119 min de leitura

Cirurgia GeralQueimados

Centro de queimados: quem vai, e o curativo de quem fica

Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida

A lista de transferência cai literal, e o Brasil tem uma lista que não é a da American Burn Association. Depois de decidir o destino sobram duas perguntas que valem ponto sozinhas: o que corre na veia enquanto a ambulância não chega, e o que se põe — e o que jamais se põe — sobre a ferida.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 45 anos sofreu queimadura elétrica de alta tensão no membro superior direito, que agora se apresenta com queimadura circunferencial de espessura total, edemaciado, tenso, com dor desproporcional, parestesia dos dedos e enchimento capilar lentificado, além de ausência de pulso radial ao Doppler. Qual é a conduta imediata para preservar a viabilidade do membro?

02

Como esse tema cai

Contar a superfície e classificar a profundidade é o capítulo anterior desta apostila, e é de lá que vêm a regra dos nove, a regra da palma, o diagrama de Lund-Browder e a definição das quatro profundidades. Aqui a pergunta é a seguinte: com a conta já feita, para onde vai esse paciente, o que corre na veia dele enquanto a vaga não sai, e o que se coloca sobre a ferida de quem não vai a lugar nenhum. São três decisões independentes, e a prova cobra as três separadamente.

A lista de critérios de encaminhamento é o coração do capítulo e cai literal, item por item. O problema é que existe mais de uma lista. A do Ministério da Saúde, na Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, transfere a queimadura de 2º grau acima de 20% da superfície corporal no adulto; a da American Burn Association encaminha a partir de 10% de espessura parcial em qualquer idade. É o dobro, no número mais perguntado do tema, e o enunciado quase sempre entrega qual das duas está em jogo.

Reposição volêmica aqui não é a fórmula, é o relógio e a titulação. O relógio começa na hora da queimadura, não na hora da chegada, e metade do volume das 24 horas tem de entrar até completar 8 horas desse relógio — o que significa que um paciente que chega com 2 horas de acidente tem 6 horas para infundir o mesmo volume. E a fórmula é ponto de partida: quem corrige é a diurese, medida de hora em hora. Errar para cima tem preço próprio, o edema da hiper-ressuscitação.

O cuidado da ferida tem uma régua brasileira própria e três perguntas fixas: com o que se lava, o que se põe e o que jamais se põe. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é explícita ao listar, entre o que o desbridamento cirúrgico precisa remover, os medicamentos caseiros que a família já aplicou — pasta, borra, gordura, folha. Do mesmo lado da linha estão o agente neutralizante na queimadura química, que produz reação exotérmica, e o antibiótico profilático sistêmico, que a diretriz proíbe com todas as letras.

03

O que muda decisão

O que é, no Brasil, um centro de queimados

A Portaria GM/MS nº 1.273, de 21 de novembro de 2000, institui a Política Nacional de Assistência a Queimados e cria os mecanismos de organização e implantação das Redes Estaduais de Assistência a Queimados — serviços hierarquizados e regionalizados, em relação estreita com os Sistemas Estaduais de Referência Hospitalar em Atendimento de Urgências e Emergências. O conteúdo dessa portaria está hoje consolidado no Anexo VIII da Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017, que é a norma a citar quando a questão pedir o dispositivo em vigor.

Centro de Referência em Assistência a Queimados, na definição oficial, é o hospital ou serviço devidamente cadastrado que, dispondo de maior nível de complexidade, condições técnicas, instalações físicas, equipamentos e recursos humanos específicos para o atendimento a pacientes com queimaduras, seja capaz de constituir a referência especializada da rede. A habilitação tem dois códigos: 21.01, centro de referência de média complexidade, e 21.02, centro de referência de alta complexidade. Não é um rótulo que o hospital escolhe: é habilitação pedida pelo gestor estadual, analisada pelo Ministério e publicada.

A consequência prática dessa arquitetura é a que a prova cobra: encaminhar não é despachar. A Cartilha do Ministério é taxativa em três pontos. A transferência deve ser solicitada à unidade de tratamento de queimaduras de referência, depois da estabilização hemodinâmica e das medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados. Paciente grave só se transfere acompanhado de médico, em ambulância com UTI móvel e possibilidade de assistência ventilatória. E deve seguir sempre relatório com todas as informações colhidas, as anotações de conduta e os exames realizados.

O mesmo texto acrescenta um detalhe que muda o comportamento de quem está no hospital geral: as unidades de referência sempre têm profissionais habilitados para orientar o tratamento completo. O telefonema não serve só para pedir vaga — serve para conduzir o paciente enquanto a vaga não sai. A lista da American Burn Association organiza a mesma ideia numa coluna à parte, a de recomendação de consulta, para casos em que a discussão com o centro é útil mesmo quando a transferência não é obrigatória.

Um cuidado logístico fecha a seção: o transporte aéreo de paciente com trauma, pneumotórax ou alterações pulmonares exige extremo cuidado pelo risco de expansão dos gases e piora clínica. Em queimado que já tem restrição ventilatória por escara circunferencial de tórax ou lesão inalatória, esse detalhe deixa de ser trivial.

Esquema de rede: três serviços de urgência menores à esquerda, um centro de referência maior à direita com símbolos de terapia intensiva, uma seta grossa levando o paciente do serviço menor ao centro e uma seta fina de volta representando orientação e contrarreferência; ao longo da seta principal, ícones de soro, relatório e ambulância com suporte ventilatório.
A rede não é uma lista de telefones. O paciente sai estabilizado, com volume correndo, com relatório e, se grave, com médico e suporte ventilatório a bordo — e a seta de volta existe: o centro orienta o tratamento enquanto a vaga não sai.

A lista brasileira de transferência, item a item

A Cartilha do Ministério da Saúde traz, no item 12, os critérios de transferência de pacientes para unidades de tratamento de queimaduras. São nove entradas, e é essa a lista que uma questão de concurso brasileiro reproduz quando cita fonte nacional. Extensão: queimadura de 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal queimada no adulto; queimadura de 2º grau maior que 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. Profundidade: queimadura de 3º grau em qualquer extensão.

Localização: lesões na face, nos olhos, no períneo, nas mãos, nos pés e em grandes articulações. Repare que a lista de localização não pede percentual nenhum — uma queimadura de 2º grau de 2% em dorso de mão entra por região, não por tamanho, e essa é a pegadinha mais produtiva do tema. A lista de áreas nobres da mesma Cartilha, no item de extensão, é mais larga que a de transferência e inclui orelhas, pescoço, região inguinal e a enumeração das grandes articulações: ombro, axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho e tornozelo.

Agente: queimadura elétrica e queimadura química, ambas sem qualquer corte de extensão. Via aérea e parede: lesão inalatória ou lesão circunferencial de tórax ou de membros — vale notar que a circunferencial aparece na lista brasileira de transferência lado a lado com a inalatória, o que nem toda lista internacional faz de modo explícito.

E o item que reúne o resto, e que é o mais esquecido: doenças associadas, tentativa de autoextermínio, politrauma, maus-tratos ou situações sociais adversas. Quatro dessas cinco entradas não têm nada a ver com a pele. Uma queimadura de 6% num paciente cuja história não fecha, ou num paciente que se queimou de propósito, é queimadura de centro de referência pela mesma lista que transfere o grande queimado.

Essa lista de transferência convive com uma segunda régua brasileira, a de pequeno, médio e grande queimado, que serve para classificar gravidade e enquadrar a internação, e que já foi tabelada no capítulo anterior desta apostila. As duas não são intercambiáveis: gravidade e destino são perguntas diferentes, e a prova às vezes oferece a resposta de uma como distrator da outra.

A lista da American Burn Association, e onde ela não bate com a brasileira

A versão vigente das diretrizes de encaminhamento da American Burn Association, de 2022, abandonou a lista corrida de dez itens que os manuais antigos reproduziam e passou a organizar tudo em duas colunas: consulta imediata com consideração de transferência, e recomendação de consulta. Essa mudança de formato é a primeira coisa a saber, porque ela dissolve a pergunta binária que a prova antiga fazia — nem todo caso é transferir ou não transferir; parte deles é conversar com o centro.

