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Clínica MédicaToxicologia

Acidentes por animais peçonhentos

A prova cobra uma sequência: reconhecer a síndrome, graduar a gravidade e prescrever o antiveneno. A régua segue os PCDTs nacionais de 2026 e inclui Lonomia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 34 anos, agricultor, dá entrada 3 horas após picada de serpente no dorso do pé direito durante trabalho na lavoura. Refere dor intensa, edema progressivo e equimose ascendente até o terço médio da perna, com duas marcas de presas e sangramento persistente no local. Nega alterações visuais, ptose ou queixas neurológicas. PA 120x80 mmHg, FC 92 bpm. Exames: TC (tempo de coagulação) incoagulável; plaquetas 90.000/mm³ (VR 150.000–450.000); fibrinogênio reduzido. Considerando o quadro local exuberante associado ao distúrbio de coagulação, qual é o agente causador mais provável e a conduta soroterápica indicada?

02

Como esse tema cai

Animal peçonhento é tema que a banca cobra com tabela na mão. O enunciado típico traz um trabalhador rural picado por serpente, uma criança picada por escorpião ou uma lesão de pele que apareceu de manhã — e as alternativas diferem em três eixos: o tipo de acidente, a gravidade e o número de ampolas do soro. Quem decorou só "jararaca dá soro antibotrópico" erra, porque a questão quase nunca identifica o animal: ela descreve a síndrome e espera que o candidato feche o diagnóstico pelo quadro clínico, como manda o Ministério da Saúde — o diagnóstico é clínico-epidemiológico, sem exame que identifique a peçonha circulante.

O peso do tema cresceu junto com a epidemiologia. O escorpionismo virou um agravo urbano em expansão no País inteiro, com quadro benigno no adulto e potencialmente letal na criança pequena; o ofidismo segue concentrado no Brasil rural, sobretudo nas Regiões Norte e Nordeste, com o acidente botrópico respondendo pela grande maioria dos casos; e o araneísmo tem endereço certo na prova: a Região Sul, com o Paraná — e Curitiba — à frente das notificações de acidente por aranha-marrom. No plano global, o ofidismo entrou em 2017 na lista de doenças tropicais negligenciadas da OMS, que estima 5,4 milhões de picadas e até 138 mil mortes por ano.

Este capítulo segue a sequência de decisão que a prova cobra: medidas iniciais; identificação da síndrome; classificação de gravidade; escolha do antiveneno e do número de frascos. Para serpentes e escorpiões, a régua foi atualizada pelos PCDTs nacionais de 2026. Depois vêm aranhas e Lonomia, porque o título “animais peçonhentos” não pode terminar antes do acidente lonômico, causa brasileira de coagulopatia e hemorragia com antiveneno específico.

03

O que muda decisão

O mapa do problema: quem morde, quem pica e quem notifica

Quatro gêneros de serpente têm importância médica no Brasil: Bothrops e Bothrocophias (jararaca, jararacuçu, urutu — o acidente botrópico, de longe o mais comum e distribuído), Crotalus durissus (cascavel, dos cerrados e áreas abertas), Lachesis muta (surucucu-pico-de-jaca, restrita à Floresta Amazônica e a remanescentes de Mata Atlântica) e Micrurus (coral-verdadeira, amplamente distribuída mas com poucos acidentes, porque a dentição pequena dificulta a inoculação). Sucuri e jiboia não envenenam; cobra-verde, muçurana e falsa-coral causam no máximo quadro local leve. Entre os escorpiões, o gênero Tityus concentra o problema — T. serrulatus (escorpião-amarelo) é a principal espécie causadora de acidentes e a mais associada a casos graves; T. bahiensis, T. stigmurus e T. obscurus completam o quadro por região. Entre as aranhas, três gêneros: Loxosceles (aranha-marrom, o mais importante), Phoneutria (armadeira) e Latrodectus (viúva-negra).

