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Queimaduras: extensão e profundidade
Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade
A prova cobra duas contas e uma lista: quanto queimou, quão fundo queimou e quem precisa ir para o Centro de Tratamento de Queimados. O queimado perde plasma, não sangue, e é essa diferença que governa toda a reposição.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 32 anos sofre queimadura ao derramar líquido fervente sobre o antebraço. À avaliação, a área acometida está eritematosa, com formação de bolhas, úmida, dolorosa e com preenchimento capilar preservado (branqueia à digitopressão). Segundo a classificação de profundidade das queimaduras, esta lesão é classificada como:
Como esse tema cai
O queimado grave não é um politraumatizado com a pele vermelha. O ABCDE e o choque hemorrágico já foram tratados nos capítulos de trauma desta coleção, e o que muda aqui é a fisiologia: o queimado não perde sangue, perde plasma. A queimadura extensa abre a barreira microvascular no leito queimado e também em tecidos que não foram tocados pelo calor, e o líquido que sai do vaso vai para o interstício. Por isso o choque do queimado se instala em horas, e não em minutos, e por isso o soro aqui é tratamento, e não ponte para o sangue.
Essa diferença tem consequência prática imediata: no hemorrágico, correr volume desloca o coágulo e mata; no queimado, deixar de correr volume nas primeiras horas produz insuficiência renal e morte. O erro simétrico também existe e tem nome próprio na literatura, fluid creep, que é a ressuscitação que ultrapassa o previsto e cobra o preço em edema, síndrome compartimental abdominal e lesão pulmonar. O capítulo inteiro vive entre esses dois erros.
A prova cobra este tema em quatro perguntas que praticamente não mudam de ano para ano: qual a profundidade, quanto por cento queimou, quanto de Ringer lactato e quem vai para o Centro de Tratamento de Queimados. Todas as quatro têm resposta numérica, e três delas dependem de uma conta que o aluno precisa saber fazer de cabeça em trinta segundos.
Dois avisos que mudam alternativa. O volume inicial que se ensina como padrão está em disputa: a fórmula de Parkland usa 4 mL/kg por porcento de superfície queimada, e a American Burn Association passou a recomendar começar por 2 mL. E o Brasil tem duas réguas diferentes para as palavras pequeno, médio e grande queimado, com números que não coincidem: uma é da portaria do Ministério da Saúde, outra é do Projeto Diretrizes. O capítulo marca as duas e diz como reconhecer qual delas a questão está usando.
O que muda decisão
Por que o queimado perde plasma, e por que o relógio começa na queimadura
A partir de cerca de 20% de superfície corporal queimada no adulto, a resposta deixa de ser local e vira sistêmica. A diretriz da American Burn Association descreve a combinação: depleção do volume intravascular, débito cardíaco deprimido e resistência vascular sistêmica elevada, os três juntos comprometendo a perfusão de órgãos e tecidos. O motor disso é o aumento da permeabilidade microvascular, que a própria diretriz faz questão de dizer que ocorre não só na ferida, mas também em tecidos e órgãos não queimados. O que sai do vaso é plasma, com água, eletrólitos e proteína, e o que fica no lugar dele é edema.
Daí vem o paradoxo que organiza todo o tratamento: repor o volume plasmático contraído com fluido endovenoso necessariamente piora o edema. A ressuscitação é indispensável e salva a vida, e a própria intervenção causa dano. Ressuscitar de menos leva a insuficiência de órgãos e morte; ressuscitar demais leva a edema pulmonar, síndrome compartimental de abdome, de membros e de órbita. Não existe posição confortável nessa gangorra, e é por isso que a fórmula é apenas um ponto de partida e a titulação é que faz o trabalho.
O segundo conceito que a prova esconde é o relógio. A contagem das primeiras 8 horas de reposição começa no momento da queimadura, não na chegada ao hospital. O Projeto Diretrizes escreve com todas as letras que metade do volume calculado deve ser infundida nas primeiras 8 horas após a queimadura, e o material da SBQ repete a mesma referência temporal. A consequência é aritmética e cai em prova toda hora: o paciente que chega duas horas depois do acidente tem seis horas, e não oito, para receber a mesma metade do volume. A velocidade de infusão sobe na proporção do tempo perdido no transporte.
Um detalhe de exame físico fecha a seção e evita erro grosseiro. O material da SBQ registra que, pelo estresse da lesão térmica e pela dor, uma frequência cardíaca de 100 a 120 batimentos por minuto é considerada dentro dos limites da normalidade no queimado, e adota como alvo de ressuscitação manter a frequência abaixo de 120 no paciente que não é cardiopata nem betabloqueado. Taquicardia leve no queimado, portanto, não é sinônimo de hipovolemia descompensada. E o inverso também vale como alerta: alteração do nível de consciência em queimado não se explica pela queimadura. Procure traumatismo cranioencefálico, hipóxia, drogas ou intoxicação por monóxido de carbono.

Profundidade: o que se vê, o que dói e o que cicatriza sozinho
O Projeto Diretrizes ancora a classificação em três graus e em três sinais, e essa é a espinha que a prova cobra literalmente: primeiro grau é lesão apenas da epiderme e o sinal é eritema; segundo grau atinge epiderme e parte da derme e o sinal é eritema mais bolha; terceiro grau atinge epiderme e derme por inteiro e o sinal é a coloração branca nacarada. O mesmo documento traduz isso para a nomenclatura de espessura, que é a que aparece nas questões de banca internacionalizada: espessura parcial superficial abrange o primeiro grau e o segundo grau superficial, espessura parcial profunda é o segundo grau profundo, e espessura total é o terceiro grau.
A subdivisão do segundo grau em superficial e profundo é a parte que decide conduta, e por isso é a que mais cai. O critério útil à beira do leito é a derme reticular e o que ela contém. No segundo grau superficial, a derme papilar está lesada mas a derme profunda, com folículos pilosos e glândulas, está preservada; o leito é rosado, úmido e brilhante, o enchimento capilar volta rápido quando se comprime, a dor é intensa e desproporcional ao que se vê, e a lesão reepiteliza sozinha a partir dos anexos em até cerca de três semanas, sem enxerto e sem cicatriz relevante. No segundo grau profundo, os anexos foram destruídos; o leito fica pálido, moteado de branco e vermelho, seco, o enchimento capilar é lento ou ausente, a sensibilidade dolorosa está reduzida porque as terminações nervosas superficiais foram queimadas, e a lesão passa das três semanas, cicatriza com retração e costuma precisar de enxerto.
O terceiro grau é o mais fácil de reconhecer e o que engana quem procura dor. A escara é branca nacarada, ou marrom, ou cor de couro, seca, endurecida e sem elasticidade; o enchimento capilar não existe porque o plexo dérmico foi destruído; e ela é indolor à picada, porque não sobrou terminação nervosa na área. Um paciente que não sente a área queimada não está melhor do que o que grita de dor: está pior. E, como não há anexo nenhum de onde reepitelizar, o terceiro grau não fecha por segunda intenção em área de alguma extensão, ele fecha por enxerto.
Duas armadilhas de raciocínio fecham a seção. A primeira é que a queimadura não é estática: uma lesão de segundo grau superficial pode aprofundar nas primeiras 48 horas se houver hipoperfusão, infecção ou hipotermia, e o material da SBQ é explícito ao proibir gelo e água gelada justamente porque provocam conversão adicional da queimadura. Reavaliar a profundidade no dia seguinte não é insegurança, é rotina. A segunda é que o mesmo paciente costuma ter os três graus lado a lado, e a classificação vale por área, não por paciente: escreve-se o pior grau de cada segmento no diagrama.
Contar a superfície: regra dos nove, palma da mão e Lund-Browder
A regra dos nove existe porque, no pronto atendimento, é preciso um número em trinta segundos. O Projeto Diretrizes anota isso na própria tabela, ao dizer que a regra dos nove serve para calcular a superfície corporal queimada apenas no pronto atendimento. No adulto, os múltiplos de nove são: cabeça e pescoço 9%, cada membro superior 9%, tronco anterior 18%, tronco posterior 18%, cada coxa 9%, cada perna com o pé 9%, e a genitália 1%, que é o resto que fecha os cem.
Na criança a regra muda, e a razão é anatômica, não convencional: a criança pequena tem a cabeça proporcionalmente muito maior e os membros inferiores proporcionalmente menores do que o adulto. A tabela brasileira resolve isso com duas correções por idade. Cabeça e pescoço valem 18% menos a idade em anos. Cada coxa e cada perna com pé valem 7% mais um quarto da idade em anos. Tronco e membros superiores não mudam. A conta é elegante porque se autocompensa: a cada ano de vida a cabeça perde um ponto percentual e os quatro segmentos de membro inferior ganham um quarto de ponto cada, de modo que a soma continua em cem, e por volta dos nove anos o esquema já converge para os nove por cento do adulto. O material da SBQ trabalha com a regra dos nove do adulto a partir dos quinze anos, e com a versão adaptada ou o Lund-Browder abaixo disso.
Para queimadura pequena, salpicada ou de contorno irregular, contar por segmentos não funciona, e aí entra a regra da palma da mão. O parâmetro é a palma do próprio paciente, incluindo os dedos, e ela equivale a aproximadamente 1% da superfície corporal. Duas cautelas que fazem diferença: a palma é a do paciente, não a do examinador, o que importa muito em criança; e a estimativa por palmas é grosseira e se degrada rapidamente acima de dez ou quinze por cento, servindo para o pequeno queimado e não para calcular a reposição do grande.
O esquema de Lund-Browder é o método superior, e vale saber exatamente em quê. Ele não é uma tabela única: é um diagrama corporal segmentado em muito mais partes, com uma coluna de valores para cada faixa etária, que no formulário reproduzido pelo Projeto Diretrizes são zero a um ano, um a quatro, cinco a nove, dez a catorze e adulto. Isso o torna superior em três situações: na criança, porque corrige a proporção por faixa etária em vez de por fórmula; nas queimaduras irregulares, porque permite marcar frações de segmento; e no registro em prontuário e na transferência, porque é um mapa e não um número solto. A regra dos nove é para a primeira hora; o Lund-Browder é o que fica no prontuário.
Falta o número que mais rende ponto e que mais se perde por desatenção: a queimadura de primeiro grau não entra na conta da superfície corporal queimada. O material da SBQ escreve a fórmula de reposição como mililitros por quilo por porcento de superfície corporal queimada contada a partir das queimaduras de segundo grau. E os dois formulários reproduzidos no Projeto Diretrizes, tanto o da regra dos nove quanto o diagrama de Lund-Browder, têm colunas de registro apenas para 2º Grau e 3º Grau. O eritema solar que cobre o dorso inteiro é dolorido, é queimadura, e vale zero por cento na conta do soro. Somar o primeiro grau é o caminho mais rápido para hiper-hidratar um paciente.
Reposição inicial: a fórmula abre, a diurese corrige
A fórmula clássica de Parkland é 4 mL de Ringer lactato por quilo por porcentagem de superfície corporal queimada nas primeiras 24 horas. Ela continua importante quando o enunciado pede nominalmente Parkland. Para o adulto queimado, porém, a diretriz contemporânea da American Burn Association recomenda iniciar com 2 mL/kg/%SCQ, estratégia de menor volume destinada a reduzir fluid creep.
Quem recebe reposição venosa formal depende do protocolo e da extensão; em adultos, queimaduras próximas ou superiores a 20% de SCQ costumam exigir ressuscitação protocolizada. Na criança, usa-se fórmula pediátrica do serviço — frequentemente 3 mL/kg/%SCQ — somada à manutenção com glicose quando indicada. Primeiro grau não entra na conta.
Adulto de 80 kg com 27% de SCQ: pela taxa inicial atual de 2 mL/kg/%SCQ, estima-se 4.320 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 2.160 mL, deve ser administrada até completar oito horas da queimadura; se já passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 332 mL/h. A metade restante corre nas 16 horas seguintes, cerca de 135 mL/h. Pela fórmula clássica de Parkland, os números dobrariam.
Nenhuma fórmula é uma prescrição fechada. A infusão deve ser ajustada hora a hora pela perfusão e principalmente pela diurese: cerca de 0,5 mL/kg/h no adulto e 1 mL/kg/h na criança. Débito baixo pede reavaliação de volume, profundidade, atraso, função cardíaca e outras causas; débito excessivo pede redução para evitar edema e síndrome compartimental.
O relógio começa no momento da queimadura, não na chegada. Sonda vesical é usada quando a extensão e a gravidade exigem controle horário. Volumes reais ou projetados muito acima do esperado devem levantar suspeita de fluid creep e motivar revisão da estratégia.
Lesão inalatória: a via aérea que ainda está pérvia e vai fechar
A lesão de via aérea no queimado não é um problema respiratório, é um problema de tempo. O material da SBQ separa dois mecanismos: a lesão supraglótica, que resulta de dano térmico direto e produz edema, e a lesão subglótica, que atinge o parênquima pulmonar por gases tóxicos e fuligem. A supraglótica é a que mata cedo, e ela evolui. O paciente que chega falando, com a via aérea pérvia e saturando bem, pode estar a uma hora de uma glote fechada, e o edema não é só do calor: a própria ressuscitação volêmica que ele vai receber piora esse edema.
Os sinais que denunciam a lesão inalatória, reunidos do material da SBQ, são estes: história de incêndio em ambiente fechado ou exposição a fumaça; queimadura de face, boca ou nariz; pelos faciais chamuscados, incluindo supercílios, cílios e vibrissas; fuligem dentro ou ao redor da boca e nas narinas; escarro carbonáceo; rouquidão; estridor laríngeo; sibilos; dispneia; aumento do trabalho respiratório; e incapacidade de lidar com as próprias secreções. O documento é direto sobre o que fazer com eles: estes sinais indicam intubação imediata, e a intubação precoce está indicada em paciente com lesão inalatória sintomática ou com qualquer lesão térmica de face, boca ou orofaringe que ameace a permeabilidade da via aérea.
A razão de a via aérea definitiva ser precoce é mecânica. Enquanto há edema em formação, a laringoscopia ainda é possível; depois que o edema se instala, a anatomia desaparece, a intubação falha e o que resta é via aérea cirúrgica em um pescoço frequentemente queimado e edemaciado. Não existe vantagem em esperar a piora para confirmar o diagnóstico. Enquanto se observa o paciente de menor risco, o material da SBQ manda monitorização contínua, cabeceira elevada de 30 a 45 graus, umidificação do ar inspirado e oxigenoterapia, com ventilação protetora se a intubação ocorrer. E registra o que não entra: corticoide e antibiótico não estão indicados na lesão inalatória.
O monóxido de carbono é o companheiro obrigatório da lesão inalatória e tem armadilha própria. Cefaleia, náusea, tontura, visão turva, sonolência, desorientação, torpor, convulsão e coma são os sinais, e o material da SBQ lembra a pele em aspecto vermelho-cereja associada à confusão mental em vítima de ambiente fechado. A armadilha é o oxímetro: o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, de modo que a saturação de pulso aparece normal em um paciente gravemente intoxicado. A conduta é oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, e a decisão não espera dosagem. Por fim, um detalhe de classificação que a prova adora: lesão inalatória em queimadura de qualquer extensão já reclassifica o paciente como grande queimado, tanto pela portaria do Ministério da Saúde quanto pelo Projeto Diretrizes, e é critério isolado de encaminhamento a centro especializado e de vaga em UTI.
Queimadura circunferencial e escarotomia: o torniquete que o próprio paciente veste
A escara de espessura total é rígida e não estica. Enquanto isso, embaixo dela o edema da ressuscitação cresce hora a hora. O resultado é um garrote biológico: a pressão dentro do compartimento sobe até ultrapassar a pressão de perfusão, e o segmento distal isquemia. Nada disso depende da extensão total da queimadura, e é por isso que uma queimadura de 8% pode exigir uma incisão de emergência.
No tórax e no pescoço, a queimadura circunferencial não produz isquemia, produz insuficiência ventilatória. O material da SBQ manda, na avaliação de B, atentar para síndrome compartimental nas queimaduras circulares de tórax e pescoço e indicar escarotomia de emergência quando necessário. A pista clínica é uma dificuldade de ventilar que não se explica pelo pulmão: expansibilidade torácica reduzida, taquipneia crescente e, no paciente intubado, pressões de via aérea que sobem sem alteração da ausculta. A técnica descrita é a de incisões que atingem o músculo ao longo de toda a região da linha axilar anterior, em linhas paralelas bilateralmente.
Nos membros, a avaliação circulatória do queimado exige checar a perfusão de todas as extremidades, com atenção especial às queimadas circunferencialmente. A escarotomia está indicada nas queimaduras circulares de espessura total dos membros. E há um passo seguinte que a prova cobra como pergunta separada: a escarotomia pode ser insuficiente, porque o edema também comprime dentro da fáscia. O material da SBQ lista os sinais que indicam fasciotomia após a escarotomia: parestesia, dor contínua, hipoestesia e enrijecimento da região, associados a oximetria de pulso abaixo de 90% no segmento, e registra que isso acontece principalmente nas queimaduras elétricas de alta tensão.
Duas regras de sequência valem a pena decorar. Primeira: a escarotomia é medida a ser realizada imediatamente assim que identificada e antes do encaminhamento do paciente ao centro mais complexo. Mandar para a ambulância um tórax circunferencial não incisado é mandar o paciente morrer no caminho. Segunda: antes de qualquer escara existir, o efeito torniquete já começa pelos adornos. O material da SBQ manda remover fraldas, joias, lentes de contato e outros acessórios exatamente para evitar o efeito de torniquete produzido pelo edema. Anel em dedo de mão queimada é amputação em algumas horas.

