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Centro de queimados: quem vai, e o curativo de quem fica
Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida
A lista de transferência cai literal, e o Brasil tem uma lista que não é a da American Burn Association. Depois de decidir o destino sobram duas perguntas que valem ponto sozinhas: o que corre na veia enquanto a ambulância não chega, e o que se põe — e o que jamais se põe — sobre a ferida.
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Homem de 45 anos sofreu queimadura elétrica de alta tensão no membro superior direito, que agora se apresenta com queimadura circunferencial de espessura total, edemaciado, tenso, com dor desproporcional, parestesia dos dedos e enchimento capilar lentificado, além de ausência de pulso radial ao Doppler. Qual é a conduta imediata para preservar a viabilidade do membro?
Como esse tema cai
Contar a superfície e classificar a profundidade é o capítulo anterior desta apostila, e é de lá que vêm a regra dos nove, a regra da palma, o diagrama de Lund-Browder e a definição das quatro profundidades. Aqui a pergunta é a seguinte: com a conta já feita, para onde vai esse paciente, o que corre na veia dele enquanto a vaga não sai, e o que se coloca sobre a ferida de quem não vai a lugar nenhum. São três decisões independentes, e a prova cobra as três separadamente.
A lista de critérios de encaminhamento é o coração do capítulo e cai literal, item por item. O problema é que existe mais de uma lista. A do Ministério da Saúde, na Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, transfere a queimadura de 2º grau acima de 20% da superfície corporal no adulto; a da American Burn Association encaminha a partir de 10% de espessura parcial em qualquer idade. É o dobro, no número mais perguntado do tema, e o enunciado quase sempre entrega qual das duas está em jogo.
Reposição volêmica aqui não é a fórmula, é o relógio e a titulação. O relógio começa na hora da queimadura, não na hora da chegada, e metade do volume das 24 horas tem de entrar até completar 8 horas desse relógio — o que significa que um paciente que chega com 2 horas de acidente tem 6 horas para infundir o mesmo volume. E a fórmula é ponto de partida: quem corrige é a diurese, medida de hora em hora. Errar para cima tem preço próprio, o edema da hiper-ressuscitação.
O cuidado da ferida tem uma régua brasileira própria e três perguntas fixas: com o que se lava, o que se põe e o que jamais se põe. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é explícita ao listar, entre o que o desbridamento cirúrgico precisa remover, os medicamentos caseiros que a família já aplicou — pasta, borra, gordura, folha. Do mesmo lado da linha estão o agente neutralizante na queimadura química, que produz reação exotérmica, e o antibiótico profilático sistêmico, que a diretriz proíbe com todas as letras.
O que muda decisão
O que é, no Brasil, um centro de queimados
A Portaria GM/MS nº 1.273, de 21 de novembro de 2000, institui a Política Nacional de Assistência a Queimados e cria os mecanismos de organização e implantação das Redes Estaduais de Assistência a Queimados — serviços hierarquizados e regionalizados, em relação estreita com os Sistemas Estaduais de Referência Hospitalar em Atendimento de Urgências e Emergências. O conteúdo dessa portaria está hoje consolidado no Anexo VIII da Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017, que é a norma a citar quando a questão pedir o dispositivo em vigor.
Centro de Referência em Assistência a Queimados, na definição oficial, é o hospital ou serviço devidamente cadastrado que, dispondo de maior nível de complexidade, condições técnicas, instalações físicas, equipamentos e recursos humanos específicos para o atendimento a pacientes com queimaduras, seja capaz de constituir a referência especializada da rede. A habilitação tem dois códigos: 21.01, centro de referência de média complexidade, e 21.02, centro de referência de alta complexidade. Não é um rótulo que o hospital escolhe: é habilitação pedida pelo gestor estadual, analisada pelo Ministério e publicada.
A consequência prática dessa arquitetura é a que a prova cobra: encaminhar não é despachar. A Cartilha do Ministério é taxativa em três pontos. A transferência deve ser solicitada à unidade de tratamento de queimaduras de referência, depois da estabilização hemodinâmica e das medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados. Paciente grave só se transfere acompanhado de médico, em ambulância com UTI móvel e possibilidade de assistência ventilatória. E deve seguir sempre relatório com todas as informações colhidas, as anotações de conduta e os exames realizados.
O mesmo texto acrescenta um detalhe que muda o comportamento de quem está no hospital geral: as unidades de referência sempre têm profissionais habilitados para orientar o tratamento completo. O telefonema não serve só para pedir vaga — serve para conduzir o paciente enquanto a vaga não sai. A lista da American Burn Association organiza a mesma ideia numa coluna à parte, a de recomendação de consulta, para casos em que a discussão com o centro é útil mesmo quando a transferência não é obrigatória.
Um cuidado logístico fecha a seção: o transporte aéreo de paciente com trauma, pneumotórax ou alterações pulmonares exige extremo cuidado pelo risco de expansão dos gases e piora clínica. Em queimado que já tem restrição ventilatória por escara circunferencial de tórax ou lesão inalatória, esse detalhe deixa de ser trivial.

A lista brasileira de transferência, item a item
A Cartilha do Ministério da Saúde traz, no item 12, os critérios de transferência de pacientes para unidades de tratamento de queimaduras. São nove entradas, e é essa a lista que uma questão de concurso brasileiro reproduz quando cita fonte nacional. Extensão: queimadura de 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal queimada no adulto; queimadura de 2º grau maior que 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. Profundidade: queimadura de 3º grau em qualquer extensão.
Localização: lesões na face, nos olhos, no períneo, nas mãos, nos pés e em grandes articulações. Repare que a lista de localização não pede percentual nenhum — uma queimadura de 2º grau de 2% em dorso de mão entra por região, não por tamanho, e essa é a pegadinha mais produtiva do tema. A lista de áreas nobres da mesma Cartilha, no item de extensão, é mais larga que a de transferência e inclui orelhas, pescoço, região inguinal e a enumeração das grandes articulações: ombro, axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho e tornozelo.
Agente: queimadura elétrica e queimadura química, ambas sem qualquer corte de extensão. Via aérea e parede: lesão inalatória ou lesão circunferencial de tórax ou de membros — vale notar que a circunferencial aparece na lista brasileira de transferência lado a lado com a inalatória, o que nem toda lista internacional faz de modo explícito.
E o item que reúne o resto, e que é o mais esquecido: doenças associadas, tentativa de autoextermínio, politrauma, maus-tratos ou situações sociais adversas. Quatro dessas cinco entradas não têm nada a ver com a pele. Uma queimadura de 6% num paciente cuja história não fecha, ou num paciente que se queimou de propósito, é queimadura de centro de referência pela mesma lista que transfere o grande queimado.
Essa lista de transferência convive com uma segunda régua brasileira, a de pequeno, médio e grande queimado, que serve para classificar gravidade e enquadrar a internação, e que já foi tabelada no capítulo anterior desta apostila. As duas não são intercambiáveis: gravidade e destino são perguntas diferentes, e a prova às vezes oferece a resposta de uma como distrator da outra.
A lista da American Burn Association, e onde ela não bate com a brasileira
A versão vigente das diretrizes de encaminhamento da American Burn Association, de 2022, abandonou a lista corrida de dez itens que os manuais antigos reproduziam e passou a organizar tudo em duas colunas: consulta imediata com consideração de transferência, e recomendação de consulta. Essa mudança de formato é a primeira coisa a saber, porque ela dissolve a pergunta binária que a prova antiga fazia — nem todo caso é transferir ou não transferir; parte deles é conversar com o centro.
Na coluna de consulta imediata, para queimadura térmica: queimadura de espessura total, de qualquer tamanho; espessura parcial igual ou maior que 10% da superfície corporal; qualquer queimadura de espessura parcial profunda ou total envolvendo face, mãos, genitália, pés, períneo ou sobre articulações; paciente com queimadura e comorbidades; paciente com trauma concomitante; e dor mal controlada. Esse último item é uma novidade da régua internacional e não tem correspondente na lista brasileira.
Na coluna de recomendação de consulta entram a queimadura de espessura parcial menor que 10% e toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho. A lógica é que profundidade é diagnóstico que amadurece: o que hoje parece espessura parcial pode aprofundar, e quem vai reavaliar é quem opera. Lesão inalatória suspeita vai para a coluna imediata; sinais de inalação potencial, como queimadura de face por chama súbita, vibrissas chamuscadas ou exposição a fumaça, vão para a coluna de consulta.
A pediatria ganhou linha própria e o recorte é etário e ponderal: 14 anos ou menos, ou menos de 30 kg. E o texto é largo — toda queimadura pediátrica pode se beneficiar de encaminhamento a centro de queimados, por dor, necessidade de trocas de curativo, reabilitação, demandas do paciente e do cuidador, ou trauma não acidental. A lista brasileira de transferência não tem esse item genérico; ela chega ao mesmo lugar por outra porta, a dos maus-tratos e das situações sociais adversas.
Química: toda lesão química vai para consulta imediata, sem corte. Elétrica: toda lesão de alta tensão, definida como 1.000 V ou mais, e a lesão por raio vão para consulta imediata; a de baixa tensão, abaixo de 1.000 V, entra na coluna de consulta com consideração de seguimento em centro de queimados para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. Esse detalhe da catarata e dos sintomas que aparecem depois é o que impede a alta simples do paciente que levou um choque doméstico e não tem lesão visível.
O relógio, o volume e a diurese: o que está correndo quando a ambulância chega
A Cartilha brasileira admite uma faixa de 2 a 4 mL/kg/%SCQ, enquanto a diretriz contemporânea da American Burn Association recomenda iniciar o adulto com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir sobrecarga. A fórmula clássica de Parkland continua sendo 4 mL/kg/%SCQ quando é solicitada nominalmente. Em qualquer régua, usa-se preferencialmente Ringer lactato, metade do volume estimado até a oitava hora da queimadura e metade nas 16 horas seguintes.
Primeiro, o relógio. Para um adulto de 70 kg com 25% de SCQ, a taxa inicial atual de 2 mL/kg/%SCQ estima 3.500 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 1.750 mL, deve chegar até completar oito horas do acidente. Se ele chegou 90 minutos depois, restam seis horas e meia: cerca de 269 mL/h, seguidos de aproximadamente 109 mL/h nas 16 horas seguintes. Pela fórmula clássica de Parkland, os volumes dobram.
Segundo, a titulação. O alvo de diurese no adulto é cerca de 0,5 mL/kg/h, habitualmente 30 a 50 mL/h, e na criança aproximadamente 1 mL/kg/h. Para o adulto de 70 kg, 35 mL/h é referência inicial. Se a urina fica abaixo da meta, reavaliam-se perfusão, cálculo, atraso e causas associadas; se fica muito acima, reduz-se a taxa. O número calculado cede à resposta do paciente.
Terceiro, o freio. Diurético não corrige ressuscitação inadequada e ainda falsifica o parâmetro de titulação. Coloide, vasopressor e outras intervenções dependem do contexto e do protocolo do centro, mas não devem substituir a revisão do volume inicial e da causa de oligúria. O erro simétrico é insistir em taxas altas e produzir edema, síndrome compartimental e piora respiratória.
Quarto, a monitorização. Grandes queimados precisam de controle horário de diurese, geralmente com sonda vesical; a urina deve ser descrita, especialmente nas lesões elétricas. A taxa calculada acompanha o paciente durante a transferência, mas deve ser reajustada pelo serviço de origem e pelo centro de referência.

Via aérea: por que se intuba antes de transferir
A suspeita de lesão inalatória, na definição da Cartilha, é queimadura em ambiente fechado com acometimento da face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, dispneia, queimadura das vibrissas e insuficiência respiratória. O conjunto é clínico e não depende de exame. A conduta que acompanha é oxigênio a 100% em máscara umidificada, cabeceira elevada a 30° e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, manutenção da oxigenação por três horas. A broncoscopia, na diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é o método indicado na suspeita de inalação, com finalidade diagnóstica e também terapêutica, pela higiene da árvore brônquica.
A lista de indicações formais de intubação da Cartilha é gasométrica e tardia: Glasgow menor que 8, PaO2 menor que 60, PaCO2 maior que 55, dessaturação abaixo de 90 na oximetria e edema importante de face e orofaringe. Todo item dessa lista descreve um paciente que já descompensou. A régua internacional trabalha em outro tempo: a American Burn Association manda encaminhar imediatamente todo paciente com suspeita de lesão inalatória, e a coluna de consulta recolhe até os sinais menores, como a queimadura facial por chama súbita e as vibrissas chamuscadas.
A razão de o custo da espera ser alto é anatômica e não depende de qual lista se adote. A via aérea do queimado que inalou fumaça está pérvia agora e vai fechar por edema progressivo nas horas seguintes, com o agravante de que a reposição volêmica obrigatória alimenta esse edema. A janela em que a intubação é fácil se fecha sozinha, e o que sobra depois é uma via aérea difícil por edema de face, língua e orofaringe — em geral dentro de uma ambulância em movimento, longe do bloco cirúrgico e do material de resgate.
Há ainda um item que não se resolve com oximetria: a saturação de pulso não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e por isso um número normal no monitor não afasta intoxicação por monóxido em quem esteve em ambiente fechado. A Cartilha resolve isso pela ordem de tratar sem esperar dosagem — oxigênio a 100% desde já. E manda ainda procurar outra causa quando a consciência está alterada: alteração de sensório em queimado não se explica pela queimadura.
A ferida: com o que se lava, o que se tira, o que se põe
Limpeza. A Cartilha manda limpar a ferida com água e clorexidina degermante a 2% e, na falta desta, água e sabão neutro. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica descreve o mesmo em duas etapas: no primeiro atendimento, limpeza local com sabão neutro ou glicerinado, sabão de coco ou sabão líquido, e lavagem abundante com água corrente; na rotina do curativo já em ambiente assistencial, limpeza com clorexidina a 2% ou PVPI a 10%. O consenso internacional de 2024 chega a uma recomendação equivalente ao preferir antissépticos tópicos de baixa toxicidade, como a clorexidina e as soluções de hipoclorito.
Bolha. A recomendação de força alta do consenso de 2024 é preservar a bolha íntegra no atendimento pré-hospitalar, pelo efeito protetor da pele da bolha sobre a ferida. Já em ambiente assistencial, a mesma fonte recomenda remover a pele da bolha quando ela está rota, quando é grande, de parede fina, propensa a romper, ou quando há contaminação importante da superfície — e também nas escaldaduras de baixa temperatura. O que muda entre as duas situações é a capacidade de reavaliar e cobrir a lesão logo em seguida.
Desbridamento. A diretriz brasileira indica desbridamento cirúrgico praticamente em todos os casos de queimadura de 2º e de 3º graus, em centro cirúrgico e sob anestesia, com retirada mecânica de todo o tecido necrótico e remoção de secreções e contaminantes — restos de roupa e medicamentos caseiros incluídos, nominalmente. O consenso de 2024 acrescenta uma alternativa e um tempo: depois que a profundidade estabiliza, entre 48 e 72 horas, o desbridamento enzimático com colagenase, bromelina ou papaína é a primeira opção, seguido do autolítico com hidrogéis, e é a via preferida em crianças menores de 3 anos e em mãos. A excisão propriamente dita, na diretriz brasileira, é feita em etapas de 10% a 15% da área corporal, começando 48 a 72 horas após a queimadura.
Tópico e cobertura. A Cartilha nomeia a sulfadiazina de prata a 1% como o antimicrobiano tópico do serviço público brasileiro. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica lista o cardápio completo do qual ela faz parte: cremes de sulfadiazina de prata, sulfadiazina de zinco, salicilato de sódio, enzimas como as colagenases, nitrato de cério e acetato de mafenida, além das opções mais recentes com prata elemental de ação prolongada e dos curativos que trazem clorexidina ou PVPI na composição. O consenso de 2024 inverte a ordem de preferência para o 2º grau: coberturas de espuma e hidrocoloide, com boa absorção de exsudato e manutenção de umidade, vêm primeiro; a gaze com creme oleoso do tipo sulfadiazina de prata vem em segundo.
Montagem e troca. A Cartilha descreve o curativo oclusivo em quatro camadas: atadura de morim ou de tecido sintético do tipo rayon contendo o princípio ativo, gaze absorvente ou gaze de queimado, algodão hidrófilo e atadura de crepe — e manda deixar exposto o curativo da face e do períneo. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica descreve a mesma lógica com gaze de malha fina, isolamento térmico com algodão ortopédico e atadura de crepom, prefere curativos oclusivos exceto em orelha e períneo, e fixa a troca em intervalos de 12 a 36 horas, quando a ferida é reavaliada e o tópico é mantido ou substituído conforme o aspecto. Onde não há pele suficiente, a escala de cobertura é conhecida: autóloga, homóloga, heteróloga e, então, substitutos como a matriz de regeneração dérmica; membranas biológicas, incluindo amniótica e heterólogas, cobrem temporariamente o 2º grau profundo e a área excisada.

