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Intoxicações exógenas agudas e antídotos
A vinheta entrega uma síndrome tóxica, não o nome da molécula. A prova quer que você leia pupila, pele e ventilação, escolha o antídoto certo — e recuse os que quase nunca entram.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem de 35 anos com transtorno bipolar tipo I em uso de lítio há 6 meses procura a emergência com náuseas, vômitos, diarreia, tremor grosseiro das mãos, ataxia e fala arrastada, iniciados após um quadro de desidratação por gastroenterite. Refere ter iniciado recentemente um anti-inflamatório para dor lombar. PA 118/78 mmHg, FC 88 bpm, consciente mas letárgico. Qual é a conduta inicial MAIS adequada?
Como esse tema cai
Intoxicação exógena tem capítulo próprio no Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (6.ª edição revisada, 2024), sob o CID-10 T65.9. Esse capítulo é de vigilância: define caso, classifica o encerramento da investigação e diz como notificar — não prescreve conduta clínica. A régua de tratamento vem de outros documentos: o guia de indicações, uso e estoque de antídotos elaborado pelo CIATox de Campinas e referendado pela SBTox e pela Abracit, de março de 2025, e, no caso dos agrotóxicos, os protocolos estaduais de atendimento ao intoxicado. Saber de onde sai cada número explica por que dois documentos brasileiros podem discordar sobre lavagem gástrica e continuarem os dois valendo.
A vinheta quase nunca entrega o nome da molécula. Entrega um exame físico, e quer que você diga qual síndrome tóxica está na frente — porque é a síndrome, e não o rótulo do frasco, que define os primeiros minutos. Pupila, umidade da pele, ruídos hidroaéreos, frequência respiratória, temperatura e nível de consciência resolvem a maioria dos casos antes de qualquer exame complementar.
O segundo eixo é o antídoto, e aqui a prova separa quem estudou: a maior parte das intoxicações não tem antídoto, e dois dos mais lembrados — flumazenil e carvão ativado — têm mais contraindicação do que indicação. Via aérea, ventilação, hemodinâmica e glicemia tratam mais intoxicado do que qualquer ampola. O terceiro eixo é o que sobra depois da alta: a intoxicação exógena é agravo de notificação compulsória semanal, e a circunstância da exposição muda o que se preenche.
O que muda decisão
A anamnese que decide o caso
O Guia de Vigilância em Saúde organiza a coleta em seis perguntas: quem (idade, ocupação, gravidez, doenças e medicamentos em uso, álcool e drogas), o que foi usado e quanto (com a embalagem e a bula em mãos sempre que possível), qual a via (oral, dérmica, inalatória, intravenosa), onde, como — isto é, a circunstância: acidental, tentativa de suicídio, agressão, ocupacional ou ambiental — e há quanto tempo.
A circunstância não é burocracia. Ela muda a probabilidade diagnóstica (exposição ocupacional a agrotóxico em zona rural, acidente doméstico com saneante em criança de 2 anos, ingestão intencional de caixa inteira de medicamento em adolescente) e muda o que se notifica: tentativa de suicídio exige, além da ficha de intoxicação, a ficha de violência. O tempo decorrido decide se ainda cabe descontaminação e se o nível sérico já pode ser colhido.
Os agentes que mais aparecem, segundo o mesmo documento, são medicamentos, agrotóxicos, raticidas, produtos veterinários, produtos de uso domiciliar, cosméticos, produtos químicos de uso industrial, metais, drogas de abuso, plantas tóxicas, alimentos e bebidas. Intoxicação aguda é a que decorre de exposição única ou de exposições sucessivas dentro de um prazo médio de 24 horas. Gestantes, lactantes, crianças e idosos são os grupos de maior suscetibilidade.
O telefone do sistema é o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001, que conecta ao CIATox de referência da região. Essa não é uma orientação de cortesia: em decisões como a do flumazenil, o próprio guia brasileiro de antídotos manda que a indicação e a dose sigam a orientação do CIATox regional. A conduta orientada pelo centro entra no prontuário.
Cinco síndromes tóxicas, e o exame físico que as separa
A síndrome colinérgica é a do organofosforado e do carbamato, e se lê em três blocos. O muscarínico dá sialorreia, lacrimejamento, sudorese, miose, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, vômito, cólica abdominal e incontinência urinária e fecal. O nicotínico dá fasciculação, tremor, fraqueza, mioclonia e contratura. O componente central dá confusão, letargia, ansiedade, convulsão e coma. É o quadro em que a pele está molhada e o pulmão, cheio de secreção.
A síndrome opioide é miose puntiforme com bradipneia e rebaixamento — a tríade que a naloxona reverte. A pele está seca. É a que mais se confunde com a colinérgica, e o que separa as duas é justamente a umidade da pele e a ausculta: no opioide não há sialorreia nem broncorreia, e a bradipneia domina o quadro.
A síndrome sedativo-hipnótica (benzodiazepínico, álcool, barbitúrico) dá rebaixamento com pupila pouco alterada e sem sinal autonômico marcante. Isolada, costuma preservar razoavelmente a ventilação; o que faz o paciente parar de respirar é quase sempre a coingestão. A anticolinérgica é o espelho da colinérgica: midríase, pele seca, quente e ruborizada, febre, retenção urinária, íleo e delirium com alucinação — antidepressivo tricíclico, anti-histamínico, escopolamina e plantas do gênero Datura. O guia brasileiro de antídotos de 2025 não traz fisostigmina na lista; o manejo é de suporte, e o bicarbonato de sódio entra quando o tricíclico alarga o QRS.
A síndrome simpaticomimética (cocaína, anfetamina) também dá midríase, mas com pele úmida, agitação, hipertensão, taquicardia e hipertermia. O par de perguntas que resolve quase toda vinheta é, portanto, curto: a pupila está pequena ou grande, e a pele está molhada ou seca.

Descontaminação: cedo, pouco, e quase nunca
O carvão ativado em dose única é considerado em exposição potencialmente grave, até 60 minutos da ingestão, e só para substâncias que ele adsorve: 50 g no adulto, 1 g/kg na criança até o teto de 50 g, por via oral ou por sonda. Está contraindicado em paciente com nível de consciência rebaixado, pelo risco de aspiração; em ingestão de corrosivo; em ingestão de hidrocarboneto; e diante de substâncias que ele simplesmente não adsorve — álcoois tóxicos (metanol, etilenoglicol, dietilenoglicol, butilglicol), lítio, metais e seus sais, como arsênio, chumbo, ferro e mercúrio.
As doses múltiplas de carvão ativado são outra técnica, com outra indicação: aumentar a eliminação de xenobióticos que fazem circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina —, e podem ser consideradas na digoxina. Repetem-se 50 g a cada 4 a 6 horas no adulto (1 g/kg por dose na criança, até 50 g). São contraindicadas em obstrução ou perfuração intestinal, íleo paralítico, depressão neurológica sem via aérea protegida e instabilidade hemodinâmica.
A descontaminação que mais muda desfecho em agrotóxico não é a gastrointestinal, é a de pele. Retira-se toda a roupa e faz-se banho de arraste com água e sabão em abundância, com atenção aos espaços interdigitais e à região sob as unhas. A equipe usa avental impermeável, evita friccionar a pele do paciente e não fica manipulando roupa e objetos contaminados, para não criar novas exposições. Exposição ocular pede irrigação abundante com água ou salina isotônica em baixa pressão por, no mínimo, 15 minutos. Na via inalatória, retirar do ambiente e ofertar oxigênio.
Êmese provocada está contraindicada. E paciente assintomático após exposição a organofosforado fica em observação por pelo menos 6 horas antes de qualquer alta.
Organofosforado e carbamato: atropina até secar
As intoxicações por organofosforado podem se apresentar de três formas — a crise colinérgica aguda, a síndrome intermediária e a neurotoxicidade tardia. As por carbamato se manifestam só de forma aguda, porque esses compostos são rapidamente degradados no organismo, e em geral se recuperam em cerca de 6 horas. Persistência do quadro além disso levanta outro diagnóstico ou associação com organofosforado.
A atropina antagoniza os efeitos muscarínicos: seca as secreções, corrige a bradicardia, alivia o broncoespasmo. Não antagoniza os efeitos nicotínicos — fasciculação, mioclonia e fraqueza não respondem a ela, e é por isso que o paciente atropinizado pode continuar precisando de ventilação. Nos quadros leves a moderados, a dose é de 1 a 2 mg por vez; nos graves, de 2 a 4 mg, repetidas a intervalos de 3 a 10 minutos. O guia de antídotos de 2025 sintetiza a dose inicial do adulto como 1 a 4 mg IV, e a da criança como 0,03 a 0,05 mg/kg; o material técnico do Paraná trabalha com 0,01 a 0,05 mg/kg na criança, tanto no ataque quanto na manutenção horária.
O alvo da titulação é clínico e precisa ser dito com todas as letras: boca seca, pele seca, queda da hipersecreção brônquica avaliada pela ausculta e frequência cardíaca em torno de 120 bpm. A miose é o último sinal a desaparecer e não serve de parâmetro de atropinização. Taquicardia não contraindica a atropina. Estabilizado o paciente, mantém-se infusão contínua em bomba, de 1 a 2 mg/h nos casos mais leves e de 3 a 4 mg/h nos graves, com reavaliação a cada 30 minutos nas três primeiras horas e retirada gradual. Se os sinais colinérgicos voltarem depois da suspensão, retoma-se pela dose de ataque, não pela manutenção anterior. Casos muito graves podem exigir mais de 4 mg/h.
O diazepam entra a partir da gravidade moderada: 10 mg IV lentos no adulto, sem ultrapassar 5 mg por minuto, e 0,1 a 0,2 mg/kg em 3 minutos na criança, repetíveis a cada 1 a 4 horas. Ficam de fora morfina, fenotiazinas e barbitúricos, por depressão do sistema nervoso central, e teofilina e aminofilina, por predisposição a arritmia grave. Nos documentos brasileiros correntes, o antídoto da intoxicação colinérgica é a atropina: o guia de antídotos de 2025 percorre a lista de N-acetilcisteína a vitamina K1 sem incluir oxima, e o material técnico do Paraná cita a pralidoxima apenas para registrar que ela, como a atropina, não previne a neuropatia tardia.
A síndrome intermediária é a armadilha de alta. Surge entre 24 e 96 horas depois da recuperação da crise colinérgica, em paciente consciente, sem fasciculações e sem outras manifestações colinérgicas, e se caracteriza por fraqueza dos flexores do pescoço e da musculatura proximal dos membros superiores, podendo acometer nervos cranianos, com insuficiência respiratória de aparecimento súbito e risco de óbito por paralisia respiratória. Por isso o intoxicado por organofosforado permanece no hospital de 3 a 5 dias após a melhora da crise aguda. A neuropatia tardia é outra coisa: aparece de 10 dias a 3 ou 4 semanas depois, é distal e progressiva, com fraqueza, ataxia, parestesia e hiporreflexia, e nenhum fármaco provou tratá-la — a recuperação vem com fisioterapia.
A dosagem de colinesterase ajuda quando existe: uma inibição de 25 a 30% — ou menos, na vigência de sintomas característicos — confirma a intoxicação aguda. A plasmática cai e se recupera antes (cerca de 7% ao dia); a eritrocitária permanece baixa por semanas a meses (cerca de 1% ao dia) e é a de escolha na vigilância das exposições crônicas. Hepatopatia, uremia, gravidez, desnutrição, alcoolismo e cerca de 3% da população, por variação genética, cursam com atividade baixa sem intoxicação nenhuma. Onde o exame não existe, cabe a prova diagnóstico-terapêutica: 1 mg de atropina IV no adulto (0,01 mg/kg na criança) produz, em poucos minutos, taquicardia, rubor facial, boca seca e midríase em quem não está intoxicado — e nada disso em quem está.
Paracetamol: o dano que só aparece depois
Uma pequena fração do paracetamol é normalmente convertida em NAPQI, metabólito reativo que é neutralizado pela glutationa. Na superdose, as vias usuais de conjugação saturam, aumenta a formação de NAPQI e a reserva de glutationa se esgota; então o metabólito passa a ligar-se às proteínas hepáticas e produz necrose. A N-acetilcisteína repõe glutationa e também oferece benefício depois de instalada a lesão. Por isso, o tratamento é mais eficaz nas primeiras 8 horas, quando o paciente em geral ainda está assintomático; esperar dor abdominal ou transaminases elevadas é esperar o dano.