Na coluna de consulta imediata, para queimadura térmica: queimadura de espessura total, de qualquer tamanho; espessura parcial igual ou maior que 10% da superfície corporal; qualquer queimadura de espessura parcial profunda ou total envolvendo face, mãos, genitália, pés, períneo ou sobre articulações; paciente com queimadura e comorbidades; paciente com trauma concomitante; e dor mal controlada. Esse último item é uma novidade da régua internacional e não tem correspondente na lista brasileira.

Na coluna de recomendação de consulta entram a queimadura de espessura parcial menor que 10% e toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho. A lógica é que profundidade é diagnóstico que amadurece: o que hoje parece espessura parcial pode aprofundar, e quem vai reavaliar é quem opera. Lesão inalatória suspeita vai para a coluna imediata; sinais de inalação potencial, como queimadura de face por chama súbita, vibrissas chamuscadas ou exposição a fumaça, vão para a coluna de consulta.

A pediatria ganhou linha própria e o recorte é etário e ponderal: 14 anos ou menos, ou menos de 30 kg. E o texto é largo — toda queimadura pediátrica pode se beneficiar de encaminhamento a centro de queimados, por dor, necessidade de trocas de curativo, reabilitação, demandas do paciente e do cuidador, ou trauma não acidental. A lista brasileira de transferência não tem esse item genérico; ela chega ao mesmo lugar por outra porta, a dos maus-tratos e das situações sociais adversas.

Química: toda lesão química vai para consulta imediata, sem corte. Elétrica: toda lesão de alta tensão, definida como 1.000 V ou mais, e a lesão por raio vão para consulta imediata; a de baixa tensão, abaixo de 1.000 V, entra na coluna de consulta com consideração de seguimento em centro de queimados para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. Esse detalhe da catarata e dos sintomas que aparecem depois é o que impede a alta simples do paciente que levou um choque doméstico e não tem lesão visível.

O relógio, o volume e a diurese: o que está correndo quando a ambulância chega

A Cartilha brasileira admite uma faixa de 2 a 4 mL/kg/%SCQ, enquanto a diretriz contemporânea da American Burn Association recomenda iniciar o adulto com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir sobrecarga. A fórmula clássica de Parkland continua sendo 4 mL/kg/%SCQ quando é solicitada nominalmente. Em qualquer régua, usa-se preferencialmente Ringer lactato, metade do volume estimado até a oitava hora da queimadura e metade nas 16 horas seguintes.

Primeiro, o relógio. Para um adulto de 70 kg com 25% de SCQ, a taxa inicial atual de 2 mL/kg/%SCQ estima 3.500 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 1.750 mL, deve chegar até completar oito horas do acidente. Se ele chegou 90 minutos depois, restam seis horas e meia: cerca de 269 mL/h, seguidos de aproximadamente 109 mL/h nas 16 horas seguintes. Pela fórmula clássica de Parkland, os volumes dobram.

Segundo, a titulação. O alvo de diurese no adulto é cerca de 0,5 mL/kg/h, habitualmente 30 a 50 mL/h, e na criança aproximadamente 1 mL/kg/h. Para o adulto de 70 kg, 35 mL/h é referência inicial. Se a urina fica abaixo da meta, reavaliam-se perfusão, cálculo, atraso e causas associadas; se fica muito acima, reduz-se a taxa. O número calculado cede à resposta do paciente.

Terceiro, o freio. Diurético não corrige ressuscitação inadequada e ainda falsifica o parâmetro de titulação. Coloide, vasopressor e outras intervenções dependem do contexto e do protocolo do centro, mas não devem substituir a revisão do volume inicial e da causa de oligúria. O erro simétrico é insistir em taxas altas e produzir edema, síndrome compartimental e piora respiratória.

Quarto, a monitorização. Grandes queimados precisam de controle horário de diurese, geralmente com sonda vesical; a urina deve ser descrita, especialmente nas lesões elétricas. A taxa calculada acompanha o paciente durante a transferência, mas deve ser reajustada pelo serviço de origem e pelo centro de referência.

Linha do tempo começando no ícone de chama, com um trecho sombreado até o ícone de porta do hospital; o eixo se divide em um primeiro segmento curto e um segundo mais longo, cada um encimado por uma bolsa de soro do mesmo tamanho; abaixo do eixo, uma fileira de coletores de urina igualmente espaçados ao longo de todo o percurso.
O relógio zera na chama, não na porta: o tempo já gasto sai do primeiro bloco, que fica mais curto sem ficar menor em volume. Embaixo, a única coisa que corrige a conta — a diurese, medida de hora em hora do começo ao fim.

Via aérea: por que se intuba antes de transferir

A suspeita de lesão inalatória, na definição da Cartilha, é queimadura em ambiente fechado com acometimento da face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, dispneia, queimadura das vibrissas e insuficiência respiratória. O conjunto é clínico e não depende de exame. A conduta que acompanha é oxigênio a 100% em máscara umidificada, cabeceira elevada a 30° e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, manutenção da oxigenação por três horas. A broncoscopia, na diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é o método indicado na suspeita de inalação, com finalidade diagnóstica e também terapêutica, pela higiene da árvore brônquica.

A lista de indicações formais de intubação da Cartilha é gasométrica e tardia: Glasgow menor que 8, PaO2 menor que 60, PaCO2 maior que 55, dessaturação abaixo de 90 na oximetria e edema importante de face e orofaringe. Todo item dessa lista descreve um paciente que já descompensou. A régua internacional trabalha em outro tempo: a American Burn Association manda encaminhar imediatamente todo paciente com suspeita de lesão inalatória, e a coluna de consulta recolhe até os sinais menores, como a queimadura facial por chama súbita e as vibrissas chamuscadas.

A razão de o custo da espera ser alto é anatômica e não depende de qual lista se adote. A via aérea do queimado que inalou fumaça está pérvia agora e vai fechar por edema progressivo nas horas seguintes, com o agravante de que a reposição volêmica obrigatória alimenta esse edema. A janela em que a intubação é fácil se fecha sozinha, e o que sobra depois é uma via aérea difícil por edema de face, língua e orofaringe — em geral dentro de uma ambulância em movimento, longe do bloco cirúrgico e do material de resgate.

Há ainda um item que não se resolve com oximetria: a saturação de pulso não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e por isso um número normal no monitor não afasta intoxicação por monóxido em quem esteve em ambiente fechado. A Cartilha resolve isso pela ordem de tratar sem esperar dosagem — oxigênio a 100% desde já. E manda ainda procurar outra causa quando a consciência está alterada: alteração de sensório em queimado não se explica pela queimadura.

A ferida: com o que se lava, o que se tira, o que se põe

Limpeza. A Cartilha manda limpar a ferida com água e clorexidina degermante a 2% e, na falta desta, água e sabão neutro. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica descreve o mesmo em duas etapas: no primeiro atendimento, limpeza local com sabão neutro ou glicerinado, sabão de coco ou sabão líquido, e lavagem abundante com água corrente; na rotina do curativo já em ambiente assistencial, limpeza com clorexidina a 2% ou PVPI a 10%. O consenso internacional de 2024 chega a uma recomendação equivalente ao preferir antissépticos tópicos de baixa toxicidade, como a clorexidina e as soluções de hipoclorito.

Bolha. A recomendação de força alta do consenso de 2024 é preservar a bolha íntegra no atendimento pré-hospitalar, pelo efeito protetor da pele da bolha sobre a ferida. Já em ambiente assistencial, a mesma fonte recomenda remover a pele da bolha quando ela está rota, quando é grande, de parede fina, propensa a romper, ou quando há contaminação importante da superfície — e também nas escaldaduras de baixa temperatura. O que muda entre as duas situações é a capacidade de reavaliar e cobrir a lesão logo em seguida.