Elétrica e química: onde as regras gerais deixam de valer
A queimadura elétrica é a que mais engana, e a razão é geométrica. A corrente entra por um ponto, atravessa o corpo pelo trajeto de menor resistência, que são nervos, vasos e músculo, e sai por outro ponto. O que se vê na pele são duas lesões pequenas, de aspecto banal; o que aconteceu entre elas é destruição muscular profunda, ao longo de todo o trajeto. Por isso a superfície corporal queimada calculada pela regra dos nove subestima grosseiramente a gravidade da lesão elétrica, e por isso tanto a portaria do Ministério da Saúde quanto o Projeto Diretrizes classificam a queimadura por corrente elétrica como grande queimado independentemente da extensão visível.
A consequência renal é o que a prova cobra com número. A destruição muscular libera mioglobina, que precipita nos túbulos e produz necrose tubular aguda; clinicamente, a urina vem escura, tinta de vinho ou de coca-cola. O Projeto Diretrizes é preciso na conduta: havendo hematúria ou hemoglobinúria, deve-se estimular a diurese para grandes volumes, que ele quantifica em 2 mL/kg/h nos menores de 12 anos e 70 a 120 mL por hora nos maiores de 12 anos, inclusive com uso de diurético osmótico, e nos casos de queimadura elétrica manda infundir 12,5 gramas de manitol para cada litro de Ringer lactato infundido. Repare que essas metas são o dobro ou o triplo do alvo habitual de diurese: na mioglobinúria, urinar pouco é justamente o que se quer evitar.
Mais três coisas mudam na elétrica. Ela exige monitorização cardíaca contínua, porque a corrente que atravessa o tórax produz arritmia. Ela é a situação em que a fasciotomia é mais frequente, e o material da SBQ diz isso ao apontar a queimadura elétrica de alta tensão como o cenário principal de síndrome compartimental por limitação da fáscia. E ela vem com trauma associado com frequência incomum, por queda ou por contratura muscular violenta, o que faz da avaliação da coluna cervical e do exame secundário completo uma obrigação, não uma formalidade.
Na queimadura química, o agente continua queimando enquanto estiver na pele, e o tempo de contato é a variável que se pode alterar. O Projeto Diretrizes manda irrigar abundantemente com água corrente de baixo fluxo, por pelo menos 20 a 30 minutos, retirando antes o excesso do agente em pó a seco, se for o caso. O fluxo baixo não é detalhe: jato forte espalha o agente para pele sã. Álcali costuma exigir irrigação mais prolongada que ácido, porque produz necrose de liquefação e continua penetrando em profundidade, enquanto o ácido produz necrose de coagulação que tende a limitar a própria penetração.
E há a proibição explícita, que é resposta pronta de questão: não aplicar agentes neutralizantes, porque a reação é exotérmica e pode agravar a queimadura. Tentar neutralizar um ácido com base é adicionar calor a um tecido que já está queimando. Dois cuidados particulares completam: agentes aderentes como piche devem ser resfriados com água corrente sem tentativa de remoção imediata, e a córnea com suspeita de queimadura deve ser corada com fluoresceína, com a ressalva de que não se oclui o olho quando o agente lesivo é álcali.
Analgesia, tétano, antibiótico e o curativo: o que se faz e o que não se põe
Analgesia no queimado é via endovenosa, e o motivo é farmacocinético. Com vasoconstrição e edema, a absorção subcutânea e intramuscular é errática, e o material da SBQ chega a chamar as outras vias de ineficazes, indicando opioides isolados ou associados. O Projeto Diretrizes formula a meta sem meio-termo: analgesia com o medicamento e a dose necessários para tirar a dor do paciente, podendo-se usar não narcóticos e narcóticos venosos de ação imediata. A ressalva é com anti-inflamatório não esteroide, que a SBQ manda usar com muito critério pelo risco de lesão aguda da mucosa gástrica com hemorragia digestiva e de lesão renal em paciente que já está hipoperfundido.
A profilaxia antitetânica é obrigatória e tem uma particularidade que rende ponto: no Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, a queimadura é classificada como ferimento de alto risco para tétano, ao lado de ferimentos profundos ou sujos, feridas puntiformes, mordeduras, esmagamento e fraturas expostas. A conduta segue a situação vacinal. História vacinal incerta ou menos de três doses em ferimento de alto risco: vacina mais imunoglobulina humana antitetânica, 250 UI por via intramuscular, ou soro antitetânico heterólogo 5.000 UI se a imunoglobulina não estiver disponível, aplicados em sítio diferente do da vacina. Três ou mais doses com a última entre 5 e 10 anos e ferimento de alto risco: reforço da vacina, sem imunoglobulina. Três ou mais doses com a última há mais de 10 anos: reforço, com imunoglobulina reservada a situações especiais. Três ou mais doses com a última há menos de 5 anos: nada.
Antibiótico profilático sistêmico não se faz, e essa é uma das poucas recomendações do Projeto Diretrizes escrita como proibição direta e graduada em evidência B, C e D: não se deve utilizar antibiótico profilático. A razão é anatômica antes de ser microbiológica. A escara é tecido desvitalizado e sem circulação, de modo que o antibiótico administrado por via sistêmica simplesmente não chega até ela; a colonização da ferida é inevitável e não é o mesmo que infecção; e o que a profilaxia produz de fato é seleção de flora resistente e candidíase, num paciente que vai passar semanas internado e vai precisar de antibiótico de verdade mais tarde. O mesmo documento define quando o antibiótico entra: após a fase aguda de ressuscitação, diante de temperatura acima de 39 graus, avaliados o aspecto da lesão e os exames, na suspeita ou no diagnóstico de infecção. E o material da SBQ acrescenta a mesma proibição para a lesão inalatória, onde nem antibiótico nem corticoide estão indicados.
O curativo inicial tem uma função modesta e uma armadilha grande. A função é proteger, e o material da SBQ é explícito ao dizer que o curativo inicial não deve ser motivo para retardar a remoção do paciente, bastando campo estéril e cobertura térmica para curtas distâncias. A sequência do Projeto Diretrizes é: parar o processo da queimadura, lavar com água corrente até a dor passar, proteger com tecido seco, estéril ou limpo; depois, remoção de contaminantes ou medicamentos caseiros, limpeza com sabão neutro ou glicerinado e lavagem abundante com água corrente, e só então o tópico de escolha seguido de curativo estéril. A preferência é por curativo oclusivo, com duas exceções nomeadas, orelha e períneo, que ficam por exposição, a orelha ainda com cuidado de evitar pressão excessiva pelo risco de condrite.
A lista do que não se põe é curta e cobrada: não se aplica gelo nem água gelada, porque causam hipotermia, aprofundam a queimadura por conversão adicional e podem levar a coagulopatia, arritmia e morte; não se aplica agente neutralizante na queimadura química; e tudo o que o paciente aplicou em casa sai antes do curativo, porque o passo é literalmente remoção de contaminantes ou medicamentos caseiros. Vale registrar o que os documentos brasileiros deliberadamente não padronizam: nem o Projeto Diretrizes nem o material da SBQ nomeiam um agente tópico único de escolha para o curativo inicial. O primeiro fala em tópico de escolha de acordo com a rotina do serviço; o segundo diz que os curativos podem ser fechados ou abertos e devem ser feitos conforme a experiência e a disponibilidade de cada serviço. Numa questão, alternativa que exige um tópico específico como padrão nacional está afirmando mais do que os documentos afirmam.
Duas medidas de suporte fecham a internação e aparecem em enunciado de conduta completa. Dieta precoce, oral ou por sonda, porque previne lesão de mucosa digestiva e translocação bacteriana, com protetor gástrico de rotina e a lembrança de que a partir de 30% de superfície queimada existe risco de íleo paralítico. E, na criança queimada, a investigação ativa de maus-tratos, que o Projeto Diretrizes lista como item do atendimento inicial, ao lado da pesquisa de queda ou trauma associado.
Profundidade, superfície e destino
Três instrumentos e um destino. A tabela de profundidade responde quão fundo queimou; a regra dos nove responde quanto queimou, lembrando que o primeiro grau vale zero na conta; a lista de triagem responde para onde vai o paciente. A quarta tabela existe porque o Brasil tem duas réguas oficiais diferentes para as palavras pequeno, médio e grande queimado, e a questão precisa ser lida para saber qual delas está em jogo.
- 11. Pare o processo: remova roupas queimadas ou intactas sobre a área, além de fraldas, joias, anéis e lentes de contato, pelo efeito torniquete do edema. Lave com água corrente. Gelo e água gelada não entram: causam hipotermia e aprofundam a queimadura.
- 22. A — via aérea: procure pelos faciais chamuscados, fuligem em boca e narinas, escarro carbonáceo, rouquidão, estridor, incapacidade de lidar com secreções e história de ambiente fechado. Presentes, a intubação é imediata, não observacional. Avalie coluna cervical se houve explosão ou colisão.
- 33. B — ausculte, meça a frequência respiratória e avalie a expansibilidade. Queimadura circunferencial de tórax ou pescoço restringindo a expansão indica escarotomia de emergência. Em ambiente fechado, oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas pela intoxicação por monóxido de carbono, sem esperar dosagem.
- 44. C — dois acessos venosos calibrosos, preferencialmente em cintura escapular e fora da área queimada. Monitor cardíaco e oxímetro. Frequência de 100 a 120 bpm é esperada no queimado; o alvo de ressuscitação é mantê-la abaixo de 120.
- 55. D — Escala de Coma de Glasgow. Alteração de consciência em queimado não se explica pela queimadura: procure TCE, hipóxia, drogas ou monóxido de carbono.
- 66. E — exponha o paciente por inteiro para avaliar as lesões e remover contaminantes, calcule a superfície queimada e, feito isso, controle ativamente a hipotermia. O queimado perdeu a capacidade de termorregular.
- 77. Calcule a superfície corporal queimada somando apenas segundo e terceiro graus. Regra dos nove no adulto; versão corrigida por idade ou Lund-Browder na criança; regra da palma do paciente, incluindo os dedos, igual a 1%, para lesões pequenas ou salpicadas.
- 88. Inicie Ringer lactato pelo protocolo apropriado: no adulto, a recomendação contemporânea parte de 2 mL/kg/%SCQ; Parkland clássico, quando solicitado nominalmente, usa 4 mL/kg/%SCQ. Metade do volume estimado deve chegar até a oitava hora contada da queimadura, e a taxa é titulada pela diurese e perfusão. Em crianças, aplique fórmula pediátrica e some manutenção quando indicada.
- 99. Sonde: a diurese é o que titula a reposição. Sonda vesical e nasogástrica na criança acima de 10% e no adulto acima de 25% de SCQ. Alvo de 0,5 a 1 mL/kg/h no adulto, ou 30 a 50 mL/h, e 1 mL/kg/h na criança, com medida horária e descrição da urina.
- 1010. Reavalie as extremidades queimadas circunferencialmente. Escarotomia indicada nas circulares de espessura total, e ela é feita ANTES de transferir. Persistindo parestesia, dor contínua, hipoestesia, enrijecimento ou oximetria abaixo de 90% no segmento, fasciotomia.
- 1111. Urina escura em queimadura elétrica é mioglobinúria: eleve a meta de diurese para 2 mL/kg/h abaixo de 12 anos e 70 a 120 mL/h acima de 12 anos, com 12,5 g de manitol por litro de Ringer lactato infundido.
- 1212. Analgesia endovenosa em dose suficiente para tirar a dor. Profilaxia antitetânica tratando a queimadura como ferimento de alto risco. Nenhum antibiótico profilático sistêmico e nenhum corticoide para lesão inalatória.
- 1313. Curativo: limpeza com sabão neutro e água corrente abundante, remoção do que foi aplicado em casa, tópico conforme a rotina do serviço e cobertura estéril. Oclusivo, exceto orelha e períneo. Nada de agente neutralizante em queimadura química.
- 1414. Decida o destino pela lista de triagem: alta com retorno marcado e analgésico oral, internação em hospital geral, ou transferência ao Centro de Tratamento de Queimados após estabilização, com relatório, regulação e transporte médico em ambulância de suporte avançado.
1º grau (espessura parcial superficial)
Lesão apenas da epiderme. Eritema, sem bolha, pele seca e íntegra. Dolorosa ao toque, com enchimento capilar rápido e presente. Reepiteliza em poucos dias sem cicatriz. NÃO entra na conta da superfície corporal queimada e não gera reposição volêmica.
2º grau superficial (espessura parcial superficial)
Epiderme e derme papilar. Bolha, leito rosado, úmido e brilhante. Dor intensa, desproporcional ao aspecto, com enchimento capilar rápido. Os anexos profundos estão preservados e a lesão reepiteliza sozinha em até cerca de três semanas, sem enxerto.
2º grau profundo (espessura parcial profunda)
Atinge a derme reticular e destrói folículos e glândulas. Leito pálido, moteado de branco e vermelho, seco. Dor reduzida e enchimento capilar lento ou ausente. Passa das três semanas, cicatriza com retração e habitualmente exige enxerto.
3º grau (espessura total)
Epiderme e derme por inteiro. Escara branca nacarada, marrom ou cor de couro, seca, endurecida e inelástica. Indolor à picada e sem enchimento capilar. Não reepiteliza: fecha por enxerto. Se for circunferencial, exige escarotomia.
| Grau / espessura | O que se vê | Dor | Enchimento capilar | Cicatrização |
|---|---|---|---|---|
| 1º grau — parcial superficial | Eritema, sem bolha, pele seca e íntegra (só epiderme) | Presente, tipo ardência | Rápido e presente | Poucos dias, sem cicatriz. Não conta na SCQ |
| 2º grau superficial — parcial superficial | Bolha; leito rosado, úmido e brilhante | Intensa, desproporcional ao aspecto | Rápido | Reepiteliza sozinha em até cerca de 3 semanas, sem enxerto |
| 2º grau profundo — parcial profunda | Leito pálido, moteado de branco e vermelho, seco | Reduzida | Lento ou ausente | Além de 3 semanas, com retração; habitualmente enxerto |
| 3º grau — espessura total | Escara branca nacarada, marrom ou cor de couro; seca, dura, inelástica | Ausente à picada | Ausente | Não reepiteliza; fecha por enxerto |
Regra dos nove: adulto e criança (tabela do Projeto Diretrizes AMB/CFM)
| Segmento | Adulto | Criança (até 9 anos) |
|---|---|---|
| Cabeça e pescoço | 9% | 18% menos a idade em anos |
| Membro superior direito | 9% | 9% |
| Membro superior esquerdo | 9% | 9% |
| Tronco anterior | 18% | 18% |
| Tronco posterior | 18% | 18% |
| Genitália | 1% | — |
| Coxa direita | 9% | 7% mais um quarto da idade em anos |
| Coxa esquerda | 9% | 7% mais um quarto da idade em anos |
| Perna e pé direitos | 9% | 7% mais um quarto da idade em anos |
| Perna e pé esquerdos | 9% | 7% mais um quarto da idade em anos |
| Regra da palma (lesões pequenas ou salpicadas) | Palma do paciente com os dedos = 1% | Palma do paciente com os dedos = 1% |
Critérios de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados (lista da American Burn Association)
| Critério | Corte / detalhe |
|---|---|
| Queimadura de 2º grau (espessura parcial) | Área superior a 10% da superfície corporal, em qualquer idade |
| Queimadura de 3º grau | Qualquer extensão, em qualquer idade |
| Localização especial | Face, mão, pé, genitália, períneo, pescoço ou grande articulação (axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho, tornozelo), em qualquer idade |
| Queimadura elétrica | Inclusive por raio, em qualquer idade e qualquer extensão |
| Queimadura química | Qualquer idade |
| Lesão por inalação | Qualquer idade e qualquer extensão da queimadura |
| Comorbidade prévia | Problema médico que possa complicar o cuidado, prolongar a recuperação ou influenciar a mortalidade |
| Trauma concomitante | Quando a queimadura é o maior risco. Se o trauma for o risco imediato maior, estabilizar em centro de trauma antes de transferir |
| Criança em serviço sem estrutura | Hospital sem pessoal qualificado ou equipamento para o caso |
| Necrólise epidérmica tóxica | Também encaminhada a centro de tratamento de queimados |
| Vaga em UTI (critério à parte) | SCQ igual ou maior que 20% em menores de 12 anos; igual ou maior que 30% em maiores de 12 anos; suspeita ou diagnóstico de inalação de fumaça em qualquer idade |
Pequeno, médio e grande queimado: as duas réguas brasileiras
| Categoria | Portaria GM/MS 1.274/2000 (enquadramento SIH-SUS) | Projeto Diretrizes AMB/CFM 2008 (clínica) |
|---|---|---|
| Pequeno queimado | 1º e 2º graus com até 10% da área corporal | 1º grau em qualquer extensão e idade; 2º grau até 5% em menores de 12 anos ou até 10% em maiores de 12 anos |
| Médio queimado | 1º e 2º graus entre 10% e 25%; ou 3º grau até 10%; ou queimadura de mão e/ou pé | 2º grau de 5 a 15% em menores de 12 anos ou de 10 a 20% em maiores de 12; qualquer 2º grau em mão, pé, face, pescoço, axila ou grande articulação; 3º grau até 5% (menores de 12) ou até 10% (maiores de 12), fora de face, mão, períneo e pé |
| Grande queimado | 1º e 2º graus acima de 26%; ou 3º grau acima de 10%; ou queimadura de períneo | 2º grau acima de 15% (menores de 12) ou acima de 20% (maiores de 12); 3º grau acima de 5% (menores de 12) ou acima de 10% (maiores de 12); 2º ou 3º grau em períneo em qualquer idade; 3º grau em mão, pé, face, pescoço ou axila em qualquer idade; queimadura por corrente elétrica |
| Qualquer extensão que vira grande queimado | Lesão inalatória, politrauma, trauma craniano, trauma elétrico, choque, insuficiência renal, cardíaca ou hepática, distúrbios de hemostasia, embolia pulmonar, IAM, quadros infecciosos graves, síndrome compartimental, doenças consuptivas | A mesma lista, acrescida de diabetes, fratura óssea em qualquer localização, síndrome do túnel do carpo e qualquer outra afecção que possa complicar a lesão ou o quadro clínico |
O primeiro grau não entra na conta da superfície corporal queimada para fins de reposição volêmica. O material da SBQ escreve a fórmula como mililitros por quilo por porcento contado a partir das queimaduras de segundo grau, e os dois formulários do Projeto Diretrizes, regra dos nove e Lund-Browder, têm colunas de registro apenas para 2º e 3º graus.
A regra dos nove pediátrica se autocompensa: a cada ano de vida a cabeça perde 1 ponto percentual e cada um dos quatro segmentos de membro inferior ganha um quarto de ponto, de modo que a soma continua fechando em 100. Por volta dos 9 anos o esquema converge para os 9% do adulto, e o material da SBQ passa a usar a regra do adulto a partir dos 15 anos.
A regra da palma usa a palma DO PACIENTE, incluindo os dedos, e vale aproximadamente 1%. Em criança, usar a mão do examinador superestima grosseiramente a área. A estimativa por palmas serve para lesão pequena ou salpicada, não para calcular reposição de grande queimado.
O Lund-Browder é superior à regra dos nove na criança, porque corrige a proporção corporal por faixa etária no próprio diagrama (0 a 1, 1 a 4, 5 a 9, 10 a 14 e adulto), em queimaduras irregulares, porque permite marcar frações de segmento, e no prontuário e na transferência, porque entrega um mapa em vez de um número solto.
As duas réguas brasileiras têm finalidades distintas: a da portaria classifica o enquadramento da internação no SIH-SUS e por isso fala em queimaduras de 1º e 2º graus somadas; a do Projeto Diretrizes é clínica e separa faixa etária e localização. Repare ainda que a portaria deixa uma faixa descoberta entre 25% e 26%, fruto da redação original do texto.
Lesão inalatória, queimadura elétrica e queimadura de períneo dispensam percentual: cada uma delas, isoladamente, já leva o paciente a grande queimado e a encaminhamento a centro especializado, qualquer que seja a extensão.
Três réguas convivem neste capítulo, e confundi-las é o erro mais caro do tema. A tabela de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados reproduz a lista da American Burn Association — é dela o corte de segundo grau acima de 10% da superfície corporal em qualquer idade. As duas tabelas brasileiras de enquadramento são outra coisa: classificam pequeno, médio e grande queimado, com outros percentuais e outra finalidade. O enunciado entrega qual régua ele quer: quando fala em transferência para centro especializado, é a lista da ABA; quando fala em internação, enquadramento ou SIH-SUS, é a portaria; quando pede classificação clínica de gravidade, é o Projeto Diretrizes.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
4 mL/kg/%SCQ de Ringer lactato (fórmula de Parkland)
Reposição inicial calculada em 4 mL por quilo de peso por porcento de superfície corporal queimada, de Ringer com lactato, com metade do volume nas primeiras 8 horas após a queimadura. É o número que o documento brasileiro de 2008 prescreve nominalmente e é a forma clássica da fórmula de Parkland.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 2008
2 mL/kg/%SCQ como taxa inicial
Recomendação de iniciar a ressuscitação com 2 mL por quilo por porcento de superfície queimada para reduzir o volume total infundido. O documento registra que a própria ABA já havia trocado 4 por 2 mL no manual do ABLS em 2011, por causa do fenômeno de fluid creep, e que a base são dois estudos de força moderada, com volume total em 24 horas de 5,52 contra 6,90 mL/kg/%SCQ a favor da estratégia de 2 mL. O mesmo texto sublinha que a recomendação define apenas a taxa inicial e que a titulação pela resposta do paciente tem de vir em seguida.
American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation, J Burn Care Res, 2023
Faixa de 2 a 4 mL/kg/%SCQ
Posição intermediária que trata Parkland e Brooke modificada como duas pontas de uma mesma faixa: de 2 a 4 mL por quilo por porcento de superfície queimada a partir das queimaduras de segundo grau, nas primeiras 24 horas, metade nas primeiras 8 horas após a queimadura e metade nas 16 horas restantes. A própria diretriz da ABA registra que as práticas vigentes recomendam iniciar cristaloide entre 2 e 4 mL/kg/%SCQ.
Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020; e ABA CPG 2023 ao descrever as práticas vigentes
Na prova
O recorte se identifica pelo vocabulário e pelo cenário. Enunciado que nomeia a fórmula de Parkland está pedindo a definição da fórmula, e ela é 4 mL/kg/%SCQ por definição, não por preferência. Enunciado que fala em taxa inicial, em Brooke modificada, em fluid creep ou em reduzir volume de ressuscitação está no corpo internacional recente, onde o ponto de partida é 2 mL. Cenário de primeiro atendimento em hospital geral ou pré-hospitalar brasileiro tende ao corpo nacional. Repare também nas próprias alternativas: se uma delas oferece 2 mL e outra 4 mL com a mesma divisão 8/16 horas, a questão está testando a atualização; se todas as alternativas usam 4 mL e variam a divisão do tempo, o que está sendo testado é o relógio, não o coeficiente.
Nenhum colóide nas primeiras 24 horas
Instrução direta e sem exceção: não usar colóides nas primeiras 24 horas pós-queimadura. O mesmo documento reserva albumina humana para a fase seguinte, com critério laboratorial: albumina sérica abaixo de 3 g/dL em criança acima de 10% e adulto acima de 20% de superfície queimada, repondo o necessário para manter o nível igual ou maior que 3 g/dL.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008
Colóide a partir das 18 horas, obrigatório acima de 30% de SCQ
A partir das 18 horas de queimadura pode-se iniciar a infusão de colóide sob a forma de albumina humana, que deve ser utilizada em todos os pacientes com queimaduras iguais ou maiores que 30% de superfície corporal queimada.
Sociedade Brasileira de Queimaduras, Capítulo 02 — Tratamento Inicial do Grande Queimado, 2019/2020
Albumina já nas primeiras 24 horas
Recomendação de considerar albumina nas primeiras 24 horas de ressuscitação para melhorar o débito urinário e reduzir o volume total infundido, com força maior quanto maior a queimadura e menor nas queimaduras pequenas, e também como resgate quando a ressuscitação se deteriora apesar de volumes crescentes de cristaloide. O mesmo documento é explícito quanto ao limite dessa evidência: sobre mortalidade, as metanálises disponíveis são heterogêneas e não mostram efeito, e uma delas chega a apontar tendência de aumento; e sobre o momento ideal de início, antes ou depois de 12 horas, a evidência é de baixa força.
American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation, J Burn Care Res, 2023
Na prova
Aqui a data separa quase tudo, e a distância entre os documentos é de quinze anos. O afastamento brasileiro não é erro de leitura da evidência: colóide é caro, a albumina depende de disponibilidade hospitalar, e o documento nacional de 2008 espelha o consenso da época, em que a introdução precoce de colóide era vista como risco de agravar o edema. Enunciado situado em pronto-socorro geral, com pergunta sobre o que fazer na primeira hora, está no mundo do cristaloide isolado. Enunciado que cita centro de queimados, ressuscitação que não responde, volume acumulado alto ou a sigla ABA está no mundo em que a albumina entra cedo. Um distrator que ofereça albumina como primeira medida de reposição em atendimento inicial denuncia o recorte de quem escreveu a questão.
0,5 mL/kg/h, ou 30 a 50 mL/h
Controlar a hidratação para obter 0,5 mL/kg/h ou 30 a 50 mL por hora no adulto e 1 mL/kg/h na criança, com observação da diurese a partir da primeira hora e medida horária. Com hematúria ou hemoglobinúria, a meta sobe para 2 mL/kg/h nos menores de 12 anos e 70 a 120 mL/h nos maiores de 12.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008
0,3 a 0,5 mL/kg/h no adulto
Alvo de diurese de 0,3 a 0,5 mL/kg/h no adulto e de 1 mL/kg/h na criança, atribuído nominalmente às diretrizes da ISBI de 2016, acompanhado de frequência cardíaca abaixo de 120 bpm no adulto sem cardiopatia e sem betabloqueio. O próprio texto registra que outras fontes bibliográficas trabalham com 0,5 a 1 mL/kg/h, e justifica o alvo mais baixo dizendo que tanto a hipo quanto a hiper-hidratação pioram o prognóstico.
Sociedade Brasileira de Queimaduras, 2019/2020, citando ISBI Practice Guidelines for Burn Care, Burns, 2016
Na prova
As duas faixas se tocam em 0,5 mL/kg/h, e é esse o número que aparece como padrão nos estudos revisados pela diretriz da ABA de 2023. A diferença tem direção clara: o alvo mais baixo é a resposta ao fluid creep, e vem de documento de centro especializado; o alvo mais alto é o de atendimento inicial, e vem do documento brasileiro de 2008. Enunciado de sala de emergência com adulto de peso conhecido costuma pedir a conta pelo peso; enunciado que apresenta o número absoluto em mililitros por hora está no vocabulário do documento brasileiro. Em criança, não há disputa: 1 mL/kg/h nos três documentos.
Régua administrativa da Portaria GM/MS 1.274/2000
Pequeno queimado é o de 1º e 2º graus com até 10% da área corporal; médio, o de 1º e 2º graus entre 10% e 25%, ou 3º grau até 10%, ou queimadura de mão e/ou pé; grande, o de 1º e 2º graus acima de 26%, ou 3º grau acima de 10%, ou queimadura de períneo. Não separa faixa etária. A finalidade declarada no próprio artigo é o enquadramento nos procedimentos do SIH-SUS.
Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 1.274, de 21 de novembro de 2000, Art. 3º
Régua clínica do Projeto Diretrizes AMB/CFM
Separa menores e maiores de 12 anos e incorpora localização. Pequeno: 1º grau em qualquer extensão, ou 2º grau até 5% abaixo de 12 anos e até 10% acima. Médio: 2º grau de 5 a 15% ou de 10 a 20% conforme a idade, qualquer 2º grau em mão, pé, face, pescoço, axila ou grande articulação, e 3º grau até 5% ou até 10% conforme a idade, fora de face, mão, períneo e pé. Grande: acima desses limites, mais períneo em qualquer grau, 3º grau em áreas nobres e toda queimadura por corrente elétrica.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 2008
Na prova
As duas listas de condições que transformam qualquer extensão em grande queimado são praticamente idênticas, e é nelas que a maioria das questões mora: lesão inalatória, politrauma, trauma craniano, trauma elétrico, choque, insuficiências orgânicas e síndrome compartimental. A distinção aparece quando a questão traz percentual com faixa etária: se o enunciado destaca a idade da criança, o recorte é o do documento clínico; se traz números redondos sem idade, ou se fala em internação, AIH, procedimento ou enquadramento no SUS, o recorte é o da portaria. Vocabulário também denuncia: Centro de Referência em Assistência a Queimados de Alta Complexidade e Centro Intermediário são termos que só existem na portaria.
Caso resolvido
- achado
- Rouquidão, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas, fuligem em orofaringe e história de ambiente fechado. É lesão inalatória sintomática, e o material da SBQ trata esse conjunto como indicação de intubação imediata, não de observação.
- achado
- Saturação de pulso de 98% não tranquiliza: o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Incêndio em ambiente fechado indica oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, e não se aguarda dosagem para começar.
- cálculo
- Superfície corporal queimada: tronco anterior 18% (2º grau superficial e profundo) mais membro superior direito 9% (3º grau) igual a 27%. O eritema de face é 1º grau e NÃO entra na conta. Frequência cardíaca de 112 bpm está dentro do esperado para queimado, pela dor e pelo estresse.
- classificação
- Grande queimado por três critérios independentes: 2º grau acima de 20% em maior de 12 anos, 3º grau acima de 10%, e lesão inalatória, que sozinha reclassifica qualquer extensão. Também preenche critério de UTI: acima de 30% não, mas a suspeita de inalação de fumaça é critério isolado em qualquer idade.
- conduta
- Intubação orotraqueal imediata, antes que o edema supraglótico feche a via aérea, com ventilação protetora. Dois acessos venosos calibrosos em cintura escapular, fora das áreas queimadas. Monitor cardíaco e oximetria contínua.
- conduta
- Pela recomendação contemporânea para o adulto, a taxa inicial é 2 × 80 kg × 27% = 4.320 mL de Ringer lactato nas primeiras 24 horas. Metade, 2.160 mL, deve chegar até completar oito horas da queimadura; como já se passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 332 mL/h. Os outros 2.160 mL correm nas 16 horas seguintes, cerca de 135 mL/h. Se a questão pedir nominalmente a fórmula clássica de Parkland, o coeficiente é 4 e os volumes dobram. Em ambos os casos, a diurese e a perfusão corrigem a estimativa.
- conduta
- Sonda vesical, porque acima de 25% de SCQ ela está indicada no adulto e porque é a diurese que titula a reposição. Alvo de 0,5 a 1 mL/kg/h, isto é, 40 a 80 mL por hora neste paciente, com medida horária e descrição das características da urina. Sonda nasogástrica pelo mesmo critério.
- conduta
- Retirar a aliança imediatamente, pelo efeito torniquete do edema. Escara circunferencial de espessura total no membro superior direito com mão fria e enchimento capilar lentificado é indicação de escarotomia, e ela é feita ANTES da transferência. Persistindo parestesia, dor contínua, enrijecimento ou oximetria abaixo de 90% no segmento, fasciotomia.
- conduta
- Analgesia endovenosa em dose suficiente para tirar a dor, de preferência opioide. Profilaxia antitetânica: queimadura é ferimento de alto risco, e com três doses prévias e a última há 8 anos a conduta é reforço da vacina, sem imunoglobulina. Nenhum antibiótico profilático sistêmico, e nenhum corticoide para a lesão inalatória.
- conduta
- Curativo: limpeza com água corrente e sabão neutro, cobertura estéril, sem gelo e sem água gelada. Transferência a Centro de Tratamento de Queimados por múltiplos critérios da lista (2º grau acima de 10%, 3º grau, lesão inalatória, acometimento de face e pescoço), após estabilização, com relatório completo, regulação e transporte médico em ambulância de suporte avançado com possibilidade de assistência ventilatória.
Agora feche você
- achado
- Bolhas com leito rosado, úmido e brilhante, muito doloroso: 2º grau superficial. O eritema sem bolha dos antebraços é 1º grau e não entra na conta da superfície corporal queimada.
- cálculo
- Na regra dos nove pediátrica, com 4 anos: tronco anterior 18% (não muda com a idade) mais coxa direita, que vale 7% mais um quarto da idade, ou seja, 7 mais 1, igual a 8%. Total de 26% de superfície corporal queimada de 2º grau.
- achado
- Sem rouquidão, sem estridor, sem fuligem e sem escarro carbonáceo, e o mecanismo é escaldadura por líquido, não incêndio em ambiente fechado: não há elementos de lesão inalatória, e a via aérea não é a prioridade aqui.
- classificação
- Grande queimado: 2º grau acima de 15% em menor de 12 anos. Também preenche critério de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados (2º grau acima de 10% em qualquer idade) e critério de UTI (SCQ igual ou maior que 20% em menores de 12 anos).
- achado
- Bordas nítidas, ausência de marcas de respingo em torno das lesões, distribuição em áreas cobertas, história contada por terceiro que não presenciou e mecanismo pouco plausível. O Projeto Diretrizes lista pesquisar maus-tratos na criança como item do atendimento inicial, e este é o cenário exato em que ele se aplica.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Somar o 1º grau na superfície corporal queimada É o erro que mais aparece porque é o mais intuitivo: a lesão dói, está vermelha e é grande. Mas o eritema sem bolha não perde plasma e não gera necessidade de reposição. Os formulários brasileiros de regra dos nove e de Lund-Browder têm colunas apenas para 2º e 3º graus, e a fórmula da SBQ é escrita como porcento contado a partir do 2º grau. Somar face e dorso eritematosos pode dobrar o volume calculado e produzir edema pulmonar iatrogênico.
- 2Contar as 8 horas a partir da chegada ao hospital A metade do volume vai nas primeiras 8 horas APÓS A QUEIMADURA. Quem chega três horas depois tem cinco horas para receber a mesma metade, e a velocidade sobe proporcionalmente. Enunciados de prova sempre informam o horário do acidente e o da chegada justamente para testar isso — se o tempo aparece, ele é parte da conta.
- 3Tratar a fórmula como meta em vez de ponto de partida A fórmula estima apenas a velocidade inicial. No adulto, a ABA recomenda partir de 2 mL/kg/%SCQ para reduzir sobrecarga; o coeficiente clássico de Parkland é 4 quando a fórmula é solicitada pelo nome. Depois da primeira conta, diurese e perfusão governam os ajustes. Correr cegamente qualquer volume calculado produz fluid creep.
- 4Esperar a via aérea piorar para intubar O paciente com lesão inalatória chega falando, e é exatamente por isso que ele engana. O edema supraglótico progride e a própria ressuscitação volêmica o alimenta. Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, fuligem em orofaringe, vibrissas chamuscadas ou queimadura de face e boca são indicação de intubação imediata. Adiar troca uma laringoscopia possível por uma via aérea cirúrgica em pescoço queimado.
- 5Confiar na saturação de pulso para afastar intoxicação por monóxido de carbono O oxímetro lê carboxi-hemoglobina como se fosse oxi-hemoglobina, e a saturação sai normal em paciente gravemente intoxicado. Vítima de ambiente fechado com cefaleia, confusão, tontura ou pele em vermelho-cereja recebe oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas, sem esperar exame.
- 6Achar que queimadura elétrica pequena é queimadura pequena A regra dos nove mede pele, e a lesão elétrica está no músculo entre os pontos de entrada e saída. Dois pontos de dois centímetros podem esconder rabdomiólise maciça. Toda queimadura por corrente elétrica é grande queimado independentemente da extensão, exige monitorização cardíaca, e urina escura significa mioglobinúria: a meta de diurese sobe para 2 mL/kg/h abaixo de 12 anos e 70 a 120 mL/h acima de 12, com 12,5 g de manitol por litro de Ringer lactato.
- 7Prescrever antibiótico profilático sistêmico O Projeto Diretrizes escreve a proibição de forma direta e graduada em evidência: não se deve utilizar antibiótico profilático. A escara é avascular e o antibiótico sistêmico não a alcança; a colonização é inevitável e não é infecção; e o que se produz é seleção de resistência num paciente que vai precisar de antibiótico de verdade semanas depois. O antibiótico entra na suspeita ou no diagnóstico de infecção, após a fase aguda. Na lesão inalatória, nem antibiótico nem corticoide.
- 8Gelo na queimadura e neutralizante na queimadura química Água gelada e gelo causam hipotermia, aprofundam a lesão por conversão adicional e podem levar a coagulopatia, arritmia e morte. Na queimadura química, o agente neutralizante produz reação exotérmica e agrava a queimadura: irriga-se com água corrente de baixo fluxo por 20 a 30 minutos, retirando antes o pó a seco. E tudo o que o paciente aplicou em casa sai antes do curativo.
- 9Transferir sem escarotomia e sem tirar os adornos A escarotomia é medida a ser realizada imediatamente assim que identificada e antes do encaminhamento ao centro mais complexo. Escara circunferencial de tórax não incisada mata na ambulância por insuficiência ventilatória; escara circunferencial de membro custa o membro. E antes de qualquer escara, o efeito torniquete já começa nos anéis, pulseiras e fraldas, que devem ser removidos na exposição.