Na ingestão aguda única, com horário conhecido, dosa-se o paracetamol a partir de 4 horas e plota-se o resultado no nomograma de Rumack–Matthew adotado pelo protocolo utilizado pelo serviço. O nomograma não vale para horário incerto, ingestão repetida ou escalonada, nem decide sozinho a conduta diante de lesão hepática. Formulação de liberação prolongada, coingestão que retarde o esvaziamento gástrico ou concentração ainda mensurável perto da linha podem exigir nova dosagem 4 a 6 horas depois. Nessas situações, a decisão combina história, concentração, AST/ALT e RNI, com apoio do CIATox.
Não se deve atrasar a N-acetilcisteína aguardando um resultado que chegará depois de 8 horas da ingestão. Também se inicia tratamento quando o horário é desconhecido e há paracetamol detectável ou transaminases elevadas com história compatível, nas ingestões repetidas de alto risco e diante de evidência de lesão ou falência hepática. A estimativa de dose ingerida ajuda a decidir o início empírico, mas não substitui a concentração sérica quando o nomograma é aplicável.
O guia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit de 2025 adota o esquema SNAP de duas bolsas em 12 horas: 100 mg/kg em 2 horas, seguidos de 200 mg/kg em 10 horas, total de 300 mg/kg; em crianças, ajustam-se concentração e volume para evitar sobrecarga. Esse não é o único regime aceito internacionalmente: há protocolos intravenosos de 20 a 21 horas. Em qualquer regime, o relógio não autoriza a suspensão automática. Ao término, reavaliam-se clínica, concentração de paracetamol, AST/ALT e RNI; a N-acetilcisteína prossegue se ainda houver fármaco detectável, piora laboratorial ou insuficiência hepática.
Opioide e benzodiazepínico: um antídoto que salva e um que quase nunca entra
A naloxona é indicada na síndrome opioide quando há hipoventilação. O alvo é restaurar ventilação e proteção de via aérea — não necessariamente deixar o paciente completamente desperto. Em adulto sem dependência conhecida, pode-se iniciar com 0,4 mg IV; se não houver resposta em 2 a 3 minutos, escalam-se doses, lembrando que exposições a opioides muito potentes podem exigir quantidades maiores. No usuário crônico, doses iniciais menores e tituladas reduzem o risco de precipitar abstinência abrupta.
A meia-vida da naloxona é menor que a de muitos opioides. Depois da resposta, mantém-se observação e reavaliação respiratória; quando foram necessárias doses repetidas ou o agente é de ação prolongada, pode ser necessária infusão contínua, calculada a partir da dose efetiva e ajustada pela ventilação. Recorrência de bradipneia pede nova naloxona e suporte de via aérea, não apenas estímulo verbal.
Com o flumazenil, a régua é oposta. Ele é raramente indicado no intoxicado e tem uso mais habitual na reversão de sedação procedimental. Na intoxicação, só se cogita diante de exposição exclusivamente benzodiazepínica, depressão neurológica importante e comprometimento ventilatório, após avaliação do risco e orientação do CIATox.
Não se usa flumazenil como teste diagnóstico, em uso crônico de benzodiazepínicos, epilepsia ou coingestão desconhecida/proconvulsivante — especialmente antidepressivo tricíclico — porque pode precipitar abstinência, convulsão, arritmia e estado de mal. Na intoxicação isolada por benzodiazepínico, a base do tratamento continua sendo suporte de via aérea e observação.
Monóxido de carbono: quando o oxímetro mente
O cenário é reconhecível: aquecedor a gás, gerador ou motor ligado em ambiente fechado, braseiro, incêndio. Mais de uma pessoa doente no mesmo ambiente — às vezes incluindo o animal da casa — é a pista mais barata do enunciado. A clínica é inespecífica: cefaleia, náusea, tontura, confusão, síncope; nos casos graves, coma, convulsão, isquemia miocárdica e acidose metabólica.
O erro clássico é confiar na oximetria de pulso. O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e a saturação vem normal num paciente que não está transportando oxigênio; a PaO2 da gasometria arterial também vem normal, porque mede oxigênio dissolvido. O exame que fecha é a dosagem de carboxi-hemoglobina.
O tratamento começa antes da confirmação: oxigênio a 100% em máscara não reinalante, imediatamente, e mantido enquanto se organiza qualquer outra coisa. A diretriz da SBMH de 2019 indica oxigenoterapia hiperbárica quando o paciente preenche pelo menos um critério do Grupo I: carboxi-hemoglobina acima de 25%; gestante com carboxi-hemoglobina acima de 20%; história de perda de consciência; acidose metabólica severa concomitante, com pH abaixo de 7,1; evidência de isquemia de órgão central, como alteração de ECG, dor torácica ou alteração do estado mental; e história ou sinais sugestivos de inalação concomitante de cianeto, o que na prática significa inalação de fumaça de incêndio.
O esquema recomendado é de 2,8 ATA com oxigênio a 100% por 90 minutos, iniciado o mais precocemente possível, com oxigênio normobárico mantido até o início da sessão, e revisão a cada três sessões com testes psicométricos. Não se inicia — ou se descontinua — na ausência de suporte avançado de vida para conduzir o tratamento nos casos mais graves, diante de contraindicação absoluta à câmara, de complicações insanáveis, de ausência de melhora após três sessões consecutivas ou de remissão sustentada dos sinais e sintomas. No Brasil, o que reconhece o envenenamento por monóxido de carbono e a inalação de fumaça entre as aplicações da medicina hiperbárica é a Resolução CFM n.º 1.457/1995; a diretriz de 2019 recorta em quem indicar.
Incêndio em ambiente fechado obriga a lembrar do cianeto junto do monóxido. Nesse cenário, a hidroxicobalamina é a escolha — 70 mg/kg IV em 15 minutos na criança, com teto de 10 g no adulto — justamente porque os agentes metemoglobinizantes, como o nitrito de sódio, estão contraindicados quando há monóxido concomitante: produzir meta-hemoglobina pioraria um transporte de oxigênio já comprometido.
Notificação: o caso não termina na alta
As intoxicações exógenas por substâncias ou compostos químicos, incluindo agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados, são agravo de notificação compulsória semanal, conforme a Portaria n.º 1.061/2020, e são registradas no Sinan pela Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena. A obrigação é de médicos, dos demais profissionais de saúde e dos responsáveis por serviços públicos e privados — e qualquer cidadão também pode comunicar. Notifica o município que atendeu o caso, independentemente de onde o paciente mora ou de onde se expôs.
Quando a circunstância é tentativa de suicídio, além da ficha de intoxicação preenche-se a Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada, no prazo de até 24 horas para a secretaria municipal de saúde. Os dados são processados assim que se toma conhecimento do caso, suspeito ou confirmado: não se espera o encerramento da investigação para registrar.
O encerramento classifica o caso em uma de cinco categorias: intoxicação confirmada (exposição comprovada com manifestação clínica ou alteração laboratorial), só exposição (sem sinal, sintoma ou alteração), reação adversa a medicamento, outro diagnóstico e síndrome de abstinência. Caso exposto, para fins de vigilância, é o indivíduo com história provável ou conhecida de exposição, apresentando ou não sintomas — o que significa que o assintomático também é notificado.
O documento marca ainda os pontos de atenção que pedem medida imediata: intoxicação de gestante e lactante, de criança e adolescente (principalmente quando ligada a trabalho infantil), emergência com envolvimento de substâncias químicas, intoxicação por agrotóxico ilegal ou proibido e surtos.
Intoxicações que não cabem apenas numa tabela
Antidepressivo tricíclico e outros bloqueadores de canal de sódio cobram ECG, não nível sérico. Hipotensão, arritmia ventricular, convulsão ou QRS alargado apontam cardiotoxicidade; bicarbonato de sódio IV é o tratamento específico, em bolus titulados à melhora hemodinâmica e ao estreitamento do QRS, com monitorização de pH, sódio e potássio. Fisostigmina e antiarrítmicos bloqueadores de sódio não entram nesse cenário.
No salicilato, taquipneia não é ansiedade: a combinação típica é alcalose respiratória com acidose metabólica de ânion gap elevado. Dosagens seriadas importam porque a absorção pode ser tardia; corrigem-se glicose e potássio, alcalinizam-se soro e urina com bicarbonato e indica-se hemodiálise nos quadros graves. Intubação é decisão de alto risco: a queda da ventilação-minuto e do pH aumenta rapidamente a fração não ionizada que entra no sistema nervoso central.
Metanol e etilenoglicol entram diante de acidose metabólica de ânion gap elevado, possível gap osmolar e pistas de órgão-alvo — alteração visual no metanol, hipocalcemia e injúria renal no etilenoglicol. Forte suspeita com acidose ou lesão de órgão não deve aguardar dosagem específica: bloqueia-se a álcool-desidrogenase com fomepizol quando disponível e discute-se hemodiálise precocemente com toxicologia e nefrologia.
Na ingestão de cáustico, a prioridade é via aérea e avaliação da extensão da lesão. Não se induz vômito, não se neutraliza ácido com base ou vice-versa e não se administra carvão ativado. Dor orofaríngea ausente não exclui lesão esofagogástrica; sintomas ou ingestão intencional relevante exigem avaliação especializada para endoscopia em janela segura. Hidrocarboneto, por sua vez, cobra sobretudo risco de aspiração: não provocar vômito e observar clinicamente o pulmão.
Da porta ao antídoto
O intoxicado é paciente de emergência antes de ser caso de toxicologia. A sequência abaixo vale para qualquer agente, e o antídoto entra tarde nela de propósito.
- 1Estabilize primeiro: via aérea, ventilação, circulação e glicemia capilar. Rebaixamento sem via aérea protegida já contraindica descontaminação gastrointestinal.
- 2Descreva a síndrome tóxica no exame físico: pupila, umidade da pele, ruídos hidroaéreos, frequência respiratória, temperatura e nível de consciência.
- 3Reconstrua a exposição: agente, quantidade, via, tempo decorrido e circunstância — a circunstância também define o que se notifica.
- 4Descontamine o que ainda cabe: pele e olhos sempre que a via for essa; carvão ativado só dentro da janela e sem contraindicação.
- 5Aplique o antídoto quando ele existe e titule pelo alvo clínico, não pela dose da tabela.
- 6Defina o tempo de observação pelo agente, não pela melhora: carbamato costuma resolver em cerca de 6 horas; organofosforado grave fica de 3 a 5 dias.
- 7Notifique no Sinan e acione o CIATox pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001.
Colinérgica leve
Náusea, fadiga, mal-estar, miose, sialorreia discreta, cólica abdominal sem diarreia e fraqueza muscular mínima — o paciente deambula. Atropina de 1 a 2 mg por dose, a cada 3 a 10 minutos.
Colinérgica moderada
Salivação, lacrimejamento, miose, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, vômito, sudorese, incontinência, fasciculação, confusão e letargia — não deambula. Atropina de 1 a 2 mg por dose; o diazepam entra aqui.
Colinérgica grave
Insuficiência respiratória, pupilas puntiformes, arritmia, paralisia, convulsão e coma. Atropina de 2 a 4 mg por dose a cada 3 a 10 minutos, via aérea definitiva e manutenção em bomba de 3 a 4 mg por hora.
