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Cirurgia GeralQueimados

Queimaduras: extensão e profundidade

Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade

A prova cobra duas contas e uma lista: quanto queimou, quão fundo queimou e quem precisa ir para o Centro de Tratamento de Queimados. O queimado perde plasma, não sangue, e é essa diferença que governa toda a reposição.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 32 anos sofre queimadura ao derramar líquido fervente sobre o antebraço. À avaliação, a área acometida está eritematosa, com formação de bolhas, úmida, dolorosa e com preenchimento capilar preservado (branqueia à digitopressão). Segundo a classificação de profundidade das queimaduras, esta lesão é classificada como:

02

Como esse tema cai

O queimado grave não é um politraumatizado com a pele vermelha. O ABCDE e o choque hemorrágico já foram tratados nos capítulos de trauma desta coleção, e o que muda aqui é a fisiologia: o queimado não perde sangue, perde plasma. A queimadura extensa abre a barreira microvascular no leito queimado e também em tecidos que não foram tocados pelo calor, e o líquido que sai do vaso vai para o interstício. Por isso o choque do queimado se instala em horas, e não em minutos, e por isso o soro aqui é tratamento, e não ponte para o sangue.

Essa diferença tem consequência prática imediata: no hemorrágico, correr volume desloca o coágulo e mata; no queimado, deixar de correr volume nas primeiras horas produz insuficiência renal e morte. O erro simétrico também existe e tem nome próprio na literatura, fluid creep, que é a ressuscitação que ultrapassa o previsto e cobra o preço em edema, síndrome compartimental abdominal e lesão pulmonar. O capítulo inteiro vive entre esses dois erros.

A prova cobra este tema em quatro perguntas que praticamente não mudam de ano para ano: qual a profundidade, quanto por cento queimou, quanto de Ringer lactato e quem vai para o Centro de Tratamento de Queimados. Todas as quatro têm resposta numérica, e três delas dependem de uma conta que o aluno precisa saber fazer de cabeça em trinta segundos.

Dois avisos que mudam alternativa. O volume inicial que se ensina como padrão está em disputa: a fórmula de Parkland usa 4 mL/kg por porcento de superfície queimada, e a American Burn Association passou a recomendar começar por 2 mL. E o Brasil tem duas réguas diferentes para as palavras pequeno, médio e grande queimado, com números que não coincidem: uma é da portaria do Ministério da Saúde, outra é do Projeto Diretrizes. O capítulo marca as duas e diz como reconhecer qual delas a questão está usando.

03

O que muda decisão

Por que o queimado perde plasma, e por que o relógio começa na queimadura

A partir de cerca de 20% de superfície corporal queimada no adulto, a resposta deixa de ser local e vira sistêmica. A diretriz da American Burn Association descreve a combinação: depleção do volume intravascular, débito cardíaco deprimido e resistência vascular sistêmica elevada, os três juntos comprometendo a perfusão de órgãos e tecidos. O motor disso é o aumento da permeabilidade microvascular, que a própria diretriz faz questão de dizer que ocorre não só na ferida, mas também em tecidos e órgãos não queimados. O que sai do vaso é plasma, com água, eletrólitos e proteína, e o que fica no lugar dele é edema.

Daí vem o paradoxo que organiza todo o tratamento: repor o volume plasmático contraído com fluido endovenoso necessariamente piora o edema. A ressuscitação é indispensável e salva a vida, e a própria intervenção causa dano. Ressuscitar de menos leva a insuficiência de órgãos e morte; ressuscitar demais leva a edema pulmonar, síndrome compartimental de abdome, de membros e de órbita. Não existe posição confortável nessa gangorra, e é por isso que a fórmula é apenas um ponto de partida e a titulação é que faz o trabalho.

O segundo conceito que a prova esconde é o relógio. A contagem das primeiras 8 horas de reposição começa no momento da queimadura, não na chegada ao hospital. O Projeto Diretrizes escreve com todas as letras que metade do volume calculado deve ser infundida nas primeiras 8 horas após a queimadura, e o material da SBQ repete a mesma referência temporal. A consequência é aritmética e cai em prova toda hora: o paciente que chega duas horas depois do acidente tem seis horas, e não oito, para receber a mesma metade do volume. A velocidade de infusão sobe na proporção do tempo perdido no transporte.

Um detalhe de exame físico fecha a seção e evita erro grosseiro. O material da SBQ registra que, pelo estresse da lesão térmica e pela dor, uma frequência cardíaca de 100 a 120 batimentos por minuto é considerada dentro dos limites da normalidade no queimado, e adota como alvo de ressuscitação manter a frequência abaixo de 120 no paciente que não é cardiopata nem betabloqueado. Taquicardia leve no queimado, portanto, não é sinônimo de hipovolemia descompensada. E o inverso também vale como alerta: alteração do nível de consciência em queimado não se explica pela queimadura. Procure traumatismo cranioencefálico, hipóxia, drogas ou intoxicação por monóxido de carbono.

Dois painéis do mesmo capilar: à esquerda, parede endotelial contínua e tecido ao redor compacto; à direita, aberturas entre as células endoteliais deixando o plasma escapar para o interstício, que aparece expandido e encharcado, com a luz do vaso mais estreita.
A lesão do queimado não é perda de sangue, é fuga de plasma. A permeabilidade aumenta na ferida e também em tecido não queimado, e o líquido reposto no vaso volta a escapar para o interstício. É por isso que repor volume é obrigatório e, ao mesmo tempo, é o que produz o edema.

Profundidade: o que se vê, o que dói e o que cicatriza sozinho

O Projeto Diretrizes ancora a classificação em três graus e em três sinais, e essa é a espinha que a prova cobra literalmente: primeiro grau é lesão apenas da epiderme e o sinal é eritema; segundo grau atinge epiderme e parte da derme e o sinal é eritema mais bolha; terceiro grau atinge epiderme e derme por inteiro e o sinal é a coloração branca nacarada. O mesmo documento traduz isso para a nomenclatura de espessura, que é a que aparece nas questões de banca internacionalizada: espessura parcial superficial abrange o primeiro grau e o segundo grau superficial, espessura parcial profunda é o segundo grau profundo, e espessura total é o terceiro grau.

A subdivisão do segundo grau em superficial e profundo é a parte que decide conduta, e por isso é a que mais cai. O critério útil à beira do leito é a derme reticular e o que ela contém. No segundo grau superficial, a derme papilar está lesada mas a derme profunda, com folículos pilosos e glândulas, está preservada; o leito é rosado, úmido e brilhante, o enchimento capilar volta rápido quando se comprime, a dor é intensa e desproporcional ao que se vê, e a lesão reepiteliza sozinha a partir dos anexos em até cerca de três semanas, sem enxerto e sem cicatriz relevante. No segundo grau profundo, os anexos foram destruídos; o leito fica pálido, moteado de branco e vermelho, seco, o enchimento capilar é lento ou ausente, a sensibilidade dolorosa está reduzida porque as terminações nervosas superficiais foram queimadas, e a lesão passa das três semanas, cicatriza com retração e costuma precisar de enxerto.

O terceiro grau é o mais fácil de reconhecer e o que engana quem procura dor. A escara é branca nacarada, ou marrom, ou cor de couro, seca, endurecida e sem elasticidade; o enchimento capilar não existe porque o plexo dérmico foi destruído; e ela é indolor à picada, porque não sobrou terminação nervosa na área. Um paciente que não sente a área queimada não está melhor do que o que grita de dor: está pior. E, como não há anexo nenhum de onde reepitelizar, o terceiro grau não fecha por segunda intenção em área de alguma extensão, ele fecha por enxerto.