Presença de bolhas (flictenas), base úmida e rósea, dor intensa e branqueamento preservado caracterizam queimadura de 2º grau superficial (espessura parcial superficial). O 1º grau é eritema seco sem bolhas (ex.: eritema solar), doloroso mas sem flictenas. O 3º grau é indolor, seco, esbranquiçado/marrom/carbonizado, sem branqueamento. O 4º grau atinge estruturas profundas (músculo/osso). A 2º grau profunda é mais pálida, menos dolorosa e com branqueamento lentificado/ausente.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 40 anos, 70 kg, é admitido com queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo toda a face anterior do tórax e abdome, todo o membro superior direito circunferencial e toda a face anterior de um membro inferior. Pela Regra dos Nove, qual é a estimativa aproximada da superfície corporal queimada (SCQ)?
Pela Regra dos Nove no adulto: tórax + abdome anteriores = 18% (9% + 9%); membro superior inteiro = 9%; face anterior de um membro inferior = 9% (metade dos 18% do membro). Somando: 18 + 9 + 9 = 36%. As demais opções resultam de erro na contagem dos segmentos (superestimar o membro superior como 18%, o membro inferior anterior como 18%, ou omitir/duplicar segmentos).
Mulher de 25 anos, 60 kg, sofre queimadura com 40% de superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus. Chega ao serviço 1 hora após o acidente. Utilizando a fórmula de Parkland (Ringer lactato 4 mL/kg/%SCQ nas primeiras 24 horas, metade nas primeiras 8 horas a partir do trauma), qual é o volume que deve ser infundido nas primeiras 8 horas?
Fórmula de Parkland: 4 mL × 60 kg × 40 = 9.600 mL em 24 horas. Metade (4.800 mL) deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e o restante nas 16 horas seguintes. As demais opções correspondem ao total de 24h (9.600), à metade calculada erroneamente sobre outro peso/percentual, ou a fórmulas alternativas não solicitadas.
Homem de 30 anos sofreu queimadura elétrica de alta tensão. Evolui com urina de coloração acastanhada ('cor de coca-cola') e o exame revela mioglobinúria com CPK muito elevada, em contexto de rabdomiólise. A diurese está em 0,4 mL/kg/h apesar de reposição volêmica com Ringer lactato conforme fórmula de Parkland. Qual é a meta de débito urinário e a medida adicional mais adequada neste paciente com pigmentúria?
Na queimadura elétrica com rabdomiólise/mioglobinúria, a meta de diurese é MAIOR que no queimado comum: 1 a 1,5 mL/kg/h (alguns protocolos: 1–2 mL/kg/h), para 'lavar' os pigmentos e prevenir necrose tubular aguda. Isso exige AUMENTAR a reposição volêmica (Parkland subestima a necessidade nesses casos), frequentemente associada à alcalinização urinária (bicarbonato) para aumentar a solubilidade da mioglobina. Manter 0,5 mL/kg/h é insuficiente diante de pigmentúria. Restringir volume/usar diurético de alça precocemente ou hipotônica agrava a lesão renal. Hemodiálise só se falha da terapia conservadora/IRA estabelecida com indicação dialítica.
Homem de 30 anos sofre escaldadura por água fervente no antebraço. Ao exame, a lesão apresenta base rósea, úmida, com bolhas (flictenas), muito dolorosa ao toque e com bom enchimento capilar. Segundo a classificação de profundidade das queimaduras, essa lesão é classificada como:
Presença de flictenas, base rósea/úmida, dor intensa e enchimento capilar preservado caracterizam queimadura de 2º grau superficial, que acomete epiderme e derme papilar. 1º grau é eritema sem bolhas, apenas epiderme. 2º grau profundo é mais pálido, menos doloroso e com enchimento capilar lento. 3º grau é indolor, seco, esbranquiçado/carbonizado, sem bolhas. 4º grau atinge estruturas profundas (músculo/osso).
Homem de 45 anos, 70 kg, é admitido após incêndio domiciliar com queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo toda a face anterior do tórax e abdome, todo o membro superior direito e toda a face anterior do membro inferior direito. Pela 'regra dos nove', qual é a superfície corporal queimada estimada e o volume de Ringer lactato nas primeiras 24 horas pela fórmula de Parkland?
Regra dos nove: tórax e abdome anteriores = 18%, membro superior direito inteiro = 9%, face anterior do membro inferior direito = 9% (metade dos 18% do membro), totalizando 36% de SCQ. Parkland: 4 mL × peso × %SCQ = 4 × 70 × 36 = 10.080 mL em 24 h, metade nas primeiras 8 h. Os 18% subestimam a superfície queimada. Os 45% a superestimam. Acertar 36% e chegar a 5.040 mL usa constante errada (2 mL em vez de 4 mL/kg/%). Os 27% com 7.560 mL subestimam a superfície e, por consequência, o volume.
Mulher de 60 anos, diabética, sofreu queimadura circunferencial de terceiro grau em todo o membro superior esquerdo há 6 horas. Ao exame, a mão está fria, pálida, com enchimento capilar lentificado, parestesia e ausência de pulso radial ao Doppler. A escara está firme e endurecida. Qual é a conduta imediata indicada?
Queimadura circunferencial de 3º grau com escara rígida causa síndrome compartimental extrínseca, comprometendo a perfusão distal (mão fria, sem pulso, parestesia). A conduta imediata é escarotomia longitudinal descompressiva, incisando a escara para restaurar a circulação. Fasciotomia é indicada quando há síndrome compartimental verdadeira intramuscular (ex.: queimadura elétrica), não na compressão puramente pela escara. Elevação/anticoagulação não resolve a compressão mecânica. Amputação é desproporcional nesta fase. Enxertia não é conduta de urgência para restaurar perfusão.
Menina de 4 anos, 16 kg, sofreu queimadura por líquido quente acometendo 25% da superfície corporal. Após 8 horas de reanimação volêmica adequada pela fórmula de Parkland, apresenta débito urinário de 0,4 mL/kg/h, FC 150 bpm e enchimento capilar de 4 segundos. Qual é a conduta mais apropriada quanto à reposição volêmica?
A fórmula de Parkland é apenas uma estimativa inicial; a titulação real guia-se pelo débito urinário-alvo (crianças ~1 mL/kg/h). Débito de 0,4 mL/kg/h com taquicardia e enchimento capilar lento indica hipoperfusão/subressuscitação, exigindo AUMENTO da taxa de cristaloide. O alvo pediátrico é ~1 mL/kg/h, então 0,4 está baixo. Reduzir agravaria a hipoperfusão. Vasoativos não corrigem hipovolemia — priorizar volume. Hemácias não estão indicadas sem sangramento/anemia.
Homem de 28 anos chega à UPA após derramar água fervente no antebraço. Ao exame, a área acometida apresenta eritema, dor intensa, ausência de bolhas e enchimento capilar preservado, sem comprometimento da derme profunda. Como se classifica essa queimadura quanto à profundidade?
Queimadura de primeiro grau atinge apenas a epiderme, caracterizando-se por eritema, dor e ausência de bolhas, com enchimento capilar preservado — exatamente o quadro descrito. A de segundo grau apresenta bolhas/flictenas e acomete a derme. A de terceiro grau (espessura total) é indolor, com aspecto branco-nacarado ou carbonizado. O quarto grau envolve estruturas profundas (músculo/osso). Portanto, o quadro corresponde a queimadura de primeiro grau.
Mulher de 35 anos sofreu queimadura por líquido quente. Ao exame, a lesão apresenta bolhas (flictenas), base rósea úmida, dor intensa e enchimento capilar presente, acometendo a derme superficial. Qual é a classificação de profundidade dessa queimadura?
A presença de bolhas (flictenas), base rósea úmida, dor intensa e enchimento capilar presente caracteriza a queimadura de segundo grau superficial (espessura parcial superficial), que acomete a derme superficial. A de primeiro grau não forma bolhas. A de terceiro grau é indolor, seca, branco-nacarada e sem enchimento capilar. A de quarto grau envolve estruturas profundas como músculo e osso. Logo, o quadro é de segundo grau superficial.
Homem de 40 anos chega ao pronto-socorro com queimaduras de segundo e terceiro graus após incêndio doméstico, acometendo todo o membro superior direito e todo o tórax anterior. Está consciente e estável. Utilizando a Regra dos Nove para adultos, qual é a estimativa aproximada da superfície corporal queimada (SCQ)?
Pela Regra dos Nove no adulto: cada membro superior corresponde a 9% e o tórax anterior (parede anterior do tronco) corresponde a 18%. Somando membro superior (9%) + tórax anterior (18%) = 27% de SCQ. As demais opções resultam de contagem incompleta (só o membro = 9%; só o tronco anterior = 18%) ou superestimação. Portanto, a estimativa é de aproximadamente 27%.
Mulher de 30 anos, 60 kg, é admitida no pronto-socorro com queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal, há 1 hora. Está estável e sem outras lesões. Segundo a fórmula de Parkland para reposição volêmica nas primeiras 24 horas, qual é o volume total de Ringer lactato a ser administrado e como se distribui?
A fórmula de Parkland estima 4 mL x peso (kg) x %SCQ de Ringer lactato nas primeiras 24 horas: 4 x 60 x 40 = 9.600 mL. Metade desse volume (4.800 mL) é infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do MOMENTO DA QUEIMADURA (não da admissão), e a outra metade nas 16 horas seguintes. Não se faz em bolus único. O cálculo com 1 mL/kg/% (2.400 mL) subestima. O dobro (19.200 mL) e a inversão da distribuição estão incorretos.
Criança de 4 anos, 16 kg, é levada à UPA com queimadura por escaldadura acometendo 12% da superfície corporal (segundo grau superficial e profundo). Está estável. Considerando a rede de atenção do SUS e os critérios de encaminhamento a centro de tratamento de queimados, qual é a conduta mais adequada?
Em crianças, o limiar para classificar grande queimado e referenciar é MENOR que no adulto: queimaduras de segundo grau acima de ~10% de SCQ em criança (ou envolvimento de áreas nobres) indicam encaminhamento a centro/unidade de tratamento de queimados, com analgesia e reposição volêmica iniciadas na estabilização. Alta imediata é inadequada, pois 12% em criança não é queimadura leve. Antibiótico profilático sistêmico de rotina não é recomendado. Creme hidratante e reavaliação tardia subestimam a gravidade e o risco de descompensação hidroeletrolítica.
Homem de 45 anos sofreu queimadura elétrica de alta tensão em membro superior. Após reposição volêmica, evolui com dor desproporcional, parestesia, tensão do compartimento, palidez e diminuição do pulso distal no antebraço. Há queimadura circunferencial de espessura total no segmento. Qual é a conduta indicada?
Queimadura circunferencial de espessura total com sinais de síndrome compartimental (dor desproporcional, parestesia, tensão, palidez, redução de pulso) é emergência: a escara rígida atua como garrote. A conduta é escarotomia de urgência; em queimaduras elétricas de alta tensão, com lesão muscular profunda, frequentemente é necessária também fasciotomia. Apenas elevar/observar ou adiar permite isquemia e necrose irreversível. A amputação primária não é a primeira medida — a descompressão precoce pode salvar o membro.
Homem de 30 anos chega à UPA após derramar água fervente no antebraço direito há 30 minutos. Ao exame, a área queimada apresenta-se avermelhada, com formação de bolhas, úmida, dolorosa e com bom preenchimento capilar. Não há acometimento de estruturas profundas. Segundo a profundidade, essa queimadura é classificada como:
Queimadura com bolhas (flictenas), superfície úmida, hiperemia, dor intensa e enchimento capilar preservado caracteriza queimadura de segundo grau (espessura parcial). A de primeiro grau (superficial) apresenta apenas eritema, sem bolhas (ex.: eritema solar). A de terceiro grau (espessura total) é indolor, com aspecto branco-nacarado ou marrom, seco e coriáceo, por destruição de terminações nervosas. E a de quarto grau atinge músculo e osso.
Uma criança de 4 anos é levada à UPA logo após queimadura por líquido quente. O médico precisa estimar a superfície corporal queimada para orientar a conduta. Qual é o método mais utilizado na avaliação inicial da extensão de queimaduras em adultos, dividindo o corpo em múltiplos de 9%?
A regra dos nove (de Wallace) estima a superfície corporal queimada dividindo o corpo em áreas múltiplas de 9% no adulto. A fórmula de Parkland calcula reposição volêmica, não a extensão. O índice de Baux estima prognóstico (idade + %SCQ). A escala de coma de Glasgow avalia nível de consciência. Observação: em crianças pequenas as proporções diferem (cabeça maior), usando-se tabelas específicas como Lund-Browder.
Homem de 40 anos, 70 kg, chega à UPA após incêndio domiciliar com queimaduras de segundo e terceiro graus estimadas em 40% da superfície corporal. Está consciente, taquicárdico, com pulsos finos. Após garantir via aérea, qual é a conduta inicial mais importante nas primeiras horas para prevenir o choque?
Grande queimado (40% SCQ) desenvolve choque hipovolêmico por perda de fluido para o terceiro espaço; a prioridade após via aérea é a ressuscitação volêmica com cristaloide (Ringer lactato) calculada pela fórmula de Parkland (correta). Antibiótico profilático sistêmico não está indicado de rotina, pois seleciona germes resistentes; usa-se apenas na infecção estabelecida. Enxerto é etapa tardia, após estabilização e preparo do leito. Transfusão não é a medida inicial, pois a perda predominante é de plasma/fluido, não sanguínea.
Homem de 35 anos sofreu queimadura circunferencial de terceiro grau em todo o antebraço direito em incêndio. Horas depois, na sala de emergência, evolui com edema tenso do membro, dor intensa, palidez, parestesia e enchimento capilar lentificado distalmente, com pulso radial cada vez mais difícil de palpar. Qual é a conduta indicada?
Queimadura circunferencial de espessura total forma escara rígida e inelástica; com o edema, gera efeito garrote e isquemia distal (dor, palidez, parestesia, perda de pulso). A conduta é a escarotomia (incisão da escara para descompressão), que restaura a perfusão (correta). A elevação/observação não alivia a compressão e permite necrose. A fasciotomia libera compartimentos musculares profundos e é indicada em síndrome compartimental estabelecida ou lesão elétrica; na compressão apenas pela escara cutânea circunferencial, a escarotomia é o passo inicial. O gesso agravaria a compressão.
Homem de 50 anos, 80 kg, chega à sala de emergência 1 hora após queimadura de 50% da superfície corporal em incêndio. Aplicando a fórmula de Parkland (4 mL x peso x %SCQ de Ringer lactato nas primeiras 24 horas, contadas a partir do momento da queimadura), qual é o volume total estimado para as 24 horas e como deve ser fracionado?
Parkland: 4 mL x 80 kg x 50% = 16.000 mL de Ringer lactato em 24 horas. A metade (8.000 mL) é infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e a outra metade nas 16 horas seguintes (correta). O total de 8.000 mL erra o cálculo. Distribuir igualmente desconsidera o fracionamento clássico. Infundir tudo na 1ª hora causaria hipervolemia grave. A taxa deve ainda ser titulada pelo débito urinário (0,5-1 mL/kg/h).
Homem de 28 anos, eletricista, é levado à sala de emergência após choque elétrico de alta tensão. Apresenta pequenas lesões de entrada e saída nas mãos e pés, aparentemente limitadas. Contudo, evolui com urina de coloração avermelhada/acastanhada e o ECG mostra alterações. Qual é a principal preocupação clínica e a conduta correspondente nesse tipo de queimadura?
Na queimadura elétrica de alta tensão a lesão cutânea visível subestima o dano; a corrente destrói músculo profundo, causando rabdomiólise com mioglobinúria (urina escura), hipercalemia e arritmias. A conduta é hidratação venosa vigorosa (para manter débito urinário elevado e proteger o rim), monitorização cardíaca contínua e vigilância de síndrome compartimental (correta). Tratar como lesão pequena, infecção local ou desidratação leve com alta ignora o risco de insuficiência renal aguda por mioglobina e de arritmias fatais, subestimando a gravidade sistêmica da lesão elétrica.
Mulher de 40 anos é levada ao pronto-socorro após derramar água fervente sobre o antebraço e a mão direitos há 40 minutos. Ao exame, a área acometida apresenta-se eritematosa, com bolhas (flictenas) de conteúdo seroso, base rósea e úmida, muito dolorosa ao toque, com enchimento capilar preservado. Não há acometimento circunferencial nem comprometimento de outras regiões. A paciente encontra-se estável, sem sinais de comprometimento de vias aéreas. Considerando a profundidade da lesão, qual é a classificação da queimadura e a conduta inicial local mais adequada, respectivamente?
Presença de flictenas (bolhas), base rósea/úmida, dor intensa e enchimento capilar preservado caracteriza queimadura de segundo grau superficial; a conduta local inicial é resfriamento com água em temperatura ambiente, limpeza suave, curativo oclusivo e analgesia. A queimadura de primeiro grau atinge apenas a epiderme, com eritema sem bolhas (tipo insolação), e não forma flictenas. A de terceiro grau é indolor (destruição de terminações nervosas), com aspecto branco-nacarado ou carbonizado e seco, exigindo abordagem cirúrgica. A de quarto grau atinge estruturas profundas (músculo/osso) — não corresponde à descrição.
Homem de 35 anos é trazido ao pronto-socorro após incêndio em ambiente fechado. Apresenta queimaduras em face, tórax anterior e ambos os membros superiores. Ao exame: consciente, agitado, com rouquidão, tosse com escarro carbonáceo, vibrissas nasais chamuscadas e edema de orofaringe em progressão. SpO2 94%, sem estridor no momento. Além do cuidado com as queimaduras cutâneas, considerando os sinais de lesão inalatória, qual é a conduta prioritária?
Queimadura em ambiente fechado com rouquidão, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas e edema de orofaringe em progressão indica lesão inalatória com risco iminente de obstrução; a prioridade absoluta (A do ABCDE) é assegurar a via aérea com intubação orotraqueal precoce, antes que o edema a torne impossível. Aguardar imagem retarda uma conduta salvadora e é inadequado diante de sinais de obstrução progressiva. Antibiótico profilático sistêmico não é recomendado de rotina no queimado. Corticoide inalatório não previne nem trata a obstrução aguda de via aérea por lesão térmica.
Homem de 34 anos é trazido ao pronto-socorro após incêndio domiciliar. Sofreu queimaduras em toda a face anterior do tórax e abdome, todo o membro superior direito em sua circunferência e face anterior de ambas as coxas. As lesões apresentam flictenas, base rósea e dolorosas em algumas áreas, e áreas esbranquiçadas indolores em outras. Pesa 70 kg. Considerando a regra dos nove para estimativa da superfície corporal queimada, assinale a porcentagem aproximada de área queimada de 2º e 3º graus e a conduta de reposição volêmica inicial nas primeiras 24 h pela fórmula de Parkland, respectivamente.
Regra dos nove: tórax+abdome anteriores (18%) + MSD circunferencial (9%) + face anterior de ambas as coxas (metade de cada MI anterior; cada MI anterior ~9%, face anterior de coxa ~4,5% por perna = 9%) totaliza ~36%. Parkland: 4 mL × peso(kg) × %SCQ = 4×70×36 = 10.080 mL de Ringer lactato em 24 h, com metade nas primeiras 8 h a partir da queimadura. As demais erram tanto no cálculo de área quanto no fluido (Parkland usa cristaloide isotônico — Ringer lactato — não glicosado nem salina hipertônica como padrão) e na distribuição temporal.
Criança de 5 anos, 20 kg, é levada à UBS após derramar líquido fervente sobre si, atingindo a face anterior do tronco e o membro superior esquerdo. As lesões têm flictenas, são úmidas, róseas, muito dolorosas e com enchimento capilar preservado. Não há acometimento circunferencial nem de vias aéreas. Estima-se 20% de superfície corporal queimada. Assinale a classificação de profundidade predominante das lesões e a conduta inicial mais adequada nesse serviço.
Flictenas, base rósea, úmida, muito dolorosa e com enchimento capilar preservado caracterizam queimadura de 2º grau superficial. A conduta é analgesia, curativo adequado, iniciar reposição volêmica (queimadura >10% em criança) e encaminhar a centro de referência de queimados. 3º grau é indolor, esbranquiçado/coriáceo — a lesão aqui é dolorosa, e não há acometimento circunferencial que justifique escarotomia. 1º grau não faz flictenas nem exige reposição volêmica. 2º grau profundo tem base mais pálida e menos dolorosa; desbridamento na UBS é inadequado.
Homem de 40 anos chega ao pronto-socorro resgatado de incêndio em ambiente fechado. Apresenta queimaduras faciais, vibrissas nasais chamuscadas, rouquidão, estridor incipiente e escarro carbonáceo. Está agitado, taquipneico (FR 30 irpm) e com SatO2 de 95% em ar ambiente. Superfície corporal queimada estimada em 15%. Assinale a conduta de maior prioridade neste momento.
Queimadura em ambiente fechado com estigmas de lesão inalatória (queimadura facial, vibrissas chamuscadas, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo) indica risco iminente de obstrução por edema progressivo de vias aéreas — a prioridade (A do ABCDE) é a via aérea definitiva por intubação orotraqueal precoce, antes que o edema torne o procedimento impossível. A saturação normal não afasta o risco e esperar a piora pode inviabilizar a intubação. Oxigênio isolado não protege a via aérea. Corticoide não tem eficácia comprovada para prevenir obstrução e não substitui a via aérea definitiva.
Homem de 50 anos chega ao pronto-socorro 2 horas após queimadura elétrica de alta tensão ao tocar fio de rede elétrica com o membro superior direito. Há ponto de entrada esbranquiçado e deprimido na mão direita e ponto de saída no pé esquerdo. Refere dor intensa no antebraço direito, que se apresenta tenso, edemaciado, com dor à extensão passiva dos dedos e pulso radial diminuído. A urina está escurecida (avermelhada). Assinale a complicação a ser prioritariamente prevenida/tratada e a conduta associada, respectivamente.
A queimadura elétrica de alta tensão causa lesão muscular profunda desproporcional à lesão cutânea. O antebraço tenso, a dor à extensão passiva e o pulso diminuído indicam síndrome compartimental (necessita fasciotomia), e a urina escurecida sinaliza mioglobinúria por rabdomiólise, que exige hidratação vigorosa para proteção renal — é essa a dupla complicação a ser prioritariamente prevenida e tratada. Não se trata de choque hipovolêmico apenas, com observação da diurese sem intervenção cirúrgica, pois há síndrome compartimental e rabdomiólise instaladas. A antibioticoprofilaxia isolada, dirigida à infecção de ferida, não trata o compartimento nem a rabdomiólise. E a lesão não é superficial de pele, a ponto de justificar curativo oclusivo e alta com analgesia — a extensão profunda e as complicações sistêmicas caracterizam gravidade.
Homem, 32 anos, vítima de incêndio domiciliar, é trazido ao pronto-socorro com queimaduras. Ao exame, apresenta lesões acometendo toda a face anterior e posterior de um dos membros superiores. As áreas queimadas mostram flictenas (bolhas), base rósea, úmida, dolorosa ao toque e com enchimento capilar preservado. De acordo com a Regra dos Nove de Wallace, qual o percentual de superfície corporal queimada (SCQ) e a classificação de profundidade dessa lesão?
Correta: Pela Regra dos Nove de Wallace, cada membro superior inteiro (face anterior + posterior) corresponde a 9% da SCQ no adulto — logo o acometimento de todo um membro superior = 9%. A presença de flictenas, base rósea/úmida, dor e enchimento capilar preservado define queimadura de segundo grau (espessura parcial). 4,5% corresponderia a apenas uma face do membro (anterior OU posterior), mas o enunciado descreve as duas faces, totalizando 9%. 18% seria o valor de um membro inferior inteiro ou do tronco anterior, não do membro superior; e terceiro grau cursa com lesão seca, esbranquiçada/nacarada, indolor, sem enchimento capilar — o oposto do descrito. Primeiro grau atinge apenas a epiderme, com eritema sem bolhas (não há flictenas), e não entra no cálculo de SCQ. O percentual de 18% está incorreto para membro superior; a profundidade está certa, mas a resposta como um todo é inválida.
Homem, 45 anos, pedreiro, é admitido após explosão em canteiro de obras com queimaduras extensas. Ao exame, algumas áreas do tronco apresentam-se com aspecto seco, coriáceo (endurecido), coloração branco-nacarada e acastanhada, indolor à punctura e sem retorno de enchimento capilar; há trombose de vasos superficiais visíveis. Em outras regiões, observam-se bolhas de base rósea, úmidas e muito dolorosas. Sobre a caracterização das áreas com aspecto seco, coriáceo, indolor e sem enchimento capilar, qual a classificação de profundidade e a conduta INICIAL mais adequada frente ao risco de síndrome compartimental por lesão circunferencial de tronco?
Correta: o aspecto seco, coriáceo, branco-nacarado/acastanhado, indolor (destruição das terminações nervosas), sem enchimento capilar e com trombose de vasos superficiais é típico de queimadura de espessura total (3º grau). Em queimaduras circunferenciais de tronco, a escara rígida e inelástica pode restringir a expansibilidade torácica e gerar insuficiência ventilatória (síndrome compartimental) — a conduta é a escarotomia (incisão apenas da escara/derme, liberando a constrição). A descrição não é de 2º grau superficial (que é róseo, úmido e doloroso) nem se resolve só com curativo. O 2º grau profundo mantém alguma sensibilidade dolorosa e enchimento capilar lentificado, e a área descrita é indolor/sem enchimento; além disso ignora a lesão circunferencial de risco. Primeiro grau é eritema sem bolha, não seco/coriáceo/indolor. A profundidade está certa, mas a fasciotomia (incisão até a fáscia muscular) é conduta para síndrome compartimental muscular profunda; na constrição por escara de tronco a medida inicial correta é a ESCAROTOMIA, mais superficial.
Mulher, 28 anos, vítima de queimadura extensa por líquido inflamável, admitida em centro de trauma. Você vai iniciar a reposição volêmica pela fórmula de Parkland. Qual é a solução cristaloide de escolha para a reposição nas primeiras 24 horas segundo a fórmula de Parkland?
A fórmula de Parkland preconiza cristaloide isotônico balanceado — o Ringer lactato — nas primeiras 24 horas, por sua composição eletrolítica próxima à do plasma e pelo lactato que atua como tampão, evitando a acidose hiperclorêmica associada a grandes volumes de salina. SF 0,9% em grandes volumes causa acidose hiperclorêmica, não sendo o padrão da fórmula. Glicosado 5% é hipotônico e não repõe volume intravascular. Albumina é coloide, reservado classicamente para a 2ª fase (após as primeiras 24 h), não para a reposição inicial de Parkland. Salina hipertônica não faz parte do protocolo de Parkland.
Homem, 45 anos, 70 kg, com queimaduras de espessura parcial e total em 40% da superfície corporal, em reposição volêmica com Ringer lactato conforme a fórmula de Parkland, iniciada há 6 horas. Foi passada sonda vesical de demora. No momento você recebe o débito urinário: 15 mL/h nas últimas 2 horas. PA 96×60 mmHg, FC 122 bpm, lactato 4,1 mmol/L. Considerando as metas de reposição no grande queimado adulto, qual é a conduta mais adequada?
A titulação da reposição no grande queimado é guiada principalmente pelo débito urinário, com meta de 0,5 mL/kg/h no adulto — para 70 kg, cerca de 30–35 mL/h. O débito atual de 15 mL/h (~0,21 mL/kg/h), somado a taquicardia, hipotensão e lactato elevado, indica hipoperfusão/reposição insuficiente: a conduta correta é aumentar a velocidade de infusão do cristaloide. Erra: o valor da meta (15 mL/h está abaixo, não dentro). Reduzir a infusão inverte a conduta — agravaria a hipoperfusão. Iniciar noradrenalina é precoce e inadequado: vasopressor não corrige hipovolemia por perda para o terceiro espaço, cuja base terapêutica é volume; noradrenalina só entra após reposição otimizada. A transfusão não se justifica sem sangramento/anemia demonstrada — a hipoperfusão aqui é hipovolêmica, corrigível com cristaloide.
Homem, 28 anos, sofreu queimadura por chama em ambiente aberto, atingindo apenas os membros inferiores (cerca de 18% de superfície corporal, 2º grau). Sem exposição a fumaça em ambiente fechado, face poupada, sem fuligem em vias aéreas, voz normal, sem estridor. PA 118x76 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 98% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa. Radiografia de tórax normal. Em relação ao manejo da via aérea deste paciente, qual é a conduta correta?
Correta: a indicação de proteção precoce da via aérea no queimado depende de SINAIS de lesão inalatória (incêndio em ambiente fechado, queimadura de face/pescoço, fuligem/escarro carbonáceo, rouquidão, estridor, chamuscamento de vibrissas, edema orofaríngeo). Este paciente não apresenta nenhum deles — queimadura em ambiente aberto, face poupada, via aérea normal — logo NÃO há indicação de intubação; a conduta é vigilância clínica e priorizar reanimação volêmica e cuidado das lesões. Errada: a superfície corporal queimada por si só não indica intubação; intubar sem sinais expõe a riscos desnecessários. Errada: broncoscopia não é pré-requisito para conduzir a via aérea de um paciente sem sinais de lesão inalatória. Errada: corticoide não previne edema de via aérea e não tem indicação. Errada: hiperbárica não é profilaxia e não está indicada sem intoxicação por monóxido.
Homem, 40 anos, resgatado de incêndio em ambiente fechado. Ao exame dermatológico das lesões térmicas: eritema doloroso, sem bolhas, com enchimento capilar preservado, em toda a face e pescoço; bolhas de base rósea, úmida e dolorosa em todo o membro superior direito e em toda a face anterior do tronco (tórax e abdome); e área esbranquiçada, seca, endurecida e indolor em todo o membro superior esquerdo. PA 120x80 mmHg, FC 96 bpm, SatO2 97%. Considerando a regra dos nove de Wallace e as áreas que devem ser computadas para o cálculo de reposição volêmica, qual é a superfície corporal queimada (SCQ) estimada?
Correta: 36%. No cálculo da SCQ para fins de reposição volêmica só entram as queimaduras de espessura parcial (2º grau) e total (3º grau); a queimadura de 1º grau (eritema doloroso, sem bolhas, com enchimento capilar preservado — aqui na face/pescoço, que valeriam 9%) NÃO é computada. Somam-se então: MSD (2º grau) 9% + face anterior do tronco (2º grau) 18% + MSE (3º grau) 9% = 36%. 18% considera apenas o tronco anterior, ignorando os dois membros superiores. 45% inclui indevidamente os 9% da face/pescoço de 1º grau. 54% inclui a face de 1º grau e ainda superestima algum segmento. 27% omite um dos membros superiores no somatório.
Mulher, 25 anos, sofreu escaldadura ao derramar água fervente sobre o antebraço. Cerca de 10 minutos após o acidente, o exame mostra: bolhas de conteúdo claro, que ao serem rompidas revelam leito de base rósea, úmida e brilhante; a lesão é intensamente dolorosa ao toque e ao ar; o enchimento capilar do leito está presente e há blanqueamento à digitopressão. Não há áreas esbranquiçadas, secas ou insensíveis. Qual é a classificação de profundidade desta queimadura?
Correta: a presença de bolhas com leito róseo, úmido e brilhante, dor intensa e enchimento capilar/blanqueamento preservados define queimadura de 2º grau superficial (espessura parcial superficial) — acomete epiderme e derme papilar, com boa perfusão e terminações nervosas viáveis. 1º grau é apenas eritema, sem bolhas. No 2º grau profundo o leito é mais pálido/esbranquiçado, seco, com dor reduzida e enchimento capilar lentificado ou ausente — não é o caso. 3º grau é seco, esbranquiçado ou acastanhado, endurecido e indolor (destruição de terminações nervosas). 4º grau atinge estruturas profundas (fáscia, músculo, osso), incompatível com o achado descrito.
Menino, 5 anos, sofreu respingos de óleo quente enquanto brincava próximo ao fogão. Ao exame apresenta múltiplas queimaduras de 2º grau pequenas, arredondadas e esparsas, distribuídas de forma irregular pela face anterior do tronco e pelos membros superiores, sem formar áreas contíguas. Está estável, sem sinais de queimadura de via aérea. Diante desse padrão de lesões pequenas e dispersas, qual é o método mais adequado para estimar a superfície corporal queimada?
Correta: Para queimaduras pequenas, irregulares ou esparsas, o método recomendado é a regra da palma da mão: a superfície palmar do próprio paciente (palma + dedos) corresponde a aproximadamente 1% da SCQ, permitindo somar as áreas dispersas. A regra dos nove foi concebida para queimaduras extensas e confluentes; aplicada a lesões pequenas e dispersas superestima grosseiramente a área. A fórmula de Parkland calcula VOLUME de reposição a partir da SCQ já conhecida — não estima área. Atribuir todo o tronco anterior ignora que as lesões são apenas pontos esparsos, superestimando a SCQ. Incorreto: na criança as proporções corporais diferem (cabeça relativamente maior, membros inferiores menores), exigindo ajuste (Lund-Browder) — a regra dos nove clássica do adulto não se aplica sem correção.
Homem, 40 anos, 70 kg, vítima de queimadura por chama em incêndio domiciliar. É admitido na emergência 2 horas após o acidente. Ao exame, apresenta queimaduras de espessura parcial profunda e total acometendo todo o tronco anterior e todo o membro superior direito; há ainda eritema doloroso, sem bolhas, em face. PA 110/70 mmHg, FC 118 bpm, FR 22 ipm, SatO2 97%. Utilizando a fórmula de Parkland e a regra dos nove, qual deve ser a velocidade de infusão de Ringer lactato para a PRIMEIRA metade do volume calculado?
A regra dos nove computa apenas queimaduras de espessura parcial e total: tronco anterior (18%) + MSD (9%) = 27% de SCQ. O eritema facial (1º grau) NÃO entra no cálculo. Parkland = 4 mL x 70 kg x 27% = 7560 mL nas 24h, metade (3780 mL) nas primeiras 8 horas CONTADAS A PARTIR DA QUEIMADURA. Como o paciente chegou 2h após, restam 6h para infundir os 3780 mL: 3780/6 = 630 mL/h (opção correta). 472 mL/h ignora o tempo decorrido (3780/8). 315 mL/h distribui o total uniformemente nas 24h (7560/24), erro clássico. 840 mL/h resulta de incluir indevidamente o eritema de 1º grau na SCQ. 236 mL/h corresponde à velocidade da segunda metade (3780/16), não da primeira.
Mulher, 55 anos, 60 kg, com queimaduras de espessura parcial e total em 35% da superfície corporal por escaldadura. Iniciou-se reposição com Ringer lactato conforme a fórmula de Parkland. Decorridas 6 horas da queimadura, mantém-se hemodinamicamente estável (PA 108/68 mmHg, FC 104 bpm), porém o débito urinário nas últimas 2 horas foi de 15 mL/h (0,25 mL/kg/h). Qual a conduta mais adequada neste momento?
A fórmula de Parkland fornece apenas uma ESTIMATIVA INICIAL; a reposição deve ser titulada pelo débito urinário, cuja meta no adulto é 0,5-1 mL/kg/h (aqui, 30-60 mL/h). Com 0,25 mL/kg/h, a paciente está sub-ressuscitada e a conduta é aumentar a infusão de cristaloide (opção correta). Furosemida é contraindicada: a oligúria decorre de hipovolemia, não de sobrecarga, e o diurético mascararia o principal parâmetro de monitorização. Coloide/albumina não é indicado nas primeiras 24h pela fórmula de Parkland (extravasamento capilar). Manter a velocidade perpetua a hipoperfusão renal. Reduzir a infusão agravaria a oligúria e o risco de necrose tubular aguda.
Homem, 30 anos, previamente hígido, admitido com queimaduras de espessura parcial em 25% da superfície corporal por líquido inflamável. Encontra-se consciente, com vias aéreas pérvias. Sobre a reposição volêmica inicial do grande queimado nas primeiras 24 horas, assinale a alternativa que descreve corretamente a fórmula de Parkland.
A fórmula de Parkland preconiza Ringer lactato (cristaloide balanceado, evita acidose hiperclorêmica) na dose de 4 mL x peso (kg) x %SCQ nas 24h, infundindo-se 50% nas primeiras 8 horas (contadas a partir da queimadura) e os 50% restantes nas 16 horas seguintes (opção correta). O cristaloide de escolha é o Ringer lactato, não o soro fisiológico. 2 mL/kg/%SCQ corresponde à fórmula de Brooke modificada, não à de Parkland. A distribuição não é uniforme: a primeira metade é concentrada nas 8 horas iniciais. Coloide (albumina) não é usado nas primeiras 24h pelo extravasamento capilar da fase aguda.
Homem, 35 anos, vítima de queimadura por chama em incêndio domiciliar, sem perda de consciência. Ao exame, apresenta queimaduras de espessura parcial acometendo toda a face anterior do tronco (tórax e abdome) e todo o membro superior direito em sua circunferência. PA 120x80 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 98%. Utilizando a regra dos nove de Wallace, qual a superfície corporal queimada (SCQ) estimada?
Correta:27%. Pela regra dos nove no adulto: face anterior do tronco = 18% e membro superior (circunferencial) = 9%; 18 + 9 = 27%. 9% considera apenas o membro superior, ignorando o tronco. 18% considera apenas o tronco anterior, ignorando o braço. 36% superestima, como se todo o tronco (anterior + posterior = 36%) estivesse queimado. 45% soma tronco inteiro (36%) + braço (9%), mas o dorso está poupado.
Mulher, 28 anos, previamente hígida, derramou água fervente sobre o antebraço esquerdo há 20 minutos. Ao exame, a lesão apresenta base rósea e úmida, com flictenas (bolhas) íntegras, é intensamente dolorosa ao toque, com enchimento capilar preservado e teste de branqueamento positivo à digitopressão. Restante do exame sem alterações. Qual a classificação de profundidade dessa queimadura?