Desbridamento. A diretriz brasileira indica desbridamento cirúrgico praticamente em todos os casos de queimadura de 2º e de 3º graus, em centro cirúrgico e sob anestesia, com retirada mecânica de todo o tecido necrótico e remoção de secreções e contaminantes — restos de roupa e medicamentos caseiros incluídos, nominalmente. O consenso de 2024 acrescenta uma alternativa e um tempo: depois que a profundidade estabiliza, entre 48 e 72 horas, o desbridamento enzimático com colagenase, bromelina ou papaína é a primeira opção, seguido do autolítico com hidrogéis, e é a via preferida em crianças menores de 3 anos e em mãos. A excisão propriamente dita, na diretriz brasileira, é feita em etapas de 10% a 15% da área corporal, começando 48 a 72 horas após a queimadura.

Tópico e cobertura. A Cartilha nomeia a sulfadiazina de prata a 1% como o antimicrobiano tópico do serviço público brasileiro. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica lista o cardápio completo do qual ela faz parte: cremes de sulfadiazina de prata, sulfadiazina de zinco, salicilato de sódio, enzimas como as colagenases, nitrato de cério e acetato de mafenida, além das opções mais recentes com prata elemental de ação prolongada e dos curativos que trazem clorexidina ou PVPI na composição. O consenso de 2024 inverte a ordem de preferência para o 2º grau: coberturas de espuma e hidrocoloide, com boa absorção de exsudato e manutenção de umidade, vêm primeiro; a gaze com creme oleoso do tipo sulfadiazina de prata vem em segundo.

Montagem e troca. A Cartilha descreve o curativo oclusivo em quatro camadas: atadura de morim ou de tecido sintético do tipo rayon contendo o princípio ativo, gaze absorvente ou gaze de queimado, algodão hidrófilo e atadura de crepe — e manda deixar exposto o curativo da face e do períneo. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica descreve a mesma lógica com gaze de malha fina, isolamento térmico com algodão ortopédico e atadura de crepom, prefere curativos oclusivos exceto em orelha e períneo, e fixa a troca em intervalos de 12 a 36 horas, quando a ferida é reavaliada e o tópico é mantido ou substituído conforme o aspecto. Onde não há pele suficiente, a escala de cobertura é conhecida: autóloga, homóloga, heteróloga e, então, substitutos como a matriz de regeneração dérmica; membranas biológicas, incluindo amniótica e heterólogas, cobrem temporariamente o 2º grau profundo e a área excisada.

Corte esquemático em camadas separadas: leito da ferida embaixo, sobre ele uma malha fina, depois gaze absorvente, depois algodão volumoso e, no topo, a atadura enrolada; ao lado, um destaque mostrando face e períneo tratados sem oclusão.
O curativo oclusivo é uma pilha com funções distintas: malha que não adere e leva o tópico, gaze que absorve, algodão que isola e atadura que sustenta. Face e períneo ficam de fora dessa lógica e são tratados por exposição.

O que não se põe — e o que a família já pôs

A lista do que não entra na ferida do queimado é curta e rende questão inteira. Agente neutralizante na queimadura química está proibido pela diretriz brasileira com a justificativa fisiológica dada por extenso: a reação de neutralização é exotérmica e pode agravar a queimadura. O consenso internacional de 2024 chega ao mesmo destino por outro caminho, recomendando com força alta que não se usem neutralizantes de rotina. O que se faz é diluir: água corrente por pelo menos 20 a 30 minutos na redação da diretriz brasileira, no mínimo 30 minutos na Cartilha do Ministério, e de 30 minutos a 2 horas na recomendação internacional.

Antibiótico profilático sistêmico é o segundo item, e a redação da diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica não deixa margem: não se deve utilizar antibiótico profilático, com graus de recomendação apoiados em estudos de melhor e de menor consistência. A Cartilha diz o mesmo em outra forma, restringindo o antibiótico sistêmico às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica, e mandando evitar nos demais casos. Na mesma linha, ela manda evitar o uso indiscriminado de corticosteroides por qualquer via. O consenso de 2024 organiza a exceção: infecção leve é tratada localmente, com limpeza, aumento da frequência de trocas e drenagem; antimicrobiano sistêmico entra a partir da infecção moderada, junto com desbridamento.

Os medicamentos caseiros são o terceiro item, e quem os nomeia é a própria diretriz brasileira, ao listar entre os alvos do desbridamento cirúrgico a remoção de secreções e contaminantes, como restos de roupa e medicamentos caseiros. O que a família aplica antes de chegar ao serviço muda três coisas ao mesmo tempo: contamina a ferida, esconde o leito e impede a leitura da profundidade, e obriga a uma limpeza mais agressiva do que a lesão exigiria. É por isso que a pergunta sobre o que foi passado na lesão faz parte da anamnese do queimado e não é curiosidade.

Agente aderente tem regra própria: a diretriz manda resfriar agentes como o piche com água corrente, mas não tentar a remoção imediata. Puxar o material adere o descolamento à pele viável e converte uma lesão parcial em lesão profunda. Também no capítulo do resfriamento há uma exceção que a prova gosta: o consenso de 2024 recomenda não resfriar rotineiramente a queimadura elétrica de contato — a conduta ali é cobrir, proteger e transportar.

Um diagnóstico diferencial fecha a seção, e ele nasce justamente de receita caseira. A diretriz brasileira descreve como entidade tratada conservadoramente as lesões por psoralenos ou furocumarinas, presentes em folha de figo, limão, mamacadela e ruibarbo, geralmente associadas a bronzeamento com preparados caseiros: é reação fototóxica em que as camadas superficiais da pele se descolam das profundas com formação de bolhas, muito parecida com queimadura de 2º grau. A conduta descrita é conservadora — proteger com tópico eficiente sem remover a pele e aguardar a evolução.

Circunferencial, elétrica e química: o que muda no destino e no procedimento

Escarotomia. A indicação nasce da queimadura de espessura parcial profunda ou total que envolve circunferencialmente uma extremidade, e da queimadura de espessura total no tronco anterior, em que a inelasticidade da pele dificulta as incursões respiratórias. A Cartilha dá as linhas de incisão: no tórax, incisão em linha axilar anterior unida à linha abaixo dos últimos arcos costais; em membros superiores e inferiores, incisões mediais e laterais. Habitualmente não é necessária anestesia local, mas há necessidade de hemostasia — e a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica adverte que o sangramento pode ser significativo depois da recuperação volêmica, ocasionalmente exigindo transfusão.

A decisão de operar não é impressionista. A diretriz brasileira pede avaliação horária de cor da pele, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos periféricos, mas coloca o peso principal na oximetria do segundo dedo da mão ou do pé: é ali que termina o fluxo das artérias radial e ulnar, pelas digitais, de modo que oximetria acima de 90% indica fluxo suficiente para o dedo e, por consequência, para tudo que está proximal a ele, na queimadura térmica. O mesmo texto explica por que abandonou o Doppler como parâmetro principal: houve casos com sinal Doppler positivo que evoluíram com déficits, alguns prolongados, pelo atraso relativo da escarotomia.

A anatomia das incisões tem armadilhas nomeadas. No braço, a incisão vai da extremidade anterior da prega axilar à extremidade ulnar da prega anterior do cotovelo, e devem-se evitar incisões posteriores ao epicôndilo medial do úmero, pelo risco ao nervo ulnar. Na mão, incisões dorsais na topografia do segundo e do quarto metacarpos. Nos dedos, indicador e médio se incisam inicialmente do lado ulnar; polegar, anular e mínimo, do lado radial — sempre dorsal ao feixe vasculonervoso, para que a cicatriz não caia na borda que encosta nos objetos. Na perna, a fasciotomia lateral começa anterior à fíbula e curva progressivamente para trás, evitando o trajeto do nervo fibular.