Duas armadilhas de raciocínio fecham a seção. A primeira é que a queimadura não é estática: uma lesão de segundo grau superficial pode aprofundar nas primeiras 48 horas se houver hipoperfusão, infecção ou hipotermia, e o material da SBQ é explícito ao proibir gelo e água gelada justamente porque provocam conversão adicional da queimadura. Reavaliar a profundidade no dia seguinte não é insegurança, é rotina. A segunda é que o mesmo paciente costuma ter os três graus lado a lado, e a classificação vale por área, não por paciente: escreve-se o pior grau de cada segmento no diagrama.

Contar a superfície: regra dos nove, palma da mão e Lund-Browder

A regra dos nove existe porque, no pronto atendimento, é preciso um número em trinta segundos. O Projeto Diretrizes anota isso na própria tabela, ao dizer que a regra dos nove serve para calcular a superfície corporal queimada apenas no pronto atendimento. No adulto, os múltiplos de nove são: cabeça e pescoço 9%, cada membro superior 9%, tronco anterior 18%, tronco posterior 18%, cada coxa 9%, cada perna com o pé 9%, e a genitália 1%, que é o resto que fecha os cem.

Na criança a regra muda, e a razão é anatômica, não convencional: a criança pequena tem a cabeça proporcionalmente muito maior e os membros inferiores proporcionalmente menores do que o adulto. A tabela brasileira resolve isso com duas correções por idade. Cabeça e pescoço valem 18% menos a idade em anos. Cada coxa e cada perna com pé valem 7% mais um quarto da idade em anos. Tronco e membros superiores não mudam. A conta é elegante porque se autocompensa: a cada ano de vida a cabeça perde um ponto percentual e os quatro segmentos de membro inferior ganham um quarto de ponto cada, de modo que a soma continua em cem, e por volta dos nove anos o esquema já converge para os nove por cento do adulto. O material da SBQ trabalha com a regra dos nove do adulto a partir dos quinze anos, e com a versão adaptada ou o Lund-Browder abaixo disso.

Para queimadura pequena, salpicada ou de contorno irregular, contar por segmentos não funciona, e aí entra a regra da palma da mão. O parâmetro é a palma do próprio paciente, incluindo os dedos, e ela equivale a aproximadamente 1% da superfície corporal. Duas cautelas que fazem diferença: a palma é a do paciente, não a do examinador, o que importa muito em criança; e a estimativa por palmas é grosseira e se degrada rapidamente acima de dez ou quinze por cento, servindo para o pequeno queimado e não para calcular a reposição do grande.

O esquema de Lund-Browder é o método superior, e vale saber exatamente em quê. Ele não é uma tabela única: é um diagrama corporal segmentado em muito mais partes, com uma coluna de valores para cada faixa etária, que no formulário reproduzido pelo Projeto Diretrizes são zero a um ano, um a quatro, cinco a nove, dez a catorze e adulto. Isso o torna superior em três situações: na criança, porque corrige a proporção por faixa etária em vez de por fórmula; nas queimaduras irregulares, porque permite marcar frações de segmento; e no registro em prontuário e na transferência, porque é um mapa e não um número solto. A regra dos nove é para a primeira hora; o Lund-Browder é o que fica no prontuário.

Falta o número que mais rende ponto e que mais se perde por desatenção: a queimadura de primeiro grau não entra na conta da superfície corporal queimada. O material da SBQ escreve a fórmula de reposição como mililitros por quilo por porcento de superfície corporal queimada contada a partir das queimaduras de segundo grau. E os dois formulários reproduzidos no Projeto Diretrizes, tanto o da regra dos nove quanto o diagrama de Lund-Browder, têm colunas de registro apenas para 2º Grau e 3º Grau. O eritema solar que cobre o dorso inteiro é dolorido, é queimadura, e vale zero por cento na conta do soro. Somar o primeiro grau é o caminho mais rápido para hiper-hidratar um paciente.

Reposição inicial: a fórmula abre, a diurese corrige

A fórmula clássica de Parkland é 4 mL de Ringer lactato por quilo por porcentagem de superfície corporal queimada nas primeiras 24 horas. Ela continua importante quando o enunciado pede nominalmente Parkland. Para o adulto queimado, porém, a diretriz contemporânea da American Burn Association recomenda iniciar com 2 mL/kg/%SCQ, estratégia de menor volume destinada a reduzir fluid creep.

Quem recebe reposição venosa formal depende do protocolo e da extensão; em adultos, queimaduras próximas ou superiores a 20% de SCQ costumam exigir ressuscitação protocolizada. Na criança, usa-se fórmula pediátrica do serviço — frequentemente 3 mL/kg/%SCQ — somada à manutenção com glicose quando indicada. Primeiro grau não entra na conta.

Adulto de 80 kg com 27% de SCQ: pela taxa inicial atual de 2 mL/kg/%SCQ, estima-se 4.320 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 2.160 mL, deve ser administrada até completar oito horas da queimadura; se já passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 332 mL/h. A metade restante corre nas 16 horas seguintes, cerca de 135 mL/h. Pela fórmula clássica de Parkland, os números dobrariam.

Nenhuma fórmula é uma prescrição fechada. A infusão deve ser ajustada hora a hora pela perfusão e principalmente pela diurese: cerca de 0,5 mL/kg/h no adulto e 1 mL/kg/h na criança. Débito baixo pede reavaliação de volume, profundidade, atraso, função cardíaca e outras causas; débito excessivo pede redução para evitar edema e síndrome compartimental.

O relógio começa no momento da queimadura, não na chegada. Sonda vesical é usada quando a extensão e a gravidade exigem controle horário. Volumes reais ou projetados muito acima do esperado devem levantar suspeita de fluid creep e motivar revisão da estratégia.

Lesão inalatória: a via aérea que ainda está pérvia e vai fechar

A lesão de via aérea no queimado não é um problema respiratório, é um problema de tempo. O material da SBQ separa dois mecanismos: a lesão supraglótica, que resulta de dano térmico direto e produz edema, e a lesão subglótica, que atinge o parênquima pulmonar por gases tóxicos e fuligem. A supraglótica é a que mata cedo, e ela evolui. O paciente que chega falando, com a via aérea pérvia e saturando bem, pode estar a uma hora de uma glote fechada, e o edema não é só do calor: a própria ressuscitação volêmica que ele vai receber piora esse edema.

Os sinais que denunciam a lesão inalatória, reunidos do material da SBQ, são estes: história de incêndio em ambiente fechado ou exposição a fumaça; queimadura de face, boca ou nariz; pelos faciais chamuscados, incluindo supercílios, cílios e vibrissas; fuligem dentro ou ao redor da boca e nas narinas; escarro carbonáceo; rouquidão; estridor laríngeo; sibilos; dispneia; aumento do trabalho respiratório; e incapacidade de lidar com as próprias secreções. O documento é direto sobre o que fazer com eles: estes sinais indicam intubação imediata, e a intubação precoce está indicada em paciente com lesão inalatória sintomática ou com qualquer lesão térmica de face, boca ou orofaringe que ameace a permeabilidade da via aérea.

A razão de a via aérea definitiva ser precoce é mecânica. Enquanto há edema em formação, a laringoscopia ainda é possível; depois que o edema se instala, a anatomia desaparece, a intubação falha e o que resta é via aérea cirúrgica em um pescoço frequentemente queimado e edemaciado. Não existe vantagem em esperar a piora para confirmar o diagnóstico. Enquanto se observa o paciente de menor risco, o material da SBQ manda monitorização contínua, cabeceira elevada de 30 a 45 graus, umidificação do ar inspirado e oxigenoterapia, com ventilação protetora se a intubação ocorrer. E registra o que não entra: corticoide e antibiótico não estão indicados na lesão inalatória.