O que não se põe — e o que a família já pôs
A lista do que não entra na ferida do queimado é curta e rende questão inteira. Agente neutralizante na queimadura química está proibido pela diretriz brasileira com a justificativa fisiológica dada por extenso: a reação de neutralização é exotérmica e pode agravar a queimadura. O consenso internacional de 2024 chega ao mesmo destino por outro caminho, recomendando com força alta que não se usem neutralizantes de rotina. O que se faz é diluir: água corrente por pelo menos 20 a 30 minutos na redação da diretriz brasileira, no mínimo 30 minutos na Cartilha do Ministério, e de 30 minutos a 2 horas na recomendação internacional.
Antibiótico profilático sistêmico é o segundo item, e a redação da diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica não deixa margem: não se deve utilizar antibiótico profilático, com graus de recomendação apoiados em estudos de melhor e de menor consistência. A Cartilha diz o mesmo em outra forma, restringindo o antibiótico sistêmico às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica, e mandando evitar nos demais casos. Na mesma linha, ela manda evitar o uso indiscriminado de corticosteroides por qualquer via. O consenso de 2024 organiza a exceção: infecção leve é tratada localmente, com limpeza, aumento da frequência de trocas e drenagem; antimicrobiano sistêmico entra a partir da infecção moderada, junto com desbridamento.
Os medicamentos caseiros são o terceiro item, e quem os nomeia é a própria diretriz brasileira, ao listar entre os alvos do desbridamento cirúrgico a remoção de secreções e contaminantes, como restos de roupa e medicamentos caseiros. O que a família aplica antes de chegar ao serviço muda três coisas ao mesmo tempo: contamina a ferida, esconde o leito e impede a leitura da profundidade, e obriga a uma limpeza mais agressiva do que a lesão exigiria. É por isso que a pergunta sobre o que foi passado na lesão faz parte da anamnese do queimado e não é curiosidade.
Agente aderente tem regra própria: a diretriz manda resfriar agentes como o piche com água corrente, mas não tentar a remoção imediata. Puxar o material adere o descolamento à pele viável e converte uma lesão parcial em lesão profunda. Também no capítulo do resfriamento há uma exceção que a prova gosta: o consenso de 2024 recomenda não resfriar rotineiramente a queimadura elétrica de contato — a conduta ali é cobrir, proteger e transportar.
Um diagnóstico diferencial fecha a seção, e ele nasce justamente de receita caseira. A diretriz brasileira descreve como entidade tratada conservadoramente as lesões por psoralenos ou furocumarinas, presentes em folha de figo, limão, mamacadela e ruibarbo, geralmente associadas a bronzeamento com preparados caseiros: é reação fototóxica em que as camadas superficiais da pele se descolam das profundas com formação de bolhas, muito parecida com queimadura de 2º grau. A conduta descrita é conservadora — proteger com tópico eficiente sem remover a pele e aguardar a evolução.
Circunferencial, elétrica e química: o que muda no destino e no procedimento
Escarotomia. A indicação nasce da queimadura de espessura parcial profunda ou total que envolve circunferencialmente uma extremidade, e da queimadura de espessura total no tronco anterior, em que a inelasticidade da pele dificulta as incursões respiratórias. A Cartilha dá as linhas de incisão: no tórax, incisão em linha axilar anterior unida à linha abaixo dos últimos arcos costais; em membros superiores e inferiores, incisões mediais e laterais. Habitualmente não é necessária anestesia local, mas há necessidade de hemostasia — e a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica adverte que o sangramento pode ser significativo depois da recuperação volêmica, ocasionalmente exigindo transfusão.
A decisão de operar não é impressionista. A diretriz brasileira pede avaliação horária de cor da pele, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos periféricos, mas coloca o peso principal na oximetria do segundo dedo da mão ou do pé: é ali que termina o fluxo das artérias radial e ulnar, pelas digitais, de modo que oximetria acima de 90% indica fluxo suficiente para o dedo e, por consequência, para tudo que está proximal a ele, na queimadura térmica. O mesmo texto explica por que abandonou o Doppler como parâmetro principal: houve casos com sinal Doppler positivo que evoluíram com déficits, alguns prolongados, pelo atraso relativo da escarotomia.
A anatomia das incisões tem armadilhas nomeadas. No braço, a incisão vai da extremidade anterior da prega axilar à extremidade ulnar da prega anterior do cotovelo, e devem-se evitar incisões posteriores ao epicôndilo medial do úmero, pelo risco ao nervo ulnar. Na mão, incisões dorsais na topografia do segundo e do quarto metacarpos. Nos dedos, indicador e médio se incisam inicialmente do lado ulnar; polegar, anular e mínimo, do lado radial — sempre dorsal ao feixe vasculonervoso, para que a cicatriz não caia na borda que encosta nos objetos. Na perna, a fasciotomia lateral começa anterior à fíbula e curva progressivamente para trás, evitando o trajeto do nervo fibular.
Fasciotomia é outra operação e outra indicação: suspeita de síndrome compartimental em antebraço ou perna, tipicamente por corrente de alta voltagem ou por politrauma com esmagamento, quando o edema se instala abaixo da fáscia e a escarotomia isolada não resolve. Os parâmetros diagnósticos são a progressão de sinais neurológicos, a dor ao estiramento da musculatura do compartimento e a pressão intracompartimental acima de 30 mmHg ou com diferença menor que 30 para a pressão diastólica do paciente. Na queimadura elétrica pode haver edema subfascial sem queimadura circunferencial alguma, e a abertura do túnel do carpo, feita por incisão ao longo da prega tenar através do ligamento carpal transverso, entra associada às fasciotomias.
Elétrica e química, no que muda o destino. Na elétrica, a Cartilha manda identificar alta tensão, tipo de corrente e pontos de entrada e saída, avaliar perda de consciência ou parada no momento do acidente, manter monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas com dosagem de CPK e CKMB, e internar sempre. Havendo mioglobinúria, aumenta-se a diurese com maior infusão de líquidos, com alvo em torno de 1,5 mL/kg/h ou até o clareamento da urina. Na química, proteção universal da equipe, identificação do agente, remoção de roupas e do excesso — com escova ou pano se for pó — e irrigação prolongada; no ácido fluorídrico com repercussão sistêmica, gluconato de cálcio a 10% por via endovenosa lenta com acompanhamento do cálcio iônico, gel de gluconato de cálcio a 2,5% friccionado por 20 minutos sobre a lesão e, sem melhora, infiltração subcutânea de gluconato de cálcio diluído, em média 0,5 mL por centímetro quadrado de lesão.
Alta, retorno e a história que não fecha
Quem fica precisa de data para voltar, e a Cartilha entrega o gatilho pronto na forma da lista de sinais de infecção da área queimada: mudança da coloração da lesão, edema das bordas ou do segmento acometido, aprofundamento das lesões, mudança do odor, descolamento precoce da escara seca com transformação em escara úmida, coloração hemorrágica sob a escara, celulite ao redor, vasculite no interior da lesão na forma de pontos avermelhados, e aumento ou modificação da queixa dolorosa. Esses nove itens são a orientação de retorno que se escreve no papel do paciente, e o último deles é o mais útil em casa: dor que aumenta depois de ter diminuído é sinal de alarme.
A cadência do seguimento vem do curativo. A troca acontece em intervalos de 12 a 36 horas, e é nela que a ferida é reavaliada e o tópico mantido ou trocado conforme o aspecto — o retorno ambulatorial do pequeno queimado herda essa lógica. O consenso de 2024 formaliza a mesma ideia como recomendação de força alta: a queimadura de 2º grau exige avaliação dinâmica e contínua, procurando melhora, infecção, aumento de tecido necrótico e aprofundamento. Profundidade não é um diagnóstico feito uma vez.
Áreas especiais têm reabilitação que começa antes da alta. As mãos devem ficar elevadas por 24 a 48 horas para minimizar o edema, e os exercícios de amplitude de movimento começam o mais cedo possível; a queimadura circunferencial de mão pode exigir internação apenas para observar a circulação. Os pés queimados doem, mas a marcha e os exercícios de amplitude devem ser encorajados, com elevação nos intervalos. A orelha recebe curativo por exposição, evitando pressão excessiva, para prevenir condrite. As córneas suspeitas se coram com fluoresceína, e há uma regra que se lembra pelo avesso: não ocluir quando o agente lesivo for álcali. O períneo costuma exigir hospitalização, pelo risco de infecção e de obstrução urinária. O que acontece com a cicatriz depois de fechada a ferida — hipertrofia e queloide — é assunto do capítulo de cicatrização da apostila de Cirurgia Plástica desta coleção.
E há a alta que não se dá. Maus-tratos e situações sociais adversas estão nominalmente na lista de transferência da Cartilha, ao lado de politrauma e tentativa de autoextermínio, e a mesma Cartilha os inclui entre as condições que classificam a queimadura como grave. A régua internacional chega lá pela pediatria: o trauma não acidental é uma das razões declaradas pelas quais toda queimadura em criança de até 14 anos, ou abaixo de 30 kg, pode se beneficiar de encaminhamento a centro de queimados. Na prática, a suspeita muda o destino de uma queimadura pequena, e o roteiro de investigação e notificação é o do capítulo de maus-tratos na infância desta coleção.
A queimadura elétrica de baixa tensão fecha o capítulo do seguimento, porque é o caso em que o paciente parece pronto para ir embora. A régua da American Burn Association recomenda consulta com o centro de queimados e consideração de acompanhamento justamente para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. A régua brasileira é ainda mais dura no atacado: a Cartilha manda internar sempre a vítima de trauma elétrico e manter monitorização cardíaca por 24 a 48 horas.
Quem vai, com o que vai, e o que fica na ferida
Três decisões em sequência, e nenhuma depende de a anterior estar bonita: o destino, o que corre enquanto o paciente espera, e a cobertura da lesão. A tabela comparativa existe porque o corte de extensão que a prova cobra muda conforme a régua citada no enunciado.
- 11. Parou o processo, contou a superfície e classificou a profundidade — feito no capítulo anterior. A partir daqui, a %SCQ e o grau já são números na mão.
- 22. Rode a lista de transferência em quatro perguntas, nesta ordem: (a) quanto e quão fundo; (b) onde — face, olhos, períneo, mãos, pés, grandes articulações; (c) qual agente — elétrico, químico, inalatório, circunferencial; (d) quem é o paciente — comorbidade, politrauma, criança, idoso, autoextermínio, maus-tratos, situação social adversa. Uma resposta positiva em qualquer das quatro basta.
- 33. Antes de mover o paciente, resolva a via aérea. Suspeita de lesão inalatória com rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas ou fuligem não se transporta para intubar no destino.
- 44. Escara circunferencial de tórax que restringe a expansão, ou de membro com perfusão ameaçada, se libera antes de embarcar. O parâmetro de decisão é a oximetria no segundo dedo, com reavaliação horária de cor, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos.
- 55. Acerte o relógio do volume: as horas contam da queimadura. Subtraia o tempo já decorrido e recalcule a velocidade para entregar metade do volume das 24 horas até completar a oitava hora do acidente.
- 66. Ligue para a unidade de tratamento de queimaduras de referência antes de despachar. Solicite a transferência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados, e use o telefonema para conduzir o caso enquanto a vaga não sai.
- 77. Prepare o que vai junto: relatório com anamnese, condutas e exames; volume correndo com controle horário de diurese; analgesia venosa feita; profilaxia antitetânica administrada. Paciente grave viaja acompanhado de médico, em ambulância com UTI móvel e possibilidade de assistência ventilatória.
- 88. Para quem fica: limpeza, decisão sobre a bolha, tópico e cobertura em camadas, curativo por exposição em face, orelha e períneo, e troca em 12 a 36 horas com reavaliação da profundidade.
- 99. Escreva a orientação de retorno com os sinais de infecção — mudança de cor ou de odor, escara seca que vira úmida, celulite ao redor, aprofundamento e, principalmente, dor que aumenta depois de ter diminuído.
Porta 1 — Extensão e profundidade
Espessura total (3º grau) transfere em qualquer extensão, nas duas réguas. Espessura parcial (2º grau) depende de qual documento está em jogo: acima de 20% da superfície corporal no adulto pela Cartilha do Ministério da Saúde, e a partir de 10% em qualquer idade pela American Burn Association. Na Cartilha, criança e maiores de 50 anos entram acima de 10%.
Porta 2 — Região, sem percentual nenhum
Face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações — ombro, axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho e tornozelo. A lista de localização não pede tamanho: 2% de 2º grau em dorso de mão entra por região. A régua internacional acrescenta a genitália e qualifica o item pela profundidade, exigindo espessura parcial profunda ou total.
Porta 3 — Agente e via aérea
Queimadura elétrica e química transferem sem corte de extensão. Lesão inalatória transfere em qualquer extensão de queimadura. A lista brasileira coloca a lesão circunferencial de tórax ou de membros nessa mesma linha. Na régua internacional, alta tensão é 1.000 V ou mais, e a baixa tensão pede pelo menos consulta e seguimento, por sintomas tardios e problemas de visão.
Porta 4 — Quem é o paciente
Doenças associadas, politrauma, tentativa de autoextermínio, maus-tratos e situações sociais adversas estão na lista brasileira de transferência com o mesmo peso do percentual. A régua internacional acrescenta a dor mal controlada e abre linha própria para a pediatria — até 14 anos ou menos de 30 kg, por dor, trocas de curativo, reabilitação, demanda do cuidador e trauma não acidental.