| Síndrome | Pupila | Pele | O que fecha | Agentes típicos | Antídoto |
|---|---|---|---|---|---|
| Colinérgica | Miose | Úmida, sudorese | Sialorreia, broncorreia, bradicardia, cólica, fasciculação | Organofosforado, carbamato | Atropina, titulada |
| Opioide | Miose puntiforme | Seca | Bradipneia com rebaixamento, sem hipersecreção | Morfina, fentanil, tramadol, heroína | Naloxona |
| Sedativo-hipnótica | Pouco alterada | Seca | Rebaixamento sem sinal autonômico marcante | Benzodiazepínico, álcool, barbitúrico | Suporte; flumazenil quase nunca |
| Anticolinérgica | Midríase | Seca, quente, ruborizada | Retenção urinária, íleo, febre, delirium com alucinação | Tricíclico, anti-histamínico, escopolamina, Datura | Suporte; bicarbonato se QRS alargado por tricíclico |
| Simpaticomimética | Midríase | Úmida | Agitação, hipertensão, taquicardia, hipertermia | Cocaína, anfetamina | Suporte; benzodiazepínico |
Antídotos que a prova cobra: dose inicial de adulto
| Antídoto | Quando | Dose inicial no adulto | O detalhe que a questão explora |
|---|---|---|---|
| Atropina | Organofosforado e carbamato | 1 a 4 mg IV, repetidos a cada 3 a 10 minutos | O alvo é boca e pele secas com ausculta limpa e FC em torno de 120 bpm; miose não é parâmetro e taquicardia não contraindica |
| N-acetilcisteína | Paracetamol | Guia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit: 100 mg/kg em 2 h + 200 mg/kg em 10 h (300 mg/kg em 12 h) | Nomograma só na ingestão aguda única e com horário conhecido; ao final, suspensão depende de clínica, paracetamol, AST/ALT e RNI |
| Naloxona | Síndrome opioide com depressão respiratória | 0,4 mg IV; sem resposta, 0,8 mg a cada 2 a 3 minutos até 2 mg | Meia-vida de 30 a 90 minutos, menor que a do opioide: manter infusão contínua com 60% a 75% da dose que reverteu |
| Flumazenil | Intoxicação exclusiva por benzodiazepínico com falência ventilatória | Somente conforme orientação do CIATox de referência | Contraindicado como teste diagnóstico e em coingestão com tricíclico ou carbamazepina |
| Oxigênio a 100% | Monóxido de carbono | Máscara não reinalante, imediatamente | A oximetria de pulso não separa carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e vem normal |
| Azul de metileno | Meta-hemoglobinemia | 1 a 2 mg/kg IV em 5 a 10 minutos | Indicado com meta-hemoglobina de 30% a 40%, ou abaixo disso se houver comorbidade que limite a oferta de oxigênio; acima de 7 mg/kg ele próprio oxida |
| Bicarbonato de sódio | QRS alargado por tricíclico ou cocaína | 50 mEq IV com QRS de 120 a 160 ms; 100 mEq acima de 160 ms | O gatilho é a largura do QRS no ECG, não o nível sérico da droga |
| Hidroxicobalamina | Cianeto, sobretudo em incêndio com monóxido junto | 70 mg/kg IV em 15 minutos na criança; teto de 10 g no adulto | É a escolha quando há monóxido concomitante, porque o nitrito de sódio geraria meta-hemoglobina |
Descontaminação: o que ainda se faz e o que saiu
| Medida | Quando | Como | Limite |
|---|---|---|---|
| Carvão ativado em dose única | Exposição potencialmente grave a substância que ele adsorve | 50 g no adulto; 1 g/kg na criança, até 50 g, por via oral ou sonda | Até 60 minutos da ingestão |
| Doses múltiplas de carvão | Xenobiótico com circulação êntero-hepática: dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina, quinina | 50 g a cada 4 a 6 horas no adulto; 1 g/kg por dose na criança | Contraindicadas em íleo, obstrução, instabilidade e via aérea desprotegida |
| Descontaminação de pele | Exposição cutânea, sobretudo a agrotóxico | Retirar toda a roupa e banho de arraste com água e sabão, com atenção a espaços interdigitais e sob as unhas | Equipe com avental impermeável; não friccionar a pele |
| Irrigação ocular | Respingo ocular | Água ou salina isotônica em baixa pressão | No mínimo 15 minutos |
| Êmese provocada | Nenhuma situação | — | Contraindicada |
| Carvão em álcoois, lítio, ferro e metais | Nenhuma situação | — | Essas substâncias não são adsorvidas pelo carvão |
Rebaixamento de consciência sem via aérea protegida contraindica qualquer descontaminação gastrointestinal — o desfecho que se evita é a pneumonite aspirativa.
Ingestão de corrosivo e de hidrocarboneto também contraindica o carvão ativado.
Assintomático após exposição a organofosforado fica em observação por pelo menos 6 horas antes de qualquer alta.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Lavagem gástrica com soro fisiológico até 1 hora da ingestão
No protocolo estadual de agrotóxicos, a via digestiva é descontaminada com lavagem gástrica abundante com soro fisiológico em até 1 hora da ingestão, com intubação orotraqueal prévia quando há alteração do nível de consciência e cuidado redobrado quando o diluente é hidrocarboneto, pelo risco de broncoaspiração e pneumonite química.
SESA-PR, Intoxicações agudas por agrotóxicos: atendimento inicial do paciente intoxicado, 2018.
Descontaminação gastrointestinal restrita ao carvão ativado
No guia brasileiro de antídotos de 2025, a única medida de descontaminação gastrointestinal descrita é o carvão ativado, com janela de 60 minutos na dose única, lista fechada de contraindicações e indicações específicas para as doses múltiplas. A lavagem gástrica não figura entre as medidas recomendadas.
CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, Recomendações gerais de indicações, uso e estoque de antídotos, março de 2025.
Na prova
A diferença é de data e de escopo: o material estadual descreve todo o atendimento inicial e é de 2018; o guia de antídotos é de 2025 e trata a descontaminação gastrointestinal só pelo carvão. O recorte se identifica no enunciado. Cenário de agrotóxico com rótulo do produto, zona rural, unidade de pronto atendimento e expressão 'atendimento inicial' costuma vir do corpo estadual de agrotóxicos. Enunciado que dá o tempo decorrido em minutos e o nome da substância ingerida, com alternativas que citam janela e contraindicação, costuma vir do corpo do guia de antídotos. E as próprias alternativas denunciam: se uma delas oferece lavagem gástrica em paciente rebaixado sem via aérea protegida, ela é distrator nos dois mundos.
Doses repetidas também no organofosforado
O protocolo estadual de agrotóxicos recomenda o carvão ativado em dose de 1 g/kg até 1 hora da ingestão e acrescenta que, nas intoxicações por organofosforado, se recomenda também o uso em doses repetidas a cada 4 horas, com laxante não oleoso intercalado conforme o trânsito intestinal, por no máximo 48 horas.
SESA-PR, Intoxicações agudas por agrotóxicos: atendimento inicial do paciente intoxicado, 2018.
Doses múltiplas só em xenobiótico com circulação êntero-hepática
O guia de antídotos de 2025 reserva as doses múltiplas de carvão ativado, a cada 4 a 6 horas, ao aumento da eliminação de xenobióticos com circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina —, podendo ser consideradas na digoxina. Organofosforado não está nessa lista.
CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, Recomendações gerais de indicações, uso e estoque de antídotos, março de 2025.
Na prova
O vocabulário separa os dois corpos. Questão que fala em 'doses repetidas de carvão com laxante intercalado' num caso de agrotóxico está usando o protocolo estadual; questão que nomeia circulação êntero-hepática e lista fenobarbital, carbamazepina, teofilina ou dapsona está usando o guia de antídotos. Vale ainda olhar o distrator: alternativa que oferece carvão — em dose única ou múltipla — para álcool tóxico, lítio, ferro ou outro metal está fora dos dois corpos, porque essas substâncias não são adsorvidas.
Guia brasileiro de antídotos — SNAP 12 h
Duas bolsas: 100 mg/kg em 2 h e 200 mg/kg em 10 h.
CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, 2025
Consenso EUA/Canadá — dose mínima em 20–24 h
Aceita mais de um regime, desde que entregue dose adequada e use critérios de suspensão.
Dart et al., JAMA Network Open, 2023
Na prova
Não existe um único relógio universal. Se o enunciado citar o guia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit de 2025, use o SNAP de 12 horas. Se citar o consenso norte-americano de 2023, reconheça regimes que entreguem pelo menos 300 mg/kg nas primeiras 20 a 24 horas. Em ambos, a suspensão depende de reavaliação clínica e laboratorial, não apenas do término da última bolsa.
Caso resolvido
- achado
- Miose com pele úmida, sialorreia, broncorreia e bradicardia fecham síndrome colinérgica de predomínio muscarínico. Roupa encharcada de produto significa que a absorção continua acontecendo enquanto o paciente é atendido.
- antes do antídoto
- Oxigênio, monitorização e retirada de toda a roupa, com banho de arraste com água e sabão em abundância, incluindo espaços interdigitais e região sob as unhas. A equipe usa avental impermeável, não fricciona a pele e não fica manipulando a roupa contaminada. Enquanto a fonte cutânea não sai, nenhuma dose de atropina se sustenta.
- antídoto
- Quadro grave: atropina de 2 a 4 mg IV, repetida a cada 3 a 10 minutos até a atropinização — boca e pele secas, queda da estertoração à ausculta e frequência cardíaca em torno de 120 bpm. A bradicardia inicial desaparece, e a taquicardia que surge não é motivo para suspender.
- o que não guia e o que não entra
- A miose não guia a titulação: é o último sinal a ceder. Morfina, fenotiazina e barbitúrico estão fora, por depressão do sistema nervoso central; teofilina e aminofilina, por arritmia. O diazepam entra a partir da gravidade moderada, 10 mg IV lentos, sem ultrapassar 5 mg por minuto.
- depois de estabilizar
- Manutenção de atropina em bomba, de 3 a 4 mg por hora nos casos graves, com reavaliação a cada 30 minutos nas primeiras 3 horas e retirada gradual. Se os sinais colinérgicos reaparecerem após a suspensão, retoma-se pela dose de ataque, não pela manutenção anterior. A fraqueza e as fasciculações não respondem à atropina — se a ventilação falha, a resposta é via aérea definitiva.
- não dar alta
- Internação de 3 a 5 dias. Entre 24 e 96 horas depois da recuperação da crise colinérgica pode surgir a síndrome intermediária: paciente lúcido, sem fasciculações, que evolui com fraqueza de flexores do pescoço e da musculatura proximal dos membros superiores e insuficiência respiratória súbita.
- vigilância
- Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena no Sinan, notificação semanal. Sendo exposição ocupacional, ocupação e atividade econômica são campos que orientam a investigação de campo e a busca por outros expostos.
Agora feche você
- achado
- Quinze gramas em 50 kg equivalem a 300 mg/kg — o dobro do limiar de 150 mg/kg que muda a conduta. Estar assintomática às 5 horas é o esperado e não afasta nada: a glutationa cai a 30% do normal em 6 a 8 horas.
- exame que decide
- Dosagem plasmática de paracetamol. A coleta vale a partir de 4 horas da ingestão, preferencialmente dentro de 8 horas, e o resultado é plotado no nomograma modificado do TOXBASE. Como o horário é certo e a ingestão foi única, o nomograma se aplica — e fatores de risco não entram na decisão.
- conduta
- …
Onde a banca derruba
- 1Titular a atropina pela pupila Atrai porque a miose é o sinal mais visível do quadro colinérgico. Só que ela é o último a ceder: quem espera a pupila abrir infunde atropina muito além do necessário, e quem vê a pupila ainda miótica e conclui que o antídoto falhou troca de conduta sem motivo. O alvo é boca e pele secas, ausculta limpa e frequência em torno de 120 bpm.
- 2Suspender a atropina porque o paciente taquicardizou Atrai porque taquicardia soa como efeito adverso. No intoxicado por inibidor de colinesterase, ela é parte do alvo — taquicardia não contraindica atropina. O que mata nesse quadro é a broncorreia enchendo o pulmão, não a frequência cardíaca.
- 3Dar flumazenil para confirmar intoxicação por benzodiazepínico Atrai pela elegância do raciocínio: o paciente acorda, está feito o diagnóstico. É contraindicação formal. Como teste diagnóstico pode desencadear convulsão em epiléptico, e em coingestão com tricíclico ou carbamazepina pode induzir arritmia grave e estado de mal convulsivo. A indicação que resta é rara e passa pelo CIATox de referência.
- 4Confiar na saturação do oxímetro no monóxido de carbono Atrai porque a SpO2 de 99% parece tranquilizadora e desloca a suspeita para causa neurológica. O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e a PaO2 da gasometria também vem normal. O exame é a dosagem de carboxi-hemoglobina, e o oxigênio a 100% em máscara não reinalante começa antes dela.
- 5Dar alta ao intoxicado por organofosforado que melhorou Atrai porque o paciente está lúcido, sem fasciculações e sem sinais colinérgicos — parece curado. Entre 24 e 96 horas pode aparecer a síndrome intermediária, com fraqueza cervical e proximal e insuficiência respiratória súbita. Quem resolve em cerca de 6 horas é o carbamato; organofosforado grave fica de 3 a 5 dias.
- 6Tratar paracetamol pelo sintoma Atrai porque o paciente assintomático parece o menos urgente da sala. É justamente nessa janela que a N-acetilcisteína previne a lesão, antes de a glutationa cair a 30% do normal em 6 a 8 horas. Esperar dor em hipocôndrio direito ou transaminase alta é esperar o dano se instalar.
- 7Pedir carvão ativado por reflexo Atrai por ser a medida mais lembrada de descontaminação. Ele não adsorve álcoois tóxicos, lítio, ferro nem outros metais, e está contraindicado em corrosivo, hidrocarboneto e em qualquer paciente rebaixado sem via aérea protegida. Fora da janela de 60 minutos e dessas travas, só adiciona risco de aspiração.