O monóxido de carbono é o companheiro obrigatório da lesão inalatória e tem armadilha própria. Cefaleia, náusea, tontura, visão turva, sonolência, desorientação, torpor, convulsão e coma são os sinais, e o material da SBQ lembra a pele em aspecto vermelho-cereja associada à confusão mental em vítima de ambiente fechado. A armadilha é o oxímetro: o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, de modo que a saturação de pulso aparece normal em um paciente gravemente intoxicado. A conduta é oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, e a decisão não espera dosagem. Por fim, um detalhe de classificação que a prova adora: lesão inalatória em queimadura de qualquer extensão já reclassifica o paciente como grande queimado, tanto pela portaria do Ministério da Saúde quanto pelo Projeto Diretrizes, e é critério isolado de encaminhamento a centro especializado e de vaga em UTI.

Queimadura circunferencial e escarotomia: o torniquete que o próprio paciente veste

A escara de espessura total é rígida e não estica. Enquanto isso, embaixo dela o edema da ressuscitação cresce hora a hora. O resultado é um garrote biológico: a pressão dentro do compartimento sobe até ultrapassar a pressão de perfusão, e o segmento distal isquemia. Nada disso depende da extensão total da queimadura, e é por isso que uma queimadura de 8% pode exigir uma incisão de emergência.

No tórax e no pescoço, a queimadura circunferencial não produz isquemia, produz insuficiência ventilatória. O material da SBQ manda, na avaliação de B, atentar para síndrome compartimental nas queimaduras circulares de tórax e pescoço e indicar escarotomia de emergência quando necessário. A pista clínica é uma dificuldade de ventilar que não se explica pelo pulmão: expansibilidade torácica reduzida, taquipneia crescente e, no paciente intubado, pressões de via aérea que sobem sem alteração da ausculta. A técnica descrita é a de incisões que atingem o músculo ao longo de toda a região da linha axilar anterior, em linhas paralelas bilateralmente.

Nos membros, a avaliação circulatória do queimado exige checar a perfusão de todas as extremidades, com atenção especial às queimadas circunferencialmente. A escarotomia está indicada nas queimaduras circulares de espessura total dos membros. E há um passo seguinte que a prova cobra como pergunta separada: a escarotomia pode ser insuficiente, porque o edema também comprime dentro da fáscia. O material da SBQ lista os sinais que indicam fasciotomia após a escarotomia: parestesia, dor contínua, hipoestesia e enrijecimento da região, associados a oximetria de pulso abaixo de 90% no segmento, e registra que isso acontece principalmente nas queimaduras elétricas de alta tensão.

Duas regras de sequência valem a pena decorar. Primeira: a escarotomia é medida a ser realizada imediatamente assim que identificada e antes do encaminhamento do paciente ao centro mais complexo. Mandar para a ambulância um tórax circunferencial não incisado é mandar o paciente morrer no caminho. Segunda: antes de qualquer escara existir, o efeito torniquete já começa pelos adornos. O material da SBQ manda remover fraldas, joias, lentes de contato e outros acessórios exatamente para evitar o efeito de torniquete produzido pelo edema. Anel em dedo de mão queimada é amputação em algumas horas.

Dois painéis do mesmo antebraço: à esquerda, faixa rígida de queimadura de espessura total circundando o membro, tecido edemaciado comprimido embaixo dela e mão distal pálida; à direita, a mesma faixa aberta por uma incisão longitudinal, com as bordas afastadas, o tecido expandindo pela abertura e a mão distal novamente perfundida.
A escara de espessura total não estica, e o edema da ressuscitação cresce embaixo dela. A escarotomia é uma incisão longitudinal que abre o anel rígido e devolve espaço ao compartimento. No tórax, o mesmo raciocínio: o que o anel impede não é a perfusão, é a expansão da caixa torácica.

Elétrica e química: onde as regras gerais deixam de valer

A queimadura elétrica é a que mais engana, e a razão é geométrica. A corrente entra por um ponto, atravessa o corpo pelo trajeto de menor resistência, que são nervos, vasos e músculo, e sai por outro ponto. O que se vê na pele são duas lesões pequenas, de aspecto banal; o que aconteceu entre elas é destruição muscular profunda, ao longo de todo o trajeto. Por isso a superfície corporal queimada calculada pela regra dos nove subestima grosseiramente a gravidade da lesão elétrica, e por isso tanto a portaria do Ministério da Saúde quanto o Projeto Diretrizes classificam a queimadura por corrente elétrica como grande queimado independentemente da extensão visível.

A consequência renal é o que a prova cobra com número. A destruição muscular libera mioglobina, que precipita nos túbulos e produz necrose tubular aguda; clinicamente, a urina vem escura, tinta de vinho ou de coca-cola. O Projeto Diretrizes é preciso na conduta: havendo hematúria ou hemoglobinúria, deve-se estimular a diurese para grandes volumes, que ele quantifica em 2 mL/kg/h nos menores de 12 anos e 70 a 120 mL por hora nos maiores de 12 anos, inclusive com uso de diurético osmótico, e nos casos de queimadura elétrica manda infundir 12,5 gramas de manitol para cada litro de Ringer lactato infundido. Repare que essas metas são o dobro ou o triplo do alvo habitual de diurese: na mioglobinúria, urinar pouco é justamente o que se quer evitar.

Mais três coisas mudam na elétrica. Ela exige monitorização cardíaca contínua, porque a corrente que atravessa o tórax produz arritmia. Ela é a situação em que a fasciotomia é mais frequente, e o material da SBQ diz isso ao apontar a queimadura elétrica de alta tensão como o cenário principal de síndrome compartimental por limitação da fáscia. E ela vem com trauma associado com frequência incomum, por queda ou por contratura muscular violenta, o que faz da avaliação da coluna cervical e do exame secundário completo uma obrigação, não uma formalidade.

Na queimadura química, o agente continua queimando enquanto estiver na pele, e o tempo de contato é a variável que se pode alterar. O Projeto Diretrizes manda irrigar abundantemente com água corrente de baixo fluxo, por pelo menos 20 a 30 minutos, retirando antes o excesso do agente em pó a seco, se for o caso. O fluxo baixo não é detalhe: jato forte espalha o agente para pele sã. Álcali costuma exigir irrigação mais prolongada que ácido, porque produz necrose de liquefação e continua penetrando em profundidade, enquanto o ácido produz necrose de coagulação que tende a limitar a própria penetração.

E há a proibição explícita, que é resposta pronta de questão: não aplicar agentes neutralizantes, porque a reação é exotérmica e pode agravar a queimadura. Tentar neutralizar um ácido com base é adicionar calor a um tecido que já está queimando. Dois cuidados particulares completam: agentes aderentes como piche devem ser resfriados com água corrente sem tentativa de remoção imediata, e a córnea com suspeita de queimadura deve ser corada com fluoresceína, com a ressalva de que não se oclui o olho quando o agente lesivo é álcali.

Analgesia, tétano, antibiótico e o curativo: o que se faz e o que não se põe

Analgesia no queimado é via endovenosa, e o motivo é farmacocinético. Com vasoconstrição e edema, a absorção subcutânea e intramuscular é errática, e o material da SBQ chega a chamar as outras vias de ineficazes, indicando opioides isolados ou associados. O Projeto Diretrizes formula a meta sem meio-termo: analgesia com o medicamento e a dose necessários para tirar a dor do paciente, podendo-se usar não narcóticos e narcóticos venosos de ação imediata. A ressalva é com anti-inflamatório não esteroide, que a SBQ manda usar com muito critério pelo risco de lesão aguda da mucosa gástrica com hemorragia digestiva e de lesão renal em paciente que já está hipoperfundido.