Encaminhamento a centro de queimados: a lista brasileira e a lista da ABA lado a lado
| Situação | Cartilha do Ministério da Saúde (2012) — critérios de transferência | American Burn Association (2022) — encaminhamento |
|---|---|---|
| 2º grau / espessura parcial no adulto | Área maior que 20% da SCQ | 10% ou mais da SCQ, em qualquer idade — consulta imediata com consideração de transferência |
| 2º grau / espessura parcial nos extremos de idade | Maior que 10% da SCQ em crianças ou em maiores de 50 anos | Linha própria de pediatria: até 14 anos ou menos de 30 kg, toda queimadura pode se beneficiar de encaminhamento |
| 3º grau / espessura total | Qualquer extensão | Qualquer extensão — consulta imediata |
| Espessura parcial abaixo do corte | Sem item próprio: a lista trabalha por corte de percentual | Recomendação de consulta, junto com toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho |
| Região especial | Face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações | Face, mãos, genitália, pés, períneo ou sobre articulações, quando espessura parcial profunda ou total |
| Lesão inalatória | Sim, em qualquer extensão da queimadura | Suspeita: consulta imediata. Sinais de inalação potencial — chama na face, vibrissas chamuscadas, exposição a fumaça: recomendação de consulta |
| Lesão circunferencial | Item explícito: tórax ou membros, na mesma linha da inalatória | Sem item próprio na lista de 2022; a circunferencial chega pela via da profundidade e da região |
| Queimadura elétrica | Sim, sem corte de extensão | Alta tensão (1.000 V ou mais) e raio: consulta imediata. Baixa tensão (abaixo de 1.000 V): consulta e consideração de seguimento por sintomas tardios e problemas de visão |
| Queimadura química | Sim, sem corte de extensão | Toda lesão química: consulta imediata |
| Comorbidade e trauma associado | Doenças associadas; politrauma | Queimadura com comorbidades; trauma concomitante |
| Dor | Sem item próprio na lista de transferência; a analgesia é conduta de sala | Dor mal controlada: consulta imediata com consideração de transferência |
| Contexto e intenção | Tentativa de autoextermínio, maus-tratos ou situações sociais adversas | Trauma não acidental, nomeado entre as razões do encaminhamento pediátrico |
O que se põe na ferida, e para que serve cada camada
| Categoria | Nomes que as fontes citam | Onde entra |
|---|---|---|
| Antisséptico de limpeza | Clorexidina degermante a 2%; água e sabão neutro na falta dela; sabão glicerinado, de coco ou líquido no primeiro atendimento; clorexidina a 2% ou PVPI a 10% na rotina do curativo; soluções de hipoclorito | Limpeza inicial e a cada troca |
| Antimicrobiano tópico em creme | Sulfadiazina de prata a 1%; sulfadiazina de zinco; nitrato de cério; acetato de mafenida; salicilato de sódio | Sobre a área queimada. A sulfadiazina de prata a 1% é a que a Cartilha do Ministério nomeia como padrão |
| Enzima para desbridamento | Colagenase; bromelina; papaína | Depois que a profundidade estabiliza, 48 a 72 horas — primeira escolha do consenso de 2024 em criança abaixo de 3 anos e em mãos |
| Cobertura em contato com o leito | Gaze de malha fina; atadura de morim ou de rayon com o princípio ativo; espuma; hidrocoloide; hidrogel | Espuma e hidrocoloide são a primeira escolha do consenso de 2024 no 2º grau; a gaze com creme de sulfadiazina vem em segundo |
| Prata prolongada e antisséptico incorporado | Curativos com prata elemental; curativos com clorexidina ou PVPI na composição | Alternativa de ação prolongada, com troca menos frequente |
| Cobertura biológica e substitutos | Pele homóloga e heteróloga; membrana amniótica; matriz de regeneração dérmica e produtos de bioengenharia | 2º grau profundo, área excisada e falta de pele autóloga. Escala de preferência: autóloga, homóloga, heteróloga, substitutos |
| Montagem do curativo oclusivo | Camada com o tópico, gaze absorvente ou de queimado, algodão hidrófilo ou ortopédico, atadura de crepe | Todo o corpo, com exceção de face, orelha e períneo, tratados por exposição |
O que não se põe — e o que se faz no lugar
| Item | Por quê | O que se faz |
|---|---|---|
| Agente neutralizante na queimadura química | A reação de neutralização é exotérmica e pode agravar a queimadura | Diluir com água corrente: 20 a 30 minutos na diretriz brasileira, no mínimo 30 minutos na Cartilha, de 30 minutos a 2 horas no consenso de 2024. Em pó, escovar o excesso antes |
| Antibiótico profilático sistêmico | A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica determina não utilizá-lo; a Cartilha o restringe à lesão potencialmente colonizada com sinal de infecção local ou sistêmica | Infecção leve: cuidado local, mais trocas, drenagem e retirada de necrose. Antimicrobiano sistêmico a partir da infecção moderada, com desbridamento |
| Corticosteroide de rotina, por qualquer via | A Cartilha manda evitar o uso indiscriminado | Analgesia venosa dimensionada para tirar a dor — dipirona ou morfina, conforme a rotina do serviço |
| Medicamento caseiro sobre a lesão | Contamina, esconde o leito, impede a leitura da profundidade e obriga a desbridamento mais agressivo. A diretriz brasileira o nomeia entre o que a cirurgia tem de remover | Perguntar o que foi aplicado, remover no desbridamento e refazer a limpeza |
| Arrancar o agente aderente, como o piche | A tração leva pele viável junto e aprofunda a lesão | Resfriar com água corrente e não tentar a remoção imediata |
| Resfriar de rotina a queimadura elétrica de contato | Recomendação expressa do consenso de 2024, que separa a elétrica de contato da queimadura por arco voltaico e da chama secundária | Cobrir, proteger e transportar. Na de arco e na chama secundária, o primeiro atendimento é o térmico habitual |
| Diurético na fase de reposição | A Cartilha manda evitar diurético, coloide e droga vasoativa nas 24 horas iniciais. A diurese é o único parâmetro de titulação disponível, e o diurético o falsifica | Aumentar a infusão. A exceção nomeada por outro documento brasileiro é a hemoglobinúria e a mioglobinúria — ver o bloco de divergências |
A lista de transferência e a classificação em pequeno, médio e grande queimado respondem a perguntas diferentes: a primeira define destino, a segunda define gravidade e enquadramento de internação. A tabela das duas réguas brasileiras de gravidade está no capítulo anterior desta apostila, e oferecer uma como resposta da outra é distrator clássico.
A régua brasileira de transferência tem uma faixa que não se encaixa em nenhuma categoria: o texto transfere a queimadura de 2º grau em área maior que 20% no adulto, de modo que exatamente 20% não é alcançado pelo item de extensão. O mesmo vale para os 10% da criança e do maior de 50 anos. Na prática o paciente é capturado por outra porta da lista, mas a redação, lida ao pé da letra, deixa o valor exato de fora.
As duas listas de idade da Cartilha não coincidem entre si. No item que classifica a queimadura como grave, os extremos são idade menor que 3 anos ou maior que 65 anos; no item que lista os critérios de transferência, o corte etário aparece como crianças ou maiores de 50 anos. São dois cortes distintos no mesmo documento, para finalidades distintas, e a questão costuma cobrar o corte de 50 anos quando pede transferência.
A classificação de gravidade da diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica tem valores que pertencem a duas categorias ao mesmo tempo: 2º grau até 5% em menores de 12 anos é pequeno queimado, e de 5% a 15% é médio queimado; o mesmo se repete em 10% e em 20% no maior de 12 anos. Exatamente 5%, 10% e 20% cabem nas duas faixas pela redação original.
Lesão inalatória, queimadura elétrica e queimadura química dispensam percentual: cada uma, isoladamente, leva a encaminhamento nas duas réguas, qualquer que seja a extensão. Guardar essas três dispensa metade da conta em prova.
O antibiótico que a Cartilha permite não é profilaxia: é tratamento de lesão com sinal de infecção. E a lista de sinais de infecção da própria Cartilha é local, não laboratorial — cor, odor, edema de bordas, escara que passa de seca a úmida, celulite, pontos avermelhados no interior da lesão e mudança do padrão da dor.
A profilaxia antitetânica entra na conduta imediata do queimado, com toxoide tetânico. O esquema completo por situação vacinal e por tipo de ferimento é o do capítulo de tétano da apostila de Infectologia desta coleção.
Na internação, a Cartilha acrescenta duas profilaxias que não são da ferida: bloqueador de receptor H2 para úlcera de estresse e heparina subcutânea para tromboembolismo. O regime de profilaxia de TEV é o do capítulo próprio da apostila de Pré e Pós-operatório.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Acima de 20% da superfície corporal queimada
A lista brasileira de critérios de transferência para unidade de tratamento de queimaduras abre com queimadura de 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal queimada no adulto, e maior que 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. É o número que um enunciado que cite fonte nacional reproduz.
Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 12
A partir de 10% de espessura parcial, em qualquer idade
A régua internacional coloca a queimadura de espessura parcial igual ou maior que 10% da superfície corporal na coluna de consulta imediata com consideração de transferência, sem separar por idade, e ainda recolhe na coluna de consulta a espessura parcial abaixo de 10% e toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho.
American Burn Association, Guidelines for Burn Patient Referral, 2022
Na prova
O enunciado quase sempre entrega a régua. Questão que fala em unidade de tratamento de queimaduras, em UTQ de referência, em rede estadual ou que cite o Ministério da Saúde está na lista brasileira, e o corte do adulto é 20%. Questão que fala em burn center, em ABA ou em ABLS, ou que traga alternativas com percentuais em passos de 10%, está na régua internacional. Havendo empate, repare no resto do caso: se a vinheta traz região especial, agente elétrico ou químico, inalação, comorbidade ou contexto social, o percentual deixa de decidir — todas as portas levam ao mesmo destino, e a alternativa correta é a que transfere.
Evitar diurético nas 24 horas iniciais
Na fase de hidratação das primeiras 24 horas, a orientação é evitar coloide, diurético e drogas vasoativas. A lógica é preservar a diurese como parâmetro de titulação: com furosemida correndo, o volume urinário deixa de informar se a reposição está adequada.
Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 5
Estimular a diurese com diurético osmótico quando há pigmento na urina
Havendo hematúria ou hemoglobinúria, a orientação é estimular a diurese para grandes volumes — 2 mL/kg/h em menores de 12 anos e 70 a 120 mL/h em maiores de 12 anos — inclusive com o uso de diuréticos osmóticos; e, nas queimaduras elétricas, infundir 12,5 gramas de manitol para cada litro de Ringer com lactato infundido.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008
Na prova
As duas posições convivem porque respondem a situações diferentes, e o que separa uma da outra é a cor da urina. Vinheta sem pigmento, com oligúria e taquicardia em queimado nas primeiras horas, está testando se o aluno resiste ao diurético — a resposta é aumentar a infusão. Vinheta com urina escura, avermelhada ou descrita como hemoglobinúrica, tipicamente após queimadura elétrica ou esmagamento, está testando a exceção, e aí entram volume alto e manitol. A palavra que dispara a exceção está sempre na descrição da urina ou no agente elétrico.
Sulfadiazina de prata a 1% como tópico padrão
A conduta brasileira nomeia a sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico do tratamento da ferida e a monta num curativo oclusivo de quatro camadas, com atadura de morim ou rayon impregnada, gaze absorvente, algodão hidrófilo e atadura de crepe. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica a lista em primeiro lugar entre os tópicos mais comumente utilizados.
Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012; e Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras — parte II, 2008
Espuma e hidrocoloide primeiro, sulfadiazina em segundo
Para a queimadura de 2º grau superficial com bolha removida, a recomendação é priorizar coberturas biológicas e, em seguida, espuma e hidrocoloide, por absorção de exsudato e manutenção da umidade; no 2º grau profundo precoce, de 24 a 48 horas, espuma e hidrocoloide são preferenciais e a gaze com creme oleoso do tipo sulfadiazina de prata é recomendada em segundo lugar.
Consensus on the treatment of second-degree burn wounds (2024 edition), Burns & Trauma, recomendações 22 e 23
Na prova
O recorte é institucional antes de ser clínico. Vinheta de pronto-socorro do SUS, de unidade básica ou que descreva material da rede está na régua nacional, e a resposta é sulfadiazina de prata a 1% com curativo oclusivo. Enunciado que fale em cicatrização úmida, em manejo de exsudato, em intervalo entre trocas ou que ofereça nomes de coberturas modernas nas alternativas está testando a atualização, e aí espuma e hidrocoloide são a resposta. Alternativa que proponha sulfadiazina de prata em face é distrator independentemente da régua: face é curativo por exposição.
Acima de 20% no adulto e 10% na criança
Sonda vesical de demora para controle da diurese está indicada nas queimaduras em área corporal superior a 20% em adultos e 10% em crianças, dentro da sequência de sala de emergência.
Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2g
Acima de 25% no adulto e 10% na criança, com sonda nasogástrica junto
Na conduta de internação, a orientação associa sonda vesical e sonda nasogástrica em crianças com áreas acima de 10% e em adultos com áreas acima de 25%. O mesmo texto exige controle horário da diurese mesmo quando se decide contra a sonda, com registro das características da urina.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008
Na prova
A diferença é de momento assistencial, e o enunciado costuma dizer qual é. Sequência de sala de emergência, atendimento inicial ou ABCDE do queimado puxa o corte de 20%; conduta de internação, prescrição de admissão em enfermaria ou UTI puxa o de 25% com sonda nasogástrica associada. Vale guardar que os dois textos concordam integralmente na criança, em 10%, e que a controvérsia não alcança o essencial: a diurese é medida de hora em hora, com ou sem sonda.
Critérios objetivos de descompensação
A indicação de intubação orotraqueal aparece amarrada a parâmetros mensuráveis: Glasgow menor que 8, PaO2 menor que 60, PaCO2 maior que 55 na gasometria, dessaturação abaixo de 90 na oximetria e edema importante de face e orofaringe. A suspeita de lesão inalatória, no mesmo texto, é definida clinicamente e conduzida com oxigênio a 100%, cabeceira a 30 graus e observação.
Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2b
Encaminhamento imediato diante da suspeita clínica, antes da descompensação
Todo paciente com suspeita de lesão inalatória entra na coluna de consulta imediata com consideração de transferência, e mesmo os sinais menores — queimadura de face por chama súbita, vibrissas chamuscadas, exposição a fumaça — geram recomendação de consulta. A régua trabalha sobre a suspeita, não sobre a gasometria.
American Burn Association, Guidelines for Burn Patient Referral, 2022
Na prova
Distinga o que o enunciado pede. Questão que pergunta a indicação formal de intubação e oferece alternativas com números de gasometria e de Glasgow está reproduzindo a lista brasileira, e a resposta é o item numérico. Questão que descreve o paciente que ainda fala, com rouquidão, escarro carbonáceo e vibrissas chamuscadas, e pergunta a conduta ou o destino, está testando o tempo da via aérea — e nenhum parâmetro numérico salva quem esperou, porque o edema progride junto com a reposição volêmica obrigatória. Alternativa que proponha transportar para intubar no centro de referência é errada nas duas réguas.
Caso resolvido
- achado
- Via aérea tranquila e por bons motivos: acidente em área aberta, sem rouquidão, sem estridor, sem escarro carbonáceo, sem fuligem e sem vibrissas chamuscadas. Nada aqui indica lesão inalatória, e a intubação preventiva não está indicada. Taquicardia de 112 bpm em queimado de 25% nas primeiras horas é esperada e não muda a conduta por si.
- decisão
- O destino já está definido por duas portas independentes da lista brasileira de transferência. Pela extensão: 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal no adulto — são 25%. Pela profundidade e pela região: escara branca nacarada, seca e indolor à picada é 3º grau, que transfere em qualquer extensão, e está no dorso da mão, que é região especial. Bastaria uma delas.
- cálculo
- Pela recomendação contemporânea para o adulto, 2 mL × 70 kg × 25% = 3.500 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 1.750 mL, deve chegar até completar oito horas da queimadura; como já se passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 269 mL/h. Nas 16 horas seguintes, os 1.750 mL restantes correspondem a aproximadamente 109 mL/h.
- cálculo
- Se a questão pedir nominalmente a fórmula clássica de Parkland, o coeficiente é 4 mL/kg/%SCQ e os volumes dobram: 7.000 mL em 24 horas. Essa é uma definição histórica importante para prova, mas não deve ocultar que a ABA recomenda começar o adulto com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir fluid creep. Em qualquer estratégia, o resultado é apenas ponto de partida.
- cálculo
- A diurese-alvo inicial é cerca de 0,5 mL/kg/h, aproximadamente 35 mL/h neste adulto. Como a extensão ultrapassa 20%, a sonda vesical permite controle horário. A taxa de 269 mL/h deve subir ou cair conforme diurese, perfusão e evolução; furosemida não é resposta automática à oligúria da fase inicial, pois mascara o principal marcador de ressuscitação.
- conduta
- Analgesia venosa dimensionada para tirar a dor, com dipirona de 500 mg a 1 g ou morfina diluída, e profilaxia antitetânica com toxoide, já que a última dose foi há 12 anos. Não entra antibiótico sistêmico profilático: a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica determina não utilizá-lo, e a Cartilha o reserva para lesão com sinal de infecção.
- conduta
- A pasta de dente sai. É medicamento caseiro sobre a lesão: contamina, esconde o leito e impede a leitura da profundidade — a diretriz brasileira a inclui, junto com restos de roupa, entre os contaminantes que o desbridamento tem de remover. Limpeza com água e clorexidina degermante a 2% ou, na falta dela, água e sabão neutro; depois, tópico e cobertura conforme a rotina do serviço.
- conduta
- Transferência solicitada à unidade de tratamento de queimaduras de referência depois da estabilização hemodinâmica e das medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados. O telefonema não serve só para conseguir a vaga: a unidade de referência tem profissional habilitado para orientar o tratamento enquanto o paciente ainda está aqui. Vai junto o relatório com informações colhidas, condutas e exames, e o paciente viaja com volume correndo.
- armadilha
- A escara da mão não é circunferencial e a perfusão distal está preservada — não há indicação de escarotomia neste momento. O que se faz é reavaliação horária de cor, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos, com oximetria no segundo dedo: acima de 90% há fluxo suficiente para o dedo e para o que está proximal a ele. E a mão fica elevada, com exercícios de amplitude começando o mais cedo possível.
Agora feche você
- achado
- Bolha com leito rosado, úmido, brilhante e muito doloroso é 2º grau superficial. O eritema sem bolha do terço médio do antebraço é 1º grau e não entra na conta da superfície corporal queimada.
- cálculo
- Cerca de 4% da superfície corporal queimada. Fica muito abaixo do corte de extensão da lista brasileira de transferência, que é 2º grau acima de 20% no adulto, e abaixo dos 20% que a Cartilha usa para indicar sonda vesical de demora no adulto.
- decisão
- Mesmo assim, este paciente é de centro de referência, e por duas portas que não dependem do tamanho. Pela lista brasileira: a mão é região especial, e a linha de localização encaminha em qualquer extensão. Pela régua internacional: além da mão, há comorbidade — diabetes —, e paciente com queimadura e comorbidades está na coluna de consulta imediata com consideração de transferência.
