Clínica Médica › Toxicologia
Acidentes por animais peçonhentos
A prova cobra uma sequência: reconhecer a síndrome, graduar a gravidade e prescrever o antiveneno. A régua segue os PCDTs nacionais de 2026 e inclui Lonomia.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem, 34 anos, agricultor, dá entrada 3 horas após picada de serpente no dorso do pé direito durante trabalho na lavoura. Refere dor intensa, edema progressivo e equimose ascendente até o terço médio da perna, com duas marcas de presas e sangramento persistente no local. Nega alterações visuais, ptose ou queixas neurológicas. PA 120x80 mmHg, FC 92 bpm. Exames: TC (tempo de coagulação) incoagulável; plaquetas 90.000/mm³ (VR 150.000–450.000); fibrinogênio reduzido. Considerando o quadro local exuberante associado ao distúrbio de coagulação, qual é o agente causador mais provável e a conduta soroterápica indicada?
Como esse tema cai
Animal peçonhento é tema que a banca cobra com tabela na mão. O enunciado típico traz um trabalhador rural picado por serpente, uma criança picada por escorpião ou uma lesão de pele que apareceu de manhã — e as alternativas diferem em três eixos: o tipo de acidente, a gravidade e o número de ampolas do soro. Quem decorou só "jararaca dá soro antibotrópico" erra, porque a questão quase nunca identifica o animal: ela descreve a síndrome e espera que o candidato feche o diagnóstico pelo quadro clínico, como manda o Ministério da Saúde — o diagnóstico é clínico-epidemiológico, sem exame que identifique a peçonha circulante.
O peso do tema cresceu junto com a epidemiologia. O escorpionismo virou um agravo urbano em expansão no País inteiro, com quadro benigno no adulto e potencialmente letal na criança pequena; o ofidismo segue concentrado no Brasil rural, sobretudo nas Regiões Norte e Nordeste, com o acidente botrópico respondendo pela grande maioria dos casos; e o araneísmo tem endereço certo na prova: a Região Sul, com o Paraná — e Curitiba — à frente das notificações de acidente por aranha-marrom. No plano global, o ofidismo entrou em 2017 na lista de doenças tropicais negligenciadas da OMS, que estima 5,4 milhões de picadas e até 138 mil mortes por ano.
Este capítulo segue a sequência de decisão que a prova cobra: medidas iniciais; identificação da síndrome; classificação de gravidade; escolha do antiveneno e do número de frascos. Para serpentes e escorpiões, a régua foi atualizada pelos PCDTs nacionais de 2026. Depois vêm aranhas e Lonomia, porque o título “animais peçonhentos” não pode terminar antes do acidente lonômico, causa brasileira de coagulopatia e hemorragia com antiveneno específico.
O que muda decisão
O mapa do problema: quem morde, quem pica e quem notifica
Quatro gêneros de serpente têm importância médica no Brasil: Bothrops e Bothrocophias (jararaca, jararacuçu, urutu — o acidente botrópico, de longe o mais comum e distribuído), Crotalus durissus (cascavel, dos cerrados e áreas abertas), Lachesis muta (surucucu-pico-de-jaca, restrita à Floresta Amazônica e a remanescentes de Mata Atlântica) e Micrurus (coral-verdadeira, amplamente distribuída mas com poucos acidentes, porque a dentição pequena dificulta a inoculação). Sucuri e jiboia não envenenam; cobra-verde, muçurana e falsa-coral causam no máximo quadro local leve. Entre os escorpiões, o gênero Tityus concentra o problema — T. serrulatus (escorpião-amarelo) é a principal espécie causadora de acidentes e a mais associada a casos graves; T. bahiensis, T. stigmurus e T. obscurus completam o quadro por região. Entre as aranhas, três gêneros: Loxosceles (aranha-marrom, o mais importante), Phoneutria (armadeira) e Latrodectus (viúva-negra).
O perfil epidemiológico ajuda a fechar diagnóstico em enunciado enxuto. Ofidismo: homem, zona rural, membros inferiores, meses quentes e chuvosos, Norte e Nordeste na frente — e populações indígenas e ribeirinhas com os piores prognósticos, pela distância do soro. Escorpionismo: acidente urbano e doméstico, dentro de casa, ao calçar sapato, vestir roupa ou mexer em entulho, mãos e pés, ambos os sexos; a maioria evolui bem, mas casos graves e óbitos se concentram em crianças com menos de 10 anos — e o risco cresce quanto menor a idade, sobretudo abaixo de 7 anos, quando o agressor é o T. serrulatus. Araneísmo: Região Sul, Paraná à frente, Loxosceles como gênero que mais causa acidente no País, tipicamente ao se vestir ou dormir.
Todo acidente por animal peçonhento é agravo de notificação compulsória no Sinan, mediante a Ficha de Investigação específica — e a notificação independe de o paciente ter recebido soro. O Guia de Animais Peçonhentos do Brasil (2024) explicita o prazo: notificação em até 24 horas à Secretaria Municipal de Saúde. A ficha não é burocracia decorativa: é ela que alimenta o planejamento de produção e distribuição dos antivenenos, todos produzidos por quatro laboratórios oficiais conveniados ao Ministério da Saúde e distribuídos às Secretarias Estaduais, que definem os pontos de referência para soroterapia.
Primeiro atendimento: o que fazer — e o que jamais fazer
A primeira medida em qualquer acidente por animal peçonhento (exceto os por águas-vivas e caravelas) é lavar o ferimento com água — de preferência morna — e sabão, e encaminhar imediatamente ao hospital de referência. O resto da lista pré-hospitalar é de proibições, e a banca adora cobrá-las: não fazer torniquete nem amarrar o membro (aumenta necrose e síndrome compartimental, podendo custar o membro), não cortar, perfurar, queimar ou chupar o local (piora hemorragia e infecta), não aplicar substância nenhuma sobre a picada — fezes, álcool, querosene, fumo, ervas, urina — nem curativo oclusivo, e não dar bebida alcoólica ao acidentado.
No hospital, três regras estruturais valem para todos os tipos de acidente. Primeira: o soro heterólogo só se administra em unidade preparada para tratar reação adversa grave — equipamento e medicação de emergência à mão e médico presente; serviço sem essa retaguarda encaminha, não aplica. Segunda: o teste de sensibilidade cutânea foi excluído da rotina — tem baixo valor preditivo e só atrasa a soroterapia; o Ministério da Saúde e a OMS convergem nesse ponto. Terceira: paciente que recebeu soro fica hospitalizado para monitorar eficácia, reações e complicações, e recomenda-se respaldar a prescrição com segunda opinião de um Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox).
Duas sutilezas completam o atendimento inicial. A picada sem envenenamento existe — a "picada seca" —, e soro não se dá por via das dúvidas: a inoculação pequena pode atrasar sintomas, então todo caso sem manifestações evidentes na admissão fica em observação mínima de seis horas antes da alta. E a dose de antiveneno não se ajusta por peso nem por idade: os quadros do Ministério da Saúde graduam o número de ampolas exclusivamente pela gravidade, porque o soro neutraliza a quantidade de veneno inoculada — que não depende do tamanho de quem foi picado. Criança grave recebe o mesmo número de ampolas que adulto grave, por via intravenosa.
Ofidismo I — botrópico e laquético: a síndrome local-hemorrágica
O acidente botrópico é o protótipo local-hemorrágico. Na picada surgem dor, edema e equimose progressivos, bolhas e, nas evoluções graves, necrose; as marcas das presas podem não ser visíveis. Sistemicamente, o veneno altera coagulação e endotélio, causando gengivorragia, hematúria, equimoses a distância e hemorragias. Hipotensão/choque e injúria renal aguda tornam o caso grave. Complicações locais incluem necrose, infecção secundária, abscesso e síndrome compartimental.
O PCDT de 2026 tornou a classificação botrópica mais objetiva ao dividir o membro em três segmentos: mão/punho, antebraço/cotovelo e braço; ou pé/tornozelo, perna/joelho e coxa. Dor e edema de até um segmento definem leve e indicam 3 frascos; dois segmentos, moderado e 6; três segmentos ou hemorragia grave, hipotensão/choque ou injúria renal aguda, grave e 12. Sangramento discreto e coagulopatia podem estar presentes em qualquer estrato e não mudam sozinhos a dose. O soro preferencial é o antibotrópico pentavalente (SABr); SABL ou SABC podem substituí-lo conforme disponibilidade.
O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o seguimento, mas não deve orientar a dose inicial. Hemograma, plaquetas, ureia, creatinina, urina e avaliação seriada do edema completam o acompanhamento. Se a coagulação não tiver normalizado 24 horas após o término da soroterapia botrópica, o PCDT recomenda 2 frascos adicionais; se o quadro clínico piorar e houver reclassificação, complementa-se a dose até o total do novo estrato.
O acidente laquético é o botrópico com assinatura vagal: náuseas, vômitos, cólica, diarreia, bradicardia, hipotensão e até choque. Não há forma leve: quadro local com ou sem sangramento, mas sem manifestações vagais, é moderado e recebe 10 frascos de SABL; quadro local intenso, hemorragia intensa e/ou manifestações vagais é grave e recebe 20. A epidemiologia ajuda — serpente grande em Floresta Amazônica ou remanescentes de Mata Atlântica —, mas a síndrome decide.

Ofidismo II — crotálico e elapídico: a síndrome neuro-miotóxica
No acidente crotálico, o local costuma ser pobre: dor e edema discretos, às vezes eritema e parestesia. A doença é sistêmica. A ação neurotóxica produz fácies miastênica — ptose, turvação visual e oftalmoplegia —, enquanto a ação miotóxica causa mialgia, rabdomiólise e urina escura por mioglobinúria. O desfecho temido é a injúria renal aguda, sobretudo nas primeiras 48 horas; pode haver alteração da coagulação.
A régua crotálica permanece: alterações neuroparalíticas discretas, sem mialgia, urina escura ou oligúria, definem leve e 5 frascos de SACr; neuroparalisia evidente com mialgia e mioglobinúria discretas define moderado e 10; achados intensos com oligúria definem grave e 20. SABC pode substituir o SACr. Monitoram-se diurese, CK, função renal, eletrólitos e coagulação; suporte ventilatório ou renal não espera o soro fazer efeito.
O PCDT de 2026 mudou uma regra muito repetida em materiais antigos: o acidente elapídico agora é graduado. Quadro apenas local, com dor ou parestesia e sem miastenia, é leve, não recebe soro e exige observação por pelo menos 24 horas. Ptose ou redução objetiva da força sem paralisia define moderado e recebe 5 frascos de SAEla. Fraqueza intensa ou paralisia, dificuldade para levantar/deambular, disfagia, salivação ou respiração superficial até paralisia respiratória define grave e recebe 10.
A progressão pode ser tardia; por isso, leves e moderados exigem reavaliação rigorosa e complementação do tratamento se houver mudança de estrato. A distinção visual entre coral-verdadeira e falsa-coral é pouco confiável para decidir conduta: história compatível e sinais neuromusculares devem ser discutidos imediatamente com o CIATox e tratados conforme a síndrome.
Escorpionismo: dor no adulto, coração na criança
A picada de escorpião costuma provocar dor imediata, parestesia, eritema e sudorese local. O PCDT de 2026 separa três tempos: ausência de manifestações clínicas, observação por 4 horas; caso leve, com sinais locais e eventuais náusea, vômito, agitação ou taquicardia discretos relacionados à dor, observação por 6 a 12 horas; manifestações sistêmicas persistentes ou intensas, soroterapia e monitorização por pelo menos 24 horas.
Dor deve ser medida e tratada em paralelo à classificação: dipirona oral na dor leve, intravenosa na moderada e infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor na dor intensa, repetível até três vezes em intervalos de 40 a 60 minutos. Compressa morna ajuda. A melhora após analgesia permite distinguir manifestação provocada pela dor de envenenamento sistêmico persistente.
No caso moderado há quadro local associado a manifestações sistêmicas de pequena intensidade, como sudorese, náusea, alguns episódios de vômito, alteração da frequência cardíaca, hipertensão e agitação: são 3 frascos de SAEsc ou SAA. No grave aparecem episódios numerosos de vômito, sudorese profusa, alterações marcantes de frequência cardíaca ou pressão, sialorreia, alternância entre agitação e sonolência, taquidispneia, priapismo, convulsões, insuficiência cardíaca ou edema agudo de pulmão: são 6 frascos, sem ultrapassar esse total.
A dose é a mesma em crianças e adultos, mas crianças de até 10 anos — sobretudo menores de 7 — têm maior risco de evolução grave. Casos moderados e graves recebem soro imediatamente; exames não podem atrasá-lo. ECG, glicemia, eletrólitos, gasometria, marcadores de lesão miocárdica, radiografia de tórax e ecocardiograma são selecionados conforme manifestação sistêmica. No grave, monitorização contínua e terapia intensiva são desejáveis, mas a indisponibilidade de UTI não deve impedir a administração precoce do soro.
Na falta do SAEsc ou na dúvida entre escorpionismo e foneutrismo, pode-se usar SAA. O SAEsc pode ser infundido em 10 a 15 minutos ou a 8–12 mL/min, com atenção ao volume na criança com insuficiência cardíaca ou edema pulmonar; o SAA exige infusão mais lenta, em 20 a 60 minutos. Não se faz pré-medicação de rotina. Havendo reação, interrompe-se temporariamente, trata-se a anafilaxia e retoma-se quando estabilizado.
Araneísmo: armadeira, aranha-marrom e viúva-negra
Foneutrismo é o acidente da dor imediata e intensa, com edema, sudorese local e parestesia. O manejo é sintomático na maioria: compressa morna, analgésico sistêmico e infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor. Se a dor persistir, escala-se a analgesia conforme o serviço e o perfil do paciente. Quadro moderado — dor intensa com sudorese, vômitos ocasionais, agitação ou hipertensão — recebe 2 a 4 frascos de SAA; grave — sudorese e vômitos profusos, sialorreia, priapismo, choque ou edema pulmonar — recebe 5 a 10.
Loxoscelismo é o acidente da lesão tardia. A picada pode ser pouco dolorosa; horas depois surgem dor, eritema, edema, equimose central e áreas pálidas, formando a placa marmórea, com possibilidade de bolha e necrose seca. A forma cutâneo-hemolítica acrescenta hemólise intravascular, anemia, hiperbilirrubinemia e injúria renal, geralmente nas primeiras 72 horas.
Forma leve, com aranha identificada e lesão incaracterística sem comprometimento sistêmico, não recebe soro. Moderada, com lesão sugestiva/característica e sem hemólise, recebe 5 frascos de SALox ou SAA; grave, com hemólise clínica ou laboratorial, recebe 10. Os estratos com soro são associados à prednisona conforme a orientação nacional ainda vigente. No diagnóstico tardio com necrose delimitada, o cuidado é local — limpeza, curativos e avaliação cirúrgica quando indicada —, sem neutralizações ou soluções caseiras.
Latrodectismo é o acidente motor: dor local inicialmente pequena, depois queimação, sudorese e contraturas musculares intermitentes, rigidez abdominal que simula abdome agudo e fácies latrodectísmica. O manejo nacional é sintomático e de suporte, com analgesia, benzodiazepínico quando necessário e observação; a tabela brasileira de soroterapia não prevê antiveneno para Latrodectus. Alterações de repolarização e QT justificam ECG no quadro sistêmico.
Lonomia: a queimadura que vira coagulopatia
O contato com várias lagartas espinhudas em tronco ou vegetação provoca dor em queimação, eritema e edema. No acidente por Lonomia, o quadro local pode regredir enquanto, horas depois, surgem cefaleia, náusea, dor abdominal e sangramentos — gengivorragia, epistaxe, equimoses e hematúria. Hemorragia visceral, injúria renal aguda e hemorragia intracraniana marcam gravidade e risco de morte.
O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o acompanhamento. Quadro apenas local, sem sangramento nem alteração de coagulação, é leve e não recebe soro. Alteração do tempo de coagulação, com ou sem sangramento restrito a pele ou mucosas, define moderado e indica 5 frascos de soro antilonômico (SALon). Sangramento visceral define grave e indica 10 frascos. O Brasil é produtor do antiveneno específico; suspeita clínica exige encaminhamento rápido ao ponto de soroterapia e contato com o CIATox.
A régua do soro: tipo do acidente × gravidade × ampolas
Toda questão de conduta atravessa a mesma sequência: medidas gerais, definição do tipo pela síndrome, graduação da gravidade e, só então, antiveneno específico. Para acidentes ofídicos e escorpiônicos, os números abaixo seguem os PCDTs do Ministério da Saúde de 2026. O soro é intravenoso ou, quando previsto e sem acesso venoso, intraósseo, sem teste de sensibilidade, com estrutura para tratar anafilaxia.
- 1Lavar com água e sabão; retirar adornos e qualquer amarração; nada de torniquete, corte, sucção, gelo ou substâncias sobre a picada; encaminhar ao ponto com antiveneno
- 2Definir o TIPO pela síndrome clínica — local-hemorrágica, vagal, neuro-miotóxica, autonômica, dermonecrótica ou hemorrágica tardia — sem esperar identificação do animal
- 3Graduar a GRAVIDADE pelos critérios vigentes; no botrópico, conte os segmentos do membro e não use o tempo de coagulação para escolher a dose
- 4Prescrever o soro específico, IV, no número de frascos da tabela; a dose não muda por peso ou idade e deve ser administrada de uma só vez
- 5Observar pelo tempo do agravo: escorpionismo sem clínica, 4 h; leve, 6 a 12 h; quem recebeu soro, no mínimo 24 h; elapídico leve, pelo menos 24 h
- 6Reavaliar: surgiram novos sinais ou piorou a gravidade, complementar o soro até a dose do novo estrato; no botrópico, coagulação ainda alterada 24 h após o soro indica 2 frascos adicionais
- 7Notificar no Sinan e acionar o CIATox para apoio à classificação, dose e necessidade de transferência
Botrópico
Dor, edema e equimose progressivos + sangramentos + TC prolongado. É a grande maioria dos acidentes ofídicos. Soro antibotrópico (SABr); SABL ou SABC substituem na falta.
Laquético
Quadro botrópico + manifestações vagais (vômitos, diarreia, bradicardia, hipotensão), em área de floresta primária. Não existe forma leve: SABL, 10 ou 20 ampolas.
Crotálico
Local pobre + fácies miastênica + mialgia com urina escura. O rim é o alvo: IRA por necrose tubular nas primeiras 48 h. Soro anticrotálico (SACr) ou SABC.
Elapídico
Coral-verdadeira: quadro local isolado pode ser leve e fica 24 h em observação; ptose ou fraqueza objetiva sem paralisia é moderado (5 frascos); paralisia, disfagia ou insuficiência respiratória é grave (10).
A régua do soro em 2026: tipo × gravidade × frascos
| Acidente ofídico | Gravidade | Quadro que define | Frascos-ampolas |
|---|---|---|---|
| Botrópico (SABr, SABL ou SABC) | Leve | Dor e edema de até 1 segmento; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente | 3 |
| Botrópico | Moderado | Dor e edema de 2 segmentos; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente | 6 |
| Botrópico | Grave | Dor e edema de 3 segmentos ou hemorragia grave, hipotensão/choque ou injúria renal aguda | 12 |
| Laquético (SABL) | Moderado | Quadro local, podendo haver sangramento, sem manifestações vagais | 10 |
| Laquético | Grave | Quadro local intenso, hemorragia intensa e/ou manifestações vagais | 20 |
| Crotálico (SACr ou SABC) | Leve | Neuroparalíticas discretas; sem mialgia, urina escura ou oligúria | 5 |
| Crotálico | Moderado | Neuroparalíticas evidentes; mialgia e mioglobinúria discretas | 10 |
| Crotálico | Grave | Neuroparalíticas evidentes; mialgia e mioglobinúria intensas, com oligúria | 20 |
| Elapídico (SAEla) | Leve | Dor/parestesia local, sem miastenia | Sem soro; observar ≥24 h |
| Elapídico | Moderado | Ptose ou redução objetiva de força, sem paralisia | 5 |
| Elapídico | Grave | Fraqueza intensa/paralisia, disfagia, salivação ou comprometimento respiratório | 10 |
Escorpionismo — SAEsc ou SAA na falta/dúvida diagnóstica
| Gravidade | Quadro que define | Ampolas |
|---|---|---|
| Leve | Dor e parestesia local (observação de criança: 6 a 12 horas) | Sem soro |
| Moderado | Dor intensa + náuseas, vômitos, sudorese, sialorreia, agitação, taquipneia ou taquicardia | 3 |
| Grave | Vômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa, prostração, convulsão, coma, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema pulmonar agudo, choque | 6 |
Araneísmo — SAAr (armadeira) e SALox ou SAAr (aranha-marrom)
| Acidente | Gravidade | Quadro que define | Ampolas |
|---|---|---|---|
| Fonêutrico | Leve | Dor local, edema, eritema, sudorese, piloereção | Sem soro |
| Fonêutrico | Moderado | Dor intensa, sudorese, vômitos ocasionais, agitação, hipertensão | 2 a 4 |
| Fonêutrico | Grave | Sudorese profusa, sialorreia, vômitos profusos, priapismo, choque, edema pulmonar agudo | 5 a 10 |
| Loxoscélico | Leve | Aranha identificada, lesão incaracterística, sem comprometimento sistêmico | Sem soro |
| Loxoscélico | Moderado | Lesão sugestiva/característica mesmo sem identificar o agente; sintomas inespecíficos; sem hemólise | 5 + prednisona |
| Loxoscélico | Grave | Lesão característica + hemólise intravascular clínica ou laboratorial | 10 + prednisona |
O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o acompanhamento, mas o PCDT ofídico de 2026 é explícito: coagulopatia presente ou ausente não define a dose. No botrópico, a classificação vem do número de segmentos com dor/edema e das complicações sistêmicas.
Teste de sensibilidade cutânea antes do soro foi excluído da rotina: baixo valor preditivo e atraso da soroterapia.
A dose do antiveneno é definida pela gravidade, nunca por peso ou idade. Criança recebe o mesmo número de frascos que o adulto no mesmo estrato; o que se ajusta ao peso é o volume e o suporte.
Prednisona no loxoscelismo moderado e grave: 40 mg/dia no adulto, 1 mg/kg/dia na criança, por 5 dias, associada ao soro.
Latrodectismo: manejo sintomático e de suporte (benzodiazepínico, gluconato de cálcio 10%, observação de 24 horas) — a tabela de soroterapia do MS não contempla antiveneno para viúva-negra.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
OMS — antiveneno como item de atenção primária
A OMS define o antiveneno como o tratamento mais eficaz para prevenir e reverter os efeitos do envenenamento ofídico e defende que ele integre os pacotes de atenção primária dos lugares onde os acidentes ocorrem — é a espinha da estratégia global de reduzir em 50% a mortalidade e a incapacidade por ofidismo até 2030, firmada após a inclusão do agravo entre as doenças tropicais negligenciadas prioritárias, em 2017.
World Health Organization. Snakebite envenoming — Fact sheet
Ministério da Saúde — soro em unidade com retaguarda, rede organizada por pontos estratégicos
O Guia de Vigilância em Saúde condiciona a administração do soro heterólogo a unidade com médico presente e estrutura para tratar reação adversa grave; serviço sem essas condições deve lavar o ferimento e encaminhar ao ponto de referência. A distribuição dos antivenenos é definida pelas Secretarias Estaduais considerando registro de acidentes, tempo de deslocamento, estrutura assistencial e rede de frio — a razão da diferença para a régua global é operacional: soro heterólogo exige cadeia de frio e manejo de anafilaxia, e o desenho brasileiro concentra o insumo onde há segurança para aplicá-lo num território continental.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024
Na prova
O cenário do enunciado revela o recorte. Questão ambientada em UBS ou unidade sem retaguarda cobra a conduta da rede brasileira: lavar com água e sabão e transferir rápido para o ponto de referência — alternativa que manda aplicar soro ali mesmo denuncia o distrator. Enunciado que cita a OMS, a meta de 2030 ou o status de doença negligenciada está no recorte internacional, discutindo acesso e descentralização do antiveneno, não a norma assistencial do SUS. Vocabulário como "ponto estratégico", "rede de frio" e "segunda opinião do CIATox" pertence ao documento brasileiro.
GVS 2024
Mantinha esquemas anteriores e faixas de doses.
Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev.
PCDTs 2026
Padronizam a classificação clínica e as doses nacionais atuais.
Ministério da Saúde, PCDT dos Acidentes Ofídicos e PCDT dos Acidentes Escorpiônicos.
Na prova
Questões que citam expressamente os PCDTs de 2026 usam botrópico 3/6/12, escorpionismo 3/6 e elapídico graduado em leve/moderado/grave. Materiais anteriores podem trazer faixas 2–4/4–8, 2–3/4–6 e a regra de 10 frascos para todo elapídico. Para estudo atual, a tabela de 2026 deve prevalecer; se uma prova antiga for comentada, registre a norma vigente à época.
Caso resolvido
- achado
- Quadro local pobre com síndrome sistêmica dupla: fácies miastênica em instalação (ptose, turvação visual) + mialgia generalizada com urina escura. TC prolongado (10 a 30 minutos).
- interpretação
- Acidente crotálico. O local discreto afasta o padrão botrópico-laquético; a combinação neuroparalítica + miotóxica é a assinatura da cascavel, e o TC prolongado é compatível — a coagulação também pode se alterar no crotálico.
- classificação
- Moderado: alterações neuroparalíticas evidentes com mialgia e mioglobinúria ainda discretas, sem oligúria. Fosse mialgia/urina escura intensas com oligúria, seria grave.
- conduta
- Soro anticrotálico (SACr) 10 ampolas, IV, sem teste de sensibilidade, em unidade com retaguarda para reação adversa — na falta do SACr, SABC. Internação com vigilância de diurese e função renal (a IRA por necrose tubular é a principal causa de óbito e se instala tipicamente nas primeiras 48 horas), recontrole do TC para aferir eficácia e notificação no Sinan.
Agora feche você
- achado
- Picada por Tityus serrulatus em menor de 7 anos — o grupo de maior risco — com dor local seguida, em menos de 1 hora, de vômitos repetidos, sudorese profusa, sialorreia e taquicardia: envenenamento sistêmico em progressão.
- interpretação
- Não é mais acidente leve: as manifestações autonômicas definem quadro no mínimo moderado, e vômitos profusos com sudorese profusa e prostração marcam a fronteira do grave. O intervalo curto até a manifestação sistêmica é característico do escorpionismo e exige decisão rápida.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Torniquete, corte ou sucção como "primeiro socorro" É o distrator de apelo popular: parece proatividade heroica. O MS proíbe as três condutas — garrote e curativo oclusivo aumentam necrose e síndrome compartimental; incisão e sucção pioram sangramento e infectam. O que salva é água e sabão + transporte rápido ao soro.
- 2Esperar identificar (ou capturar) o animal para tratar O diagnóstico é clínico-epidemiológico: a síndrome define tipo e soro. A alternativa que condiciona a soroterapia à identificação atrai porque soa rigorosa — mas atrasa o tratamento, e o MS é explícito: quadro compatível fecha caso, com ou sem animal.
- 3Ajustar o soro pelo peso da criança Reflexo pediátrico treinado em toda a residência — e errado aqui. O soro neutraliza o veneno inoculado, que não depende do tamanho do paciente: os quadros do MS graduam ampolas só pela gravidade. Criança grave = mesma dose do adulto grave.