Fasciotomia é outra operação e outra indicação: suspeita de síndrome compartimental em antebraço ou perna, tipicamente por corrente de alta voltagem ou por politrauma com esmagamento, quando o edema se instala abaixo da fáscia e a escarotomia isolada não resolve. Os parâmetros diagnósticos são a progressão de sinais neurológicos, a dor ao estiramento da musculatura do compartimento e a pressão intracompartimental acima de 30 mmHg ou com diferença menor que 30 para a pressão diastólica do paciente. Na queimadura elétrica pode haver edema subfascial sem queimadura circunferencial alguma, e a abertura do túnel do carpo, feita por incisão ao longo da prega tenar através do ligamento carpal transverso, entra associada às fasciotomias.

Elétrica e química, no que muda o destino. Na elétrica, a Cartilha manda identificar alta tensão, tipo de corrente e pontos de entrada e saída, avaliar perda de consciência ou parada no momento do acidente, manter monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas com dosagem de CPK e CKMB, e internar sempre. Havendo mioglobinúria, aumenta-se a diurese com maior infusão de líquidos, com alvo em torno de 1,5 mL/kg/h ou até o clareamento da urina. Na química, proteção universal da equipe, identificação do agente, remoção de roupas e do excesso — com escova ou pano se for pó — e irrigação prolongada; no ácido fluorídrico com repercussão sistêmica, gluconato de cálcio a 10% por via endovenosa lenta com acompanhamento do cálcio iônico, gel de gluconato de cálcio a 2,5% friccionado por 20 minutos sobre a lesão e, sem melhora, infiltração subcutânea de gluconato de cálcio diluído, em média 0,5 mL por centímetro quadrado de lesão.

Alta, retorno e a história que não fecha

Quem fica precisa de data para voltar, e a Cartilha entrega o gatilho pronto na forma da lista de sinais de infecção da área queimada: mudança da coloração da lesão, edema das bordas ou do segmento acometido, aprofundamento das lesões, mudança do odor, descolamento precoce da escara seca com transformação em escara úmida, coloração hemorrágica sob a escara, celulite ao redor, vasculite no interior da lesão na forma de pontos avermelhados, e aumento ou modificação da queixa dolorosa. Esses nove itens são a orientação de retorno que se escreve no papel do paciente, e o último deles é o mais útil em casa: dor que aumenta depois de ter diminuído é sinal de alarme.

A cadência do seguimento vem do curativo. A troca acontece em intervalos de 12 a 36 horas, e é nela que a ferida é reavaliada e o tópico mantido ou trocado conforme o aspecto — o retorno ambulatorial do pequeno queimado herda essa lógica. O consenso de 2024 formaliza a mesma ideia como recomendação de força alta: a queimadura de 2º grau exige avaliação dinâmica e contínua, procurando melhora, infecção, aumento de tecido necrótico e aprofundamento. Profundidade não é um diagnóstico feito uma vez.

Áreas especiais têm reabilitação que começa antes da alta. As mãos devem ficar elevadas por 24 a 48 horas para minimizar o edema, e os exercícios de amplitude de movimento começam o mais cedo possível; a queimadura circunferencial de mão pode exigir internação apenas para observar a circulação. Os pés queimados doem, mas a marcha e os exercícios de amplitude devem ser encorajados, com elevação nos intervalos. A orelha recebe curativo por exposição, evitando pressão excessiva, para prevenir condrite. As córneas suspeitas se coram com fluoresceína, e há uma regra que se lembra pelo avesso: não ocluir quando o agente lesivo for álcali. O períneo costuma exigir hospitalização, pelo risco de infecção e de obstrução urinária. O que acontece com a cicatriz depois de fechada a ferida — hipertrofia e queloide — é assunto do capítulo de cicatrização da apostila de Cirurgia Plástica desta coleção.

E há a alta que não se dá. Maus-tratos e situações sociais adversas estão nominalmente na lista de transferência da Cartilha, ao lado de politrauma e tentativa de autoextermínio, e a mesma Cartilha os inclui entre as condições que classificam a queimadura como grave. A régua internacional chega lá pela pediatria: o trauma não acidental é uma das razões declaradas pelas quais toda queimadura em criança de até 14 anos, ou abaixo de 30 kg, pode se beneficiar de encaminhamento a centro de queimados. Na prática, a suspeita muda o destino de uma queimadura pequena, e o roteiro de investigação e notificação é o do capítulo de maus-tratos na infância desta coleção.

A queimadura elétrica de baixa tensão fecha o capítulo do seguimento, porque é o caso em que o paciente parece pronto para ir embora. A régua da American Burn Association recomenda consulta com o centro de queimados e consideração de acompanhamento justamente para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. A régua brasileira é ainda mais dura no atacado: a Cartilha manda internar sempre a vítima de trauma elétrico e manter monitorização cardíaca por 24 a 48 horas.

04

Quem vai, com o que vai, e o que fica na ferida

Três decisões em sequência, e nenhuma depende de a anterior estar bonita: o destino, o que corre enquanto o paciente espera, e a cobertura da lesão. A tabela comparativa existe porque o corte de extensão que a prova cobra muda conforme a régua citada no enunciado.

  1. 11. Parou o processo, contou a superfície e classificou a profundidade — feito no capítulo anterior. A partir daqui, a %SCQ e o grau já são números na mão.
  2. 22. Rode a lista de transferência em quatro perguntas, nesta ordem: (a) quanto e quão fundo; (b) onde — face, olhos, períneo, mãos, pés, grandes articulações; (c) qual agente — elétrico, químico, inalatório, circunferencial; (d) quem é o paciente — comorbidade, politrauma, criança, idoso, autoextermínio, maus-tratos, situação social adversa. Uma resposta positiva em qualquer das quatro basta.
  3. 33. Antes de mover o paciente, resolva a via aérea. Suspeita de lesão inalatória com rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas ou fuligem não se transporta para intubar no destino.
  4. 44. Escara circunferencial de tórax que restringe a expansão, ou de membro com perfusão ameaçada, se libera antes de embarcar. O parâmetro de decisão é a oximetria no segundo dedo, com reavaliação horária de cor, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos.
  5. 55. Acerte o relógio do volume: as horas contam da queimadura. Subtraia o tempo já decorrido e recalcule a velocidade para entregar metade do volume das 24 horas até completar a oitava hora do acidente.
  6. 66. Ligue para a unidade de tratamento de queimaduras de referência antes de despachar. Solicite a transferência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados, e use o telefonema para conduzir o caso enquanto a vaga não sai.
  7. 77. Prepare o que vai junto: relatório com anamnese, condutas e exames; volume correndo com controle horário de diurese; analgesia venosa feita; profilaxia antitetânica administrada. Paciente grave viaja acompanhado de médico, em ambulância com UTI móvel e possibilidade de assistência ventilatória.
  8. 88. Para quem fica: limpeza, decisão sobre a bolha, tópico e cobertura em camadas, curativo por exposição em face, orelha e períneo, e troca em 12 a 36 horas com reavaliação da profundidade.
  9. 99. Escreva a orientação de retorno com os sinais de infecção — mudança de cor ou de odor, escara seca que vira úmida, celulite ao redor, aprofundamento e, principalmente, dor que aumenta depois de ter diminuído.

Porta 1 — Extensão e profundidade

Espessura total (3º grau) transfere em qualquer extensão, nas duas réguas. Espessura parcial (2º grau) depende de qual documento está em jogo: acima de 20% da superfície corporal no adulto pela Cartilha do Ministério da Saúde, e a partir de 10% em qualquer idade pela American Burn Association. Na Cartilha, criança e maiores de 50 anos entram acima de 10%.

Porta 2 — Região, sem percentual nenhum

Face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações — ombro, axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho e tornozelo. A lista de localização não pede tamanho: 2% de 2º grau em dorso de mão entra por região. A régua internacional acrescenta a genitália e qualifica o item pela profundidade, exigindo espessura parcial profunda ou total.