Correta: tremor grosseiro, ataxia, disartria, sintomas gastrointestinais e letargia em usuário de lítio, precipitados por desidratação e AINE (que reduzem a depuração renal do lítio), indicam intoxicação por lítio — conduta é suspender a droga, dosar a litemia e hidratar (casos graves: hemodiálise). Aumentar a dose agravaria a toxicidade. Antipsicótico não trata a causa e mascara o quadro. Trocar por carbamazepina sem confirmar/tratar a intoxicação é inadequado. Liberar para casa é perigoso: intoxicação pode progredir para convulsões e coma.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher de 45 anos com transtorno bipolar em uso crônico de lítio apresenta, há 2 dias, tremor grosseiro, ataxia, disartria, vômitos, diarreia e confusão. Iniciou hidroclorotiazida há uma semana para hipertensão. PA 128x80 mmHg, FC 88 bpm. Litemia 2,3 mEq/L (referência terapêutica 0,6–1,2 mEq/L), creatinina 1,6 mg/dL. Além de suspender o lítio e hidratar, qual medida é indicada nos casos de intoxicação grave por lítio?
A hidroclorotiazida reduz a excreção renal de lítio e elevou a litemia a nível tóxico (>2,0 mEq/L) com sinais neurológicos graves e disfunção renal — indicação de hemodiálise, que remove eficazmente o lítio. N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol. Flumazenil reverte benzodiazepínicos. A alcalinização urinária NÃO aumenta significativamente a excreção de lítio (útil para salicilatos/fenobarbital, não para lítio). Carvão ativado não adsorve lítio (íon inorgânico), sendo ineficaz.
Homem de 38 anos é resgatado de incêndio em ambiente fechado. Apresenta cefaleia, náuseas, confusão mental e rebaixamento do nível de consciência, sem grandes queimaduras cutâneas. A oximetria de pulso mostra saturação de 98%, aparentemente normal, apesar do quadro neurológico. Qual é a explicação e a conduta corretas?
Vítima de incêndio em ambiente fechado com sintomas neurológicos e SpO2 aparentemente normal deve levantar suspeita de intoxicação por monóxido de carbono. A carboxi-hemoglobina não é distinguida da oxi-hemoglobina pela oximetria de pulso convencional, gerando leitura FALSAMENTE normal apesar da hipóxia tecidual. O tratamento é oxigênio a 100% em alto fluxo (que reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina), considerando oxigênio hiperbárico em casos graves. Atribuir a hipoglicemia/ansiedade ou concluir que a saturação normal exclui hipóxia ignora a limitação do método e retarda o tratamento essencial.
Homem de 45 anos, com histórico de transtorno afetivo bipolar em uso de carbonato de lítio há dois anos, é levado ao pronto-socorro com quadro de náuseas, vômitos, diarreia, tremores grosseiros de extremidades, ataxia e confusão mental iniciados há dois dias. A família relata que ele começou recentemente um anti-inflamatório (ibuprofeno) por lombalgia e que teve um episódio de gastroenterite com pouca ingesta hídrica na última semana. Ao exame, encontra-se desidratado, com disartria, hiperreflexia e tremor de intenção. Considerando o diagnóstico mais provável e a conduta inicial mais adequada, assinale a alternativa correta:
O lítio tem janela terapêutica estreita; a associação de desidratação (gastroenterite, baixa ingesta) e AINE (ibuprofeno, que reduz a excreção renal de lítio) precipita intoxicação. O quadro neurológico e gastrointestinal (vômitos, diarreia, tremor grosseiro, ataxia, disartria, confusão, hiperreflexia) é típico. A conduta é suspender o lítio, hidratar e dosar litemia e função renal (casos graves podem exigir hemodiálise). Interpretar como efeito adverso esperado do lítio, mantendo a dose e apenas orientando, agrava a intoxicação. Não se trata de episódio maníaco — os sinais são de toxicidade, e aumentar a dose seria deletério. Síndrome serotoninérgica, que motivaria cipro-heptadina, não se aplica, pois não há uso de serotoninérgicos.
Homem, 42 anos, agricultor, é levado ao pronto-socorro cerca de 30 minutos após aplicar inseticida na lavoura sem equipamento de proteção. Apresenta-se sonolento, com sialorreia intensa, lacrimejamento, sudorese profusa e diarreia. Ao exame: PA 90/60 mmHg, FC 48 bpm, FR 26 ipm, SatO2 89% em ar ambiente. Pupilas mióticas puntiformes, ausculta pulmonar com estertores difusos e sibilos. Diante do quadro toxidrômico, qual é o antídoto específico de escolha?
O quadro é uma síndrome colinérgica (muscarínica + nicotínica) típica de intoxicação por organofosforado: miose puntiforme, sialorreia, lacrimejamento, sudorese, broncorreia/broncoespasmo, diarreia e bradicardia. A base do tratamento é a ATROPINA, antagonista muscarínico, titulada até secagem das secreções brônquicas. Flumazenil reverte benzodiazepínicos (síndrome sedativa, não colinérgica). Naloxona reverte opioides (miose com depressão respiratória, mas SEM sialorreia/sudorese/broncorreia). N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol. Pralidoxima é adjuvante (reativador da colinesterase), mas NUNCA substitui a atropina, que é a droga que salva a vida ao controlar as secreções — usá-la isolada é conduta incorreta.
Mulher, 28 anos, é trazida por familiares após ingestão intencional de comprimidos há aproximadamente 3 horas, sem identificação da substância. Apresenta rebaixamento do nível de consciência, respondendo apenas a estímulo verbal. Ao exame: PA 118/76 mmHg, FC 70 bpm, FR 10 ipm, SatO2 94% em ar ambiente, pupilas em midríase média sem outros achados, glicemia capilar 98 mg/dL, sem sinais focais. A gasometria mostra acidose respiratória leve. Considerando a segurança do manejo, qual é a conduta mais adequada?
Em intoxicação por substância desconhecida com depressão do SNC e hipoventilação sem instabilidade grave, a conduta segura é SUPORTE clínico com monitorização e proteção de via aérea — o manejo dos intoxicados é primariamente sintomático/de suporte. O flumazenil empírico é contraindicado nesse contexto: em ingestão de substância desconhecida ou coingestão possível, ele pode precipitar convulsões refratárias (especialmente se houver tricíclicos ou uso crônico de benzodiazepínico), sem melhorar o desfecho. Naloxona só se justifica com toxidromo opioide claro (miose puntiforme + depressão respiratória), ausente aqui (pupilas médias). Lavagem gástrica não é rotina, tem indicação restrita e risco de aspiração, não sendo feita de forma indiscriminada. N-acetilcisteína exige suspeita/confirmação de paracetamol e dosagem sérica guiando a decisão — administração empírica não se justifica sem evidência.
Homem, 22 anos, sem comorbidades, é atendido 6 horas após ingestão intencional e única de grande quantidade de comprimidos de paracetamol. Está assintomático, com exame físico e sinais vitais normais. A paracetamolemia colhida na 4ª hora após a ingestão situa-se ACIMA da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew. As enzimas hepáticas ainda estão normais. Qual é a conduta correta neste momento?
O nomograma de Rumack-Matthew usa a paracetamolemia colhida entre 4 e 24 horas após ingestão aguda única de horário conhecido: se o valor cai ACIMA da linha de tratamento, está indicada N-acetilcisteína IMEDIATAMENTE, independentemente de sintomas ou de enzimas hepáticas ainda normais — o objetivo é prevenir a hepatotoxicidade, que se instala tipicamente após 24-72h. A NAC é altamente eficaz quando iniciada precocemente (idealmente até 8h). Aguardar transaminases ou o INR atrasa o tratamento e reduz drasticamente sua eficácia protetora. Não tratar por estar assintomático é erro grave: a fase inicial do envenenamento por paracetamol costuma ser oligossintomática. Carvão ativado isolado tem janela útil precoce (geralmente até ~1-2h) e não substitui a NAC quando o nomograma já indica tratamento — às 6 horas seu benefício é limitado e não cobre o risco hepático.
Homem, 46 anos, tenta suicídio ingerindo grande quantidade de anticongelante (etilenoglicol) há 3 horas. Chega à emergência com rebaixamento do nível de consciência, taquipneia e hálito característico. PA 110/70 mmHg, FC 110 bpm, FR 32 ipm, SatO2 96%. Gasometria: pH 7,10, HCO3- 8 mEq/L, com acidose metabólica de ânion-gap elevado e gap osmolar aumentado. Além do antídoto específico e das medidas de suporte, qual modalidade terapêutica está indicada para remoção da substância tóxica e correção da acidose grave neste paciente?
Correta: a intoxicação por etilenoglicol é uma das indicações clássicas de diálise (o 'I' de Intoxicação no mnemônico AEIOU). A hemodiálise remove eficientemente o etilenoglicol e seus metabólitos tóxicos (glicolato, oxalato), que têm baixo peso molecular e baixa ligação proteica, além de corrigir a acidose metabólica grave — indicada em intoxicação com acidose importante, lesão renal ou níveis séricos elevados. A diálise peritoneal tem clearance muito inferior e é inadequada para remoção rápida de toxinas em emergência. A plasmaférese não remove eficazmente moléculas pequenas e dialisáveis como o etilenoglicol. A hemoperfusão com carvão é útil para toxinas com alta ligação ao carvão (ex.: teofilina, carbamazepina), não para etilenoglicol/metanol, cuja remoção de escolha é a hemodiálise. A exsanguineotransfusão não tem papel no manejo desta intoxicação.
Mulher, 35 anos, resgatada inconsciente de incêndio domiciliar em ambiente fechado. Sem queimaduras cutâneas extensas e sem estridor. Glasgow 8, PA 90x60 mmHg, FC 118 bpm, FR 26 ipm. Gasometria arterial: pH 7,18, lactato 12 mmol/L (VR <2), SatO2 pela oximetria de pulso 99%, mas pO2 e cálculo mostram grande gap. Carboxi-hemoglobina (COHb) 8% (VR <3 em não fumantes). Recebeu O2 a 100% no transporte. Persiste acidose lática grave desproporcional ao quadro hemodinâmico. Qual é a medida terapêutica específica mais adequada?
Correta: Vítima de incêndio em ambiente fechado com coma, hipotensão e acidose lática GRAVE (lactato 12) desproporcional, apesar de COHb apenas discretamente elevada e já sob O2 100%, é o quadro clássico de intoxicação por cianeto (produto da combustão de plásticos/têxteis). Lactato ≥8-10 mmol/L em vítima de fumaça é marcador sensível de cianeto. O antídoto de escolha é a hidroxocobalamina, segura no queimado. Errada: COHb de 8% após O2 100% não justifica hiperbárica (indicações são níveis muito mais altos/sintomas neurológicos específicos), e não explica a acidose grave. Errada: azul de metileno trata metemoglobinemia, não intoxicação por cianeto — pode piorar. Errada: bicarbonato trata sintoma, não a causa; não é terapia definitiva. Errada: o esquema nitrito de sódio induz metemoglobinemia e é contraindicado/perigoso no paciente com intoxicação por monóxido concomitante (piora a hipóxia); a hidroxocobalamina é preferível.
Mulher, 19 anos, é trazida ao pronto-socorro após ingestão intencional de grande quantidade de ácido acetilsalicílico há cerca de 6 horas. Refere zumbido e náuseas. Ao exame: agitada, PA 118/72 mmHg, FC 110 bpm, FR 30 ipm, T 38,2 °C, SatO2 99%. Exames: Na+ 140 mEq/L; Cl- 100 mEq/L; pH 7,45 (VR 7,35-7,45); PaCO2 22 mmHg (VR 35-45); HCO3- 15 mEq/L (VR 22-26). O distúrbio ácido-base mais provável é:
Correta: Quadro clássico de intoxicação salicílica, com dois distúrbios primários coexistindo. O ânion-gap = 140 - (100 + 15) = 25 mEq/L (elevado), evidenciando acidose metabólica com AG alto (acúmulo de salicilato e ácidos orgânicos). Simultaneamente, o salicilato estimula diretamente o centro respiratório, gerando alcalose respiratória primária: se houvesse apenas compensação da acidose metabólica, a PaCO2 esperada (Winter: 1,5×15+8 ≈ 30 mmHg; faixa 28-32) seria bem maior que os 22 mmHg medidos — a PaCO2 desproporcionalmente baixa denuncia a alcalose respiratória primária. O pH quase normal/levemente alcalótico resulta da soma dos distúrbios opostos. Erra: ignora o AG elevado, que aponta acidose metabólica coexistente. Erra: a PaCO2 (22) está muito abaixo da compensação esperada, indicando distúrbio respiratório primário, não mera compensação. Erra: não há elevação de HCO3- que caracterize alcalose metabólica. Erra: a PaCO2 está baixa (alcalose respiratória), não elevada.