Correta: a tríade flictenas + base rósea/úmida + dor intensa com branqueamento e enchimento capilar preservados caracteriza a queimadura de segundo grau superficial (espessura parcial superficial), que preserva a microcirculação dérmica e cicatriza sem enxerto. O primeiro grau é apenas eritema seco, sem flictenas. O segundo grau profundo cursa com base mais pálida/mosqueada, menos dolorosa e branqueamento lentificado ou ausente, justamente o oposto do descrito. O terceiro grau é seco, esbranquiçado ou carbonáceo, indolor e sem branqueamento. O quarto grau atinge músculo/osso, incompatível com flictenas e base rósea viável.
Homem, 45 anos, resgatado de incêndio, com queimadura por chama. Ao exame: toda a face anterior do tórax e abdome apresenta eritema, superfície seca, dolorosa, que embranquece à digitopressão e SEM flictenas; ambos os membros inferiores, em toda a sua circunferência, exibem extensas flictenas sobre base rósea, úmida e dolorosa. PA 100x60 mmHg, FC 118 bpm. Para o cálculo da reposição volêmica pela fórmula de Parkland, qual é a superfície corporal queimada a ser considerada?
Correta:36%. As queimaduras de primeiro grau (superficiais/epidérmicas) NÃO entram no cálculo da SCQ para reposição volêmica; a face anterior do tronco descrita (eritema, seca, com branqueamento, sem flictenas) é de primeiro grau e deve ser excluída. Contam apenas as lesões de espessura parcial/total: cada membro inferior circunferencial = 18%, totalizando 36%. 54% inclui indevidamente o tronco anterior (18%) de primeiro grau. 45% e (B) 27% resultam de contabilizar parcialmente o tronco ou apenas parte dos membros. 18% considera apenas um membro inferior.
Homem, 35 anos, 70 kg, é admitido no pronto-socorro após queimadura por chama de fogo ocorrida há 2 horas em incêndio domiciliar. Ao exame, apresenta queimaduras de 2º e 3º graus estimadas em 40% da superfície corporal total queimada (SCTQ). PA 118 x 76 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 ipm, SatO2 97% em ar ambiente. Optou-se por reposição volêmica pela fórmula de Parkland com Ringer lactato. Considerando o tempo decorrido desde a queimadura, qual deve ser a velocidade de infusão nas próximas horas para cumprir a primeira metade do volume calculado?
Pela fórmula de Parkland, o volume total nas primeiras 24 horas é 4 mL x peso (kg) x %SCTQ = 4 x 70 x 40 = 11.200 mL. A primeira metade (5.600 mL) deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e não da admissão. Como já se passaram 2 horas, restam 6 horas para infundir os 5.600 mL: 5.600/6 ≈ 933 mL/h. 700 mL/h resulta de dividir 5.600 por 8 horas, ignorando o tempo decorrido desde a lesão — erro clássico. 350 mL/h corresponderia à metade indevida do valor de A. 1.400 mL/h superestima ao considerar prazo muito curto. 466 mL/h corresponde à velocidade da segunda fase (5.600 mL em 16 h/...) aplicada equivocadamente à primeira fase.
Mulher, 40 anos, 60 kg, sofre queimadura de 2º grau atingindo 30% da superfície corporal total queimada (SCTQ) por escaldadura. Encontra-se estável e a equipe decide iniciar reposição volêmica guiada pela fórmula de Parkland. Qual é o volume total e a solução a serem administrados nas primeiras 24 horas?
A fórmula de Parkland prevê 4 mL x peso (kg) x %SCTQ nas primeiras 24 horas, com cristaloide isotônico, sendo o Ringer lactato a solução de escolha (mais próximo do plasma, evita acidose hiperclorêmica). Cálculo: 4 x 60 x 30 = 7.200 mL de Ringer lactato. 3.600 mL corresponde apenas à primeira metade (primeiras 8 h), não ao total das 24 h. Soro fisiológico 0,9% não é a primeira escolha por risco de acidose hiperclorêmica. 10.800 mL usaria fator 6 mL/kg/%, que não é o de Parkland. Solução glicosada 5% Inadequada: para expansão volêmica na fase aguda, pois se distribui livremente e pode causar hiponatremia.
Homem, 28 anos, 80 kg, com queimaduras de 2º e 3º graus em 50% da superfície corporal total queimada, está em reposição volêmica pela fórmula de Parkland com Ringer lactato há 4 horas. Foi passada sonda vesical de demora. Na última hora, o débito urinário foi de 20 mL (0,25 mL/kg/h). PA 100 x 60 mmHg, FC 122 bpm, extremidades frias. Qual é a conduta mais apropriada?
A reposição no grande queimado é titulada pelo débito urinário, alvo de 0,5-1 mL/kg/h no adulto (para 80 kg, 40-80 mL/h). Débito de 20 mL/h (0,25 mL/kg/h) com taquicardia e extremidades frias indica reposição insuficiente/hipovolemia, e a conduta é aumentar a velocidade de infusão do cristaloide. Furosemida é contraindicada: a oligúria é por hipovolemia, não sobrecarga, e o diurético mascararia o parâmetro-guia e agravaria a depleção. Noradrenalina trata vasoplegia, não hipovolemia, e piora a perfusão renal antes da reposição adequada. Manter a infusão ignora o sinal objetivo de subressuscitação. Albumina geralmente é reservada para após as primeiras 12-24 h e não é o primeiro passo diante de cristaloide ainda titulável.
Homem, 35 anos, vítima de incêndio domiciliar, é admitido na sala de emergência 40 minutos após queimadura por chama. Consciente, PA 120x80 mmHg, FC 110 bpm, FR 22 ipm, SatO2 96%. Ao exame das lesões: face e região anterior do pescoço com eritema seco, doloroso, que empalidece à digitopressão e SEM formação de bolhas; toda a face anterior do tronco com bolhas, base rósea e úmida, intensamente dolorosa e com enchimento capilar preservado; membro superior direito acometido em toda a sua extensão (circunferencial) com bolhas; e face anterior de ambos os membros inferiores com bolhas e base úmida. Utilizando a Regra dos Nove, assinale a superfície corporal queimada (SCQ) a ser considerada para o cálculo da reposição volêmica.
Correta: 45%. No cálculo da SCQ para reposição volêmica (fórmula de Parkland) só entram as áreas de espessura parcial (2º grau) e total (3º grau); as lesões de 1º grau (epidérmicas) são EXCLUÍDAS. O eritema seco da face/pescoço, que empalidece e não forma bolhas, é 1º grau e não conta. Somam-se: tronco anterior = 18%, membro superior direito inteiro = 9%, e face anterior de cada membro inferior = 9% (metade dos 18% de cada perna), totalizando 18%. Logo 18 + 9 + 18 = 45%. 27% contabiliza apenas tronco anterior (18) + MSD (9) e esquece os membros inferiores. 36% soma tronco (18) + MMII anteriores (18), mas omite o membro superior. 49,5% inclui indevidamente o eritema de face (1º grau, ~4,5%), que não entra no cálculo. 54% conta os membros inferiores por inteiro (18% cada) em vez de apenas a face anterior de cada um.
Mulher, 28 anos, sofreu derramamento de óleo quente no antebraço direito há 2 horas. Ao exame da lesão: superfície com áreas de coloração rósea-pálida entremeada a pontos esbranquiçados (aspecto mosqueado), leito predominantemente seco, presença de algumas bolhas rotas, enchimento capilar lentificado a ausente e redução da sensibilidade dolorosa ao teste com agulha, embora ainda perceba a pressão. Os pelos permanecem firmemente aderidos. Assinale a classificação de profundidade dessa queimadura.
Correta: o conjunto leito mosqueado róseo-esbranquiçado, relativamente seco, enchimento capilar lentificado/ausente e hipoestesia dolorosa (sensibilidade parcialmente preservada, pelos ainda aderidos) caracteriza a espessura parcial PROFUNDA (2º grau profundo), que atinge a derme reticular. A espessura parcial superficial tem leito róseo e úmido, muito doloroso, com enchimento capilar rápido — o contrário do descrito. Na espessura total o leito é branco-nacarado ou carbonizado, seco, coriáceo, INSENSÍVEL e com pelos que se destacam facilmente; aqui há sensibilidade residual e pelos aderidos. O 1º grau é apenas eritema seco sem bolhas e muito doloroso, sem comprometimento dérmico. O 4º grau acomete estruturas profundas (fáscia, músculo, osso), incompatível com uma lesão dérmica por óleo quente.
Homem, 40 anos, 70 kg, vítima de incêndio em ambiente fechado, é admitido no pronto-socorro com queimaduras de espessura parcial profunda e total acometendo, pela regra dos nove, 40% da superfície corporal. Está consciente, PA 110×70 mmHg, FC 120 bpm. Optou-se por reposição volêmica com Ringer lactato segundo a fórmula de Parkland. Qual é o volume total de Ringer lactato a ser infundido nas primeiras 24 horas?
Correta: 11.200 mL. A fórmula de Parkland estima o volume das primeiras 24 horas como 4 mL × peso (kg) × %SCQ = 4 × 70 × 40 = 11.200 mL de Ringer lactato, com metade nas primeiras 8 horas (contadas a partir do momento da queimadura) e a outra metade nas 16 horas seguintes. 2.800 mL corresponderia a 1 mL/kg/%SCQ, subestimando o volume. 5.600 mL é a metade (o volume das primeiras 8 horas), não o total de 24 h. 8.400 mL usa 3 mL/kg/%SCQ (fórmula de Brooke modificada), não a de Parkland pedida. 22.400 mL dobra a estimativa (8 mL/kg/%SCQ), com risco de sobrecarga hídrica.
Mulher, 25 anos, 60 kg, com queimaduras de espessura parcial em 30% da superfície corporal, iniciou reposição com Ringer lactato calculada pela fórmula de Parkland há 4 horas. Encontra-se com PA 100×60 mmHg, FC 122 bpm e, à sondagem vesical de demora, apresenta débito urinário nas últimas horas em torno de 15 mL/h (0,25 mL/kg/h). Está sem sinais de sangramento ativo. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
Correta: a fórmula de Parkland fornece apenas uma estimativa inicial; a reposição deve ser titulada pela diurese, cujo alvo no adulto é 0,5–1 mL/kg/h (aqui ~30–60 mL/h). O débito de 0,25 mL/kg/h com taquicardia indica ressuscitação insuficiente, e a conduta é aumentar a velocidade de infusão do cristaloide. Furosemida é erro clássico — a oligúria decorre de hipovolemia, e o diurético agravaria a depleção. Vasopressor não corrige déficit volêmico e mascara a hipovolemia; só após reposição adequada e persistindo choque. Não há anemia/sangramento que justifique hemácias na fase de ressuscitação. Manter a infusão diante de oligúria e taquicardia perpetua a hipoperfusão, com risco de lesão renal aguda.
Um homem de 34 anos é trazido à unidade de pronto atendimento após incêndio em sua residência. Relata ter arrancado a camisa em chamas. Ao exame, apresenta-se consciente, orientado, PA 120x80 mmHg, FC 98 bpm. Observam-se lesões acometendo toda a face anterior do tórax e todo o abdome anterior, além de toda a circunferência do membro superior direito. As áreas apresentam-se com aspecto vermelho-vivo, úmido, presença de flictenas (bolhas) e são dolorosas ao toque. Não há acometimento de couro cabeludo, dorso ou membros inferiores. Considerando a Regra dos Nove para estimar a extensão da lesão, qual é o percentual de superfície corporal queimada (SCQ) deste paciente?
Pela Regra dos Nove no adulto: tórax anterior (9%) + abdome anterior (9%) + todo o membro superior, que soma 9% (face anterior 4,5% + face posterior 4,5%), totalizam 27%. A alternativa de 18% desconsidera indevidamente a face posterior do braço (queimadura circunferencial abrange 9% inteiro). 36% incluiria erroneamente uma área a mais (ex.: dorso). 45% superestima grosseiramente. As lesões vermelho-vivas, úmidas, com flictenas e dolorosas caracterizam espessura parcial superficial (2º grau superficial), mas o cálculo de SCQ independe da profundidade.
Uma mulher de 45 anos chega ao pronto-socorro após derramar óleo fervente sobre o membro inferior. Ao exame, a lesão acomete toda a face anterior da coxa e da perna direitas. A área apresenta coloração esbranquiçada e amarelo-nacarada em placas, aspecto seco e endurecido (consistência de couro), sem enchimento capilar e, marcadamente, INDOLOR ao toque e à punção com agulha, com ausência de sensibilidade local. Alguns pontos mostram trombose de vasos superficiais visíveis. Com base nesses achados, qual é a classificação de profundidade mais provável desta queimadura?
A ausência de dor e de sensibilidade (destruição das terminações nervosas dérmicas), o aspecto seco, endurecido, esbranquiçado/nacarado, sem enchimento capilar e com trombose vascular visível define espessura total (3º grau). A espessura parcial superficial (2º grau superficial) é úmida, rósea, com flictenas e MUITO dolorosa. A espessura parcial profunda é menos dolorosa que a superficial, porém ainda apresenta alguma sensibilidade e aspecto rosa-pálido/mosqueado. A queimadura superficial (1º grau) é eritematosa, seca, dolorosa e SEM bolhas (ex.: eritema solar), acometendo só a epiderme.
Uma criança de 3 anos é levada à UPA pela mãe após escaldadura com água quente. Ao exame, a criança está chorosa, hidratada, com lesões de aspecto róseo, úmido, com bolhas e dolorosas, acometendo toda a cabeça/pescoço e toda a face anterior do tronco. O médico plantonista sabe que a Regra dos Nove clássica do adulto subestima a extensão em crianças pequenas, pois nelas a cabeça é proporcionalmente maior e os membros inferiores menores. Utilizando a proporção pediátrica adequada (cabeça ≈ 18% e tronco anterior ≈ 18% na criança pequena), qual é a estimativa de superfície corporal queimada e a conduta inicial mais apropriada quanto à reposição volêmica?
Na criança pequena, a Regra dos Nove modificada atribui ~18% à cabeça/pescoço e ~18% ao tronco anterior, somando 36% de SCQ. Queimaduras de espessura parcial (aspecto róseo, úmido, com bolhas, doloroso) acima de ~10-15% em crianças caracterizam grande queimado e indicam reposição volêmica formal com cristaloide (Ringer lactato, guiada por fórmula tipo Parkland) e encaminhamento a centro de referência. A opção de 27% erra a proporção pediátrica e a conduta. 18% subestima ao aplicar valores de adulto. A transfusão de hemácias não é a medida inicial na fase de ressuscitação da queimadura aguda, cuja perda é plasmática/hidroeletrolítica.
Um homem de 30 anos, previamente hígido, é levado à unidade de pronto-socorro do SUS após incêndio em sua residência. Ao exame, apresenta-se consciente, orientado, com queimaduras de espessura parcial e total acometendo todo o membro superior direito (9%), toda a face anterior do tronco (18%) e toda a coxa direita anterior e posterior (9%), totalizando 36% da superfície corporal queimada. Pesa 70 kg. Sinais vitais: PA 110x70 mmHg, FC 104 bpm. A equipe decide iniciar a reposição volêmica pela fórmula de Parkland. Qual é o volume total de Ringer lactato a ser infundido nas primeiras 24 horas?
Correta: a fórmula de Parkland prevê 4 mL x peso (kg) x %SCQ nas primeiras 24 horas com Ringer lactato: 4 x 70 x 36 = 10.080 mL. As demais são erros de cálculo: 5.040 mL corresponderia a usar 2 mL/kg/%; 2.520 mL a 1 mL/kg/%; 20.160 mL ao dobro (8 mL/kg/%), todos incompatíveis com a fórmula de Parkland padrão adotada nas diretrizes brasileiras.
Uma mulher de 45 anos, 60 kg, sofreu queimaduras de espessura parcial e total em 40% da superfície corporal em acidente com álcool líquido, sendo admitida no pronto-socorro exatamente 2 horas após o trauma. A reposição volêmica pela fórmula de Parkland (4 mL x peso x %SCQ, com Ringer lactato) foi corretamente prescrita. Considerando que a primeira metade do volume calculado deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, qual deve ser a velocidade aproximada de infusão neste momento da admissão?
Correta: Parkland = 4 x 60 x 40 = 9.600 mL/24h; a primeira metade (4.800 mL) corre nas primeiras 8 horas CONTADAS DA QUEIMADURA. Como já se passaram 2 horas, restam 6 horas para infundir 4.800 mL: 4.800/6 = 800 mL/h. 600 mL/h (=4.800/8) ignora o tempo decorrido; 1.200 mL/h seria em 4 h; 400 mL/h corresponde à segunda metade (4.800/12). O ajuste pelo tempo desde o trauma é o ponto-chave.
Um homem de 55 anos, 80 kg, com queimaduras em 45% da superfície corporal, está em reposição volêmica com Ringer lactato pela fórmula de Parkland desde a admissão, há 4 horas. Encontra-se sedado e a equipe monitora a resposta à ressuscitação. A pressão arterial é 100x60 mmHg e a frequência cardíaca 100 bpm. Qual é o parâmetro mais adequado para guiar o ajuste (aumento ou redução) da velocidade de infusão nas queimaduras extensas?
Correta: a fórmula de Parkland fornece apenas uma ESTIMATIVA inicial; o guia real da ressuscitação é o débito urinário, alvo de 0,5-1 mL/kg/h no adulto (cerca de 30-50 mL/h), titulando a infusão para cima ou para baixo conforme a diurese. Pressão arterial e frequência cardíaca são marcadores tardios e menos fidedignos na fase inicial do choque do queimado; manter o volume calculado fixo, sem titulação, leva a hipo ou hiper-ressuscitação; FC < 60 bpm não é meta.
Uma mulher de 28 anos chega à Unidade Básica de Saúde após derramar água fervente sobre a mão e o antebraço direitos há 2 horas. Ao exame, a área acometida apresenta-se com bolhas íntegras e rompidas, base rósea e úmida, dolorosa ao toque e com enchimento capilar preservado, comprometendo a face palmar da mão e o punho. Não há sinais de comprometimento circunferencial. Após analgesia, limpeza com solução fisiológica e desbridamento das bolhas rotas, qual é a conduta mais adequada em relação ao cuidado da ferida e ao encaminhamento?
Trata-se de queimadura de segundo grau (bolhas, base rósea úmida e dolorosa) acometendo a mão, considerada área nobre/funcional; o cuidado local inclui limpeza, desbridamento de bolhas rotas e curativo com agente tópico (ex.: sulfadiazina de prata), e o acometimento de mão é critério de encaminhamento ao centro de referência de queimados pelo risco de sequela funcional. Curativo seco com retorno em 30 dias Inadequado: e ignora a área especial. Deixar exposta ao ar contraria o manejo de ferida úmida protegida. Enxertia imediata na UBS é inviável nesse nível de atenção e não é conduta inicial.
Um homem de 45 anos, diabético, é levado ao pronto-socorro após acidente com fogos de artifício, apresentando queimadura em membro superior direito há 3 horas. Ao exame, a lesão é circunferencial no antebraço, com aspecto seco, endurecido, coloração esbranquiçada/acastanhada e indolor ao toque, sugerindo espessura total. Nota-se que a mão distal está com enchimento capilar lentificado, palidez, parestesia e diminuição da amplitude de movimento dos dedos. Os pulsos radial e ulnar estão diminuídos em relação ao contralateral. Diante desse quadro, qual é, respectivamente, a complicação suspeita e a conduta indicada?
A queimadura circunferencial de espessura total forma uma escara rígida e inelástica que, com o edema progressivo, comprime as estruturas distais causando isquemia (palidez, parestesia, enchimento capilar lentificado, pulsos diminuídos) — quadro compatível com síndrome compartimental/comprometimento vascular, cuja conduta é a escarotomia de urgência para descompressão. TVP não explica a escara rígida indolor nem o mecanismo. Infecção por Pseudomonas é complicação mais tardia e não cursa com isquemia aguda por compressão. Retração cicatricial é sequela tardia, incompatível com a urgência isquêmica atual. Esse quadro também é critério de transferência para centro de queimados.
Uma criança de 2 anos e 4 meses é levada por seus pais à Unidade de Pronto Atendimento cerca de 30 minutos após ter derramado sobre si uma xícara de café recém-passado. Ao exame, apresenta-se chorosa, corada, com boa perfusão, sem estridor ou dificuldade respiratória. Na face anterior do tórax e no abdome superior observa-se área eritematosa, brilhante e muito dolorosa, com formação de bolhas de conteúdo claro e base rosada que empalidece à digitopressão. Não há acometimento de face, mãos, períneo ou circunferência de segmento. A criança aceita líquidos por via oral. Considerando a classificação da profundidade dessa lesão, qual é o diagnóstico mais adequado?
Correta: a presença de bolhas (flictenas) com base rosada, dor intensa e enchimento capilar preservado (empalidece à digitopressão) caracteriza queimadura de 2º grau superficial, com acometimento de epiderme e derme superficial. Primeiro grau (eritema seco, sem bolhas, ex.: solar) não forma flictenas. Terceiro grau apresenta aspecto branco-nacarado ou carbonizado, seco, indolor e sem reenchimento capilar por destruição de todas as camadas. Quarto grau atinge estruturas profundas (músculo/osso), incompatível com o quadro descrito.
Um homem de 34 anos, pedreiro, é trazido à unidade de pronto atendimento 40 minutos após explosão de botijão de gás em sua residência. Encontra-se consciente, orientado, sem estridor, com voz preservada, sem queimadura de vibrissas e sem escarro carbonáceo. Ao exame, observam-se flictenas íntegras e rotas, com base rósea, úmida, brilhante e intensamente dolorosa, acometendo toda a face anterior do tronco e todo o membro superior direito (faces anterior e posterior). Na face, há eritema difuso, sem flictenas, doloroso ao toque, com enchimento capilar preservado. Os demais segmentos corporais estão poupados. Não há comorbidades. Considerando a Regra dos Nove, qual é a superfície corporal queimada (SCQ) que deve ser considerada para o cálculo da reposição volêmica?
Correta: 27%. Pela Regra dos Nove no adulto, a face anterior do tronco corresponde a 18% e o membro superior inteiro (anterior + posterior) a 9%, totalizando 27%. Ponto-chave do cálculo: apenas as queimaduras de 2º e 3º graus entram na estimativa da SCQ para reposição volêmica — a lesão da face, com eritema sem flictenas, doloroso e com enchimento capilar preservado, é de 1º grau e NÃO é computada. 36%: soma indevidamente a cabeça/face (9%) e a queimadura de 1º grau, contrariando a regra de não contabilizar 1º grau. 18%: considera apenas o tronco anterior, esquecendo o membro superior direito. 22,5%: valor sem correspondência com os múltiplos de 9 da regra (confunde com a adaptação pediátrica dos membros inferiores, 13,5%).
Um lactente de 9 meses, previamente hígido, pesando 9 kg, é levado à unidade de pronto atendimento pela mãe cerca de 30 minutos após derrubar sobre si uma panela com água fervente que estava na borda do fogão. Está choroso, ativo, com boa perfusão periférica e vias aéreas pérvias. Ao exame, há flictenas rotas com base rósea, úmida e muito dolorosa, acometendo toda a cabeça e o pescoço e toda a face anterior do tronco. Dorso, membros superiores, membros inferiores e períneo estão poupados. O plantonista precisa estimar a superfície corporal queimada (SCQ) para calcular a reposição volêmica e indicar a transferência para centro de referência em queimados. Qual é a estimativa correta da SCQ?
Correta: 36%. Na criança pequena, a Regra dos Nove deve ser adaptada às proporções corporais: a cabeça/pescoço representa 18% (e não 9%, como no adulto) e cada membro inferior 13,5% (e não 18%), porque o segmento cefálico é proporcionalmente maior e os membros inferiores menores. Assim: cabeça/pescoço (18%) + tronco anterior (18%) = 36%. Alternativamente, a tabela de Lund-Browder é o método mais acurado nessa faixa etária. 27%: aplica erroneamente a proporção do adulto para o segmento cefálico (9% + 18%). 45%: soma indevidamente o dorso, que está poupado. 22,5%: mistura a proporção adaptada de membro inferior (13,5%) com segmentos não acometidos.
Uma mulher de 41 anos, cozinheira, chega ao pronto-socorro 1 hora após derramar óleo quente sobre o membro superior direito. Está estável, sem sinais de lesão inalatória. No antebraço direito observam-se flictenas rotas, com leito rosado, úmido e brilhante, enchimento capilar rápido e dor intensa ao toque e à exposição ao ar. No dorso da mão direita, a lesão tem aspecto seco, base pálida e mosqueada, com áreas esbranquiçadas, enchimento capilar lentificado e hipoalgesia à picada de agulha, embora ainda se percebam alguns folículos pilosos aderidos. Não há comprometimento circunferencial nem déficit de perfusão distal. Quais são, respectivamente, as classificações de profundidade das lesões do antebraço e do dorso da mão?
Correta. A lesão do antebraço — flictenas, leito rosado e úmido, enchimento capilar rápido e dor intensa — é típica de queimadura de 2º grau superficial (espessura parcial superficial), que atinge a derme papilar e costuma cicatrizar em 7–14 dias sem enxertia. A lesão do dorso da mão — base pálida/mosqueada, seca, enchimento capilar lentificado e hipoalgesia, mas com anexos cutâneos (folículos) ainda presentes e alguma sensibilidade — caracteriza 2º grau profundo (derme reticular), que evolui de forma arrastada e frequentemente demanda enxertia. 'Primeiro grau': incorreto, pois 1º grau é eritema SEM flictenas. 'Terceiro grau' para o dorso da mão: incorreto, pois na queimadura de espessura total a lesão é indolor/anestésica, com aspecto branco-nacarado ou marrom-acastanhado, coriácea, seca e com destruição completa dos anexos — aqui há hipoalgesia (não anestesia) e anexos preservados. 'Segundo grau profundo' para o antebraço: incompatível com leito rosado, úmido e hiperalgésico com enchimento capilar rápido.
Um homem de 30 anos, previamente hígido, pesando 70 kg, é trazido pelo SAMU à sala de emergência de uma UPA imediatamente após incêndio em sua residência, com queimaduras extensas por chama direta. Está consciente, orientado, sem estridor laríngeo, com escarro sem fuligem e sem queimadura de vias aéreas. Ao exame, apresenta queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal queimada, calculada pela regra dos nove. Os sinais vitais mostram PA de 110 x 70 mmHg, FC de 118 bpm e FR de 22 irpm. Foram obtidos dois acessos venosos periféricos calibrosos e a equipe irá iniciar a reposição volêmica com Ringer lactato segundo a fórmula de Parkland. Nesse caso, o volume total a ser infundido nas primeiras 24 horas e o volume a ser infundido nas primeiras 8 horas são, respectivamente,
A fórmula de Parkland prescreve 4 mL x peso (kg) x %SCQ de Ringer lactato nas primeiras 24 horas contadas a partir do momento da queimadura: 4 x 70 x 40 = 11.200 mL. Metade desse volume (50%) deve ser infundida nas primeiras 8 horas — 5.600 mL — e a outra metade nas 16 horas seguintes. "11.200 mL e 3.733 mL" erra ao dividir o total igualmente em três blocos de 8 horas, o que contraria a fórmula. "5.600 mL e 2.800 mL" corresponde ao uso do fator 2 mL/kg/%SCQ (fórmula de Brooke modificada/ATLS mais recente para queimadura por chama em adultos), não à fórmula de Parkland pedida no enunciado. "22.400 mL e 11.200 mL" usa fator 8 mL/kg/%SCQ, inexistente e potencialmente letal por sobrecarga volêmica.
Um homem de 45 anos, 75 kg, é internado em enfermaria de queimados após queimadura por líquido superaquecido, com lesões de segundo grau em 30% da superfície corporal. A reposição com Ringer lactato foi iniciada conforme a fórmula de Parkland logo após o acidente, e ele está com sonda vesical de demora. Passadas 3 horas do início da infusão, encontra-se lúcido, com PA de 100 x 60 mmHg, FC de 122 bpm, extremidades frias e tempo de enchimento capilar de 4 segundos. O balanço da sonda vesical registra diurese média de 15 mL/h nas últimas 2 horas. Não há sinais de congestão pulmonar. A conduta mais adequada nesse momento é
A fórmula de Parkland é apenas uma estimativa inicial: o parâmetro que titula a reposição é o débito urinário horário, cuja meta no adulto é 0,5 a 1 mL/kg/h (para 75 kg, cerca de 30 a 50 mL/h). Diurese de 15 mL/h (0,2 mL/kg/h), com taquicardia, enchimento capilar lentificado e extremidades frias, indica hipoperfusão por reposição insuficiente — a conduta é aumentar a velocidade de infusão do cristaloide (habitualmente em 20% a 30%) e reavaliar a diurese hora a hora. "Manter a velocidade calculada" é incorreto, pois a fórmula é ponto de partida e deve ser ajustada pela resposta clínica. "Administrar furosemida" é erro grave: a oligúria é pré-renal por hipovolemia, e o diurético agravaria o choque, além de invalidar a diurese como parâmetro de monitorização. "Infundir albumina em bolus" não se aplica: o coloide não é indicado nas primeiras 8 a 24 horas, período de maior extravasamento capilar, quando o cristaloide é o fluido de escolha.
Um homem de 25 anos, 80 kg, chega ao pronto-socorro exatamente 3 horas após queimadura por chama em acidente com churrasqueira, tendo sido transportado de município distante sem qualquer reposição volêmica. Ao exame, apresenta eritema doloroso, sem flictenas, em todo o tronco anterior (18%) e lesões de segundo grau profundo com flictenas em toda a cabeça e pescoço (9%) e em ambos os membros superiores (18%), pela regra dos nove. Está consciente, sem sinais de lesão inalatória, PA de 118 x 76 mmHg e FC de 110 bpm. A equipe irá iniciar Ringer lactato pela fórmula de Parkland. A velocidade de infusão a ser prescrita agora, até completar o primeiro bloco da fórmula, é de aproximadamente
Dois ajustes definem a resposta. Primeiro, queimaduras de primeiro grau (eritema sem flictenas, como o tronco anterior) NÃO entram no cálculo da superfície corporal queimada — a SCQ considerada é 9% + 18% = 27%. Parkland: 4 x 80 x 27 = 8.640 mL em 24 horas, sendo metade (4.320 mL) nas primeiras 8 horas. Segundo, a contagem do tempo começa no momento da queimadura, não na admissão: já se passaram 3 horas, restando 5 horas para infundir os 4.320 mL, ou seja, 864 mL/h. "540 mL/h" ignora as 3 horas decorridas e dilui o volume em 8 horas a partir da chegada, subrepondo o paciente. "1.440 mL/h" desconta corretamente o tempo, mas inclui indevidamente o eritema de primeiro grau (45% de SCQ), levando a sobrecarga volêmica. "900 mL/h" acumula os dois erros: inclui o primeiro grau e ignora o tempo decorrido.
Homem de 34 anos, pedreiro, é trazido ao pronto-socorro de um hospital geral cerca de 40 minutos após sofrer queimadura por chama, ao manusear álcool líquido durante um churrasco. Chega consciente, orientado, sem estridor, sem rouquidão, sem queimadura de vibrissas e sem escarro carbonáceo. Ao exame, apresenta lesões acometendo toda a face anterior do tronco e todo o membro superior direito, de forma circunferencial. As áreas queimadas exibem flictenas íntegras e rotas, com base rósea, úmida e brilhante, enchimento capilar presente e dor intensa ao toque. PA 120x70 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 irpm, SpO2 98% em ar ambiente. Considerando a regra dos nove de Wallace e as características das lesões, a superfície corporal queimada e a profundidade são, respectivamente:
Correta: 27% e segundo grau superficial. Pela regra dos nove no adulto, a face ANTERIOR do tronco vale 18% e o membro superior inteiro (anterior + posterior) vale 9%: 18 + 9 = 27%. A profundidade é definida clinicamente — flictenas com base rósea, úmida, enchimento capilar preservado e dor intensa caracterizam queimadura de segundo grau superficial (espessura parcial superficial), que cicatriza em 2 a 3 semanas sem enxerto. Errada (18% e 2º grau superficial): contabiliza apenas o tronco anterior, ignorando o membro superior. Errada (27% e 3º grau): a queimadura de terceiro grau é seca, esbranquiçada/nacarada ou carbonizada, SEM flictenas, com enchimento capilar ausente e INDOLOR por destruição das terminações nervosas. Errada (36% e 2º grau profundo): 36% corresponderia ao tronco anterior + posterior; além disso, o segundo grau profundo tem base pálida/moteada, enchimento capilar lentificado e hipoestesia — não dor intensa com base rósea.
Menina de 2 anos é levada à Unidade de Pronto Atendimento pela mãe cerca de 30 minutos após derrubar sobre si uma panela com água fervente que estava na borda do fogão. Chega chorosa, mas ativa, reativa e consolável, corada, hidratada, com enchimento capilar de 2 segundos. Pesa 12 kg. As lesões acometem toda a cabeça e o pescoço e todo o membro superior esquerdo, com flictenas íntegras, base rósea e úmida, muito dolorosas ao toque. Não há lesões em dorso, tronco anterior ou membros inferiores. A mãe traz a caderneta de vacinação em dia. O relato é compatível com o padrão das lesões. A superfície corporal queimada estimada, com a correção etária adequada, é de:
Correta: 27%. Na criança pequena a regra dos nove do adulto NÃO se aplica sem correção: o segmento cefálico é proporcionalmente maior (≈18% até cerca dos 2 anos, pela regra dos nove modificada/Lund-Browder) e os membros inferiores, menores (≈13,5% cada). Os membros superiores mantêm 9% cada, como no adulto. Assim: 18 (cabeça e pescoço) + 9 (membro superior esquerdo) = 27%. Errada (18%): aplica o valor adulto de 9% para a cabeça, subestimando a SCQ na criança — erro clássico que atrasa a reposição volêmica e a transferência a centro de queimados. Errada (22,5%): atribui 4,5% ao membro superior (valor de metade do membro, não do membro inteiro). Errada (31,5%): usa 13,5%, que é o valor do MEMBRO INFERIOR na criança, e não do superior. Observação: a estimativa de SCQ é o que define reposição volêmica (fórmula de Parkland) e o critério de grande queimado.
Homem de 52 anos, mecânico, é atendido na UPA logo após explosão de um tambor metálico durante solda. Está consciente, orientado, eupneico, sem sinais de lesão inalatória. Apresenta múltiplas lesões esparsas, irregulares e não confluentes no tórax anterior, dorso e ambos os membros superiores; somadas, as áreas queimadas equivalem aproximadamente à superfície de oito palmas da mão do próprio paciente, com os dedos estendidos. As lesões têm aspecto esbranquiçado e nacarado, textura de couro, superfície seca, vasos superficiais trombosados visíveis, ausência de enchimento capilar e ausência de dor à picada de agulha. PA 130x80 mmHg, FC 88 bpm. A superfície corporal queimada estimada e a profundidade das lesões são, respectivamente:
Correta: cerca de 8% e terceiro grau. Para queimaduras esparsas, irregulares e não confluentes, a regra dos nove é imprecisa; usa-se a regra da palma (regra de 1%), em que a palma da mão DO PACIENTE com os dedos estendidos equivale a ≈1% de sua superfície corporal — logo, 8 palmas ≈ 8% de SCQ. A descrição de lesão seca, esbranquiçada/nacarada, com aspecto de couro, vasos trombosados, enchimento capilar ausente e ANESTESIA à picada é típica de queimadura de terceiro grau (espessura total), que destrói toda a derme e as terminações nervosas e exige excisão e enxertia. Errada (4% e 2º grau profundo): 4% corresponderia a usar apenas a palma sem os dedos (≈0,5% cada), e o segundo grau profundo mantém alguma sensibilidade à pressão, com base pálida/moteada e enchimento capilar lentificado. Errada (8% e 2º grau profundo): a SCQ está certa, mas a lesão indolor, seca e nacarada não é de espessura parcial. Errada (16%): duplica indevidamente o valor da palma (2% por palma).
Homem de 35 anos, 70 kg, é trazido pelo SAMU a uma unidade de pronto atendimento após incêndio em sua residência. Refere que o acidente ocorreu há exatamente 2 horas. Ao exame: consciente, orientado, pressão arterial 110x70 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, frequência respiratória 20 irpm, sem estridor, sem queimadura de vibrissas ou escarro carbonáceo. Apresenta lesões com flictenas, base rósea e dolorosas em tronco anterior e posterior, além de lesão circunferencial esbranquiçada e indolor em membro superior direito, totalizando 40% da superfície corporal queimada. Obtidos dois acessos venosos periféricos calibrosos. O médico plantonista decide iniciar a reposição volêmica segundo a fórmula de Parkland. Considerando o horário do acidente, qual deve ser a velocidade aproximada de infusão de Ringer lactato nas próximas horas?
Correta: pela fórmula de Parkland, o volume das primeiras 24 horas é 4 mL x peso x %SCQ = 4 x 70 x 40 = 11.200 mL de Ringer lactato; metade (5.600 mL) deve correr nas primeiras 8 horas contadas do MOMENTO DA QUEIMADURA, não da admissão. Como já se passaram 2 horas, restam 6 horas para infundir 5.600 mL, ou seja, cerca de 930 mL/h. A segunda opção erra ao contar as 8 horas a partir da chegada, atrasando a reposição justamente na fase de maior extravasamento capilar. A terceira ignora a distribuição 50% nas primeiras 8 horas e 50% nas 16 horas seguintes. A quarta infunde todo o volume das 24 horas em 8 horas, expondo o paciente a hiper-hidratação, edema e síndrome compartimental ('fluid creep').
Mulher de 28 anos, 60 kg, previamente hígida, é atendida em unidade de pronto atendimento cerca de 30 minutos após ter sofrido escaldadura por água fervente enquanto cozinhava. Encontra-se consciente, orientada, corada, com pressão arterial 118x76 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, saturação de oxigênio 98% em ar ambiente, sem sinais de lesão de via aérea. Ao exame, apresenta lesões eritematosas com flictenas íntegras, dolorosas ao toque, acometendo tórax anterior e ambos os membros superiores, estimadas em 25% da superfície corporal queimada pela regra dos nove. Foi puncionado acesso venoso periférico calibroso em área não queimada. De acordo com a fórmula de Parkland, qual é a conduta correta quanto à reposição volêmica inicial?
Correta: a fórmula de Parkland prevê 4 mL x peso (kg) x %SCQ de Ringer lactato nas primeiras 24 horas — 4 x 60 x 25 = 6.000 mL —, com metade (3.000 mL) nas primeiras 8 horas contadas do momento da queimadura e a outra metade nas 16 horas seguintes. A solução glicosada a 5% é hipotônica, não expande o intravascular e favorece hiponatremia, não sendo cristaloide de escolha na ressuscitação do queimado. O volume de 1.500 mL corresponde a usar 1 mL/kg/%SCQ, subestimando grosseiramente a necessidade e levando ao choque hipovolêmico. Coloides como a albumina não são indicados nas primeiras horas, pois o extravasamento capilar é máximo nesse período; quando usados, são reservados para fase posterior (após as primeiras 8 a 24 horas).
