aumentado de lesão renal aguda e a falta de evidência consistente de melhora de desfecho; reservar para acidose que não responde à ressuscitação usual, após discussão com o cirurgião responsável.

Vanderbilt University Medical Center, Burn Center, Adult Inhalation Injury Guideline, junho de 2023, citando Dépret e cols., Critical Care, 2019 (estudo retrospectivo multicêntrico)

Na prova

A divergência é real e recente, mas o recorte cobrado no Brasil é o primeiro: enunciado com vítima de incêndio em ambiente fechado, oximetria normal, acidose láctica grave que persiste apesar de oxigênio a 100% e reposição adequada está pedindo hidroxocobalamina, e as opções costumam oferecer nitrito de sódio com tiossulfato, azul de metileno, N-acetilcisteína ou câmara hiperbárica como concorrentes. A posição de 2023 vem de protocolo institucional apoiado em estudo retrospectivo, desenho que não separa bem o efeito da droga do efeito da gravidade de quem a recebeu — por isso ela entra como divergência registrada, e não como conduta.

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Caso resolvido

Homem de 34 anos é resgatado de incêndio em apartamento, com porta fechada e cerca de 15 minutos de extricação. Chega ao pronto-socorro de um hospital geral sem centro de queimados 40 minutos após o acidente. Está lúcido e orientado, sentado, falando frases completas com voz discretamente rouca. Vibrissas nasais chamuscadas, fuligem em orofaringe e escarro carbonáceo. Queimadura de 2º grau em face, pescoço anterior e tronco anterior, estimada em 18% da SCQ. PA 128x78 mmHg, FC 108 bpm, FR 20 irpm, SpO2 98% em ar ambiente. Gasometria arterial: pH 7,36, PaO2 94 mmHg, PaCO2 39 mmHg. O centro de queimados de referência fica a 3 horas de ambulância e a vaga já foi confirmada.
primeiro
Oxigênio a 100% em máscara não reinalante, imediatamente e antes de qualquer dosagem. A SpO2 de 98% não afasta intoxicação por monóxido, porque a oximetria de pulso não separa carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Cabeceira elevada a 30-45° e monitorização contínua.
leitura das réguas
Pela Cartilha, este doente não preenche nenhum dos quatro critérios numéricos: Glasgow 15, PaO2 94, PaCO2 39 e saturação 98%. Pelo material da SBQ, ele preenche o gatilho duas vezes — lesão inalatória sintomática e lesão térmica de face que ameaça a permeabilidade. A régua que descreve o risco real deste doente é a da sociedade, que manda intubar.
trajetória
A voz mudou depois do acidente, há queimadura de face e pescoço anterior, e a reposição volêmica obrigatória vai alimentar o edema durante todo o trajeto. A janela de laringoscopia fácil tende a fechar dentro das próximas horas, e não no hospital de destino.
geografia
São 3 horas de ambulância. A pergunta deixa de ser 'ele precisa de tubo agora?' e passa a ser 'eu quero que este tubo seja colocado aqui, com equipe e material, ou dentro de um veículo em movimento?'. A resposta é intubação antes do embarque.
conduta
Intubação orotraqueal precoce com o maior calibre viável, sem encurtar o tubo, fixação com cadarço ao redor da cabeça (não fita adesiva sobre pele queimada) e registro da marca na arcada. Manter cabeceira elevada e reconferir a fixação durante o transporte.
o que NÃO entra
Nem corticoide nem antibiótico profilático para a lesão inalatória. E não se adia a intubação para realizar broncoscopia diagnóstica: o exame confirma e gradua a lesão, mas não é o que decide o tubo.
transporte
Transferência solicitada à unidade de referência, com leito reservado, acompanhado de médico, em ambulância com suporte intensivo e possibilidade de assistência ventilatória, com a reposição volêmica correndo pelo relógio contado desde a hora da queimadura.
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Agora feche você