- conduta
- A borra de café sai antes de qualquer decisão sobre a ferida. É medicamento caseiro sobre a lesão, e a diretriz brasileira a coloca entre os contaminantes que precisam ser removidos, ao lado dos restos de roupa. Limpeza com água e clorexidina degermante a 2% ou água e sabão neutro, com lavagem abundante.
- conduta
- Analgesia venosa antes do curativo, tópico e cobertura em camadas. A bolha que chegou íntegra e pequena pode ser preservada; as rotas, grandes, de parede fina ou contaminadas pela borra têm a pele removida. Profilaxia antitetânica conforme a situação vacinal. Antibiótico sistêmico profilático não entra: a lesão não tem sinal de infecção, e o diabetes não é indicação de profilaxia sistêmica.
- conduta
- Duas medidas de reabilitação começam agora e não podem esperar a vaga: a mão fica elevada por 24 a 48 horas para minimizar o edema, e os exercícios de amplitude de movimento começam o mais cedo possível. Contato com a unidade de tratamento de queimaduras de referência, relatório junto, e orientação escrita de retorno com os sinais de infecção — em especial dor que aumenta depois de ter diminuído.
Onde a banca derruba
- 1Aplicar o corte de 10% da ABA numa questão que cita o Ministério da Saúde É a troca de régua mais cara do tema, porque o erro é de fator dois no número mais perguntado. A lista brasileira de transferência usa 2º grau maior que 20% da superfície corporal no adulto e maior que 10% em criança ou em maior de 50 anos; a lista da American Burn Association usa 10% de espessura parcial em qualquer idade. Antes de escolher o percentual, leia de quem é a lista que o enunciado citou.
- 2Achar que queimadura pequena em mão, pé ou face pode ficar A linha de localização da lista brasileira não tem percentual: face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações encaminham em qualquer extensão. Uma lesão de 2% em dorso de mão é uma lesão de centro de referência, e a razão é funcional — a mão queimada perde amplitude enquanto ninguém a mobiliza, e a reabilitação começa nas primeiras 48 horas, com elevação e exercícios de amplitude de movimento.
- 3Transportar o paciente com suspeita de inalação para intubar no destino A via aérea que está pérvia agora vai fechar por edema nas horas seguintes, e a reposição volêmica obrigatória alimenta esse edema. Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas, fuligem em boca e narinas e história de ambiente fechado indicam resolver a via aérea antes de mover o paciente. O pior lugar para uma via aérea difícil por edema de face e orofaringe é uma ambulância em movimento.
- 4Despachar o paciente sem ligar para a unidade de referência e sem relatório A Cartilha do Ministério manda solicitar a transferência à unidade de tratamento de queimaduras de referência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados, e enviar sempre relatório com as informações colhidas, as condutas e os exames. E acrescenta o que se perde ao pular essa etapa: as unidades de referência têm profissionais habilitados para orientar o tratamento completo enquanto o paciente ainda está no hospital de origem.
- 5Prescrever antibiótico sistêmico profilático no queimado A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica escreve que não se deve utilizar antibiótico profilático, e a Cartilha do Ministério restringe o antibiótico sistêmico às lesões potencialmente colonizadas com sinais de infecção local ou sistêmica. Queimadura extensa dá febre e leucocitose por resposta inflamatória, sem infecção — e a decisão se apoia no aspecto da ferida, não no hemograma.
- 6Neutralizar o ácido com base, ou a base com ácido A diretriz brasileira proíbe o agente neutralizante e dá a razão: a reação é exotérmica e pode agravar a queimadura. O que se faz é diluir com água corrente por tempo prolongado, retirando antes o excesso do agente em pó com escova ou pano. A exceção que confirma a regra é o ácido fluorídrico, em que o gluconato de cálcio não neutraliza o ácido: ele repõe o cálcio que o flúor sequestra.
- 7Dar alta ao paciente que levou choque de baixa tensão e não tem lesão visível A régua internacional coloca a lesão elétrica de baixa tensão, abaixo de 1.000 V, na coluna de consulta com consideração de seguimento em centro de queimados exatamente para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. A régua brasileira é ainda mais restritiva no atacado: manda internar sempre a vítima de trauma elétrico, com monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas e dosagem de CPK e CKMB.
- 8Tratar a fórmula como meta e a diurese como conferência do fim do plantão O volume calculado é ponto de partida; quem corrige é a diurese, observada desde a primeira hora e medida de hora em hora, com registro das características da urina. O alvo é 0,5 a 1 mL/kg/h, com o menor de 12 anos em 1 mL/kg/h e a queimadura elétrica em torno de 1,5 mL/kg/h ou até o clareamento da urina. Diurese abaixo do alvo nas primeiras horas é volume insuficiente, e a resposta é aumentar a infusão, não prescrever furosemida.
- 9Puxar o piche, o plástico derretido ou a roupa grudada na lesão A diretriz manda resfriar os agentes aderentes com água corrente e não tentar a remoção imediata. A tração arranca pele viável junto e converte uma lesão de espessura parcial em lesão profunda. O mesmo raciocínio vale para a bolha íntegra no pré-hospitalar, que a recomendação internacional manda preservar pelo efeito protetor da própria pele da bolha.
- 10Ocluir tudo, inclusive face, orelha e períneo O curativo oclusivo é a regra, mas as fontes brasileiras abrem exceções nominais: a Cartilha do Ministério manda curativo exposto na face e no períneo, e a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica prefere curativos oclusivos exceto em orelha e períneo, com o alerta de evitar pressão excessiva sobre a orelha para prevenir condrite. Some-se a regra oftalmológica de não ocluir o olho quando o agente lesivo for álcali.
- 11Não perguntar o que a família já passou na queimadura A diretriz brasileira lista os medicamentos caseiros entre os contaminantes que o desbridamento cirúrgico precisa remover, ao lado dos restos de roupa. O produto aplicado em casa contamina a ferida, esconde o leito, impede a leitura da profundidade e obriga a uma limpeza mais agressiva. E há um diferencial que nasce da mesma cultura: a lesão por psoralenos e furocumarinas de folha de figo, limão, mamacadela e ruibarbo, associada a bronzeadores caseiros, faz bolhas parecidas com 2º grau e é reação fototóxica, tratada conservadoramente.
- 12Ler a queimadura sem ler a história Maus-tratos, situações sociais adversas e tentativa de autoextermínio estão na lista brasileira de transferência com o mesmo peso do percentual, e a régua internacional nomeia o trauma não acidental entre as razões do encaminhamento pediátrico. Uma queimadura pequena numa história que não fecha muda de destino por esse item, e não pela pele.
Queimadura circunferencial de espessura total gera uma escara rígida inextensível que, com o edema subjacente, comprime estruturas neurovasculares (síndrome compartimental externa) — comprovada aqui pela perda de pulso e sinais isquêmicos. A conduta imediata é a escarotomia (incisão longitudinal da escara para descompressão). A fasciotomia é indicada quando há síndrome compartimental verdadeira (comum na queimadura elétrica por lesão muscular profunda) e não deve ser postergada 24h se há isquemia. Curativo compressivo agravaria a compressão; elevação/observação isolada perde o membro; amputação é medida extrema, não a inicial.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Trabalhador de 41 anos derrama soda cáustica em pó sobre coxa e perna direitas. Chega ao pronto atendimento 25 minutos depois, com as roupas ainda impregnadas e dor em queimação progressiva. Qual a conduta inicial correta sobre a lesão?
A sequência da queimadura química é fixa: proteção universal da equipe para evitar contato com o agente, identificação do agente, remoção das roupas e retirada do excesso — com escova ou pano quando a substância está em pó — e só então diluição em água corrente por tempo prolongado. Os documentos divergem na duração e convergem no princípio: pelo menos 20 a 30 minutos na diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, no mínimo 30 minutos na Cartilha do Ministério, e de 30 minutos a 2 horas no consenso internacional de 2024. Jogar água sobre o pó antes de removê-lo mecanicamente ativa o agente e espalha a lesão, e por isso a remoção do excesso vem antes. Neutralizar é o erro clássico e tem justificativa explícita na diretriz brasileira: a reação de neutralização é exotérmica e pode agravar a queimadura — o consenso de 2024 desaconselha o neutralizante de rotina com recomendação de força alta. Compressa gelada não substitui irrigação e acrescenta risco de hipotermia. Cinco minutos de irrigação é tempo insuficiente por qualquer régua, e o tópico não interrompe uma lesão química que continua progredindo.
Paciente internado no terceiro dia após queimadura de 2º grau em 18% da superfície corporal apresenta temperatura de 38,2 °C e leucocitose de 15.800/mm³. A ferida está com aspecto habitual, sem alteração de cor ou de odor, sem celulite perilesional, sem aprofundamento e com dor estável. Qual a conduta quanto à antibioticoterapia?
A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica escreve que não se deve utilizar antibiótico profilático, e a Cartilha do Ministério restringe o antibiótico sistêmico às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica, mandando evitá-lo nos demais casos. Febre e leucocitose em queimado extenso são esperadas pela resposta inflamatória e não bastam para diagnosticar infecção — o que decide é o aspecto da ferida, e a Cartilha oferece a lista: mudança de coloração, edema de bordas, aprofundamento das lesões, mudança de odor, descolamento precoce da escara seca com transformação em úmida, coloração hemorrágica sob a escara, celulite ao redor, pontos avermelhados no interior da lesão e aumento ou modificação da queixa dolorosa. Nenhum deles está presente. A profilaxia por percentual de superfície não existe em nenhuma das réguas. Esperar hemocultura enquanto se administra corticosteroide inverte a lógica duas vezes, porque a Cartilha desaconselha o uso indiscriminado de corticoide. E trocar o tópico não é o problema: a sulfadiazina de prata a 1% é justamente o padrão que a Cartilha nomeia.
Homem de 52 anos com queimadura de espessura total circunferencial em antebraço e braço direitos, internado há 5 horas com reposição volêmica em curso. A oximetria no segundo dedo da mão direita caiu para 84%, com enchimento capilar lentificado e piora da dor. Qual a conduta e a técnica corretas?
A escarotomia é procedimento de urgência, e a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica coloca o peso da decisão justamente na oximetria do segundo dedo: acima de 90% há fluxo suficiente para o dedo e para tudo que está proximal a ele na queimadura térmica; abaixo disso, com piora clínica, opera-se. A técnica correta exige incisão da pele em toda a sua espessura, atingindo o subcutâneo, do lado ulnar da prega anterior do cotovelo até a prega axilar anterior no braço, e evitando o trajeto posterior ao epicôndilo medial do úmero, onde corre o nervo ulnar logo abaixo da pele. A pele de 3º grau é insensível, mas a incisão atinge o subcutâneo e dói: analgesia venosa proporcional é parte do procedimento, e a hemostasia é necessária porque o sangramento pode ser significativo depois da recuperação volêmica. A fasciotomia é outra operação, indicada na suspeita de síndrome compartimental — tipicamente em alta voltagem ou esmagamento — com pressão intracompartimental acima de 30 mmHg ou com diferença menor que 30 para a diastólica. Esperar 4 horas com Doppler é o erro que a própria diretriz descreve ter abandonado: houve casos com sinal Doppler positivo que evoluíram com déficits pelo atraso da escarotomia. E reduzir a infusão troca um problema de membro por um problema renal, sem resolver a constrição mecânica.
Eletricista de 34 anos sofre choque ao manusear cabo de rede de distribuição. Apresenta pequena lesão de entrada na palma da mão direita e lesão de saída no pé esquerdo, ambas com menos de 1% da superfície corporal. Está consciente, hemodinamicamente estável, e a urina coletada é escurecida. Qual a conduta?
A queimadura elétrica está na lista brasileira de transferência sem qualquer corte de extensão, e a régua internacional coloca a alta tensão, definida como 1.000 V ou mais, na coluna de consulta imediata. A Cartilha do Ministério determina identificar a fonte, o tipo de corrente e os pontos de entrada e saída, manter monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas com dosagem de CPK e CKMB, e internar sempre a vítima desse tipo de trauma; havendo mioglobinúria, estimular a diurese com maior infusão de líquidos, com alvo em torno de 1,5 mL/kg/h ou até o clareamento da urina. A alta com retorno em 7 dias ignora que a lesão elétrica destrói tecido profundo entre os pontos de entrada e saída — músculo, fáscia e osso — enquanto a pele mostra pouco. Seis horas de observação não cobrem a janela de arritmia que a própria régua fixa em 24 a 48 horas. Restringir líquido e dar furosemida é o oposto do indicado diante de urina escurecida: o que se faz é aumentar o volume, e a exceção do diurético osmótico descrita pela diretriz brasileira, com manitol na queimadura elétrica, não é furosemida nem se acompanha de restrição hídrica. Por fim, calcular reposição pela superfície visível subestima grosseiramente a lesão elétrica, cuja extensão real não aparece na pele.
Mulher de 29 anos, hígida, sofreu queimadura por vapor de panela de pressão. Apresenta bolhas com leito rosado e úmido no dorso da mão esquerda, estimadas em 2% da superfície corporal, sem lesão circunferencial, com perfusão distal preservada e sem outras lesões. Qual a conduta quanto ao destino?
A linha de localização da lista brasileira de transferência — face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações — não traz corte de extensão: encaminha em qualquer tamanho. A régua da American Burn Association chega ao mesmo destino qualificando pela profundidade, ao incluir queimaduras de espessura parcial profunda ou total sobre face, mãos, genitália, pés, períneo e articulações, e recolhendo na coluna de consulta toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho. Tratar ambulatorialmente ignora que o problema da mão não é a área, é a função: a diretriz brasileira determina elevação por 24 a 48 horas e exercícios de amplitude de movimento iniciados o mais cedo possível, cuidado que exige serviço com estrutura. Esperar a reavaliação de 72 horas perde exatamente a janela em que a reabilitação começa. A circunferência é critério de escarotomia e de risco vascular, não a condição para encaminhar a mão queimada.
Homem de 38 anos, 70 kg, sofreu queimadura por álcool líquido em área aberta às 14h00. Chega às 15h30 a um pronto-socorro sem unidade de tratamento de queimaduras, consciente, sem rouquidão, sem estridor, sem fuligem em boca ou narinas e sem vibrissas chamuscadas. Apresenta bolhas de leito rosado e úmido em tronco anterior e coxas, somando 25% da superfície corporal, e escara branca nacarada, seca e indolor à picada, não circunferencial, no dorso da mão direita. Frequência cardíaca 112 bpm, pressão arterial 124 por 76 mmHg, saturação 97% em ar ambiente. Considerando os critérios de transferência da Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras do Ministério da Saúde, qual a conduta?
O paciente tem duas portas independentes de transferência: extensão, com 2º grau em 25% da superfície corporal, acima dos 20% que a lista brasileira exige no adulto, e profundidade somada a região, com escara de 3º grau — que transfere em qualquer extensão — localizada no dorso da mão. O cálculo é 4 × 70 × 25 = 7.000 mL nas 24 horas, metade até a oitava hora da queimadura; como já se passaram 1 hora e 30 minutos, sobram 6 horas e 30 minutos para 3.500 mL, ou cerca de 538 mL/h. A alternativa dos 438 mL/h reproduz exatamente o erro de contar o relógio a partir da porta, e ainda condiciona a transferência à diurese, quando os critérios já estão preenchidos. A intubação preventiva não se sustenta: o acidente foi em área aberta e não há um único sinal de inalação — percentual de superfície não é indicação de via aérea artificial. A alternativa do corte de 30% inventa um número que não está em nenhuma das réguas: a brasileira usa 20% no adulto e a internacional usa 10%. E antibiótico profilático sistêmico é vedado pela diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, enquanto o uso indiscriminado de corticosteroide é desaconselhado pela própria Cartilha.
Segundo os critérios de transferência de pacientes para unidades de tratamento de queimaduras da Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras do Ministério da Saúde, qual é a extensão de queimadura de 2º grau que, isoladamente, indica transferência em um adulto?
A lista brasileira abre com queimadura de 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal queimada em adultos, e maior que 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. O corte de 10% é a resposta certa de outra régua, a das diretrizes de encaminhamento da American Burn Association, que usa 10% ou mais de espessura parcial em qualquer idade — é a troca de lista mais cobrada do tema, e o erro é de fator dois. Os 15%, 25% e 30% não correspondem ao corte de transferência de nenhuma das duas: 15% e 20% aparecem na classificação brasileira de grande queimado por faixa etária, e 25% pertence ao corte de sonda vesical e nasogástrica da conduta de internação da diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Vale lembrar que a extensão é só uma das portas: região especial, agente elétrico ou químico, lesão inalatória, lesão circunferencial, comorbidade, politrauma e contexto social transferem sem percentual algum.