O perfil epidemiológico ajuda a fechar diagnóstico em enunciado enxuto. Ofidismo: homem, zona rural, membros inferiores, meses quentes e chuvosos, Norte e Nordeste na frente — e populações indígenas e ribeirinhas com os piores prognósticos, pela distância do soro. Escorpionismo: acidente urbano e doméstico, dentro de casa, ao calçar sapato, vestir roupa ou mexer em entulho, mãos e pés, ambos os sexos; a maioria evolui bem, mas casos graves e óbitos se concentram em crianças com menos de 10 anos — e o risco cresce quanto menor a idade, sobretudo abaixo de 7 anos, quando o agressor é o T. serrulatus. Araneísmo: Região Sul, Paraná à frente, Loxosceles como gênero que mais causa acidente no País, tipicamente ao se vestir ou dormir.

Todo acidente por animal peçonhento é agravo de notificação compulsória no Sinan, mediante a Ficha de Investigação específica — e a notificação independe de o paciente ter recebido soro. O Guia de Animais Peçonhentos do Brasil (2024) explicita o prazo: notificação em até 24 horas à Secretaria Municipal de Saúde. A ficha não é burocracia decorativa: é ela que alimenta o planejamento de produção e distribuição dos antivenenos, todos produzidos por quatro laboratórios oficiais conveniados ao Ministério da Saúde e distribuídos às Secretarias Estaduais, que definem os pontos de referência para soroterapia.

Primeiro atendimento: o que fazer — e o que jamais fazer

A primeira medida em qualquer acidente por animal peçonhento (exceto os por águas-vivas e caravelas) é lavar o ferimento com água — de preferência morna — e sabão, e encaminhar imediatamente ao hospital de referência. O resto da lista pré-hospitalar é de proibições, e a banca adora cobrá-las: não fazer torniquete nem amarrar o membro (aumenta necrose e síndrome compartimental, podendo custar o membro), não cortar, perfurar, queimar ou chupar o local (piora hemorragia e infecta), não aplicar substância nenhuma sobre a picada — fezes, álcool, querosene, fumo, ervas, urina — nem curativo oclusivo, e não dar bebida alcoólica ao acidentado.

No hospital, três regras estruturais valem para todos os tipos de acidente. Primeira: o soro heterólogo só se administra em unidade preparada para tratar reação adversa grave — equipamento e medicação de emergência à mão e médico presente; serviço sem essa retaguarda encaminha, não aplica. Segunda: o teste de sensibilidade cutânea foi excluído da rotina — tem baixo valor preditivo e só atrasa a soroterapia; o Ministério da Saúde e a OMS convergem nesse ponto. Terceira: paciente que recebeu soro fica hospitalizado para monitorar eficácia, reações e complicações, e recomenda-se respaldar a prescrição com segunda opinião de um Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox).

Duas sutilezas completam o atendimento inicial. A picada sem envenenamento existe — a "picada seca" —, e soro não se dá por via das dúvidas: a inoculação pequena pode atrasar sintomas, então todo caso sem manifestações evidentes na admissão fica em observação mínima de seis horas antes da alta. E a dose de antiveneno não se ajusta por peso nem por idade: os quadros do Ministério da Saúde graduam o número de ampolas exclusivamente pela gravidade, porque o soro neutraliza a quantidade de veneno inoculada — que não depende do tamanho de quem foi picado. Criança grave recebe o mesmo número de ampolas que adulto grave, por via intravenosa.

Ofidismo I — botrópico e laquético: a síndrome local-hemorrágica

O acidente botrópico é o protótipo local-hemorrágico. Na picada surgem dor, edema e equimose progressivos, bolhas e, nas evoluções graves, necrose; as marcas das presas podem não ser visíveis. Sistemicamente, o veneno altera coagulação e endotélio, causando gengivorragia, hematúria, equimoses a distância e hemorragias. Hipotensão/choque e injúria renal aguda tornam o caso grave. Complicações locais incluem necrose, infecção secundária, abscesso e síndrome compartimental.

O PCDT de 2026 tornou a classificação botrópica mais objetiva ao dividir o membro em três segmentos: mão/punho, antebraço/cotovelo e braço; ou pé/tornozelo, perna/joelho e coxa. Dor e edema de até um segmento definem leve e indicam 3 frascos; dois segmentos, moderado e 6; três segmentos ou hemorragia grave, hipotensão/choque ou injúria renal aguda, grave e 12. Sangramento discreto e coagulopatia podem estar presentes em qualquer estrato e não mudam sozinhos a dose. O soro preferencial é o antibotrópico pentavalente (SABr); SABL ou SABC podem substituí-lo conforme disponibilidade.