Homem de 40 anos, 80 kg, vítima de queimadura por chama em ambiente aberto, com 30% da superfície corporal queimada em queimaduras de segundo e terceiro graus, foi admitido em pronto-socorro e iniciou reposição com Ringer lactato conforme a fórmula de Parkland, além de sondagem vesical de demora. Após 4 horas de infusão, apresenta pressão arterial 100x60 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, extremidades frias, tempo de enchimento capilar de 4 segundos e débito urinário nas duas últimas horas de 15 mL/h. Não há sinais de sangramento ativo, e o exame do abdome e do tórax é normal. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
Correta: a fórmula de Parkland é apenas uma ESTIMATIVA inicial; o parâmetro que guia o ajuste é a resposta clínica, sobretudo o débito urinário (alvo de 0,5 a 1 mL/kg/h no adulto, ou seja, 40 a 80 mL/h para 80 kg). Com 15 mL/h, taquicardia e enchimento capilar lentificado, o paciente está hipoperfundido e a taxa de infusão deve ser aumentada (tipicamente em 20% a 30%) e reavaliada. Manter a velocidade fixa ignora a titulação, que é a essência do método. A furosemida trata o sintoma (oligúria) mascarando a hipovolemia e agrava a lesão renal por depleção de volume — só teria papel excepcional em outros contextos, jamais no queimado hipovolêmico. Vasopressores estão contraindicados antes da adequada reposição volêmica, pois pioram a perfusão tecidual e podem aprofundar as lesões.
Um homem de 32 anos é trazido à UPA cerca de 40 minutos após ter as roupas incendiadas ao reacender uma churrasqueira com álcool líquido, em ambiente aberto, sem perda de consciência. Ao exame, está consciente e orientado, sem rouquidão, sem estridor, sem chamuscamento de vibrissas nasais e sem escarro carbonáceo. PA 130x80 mmHg, FC 112 bpm, FR 22 irpm, SpO2 97% em ar ambiente. Apresenta lesões com flictenas, base rósea, úmida e muito dolorosa, acometendo toda a face anterior do tórax e do abdome, além de lesão circunferencial de aspecto semelhante em todo o membro superior direito. Peso estimado de 70 kg. Não há lesões em face, mãos ou períneo.
Pela regra dos nove no adulto, tronco anterior corresponde a 18% e todo o membro superior a 9%, totalizando cerca de 27% de superfície corporal queimada (SCQ). Queimadura de segundo grau com SCQ acima de 10-20% no adulto e queimadura circunferencial de extremidade são critérios clássicos de encaminhamento a centro de referência em queimados (Cartilha do Ministério da Saúde / critérios da ABA), após estabilização inicial: via aérea, dois acessos calibrosos, Ringer lactato (fórmula de Parkland), analgesia venosa e curativo estéril para transporte. Estimar 18% e tratar na unidade básica de saúde erra o cálculo (ignora o membro) e a conduta: 27% de SCQ jamais é caso de atenção primária. Dispensar a reposição volêmica por serem queimaduras de segundo grau superficial também erra: acima de 20% de SCQ há perda capilar sistêmica e risco de choque, exigindo reposição venosa independentemente da profundidade. E estimar 36% superestima a SCQ (esse valor exigiria acometimento de outro segmento) e leva a indicar escarotomia precipitada — em segundo grau, sem escara constritiva e com perfusão distal presente, a conduta é monitorar a perfusão, elevar o membro e transferir, nunca postergar a reposição volêmica.
Uma mulher de 27 anos procura a unidade básica de saúde três horas após derramar água fervente sobre o antebraço esquerdo enquanto cozinhava. Refere dor intensa e nega comorbidades. Ao exame, está em bom estado geral, afebril, PA 120x75 mmHg, FC 88 bpm. Observa-se lesão restrita à face anterior do antebraço esquerdo, com área aproximada de 4% da superfície corporal, apresentando flictenas — algumas íntegras e outras já rotas —, leito rosado, úmido, com enchimento capilar preservado e sensibilidade dolorosa muito aumentada ao toque. Não há acometimento de mãos, articulações, face ou períneo. No cartão de vacinação, a última dose de dT foi aplicada há oito anos.
Trata-se de queimadura de segundo grau superficial (flictenas, leito rosado, úmido, hiperalgesia, enchimento capilar preservado) com cerca de 4% de SCQ, em área não nobre — pequeno queimado, de manejo ambulatorial na atenção primária: analgesia, limpeza suave, desbridamento das flictenas rotas (tecido desvitalizado favorece infecção), curativo oclusivo com sulfadiazina de prata a 1% e reavaliação em 24 a 48 horas. Como a ferida por queimadura é considerada propensa ao tétano e a última dose de dT foi há mais de cinco anos, indica-se reforço vacinal. Incorreta: o critério de transferência não é a topografia em membro superior genérico, mas SCQ elevada, lesões profundas extensas, queimadura circunferencial ou acometimento de face, mãos, pés, períneo e articulações — nada disso está presente. Errada: em dois pontos: manter flictena rota é inadequado e não há indicação de antibiótico sistêmico profilático em queimadura (só se houver infecção estabelecida), além de considerar equivocadamente a vacinação em dia. Errada: gelo direto agrava a lesão por vasoconstrição, corticoide tópico não é indicado e a imunoglobulina antitetânica reserva-se a ferimentos de alto risco em pacientes com esquema vacinal incompleto ou desconhecido/imunossuprimidos, o que não é o caso.
Um menino de 2 anos é levado pela mãe ao pronto-socorro de um hospital geral de pequeno porte cerca de uma hora após ter sentado, acidentalmente, em uma bacia com água quente deixada no chão do banheiro. A criança chora vigorosamente, está corada, hidratada, com boa perfusão periférica, FC 130 bpm, FR 28 irpm e SpO2 98% em ar ambiente. Ao exame, há lesões eritematosas com flictenas e base úmida acometendo a região perineal, a bolsa escrotal e as nádegas, estimadas em cerca de 7% da superfície corporal. Não há lesões em face, mãos, pés ou vias aéreas, e o relato dos familiares é compatível com o padrão das lesões.
Queimadura acometendo períneo e genitália é critério formal e independente de encaminhamento a centro de referência em queimados — assim como face, mãos, pés, articulações e queimaduras circunferenciais —, pelo alto risco de infecção, de sequelas funcionais e pela dificuldade de higiene e de curativo. Somam-se aqui a idade menor de 2 anos e a extensão relevante para a faixa etária. A conduta é estabilizar, analgesiar, cobrir com curativo estéril e transferir. As demais condutas erram ao ancorar a decisão apenas na extensão percentual, ignorando o critério topográfico: nem a observação por 6 horas com liberação para curativos na unidade básica por ser menos de 10% da superfície corporal, nem o tratamento ambulatorial sob o argumento de que em menores de 5 anos só acima de 20% se encaminha, se sustentam — nenhuma extensão pequena autoriza manejo ambulatorial de queimadura perineal em lactente/pré-escolar. Prescrever antibiótico sistêmico profilático com retorno em 7 dias no próprio hospital acrescenta erro adicional: não há indicação de antibiótico sistêmico profilático em queimaduras. Vale registrar que, em queimaduras de criança, a compatibilidade entre o relato e o padrão da lesão deve ser sempre avaliada — quando incompatível, é obrigatória a notificação de suspeita de maus-tratos ao Conselho Tutelar.
Uma menina de 2 anos é levada pelos pais à unidade de pronto atendimento cerca de 15 minutos após derrubar sobre si uma panela com água fervente que estava no fogão. A mãe relata que retirou imediatamente a roupa molhada da criança e a trouxe ao serviço. Ao exame, a criança está chorosa, ativa, corada e hidratada, com vias aéreas pérvias, sem estridor, sem queimadura de face, cílios ou vibrissas nasais. Observam-se, em tórax anterior e face anterior do braço direito, áreas de eritema intenso com bolhas de conteúdo claro, base rósea, muito dolorosas ao toque, acometendo aproximadamente 8% da superfície corporal. Não há lesões circunferenciais. Qual é a conduta inicial adequada no atendimento dessa criança?
Correta: o primeiro atendimento à queimadura térmica segue a orientação do Ministério da Saúde e do ATLS/ABLS — interromper o processo de queimadura resfriando com água corrente em temperatura ambiente (nunca gelada) por cerca de 20 minutos, remover roupas e adornos não aderidos, cobrir com tecido limpo e seco e garantir analgesia, já que a queimadura de 2º grau superficial é extremamente dolorosa. Incorretas: o gelo causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e favorece hipotermia, especialmente perigosa em lactentes e pré-escolares pela alta relação superfície/massa corporal. Substâncias caseiras (pasta de dente, manteiga, borra de café) são formalmente contraindicadas: não têm efeito analgésico, contaminam a ferida e dificultam a avaliação da profundidade. Desbridamento amplo de bolhas na admissão e antibioticoprofilaxia sistêmica não são recomendados — a antibioticoterapia é reservada a infecção estabelecida, e o manejo das bolhas é feito em ambiente adequado, após limpeza e analgesia.
Lactente de 1 ano é levado à UPA após derramar água fervente sobre si. Ao exame: chora, ativo, sem estridor. Na face há eritema difuso, doloroso, sem bolhas, que embranquece à digitopressão. Em todo o tronco anterior e em todo o membro superior direito (circunferencial) observam-se bolhas rotas, leito róseo, úmido, muito doloroso, com enchimento capilar presente. Aplicando a regra dos nove adaptada para a criança, qual é a superfície corporal queimada (SCQ) a ser considerada para reposição volêmica?
Correta: 27%. As queimaduras de segundo grau superficial acometem tronco anterior (18%) e todo o membro superior direito (9%) = 27%. O eritema facial sem bolhas, doloroso e que embranquece, é queimadura de primeiro grau (superficial) e, por diretriz (ATLS/SBQ), NÃO entra no cálculo da SCQ para fórmula de Parkland. 18%: considera só o tronco, esquece o membro superior. 36%: soma indevidamente a cabeça/face (18% na criança) de primeiro grau. 45%: soma face de primeiro grau e superestima o membro, erro duplo.
Homem de 34 anos chega à UPA 1 hora após queimadura por chama em churrasco. Na face lateral da coxa direita há área de 8% com bolhas rotas; o leito exposto é seco, de coloração rósea-pálida mosqueada, com enchimento capilar lentificado e sensibilidade dolorosa à picada reduzida em relação à pele íntegra adjacente. Não há aspecto branco-nacarado nem escara endurecida. Qual é a classificação de profundidade dessa lesão?
Correta: segundo grau profundo (espessura parcial profunda) — presença de bolhas indica acometimento dérmico, e leito seco, mosqueado/pálido, enchimento capilar lentificado e hipoalgesia denotam destruição do plexo dérmico superficial e de terminações nervosas; cicatriza em mais de 21 dias, com retração, e frequentemente exige enxertia — encaminhar a serviço de referência em queimados. Segundo grau superficial: leito róseo, úmido, hiperálgico e enchimento capilar rápido — não é o caso. Terceiro grau: escara seca, branco-nacarada ou marrom-acastanhada, endurecida e ANESTÉSICA (aqui há dor residual e enchimento capilar presente). Primeiro grau: apenas eritema, sem bolhas.
Mulher de 25 anos procura a Unidade Básica de Saúde no dia seguinte a um dia de praia, queixando-se de ardência no dorso. Ao exame: eritema difuso em todo o dorso, quente, doloroso ao toque, que embranquece à digitopressão e retorna rapidamente; não há bolhas, flictenas nem áreas de descamação. Sinais vitais normais, sem sinais de desidratação. Qual é a classificação da lesão e sua implicação para o cálculo da superfície corporal queimada (SCQ)?
Correta: eritema doloroso, sem bolhas, que embranquece à digitopressão, é queimadura de primeiro grau (epiderme apenas). Por consenso (ATLS, SBQ, protocolos do SUS), queimaduras de primeiro grau NÃO são computadas na SCQ para estimativa de gravidade e reposição volêmica; o manejo é ambulatorial na APS (analgesia, hidratação da pele e orientação de fotoproteção). Segundo grau superficial exigiria bolhas/flictenas e leito úmido — ausentes. Segundo grau profundo cursa com leito mosqueado e hipoalgesia. Terceiro grau apresenta escara anestésica; nenhuma dessas descrições se aplica, e não há critério de encaminhamento a centro de queimados.
Homem de 34 anos é levado à UPA após incêndio em domicílio, com queimadura por chama há 40 minutos. Está lúcido, sem estridor, sem queimadura de vibrissas ou escarro carbonáceo. PA 120x80 mmHg, FC 98 bpm, SpO2 98% em ar ambiente. Ao exame, apresenta eritema doloroso, sem flictenas, em face e pescoço; e flictenas de base rósea, úmida e muito dolorosa acometendo todo o tronco anterior e todo o membro superior direito, de forma circunferencial. Qual é a conduta correta?
Pela regra dos nove, tronco anterior = 18% e membro superior = 9%, totalizando 27% de queimadura de 2º grau — superfície corporal queimada (SCQ) acima de 20% em adulto configura grande queimado, com indicação de reposição volêmica e transferência para centro de referência em queimados. Errada: subestima a SCQ ao ignorar o membro superior; 27% não é médio queimado e exige transferência. Errada: queimadura de 1º grau (eritema sem flictenas, como na face e pescoço) NÃO entra no cálculo da SCQ, e não há critério clínico de via aérea (sem estridor, vibrissas queimadas, escarro carbonáceo ou hipoxemia) que justifique intubação profilática. Errada: escarotomia é indicada em queimadura circunferencial de espessura total com comprometimento vascular ou ventilatório — aqui a lesão é de 2º grau superficial, dolorosa e com perfusão preservada.
Mulher de 28 anos, hígida, chega à UBS uma hora após derramar óleo quente sobre a mão direita enquanto cozinhava. Refere dor intensa. Ao exame, apresenta flictenas íntegras, de base rósea, úmida e muito dolorosa, acometendo palma e dorso da mão direita, poupando os dedos; a área estimada corresponde a cerca de 2% da superfície corporal. Não há outras lesões nem sinais de instabilidade. Qual é a conduta mais adequada?
Independentemente da pequena extensão (2%), a queimadura de 2º grau em mão é área nobre/funcional e figura entre os critérios clássicos de encaminhamento a centro de referência em queimados (junto com face, pescoço, períneo/genitália, pés e articulações), pelo risco de sequela funcional e necessidade de reabilitação — o cuidado local (analgesia, limpeza e curativo não aderente) é feito na UBS antes do encaminhamento. Errada: o cuidado da ferida está correto, mas omite o encaminhamento obrigatório por área nobre. Errada: gelo direto é contraindicado — agrava a lesão por vasoconstrição e aprofundamento térmico; o resfriamento deve ser com água corrente em temperatura ambiente. Errada: mantém a paciente fora do nível de atenção indicado e o debridamento indiscriminado de flictenas íntegras não é conduta de rotina na APS.
Homem de 22 anos comparece à UBS 15 minutos após queimadura por água fervente no antebraço esquerdo, ocorrida em casa. Apresenta eritema e flictenas de base rósea e dolorosa acometendo cerca de 3% da superfície corporal, sem envolvimento de mãos, face, períneo, pés ou articulações. Está hemodinamicamente estável, hígido e com vacinação antitetânica em dia. Qual é a conduta inicial mais apropriada?
Trata-se de pequeno queimado (2º grau, 3% da superfície corporal, fora de áreas nobres, sem comorbidades): o cuidado inicial da ferida é resfriamento com água corrente em temperatura ambiente, limpeza com água e sabão, curativo estéril não aderente, analgesia e seguimento na APS. Errada: gelo direto é contraindicado — causa vasoconstrição, pode aprofundar a lesão e provocar hipotermia. Errada: flictena isolada não é critério de encaminhamento; os critérios são extensão, profundidade, área nobre, queimadura elétrica/química, lesão inalatória, extremos de idade, comorbidades ou trauma associado. Errada: não há indicação de antibiótico sistêmico profilático em queimadura não infectada, e a oclusão com curativo protege a lesão e reduz a dor.
Menino de 3 anos é levado à Unidade Básica de Saúde pela mãe cerca de 15 minutos após derrubar sobre o antebraço uma xícara de café recém-coado. Ao exame apresenta área eritematosa e dolorosa no antebraço direito, com pequenas bolhas íntegras, sem comprometimento circunferencial. A criança está ativa, com choro vigoroso e sinais vitais normais. Qual a conduta imediata mais adequada?
O primeiro cuidado em queimadura térmica recente é resfriar com água corrente em temperatura ambiente por cerca de 15-20 minutos, o que limita a progressão da lesão e alivia a dor (opção correta). Gelo direto causa vasoconstrição e pode aprofundar a queimadura, sendo contraindicado. Substâncias caseiras como manteiga ou pasta de dente aumentam risco de infecção e dificultam a avaliação. Não se deve romper bolhas íntegras nem iniciar antibiótico tópico como primeira medida.
Homem de 34 anos, vítima de incêndio em ambiente fechado, é trazido à UPA. Está estável hemodinamicamente. Ao exame: tórax e abdome anteriores com bolhas rompidas de base rósea, úmida e muito dolorosa; todo o membro superior direito com pele esbranquiçada, seca, endurecida e indolor; e toda a face com eritema, sem bolhas, que empalidece à digitopressão. Aplicando a regra dos nove e os critérios de profundidade, qual é a superfície corporal queimada (SCQ) a ser considerada para o cálculo da reposição volêmica?
No cálculo da SCQ para reposição volêmica contam-se apenas as queimaduras de espessura parcial (2º grau) e total (3º grau); as de espessura superficial (1º grau) NÃO entram. Tórax + abdome anteriores = 18% (2º grau) e membro superior direito inteiro = 9% (3º grau), totalizando 27% (correta). O eritema facial que empalidece à digitopressão é 1º grau (espessura superficial) e não é contabilizado, o que descarta 31,5% (soma indevida da face anterior, 4,5%) e 36% (soma indevida da cabeça inteira, 9%). 22,5% subestima a área ao desconsiderar erroneamente parte do tronco.
Mulher de 28 anos procura a UBS após escaldadura com água fervente no antebraço há cerca de 1 hora. Ao exame, a área acometida apresenta flictenas (bolhas) íntegras, base rósea e úmida, é dolorosa ao toque e mantém o enchimento capilar preservado (empalidece e reperfunde à digitopressão). Qual é a classificação de profundidade dessa queimadura?
A presença de flictenas com base rósea e úmida, dor intensa e enchimento capilar preservado caracteriza queimadura de espessura parcial superficial (2º grau superficial), correta. A de espessura superficial (1º grau) cursa com eritema SEM bolhas (ex.: eritema solar). A de espessura parcial profunda (2º grau profundo) tende a base mais pálida/esbranquiçada, menos dolorosa e com enchimento capilar lentificado ou ausente. A de espessura total (3º grau) apresenta pele seca, esbranquiçada ou carbonizada, endurecida e indolor por destruição das terminações nervosas.
Homem de 40 anos é atendido no pronto-atendimento com queimaduras acometendo toda a circunferência (faces anterior e posterior) de um dos membros inferiores. Utilizando a regra dos nove para adultos, qual percentual de superfície corporal corresponde a essa área acometida?
Na regra dos nove do adulto, cada membro inferior corresponde a 18% da superfície corporal (9% na face anterior + 9% na face posterior), portanto 18% é a resposta correta. 9% equivaleria a apenas uma das faces (ou a um membro superior inteiro, ou à cabeça e pescoço). 27% e 36% superestimam a área, correspondendo respectivamente a um membro inferior mais um membro superior, e a ambos os membros inferiores.
Homem de 35 anos, 80 kg, previamente hígido, é vítima de incêndio em ambiente fechado e chega ao pronto-socorro 2 horas após o acidente, consciente, com via aérea pérvia, sem sinais de lesão inalatória. Ao exame físico: PA 110×70 mmHg, FC 108 bpm. Apresenta queimaduras com flictenas rotas, leito róseo, úmido e intensamente doloroso em toda a face anterior do tronco e em todo o membro superior direito; na face, observa-se apenas eritema doloroso, sem flictenas. Considerando a regra dos nove e a fórmula de Parkland com Ringer lactato, assinale a vazão de infusão aproximada que deve ser instituída na admissão para cumprir a primeira etapa da reposição volêmica.
A superfície corporal queimada (SCQ) para fins de reposição inclui apenas queimaduras de 2º e 3º graus: tronco anterior (18%) + membro superior direito inteiro (9%) = 27%; o eritema simples da face (1º grau) NÃO entra no cálculo. Parkland: 4 mL × 80 kg × 27% = 8.640 mL, com metade (4.320 mL) nas primeiras 8 horas CONTADAS DO MOMENTO DA QUEIMADURA. Como o paciente chegou 2 h após o acidente, restam 6 h: 4.320 ÷ 6 = 720 mL/h (opção correta). 540 mL/h erra: ao dividir os 4.320 mL por 8 h a partir da admissão, ignorando o atraso de 2 h. 840 mL/h inclui indevidamente a face de 1º grau na SCQ (31,5%). 360 mL/h usa 2 mL/kg/% em vez dos 4 mL/kg/% da fórmula de Parkland pedida.
Homem de 42 anos, soldador, sofre queimadura por chama direta no antebraço direito após ignição de vestimenta. Na UPA, 1 hora após o trauma, encontra-se hemodinamicamente estável. Ao exame da área queimada: superfície de coloração mosqueada, alternando áreas róseo-pálidas e esbranquiçadas, ainda úmida, com algumas flictenas de conteúdo espesso; o enchimento capilar à digitopressão é lentificado, a sensibilidade dolorosa está diminuída (o paciente refere mais desconforto à pressão profunda do que dor ao toque leve) e os pelos se destacam com facilidade à tração. Com base nesses achados, assinale a classificação correta da profundidade da queimadura.
O quadro é típico de queimadura de 2º grau profunda (derme reticular): superfície mosqueada róseo-esbranquiçada ainda úmida, flictenas de conteúdo espesso, enchimento capilar lentificado, hipoestesia dolorosa (destruição parcial das terminações nervosas dérmicas) e pelos que se destacam à tração (comprometimento dos folículos pilosos, situados na derme profunda) — lesão de cicatrização lenta (>3 semanas), com risco de cicatriz hipertrófica e frequente indicação de enxertia. Errada: 1º grau é eritema seco, sem flictena. Errada: o 2º grau superficial é róseo homogêneo, muito doloroso, com enchimento capilar rápido e pelos firmes. Errada: o 3º grau é seco, branco-nacarado ou carbonáceo, indolor e sem qualquer enchimento capilar — aqui ainda há umidade, perfusão lentificada e sensibilidade à pressão.
Mulher de 28 anos sofre queimadura por escaldadura com água fervente em ambiente doméstico e é levada à emergência. Ao exame físico, apresenta queimaduras de segundo grau, com flictenas e leito róseo doloroso, acometendo toda a face anterior do tronco e todo o membro inferior esquerdo (faces anterior e posterior). Não há outras áreas acometidas. De acordo com a regra dos nove de Wallace, assinale a estimativa da superfície corporal queimada dessa paciente.
Pela regra dos nove de Wallace no adulto: face anterior do tronco = 18% e membro inferior inteiro (anterior + posterior) = 18%, totalizando 36% (opção correta). 27% subestima ao contar apenas metade do membro inferior (9%, valor de uma única face do membro ou de um membro superior inteiro). 45% superestima ao somar o tronco inteiro (36%) em vez de apenas sua face anterior. 18% considera somente uma das duas regiões queimadas.
Um eletricitário de 34 anos é levado à emergência após contato com rede de alta tensão (13.800 V) enquanto trabalhava em um poste. Foi projetado ao solo de altura de cerca de 2 metros, sem perda de consciência. Ao exame: consciente, orientado, PA 130x80 mmHg, FC 104 bpm, SpO2 97%. Apresenta lesão de aspecto necrótico e deprimido na palma da mão direita (ponto de entrada) e lesão semelhante no calcâneo esquerdo (ponto de saída), somando cerca de 2% da superfície corporal queimada. Refere dor intensa e parestesia no antebraço direito. A primeira diurese é escassa e de coloração acastanhada. O ECG mostra ritmo sinusal, sem alterações. Assinale a conduta adequada.
A vinheta reúne dois pontos-chave da queimadura elétrica de alta tensão: a superfície corporal queimada visível subestima grosseiramente a lesão (a corrente destrói músculo profundo ao longo do trajeto entre entrada e saída), e a urina acastanhada com dor e parestesia no antebraço traduz rabdomiólise com mioglobinúria e risco de síndrome compartimental. Por isso, tanto os critérios da American Burn Association quanto as diretrizes brasileiras listam a queimadura elétrica de alta tensão como critério de encaminhamento a centro de queimados independentemente da extensão — ao lado de queimaduras de face, mãos, pés, períneo e grandes articulações, químicas, circunferenciais, de espessura total e com lesão inalatória. O manejo inicial da mioglobinúria é hidratação venosa vigorosa titulada por diurese de 1 a 1,5 mL/kg/h (cerca de 75 a 100 mL/h no adulto), acima da meta habitual de 0,5 mL/kg/h do queimado térmico, até o clareamento da urina. A alternativa que libera o paciente por 'SCQ < 10%' cai exatamente na pegadinha de aplicar a regra de extensão a uma lesão elétrica. A observação de seis horas com alta se o ECG for normal ignora a rabdomiólise e o risco compartimental. A escarotomia isolada dos pontos de entrada e saída não trata a hipertensão compartimental muscular (que exigiria fasciotomia) e manter o paciente em serviço não especializado contraria o critério de transferência.
Uma auxiliar de cozinha de 28 anos chega à unidade de pronto atendimento 40 minutos após derramar óleo quente sobre o antebraço e o dorso da mão direita. Nega comorbidades e está com vacinação antitetânica em dia. Ao exame: consciente, corada, PA 118x76 mmHg, FC 92 bpm, eupneica, sem estridor ou rouquidão. A lesão é eritematosa, muito dolorosa, úmida e brilhante, com flictenas íntegras e enchimento capilar preservado no leito da queimadura, acometendo cerca de 4% da superfície corporal, incluindo todo o dorso da mão e a face dorsal dos dedos. Não há acometimento circunferencial. Assinale a conduta correta.
São dois passos. Primeiro, classificar: lesão eritematosa, úmida, brilhante, muito dolorosa, com flictenas e enchimento capilar preservado no leito corresponde a queimadura de espessura parcial superficial (2º grau superficial). Segundo, aplicar os critérios de encaminhamento: mesmo com apenas 4% de superfície corporal queimada e sem lesão circunferencial, o acometimento de MÃO é critério clássico de transferência a centro de queimados (junto de face, pés, períneo/genitália e grandes articulações), pelo risco funcional e pela reabilitação especializada que a mão exige — extensão pequena não dispensa o encaminhamento. Quanto à ferida: limpeza suave, cobertura não aderente e elevação do membro compõem o cuidado inicial, e antibiótico sistêmico profilático não tem indicação na queimadura aguda (não reduz infecção e seleciona resistência); a profilaxia, quando indicada, é tópica. A alternativa do gelo erra duas vezes: o resfriamento deve ser com água corrente em temperatura ambiente por 10 a 20 minutos, nos primeiros minutos após o trauma — gelo causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e induz hipotermia — e ainda libera a paciente ignorando o critério da mão. A opção com cefalexina erra no antibiótico sistêmico profilático e em manter o seguimento fora do serviço especializado. Enxertia de urgência não se aplica a lesão de espessura parcial superficial, que epiteliza em cerca de 7 a 14 dias sem enxerto.
Um homem de 60 anos é atendido no pronto-socorro de um hospital geral sem serviço de queimados após incêndio em sua oficina. Ao exame: consciente, orientado, sem rouquidão, estridor, escarro carbonáceo ou queimadura de vibrissas; PA 132x84 mmHg, FC 88 bpm, FR 18 irpm, SpO2 98% em ar ambiente. Apresenta, no tronco anterior, área de cerca de 6% da superfície corporal com aspecto branco-nacarado e endurecido, seca, indolor ao toque e sem enchimento capilar, não circunferencial. As demais áreas estão íntegras. Assinale a conduta correta quanto ao destino do paciente.
A descrição é típica de queimadura de espessura total (3º grau): aspecto branco-nacarado, seco e endurecido, indolor (destruição das terminações nervosas) e sem enchimento capilar. Tanto os critérios da American Burn Association quanto as normas brasileiras de assistência ao queimado incluem a queimadura de espessura total como critério de encaminhamento a centro de referência qualquer que seja a extensão — porque ela não reepiteliza espontaneamente e demanda desbridamento e enxertia por equipe especializada. Manter o paciente no hospital geral só com curativos porque a superfície é menor que 10% aplica a regra de extensão a uma lesão que já tem critério próprio de transferência, e a sulfadiazina de prata não resolve lesão de 3º grau. Aguardar infecção ou 21 dias sem epitelização retarda o tratamento definitivo e aumenta o risco de contratura e sepse. Observar por 24 horas para descartar lesão inalatória e depois internar na clínica médica não corrige o problema: o exame não mostra nenhum sinal de lesão de via aérea, e o critério que determina a transferência é a profundidade da queimadura.
Um menino de 3 anos, 15 kg, é admitido no pronto-socorro imediatamente após derrubar sobre si uma panela de água fervente. Ao exame: consciente, choroso, FC 148 bpm, PA 92x58 mmHg, enchimento capilar de 3 segundos. Apresenta lesões eritematosas com flictenas e base rósea dolorosa acometendo tórax anterior, abdome e todo o membro superior direito, correspondendo a 20% da superfície corporal queimada de segundo grau, sem lesão de via aérea. Assinale a prescrição de reposição hidroeletrolítica adequada para as primeiras 8 horas.
Fórmula de Parkland: 4 mL x peso x %SCQ = 4 x 15 x 20 = 1.200 mL de Ringer lactato nas primeiras 24 horas contadas do momento da queimadura, metade (600 mL) nas primeiras 8 horas — ou seja, 75 mL/h — e o restante nas 16 horas seguintes. A pegadinha é a especificidade pediátrica: crianças com menos de 30 kg têm reserva hepática de glicogênio limitada e risco de hipoglicemia, de modo que o volume de Parkland deve ser SOMADO à solução de manutenção com glicose, calculada por Holliday-Segar (100 mL/kg para os primeiros 10 kg + 50 mL/kg para os 5 kg seguintes = 1.250 mL/24 h, cerca de 52 mL/h). Justamente por isso, a prescrição que repete os mesmos 1.200 mL com 600 mL em 8 horas mas dispensa a solução de manutenção é o distrator principal. Usar 2 mL/kg/%SCQ (600 mL, fórmula de Brooke modificada/ATLS para adultos em algumas versões) subestima o volume. Infundir os 1.200 mL integralmente nas primeiras 8 horas concentra todo o volume das 24 horas em 8 horas, dobrando a oferta e favorecendo edema e síndrome compartimental. Em todos os casos o alvo é diurese de 1 mL/kg/h, com titulação do volume conforme a resposta.
Um homem de 34 anos é levado à sala de emergência após incêndio em ambiente doméstico. Ao exame, apresenta lesões em toda a face anterior do tórax e em todo o abdome anterior, com bolhas, base rósea úmida, dolorosas e com preenchimento capilar preservado. Há ainda queimadura acometendo todo o membro superior direito, em circunferência, com as mesmas características. A face mostra apenas eritema, sem bolhas, que empalidece à digitopressão e é doloroso. Utilizando a regra dos nove, qual é a superfície corporal queimada (SCQ) a ser considerada para reposição volêmica?
Pela regra dos nove no adulto, o tronco anterior (tórax + abdome anteriores) corresponde a 18% e todo o membro superior a 9%, totalizando 27%. O eritema facial que empalidece e é doloroso é queimadura de 1º grau (superficial), que NÃO entra no cálculo da SCQ nem na reposição volêmica — daí não somar os 9% da cabeça (erro que levaria a 36%). 18% ignora o membro superior; 22,5% não corresponde a nenhuma combinação anatômica coerente.
Mulher de 52 anos sofre queimadura por contato prolongado com superfície metálica aquecida no antebraço. Ao exame, a lesão apresenta aspecto seco, coloração esbranquiçada/acastanhada com áreas de aspecto coriáceo, ausência de bolhas, não empalidece à digitopressão e é indolor à punção da área central. Qual é a classificação de profundidade dessa queimadura?
O conjunto aspecto seco e coriáceo, cor esbranquiçada/acastanhada, ausência de bolhas, ausência de enchimento capilar e, sobretudo, indolor (destruição das terminações nervosas) define queimadura de espessura total (3º grau). O 2º superficial tem bolhas, base rósea úmida, dor intensa e empalidece; o 2º profundo é mais pálido e menos doloroso, mas mantém acometimento parcial; o 4º grau atinge estruturas profundas (músculo/osso), não descrito aqui.
Um lactente de 1 ano é atendido na UPA após derramar líquido fervente sobre si. Ao exame, há queimaduras com bolhas, base rósea, úmidas e dolorosas acometendo toda a cabeça e todo o membro superior direito. O restante do exame é normal. Considerando as diferenças de proporção corporal na faixa etária, qual é a superfície corporal queimada estimada?
No lactente, a cabeça representa proporção muito maior que no adulto — cerca de 18% pela tabela de Lund-Browder/regra dos nove modificada (vs. 9% no adulto), enquanto o membro superior mantém 9%. Assim, cabeça (18%) + membro superior (9%) = 27%. Aplicar a proporção do adulto para a cabeça (9%) daria 18%, subestimando gravemente a reposição; 36% superestima; 24% não corresponde à soma correta das áreas.
Homem de 32 anos é admitido na sala de emergência 50 minutos após queimadura por líquido superaquecido durante o trabalho em uma cozinha industrial. Está consciente, orientado, sem estridor, sem rouquidão, sem queimadura de vibrissas ou escarro carbonáceo. Ao exame, apresenta lesões eritematosas, úmidas, com flictenas e dolorosas, acometendo toda a face anterior do tronco e todo o membro superior direito, incluindo a mão. Sinais vitais: PA 118x74 mmHg, FC 104 bpm, FR 18 irpm, SpO2 98% em ar ambiente. Não há outras lesões. Assinale a conduta adequada.
Pela regra dos nove no adulto, tronco anterior (18%) + membro superior direito completo (9%) somam 27% da superfície queimada, com aspecto de espessura parcial (eritema, umidade, flictenas, dor preservada). Queimadura de espessura parcial acima de 20% da SCQ no adulto, bem como o acometimento da mão, são critérios clássicos de encaminhamento a centro de queimados, com reposição volêmica iniciada ainda no serviço de origem — logo, a conduta correta é iniciar a reposição volêmica e transferir o paciente. Observar e liberar em 6 horas ignora tanto a extensão quanto o acometimento da mão. Intubação profilática não se indica pela extensão isolada: o paciente não tem sinais de lesão inalatória (sem estridor, rouquidão, vibrissas queimadas ou escarro carbonáceo). Enxertia precoce não é conduta inicial em queimadura de espessura parcial, que tende à reepitelização, e não substitui a transferência.
Homem de 42 anos foi resgatado de incêndio domiciliar e admitido há 6 horas com queimadura de espessura total, circunferencial, acometendo todo o antebraço direito. Recebeu reposição volêmica conforme protocolo. Reavaliação atual mostra escara endurecida e inelástica, edema tenso do antebraço, dor à extensão passiva dos dedos, enchimento capilar de 5 segundos, parestesia da mão e pulso radial não palpável ao Doppler. PA 122x78 mmHg, FC 98 bpm. A transferência para o centro de queimados está agendada para dali a 4 horas. Assinale a conduta imediata.
Queimadura circunferencial de espessura total gera escara inelástica que, com o edema da ressuscitação, produz síndrome compartimental com isquemia distal — aqui evidenciada por edema tenso, dor à extensão passiva, enchimento capilar lentificado, parestesia e ausência de pulso ao Doppler. A conduta é escarotomia de urgência nas linhas medial e lateral, procedimento que não deve aguardar a transferência e pode ser realizado no serviço de origem. Elevação e compressas frias são medidas adjuvantes insuficientes diante de isquemia instalada e apenas retardam a descompressão. Curativo compressivo é francamente deletério, pois agrava a pressão compartimental. Suspender a reposição volêmica compromete a perfusão sistêmica e a viabilidade tecidual, sem resolver a constrição mecânica da escara.
Homem de 30 anos, previamente hígido, é resgatado de incêndio domiciliar e chega ao pronto-socorro 40 minutos após o evento, consciente e orientado. Ao exame: eritema doloroso, sem flictenas, acometendo toda a face; flictenas de base rósea e úmida em toda a face anterior do tronco; flictenas e áreas de base pálida em todo o membro superior direito, nas faces anterior e posterior; e flictenas em face anterior da coxa e da perna direitas. Aplicando a Regra dos Nove, qual é a superfície corporal queimada a ser considerada para o cálculo da reposição volêmica?
No cálculo da superfície corporal queimada para reposição volêmica contabilizam-se apenas as lesões de segundo e terceiro graus; a queimadura de primeiro grau (eritema doloroso sem flictenas, na face) NÃO entra na conta. Somando pela Regra dos Nove: tronco anterior 18% + membro superior direito inteiro 9% + face anterior de todo o membro inferior direito 9% = 36%. A opção 27% despreza indevidamente um dos segmentos acometidos. 40,5% inclui a face queimada de primeiro grau (4,5%), erro clássico que superestima o volume infundido. 31,5% corresponderia a considerar apenas metade do tronco anterior, atribuição incorreta pela Regra dos Nove, na qual o tronco anterior vale 18% no adulto.