A profilaxia antitetânica é obrigatória e tem uma particularidade que rende ponto: no Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, a queimadura é classificada como ferimento de alto risco para tétano, ao lado de ferimentos profundos ou sujos, feridas puntiformes, mordeduras, esmagamento e fraturas expostas. A conduta segue a situação vacinal. História vacinal incerta ou menos de três doses em ferimento de alto risco: vacina mais imunoglobulina humana antitetânica, 250 UI por via intramuscular, ou soro antitetânico heterólogo 5.000 UI se a imunoglobulina não estiver disponível, aplicados em sítio diferente do da vacina. Três ou mais doses com a última entre 5 e 10 anos e ferimento de alto risco: reforço da vacina, sem imunoglobulina. Três ou mais doses com a última há mais de 10 anos: reforço, com imunoglobulina reservada a situações especiais. Três ou mais doses com a última há menos de 5 anos: nada.

Antibiótico profilático sistêmico não se faz, e essa é uma das poucas recomendações do Projeto Diretrizes escrita como proibição direta e graduada em evidência B, C e D: não se deve utilizar antibiótico profilático. A razão é anatômica antes de ser microbiológica. A escara é tecido desvitalizado e sem circulação, de modo que o antibiótico administrado por via sistêmica simplesmente não chega até ela; a colonização da ferida é inevitável e não é o mesmo que infecção; e o que a profilaxia produz de fato é seleção de flora resistente e candidíase, num paciente que vai passar semanas internado e vai precisar de antibiótico de verdade mais tarde. O mesmo documento define quando o antibiótico entra: após a fase aguda de ressuscitação, diante de temperatura acima de 39 graus, avaliados o aspecto da lesão e os exames, na suspeita ou no diagnóstico de infecção. E o material da SBQ acrescenta a mesma proibição para a lesão inalatória, onde nem antibiótico nem corticoide estão indicados.

O curativo inicial tem uma função modesta e uma armadilha grande. A função é proteger, e o material da SBQ é explícito ao dizer que o curativo inicial não deve ser motivo para retardar a remoção do paciente, bastando campo estéril e cobertura térmica para curtas distâncias. A sequência do Projeto Diretrizes é: parar o processo da queimadura, lavar com água corrente até a dor passar, proteger com tecido seco, estéril ou limpo; depois, remoção de contaminantes ou medicamentos caseiros, limpeza com sabão neutro ou glicerinado e lavagem abundante com água corrente, e só então o tópico de escolha seguido de curativo estéril. A preferência é por curativo oclusivo, com duas exceções nomeadas, orelha e períneo, que ficam por exposição, a orelha ainda com cuidado de evitar pressão excessiva pelo risco de condrite.

A lista do que não se põe é curta e cobrada: não se aplica gelo nem água gelada, porque causam hipotermia, aprofundam a queimadura por conversão adicional e podem levar a coagulopatia, arritmia e morte; não se aplica agente neutralizante na queimadura química; e tudo o que o paciente aplicou em casa sai antes do curativo, porque o passo é literalmente remoção de contaminantes ou medicamentos caseiros. Vale registrar o que os documentos brasileiros deliberadamente não padronizam: nem o Projeto Diretrizes nem o material da SBQ nomeiam um agente tópico único de escolha para o curativo inicial. O primeiro fala em tópico de escolha de acordo com a rotina do serviço; o segundo diz que os curativos podem ser fechados ou abertos e devem ser feitos conforme a experiência e a disponibilidade de cada serviço. Numa questão, alternativa que exige um tópico específico como padrão nacional está afirmando mais do que os documentos afirmam.

Duas medidas de suporte fecham a internação e aparecem em enunciado de conduta completa. Dieta precoce, oral ou por sonda, porque previne lesão de mucosa digestiva e translocação bacteriana, com protetor gástrico de rotina e a lembrança de que a partir de 30% de superfície queimada existe risco de íleo paralítico. E, na criança queimada, a investigação ativa de maus-tratos, que o Projeto Diretrizes lista como item do atendimento inicial, ao lado da pesquisa de queda ou trauma associado.

04

Profundidade, superfície e destino

Três instrumentos e um destino. A tabela de profundidade responde quão fundo queimou; a regra dos nove responde quanto queimou, lembrando que o primeiro grau vale zero na conta; a lista de triagem responde para onde vai o paciente. A quarta tabela existe porque o Brasil tem duas réguas oficiais diferentes para as palavras pequeno, médio e grande queimado, e a questão precisa ser lida para saber qual delas está em jogo.

  1. 11. Pare o processo: remova roupas queimadas ou intactas sobre a área, além de fraldas, joias, anéis e lentes de contato, pelo efeito torniquete do edema. Lave com água corrente. Gelo e água gelada não entram: causam hipotermia e aprofundam a queimadura.
  2. 22. A — via aérea: procure pelos faciais chamuscados, fuligem em boca e narinas, escarro carbonáceo, rouquidão, estridor, incapacidade de lidar com secreções e história de ambiente fechado. Presentes, a intubação é imediata, não observacional. Avalie coluna cervical se houve explosão ou colisão.
  3. 33. B — ausculte, meça a frequência respiratória e avalie a expansibilidade. Queimadura circunferencial de tórax ou pescoço restringindo a expansão indica escarotomia de emergência. Em ambiente fechado, oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas pela intoxicação por monóxido de carbono, sem esperar dosagem.
  4. 44. C — dois acessos venosos calibrosos, preferencialmente em cintura escapular e fora da área queimada. Monitor cardíaco e oxímetro. Frequência de 100 a 120 bpm é esperada no queimado; o alvo de ressuscitação é mantê-la abaixo de 120.
  5. 55. D — Escala de Coma de Glasgow. Alteração de consciência em queimado não se explica pela queimadura: procure TCE, hipóxia, drogas ou monóxido de carbono.
  6. 66. E — exponha o paciente por inteiro para avaliar as lesões e remover contaminantes, calcule a superfície queimada e, feito isso, controle ativamente a hipotermia. O queimado perdeu a capacidade de termorregular.
  7. 77. Calcule a superfície corporal queimada somando apenas segundo e terceiro graus. Regra dos nove no adulto; versão corrigida por idade ou Lund-Browder na criança; regra da palma do paciente, incluindo os dedos, igual a 1%, para lesões pequenas ou salpicadas.
  8. 88. Inicie Ringer lactato pelo protocolo apropriado: no adulto, a recomendação contemporânea parte de 2 mL/kg/%SCQ; Parkland clássico, quando solicitado nominalmente, usa 4 mL/kg/%SCQ. Metade do volume estimado deve chegar até a oitava hora contada da queimadura, e a taxa é titulada pela diurese e perfusão. Em crianças, aplique fórmula pediátrica e some manutenção quando indicada.
  9. 99. Sonde: a diurese é o que titula a reposição. Sonda vesical e nasogástrica na criança acima de 10% e no adulto acima de 25% de SCQ. Alvo de 0,5 a 1 mL/kg/h no adulto, ou 30 a 50 mL/h, e 1 mL/kg/h na criança, com medida horária e descrição da urina.
  10. 1010. Reavalie as extremidades queimadas circunferencialmente. Escarotomia indicada nas circulares de espessura total, e ela é feita ANTES de transferir. Persistindo parestesia, dor contínua, hipoestesia, enrijecimento ou oximetria abaixo de 90% no segmento, fasciotomia.
  11. 1111. Urina escura em queimadura elétrica é mioglobinúria: eleve a meta de diurese para 2 mL/kg/h abaixo de 12 anos e 70 a 120 mL/h acima de 12 anos, com 12,5 g de manitol por litro de Ringer lactato infundido.
  12. 1212. Analgesia endovenosa em dose suficiente para tirar a dor. Profilaxia antitetânica tratando a queimadura como ferimento de alto risco. Nenhum antibiótico profilático sistêmico e nenhum corticoide para lesão inalatória.
  13. 1313. Curativo: limpeza com sabão neutro e água corrente abundante, remoção do que foi aplicado em casa, tópico conforme a rotina do serviço e cobertura estéril. Oclusivo, exceto orelha e períneo. Nada de agente neutralizante em queimadura química.
  14. 1414. Decida o destino pela lista de triagem: alta com retorno marcado e analgésico oral, internação em hospital geral, ou transferência ao Centro de Tratamento de Queimados após estabilização, com relatório, regulação e transporte médico em ambulância de suporte avançado.