O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o seguimento, mas não deve orientar a dose inicial. Hemograma, plaquetas, ureia, creatinina, urina e avaliação seriada do edema completam o acompanhamento. Se a coagulação não tiver normalizado 24 horas após o término da soroterapia botrópica, o PCDT recomenda 2 frascos adicionais; se o quadro clínico piorar e houver reclassificação, complementa-se a dose até o total do novo estrato.

O acidente laquético é o botrópico com assinatura vagal: náuseas, vômitos, cólica, diarreia, bradicardia, hipotensão e até choque. Não há forma leve: quadro local com ou sem sangramento, mas sem manifestações vagais, é moderado e recebe 10 frascos de SABL; quadro local intenso, hemorragia intensa e/ou manifestações vagais é grave e recebe 20. A epidemiologia ajuda — serpente grande em Floresta Amazônica ou remanescentes de Mata Atlântica —, mas a síndrome decide.

Ilustração das quatro serpentes peçonhentas de importância médica no Brasil: jararaca, cascavel, surucucu-pico-de-jaca e coral-verdadeira.
Os quatro gêneros que importam: Bothrops (jararaca), Crotalus (cascavel), Lachesis (surucucu) e Micrurus (coral-verdadeira). Na prova, porém, quem define o soro é a síndrome — não o animal, que raramente vem identificado.

Ofidismo II — crotálico e elapídico: a síndrome neuro-miotóxica

No acidente crotálico, o local costuma ser pobre: dor e edema discretos, às vezes eritema e parestesia. A doença é sistêmica. A ação neurotóxica produz fácies miastênica — ptose, turvação visual e oftalmoplegia —, enquanto a ação miotóxica causa mialgia, rabdomiólise e urina escura por mioglobinúria. O desfecho temido é a injúria renal aguda, sobretudo nas primeiras 48 horas; pode haver alteração da coagulação.

A régua crotálica permanece: alterações neuroparalíticas discretas, sem mialgia, urina escura ou oligúria, definem leve e 5 frascos de SACr; neuroparalisia evidente com mialgia e mioglobinúria discretas define moderado e 10; achados intensos com oligúria definem grave e 20. SABC pode substituir o SACr. Monitoram-se diurese, CK, função renal, eletrólitos e coagulação; suporte ventilatório ou renal não espera o soro fazer efeito.

O PCDT de 2026 mudou uma regra muito repetida em materiais antigos: o acidente elapídico agora é graduado. Quadro apenas local, com dor ou parestesia e sem miastenia, é leve, não recebe soro e exige observação por pelo menos 24 horas. Ptose ou redução objetiva da força sem paralisia define moderado e recebe 5 frascos de SAEla. Fraqueza intensa ou paralisia, dificuldade para levantar/deambular, disfagia, salivação ou respiração superficial até paralisia respiratória define grave e recebe 10.

A progressão pode ser tardia; por isso, leves e moderados exigem reavaliação rigorosa e complementação do tratamento se houver mudança de estrato. A distinção visual entre coral-verdadeira e falsa-coral é pouco confiável para decidir conduta: história compatível e sinais neuromusculares devem ser discutidos imediatamente com o CIATox e tratados conforme a síndrome.

Escorpionismo: dor no adulto, coração na criança

A picada de escorpião costuma provocar dor imediata, parestesia, eritema e sudorese local. O PCDT de 2026 separa três tempos: ausência de manifestações clínicas, observação por 4 horas; caso leve, com sinais locais e eventuais náusea, vômito, agitação ou taquicardia discretos relacionados à dor, observação por 6 a 12 horas; manifestações sistêmicas persistentes ou intensas, soroterapia e monitorização por pelo menos 24 horas.