Porta 3 — Agente e via aérea

Queimadura elétrica e química transferem sem corte de extensão. Lesão inalatória transfere em qualquer extensão de queimadura. A lista brasileira coloca a lesão circunferencial de tórax ou de membros nessa mesma linha. Na régua internacional, alta tensão é 1.000 V ou mais, e a baixa tensão pede pelo menos consulta e seguimento, por sintomas tardios e problemas de visão.

Porta 4 — Quem é o paciente

Doenças associadas, politrauma, tentativa de autoextermínio, maus-tratos e situações sociais adversas estão na lista brasileira de transferência com o mesmo peso do percentual. A régua internacional acrescenta a dor mal controlada e abre linha própria para a pediatria — até 14 anos ou menos de 30 kg, por dor, trocas de curativo, reabilitação, demanda do cuidador e trauma não acidental.

Encaminhamento a centro de queimados: a lista brasileira e a lista da ABA lado a lado

SituaçãoCartilha do Ministério da Saúde (2012) — critérios de transferênciaAmerican Burn Association (2022) — encaminhamento
2º grau / espessura parcial no adultoÁrea maior que 20% da SCQ10% ou mais da SCQ, em qualquer idade — consulta imediata com consideração de transferência
2º grau / espessura parcial nos extremos de idadeMaior que 10% da SCQ em crianças ou em maiores de 50 anosLinha própria de pediatria: até 14 anos ou menos de 30 kg, toda queimadura pode se beneficiar de encaminhamento
3º grau / espessura totalQualquer extensãoQualquer extensão — consulta imediata
Espessura parcial abaixo do corteSem item próprio: a lista trabalha por corte de percentualRecomendação de consulta, junto com toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho
Região especialFace, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulaçõesFace, mãos, genitália, pés, períneo ou sobre articulações, quando espessura parcial profunda ou total
Lesão inalatóriaSim, em qualquer extensão da queimaduraSuspeita: consulta imediata. Sinais de inalação potencial — chama na face, vibrissas chamuscadas, exposição a fumaça: recomendação de consulta
Lesão circunferencialItem explícito: tórax ou membros, na mesma linha da inalatóriaSem item próprio na lista de 2022; a circunferencial chega pela via da profundidade e da região
Queimadura elétricaSim, sem corte de extensãoAlta tensão (1.000 V ou mais) e raio: consulta imediata. Baixa tensão (abaixo de 1.000 V): consulta e consideração de seguimento por sintomas tardios e problemas de visão
Queimadura químicaSim, sem corte de extensãoToda lesão química: consulta imediata
Comorbidade e trauma associadoDoenças associadas; politraumaQueimadura com comorbidades; trauma concomitante
DorSem item próprio na lista de transferência; a analgesia é conduta de salaDor mal controlada: consulta imediata com consideração de transferência
Contexto e intençãoTentativa de autoextermínio, maus-tratos ou situações sociais adversasTrauma não acidental, nomeado entre as razões do encaminhamento pediátrico

O que se põe na ferida, e para que serve cada camada

CategoriaNomes que as fontes citamOnde entra
Antisséptico de limpezaClorexidina degermante a 2%; água e sabão neutro na falta dela; sabão glicerinado, de coco ou líquido no primeiro atendimento; clorexidina a 2% ou PVPI a 10% na rotina do curativo; soluções de hipocloritoLimpeza inicial e a cada troca
Antimicrobiano tópico em cremeSulfadiazina de prata a 1%; sulfadiazina de zinco; nitrato de cério; acetato de mafenida; salicilato de sódioSobre a área queimada. A sulfadiazina de prata a 1% é a que a Cartilha do Ministério nomeia como padrão
Enzima para desbridamentoColagenase; bromelina; papaínaDepois que a profundidade estabiliza, 48 a 72 horas — primeira escolha do consenso de 2024 em criança abaixo de 3 anos e em mãos
Cobertura em contato com o leitoGaze de malha fina; atadura de morim ou de rayon com o princípio ativo; espuma; hidrocoloide; hidrogelEspuma e hidrocoloide são a primeira escolha do consenso de 2024 no 2º grau; a gaze com creme de sulfadiazina vem em segundo
Prata prolongada e antisséptico incorporadoCurativos com prata elemental; curativos com clorexidina ou PVPI na composiçãoAlternativa de ação prolongada, com troca menos frequente
Cobertura biológica e substitutosPele homóloga e heteróloga; membrana amniótica; matriz de regeneração dérmica e produtos de bioengenharia2º grau profundo, área excisada e falta de pele autóloga. Escala de preferência: autóloga, homóloga, heteróloga, substitutos
Montagem do curativo oclusivoCamada com o tópico, gaze absorvente ou de queimado, algodão hidrófilo ou ortopédico, atadura de crepeTodo o corpo, com exceção de face, orelha e períneo, tratados por exposição

O que não se põe — e o que se faz no lugar

ItemPor quêO que se faz
Agente neutralizante na queimadura químicaA reação de neutralização é exotérmica e pode agravar a queimaduraDiluir com água corrente: 20 a 30 minutos na diretriz brasileira, no mínimo 30 minutos na Cartilha, de 30 minutos a 2 horas no consenso de 2024. Em pó, escovar o excesso antes
Antibiótico profilático sistêmicoA diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica determina não utilizá-lo; a Cartilha o restringe à lesão potencialmente colonizada com sinal de infecção local ou sistêmicaInfecção leve: cuidado local, mais trocas, drenagem e retirada de necrose. Antimicrobiano sistêmico a partir da infecção moderada, com desbridamento
Corticosteroide de rotina, por qualquer viaA Cartilha manda evitar o uso indiscriminadoAnalgesia venosa dimensionada para tirar a dor — dipirona ou morfina, conforme a rotina do serviço
Medicamento caseiro sobre a lesãoContamina, esconde o leito, impede a leitura da profundidade e obriga a desbridamento mais agressivo. A diretriz brasileira o nomeia entre o que a cirurgia tem de removerPerguntar o que foi aplicado, remover no desbridamento e refazer a limpeza
Arrancar o agente aderente, como o picheA tração leva pele viável junto e aprofunda a lesãoResfriar com água corrente e não tentar a remoção imediata
Resfriar de rotina a queimadura elétrica de contatoRecomendação expressa do consenso de 2024, que separa a elétrica de contato da queimadura por arco voltaico e da chama secundáriaCobrir, proteger e transportar. Na de arco e na chama secundária, o primeiro atendimento é o térmico habitual
Diurético na fase de reposiçãoA Cartilha manda evitar diurético, coloide e droga vasoativa nas 24 horas iniciais. A diurese é o único parâmetro de titulação disponível, e o diurético o falsificaAumentar a infusão. A exceção nomeada por outro documento brasileiro é a hemoglobinúria e a mioglobinúria — ver o bloco de divergências

A lista de transferência e a classificação em pequeno, médio e grande queimado respondem a perguntas diferentes: a primeira define destino, a segunda define gravidade e enquadramento de internação. A tabela das duas réguas brasileiras de gravidade está no capítulo anterior desta apostila, e oferecer uma como resposta da outra é distrator clássico.

A régua brasileira de transferência tem uma faixa que não se encaixa em nenhuma categoria: o texto transfere a queimadura de 2º grau em área maior que 20% no adulto, de modo que exatamente 20% não é alcançado pelo item de extensão. O mesmo vale para os 10% da criança e do maior de 50 anos. Na prática o paciente é capturado por outra porta da lista, mas a redação, lida ao pé da letra, deixa o valor exato de fora.

As duas listas de idade da Cartilha não coincidem entre si. No item que classifica a queimadura como grave, os extremos são idade menor que 3 anos ou maior que 65 anos; no item que lista os critérios de transferência, o corte etário aparece como crianças ou maiores de 50 anos. São dois cortes distintos no mesmo documento, para finalidades distintas, e a questão costuma cobrar o corte de 50 anos quando pede transferência.