1º grau (espessura parcial superficial)

Lesão apenas da epiderme. Eritema, sem bolha, pele seca e íntegra. Dolorosa ao toque, com enchimento capilar rápido e presente. Reepiteliza em poucos dias sem cicatriz. NÃO entra na conta da superfície corporal queimada e não gera reposição volêmica.

2º grau superficial (espessura parcial superficial)

Epiderme e derme papilar. Bolha, leito rosado, úmido e brilhante. Dor intensa, desproporcional ao aspecto, com enchimento capilar rápido. Os anexos profundos estão preservados e a lesão reepiteliza sozinha em até cerca de três semanas, sem enxerto.

2º grau profundo (espessura parcial profunda)

Atinge a derme reticular e destrói folículos e glândulas. Leito pálido, moteado de branco e vermelho, seco. Dor reduzida e enchimento capilar lento ou ausente. Passa das três semanas, cicatriza com retração e habitualmente exige enxerto.

3º grau (espessura total)

Epiderme e derme por inteiro. Escara branca nacarada, marrom ou cor de couro, seca, endurecida e inelástica. Indolor à picada e sem enchimento capilar. Não reepiteliza: fecha por enxerto. Se for circunferencial, exige escarotomia.

Grau / espessuraO que se vêDorEnchimento capilarCicatrização
1º grau — parcial superficialEritema, sem bolha, pele seca e íntegra (só epiderme)Presente, tipo ardênciaRápido e presentePoucos dias, sem cicatriz. Não conta na SCQ
2º grau superficial — parcial superficialBolha; leito rosado, úmido e brilhanteIntensa, desproporcional ao aspectoRápidoReepiteliza sozinha em até cerca de 3 semanas, sem enxerto
2º grau profundo — parcial profundaLeito pálido, moteado de branco e vermelho, secoReduzidaLento ou ausenteAlém de 3 semanas, com retração; habitualmente enxerto
3º grau — espessura totalEscara branca nacarada, marrom ou cor de couro; seca, dura, inelásticaAusente à picadaAusenteNão reepiteliza; fecha por enxerto

Regra dos nove: adulto e criança (tabela do Projeto Diretrizes AMB/CFM)

SegmentoAdultoCriança (até 9 anos)
Cabeça e pescoço9%18% menos a idade em anos
Membro superior direito9%9%
Membro superior esquerdo9%9%
Tronco anterior18%18%
Tronco posterior18%18%
Genitália1%
Coxa direita9%7% mais um quarto da idade em anos
Coxa esquerda9%7% mais um quarto da idade em anos
Perna e pé direitos9%7% mais um quarto da idade em anos
Perna e pé esquerdos9%7% mais um quarto da idade em anos
Regra da palma (lesões pequenas ou salpicadas)Palma do paciente com os dedos = 1%Palma do paciente com os dedos = 1%

Critérios de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados (lista da American Burn Association)

CritérioCorte / detalhe
Queimadura de 2º grau (espessura parcial)Área superior a 10% da superfície corporal, em qualquer idade
Queimadura de 3º grauQualquer extensão, em qualquer idade
Localização especialFace, mão, pé, genitália, períneo, pescoço ou grande articulação (axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho, tornozelo), em qualquer idade
Queimadura elétricaInclusive por raio, em qualquer idade e qualquer extensão
Queimadura químicaQualquer idade
Lesão por inalaçãoQualquer idade e qualquer extensão da queimadura
Comorbidade préviaProblema médico que possa complicar o cuidado, prolongar a recuperação ou influenciar a mortalidade
Trauma concomitanteQuando a queimadura é o maior risco. Se o trauma for o risco imediato maior, estabilizar em centro de trauma antes de transferir
Criança em serviço sem estruturaHospital sem pessoal qualificado ou equipamento para o caso
Necrólise epidérmica tóxicaTambém encaminhada a centro de tratamento de queimados
Vaga em UTI (critério à parte)SCQ igual ou maior que 20% em menores de 12 anos; igual ou maior que 30% em maiores de 12 anos; suspeita ou diagnóstico de inalação de fumaça em qualquer idade

Pequeno, médio e grande queimado: as duas réguas brasileiras

CategoriaPortaria GM/MS 1.274/2000 (enquadramento SIH-SUS)Projeto Diretrizes AMB/CFM 2008 (clínica)
Pequeno queimado1º e 2º graus com até 10% da área corporal1º grau em qualquer extensão e idade; 2º grau até 5% em menores de 12 anos ou até 10% em maiores de 12 anos
Médio queimado1º e 2º graus entre 10% e 25%; ou 3º grau até 10%; ou queimadura de mão e/ou pé2º grau de 5 a 15% em menores de 12 anos ou de 10 a 20% em maiores de 12; qualquer 2º grau em mão, pé, face, pescoço, axila ou grande articulação; 3º grau até 5% (menores de 12) ou até 10% (maiores de 12), fora de face, mão, períneo e pé
Grande queimado1º e 2º graus acima de 26%; ou 3º grau acima de 10%; ou queimadura de períneo2º grau acima de 15% (menores de 12) ou acima de 20% (maiores de 12); 3º grau acima de 5% (menores de 12) ou acima de 10% (maiores de 12); 2º ou 3º grau em períneo em qualquer idade; 3º grau em mão, pé, face, pescoço ou axila em qualquer idade; queimadura por corrente elétrica
Qualquer extensão que vira grande queimadoLesão inalatória, politrauma, trauma craniano, trauma elétrico, choque, insuficiência renal, cardíaca ou hepática, distúrbios de hemostasia, embolia pulmonar, IAM, quadros infecciosos graves, síndrome compartimental, doenças consuptivasA mesma lista, acrescida de diabetes, fratura óssea em qualquer localização, síndrome do túnel do carpo e qualquer outra afecção que possa complicar a lesão ou o quadro clínico

O primeiro grau não entra na conta da superfície corporal queimada para fins de reposição volêmica. O material da SBQ escreve a fórmula como mililitros por quilo por porcento contado a partir das queimaduras de segundo grau, e os dois formulários do Projeto Diretrizes, regra dos nove e Lund-Browder, têm colunas de registro apenas para 2º e 3º graus.

A regra dos nove pediátrica se autocompensa: a cada ano de vida a cabeça perde 1 ponto percentual e cada um dos quatro segmentos de membro inferior ganha um quarto de ponto, de modo que a soma continua fechando em 100. Por volta dos 9 anos o esquema converge para os 9% do adulto, e o material da SBQ passa a usar a regra do adulto a partir dos 15 anos.