- 4Teste de sensibilidade antes do soro Atrai quem aprendeu farmacologia de soro heterólogo em livro antigo. Foi excluído da rotina: baixo valor preditivo, imprevisível para hipersensibilidade e só atrasa a soroterapia. A resposta certa é aplicar em unidade preparada para anafilaxia — sem teste.
- 5Alta precoce do caso "sem nada" Picada seca existe, mas inoculação pequena atrasa sintoma: sem manifestações evidentes, a observação mínima é de 6 horas — e criança picada por escorpião fica 6 a 12. No loxoscelismo a pegadinha é invertida: a lesão típica só aparece horas ou dias depois da picada indolor.
- 6Aplicar a regra antiga de que todo elapídico recebe 10 frascos Era uma regra frequente em materiais anteriores. O PCDT ofídico de 2026 passou a graduar: quadro apenas local é leve e fica pelo menos 24 h em observação; miastenia sem paralisia é moderada e recebe 5 frascos; paralisia, disfagia ou comprometimento respiratório é grave e recebe 10. A exceção que continua sem forma leve é o laquético.
Correta: o quadro combina achados LOCAIS proeminentes (dor, edema progressivo, equimose, marcas de presa) com distúrbio de COAGULAÇÃO (TC incoagulável, plaquetopenia, hipofibrinogenemia) e ação hemorrágica — a assinatura clássica do acidente botrópico (Bothrops/jararaca), o mais comum no Brasil. O tratamento é soro antibotrópico (SAB), com número de ampolas conforme a gravidade (leve/moderado/grave) definida pela extensão do quadro local e sistêmico. Crotálico: predomina quadro neurotóxico (fácies miastênica/ptose) e mio-lítico (mialgia, urina escura por rabdomiólise), com quadro local POBRE — ausente aqui. Elapídico/coral: quadro neuroparalítico sem alteração de coagulação e sem quadro local significativo. Laquético: pode ter coagulopatia e quadro local semelhante ao botrópico, mas cursa tipicamente com síndrome vagal (bradicardia, hipotensão, diarreia) e é restrito a áreas de floresta (Amazônia/Mata Atlântica densa) — menos provável em lavoura com o paciente estável e taquicárdico. Escorpião: não causa síndrome hemorrágica nem coagulopatia — dor local intensa é a regra, mas sem os distúrbios laboratoriais descritos.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Menino de 6 anos é levado ao pronto-socorro 40 minutos após ser picado por escorpião amarelo (Tityus serrulatus) no quintal de casa. Apresenta-se agitado, com vômitos incoercíveis, sialorreia, sudorese profusa, taquicardia (FC 148 bpm), taquipneia e priapismo. Ausculta pulmonar com estertores crepitantes bilaterais; PA 90x60 mmHg. Qual é a conduta prioritária neste caso?
Correta: Criança com escorpionismo apresentando manifestações sistêmicas (vômitos incoercíveis, sialorreia, sudorese, priapismo, taquicardia e sinais de edema agudo de pulmão) configura acidente MODERADO a GRAVE — indicação formal de soroterapia específica (soro antiescorpiônico ou antiaracnídico) o mais precoce possível, além de suporte em UTI. Crianças concentram os casos graves e óbitos. Erro grave — o quadro descrito é sistêmico e potencialmente fatal, não benigno. Não se trata de reação alérgica/anafilaxia à peçonha; o quadro é a ação neurotóxica da toxina, e corticoide/anti-histamínico não são o tratamento. Atropina não está indicada de rotina e pode agravar (a síndrome tem componente adrenérgico e colinérgico misto); nunca liberar paciente com manifestação sistêmica grave. Gluconato de cálcio não é antídoto do escorpionismo (é conduta do latrodectismo/aranha viúva-negra, e ainda assim não como antídoto isolado).
Mulher de 52 anos procura atendimento 8 horas após picada de aranha, referida como marrom, na região da coxa direita, ocorrida enquanto se vestia. Queixa-se de dor local que se intensificou nas últimas horas. Ao exame: lesão com área central violácea e enegrecida (necrose incipiente) circundada por halo de palidez e eritema, com aspecto marmóreo (placa marmórea). Nega febre, mialgia difusa ou alteração urinária no momento. Sobre o agente e a evolução mais temida deste quadro, assinale a alternativa correta:
Correta: a lesão com necrose central, halo de palidez/isquemia e aspecto marmóreo (placa marmórea), de instalação insidiosa e dor tardia, é característica do loxoscelismo (Loxosceles/aranha-marrom). Além da forma cutânea, existe a forma cutâneo-VISCERAL (hemolítica), complicação mais temida, que cursa com hemólise intravascular, anemia, icterícia, hemoglobinúria e pode evoluir para insuficiência renal aguda — por isso o monitoramento laboratorial (hemograma, função renal, urina) é essencial. Phoneutria (armadeira) causa dor local intensa imediata e quadro predominantemente neurotóxico/autonômico, não necrose cutânea — a descrição não corresponde. Latrodectus (viúva-negra) causa latrodectismo com dor, contraturas musculares e rigidez abdominal, mas a lesão local não é a placa marmórea necrótica descrita. Lycosa (tarântula/aranha-de-jardim) tem baixa importância médica, causa apenas reação local discreta, sem necrose progressiva ou amputação. Incorreta: quanto à complicação — o loxoscelismo não causa paralisia respiratória neurotóxica; sua complicação sistêmica é hemolítica/renal, não neuromuscular.
Homem, 42 anos, trabalhador rural, procura o pronto-socorro 8 horas após picada no dorso do pé, durante roçado em zona rural de Minas Gerais. Queixa-se de pouca dor local. Ao exame: edema e eritema discretos no local da picada, fácies miastênica com ptose palpebral bilateral e turvação visual, mialgia generalizada intensa e urina de coloração "cor de coca-cola". PA 130/80 mmHg, FC 88 bpm, FR 18 ipm, T 36,7 °C. Exames: creatinofosfoquinase (CK) 12.400 U/L (VR < 200), tempo de coagulação (TC) normal, creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,7–1,3), potássio 5,8 mEq/L (VR 3,5–5,0), exame de urina com pigmento heme sem hemácias (mioglobinúria). Qual é a soroterapia específica adequada para este caso?
O quadro é típico de acidente CROTÁLICO (Crotalus): dor local mínima, fácies miastênica/ptose (neurotoxicidade), mialgia com rabdomiólise (CK muito elevada) e mioglobinúria ("urina cor de coca-cola") evoluindo para lesão renal aguda. A presença de rabdomiólise com insuficiência renal e mioglobinúria classifica o caso como GRAVE, cujo tratamento pelo protocolo do Ministério da Saúde é soro anticrotálico 20 ampolas IV, além de hidratação vigorosa e alcalinização/monitorização renal. Antibotrópico está errado: não há coagulopatia (TC normal) nem edema/equimose importantes; o antiveneno deve ser espécie-específico. 10 ampolas corresponde ao acidente crotálico MODERADO (sem oligúria/mioglobinúria maciça), insuficiente aqui. 5 ampolas é a dose do acidente crotálico LEVE. Antielapídico trataria acidente por coral (Micrurus), que cursa com fácies neurotóxica porém SEM mialgia/rabdomiólise/mioglobinúria, e a dose padrão são 10 ampolas.
Homem, 35 anos, é picado na panturrilha direita ao caminhar em mata há 3 horas. Evolui com dor local intensa, edema tenso e progressivo do membro, equimose e formação de bolhas, além de sangramento persistente no ponto da picada e gengivorragia. Nega ptose, mialgia ou alteração da cor da urina. PA 128/82 mmHg, FC 84 bpm, sem bradicardia, sem sudorese profusa ou cólicas abdominais. Exames: tempo de coagulação incoagulável, plaquetas 130.000/mm³, creatinina normal. Qual é o diagnóstico mais provável?
O predomínio de manifestações LOCAIS proeminentes (dor intensa, edema tenso, equimose, bolhas) associado a manifestações hemorrágicas sistêmicas com incoagulabilidade sanguínea (ação proteolítica, coagulante e hemorrágica) é a assinatura do acidente BOTRÓPICO (Bothrops/jararaca), o mais frequente no Brasil. O acidente laquético (Lachesis/surucucu) também cursa com quadro local e coagulopatia semelhantes, mas caracteristicamente acompanha SÍNDROME VAGAL — bradicardia, hipotensão, diarreia e cólicas abdominais —, ausente neste paciente, o que o afasta. Crotálico teria dor local mínima com fácies miastênica e mialgia/mioglobinúria, o oposto do apresentado. Elapídico (coral) cursa com quadro neuroparalítico sem coagulopatia nem edema importante. Escorpionismo provoca dor local muito intensa sem edema tenso/equimose e sem incoagulabilidade sanguínea.
Mulher, 30 anos, procura atendimento por lesão dolorosa no abdome. Relata que, ao vestir uma blusa guardada há meses no armário, sentiu ferroada discreta. Nas 48 horas seguintes surgiu no local uma placa endurecida com áreas de palidez entremeadas a áreas arroxeadas (aspecto marmóreo), circundada por halo de vasoconstrição, com centro que evolui para necrose e formação de crosta escura. Nega dor de forte intensidade imediata. T 37,8 °C. Qual é o agente causador mais provável deste quadro?
O quadro descreve o LOXOSCELISMO cutâneo, causado pela aranha-marrom (Loxosceles): picada pouco dolorosa, hábito de se esconder em roupas/panos guardados, e evolução em 24–72 h para a característica lesão com placa marmórea (áreas isquêmicas e hemorrágicas alternadas) que progride para necrose seca (escara). Pode haver forma cutâneo-hemolítica com hemólise sistêmica. Phoneutria (armadeira) causa dor local IMEDIATA e muito intensa, sem necrose. Latrodectus (viúva-negra) provoca latrodectismo com dor, cãibras, sudorese e hipertensão, sem lesão necrótica. Lycosa (tarântula/aranha-da-grama) causa apenas reação local leve, sem importância médica. Tityus é escorpião (não aranha) e cursa com dor local intensa e manifestações sistêmicas, sem lesão dermonecrótica.
Homem, 42 anos, lavrador, é atendido 6 horas após picada de serpente não identificada no dorso do pé direito enquanto trabalhava em zona rural. Queixa-se de mal-estar, mialgia generalizada intensa, sensação de "peso nas pálpebras" e visão turva. Ao exame: fácies miastênica com ptose palpebral bilateral e limitação da movimentação ocular; no local da picada há apenas edema e dor discretos, sem bolhas, equimose ou sinais de necrose. Refere urina de coloração acastanhada ("cor de coca-cola") no último episódio miccional. Laboratório: CK 8.400 U/L (VR até 170), tempo de coagulação prolongado, creatinina 1,4 mg/dL (VR 0,7–1,3). O soro específico a ser administrado é:
O quadro é típico de acidente crotálico (Crotalus – cascavel): manifestações locais pobres (edema/dor discretos, sem necrose) contrastando com síndrome neuroparalítica (fácies miastênica com ptose e oftalmoplegia por ação neurotóxica), síndrome miolítica (mialgia intensa + CK muito elevada + mioglobinúria dando urina acastanhada, com risco de insuficiência renal aguda) e distúrbio de coagulação (ação coagulante). O tratamento específico é o soro anticrotálico (opção correta), guiado pela gravidade, associado a hidratação vigorosa e alcalinização da urina. Antibotrópico: no botrópico predominam dor, edema importante, bolhas, equimose e necrose local, ausentes aqui. Antilaquético: o acidente laquético cursa com quadro local semelhante ao botrópico somado a manifestações vagais (bradicardia, diarreia, hipotensão), não descritas. Antielapídico: no elapídico (coral) há paralisia neurotóxica, porém sem mialgia/mioglobinúria nem coagulopatia, e as corais têm distribuição/comportamento distintos. Botrópico-laquético: cobriria dois gêneros incompatíveis com a mioglobinúria e a fácies miastênica apresentadas.
Menino de 3 anos é levado ao pronto-socorro 2 horas após ser picado por escorpião amarelo (Tityus serrulatus) na mão direita. No local há apenas dor discreta e leve hiperemia. Contudo, a criança apresenta vômitos incoercíveis (já foram seis episódios), sudorese profusa, sialorreia, agitação intensa alternada com sonolência, taquicardia (FC 172 bpm), taquipneia (FR 46 ipm) e extremidades frias com enchimento capilar lentificado. PA 128/84 mmHg. Ausculta pulmonar com estertores em bases. A conduta específica indicada é:
É um escorpionismo GRAVE em criança — grupo de maior risco. Apesar da manifestação local mínima, há síndrome sistêmica exuberante por descarga adrenérgica/colinérgica: vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, agitação, taquicardia, taquipneia, má perfusão periférica e estertores (edema agudo de pulmão em instalação). Nos casos moderados e graves está indicada a soroterapia específica — soro antiescorpiônico (ou antiaracnídico, que também neutraliza o veneno de Tityus) — por via INTRAVENOSA, o mais precocemente possível, associada a suporte intensivo (monitorização cardiorrespiratória, controle da dor e das complicações). Apenas analgesia com observação é a conduta do caso LEVE (dor local isolada, sem sinais sistêmicos), o que não é o caso. O gluconato de cálcio não é terapia específica do escorpionismo — o antídoto é o soro. O soro antibotrópico não neutraliza veneno de escorpião: são agente e soro errados. E a infiltração local com alta hospitalar ignora a gravidade sistêmica e o risco de deterioração cardiovascular/edema pulmonar, especialmente na criança.
Homem, 42 anos, trabalhador rural, é picado por serpente há 6 horas em plantação. Ao exame, refere dor local discreta e edema mínimo no local da picada, sem equimose ou bolhas. Apresenta ptose palpebral bilateral, oftalmoplegia e flacidez da musculatura da face ("fácies miastênica"), além de mialgia generalizada intensa. A urina está de coloração acastanhada ("cor de coca-cola"). PA 130x80 mmHg, FC 88 bpm, SatO2 97%. Exames: CPK 12.500 U/L (VR < 200), tempo de coagulação normal. O agente etiológico mais provável deste acidente é a serpente do gênero:
Correta: a combinação de manifestações neuroparalíticas (fácies miastênica: ptose, oftalmoplegia) COM mialgia intensa, mioglobinúria (urina cor de coca-cola) e CPK muito elevada por rabdomiólise, na presença de reação local mínima, é a assinatura do acidente CROTÁLICO (Crotalus durissus). Botrópico: predominam dor, edema, equimose, bolhas e distúrbio de coagulação locais/sistêmicos — não neurotoxicidade nem rabdomiólise; aqui a reação local é mínima e a coagulação normal. Laquético: quadro local botrópico-símile intenso + síndrome vagal (bradicardia, diarreia, hipotensão) — ausente. Elapídico/coral: também causa fácies miastênica/paralisia neuromuscular, mas NÃO cursa com mialgia, rabdomiólise ou mioglobinúria — a presença destes últimos distingue do crotálico. Philodryas: serpente não peçonhenta, causa apenas quadro local leve, sem neurotoxicidade ou rabdomiólise.
Homem, 30 anos, picado por jararaca no pé há 8 horas, chega ao pronto-socorro com edema tenso e extenso acometendo todo o membro inferior até a raiz da coxa, bolhas hemorrágicas e área de necrose incipiente no dorso do pé. Apresenta sangramento gengival ativo, equimoses à distância, PA 85x50 mmHg, FC 122 bpm, oligúria (diurese < 0,5 mL/kg/h). Exames: tempo de coagulação incoagulável, creatinina 2,8 mg/dL (VR 0,7–1,3), plaquetas 60.000/mm³. Além das medidas de suporte, a soroterapia específica indicada é:
Correta: Trata-se de acidente botrópico GRAVE: edema extenso de todo o membro, bolhas/necrose, sangramento sistêmico ativo, hipotensão/choque e insuficiência renal aguda (oligúria + creatinina elevada) com sangue incoagulável. Pela classificação do Ministério da Saúde, o acidente botrópico grave é tratado com 12 ampolas de soro antibotrópico (SAB), sempre por via INTRAVENOSA. 2 ampolas e C (8 ampolas) correspondem, respectivamente, a acidente leve (2–4 ampolas) e moderado (4–8 ampolas), subdosando um caso grave. Além de subdosar, a via intramuscular está incorreta — a soroterapia antiveneno é sempre IV. A dose está certa, mas o soro é ANTICROTÁLICO, indicado para acidente por cascavel (neurotoxicidade/rabdomiólise), inadequado para envenenamento botrópico.
Menino de 3 anos é levado ao pronto-socorro 2 horas após picada de escorpião amarelo (Tityus serrulatus) no quintal de casa. Inicialmente apresentava apenas dor intensa no local, mas evoluiu com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, agitação e tremores. Ao exame: FC 160 bpm, FR 48 ipm, PA 90x60 mmHg, taquipneia com estertores crepitantes bilaterais e má perfusão periférica. Radiografia de tórax com congestão/edema pulmonar. A conduta mais adequada é:
Correta: Criança pequena com escorpionismo por Tityus serrulatus e manifestações sistêmicas exuberantes (vômitos incoercíveis, sudorese, sialorreia, agitação, taquicardia) evoluindo para edema agudo de pulmão e sinais de choque configura escorpionismo GRAVE. A conduta preconizada pelo Ministério da Saúde é soroterapia específica IMEDIATA — soro antiescorpiônico (ou antiaracnídico) por via intravenosa — associada a suporte intensivo, pois a criança tem alto risco de complicações cardiopulmonares e óbito. Observação isolada é aceitável apenas em casos leves (dor local sem sinais sistêmicos), inadequada diante de quadro grave. Soro antibotrópico é para acidente por jararaca — o escorpionismo não cursa com coagulopatia. Anti-histamínico/corticoide não tratam o envenenamento e não substituem o soro específico. A atropina não está indicada de rotina e pode agravar — os sintomas decorrem de descarga adrenérgica e colinérgica mista; o tratamento é o antiveneno e o suporte.
Homem, 42 anos, trabalhador rural, é picado na panturrilha direita há 4 horas em zona rural de Minas Gerais, ao caminhar entre a vegetação. Ao exame, apresenta dor local discreta e edema mínimo no ponto da picada, sem bolhas ou necrose. Chama atenção ptose palpebral bilateral, dificuldade de sustentar o olhar para cima e turvação visual, configurando "fácies miastênica". Refere mialgia difusa intensa. A urina, colhida na emergência, apresenta coloração acastanhada ("cor de coca-cola"). PA 128/80 mmHg, FC 82 bpm, FR 16 ipm, SatO2 98%, T 36,6 °C. Exames: CK 12.400 U/L (VR 26–192), TGO 480 U/L (VR até 40), creatinina 1,4 mg/dL (VR 0,7–1,3), tempo de coagulação levemente prolongado. Qual é o tipo de acidente ofídico mais provável?
Correta: a associação de manifestação local pobre (dor/edema mínimos) com síndrome neuroparalítica (fácies miastênica, ptose, oftalmoplegia) MAIS síndrome miotóxica (mialgia, CK e TGO muito elevadas e mioglobinúria — urina acastanhada, com risco de IRA por necrose tubular) é o quadro clássico do acidente crotálico. A crotoxina tem ação neurotóxica e miotóxica sistêmica, com escassa lesão local. Botrópico: predomina lesão local exuberante (dor, edema progressivo, equimose, bolhas, necrose) e distúrbio de coagulação por ação proteolítica/coagulante — não causa fácies miastênica nem mioglobinúria. Laquético: quadro semelhante ao botrópico (local intenso + coagulopatia) acrescido de síndrome vagal (bradicardia, hipotensão, diarreia, cólicas), ausente aqui; sem miotoxicidade. Elapídico (coral): produz síndrome neuroparalítica pura (ptose, fácies miastênica) sem lesão local e SEM rabdomiólise/mioglobinúria — a CK muito elevada e a urina escura excluem. Escorpiônico: dor local intensa imediata e manifestações autonômicas/cardiovasculares, sem fácies miastênica nem mioglobinúria maciça.
Homem de 42 anos, trabalhador rural, é atendido em UPA duas horas após picada de serpente em região de canavial. Relata que o animal apresentava um chocalho na extremidade da cauda. Ao exame, observa-se ptose palpebral bilateral, turvação visual e fácies miastênica; a lesão local mostra apenas dor discreta, sem edema ou equimose significativos. Refere mialgia generalizada e nota urina de coloração acastanhada ("cor de coca-cola"). PA 130/80 mmHg, FC 88 bpm; tempo de coagulação prolongado. Considerando o quadro clínico e o agente provável, qual é, respectivamente, o diagnóstico e a principal complicação sistêmica a ser prevenida?
A serpente com chocalho na cauda (cascavel, Crotalus) associada à fácies miastênica (ptose, oftalmoplegia), mialgia intensa e mioglobinúria (urina acastanhada) caracteriza o acidente crotálico, cuja marca é a ação neurotóxica e miotóxica com quadro local discreto. A rabdomiólise leva à mioglobinúria e é a principal causa de insuficiência renal aguda, a complicação mais temida e determinante da mortalidade — daí a importância da soroterapia anticrotálica e da hidratação vigorosa. O acidente botrópico cursa com dor, edema e equimose intensos, ausentes aqui. O elapídico (coral) causa paralisia, mas sem miotoxicidade/urina escura, e a coral não possui chocalho. O laquético cursa com quadro local exuberante e síndrome vagal, incompatível com a pobreza local descrita.
Menino de 4 anos é levado à emergência 40 minutos após ser picado por um escorpião amarelo no quintal de casa, em município do interior de Minas Gerais. Inicialmente apresentava apenas dor intensa no local, mas evoluiu rapidamente com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, agitação psicomotora e taquicardia (FC 150 bpm). PA 100/60 mmHg, FR 32 irpm, com estertores crepitantes em bases pulmonares à ausculta. A criança encontra-se em unidade com soro disponível. Diante desse quadro, qual é a classificação de gravidade e a conduta específica indicada?
Trata-se de escorpionismo por Tityus serrulatus (escorpião amarelo). A presença de manifestações sistêmicas — vômitos, sudorese, sialorreia, agitação, taquicardia e sinais de congestão/edema pulmonar — classifica o caso como moderado a grave, especialmente em criança pequena (grupo de maior risco). A conduta é a soroterapia antiescorpiônica (ou antiaracnídica) endovenosa imediata associada a suporte (controle da dor, monitorização, manejo do edema pulmonar). Erradas: quadro leve é só dor local, tratado sintomaticamente sem soro. Incorreta pois o quadro é uma síndrome de hiperestimulação colinérgica/adrenérgica pela peçonha, não anafilaxia.
Homem de 30 anos chega à unidade básica de saúde após ser picado por uma serpente no pé enquanto trabalhava na roça. Cerca de uma hora depois, apresenta dor intensa, edema progressivo e endurecido, equimose e formação de bolhas no local da picada, além de sangramento persistente pelos orifícios de inoculação e gengivorragia. O tempo de coagulação encontra-se incoagulável. Não há alterações neurológicas nem mialgia. Sabe-se que esse é o tipo de acidente ofídico mais frequente no Brasil. Qual é o diagnóstico mais provável?
O acidente botrópico (gênero Bothrops, jararaca) é o mais frequente no Brasil (cerca de 90% dos acidentes ofídicos) e caracteriza-se pela ação proteolítica, hemorrágica e coagulante: dor, edema, equimose, bolhas e necrose no local, associados a sangramentos sistêmicos e incoagulabilidade sanguínea — exatamente o descrito. O crotálico cursa com quadro local pobre, fácies miastênica e mialgia/mioglobinúria. O elapídico (coral) produz manifestações neuroparalíticas com pouca ou nenhuma alteração local. Escorpionismo não é acidente ofídico e não provoca coagulopatia local.
Homem de 38 anos, trabalhador rural, é atendido na UPA cerca de 4 horas após ser picado no dorso do pé direito enquanto capinava. Familiares trazem o animal morto: serpente de aproximadamente 80 cm, com cabeça triangular, fosseta loreal e desenhos em forma de "V" invertido no dorso. Ao exame: consciente, orientado, corado, PA 120x80 mmHg, FC 88 bpm, diurese presente e de aspecto claro. O pé e a perna direita apresentam edema e equimose que se estendem até o joelho, com sangramento persistente nos pontos de inoculação e gengivorragia; não há bolhas, necrose, hipotensão ou oligúria. O tempo de coagulação encontra-se incoagulável. Qual é, respectivamente, a classificação do acidente e a soroterapia indicada?
A identificação do animal (cabeça triangular, fosseta loreal, padrão em "V" invertido) e o quadro local hemorrágico/edematoso com distúrbio da coagulação caracterizam acidente BOTRÓPICO. Pelo Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos (MS), a classificação é clínica: edema/equimose que ultrapassa o segmento da picada e sangramento sistêmico discreto (gengivorragia), sem sinais de gravidade (edema de todo o membro com bolhas/necrose, hipotensão, choque, oligúria/anúria), definem quadro MODERADO — o tempo de coagulação alterado NÃO classifica a gravidade isoladamente. A dose para o moderado é de 8 ampolas de soro antibotrópico (SAB), por via INTRAVENOSA. "Leve; 4 ampolas": errado, pois há sangramento sistêmico e edema que ultrapassa o segmento. "Grave; 12 ampolas": errado, pois faltam os critérios de gravidade (edema extenso com bolhas/necrose, hemorragia grave, choque, insuficiência renal). "Via intramuscular/infiltração local": errado — o soro é sempre EV, e a infiltração local do soro é formalmente contraindicada.
Homem de 45 anos é atendido no pronto-socorro de um município do interior cerca de 3 horas após ser picado na mão esquerda por uma serpente que, segundo o próprio paciente, apresentava um chocalho na extremidade da cauda. Queixa-se de mal-estar, dor muscular generalizada e visão turva. Ao exame: lúcido, PA 130x80 mmHg, FC 84 bpm; apresenta ptose palpebral bilateral, flacidez da musculatura da face e dificuldade para manter o olhar (fácies miastênica). No local da picada há apenas discreto edema e parestesia, sem equimose, bolhas ou sangramento. Refere que a urina eliminada há pouco estava escurecida, "cor de coca-cola". Qual é, respectivamente, o diagnóstico e o soro específico indicado?
A serpente com chocalho na cauda (cascavel, Crotalus durissus) e a tríade clássica do envenenamento CROTÁLICO — manifestações locais mínimas (dor/edema discretos, sem necrose ou sangramento), síndrome neurotóxica com fácies miastênica (ptose, oftalmoplegia, visão turva) e síndrome miotóxica com mialgia generalizada e mioglobinúria (urina escura) — fecham o diagnóstico; o tratamento específico é o soro anticrotálico (SAC), por via intravenosa, associado a hidratação vigorosa para prevenção da insuficiência renal aguda (MS/Funasa). "Botrópico": errado, pois cursa com dor, edema importante, equimose, sangramentos e alteração da coagulação, sem fácies miastênica. "Elapídico" (coral verdadeira): também dá quadro neurotóxico, mas o animal é anelado, sem chocalho, e não causa rabdomiólise/urina escura. "Laquético" (surucucu): quadro local semelhante ao botrópico, acrescido de manifestações vagais (bradicardia, hipotensão, diarreia), sem fácies miastênica.