Mulher, 24 anos, é levada ao pronto-socorro pela família cerca de 8 horas após ingerir, com intenção suicida, aproximadamente 25 comprimidos de paracetamol de 750 mg (dose estimada > 150 mg/kg). No momento, encontra-se lúcida, orientada e assintomática. Exame físico sem alterações. Sinais vitais: PA 118/74 mmHg, FC 82 bpm, FR 16 ipm, SatO2 98% em ar ambiente, T 36,5 °C. Exames: AST 28 U/L (VR < 40), ALT 30 U/L (VR < 41), INR 1,0, creatinina 0,8 mg/dL (VR 0,6–1,1). A paracetamolemia colhida no tempo atual situa-se ACIMA da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew. Qual é a conduta mais apropriada?
Correta: a paciente ingeriu dose potencialmente hepatotóxica (> 150 mg/kg) e a paracetamolemia está acima da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew — indicação formal de N-acetilcisteína (NAC), que deve ser iniciada o quanto antes; sua eficácia é maior nas primeiras 8–10 h, mas mantém benefício mesmo depois. Estar assintomática e com transaminases normais NÃO afasta a indicação, pois a lesão hepática só se manifesta após 24–72 h. A lavagem gástrica não tem papel nesse tempo e não substitui o antídoto. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínicos, sem relação com o quadro. Esperar a elevação de transaminases significa tratar tardiamente, quando o dano já se instalou. Carvão ativado só é útil na 1ª–2ª hora pós-ingestão e, isolado, não trata a toxicidade em curso.
Homem, 28 anos, é trazido pelo SAMU após ser encontrado inconsciente em via pública, com seringas ao lado. Ao exame: Glasgow 7, pupilas puntiformes (mióticas) e pouco reativas, FR 6 ipm, ritmo respiratório irregular, SatO2 86% em ar ambiente, PA 100/60 mmHg, FC 58 bpm. Ausência de sinais de trauma. A tríade de rebaixamento do nível de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória sugere fortemente o diagnóstico. Qual é o antídoto específico indicado?
Correta: a tríade clássica miose puntiforme + rebaixamento de consciência + depressão respiratória caracteriza a síndrome opioide (toxíndrome), cujo antídoto específico é a naloxona, antagonista competitivo dos receptores opioides, titulada para restaurar a ventilação. Flumazenil antagoniza benzodiazepínicos, que causam depressão do SNC mas tipicamente NÃO produzem miose puntiforme nem depressão respiratória tão intensa. Atropina é usada na síndrome colinérgica (organofosforados), que cursa com miose porém acompanhada de sialorreia, broncorreia e sudorese — quadro oposto. Pralidoxima é reativador de colinesterase, também para organofosforados. Azul de metileno é o antídoto da metemoglobinemia, sem relação com o quadro.
Homem, 34 anos, é atendido no inverno após passar horas em um cômodo fechado com aquecedor a gás com má combustão. Queixa-se de cefaleia intensa, náuseas, tontura e dificuldade de concentração; um familiar que estava no mesmo ambiente apresentou queixas semelhantes. Ao exame: sonolento porém orientado, PA 128/80 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, T 36,7 °C. A oximetria de pulso mostra SatO2 98% em ar ambiente, mas a gasometria com co-oximetria revela carboxi-hemoglobina de 26% (VR < 3% em não fumantes). Qual é a conduta imediata mais apropriada?
Correta: trata-se de intoxicação por monóxido de carbono (fonte de combustão incompleta, múltiplas vítimas no mesmo ambiente, cefaleia/confusão e CO-Hb elevada). A oximetria de pulso é FALSAMENTE normal porque não distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina. O tratamento imediato é oxigênio a 100% (máscara não reinalante), que reduz a meia-vida da CO-Hb de ~4–6 h para ~60–90 min; a câmara hiperbárica é considerada em casos graves (perda de consciência, isquemia miocárdica, gestante, CO-Hb muito elevada). Suspender O2 confiando na SatO2 de pulso é erro grave — o oxímetro superestima a saturação real na intoxicação por CO. Azul de metileno trata metemoglobinemia, não intoxicação por CO. Flumazenil não tem qualquer indicação aqui. Furosemida não trata a hipóxia tecidual da CO e pode agravar o quadro por hipovolemia.
Homem, 34 anos, previamente hígido, é trazido à emergência com dor torácica intensa e agitação psicomotora iniciadas cerca de 1 hora após uso de cocaína inalada. PA 178/106 mmHg, FC 124 bpm, FR 20 ipm, T 37,4 °C, SatO2 97% em ar ambiente. ECG mostra taquicardia sinusal com infradesnivelamento de ST de 1 mm em derivações laterais, sem supradesnível. Primeira troponina discretamente elevada. Qual a conduta farmacológica inicial mais adequada?
Diagnóstico: síndrome coronariana aguda associada à cocaína, cujo mecanismo é hiperestímulo adrenérgico com vasoespasmo coronariano. O raciocínio tem 2 passos: (1) reconhecer a etiologia cocaínica e (2) lembrar que o tratamento de base é benzodiazepínico (reduz o tônus simpático central) somado a nitrato ou bloqueador de canal de cálcio (revertem o vasoespasmo). Propranolol e metoprolol erram pelo mesmo motivo e são a pegadinha clássica: betabloqueador na intoxicação por cocaína causa vasoconstrição coronariana por estímulo alfa sem oposição, agravando a isquemia e a hipertensão — estão contraindicados. O trombolítico erra porque não há supra de ST nem indicação de trombólise, que ainda aumentaria o risco de sangramento e de dissecção. A atropina erra porque o paciente está taquicárdico — ela agravaria a taquicardia e o consumo miocárdico de O2.
Homem, 28 anos, é trazido ao pronto-socorro após ingestão intencional de grande quantidade de ácido acetilsalicílico há cerca de 6 horas. Refere zumbido nos ouvidos e apresenta-se taquipneico. Ao exame: agitado, FR 32 ipm, FC 110 bpm, T 37,8 °C. Gasometria arterial: pH 7,44 (VR 7,35–7,45), pCO2 18 mmHg (VR 35–45), HCO3 12 mEq/L (VR 22–26). Eletrólitos: Na 140 mEq/L, Cl 100 mEq/L, K 3,8 mEq/L. O distúrbio ácido-base mais compatível com o quadro é:
Passo 1 — o ânion-gap = 140 − (100 + 12) = 28 mEq/L (elevado), indicando acidose metabólica de AG alto (acúmulo de salicilato/lactato/cetoácidos). Passo 2 — a compensação respiratória esperada por Winter seria pCO2 = 1,5 × 12 + 8 = 26 ± 2 (24–28 mmHg); o pCO2 medido é 18 mmHg, muito ABAIXO do previsto, revelando alcalose respiratória primária sobreposta (estímulo direto do centro respiratório pelo salicilato). É o clássico distúrbio misto da intoxicação por salicilato, em que o pH pode permanecer próximo do normal. Errada: há acidose metabólica evidente pelo AG elevado, não alcalose respiratória isolada. Errada: a compensação NÃO é adequada — o pCO2 está abaixo do esperado, caracterizando distúrbio respiratório adicional. Errada: HCO3 baixo com AG alto indica acidose metabólica, não alcalose metabólica. Errada: não há acidose respiratória (o pCO2 está baixo, não alto), e o paciente hiperventila.
Mulher, 19 anos, é trazida à emergência 4 horas após ingerir, em gesto impulsivo pós-término de relacionamento, cerca de 20 comprimidos de paracetamol 500 mg. No momento está consciente, colaborativa, hemodinamicamente estável (PA 118×74 mmHg, FC 88 bpm), assintomática, e refere estar arrependida do ato, dizendo que "não quer mais morrer". Não há vômitos. Qual é a conduta imediata mais adequada?
Há duas frentes: a intoxicação por paracetamol (dose potencialmente hepatotóxica, ~10 g) e o risco psiquiátrico. A hepatotoxicidade é silenciosa nas primeiras horas — a paciente assintomática NÃO está fora de risco —, e o antídoto é a N-acetilcisteína, guiada pelo nomograma/nível sérico. Além disso, arrependimento e aparência calma não afastam o risco: foi tentativa com método de letalidade relevante, exigindo permanência em ambiente seguro e avaliação psiquiátrica. Correta: Errada: alta pelo arrependimento ignora tanto a toxicidade tardia quanto o risco de nova tentativa. Errada: carvão ativado tem janela limitada e não substitui o antídoto. Errada: ISRS não protege agudamente e adiar 15 dias deixa a paciente desprotegida. Errada: lavagem gástrica não é rotina 4 h após ingestão e liberar com exames iniciais normais ignora a hepatotoxicidade tardia.
Mulher, 22 anos, 60 kg, é trazida ao pronto-socorro 6 horas após ingestão intencional de 25 comprimidos de paracetamol 750 mg (dose aproximada de 312 mg/kg) em tentativa de suicídio. Está assintomática, com exame físico e sinais vitais normais. Exames iniciais: TGO 28 U/L (VR até 40), TGP 25 U/L (VR até 40), INR 1,0, creatinina 0,8 mg/dL. A dosagem sérica de paracetamol colhida nesta 6ª hora após a ingestão é de 180 µg/mL — valor situado ACIMA da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew para esse intervalo de tempo. Qual a conduta?
Correta: o paracetamol sérico de 180 µg/mL na 6ª hora encontra-se acima da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew (que parte de 150 µg/mL às 4 h e decai com o tempo), indicando risco de hepatotoxicidade e obrigando o início da N-acetilcisteína. A NAC é máxima protetora quando iniciada em até 8 h da ingestão, justamente a janela atual — não se deve postergar. Carvão ativado só teria utilidade nas primeiras 1–2 h e, isoladamente, não previne a hepatotoxicidade; observar sem antídoto é inadequado. Repetir a dosagem em 8 h atrasa injustificadamente um tratamento já indicado por nível acima da linha. Hemodiálise reserva-se a intoxicações maciças com nível muito elevado, acidose, coma ou instabilidade — não é a conduta de primeira linha aqui. Transaminases normais na apresentação precoce não excluem hepatotoxicidade tardia (pico em 72–96 h); dar alta é conduta perigosa.
Homem, 47 anos, agricultor, é encontrado confuso na lavoura logo após manusear inseticida sem proteção. À chegada: sonolento, com sialorreia intensa, sudorese profusa, lacrimejamento, miose puntiforme bilateral, broncorreia abundante com sibilos difusos, vômitos e diarreia. FC 46 bpm, PA 100/60 mmHg, FR 26 ipm, SatO2 89% em ar ambiente. Nota-se fasciculações musculares em face e membros. Qual a conduta prioritária?
Correta: o quadro é uma síndrome colinérgica por intoxicação por organofosforado (inibição da acetilcolinesterase): efeitos muscarínicos (sialorreia, broncorreia, miose, bradicardia, vômitos/diarreia — mnemônico DUMBELS/SLUDGE) somados a fasciculações (efeito nicotínico). O antídoto de primeira linha é a atropina EV em doses dobradas e tituladas, tendo como alvo o controle da broncorreia/secreções (a morte é por insuficiência respiratória). Associa-se a pralidoxima (oxima reativadora da colinesterase). A fisostigmina é um anticolinesterásico — agravaria a intoxicação. A miose aqui é colinérgica; a naloxona reverte opioides, e o toxidrome colinérgico completo afasta essa hipótese. Flumazenil reverte benzodiazepínicos, sem relação com o quadro. Azul de metileno trata metemoglobinemia, que não explica a síndrome colinérgica descrita.
Homem, 30 anos, usuário de drogas injetáveis, é trazido pelo SAMU com rebaixamento do nível de consciência. Ao exame: Glasgow 7, miose puntiforme bilateral, FR 6 ipm com respiração superficial, SatO2 82% em ar ambiente, FC 70 bpm, PA 110/70 mmHg. Familiares relatam que ele foi encontrado inconsciente ao lado de seringas. Qual o antídoto indicado?
Correta: a tríade clássica de intoxicação por opioides — rebaixamento do nível de consciência, depressão respiratória (FR 6 ipm) e miose puntiforme — em usuário de drogas injetáveis indica a naloxona, antagonista opioide que reverte rapidamente a depressão respiratória. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínicos e não reverte opioides (além do risco de convulsão em usuários crônicos/co-intoxicações). Atropina trata bradicardia/toxidrome colinérgico, ausente aqui. N-acetilcisteína é o antídoto do paracetamol. Azul de metileno trata metemoglobinemia. O elemento-chave é a depressão respiratória com miose, típica de opioide.
Homem, 32 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro com dor precordial intensa há 40 minutos, iniciada cerca de 30 minutos após uso de cocaína inalada. Encontra-se agitado e sudoreico. PA 175/105 mmHg, FC 122 bpm, FR 22 ipm, SatO2 97%. O ECG evidencia taquicardia sinusal e infradesnivelamento de ST de 1 mm de V4 a V6, sem supradesnivelamento. A troponina está discretamente elevada. Além do AAS já administrado, qual das medicações abaixo está CONTRAINDICADA no manejo inicial deste paciente?