Sobre o cuidado da ferida do queimado segundo a Cartilha do Ministério da Saúde e a diretriz de tratamento da lesão do Projeto Diretrizes AMB/CFM, assinale a alternativa correta.
A Cartilha do Ministério manda limpar com água e clorexidina degermante a 2% — água e sabão neutro na falta dela —, nomeia a sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico e descreve o curativo oclusivo em quatro camadas: atadura de morim ou rayon com o princípio ativo, gaze absorvente, algodão hidrófilo e atadura de crepe, com curativo exposto na face e no períneo. A diretriz do Projeto Diretrizes descreve a mesma lógica com gaze de malha fina, algodão ortopédico e atadura de crepom, e prefere o oclusivo exceto em orelha e períneo. Água oxigenada não figura como antisséptico de limpeza em nenhuma das duas, e ocluir face e períneo contraria as duas. O intervalo de troca é de 12 a 36 horas, e é exatamente nele que a ferida é reavaliada e o tópico mantido ou substituído conforme o aspecto — profundidade é diagnóstico que amadurece. A sulfadiazina de prata não está contraindicada no 2º grau: o que o consenso internacional de 2024 faz é colocá-la em segundo lugar, atrás de espuma e hidrocoloide. E o desbridamento cirúrgico é indicado praticamente em todos os casos de 2º e 3º graus, com a excisão feita em etapas de 10% a 15% da área corporal, iniciando 48 a 72 horas após a queimadura, e não numa única etapa em 12 horas.
Homem de 40 anos com queimadura de 35 por cento da superfície corporal, sendo grande parte de espessura total. Qual a estratégia que melhor previne contraturas graves?
Prevenir contratura é mais eficaz do que tratá-la, e a prevenção começa cedo: queimadura de espessura total não epiteliza, e deixá-la fechar por segunda intenção é o caminho garantido para retração; por isso se excisa precocemente e se cobre com enxerto. Em paralelo, o posicionamento antideformidade, com articulações em extensão e abdução, órteses e mobilização precoce, mantém a amplitude enquanto o colágeno se organiza. Posicionar em flexão porque é a posição de conforto é o erro clássico da enfermaria, pois é exatamente a posição em que a cicatriz consolida a limitação. Adiar a reabilitação para depois da cicatrização perde a janela mais produtiva.
Paciente com queimadura circunferencial de terceiro grau em membro superior apresenta, nas primeiras horas, dor intensa, parestesia, redução do enchimento capilar e ausência de pulso distal. Qual a conduta?
A escara de espessura total é rígida e não acompanha o edema que se forma com a ressuscitação; em queimadura circunferencial isso funciona como um torniquete, e a descompressão se faz por escarotomia, incisões longitudinais através da escara, procedimento rápido, feito à beira do leito e praticamente indolor porque a área já perdeu a inervação. A fasciotomia é procedimento diferente e mais profundo, reservada a lesão elétrica de alta voltagem, trauma associado ou síndrome compartimental instalada. Observar um membro sem pulso é perder tecido por isquemia, e a amputação primária é decisão que só cabe diante de destruição irreversível.
Sobre a excisão precoce e enxertia das queimaduras de espessura total, é correto afirmar que:
A escara é meio de cultura e fonte de resposta inflamatória sistêmica; removê-la cedo e cobrir a área muda desfechos de forma consistente. Esperar a demarcação espontânea engana quem raciocina com o manejo antigo, que resultava em sepse e internações prolongadas. Perda sanguínea é real e se maneja com técnica e transfusão, sem contraindicar o procedimento.
Sobre a colonização e a infecção da ferida no grande queimado, é correto afirmar que:
Tratar toda cultura de superfície positiva engana e é uma das principais causas de seleção de germes multirresistentes em unidades de queimados. O que define infecção é o quadro clínico somado a evidência de invasão tecidual, avaliada por biópsia com cultura quantitativa quando disponível. A profilaxia sistêmica de rotina não reduz mortalidade e aumenta resistência.
No atendimento inicial do grande queimado, uma medida frequentemente negligenciada e que aumenta a mortalidade quando não observada é:
A pele destruída perde a capacidade de conservar calor, e a hipotermia agrava a coagulopatia e a acidose, compondo um ciclo que piora o prognóstico. Aplicar gelo engana porque o resfriamento excessivo aprofunda a lesão e provoca hipotermia — a água corrente em temperatura ambiente por poucos minutos é a medida correta na cena. Antibiótico sistêmico profilático não está indicado no queimado sem infecção.
Paciente com queimadura circunferencial profunda de tórax apresenta dificuldade ventilatória progressiva, com pressões de vias aéreas elevadas e redução da expansibilidade torácica. A conduta indicada é:
A escara rígida circunferencial funciona como uma couraça que impede a expansão da caixa torácica, e a solução é abrir essa constrição, com melhora imediata da mecânica ventilatória. Aumentar sedação e volume corrente engana porque o problema não é do parênquima nem do estímulo respiratório, mas mecânico e externo. Drenagem torácica não tem indicação sem pneumotórax ou derrame.
Entre os critérios de encaminhamento a centro especializado em queimados, inclui-se:
Os critérios combinam extensão, localização funcionalmente crítica, mecanismo e presença de lesão inalatória, porque cada um desses fatores demanda estrutura e experiência específicas. Restringir o encaminhamento às grandes extensões engana e deixa de fora queimaduras pequenas em mãos e face, cujas sequelas funcionais e estéticas são graves.
Sobre os agentes tópicos usados no tratamento das queimaduras, é correto afirmar que:
O agente controla a colonização de superfície, mas não alcança o interior da escara espessa, o que reforça a necessidade da excisão cirúrgica. Achar que o tópico substitui a cirurgia engana e é justamente o raciocínio que mantinha escaras infectadas por semanas. A avaliação diária da ferida é indispensável para detectar precocemente sinais de infecção invasiva.
Sobre o manejo das bolhas (flictenas) nas queimaduras de segundo grau, é correto afirmar que:
A conduta é individualizada: o teto da bolha protege o leito, mas bolhas volumosas restringem movimento, tendem a romper de forma descontrolada e dificultam a avaliação da profundidade. Uma regra absoluta em qualquer direção engana, porque a decisão depende do tamanho, da localização e da necessidade de examinar o leito para definir profundidade.
Paciente com queimadura circunferencial profunda em membro superior apresenta, nas primeiras horas, dor intensa, parestesia, edema tenso e redução do enchimento capilar distal. A conduta indicada é:
A escara de espessura total é rígida e não acompanha o edema que se forma sob ela, criando um garrote que compromete a perfusão distal; abrir a escara restabelece o espaço e a circulação. Apenas elevar o membro engana e permite a progressão para isquemia irreversível. A fasciotomia é reservada a quando há síndrome compartimental verdadeira, mais comum em queimaduras elétricas e lesões associadas.
Homem de 41 anos, trabalhador de pavimentação, chega ao pronto atendimento com asfalto quente aderido à face anterior da perna direita, ainda endurecido sobre a pele. Está estável, com dor moderada, e a área acometida corresponde a cerca de 3% da superfície corporal. A conduta inicial correta sobre o material aderido é:
Agente aderente tem regra própria: a diretriz brasileira manda resfriar materiais como o piche com água corrente e não tentar a remoção imediata. Puxar leva junto a pele viável a que o material está colado e transforma uma lesão de espessura parcial em lesão profunda, enquanto o resfriamento interrompe a transferência de calor sem exigir tração alguma. Solvente friccionado repete o mesmo dano por outro meio e acrescenta agressão química a uma pele já lesada. Agente neutralizante é proibido na queimadura química pela reação exotérmica, e aqui não há sequer agente químico a neutralizar, porque o dano foi térmico. E deixar o material sobre a pele sem resfriar mantém o calor retido contra o tecido durante todo o transporte, que é exatamente o que se quer evitar. A avaliação da profundidade fica para quando o material sair, já que profundidade é diagnóstico que amadurece e exige reavaliação dinâmica.
Mulher de 26 anos procura a unidade básica com placas eritematosas e bolhas de contorno irregular no dorso das mãos e nos antebraços, surgidas dois dias depois de passar suco de limão na pele e tomar sol na praia. Não houve contato com líquido quente, chama ou produto químico industrial, e ela está afebril, sem calafrios e sem dor desproporcional. O quadro e a conduta corretos são:
Lesões por psoralenos ou furocumarinas, presentes em folha de figo, limão, mamacadela e ruibarbo, costumam aparecer depois de exposição solar associada a preparados caseiros de bronzeamento, e a diretriz brasileira as descreve como entidade tratada conservadoramente: as camadas superficiais da pele se descolam das profundas com formação de bolhas muito parecidas com queimadura de segundo grau, e a conduta é proteger com tópico eficiente, sem remover a pele, aguardando a evolução. Desbridar em centro cirúrgico agride tecido que se recupera sozinho. Chamar de queimadura química por ácido erra o agente e ainda soma a proibição mais repetida do tema, porque neutralizar produz reação exotérmica e agrava a lesão. Terceiro grau teria escara branca nacarada, seca, inelástica e indolor à picada, e enxerto não se cogita aqui. E antibiótico sistêmico trata infecção que não existe, num quadro sem febre e sem celulite ao redor das lesões.
Hospital geral do interior recebe homem de 34 anos com queimadura de segundo grau em 30% da superfície corporal, sem sinais de lesão inalatória. Depois da expansão inicial e da analgesia, a equipe decide encaminhá-lo ao centro de referência, que fica a 180 km. Conforme a Cartilha do Ministério da Saúde, a transferência exige que:
Encaminhar não é despachar. A cartilha condiciona a transferência à solicitação à unidade de tratamento de queimaduras de referência, com leito de terapia intensiva reservado, depois da estabilização hemodinâmica e das medidas iniciais; o paciente grave segue acompanhado de médico, em ambulância com suporte de terapia intensiva e possibilidade de assistência ventilatória, e sempre com relatório de todas as informações colhidas, das condutas e dos exames. Mandar em ambulância básica sem contato prévio descarta as três exigências de uma vez, e o curativo inicial não pode retardar a remoção, bastando campo estéril e cobertura térmica para curtas distâncias. Transferir antes de estabilizar inverte a ordem que a norma escreveu. Tomografia e hemocultura não são condição de aceitação de vaga. E o transporte aéreo não se decide por distância: ele exige cautela extrema em quem tem trauma, pneumotórax ou alteração pulmonar, pelo risco de expansão dos gases.
Qual das seguintes situações é critério de encaminhamento a centro de tratamento de queimados?
Os critérios de encaminhamento combinam extensão, profundidade, localização em áreas funcionalmente críticas, mecanismo de alta energia e presença de lesão inalatória, além de comorbidades e extremos de idade. Queimaduras de primeiro grau, mesmo extensas, não entram no cálculo da superfície queimada nem justificam por si transferência — considerá-las é um erro que superestima a gravidade e congestiona os centros especializados.
Qual é a conduta inicial correta no atendimento pré-hospitalar de vítima de queimadura térmica extensa?
O atendimento inicial interrompe a queimadura, resfria com água em temperatura ambiente por tempo limitado, remove anéis e adornos antes do edema, cobre com material limpo e previne a hipotermia, que é risco real no grande queimado. Gelo direto agrava a lesão por vasoconstrição, e substâncias caseiras contaminam a ferida e dificultam a avaliação da profundidade — são as práticas populares mais nocivas nesse cenário.
Qual conduta é indicada em queimadura circunferencial de tórax que compromete a expansão respiratória?
A escara de espessura total é rígida e inelástica, e quando circunferencial no tórax restringe mecanicamente a expansão, ou no membro compromete a perfusão distal — a escarotomia alivia a constrição e é procedimento de urgência. Aumentar pressões no ventilador sem liberar a caixa torácica é o erro que expõe o paciente a barotrauma sem resolver a causa mecânica do problema.
Sobre os critérios de encaminhamento de criança queimada para centro especializado, qual conjunto é o correto?
Os critérios combinam extensão, profundidade, localização em áreas funcional e esteticamente críticas, mecanismos com lesão profunda desproporcional à aparência, como o elétrico e o químico, e o contexto social, já que a queimadura é uma apresentação frequente de maus-tratos. Reservar o encaminhamento apenas às queimaduras muito extensas deixa de fora lesões pequenas em mãos e períneo, cujas sequelas são graves.
Criança de 7 anos apresenta, após dia inteiro na praia, eritema doloroso extenso em dorso e ombros, com bolhas em algumas áreas, febre de 38,2 °C e mal-estar. Qual é a conduta?
A queimadura solar com bolhas corresponde a segundo grau superficial, e em criança com área extensa há perda hídrica, dor importante e repercussão sistêmica, exigindo analgesia, hidratação e cuidado local, com avaliação da necessidade de atendimento especializado. Aplicar substâncias caseiras engana por ser prática popular difundida, mas contamina a ferida e dificulta a avaliação; romper bolhas remove a barreira protetora e aumenta o risco de infecção.
Sobre o cuidado inicial da criança queimada, qual conduta deve ser evitada?
O gelo provoca vasoconstrição e agrava a lesão tecidual na zona de estase, além de contribuir para a hipotermia, que é um risco real na criança queimada por causa da grande superfície corporal relativa e da perda da barreira cutânea. O resfriamento correto é breve e com água em temperatura ambiente, e a analgesia deve ser generosa e por via endovenosa, já que a absorção subcutânea e muscular é errática no paciente com má perfusão.
Criança com queimadura circunferencial de espessura total em membro superior apresenta, algumas horas depois, dor intensa, parestesia, palidez e ausência de pulso distal. Qual a conduta?
A escara de espessura total é rígida e não se distende, de modo que o edema progressivo sob ela produz síndrome compartimental e isquemia distal, cuja única solução é a incisão da escara para liberar a pressão. Observar diante de pulso ausente resulta em necrose do membro, e no tronco a mesma escara circunferencial restringe a expansão torácica e compromete a ventilação, exigindo igualmente escarotomia.
Homem de 38 anos é internado com queimadura de terceiro grau circunferencial em antebraço e mão direita, sofrida há oito horas. Recebeu reposição volêmica conforme protocolo. Nas últimas duas horas, queixa-se de dor progressiva e formigamento nos dedos. Ao exame, o membro está tenso e endurecido, com escara rígida e brancacenta circunferencial; enchimento capilar de quatro segundos nos dedos, pulso radial de difícil palpação e redução da sensibilidade nos quirodáctilos. Pressão arterial de 118 x 74 mmHg e diurese adequada. A conduta imediata é:
A escara de espessura total circunferencial é rígida e inelástica; com o edema pós-ressuscitação, ela comprime o compartimento e compromete a perfusão distal, produzindo dor, parestesia, enchimento capilar lentificado e perda de pulso. O tratamento é a escarotomia longitudinal imediata, procedimento descompressivo realizado na própria escara. Elevar e aguardar seis horas permite a instalação de isquemia irreversível. Aumentar fluidos agrava o edema e a compressão. A causa é mecânica, não trombótica, de modo que a anticoagulação não resolve e adia a descompressão.
Uma Unidade de Pronto Atendimento de município pequeno atende uma criança de 4 anos que derrubou água fervente sobre si, com queimaduras de segundo grau em 15% da superfície corporal, envolvendo tórax anterior, períneo e face medial das coxas. A criança está estável, com frequência cardíaca de 128 bpm, saturação de 98% em ar ambiente e boa perfusão, após analgesia e curativo inicial. O município não dispõe de leito de queimados nem de equipe de cirurgia plástica. Considerando a organização da rede de urgência, a conduta correta é:
São critérios de transferência para centro de referência em queimados, entre outros, a extensão significativa em crianças, o acometimento de áreas nobres como face, mãos, pés, períneo e articulações, as queimaduras de espessura total, as elétricas e químicas, e a presença de lesão inalatória — vários deles presentes neste caso. Manter o tratamento em serviço sem estrutura arrisca complicações infecciosas e sequelas funcionais em área perineal. Aguardar deterioração inverte a lógica da regulação, que é preventiva. Ambulatório de dermatologia não substitui a assistência a queimado de médio porte em criança pequena.