Menina de 4 anos é levada à UPA pela mãe cerca de 60 minutos após ter sido picada no pé ao calçar um sapato deixado no quintal; a mãe encontrou dentro do calçado um escorpião amarelo, que trouxe ao serviço. Inicialmente a criança apresentava apenas dor intensa no local. Na chegada, encontra-se agitada e chorosa, com sudorese profusa, sialorreia e vômitos repetidos (quatro episódios). FC 160 bpm, FR 40 irpm, PA 100x60 mmHg, ausculta pulmonar sem ruídos adventícios, extremidades frias e tempo de enchimento capilar de 3 segundos. O local da picada apresenta discreto eritema e dor à palpação. Qual é a conduta indicada?
Escorpionismo por Tityus serrulatus (escorpião amarelo) — principal causa de óbito por animais peçonhentos em crianças no Brasil. O raciocínio tem dois passos: (1) a presença de manifestações SISTÊMICAS (vômitos repetidos, sialorreia, sudorese profusa, taquicardia, taquipneia, má perfusão) classifica o caso como no mínimo MODERADO/GRAVE, e não leve; (2) todo acidente moderado ou grave, sobretudo em menores de 7 anos, exige soro antiescorpiônico (SAEEsc) ou antiaracnídico por via INTRAVENOSA o mais precocemente possível, além de internação com monitorização em UTI pelo risco de choque e edema agudo de pulmão (Manual do MS). "Analgesia isolada e observação": conduta do acidente LEVE (só dor local) — inadequada aqui. "Corticoide e anti-histamínico": não neutralizam o veneno nem alteram a evolução; alta seria potencialmente fatal. "Reservar o soro para hipotensão/EAP": errado — a soroterapia é precoce; esperar essas complicações é exatamente o que aumenta a letalidade.
Menino de 6 anos é trazido à unidade de pronto atendimento 40 minutos após ser picado por escorpião amarelo no quintal de casa, no interior de Minas Gerais. Chora muito e refere dor em queimação de forte intensidade no dedo indicador direito. Nos últimos 20 minutos apresentou três episódios de vômitos, sudorese profusa e agitação psicomotora. Ao exame: eupneico, corado, hidratado; pressão arterial 100x60 mmHg, frequência cardíaca 140 bpm, frequência respiratória 26 irpm, temperatura axilar 36,8 °C, saturação de O2 98%; ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações; ponto de inoculação hiperemiado e muito doloroso, sem edema. Glicemia capilar 130 mg/dL. Qual é a classificação do acidente e a conduta, respectivamente?
Escorpionismo por Tityus serrulatus (escorpião amarelo) em criança. Segundo o Ministério da Saúde, a classificação é clínica: LEVE = apenas dor e parestesia locais; MODERADO = dor local associada a manifestações sistêmicas discretas (vômitos ocasionais, sudorese, agitação, taquicardia, taquipneia, hipertensão); GRAVE = vômitos profusos e incoercíveis, sudorese abundante, prostração/convulsão, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão ou choque. O caso tem dor intensa + vômitos repetidos + sudorese + agitação + taquicardia, sem sinais de falência cardiorrespiratória: é MODERADO, e a conduta é soro antiescorpiônico (ou antiaracnídico) 2 a 3 ampolas IV, analgesia local e observação hospitalar com monitorização — crianças menores de 7 anos são o grupo de maior risco de evolução para forma grave. Classificar como leve ignora as manifestações sistêmicas já instaladas e dispensa indevidamente o antiveneno. A opção de grave superestima o quadro e indica dobutamina sem disfunção miocárdica documentada. Adiar o soro até edema agudo de pulmão ou choque contraria a diretriz: o antiveneno deve ser administrado o mais precocemente possível para neutralizar a toxina circulante.
Mulher de 28 anos procura a unidade básica de saúde no Paraná com lesão dolorosa na face interna da coxa esquerda, percebida há 3 dias, logo após vestir uma calça guardada no armário. Relata mal-estar, febre de 38,2 °C e urina escura desde ontem. Ao exame: placa de 6 cm com áreas de palidez entremeadas de equimose e halo eritematoso, aspecto marmóreo, centro com necrose incipiente e pouco calor local; icterícia de escleras. Exames: hemoglobina 8,4 g/dL (13,2 g/dL há dois meses), bilirrubina indireta 3,8 mg/dL, LDH elevado, reticulócitos aumentados, urina tipo I com hemoglobinúria sem hemácias, creatinina 1,4 mg/dL. Qual é o diagnóstico e a conduta, respectivamente?
A placa marmórea (palidez + equimose + eritema) com necrose central, dor desproporcional, evolução arrastada e história de contato com roupa guardada é o quadro clássico do acidente por Loxosceles (aranha-marrom), endêmico no Sul do país, sobretudo no Paraná. A anemia de instalação rápida com hiperbilirrubinemia indireta, LDH e reticulócitos elevados, icterícia e hemoglobinúria (urina escura SEM hemácias no sedimento) caracteriza HEMÓLISE INTRAVASCULAR — ou seja, a forma CUTÂNEO-VISCERAL, classificada como grave pelo Ministério da Saúde. A conduta é soro antiaracnídico (ou antiloxoscélico) 10 ampolas IV, corticoterapia, hidratação e vigilância da função renal (risco de lesão renal aguda por hemoglobinúria — a creatinina já está em 1,4 mg/dL). Tratar como loxoscelismo cutâneo puro é o erro central da questão: ignora a hemólise e subdosa/omite a soroterapia. Erisipela cursa com placa quente, bem delimitada e muito eritematosa, sem aspecto marmóreo e sem hemólise. Fasciíte necrosante evolui em horas, com toxemia, crepitação e dor extrema fora dos limites da lesão, exigindo cirurgia — mas não explica anemia hemolítica com hemoglobinúria após picada domiciliar.
Um homem de 34 anos, trabalhador rural, chega à UPA cerca de 3 horas após ser picado por serpente no terço distal da perna direita enquanto capinava um roçado. Não trouxe o animal, mas descreve cobra de coloração marrom com desenhos em forma de "V" invertido. Refere dor intensa e progressiva no local. Ao exame: consciente, corado, PA 120 x 78 mmHg, FC 88 bpm, temperatura axilar 36,7 °C. Há dois pontos de inoculação, edema e equimose acometendo pé e perna direitos, sem bolhas ou necrose, com pulso pedioso presente e enchimento capilar normal. Apresenta sangramento gengival discreto e nos pontos de punção venosa. O tempo de coagulação está superior a 30 minutos (sangue incoagulável). Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a classificação do acidente e a conduta adequada.
Correta: o quadro é típico de acidente botrópico (Bothrops jararaca — descrição do desenho em "V" invertido): dor, edema e equimose locais (ação proteolítica) com distúrbio de coagulação (ação coagulante). Pelo Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos do Ministério da Saúde, a classificação de gravidade no botrópico é dada pela extensão do quadro LOCAL e por manifestações sistêmicas (sangramento a distância, choque, oligúria): edema acometendo 2 segmentos do membro (pé e perna), com sangramento apenas local/gengival discreto e sem choque ou insuficiência renal, caracteriza acidente MODERADO — tratamento com 4 a 8 ampolas de soro antibotrópico (SAB) por via intravenosa. O tempo de coagulação alterado, isoladamente, NÃO define gravidade, mas indica atividade do veneno e necessidade de soro. Errada: leve exige edema restrito a um segmento, ausência de sangramento e, sobretudo, adiar a soroterapia diante de sangue incoagulável é conduta inadequada — o antiveneno é o único tratamento capaz de neutralizar a toxina. Errada: grave exige edema extenso/em todo o membro, bolhas, sangramento volumoso, choque ou anúria; além disso, a coagulopatia é de consumo por ação da toxina e se corrige com o soro específico, não com hemoderivados (plasma/crioprecipitado são ineficazes enquanto o veneno circula). Errada: o acidente crotálico cursa com quadro local discreto (sem edema/equimose importantes), fácies miastênica, mialgia e urina escura por rabdomiólise; ademais, a via intramuscular não é usada para soroterapia antiveneno, que deve ser sempre intravenosa.
Um menino de 4 anos, previamente hígido, é levado ao pronto-socorro de um município do interior de Minas Gerais 50 minutos após ser picado no dedo da mão direita por um escorpião amarelo, trazido pela mãe em um vidro. Inicialmente apresentava apenas dor local intensa em queimação. À admissão: agitado, sudorese profusa, sialorreia, dois episódios de vômitos, PA 100 x 60 mmHg, FC 168 bpm, FR 48 irpm, saturação de O2 91% em ar ambiente, temperatura axilar 36,4 °C, extremidades frias, tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Ausculta pulmonar com estertores crepitantes bilaterais e ritmo cardíaco em galope. No local da picada há apenas discreto eritema, sem edema. Qual é, respectivamente, a classificação do acidente e a conduta imediata?
Correta: trata-se de escorpionismo por Tityus serrulatus (escorpião amarelo, prevalente em Minas Gerais). Segundo o Ministério da Saúde, a gravidade é definida pelas manifestações SISTÊMICAS, e crianças menores de 7 anos são o grupo de maior risco de evolução grave. A presença de vômitos repetidos, sudorese, sialorreia, taquicardia, taquipneia com edema agudo de pulmão (crepitações, hipoxemia, ritmo de galope) e sinais de choque caracteriza acidente GRAVE, cujo tratamento é soro antiescorpiônico (SAEEs) ou antiaracnídico (SAAr), 4 a 6 ampolas, por via intravenosa, o mais precocemente possível, com suporte ventilatório/hemodinâmico e internação em UTI. Errada: o caso já ultrapassou a forma leve (dor local isolada), na qual a conduta seria apenas analgesia/infiltração com lidocaína e observação — em criança picada por escorpião amarelo, a observação sem soro diante de sinais sistêmicos é conduta potencialmente fatal. Errada: o acidente moderado corresponde a dor local associada a manifestações sistêmicas discretas (poucos vômitos, sudorese, agitação leve), sem choque ou edema pulmonar; além disso, a soroterapia antiveneno é sempre intravenosa, nunca intramuscular, e o paciente jamais deve permanecer em unidade sem retaguarda. Errada: o quadro decorre da descarga adrenérgica e colinérgica maciça induzida pelas toxinas escorpiônicas sobre canais de sódio, e não de anafilaxia (ausência de urticária, angioedema e broncoespasmo); a soroterapia é indicada justamente pelas manifestações sistêmicas, sendo o quadro local caracteristicamente discreto no escorpionismo.
Homem de 41 anos, ribeirinho no interior do Amazonas, é levado ao hospital de referência 3 horas após picada de serpente no pé, ocorrida à noite na mata. Apresenta dor intensa, edema progressivo até a coxa, equimose e sangramento persistente no ponto da picada. Evolui com náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarreia, sudorese profusa, bradicardia (FC 48 bpm) e hipotensão (PA 85x50 mmHg). Qual é a conduta específica mais adequada?
O caso reúne a síndrome hemorrágica/inflamatória local do gênero Bothrops COM manifestações vagais proeminentes (bradicardia, hipotensão, vômitos, diarreia, sudorese) e ocorreu em área de mata amazônica — quadro característico do acidente LAQUÉTICO (Lachesis muta, surucucu). O tratamento é o soro antilaquético ou, quando indisponível, o antibotrópico-laquético (SABL), que cobre ambos os venenos. O antibotrópico isolado não neutraliza o veneno laquético e deixaria o componente vagal sem cobertura — a síndrome vagal é justamente o diferencial em relação ao botrópico puro. O anticrotálico é inadequado: o acidente crotálico não cursa com edema/sangramento local, e sim com fácies miastênica e mialgia. O antiaracnídico destina-se a acidentes por escorpiões e aranhas (Phoneutria/Loxosceles), sem relação com o quadro. Suporte com hidratação e atropina, se necessário, complementa a soroterapia.
Mulher de 28 anos procura a Unidade Básica de Saúde 40 minutos após ser picada por um escorpião amarelo na mão, dentro de casa. Queixa-se de dor local de forte intensidade e parestesia no dedo acometido. Ao exame: consciente, orientada, eupneica, sem vômitos, sem sudorese, sem agitação; PA 120x80 mmHg, FC 78 bpm, FR 16 irpm, Tax 36,4 °C. Local com discreto eritema, sem edema importante. Qual é a conduta indicada?
Trata-se de escorpionismo LEVE (Tityus serrulatus), forma que corresponde à ampla maioria dos casos e se manifesta apenas com dor e parestesia locais, sem manifestações sistêmicas. A conduta preconizada pelo Ministério da Saúde é sintomática: analgesia com dipirona e/ou infiltração local de anestésico (lidocaína 2% sem vasoconstritor), compressas mornas e observação por 6 a 12 horas, sem soroterapia. "2 a 3 ampolas" é a dose da forma MODERADA (dor local + manifestações sistêmicas como vômitos, sudorese, agitação, taquicardia), ausentes aqui. "4 a 6 ampolas com UTI" corresponde à forma GRAVE (vômitos incoercíveis, choque, edema agudo de pulmão, convulsões), o que também não se aplica. Corticoide e anti-histamínico não têm papel no tratamento do escorpionismo e liberar sem observação é inadequado, pois o agravamento — sobretudo em crianças — pode ocorrer nas primeiras horas.
Homem de 34 anos, lavrador, é atendido em hospital regional 3 horas após picada de serpente em dorso do pé direito. Ao exame: edema e equimose limitados ao pé e ao terço distal da perna, dor moderada, sem bolhas ou necrose. Tempo de coagulação (TC) incoagulável; plaquetas 148.000/mm³; creatinina 0,9 mg/dL; diurese preservada. O acidente é classificado como botrópico moderado e o paciente recebe 4 ampolas de soro antibotrópico por via intravenosa. Doze horas após a soroterapia, o edema regrediu discretamente, não há sangramento ativo, mas o TC permanece incoagulável. Assinale a conduta adequada neste momento.
O Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos (MS) orienta reavaliar o tempo de coagulação 12 horas após a soroterapia; se permanecer alterado, indica-se dose adicional de 2 ampolas do soro específico — o TC é o parâmetro de controle da neutralização do veneno circulante, independentemente da melhora local. Hemoderivados não estão indicados de rotina: sem antiveneno o fibrinogênio reposto é novamente consumido, e a coagulopatia se corrige com soro. Aguardar é inadequado — TC incoagulável significa veneno circulante ativo e risco de sangramento tardio. A dose adicional preconizada é de 2 ampolas, e a reclassificação de gravidade se faz pelo quadro clínico inicial, não pela persistência do TC alterado.
Homem de 41 anos chega à UPA 5 horas após ser picado em mão direita por serpente que, segundo relato, produzia ruído com a cauda. Refere mal-estar, sonolência e mialgia generalizada de intensidade leve. Ao exame: ptose palpebral bilateral discreta e flacidez da musculatura da face; local da picada com dor discreta e sem edema significativo. Urina de coloração amarelo-acastanhada (cor de chá). Diurese presente, creatinina 1,0 mg/dL, CPK 4.800 U/L, tempo de coagulação normal. Assinale a conduta indicada.
O quadro é típico de acidente crotálico (fácies miastênica, mialgia, mioglobinúria, dor local discreta sem edema importante e TC normal). Pela classificação do MS, fácies miastênica discreta/evidente + mialgia discreta + urina cor de chá caracteriza acidente MODERADO, cujo tratamento é soro anticrotálico 10 ampolas IV, associado à hidratação para prevenir necrose tubular aguda pela mioglobinúria. Soro antibotrópico-crotálico só se usa quando a serpente não é identificada e o quadro é ambíguo; aqui há síndrome crotálica definida — e não há indicação de desbridamento (a lesão local é mínima). 20 ampolas é a dose do acidente grave (fácies evidente, mialgia intensa, urina vermelha/escura, oligúria), o que não se aplica. Postergar a soroterapia é erro: só o antiveneno neutraliza a crotoxina, e a lesão renal já está em curso (CPK elevada).
Homem de 29 anos procura a UBS 40 minutos após ser picado por escorpião amarelo ao calçar um sapato. Queixa-se de dor intensa em queimação no primeiro pododáctilo direito, com irradiação para o pé. Ao exame: consciente, orientado, corado, hidratado; PA 128x78 mmHg; FC 84 bpm; FR 16 irpm; temperatura axilar 36,4 °C; sem vômitos, sudorese profusa, sialorreia, agitação ou alterações cardiorrespiratórias. Local da picada com discreto eritema e hiperestesia, sem edema importante. Assinale a conduta adequada.
Trata-se de escorpionismo LEVE: apenas manifestações locais (dor e parestesia), sem sinais sistêmicos. Nessa forma, o tratamento é exclusivamente sintomático — analgesia sistêmica e/ou infiltração de anestésico local (lidocaína 2% sem vasoconstritor), com observação por 6 a 12 horas — sem soroterapia. O antiveneno só está indicado nas formas moderada (2 a 3 ampolas) e grave (4 a 6), definidas por manifestações sistêmicas como vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação, taquicardia ou bradicardia, hipertensão, edema agudo de pulmão ou choque — ausentes aqui. Além de não haver indicação de soro, antiveneno nunca é aplicado por via intramuscular nem no local da picada; a via é intravenosa. Incisão, sucção, torniquete e gelo são condutas proscritas em acidentes por animais peçonhentos, pois aumentam o risco de infecção e de lesão tecidual.
Mulher de 34 anos relata que, ao vestir uma blusa guardada por semanas no armário, sentiu uma ferroada discreta no abdome, com dor de pequena intensidade que atribuiu a um alfinete. Cerca de 48 horas depois, procura a unidade básica de saúde por lesão dolorosa em queimação no local. Ao exame: placa endurecida de cerca de 4 cm, com áreas entremeadas de palidez, eritema e halos violáceos hemorrágicos, sem secreção purulenta; temperatura axilar de 37,8 °C. Sem alteração da coloração da urina. Assinale o agente causador mais provável.
Picada pouco dolorosa, frequentemente ao vestir roupas guardadas, com dor tardia e lesão de aspecto marmóreo (placa com áreas de palidez, eritema e hemorragia) horas a dias depois, é o quadro clássico do loxoscelismo cutâneo, causado pela aranha-marrom (Loxosceles). Phoneutria (armadeira) provoca dor local imediata e intensa, com irradiação e sudorese, sem lesão necrótica. Latrodectus (viúva-negra) causa dor local seguida de contraturas musculares, dor abdominal em tábua e sudorese, sem placa marmórea. O escorpionismo por Tityus cursa com dor local excruciante imediata, podendo evoluir com vômitos e manifestações sistêmicas precoces, e não com lesão cutânea de instalação tardia.
Menina de 4 anos, 16 kg, é levada ao pronto-socorro 90 minutos após ser picada no pé por escorpião amarelo capturado pela família. Iniciou vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e tremores. Ao exame: FC 168 bpm, FR 44 irpm, PA 130x85 mmHg, SpO2 88% em ar ambiente, extremidades frias, sialorreia e crepitações difusas à ausculta pulmonar. Radiografia de tórax com infiltrado alveolar bilateral. Além do suporte ventilatório e da internação em UTI, assinale a conduta específica adequada.
Vômitos incoercíveis, sudorese, agitação, taquicardia, hipertensão e, sobretudo, edema agudo de pulmão com hipoxemia caracterizam escorpionismo GRAVE — forma mais frequente em crianças menores de 7 anos picadas por Tityus serrulatus. O Ministério da Saúde preconiza 4 a 6 ampolas de soro antiescorpiônico (ou antiaracnídico) por via intravenosa, o mais precocemente possível, além de UTI. A dose de 2 a 3 ampolas corresponde à forma moderada (manifestações sistêmicas sem repercussão cardiorrespiratória), insuficiente aqui. A soroterapia antiveneno é dosada pela GRAVIDADE, não pelo peso — criança recebe a mesma dose do adulto, o que invalida o esquema por quilo. Conduta apenas sintomática está indicada na forma leve (dor local isolada), e retardá-la aqui seria fatal.
Homem de 41 anos, trabalhador rural do interior de Goiás, é levado ao pronto-socorro três horas após ser picado no pé ao entardecer, enquanto caminhava em área de pasto. Refere mal-estar, sudorese e dor discreta no local. Ao exame: ptose palpebral bilateral com discreta limitação da movimentação ocular extrínseca, mialgia generalizada de leve intensidade; no local da picada há apenas dois pontos de inoculação, sem edema, sem equimose e sem bolhas. Urina de coloração acastanhada, diurese preservada. Exames: CPK 4.800 U/L (VR: até 190 U/L), ureia 38 mg/dL, creatinina 1,0 mg/dL, tempo de coagulação normal. Assinale a conduta específica adequada.
A tríade de fácies miastênica (ptose e oftalmoplegia), mialgia com CPK muito elevada e mioglobinúria (urina acastanhada), somada à ausência de reação inflamatória local e à coagulação normal, caracteriza acidente crotálico (cascavel). Pela classificação do Ministério da Saúde, mialgia discreta, mioglobinúria presente e função renal preservada configuram caso MODERADO, tratado com 10 ampolas de soro anticrotálico por via intravenosa, sempre acompanhado de hidratação vigorosa e alcalinização urinária para prevenir a necrose tubular aguda pela mioglobina. O acidente botrópico cursa com edema, equimose e bolhas locais e com tempo de coagulação alterado, o que não ocorre aqui. O acidente elapídico (coral) também dá fácies miastênica, mas não causa rabdomiólise nem CPK elevada, e a coral verdadeira não habita pasto aberto ao entardecer com esse padrão. O acidente laquético soma manifestações locais intensas do botrópico a uma síndrome vagal (bradicardia, diarreia, hipotensão), ausentes no caso.
Mulher de 34 anos é picada por jararaca na mão ao mexer em entulho. Duas horas depois apresenta dor intensa, edema evidente até o antebraço, equimose local e gengivorragia discreta, sem hipotensão e com bom estado geral. Tempo de coagulação: 26 minutos. A classificação e o tratamento corretos são:
Edema e equimose evidentes com sangramento sem comprometimento do estado geral definem o botrópico moderado: 4 a 8 ampolas IV. A forma leve exige quadro local discreto — não é o caso de edema até o antebraço. A grave pediria hemorragia grave, choque ou anúria. Crotálico tem local pobre e síndrome neuro-miotóxica, ausentes. E aguardar sem soro inverte a lógica: o TC prolongado confirma envenenamento e é o soro que o corrige — a observação de 6 horas vale para quem chega sem manifestações, não para quadro florido.
Menino de 5 anos, picado por escorpião-amarelo no pé há 1 hora, chega com dor local intensa, vômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa e prostração. FC 168 bpm, extremidades frias, ausculta pulmonar com estertores em bases. A conduta correta é:
Vômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa e prostração — com sinais de baixo débito e congestão pulmonar — definem escorpionismo grave: SAEsc 4 a 6 ampolas IV, em unidade capaz de dar suporte cardiorrespiratório, pois o óbito decorre de insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão e choque. Observação com analgesia é conduta do acidente leve. As 2 a 3 ampolas valem para o moderado — e regime ambulatorial contraria a hospitalização de todo paciente que recebe soro. Em, a via é IV, a dose nunca se ajusta por peso e o SAAr é substituto, não escolha com dose de moderado num caso grave. SALox + prednisona é esquema do loxoscelismo.
Durante trilha em área rural, um homem de 28 anos é picado na perna por serpente não identificada. Um colega com treinamento em primeiros socorros assume o atendimento inicial. Segundo o Ministério da Saúde, a conduta pré-hospitalar correta é:
A norma do MS é enxuta: lavar com água (de preferência morna) e sabão e encaminhar imediatamente ao ponto de referência — o tratamento é o soro, e nada pré-hospitalar o substitui. Torniquete aumenta necrose e síndrome compartimental e pode custar o membro. Incisão e sucção pioram a hemorragia do veneno botrópico e infectam. Substâncias sobre a picada e curativo oclusivo favorecem infecção. Gelo com observação domiciliar atrasa a soroterapia — e a observação de 6 horas se faz no serviço de saúde, não em casa.
Adolescente de 15 anos sofre picada de escorpião com dor e parestesia locais, sem qualquer manifestação sistêmica. Recebe analgesia, permanece em observação e evolui bem, sem soroterapia. Quanto à vigilância epidemiológica, é correto afirmar:
Acidente por animal peçonhento é agravo de notificação compulsória: registra-se no Sinan pela Ficha de Investigação específica, com ou sem soroterapia — o Guia de Animais Peçonhentos do Brasil (2024) explicita notificação em até 24 horas à Secretaria Municipal de Saúde. Essa informação alimenta o planejamento de produção e distribuição dos antivenenos. Condicionar a notificação à soroterapia, à gravidade ou ao óbito restringe indevidamente o registro — nenhum deles é condição. E a confirmação é clínico-epidemiológica: quadro compatível confirma o caso mesmo sem identificação do animal.
Extrativista de 38 anos, no interior do Pará, é picado na perna por serpente grande durante coleta em mata primária. Chega ao hospital com dor, edema volumoso e equimose no membro, gengivorragia, além de vômitos, cólicas abdominais, diarreia e FC de 46 bpm com PA 88 × 60 mmHg. Tempo de coagulação acima de 30 minutos. A conduta correta é:
Quadro local-hemorrágico indistinguível do botrópico + manifestações vagais (vômitos, cólicas, diarreia, bradicardia, hipotensão) em área de floresta amazônica fecha acidente laquético — e a presença das manifestações vagais com quadro local intenso o classifica como grave: SABL 20 ampolas IV. O SAB isolado não neutraliza o veneno laquético, e o quadro vagal afasta o botrópico puro. Crotálico cursa com local pobre, fácies miastênica e urina escura, ausentes. As 10 ampolas valem para o laquético moderado, sem manifestações vagais — que aqui estão presentes. Elapídico não explica o quadro local intenso nem o sangramento.
Criança de 9 anos manipulava serpente pequena de anéis vermelhos, pretos e brancos encontrada no quintal e sofreu picada no dedo. Duas horas depois apresenta dor e parestesia local discretas, ptose palpebral bilateral e dificuldade para deglutir a saliva. Não foi possível identificar se a coral era verdadeira. A conduta correta é:
Serpente de anéis coloridos + fácies miastênica em instalação é acidente elapídico até prova em contrário — a distinção de campo entre coral verdadeira e falsa não é confiável para decidir conduta. Todo elapídico é potencialmente grave pelo risco de a paralisia alcançar a musculatura respiratória: 10 ampolas de SAEla, sem graduação. Esperar a insuficiência respiratória é esperar a apneia. O SACr trata cascavel — a síndrome é parecida, o antiveneno não é intercambiável. O quadro local discreto é típico do elapídico e não mede gravidade. SAB cobre síndrome local-hemorrágica, ausente aqui.
Homem de 52 anos, lavrador, é trazido a hospital do interior paulista 5 horas após picada de serpente no tornozelo, ocorrida ao empilhar lenha. O animal não foi identificado. Ao exame: edema e eritema discretos no local, sem equimoses ou bolhas; ptose palpebral bilateral, queixa de visão turva, mialgia difusa e urina cor de chá preto. PA 128 × 84 mmHg, diurese presente. Tempo de coagulação: 24 minutos. Qual o diagnóstico e a conduta adequada?
O padrão neuroparalítico associado a mialgia e urina escura favorece acidente crotálico. A descrição não permite chamar essas manifestações de discretas. A classificação deve considerar sua intensidade e a evolução renal; diurese presente isoladamente não demonstra quadro moderado. A tabela do Ministério da Saúde recomenda 10 ampolas no moderado e 20 no grave, com monitorização clínica, coagulação e função renal. Referência: Ministério da Saúde, Acidentes Ofídicos, Tratamento.