A regra da palma usa a palma DO PACIENTE, incluindo os dedos, e vale aproximadamente 1%. Em criança, usar a mão do examinador superestima grosseiramente a área. A estimativa por palmas serve para lesão pequena ou salpicada, não para calcular reposição de grande queimado.

O Lund-Browder é superior à regra dos nove na criança, porque corrige a proporção corporal por faixa etária no próprio diagrama (0 a 1, 1 a 4, 5 a 9, 10 a 14 e adulto), em queimaduras irregulares, porque permite marcar frações de segmento, e no prontuário e na transferência, porque entrega um mapa em vez de um número solto.

As duas réguas brasileiras têm finalidades distintas: a da portaria classifica o enquadramento da internação no SIH-SUS e por isso fala em queimaduras de 1º e 2º graus somadas; a do Projeto Diretrizes é clínica e separa faixa etária e localização. Repare ainda que a portaria deixa uma faixa descoberta entre 25% e 26%, fruto da redação original do texto.

Lesão inalatória, queimadura elétrica e queimadura de períneo dispensam percentual: cada uma delas, isoladamente, já leva o paciente a grande queimado e a encaminhamento a centro especializado, qualquer que seja a extensão.

Três réguas convivem neste capítulo, e confundi-las é o erro mais caro do tema. A tabela de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados reproduz a lista da American Burn Association — é dela o corte de segundo grau acima de 10% da superfície corporal em qualquer idade. As duas tabelas brasileiras de enquadramento são outra coisa: classificam pequeno, médio e grande queimado, com outros percentuais e outra finalidade. O enunciado entrega qual régua ele quer: quando fala em transferência para centro especializado, é a lista da ABA; quando fala em internação, enquadramento ou SIH-SUS, é a portaria; quando pede classificação clínica de gravidade, é o Projeto Diretrizes.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Taxa inicial de reposição: 4 mL/kg/%SCQ (Parkland) ou 2 mL/kg/%SCQ

4 mL/kg/%SCQ de Ringer lactato (fórmula de Parkland)

Reposição inicial calculada em 4 mL por quilo de peso por porcento de superfície corporal queimada, de Ringer com lactato, com metade do volume nas primeiras 8 horas após a queimadura. É o número que o documento brasileiro de 2008 prescreve nominalmente e é a forma clássica da fórmula de Parkland.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 2008

2 mL/kg/%SCQ como taxa inicial

Recomendação de iniciar a ressuscitação com 2 mL por quilo por porcento de superfície queimada para reduzir o volume total infundido. O documento registra que a própria ABA já havia trocado 4 por 2 mL no manual do ABLS em 2011, por causa do fenômeno de fluid creep, e que a base são dois estudos de força moderada, com volume total em 24 horas de 5,52 contra 6,90 mL/kg/%SCQ a favor da estratégia de 2 mL. O mesmo texto sublinha que a recomendação define apenas a taxa inicial e que a titulação pela resposta do paciente tem de vir em seguida.

American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation, J Burn Care Res, 2023

Faixa de 2 a 4 mL/kg/%SCQ

Posição intermediária que trata Parkland e Brooke modificada como duas pontas de uma mesma faixa: de 2 a 4 mL por quilo por porcento de superfície queimada a partir das queimaduras de segundo grau, nas primeiras 24 horas, metade nas primeiras 8 horas após a queimadura e metade nas 16 horas restantes. A própria diretriz da ABA registra que as práticas vigentes recomendam iniciar cristaloide entre 2 e 4 mL/kg/%SCQ.

Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020; e ABA CPG 2023 ao descrever as práticas vigentes

Na prova

O recorte se identifica pelo vocabulário e pelo cenário. Enunciado que nomeia a fórmula de Parkland está pedindo a definição da fórmula, e ela é 4 mL/kg/%SCQ por definição, não por preferência. Enunciado que fala em taxa inicial, em Brooke modificada, em fluid creep ou em reduzir volume de ressuscitação está no corpo internacional recente, onde o ponto de partida é 2 mL. Cenário de primeiro atendimento em hospital geral ou pré-hospitalar brasileiro tende ao corpo nacional. Repare também nas próprias alternativas: se uma delas oferece 2 mL e outra 4 mL com a mesma divisão 8/16 horas, a questão está testando a atualização; se todas as alternativas usam 4 mL e variam a divisão do tempo, o que está sendo testado é o relógio, não o coeficiente.

Colóide e albumina na ressuscitação inicial

Nenhum colóide nas primeiras 24 horas

Instrução direta e sem exceção: não usar colóides nas primeiras 24 horas pós-queimadura. O mesmo documento reserva albumina humana para a fase seguinte, com critério laboratorial: albumina sérica abaixo de 3 g/dL em criança acima de 10% e adulto acima de 20% de superfície queimada, repondo o necessário para manter o nível igual ou maior que 3 g/dL.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008

Colóide a partir das 18 horas, obrigatório acima de 30% de SCQ

A partir das 18 horas de queimadura pode-se iniciar a infusão de colóide sob a forma de albumina humana, que deve ser utilizada em todos os pacientes com queimaduras iguais ou maiores que 30% de superfície corporal queimada.

Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020

Albumina já nas primeiras 24 horas

Recomendação de considerar albumina nas primeiras 24 horas de ressuscitação para melhorar o débito urinário e reduzir o volume total infundido, com força maior quanto maior a queimadura e menor nas queimaduras pequenas, e também como resgate quando a ressuscitação se deteriora apesar de volumes crescentes de cristaloide. O mesmo documento é explícito quanto ao limite dessa evidência: sobre mortalidade, as metanálises disponíveis são heterogêneas e não mostram efeito, e uma delas chega a apontar tendência de aumento; e sobre o momento ideal de início, antes ou depois de 12 horas, a evidência é de baixa força.

American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation, J Burn Care Res, 2023

Na prova

Aqui a data separa quase tudo, e a distância entre os documentos é de quinze anos. O afastamento brasileiro não é erro de leitura da evidência: colóide é caro, a albumina depende de disponibilidade hospitalar, e o documento nacional de 2008 espelha o consenso da época, em que a introdução precoce de colóide era vista como risco de agravar o edema. Enunciado situado em pronto-socorro geral, com pergunta sobre o que fazer na primeira hora, está no mundo do cristaloide isolado. Enunciado que cita centro de queimados, ressuscitação que não responde, volume acumulado alto ou a sigla ABA está no mundo em que a albumina entra cedo. Um distrator que ofereça albumina como primeira medida de reposição em atendimento inicial denuncia o recorte de quem escreveu a questão.

Alvo de diurese no adulto durante a ressuscitação

0,5 mL/kg/h, ou 30 a 50 mL/h

Controlar a hidratação para obter 0,5 mL/kg/h ou 30 a 50 mL por hora no adulto e 1 mL/kg/h na criança, com observação da diurese a partir da primeira hora e medida horária. Com hematúria ou hemoglobinúria, a meta sobe para 2 mL/kg/h nos menores de 12 anos e 70 a 120 mL/h nos maiores de 12.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008

0,3 a 0,5 mL/kg/h no adulto

Alvo de diurese de 0,3 a 0,5 mL/kg/h no adulto e de 1 mL/kg/h na criança, atribuído nominalmente às diretrizes da ISBI de 2016, acompanhado de frequência cardíaca abaixo de 120 bpm no adulto sem cardiopatia e sem betabloqueio. O próprio texto registra que outras fontes bibliográficas trabalham com 0,5 a 1 mL/kg/h, e justifica o alvo mais baixo dizendo que tanto a hipo quanto a hiper-hidratação pioram o prognóstico.