Mulher de 24 anos derrama água fervente sobre o antebraço esquerdo enquanto cozinha e chega à unidade de pronto atendimento 1 hora depois. Ao exame da área acometida observam-se flictenas íntegras e rotas, leito de ferida rosado, úmido e brilhante, com enchimento capilar presente e rápido, dor intensa ao toque e sensibilidade preservada. Não há áreas esbranquiçadas, secas ou insensíveis. Assinale a alternativa que classifica corretamente a profundidade dessa queimadura.
Flictenas, leito rosado e úmido, enchimento capilar presente e dor intensa com sensibilidade preservada definem queimadura de segundo grau superficial (espessura parcial superficial), que acomete epiderme e derme papilar e costuma cicatrizar em 7 a 14 dias sem enxertia. O primeiro grau cursa com eritema doloroso SEM flictenas. O segundo grau profundo apresenta base mais pálida ou moteada, enchimento capilar lentificado e sensibilidade reduzida. O terceiro grau tem aspecto branco-nacarado ou acastanhado, seco, coriáceo e indolor, por destruição das terminações nervosas.
Homem de 45 anos sofre queimadura por chama em incêndio industrial. No exame do membro superior direito, observa-se lesão circunferencial no antebraço com aspecto branco-nacarado e acastanhado, superfície seca e coriácea, ausência de flictenas, ausência de enchimento capilar e ausência de dor à punção da área. Nas 4 horas seguintes há edema progressivo do segmento, cianose e diminuição da temperatura dos dedos, com pulso radial não audível ao Doppler. Assinale a alternativa que traz a classificação de profundidade e a conduta imediata corretas.
O aspecto branco-nacarado/acastanhado, seco, coriáceo, sem flictenas, sem enchimento capilar e ANESTÉSICO define queimadura de terceiro grau (espessura total). Quando circunferencial em membro, a escara inelástica associada ao edema progressivo gera síndrome compartimental com perda de pulso distal — a conduta imediata é a escarotomia de urgência, incisões longitudinais nas linhas medial e lateral até a gordura subcutânea, o que restaura a perfusão. Segundo grau profundo e superficial cursam com algum grau de sensibilidade e enchimento capilar, e a conduta conservadora aqui perpetuaria a isquemia. Quarto grau exige acometimento de músculo/tendão/osso, não descrito; além disso, na urgência a escarotomia precede a fasciotomia, que só é acrescentada se a hipertensão compartimental persistir.
Homem de 38 anos é levado à UPA 40 minutos após acidente doméstico com álcool líquido ao acender uma churrasqueira em área aberta. Ao exame: consciente, orientado, PA 128/78 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 irpm, SpO2 97% em ar ambiente, sem rouquidão, sem vibrissas nasais chamuscadas e sem escarro carbonáceo. Apresenta flictenas íntegras e rotas, com leito rosado, úmido e muito doloroso, acometendo a face anterior do tórax e a face anterior de ambos os antebraços, estimadas em 9% da superfície corporal queimada. Há ainda, em toda a face palmar da mão direita, área esbranquiçada, seca, endurecida, indolor e sem enchimento capilar, sem acometimento circunferencial. Analgesia venosa e reposição volêmica foram iniciadas. Assinale a conduta adequada.
Correta: os critérios de encaminhamento a centro de queimados (ABA, adotados nas diretrizes brasileiras) independem apenas da extensão — queimadura de espessura total (3º grau) em qualquer extensão e queimadura acometendo mãos, face, pés, genitália, períneo ou grandes articulações já indicam transferência. A lesão palmar branca, seca, endurecida e indolor, sem enchimento capilar, é espessura total em área nobre. Manter o tratamento na UPA porque a superfície é menor que 10% erra: esse corte é apenas um dos critérios; a localização e a profundidade também qualificam. Condicionar a transferência a 20% de superfície queimada ou a instabilidade hemodinâmica também erra: 20% não é o limiar, e a estabilidade não afasta a indicação. E a escarotomia se indica em lesões circunferenciais com comprometimento vascular ou ventilatório, o que o enunciado exclui, além de não dever retardar a transferência.
Mulher de 26 anos chega à unidade básica de saúde duas horas após derramar água fervente sobre o antebraço e o dorso da mão esquerda. Refere dor intensa, nega comorbidades e informa esquema vacinal antitetânico completo há três anos. Ao exame: lúcida, PA 120/76 mmHg, FC 88 bpm, afebril. Observam-se flictenas, algumas íntegras e outras rotas com retalhos epidérmicos desvitalizados, sobre leito rosado, úmido, doloroso e com enchimento capilar preservado, acometendo cerca de 3% da superfície corporal, sem sinais flogísticos, sem secreção purulenta e sem restrição da mobilidade dos dedos. A paciente será encaminhada para acompanhamento em centro de queimados por acometimento de mão. Sobre o cuidado local imediato da ferida, assinale a conduta correta.
Correta: o cuidado padrão da queimadura de espessura parcial é limpeza suave com água corrente e degermante, desbridamento das flictenas rotas e do tecido desvitalizado, cobertura tópica (sulfadiazina de prata ou curativo não aderente/biológico) e elevação do membro para controle do edema. Não há indicação de antibiótico sistêmico profilático em queimadura sem infecção — a profilaxia sistêmica aumenta resistência sem reduzir infecção. Flictenas íntegras pequenas podem ser preservadas, e corticoide tópico não faz parte do tratamento, pois prejudica a cicatrização. A ferida exposta desidrata, aprofunda a lesão e aumenta a dor; a cobertura úmida é a recomendada.
Menina de 3 anos, previamente hígida, pesando 15 kg, é levada à emergência 30 minutos após derrubar sobre si uma panela com água fervente. Ao exame: consciente, chorosa, sem estridor, sem queimadura de face, vibrissas íntegras, sem escarro carbonáceo. Apresenta lesões eritematosas com flictenas em tórax anterior e em todo o membro superior direito, dolorosas ao toque, com áreas de leito rosado e enchimento capilar presente, compatíveis com queimadura de segundo grau, estimada pela tabela de Lund-Browder em 20% da superfície corporal. Frequência cardíaca 140 bpm, pressão arterial 92 x 58 mmHg. Assinale a reposição volêmica adequada para as primeiras 8 horas.
Pela fórmula de Parkland, o volume das primeiras 24 horas é 4 mL x peso x %SCQ = 4 x 15 x 20 = 1.200 mL de Ringer lactato, sendo metade (600 mL) infundida nas 8 horas iniciais contadas a partir do horário da queimadura — e não da admissão hospitalar — e o restante ao longo das 16 horas seguintes; na criança, acrescenta-se a hidratação de manutenção (Holliday-Segar), pela menor reserva de glicogênio e maior superfície corporal relativa. Infundir 1.200 mL logo no início erra duas vezes: joga a dose total do dia na primeira etapa e ainda conta o tempo a partir da chegada ao hospital. Distribuir o volume uniformemente ao longo de 24 horas subestima a perda das primeiras horas, quando o extravasamento é máximo; além disso o Ringer lactato é preferível ao soro fisiológico (risco de acidose hiperclorêmica). Bolus rápidos guiados apenas por débito urinário, fora de choque, favorecem sobrecarga hídrica e aprofundamento da queimadura por edema.
Sobre o cálculo da superfície corporal queimada, assinale a alternativa correta.
O primeiro grau fica fora da conta: a fórmula de reposição é escrita em porcento de superfície queimada contado a partir das queimaduras de segundo grau, e os formulários de regra dos nove e de Lund-Browder do Projeto Diretrizes têm colunas de registro apenas para 2º e 3º graus. A regra da palma usa a palma DO PACIENTE, incluindo os dedos, e vale aproximadamente 1%. O Lund-Browder é mais lento, não mais rápido, e é justamente ele que traz a correção por faixa etária no diagrama, sendo superior na criança, nas lesões irregulares e no registro em prontuário; a regra dos nove é o instrumento do pronto atendimento. Bolha íntegra é queimadura de segundo grau e conta normalmente.
Paciente com queimadura por líquido quente apresenta lesão de leito pálido, moteado de branco e vermelho, seco, com enchimento capilar lento e dor reduzida em relação às áreas vizinhas. Qual a classificação de profundidade e o prognóstico de cicatrização?
O leito pálido e moteado, seco, com enchimento capilar lento e dor reduzida é a assinatura do segundo grau profundo: a derme reticular foi atingida e os folículos e glândulas de onde partiria a reepitelização foram destruídos. A dor diminui porque as terminações nervosas superficiais foram queimadas, o que torna a dor um marcador inverso de profundidade a partir de certo ponto. O segundo grau superficial tem leito rosado, úmido, brilhante, enchimento capilar rápido e dor intensa, e fecha sozinho em até cerca de três semanas. O terceiro grau tem escara branca nacarada, dura e inelástica, indolor à picada e sem enchimento capilar algum.
Trabalhador de 30 anos, 70 kg, sofre choque por corrente elétrica de alta tensão, com pequenas lesões cutâneas na mão direita e no pé esquerdo. Duas horas após, apresenta urina de coloração escura, tipo vinho do porto. Há suspeita de rabdomiólise com mioglobinúria. Segundo o consenso AAST de 2022 sobre rabdomiólise, qual é a estratégia de reposição inicial?
A lesão muscular após choque de alta tensão pode ser extensa mesmo com pequenas queimaduras cutâneas. Na rabdomiólise, a AAST recomenda reposição com cristaloide orientada pela resposta, com alvo usual de diurese de 1–3 mL/kg/h, até 300 mL/h. Para 70 kg, essa faixa corresponde a 70–210 mL/h, individualizada para evitar sobrecarga. Manitol, bicarbonato e diuréticos não são recomendados rotineiramente para prevenir lesão renal. É necessário monitorar função renal, potássio, CK e repercussões cardíacas, além de investigar síndrome compartimental. Anúria persistente exige reavaliação, não aumento indefinido da infusão.
Criança de 4 anos sofre escaldadura com acometimento de todo o tronco anterior e de toda a coxa direita. Usando a regra dos nove adaptada à idade reproduzida no Projeto Diretrizes AMB/CFM, qual a superfície corporal queimada?
Na tabela pediátrica reproduzida no Projeto Diretrizes, tronco anterior e tronco posterior valem 18% cada em qualquer idade, e os membros superiores 9% cada; o que muda com a idade são a cabeça e os quatro segmentos de membro inferior. Cabeça e pescoço valem 18% menos a idade em anos; cada coxa e cada perna com pé valem 7% mais um quarto da idade em anos. Aos 4 anos, cada coxa vale 7 mais 1, igual a 8%. Somando o tronco anterior, 18 mais 8 dá 26%. O esquema se autocompensa: a cada ano a cabeça perde 1 ponto e os quatro segmentos de membro inferior ganham um quarto cada, mantendo a soma em 100%.
Sobre o atendimento inicial ao queimado em hospital geral, assinale a alternativa correta.
A indicação depende da repercussão da escara inelástica sobre a ventilação, e não apenas de a queimadura circundar o tórax. Quando há restrição ventilatória iminente ou estabelecida por lesão profunda, a descompressão não deve aguardar a transferência. Ela integra a estabilização, com equipe capacitada e comunicação com o centro de queimados. Antibiótico sistêmico não é profilaxia rotineira para toda queimadura extensa; gelo e neutralização química indiscriminada não são cuidados iniciais recomendados. Curativos não devem atrasar medidas vitais e encaminhamento.
Homem resgatado de incêndio em ambiente fechado chega consciente, com vibrissas nasais chamuscadas, fuligem em orofaringe, rouquidão e escarro carbonáceo. Frequência respiratória 22 irpm, saturação de pulso 97% em ar ambiente, ausculta pulmonar normal. Qual a conduta?
O conjunto vibrissas chamuscadas, fuligem em orofaringe, rouquidão e escarro carbonáceo em vítima de ambiente fechado configura lesão inalatória sintomática, e o material da SBQ trata esses sinais como indicação de intubação imediata. A via aérea ainda estar pérvia é a razão de intubar agora, não de esperar: o edema supraglótico progride e a própria ressuscitação volêmica o alimenta, de modo que a janela para uma laringoscopia possível se fecha. A saturação de pulso normal não afasta intoxicação por monóxido de carbono, porque o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e a conduta é oxigênio a 100% em máscara não reinalante por pelo menos 6 horas sem esperar dosagem. Corticoide e antibiótico não estão indicados na lesão inalatória.
Qual dos pacientes abaixo NÃO preenche, por si só, critério de encaminhamento a Centro de Tratamento de Queimados segundo a lista de triagem do Projeto Diretrizes AMB/CFM?
A lista de triagem inclui queimadura de segundo grau acima de 10% em qualquer idade, queimadura de terceiro grau em qualquer extensão e idade, acometimento de face, mão, pé, genitália, períneo, pescoço ou grande articulação em qualquer idade, queimadura elétrica inclusive por raio, queimadura química, lesão inalatória, comorbidade que complique o cuidado, trauma concomitante e criança em serviço sem estrutura. Todas as quatro primeiras alternativas caem em algum desses itens. Queimadura de primeiro grau, por maior que seja a área, não figura na lista, é classificada como pequeno queimado em qualquer extensão e idade e nem sequer entra no cálculo da superfície queimada.
Homem de 70 anos, 70 kg, é resgatado de um incêndio domiciliar e chega ao pronto-socorro 2 horas após o acidente. Ao exame apresenta eritema sem bolhas em toda a face, bolhas com leito rosado e úmido em todo o tronco anterior, e áreas pálidas e secas cobrindo integralmente ambos os membros superiores. Está consciente, sem rouquidão e sem escarro carbonáceo. Considerando a fórmula de Parkland, qual o volume de Ringer lactato a ser infundido nas primeiras 8 horas e em que ritmo?
A superfície corporal queimada soma tronco anterior 18% e ambos os membros superiores 9% cada, totalizando 36%. O eritema sem bolhas da face é queimadura de primeiro grau e NÃO entra na conta. Parkland: 4 vezes 70 kg vezes 36% igual a 10.080 mL em 24 horas, dos quais metade, 5.040 mL, vai nas primeiras 8 horas contadas a partir da hora da queimadura. Como o paciente chegou 2 horas depois, restam 6 horas para infundir esses 5.040 mL, o que dá cerca de 840 mL/h. Contar da admissão, somar o primeiro grau, distribuir uniformemente nas 24 horas ou trocar o coeficiente da fórmula de Parkland por 2 mL são os quatro erros clássicos.
Sobre o cálculo da superfície corporal queimada em adultos, qual afirmação é correta?
A regra dos nove divide o corpo do adulto em múltiplos de nove, e o detalhe que mais cai é a exclusão das queimaduras superficiais de primeiro grau do cálculo: elas não perdem plasma de forma significativa e incluí-las levaria a hiper-hidratação, com edema, síndrome compartimental e piora respiratória. Em crianças a proporção muda, com cabeça relativamente maior e membros inferiores menores, o que exige tabelas específicas. A superfície palmar com os dedos equivale a cerca de um por cento e serve para estimar áreas irregulares. Extensão, profundidade, localização e mecanismo são justamente os critérios que definem o encaminhamento a serviço especializado.
Sobre o choque do grande queimado nas primeiras horas, é correto afirmar que:
A queimadura não sangra: o líquido sai do intravascular para o interstício por lesão endotelial difusa, o que explica o edema maciço e a necessidade de volume. Por isso, hipotensão franca nas primeiras horas obriga a procurar trauma associado com hemorragia, e não atribuir tudo à queimadura — esse é o erro que faz perder lesões intra-abdominais e torácicas.
Durante a reposição volêmica do grande queimado adulto, o principal parâmetro para ajustar a infusão é:
A fórmula é apenas ponto de partida e o ajuste é clínico, guiado principalmente pela diurese, que reflete a perfusão renal. Tratar o volume calculado como imutável engana e leva tanto a subressuscitação quanto a sobrecarga, esta última associada a síndrome compartimental abdominal e insuficiência respiratória. A meta de diurese é mais alta em crianças e em queimaduras elétricas com mioglobinúria.
Sobre a estimativa da superfície corporal queimada em crianças pequenas, é correto afirmar que:
A proporção corporal da criança pequena é diferente, com cabeça relativamente maior, e usar a regra do adulto subestima a extensão em lactentes, com impacto direto no cálculo de volume. Inverter as proporções engana e produz erro no sentido oposto. A palma da mão do próprio paciente, incluindo os dedos, é uma referência útil para áreas irregulares em qualquer idade.
Sobre a avaliação da profundidade nas queimaduras químicas, é correto afirmar que:
Diferente da queimadura térmica, em que a agressão cessa com o afastamento da fonte, a lesão química continua enquanto houver produto no tecido, e o aspecto inicial pode não refletir a profundidade final. Considerar a avaliação definitiva engana e leva a decisões cirúrgicas precipitadas ou tardias. As reavaliações programadas definem a necessidade de excisão e cobertura.
Utilizando a fórmula de Parkland em um paciente de 70 kg com 45% de superfície corporal queimada, o volume de Ringer lactato a ser infundido nas primeiras 24 horas e sua distribuição são:
A fórmula multiplica 4 mL pelo peso e pela porcentagem de superfície queimada, resultando em cerca de 12.600 mL, e o detalhe que a prova cobra é que o relógio começa no momento da queimadura, não na admissão — se o paciente chega três horas depois, o volume da primeira metade deve ser infundido nas cinco horas restantes. Distribuir igualmente ao longo do dia engana e subestima a perda máxima, que ocorre nas primeiras horas.
Homem de 32 anos sofreu queimadura por chama em membros inferiores. Ao exame, as lesões apresentam-se secas, esbranquiçadas e endurecidas, sem dor à punção e sem enchimento capilar. Essa descrição corresponde a queimadura de:
Lesão seca, esbranquiçada, endurecida e insensível indica destruição de toda a derme, incluindo terminações nervosas e anexos, e por isso não reepiteliza a partir do leito. A queimadura de segundo grau superficial engana porque também é aguda e visível, mas apresenta bolhas, base úmida e rósea e é intensamente dolorosa, com enchimento capilar presente. Essa distinção define quem precisa de enxertia.
Sobre o índice de Baux e suas variações na estimativa de mortalidade no grande queimado, é correto afirmar que:
O índice traduz em número os três fatores que mais pesam no prognóstico: quanto o paciente já tem de idade, quanta pele perdeu e se a via aérea foi atingida. Considerar apenas a profundidade engana porque, embora ela oriente o tratamento cirúrgico, é a extensão que domina a repercussão sistêmica. O escore ajuda na comunicação com a família e no planejamento de cuidados.
Homem de 40 anos, 70 kg, sofreu queimadura por chama acometendo todo o tronco anterior, todo o membro superior direito e toda a face anterior de ambos os membros inferiores, com lesões de segundo e terceiro graus. Utilizando a regra dos nove, a superfície corporal queimada estimada é de aproximadamente:
Pela regra dos nove no adulto, o tronco anterior corresponde a 18%, um membro superior inteiro a 9% e a face anterior de cada membro inferior a 9%, totalizando 45%. O valor de 27% engana quem esquece de contar as duas faces anteriores dos membros inferiores ou considera apenas metade do tronco. A precisão dessa estimativa importa porque ela determina o volume de reposição e o critério de encaminhamento a centro especializado.
Sobre a reposição volêmica após as primeiras 24 horas no grande queimado, é correto afirmar que:
Nas primeiras horas, o coloide infundido escapa para o interstício junto com o cristaloide, e é por isso que seu uso costuma ser postergado; recuperada a barreira, ele passa a permanecer no intravascular e ajuda a reduzir o volume total infundido. Dobrar o cristaloide no segundo dia engana e agrava o edema, com risco de síndrome compartimental abdominal.
Ao avaliar a extensão da queimadura em uma criança de 2 anos que sofreu escaldadura, qual particularidade anatômica deve ser considerada?
No lactente a cabeça chega perto de 18% da superfície corporal enquanto cada membro inferior fica em torno de 14%, proporções que só se aproximam das do adulto por volta dos 10 anos: por isso se usa a tabela de Lund-Browder ou a regra dos nove ajustada por idade. Aplicar a régua do adulto engana porque produz erro de cálculo que se propaga direto para o volume de reposição, sub-hidratando a criança. A palma com os dedos corresponde a cerca de 1%, não 5%, e não existe correção arbitrária para menos.
Criança de 4 anos, 17 kg, chega à unidade de pronto atendimento 40 minutos após escaldadura com água quente na coxa direita. Ao exame há bolhas de leito rosado, úmido e doloroso, somando 7% da superfície corporal, sem acometer face, mãos, pés, períneo, pescoço nem grande articulação. Está ativa, hidratada, aceitando líquidos e sem vômitos. Sobre a reposição hidroeletrolítica, a conduta correta é:
O gatilho da reposição venosa formal é a extensão: 20% ou mais de superfície corporal queimada no adulto e 10% ou mais na criança. Abaixo desses cortes, e com trato digestivo pérvio, a reposição por via oral é aceitável e o próprio documento brasileiro a admite, com a ressalva de evitá-la nas queimaduras grandes pelo risco de vômito. Aplicar Parkland a 7% punciona quem não precisa e expõe a criança ao volume que produz edema. Contar as oito horas a partir da chegada é o erro de relógio clássico, porque a contagem começa no momento da queimadura — mas aqui nem existe fórmula a aplicar. Puncionar dentro da área queimada com acesso calibroso e volume acelerado transporta para este caso duas condutas de grande queimado. E dobrar a manutenção venosa em quem aceita líquidos por via oral é volume sem indicação. A lesão também não toca face, mãos, pés, períneo, pescoço nem grande articulação, o que a mantém fora da linha de localização que encaminha sem percentual.
Mulher de 32 anos chega ao pronto-socorro 30 minutos após incêndio doméstico, com queimadura de segundo grau no antebraço e na mão direita, ainda sem edema evidente. Usa aliança e um anel no dedo anular direito e um relógio de pulso metálico. Está estável e a reposição volêmica vai ser iniciada. Sobre esses acessórios, a conduta correta é:
Antes de qualquer escara existir, o efeito torniquete já começa pelos adornos: o material brasileiro manda remover fraldas, joias, lentes de contato e outros acessórios exatamente para evitar o garrote produzido pelo edema. E esse edema não é risco eventual — é consequência obrigatória do aumento da permeabilidade microvascular e da própria reposição volêmica que a paciente vai receber. Esperar a palidez distal para retirar é agir depois que a isquemia começou, e anel em dedo de mão queimada custa o dedo em algumas horas. Adiar até o centro de referência entrega ao transporte justamente o intervalo em que o edema cresce mais depressa. Condicionar a retirada à queimadura circunferencial confunde dois problemas: a lesão circunferencial é o que indica escarotomia, mas o anel produz constrição própria, contorne ou não a queimadura o membro. E cobrir o acessório com o curativo o esconde sem desfazer a compressão.
Homem de 38 anos sofre queimadura por corrente elétrica de alta tensão com ponto de entrada no punho direito. Doze horas depois, já submetido a escarotomia do antebraço por queimadura circunferencial de espessura total, mantém dor contínua, parestesia e hipoestesia na mão, com enrijecimento da região e oximetria de 86% no segundo dedo. A conduta correta é:
A escarotomia abre a escara rígida e desfaz o garrote que a própria pele queimada produz. Quando os sinais persistem depois dela, a compressão passou para dentro da fáscia, e o passo seguinte é a fasciotomia: os achados que a indicam são parestesia, dor contínua, hipoestesia e enrijecimento da região associados a oximetria abaixo de 90% no segmento, e o cenário mais frequente é exatamente a queimadura elétrica de alta tensão, em que a destruição muscular ocorre ao longo de todo o trajeto da corrente. Aprofundar a mesma incisão não alcança o compartimento e repete um procedimento já feito. Esperar quatro horas apoiado no Doppler é a demora que a própria diretriz relata ter custado déficits prolongados, porque houve casos com sinal positivo e membro em sofrimento. Reduzir o cristaloide troca um problema de membro por um problema renal sem desfazer a constrição mecânica. E anticoagular trata uma trombose que não é o mecanismo descrito.
Homem de 52 anos sofreu queimadura elétrica de alta tensão. À inspeção há uma área de necrose de 3 cm na mão e outra de 2 cm no pé, somando menos de 2% da superfície corporal. O plantonista calcula a reposição pela fórmula de Parkland usando essa porcentagem. Qual o principal problema dessa conduta?
Na lesão elétrica a corrente destrói músculo, vaso e nervo ao longo de todo o trajeto, enquanto a pele mostra apenas os pontos de entrada e saída — a área queimada visível é a ponta do iceberg. Reposição calculada por essa porcentagem fica muito aquém da necessária, e o parâmetro que guia de verdade é o débito urinário, mantido alto pela rabdomiólise. A ideia de superestimação com risco de edema pulmonar é justamente o inverso do que ocorre e engana quem transporta o raciocínio da queimadura térmica extensa para cá.
Qual é o parâmetro que melhor orienta o ajuste da reposição volêmica no grande queimado?
A fórmula fornece o ponto de partida, mas quem comanda o ajuste é o débito urinário, alvo de cerca de 0,5 mL por quilo por hora em adultos e um pouco mais alto em crianças. Manter o volume calculado sem reavaliar é o erro que leva à sobrecarga volêmica, com edema de vias aéreas, síndrome compartimental abdominal e piora respiratória — fenômeno conhecido como ressuscitação excessiva.
Como se diferencia clinicamente uma queimadura de segundo grau profundo de uma de terceiro grau?
A destruição das terminações nervosas na queimadura de espessura total elimina a dor, e o leito se apresenta esbranquiçado, acastanhado ou coriáceo, sem enchimento capilar — enquanto a de segundo grau profundo preserva alguma sensibilidade e mostra enchimento lentificado. Supor que a lesão mais profunda dói mais é o erro intuitivo que subestima justamente a queimadura que exige enxertia e encaminhamento.
Homem de 40 anos, 80 kg, sofre queimadura por chama com acometimento de todo o membro superior direito, todo o tórax anterior e todo o abdome anterior, com áreas de segundo e terceiro graus. Usando a regra dos nove, qual a superfície corporal queimada e qual o volume estimado de cristaloide nas primeiras 24 horas pela fórmula de Parkland?
Pela regra dos nove, o membro superior inteiro corresponde a 9% e o tronco anterior a 18%, somando 27%. A fórmula de Parkland prevê 4 mL por quilo por percentual de superfície queimada, o que resulta em 4 vezes 80 vezes 27, ou 8.640 mL, com metade infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e não da chegada ao hospital. O volume é uma estimativa inicial e deve ser ajustado pelo débito urinário.
Sobre a classificação da profundidade das queimaduras, qual afirmação é correta?
Na lesão de espessura total as terminações nervosas são destruídas junto com a derme e seus anexos, o que explica a ausência de dor, o aspecto seco e a falta de reenchimento capilar, além da impossibilidade de reepitelização espontânea, que impõe enxertia. A ausência de dor é um sinal enganosamente tranquilizador, e em toda queimadura extensa costumam coexistir áreas de profundidades diferentes.
Criança de 4 anos, 16 kg, com queimaduras de segundo e terceiro graus atingindo 25% da superfície corporal, admitida 1 hora após o acidente. Qual a conduta inicial quanto à reposição volêmica?
A queimadura extensa provoca perda maciça de plasma para o interstício, e a reposição calculada pelo peso e pela superfície queimada, com metade do volume nas primeiras oito horas contadas do acidente e não da chegada, é o que evita o choque. Na criança pequena soma-se a manutenção hídrica com aporte de glicose, porque as reservas de glicogênio são limitadas. Restringir líquidos por receio do edema é o erro que leva ao choque hipovolêmico.
Qual parâmetro é o mais utilizado para guiar a adequação da reposição volêmica em criança queimada?
A fórmula fornece apenas o ponto de partida, e o ajuste é feito pela resposta, sendo o débito urinário o marcador mais prático de perfusão renal e sistêmica, com meta mais alta na criança do que no adulto. Guiar-se pela pressão arterial é insuficiente, porque ela se mantém normal até fases avançadas do choque pediátrico, e usar apenas o volume calculado leva tanto à sub-reposição quanto ao excesso.
Sobre o cálculo da superfície corporal queimada na criança, qual afirmação é correta?
A criança tem cabeça proporcionalmente maior e membros inferiores menores, e usar a regra do adulto subestima a extensão em lactentes, com impacto direto no volume de reposição calculado. O diagrama que ajusta as proporções por faixa etária é o mais preciso. Outros dois pontos práticos: a queimadura de primeiro grau não entra no cálculo, e a palma com os dedos equivale a cerca de um por cento.
Homem de 40 anos sofre queimadura por líquido superaquecido, com lesões em todo o membro superior direito, tórax anterior e face anterior de coxa direita, em áreas com flictenas e base rósea dolorosa. Pesa 70 kg e chega 1 hora após o acidente, estável. Considerando a reposição volêmica inicial em queimadura extensa, qual é a conduta correta?
A reposição em grande queimado é guiada pela estimativa da superfície corporal queimada, com cristaloide aquecido e ajuste fino pelo débito urinário horário. Aguardar hipotensão para repor volume é tardio, pois o choque do queimado se instala progressivamente. Coloides não são o fluido inicial de escolha nas primeiras horas. Restringir líquidos agrava hipoperfusão e aprofunda as lesões.
Homem de 28 anos chega à Unidade de Pronto Atendimento após queimadura por líquido inflamável, com lesões em todo o membro superior direito, tórax anterior e face anterior da coxa direita. As lesões são eritematosas com bolhas e algumas áreas esbranquiçadas e indolores. Está consciente, sem rouquidão, sem queimadura de vibrissas. PA 118x72 mmHg, FC 104 bpm. Qual é a conduta prioritária?
Queimadura de grande extensão com áreas de espessura total exige reposição volêmica calculada e transferência para centro especializado, além de analgesia e cuidados locais. Curativo com alta precoce subestima a perda volêmica e o risco de infecção e de sequela funcional. Intubação profilática se reserva a sinais de lesão inalatória, ausentes no relato. Antibiótico sistêmico profilático não é recomendado e seleciona germes resistentes.
Homem de 30 anos, pesando 70 kg, é levado à Unidade de Pronto Atendimento 40 minutos após incêndio em residência. Apresenta queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal em tronco e membros superiores. Está consciente, com pressão arterial de 112 x 70 mmHg, frequência cardíaca de 118 bpm, frequência respiratória de 22 irpm e saturação de 97% em ar ambiente. Nega comorbidades. Após garantir via aérea e acessos calibrosos, a conduta correta quanto à reposição volêmica inicial é:
A reposição do grande queimado é feita com cristaloide aquecido, calculando o volume pela superfície queimada e pelo peso, infundindo metade nas primeiras oito horas contadas do momento do trauma, e não da chegada, e o restante nas dezesseis horas seguintes, com ajuste guiado pela diurese horária. Contar a partir da admissão subestima a perda já ocorrida e leva a subressuscitação. Coloides nas primeiras 24 horas não trazem benefício e podem agravar o extravasamento capilar. Restringir fluidos e usar diurético provoca choque hipovolêmico e lesão renal aguda, e a diurese não deve ser forçada farmacologicamente nessa fase.
Menina de 6 anos, com 20 kg, é levada à sala de emergência 40 minutos após queimadura por líquido superaquecido, atingindo todo o membro superior direito e a face anterior do tronco. Ao exame: lesões com flictenas, base rósea e dolorosas, sem acometimento de face ou pescoço, sem rouquidão, sem escarro carbonáceo, frequência cardíaca 132 bpm, pressão arterial 96x60 mmHg, saturação 98% em ar ambiente. Estima-se cerca de 27% da superfície corporal queimada. Qual é a conduta prioritária?
Em queimadura de segundo grau extensa em criança, a prioridade após a avaliação de via aérea é a reposição volêmica endovenosa calculada pela superfície corporal queimada e pelo peso, com metade do volume nas primeiras oito horas a partir do trauma, associada a analgesia adequada e controle térmico. Antibiótico profilático sistêmico não é recomendado e seleciona resistência. Gelo sobre a queimadura agrava a lesão tecidual e a hipotermia. Desbridamento amplo imediato na sala de emergência não é conduta inicial e aumenta perdas e dor.
Homem de 28 anos é admitido após incêndio em residência, resgatado de ambiente fechado. Apresenta queimaduras em face anterior do tronco, todo o membro superior direito e face anterior de ambos os membros inferiores. Ao exame apresenta PA 118x74 mmHg, FC 112 bpm, FR 24 ipm, lesões com flictenas e áreas esbranquiçadas sem dor em parte do tronco, pesando aproximadamente 70 kg. A equipe calcula a superfície corporal queimada para programar a reposição volêmica nas primeiras 24 horas. A superfície corporal queimada estimada, pela regra dos nove, é de aproximadamente:
Pela regra dos nove no adulto, a face anterior do tronco corresponde a 18%, todo o membro superior a 9% e a face anterior de cada membro inferior a 9%, totalizando aproximadamente 36% de superfície corporal queimada, valor que orienta a reposição volêmica e a indicação de centro especializado. O valor de 18% corresponderia apenas ao tronco anterior. O de 54% superestima a área, somando segmentos não acometidos, como as faces posteriores. O de 9% corresponde a um único segmento e subestima gravemente a extensão descrita.
Mulher de 34 anos chega à unidade de pronto atendimento após derramar água fervente sobre o antebraço direito há 1 hora. Ao exame apresenta PA 122x76 mmHg, FC 92 bpm, área de cerca de 8% da superfície corporal no antebraço com eritema intenso, bolhas de conteúdo claro, base rósea e úmida, com enchimento capilar presente e dor intensa ao toque, sem acometimento de mãos, face, períneo ou articulações e sem sinais de lesão inalatória. A classificação e a conduta corretas são:
Bolhas com base rósea, úmida, dolorosa e com enchimento capilar preservado caracterizam queimadura de segundo grau superficial, tratada com analgesia, limpeza, curativo adequado e acompanhamento ambulatorial, com boa cicatrização. A queimadura de terceiro grau apresenta aspecto branco-nacarado ou carbonizado, indolor e sem enchimento capilar. A de primeiro grau acomete apenas a epiderme, com eritema sem bolhas. A extensão e a localização descritas não preenchem critérios de transferência para centro de queimados.
Homem de 35 anos, 70 kg, chega à sala de emergência 40 minutos após incêndio em oficina. Apresenta queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal, em tronco anterior e ambos os membros superiores. Está consciente, com PA 108x70 mmHg, FC 118 bpm, FR 22 irpm e saturação de 97%. Não há estridor nem rouquidão. Foram obtidos dois acessos venosos periféricos calibrosos. Considerando a fórmula de Parkland com 4 mL por quilo por percentual de superfície queimada, qual é o volume a ser infundido nas primeiras 8 horas?
A fórmula de Parkland prevê 4 mL x 70 kg x 40% = 11.200 mL de cristaloide nas primeiras 24 horas contadas do momento da queimadura, sendo metade, isto é, 5.600 mL, nas primeiras 8 horas e o restante nas 16 horas seguintes, com titulação pela diurese. Infundir o total nas primeiras 8 horas provoca sobrecarga volêmica e suas complicações. Soro glicosado não é solução de ressuscitação, pois se distribui no intracelular e agrava o edema. Coloide nas primeiras horas não traz benefício comprovado e não substitui o cristaloide na fase de extravasamento capilar.
Mulher de 42 anos, 60 kg, está internada há 6 horas em unidade de queimados com queimaduras de segundo grau profundo em 35% da superfície corporal, decorrentes de acidente doméstico com álcool. Recebe Ringer lactato conforme a fórmula inicial e está sondada. Nas últimas duas horas, o débito urinário foi de 12 mL/h e 14 mL/h. PA 96x60 mmHg, FC 126 bpm, extremidades frias, lactato de 4,2 mmol/L. Não há sangramento externo. Qual é a conduta adequada?
No grande queimado a ressuscitação é titulada pelo débito urinário, com alvo em torno de 0,5 mL/kg/h no adulto, e a paciente de 60 kg está bem abaixo disso, com taquicardia, extremidades frias e hiperlactatemia, sinais de hipoperfusão que exigem aumento da infusão de cristaloide. Diurético mascara a diurese como marcador de perfusão e piora a hipovolemia. Vasopressor sem correção volêmica adequada agrava a isquemia tecidual e aprofunda as queimaduras. Reduzir a infusão diante de sinais de choque leva à insuficiência renal aguda e ao aprofundamento das lesões.