Dor deve ser medida e tratada em paralelo à classificação: dipirona oral na dor leve, intravenosa na moderada e infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor na dor intensa, repetível até três vezes em intervalos de 40 a 60 minutos. Compressa morna ajuda. A melhora após analgesia permite distinguir manifestação provocada pela dor de envenenamento sistêmico persistente.

No caso moderado há quadro local associado a manifestações sistêmicas de pequena intensidade, como sudorese, náusea, alguns episódios de vômito, alteração da frequência cardíaca, hipertensão e agitação: são 3 frascos de SAEsc ou SAA. No grave aparecem episódios numerosos de vômito, sudorese profusa, alterações marcantes de frequência cardíaca ou pressão, sialorreia, alternância entre agitação e sonolência, taquidispneia, priapismo, convulsões, insuficiência cardíaca ou edema agudo de pulmão: são 6 frascos, sem ultrapassar esse total.

A dose é a mesma em crianças e adultos, mas crianças de até 10 anos — sobretudo menores de 7 — têm maior risco de evolução grave. Casos moderados e graves recebem soro imediatamente; exames não podem atrasá-lo. ECG, glicemia, eletrólitos, gasometria, marcadores de lesão miocárdica, radiografia de tórax e ecocardiograma são selecionados conforme manifestação sistêmica. No grave, monitorização contínua e terapia intensiva são desejáveis, mas a indisponibilidade de UTI não deve impedir a administração precoce do soro.

Na falta do SAEsc ou na dúvida entre escorpionismo e foneutrismo, pode-se usar SAA. O SAEsc pode ser infundido em 10 a 15 minutos ou a 8–12 mL/min, com atenção ao volume na criança com insuficiência cardíaca ou edema pulmonar; o SAA exige infusão mais lenta, em 20 a 60 minutos. Não se faz pré-medicação de rotina. Havendo reação, interrompe-se temporariamente, trata-se a anafilaxia e retoma-se quando estabilizado.

Araneísmo: armadeira, aranha-marrom e viúva-negra

Foneutrismo é o acidente da dor imediata e intensa, com edema, sudorese local e parestesia. O manejo é sintomático na maioria: compressa morna, analgésico sistêmico e infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor. Se a dor persistir, escala-se a analgesia conforme o serviço e o perfil do paciente. Quadro moderado — dor intensa com sudorese, vômitos ocasionais, agitação ou hipertensão — recebe 2 a 4 frascos de SAA; grave — sudorese e vômitos profusos, sialorreia, priapismo, choque ou edema pulmonar — recebe 5 a 10.

Loxoscelismo é o acidente da lesão tardia. A picada pode ser pouco dolorosa; horas depois surgem dor, eritema, edema, equimose central e áreas pálidas, formando a placa marmórea, com possibilidade de bolha e necrose seca. A forma cutâneo-hemolítica acrescenta hemólise intravascular, anemia, hiperbilirrubinemia e injúria renal, geralmente nas primeiras 72 horas.

Forma leve, com aranha identificada e lesão incaracterística sem comprometimento sistêmico, não recebe soro. Moderada, com lesão sugestiva/característica e sem hemólise, recebe 5 frascos de SALox ou SAA; grave, com hemólise clínica ou laboratorial, recebe 10. Os estratos com soro são associados à prednisona conforme a orientação nacional ainda vigente. No diagnóstico tardio com necrose delimitada, o cuidado é local — limpeza, curativos e avaliação cirúrgica quando indicada —, sem neutralizações ou soluções caseiras.

Latrodectismo é o acidente motor: dor local inicialmente pequena, depois queimação, sudorese e contraturas musculares intermitentes, rigidez abdominal que simula abdome agudo e fácies latrodectísmica. O manejo nacional é sintomático e de suporte, com analgesia, benzodiazepínico quando necessário e observação; a tabela brasileira de soroterapia não prevê antiveneno para Latrodectus. Alterações de repolarização e QT justificam ECG no quadro sistêmico.

Lonomia: a queimadura que vira coagulopatia

O contato com várias lagartas espinhudas em tronco ou vegetação provoca dor em queimação, eritema e edema. No acidente por Lonomia, o quadro local pode regredir enquanto, horas depois, surgem cefaleia, náusea, dor abdominal e sangramentos — gengivorragia, epistaxe, equimoses e hematúria. Hemorragia visceral, injúria renal aguda e hemorragia intracraniana marcam gravidade e risco de morte.