Mulher de 28 anos comparece à Unidade Básica de Saúde duas horas após derramar café fervente no antebraço direito. Ao exame, área de cerca de 3% da superfície corporal com eritema intenso, bolhas de conteúdo claro e base rósea, dolorosa ao toque e com enchimento capilar rápido. Não há acometimento de face, mãos, pés, períneo ou articulações, nem sinais de lesão inalatória. A paciente está estável, com sinais vitais normais e vacinação antitetânica em dia. A conduta ambulatorial adequada é:
Queimadura de segundo grau superficial, com bolhas de base rósea e dor intensa, tem bom prognóstico e é tratada ambulatorialmente com resfriamento inicial com água em temperatura ambiente, limpeza delicada, curativo não aderente, analgesia adequada e reavaliações. Gelo direto provoca vasoconstrição e pode aprofundar a lesão. Antibiótico sistêmico profilático não é recomendado em queimadura não infectada e favorece resistência. Substâncias caseiras como manteiga e pasta de dente contaminam a ferida, dificultam a avaliação e devem ser desencorajadas, assim como o algodão hidrófilo, que adere ao leito.
Homem de 30 anos é atendido na Unidade Básica de Saúde por queimadura ocorrida há duas horas, ao derramar água fervente sobre o antebraço direito. Ao exame: área queimada de aproximadamente 3% da superfície corporal, restrita ao antebraço, com bolhas íntegras, base rósea, úmida e muito dolorosa ao toque, sem acometimento circunferencial, sem lesão de face, mãos, períneo ou vias aéreas. Sinais vitais normais, sem sinais de inalação de fumaça. Esquema vacinal antitetânico completo e atualizado. A conduta correta é:
Queimadura de segundo grau superficial, com pequena extensão, em área não nobre e sem sinais de lesão inalatória, é manejada ambulatorialmente com limpeza, curativo adequado, analgesia e seguimento na própria unidade, com atenção à situação vacinal, já atualizada. Encaminhamento a centro especializado se reserva a critérios como grande extensão, profundidade elevada, áreas nobres, lesão circunferencial, inalação ou extremos de idade. Gelo direto agrava a lesão por vasoconstrição. Antibiótico sistêmico profilático não é recomendado em queimaduras não infectadas e favorece resistência.
Homem de 45 anos é admitido com queimaduras de espessura total circunferenciais em ambos os membros superiores e no tórax anterior, ocorridas há 6 horas em incêndio. Recebe reposição volêmica conforme protocolo. Evolui com dor progressiva, palidez e parestesias nas mãos, com pulsos radiais que se tornaram impalpáveis e enchimento capilar de 5 segundos, além de dificuldade crescente de ventilação com pressões de pico elevadas ao ventilador e redução da expansibilidade torácica. A conduta imediata mais adequada é:
Queimaduras de espessura total circunferenciais formam escaras inelásticas que, com o edema da ressuscitação, comprimem estruturas vasculares e restringem a expansão torácica, exigindo escarotomia imediata dos membros e do tórax para restaurar perfusão e ventilação. Apenas aumentar a analgesia mantém a isquemia progressiva. Reduzir a reposição volêmica agrava o choque sem resolver a constrição mecânica. Curativos compressivos aumentam ainda mais a pressão sobre os tecidos comprometidos.
Uma unidade de pronto atendimento sem centro de queimados recebe quatro vítimas de incêndio. A equipe precisa definir quais pacientes serão transferidos para o centro de referência, considerando os critérios de encaminhamento estabelecidos: um adulto com queimadura de segundo grau em 25% da superfície corporal; um adulto com queimadura superficial de primeira grau em 15%; um adolescente com pequena queimadura de segundo grau em antebraço; e um adulto com queimadura de segundo grau em 6% de tronco posterior. O paciente com indicação prioritária de transferência é:
Queimaduras de segundo grau que ultrapassam 20% da superfície corporal em adultos configuram grande queimado e indicam transferência para centro especializado, assim como lesões de espessura total extensas, acometimento de face, mãos, pés, períneo e articulações, queimadura elétrica ou química e lesão inalatória. A queimadura de primeiro grau não entra no cálculo da superfície corporal queimada para essa finalidade. Lesão de segundo grau restrita ao antebraço, sem acometer articulações ou áreas nobres, pode ser conduzida localmente. Queimadura de 6% em tronco posterior não atinge o limiar de transferência prioritária.
Gestante de 24 anos, com 15 semanas, é atendida na Unidade Básica de Saúde e relata que sofreu queimadura de segundo grau em antebraço e mão ao cozinhar, há duas horas, com área estimada em cerca de 4% da superfície corporal. Ela está estável, com dor local intensa, sem comprometimento de vias aéreas e sem lesões em face ou pescoço. Ao exame, apresenta flictenas em antebraço direito, pressão arterial de 110x68 mmHg, frequência cardíaca de 92 bpm e batimentos cardiofetais normais. A conduta correta é
Queimadura de pequena extensão na gestação é tratada como na não gestante, com resfriamento adequado, analgesia segura, curativo apropriado e revisão da profilaxia antitetânica, mantendo o seguimento obstétrico habitual, pois a dor não tratada e o estresse também são deletérios. Não há indicação de interrupção da gestação por queimadura de pequena extensão. Corticoide sistêmico não é tratamento da queimadura. Negar analgesia é conduta inadequada, havendo opções seguras na gestação.
Homem de 41 anos chega ao pronto-socorro após queimadura por chama em incêndio doméstico, com lesões em face, pescoço e ambas as mãos, além de área no tórax anterior. Ao exame apresenta PA 128x80 mmHg, FC 104 bpm, saturação de 96% em ar ambiente, sem rouquidão, sem escarro carbonáceo e sem queimadura de vibrissas, com lesões de segundo grau em face, mãos e tórax somando cerca de 12% da superfície corporal, e articulações das mãos acometidas. A conduta mais adequada é:
O acometimento de áreas nobres, como face, mãos, pés, períneo e articulações, é critério de transferência para centro de referência em queimados, independentemente da extensão, pelo impacto funcional e estético e pela necessidade de cuidado especializado, após estabilização, analgesia e cobertura adequada das lesões. Tratar ambulatorialmente lesões de face e mãos ignora esse critério. Curativo com alta precoce compromete o resultado funcional. Enxertia imediata na admissão não é conduta inicial padrão em queimaduras de segundo grau.
Uma equipe de unidade básica de saúde é acionada para atender, ainda no local, um homem de 29 anos que sofreu queimadura por líquido inflamável em churrasco, com lesões em membros inferiores. Ele está consciente, com PA 128x78 mmHg, FC 104 bpm, saturação de 97% em ar ambiente, roupas ainda quentes aderidas em parte à pele e lesões eritematosas com bolhas em coxas e pernas, sem acometimento de via aérea e sem sinais de outras lesões traumáticas associadas. A conduta correta no atendimento inicial é:
No atendimento inicial à queimadura, interrompe-se o processo com água em temperatura ambiente, removem-se roupas não aderidas e adornos que possam comprimir com o edema, cobre-se com pano limpo e providencia-se analgesia e encaminhamento, sem aplicar substâncias caseiras. Gelo diretamente sobre a lesão agrava o dano tecidual e provoca hipotermia. Substâncias caseiras contaminam a ferida e dificultam a avaliação. Romper bolhas no local e usar antisséptico alcoólico aumenta dor, infecção e lesão.
Homem de 27 anos retorna à unidade de saúde para curativo de queimadura de segundo grau superficial em antebraço, ocorrida há 4 dias, tratada ambulatorialmente. Refere dor moderada durante as trocas. Ao exame apresenta ferida com tecido de granulação em formação, bordas sem eritema expansivo, sem secreção purulenta, sem odor fétido e sem febre, com boa perfusão distal e mobilidade preservada dos dedos, mantendo curativo limpo e seco entre as trocas realizadas na unidade. A conduta mais adequada é:
A queimadura em boa evolução, sem sinais de infecção, é conduzida com curativos adequados, analgesia antes das trocas para reduzir o sofrimento e acompanhamento, sem antibiótico sistêmico profilático, cujo uso indiscriminado seleciona resistência sem reduzir infecção. Deixar a ferida exposta aumenta contaminação e dor. Antisséptico alcoólico é citotóxico para o tecido de granulação e retarda a cicatrização.
Homem de 38 anos está internado há 8 horas em enfermaria de queimados com queimadura de terceiro grau circunferencial no antebraço e na mão direita, resultante de incêndio doméstico. Recebe hidratação conforme o protocolo. Nas últimas horas passou a referir dor intensa e parestesia nos dedos. Ao exame: escara endurecida e inelástica, edema tenso, dedos frios e pálidos, com enchimento capilar de 5 segundos e ausência de pulso radial ao Doppler. A movimentação passiva dos dedos provoca dor intensa. Qual é a conduta adequada?
Escara circunferencial de espessura total funciona como um torniquete diante do edema progressivo, e a presença de dor, parestesia, palidez e ausência de pulso indica escarotomia longitudinal imediata, procedimento que salva o membro e pode ser feito à beira do leito. Elevação e compressa não vencem a restrição mecânica da escara e postergam a descompressão até a isquemia irreversível. Não se trata de evento trombótico, e anticoagulação não descomprime o compartimento. Arteriografia consome tempo em uma situação cujo diagnóstico é clínico e cuja janela é de poucas horas.
Mulher de 52 anos, intubada e ventilada, está na sala de emergência há 5 horas com queimadura de terceiro grau circunferencial do tórax e abdome superior, totalizando 45% da superfície corporal. Vem apresentando elevação progressiva das pressões de pico do ventilador, de 28 para 46 cmH2O, com queda do volume corrente e hipercapnia (PaCO2 68 mmHg). A ausculta é simétrica, sem sinais de pneumotórax, e a radiografia de tórax mostra tubo bem posicionado e pulmões sem consolidação. A escara torácica está tensa e inelástica. Qual é a conduta imediata?
A escara circunferencial do tórax restringe mecanicamente a expansão da parede e eleva as pressões ventilatórias, e a escarotomia torácica ao longo das linhas axilares anteriores, unida por incisão transversal subcostal quando necessário, restabelece a complacência de imediato. Sedação e bloqueio neuromuscular não vencem a restrição da parede rígida. A drenagem empírica é injustificada com ausculta simétrica e radiografia sem pneumotórax. Reduzir o volume corrente a valores extremos não corrige a causa e agrava a hipercapnia já grave.
Mulher de 26 anos derramou água fervente sobre o antebraço direito em casa e é atendida na Unidade Básica de Saúde 20 minutos depois. Ao exame: área de cerca de 3% da superfície corporal com eritema, bolhas de conteúdo claro e dor intensa, com enchimento capilar preservado no leito da lesão. Está estável, com PA 120x76 mmHg e FC 88 bpm. A vizinha aplicou pasta de dente e gelo sobre a lesão antes da vinda à unidade. A paciente pergunta o que deve ser feito agora. Qual é a conduta adequada?
A conduta inicial é retirar substâncias caseiras, que contaminam e dificultam a avaliação, resfriar com água corrente em temperatura ambiente por alguns minutos e cobrir com curativo estéril, além de analgesia e revisão da vacinação antitetânica. Gelo direto e resfriamento prolongado causam vasoconstrição, lesão por frio e hipotermia, aprofundando a queimadura. Manter pasta de dente sobre a lesão aumenta o risco de infecção e mascara a avaliação da profundidade. Antisséptico alcoólico em área desnuda provoca dor intensa e lesão tecidual adicional.
Homem de 45 anos é atendido em unidade de pronto atendimento do interior após acidente com fogo em churrasqueira. Apresenta queimaduras de segundo grau profundo acometendo 12% da superfície corporal, distribuídas em coxa e abdome, além de queimadura de espessura total em toda a face palmar da mão direita e em dois dedos. Está estável, sem lesão inalatória, sem comorbidades e com dor controlada. O serviço tem clínico e cirurgião geral, mas não tem centro de tratamento de queimados. Qual é a conduta adequada?
São critérios de encaminhamento a centro de referência as queimaduras de espessura total, as de segundo grau em extensão significativa e as que acometem áreas especiais como mãos, face, pés, períneo e articulações, pelo risco funcional: o caso preenche mais de um deles e exige transferência regulada após estabilização. Curativos locais em serviço sem estrutura de queimados retardam a excisão e a enxertia precoces, com sequela funcional da mão. Ambulatório de cirurgia plástica não substitui o cuidado hospitalar especializado nessa fase. Internação clínica com parecer de dermatologia não oferece o tratamento cirúrgico necessário.
Mulher de 36 anos está internada há dois dias em enfermaria com queimadura de segundo grau em 18% da superfície corporal, decorrente de escaldadura. Recebe curativos diários com cobertura tópica, analgesia e hidratação. Está afebril, com leucócitos de 11.200/mm³, hemodinamicamente estável, aceitando dieta e sem sinais de infecção nas feridas, que apresentam tecido de granulação inicial. O médico plantonista sugere iniciar cefalotina venosa profilática para prevenir infecção da ferida. Qual é a conduta correta?
Não há indicação de antibioticoprofilaxia sistêmica no queimado sem sinais de infecção: a medida não reduz infecção de ferida e seleciona germes resistentes, sendo o cuidado correto o desbridamento, a cobertura tópica adequada e a vigilância clínica e laboratorial. Cefalotina profilática reproduz exatamente a prática desaconselhada. Esquema de amplo espectro com vancomicina é reservado a sepse suspeita em paciente grave, com coleta de culturas, não à profilaxia. Antibiótico oral prolongado até a epitelização amplia o tempo de exposição e o risco de resistência sem benefício.
Mulher de 28 anos, gestante de 30 semanas, é atendida em unidade de pronto atendimento com queimadura de segundo grau superficial em 5% da superfície corporal, acometendo antebraço e região malar direita, ocorrida ao abrir uma panela de pressão. Está estável, sem lesão inalatória e sem contrações uterinas, com batimentos cardíacos fetais normais. A equipe planeja o curativo e questiona qual cobertura tópica utilizar nas áreas acometidas. A paciente não tem alergias conhecidas. Qual é a orientação correta?
A sulfadiazina de prata é evitada na face, por dificultar a avaliação e pigmentar a pele, e no fim da gestação e no neonato, pelo risco teórico de kernicterus associado às sulfas, sendo preferíveis curativos não aderentes que mantenham o leito úmido. Usá-la indiscriminadamente ignora essas restrições. Iodopovidona alcoólica é citotóxica para o tecido de granulação e provoca dor intensa em área desnuda. Deixar a lesão exposta favorece dessecação, dor e aprofundamento, contrariando o princípio da cicatrização em meio úmido.
Homem de 44 anos chega à sala de emergência com queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 30% da superfície corporal, incluindo períneo, genitália e raízes das coxas, após acidente com fogo em depósito. Está consciente, com PA 110x68 mmHg e FC 118 bpm, sem lesão inalatória. Já se iniciou a reposição volêmica por dois acessos periféricos, e a equipe discute a monitorização da resposta e os cuidados específicos das áreas acometidas. Não há sangue no meato uretral nem trauma pélvico associado. Qual é a conduta adequada?
A queimadura perineal indica sondagem vesical precoce, tanto para monitorar o débito urinário, principal parâmetro de ressuscitação, quanto porque o edema progressivo pode tornar impossível a passagem do cateter algumas horas depois; a lesão de períneo é ainda critério de encaminhamento a centro de referência. Monitorar apenas frequência cardíaca e pressão arterial é insuficiente para titular fluidos no queimado. A cistostomia é procedimento de exceção, indicado quando a via uretral é impossível ou há lesão uretral. Adiar a sondagem por 24 horas garante justamente a situação que se quer evitar.
Mulher de 37 anos foi atendida em unidade de pronto atendimento com queimaduras de segundo e terceiro graus em 32% da superfície corporal e será transferida a centro de queimados a 250 km, com previsão de três horas de viagem. Está estável, com dois acessos venosos, hidratação em curso, sondada, analgesia venosa realizada e sem indicação atual de intubação, pois não há lesão inalatória. A equipe prepara o transporte e discute o curativo a ser feito antes de a ambulância sair. Qual é a orientação adequada?
No transporte inter-hospitalar do queimado a prioridade é cobrir as lesões com campos limpos e secos, prevenir hipotermia, manter a hidratação titulada e enviar registro detalhado de horários, volumes e medicações, pois o centro de referência refará a avaliação e o curativo definitivo. Curativos elaborados com pomada espessa atrasam a saída e serão removidos no destino. Compressas geladas em grande superfície provocam hipotermia e vasoconstrição. Suspender a hidratação durante três horas de transporte interrompe a ressuscitação na janela mais crítica e leva à hipoperfusão.
Mulher de 34 anos procura a Unidade Básica de Saúde no dia seguinte a queimadura por óleo quente na face anterior do antebraço esquerdo. Ao exame: área de cerca de 2% da superfície corporal, com bolhas íntegras de conteúdo claro, base rósea e úmida sob uma bolha rota, muito dolorosa ao toque, sem acometimento circunferencial nem de articulação. Está afebril, sem comorbidades, vacinação antitetânica em dia e com boa rede de apoio domiciliar. Não há sinais de infecção. Qual é a conduta adequada?