Mulher de 28 anos, em Curitiba, acorda com dor na coxa e nota ponto eritematoso que atribui a picada de inseto. Em 48 horas a área evolui para placa endurecida com equimose central entremeada por áreas pálidas, febre baixa e exantema difuso. Não há palidez cutâneo-mucosa, icterícia ou urina escura; hemograma sem anemia. A conduta adequada é:
Placa marmórea (equimose central + áreas de palidez, endurecida) em morador de Curitiba, com manifestações sistêmicas inespecíficas (febre, exantema) e sem hemólise, é loxoscelismo moderado — mesmo sem a aranha identificada: SALox 5 ampolas IV + prednisona 40 mg/dia por 5 dias. Com hemólise seria grave, com 10 ampolas. O SAAr com dose 2 a 4 + meperidina mistura o esquema do foneutrismo. Cuidado local isolado é reservado ao diagnóstico tardio com necrose já delimitada. SAEsc trata escorpião. Prednisona isolada abre mão do antiveneno indicado na forma moderada dentro da janela.
Paciente picado por serpente coral verdadeira apresenta ptose palpebral, diplopia, disfagia e fraqueza progressiva, com pouca ou nenhuma alteração local. Qual a principal preocupação?
O veneno elapídico é neurotóxico e produz bloqueio da junção neuromuscular, com ptose, diplopia, disfagia e paralisia progressiva que pode chegar à musculatura respiratória: o risco dominante é a insuficiência respiratória, e o paciente precisa de soro específico e de ambiente com suporte ventilatório. Esperar necrose ou coagulopatia engana porque essas são as marcas dos acidentes botrópico e crotálico, e a ausência de reação local no elapídico costuma subestimar a gravidade.
Homem de 30 anos é picado no pé por serpente na zona rural. Após 4 horas apresenta edema progressivo do membro, equimose local, sangramento gengival e tempo de coagulação prolongado, sem alteração neurológica. Qual o gênero mais provável e a conduta?
Edema e equimose locais importantes, com sangramento sistêmico e distúrbio de coagulação, caracterizam o acidente botrópico, o mais frequente no Brasil, cujo veneno tem ação proteolítica, coagulante e hemorrágica. O acidente crotálico engana porque também cursa com alteração de coagulação, mas sua marca é neurotóxica e miotóxica, com fácies miastênica, ptose e mialgia com urina escura, e com pouca reação local — a ausência de edema significativo é o dado que o distingue.
Qual conduta está CONTRAINDICADA no atendimento inicial de um acidente ofídico?
Torniquete, incisão, sucção e aplicação de substâncias caseiras não removem o veneno e aumentam a necrose, a infecção e a isquemia, além de atrasarem o transporte para o único tratamento eficaz, que é a soroterapia. As demais alternativas descrevem justamente as medidas corretas: limpeza local, elevação do membro, repouso, hidratação, registro do horário e encaminhamento rápido — a atitude que efetivamente muda o prognóstico é chegar cedo ao soro.
Paciente relata picada por aranha marrom (Loxosceles) há 3 dias, com lesão cutânea dolorosa apresentando área central escurecida, halo pálido e periferia eritematosa, com evolução para necrose. Qual a forma clínica e o cuidado adicional?
A lesão em placa marmórea, com áreas de isquemia, palidez e eritema, e evolução para necrose seca de bordas nítidas, é a forma cutânea do loxoscelismo, que tem curso arrastado e frequentemente é confundida com infecção. O cuidado essencial é vigiar a forma cutâneo-hemolítica, com hemólise intravascular, icterícia e hemoglobinúria, potencialmente fatal por insuficiência renal — assumir risco apenas local engana porque a lesão é o que mais chama atenção.
Qual complicação local deve ser vigiada no acidente botrópico com edema intenso e progressivo do membro?
O veneno botrópico tem ação proteolítica intensa, e o edema progressivo pode elevar a pressão compartimental, exigindo avaliação clínica seriada e eventual fasciotomia, além da vigilância para infecção secundária, abscesso e necrose. A antibioticoterapia entra quando há sinais infecciosos, dada a flora da cavidade oral do animal. Pensar em trombose venosa engana porque o membro está edemaciado e doloroso, mas o mecanismo aqui é a ação direta do veneno sobre os tecidos, com coagulopatia de consumo associada.
Criança de 6 anos é picada por escorpião e evolui, em 2 horas, com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, taquicardia, agitação e edema pulmonar. Qual a conduta?
Manifestações sistêmicas como vômitos incoercíveis, sudorese, taquicardia, agitação e edema pulmonar definem acidente escorpiônico grave, especialmente perigoso em crianças, e exigem soro específico com monitorização intensiva pelo risco de choque e miocardite. Ficar na analgesia engana porque no acidente leve, com dor local isolada, o tratamento é de fato apenas sintomático — a distinção entre leve e grave é feita pelas manifestações sistêmicas e pela idade, e é ela que decide a soroterapia.
Durante a infusão de soro antiveneno, o paciente apresenta urticária generalizada, broncoespasmo e hipotensão. Qual a conduta?
Reações anafiláticas à soroterapia são conhecidas e devem ser tratadas prontamente com adrenalina intramuscular e suporte, com a infusão suspensa temporariamente e retomada com cautela sob supervisão, porque não existe alternativa terapêutica que neutralize o veneno. Suspender definitivamente engana quem aplica a regra geral de nunca reexpor após anafilaxia, mas aqui o envenenamento continua evoluindo e o risco de não tratar supera o da reexposição controlada.
Qual é o principal parâmetro que define o número de ampolas de soro antiveneno a ser administrado no acidente ofídico?
O número de ampolas é definido pela gravidade clínica do envenenamento, porque o objetivo é neutralizar a quantidade de veneno inoculada, que não guarda relação com o peso do paciente: crianças recebem a mesma dose que adultos, e isso é decisivo, pois elas recebem proporcionalmente mais veneno por quilo. Calcular por peso engana porque é a lógica da maioria das prescrições pediátricas, e essa transposição resultaria em subdose justamente nos pacientes mais graves.
Qual exame laboratorial simples auxilia no acompanhamento da resposta à soroterapia nos acidentes botrópico e crotálico?
O tempo de coagulação é um teste simples, barato e disponível em serviços de baixa complexidade, que auxilia na classificação da gravidade e no acompanhamento: sua normalização após a soroterapia sugere neutralização adequada, e a persistência da incoagulabilidade indica necessidade de dose complementar. Escolher exames metabólicos ou hormonais engana quem procura um marcador sofisticado, quando a ferramenta útil é justamente a mais acessível no cenário rural onde esses acidentes ocorrem.
Qual manifestação caracteriza o acidente crotálico (cascavel) e determina sua gravidade?
O veneno crotálico é neurotóxico e miotóxico: produz fácies miastênica com ptose e oftalmoplegia, mialgia generalizada e mioglobinúria, sendo a insuficiência renal aguda por rabdomiólise a principal causa de óbito, o que torna a hidratação vigorosa essencial ao lado do soro. A reação local é discreta, ao contrário do acidente botrópico — esperar edema e necrose engana e atrasa a suspeita justamente no acidente de maior letalidade entre os ofídicos.
Homem de 31 anos é picado por serpente na panturrilha ao atravessar pasto e chega ao hospital de referência 1 hora depois, sem ter identificado o animal. Vê-se uma marca puntiforme única, sem dor relevante, sem edema, sem equimose, sem bolha e sem qualquer sangramento. PA 124 × 78 mmHg, FC 76 bpm, diurese presente. Tempo de coagulação de 7 minutos. Qual a conduta?
Existe a picada sem envenenamento, e o soro heterólogo não se administra por via das dúvidas: a inoculação pequena pode apenas atrasar os sintomas, por isso todo caso sem manifestações evidentes na admissão fica em observação de no mínimo 6 horas antes da alta, com reavaliação clínica e repetição do tempo de coagulação — cujos cortes são até 9 minutos normal, de 10 a 30 prolongado e acima de 30 incoagulável. Aplicar 2 a 4 ampolas agora é a dose do botrópico leve, que exige ao menos quadro local discreto ou distúrbio de coagulação, nenhum dos dois presente, e expõe a reação adversa grave sem indicação. Liberar de imediato confunde um exame colhido cedo com ausência de envenenamento: uma única aferição em 1 hora não fecha nada. As 10 ampolas são a dose do laquético moderado, acidente de floresta primária com manifestações vagais, incompatível com pasto e com paciente sem sintomas. E trocar o tempo de coagulação por coagulograma não resolve o problema, que é de tempo de observação, não de método: o teste de beira de leito é justamente o que se repete.
Menina de 6 anos, 20 kg, é picada por jararaca no pé em área rural e chega ao hospital 4 horas depois. Apresenta edema tenso de todo o membro inferior com bolhas sero-hemorrágicas, equimose extensa até a raiz da coxa, gengivorragia e hematúria macroscópica. PA 78 × 44 mmHg, FC 148 bpm, extremidades frias, tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Tempo de coagulação acima de 30 minutos. Qual a soroterapia?
Alterações locais intensas com bolhas, hemorragia em mucosa, hematúria e hipotensão com sinais de má perfusão definem acidente botrópico grave, que recebe 12 ampolas de soro antibotrópico por via intravenosa. O ponto que a idade tenta subverter é a dose: o antiveneno neutraliza a quantidade de veneno inoculada, que não depende do tamanho de quem foi picado, e os quadros do Ministério da Saúde graduam ampolas exclusivamente pela gravidade — criança grave recebe o mesmo que adulto grave, e reduzir para 4 ampolas por causa dos 20 kg subtrata o envenenamento. A faixa de 4 a 8 ampolas é do acidente moderado, que pede sangramento sem comprometimento do estado geral, o oposto do choque descrito. A via intramuscular não vale para soro antiveneno, que é sempre intravenoso. E as 20 ampolas de soro antibotrópico e antilaquético pertencem ao laquético grave, que exigiria manifestações vagais — vômitos, diarreia, cólicas e bradicardia — em área de floresta primária, ausentes num quadro de taquicardia e choque por sequestro de líquido e sangramento.
Homem de 26 anos foi picado no antebraço há 3 horas ao mexer em pilha de lenha, por aranha preta com mancha vermelha no abdome, trazida num pote e identificada no serviço. Refere dor local em queimação, com pápula eritematosa e sudorese no ponto da picada. Agora apresenta contraturas musculares intermitentes nos membros inferiores, tremores, contratura facial com trismo e rigidez da parede abdominal sem descompressão dolorosa. PA 150 × 95 mmHg, FC 108 bpm. Qual a conduta?
O quadro descrito é latrodectismo: dor, sudorese, espasmos, trismo e rigidez abdominal após picada de viúva-negra. O cuidado inicial inclui analgesia, controle dos espasmos com benzodiazepínico quando necessário, monitorização e suporte, com orientação do CIATox. O gluconato de cálcio aparece em protocolos antigos, mas sua eficácia clínica é questionada e não deve ser apresentado como componente obrigatório. A duração da observação depende da gravidade e da resposta, sendo prudente observação hospitalar no quadro sistêmico descrito. Soros destinados a Phoneutria, Loxosceles ou escorpiões não substituem antiveneno específico. A rigidez muscular pode simular abdome agudo; sinais de verdadeira irritação peritoneal exigiriam reavaliação.
Sobre a notificação dos acidentes por animais peçonhentos no Brasil, qual afirmativa está correta?
Acidentes por animais peçonhentos integram a lista de notificação compulsória, e a informação registrada orienta a produção e a distribuição regional dos soros, além de identificar áreas e ocupações de risco para ações preventivas. Restringir a notificação aos óbitos engana porque parece razoável concentrar esforço nos casos graves, mas justamente a incidência dos casos leves e moderados é o que dimensiona a necessidade de soro em cada município. A notificação é responsabilidade do serviço que atende, não apenas dos centros toxicológicos.
Além do soro específico, qual medida deve ser sistematicamente avaliada em todo acidente ofídico com lesão local?
A ferida da picada é contaminada, e a checagem do estado vacinal antitetânico, com reforço ou imunoglobulina conforme o caso, faz parte do atendimento, ao lado da limpeza e da vigilância de infecção secundária, comum em acidentes botrópicos pela flora da boca da serpente. Antibiótico universal engana porque abscesso e celulite são complicações frequentes, mas a conduta é tratar quando surgirem sinais, não profilaxia para todos. Raiva não se transmite por serpentes, anticoagulação em paciente com coagulopatia por veneno é perigosa, e amputação é medida de exceção.
Qual conduta deve ser evitada no atendimento pré-hospitalar de um acidente ofídico?
Torniquete, incisão, sucção e aplicações caseiras aumentam necrose, sangramento e infecção sem remover veneno, e retardam o único tratamento eficaz, que é o soro específico. As demais condutas são corretas: limpar com água e sabão, elevar o membro, manter repouso e hidratação, identificar o animal quando possível com segurança e anotar o tempo decorrido, que orienta a avaliação de gravidade. A tentação de fazer algo no local engana porque parece cuidado ativo, quando na prática o que salva é transportar rápido para o serviço com soro.
Sobre a indicação e a via de administração do soro antiveneno nos acidentes ofídicos, assinale a afirmativa correta:
O soro é sempre endovenoso, e o número de ampolas depende da gravidade classificada pelo quadro clínico e laboratorial, jamais do peso — crianças recebem a mesma dose que adultos, porque a quantidade de veneno inoculado é a mesma. Calcular por quilo engana quem transporta a lógica das drogas pediátricas e resulta em subdose grave. O teste cutâneo de sensibilidade foi abandonado por baixo valor preditivo; história de alergia não contraindica o soro em acidente com indicação, e sim exige pré-medicação e ambiente preparado para anafilaxia.
Homem de 52 anos relata dor local moderada após picada de aranha em casa, evoluindo em 48 horas com lesão de bordas eritematosas e centro necrótico com aspecto marmóreo em coxa, além de icterícia e urina escura. Qual o gênero envolvido e a complicação apresentada?
A aranha-marrom, do gênero Loxosceles, causa lesão de instalação insidiosa, com placa marmórea e necrose central, e na forma cutâneo-visceral produz hemólise intravascular, com icterícia, anemia, hemoglobinúria e risco de lesão renal aguda. Phoneutria (aranha-armadeira) engana quem associa aranha a dor intensa, mas ali a dor é imediata e excruciante, com síndrome adrenérgica e, em crianças, priapismo, sem necrose. Latrodectus provoca dor e contraturas musculares generalizadas; Lycosa não causa acidente de importância médica relevante.
Paciente recebe soro antibotrópico endovenoso e, após 15 minutos, apresenta urticária generalizada, broncoespasmo e hipotensão. Qual a conduta imediata?
A reação anafilática ao soro heterólogo se trata como qualquer anafilaxia: suspender a infusão e aplicar adrenalina intramuscular, com suporte ventilatório e volume; depois da estabilização, o soro deve ser retomado com velocidade reduzida e sob vigilância, porque não existe outro tratamento capaz de neutralizar o veneno. Abandonar o soro engana por parecer prudente, mas deixa a coagulopatia progredir. Anti-histamínico e corticoide isolados não revertem anafilaxia, e nenhum soro heterólogo é isento desse risco.
Homem de 45 anos foi picado por serpente há 6 horas. Apresenta ptose palpebral bilateral, diplopia, fácies miastênica, mialgia generalizada e urina de coloração escura, com pouca alteração local no membro. Qual o principal risco e a conduta específica?
O acidente crotálico combina neurotoxicidade (fácies miastênica com ptose e oftalmoplegia) e miotoxicidade, e é a rabdomiólise, com mioglobinúria, que ameaça o rim — o tratamento é soro anticrotálico específico associado a hidratação vigorosa e vigilância de função renal e potássio. Pensar em síndrome compartimental engana quem espera edema importante, típico do acidente botrópico, mas aqui a reação local é discreta. Reposição de hemocomponentes sem soro não corrige a coagulopatia do veneno, e o quadro descrito não é anafilaxia.
Homem de 33 anos, trabalhador rural, é picado no pé por serpente. Chega 2 horas depois com dor e edema progressivo no membro, equimose local, sangramento gengival e tempo de coagulação prolongado, sem alteração neurológica. Qual o gênero mais provável e o soro indicado?
Dor e edema local progressivos, equimose e distúrbio da coagulação com sangramento à distância compõem o acidente botrópico, o mais frequente no Brasil, e o tratamento é o soro antibotrópico na dose definida pela gravidade. O acidente crotálico engana quem vê alteração de coagulação, que também ocorre nele, mas seu quadro é dominado por manifestações neuroparalíticas (fácies miastênica, ptose, diplopia) e mialgia com urina escura por rabdomiólise, com pouca reação local. O elapídico é neurotóxico sem lesão local, e o laquético soma a síndrome vagal com bradicardia, hipotensão e diarreia.
Criança de 6 anos é picada por escorpião e, 40 minutos depois, apresenta vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, taquicardia, agitação e taquipneia. Qual a conduta?
Crianças são o grupo de risco no escorpionismo, e manifestações sistêmicas — vômitos repetidos, sudorese, sialorreia, agitação, taquicardia, taquipneia — indicam acidente moderado a grave, com risco de edema agudo de pulmão e choque, exigindo soro específico o mais rápido possível e monitorização. Liberar após analgesia engana porque a dor local é a regra e a maioria dos casos é leve, mas aqui já há sinais sistêmicos. Torniquete, incisão e sucção são condutas proscritas em acidentes por animais peçonhentos, aumentando lesão e infecção; corticoide não substitui o soro.
Sobre o acidente por Phoneutria (aranha-armadeira), assinale a alternativa correta:
O foneutrismo é dominado pela dor local imediata e intensa, e a maioria dos casos se resolve com analgesia sistêmica e infiltração anestésica local; o soro antiaracnídico se reserva a manifestações sistêmicas, mais frequentes e graves em crianças, com sudorese, vômitos, agitação, hipertensão, priapismo e edema agudo de pulmão. Indicar soro para todos engana quem generaliza a regra dos acidentes ofídicos. Necrose tardia é loxoscelismo, hemólise também, e corticoide não trata acidente por aranha.
Qual é o tratamento sintomático inicial das manifestações musculares dolorosas no latrodectismo?
A prioridade é controlar dor e espasmos. Opioides e benzodiazepínicos podem ser necessários em casos selecionados, com vigilância de sedação e depressão respiratória. Gluconato de cálcio foi usado historicamente, mas não deve ser apresentado como alternativa de eficácia equivalente ou tratamento rotineiro. A decisão sobre antiveneno depende da gravidade, da resposta às medidas de suporte, da disponibilidade e da orientação toxicológica. Antibiótico profilático, corticoide isolado e anti-histamínico não tratam a síndrome neuromuscular; adrenalina é reservada à sua indicação específica, como anafilaxia.
Criança de 6 anos é picada por escorpião e evolui em 40 minutos com vômitos incoercíveis, sudorese, taquicardia, hipertensão, agitação e taquipneia. Qual é a conduta?
Crianças pequenas são as que mais evoluem para formas graves de escorpionismo, com liberação maciça de catecolaminas e acetilcolina, e manifestações sistêmicas como vômitos repetidos, sudorese profusa, taquicardia e taquipneia indicam soroterapia imediata e vigilância em ambiente com suporte, pelo risco de edema agudo de pulmão e choque cardiogênico. Observar sem soro é o erro que permite deterioração rápida nessa faixa etária. Anti-histamínico, corticoide e antibiótico não neutralizam veneno e não previnem as complicações cardiovasculares.
Qual é o momento adequado para o tratamento cirúrgico da lesão necrótica do loxoscelismo cutâneo?
A necrose do loxoscelismo evolui de forma progressiva e com limites mal definidos nos primeiros dias, de modo que a cirurgia precoce remove tecido viável e não impede a extensão da lesão; o padrão é aguardar a demarcação, tratar com curativos e analgesia e então desbridar e reconstruir quando necessário. Operar cedo é o erro que amplia a perda de tecido. Afirmar que nunca há indicação cirúrgica ignora as úlceras extensas que exigem enxerto, e a presença de hemólise diz respeito ao tratamento sistêmico, não ao momento da cirurgia.
Paciente com latrodectismo apresenta dor abdominal intensa com rigidez de parede e defesa, sem febre, com exames laboratoriais normais. Qual é a conduta?
A rigidez abdominal do latrodectismo é contratura muscular por hiperestimulação neuromuscular, e não irritação peritoneal, o que explica a ausência de febre, de leucocitose e de alterações laboratoriais, e a boa resposta a analgesia, relaxante muscular e soro específico. Indicar laparotomia com base apenas na rigidez é o erro clássico descrito nesse envenenamento e submete o paciente a cirurgia branca. A anamnese sobre a picada é o dado que evita o desfecho, e o tratamento clínico costuma resolver o quadro em horas.
Qual é a conduta terapêutica na forma cutâneo-visceral do loxoscelismo?
A forma sistêmica exige soroterapia específica, corticoide, hidratação vigorosa para proteger o rim da hemoglobinúria e suporte, com vigilância laboratorial de hemólise e função renal, além de curativos e analgesia. Desbridamento precoce é erro clássico: a lesão tem limites imprecisos na fase inicial e a cirurgia deve aguardar a delimitação da necrose, quando cabe reparo. Antibiótico só entra se houver infecção secundária. Curativo isolado ou anti-histamínico com alta ignoram a hemólise, que é o que ameaça a vida nessa apresentação.
Qual é o padrão de dor esperado no latrodectismo em comparação ao loxoscelismo?
A picada da viúva-negra provoca dor intensa que se irradia e generaliza em minutos, com cãibras e sinais autonômicos, enquanto a aranha-marrom pica de forma quase imperceptível, com quadro cutâneo que se instala ao longo de horas e evolui em dias, o que faz muitos pacientes só procurarem atendimento tardiamente. Inverter essa cronologia é o erro que gera atraso no reconhecimento do loxoscelismo. A dor do latrodectismo não permanece restrita ao local, e nenhum dos dois acidentes tem início uniformemente tardio de 48 horas.
Qual é o principal componente do veneno da aranha-marrom responsável pela lesão cutânea e pela hemólise?
A esfingomielinase D atua sobre a membrana celular e ativa complemento e cascatas inflamatórias, causando necrose dérmica de evolução lenta e, na forma sistêmica, hemólise intravascular com risco de insuficiência renal aguda. A alfa-latrotoxina pertence ao gênero Latrodectus e produz síndrome neuromuscular completamente diferente, sendo o distrator que testa a separação entre os dois acidentes por aranhas. A hialuronidase contribui como fator de difusão, mas não é a responsável pelo dano principal, e as demais toxinas listadas pertencem a outros agentes.
Qual é a diferença esperada entre a lesão do loxoscelismo e a de uma celulite bacteriana no exame físico?
A placa marmórea, com o mosaico de palidez isquêmica, equimose e eritema, é a assinatura do envenenamento por aranha-marrom, muitas vezes com dor em queimação desproporcional aos sinais inflamatórios e sem febre nas primeiras horas, o que a distingue da celulite, cujo eritema é homogêneo, quente e de bordas mal definidas com progressão contínua. Considerar as duas indistinguíveis leva ao uso de antibiótico e ao atraso da soroterapia, e inverter os padrões descritos é o erro que decorre de decorar nomes sem visualizar a lesão.
Homem de 45 anos sofre acidente com serpente e apresenta edema progressivo do membro, equimose, sangramento gengival, tempo de coagulação incoagulável e oligúria. Qual é o acidente e a conduta?
Edema local importante, equimose, sangramento sistêmico e distúrbio da coagulação caracterizam o acidente botrópico, o mais frequente no país, cujo veneno tem ação proteolítica, coagulante e hemorrágica, exigindo soro específico conforme a gravidade e hidratação adequada pelo risco de insuficiência renal. O acidente crotálico produz pouca alteração local, com mialgia, fácies miastênica, urina escura por rabdomiólise e insuficiência renal. O elapídico causa paralisia flácida com ptose e insuficiência respiratória, e o laquético soma manifestações vagais como bradicardia e diarreia.
Qual medida local deve ser evitada no atendimento inicial de acidente por animal peçonhento?
Torniquete, cortes, sucção e aplicação de substâncias caseiras aumentam necrose, infecção e sangramento, sem reduzir a absorção do veneno, e permanecem como práticas populares que agravam o quadro antes da chegada ao serviço. As condutas corretas são simples: limpar a ferida, imobilizar e elevar o membro, oferecer analgesia, avaliar profilaxia antitetânica e encaminhar rapidamente para avaliação da necessidade de soro específico, que é o único tratamento capaz de neutralizar o veneno circulante.
Qual orientação de prevenção é adequada para pacientes que vivem em áreas com ocorrência de aranha-marrom?
A aranha-marrom é pouco agressiva e pica quando comprimida contra o corpo, tipicamente ao vestir roupa guardada ou ao deitar, o que torna as medidas de controle ambiental e os hábitos de inspeção as estratégias mais eficazes: sacudir roupas e calçados, afastar móveis das paredes, vedar frestas, limpar atrás de quadros e evitar entulho. Repelentes corporais não protegem contra esse acidente, aplicar inseticida na pele é perigoso, e afirmar que nada previne desconsidera evidências claras sobre o comportamento do animal.
Durante a infusão de soro antiveneno, paciente apresenta urticária, broncoespasmo e hipotensão. Qual é a conduta?
A reação anafilática ao soro heterólogo se trata com suspensão temporária da infusão, adrenalina intramuscular, oxigênio, volume e adjuvantes, e o soro deve ser reiniciado após a estabilização, em velocidade menor, porque nos acidentes graves ele é a única terapia capaz de neutralizar o veneno e sua falta pode custar a vida. Abandonar definitivamente a soroterapia é o erro que troca um risco tratável por um dano não tratável. Anti-histamínico e corticoide isolados não revertem anafilaxia, e o soro antitetânico tem outra finalidade.
Qual é a principal indicação de soroterapia específica nos acidentes por animais peçonhentos?
A indicação e a dose do soro dependem da classificação de gravidade do acidente, feita pelas manifestações clínicas locais e sistêmicas e por alterações laboratoriais quando aplicáveis, e não do número de picadas nem apenas da identificação do animal, que muitas vezes não é trazido. Exigir o animal para soroterapia é o erro que atrasa o tratamento em casos graves. O tempo decorrido influencia a evolução, mas não é critério isolado, e não existe dosagem sérica de toxina disponível na prática assistencial de urgência.
Qual é o mecanismo de ação da toxina do gênero Latrodectus?
A alfa-latrotoxina promove abertura de canais de cálcio e fusão de vesículas sinápticas, com liberação maciça de acetilcolina e catecolaminas, o que explica cãibras, rigidez muscular, sudorese, hipertensão e taquicardia. A inibição da colinesterase é o distrator mais próximo por também aumentar a atividade colinérgica, mas o mecanismo e o tratamento são distintos, e ali predominam sinais muscarínicos com miose e broncorreia. A ação proteolítica local caracteriza o loxoscelismo, e o consumo de fibrinogênio descreve o acidente botrópico.
Homem de 30 anos, trabalhador em depósito de materiais, refere dor intensa em pé direito iniciada após picada, com evolução em 30 minutos para cãibras generalizadas, sudorese profusa, dor abdominal com rigidez de parede, hipertensão de 180x105 mmHg e priapismo. Qual é o acidente mais provável?