O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o acompanhamento. Quadro apenas local, sem sangramento nem alteração de coagulação, é leve e não recebe soro. Alteração do tempo de coagulação, com ou sem sangramento restrito a pele ou mucosas, define moderado e indica 5 frascos de soro antilonômico (SALon). Sangramento visceral define grave e indica 10 frascos. O Brasil é produtor do antiveneno específico; suspeita clínica exige encaminhamento rápido ao ponto de soroterapia e contato com o CIATox.

04

A régua do soro: tipo do acidente × gravidade × ampolas

Toda questão de conduta atravessa a mesma sequência: medidas gerais, definição do tipo pela síndrome, graduação da gravidade e, só então, antiveneno específico. Para acidentes ofídicos e escorpiônicos, os números abaixo seguem os PCDTs do Ministério da Saúde de 2026. O soro é intravenoso ou, quando previsto e sem acesso venoso, intraósseo, sem teste de sensibilidade, com estrutura para tratar anafilaxia.

  1. 1Lavar com água e sabão; retirar adornos e qualquer amarração; nada de torniquete, corte, sucção, gelo ou substâncias sobre a picada; encaminhar ao ponto com antiveneno
  2. 2Definir o TIPO pela síndrome clínica — local-hemorrágica, vagal, neuro-miotóxica, autonômica, dermonecrótica ou hemorrágica tardia — sem esperar identificação do animal
  3. 3Graduar a GRAVIDADE pelos critérios vigentes; no botrópico, conte os segmentos do membro e não use o tempo de coagulação para escolher a dose
  4. 4Prescrever o soro específico, IV, no número de frascos da tabela; a dose não muda por peso ou idade e deve ser administrada de uma só vez
  5. 5Observar pelo tempo do agravo: escorpionismo sem clínica, 4 h; leve, 6 a 12 h; quem recebeu soro, no mínimo 24 h; elapídico leve, pelo menos 24 h
  6. 6Reavaliar: surgiram novos sinais ou piorou a gravidade, complementar o soro até a dose do novo estrato; no botrópico, coagulação ainda alterada 24 h após o soro indica 2 frascos adicionais
  7. 7Notificar no Sinan e acionar o CIATox para apoio à classificação, dose e necessidade de transferência

Botrópico

Dor, edema e equimose progressivos + sangramentos + TC prolongado. É a grande maioria dos acidentes ofídicos. Soro antibotrópico (SABr); SABL ou SABC substituem na falta.

Laquético

Quadro botrópico + manifestações vagais (vômitos, diarreia, bradicardia, hipotensão), em área de floresta primária. Não existe forma leve: SABL, 10 ou 20 ampolas.

Crotálico

Local pobre + fácies miastênica + mialgia com urina escura. O rim é o alvo: IRA por necrose tubular nas primeiras 48 h. Soro anticrotálico (SACr) ou SABC.

Elapídico

Coral-verdadeira: quadro local isolado pode ser leve e fica 24 h em observação; ptose ou fraqueza objetiva sem paralisia é moderado (5 frascos); paralisia, disfagia ou insuficiência respiratória é grave (10).

A régua do soro em 2026: tipo × gravidade × frascos

Acidente ofídicoGravidadeQuadro que defineFrascos-ampolas
Botrópico (SABr, SABL ou SABC)LeveDor e edema de até 1 segmento; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente3
BotrópicoModeradoDor e edema de 2 segmentos; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente6
BotrópicoGraveDor e edema de 3 segmentos ou hemorragia grave, hipotensão/choque ou injúria renal aguda12
Laquético (SABL)ModeradoQuadro local, podendo haver sangramento, sem manifestações vagais10
LaquéticoGraveQuadro local intenso, hemorragia intensa e/ou manifestações vagais20
Crotálico (SACr ou SABC)LeveNeuroparalíticas discretas; sem mialgia, urina escura ou oligúria5
CrotálicoModeradoNeuroparalíticas evidentes; mialgia e mioglobinúria discretas10
CrotálicoGraveNeuroparalíticas evidentes; mialgia e mioglobinúria intensas, com oligúria20
Elapídico (SAEla)LeveDor/parestesia local, sem miasteniaSem soro; observar ≥24 h
ElapídicoModeradoPtose ou redução objetiva de força, sem paralisia5
ElapídicoGraveFraqueza intensa/paralisia, disfagia, salivação ou comprometimento respiratório10