Queimadura de segundo grau superficial de pequena extensão, fora de áreas especiais, em paciente sem comorbidades e com suporte domiciliar, é manejada na atenção primária com limpeza, cobertura não aderente, analgesia e reavaliação seriada, com critérios claros de encaminhamento se houver piora. Internar em centro de referência todos os casos de segundo grau sobrecarrega a rede sem benefício. Antibiótico profilático não previne infecção de ferida e seleciona resistência. Desbridamento amplo sob anestesia geral não é procedimento de unidade básica nem está indicado nessa lesão.
Menina, 4 anos, com 16 kg, sofreu escaldadura por água fervente há 1 hora, com queimaduras em tronco anterior e todo o membro superior direito, estimadas em 20% da superfície corporal. Exame: lesões com flictenas e base rósea dolorosa, PA 96/58 mmHg, FC 138 bpm, T 36,4 °C, sem lesão de face, sem rouquidão e sem escarro carbonáceo. Diurese ainda não quantificada, com acesso venoso periférico obtido. Assinale a alternativa INCORRETA sobre o manejo inicial.
Aplicar gelo diretamente sobre a queimadura é incorreto, pois provoca vasoconstrição, aprofunda a lesão e favorece hipotermia, devendo-se usar água em temperatura ambiente por poucos minutos. A reposição volêmica é calculada a partir da superfície corporal queimada e do peso, com fórmulas específicas para pediatria e acréscimo da manutenção. O débito urinário é o parâmetro mais útil para ajustar a infusão. A analgesia precoce, inclusive com opioide, é parte do atendimento inicial. Cobrir as lesões com curativo estéril reduz dor, perda de calor e contaminação.
Homem, 38 anos, com queimadura de terceiro grau circunferencial em membro superior direito ocorrida há 8 horas, evolui com dor intensa e parestesia na mão. PA 124x76 mmHg, FC 104 bpm, SatO2 97%. O membro apresenta escara rígida e inelástica, edema importante, palidez distal e enchimento capilar de 5 segundos nos dedos, com pulso radial de difícil palpação ao Doppler. Qual a conduta indicada?
A escarotomia longitudinal de urgência é a conduta na queimadura circunferencial de espessura total com comprometimento vascular distal, pois a escara rígida atua como torniquete e a incisão restaura a perfusão. Elevar o membro e observar por 12 horas permite necrose isquêmica irreversível. A anticoagulação não corrige a compressão mecânica externa. A amputação primária é precipitada em membro cuja perfusão pode ser recuperada com procedimento simples. O curativo compressivo agrava a compressão e a isquemia.
Homem, 26 anos, atendido em hospital geral sem unidade de queimados, com queimadura de segundo grau profundo acometendo mão direita de forma circunferencial e face anterior do antebraço, totalizando 8% da superfície corporal. PA 124x76 mmHg, FC 92 bpm, T 36,7 °C, consciente. Sem lesão inalatória, sem trauma associado e sem comorbidades. Analgesia e curativo inicial já realizados no serviço. Sobre a conduta, assinale a alternativa correta.
O acometimento de áreas nobres, como mãos, face, pés, períneo e articulações, é critério de transferência para centro de queimados independentemente da extensão, e a lesão circunferencial profunda da mão agrava esse risco funcional. Tratar ambulatorialmente subestima o potencial de sequela e de síndrome compartimental. Manter internado em serviço sem equipe especializada não oferece o cuidado necessário. Exigir mais de vinte por cento de superfície queimada ignora os critérios por área nobre, profundidade, agente elétrico ou químico. A idade é apenas um entre vários critérios, não o único.
Homem, 42 anos, com queimadura de terceiro grau circunferencial em antebraço e braço direitos há 6 horas, em reposição volêmica adequada. PA 122x74 mmHg, FC 104 bpm. Mão direita fria, pálida, com enchimento capilar de 5 segundos e pulso radial ausente ao Doppler. Dor intensa à extensão passiva dos dedos e parestesias progressivas. Escara endurecida e inelástica em toda a circunferência do membro. Qual a conduta?
A escara circunferencial de espessura total funciona como um garrote diante do edema progressivo, e a perda de pulso com dor à extensão passiva indica escarotomia imediata, com incisões longitudinais nas faces medial e lateral até tecido viável. Elevar o membro e reavaliar em horas permite a evolução para necrose muscular. Aumentar apenas a analgesia mascara o sinal mais sensível de isquemia. A amputação é precipitada, pois a isquemia é reversível com a descompressão oportuna. O curativo compressivo agrava a compressão e a isquemia do membro.
Mulher, 36 anos, com queimadura de segundo grau superficial em 15% da superfície corporal, internada há 12 horas. PA 118x74 mmHg, FC 92 bpm, FR 18 ipm, T 36,8 °C. Feridas limpas, com curativo tópico realizado e sem sinais flogísticos perilesionais. Exames: leucócitos 12.400 por milímetro cúbico; proteína C reativa discretamente elevada; hemoculturas não coletadas por ausência de indicação clínica. Sobre a antibioticoterapia, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que recomenda antibioticoprofilaxia sistêmica de rotina: essa prática foi abandonada por não reduzir infecção e por selecionar germes multirresistentes. É correto que o antimicrobiano tópico integra o cuidado padrão das feridas. Também é verdadeiro que a leucocitose isolada não define infecção, pois a resposta inflamatória da própria queimadura eleva marcadores. O antibiótico sistêmico se justifica diante de infecção documentada ou sepse. E a seleção de germes resistentes é justamente a principal consequência do uso profilático indiscriminado.
Homem, 52 anos, com queimadura de segundo grau profundo em membro inferior direito, correspondente a 9% da superfície corporal, ocorrida há 2 dias. Está internado, estável e sem sinais sistêmicos de infecção. PA 124x76 mmHg, FC 88 bpm, T 36,9 °C. Ferida com áreas de escara fina e exsudato moderado, sem odor fétido. Refere ser alérgico a sulfa, com relato de exantema extenso prévio. Qual a conduta quanto ao curativo?
Diante de alergia à sulfa com reação cutânea prévia, a sulfadiazina de prata deve ser evitada, optando-se por coberturas alternativas, como curativos de prata nanocristalina ou outras coberturas específicas para queimaduras. Afirmar que a alergia não contraindica o agente ignora o risco de reação cruzada relevante. Deixar a ferida exposta favorece dessecação, dor e colonização. O corticoide tópico retarda a epitelização e aumenta o risco infeccioso. Gaze seca trocada semanalmente adere ao leito, provoca dor e trauma na retirada, além de não controlar a colonização.
Mulher, 39 anos, com queimadura de 38% da superfície corporal, resgatada há 50 minutos e transportada com lençóis úmidos e frios aplicados sobre as lesões. PA 104x62 mmHg, FC 122 bpm, FR 24 ipm, T 34,6 °C. Consciente, com tremores e extremidades frias. Exames colhidos na admissão mostram tempo de protrombina alargado e acidose metabólica leve, sem sangramento ativo aparente. Qual a conduta imediata quanto à temperatura?
A hipotermia é complicação frequente e grave do queimado, pois a perda da barreira cutânea aumenta a perda de calor, e agrava a coagulopatia e a acidose; a conduta é retirar curativos úmidos, secar a paciente e aquecer ativamente com mantas e fluidos aquecidos. Manter lençóis úmidos e frios perpetua a perda térmica. O gelo causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e piora a hipotermia. O antitérmico é inútil, pois não há febre e o distúrbio é de perda de calor. Adiar o aquecimento perpetua a tríade letal de hipotermia, acidose e coagulopatia.
Homem, 41 anos, resgatado de acidente com líquido inflamável, apresenta queimaduras em tronco e membros superiores estimadas em 25% da superfície corporal. Está consciente, sem estridor ou rouquidão. PA 126x78 mmHg, FC 108 bpm, FR 22 ipm, T 36,2 °C. Roupas parcialmente aderidas às lesões, sem sinais de trauma associado. O transporte até o hospital de referência levará cerca de 40 minutos. Sobre a conduta pré-hospitalar, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que manda romper flictenas na cena: no atendimento pré-hospitalar as bolhas devem ser preservadas, pois funcionam como barreira biológica, e o desbridamento é decisão hospitalar. É correto envolver o paciente em campo limpo e seco, evitando hipotermia. Também é verdadeira a retirada precoce de anéis e adornos antes do edema. O acesso venoso com analgesia durante o transporte é conduta apropriada em queimadura extensa. E a remoção de roupas aderidas deve ocorrer no hospital, com analgesia e assepsia adequadas.
Mulher, 45 anos, com queimadura de terceiro grau em 30% da superfície corporal, no terceiro dia de internação, hemodinamicamente estável, sem sepse e com hemoglobina de 10,8 g/dL. PA 120x74 mmHg, FC 92 bpm, T 37,0 °C. Escaras espessas e aderidas em tronco e membros, sem sinais de infecção invasiva. Reserva de sangue disponível e equipe cirúrgica habilitada no serviço. Qual a conduta?
A excisão precoce da escara, realizada nos primeiros dias em paciente estável, com cobertura no mesmo tempo cirúrgico, reduz infecção, tempo de internação e mortalidade no queimado de espessura total. Aguardar separação espontânea prolonga a exposição ao foco necrótico e aumenta a infecção. Manter apenas curativos até granulação retarda o fechamento definitivo. Exigir hemoglobina acima de treze gramas por decilitro é critério arbitrário e adiaria indefinidamente a cirurgia. Esperar infecção invasiva para operar inverte a lógica preventiva da excisão precoce.
Trabalhador de 35 anos sofre respingo de solução alcalina concentrada em antebraço e face lateral do tórax há 20 minutos, com dor intensa e sensação de sabão na pele. PA 128x80 mmHg, FC 96 bpm, T 36,6 graus Celsius. A pele apresenta eritema com áreas esbranquiçadas e aspecto liquefeito. Não há acometimento ocular, respiratório, nem sinais de queimadura circunferencial no segmento atingido. Qual a conduta imediata?
A irrigação abundante e prolongada com água corrente é a conduta imediata na queimadura química, especialmente por álcalis, que causam necrose por liquefação e continuam a penetrar enquanto não removidos. A neutralização com ácido gera reação exotérmica e agrava a lesão. O gelo direto sobre a pele provoca lesão adicional por frio e vasoconstrição. Cobrir com pomada oleosa sem lavagem retém o agente cáustico em contato com o tecido. Aguardar avaliação especializada desperdiça o tempo em que a irrigação é mais eficaz.
Mulher, 28 anos, sofreu escaldadura por água quente em antebraço direito há 3 horas, com área estimada em 4% da superfície corporal. PA 118x74 mmHg, FC 84 bpm, T 36,6 °C. Lesão com flictenas íntegras, base rósea, úmida e muito dolorosa ao toque, com enchimento capilar preservado. Não há acometimento de mãos, face ou articulações, e a paciente tem esquema vacinal antitetânico atualizado. Qual a conduta?
A queimadura de segundo grau superficial em 4% da superfície corporal, sem envolvimento de áreas nobres e em paciente estável, é tratada ambulatorialmente com limpeza, cobertura apropriada, analgesia e seguimento, com epitelização esperada em cerca de duas semanas sem cicatriz significativa. A internação para reposição volêmica é indicada em extensões maiores. O desbridamento amplo com enxertia se aplica a lesões de espessura total. A antibioticoprofilaxia sistêmica não é recomendada. O gelo direto causa vasoconstrição, aprofunda a lesão e contribui para hipotermia.
Homem, 35 anos, com queimadura de segundo grau em coxa esquerda ocorrida há 6 horas, apresenta duas flictenas: uma íntegra e tensa, de 8 cm, sobre a face anterior, e outra já rota, com conteúdo turvo, sobre a face lateral. PA 124x78 mmHg, FC 86 bpm, T 36,7 °C. Área total estimada em 5% da superfície corporal, sem sinais flogísticos perilesionais e sem comprometimento articular. Sobre o manejo das flictenas, assinale a alternativa correta.
A conduta consagrada preserva o teto de bolhas íntegras e pequenas, que funciona como curativo biológico, e remove o teto das bolhas rotas ou com conteúdo turvo, pois passam a ser foco de colonização. Romper e desbridar todas as bolhas expõe desnecessariamente o leito e aumenta a dor. Não tocar em bolha rota e contaminada favorece infecção. A aspiração seguida de sutura não faz parte de qualquer protocolo. Preservar o teto em todas as situações ignora justamente a exceção das bolhas rotas ou infectadas.
Homem, 44 anos, com queimadura de terceiro grau circunferencial em tórax e abdome superior, correspondente a 30% da superfície corporal, no sétimo hora de internação. Sob ventilação mecânica, apresenta elevação progressiva da pressão de pico inspiratório e queda do volume corrente. PA 106x62 mmHg, FC 124 bpm, SatO2 88%. Escara torácica endurecida e inelástica, com expansibilidade visivelmente reduzida. Radiografia sem pneumotórax. Qual a conduta?
A escara circunferencial torácica de espessura total restringe a expansão da caixa torácica e eleva as pressões ventilatórias, e a conduta é a escarotomia com incisões nas linhas axilares anteriores, complementadas por incisão transversal quando necessário, com alívio imediato. Aumentar a pressão de suporte não remove a restrição mecânica externa e aumenta o risco de barotrauma. A drenagem torácica trata pneumotórax, afastado pela radiografia. O bloqueador neuromuscular mascara o problema sem corrigi-lo. A traqueostomia não altera a restrição da parede torácica.
Homem, 36 anos, com queimadura de segundo grau em face por chama, incluindo pálpebras, ocorrida há 12 horas. PA 122x76 mmHg, FC 92 bpm, T 36,8 °C. Edema palpebral acentuado com dificuldade de abertura ocular espontânea, cílios chamuscados e hiperemia conjuntival. Acuidade visual preservada à avaliação inicial, sem opacidade corneana e com reflexos pupilares normais bilateralmente. Qual a conduta?
Na queimadura facial com acometimento palpebral, a prioridade é proteger a córnea, com lubrificação frequente e avaliação oftalmológica precoce incluindo teste com fluoresceína para detectar lesão epitelial, antes que a retração palpebral se instale. A oclusão compressiva prolongada não protege adequadamente e impede a reavaliação. A sulfadiazina de prata é tóxica para a superfície ocular e nunca deve ser aplicada nos olhos. A tarsorrafia é medida tardia, para exposição corneana por retração cicatricial. O corticoide tópico pode agravar infecção e retardar a reepitelização se usado sem avaliação especializada.
Homem, 39 anos, com queimadura de segundo e terceiro graus acometendo períneo, nádegas e raiz das coxas, correspondendo a 12% da superfície corporal, ocorrida há 4 horas. PA 122x74 mmHg, FC 100 bpm, T 36,6 °C. Edema perineal progressivo, com dificuldade de higiene local. Diurese espontânea presente, porém com jato reduzido e desconforto miccional relatado pelo paciente. Qual a conduta?
A queimadura de períneo é critério de transferência para centro especializado, e a sondagem vesical precoce é recomendada antes que o edema progressivo impossibilite o cateterismo, além de permitir monitorização da diurese e higiene adequada. Manter apenas diurese espontânea arrisca retenção urinária aguda com sondagem impossível horas depois. A cistostomia suprapúbica é procedimento de resgate, não primeira escolha. Postergar até a resolução do edema inverte a lógica preventiva. A antibioticoprofilaxia sistêmica não é recomendada no queimado.
Homem, 38 anos, no décimo dia de internação por queimadura de 40% da superfície corporal, apresenta piora clínica com febre e alteração do aspecto das feridas. T 38,8 graus Celsius, PA 96x58 mmHg, FC 126 bpm. As áreas queimadas mostram mudança de coloração para tom esverdeado, com conversão de lesões superficiais em profundas. Leucócitos 21.000/mm3 (VR 4.000-11.000) e piora da tolerância à dieta enteral. Qual a conduta indicada?
Coletar culturas, ajustar o antimicrobiano conforme o perfil da unidade e reavaliar a necessidade de desbridamento é a conduta diante de sinais de infecção da ferida em grande queimado, sugeridos por conversão de lesões, mudança de coloração e repercussão sistêmica. Manter apenas curativos tópicos ignora a infecção invasiva. O antibiótico sistêmico profilático de rotina não é recomendado em queimados e seleciona resistência. Suspender a nutrição enteral prejudica a cicatrização e a barreira intestinal. A enxertia sobre leito infectado resulta em perda do enxerto.