A classificação de gravidade da diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica tem valores que pertencem a duas categorias ao mesmo tempo: 2º grau até 5% em menores de 12 anos é pequeno queimado, e de 5% a 15% é médio queimado; o mesmo se repete em 10% e em 20% no maior de 12 anos. Exatamente 5%, 10% e 20% cabem nas duas faixas pela redação original.

Lesão inalatória, queimadura elétrica e queimadura química dispensam percentual: cada uma, isoladamente, leva a encaminhamento nas duas réguas, qualquer que seja a extensão. Guardar essas três dispensa metade da conta em prova.

O antibiótico que a Cartilha permite não é profilaxia: é tratamento de lesão com sinal de infecção. E a lista de sinais de infecção da própria Cartilha é local, não laboratorial — cor, odor, edema de bordas, escara que passa de seca a úmida, celulite, pontos avermelhados no interior da lesão e mudança do padrão da dor.

A profilaxia antitetânica entra na conduta imediata do queimado, com toxoide tetânico. O esquema completo por situação vacinal e por tipo de ferimento é o do capítulo de tétano da apostila de Infectologia desta coleção.

Na internação, a Cartilha acrescenta duas profilaxias que não são da ferida: bloqueador de receptor H2 para úlcera de estresse e heparina subcutânea para tromboembolismo. O regime de profilaxia de TEV é o do capítulo próprio da apostila de Pré e Pós-operatório.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corte de extensão que manda o adulto ao centro de queimados: 20% ou 10% de 2º grau

Acima de 20% da superfície corporal queimada

A lista brasileira de critérios de transferência para unidade de tratamento de queimaduras abre com queimadura de 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal queimada no adulto, e maior que 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. É o número que um enunciado que cite fonte nacional reproduz.

Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 12

A partir de 10% de espessura parcial, em qualquer idade

A régua internacional coloca a queimadura de espessura parcial igual ou maior que 10% da superfície corporal na coluna de consulta imediata com consideração de transferência, sem separar por idade, e ainda recolhe na coluna de consulta a espessura parcial abaixo de 10% e toda queimadura potencialmente profunda de qualquer tamanho.

American Burn Association, Guidelines for Burn Patient Referral, 2022

Na prova

O enunciado quase sempre entrega a régua. Questão que fala em unidade de tratamento de queimaduras, em UTQ de referência, em rede estadual ou que cite o Ministério da Saúde está na lista brasileira, e o corte do adulto é 20%. Questão que fala em burn center, em ABA ou em ABLS, ou que traga alternativas com percentuais em passos de 10%, está na régua internacional. Havendo empate, repare no resto do caso: se a vinheta traz região especial, agente elétrico ou químico, inalação, comorbidade ou contexto social, o percentual deixa de decidir — todas as portas levam ao mesmo destino, e a alternativa correta é a que transfere.

Diurético na fase de reposição volêmica do queimado

Evitar diurético nas 24 horas iniciais

Na fase de hidratação das primeiras 24 horas, a orientação é evitar coloide, diurético e drogas vasoativas. A lógica é preservar a diurese como parâmetro de titulação: com furosemida correndo, o volume urinário deixa de informar se a reposição está adequada.

Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 5

Estimular a diurese com diurético osmótico quando há pigmento na urina

Havendo hematúria ou hemoglobinúria, a orientação é estimular a diurese para grandes volumes — 2 mL/kg/h em menores de 12 anos e 70 a 120 mL/h em maiores de 12 anos — inclusive com o uso de diuréticos osmóticos; e, nas queimaduras elétricas, infundir 12,5 gramas de manitol para cada litro de Ringer com lactato infundido.

Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008

Na prova

As duas posições convivem porque respondem a situações diferentes, e o que separa uma da outra é a cor da urina. Vinheta sem pigmento, com oligúria e taquicardia em queimado nas primeiras horas, está testando se o aluno resiste ao diurético — a resposta é aumentar a infusão. Vinheta com urina escura, avermelhada ou descrita como hemoglobinúrica, tipicamente após queimadura elétrica ou esmagamento, está testando a exceção, e aí entram volume alto e manitol. A palavra que dispara a exceção está sempre na descrição da urina ou no agente elétrico.

Primeira escolha de cobertura no 2º grau: sulfadiazina de prata ou espuma e hidrocoloide

Sulfadiazina de prata a 1% como tópico padrão

A conduta brasileira nomeia a sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico do tratamento da ferida e a monta num curativo oclusivo de quatro camadas, com atadura de morim ou rayon impregnada, gaze absorvente, algodão hidrófilo e atadura de crepe. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica a lista em primeiro lugar entre os tópicos mais comumente utilizados.

Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012; e Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras — parte II, 2008

Espuma e hidrocoloide primeiro, sulfadiazina em segundo

Para a queimadura de 2º grau superficial com bolha removida, a recomendação é priorizar coberturas biológicas e, em seguida, espuma e hidrocoloide, por absorção de exsudato e manutenção da umidade; no 2º grau profundo precoce, de 24 a 48 horas, espuma e hidrocoloide são preferenciais e a gaze com creme oleoso do tipo sulfadiazina de prata é recomendada em segundo lugar.

Consensus on the treatment of second-degree burn wounds (2024 edition), Burns & Trauma, recomendações 22 e 23

Na prova

O recorte é institucional antes de ser clínico. Vinheta de pronto-socorro do SUS, de unidade básica ou que descreva material da rede está na régua nacional, e a resposta é sulfadiazina de prata a 1% com curativo oclusivo. Enunciado que fale em cicatrização úmida, em manejo de exsudato, em intervalo entre trocas ou que ofereça nomes de coberturas modernas nas alternativas está testando a atualização, e aí espuma e hidrocoloide são a resposta. Alternativa que proponha sulfadiazina de prata em face é distrator independentemente da régua: face é curativo por exposição.

Superfície queimada que indica sonda vesical no adulto

Acima de 20% no adulto e 10% na criança

Sonda vesical de demora para controle da diurese está indicada nas queimaduras em área corporal superior a 20% em adultos e 10% em crianças, dentro da sequência de sala de emergência.

Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2g

Acima de 25% no adulto e 10% na criança, com sonda nasogástrica junto

Na conduta de internação, a orientação associa sonda vesical e sonda nasogástrica em crianças com áreas acima de 10% e em adultos com áreas acima de 25%. O mesmo texto exige controle horário da diurese mesmo quando se decide contra a sonda, com registro das características da urina.

Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Projeto Diretrizes AMB/CFM, Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008

Na prova

A diferença é de momento assistencial, e o enunciado costuma dizer qual é. Sequência de sala de emergência, atendimento inicial ou ABCDE do queimado puxa o corte de 20%; conduta de internação, prescrição de admissão em enfermaria ou UTI puxa o de 25% com sonda nasogástrica associada. Vale guardar que os dois textos concordam integralmente na criança, em 10%, e que a controvérsia não alcança o essencial: a diurese é medida de hora em hora, com ou sem sonda.

Momento de intubar o queimado com suspeita de lesão inalatória

Critérios objetivos de descompensação

A indicação de intubação orotraqueal aparece amarrada a parâmetros mensuráveis: Glasgow menor que 8, PaO2 menor que 60, PaCO2 maior que 55 na gasometria, dessaturação abaixo de 90 na oximetria e edema importante de face e orofaringe. A suspeita de lesão inalatória, no mesmo texto, é definida clinicamente e conduzida com oxigênio a 100%, cabeceira a 30 graus e observação.

Ministério da Saúde, Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2b

Encaminhamento imediato diante da suspeita clínica, antes da descompensação

Todo paciente com suspeita de lesão inalatória entra na coluna de consulta imediata com consideração de transferência, e mesmo os sinais menores — queimadura de face por chama súbita, vibrissas chamuscadas, exposição a fumaça — geram recomendação de consulta. A régua trabalha sobre a suspeita, não sobre a gasometria.