Escorpionismo — SAEsc ou SAA na falta/dúvida diagnóstica

GravidadeQuadro que defineAmpolas
LeveDor e parestesia local (observação de criança: 6 a 12 horas)Sem soro
ModeradoDor intensa + náuseas, vômitos, sudorese, sialorreia, agitação, taquipneia ou taquicardia3
GraveVômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa, prostração, convulsão, coma, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema pulmonar agudo, choque6

Araneísmo — SAAr (armadeira) e SALox ou SAAr (aranha-marrom)

AcidenteGravidadeQuadro que defineAmpolas
FonêutricoLeveDor local, edema, eritema, sudorese, piloereçãoSem soro
FonêutricoModeradoDor intensa, sudorese, vômitos ocasionais, agitação, hipertensão2 a 4
FonêutricoGraveSudorese profusa, sialorreia, vômitos profusos, priapismo, choque, edema pulmonar agudo5 a 10
LoxoscélicoLeveAranha identificada, lesão incaracterística, sem comprometimento sistêmicoSem soro
LoxoscélicoModeradoLesão sugestiva/característica mesmo sem identificar o agente; sintomas inespecíficos; sem hemólise5 + prednisona
LoxoscélicoGraveLesão característica + hemólise intravascular clínica ou laboratorial10 + prednisona

O tempo de coagulação auxilia o diagnóstico e o acompanhamento, mas o PCDT ofídico de 2026 é explícito: coagulopatia presente ou ausente não define a dose. No botrópico, a classificação vem do número de segmentos com dor/edema e das complicações sistêmicas.

Teste de sensibilidade cutânea antes do soro foi excluído da rotina: baixo valor preditivo e atraso da soroterapia.

A dose do antiveneno é definida pela gravidade, nunca por peso ou idade. Criança recebe o mesmo número de frascos que o adulto no mesmo estrato; o que se ajusta ao peso é o volume e o suporte.

Prednisona no loxoscelismo moderado e grave: 40 mg/dia no adulto, 1 mg/kg/dia na criança, por 5 dias, associada ao soro.

Latrodectismo: manejo sintomático e de suporte (benzodiazepínico, gluconato de cálcio 10%, observação de 24 horas) — a tabela de soroterapia do MS não contempla antiveneno para viúva-negra.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde o antiveneno deve estar: atenção primária ou ponto de referência hospitalar

OMS — antiveneno como item de atenção primária

A OMS define o antiveneno como o tratamento mais eficaz para prevenir e reverter os efeitos do envenenamento ofídico e defende que ele integre os pacotes de atenção primária dos lugares onde os acidentes ocorrem — é a espinha da estratégia global de reduzir em 50% a mortalidade e a incapacidade por ofidismo até 2030, firmada após a inclusão do agravo entre as doenças tropicais negligenciadas prioritárias, em 2017.

World Health Organization. Snakebite envenoming — Fact sheet

Ministério da Saúde — soro em unidade com retaguarda, rede organizada por pontos estratégicos

O Guia de Vigilância em Saúde condiciona a administração do soro heterólogo a unidade com médico presente e estrutura para tratar reação adversa grave; serviço sem essas condições deve lavar o ferimento e encaminhar ao ponto de referência. A distribuição dos antivenenos é definida pelas Secretarias Estaduais considerando registro de acidentes, tempo de deslocamento, estrutura assistencial e rede de frio — a razão da diferença para a régua global é operacional: soro heterólogo exige cadeia de frio e manejo de anafilaxia, e o desenho brasileiro concentra o insumo onde há segurança para aplicá-lo num território continental.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024

Na prova

O cenário do enunciado revela o recorte. Questão ambientada em UBS ou unidade sem retaguarda cobra a conduta da rede brasileira: lavar com água e sabão e transferir rápido para o ponto de referência — alternativa que manda aplicar soro ali mesmo denuncia o distrator. Enunciado que cita a OMS, a meta de 2030 ou o status de doença negligenciada está no recorte internacional, discutindo acesso e descentralização do antiveneno, não a norma assistencial do SUS. Vocabulário como "ponto estratégico", "rede de frio" e "segunda opinião do CIATox" pertence ao documento brasileiro.