Sociedade Brasileira de Queimaduras, 2019/2020, citando ISBI Practice Guidelines for Burn Care, Burns, 2016

Na prova

As duas faixas se tocam em 0,5 mL/kg/h, e é esse o número que aparece como padrão nos estudos revisados pela diretriz da ABA de 2023. A diferença tem direção clara: o alvo mais baixo é a resposta ao fluid creep, e vem de documento de centro especializado; o alvo mais alto é o de atendimento inicial, e vem do documento brasileiro de 2008. Enunciado de sala de emergência com adulto de peso conhecido costuma pedir a conta pelo peso; enunciado que apresenta o número absoluto em mililitros por hora está no vocabulário do documento brasileiro. Em criança, não há disputa: 1 mL/kg/h nos três documentos.

Classificação em pequeno, médio e grande queimado no Brasil

Régua administrativa da Portaria GM/MS 1.274/2000

Pequeno queimado é o de 1º e 2º graus com até 10% da área corporal; médio, o de 1º e 2º graus entre 10% e 25%, ou 3º grau até 10%, ou queimadura de mão e/ou pé; grande, o de 1º e 2º graus acima de 26%, ou 3º grau acima de 10%, ou queimadura de períneo. Não separa faixa etária. A finalidade declarada no próprio artigo é o enquadramento nos procedimentos do SIH-SUS.

Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 1.274, de 21 de novembro de 2000, Art. 3º

Régua clínica do Projeto Diretrizes AMB/CFM

Separa menores e maiores de 12 anos e incorpora localização. Pequeno: 1º grau em qualquer extensão, ou 2º grau até 5% abaixo de 12 anos e até 10% acima. Médio: 2º grau de 5 a 15% ou de 10 a 20% conforme a idade, qualquer 2º grau em mão, pé, face, pescoço, axila ou grande articulação, e 3º grau até 5% ou até 10% conforme a idade, fora de face, mão, períneo e pé. Grande: acima desses limites, mais períneo em qualquer grau, 3º grau em áreas nobres e toda queimadura por corrente elétrica.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 2008

Na prova

As duas listas de condições que transformam qualquer extensão em grande queimado são praticamente idênticas, e é nelas que a maioria das questões mora: lesão inalatória, politrauma, trauma craniano, trauma elétrico, choque, insuficiências orgânicas e síndrome compartimental. A distinção aparece quando a questão traz percentual com faixa etária: se o enunciado destaca a idade da criança, o recorte é o do documento clínico; se traz números redondos sem idade, ou se fala em internação, AIH, procedimento ou enquadramento no SUS, o recorte é o da portaria. Vocabulário também denuncia: Centro de Referência em Assistência a Queimados de Alta Complexidade e Centro Intermediário são termos que só existem na portaria.

06

Caso resolvido

Homem de 34 anos, 80 kg, resgatado de um galpão em chamas há 1 hora e 30 minutos. Chega falando, com voz rouca, tossindo escarro escurecido. Sobrancelhas e vibrissas nasais chamuscadas, fuligem em orofaringe. Frequência cardíaca 112 bpm, pressão arterial 118 por 74 mmHg, frequência respiratória 24 irpm, saturação de pulso 98% em ar ambiente, Glasgow 15. Ao exame: eritema difuso em face, sem bolhas; tronco anterior com áreas de leito rosado e úmido com bolhas e áreas pálidas e secas; membro superior direito com escara branca nacarada, endurecida, circunferencial do braço ao punho, indolor à picada, com mão fria e enchimento capilar lentificado. Alianças no dedo anular direito. Vacinação antitetânica com três doses, a última há 8 anos.
achado
Rouquidão, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas, fuligem em orofaringe e história de ambiente fechado. É lesão inalatória sintomática, e o material da SBQ trata esse conjunto como indicação de intubação imediata, não de observação.
achado
Saturação de pulso de 98% não tranquiliza: o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Incêndio em ambiente fechado indica oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, e não se aguarda dosagem para começar.
cálculo
Superfície corporal queimada: tronco anterior 18% (2º grau superficial e profundo) mais membro superior direito 9% (3º grau) igual a 27%. O eritema de face é 1º grau e NÃO entra na conta. Frequência cardíaca de 112 bpm está dentro do esperado para queimado, pela dor e pelo estresse.
classificação
Grande queimado por três critérios independentes: 2º grau acima de 20% em maior de 12 anos, 3º grau acima de 10%, e lesão inalatória, que sozinha reclassifica qualquer extensão. Também preenche critério de UTI: acima de 30% não, mas a suspeita de inalação de fumaça é critério isolado em qualquer idade.
conduta
Intubação orotraqueal imediata, antes que o edema supraglótico feche a via aérea, com ventilação protetora. Dois acessos venosos calibrosos em cintura escapular, fora das áreas queimadas. Monitor cardíaco e oximetria contínua.
conduta
Pela recomendação contemporânea para o adulto, a taxa inicial é 2 × 80 kg × 27% = 4.320 mL de Ringer lactato nas primeiras 24 horas. Metade, 2.160 mL, deve chegar até completar oito horas da queimadura; como já se passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 332 mL/h. Os outros 2.160 mL correm nas 16 horas seguintes, cerca de 135 mL/h. Se a questão pedir nominalmente a fórmula clássica de Parkland, o coeficiente é 4 e os volumes dobram. Em ambos os casos, a diurese e a perfusão corrigem a estimativa.
conduta
Sonda vesical, porque acima de 25% de SCQ ela está indicada no adulto e porque é a diurese que titula a reposição. Alvo de 0,5 a 1 mL/kg/h, isto é, 40 a 80 mL por hora neste paciente, com medida horária e descrição das características da urina. Sonda nasogástrica pelo mesmo critério.
conduta
Retirar a aliança imediatamente, pelo efeito torniquete do edema. Escara circunferencial de espessura total no membro superior direito com mão fria e enchimento capilar lentificado é indicação de escarotomia, e ela é feita ANTES da transferência. Persistindo parestesia, dor contínua, enrijecimento ou oximetria abaixo de 90% no segmento, fasciotomia.
conduta
Analgesia endovenosa em dose suficiente para tirar a dor, de preferência opioide. Profilaxia antitetânica: queimadura é ferimento de alto risco, e com três doses prévias e a última há 8 anos a conduta é reforço da vacina, sem imunoglobulina. Nenhum antibiótico profilático sistêmico, e nenhum corticoide para a lesão inalatória.
conduta
Curativo: limpeza com água corrente e sabão neutro, cobertura estéril, sem gelo e sem água gelada. Transferência a Centro de Tratamento de Queimados por múltiplos critérios da lista (2º grau acima de 10%, 3º grau, lesão inalatória, acometimento de face e pescoço), após estabilização, com relatório completo, regulação e transporte médico em ambulância de suporte avançado com possibilidade de assistência ventilatória.
07