A síndrome de excitação neuromuscular generalizada, com dor local intensa, cãibras difusas, sudorese, hipertensão, rigidez abdominal que simula abdome agudo e priapismo, é característica do envenenamento pela viúva-negra, cuja toxina promove liberação maciça de neurotransmissores nas terminações pré-sinápticas. O loxoscelismo cursa com lesão cutânea de evolução lenta e pouca dor inicial. O acidente por armadeira dá dor local intensa e priapismo, mas com menos rigidez abdominal e cãibras generalizadas. O escorpionismo grave predomina em crianças com manifestações cardiorrespiratórias, e o acidente botrópico causa edema, equimose e sangramento.
Paciente com suspeita de loxoscelismo tem lesão cutânea compatível e exames iniciais normais. Qual conduta é a mais adequada nas primeiras 72 horas?
A forma visceral pode se instalar nas primeiras 24 a 72 horas mesmo em pacientes que iniciam apenas com lesão cutânea, e por isso o acompanhamento com exames seriados é a conduta segura, permitindo identificar hemólise precocemente e instituir tratamento sistêmico. Dar alta definitiva sem reavaliação é o erro que faz o paciente retornar já ictérico e com lesão renal. Antibiótico não trata veneno, terapia intensiva para todos é desproporcional, e a biópsia não confirma o diagnóstico, que é clínico e epidemiológico.
Mulher de 33 anos percebeu, ao vestir roupa guardada, discreto ardor no braço. Após 24 horas, apresenta lesão com centro violáceo, halo pálido e periferia eritematosa, com dor em queimação. Após 48 horas evolui com icterícia, urina escura, palidez e febre. Qual é o diagnóstico?
A lesão em placa marmórea, com áreas de isquemia, hemorragia e palidez, evoluindo em um a três dias após picada pouco dolorosa, associada a hemólise com icterícia, urina escura e anemia, define a forma cutâneo-visceral do envenenamento por aranha-marrom. Celulite e erisipela produzem eritema quente, homogêneo e doloroso, sem o padrão marmóreo, e não causam hemólise intravascular. Fasciíte necrosante cursa com toxemia grave e progressão rápida com crepitação e dor desproporcional, e anafilaxia se instala em minutos.
Qual é a complicação mais temida do envenenamento por Lonomia?
A síndrome hemorrágica pode culminar em sangramento intracraniano, principal causa de óbito nesses acidentes, e em insuficiência renal aguda por mecanismos que envolvem hipoperfusão e deposição de fibrina. Reconhecer o risco justifica a soroterapia precoce mesmo em pacientes que aparentam estabilidade, já que a coagulopatia pode ser grave com sinais externos discretos nas primeiras horas.
Qual achado laboratorial é frequentemente encontrado no acidente escorpiônico grave e reflete a descarga adrenérgica?
A descarga catecolaminérgica produz hiperglicemia, leucocitose e hipopotassemia, achados que acompanham as formas moderadas e graves e ajudam a dimensionar a intensidade do envenenamento — a elevação de troponina e as alterações eletrocardiográficas complementam a avaliação de acometimento miocárdico. Esperar hipoglicemia inverte o efeito hormonal esperado e é o distrator conceitualmente oposto.
Homem de 41 anos, lavrador, é picado no pé por serpente há três horas. Apresenta dor intensa, edema que se estende até o joelho, equimose extensa e sangramento persistente no local da picada, além de gengivorragia. Tempo de coagulação incoagulável. Sem oligúria e sem hipotensão. Qual a classificação e a conduta?
Dor intensa, edema progressivo, equimose e sangramento sistêmico com tempo de coagulação alterado compõem a síndrome do acidente botrópico, causado por serpentes do gênero Bothrops, responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. O soro antibotrópico é o único tratamento capaz de neutralizar o veneno circulante, e o número de ampolas segue a gravidade. O acidente crotálico é o distrator, mas cursa com dor local discreta e mialgia generalizada.
Paciente atendido 24 horas após contato com lagartas, assintomático quanto a sangramentos, mas com tempo de coagulação incoagulável. Qual a conduta?
A incoagulabilidade documentada define o envenenamento e indica soroterapia, independentemente de haver ou não sangramento visível — o risco de hemorragia intracraniana existe justamente enquanto a coagulopatia persiste, e ela pode se manifestar de forma súbita e catastrófica. Liberar o paciente assintomático com coagulograma alterado é o erro que transforma um caso tratável em desfecho fatal.
Qual medida é adequada quanto ao local da picada em acidente elapídico?
O veneno elapídico praticamente não causa dano tecidual local, e o manejo da ferida se resume à limpeza e à observação — toda a atenção clínica deve se voltar para o quadro neurológico e respiratório. Fasciotomia, desbridamento, torniquete e incisão são intervenções sem indicação, que acrescentam morbidade e, no caso do torniquete, podem inclusive agravar a lesão do membro sem retardar a absorção sistêmica do veneno.
Qual é o mecanismo fisiopatológico responsável pelas manifestações sistêmicas graves do envenenamento escorpiônico?
O veneno do Tityus atua em canais de sódio das terminações nervosas, provocando descarga simultânea adrenérgica e colinérgica — daí a coexistência de sudorese, sialorreia e vômitos com taquicardia, hipertensão e agitação. Essa tempestade autonômica explica o edema pulmonar e o choque cardiogênico das formas graves. O bloqueio neuromuscular pós-sináptico pertence ao veneno elapídico, e a coagulopatia, aos venenos botrópico e lonômico.
Por que crianças pequenas têm risco muito maior de envenenamento escorpiônico grave?
O escorpião injeta uma quantidade fixa de veneno, e quanto menor a massa corporal, maior a dose relativa recebida — é essa proporção que explica por que crianças abaixo de sete anos concentram os óbitos. A consequência prática é decisiva: toda criança picada por escorpião em região de Tityus serrulatus deve ser observada em ambiente com condições de administrar soro e prestar suporte, mesmo quando o quadro inicial parece leve.
Qual conduta está contraindicada no atendimento pré-hospitalar de vítima de acidente ofídico?
Torniquete, cortes, sucção e aplicação de substâncias como café, fumo ou querosene aumentam a lesão tecidual, o risco de infecção e de síndrome compartimental, sem qualquer benefício na neutralização do veneno — são práticas populares que agravam o quadro. O manejo correto é simples: lavar o local, manter o membro elevado e em repouso e transportar rapidamente ao serviço que dispõe de soro.
Qual das complicações abaixo é uma causa importante de morbidade tardia no acidente botrópico?
O veneno botrópico tem ação proteolítica intensa, e a necrose local com infecção secundária por bactérias da cavidade oral da serpente é causa frequente de sequela funcional e, em casos graves, de amputação — daí a importância da vigilância da ferida e do uso de antibiótico quando há infecção. A paralisia respiratória pertence ao acidente elapídico, a rabdomiólise ao crotálico e a síndrome vagal ao laquético.
Paciente com acidente botrópico grave apresenta oligúria, creatinina de 3,5 mg/dL e ureia elevada 48 horas após a picada. Qual o mecanismo mais provável da lesão renal?
A lesão renal aguda do acidente botrópico é multifatorial, com participação de hipovolemia por sequestro de líquido no membro edemaciado, ação nefrotóxica direta e microangiopatia com deposição de fibrina — é uma das principais causas de óbito nesses acidentes. Reconhecê-la reforça a importância da hidratação adequada e da soroterapia precoce, que reduz a exposição sistêmica ao veneno.
Qual característica anatômica ajuda a identificar serpentes peçonhentas dos gêneros Bothrops e Crotalus no Brasil?
A fosseta loreal, órgão sensível ao calor situado entre a narina e o olho, está presente nas serpentes do grupo dos viperídeos brasileiros — Bothrops, Crotalus e Lachesis. A grande exceção é a coral verdadeira, do gênero Micrurus, peçonhenta e sem fosseta loreal, o que torna a regra útil, porém insuficiente. O padrão de anéis coloridos aparece tanto em corais verdadeiras quanto em falsas, e não permite decisão segura em campo.
Qual é o parâmetro laboratorial mais útil para acompanhar a resposta à soroterapia no acidente botrópico?
O tempo de coagulação ou coagulograma permite acompanhar a coagulopatia do envenenamento botrópico, em conjunto com sangramento, função renal e evolução clínica. O PCDT federal recomenda observação por pelo menos 24 horas após soroterapia e considera dois frascos-ampolas adicionais quando a coagulação não se normaliza em 24 horas após seu término. Piora sistêmica exige reavaliação imediata da gravidade e da dose necessária; não se deve aguardar esse prazo diante de deterioração. CK e mioglobina são particularmente úteis na avaliação da miotoxicidade do acidente crotálico.
Qual afirmação sobre a soroterapia no acidente crotálico está correta?
A dose de antiveneno neutraliza uma quantidade fixa de veneno inoculado, que independe do tamanho de quem foi picado — por isso crianças recebem o mesmo número de ampolas que adultos, definido pela gravidade clínica. Reduzir a dose pediátrica é um erro grave e relativamente comum, e esperar a instalação da insuficiência renal para tratar contraria o princípio de que a soroterapia é tanto mais eficaz quanto mais precoce.
Qual é a principal complicação do acidente crotálico e a medida preventiva mais importante?
A rabdomiólise libera mioglobina, que é nefrotóxica, e a insuficiência renal aguda é a principal causa de óbito no acidente crotálico — a prevenção se apoia em hidratação vigorosa, com atenção ao débito urinário, e em soroterapia precoce. A alcalinização urinária é medida adjuvante discutida. Necrose local extensa e síndrome compartimental pertencem ao quadro botrópico, e trazê-las para cá inverte o perfil do veneno.
Qual é o achado local característico que diferencia o acidente crotálico do botrópico à inspeção do membro picado?
O veneno crotálico tem pouca ação proteolítica, e por isso o local da picada costuma apresentar apenas dor discreta, parestesia e edema mínimo, o que contrasta fortemente com a gravidade sistêmica do quadro. Edema volumoso, bolhas, equimose e necrose são achados botrópicos — essa dissociação entre local pobre e sistêmico grave é justamente o que faz o acidente crotálico ser subestimado no atendimento inicial.
Homem de 30 anos é picado no dedo por serpente de anéis vermelhos, pretos e brancos. Após duas horas, apresenta dor local mínima, sem edema, mas com ptose palpebral, diplopia, disfagia e voz anasalada, evoluindo com dispneia. Qual a conduta imediata?
O veneno elapídico é neurotóxico e produz bloqueio neuromuscular com paralisia descendente — ptose, diplopia, disfagia e, por fim, insuficiência respiratória — sem lesão local significativa. A prioridade é a soroterapia específica e a proteção da via aérea, com anticolinesterásico considerado conforme o mecanismo do veneno. Observar porque não há edema é o erro fatal desse acidente, já que a ausência de sinais locais engana quem espera o padrão botrópico.
Qual é o mecanismo de ação do veneno elapídico brasileiro que justifica o uso de anticolinesterásico em casos selecionados?
Quando o bloqueio é pós-sináptico, competindo com a acetilcolina pelos receptores nicotínicos, o aumento da concentração do neurotransmissor na fenda pela inibição da colinesterase pode reverter parcialmente a paralisia — daí o uso de neostigmina, precedida de atropina, em casos selecionados. Esse recurso não funciona quando o veneno age de forma pré-sináptica, o que explica respostas variáveis conforme a espécie envolvida.
Qual conduta é recomendada para prevenção de acidentes escorpiônicos em áreas urbanas?
O controle do escorpião é essencialmente ambiental: retirar entulho e material de construção, vedar frestas, ralos e caixas de gordura e reduzir a população de baratas, que é a principal fonte de alimento. Inseticidas têm eficácia limitada e podem dispersar os escorpiões para o interior das residências, o que torna a aplicação isolada uma estratégia contraproducente. Não existe vacina, e repelente não protege contra esses acidentes.
Qual é a complicação cardiovascular mais temida do acidente escorpiônico grave em crianças?
A descarga catecolaminérgica maciça produz lesão miocárdica direta, com disfunção sistólica e edema agudo de pulmão, que é a principal causa de morte no acidente escorpiônico infantil — o ecocardiograma pode mostrar hipocinesia global reversível. Reconhecer essa complicação orienta o manejo cuidadoso de volume e o uso de inotrópico, porque a expansão volêmica indiscriminada agrava a congestão pulmonar.
Qual é a distribuição geográfica típica dos acidentes laquéticos no Brasil?
A surucucu habita florestas densas e preservadas, o que concentra os acidentes na Amazônia e em áreas remanescentes de Mata Atlântica — essa informação epidemiológica é decisiva porque orienta a distribuição do soro específico, que não está disponível em todos os serviços. Em regiões onde o soro antilaquético não existe, o soro antibotrópico-laquético é a alternativa prevista.
Qual conduta relacionada ao membro acometido é adequada no acidente laquético com edema volumoso?
A elevação do membro reduz o edema e a vigilância clínica identifica precocemente a síndrome compartimental, que é a complicação temida nesses acidentes com veneno proteolítico. Torniquete e posição pendente agravam a estase e o dano local, e a fasciotomia profilática expõe o paciente a ferida ampla em vigência de coagulopatia — indicação que só se justifica com síndrome compartimental confirmada.
Qual é a conduta correta quanto ao número de ampolas de soro nos acidentes ofídicos graves?
A soroterapia é feita em dose única inicial correspondente à gravidade, para neutralizar rapidamente o veneno circulante, com reavaliação clínica e laboratorial orientando ampolas adicionais. Fracionar a dose ou espaçá-la ao longo de horas mantém veneno livre agindo nos tecidos e é o erro que prolonga a lesão. A dose não depende de peso nem de idade, porque neutraliza uma quantidade fixa de veneno inoculada.
Qual é o comportamento esperado do tempo de coagulação após soroterapia adequada no acidente laquético?
O veneno laquético pode causar distúrbio de coagulação, e sua recuperação após soro adequado não é obrigatoriamente imediata. São necessários acompanhamento clínico e exames seriados. A decisão sobre complemento de soro considera gravidade, evolução, adequação da dose inicial e orientação especializada. O PCDT vigente não estabelece para acidente laquético uma regra universal de repetir ampolas apenas porque o tempo de coagulação continua alterado entre seis e doze horas. Tampouco a alteração é esperada por quinze dias em todos os casos.
Qual manifestação diferencia o acidente laquético do botrópico à beira do leito?
Edema, equimose, dor, sangramento e incoagulabilidade são comuns aos dois acidentes e, por isso, não discriminam nada — o que separa o laquético é a estimulação vagal, com bradicardia, hipotensão, cólicas e diarreia, decorrente de componentes do veneno que atuam sobre o sistema autonômico. Buscar diferença nos achados locais é o erro que leva à escolha errada de soro em regiões onde os dois gêneros coexistem.
Paciente com sangramento e coagulopatia grave por Lonomia recebeu soro específico, mas mantém sangramento ativo com repercussão hemodinâmica. Qual conduta adicional é adequada?
Após a neutralização do veneno, a reposição de fibrinogênio com crioprecipitado ou plasma fresco tem espaço no paciente com sangramento ativo e repercussão hemodinâmica, sempre associada ao suporte geral. Heparina agravaria o sangramento e o antifibrinolítico não é recomendado nesse envenenamento. O ponto conceitual é que hemocomponente sem soro é reposição em vaso furado: o veneno continuaria consumindo os fatores repostos.
Qual a diferença entre o acidente por Lonomia e o acidente por lagartas do gênero Megalopyge quanto às manifestações?
O erucismo por Megalopyge e outras lagartas urticantes produz dor local intensa, eritema e edema, com resolução em horas a dias e tratamento sintomático, sem coagulopatia — a Lonomia é a exceção que causa síndrome hemorrágica sistêmica e exige soro específico. Confundir as duas leva ou a soroterapia desnecessária ou, o que é mais grave, a subestimar um acidente lonômico como simples irritação cutânea.
Qual conduta está contraindicada em paciente com coagulopatia por Lonomia antes da neutralização do veneno?
Antifibrinolíticos e heparina não corrigem o mecanismo do veneno e podem agravar o quadro, assim como procedimentos invasivos e injeções intramusculares aumentam o risco de hematoma em paciente com fibrinogênio indetectável. O tratamento é a soroterapia específica, com hemocomponentes reservados a sangramentos graves — e mesmo estes têm efeito transitório enquanto o veneno não for neutralizado.
Qual exame é o mais útil para o diagnóstico e o acompanhamento da coagulopatia por Lonomia em serviços com recursos limitados?
O tempo de coagulação é um teste simples, executável à beira do leito, e demonstra a incoagulabilidade que caracteriza o envenenamento, servindo tanto ao diagnóstico quanto ao controle após a soroterapia. A contagem de plaquetas costuma estar normal e, se usada isoladamente, tranquiliza falsamente o médico — esse é justamente o achado que mais engana em serviços que não dispõem de coagulograma completo.
Paciente recebe soro antibotrópico e, durante a infusão, apresenta urticária, broncoespasmo e hipotensão. Qual a conduta?
A reação anafilática ao soro heterólogo é tratada com adrenalina intramuscular como primeira medida, além de suporte, e a soroterapia deve ser retomada com cuidado assim que houver estabilização — porque, sem o soro, o envenenamento segue causando dano. Abandonar definitivamente a soroterapia é o erro que troca uma complicação tratável por um envenenamento não neutralizado. Trocar o gênero do soro não faz sentido.
Qual é o tempo de observação recomendado para criança picada por escorpião em área de risco, mesmo com quadro inicial leve?
As manifestações sistêmicas costumam surgir nas primeiras horas, e a criança precisa permanecer sob observação em local com condições de administrar soro e prestar suporte ventilatório e hemodinâmico — liberá-la logo após a analgesia é o erro que já resultou em óbitos domiciliares. Por outro lado, internar por uma semana todos os casos leves é desproporcional e não corresponde à história natural do envenenamento.
Qual é a espécie de escorpião mais associada a acidentes graves e óbitos no Brasil?
O Tityus serrulatus é a espécie de maior importância médica no Brasil, com veneno mais potente e com reprodução por partenogênese, o que facilita sua dispersão urbana e explica a expansão do número de acidentes. O Tityus bahiensis também causa acidentes, mas com menor gravidade — reconhecer a espécie predominante na região orienta o nível de vigilância exigido, sobretudo diante de crianças picadas.
Por que todo acidente elapídico com manifestações é classificado como grave?
A neurotoxicidade do veneno das corais verdadeiras pode levar à paralisia da musculatura respiratória em poucas horas, motivo pelo qual todos os casos com manifestações são tratados como graves, com número elevado de ampolas e vigilância em ambiente com suporte ventilatório. Esperar sinais locais para agir é o equívoco central desse acidente, cujo quadro local é notoriamente pobre.
Qual afirmação sobre a coral verdadeira e a coral falsa é correta do ponto de vista prático no atendimento?
As regras populares sobre a sequência de anéis não se aplicam de forma confiável às espécies brasileiras, e a diferenciação em campo é insegura — diante de manifestações neurológicas compatíveis, trata-se como acidente elapídico. Confiar na ausência de fosseta loreal é justamente o erro perigoso: a coral verdadeira é peçonhenta e não possui fosseta, sendo a exceção à regra usada para os viperídeos.
Qual é o tratamento da dor no acidente escorpiônico classificado como leve?
No acidente leve, com dor local sem manifestações sistêmicas, o tratamento é sintomático: infiltração com anestésico local sem vasoconstritor, analgesia e observação por período suficiente para detectar evolução, especialmente em crianças. Indicar soro para todos é o erro que expõe o paciente ao risco de reação a proteína heteróloga sem necessidade, já que a maioria absoluta dos acidentes é leve e evolui bem.
Paciente com acidente laquético apresenta bradicardia sintomática de 38 bpm com hipotensão persistente após soroterapia. Qual conduta é adequada?
A bradicardia da síndrome vagal responde à atropina, que bloqueia o efeito colinérgico, associada a suporte hemodinâmico e monitorização contínua. Prescrever betabloqueador seria agravar exatamente o mecanismo em curso, e a cardioversão elétrica não tem papel numa bradicardia de origem autonômica. Aguardar resolução espontânea em paciente hipotenso e sintomático é conduta que ignora o risco de deterioração.
Qual conduta é recomendada em relação ao animal causador do acidente ofídico?
A identificação da serpente ajuda a escolher o soro, mas nunca deve atrasar o atendimento nem colocar alguém em risco de nova picada — a classificação clínica da síndrome de envenenamento é suficiente para orientar a soroterapia na maioria dos casos. Condicionar o tratamento à apresentação do animal é o erro que custa horas preciosas e contraria toda a lógica do atendimento ao acidente ofídico.
Qual sinal precoce deve ser monitorado em vítima de acidente elapídico ainda sem dispneia manifesta?
A paralisia elapídica é descendente e começa pelos músculos inervados por nervos cranianos, com ptose, oftalmoplegia, disfagia e disfonia surgindo antes da falência ventilatória — por isso a ptose é o sinal sentinela que deve disparar a preparação para o suporte respiratório. Vigiar coagulação, creatinofosfoquinase ou plaquetas é transportar marcadores de outros venenos e perder o parâmetro que realmente antecipa a gravidade aqui.
Paciente com acidente escorpiônico grave apresenta hipotensão, extremidades frias e congestão pulmonar após receber soroterapia. Qual conduta é a mais adequada?
O choque do envenenamento escorpiônico grave é cardiogênico, por miocardite tóxica, e responde a inotrópico com volume administrado com parcimônia — a expansão agressiva agrava o edema pulmonar e é o erro mais frequente de quem trata todo choque como hipovolêmico. O betabloqueador em paciente com disfunção ventricular e choque pode precipitar deterioração hemodinâmica.
Qual é a conduta correta quanto à remoção do ferrão de abelha na pele?
O saco de veneno continua a injetar conteúdo enquanto o ferrão permanece na pele, de modo que a rapidez da remoção é o que importa, e a orientação prática é retirar imediatamente por raspagem ou pelo método disponível, sem perder tempo procurando instrumento ideal. Apertar a base com pinça pode espremer o reservatório e injetar mais veneno, sendo a técnica classicamente desaconselhada. Aguardar a saída espontânea prolonga a exposição, e incisões acrescentam lesão e risco de infecção sem qualquer benefício.
Homem de 45 anos, trabalhador rural do sul do Brasil, encostou o antebraço em tronco de árvore com lagartas agrupadas há 12 horas. Apresenta dor e queimação local, e agora gengivorragia, hematúria e equimoses. Coagulograma: fibrinogênio indetectável, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada muito alargados, plaquetas 210.000/mm³. Qual o diagnóstico e a conduta?
Contato com lagartas agrupadas em tronco de árvore no sul do Brasil, seguido de síndrome hemorrágica com consumo de fibrinogênio e plaquetas preservadas, é o quadro do envenenamento por Lonomia — o veneno ativa a cascata de coagulação e produz fibrinólise, com sangramento sistêmico. O soro antilonômico é o tratamento específico. A plaquetometria normal é justamente o detalhe que ajuda a separar esse quadro de outras coagulopatias de consumo.
Paciente com acidente crotálico apresenta mialgia intensa e creatinofosfoquinase muito elevada. Qual conduta relacionada à urina indica evolução favorável?
O clareamento da urina, antes marrom pela mioglobina, associado à manutenção de bom débito urinário, indica que a hidratação está eliminando o pigmento e que o dano muscular cessou — é o sinal prático de que o tratamento está funcionando. Oligúria com urina persistentemente escura é o inverso e anuncia a lesão renal aguda, momento em que a vigilância deve ser intensificada.
Qual é a principal razão para a notificação compulsória dos acidentes por animais peçonhentos no Brasil?
A notificação alimenta o sistema que dimensiona a produção e a distribuição regional dos soros, insumo estratégico com produção limitada e validade definida, e permite acompanhar a incidência por região e espécie. Restringir o registro aos óbitos é o erro que subestima a demanda e resulta em desabastecimento justamente onde os acidentes acontecem, com impacto direto na mortalidade evitável.
Criança de 7 anos sofre múltiplas picadas de abelhas africanizadas, com mais de 200 ferroadas. Após 12 horas apresenta urina escura, oligúria, mialgia intensa e creatinina em ascensão, sem urticária ou hipotensão. Qual é o mecanismo predominante?
Nas picadas múltiplas, o problema deixa de ser alérgico e passa a ser toxicológico: a carga de veneno provoca hemólise, rabdomiólise, lesão renal aguda, hepatotoxicidade e alterações da coagulação, quadro que pode surgir horas após o acidente e exige hidratação vigorosa, monitorização e suporte, inclusive dialítico. Interpretar como anafilaxia é o erro que leva a esperar sinais cutâneos e hipotensão que podem não existir, já que uma única picada basta para anafilaxia em sensibilizados, enquanto a síndrome tóxica depende do número de ferroadas.
Homem de 36 anos é picado por serpente em área de cerrado. Após seis horas, apresenta dor local discreta com parestesia, ptose palpebral bilateral, oftalmoplegia, fácies de aspecto miastênico, mialgia generalizada intensa e urina de coloração marrom-escura. Tempo de coagulação normal. Qual o diagnóstico e o soro indicado?
A tríade fácies miastênica com ptose e oftalmoplegia, mialgia generalizada e urina escura por mioglobinúria, com dor local discreta, é a assinatura do acidente crotálico — o veneno tem ações neurotóxica, miotóxica e coagulante. O botrópico é o distrator natural pela frequência, mas ali predominam dor intensa, edema e equimose no local, achados aqui pobres. A soroterapia específica deve ser rápida, pois o dano muscular progride.
Paciente com acidente botrópico em membro inferior evolui, em 12 horas, com dor desproporcional, parestesia, palidez e aumento importante da tensão do compartimento. Qual a complicação e a conduta?
O edema intenso do acidente botrópico pode elevar a pressão dentro de compartimentos fasciais, comprometendo a perfusão, e a dor desproporcional com parestesia é o alerta precoce — a confirmação se faz pela medida da pressão compartimental, e a fasciotomia é indicada quando confirmada. Anticoagular é o erro mais perigoso, porque o paciente pode estar com coagulopatia de consumo e sangramento ativo.
Homem de 38 anos, extrativista na Amazônia, é picado por serpente de grande porte. Apresenta dor intensa, edema progressivo, equimose e bolhas no membro, com sangramento no local e tempo de coagulação incoagulável. Além disso, evolui com bradicardia de 42 bpm, hipotensão, cólicas abdominais, diarreia e vômitos. Qual o diagnóstico e o soro indicado?
O quadro local reproduz o acidente botrópico, mas a associação com bradicardia, hipotensão, cólicas, diarreia e vômitos — a chamada síndrome vagal — é o que caracteriza o acidente laquético, causado pela surucucu. Esse conjunto de manifestações colinérgicas é o dado que decide entre os dois soros. O acidente ocorre tipicamente em áreas de floresta densa da Amazônia e da Mata Atlântica, o que reforça a suspeita epidemiológica.
Qual é a via de administração correta do soro antiveneno nos acidentes ofídicos?
O soro é administrado por via endovenosa, para neutralizar rapidamente o veneno circulante, com o paciente monitorado e material de reanimação disponível — o teste de sensibilidade prévio foi abandonado por ter baixo valor preditivo e atrasar a soroterapia. Infiltrar o soro no local da picada é o erro que não neutraliza a fração sistêmica do veneno e agrava a lesão local.
Paciente com acidente laquético apresenta, 48 horas depois, febre, dor local em piora, secreção purulenta e celulite ascendente. Qual a conduta?