Homem de 30 anos é atendido na Unidade Básica de Saúde três horas após queimadura por vapor no dorso da mão esquerda. Ao exame, a área acometida apresenta base rósea pálida e mosqueada, bolhas rotas, dor de intensidade moderada e enchimento capilar lentificado no leito da lesão, com sensibilidade tátil reduzida em relação à pele vizinha. Não há acometimento circunferencial nem comprometimento de outras regiões. O paciente está estável e sem comorbidades. Qual é a classificação e a implicação prática dessa lesão?
Base pálida e mosqueada, enchimento capilar lentificado e hipoestesia caracterizam queimadura de segundo grau profundo, que atinge a derme reticular, cicatriza em mais de três semanas com retração e, em área funcional como o dorso da mão, deve ser avaliada para excisão e enxertia. O segundo grau superficial tem base rósea, úmida, hiperemiada, muito dolorosa e com enchimento capilar rápido. O primeiro grau é eritematoso, sem bolhas, atingindo apenas a epiderme. O terceiro grau é indolor, com escara branca ou acastanhada e sem enchimento capilar, o que não corresponde ao descrito.
Menina de 3 anos, 14 kg, é admitida na sala de emergência com queimaduras de segundo grau em 25% da superfície corporal, por escaldadura com água fervente há uma hora. Está consciente, chorosa, com PA 96x58 mmHg, FC 148 bpm, tempo de enchimento capilar de 3 segundos e glicemia capilar de 68 mg/dL. Foi obtido acesso venoso periférico e iniciada a reposição pela fórmula de ressuscitação. A equipe discute se há alguma particularidade na prescrição de fluidos em relação ao adulto. Qual é a conduta correta?
Crianças têm baixa reserva de glicogênio e superfície corporal relativamente maior, de modo que à reposição calculada pela queimadura se soma a hidratação de manutenção com solução contendo glicose, monitorando a glicemia, como já sinaliza o valor limítrofe deste caso. Usar apenas o volume da fórmula de ressuscitação leva a hipoglicemia e hipovolemia na criança pequena. Substituir cristaloide por albumina nas primeiras horas não é padrão e não corrige a necessidade de glicose. Reduzir arbitrariamente o volume à metade compromete a perfusão e favorece insuficiência renal e aprofundamento das lesões.
Homem de 22 anos chega à Unidade Básica de Saúde no dia seguinte a um dia inteiro na praia sem proteção solar. Apresenta eritema difuso e doloroso em dorso, ombros e face anterior das coxas, com pele seca, sem bolhas, com branqueamento à digitopressão e enchimento capilar rápido. Refere ardência e desconforto para deitar. Está afebril, hidratado, com PA 118x72 mmHg e FC 78 bpm. O estagiário calcula 36% de superfície corporal queimada e sugere hidratação venosa pela fórmula de Parkland. Qual é a conduta correta?
As queimaduras de primeiro grau, que atingem apenas a epiderme e cursam com eritema sem bolhas, não entram no cálculo da superfície corporal queimada e, portanto, não geram indicação de ressuscitação volêmica: o tratamento é analgesia, hidratação oral, emolientes e fotoproteção. Aplicar Parkland sobre esse cálculo levaria a hiper-hidratação desnecessária. Não há risco de choque hipovolêmico que justifique terapia intensiva em queimadura superficial dessa natureza. Antibiótico profilático não tem indicação em pele íntegra e apenas eritematosa.
Menina, 5 anos, com 18 kg, sofreu escaldadura por água fervente há 40 minutos, com acometimento de toda a face anterior do tronco e de todo o membro superior direito. Exame: lesões com flictenas, base rósea e dor intensa, compatíveis com segundo grau; via aérea pérvia, sem queimadura de face, sem rouquidão e sem escarro carbonáceo. PA 96 x 60 mmHg, FC 130 bpm. Diurese ausente desde o acidente. Qual a conduta imediata mais importante?
Em queimadura extensa de segundo grau em criança, a prioridade após garantir via aérea e respiração é a reposição volêmica calculada pela superfície corporal queimada, com controle rigoroso da diurese, pois a criança tem maior relação superfície-peso e evolui rapidamente para choque. A intubação profilática se justifica diante de sinais de lesão inalatória, expressamente ausentes. O gelo sobre a área queimada agrava a lesão tecidual e provoca hipotermia. O antibiótico profilático sistêmico não é recomendado e seleciona germes resistentes. O desbridamento completo na sala de emergência não é prioridade e pode agravar a instabilidade e a perda de calor.
Mulher, 38 anos, é admitida com queimaduras de segundo e terceiro graus em 30% da superfície corporal, ocorridas há 1 hora. Peso 60 kg. Exame: PA 108/68 mmHg, FC 112 bpm, lúcida, diurese ausente desde a admissão, sem sinais de lesão inalatória. Acesso venoso periférico calibroso obtido. A unidade dispõe de Ringer lactato. Sem trauma associado, sem sangramento externo, sem comorbidades prévias conhecidas. Segundo a fórmula de Parkland, qual o volume a ser infundido nas primeiras 8 horas?
A fórmula de Parkland prevê 4 mL por quilo por porcentagem de superfície corporal queimada nas primeiras 24 horas, o que corresponde a 4 vezes 60 vezes 30, ou 7.200 mL, dos quais metade, isto é, 3.600 mL, deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e não da admissão. Infundir 7.200 mL nas primeiras 8 horas dobra o volume previsto e causa sobrecarga. Os valores de 1.800 mL e 900 mL subestimam a reposição e mantêm a hipoperfusão. Coloide não é a solução de escolha na fase inicial da ressuscitação do queimado, na qual o cristaloide balanceado é o padrão.
Mulher, 29 anos, com 28 semanas, sofre queimadura por líquido inflamável, com acometimento de cerca de 35% da superfície corporal, incluindo tronco e membros superiores, sem lesão de via aérea aparente. PA 96/58 mmHg, FC 128 bpm, FR 24 ipm, SatO2 96%. Cardiotocografia com taquicardia fetal e variabilidade reduzida. A paciente está lúcida e refere dor intensa nas áreas queimadas e sede acentuada. Qual conduta é a correta?
A conduta correta é realizar ressuscitação volêmica guiada por fórmula específica para queimados com ajuste pela diurese, analgesia adequada, controle térmico, avaliação criteriosa da via aérea, profilaxia antitetânica conforme indicação e vigilância fetal contínua, com decisão sobre o parto tomada conforme a evolução materna, já que a estabilização da mãe é a melhor medida para o feto. Priorizar a resolução da gestação antes da ressuscitação inverte prioridades e piora ambos os desfechos. Restringir hidratação em grande queimado leva a choque hipovolêmico e hipoperfusão placentária. Contraindicar opioide é inadequado, pois a dor intensa não tratada é deletéria e os opioides podem ser usados com cautela. Transferir sem reposição inicial expõe a paciente a deterioração no transporte.
Menino, 6 anos, com queimadura de 30% da superfície corporal há 8 horas, apresenta oligúria apesar de reposição volêmica iniciada. FC 140 bpm, PA 94/58 mmHg, diurese de 0,3 mL/kg/h. Sódio de 148 mEq/L, potássio de 5,4 mEq/L, ureia de 62 mg/dL e creatinina de 1,0 mg/dL, com hematócrito elevado e urina concentrada, sem mioglobinúria evidente. Qual a conduta mais adequada?
Na criança queimada, a lesão renal precoce é predominantemente pré-renal por perdas maciças, e a conduta é ajustar a reposição volêmica conforme fórmulas específicas com monitorização da diurese como principal meta de perfusão. O diurético em paciente hipovolêmico agrava a lesão renal. A restrição de líquidos é o oposto do necessário nas primeiras horas. A diálise não está indicada em lesão pré-renal potencialmente reversível. O antibiótico profilático sistêmico não é recomendado de rotina na queimadura e não trata a oligúria.
Homem, 40 anos, 80 kg, resgatado de incêndio domiciliar há 1 hora, apresenta queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo toda a face anterior do tórax e do abdome, além de todo o membro superior direito e de todo o membro inferior esquerdo. Encontra-se lúcido, PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 ipm, SatO2 97%. Segundo a fórmula de Parkland, o volume a ser infundido nas primeiras 8 horas a partir do trauma é de aproximadamente:
A superfície queimada soma 45% pela regra dos nove (tronco anterior 18%, membro superior 9% e membro inferior 18%); a fórmula de Parkland prevê 4 mL x 80 kg x 45%, ou 14.400 mL em 24 horas, com metade nas primeiras 8 horas contadas do trauma, o que corresponde a cerca de 6.400 a 7.200 mL. O valor de 3.200 mL subestima a reposição por usar um quarto do total, ritmo previsto apenas para cada uma das duas fases seguintes. O total de 12.800 mL corresponderia ao volume de 24 horas distribuído sem a fase acelerada inicial. A associação de albumina desde a admissão é contraindicada nas primeiras 24 horas pelo aumento do extravasamento capilar. A infusão concentrada na primeira hora não integra a fórmula e provoca edema e síndrome compartimental.
Homem, 70 kg, 38 anos, resgatado de incêndio há uma hora, com queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal, além de fratura fechada de tíbia. Está consciente, PA 108/68 mmHg, FC 116 bpm. A equipe calcula a reposição volêmica das primeiras 24 horas segundo a fórmula de Parkland, considerando o horário do acidente como marco inicial. Qual o volume a ser infundido nas primeiras oito horas?
A fórmula de Parkland prevê 4 mL por quilo por porcentagem de superfície queimada, resultando em 11.200 mL em 24 horas, dos quais metade, ou seja, 5.600 mL, deve ser infundida nas primeiras oito horas contadas a partir do acidente. Infundir 2.800 mL corresponderia a um quarto do total e subestima a reposição inicial. O volume de 11.200 mL é o total de 24 horas, não o das primeiras oito. O valor de 1.400 mL é muito inferior ao necessário. Infundir três quartos do total nas primeiras oito horas provoca sobrecarga volêmica e edema excessivo.
Homem, 30 anos, 70 kg, vítima de incêndio domiciliar há 1 hora, com queimaduras de segundo e terceiro graus em 40% da superfície corporal. PA 106x64 mmHg, FC 118 bpm, FR 24 ipm, T 36,4 °C. Consciente e orientado, com dois acessos venosos calibrosos e sonda vesical instalada. Não há sinais de lesão inalatória. Peso e extensão confirmados após avaliação secundária completa. Qual o volume de cristaloide nas primeiras 8 horas pela fórmula de Parkland?
A fórmula de Parkland prevê 4 mL por quilo por porcentagem de superfície queimada nas primeiras 24 horas, o que resulta em 11.200 mL para 70 kg e 40% de superfície; metade desse volume, ou seja, 5.600 mL, deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do trauma. Infundir os 11.200 mL nesse mesmo período dobra a oferta e favorece as complicações do excesso de volume. O valor de 2.800 mL corresponde a um quarto do total e subestima gravemente a reposição inicial. Os 22.400 mL partem de um cálculo com o dobro do coeficiente previsto na fórmula. E 1.400 mL é volume claramente insuficiente para um grande queimado nas primeiras horas.
Mulher, 44 anos, 60 kg, com queimadura de 35% da superfície corporal há 5 horas, em reposição volêmica conforme fórmula padronizada. PA 108x66 mmHg, FC 108 bpm, FR 22 ipm, T 36,6 °C. Diurese nas últimas 2 horas de 12 mL por hora pela sonda vesical. Exames: lactato 3,8 mmol/L (VR < 2); hematócrito 52%; creatinina 1,3 mg/dL; sem hemoglobinúria visível na urina. Qual a conduta?
A meta de diurese no adulto queimado é de 0,5 mL por quilo por hora, o que corresponde a cerca de 30 mL por hora nesta paciente, valor não atingido pelos 12 mL medidos; associado a lactato elevado e hemoconcentração, isso indica reposição insuficiente e exige aumento da infusão. A furosemida mascara a hipovolemia ao forçar diurese sem corrigir a perfusão. Manter a taxa ignora sinais objetivos de hipoperfusão. A dopamina em dose renal não tem eficácia comprovada e foi abandonada. Reduzir a infusão agravaria o choque e a injúria renal em curso.
Menino, 2 anos, com escaldadura por água fervente acometendo toda a cabeça e o pescoço, além de todo o membro superior direito. Peso 12 kg. FC 148 bpm, FR 32 ipm, T 36,4 °C, choroso e consolável. Lesões com flictenas e base rósea dolorosa, sem áreas esbranquiçadas ou insensíveis. Chegou ao serviço 40 minutos após o acidente, sem outras lesões traumáticas associadas. Sobre a estimativa da superfície queimada, assinale a alternativa correta.
A tabela de Lund-Browder é o método mais preciso na criança porque corrige as proporções corporais por faixa etária, considerando que a cabeça tem participação proporcionalmente maior e os membros inferiores, menor. Aplicar a regra dos nove do adulto sem ajuste subestima a cabeça e superestima as pernas. Afirmar que a cabeça vale nove por cento em qualquer idade contraria essa variação, pois no lactente chega a cerca de dezoito por cento. Os membros inferiores só atingem dezoito por cento cada no adulto. A palma da mão corresponde a cerca de um por cento, e não a cinco.
Homem, 31 anos, sofreu queimadura em coxa esquerda por contato com chapa metálica aquecida há 4 horas. PA 124x78 mmHg, FC 88 bpm, T 36,6 °C. A lesão apresenta coloração esbranquiçada e aspecto de couro, é seca, não empalidece à digitopressão e mostra-se indolor ao toque com agulha, ainda que a pele adjacente esteja dolorosa. Não há flictenas na área central da lesão. Qual a profundidade da queimadura?
A queimadura de terceiro grau, ou de espessura total, caracteriza-se por aspecto esbranquiçado ou de couro, superfície seca, ausência de enchimento capilar e anestesia local por destruição das terminações nervosas, exatamente o descrito. O primeiro grau limita-se à epiderme, com eritema doloroso e sem flictenas. O segundo grau superficial apresenta flictenas, base rósea úmida e dor intensa. O segundo grau profundo mantém alguma sensibilidade e tem base mais pálida, mas ainda empalidece parcialmente. O quarto grau implica acometimento de estruturas profundas, como músculo e osso, não relatadas.
Homem, 56 anos, com queimadura de 48% da superfície corporal, recebeu nas primeiras 24 horas volume 40% acima do previsto pela fórmula padronizada. No segundo dia apresenta edema generalizado e piora respiratória. PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, FR 30 ipm, SatO2 89% com máscara. Pressão intra-abdominal de 18 mmHg, pressão de pico elevada e radiografia com infiltrado alveolar bilateral difuso. Qual é a complicação em curso?
O quadro é típico das complicações do excesso de volume infundido, fenômeno conhecido como fluid creep, que produz edema pulmonar, elevação da pressão intra-abdominal, edema de partes moles e conversão de queimaduras superficiais em profundas. O choque hipovolêmico persistente cursaria com hipotensão, oligúria e hemoconcentração, e não com edema generalizado e pressão normal. A sepse tem manifestação sistêmica com hipotermia, leucopenia e íleo, não descrita. A embolia gordurosa está ligada a fraturas de ossos longos. A insuficiência cardíaca por miocardiopatia prévia não é sustentada por nenhum antecedente relatado.
Homem, 38 anos, 80 kg, com queimadura de 40% da superfície corporal há 2 horas, sem lesão inalatória. PA 112x66 mmHg, FC 116 bpm, FR 22 ipm, T 36,5 °C. Consciente, com dois acessos venosos periféricos calibrosos instalados e sonda vesical para controle de diurese. Exames iniciais: hematócrito 52%; sódio 140 mEq/L; potássio 4,2 mEq/L; lactato 3,4 mmol/L; função renal ainda preservada. Qual o fluido de escolha nas primeiras horas?
O Ringer lactato é o cristaloide de escolha na ressuscitação inicial do queimado, por ser balanceado e reduzir o risco de acidose hiperclorêmica associada ao uso de grandes volumes de salina isotônica. A solução glicosada não expande adequadamente o intravascular e provoca hiponatremia. A albumina pode ser considerada após as primeiras horas em casos selecionados, mas não como reposição exclusiva inicial. O hematócrito elevado reflete hemoconcentração por perda plasmática, e não indica transfusão. A salina hipertônica em infusão prolongada associa-se a hipernatremia e injúria renal.
Mulher, 24 anos, após exposição solar prolongada em praia, apresenta eritema doloroso em dorso, tórax e membros superiores há 12 horas, sem flictenas. PA 112x70 mmHg, FC 88 bpm, T 37,6 °C. Pele eritematosa, quente e dolorosa ao toque, que empalidece à digitopressão, sem descolamento epidérmico. Refere cefaleia e mal-estar, com boa aceitação de líquidos por via oral e diurese preservada. Qual a conduta?
A queimadura solar descrita é de primeiro grau, com eritema doloroso que empalidece e sem descolamento epidérmico, e o tratamento é sintomático, com hidratação, analgesia, compressas frias e emolientes, além de orientação sobre fotoproteção. A internação para reposição volêmica não se justifica, até porque queimaduras de primeiro grau não entram no cálculo de superfície para ressuscitação. A antibioticoprofilaxia é desnecessária sem solução de continuidade. O corticoide sistêmico prolongado não traz benefício. O desbridamento cirúrgico de área sem necrose é conduta equivocada.
Homem, 40 anos, pesando 70 kg, vítima de queimadura por chama, apresenta lesões de segundo e terceiro graus acometendo 40% da superfície corporal, ocorridas há 1 hora. Exame: PA 108x64 mmHg, FC 118 bpm, FR 22 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, sem estridor, sem vibrissas chamuscadas, consciente e orientado. A equipe calcula a reposição volêmica das primeiras 24 horas conforme fórmula padronizada. Qual o volume aproximado a ser infundido nas primeiras 8 horas pela fórmula de Parkland?
A fórmula de Parkland estima 4 mL de cristaloide por quilo de peso por percentual de superfície corporal queimada nas primeiras 24 horas, resultando em 4 vezes 70 vezes 40, ou seja, 11.200 mL, dos quais metade — 5.600 mL — deve ser infundida nas primeiras 8 horas contadas a partir do momento da queimadura, e o restante nas 16 horas seguintes. O valor de 1.400 mL subestima grosseiramente a necessidade. O valor de 2.800 mL corresponderia a um cálculo com constante menor e distribuição incorreta. O valor de 11.200 mL é o total das 24 horas, e não das primeiras 8. O valor de 700 mL é incompatível com a superfície queimada, e embora a diurese horária seja o principal parâmetro de ajuste, ela não substitui o cálculo inicial.
Mulher, 33 anos, sofreu queimadura em membro superior direito por líquido superaquecido. Exame: área com aspecto esbranquiçado e coriáceo, seca, indolor ao toque com agulha, sem enchimento capilar, medindo cerca de 8% da superfície corporal, adjacente a área eritematosa com bolhas, úmida e muito dolorosa. Não há acometimento de face, pescoço ou tórax, e a paciente encontra-se estável hemodinamicamente. Qual a classificação e a implicação terapêutica da área esbranquiçada e indolor?
Aspecto esbranquiçado e coriáceo, superfície seca, ausência de dor por destruição das terminações nervosas e ausência de enchimento capilar caracterizam queimadura de espessura total, ou terceiro grau, que não cicatriza espontaneamente e exige desbridamento com enxertia cutânea. A queimadura de primeiro grau acomete apenas a epiderme, com eritema doloroso sem bolhas e resolução em poucos dias. A de segundo grau superficial apresenta bolhas, base rósea úmida e dor intensa, com cicatrização espontânea em duas semanas — corresponde à área adjacente descrita. A de segundo grau profunda tem cicatrização lenta e frequentemente necessita de enxertia, não sendo garantida a resolução espontânea. Não existe classificação de primeiro grau profunda tratada apenas com hidratação nesse contexto.
Mulher, 34 anos, com queimadura de 45% da superfície corporal, encontra-se em reposição volêmica conforme fórmula padronizada, na sexta hora após a lesão. Exame: PA 104x62 mmHg, FC 116 bpm, extremidades com enchimento capilar de 3 segundos, diurese de 0,2 mL/kg por hora nas últimas duas horas, sem hematúria. Lactato de 3,6 mmol/L; hematócrito elevado. Encontra-se sedada e em ventilação mecânica. Qual a conduta mais adequada?
A fórmula de reposição no grande queimado é apenas ponto de partida, e o ajuste deve ser guiado por parâmetros clínicos, sobretudo a diurese, com alvo em torno de 0,5 mL/kg por hora no adulto, além de perfusão periférica, lactato e hemodinâmica; diurese de 0,2 mL/kg por hora com taquicardia, hemoconcentração e lactato elevado indica reposição insuficiente e exige aumento da infusão. Manter rigidamente o volume calculado ignora a variabilidade individual. O diurético mascara o principal parâmetro de monitorização e agrava a hipovolemia. Restringir a infusão aprofunda o choque, embora o excesso de volume também deva ser evitado. O vasopressor em dose alta como primeira medida trata a hipotensão sem corrigir a hipovolemia subjacente.
Equipe de emergência avalia pacientes com queimaduras de diferentes agentes e profundidades, discutindo a classificação das lesões, a estimativa da superfície corporal acometida e os critérios de encaminhamento a centro especializado, além dos cuidados iniciais com curativos e analgesia. Sobre esse tema, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação de que a queimadura de terceiro grau é a mais dolorosa é incorreta e responde à questão, pois a destruição de toda a espessura da pele elimina as terminações nervosas, tornando a lesão tipicamente indolor no centro, com aspecto branco nacarado ou carbonizado. O acometimento apenas da epiderme sem bolhas na queimadura de primeiro grau está corretamente descrito. A formação de bolhas com dor intensa na de segundo grau superficial é correta. O uso da regra dos nove no adulto é adequado. A atenção especial a queimaduras de face, mãos, períneo e circunferenciais é recomendação consolidada.
Menina, 5 anos, 20 kg, com queimadura de 30% da superfície corporal há 1 hora. PA 96x58 mmHg, FC 138 bpm, FR 30 ipm, T 36,4 °C. Consciente, com acesso venoso periférico e sonda vesical instalados. Glicemia capilar de 82 mg/dL. Não há lesão inalatória nem trauma associado, e a criança apresenta boa perfusão de extremidades no momento da avaliação inicial. Sobre a reposição volêmica, assinale a alternativa correta.
Na criança queimada, além do volume calculado pela fórmula de ressuscitação, é necessário somar a hidratação de manutenção, geralmente com solução contendo glicose, pois as reservas de glicogênio são limitadas e o risco de hipoglicemia é real. A fórmula do adulto isolada subestima as necessidades pediátricas. A meta de diurese na criança é maior, em torno de 1 mL por quilo por hora. A solução glicosada não substitui o cristaloide na expansão, servindo à manutenção. E o cálculo depende simultaneamente do peso e da superfície queimada.
Mulher, 78 anos, diabética, sofreu queimadura por escaldadura com 28% de superfície corporal queimada, em segundo e terceiro graus, sem lesão inalatória. PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, T 36,4 °C. Recebe reposição volêmica com Ringer lactato guiada por diurese. Albumina 2,8 g/dL (VR 3,5-5,0); glicemia 260 mg/dL. Sobre o prognóstico e o manejo da queimadura no idoso, assinale a alternativa correta.
Idade e extensão da superfície queimada são os principais determinantes de mortalidade, e comorbidades como diabetes e desnutrição, evidenciadas aqui por glicemia de 260 mg/dL e albumina de 2,8 g/dL, agravam o prognóstico desta paciente de 78 anos com 28% de superfície queimada. Afirmar que a idade não pesa contraria todos os escores prognósticos. A pele do idoso é mais fina e atrófica, o que aprofunda a lesão por escaldadura em vez de proteger. Duplicar sistematicamente o volume infundido gera sobrecarga e síndrome compartimental, devendo a reposição ser titulada pela diurese. A excisão e o enxerto precoces reduzem infecção e mortalidade também no idoso selecionado, não devendo ser evitados por princípio.
Vítima de incêndio doméstico apresenta, em membro superior direito, área de eritema doloroso sem flictenas; em tórax anterior, flictenas de conteúdo seroso com base rósea e dolorosa; e em abdome, área esbranquiçada, seca, indolor e com trombose de vasos superficiais visíveis. PA 108x66 mmHg, FC 116 bpm, FR 24 ipm, T 36,8 °C. Sobre a classificação dessas lesões, é correto afirmar que:
A área esbranquiçada, seca, indolor e com trombose de vasos superficiais corresponde à queimadura de espessura total, na qual a destruição das terminações nervosas explica justamente a analgesia, sendo a mais profunda entre as descritas. A flictena de conteúdo seroso com base rósea e dolorosa caracteriza a queimadura de espessura parcial superficial ou intermediária. O eritema doloroso sem flictenas é a queimadura superficial, de primeiro grau. A dor não é proporcional à profundidade, e sua ausência é justamente sinal de gravidade. A extensão corporal é determinante prognóstico maior, influenciando reposição volêmica, risco de infecção e mortalidade.
Homem tem queimadura de espessura total circunferencial no antebraço. Durante a evolução, a mão torna-se fria, com piora de perfusão e sinais Doppler distais progressivamente reduzidos, apesar de ressuscitação adequada. Qual é o diagnóstico mais provável?
Escara inelástica com deterioração distal sugere restrição mecânica que ameaça a perfusão. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Mulher de 28 anos derrama água quente no antebraço. Há pequena área rosada, úmida, com bolhas e dor intensa, que empalidece à pressão. Não há acometimento de mão, articulação ou circunferência do membro. Qual é o diagnóstico mais provável?
Umidade, bolhas, dor e branqueamento sugerem preservação de parte da derme e de terminações nervosas. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Mulher de 28 anos derrama água quente no antebraço. Há pequena área rosada, úmida, com bolhas e dor intensa, que empalidece à pressão. Não há acometimento de mão, articulação ou circunferência do membro. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A preservação de anexos cutâneos permite reepitelização em lesões adequadamente cuidadas. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Mulher de 28 anos derrama água quente no antebraço. Há pequena área rosada, úmida, com bolhas e dor intensa, que empalidece à pressão. Não há acometimento de mão, articulação ou circunferência do membro. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
Esses achados favorecem lesão superficial em relação à pele seca e insensível de espessura total. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Mulher de 28 anos derrama água quente no antebraço. Há pequena área rosada, úmida, com bolhas e dor intensa, que empalidece à pressão. Não há acometimento de mão, articulação ou circunferência do membro. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
Cuidados locais, avaliação de tétano e reavaliação são essenciais; gelo direto pode agravar lesão. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Homem tem queimadura de espessura total circunferencial no antebraço. Durante a evolução, a mão torna-se fria, com piora de perfusão e sinais Doppler distais progressivamente reduzidos, apesar de ressuscitação adequada. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A escara não acompanha a expansão dos tecidos, podendo comprometer circulação. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Homem tem queimadura de espessura total circunferencial no antebraço. Durante a evolução, a mão torna-se fria, com piora de perfusão e sinais Doppler distais progressivamente reduzidos, apesar de ressuscitação adequada. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
A avaliação seriada é decisiva; pulsos presentes no início não afastam evolução para comprometimento. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Homem tem queimadura de espessura total circunferencial no antebraço. Durante a evolução, a mão torna-se fria, com piora de perfusão e sinais Doppler distais progressivamente reduzidos, apesar de ressuscitação adequada. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
A liberação da escara pode restaurar expansão; fasciotomia é outro procedimento e depende de síndrome compartimental profunda. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Trabalhador toca cabo de alta tensão e apresenta pequenas lesões de entrada e saída, dor muscular extensa e urina escura. A creatinoquinase está muito elevada e há necessidade de monitorização cardíaca. Qual é o diagnóstico mais provável?
Lesão cutânea pequena pode ocultar dano profundo; dor muscular, pigmentúria e CK elevada sugerem rabdomiólise. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Trabalhador toca cabo de alta tensão e apresenta pequenas lesões de entrada e saída, dor muscular extensa e urina escura. A creatinoquinase está muito elevada e há necessidade de monitorização cardíaca. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A mioglobina e os distúrbios eletrolíticos podem contribuir para lesão renal e arritmias. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Trabalhador toca cabo de alta tensão e apresenta pequenas lesões de entrada e saída, dor muscular extensa e urina escura. A creatinoquinase está muito elevada e há necessidade de monitorização cardíaca. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
A extensão da lesão muscular não é estimada apenas pela superfície cutânea queimada. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Trabalhador toca cabo de alta tensão e apresenta pequenas lesões de entrada e saída, dor muscular extensa e urina escura. A creatinoquinase está muito elevada e há necessidade de monitorização cardíaca. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
A abordagem busca prevenir e tratar complicações profundas; avaliar apenas a pele subestima gravidade. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Trabalhador sofre contato de solução alcalina forte com pele da perna. Ainda há roupa contaminada e material líquido sobre a superfície. Está consciente, sem acometimento ocular ou respiratório. Qual é o diagnóstico mais provável?
A exposição local a substância cáustica produz lesão que pode continuar enquanto houver contato. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Trabalhador sofre contato de solução alcalina forte com pele da perna. Ainda há roupa contaminada e material líquido sobre a superfície. Está consciente, sem acometimento ocular ou respiratório. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A permanência do produto prolonga a agressão e pode aprofundar a queimadura. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Trabalhador sofre contato de solução alcalina forte com pele da perna. Ainda há roupa contaminada e material líquido sobre a superfície. Está consciente, sem acometimento ocular ou respiratório. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
A história de exposição e identificação do produto orientam descontaminação e precauções específicas. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Trabalhador sofre contato de solução alcalina forte com pele da perna. Ainda há roupa contaminada e material líquido sobre a superfície. Está consciente, sem acometimento ocular ou respiratório. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
Interromper exposição é prioritário; neutralização pode gerar calor e agravar lesão, e agentes especiais exigem protocolo próprio. Referência: https://medlineplus.gov/burns.html
Adulto com queimadura extensa necessita iniciar reposição intravenosa e acompanhar diurese e perfusão para ajustar volume. Qual medida responde à prioridade descrita?
A resposta clínica deve orientar a ressuscitação. Queimaduras extensas podem exigir reposição intravenosa monitorizada; fórmulas são ponto de partida e a resposta orienta ajustes. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Paciente com queimadura torácica circunferencial profunda tem ventilação limitada pela escara rígida, sem causa pulmonar dominante. Qual medida responde à prioridade descrita?
A constrição da parede pode exigir escarotomia. Queimadura circunferencial profunda pode formar constrição; liberação da escara é considerada quando há comprometimento compatível. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Paciente com grande área de queimadura apresenta hipoperfusão por perda intravascular, com via aérea protegida. A prioridade é a reposição circulatória. Qual medida responde à prioridade descrita?
Queimadura extensa pode exigir ressuscitação volêmica titulada. Queimaduras extensas podem exigir reposição intravenosa monitorizada; fórmulas são ponto de partida e a resposta orienta ajustes. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Pessoa com queimadura circunferencial profunda no antebraço desenvolve redução de perfusão distal por escara constritiva, confirmada na avaliação especializada. Qual medida responde à prioridade descrita?
Liberação da escara pode restaurar perfusão comprometida. Queimadura circunferencial profunda pode formar constrição; liberação da escara é considerada quando há comprometimento compatível. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Adulto com grande superfície queimada recebe suporte inicial; a prioridade circulatória é repor perdas e monitorar perfusão, sem volume fixo inflexível. Qual medida responde à prioridade descrita?
A ressuscitação deve combinar estimativa inicial e ajustes pela resposta. Queimaduras extensas podem exigir reposição intravenosa monitorizada; fórmulas são ponto de partida e a resposta orienta ajustes. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Queimadura profunda e circunferencial limita expansão torácica, com piora ventilatória atribuída à rigidez da escara. Qual medida responde à prioridade descrita?
A liberação da escara pode melhorar a mecânica ventilatória. Queimadura circunferencial profunda pode formar constrição; liberação da escara é considerada quando há comprometimento compatível. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Pessoa com grande queimadura apresenta diurese baixa durante ressuscitação. A equipe reavalia perfusão e ajusta cristaloide conforme o conjunto clínico. Qual medida responde à prioridade descrita?
Reposição deve ser titulada, evitando seguir fórmula sem reavaliação. Queimaduras extensas podem exigir reposição intravenosa monitorizada; fórmulas são ponto de partida e a resposta orienta ajustes. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Após queimadura circular profunda de perna, surgem sinais de constrição distal atribuídos à escara, com necessidade de descompressão cutânea. Qual medida responde à prioridade descrita?
Escarotomia aborda a escara que comprime o membro. Queimadura circunferencial profunda pode formar constrição; liberação da escara é considerada quando há comprometimento compatível. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Adulto de 100 kg apresenta 25% de superfície corporal queimada já calculada corretamente. O objetivo é aplicar a fórmula do enunciado, sem outras parcelas ou ajustes. Para este exercício, use 4 mL × peso em kg × percentual de superfície corporal queimada. Qual é o volume calculado para 24 horas, antes de qualquer ajuste clínico?
4 × 100 × 25 = 10.000 mL, equivalentes a 10 litros. Neste exercício, aplica-se exclusivamente a fórmula fornecida: 4 mL × peso em kg × percentual de superfície queimada. Na prática, estimativas iniciais exigem ajuste pela resposta clínica e pelo protocolo adotado. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Pessoa adulta de 80 kg tem 25% de superfície queimada de espessura parcial ou total. Não se incluem áreas apenas eritematosas no percentual informado. Para este exercício, use 4 mL × peso em kg × percentual de superfície corporal queimada. Qual é o volume calculado para 24 horas, antes de qualquer ajuste clínico?
4 × 80 × 25 = 8.000 mL, equivalentes a 8 litros. Neste exercício, aplica-se exclusivamente a fórmula fornecida: 4 mL × peso em kg × percentual de superfície queimada. Na prática, estimativas iniciais exigem ajuste pela resposta clínica e pelo protocolo adotado. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Paciente adulto de 75 kg apresenta 20% da superfície corporal com queimadura contabilizável. Considere exclusivamente a equação indicada para o cálculo didático. Para este exercício, use 4 mL × peso em kg × percentual de superfície corporal queimada. Qual é o volume calculado para 24 horas, antes de qualquer ajuste clínico?
4 × 75 × 20 = 6.000 mL, equivalentes a 6 litros. Neste exercício, aplica-se exclusivamente a fórmula fornecida: 4 mL × peso em kg × percentual de superfície queimada. Na prática, estimativas iniciais exigem ajuste pela resposta clínica e pelo protocolo adotado. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Adulto de 50 kg tem queimadura de espessura parcial ou total em 20% da superfície corporal. A questão solicita apenas o cálculo pelo coeficiente explicitamente fornecido. Para este exercício, use 4 mL × peso em kg × percentual de superfície corporal queimada. Qual é o volume calculado para 24 horas, antes de qualquer ajuste clínico?
4 × 50 × 20 = 4.000 mL, equivalentes a 4 litros. Neste exercício, aplica-se exclusivamente a fórmula fornecida: 4 mL × peso em kg × percentual de superfície queimada. Na prática, estimativas iniciais exigem ajuste pela resposta clínica e pelo protocolo adotado. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Qual procedimento está representado no painel direito para a queimadura circunferencial constritiva?