Trata-se de isquemia miocárdica associada à cocaína. Os betabloqueadores são CONTRAINDICADOS na fase aguda: o bloqueio beta com estímulo alfa preservado gera vasoconstrição coronariana sem oposição (efeito alfa não contrabalançado), podendo agravar a isquemia e a hipertensão. O tratamento de escolha combina benzodiazepínico, que reduz o drive simpático central, nitratos e bloqueadores de canal de cálcio para vasodilatação coronariana e controle pressórico; a morfina é aceitável para dor refratária. Portanto, todas as demais são apropriadas e apenas o betabloqueador deve ser evitado nesse contexto específico.
Homem, 34 anos, bombeiro, é resgatado inconsciente do interior de uma residência em chamas após incêndio em ambiente fechado. À admissão: Glasgow 8, PA 80/50 mmHg, FC 130 bpm, FR 32 ipm, SatO2 98% em máscara não reinalante. Apresenta fuligem em orofaringe e queimaduras de 15% da superfície corporal em face e tórax. Gasometria arterial: pH 7,05, lactato 14 mmol/L (VR < 2), com PaO2 normal. Mesmo após intubação orotraqueal com FiO2 100% e reposição volêmica adequada, mantém acidose lática grave e instabilidade hemodinâmica refratária. Assinale a conduta específica mais adequada para a causa provável da acidose.
Vítima de incêndio em ambiente fechado, inconsciente, com acidose lática desproporcional (lactato > 10 mmol/L) e refratária apesar de oxigenação e volume adequados, tem como causa a intoxicação por cianeto (liberado pela combustão de plásticos/poliuretano) — o lactato acima de 10 é marcador clássico. O antídoto de escolha é a hidroxocobalamina IV, que quela o cianeto formando cianocobalamina, e é preferida no incendiado por ser segura mesmo na intoxicação combinada com monóxido de carbono (opção correta). Nitrito de sódio induz meta-hemoglobinemia — CONTRAINDICADO no incendiado, pois, associado à carboxi-hemoglobina já presente, reduz ainda mais a capacidade de transporte de O2. Oxigenoterapia hiperbárica trata o CO, não a toxicidade primária do cianeto, e é inviável na instabilidade hemodinâmica. Azul de metileno trata meta-hemoglobinemia, não intoxicação por cianeto. Parkland repõe volume mas não corrige a causa metabólica da acidose.
Mulher, 28 anos, é resgatada de incêndio domiciliar após permanecer cerca de 20 minutos presa em cômodo fechado. Queixa-se de cefaleia intensa, náusea e apresenta-se confusa e sonolenta. Ao exame: ausência de queimaduras cutâneas extensas, sem estridor ou rouquidão. PA 120/80 mmHg, FC 98 bpm, FR 20 ipm, T 36,8 °C e SatO2 99% em ar ambiente pela oximetria de pulso. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
O quadro neurológico (cefaleia, náusea, confusão) em vítima de incêndio em ambiente fechado indica intoxicação por monóxido de carbono. A oximetria de pulso convencional NÃO distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina, resultando em SatO2 falsamente normal — o dado tranquilizador é uma armadilha. A conduta é ofertar O2 a 100% em alto fluxo (reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina de ~4-5 h para ~60-90 min) e confirmar com dosagem de carboxi-hemoglobina (opção correta). Liberar é erro grave — a oximetria não exclui intoxicação por CO. Broncodilatador não trata a causa; não há broncoespasmo. A TC não deve preceder a oxigenoterapia, que é medida imediata e salva-vidas. Não há sinais de intoxicação por opioides que justifiquem naloxona.
Homem, 42 anos, trabalhador rural, é levado à emergência após ser encontrado no galpão de agrotóxicos. Apresenta sialorreia intensa, lacrimejamento, sudorese profusa, miose puntiforme, broncorreia com estertores difusos e fasciculações musculares. PA 90x60 mmHg, FC 48 bpm, FR 28 ipm, SatO2 88% em ar ambiente. Após garantir via aérea e oxigenação, inicia-se atropina intravenosa em doses repetidas. Sobre a titulação da atropina neste paciente, o parâmetro-alvo principal para orientar as doses é:
Quadro clássico de intoxicação por organofosforado (síndrome colinérgica muscarínica + nicotínica). O antídoto muscarínico é a atropina, e o alvo terapêutico da atropinização é o controle das secreções respiratórias — cessação da broncorreia e ausculta pulmonar limpa, garantindo oxigenação (opção correta). Midríase e rubor/hipertermia são sinais de toxicidade atropínica (excesso), não metas. Taquicardia NÃO é contraindicação nem alvo — atropina deve ser mantida mesmo com FC elevada se persistirem as secreções. Boca seca isolada é insuficiente e enganosa: o parâmetro que define o sucesso é o estado pulmonar, não a mucosa oral. Pralidoxima (oxima) é adjuvante para reativar a colinesterase e tratar o componente nicotínico.
Família de quatro pessoas chega à emergência em manhã de inverno com cefaleia holocraniana, náuseas, tontura e mal-estar que iniciaram durante a noite em casa fechada, aquecida por aquecedor a gás. Ao exame: consciente, orientada, PA 128x78 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 98% na oximetria de pulso. A dosagem de carboxi-hemoglobina retorna em 22%. Qual é a conduta imediata mais adequada?
Intoxicação por monóxido de carbono (fonte de combustão em ambiente fechado, sintomas inespecíficos coletivos, carboxi-hemoglobina elevada). A oximetria de pulso convencional é FALSA-normal, pois não distingue oxi- de carboxi-hemoglobina — daí a necessidade da co-oximetria. O tratamento é oxigênio a 100% em máscara não reinalante, que reduz a meia-vida do CO (opção correta); oxigenoterapia hiperbárica é considerada em casos graves. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínico. Hidroxocobalamina trata intoxicação por cianeto. Azul de metileno trata metemoglobinemia. Cateter nasal a baixo fluxo é insuficiente — fornece FiO2 baixa e não acelera adequadamente a eliminação do CO.
Homem, 24 anos, é trazido pelo SAMU após ser encontrado inconsciente em via pública. Ao exame: Glasgow 7, pupilas puntiformes (mióticas), FR 6 ipm com respiração superficial, SatO2 82% em ar ambiente, PA 110x70 mmHg, FC 58 bpm. Familiares relatam uso de heroína. Além do suporte ventilatório, qual é o antídoto específico indicado?
Tríade clássica da intoxicação por opioides: rebaixamento do nível de consciência, depressão respiratória (bradipneia) e miose puntiforme. O antídoto específico é a naloxona, antagonista competitivo dos receptores opioides, que reverte rapidamente a depressão respiratória (opção correta). Flumazenil reverte benzodiazepínicos. N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol. Pralidoxima e atropina são usadas na intoxicação por organofosforados/carbamatos, cujo quadro (síndrome colinérgica com secreções e fasciculações) é distinto do apresentado.
Homem, 42 anos, resgatado inconsciente de um incêndio em depósito fechado de plásticos e espumas. Chega à emergência intubado pelo SAMU, em ventilação com FiO2 100%. Queimaduras cutâneas acometem menos de 5% da superfície corporal, restritas a antebraços. PA 90x55 mmHg, FC 118 bpm, SatO2 (oximetria de pulso) 100%. Glasgow pré-intubação 7. Gasometria arterial: pH 7,08, PaO2 340 mmHg, HCO3 12 mEq/L, ânion-gap elevado, lactato 15 mmol/L (VR < 2). Carboxi-hemoglobina 11% (VR < 3, fumante). Apesar de reposição volêmica adequada e oxigênio a 100%, mantém acidose metabólica grave e instabilidade. Qual é a conduta farmacológica específica de escolha?
O quadro é toxidromo de cianeto por inalação de fumaça em ambiente fechado com combustão de plásticos/poliuretano: rebaixamento do sensório, colapso hemodinâmico e, sobretudo, acidose láctica desproporcional (lactato > 10 mmol/L é o melhor marcador clínico de intoxicação por cianeto no incêndio) com SatO2 de pulso e PaO2 normais/altas, porque o cianeto bloqueia a citocromo-oxidase e impede o uso de O2 pela célula. Hidroxocobalamina é o antídoto de escolha: liga o cianeto formando cianocobalamina não tóxica, é segura em vítimas de fumaça e pode ser dada empiricamente, sem esperar confirmação laboratorial. O kit nitrito+tiossulfato é fármaco certo em contexto errado — o nitrito induz meta-hemoglobinemia, que somada à carboxi-hemoglobina de 11% agrava a hipóxia; por isso é evitado quando há CO concomitante. A oxigenoterapia hiperbárica trata carboxi-hemoglobina, mas o valor de 11% não a justifica e não explica a acidose láctica grave — o problema dominante é o cianeto. Azul de metileno trata meta-hemoglobinemia, não intoxicação por cianeto (e poderia piorar). N-acetilcisteína é antídoto de paracetamol, sem papel aqui.
Um homem de 34 anos, agricultor, é levado à Unidade de Pronto Atendimento por familiares cerca de 40 minutos após ter sido encontrado desacordado próximo a um recipiente de inseticida usado na lavoura. Ao exame, apresenta-se sonolento, com sialorreia intensa, lacrimejamento, sudorese profusa, broncorreia com estertores difusos à ausculta e miose puntiforme bilateral. Frequência cardíaca de 48 bpm, pressão arterial de 90x60 mmHg. A equipe inicia oxigenoterapia e aspiração de secreções. Considerando o quadro clínico mais provável, qual é, respectivamente, o agente tóxico envolvido e a conduta farmacológica prioritária?
O quadro é uma síndrome colinérgica clássica (miose, sialorreia, broncorreia, sudorese, bradicardia) por intoxicação por organofosforado, comum em trabalhador rural exposto a inseticida. A conduta prioritária é atropina em doses repetidas/dobradas até atropinização, tendo como alvo principal a secura da árvore brônquica (controle da broncorreia), além de suporte e pralidoxima quando disponível. Flumazenil reverte benzodiazepínicos, cujo quadro seria sedação sem sinais muscarínicos. Naloxona reverte opioides, que cursam com miose mas sem sialorreia/broncorreia/sudorese. Monóxido de carbono não produz síndrome colinérgica.
Uma mulher de 22 anos é trazida ao pronto-socorro por familiares após ingestão de dose desconhecida de comprimidos de clonazepam em tentativa de autoextermínio, há cerca de 1 hora. Ao exame, encontra-se sonolenta, mas desperta ao estímulo verbal, com fala arrastada, sem sinais de esforço respiratório. Frequência respiratória de 14 irpm, saturação de O2 de 96% em ar ambiente, pressão arterial de 110x70 mmHg e pupilas normais. O antídoto específico para a substância ingerida é:
O clonazepam é um benzodiazepínico, e seu antídoto específico é o flumazenil, antagonista competitivo dos receptores GABA. Vale ressaltar que seu uso deve ser criterioso pelo risco de convulsões, sobretudo em usuários crônicos ou coingestão de convulsivantes; nesta paciente estável, a conduta pode ser apenas observação e suporte. Naloxona é antídoto de opioides. N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol. Atropina é usada na intoxicação por organofosforados/carbamatos.
Uma mulher de 28 anos comparece à UBS relatando que, há cerca de 30 horas, ingeriu aproximadamente 25 comprimidos de paracetamol de 500 mg em episódio impulsivo. No momento, queixa-se de náuseas, vômitos e dor no hipocôndrio direito. Ao exame, encontra-se hidratada, ictérica (+/4+), com dor à palpação em hipocôndrio direito. Exames laboratoriais mostram AST e ALT acima de 2.000 U/L e discreto alargamento do INR. Considerando a evolução clínica e o mecanismo de lesão, qual é a conduta específica indicada?
A ingestão de dose tóxica de paracetamol (~12,5 g) evoluiu para hepatotoxicidade (transaminases muito elevadas, icterícia, dor em HCD, alargamento do INR). O antídoto é a N-acetilcisteína, que repõe glutationa e neutraliza o metabólito tóxico (NAPQI); está indicada mesmo tardiamente na vigência de lesão hepática estabelecida, com encaminhamento a serviço de referência pelo risco de insuficiência hepática. Carvão ativado só é útil nas primeiras horas pós-ingestão e não trata a lesão já instalada. Flumazenil não tem relação com paracetamol. Hemodiálise não é o tratamento de primeira linha da hepatotoxicidade por paracetamol.