A infecção secundária é complicação frequente nesses acidentes, com participação de bactérias da cavidade oral da serpente, como Morganella morganii e anaeróbios, o que exige antibiótico de espectro adequado e avaliação cirúrgica quando há necrose ou coleção. Administrar mais soro não trata infecção bacteriana — o antiveneno neutraliza toxina, e não bactéria, distinção que costuma ser confundida na prática.
Qual medida de prevenção é a mais eficaz contra acidentes por lagartas do gênero Lonomia?
As lagartas se agrupam camufladas em troncos, e o acidente ocorre quando a pessoa apoia mão ou antebraço sem perceber — por isso a inspeção visual antes do contato e o uso de luvas e mangas compridas são as medidas de maior efeito prático. Não há vacina, repelente não age sobre cerdas urticantes, e a aplicação indiscriminada de inseticida na mata é ambientalmente inviável e ineficaz.
Paciente vítima de acidente elapídico recebe soroterapia adequada e permanece em ventilação mecânica. Qual é a expectativa de evolução?
Neutralizado o veneno e mantido o suporte ventilatório, o bloqueio neuromuscular é reversível e a força se recupera em horas a dias, permitindo o desmame — o prognóstico é bom desde que o paciente não sofra hipóxia por falha no reconhecimento da falência respiratória. Antecipar sequela permanente é o erro que desestimula o suporte pleno em um acidente cuja mortalidade se concentra na demora do atendimento.
Criança de 4 anos é picada por escorpião amarelo há 90 minutos. Apresenta dor local intensa, vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, agitação, taquicardia de 170 bpm, taquipneia e crepitações difusas à ausculta pulmonar. Qual a conduta imediata?
Manifestações sistêmicas em criança — vômitos repetidos, sudorese, sialorreia, taquicardia e sinais de congestão pulmonar — caracterizam envenenamento grave por escorpião, e o soro específico deve ser administrado sem demora, junto com suporte intensivo. A analgesia local é a base do tratamento no acidente leve, e mantê-la como conduta única diante de sinais sistêmicos é o erro que precede a maioria dos óbitos, que ocorrem em crianças e nas primeiras horas.
Criança de 5 anos com acidente botrópico recebeu soroterapia há 24 horas. O tempo de coagulação segue alterado e há sangramento persistente pelo local da picada. A conduta correta é:
A persistência da incoagulabilidade após 24 horas indica veneno circulante ainda não neutralizado — o critério de resposta na soroterapia botrópica é a normalização do tempo de coagulação em 24 horas, e sua falha manda repetir o soro. Transfundir hemocomponentes sem neutralizar o veneno engana porque parece corrigir a coagulopatia, mas os fatores infundidos são consumidos pela mesma ação procoagulante do veneno. Vitamina K não age sobre esse mecanismo, que não é deficiência de fatores dependentes dela.
Sobre a dose de soro antiveneno em acidentes ofídicos na criança, é correto afirmar que:
O soro neutraliza veneno, não peso corporal: a mesma serpente inocula a mesma quantidade em criança e adulto — por isso a dose é definida pela gravidade e não sofre ajuste pediátrico. Calcular por quilo é o erro mais comum e leva a subdose justamente em quem tem pior prognóstico, porque a criança recebe carga de veneno proporcionalmente maior. O que se ajusta na criança é o VOLUME de diluição, não o número de ampolas.
Menina de 8 anos foi picada por serpente há 4 horas. Apresenta dor discreta no local, sem edema significativo, mas com ptose palpebral bilateral, oftalmoplegia e dificuldade de manter a cabeça erguida. Mialgia intensa e urina escura. O acidente e o soro indicados são:
A dissociação entre local pobre (dor discreta, pouco edema) e quadro sistêmico rico com fácies miastênica, mialgia e mioglobinúria é a assinatura do acidente crotálico. O botrópico faz o contrário: local exuberante com edema, equimose e bolhas. O laquético soma ao quadro botrópico manifestações vagais — bradicardia, hipotensão e diarreia — que aqui não existem. A urina escura da cascavel é rabdomiólise, e o risco maior é insuficiência renal aguda, o que torna a hidratação parte central do tratamento.
Menina de 4 anos é picada por escorpião amarelo em casa. Uma hora depois apresenta vômitos incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia, taquicardia de 170 bpm e agitação. A conduta imediata é:
Manifestação sistêmica em criança — vômitos repetidos, sudorese, sialorreia, taquicardia, agitação — já caracteriza acidente escorpiônico moderado a grave e indica soro imediato, porque a janela para evitar edema agudo de pulmão e choque é curta. Tratar só a dor engana quem viu que a maioria dos acidentes é leve: em menor de 7 anos, o quadro sistêmico evolui rápido. Atropina agrava a taquicardia sem tratar o excesso catecolaminérgico e não substitui a neutralização do veneno.
Duas semanas após receber soro antibotrópico, uma criança de 6 anos retorna com febre, urticária, artralgia e linfadenomegalia. Exames sem coagulopatia. A hipótese e a conduta são:
Reação de hipersensibilidade do tipo III a proteínas heterólogas, a doença do soro aparece entre 5 e 24 dias, com febre, urticária, artralgia e adenomegalia, e responde a anti-histamínico e corticoide. Anafilaxia tardia não se sustenta porque anafilaxia é reação imediata mediada por IgE, com broncoespasmo e hipotensão — não esse quadro arrastado. Repetir o soro é a resposta que mais prejudica: reexpõe o paciente ao antígeno sem qualquer veneno para neutralizar, já que a coagulação está normal.
Criança de 8 anos com acidente escorpiônico moderado tem os seguintes exames: glicemia 210 mg/dL, sódio 138 mEq/L, potássio 3,2 mEq/L, amilase elevada. A interpretação correta é:
O envenenamento pode cursar com essas alterações laboratoriais, por mecanismos metabólicos e efeitos do veneno que não se resumem a atribuir toda a tríade às catecolaminas. Hiperglicemia durante o episódio não define diabetes nem necessidade definitiva de insulina. Amilase elevada, isoladamente, não confirma pancreatite, sobretudo sua gravidade ou indicação cirúrgica. Os resultados devem ser interpretados com o quadro clínico e acompanhados durante o tratamento; não autorizam alta nem substituem a classificação clínica da gravidade.
Criança de 5 anos com acidente escorpiônico grave, 3 horas após a picada, evolui com dispneia, crepitações difusas, saturação de 88% e radiografia com infiltrado alveolar bilateral. A explicação mais provável para o quadro é:
A principal causa de óbito no escorpionismo infantil é o edema pulmonar por miocardite tóxica — a descarga catecolaminérgica e a ação direta do veneno deprimem o miocárdio e elevam a pressão de enchimento. Por isso troponina e ecocardiograma entram na avaliação do caso grave. Broncoaspiração engana porque os vômitos são frequentes, mas produziria infiltrado localizado, não alveolar difuso com hipoxemia precoce. O veneno escorpiônico não causa coagulopatia, o que afasta hemorragia alveolar.
Sobre as medidas de primeiros socorros em acidente ofídico na criança, é correto orientar:
O que salva é o transporte rápido para receber o soro; as medidas locais devem apenas não piorar. Torniquete concentra veneno proteolítico no segmento distal e aumenta necrose e risco de amputação. Incisão e sucção não removem veneno já disseminado e abrem porta para infecção secundária por anaeróbios da boca da serpente. Gelo direto agrava isquemia tecidual. Substâncias caseiras ingeridas não têm efeito e podem intoxicar.
Em relação ao tempo de observação de crianças picadas por escorpião no Brasil, é correto afirmar que:
A gravidade do escorpionismo concentra-se nos menores de 7 anos, e o quadro sistêmico pode surgir horas depois de um início apenas doloroso — daí a vigilância prolongada em serviço com condição de soroterapia. Dar alta pela melhora da dor é a armadilha que produz retorno em edema agudo de pulmão. Identificar a espécie como Tityus serrulatus, longe de tranquilizar, é justamente o cenário de maior risco no Brasil.
Sobre a complicação renal do acidente ofídico em pediatria, é correto afirmar que:
As duas espécies levam ao rim por caminhos diferentes: a cascavel por mioglobinúria da rabdomiólise, a jararaca por hipotensão, deposição de fibrina na microcirculação e ação direta do veneno. Em ambas a hidratação precoce com débito urinário adequado é a prevenção que muda desfecho. Atribuir o risco só ao crotálico é o erro mais comum, e leva a subhidratar o paciente botrópico. O soro neutraliza veneno circulante, mas não desfaz necrose tubular já estabelecida.
Sobre a diferenciação entre acidente escorpiônico e acidente por aranha marrom (Loxosceles) na criança, é correto afirmar que:
O relógio separa os dois: o escorpião dói de imediato e o veneno age em minutos sobre o sistema autonômico; a aranha marrom costuma dar picada pouco dolorosa, com placa marmórea e necrose evoluindo em dias, além da forma cutâneo-visceral com hemólise e hemoglobinúria. Trocar as apresentações leva a esperar necrose no escorpionismo e a subestimar a hemólise do loxoscelismo. Os soros são distintos, e há soro antiaracnídico específico.
Lactente de 18 meses picado por escorpião chega com sonolência alternando com agitação, tremores, hipertensão arterial e priapismo. A classificação do acidente é:
Alteração do nível de consciência, tremores, instabilidade hemodinâmica e priapismo compõem o quadro sistêmico intenso do acidente GRAVE, que exige soro em dose plena e terapia intensiva. Classificar como moderado é o erro que atrasa o soro: o moderado tem vômitos, sudorese e agitação, mas sem comprometimento neurológico e cardiovascular desse porte. A idade abaixo de 2 anos por si só já coloca o paciente na faixa de maior letalidade.
O mecanismo fisiopatológico central do envenenamento por Tityus serrulatus é:
As toxinas escorpiônicas mantêm canais de sódio abertos nas terminações pré-sinápticas, e a descarga autonômica mista explica tudo o que se vê: sialorreia, vômitos e bradicardia pelo lado colinérgico; taquicardia, hipertensão e miocardite pelo lado adrenérgico. Necrose local proteolítica é do veneno botrópico. Esfingomielinase D é da aranha marrom, e coagulopatia por ativação de fatores é da jararaca — confundi-las leva a pedir coagulograma e ignorar o ecocardiograma, que é o exame que importa aqui.
Criança de 6 anos com acidente escorpiônico moderado recebeu soro antiescorpiônico. Duas horas depois mantém vômitos, sudorese e taquicardia, com troponina elevada. A conduta é:
Persistência das manifestações sistêmicas após o soro indica veneno ainda circulante ou envenenamento subestimado — reclassificar e complementar a dose é o passo correto, junto de ecocardiograma, porque a troponina elevada anuncia miocardite. O risco de doença do soro nunca justifica deixar de neutralizar veneno ativo. Betabloqueador em criança com componente colinérgico e possível disfunção ventricular pode precipitar bradicardia e piora hemodinâmica; o inotrópico só entra guiado pela função ventricular medida, não em protocolo cego.
Após início do soro antibotrópico, uma criança de 6 anos apresenta urticária difusa, sibilos e hipotensão. A conduta imediata é:
A reação anafilática ao soro heterólogo se trata como qualquer anafilaxia — adrenalina intramuscular é a primeira medida — mas o soro não pode ser abandonado: sem neutralização do veneno o paciente morre da coagulopatia. Suspende-se temporariamente, estabiliza-se e retoma-se em ritmo mais lento sob vigilância. Suspender definitivamente é o erro que mata; anti-histamínico e corticoide isolados não revertem broncoespasmo com hipotensão e não substituem a adrenalina.
Menino de 9 anos é picado por escorpião e apresenta apenas dor local intensa e parestesia, sem sinais sistêmicos, após 4 horas de observação. A conduta correta é:
Acidente escorpiônico leve — dor e parestesia apenas — é o mais comum e trata-se com analgesia e observação; o soro é reservado a casos moderados e graves, porque a soroterapia heteróloga tem risco próprio de anafilaxia e doença do soro. Indicar soro pela idade isoladamente é o erro: o que pesa na criança pequena é a vigilância mais longa e o limiar mais baixo para reclassificar, não a soroterapia automática. Corticoide não previne evolução e antibiótico não tem papel, pois a lesão não é infecciosa.
Criança de 9 anos com acidente botrópico há 6 horas evolui com edema tenso de todo o membro inferior, dor desproporcional, parestesia e diminuição do enchimento capilar distal, após soroterapia adequada. A hipótese principal e a conduta são:
O veneno botrópico é proteolítico e o edema pode elevar a pressão dentro do compartimento fascial até comprometer a perfusão — dor desproporcional, parestesia e edema tenso são os sinais de alarme. Confirmar com pressão intracompartimental antes de indicar fasciotomia evita cirurgia desnecessária em membro apenas edemaciado. Anticoagulação plena é o erro mais perigoso: o paciente está coagulopático pelo próprio veneno e sangraria. Doença do soro é reação tardia de 5 a 24 dias, com febre, artralgia e urticária, não isquemia.
Menino de 7 anos é picado no pé por serpente enquanto brincava em área rural. Duas horas depois apresenta dor e edema que atinge o terço médio da perna, equimose local e sangramento gengival. TP incoagulável. Plaquetas 130.000/mm3. Segundo o PCDT de Acidentes Ofídicos do Ministério da Saúde aprovado em 2025, a classificação e a soroterapia indicadas são:
Dor e edema do pé até a perna correspondem a dois segmentos, compatíveis com acidente botrópico moderado. O PCDT indica seis frascos-ampolas nessa classificação. Sangramento discreto e coagulopatia podem estar presentes no quadro leve; isoladamente, não estabelecem gravidade moderada. A dose de antiveneno é a mesma para crianças e adultos, conforme a gravidade, e não é reduzida pelo peso. Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/a/acidentes-ofidicos
Menino de 10 anos, picado por jararaca em área rural, chega com edema de todo o membro superior, bolhas hemorrágicas, hipotensão (PA 80/50 mmHg) e anúria de 8 horas. A classificação de gravidade e o número de ampolas de soro antibotrópico são:
Edema em todo o membro com bolhas e, sobretudo, manifestações sistêmicas de choque e oligoanúria classificam o acidente botrópico como GRAVE, cuja dose padronizada é de 12 ampolas. Escolher 8 ampolas é o erro de quem lê a faixa do moderado até o limite superior sem reconhecer que a hipotensão já mudou a categoria. Vinte ampolas é a dose máxima do crotálico grave, não do botrópico. Subdosar aqui prolonga a coagulopatia e a lesão renal.
Sobre a prevenção de acidentes por escorpiões em domicílio, a orientação mais adequada é:
Controlar escorpião é controlar abrigo e alimento: entulho e frestas são abrigo, barata é comida. Retirados os dois, a colonização cai. Inseticida doméstico tende a apenas dispersar os animais para dentro dos cômodos, aumentando o encontro com pessoas. Repelente corporal age sobre insetos hematófagos e não tem efeito sobre escorpiões, que picam por defesa ao serem comprimidos — daí a importância de sacudir calçados e roupas.
Homem jovem é picado por serpente e chega com edema progressivo do membro, equimose, sangramento gengival e tempo de coagulação alterado, sem alterações neurológicas. Qual o gênero da serpente e o soro indicado?
O acidente botrópico combina ação local intensa, com edema, equimose e risco de necrose, e ação sistêmica sobre a coagulação, produzindo sangramentos e incoagulabilidade, sendo o mais frequente no Brasil. O acidente crotálico é o principal distrator, mas ali predominam manifestações neurotóxicas com fácies miastênica e rabdomiólise com urina escura, e o quadro local é discreto, justamente o oposto do descrito.
Sobre a indicação de soro antiveneno nos acidentes por animais peçonhentos, é correto afirmar que:
O antiveneno neutraliza a toxina circulante e a quantidade necessária depende da carga inoculada, estimada pela gravidade clínica, e não do peso, razão pela qual crianças recebem o mesmo número de ampolas que adultos, uma pegadinha frequente. Por ser soro heterólogo, existe risco de reação anafilática, o que obriga a aplicação em ambiente hospitalar preparado. Acidentes leves de algumas espécies dispensam soro e apenas se observam.
Menino de 9 anos, do Paraná, refere que ao vestir uma camisa guardada no armário sentiu leve ferroada no tronco, sem dor importante. Após 12 horas, apresenta dor em queimação, com placa endurecida de coloração heterogênea, alternando áreas pálidas, avermelhadas e arroxeadas. Qual o agente provável?
Dois elementos apontam para o loxoscelismo: a picada praticamente indolor, que só se manifesta horas depois, e a chamada placa marmórea, com o mosaico de palidez isquêmica, eritema e equimose. O hábito domiciliar, em armários e atrás de móveis, e o contato ao vestir roupas guardadas completam o cenário. A armadeira é o oposto no tempo e na dor: provoca dor intensa imediata, com sudorese e agitação, e não produz lesão necrótica de evolução lenta.
Sobre o tratamento local da lesão necrótica já delimitada do loxoscelismo, qual conduta é a mais adequada?
Esperar a demarcação evita ressecar tecido que ainda seria viável, e por isso o desbridamento é tardio, seguido, quando a perda é extensa, de reconstrução com enxerto. O calor é contraindicado porque a atividade da toxina aumenta com a temperatura, ao contrário do frio, que é utilizado como medida local. Antibiótico entra apenas quando há infecção secundária documentada, e não como rotina profilática prolongada.
Qual conduta deve ser evitada no atendimento inicial de um acidente por animal peçonhento?
Torniquete agrava a isquemia e concentra o veneno, e incisões ou sucção abrem porta para infecção e sangramento sem remover toxina alguma, motivos pelos quais essas práticas foram abandonadas em todos os acidentes por peçonhentos. O manejo correto é simples: limpeza, elevação, analgesia, atualização antitetânica quando indicada e transporte rápido para onde exista o soro, já que o tempo até a soroterapia é o principal determinante modificável do desfecho.
Sobre a prevenção de acidentes por aranha-marrom em domicílio, qual orientação é a mais apropriada?
A aranha-marrom não é agressiva e pica quando comprimida contra o corpo, tipicamente ao vestir roupa guardada ou ao deitar em cama encostada na parede, de modo que as medidas eficazes atacam exatamente esse contato acidental e os abrigos que ela usa. Aplicar inseticida em roupas de cama expõe a criança a produto químico sem eliminar os abrigos, e acumular entulho, mesmo afastado, mantém o criadouro próximo à residência.
Criança de 3 anos picada por escorpião no pé, apresenta em 40 minutos vômitos repetidos, sialorreia, sudorese profusa, agitação e taquicardia. Qual a conduta?
Em crianças pequenas o escorpionismo pode evoluir rapidamente para manifestações sistêmicas por descarga adrenérgica e colinérgica, com risco de miocardite, edema agudo de pulmão e choque nas primeiras horas, e a presença de vômitos repetidos, sialorreia e sudorese já classifica o acidente como não leve, indicando soroterapia imediata e observação em ambiente monitorado. Tratar apenas a dor e liberar é a decisão que mais mata nesse tema.
Paciente com picada de aranha apresenta dor abdominal intensa com rigidez de parede, contraturas musculares generalizadas, sudorese, hipertensão e fácies contraída com trismo. Qual o agente provável?
O veneno da viúva-negra atua sobre terminações nervosas liberando neurotransmissores em massa, o que produz contraturas musculares dolorosas, sudorese, hipertensão e a expressão facial contraída característica, além de abdome em tábua que simula abdome agudo cirúrgico. Esse é o ponto que a prova cobra, porque pacientes já foram submetidos a laparotomia branca por esse quadro. O loxoscelismo, ao contrário, não cursa com contratura nem com dor abdominal.
Sobre a lesão cutânea do loxoscelismo, qual é a evolução natural característica?
A esfingomielinase do veneno desencadeia vasculite local com trombose de pequenos vasos, e o processo demora dias para se delimitar, o que explica a formação lenta da escara e a necessidade de esperar a demarcação antes de qualquer desbridamento. Operar cedo, quando a área ainda está se definindo, amplia a perda tecidual. A ausência de úlcera imediata é o que engana no atendimento inicial, quando a lesão ainda parece banal.
Criança picada por aranha-marrom evolui, no terceiro dia, com icterícia, urina escura, palidez intensa, queda da hemoglobina e elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática. Qual a forma clínica e a conduta?
A forma sistêmica do loxoscelismo é menos frequente que a cutânea, mas concentra-se justamente em crianças, e se manifesta por hemólise intravascular com icterícia, hemoglobinúria e risco de lesão renal aguda e coagulopatia. Ela exige soroterapia e suporte com hidratação e vigilância renal. Interpretar a urina escura como rabdomiólise ou a icterícia como quadro infeccioso é o erro que atrasa o antiveneno, cujo benefício é maior quanto mais precoce.
Homem de 41 anos, agricultor, é levado à UPA 40 minutos após ser picado por serpente no pé, com dor intensa, edema progressivo ascendente e sangramento no local da picada. Está consciente, PA 120x80 mmHg, com tempo de coagulação alterado. Não há necrose extensa. Qual é a conduta imediata?
Dor, edema local progressivo, sangramento e alteração de coagulação compõem o quadro típico de acidente botrópico, cujo tratamento é a soroterapia antibotrópica intravenosa, com dose conforme gravidade, e o acidente é de notificação compulsória. Torniquete e incisões estão proscritos por agravar isquemia, infecção e sangramento. Postergar o soro aguardando exames aumenta o risco de complicações hemorrágicas e renais. O acidente elapídico cursa com quadro neuroparalítico, sem edema local importante nem distúrbio de coagulação.
Menino de 5 anos é levado ao pronto-atendimento após picada de escorpião em domicílio há 40 minutos. Refere dor intensa no local. Ao exame, apresenta dor local importante, sem vômitos, sem sudorese profusa, com frequência cardíaca de 100 batimentos por minuto, pressão arterial normal e sem alterações neurológicas. Qual é a conduta correta?
O escorpionismo leve, com dor local isolada, é tratado com analgesia e observação, pois a criança pode evoluir para forma moderada ou grave nas primeiras horas, especialmente nessa faixa etária. A soroterapia é indicada nas formas moderada e grave, com manifestações sistêmicas como vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação, taquicardia importante ou edema pulmonar. Liberar em 30 minutos desconsidera a janela de evolução. Corticoide e anti-histamínico não neutralizam o veneno e não constituem tratamento específico.
Homem de 45 anos, trabalhador rural, chega à Unidade de Pronto Atendimento 3 horas após picada de serpente em perna direita durante roçada. Refere dor e edema progressivo do pé até o joelho, com equimose local e sangramento persistente no ponto da picada. Sangramento gengival espontâneo. PA 120x80 mmHg, FC 92 bpm, sem oligúria. Tempo de coagulação incoagulável. Qual é a conduta imediata?
Edema regional com sangramento e distúrbio de coagulação caracterizam acidente botrópico moderado a grave, cuja única terapêutica específica é o soro antibotrópico por via intravenosa, com hidratação e vigilância de complicações renais, disponível nos pontos de atendimento antiveneno do SUS. Torniquete agrava a isquemia e não substitui o antiveneno. Antibiótico isolado não neutraliza a peçonha nem corrige a coagulopatia. A via de administração do soro é sistêmica, nunca local, e o debridamento precoce é contraindicado.
Criança de 5 anos é levada à Unidade de Pronto Atendimento 40 minutos após picada de escorpião amarelo no pé. Apresenta dor local intensa, vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação, taquicardia de 150 bpm e taquipneia. Ausculta pulmonar com estertores em bases. Não há sinais de choque estabelecido, mas há sialorreia. Qual é a conduta imediata?
Manifestações sistêmicas como vômitos repetidos, sudorese, agitação, taquicardia e sinais de congestão pulmonar em criança caracterizam acidente escorpiônico moderado a grave, com indicação formal de soroterapia específica e monitorização, pelo risco de edema pulmonar e choque. Analgesia isolada se aplica a casos leves com sintomas apenas locais. Torniquete não tem indicação e agrava a lesão. Antibiótico não trata envenenamento e a alta precoce ignora o risco de deterioração rápida.
Criança de 3 anos é levada à unidade após picada de aranha marrom em membro superior há 8 horas. Apresenta dor local em queimação, eritema e área de palidez central com equimose ao redor. Não há febre, icterícia ou alteração de coloração da urina. Qual é a conduta?
O loxoscelismo cutâneo exige observação clínica e laboratorial pelo risco de evolução da lesão necrótica e de forma cutâneo-visceral com hemólise, com analgesia e avaliação da indicação de soro específico conforme gravidade e tempo de evolução. Liberar sem retorno impede detectar a forma sistêmica. O desbridamento precoce é contraindicado antes da delimitação da necrose. Antibiótico e corticoide não são tratamento específico do envenenamento.
Homem de 45 anos, agricultor, chega à Unidade de Pronto Atendimento duas horas depois de sofrer picada de serpente no dorso do pé direito enquanto trabalhava em área de mata. Apresenta dor local intensa, edema que progride até o joelho, equimose extensa e bolhas de conteúdo seroso no local da picada. Refere sangramento gengival espontâneo no trajeto. Sinais vitais estáveis, diurese presente e tempo de coagulação incoagulável. A serpente não foi capturada nem fotografada. Qual é a classificação e a conduta específica indicadas?
Dor e edema progressivos, equimose, bolhas e distúrbio de coagulação com sangramento à distância compõem o quadro clássico do acidente botrópico, o mais frequente no Brasil, e o tratamento é a soroterapia específica endovenosa, em número de ampolas definido pela gravidade, independentemente da identificação da serpente. O acidente crotálico cursa com pouca alteração local e predomínio de mialgia, ptose e urina escura, ausentes aqui. O acidente elapídico produz quadro neuroparalítico com mínima reação local, o inverso do descrito. O escorpionismo não provoca edema progressivo com bolhas nem incoagulabilidade sanguínea.
Homem de 33 anos é atendido em hospital de referência seis horas depois de picada por cascavel na perna esquerda. Refere mal-estar, mialgia generalizada intensa e visão turva, com dificuldade para manter os olhos abertos. Ao exame: ptose palpebral bilateral, fácies miastênica, dor à palpação das massas musculares e edema local discreto, sem necrose e sem bolhas. Relata urina escura, cor de refrigerante de cola. Creatinofosfoquinase muito elevada, potássio de 5,8 mEq/L e creatinina de 2,1 mg/dL. Além da soroterapia específica, qual é a medida de suporte prioritária?
O acidente crotálico produz rabdomiólise com mioglobinúria, e a principal causa de morte tardia é a necrose tubular aguda, prevenida com hidratação venosa abundante mantendo diurese elevada e alcalinização da urina, além do soro anticrotálico. Restringir líquidos é o oposto do necessário e acelera a lesão renal. Não há síndrome compartimental no acidente crotálico, cujo componente local é discreto, e a fasciotomia só acrescenta sangramento e infecção. O corticoide não interrompe a mionecrose induzida pela toxina e não substitui a soroterapia.
Homem de 29 anos, extrativista, é levado a hospital de referência da região amazônica cerca de uma hora depois de picada por serpente de grande porte durante coleta em área de floresta. Apresenta dor e edema importantes no membro inferior direito, com sangramento persistente no ponto da picada. No trajeto evoluiu com vômitos, cólicas abdominais, diarreia e sudorese profusa. Ao exame: pressão arterial 84x50 mmHg, frequência cardíaca 46 bpm, tempo de coagulação alterado e miose. Qual é o tipo de acidente ofídico mais provável?