Régua antiga (GVS 2024) versus PCDTs nacionais de 2026

GVS 2024

Mantinha esquemas anteriores e faixas de doses.

Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev.

PCDTs 2026

Padronizam a classificação clínica e as doses nacionais atuais.

Ministério da Saúde, PCDT dos Acidentes Ofídicos e PCDT dos Acidentes Escorpiônicos.

Na prova

Questões que citam expressamente os PCDTs de 2026 usam botrópico 3/6/12, escorpionismo 3/6 e elapídico graduado em leve/moderado/grave. Materiais anteriores podem trazer faixas 2–4/4–8, 2–3/4–6 e a regra de 10 frascos para todo elapídico. Para estudo atual, a tabela de 2026 deve prevalecer; se uma prova antiga for comentada, registre a norma vigente à época.

06

Caso resolvido

Homem, 52 anos, lavrador, chega ao pronto atendimento de um município do interior de São Paulo 4 horas após picada de serpente no tornozelo, ocorrida ao empilhar lenha. Não trouxe o animal. Exame: discretos edema e eritema perimaleolares, sem equimose ou bolhas. Refere "vista embaçada" e dor muscular difusa que começou há 1 hora; a esposa nota pálpebras caídas. Urina colhida na triagem: escura, cor de chá preto. PA 130 × 85 mmHg, FC 92 bpm, diurese presente. Tempo de coagulação: 22 minutos.
achado
Quadro local pobre com síndrome sistêmica dupla: fácies miastênica em instalação (ptose, turvação visual) + mialgia generalizada com urina escura. TC prolongado (10 a 30 minutos).
interpretação
Acidente crotálico. O local discreto afasta o padrão botrópico-laquético; a combinação neuroparalítica + miotóxica é a assinatura da cascavel, e o TC prolongado é compatível — a coagulação também pode se alterar no crotálico.
classificação
Moderado: alterações neuroparalíticas evidentes com mialgia e mioglobinúria ainda discretas, sem oligúria. Fosse mialgia/urina escura intensas com oligúria, seria grave.
conduta
Soro anticrotálico (SACr) 10 ampolas, IV, sem teste de sensibilidade, em unidade com retaguarda para reação adversa — na falta do SACr, SABC. Internação com vigilância de diurese e função renal (a IRA por necrose tubular é a principal causa de óbito e se instala tipicamente nas primeiras 48 horas), recontrole do TC para aferir eficácia e notificação no Sinan.
07