American Burn Association, Guidelines for Burn Patient Referral, 2022

Na prova

Distinga o que o enunciado pede. Questão que pergunta a indicação formal de intubação e oferece alternativas com números de gasometria e de Glasgow está reproduzindo a lista brasileira, e a resposta é o item numérico. Questão que descreve o paciente que ainda fala, com rouquidão, escarro carbonáceo e vibrissas chamuscadas, e pergunta a conduta ou o destino, está testando o tempo da via aérea — e nenhum parâmetro numérico salva quem esperou, porque o edema progride junto com a reposição volêmica obrigatória. Alternativa que proponha transportar para intubar no centro de referência é errada nas duas réguas.

06

Caso resolvido

Homem de 38 anos, 70 kg, previamente hígido, sofreu queimadura por álcool líquido às 14h00 ao acender uma churrasqueira em área aberta. Chega às 15h30 ao pronto-socorro de um hospital geral que não tem unidade de tratamento de queimaduras. Está consciente, orientado, sem rouquidão, sem estridor, sem fuligem em boca ou narinas e sem vibrissas chamuscadas. Frequência cardíaca 112 bpm, pressão arterial 124 por 76 mmHg, frequência respiratória 20 irpm, saturação de 97% em ar ambiente. Ao exame: bolhas com leito rosado e úmido, muito dolorosas, cobrindo tronco anterior e face anterior de ambas as coxas, somando 25% da superfície corporal; no dorso da mão direita, escara branca nacarada, seca e endurecida, indolor à picada, não circunferencial. A esposa informa que passou pasta de dente sobre o tronco no caminho. Última dose de vacina antitetânica há 12 anos.
achado
Via aérea tranquila e por bons motivos: acidente em área aberta, sem rouquidão, sem estridor, sem escarro carbonáceo, sem fuligem e sem vibrissas chamuscadas. Nada aqui indica lesão inalatória, e a intubação preventiva não está indicada. Taquicardia de 112 bpm em queimado de 25% nas primeiras horas é esperada e não muda a conduta por si.
decisão
O destino já está definido por duas portas independentes da lista brasileira de transferência. Pela extensão: 2º grau em área maior que 20% da superfície corporal no adulto — são 25%. Pela profundidade e pela região: escara branca nacarada, seca e indolor à picada é 3º grau, que transfere em qualquer extensão, e está no dorso da mão, que é região especial. Bastaria uma delas.
cálculo
Pela recomendação contemporânea para o adulto, 2 mL × 70 kg × 25% = 3.500 mL nas primeiras 24 horas. Metade, 1.750 mL, deve chegar até completar oito horas da queimadura; como já se passaram 90 minutos, restam seis horas e meia, cerca de 269 mL/h. Nas 16 horas seguintes, os 1.750 mL restantes correspondem a aproximadamente 109 mL/h.
cálculo
Se a questão pedir nominalmente a fórmula clássica de Parkland, o coeficiente é 4 mL/kg/%SCQ e os volumes dobram: 7.000 mL em 24 horas. Essa é uma definição histórica importante para prova, mas não deve ocultar que a ABA recomenda começar o adulto com 2 mL/kg/%SCQ para reduzir fluid creep. Em qualquer estratégia, o resultado é apenas ponto de partida.
cálculo
A diurese-alvo inicial é cerca de 0,5 mL/kg/h, aproximadamente 35 mL/h neste adulto. Como a extensão ultrapassa 20%, a sonda vesical permite controle horário. A taxa de 269 mL/h deve subir ou cair conforme diurese, perfusão e evolução; furosemida não é resposta automática à oligúria da fase inicial, pois mascara o principal marcador de ressuscitação.
conduta
Analgesia venosa dimensionada para tirar a dor, com dipirona de 500 mg a 1 g ou morfina diluída, e profilaxia antitetânica com toxoide, já que a última dose foi há 12 anos. Não entra antibiótico sistêmico profilático: a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica determina não utilizá-lo, e a Cartilha o reserva para lesão com sinal de infecção.
conduta
A pasta de dente sai. É medicamento caseiro sobre a lesão: contamina, esconde o leito e impede a leitura da profundidade — a diretriz brasileira a inclui, junto com restos de roupa, entre os contaminantes que o desbridamento tem de remover. Limpeza com água e clorexidina degermante a 2% ou, na falta dela, água e sabão neutro; depois, tópico e cobertura conforme a rotina do serviço.
conduta
Transferência solicitada à unidade de tratamento de queimaduras de referência depois da estabilização hemodinâmica e das medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados. O telefonema não serve só para conseguir a vaga: a unidade de referência tem profissional habilitado para orientar o tratamento enquanto o paciente ainda está aqui. Vai junto o relatório com informações colhidas, condutas e exames, e o paciente viaja com volume correndo.
armadilha
A escara da mão não é circunferencial e a perfusão distal está preservada — não há indicação de escarotomia neste momento. O que se faz é reavaliação horária de cor, sensibilidade, enchimento capilar e pulsos, com oximetria no segundo dedo: acima de 90% há fluxo suficiente para o dedo e para o que está proximal a ele. E a mão fica elevada, com exercícios de amplitude começando o mais cedo possível.
07