O acidente laquético, causado pela surucucu em área de floresta amazônica ou de mata atlântica, soma ao quadro hemorrágico e local semelhante ao botrópico uma síndrome de excitação vagal com bradicardia, hipotensão, vômitos, cólicas, diarreia e miose, exatamente a combinação descrita. O acidente botrópico produz o mesmo componente local e hemorrágico, mas não cursa com essa manifestação vagal proeminente. O acidente crotálico tem pouca reação local e predomina com mialgia, ptose e urina escura. O acidente elapídico é neuroparalítico puro, sem edema, sangramento ou alteração da coagulação.
Adolescente de 15 anos é trazido à Unidade de Pronto Atendimento 90 minutos depois de ser picado por serpente com anéis coloridos em vermelho, preto e branco, enquanto remexia pilha de lenha no quintal. A dor local é mínima e não há edema significativo nem sangramento. Evoluiu com ptose palpebral bilateral, diplopia, disfagia e voz anasalada. Ao exame: consciente, saturação de oxigênio de 94% em ar ambiente, respiração superficial, força preservada nos membros e tempo de coagulação normal. Qual é a conduta imediata?
O quadro neuroparalítico descendente com mínima reação local e coagulação normal caracteriza o acidente elapídico, que exige soro antielapídico o mais precocemente possível e vigilância intensiva da ventilação, pois a evolução para insuficiência respiratória é a causa de morte. Os soros são específicos por gênero, e o antibotrópico não neutraliza a neurotoxina elapídica. Considerar o acidente benigno é o erro mais grave possível, porque a paralisia pode progredir em poucas horas. O anticolinesterásico pode ser adjuvante em alguns venenos elapídicos, mas nunca substitui a soroterapia específica.
Menina de 4 anos é levada ao pronto-socorro 40 minutos depois de picada por escorpião amarelo na mão direita, enquanto brincava no quintal. Apresentou dor local intensa e, na última meia hora, vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e sialorreia. Ao exame: taquipneica, frequência respiratória de 44 irpm, frequência cardíaca 168 bpm, pressão arterial 100x60 mmHg, extremidades frias, estertores crepitantes bilaterais e ritmo de galope à ausculta cardíaca. Qual é a conduta indicada?
Vômitos incoercíveis, sudorese, taquicardia, edema pulmonar e sinais de disfunção miocárdica classificam o escorpionismo como grave em criança, situação em que a soroterapia antiescorpiônica ou antiaracnídica deve ser administrada com urgência em serviço com suporte ventilatório e monitorização, junto com a analgesia. Restringir a conduta à analgesia é apropriado apenas nos casos leves, com dor isolada, o que não é o caso. Corticoide e anti-histamínico servem para reações à soroterapia e não neutralizam a toxina. O soro antibotrópico não tem ação sobre o veneno de escorpião, pois a soroterapia é específica por animal.
Mulher de 36 anos procura a Unidade Básica de Saúde com lesão dolorosa na coxa esquerda, iniciada há três dias, logo depois de vestir roupa guardada por meses no armário. A lesão evoluiu com área central escurecida cercada por halo pálido e, mais externamente, halo eritematoso, com bordas irregulares. Refere febre baixa e mal-estar. Ao exame: placa endurecida de cerca de 6 cm, sem flutuação nem secreção, urina de aspecto normal e ausência de icterícia. Qual é a hipótese diagnóstica e a conduta indicada?
A lesão marmórea com placa livedoide, halo pálido de isquemia e halo eritematoso, surgida após contato com roupa guardada e com evolução arrastada de dias, é característica do acidente por aranha marrom, que exige avaliação em serviço de referência para indicação de soroterapia e pesquisa da forma cutâneo-visceral com hemólise. O acidente por aranha armadeira produz dor intensa imediata e não evolui com necrose. A erisipela apresenta placa eritematosa quente de bordas bem delimitadas e progressão em horas, sem centro isquêmico. A leishmaniose tegumentar dá úlcera indolor de bordas elevadas após semanas a meses, incompatível com o início relatado.
Homem de 40 anos chega à Unidade de Pronto Atendimento 30 minutos depois de ser picado por aranha marrom-escura, grande e com pelos, encontrada dentro do sapato ao calçá-lo. Queixa-se de dor local intensa, irradiada para a perna, com sensação de queimação. Ao exame: pequeno ponto de inoculação no dorso do pé, com edema e eritema discretos, sem necrose e sem sangramento; pressão arterial 130x80 mmHg, frequência cardíaca 92 bpm, sem sudorese, vômitos, priapismo ou alteração neurológica. Qual é a conduta adequada?
O acidente por aranha armadeira é classificado como leve quando há apenas dor local, mesmo intensa, e o tratamento se resume a analgesia sistêmica e eventual infiltração anestésica local, com observação por algumas horas, sobretudo em crianças e idosos. A soroterapia só está indicada nos casos moderados e graves, com manifestações sistêmicas como vômitos, sudorese, priapismo, hipertensão ou edema pulmonar, ausentes neste paciente. A corticoterapia não previne necrose, e não há necrose esperada nesse tipo de acidente. O desbridamento não tem indicação em lesão sem tecido desvitalizado.
Homem de 50 anos, colhedor de erva-mate no Sul do país, procura hospital de referência 24 horas depois de encostar em agrupamento de lagartas no tronco de uma árvore. Apresentou ardência e queimação imediatas no antebraço e, hoje, notou gengivorragia, hematúria macroscópica e equimoses nos membros. Ao exame: lesões urticariformes no antebraço direito, pressão arterial 120x76 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm, sem sinais de choque. Exames: tempo de coagulação incoagulável, fibrinogênio muito reduzido e contagem de plaquetas normal. Qual é a conduta específica?
O contato com lagartas do gênero Lonomia produz síndrome hemorrágica por consumo de fibrinogênio, com incoagulabilidade e plaquetas tipicamente preservadas, e o tratamento específico é o soro antilonômico, disponibilizado pelo Ministério da Saúde em serviços de referência. O soro antiaracnídico cobre aranhas e escorpiões e não neutraliza a toxina da taturana. Transfundir plaquetas não corrige o defeito, já que a contagem está normal e o problema é o consumo de fatores. Vitamina K e plasma podem ser suporte transitório em sangramento grave, mas não neutralizam o veneno circulante nem substituem a soroterapia.
Homem de 58 anos é trazido ao pronto-socorro pelo serviço de urgência depois de ser atacado por enxame de abelhas africanizadas durante roçada, com mais de duzentas ferroadas em tronco e membros. Não tem história prévia de alergia a insetos. Ao exame: consciente, referindo dor generalizada, com múltiplas lesões puntiformes e ferrões ainda visíveis, pressão arterial 100x60 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, sem estridor, urticária generalizada ou broncoespasmo. Refere urina escura; creatinofosfoquinase e potássio estão elevados. Qual é a conduta prioritária?
O ataque maciço por abelhas configura envenenamento sistêmico, e não reação alérgica, com rabdomiólise, hemólise, hipercalemia e risco de lesão renal aguda, de modo que a prioridade é retirar os ferrões, hidratar de forma vigorosa e monitorizar função renal, eletrólitos e ritmo cardíaco. A adrenalina se destina à anafilaxia, quadro ausente aqui, e a alta precoce ignora a evolução tardia da lesão renal. Anti-histamínico e corticoide isolados não tratam a toxicidade sistêmica do veneno. A hemodiálise pode vir a ser necessária, mas não antes da reposição volêmica e apenas diante de indicação dialítica estabelecida.
Homem de 39 anos comparece à Unidade Básica de Saúde após ser picado por escorpião amarelo no pé, há uma hora, enquanto calçava a bota na área rural. Refere dor local intensa e queimação. Ao exame: consciente, orientado, dor intensa no local da picada com discreto eritema, sem sudorese profusa, sem vômitos, sem taquicardia significativa; FC 84 bpm, PA 126x78 mmHg, FR 16 ipm, temperatura 36,5 °C, ausculta cardíaca e pulmonar normais, sem sialorreia. Glicemia capilar 98 mg/dL. A conduta correta é:
Acidente escorpiônico com manifestação apenas local, mesmo doloroso, é classificado como leve, e a conduta é analgesia, observação por período suficiente para detectar sinais sistêmicos e notificação, sem soroterapia. Soro antiveneno é reservado a casos moderados e graves, com manifestações sistêmicas como vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação, arritmias ou edema pulmonar, sobretudo em crianças. Liberar sem observação impede a detecção precoce de evolução sistêmica, que pode ocorrer nas primeiras horas. Torniquete e incisão local são condutas proscritas, pois aumentam lesão tecidual e risco de infecção sem qualquer benefício.
Homem de 41 anos comparece à Unidade Básica de Saúde com lesão em coxa direita iniciada há três dias, no local onde acredita ter sido picado por uma aranha dentro de um armário. Refere dor em queimação progressiva. Ao exame: placa marmórea com halo isquêmico central e áreas de equimose, com cerca de 5 cm, endurecida e dolorosa, sem flutuação ou secreção purulenta; temperatura 37,9 °C, sem icterícia, urina de coloração normal. Exames iniciais: hemograma sem alterações relevantes, função renal normal. A conduta correta é:
Lesão com placa marmórea, halo isquêmico e equimose, de evolução progressiva e muito dolorosa, após picada em ambiente doméstico, é característica de loxoscelismo cutâneo, exigindo notificação, encaminhamento para avaliação em serviço de referência e vigilância da forma cutâneo-visceral, com hemólise e insuficiência renal. Antibiótico isolado não trata a necrose por veneno dermonecrótico. Desbridamento amplo precoce não é recomendado, pois a lesão ainda está em evolução e a demarcação leva dias. Corticoide intralesional sem seguimento e sem notificação ignora o risco sistêmico e a vigilância obrigatória.
Homem de 52 anos é levado à Unidade Básica de Saúde três horas após ser picado por serpente em área rural. Refere dor discreta no local. Ao exame: edema local moderado em pé direito, sem bolhas ou necrose, ptose palpebral bilateral, diplopia, fácies miastênica, mialgia generalizada intensa, urina de coloração escura semelhante a refrigerante de cola. PA 128x80 mmHg, FC 88 bpm, saturação 97%, diurese presente. A serpente foi descrita como tendo guizo na cauda. A conduta correta é:
Edema local discreto, fácies miastênica com ptose e diplopia, mialgia intensa e urina escura por mioglobinúria caracterizam acidente crotálico, que exige soroterapia específica o quanto antes, hidratação vigorosa para prevenir insuficiência renal por rabdomiólise e notificação, com transporte imediato. Torniquete e incisão são condutas proscritas, pois aumentam lesão local e risco de infecção sem reduzir a absorção do veneno. Aguardar 24 horas permite instalação de lesão renal e falência neuromuscular. Soro antibotrópico não neutraliza veneno crotálico e não trata o quadro descrito.
Mulher de 34 anos comparece à Unidade Básica de Saúde referindo que, há dois dias, uma lagarta caiu em seu braço durante trabalho em plantação. Apresenta dor local intensa e, hoje, notou sangramento gengival espontâneo e equimoses em locais sem trauma. Ao exame: eritema e edema em antebraço com pontos de contato, equimoses em membros, sangramento gengival ativo discreto, PA 116x74 mmHg, FC 92 bpm, sem hematúria macroscópica visível. Exames iniciais: tempo de coagulação muito prolongado, plaquetas normais. A conduta correta é:
Contato com lagartas do gênero Lonomia pode causar síndrome hemorrágica por consumo de fatores de coagulação, evidenciada aqui por tempo de coagulação muito prolongado com plaquetas normais e sangramentos espontâneos; a conduta é encaminhamento urgente para soro antilonômico, evitar fármacos que agravem a hemostasia e notificar. Analgésico e corticoide tópico não tratam a coagulopatia. Transfusão de plaquetas não corrige o distúrbio, que é de fatores de coagulação, e não substitui o antiveneno. Anti-inflamatório não esteroidal agrava o risco hemorrágico e é francamente contraindicado.
Homem de 47 anos é atendido na Unidade de Pronto Atendimento após ser picado por serpente em membro inferior direito, há duas horas, durante trabalho em roça. Ao exame, o membro está edemaciado até o joelho, com equimose local, dor intensa e bolhas hemorrágicas. Ele apresenta pressão arterial de 108x64 mmHg, frequência cardíaca de 104 bpm e sangramento gengival discreto. O tempo de coagulação está prolongado e as plaquetas estão em 90.000/mm³. Os pulsos pediosos são palpáveis. A conduta correta inclui
O tratamento do acidente ofídico com manifestações hemorrágicas e alteração da coagulação é a soroterapia antiveneno específica em dose determinada pela gravidade, associada a monitorização do compartimento e suporte clínico. Torniquete e incisões locais aumentam a necrose e a infecção sem remover o veneno. Heparina agrava o sangramento e não corrige a coagulopatia induzida pelo veneno. Aguardar a normalização espontânea da coagulação é conduta perigosa, pois somente a soroterapia neutraliza o veneno circulante.
Homem de 34 anos, trabalhador rural, chega ao pronto-socorro 1 hora após picada em perna direita por serpente que descreve como tendo cabeça triangular e fosseta loreal. Ao exame apresenta PA 118x74 mmHg, FC 104 bpm, dor intensa, edema progressivo e equimose no local da picada, com dois pontos de inoculação e sangramento persistente pelo ferimento. Os exames mostram tempo de coagulação alterado, com plaquetas normais e função renal preservada, sem sinais de choque no momento. A conduta correta é:
O acidente botrópico cursa com dor, edema progressivo, equimose e distúrbio de coagulação, e o tratamento é a soroterapia antibotrópica em número de ampolas conforme a gravidade, com hidratação, elevação do membro, analgesia, cuidado local e notificação compulsória. Torniquete e incisão local aumentam necrose e infecção, sendo condutas proscritas. Analgesia e antibiótico não neutralizam o veneno circulante. Aguardar a piora desperdiça a janela em que a soroterapia previne complicações hemorrágicas e renais.
Homem de 45 anos chega ao pronto-socorro 3 horas após picada de serpente em zona rural, referindo pouca dor local. Ao exame apresenta PA 126x78 mmHg, FC 92 bpm, edema discreto no local da picada, ptose palpebral bilateral, visão turva, dificuldade para manter a cabeça erguida, mialgia generalizada intensa e urina escurecida. Os exames mostram creatinoquinase muito elevada e alteração do tempo de coagulação, sem sinais de sangramento ativo e com função renal ainda preservada. A hipótese e a conduta corretas são:
Fácies miastênica com ptose palpebral, mialgia intensa, urina escurecida por mioglobinúria e creatinoquinase muito elevada, com dor local discreta, caracterizam acidente crotálico, tratado com soro anticrotálico, hidratação vigorosa e monitorização da função renal pelo risco de lesão renal aguda. O acidente botrópico cursa com dor e edema locais intensos e equimose. O acidente escorpiônico provoca dor local intensa e manifestações sistêmicas cardiovasculares, sem ptose e rabdomiólise desse padrão. Reação alérgica não produz mioglobinúria nem paralisia de músculos cranianos.
Criança de 6 anos é levada ao pronto-socorro 40 minutos após picada de escorpião amarelo dentro de casa. Ao exame apresenta dor local intensa, agitação, sudorese profusa, vômitos repetidos, sialorreia, taquicardia de 148 bpm, PA 138x88 mmHg, FR 34 ipm, tremores e extremidades frias, com ausculta pulmonar mostrando estertores em bases e saturação de 92% em ar ambiente. A criança pesa 20 kg e o serviço dispõe de soro antiescorpiônico. A conduta correta é:
O acidente escorpiônico moderado a grave em criança, com vômitos repetidos, sudorese, sialorreia, taquicardia, hipertensão e sinais de edema pulmonar, exige soroterapia antiescorpiônica específica, monitorização em ambiente com suporte e tratamento das manifestações sistêmicas, pois a criança é o grupo de maior letalidade. Apenas analgesia com alta precoce é adequada ao acidente leve, e não ao quadro descrito. Torniquete e incisão são condutas proscritas. Corticoide não neutraliza o veneno nem substitui a soroterapia.
Homem de 38 anos procura o pronto-socorro com lesão dolorosa na coxa surgida há 3 dias, após acordar com sensação de ferroada ao vestir roupa guardada há tempos no armário. Ao exame apresenta temperatura axilar 37,8 °C, PA 124x78 mmHg, lesão de cerca de 6 cm com área central escurecida e endurecida, halo pálido e periferia eritematosa, com aspecto de placa marmórea e bolha, além de dor intensa. A urina está escurecida e o hemograma mostra anemia com elevação de bilirrubina indireta. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Lesão com placa marmórea, área central de necrose, halo pálido e periferia eritematosa, associada a hemólise com urina escurecida e anemia, após contato com roupas guardadas, caracteriza loxoscelismo cutâneo-visceral, que exige soroterapia específica conforme gravidade, suporte, hidratação e vigilância da função renal. A celulite bacteriana cursa com eritema difuso, calor e febre, sem placa marmórea e sem hemólise. O acidente escorpiônico provoca dor intensa imediata sem necrose cutânea desse padrão. A erisipela apresenta placa eritematosa de bordas nítidas, sem necrose central e sem hemólise.
Homem de 52 anos é trazido ao pronto-socorro após ser atacado por enxame de abelhas em zona rural, com mais de cem ferroadas em tronco, membros e face. Ao exame apresenta PA 92x56 mmHg, FC 128 bpm, FR 28 ipm, saturação de 93% em ar ambiente, edema difuso, múltiplos ferrões visíveis na pele, vômitos e urina escurecida. Os exames mostram creatinoquinase muito elevada, potássio de 6,1 mEq/L e creatinina de 2,2 mg/dL, sem sinais de broncoespasmo importante no momento. A conduta prioritária é:
O envenenamento maciço por abelhas produz efeito tóxico dose-dependente com rabdomiólise, hemólise, hipercalemia e lesão renal aguda, exigindo remoção dos ferrões, hidratação vigorosa, tratamento da hipercalemia, monitorização da função renal e suporte intensivo, além de manejo de eventual anafilaxia. Anti-histamínico com alta precoce é conduta adequada a reações locais leves, não a esse quadro sistêmico. Corticoide e curativo isolados não tratam a toxicidade sistêmica. Aguardar sem intervir permite a progressão da lesão renal.
Gestante de 24 anos, com 30 semanas, é levada ao pronto-atendimento de município de região endêmica após acidente ofídico em atividade rural, com picada em membro inferior há duas horas. Ela apresenta dor local intensa, edema progressivo ascendente, equimose e sangramento gengival. Está consciente, com pressão arterial de 108x66 mmHg, frequência cardíaca de 100 bpm, sem sinais de choque, e o tempo de coagulação está alterado. Os batimentos cardiofetais estão normais e não há contrações uterinas ou sangramento vaginal. A conduta correta é
No acidente ofídico com manifestações sistêmicas e alteração da coagulação, a soroterapia antiveneno específica deve ser administrada conforme a classificação de gravidade, pois a gestação não contraindica o tratamento e o veneno representa risco maior para mãe e feto do que a soroterapia. Adiar por temor de anafilaxia é conduta inadequada, sendo o risco manejável em ambiente hospitalar. Analgesia e antibiótico não neutralizam o veneno. Resolver a gestação antes do tratamento específico não é indicado.
Menino de 8 anos é levado à Unidade de Pronto Atendimento após picada de escorpião amarelo na mão esquerda há uma hora. Apresenta dor local intensa, sem outros sintomas. Ao exame: dor intensa no local da picada, sem vômitos, sem sudorese, sem sialorreia, sem agitação, com frequência cardíaca 92 bpm, pressão arterial adequada para a idade, ausculta cardiopulmonar normal e sem sinais de má perfusão. A criança está consciente e colaborativa. Qual é a conduta correta?
O escorpionismo com dor local isolada é classificado como leve e tratado com analgesia adequada, incluindo infiltração anestésica local quando necessário, com observação por algumas horas, sobretudo em crianças, pelo risco de evolução para formas graves. Soroterapia se reserva às formas moderadas e graves, com manifestações sistêmicas. Corticoide e anti-histamínico servem para reações à soroterapia e não neutralizam a toxina. Liberar sem observação em criança impede a detecção precoce de piora.
Menino de 10 anos é levado ao pronto-socorro após picada de serpente no pé direito durante caminhada em área de mata, há três horas. Ao exame: dor intensa e edema que progride até o joelho, com equimose e formação de bolhas no local, além de sangramento gengival espontâneo. Sinais vitais estáveis, com diurese presente e sem alteração do sensório. O tempo de coagulação está incoagulável e a serpente não foi trazida nem fotografada pela família. Qual é a conduta correta?
Dor e edema progressivos, equimose, bolhas e distúrbio de coagulação com sangramento à distância caracterizam acidente botrópico, o mais frequente no país, cujo tratamento é a soroterapia específica em número de ampolas conforme a gravidade, independentemente da identificação do animal, associada a hidratação e monitorização. Aguardar a identificação retarda o antiveneno. Os soros são específicos por gênero e o anticrotálico não neutraliza o veneno botrópico. Torniquete e sucção são práticas proscritas que agravam a lesão.
Uma criança de 6 anos é levada à unidade de pronto atendimento 40 minutos após picada de escorpião amarelo no pé. Apresenta dor local intensa, vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação, taquicardia de 160 bpm, frequência respiratória de 40 irpm e crepitações pulmonares bilaterais. A pressão arterial é de 90x60 mmHg e a saturação, de 92% em ar ambiente. Não há sangramento nem rebaixamento do nível de consciência, e o eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal com alterações difusas da repolarização ventricular. Qual é a conduta imediata mais adequada?
Vômitos repetidos, sudorese, agitação, taquicardia e sinais de congestão pulmonar caracterizam escorpionismo grave em criança, indicando soroterapia específica endovenosa imediata e monitorização em ambiente com suporte avançado, pelo risco de edema agudo de pulmão e choque. Analgesia isolada é conduta apenas para casos leves com dor local sem manifestações sistêmicas. Corticoide e anti-histamínico tratam reações à soroterapia, não o envenenamento. Torniquete e incisão são práticas proscritas, pois agravam a lesão local sem qualquer benefício.
Um trabalhador rural de 44 anos chega à unidade de pronto atendimento duas horas após picada de serpente em área de pastagem. Apresenta dor discreta no local, sem edema significativo, mas relata visão turva e queda das pálpebras. Ao exame, há ptose palpebral bilateral, oftalmoplegia, mialgia generalizada e urina de coloração escura. Não há sangramento nem alteração de coagulação. A creatinofosfoquinase está muito elevada, o tempo de coagulação é normal, a diurese está reduzida desde a admissão e a serpente não foi trazida para identificação. Qual é o tipo de acidente e a conduta indicada?
Fácies miastênica com ptose e oftalmoplegia, mialgia intensa e urina escura por rabdomiólise, com pouca alteração local, caracteriza o acidente crotálico, que exige soro anticrotálico e hidratação vigorosa com controle da função renal. O acidente botrópico cursa com dor, edema e equimose proeminentes, além de distúrbio de coagulação, ausentes aqui. O laquético lembra o botrópico com manifestações vagais como bradicardia, hipotensão e diarreia. O elapídico causa quadro neuroparalítico sem rabdomiólise e sem urina escura, com risco de insuficiência respiratória.
Uma mulher de 36 anos procura a unidade básica de saúde com lesão dolorosa na coxa, iniciada há três dias após vestir roupa guardada em armário. Descreve dor em queimação progressiva, e ao exame há placa endurecida com áreas de palidez alternadas com equimose e halo eritematoso, medindo 6 cm, sem febre, sem icterícia e com urina de aspecto normal. A pressão arterial é de 120x80 mmHg, a temperatura axilar é de 36,7 °C e o hemograma não mostra anemia, plaquetopenia nem sinais de hemólise. Qual é a hipótese diagnóstica e a conduta inicial?
Lesão com placa marmórea, áreas de palidez e equimose, dor em queimação e história de contato com roupa guardada é característica do loxoscelismo cutâneo, que indica soroterapia específica nos casos definidos, analgesia, cuidado local e vigilância da forma cutâneo-visceral com hemólise. Celulite bacteriana cursa com eritema homogêneo, calor e frequentemente febre, sem o padrão marmóreo descrito. Reação alérgica a inseto não produz necrose isquêmica progressiva. Tromboflebite superficial se manifesta como cordão venoso doloroso, com trajeto linear e sem placa marmórea.
Homem, 25 anos, procura a UBS 4 horas após ser picado por serpente no pé direito, durante trabalho na roça. Refere dor e edema progressivo até o joelho, com equimose local e sangramento persistente no ponto da picada. PA 120/80 mmHg, FC 88 bpm, diurese preservada, sem oligúria. Tempo de coagulação incoagulável. Não trouxe o animal. Qual a conduta correta?
Dor e edema locais progressivos, equimose e sangramento no ponto da picada com incoagulabilidade compõem o quadro clássico de acidente botrópico, e o edema que ultrapassa dois segmentos do membro classifica o acidente como moderado, cuja soroterapia é de 8 ampolas de soro antibotrópico. O acidente crotálico caracteriza-se por manifestações neuroparalíticas e mialgia com urina escura por rabdomiólise, com pouca alteração local, o que não corresponde ao edema exuberante descrito. O acidente elapídico produz fácies miastênica e insuficiência respiratória, sem sangramento nem alteração de coagulação. Deixar de soroterapizar por não haver o animal é erro grave: a classificação é clínica, e o quadro já está definido. O acidente lonômico decorre do contato com lagartas, não de picada de serpente, embora também curse com discrasia.
Homem, 35 anos, apresenta há 36 horas dor intensa e progressiva na coxa direita, iniciada após sentir uma ferroada ao vestir uma calça guardada. Exame: placa de 8 cm com centro violáceo e necrótico, halo pálido e periferia eritematosa, com aspecto marmóreo, muito dolorosa. T 38,0 °C. Hb 12,8 g/dL (VR 13,5–17,5), plaquetas normais, creatinina 1,0 mg/dL (VR 0,7–1,3), urina sem hemoglobinúria. Qual o agente causador mais provável?
A lesão com placa marmórea — centro necrótico violáceo, halo pálido de vasoconstrição e periferia eritematosa —, dor progressiva e história de acidente ao vestir roupa guardada é típica do loxoscelismo cutâneo, causado por aranhas do gênero Loxosceles, popularmente aranha-marrom. O escorpionismo por Tityus causa dor imediata e intensa no ponto da picada, sem necrose extensa em placa. A picada de Phoneutria provoca dor imediata excruciante com sinais autonômicos, também sem necrose característica. O acidente botrópico cursa com edema, equimose, sangramento e coagulopatia, com alteração do tempo de coagulação. O acidente por Lonomia manifesta-se por síndrome hemorrágica sistêmica após contato com cerdas de lagarta, sem lesão necrótica em placa marmórea.
Homem, 43 anos, trabalhador rural do Sul do país, encostou-se ao tronco de uma árvore e sentiu queimação intensa no antebraço. Após 12 horas, apresenta equimoses extensas em locais distantes do contato, gengivorragia e hematúria. Exame: eritema e queimadura no local do contato, com múltiplas equimoses no tronco. Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada incoaguláveis; fibrinogênio indetectável; plaquetas 190.000/mm³ (VR 150.000–400.000). Qual o agente e a conduta específica?