Uma menina de 3 anos é trazida pela mãe à Unidade de Pronto Atendimento cerca de 40 minutos após ter sido encontrada com um frasco aberto de querosene usado para lamparina, com odor característico do produto ao redor da boca e nas roupas. A mãe relata que a criança tossiu e vomitou espontaneamente uma vez logo após a ingestão. No momento, a criança está alerta, chorosa, com discreta tosse, frequência respiratória de 30 irpm, saturação de 96% em ar ambiente e ausculta com raros estertores em base direita. Qual é a conduta inicial mais adequada?
Correta: em intoxicação por hidrocarbonetos/derivados de petróleo (querosene, gasolina, thinner), o risco principal é a pneumonite química por aspiração; provocar vômito ou fazer lavagem gástrica aumenta o risco de aspiração e é formalmente contraindicado. A conduta é suporte, oxigenoterapia se necessário, monitorização respiratória e observação. Carvão ativado não adsorve bem hidrocarbonetos e ainda aumenta o risco de vômito/aspiração. Induzir êmese e lavagem gástrica são exatamente as manobras proscritas neste tipo de intoxicação.
Um adolescente de 17 anos dá entrada no pronto-socorro após ingestão intencional de aproximadamente 30 comprimidos de paracetamol há cerca de 4 horas, em uma tentativa de suicídio. Encontra-se consciente, orientado, com sinais vitais estáveis e sem sintomas no momento. Após o manejo clínico inicial da intoxicação, e antes de qualquer decisão sobre alta hospitalar, qual medida é indispensável no cuidado desse paciente?
Toda tentativa de suicídio exige, além do manejo clínico da intoxicação (no caso, avaliar N-acetilcisteína conforme nomograma), avaliação obrigatória do risco de novo ato e da saúde mental, com acompanhamento especializado e plano de segurança antes da alta — tentativa prévia é o principal fator de risco para suicídio consumado. Estabilidade clínica não afasta o risco psiquiátrico. Omitir a abordagem da tentativa é conduta insegura. Iniciar antidepressivo isolado no PS, sem avaliação de risco e seguimento próximo, não garante a segurança do paciente.
Um homem de 42 anos, trabalhador rural, é trazido pelo SAMU à unidade de pronto atendimento cerca de 40 minutos após ter sido encontrado caído no galpão onde manuseava, sem equipamento de proteção, um produto para pulverização de lavoura. Está sonolento, com sialorreia intensa, lacrimejamento e vômitos. Ao exame: PA 90x60 mmHg, FC 48 bpm, FR 28 irpm, SatO2 89% em ar ambiente, temperatura axilar 36,2 °C, pupilas puntiformes e pouco reativas, sudorese profusa, ausculta pulmonar com estertores bolhosos difusos e broncorreia abundante, além de fasciculações em coxas. A equipe realiza a descontaminação com remoção das roupas e lavagem da pele, além de oxigenoterapia e acesso venoso. Qual é, respectivamente, o agente tóxico mais provável e o antídoto a ser administrado de imediato?
O quadro é a síndrome colinérgica muscarínica e nicotínica clássica da intoxicação por organofosforado (inseticida agrícola): miose, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia/broncoespasmo, bradicardia, vômitos, sudorese e fasciculações. O antídoto imediato, conforme o protocolo do Ministério da Saúde e dos Centros de Informação e Assistência Toxicológica, é a atropina em doses repetidas e tituladas até a atropinização (secreção brônquica seca), sendo a pralidoxima adjuvante para o componente nicotínico. Benzodiazepínico/flumazenil não explica sialorreia, broncorreia nem fasciculações e cursa com pupilas normais. Opioide/naloxona também causa miose e depressão respiratória, mas sem sialorreia, broncorreia, sudorese profusa ou fasciculações. Paracetamol/N-acetilcisteína cursa com hepatotoxicidade tardia, não com síndrome colinérgica aguda.
Uma mulher de 24 anos chega ao pronto-socorro trazida por familiares após ingestão intencional, há cerca de 6 horas, de aproximadamente 25 comprimidos de paracetamol 500 mg (peso 60 kg). Refere apenas náuseas e um episódio de vômito, negando outras ingestões e uso de álcool. Ao exame: lúcida, orientada, corada, anictérica, PA 118x74 mmHg, FC 84 bpm, FR 16 irpm, SatO2 98% em ar ambiente, abdome sem dor à palpação e sem visceromegalias. Exames colhidos na admissão: AST 24 U/L, ALT 21 U/L, bilirrubinas normais, INR 1,0, creatinina 0,8 mg/dL. A dosagem sérica de paracetamol foi solicitada, mas o laboratório informa que o resultado sairá somente em 8 horas. Qual é a conduta mais adequada neste momento?
A dose ingerida (~208 mg/kg) é francamente tóxica (>150 mg/kg) e o antídoto N-acetilcisteína tem eficácia máxima quando iniciado em até 8 a 10 horas da ingestão; portanto, quando a paracetamolemia não estiver disponível em tempo hábil para plotagem no nomograma de Rumack-Matthew, inicia-se o antídoto empiricamente e suspende-se depois se o nível for não tóxico. Aguardar o resultado por mais 8 horas ultrapassaria a janela de proteção hepática máxima. O carvão ativado só é útil na primeira hora após a ingestão e nunca substitui o antídoto. Transaminases e INR normais são esperados nas primeiras 24 horas e não afastam risco, pois a hepatotoxicidade é tardia (24 a 72 horas).
Um homem de 35 anos é resgatado de um cômodo fechado onde funcionava um gerador a gasolina durante uma queda de energia e levado à UPA. Refere cefaleia holocraniana intensa, tontura, náuseas e dificuldade de concentração iniciadas há cerca de duas horas; um colega que estava no mesmo local apresenta queixas semelhantes. Ao exame: lúcido, discretamente confuso, sem déficits focais, PA 128x80 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, temperatura axilar 36,5 °C, ausculta cardiopulmonar sem alterações e oximetria de pulso de 98% em ar ambiente. Glicemia capilar 96 mg/dL. A gasometria arterial mostra pH 7,32, PaO2 96 mmHg, PaCO2 34 mmHg e lactato 3,8 mmol/L. Qual é, respectivamente, a interpretação do caso e a conduta imediata?
A exposição a motor de combustão em ambiente fechado, com sintomas neurológicos inespecíficos em mais de uma vítima do mesmo local, caracteriza intoxicação por monóxido de carbono. O ponto-chave é que a oximetria de pulso convencional não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina (leitura falsamente normal) e a PaO2 mede oxigênio dissolvido, também permanecendo normal; a acidose com lactato elevado reflete a hipóxia tecidual. A conduta imediata é oxigênio a 100% sob máscara não reinalante, que reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina de cerca de 4-5 horas para cerca de 1 hora, indicando-se oxigenoterapia hiperbárica nos casos graves. Afastar o diagnóstico pela oximetria ou aguardar a saturação cair são erros clássicos, e enxaqueca não explica o contexto epidemiológico nem a hiperlactatemia.
Um homem de 42 anos, trabalhador rural, é trazido à Unidade de Pronto Atendimento por familiares cerca de 40 minutos após ter aplicado inseticida em uma lavoura de tomate sem uso de equipamento de proteção. Refere que começou a sentir náuseas, cólicas abdominais e visão embaçada durante o trabalho. Ao exame: sonolento, mas responsivo ao chamado, sudorese profusa, salivação abundante e lacrimejamento. Pupilas puntiformes e pouco reativas. PA 100x60 mmHg, FC 48 bpm, FR 28 irpm, SpO2 88% em ar ambiente, temperatura axilar 36,2 °C. Ausculta pulmonar com estertores bolhosos difusos e sibilos esparsos. Abdome doloroso à palpação, com ruídos hidroaéreos aumentados. Apresenta incontinência urinária e fasciculações em musculatura da coxa. Considerando o diagnóstico mais provável, qual é a conduta farmacológica prioritária?
O quadro é a síndrome colinérgica clássica da intoxicação aguda por organofosforado (inibição da acetilcolinesterase): miose, sudorese, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia/broncoespasmo, bradicardia, incontinência e fasciculações. Pelo protocolo do Ministério da Saúde/CIATox, a prioridade é a ATROPINA IV em doses repetidas e dobradas, titulada pelo desaparecimento das secreções brônquicas e melhora da ausculta (não pela pupila nem pela FC) — a broncorreia é a causa da morte. A oxima (pralidoxima) é adjuvante e não substitui a atropina. Naloxona está errada: apesar da miose e do rebaixamento, não há bradipneia opioide, e sim broncorreia, sudorese e fasciculações — não há resposta a antagonista opioide. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínico e nada acrescenta aqui, além de ser potencialmente convulsivante. Diazepam isolado é insuficiente: tem papel apenas coadjuvante nas convulsões/agitação, sem tratar a crise colinérgica.
Uma mulher de 26 anos é trazida ao pronto-socorro por amigos, que a encontraram pouco responsiva em casa. Relatam uso recreativo de substância injetável na última hora e informam que ela faz tratamento para dor crônica com opioide prescrito. Ao exame: escala de coma de Glasgow 8, sem sinais de trauma. PA 105x65 mmHg, FC 62 bpm, FR 6 irpm e superficial, SpO2 84% em ar ambiente, temperatura axilar 36,0 °C. Pupilas mióticas e simétricas. Ausculta pulmonar sem ruídos adventícios, pele seca, sem sudorese, ruídos hidroaéreos diminuídos. Glicemia capilar 96 mg/dL. Após garantir via aérea e oxigenação, qual é o antídoto indicado?
A tríade clássica da intoxicação por opioides — rebaixamento do nível de consciência, depressão respiratória (FR 6 irpm) e miose puntiforme — em contexto de uso de opioide define o diagnóstico. O antídoto é a NALOXONA, antagonista competitivo dos receptores opioides, titulada até restaurar ventilação adequada (o alvo é a respiração, não o despertar completo, para evitar abstinência aguda). Flumazenil é antídoto de benzodiazepínico e, além de não explicar a miose puntiforme com FR 6, é contraindicado em intoxicações mistas/uso crônico pelo risco de convulsão. N-acetilcisteína é o antídoto do paracetamol, que não causa depressão respiratória nem miose. Pralidoxima é usada em organofosforados, cujo quadro cursaria com sudorese, sialorreia, broncorreia e fasciculações — ausentes aqui (pele seca, ausculta limpa).
Uma família de quatro pessoas chega à emergência de um hospital do SUS numa madrugada de inverno. Todos passaram a noite em um quarto fechado aquecido por um braseiro a carvão. A mãe, de 38 anos, refere cefaleia holocraniana intensa, náuseas, tontura e dificuldade de concentração, que melhoraram parcialmente ao sair de casa; o filho de 6 anos apresentou um episódio de vômito e sonolência. Ao exame da mãe: consciente, orientada, discretamente confusa. PA 120x75 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, temperatura axilar 36,4 °C. Oximetria de pulso 99% em ar ambiente. Ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações; sem rigidez de nuca e sem déficits focais. Qual é, respectivamente, a interpretação da oximetria e a conduta imediata?
O contexto (braseiro a carvão em ambiente fechado, múltiplas vítimas do mesmo domicílio, cefaleia/náusea/tontura que melhoram ao afastar-se da fonte) é típico de intoxicação por monóxido de carbono. O CO tem afinidade ~250 vezes maior que o O2 pela hemoglobina, formando carboxi-hemoglobina; o oxímetro de pulso convencional não distingue COHb de oxi-hemoglobina, resultando em leitura FALSAMENTE NORMAL — é armadilha clássica. A conduta imediata é retirar da fonte e ofertar oxigênio a 100% em máscara não reinalante para todos os expostos, o que reduz a meia-vida da COHb de ~4-5 h para ~60-90 min (oxigenoterapia hiperbárica é considerada em casos graves: perda de consciência, isquemia miocárdica, déficit neurológico, gestante, COHb muito elevada). Observar em ar ambiente ou tratar apenas a cefaleia perde a janela terapêutica e ignora a criança sintomática. Tomografia antes do O2 inverte a prioridade — o oxigênio não pode ser adiado por exame de imagem. A última alternativa erra na fisiopatologia: o CO liga-se avidamente à hemoglobina, e azul de metileno é antídoto de metemoglobinemia, sem indicação aqui.
Um menino de 4 anos é trazido ao pronto-socorro pelo pai, cerca de 40 minutos após ter sido encontrado no quintal manipulando um pó granulado escuro que o vizinho havia colocado para matar ratos. Ao exame: sonolento, responsivo à dor, sudorese profusa, sialorreia intensa, lacrimejamento, vômitos e incontinência urinária. Frequência cardíaca de 58 bpm, frequência respiratória de 38 irpm, saturação de 89% em ar ambiente, pupilas puntiformes e simétricas, ausculta pulmonar com estertores bolhosos difusos e sibilos esparsos, além de fasciculações musculares em membros inferiores. Quais são, respectivamente, a hipótese diagnóstica e a conduta prioritária, após a descontaminação e a proteção da equipe?