A incisão libera a escara rígida e permite expansão dos tecidos edemaciados.
Qual combinação torna urgente considerar a intervenção ilustrada?

A escara pode funcionar como faixa constritiva sobre o edema.
Se a liberação da escara mostrada não restaura perfusão e há suspeita de hipertensão compartimental profunda, qual avaliação adicional é necessária?

Escarotomia não abre necessariamente os compartimentos musculares.
Pela mesma fórmula de Parkland, quanto do volume estimado deve corresponder às primeiras 8 horas a partir da queimadura, para 80 kg?

Metade de 9.600 mL é 4.800 mL; o relógio começa na queimadura, não na admissão.
Qual superfície corporal queimada deve ser usada no cálculo de ressuscitação, excluindo eritema superficial?

Somam-se espessura parcial e total: 22+8=30%. Eritema superficial não entra nessa estimativa.
Para adulto de 80 kg, usando explicitamente a fórmula clássica de Parkland de 4 mL/kg/% nas primeiras 24 h, qual volume inicial estimado resulta do gráfico?

A área elegível é 30%; 4×80×30=9.600 mL. A fórmula é estimativa inicial e deve ser titulada à resposta.
Qual categoria do gráfico não costuma entrar no percentual para ressuscitação por grandes queimaduras?

Lesões restritas à epiderme não são incluídas na SCQ usada nessas fórmulas.
Qual interpretação evita transformar a conta baseada no gráfico em prescrição rígida?

A necessidade real varia e excesso de fluidos também causa dano.
Na última hora, qual diurese por peso o adulto do gráfico apresenta?

22 mL/h divididos por 70 kg resultam em aproximadamente 0,31 mL/kg/h.
Para meta inicial de pelo menos 0,5 mL/kg/h neste adulto sem condição que altere a meta, qual diurese horária mínima corresponde?

0,5×70=35 mL/h; as medidas da figura permanecem abaixo dessa meta.
Qual leitura da resposta à infusão constante é adequada?

O volume fixo não está produzindo resposta urinária suficiente.
Antes de aumentar repetidamente o volume apenas pela curva urinária, qual verificação simples é necessária?

Erro de drenagem pode simular oligúria; excesso de volume também deve ser evitado.
Qual parâmetro do gráfico, isoladamente, não garante que a ressuscitação está adequada?

Pressão preservada não exclui hipoperfusão ou necessidade de reavaliação.
A passagem de líquido do vaso para o interstício favorece qual sinal?

Acúmulo de líquido intersticial produz edema.
Se pressões ventilatórias e tensão abdominal aumentam durante reposição muito volumosa, qual risco deve ser reavaliado?

Excesso de volume pode agravar edema e disfunção; reavaliação deve integrar perfusão e efeitos adversos.
Em grande queimado, qual mecanismo da figura explica edema mesmo com redução do volume circulante efetivo?

Lesão da barreira favorece extravasamento e edema intersticial enquanto pode haver depleção circulatória.
Qual painel mostra barreira capilar mais íntegra?

O painel esquerdo mostra células endoteliais alinhadas, sem o extravasamento acentuado da direita.
Por que uma fórmula inicial de volume não deve ser seguida rigidamente sem reavaliar o queimado?

Fórmulas são pontos de partida; evolução, diurese e perfusão exigem titulação individual.
Após escaldadura há duas horas, um adulto apresenta a lesão ilustrada. O leito é muito doloroso e recupera rapidamente a cor após pressão suave. Qual profundidade é mais compatível com o conjunto? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

Superfície rósea e úmida, perda epidérmica e sensibilidade preservada favorecem derme superficial viável.
Um adulto estável apresenta apenas a queimadura ilustrada, com sensibilidade e perfusão preservadas. Qual previsão de cicatrização é mais compatível com o aspecto inicial? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

O leito mostrado favorece preservação dérmica; a evolução pode mudar a estimativa inicial.
Na queimadura ilustrada, o exame presencial mostra menor sensibilidade e ausência de branqueamento à pressão na região central pálida, enquanto a periferia rósea é dolorosa e branqueia. Qual interpretação é mais adequada? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

A palidez central associada à redução de sensibilidade e perfusão favorece maior profundidade local.
Qual mudança mecânica aparece após a incisão no painel direito? Imagem didática do acervo OsceLabs.

A liberação reduz o efeito de anel rígido sobre o membro.
Após a liberação mostrada, qual reavaliação é essencial? Imagem didática do acervo OsceLabs.

O efeito da intervenção deve ser confirmado; persistência de comprometimento exige investigação e escalonamento.
Por que a presença de pulso proximal não dispensa avaliação de perfusão distal nesse mecanismo? Imagem didática do acervo OsceLabs.

É necessário acompanhar sinais clínicos, Doppler e evolução, não apenas um pulso proximal.
Qual propriedade da queimadura circunferencial favorece o mecanismo à esquerda? Imagem didática do acervo OsceLabs.

A combinação limita expansão e pode comprometer perfusão.
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em 7 dias
Reescreva de memória a profundidade e a regra dos nove. Depois recupere os números: primeiro grau não entra na SCQ; a recomendação atual para ressuscitação inicial do adulto parte de 2 mL/kg/%SCQ, enquanto Parkland clássico usa 4 quando pedido nominalmente; metade chega até a oitava hora contada da queimadura; diurese-alvo é cerca de 0,5 mL/kg/h no adulto e 1 mL/kg/h na criança. Na pediatria, use fórmula específica e acrescente manutenção quando indicada.
em 30 dias
Em três vinhetas, calcule a SCQ excluindo primeiro grau, escolha conscientemente entre a recomendação atual de 2 mL/kg/%SCQ no adulto e o Parkland clássico de 4 mL/kg/%SCQ quando ele for explicitamente solicitado, desconte o tempo desde a queimadura e encontre a taxa por hora. Em criança, use o protocolo pediátrico e lembre da manutenção. Depois ajuste cada taxa a partir da diurese, percorra os critérios de encaminhamento e revise lesão inalatória, queimadura circunferencial e lesão elétrica.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Homem de 41 anos chega ao pronto-socorro trazido pelo SAMU após explosão de botijão em cozinha fechada. Está consciente, com voz rouca, fuligem ao redor da boca, e apresenta lesões em face, tronco anterior e ambos os membros superiores. Faça a avaliação inicial, decida a via aérea, calcule a superfície corporal queimada e a reposição volêmica, procure indicação de escarotomia e defina o destino do paciente. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