Agora feche você

Homem de 62 anos, 78 kg, diabético em uso de metformina, derrubou óleo de fritura sobre a mão direita há 2 horas. Chega a um pronto atendimento sem serviço de cirurgia, andando, com dor intensa. Ao exame: bolhas com leito rosado, úmido e brilhante cobrindo o dorso da mão direita e o terço distal do antebraço direito, somando cerca de 4% da superfície corporal; eritema sem bolhas no terço médio do antebraço. Sem lesão em outras regiões, sem rouquidão, sem fuligem. Perfusão distal preservada, sem lesão circunferencial. A filha aplicou borra de café sobre as bolhas antes de sair de casa. Sinais vitais estáveis, glicemia capilar 178 mg/dL. Vacinação antitetânica com esquema completo, última dose há 6 anos.
achado
Bolha com leito rosado, úmido, brilhante e muito doloroso é 2º grau superficial. O eritema sem bolha do terço médio do antebraço é 1º grau e não entra na conta da superfície corporal queimada.
cálculo
Cerca de 4% da superfície corporal queimada. Fica muito abaixo do corte de extensão da lista brasileira de transferência, que é 2º grau acima de 20% no adulto, e abaixo dos 20% que a Cartilha usa para indicar sonda vesical de demora no adulto.
decisão
Mesmo assim, este paciente é de centro de referência, e por duas portas que não dependem do tamanho. Pela lista brasileira: a mão é região especial, e a linha de localização encaminha em qualquer extensão. Pela régua internacional: além da mão, há comorbidade — diabetes —, e paciente com queimadura e comorbidades está na coluna de consulta imediata com consideração de transferência.
conduta
A borra de café sai antes de qualquer decisão sobre a ferida. É medicamento caseiro sobre a lesão, e a diretriz brasileira a coloca entre os contaminantes que precisam ser removidos, ao lado dos restos de roupa. Limpeza com água e clorexidina degermante a 2% ou água e sabão neutro, com lavagem abundante.
conduta
Analgesia venosa antes do curativo, tópico e cobertura em camadas. A bolha que chegou íntegra e pequena pode ser preservada; as rotas, grandes, de parede fina ou contaminadas pela borra têm a pele removida. Profilaxia antitetânica conforme a situação vacinal. Antibiótico sistêmico profilático não entra: a lesão não tem sinal de infecção, e o diabetes não é indicação de profilaxia sistêmica.
conduta
Duas medidas de reabilitação começam agora e não podem esperar a vaga: a mão fica elevada por 24 a 48 horas para minimizar o edema, e os exercícios de amplitude de movimento começam o mais cedo possível. Contato com a unidade de tratamento de queimaduras de referência, relatório junto, e orientação escrita de retorno com os sinais de infecção — em especial dor que aumenta depois de ter diminuído.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aplicar o corte de 10% da ABA numa questão que cita o Ministério da Saúde É a troca de régua mais cara do tema, porque o erro é de fator dois no número mais perguntado. A lista brasileira de transferência usa 2º grau maior que 20% da superfície corporal no adulto e maior que 10% em criança ou em maior de 50 anos; a lista da American Burn Association usa 10% de espessura parcial em qualquer idade. Antes de escolher o percentual, leia de quem é a lista que o enunciado citou.
  2. 2Achar que queimadura pequena em mão, pé ou face pode ficar A linha de localização da lista brasileira não tem percentual: face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações encaminham em qualquer extensão. Uma lesão de 2% em dorso de mão é uma lesão de centro de referência, e a razão é funcional — a mão queimada perde amplitude enquanto ninguém a mobiliza, e a reabilitação começa nas primeiras 48 horas, com elevação e exercícios de amplitude de movimento.
  3. 3Transportar o paciente com suspeita de inalação para intubar no destino A via aérea que está pérvia agora vai fechar por edema nas horas seguintes, e a reposição volêmica obrigatória alimenta esse edema. Rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, vibrissas chamuscadas, fuligem em boca e narinas e história de ambiente fechado indicam resolver a via aérea antes de mover o paciente. O pior lugar para uma via aérea difícil por edema de face e orofaringe é uma ambulância em movimento.
  4. 4Despachar o paciente sem ligar para a unidade de referência e sem relatório A Cartilha do Ministério manda solicitar a transferência à unidade de tratamento de queimaduras de referência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de UTI reservado para queimados, e enviar sempre relatório com as informações colhidas, as condutas e os exames. E acrescenta o que se perde ao pular essa etapa: as unidades de referência têm profissionais habilitados para orientar o tratamento completo enquanto o paciente ainda está no hospital de origem.
  5. 5Prescrever antibiótico sistêmico profilático no queimado A diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica escreve que não se deve utilizar antibiótico profilático, e a Cartilha do Ministério restringe o antibiótico sistêmico às lesões potencialmente colonizadas com sinais de infecção local ou sistêmica. Queimadura extensa dá febre e leucocitose por resposta inflamatória, sem infecção — e a decisão se apoia no aspecto da ferida, não no hemograma.
  6. 6Neutralizar o ácido com base, ou a base com ácido A diretriz brasileira proíbe o agente neutralizante e dá a razão: a reação é exotérmica e pode agravar a queimadura. O que se faz é diluir com água corrente por tempo prolongado, retirando antes o excesso do agente em pó com escova ou pano. A exceção que confirma a regra é o ácido fluorídrico, em que o gluconato de cálcio não neutraliza o ácido: ele repõe o cálcio que o flúor sequestra.
  7. 7Dar alta ao paciente que levou choque de baixa tensão e não tem lesão visível A régua internacional coloca a lesão elétrica de baixa tensão, abaixo de 1.000 V, na coluna de consulta com consideração de seguimento em centro de queimados exatamente para rastrear início tardio de sintomas e problemas de visão. A régua brasileira é ainda mais restritiva no atacado: manda internar sempre a vítima de trauma elétrico, com monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas e dosagem de CPK e CKMB.
  8. 8Tratar a fórmula como meta e a diurese como conferência do fim do plantão O volume calculado é ponto de partida; quem corrige é a diurese, observada desde a primeira hora e medida de hora em hora, com registro das características da urina. O alvo é 0,5 a 1 mL/kg/h, com o menor de 12 anos em 1 mL/kg/h e a queimadura elétrica em torno de 1,5 mL/kg/h ou até o clareamento da urina. Diurese abaixo do alvo nas primeiras horas é volume insuficiente, e a resposta é aumentar a infusão, não prescrever furosemida.
  9. 9Puxar o piche, o plástico derretido ou a roupa grudada na lesão A diretriz manda resfriar os agentes aderentes com água corrente e não tentar a remoção imediata. A tração arranca pele viável junto e converte uma lesão de espessura parcial em lesão profunda. O mesmo raciocínio vale para a bolha íntegra no pré-hospitalar, que a recomendação internacional manda preservar pelo efeito protetor da própria pele da bolha.
  10. 10Ocluir tudo, inclusive face, orelha e períneo O curativo oclusivo é a regra, mas as fontes brasileiras abrem exceções nominais: a Cartilha do Ministério manda curativo exposto na face e no períneo, e a diretriz da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica prefere curativos oclusivos exceto em orelha e períneo, com o alerta de evitar pressão excessiva sobre a orelha para prevenir condrite. Some-se a regra oftalmológica de não ocluir o olho quando o agente lesivo for álcali.
  11. 11Não perguntar o que a família já passou na queimadura A diretriz brasileira lista os medicamentos caseiros entre os contaminantes que o desbridamento cirúrgico precisa remover, ao lado dos restos de roupa. O produto aplicado em casa contamina a ferida, esconde o leito, impede a leitura da profundidade e obriga a uma limpeza mais agressiva. E há um diferencial que nasce da mesma cultura: a lesão por psoralenos e furocumarinas de folha de figo, limão, mamacadela e ruibarbo, associada a bronzeadores caseiros, faz bolhas parecidas com 2º grau e é reação fototóxica, tratada conservadoramente.
  12. 12Ler a queimadura sem ler a história Maus-tratos, situações sociais adversas e tentativa de autoextermínio estão na lista brasileira de transferência com o mesmo peso do percentual, e a régua internacional nomeia o trauma não acidental entre as razões do encaminhamento pediátrico. Uma queimadura pequena numa história que não fecha muda de destino por esse item, e não pela pele.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Queimadura circunferencial de espessura total gera uma escara rígida inextensível que, com o edema subjacente, comprime estruturas neurovasculares (síndrome compartimental externa) — comprovada aqui pela perda de pulso e sinais isquêmicos. A conduta imediata é a escarotomia (incisão longitudinal da escara para descompressão). A fasciotomia é indicada quando há síndrome compartimental verdadeira (comum na queimadura elétrica por lesão muscular profunda) e não deve ser postergada 24h se há isquemia. Curativo compressivo agravaria a compressão; elevação/observação isolada perde o membro; amputação é medida extrema, não a inicial.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Recite a lista brasileira de transferência em quatro portas, sem olhar: extensão (2º grau acima de 20% no adulto, acima de 10% em criança ou em maior de 50 anos), profundidade (3º grau em qualquer extensão), região (face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações, sem percentual), agente e via aérea (elétrica, química, inalatória, circunferencial de tórax ou de membros) e contexto (doenças associadas, politrauma, autoextermínio, maus-tratos, situações sociais adversas). Em seguida diga em voz alta o número que muda na régua da American Burn Association — 10% de espessura parcial em qualquer idade — e os três itens que ela tem e a brasileira não: dor mal controlada, a linha pediátrica de 14 anos ou 30 kg, e o seguimento da elétrica de baixa tensão por sintomas tardios e problemas de visão.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de queimadura de provas anteriores e, em cada uma, faça três coisas antes de olhar as alternativas. Primeiro, identifique de quem é a régua citada no enunciado e rode as quatro portas da lista. Segundo, calcule o volume: subtraia o tempo decorrido desde o acidente das 8 horas e chegue a mL por hora, depois converta o alvo de diurese do paciente em mL por hora. Terceiro, escreva a prescrição da ferida em cinco linhas — limpeza, decisão sobre a bolha, tópico, montagem do curativo e intervalo de troca — e ao lado a lista do que não entra: neutralizante, antibiótico profilático sistêmico, corticoide de rotina, diurético na fase de reposição e qualquer produto caseiro.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 45 anos chega ao pronto-socorro de um hospital geral 2 horas depois de queimadura por líquido quente em tronco e membro superior direito, com uma área de escara na mão. Colha a história, incluindo o que foi aplicado sobre a lesão antes da chegada, avalie via aérea e perfusão distal, decida se o paciente fica ou é encaminhado a centro de referência, calcule o que deve estar correndo e a que velocidade, prescreva o cuidado da ferida e organize a transferência. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida – Centro de queimados: quem vai, e o curativo de quem fica — Preparatório para provas | OsceLabs