Mulher, 78 anos, hipertensa e com insuficiência cardíaca, sofreu queimadura de segundo e terceiro graus em 22% da superfície corporal por chama há 3 horas. PA 132x78 mmHg, FC 96 bpm, FR 22 ipm, T 36,2 °C. Consciente, com pele fina e frágil ao redor das lesões. Exames: creatinina 1,4 mg/dL; hemoglobina 11,8 g/dL; eletrocardiograma com fibrilação atrial já conhecida, em uso de anticoagulante oral. Sobre o manejo, assinale a alternativa correta.
A idade avançada é fator prognóstico independente e, para a mesma superfície queimada, a mortalidade é substancialmente maior no idoso, o que exige vigilância redobrada e planejamento cuidadoso. Reduzir pela metade o volume calculado provoca hipoperfusão, embora a titulação pela diurese e a atenção à reserva cardíaca sejam essenciais. A excisão precoce continua indicada em idosos selecionados, com bom impacto na sobrevida. A anticoagulação exige reavaliação diante de cirurgias e risco hemorrágico. E a pele fina do idoso favorece queimaduras mais profundas, e não mais superficiais.
Mulher, 36 anos, com queimadura de 18% da superfície corporal em membros inferiores, no quarto dia de internação, apresenta curativo aderido ao leito da ferida, com dor intensa antecipatória. PA 122x76 mmHg, FC 88 bpm, T 36,9 °C. Sem sinais de infecção sistêmica, com ferida limpa e exsudato moderado. A unidade dispõe de sala de banho com água morna e material de curativo adequado. Qual a conduta para a troca?
A retirada de curativo aderido deve ser precedida de umedecimento com soro fisiológico ou banho com água morna, associada a analgesia adequada e, quando necessário, sedação, reduzindo dor e trauma ao leito em cicatrização. Retirar o curativo seco rapidamente arranca o neoepitélio e aprofunda a lesão. Manter o curativo por mais sete dias favorece colonização e impede a avaliação da ferida. A água fria provoca hipotermia e vasoconstrição. Retirar sem analgesia é conduta desumana e gera sensibilização à dor nas trocas seguintes.
Homem, 46 anos, com queimadura de 40% da superfície corporal, no nono dia de internação, apresenta ferida com odor e mudança de coloração, além de febre de 38,4 °C. PA 116x70 mmHg, FC 110 bpm. Cultura de superfície com crescimento de bactérias gram-negativas. Não há hipotensão, plaquetopenia ou disfunção orgânica. Biópsia de tecido em processamento para contagem quantitativa e avaliação histológica de invasão. Qual achado define infecção invasiva da ferida?
A infecção invasiva da ferida é definida pela demonstração histológica de invasão bacteriana do tecido viável adjacente à escara, complementada pela contagem quantitativa acima de cem mil unidades formadoras de colônia por grama de tecido. A cultura de superfície reflete apenas colonização, presente em praticamente todas as feridas. O odor isolado é achado inespecífico. A proteína C reativa sobe pela própria resposta inflamatória da queimadura. E a febre isolada é frequente no queimado hipermetabólico, sem definir infecção.
Homem, 28 anos, sofre queimadura por chama em incêndio domiciliar há 2 horas. Exame: queimaduras de segundo e terceiro graus acometendo 32% da superfície corporal, incluindo face e ambas as mãos; rouquidão, vibrissas nasais chamuscadas, escarro carbonáceo; PA 118x74 mmHg, FC 108 bpm, SatO2 96%. O atendimento ocorre em hospital geral sem unidade de queimados. Qual a conduta correta quanto ao encaminhamento?
A conduta correta é a transferência para centro de queimados, com a via aérea assegurada antes do transporte: queimadura de espessura parcial acima de 20% da superfície corporal, acometimento de face e mãos e sinais de lesão inalatória, como rouquidão, vibrissas chamuscadas e escarro carbonáceo, são critérios formais de encaminhamento, e o edema de via aérea progride nas primeiras horas. Manter no hospital geral por não atingir 40% ignora os critérios vigentes. Aguardar 72 horas expõe o paciente ao período crítico sem estrutura adequada. Realizar os enxertos na origem contraria a indicação de tratamento especializado desde a fase aguda. Restringir o encaminhamento à queimadura circunferencial exclui indicações igualmente formais.
Homem, 45 anos, com queimadura de terceiro grau circunferencial em tórax e no braço direito, 12 horas após o acidente, em reposição volêmica adequada. Exame: escara rígida e inelástica no tórax, pressão de pico elevada no ventilador, FR 30 ipm; braço direito com escara circunferencial, mão fria, enchimento capilar de 5 segundos, pulso radial ausente ao Doppler. Qual a conduta imediata?
A conduta imediata é a escarotomia do tórax e do braço: a escara de espessura total circunferencial é rígida e inelástica e, com o edema da reanimação, restringe a expansão torácica e comprime o membro, produzindo elevação da pressão de pico e isquemia distal; as incisões devem seguir as linhas axilares anteriores no tórax e as faces medial e lateral do membro. Aumentar volume sem descomprimir agrava o edema e a compressão. A amputação é precipitada, pois a perfusão costuma retornar após a escarotomia. Curativo e elevação não resolvem a restrição mecânica. A heparina não trata compressão extrínseca por escara.
Mulher, 36 anos, com queimadura de segundo grau superficial em 12% da superfície corporal, acometendo membro superior e tronco, é atendida 4 horas após escaldadura por água fervente. Exame: bolhas íntegras, base rósea e dolorosa, enchimento capilar preservado; PA 122x76 mmHg, FC 92 bpm, T 36,8 graus C. Sobre o cuidado local da ferida, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que indica antibiótico sistêmico profilático de rotina: a profilaxia sistêmica não reduz infecção no queimado e seleciona germes resistentes, sendo o controle feito com cuidado local e vigilância clínica. É correto que a limpeza usa água com degermante suave e remoção de tecido desvitalizado. Também é correto que coberturas que mantêm o meio úmido favorecem a reepitelização em lesões superficiais. Avaliar a profilaxia antitetânica conforme o estado vacinal é conduta padrão em ferida com solução de continuidade. O prazo de cerca de duas semanas para reepitelização da queimadura de segundo grau superficial está correto.
Mulher, 52 anos, internada há 9 dias por queimadura de 38% da superfície corporal, evolui com febre de 39 graus C, hipotensão e confusão. Exame: PA 84x48 mmHg, FC 132 bpm, FR 30 ipm; a ferida antes rósea apresenta agora coloração escura focal, com conversão de áreas de segundo para terceiro grau e odor fétido. Laboratório: leucócitos 2.900/mm3 (VR 4.000-11.000); plaquetas 78.000/mm3 (VR 150.000-450.000). Qual a hipótese e a conduta?
A hipótese é sepse com foco na ferida do queimado: mudança de coloração da ferida, conversão de segundo para terceiro grau, odor fétido, febre alta, hipotensão, leucopenia e plaquetopenia são marcadores de infecção invasiva; a conduta é desbridamento cirúrgico do tecido infectado, coleta de culturas e biópsia quantitativa, com antimicrobiano de amplo espectro. A reação alérgica à sulfadiazina não causa choque com necrose da ferida e conversão de profundidade. O choque hipovolêmico tardio não explica a alteração local da ferida nem a leucopenia. A trombocitopenia induzida por heparina cursa com trombose, e não com este quadro local. A síndrome compartimental abdominal cursa com pressão intra-abdominal elevada e oligúria, sem as alterações descritas na ferida.
Homem, 29 anos, com queimaduras de segundo e terceiro graus em 35% da superfície corporal por líquido inflamável, admitido há 3 horas. PA 110x68 mmHg, FC 112 bpm, T 36,9 °C, diurese 0,6 mL/kg/h em reposição com Ringer lactato. Sem sinais de infecção. Leucócitos 16.000/mm³ (VR 4.000-11.000). Sobre o uso de antimicrobianos neste paciente, assinale a alternativa correta.
A antibioticoprofilaxia sistêmica de rotina não é recomendada no grande queimado, pois seleciona germes resistentes sem reduzir infecção ou mortalidade; a estratégia correta é curativo com antimicrobiano tópico, controle de foco e vigilância clínica, como neste paciente admitido há 3 horas sem sinais infecciosos. Iniciar vancomicina e cefepima empíricos em todo queimado acima de 20% é justamente a prática que aumenta resistência. Não há evidência de redução de mortalidade com profilaxia sistêmica nas primeiras 48 horas. A leucocitose é resposta inflamatória esperada na fase aguda da queimadura e isoladamente não define infecção. A penicilina benzatina em dose única não tem indicação nesse contexto.
Homem, 29 anos, com queimaduras de segundo e terceiro graus em 35% da superfície corporal por líquido inflamável, admitido há 3 horas. PA 110x68 mmHg, FC 112 bpm, T 36,9 °C, diurese 0,6 mL/kg/h em reposição com Ringer lactato. Sem sinais de infecção. Leucócitos 16.000/mm³ (VR 4.000-11.000). Sobre o uso de antimicrobianos neste paciente, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmativa incorreta é a que atribui redução de mortalidade à profilaxia sistêmica: não há evidência desse benefício, e a prática apenas seleciona germes resistentes. A ausência de indicação de antibioticoprofilaxia sistêmica de rotina está corretamente enunciada e se aplica a este paciente admitido há 3 horas sem sinais infecciosos. O uso de antimicrobiano tópico com vigilância clínica é de fato a estratégia recomendada. A leucocitose precoce realmente traduz a resposta inflamatória da queimadura e não define infecção. A seleção de multirresistentes pelo uso empírico amplo é consequência bem documentada.
Pessoa tem lesão térmica superficial mínima, sem suspeita de inalação, comprometimento funcional ou problema social que impeça seguimento. Qual medida responde à prioridade descrita?
O cuidado ambulatorial local é apropriado ao baixo risco descrito. Queimadura pequena e superficial, sem critérios de gravidade, pode receber tratamento local e orientação de retorno, conforme avaliação clínica. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Adulto tem pequena queimadura superficial no antebraço, sem áreas especiais, com dor controlável, boa perfusão e condições de acompanhamento. Qual medida responde à prioridade descrita?
O cenário permite cuidado local e vigilância de evolução. Queimadura pequena e superficial, sem critérios de gravidade, pode receber tratamento local e orientação de retorno, conforme avaliação clínica. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Vítima de alta voltagem está inicialmente estável, mas precisa definir local de tratamento após avaliação primária. Qual medida responde à prioridade descrita?
O mecanismo elétrico de alto risco requer centro especializado. Extensão, profundidade, áreas especiais, mecanismo e condições associadas orientam necessidade de centro especializado. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Pessoa tem queimadura solar localizada com eritema, sem bolhas profundas, repercussão sistêmica ou critério de encaminhamento especializado. Qual medida responde à prioridade descrita?
Cuidados locais e analgesia são proporcionais à lesão superficial. Queimadura pequena e superficial, sem critérios de gravidade, pode receber tratamento local e orientação de retorno, conforme avaliação clínica. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Pessoa com queimadura química necessita avaliação especializada após descontaminação inicial e estabilização. Qual medida responde à prioridade descrita?
O mecanismo químico pode exigir cuidado em centro de queimados. Extensão, profundidade, áreas especiais, mecanismo e condições associadas orientam necessidade de centro especializado. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Adulto sem comorbidades tem escaldadura pequena e superficial, em área não especial, com avaliação favorável para acompanhamento ambulatorial. Qual medida responde à prioridade descrita?
Tratamento local é adequado quando não há critérios de gravidade. Queimadura pequena e superficial, sem critérios de gravidade, pode receber tratamento local e orientação de retorno, conforme avaliação clínica. Referência: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27542292/
Paciente estável tem queimadura profunda em períneo e precisa definir seguimento após cuidados iniciais. Qual medida responde à prioridade descrita?
A localização especial favorece encaminhamento especializado. Extensão, profundidade, áreas especiais, mecanismo e condições associadas orientam necessidade de centro especializado. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Paciente estável tem queimadura profunda na mão, sem obstrução de via aérea ou choque. A questão é o destino assistencial adequado. Qual medida responde à prioridade descrita?
A área funcional especial justifica avaliação por centro de queimados. Extensão, profundidade, áreas especiais, mecanismo e condições associadas orientam necessidade de centro especializado. Referência: https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Uma criança apresenta a queimadura da figura após contato com líquido quente. O centro pálido tem resposta dolorosa diminuída à avaliação. Está estável, e a área total atingida é pequena. Qual encaminhamento é mais adequado? Imagem clínica sintética do acervo OsceLabs.

Lesões potencialmente profundas merecem consulta especializada mesmo quando a extensão é pequena; em crianças há ainda necessidades específicas.
Uma mulher apresenta queimadura parcial em 3% do tronco, sem lesão inalatória ou área especial. Mesmo após analgesia adequada e revisão do curativo, a dor impede os cuidados necessários. Segundo a ABA, qual fator favorece consulta imediata ao centro de queimados?
Critérios de referência incluem necessidades assistenciais, além da profundidade e da área corporal. Referências: American Burn Association. Guidelines for Burn Patient Referral — https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Um trabalhador sofre choque de 220 V, é avaliado e encontra-se estável, sem indicação de internação pelo atendimento inicial. Segundo os critérios da ABA, qual orientação sobre cuidado especializado é adequada?
Distinguir consulta de transferência obrigatória permite um encaminhamento proporcional ao mecanismo e à evolução. Referências: American Burn Association. Guidelines for Burn Patient Referral — https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Um eletricista sofre descarga de 13.800 V. Após atendimento inicial, está consciente e tem pequenas marcas de entrada e saída, somando menos de 1% de superfície corporal. Qual decisão sobre referência é adequada?
A lesão elétrica não deve ser estratificada somente pela área da pele. O mecanismo muda o critério de encaminhamento. Referências: American Burn Association. Guidelines for Burn Patient Referral — https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Uma criança de quatro anos apresenta queimadura parcial pequena. Está estável, mas as trocas de curativo têm sido inviáveis e o cuidador não consegue manter os cuidados domiciliares. Qual justificativa apoia avaliação em centro de queimados?
A decisão de referência pediátrica integra as condições clínicas e as necessidades da família para executar o tratamento. Referências: American Burn Association. Guidelines for Burn Patient Referral — https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
Um adulto apresenta pequenas áreas queimadas dispersas, cuja soma visual corresponde aproximadamente à superfície palmar inteira de uma de suas mãos, incluindo os dedos. Qual estimativa pelo método palmar é mais adequada?
O método palmar ajuda a estimar áreas pequenas ou dispersas. A referência deve pertencer ao próprio paciente e ser aplicada de forma consistente. Referências: American Burn Association. Guidelines for Burn Patient Referral — https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral
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em 7 dias
Recite a lista brasileira de transferência em quatro portas, sem olhar: extensão (2º grau acima de 20% no adulto, acima de 10% em criança ou em maior de 50 anos), profundidade (3º grau em qualquer extensão), região (face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações, sem percentual), agente e via aérea (elétrica, química, inalatória, circunferencial de tórax ou de membros) e contexto (doenças associadas, politrauma, autoextermínio, maus-tratos, situações sociais adversas). Em seguida diga em voz alta o número que muda na régua da American Burn Association — 10% de espessura parcial em qualquer idade — e os três itens que ela tem e a brasileira não: dor mal controlada, a linha pediátrica de 14 anos ou 30 kg, e o seguimento da elétrica de baixa tensão por sintomas tardios e problemas de visão.
em 30 dias
Pegue três vinhetas de queimadura de provas anteriores e, em cada uma, faça três coisas antes de olhar as alternativas. Primeiro, identifique de quem é a régua citada no enunciado e rode as quatro portas da lista. Segundo, calcule o volume: subtraia o tempo decorrido desde o acidente das 8 horas e chegue a mL por hora, depois converta o alvo de diurese do paciente em mL por hora. Terceiro, escreva a prescrição da ferida em cinco linhas — limpeza, decisão sobre a bolha, tópico, montagem do curativo e intervalo de troca — e ao lado a lista do que não entra: neutralizante, antibiótico profilático sistêmico, corticoide de rotina, diurético na fase de reposição e qualquer produto caseiro.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Homem de 45 anos chega ao pronto-socorro de um hospital geral 2 horas depois de queimadura por líquido quente em tronco e membro superior direito, com uma área de escara na mão. Colha a história, incluindo o que foi aplicado sobre a lesão antes da chegada, avalie via aérea e perfusão distal, decida se o paciente fica ou é encaminhado a centro de referência, calcule o que deve estar correndo e a que velocidade, prescreva o cuidado da ferida e organize a transferência. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