Agora feche você

Menina de 4 anos, 16 kg, trazida pela avó 1 hora após ter sido banhada com água muito quente. Ao exame: bolhas e leito rosado úmido cobrindo todo o tronco anterior e toda a coxa direita; eritema sem bolhas em ambos os antebraços. Ativa, chorosa, com dor intensa às trocas de posição. Frequência cardíaca 138 bpm, tempo de enchimento capilar 2 segundos, boa perfusão distal, sem estridor, sem fuligem, sem rouquidão. A avó relata que a mãe estava dando banho quando a torneira de água quente abriu sozinha; as bordas das lesões são nítidas e não há marcas de respingo em torno delas. Vacinação em dia para a idade.
achado
Bolhas com leito rosado, úmido e brilhante, muito doloroso: 2º grau superficial. O eritema sem bolha dos antebraços é 1º grau e não entra na conta da superfície corporal queimada.
cálculo
Na regra dos nove pediátrica, com 4 anos: tronco anterior 18% (não muda com a idade) mais coxa direita, que vale 7% mais um quarto da idade, ou seja, 7 mais 1, igual a 8%. Total de 26% de superfície corporal queimada de 2º grau.
achado
Sem rouquidão, sem estridor, sem fuligem e sem escarro carbonáceo, e o mecanismo é escaldadura por líquido, não incêndio em ambiente fechado: não há elementos de lesão inalatória, e a via aérea não é a prioridade aqui.
classificação
Grande queimado: 2º grau acima de 15% em menor de 12 anos. Também preenche critério de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados (2º grau acima de 10% em qualquer idade) e critério de UTI (SCQ igual ou maior que 20% em menores de 12 anos).
achado
Bordas nítidas, ausência de marcas de respingo em torno das lesões, distribuição em áreas cobertas, história contada por terceiro que não presenciou e mecanismo pouco plausível. O Projeto Diretrizes lista pesquisar maus-tratos na criança como item do atendimento inicial, e este é o cenário exato em que ele se aplica.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Somar o 1º grau na superfície corporal queimada É o erro que mais aparece porque é o mais intuitivo: a lesão dói, está vermelha e é grande. Mas o eritema sem bolha não perde plasma e não gera necessidade de reposição. Os formulários brasileiros de regra dos nove e de Lund-Browder têm colunas apenas para 2º e 3º graus, e a fórmula da SBQ é escrita como porcento contado a partir do 2º grau. Somar face e dorso eritematosos pode dobrar o volume calculado e produzir edema pulmonar iatrogênico.
  2. 2Contar as 8 horas a partir da chegada ao hospital A metade do volume vai nas primeiras 8 horas APÓS A QUEIMADURA. Quem chega três horas depois tem cinco horas para receber a mesma metade, e a velocidade sobe proporcionalmente. Enunciados de prova sempre informam o horário do acidente e o da chegada justamente para testar isso — se o tempo aparece, ele é parte da conta.
  3. 3Tratar a fórmula como meta em vez de ponto de partida A fórmula estima apenas a velocidade inicial. No adulto, a ABA recomenda partir de 2 mL/kg/%SCQ para reduzir sobrecarga; o coeficiente clássico de Parkland é 4 quando a fórmula é solicitada pelo nome. Depois da primeira conta, diurese e perfusão governam os ajustes. Correr cegamente qualquer volume calculado produz fluid creep.
  4. 4Esperar a via aérea piorar para intubar O paciente com lesão inalatória chega falando, e é exatamente por isso que ele engana. O edema supraglótico progride e a própria ressuscitação volêmica o alimenta. Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, fuligem em orofaringe, vibrissas chamuscadas ou queimadura de face e boca são indicação de intubação imediata. Adiar troca uma laringoscopia possível por uma via aérea cirúrgica em pescoço queimado.
  5. 5Confiar na saturação de pulso para afastar intoxicação por monóxido de carbono O oxímetro lê carboxi-hemoglobina como se fosse oxi-hemoglobina, e a saturação sai normal em paciente gravemente intoxicado. Vítima de ambiente fechado com cefaleia, confusão, tontura ou pele em vermelho-cereja recebe oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, sem esperar exame.
  6. 6Achar que queimadura elétrica pequena é queimadura pequena A regra dos nove mede pele, e a lesão elétrica está no músculo entre os pontos de entrada e saída. Dois pontos de dois centímetros podem esconder rabdomiólise maciça. Toda queimadura por corrente elétrica é grande queimado independentemente da extensão, exige monitorização cardíaca, e urina escura significa mioglobinúria: a meta de diurese sobe para 2 mL/kg/h abaixo de 12 anos e 70 a 120 mL/h acima de 12, com 12,5 g de manitol por litro de Ringer lactato.
  7. 7Prescrever antibiótico profilático sistêmico O Projeto Diretrizes escreve a proibição de forma direta e graduada em evidência: não se deve utilizar antibiótico profilático. A escara é avascular e o antibiótico sistêmico não a alcança; a colonização é inevitável e não é infecção; e o que se produz é seleção de resistência num paciente que vai precisar de antibiótico de verdade semanas depois. O antibiótico entra na suspeita ou no diagnóstico de infecção, após a fase aguda. Na lesão inalatória, nem antibiótico nem corticoide.
  8. 8Gelo na queimadura e neutralizante na queimadura química Água gelada e gelo causam hipotermia, aprofundam a lesão por conversão adicional e podem levar a coagulopatia, arritmia e morte. Na queimadura química, o agente neutralizante produz reação exotérmica e agrava a queimadura: irriga-se com água corrente de baixo fluxo por 20 a 30 minutos, retirando antes o pó a seco. E tudo o que o paciente aplicou em casa sai antes do curativo.
  9. 9Transferir sem escarotomia e sem tirar os adornos A escarotomia é medida a ser realizada imediatamente assim que identificada e antes do encaminhamento ao centro mais complexo. Escara circunferencial de tórax não incisada mata na ambulância por insuficiência ventilatória; escara circunferencial de membro custa o membro. E antes de qualquer escara, o efeito torniquete já começa nos anéis, pulseiras e fraldas, que devem ser removidos na exposição.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Presença de bolhas (flictenas), base úmida e rósea, dor intensa e branqueamento preservado caracterizam queimadura de 2º grau superficial (espessura parcial superficial). O 1º grau é eritema seco sem bolhas (ex.: eritema solar), doloroso mas sem flictenas. O 3º grau é indolor, seco, esbranquiçado/marrom/carbonizado, sem branqueamento. O 4º grau atinge estruturas profundas (músculo/osso). A 2º grau profunda é mais pálida, menos dolorosa e com branqueamento lentificado/ausente.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a profundidade e a regra dos nove. Depois recupere os números: primeiro grau não entra na SCQ; a recomendação atual para ressuscitação inicial do adulto parte de 2 mL/kg/%SCQ, enquanto Parkland clássico usa 4 quando pedido nominalmente; metade chega até a oitava hora contada da queimadura; diurese-alvo é cerca de 0,5 mL/kg/h no adulto e 1 mL/kg/h na criança. Na pediatria, use fórmula específica e acrescente manutenção quando indicada.

em 30 dias

Em três vinhetas, calcule a SCQ excluindo primeiro grau, escolha conscientemente entre a recomendação atual de 2 mL/kg/%SCQ no adulto e o Parkland clássico de 4 mL/kg/%SCQ quando ele for explicitamente solicitado, desconte o tempo desde a queimadura e encontre a taxa por hora. Em criança, use o protocolo pediátrico e lembre da manutenção. Depois ajuste cada taxa a partir da diurese, percorra os critérios de encaminhamento e revise lesão inalatória, queimadura circunferencial e lesão elétrica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 41 anos chega ao pronto-socorro trazido pelo SAMU após explosão de botijão em cozinha fechada. Está consciente, com voz rouca, fuligem ao redor da boca, e apresenta lesões em face, tronco anterior e ambos os membros superiores. Faça a avaliação inicial, decida a via aérea, calcule a superfície corporal queimada e a reposição volêmica, procure indicação de escarotomia e defina o destino do paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de… – Queimaduras: extensão e profundidade — Preparatório para provas | OsceLabs