Agora feche você

Menina, 4 anos, trazida do quintal de casa em Belo Horizonte após picada por escorpião amarelo no pé há 40 minutos. Chorosa, com dor local intensa. Durante a avaliação inicial: três episódios de vômito em jato, sudorese fria difusa, sialorreia e FC 178 bpm. PA no limite superior. Ausculta pulmonar ainda limpa.
achado
Picada por Tityus serrulatus em menor de 7 anos — o grupo de maior risco — com dor local seguida, em menos de 1 hora, de vômitos repetidos, sudorese profusa, sialorreia e taquicardia: envenenamento sistêmico em progressão.
interpretação
Não é mais acidente leve: as manifestações autonômicas definem quadro no mínimo moderado, e vômitos profusos com sudorese profusa e prostração marcam a fronteira do grave. O intervalo curto até a manifestação sistêmica é característico do escorpionismo e exige decisão rápida.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Torniquete, corte ou sucção como "primeiro socorro" É o distrator de apelo popular: parece proatividade heroica. O MS proíbe as três condutas — garrote e curativo oclusivo aumentam necrose e síndrome compartimental; incisão e sucção pioram sangramento e infectam. O que salva é água e sabão + transporte rápido ao soro.
  2. 2Esperar identificar (ou capturar) o animal para tratar O diagnóstico é clínico-epidemiológico: a síndrome define tipo e soro. A alternativa que condiciona a soroterapia à identificação atrai porque soa rigorosa — mas atrasa o tratamento, e o MS é explícito: quadro compatível fecha caso, com ou sem animal.
  3. 3Ajustar o soro pelo peso da criança Reflexo pediátrico treinado em toda a residência — e errado aqui. O soro neutraliza o veneno inoculado, que não depende do tamanho do paciente: os quadros do MS graduam ampolas só pela gravidade. Criança grave = mesma dose do adulto grave.
  4. 4Teste de sensibilidade antes do soro Atrai quem aprendeu farmacologia de soro heterólogo em livro antigo. Foi excluído da rotina: baixo valor preditivo, imprevisível para hipersensibilidade e só atrasa a soroterapia. A resposta certa é aplicar em unidade preparada para anafilaxia — sem teste.
  5. 5Alta precoce do caso "sem nada" Picada seca existe, mas inoculação pequena atrasa sintoma: sem manifestações evidentes, a observação mínima é de 6 horas — e criança picada por escorpião fica 6 a 12. No loxoscelismo a pegadinha é invertida: a lesão típica só aparece horas ou dias depois da picada indolor.
  6. 6Aplicar a regra antiga de que todo elapídico recebe 10 frascos Era uma regra frequente em materiais anteriores. O PCDT ofídico de 2026 passou a graduar: quadro apenas local é leve e fica pelo menos 24 h em observação; miastenia sem paralisia é moderada e recebe 5 frascos; paralisia, disfagia ou comprometimento respiratório é grave e recebe 10. A exceção que continua sem forma leve é o laquético.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o quadro combina achados LOCAIS proeminentes (dor, edema progressivo, equimose, marcas de presa) com distúrbio de COAGULAÇÃO (TC incoagulável, plaquetopenia, hipofibrinogenemia) e ação hemorrágica — a assinatura clássica do acidente botrópico (Bothrops/jararaca), o mais comum no Brasil. O tratamento é soro antibotrópico (SAB), com número de ampolas conforme a gravidade (leve/moderado/grave) definida pela extensão do quadro local e sistêmico. Crotálico: predomina quadro neurotóxico (fácies miastênica/ptose) e mio-lítico (mialgia, urina escura por rabdomiólise), com quadro local POBRE — ausente aqui. Elapídico/coral: quadro neuroparalítico sem alteração de coagulação e sem quadro local significativo. Laquético: pode ter coagulopatia e quadro local semelhante ao botrópico, mas cursa tipicamente com síndrome vagal (bradicardia, hipotensão, diarreia) e é restrito a áreas de floresta (Amazônia/Mata Atlântica densa) — menos provável em lavoura com o paciente estável e taquicárdico. Escorpião: não causa síndrome hemorrágica nem coagulopatia — dor local intensa é a regra, mas sem os distúrbios laboratoriais descritos.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça a tabela de 2026: botrópico 3/6/12 pela extensão em segmentos e pelas complicações; laquético 10/20; crotálico 5/10/20; elapídico sem soro/5/10; escorpionismo sem soro/3/6. Depois acrescente foneutrismo, loxoscelismo e Lonomia 0/5/10. Explique por que tempo de coagulação não define a dose botrópica e por que criança recebe o mesmo número de frascos que adulto.

em 30 dias

Treine três vinhetas cronometradas: botrópico com edema em dois segmentos e sangue incoagulável; coral com ptose sem paralisia; criança com escorpionismo e vômitos numerosos. Para cada uma, decida gravidade, soro, número de frascos, tempo de observação e gatilho de complementação. Feche com Lonomia: coagulopatia sem hemorragia visceral recebe 5; hemorragia visceral, 10.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma criança de 5 anos chega agitada, vomitando, com sudorese fria e taquicardia 50 minutos após pisar num escorpião amarelo. Os pais pedem "um remédio para dor". Classifique a gravidade à beira do leito, decida se há indicação de soro — e quantas ampolas — e conduza a observação: pratique este atendimento agora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.