Mulher de 29 anos, previamente hígida, sofre queimadura por chama ao acender uma churrasqueira com álcool líquido, em área aberta e ventilada. Chega 30 minutos depois. Queimadura de 2º grau superficial em face, região anterior do tórax e antebraço direito, estimada em 9% da SCQ. Vibrissas íntegras, sem fuligem em orofaringe, sem escarro carbonáceo, voz normal, deglutindo saliva sem dificuldade. Glasgow 15, PA 118x76 mmHg, FC 96 bpm, FR 16 irpm, SpO2 99% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, radiografia de tórax normal. O hospital tem cirurgião e material de via aérea difícil disponíveis, e a unidade de queimados de referência fica a 25 minutos.
1
Decida se há indicação de intubação e diga por quê, nomeando qual das três réguas você está usando.
2
Escreva a prescrição da vigilância da via aérea como se fosse prescrição de medicamento: quem examina, com que frequência, o que registra e qual achado dispara o tubo.
3
Decida se esta doente recebe oxigênio a 100% e justifique pelo ambiente do acidente.
4
Diga o que muda na sua decisão se a unidade de referência passasse a ficar a 4 horas de distância.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar o exame ficar anormal Glasgow, PaO2, PaCO2 e saturação são os últimos parâmetros a mudar. Quando a gasometria altera, a laringe já fechou e o que resta é via aérea cirúrgica em pescoço queimado.
  2. 2Afastar intoxicação por monóxido pelo oxímetro O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Saturação de 98% em vítima de ambiente fechado não afasta nada; O2 a 100% entra antes de qualquer dosagem.
  3. 3Escrever 'manter em observação' sem prescrever a observação Vigiar é monitorização contínua, cabeceira a 30-45°, ar umidificado, oxigênio, reavaliação por profissional nomeado em intervalo definido e material de via aérea difícil conferido. Sem isso, é omissão com outro nome.
  4. 4Transferir com a via aérea 'quase' indicada Se o doente seria intubado nas próximas horas no hospital de origem, ele se intuba antes de embarcar. Laringoscopia em ambulância em movimento, com o edema crescendo, é outro procedimento.
  5. 5Encurtar o tubo e fixar com fita adesiva A face vai inchar por mais de 24 horas. O tubo cortado perde margem e o adesivo não cola em pele queimada ou exsudativa. Cadarço, marca registrada na arcada e reconferência a cada checagem.
  6. 6Extubar nas primeiras 24 horas porque a mecânica melhorou Os critérios habituais medem pulmão; o problema é o calibre da via aérea alta. A descamação da mucosa é tardia e o risco de hipoxemia persiste por até 72 horas nas lesões mais graves. Espere o rosto desinchar e faça a prova de escape.
  7. 7Prescrever corticoide ou antibiótico profilático na lesão inalatória Ambos são recusados nominalmente pelo material da SBQ. O corticoide não desfaz edema formado e acrescenta risco; o antibiótico seleciona resistência antes de haver infecção.
  8. 8Tratar rouquidão em criança como se fosse rouquidão em adulto O mesmo milímetro de edema estreita muito mais um lúmen pequeno, e o choro prolongado confunde a leitura da voz. Na criança o limiar para intubar é menor e o limiar para extubar é maior.
  9. 9Intubar só para poder broncoscopar A broncoscopia nas primeiras 24 h confirma e gradua a lesão inalatória, mas o protocolo de Vanderbilt é explícito: não se intuba com essa finalidade única. O tubo se justifica pela via aérea, não pelo exame.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A oximetria de pulso não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, de modo que a saturação aparece normal em alguém gravemente intoxicado — e a gasometria arterial engana pelo motivo vizinho, porque mede oxigênio dissolvido no plasma. Por isso o número tranquilizador não autoriza suspender oxigênio: vítima de ambiente fechado recebe oxigênio a 100% em máscara não reinalante antes de qualquer dosagem, e o exame que confirma é a carboxi-hemoglobina. A ideia de hiperóxia não se aplica, já que o objetivo aqui é acelerar a eliminação do monóxido, cuja meia-vida cai justamente com fração inspirada alta. Radiografia e ausculta avaliam o pulmão, não o transporte pela hemoglobina. E vasoconstrição periférica derruba o sinal do oxímetro, não o eleva.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as três réguas do gatilho do tubo — a da SBQ (sinal clínico indica intubação imediata), a da Cartilha (Glasgow < 8, PaO2 < 60, PaCO2 > 55, dessaturação < 90, edema expressivo de face e orofaringe) e a do protocolo de 2023 (sinais não são indicador confiável) — e depois classifique, por cada uma delas, o doente com queimadura de face, rouquidão, escarro carbonáceo e gasometria normal. Em seguida recite o que se faz antes do tubo: O2 a 100% em máscara não reinalante para todo resgatado de ambiente fechado, sem esperar dosagem, e cabeceira a 30-45°.

em 30 dias

Refaça os dois casos do capítulo decidindo em voz alta 'intubo agora' ou 'vigio com prescrição escrita', e em seguida escreva a prescrição da vigilância como se fosse prescrição de medicamento: quem examina, de quanto em quanto tempo, o que se registra e qual achado dispara o tubo. Depois percorra o pós-tubo: não encurtar, cadarço em vez de fita, marca na arcada e reconferência; e feche revisando por que a extubação das primeiras 24 horas é uma armadilha e como as 3 horas da Cartilha e as 6 horas da SBQ podem estar as duas certas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 41 anos, resgatado de incêndio em depósito fechado, chega ao pronto-socorro 50 minutos após o acidente, lúcido, com queimadura de face e pescoço, rouquidão surgida no trajeto e escarro carbonáceo. Colha a história do ambiente e do tempo de exposição, examine a orofaringe e a voz, decida entre intubar agora e vigiar com prescrição escrita, justifique a decisão nomeando a régua que está usando e comunique o plano ao doente e ao acompanhante antes de sedar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Quando intubar o queimado – Intubar o queimado: a janela que fecha antes de o exame ficar anormal — Preparatório para provas | OsceLabs