Contato com lagarta em tronco de árvore seguido de síndrome hemorrágica sistêmica com consumo de fibrinogênio e coagulograma incoagulável, mantendo plaquetas normais, é o quadro do acidente por Lonomia, cujo tratamento específico é o soro antilonômico. O loxoscelismo cursa com lesão necrótica em placa marmórea e, na forma sistêmica, com hemólise, não com esse consumo isolado de fibrinogênio após contato com árvore. O acidente botrópico produz edema, equimose e coagulopatia, mas há história de picada por serpente com marca de presas. O escorpionismo causa dor local intensa e manifestações autonômicas e cardíacas, sem coagulopatia de consumo. O acidente com abelhas cursa com múltiplas ferroadas, anafilaxia ou síndrome tóxica com rabdomiólise.
Menino, 7 anos, é picado por escorpião amarelo há 40 minutos e chega ao serviço com dor local intensa, vômitos repetidos, sudorese profusa, agitação e taquicardia. PA 132/86 mmHg, FC 152 bpm, FR 32 ipm. Ao exame, apresenta sialorreia, tremores e priapismo, com ausculta cardíaca mostrando ritmo taquicárdico regular. Não há sinais de edema pulmonar até o momento, mas o estado geral está comprometido e há agitação psicomotora importante. Qual a conduta indicada?
Manifestações sistêmicas após picada de escorpião — vômitos repetidos, sudorese, agitação, sialorreia, taquicardia e priapismo — caracterizam envenenamento moderado a grave em criança, indicando soroterapia antiescorpiônica específica e monitorização em ambiente com suporte avançado, pelo risco de edema agudo de pulmão e choque. Analgesia isolada é adequada apenas em casos leves com dor local exclusiva. O corticoide não neutraliza o veneno. O antibiótico profilático não tem indicação, pois não se trata de infecção. O anti-histamínico com alta imediata deixaria uma criança com envenenamento sistêmico sem antídoto e sem vigilância em período de risco de deterioração rápida.
Mulher, 27 anos, com 30 semanas, é picada por serpente do gênero Bothrops em membro inferior há 3 horas. Apresenta edema progressivo do membro, equimose, bolhas e sangramento no local da picada, além de gengivorragia. PA 100/60 mmHg, FC 110 bpm. Tempo de coagulação incoagulável, plaquetas 96.000/mm³ (VR 150.000–450.000), fibrinogênio muito reduzido. Cardiotocografia com desacelerações ocasionais. Qual a conduta correta?
A conduta correta é administrar o soro antibotrópico específico sem demora, na dose determinada pela gravidade do envenenamento e não pelo peso ou pela condição gestacional, associando suporte clínico, correção da coagulopatia e vigilância fetal contínua, pois o antiveneno é o único tratamento capaz de neutralizar o veneno circulante. Contraindicar o soro na gestação é erro grave, pois o envenenamento não tratado ameaça mãe e feto. Aguardar a normalização espontânea da coagulação permite a progressão da coagulopatia e do sangramento. Realizar cesariana antes do antiveneno, em paciente com coagulopatia grave, é conduta de altíssimo risco hemorrágico. Administrar apenas hemocomponentes sem o antiveneno não interrompe o consumo, pois o veneno continua ativo.
Menino, 10 anos, morador de zona rural, foi picado por serpente no pé há 4 horas. Apresenta dor intensa, edema que progride até o joelho, equimose e bolhas locais. FC 112 bpm, PA 106x64 mmHg, T 37,0 °C, diurese presente. Tempo de coagulação incoagulável; plaquetas 120.000/mm³ (VR 150.000–400.000); creatinina 0,7 mg/dL (VR 0,4–1,0). Não há sangramento sistêmico nem ptose ou oftalmoplegia. Qual a conduta indicada?
Soro antibotrópico endovenoso, com número de ampolas conforme a gravidade, é a conduta indicada: dor, edema progressivo, equimose, bolhas e incoagulabilidade caracterizam acidente botrópico, cujo tratamento específico é a soroterapia por via venosa. O soro antielapídico se destina ao acidente por coral, que cursa com quadro neurotóxico e sem alterações locais expressivas. O torniquete agrava a isquemia e a necrose e é formalmente contraindicado. O antibiótico isolado não neutraliza o veneno. A infiltração local do soro é ineficaz e não substitui a administração endovenosa.
Menina, 8 anos, apresenta lesão dolorosa na coxa há 3 dias, iniciada após vestir roupa guardada em armário. A lesão evoluiu de eritema para placa com centro violáceo e halo pálido, hoje com bolha central. FC 98 bpm, T 37,8 °C. Não há icterícia ou colúria. Hemoglobina 12,4 g/dL (VR 11,5–15,5); bilirrubina total 0,8 mg/dL (VR até 1,2); urina sem hemoglobinúria; função renal normal. Qual o diagnóstico e a conduta?
Trata-se de loxoscelismo cutâneo, tratado com cuidados locais, analgesia e vigilância: a placa marmórea com centro violáceo e halo pálido após contato com roupa guardada é característica da picada de aranha-marrom, e a ausência de hemólise e de alteração renal afasta a forma cutâneo-visceral. O acidente crotálico cursa com fácies miastênica e mialgia, sem lesão local expressiva. O escorpionismo grave produz manifestações sistêmicas precoces com vômitos e taquicardia. O acidente botrópico cursa com edema progressivo e incoagulabilidade. A erisipela bolhosa teria bordas bem delimitadas, sem o padrão marmóreo descrito.
Menino, 9 anos, foi picado por serpente em zona rural há 3 horas, com dor intensa e edema progressivo em perna direita, que se estende até a coxa, com equimose e bolhas. Exame: T 37,2 °C, PA 100/60 mmHg, FC 110 bpm, edema com aumento de 6 cm de circunferência, sangramento persistente no local da picada e gengivorragia. Tempo de coagulação incoagulável; plaquetas 90.000/mm³; creatinina 1,0 mg/dL. Qual a conduta indicada?
Edema progressivo, equimose, bolhas e distúrbio da coagulação com sangramento à distância caracterizam acidente botrópico moderado a grave, cujo tratamento é a soroterapia antibotrópica intravenosa em número de ampolas conforme a gravidade, associada a hidratação e monitorização da função renal. A analgesia isolada não neutraliza o veneno circulante. Torniquete e incisão local agravam a isquemia e o sangramento, sendo condutas proscritas. O antibiótico trata infecção secundária eventual, mas não substitui o soro. O corticoide é usado apenas para reações à soroterapia, não como tratamento do envenenamento.
Menina, 5 anos, foi picada por escorpião amarelo há 2 horas e evoluiu com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e prostração. Exame: PA 140/90 mmHg, FC 168 bpm, FR 44 ipm, SatO2 89%, estertores crepitantes difusos, sialorreia, extremidades frias, dor local intensa. Radiografia de tórax com congestão pulmonar; troponina elevada; ecocardiograma com disfunção ventricular esquerda. Qual a conduta indicada?
Vômitos incoercíveis, sudorese, taquicardia, edema pulmonar e disfunção miocárdica caracterizam acidente escorpiônico grave em criança, que exige soroterapia específica o mais precocemente possível e suporte em terapia intensiva. A analgesia local isolada é conduta do acidente leve, com dor sem manifestações sistêmicas. A adrenalina com alta precoce é inadequada e perigosa em paciente com disfunção miocárdica. O corticoide não neutraliza o veneno nem reverte a cardiotoxicidade. A hidratação vigorosa como medida principal pode agravar o edema pulmonar já instalado.
Menino, 10 anos, apresenta lesão dolorosa em coxa há 3 dias, iniciada após dormir em cama encostada na parede. A lesão evoluiu com área central escurecida e halo pálido, envolta por eritema. Exame: T 38,0 °C, placa marmórea de 6 cm com necrose central, sem crepitação, FC 100 bpm, PA 104/62 mmHg. Hemoglobina 11,8 g/dL; sem hemoglobinúria; creatinina normal; leucócitos 14.000/mm³. Qual o agente mais provável?
Lesão de evolução lenta com placa marmórea, necrose central e halo pálido após contato domiciliar noturno caracteriza loxoscelismo cutâneo, causado pela aranha-marrom, devendo-se vigiar a forma cutâneo-visceral com hemólise. O acidente por aranha-armadeira provoca dor intensa imediata, sem necrose progressiva. O acidente escorpiônico causa dor local intensa e manifestações sistêmicas precoces, sem placa necrótica. O acidente botrópico cursa com edema progressivo e distúrbio de coagulação nas primeiras horas. O acidente por lagarta do gênero Lonomia provoca síndrome hemorrágica com incoagulabilidade, ausente neste caso.
Homem, 34 anos, lavrador, picado em mão direita por serpente há três horas. Apresenta edema progressivo ascendente até o cotovelo, dor intensa, equimose local e sangramento em gengivas. PA 118/72 mmHg, FC 104 bpm. Tempo de coagulação incoagulável, plaquetas de 92.000/mm3 (VR 150.000–450.000) e creatinina de 1,4 mg/dL (VR 0,7–1,3). Não há alterações neurológicas ou mialgia generalizada. Qual o acidente mais provável e o tratamento indicado?
Edema local progressivo, dor, equimose e distúrbio de coagulação com sangramento gengival compõem o quadro clássico do acidente botrópico, tratado com soro antibotrópico em número de ampolas conforme a gravidade. O acidente crotálico cursa com fácies miastênica, mialgia intensa e urina escura por rabdomiólise, com pouca reação local. O acidente elapídico produz quadro neuroparalítico sem alteração local significativa. O acidente laquético associa manifestações locais a sintomas vagais como bradicardia e diarreia. O escorpionismo não provoca coagulopatia com incoagulabilidade sanguínea.
Homem, 40 anos, trabalhador rural, foi picado no pé direito há 4 horas por serpente que descreve como marrom com desenhos triangulares. Apresenta dor intensa, edema que progride até a coxa, equimose e sangramento persistente pelo ponto da picada. PA 108x68 mmHg, FC 104 bpm. Tempo de coagulação incoagulável; plaquetas 96.000/mm3 (VR 150.000-400.000); creatinina 1,4 mg/dL (VR 0,6-1,3). Qual a classificação e a conduta indicada?
Trata-se de acidente botrópico grave, definido pelo edema extenso que ultrapassa dois segmentos do membro, sangramento sistêmico e incoagulabilidade, exigindo soro antibotrópico endovenoso em dose plena e precoce. A classificação como crotálico é incompatível, pois esse acidente cursa com fácies miastênica, mialgia e urina escura, com pouca reação local. O acidente elapídico produz bloqueio neuromuscular sem alteração local ou distúrbio de coagulação, e sempre exige soroterapia. O acidente laquético cursa com manifestações vagais como bradicardia e diarreia, e o torniquete é formalmente contraindicado em qualquer acidente ofídico. Classificar como leve ignora a incoagulabilidade e a progressão do edema.
Homem, 42 anos, trabalhador rural, foi picado por serpente em perna direita há 3 horas. Exame: T 36,8 °C, PA 112x70 mmHg, FC 98 bpm, dor intensa, edema importante e progressivo do membro, equimose local, sangramento pelo ponto de inoculação e gengivorragia. Tempo de coagulação prolongado; plaquetas normais. O animal foi descrito como tendo fosseta loreal e cauda com escamas eriçadas. Qual a conduta mais adequada?
Quadro local intenso com edema progressivo, equimose e sangramento, associado a distúrbio da coagulação e descrição compatível com serpente do gênero Bothrops, caracteriza acidente botrópico, cujo tratamento é a soroterapia antibotrópica endovenosa em número de ampolas conforme a gravidade, associada a hidratação, analgesia, elevação do membro e vigilância de complicações como lesão renal aguda e síndrome compartimental. Torniquete e incisões locais são condutas proscritas, pois agravam a lesão tecidual e o sangramento. Aguardar identificação laboratorial retarda o único tratamento específico. Antibiótico e analgesia isolados não neutralizam o veneno. O soro antielapídico destina-se a acidentes por corais, cujo quadro é neurotóxico e sem alterações locais significativas.
Criança do sexo masculino, 5 anos, picada por escorpião há 90 minutos, apresenta vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e sialorreia. Exame: T 36,8 °C, FC 148 bpm, PA 138x88 mmHg, FR 38 ipm, estertores difusos, extremidades frias, dor intensa no local da picada. Radiografia de tórax com congestão pulmonar; ecocardiograma mostra disfunção sistólica com fração de ejeção reduzida. Qual a conduta mais adequada?
Criança com manifestações sistêmicas graves após picada de escorpião — vômitos incoercíveis, sudorese, agitação, taquicardia, hipertensão, edema pulmonar e disfunção miocárdica — apresenta acidente grave, e o tratamento é a soroterapia antiescorpiônica endovenosa o mais precocemente possível, associada a suporte intensivo com monitorização cardíaca e manejo do edema pulmonar. Analgesia isolada é adequada apenas em acidentes leves com manifestações puramente locais. Corticoide e anti-histamínico não neutralizam o veneno. Torniquete e incisões locais são condutas proscritas por agravarem a lesão local sem benefício. Aguardar a identificação do animal retarda o único tratamento específico em quadro de evolução rápida e potencialmente fatal em crianças.
Mulher, 34 anos, relata dor discreta em coxa direita ao vestir roupa guardada há meses, evoluindo em 48 horas com lesão dolorosa que apresenta área central escurecida, cercada por halo pálido e halo eritematoso. T 37,5 graus Celsius, PA 118x74 mmHg. Não há icterícia, urina escura ou sinais sistêmicos. Hemoglobina e função renal normais, sem alteração de coagulação nos exames iniciais. Qual o diagnóstico e a conduta?
O loxoscelismo cutâneo é o diagnóstico, sugerido pela lesão com placa marmórea, isto é, área central escurecida cercada por halo pálido e halo eritematoso, após contato com roupa guardada, sendo a conduta os cuidados locais, analgesia e vigilância de hemólise e disfunção renal. O acidente botrópico cursa com edema progressivo e distúrbio de coagulação. A fasciíte necrotizante cursaria com toxemia e dor desproporcional com crepitação. O herpes-zóster produz vesículas agrupadas em dermátomo. O antraz apresenta escara negra com edema importante e vesículas satélites, em contexto ocupacional distinto.
Menino de 5 anos foi picado por escorpião há 2 horas e evolui com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e sialorreia. T 36,8 graus Celsius, PA 92x54 mmHg, FC 152 bpm, FR 38 ipm. Há taquipneia com estertores em bases e sinais de má perfusão periférica. A dor local é intensa. O eletrocardiograma mostra alterações da repolarização ventricular e a troponina está elevada. Qual a conduta indicada?
O soro antiescorpiônico endovenoso associado a suporte intensivo e analgesia é a conduta no acidente escorpiônico grave em criança, sinalizado por vômitos incoercíveis, sudorese, agitação, taquicardia, sinais de edema pulmonar e miocardite. A analgesia isolada é adequada apenas em casos leves, com manifestações locais. O torniquete e a incisão são formalmente contraindicados em qualquer acidente por animais peçonhentos. O corticoide não neutraliza o veneno. A observação domiciliar é inaceitável em criança com manifestações sistêmicas graves.
Homem, 31 anos, foi picado no dedo da mão há 3 horas por serpente descrita como pequena, com anéis coloridos vermelhos, pretos e brancos. Apresenta dor local mínima, sem edema significativo. PA 118x74 mmHg, FC 96 bpm, FR 24 ipm. Evolui com ptose palpebral bilateral, diplopia, disfagia e dificuldade para sustentar a cabeça. O tempo de coagulação está normal e não há sangramento sistêmico. Qual a conduta indicada?
O soro antielapídico endovenoso com suporte ventilatório prontamente disponível é a conduta no acidente elapídico, caracterizado por manifestações neurotóxicas como ptose, diplopia e disfagia, com pouca ou nenhuma reação local e coagulação normal, havendo risco de insuficiência respiratória por bloqueio neuromuscular. O soro antibotrópico é específico para outro gênero e não neutraliza esse veneno. Observar sem soroterapia é erro grave, pois a ausência de sinais locais é característica da síndrome. O torniquete e a incisão são formalmente contraindicados. O corticoide não neutraliza o veneno.
Homem, 45 anos, encostou em lagartas agrupadas no tronco de uma árvore há 12 horas, apresentando dor local em queimação imediata. Evoluiu com equimoses em locais de punção venosa, gengivorragia e hematúria macroscópica. PA 112x70 mmHg, FC 104 bpm. Tempo de coagulação incoagulável; fibrinogênio muito reduzido; plaquetas 180.000/mm3 (VR 150.000-400.000); creatinina 1,8 mg/dL (VR 0,6-1,3). Qual a conduta indicada?
O soro antilonômico endovenoso, com suporte clínico e vigilância da função renal, é a conduta no acidente por lagarta do gênero Lonomia, que provoca síndrome hemorrágica por consumo de fibrinogênio, com incoagulabilidade e sangramentos, podendo evoluir com insuficiência renal aguda. O soro antibotrópico é específico para acidente ofídico e não neutraliza esse veneno. A transfusão de plaquetas não corrige o defeito, e a contagem está normal. Analgesia isolada é insuficiente diante de coagulopatia grave. A heparina agravaria o sangramento.
Homem, 52 anos, foi atacado por enxame há 2 horas, com mais de cem ferroadas em tronco e membros. Apresenta dor intensa, edema difuso e vômitos. PA 96x58 mmHg, FC 128 bpm, FR 26 ipm. A urina está escurecida. Creatinofosfoquinase 42.000 U/L (VR até 190); potássio 6,0 mEq/L (VR 3,5-5); creatinina 2,6 mg/dL (VR 0,6-1,3); transaminases elevadas, sem broncoespasmo ou urticária generalizada. Qual a conduta prioritária?
A hidratação vigorosa com tratamento da hipercalemia e remoção dos ferrões é a prioridade no envenenamento por múltiplas picadas, quadro tóxico dose-dependente que cursa com rabdomiólise, hemólise e insuficiência renal aguda, distinto da reação alérgica. A adrenalina é o tratamento da anafilaxia, que cursaria com broncoespasmo, urticária e angioedema, ausentes aqui. O corticoide em dose única com alta subestima a gravidade. O anti-histamínico isolado não trata a síndrome tóxica. A observação domiciliar é inaceitável diante de rabdomiólise e disfunção renal.
Menino, 6 anos, picado por escorpião há 3 horas, evolui com vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e dispneia. FC 168 bpm, FR 46 ipm, PA 138x88 mmHg, T 36,8 °C, extremidades frias. Estertores difusos à ausculta pulmonar. Exames: troponina elevada; radiografia com edema pulmonar; ecocardiograma com disfunção ventricular esquerda e hipocinesia difusa; glicemia 218 mg/dL. Qual a conduta?
O escorpionismo grave, com manifestações sistêmicas como vômitos incoercíveis, sudorese, hipertensão, edema pulmonar e disfunção miocárdica por descarga catecolaminérgica, exige soroterapia antiescorpiônica precoce associada a suporte intensivo. Analgesia local com observação é conduta para casos leves, sem manifestações sistêmicas. O corticoide isolado não neutraliza o veneno. O betabloqueador pode agravar a disfunção ventricular e o edema pulmonar nesse contexto. O anti-histamínico com alta precoce ignora a gravidade e o risco de deterioração rápida em criança.
Homem, 41 anos, trabalhador rural do sul do país, encostou o antebraço em um tronco com aglomerado de lagartas há 3 dias. Chega com equimoses extensas, gengivorragia e hematúria macroscópica. Exame: PA 122x74 mmHg, FC 96 bpm, sem sinais de choque, equimoses em membros e tronco. Laboratório: tempo de protrombina incoagulável; fibrinogênio indetectável; plaquetas 195.000/mm3 (VR 150.000-450.000); creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,7-1,3). Qual a conduta específica?
A conduta específica é o soro antilonômico: o contato com lagartas do gênero Lonomia provoca síndrome hemorrágica por consumo de fibrinogênio, com tempo de protrombina incoagulável e plaquetas normais, e risco de insuficiência renal aguda e hemorragia intracraniana. O soro antibotrópico é específico para acidentes por serpentes do gênero Bothrops e não neutraliza o veneno da Lonomia. A transfusão de plaquetas não corrige o defeito, pois a contagem está normal e o problema é a fibrinólise e o consumo de fibrinogênio. A vitamina K corrige coagulopatia por antagonistas da vitamina K, mecanismo distinto. A heparina agravaria de forma perigosa o sangramento.
Homem, 58 anos, foi atacado por enxame de abelhas há 4 horas, com mais de 200 ferroadas em tronco e membros. Exame: consciente, PA 104x62 mmHg, FC 118 bpm, urina de coloração escura, lesões puntiformes eritematosas difusas, sem edema de glote e sem broncoespasmo. Laboratório: creatinofosfoquinase 26.000 U/L (VR até 200); potássio 5,9 mEq/L (VR 3,5-5,0); creatinina 2,4 mg/dL (VR 0,7-1,3). Qual a conduta prioritária?
A conduta prioritária é a hidratação venosa vigorosa para proteção renal, com remoção dos ferrões e tratamento da hipercalemia: o acidente com múltiplas ferroadas produz efeito tóxico dose-dependente, com rabdomiólise, hemólise e insuficiência renal aguda, evidenciados pela creatinofosfoquinase muito elevada e pela urina escura. A adrenalina é o tratamento da anafilaxia, que não está presente, sem edema de glote ou broncoespasmo. O corticoide isolado com alta ignora a lesão renal em curso. O anti-histamínico isolado trata sintomas locais, mas não a toxicidade sistêmica. A antibioticoprofilaxia não é indicada de rotina e não trata o problema principal.
Homem, 45 anos, picado por serpente em zona rural há 6 horas, apresenta ptose palpebral bilateral, diplopia, fácies miastênica e mialgia generalizada intensa, com dor local discreta e sem edema significativo. PA 118x74 mmHg, FC 88 bpm, T 36,8 °C. Urina escura, avermelhada. Creatinofosfoquinase 26.000 U/L (VR até 200); creatinina 2,0 mg/dL; tempo de coagulação alterado. Qual o gênero envolvido e a conduta?
Fácies miastênica com ptose e diplopia, mialgia intensa, mioglobinúria com creatinofosfoquinase de 26.000 U/L e dor local discreta compõem o quadro clássico do acidente crotálico, tratado com soro anticrotálico, hidratação vigorosa e vigilância da função renal pelo risco de necrose tubular aguda. O acidente botrópico cursa com dor, edema e equimose locais proeminentes e distúrbio de coagulação, sem fácies miastênica. O acidente laquético lembra o botrópico, acrescido de manifestações vagais, e ocorre em áreas de floresta densa. O acidente elapídico causa paralisia neurotóxica, mas sem rabdomiólise nem mioglobinúria dessa magnitude. O escorpionismo produz dor local intensa e manifestações sistêmicas cardiovasculares, sobretudo em crianças.
Menino, 6 anos, picado por aranha ao calçar bota em área rural há 2 horas. Apresenta dor local intensa e irradiada, sudorese profusa, agitação, sialorreia e priapismo. Temperatura axilar 36,9 °C, frequência cardíaca 148 bpm, PA 132x84 mmHg, frequência respiratória 34 ipm. A aranha trazida é marrom-acinzentada, grande, com hábito de erguer as patas dianteiras. Não há necrose local nem lesão hemorrágica. Qual o agente e a conduta?
Dor local intensa com sudorese, agitação, sialorreia, taquicardia e priapismo após picada por aranha grande que ergue as patas dianteiras caracteriza acidente por Phoneutria; em criança com manifestações sistêmicas, indica-se analgesia com bloqueio local e soroterapia antiaracnídica. O acidente loxoscélico é indolor no início e evolui com lesão necrótica e possível hemólise, sem essas manifestações colinérgicas agudas. O latrodectismo cursa com dor, contraturas e fácies latrodectísmica, sem priapismo e com aranha muito menor. A picada por Lycosa é leve, mas não explica manifestações sistêmicas graves. O escorpionismo é um diferencial, porém o agente foi identificado como aranha, e betabloqueador não é conduta indicada.
Homem, 37 anos, seringueiro, picado por serpente em área de floresta amazônica há 4 horas, apresenta dor e edema progressivo no membro inferior direito, com equimose extensa e bolhas. Além disso, apresenta cólicas abdominais, diarreia, sudorese, sialorreia e bradicardia. PA 84x50 mmHg, FC 48 bpm, T 36,6 °C. Tempo de coagulação incoagulável. Qual o gênero envolvido e a conduta específica?
Quadro local semelhante ao botrópico, com dor, edema, equimose e distúrbio de coagulação, acrescido de manifestações vagais como bradicardia, hipotensão, diarreia e sialorreia, em região de floresta amazônica, caracteriza o acidente laquético; o tratamento é soro antilaquético ou antibotrópico-laquético, com atropina para as manifestações vagais. O acidente botrópico não cursa com essa síndrome vagal proeminente. O acidente crotálico produz fácies miastênica e mialgia com mioglobinúria, sem esse quadro local hemorrágico. O acidente elapídico causa paralisia neurotóxica sem alteração de coagulação e sem lesão local significativa. O escorpionismo não provoca distúrbio de coagulação nem lesão local necrótica.
Menina, 4 anos, picada por escorpião amarelo há 90 minutos, apresenta dor local intensa, seguida de vômitos incoercíveis, sudorese profusa, agitação e taquipneia. Temperatura axilar 36,8 °C, frequência cardíaca 168 bpm, frequência respiratória 46 ipm, PA 132x86 mmHg, SatO2 90% em ar ambiente. Ausculta com estertores difusos; radiografia com infiltrado alveolar bilateral. Troponina elevada. Qual a conduta?
Criança com manifestações sistêmicas graves após picada por Tityus, incluindo vômitos incoercíveis, sudorese, taquicardia, edema pulmonar e elevação de troponina, tem indicação de soroterapia antiescorpiônica imediata associada a suporte intensivo, pois a liberação maciça de catecolaminas causa miocardite e edema pulmonar. Analgesia isolada com observação domiciliar é conduta adequada apenas para casos leves, sem manifestações sistêmicas. Adrenalina agravaria a descarga adrenérgica já presente. Furosemida isolada não trata a causa do edema pulmonar, que é cardiogênico e tóxico. A atropina não é antídoto do veneno escorpiônico.
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em 7 dias
Refaça a tabela de 2026: botrópico 3/6/12 pela extensão em segmentos e pelas complicações; laquético 10/20; crotálico 5/10/20; elapídico sem soro/5/10; escorpionismo sem soro/3/6. Depois acrescente foneutrismo, loxoscelismo e Lonomia 0/5/10. Explique por que tempo de coagulação não define a dose botrópica e por que criança recebe o mesmo número de frascos que adulto.
em 30 dias
Treine três vinhetas cronometradas: botrópico com edema em dois segmentos e sangue incoagulável; coral com ptose sem paralisia; criança com escorpionismo e vômitos numerosos. Para cada uma, decida gravidade, soro, número de frascos, tempo de observação e gatilho de complementação. Feche com Lonomia: coagulopatia sem hemorragia visceral recebe 5; hemorragia visceral, 10.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Uma criança de 5 anos chega agitada, vomitando, com sudorese fria e taquicardia 50 minutos após pisar num escorpião amarelo. Os pais pedem "um remédio para dor". Classifique a gravidade à beira do leito, decida se há indicação de soro — e quantas ampolas — e conduza a observação: pratique este atendimento agora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