Correta: o quadro é a síndrome colinérgica muscarínica e nicotínica clássica (sialorreia, lacrimejamento, incontinência, vômitos, broncorreia/broncospasmo, bradicardia, miose puntiforme e fasciculações), típica do 'chumbinho' — raticida clandestino composto por carbamato (aldicarb) ou organofosforado, que inibe a acetilcolinesterase. O tratamento prioritário, após oxigenação/proteção de via aérea e descontaminação com equipe protegida, é a atropina endovenosa em doses repetidas e crescentes até a atropinização (secreções brônquicas secas), pois a causa de morte é a insuficiência respiratória por broncorreia. Trata-se ainda de agravo de notificação compulsória (intoxicação exógena) e caso para contato com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica. Incorretas: os raticidas cumarínicos causam sangramento tardio com alargamento do TAP/INR, sem síndrome colinérgica, e a vitamina K não teria papel aqui. A intoxicação por tricíclico cursa com síndrome anticolinérgica (midríase, pele seca, taquicardia) e alargamento do QRS — o oposto do quadro. Os opioides causam miose e depressão respiratória, mas sem sialorreia, broncorreia, sudorese profusa ou fasciculações, e a naloxona não reverte a inibição da colinesterase.
Um menino de 3 anos é levado à UPA pela mãe, cerca de 40 minutos após o evento. Ela relata que a criança estava brincando no quintal e foi encontrada ao lado de uma garrafa plástica de refrigerante que a família utilizava para armazenar querosene do lampião; havia líquido derramado em suas roupas e a criança apresentou tosse e engasgo imediatos, com hálito de solvente. Não houve vômitos nem perda de consciência. Antecedentes: hígido, vacinas em dia, sem uso de medicações. Ao exame: ativo, corado, afebril, FR 34 irpm, SpO2 96% em ar ambiente, ausculta pulmonar sem ruídos adventícios, abdome indolor, sem sinais de lesão em orofaringe. Qual é a conduta adequada?
Correta: derivados de petróleo (querosene, gasolina, thinner, aguarrás) são hidrocarbonetos de baixa viscosidade e alta volatilidade — a toxicidade principal é a PNEUMONITE QUÍMICA POR ASPIRAÇÃO, não a absorção digestiva. Por isso a conduta preconizada pelo Ministério da Saúde/CIATox é descontaminação apenas de pele e roupas, observação clínica (mínimo 4-6 horas), radiografia de tórax e suporte respiratório, sem manobras que aumentem o risco de aspiração. Distratores: lavagem gástrica e carvão ativado são contraindicados (carvão não adsorve bem hidrocarbonetos e aumenta o risco de aspiração/vômito). Êmese induzida é formalmente contraindicada e a ipeca está abandonada em toda intoxicação exógena. Corticoide e antibiótico profiláticos não têm benefício comprovado na pneumonite por hidrocarboneto, e a endoscopia é indicada em ingestão de CÁUSTICOS, não de hidrocarbonetos.
Um homem de 34 anos, trabalhador rural, é levado por familiares à unidade de pronto atendimento cerca de 40 minutos após aplicar inseticida em uma plantação sem uso de equipamento de proteção individual. Os familiares relatam que ele passou a apresentar náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarreia e salivação intensa. Nega comorbidades e uso de medicamentos. Ao exame físico, encontra-se sonolento, com sudorese profusa, lacrimejamento, pupilas puntiformes e fasciculações em membros; PA 100x60 mmHg, FC 46 bpm, FR 26 irpm, SpO2 91% em ar ambiente, temperatura axilar 36,2 °C. A ausculta pulmonar revela estertores bolhosos difusos, com broncorreia abundante. Além da descontaminação e do suporte ventilatório, qual antídoto deve ser administrado imediatamente?
O quadro é a síndrome colinérgica muscarínica clássica da intoxicação aguda por organofosforado (inseticida, exposição sem EPI): miose puntiforme, salivação, lacrimejamento, vômitos, diarreia, sudorese, broncorreia, broncoespasmo e bradicardia — mnemônico SLUDGE/DUMBELS —, somada a fasciculações (efeito nicotínico). A atropina é o antídoto de primeira linha (Protocolo do Ministério da Saúde/Sinitox e diretrizes de toxicologia): antagoniza os receptores muscarínicos e é titulada até a atropinização, tendo como alvo principal o controle da broncorreia/broncoespasmo, causa direta da morte por insuficiência respiratória; a pralidoxima (oxima) é medida complementar, nunca substitutiva. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínicos, que cursam com sedação sem sinais colinérgicos (não há miose puntiforme, sialorreia ou broncorreia) e é contraindicado em intoxicações de causa desconhecida pelo risco de convulsões. N-acetilcisteína é o antídoto do paracetamol, cuja intoxicação é oligossintomática nas primeiras horas e evolui com hepatotoxicidade, sem síndrome colinérgica. Naloxona reverte opioides, que também causam miose e depressão respiratória, mas com pele seca, sem sialorreia/broncorreia, sem diarreia e sem fasciculações, além de não haver história de exposição a opioide neste caso.
Homem de 42 anos, trabalhador rural, é trazido à Unidade de Pronto Atendimento cerca de 40 minutos após pulverizar lavoura com inseticida, sem equipamento de proteção. Apresenta-se sonolento, com sudorese profusa, sialorreia intensa, vômitos, incontinência urinária e fasciculações. Ao exame: pupilas puntiformes, PA 100x60 mmHg, FC 44 bpm, FR 28 irpm, SpO2 88% em ar ambiente, ausculta pulmonar com estertores difusos e sibilos por broncorreia. Após descontaminação, retirada das roupas e suporte ventilatório com oxigênio, qual é a conduta farmacológica prioritária?
O quadro é a síndrome colinérgica muscarínica clássica da intoxicação por organofosforado (miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, fasciculações). O antídoto de primeira linha é a ATROPINA em bolus endovenoso, dobrando a dose a cada 3-5 minutos, e o alvo de atropinização é a SECAGEM DAS SECREÇÕES BRÔNQUICAS e a melhora da ausculta — não a midríase nem a frequência cardíaca. A morte precoce decorre da insuficiência respiratória por broncorreia/broncoespasmo, daí a prioridade. Distratores: A pralidoxima é adjuvante — reativa a acetilcolinesterase e atua sobre os efeitos nicotínicos, mas nunca substitui nem precede a atropina. A naloxona reverte opioide; embora a miose seja comum aos dois quadros, sialorreia, broncorreia, fasciculações e sudorese não ocorrem na intoxicação opioide. O carvão ativado tem papel muito limitado na exposição dérmica/inalatória e jamais deve atrasar o antídoto em paciente instável.
Mulher de 19 anos chega à Unidade de Pronto Atendimento trazida pela mãe, relatando ingestão intencional de 20 comprimidos de paracetamol 750 mg há cerca de 4 horas, em tentativa de suicídio. Está lúcida, orientada, hemodinamicamente estável, sem dor abdominal, icterícia ou sangramentos. Solicitados transaminases, INR e nível sérico de paracetamol. Qual é o antídoto específico indicado para esse caso?
O antídoto específico da intoxicação aguda por paracetamol é a N-ACETILCISTEÍNA, que repõe glutationa e neutraliza o metabólito tóxico NAPQI; sua eficácia é máxima quando iniciada em até 8 horas da ingestão, período em que a hepatotoxicidade é praticamente evitável — e o paciente costuma estar assintomático, como aqui. Distratores: o flumazenil é antagonista de benzodiazepínicos (e de uso restrito, pelo risco de convulsão); a naloxona reverte opioides; o azul de metileno trata metemoglobinemia (nitritos, dapsona, benzocaína). Nenhum tem ação sobre a via tóxica do paracetamol.
Durante o inverno, três moradores da mesma casa chegam à UPA com cefaleia holocraniana, náuseas, tontura e dificuldade de concentração iniciadas na manhã, após uso noturno de aquecedor a gás em cômodo fechado e sem ventilação. A mais sintomática, mulher de 34 anos, está confusa, com PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, SpO2 98% em ar ambiente pela oximetria de pulso, sem alterações à ausculta e sem déficits focais. Qual é a conduta inicial mais adequada?
Sintomas inespecíficos (cefaleia, náusea, tontura, confusão) em MÚLTIPLOS moradores da mesma casa, após combustão em ambiente fechado, é intoxicação por monóxido de carbono até prova em contrário. Ponto-chave: a oximetria de pulso convencional NÃO distingue carboxiemoglobina de oxiemoglobina e mostra SpO2 falsamente normal — a confirmação exige co-oximetria (gasometria com dosagem de COHb). O tratamento é oxigênio a 100% sob máscara não reinalante, iniciado imediatamente, pois reduz a meia-vida da COHb de ~4-5 horas para ~60-90 minutos; a oxigenoterapia hiperbárica é discutida em casos graves (alteração de consciência, isquemia miocárdica, gestante) em centro de referência. Distratores: Caem exatamente na armadilha da SpO2 falsamente normal e retardam o único tratamento eficaz; A naloxona não tem qualquer papel — não há síndrome opioide (sem miose ou depressão respiratória) e o quadro é coletivo, com exposição ambiental identificada.
Menina de 2 anos é trazida à Unidade de Pronto Atendimento pelos pais 30 minutos após ingerir quantidade desconhecida de soda cáustica (desentupidor de pia) que estava armazenada em garrafa sem identificação. Apresenta sialorreia, recusa alimentar e lesões esbranquiçadas em lábios e mucosa oral. Está estável hemodinamicamente, sem sinais de insuficiência respiratória. Qual o próximo passo mais adequado?
Na ingestão de cáustico, a conduta é manter jejum, dar suporte e encaminhar para endoscopia digestiva alta (idealmente nas primeiras 12-24h) que estratifica a lesão esofágica (opção correta). Carvão ativado não adsorve cáusticos e prejudica a visualização endoscópica. Provocar vômito é contraindicado, pois reexpõe a mucosa ao agente e aumenta risco de aspiração e perfuração. Dilução com grande volume de líquidos pode desencadear vômito e distensão gástrica, também sendo desaconselhada.
Em Unidade de Pronto Atendimento, um homem de 35 anos com transtorno afetivo bipolar em uso crônico de lítio chega com vômitos, diarreia, tremor grosseiro de extremidades, marcha atáxica e sonolência com confusão leve. A família relata que ele iniciou um diurético para hipertensão há uma semana e reduziu a ingestão de líquidos por calor intenso. Qual é a conduta inicial mais apropriada?
Tremor grosseiro, ataxia, sintomas gastrintestinais e rebaixamento em usuário de lítio após diurético (que reduz o clearance) e desidratação configuram intoxicação por lítio; a conduta imediata é suspender o fármaco, dosar litemia, hidratar e monitorar. Aumentar a dose agravaria a toxicidade. Antiemético mascara o sintoma sem corrigir a causa e manter o lítio perpetua o risco. Liberar para casa com paciente confuso e atáxico é inseguro, pois a intoxicação pode progredir para convulsões e arritmias.
Homem de 34 anos, trabalhador rural, é trazido à UPA cerca de 40 minutos após ser encontrado caído na lavoura, ao lado de um pulverizador costal com inseticida. Ao exame: sonolento, Glasgow 11, pupilas puntiformes e pouco reativas, sialorreia intensa, sudorese profusa, incontinência urinária e fasciculações em coxas. FC 44 bpm, PA 88x52 mmHg, FR 30 irpm, SpO2 87% em ar ambiente, com estertores bolhosos difusos à ausculta. Já foram realizadas a retirada das roupas e a lavagem da pele com água e sabão, com equipe paramentada. Assinale a conduta farmacológica adequada neste momento.
O quadro é uma síndrome colinérgica clássica por organofosforado (miose, sialorreia, sudorese, incontinência, broncorreia/broncoespasmo, bradicardia — muscarínicos — somados a fasciculações, nicotínicas). O antídoto é a atropina, em doses intravenosas repetidas e dobradas a cada 3–5 minutos; o alvo terapêutico correto é a secagem das secreções traqueobrônquicas e a melhora da ausculta/oxigenação (o que mata é a broncorreia), NÃO a frequência cardíaca nem a midríase. A pralidoxima (oxima) reativa a acetilcolinesterase antes do envelhecimento da enzima e trata o componente nicotínico. A alternativa que usa atropina em dose única erra o endpoint (midríase é sinal de superdosagem, não meta) e ainda parte de dose insuficiente. Naloxona não reverte miose de origem colinérgica — é antídoto de opioide, e aqui há sialorreia/broncorreia/fasciculações incompatíveis. Fisostigmina é anticolinesterásico: agravaria fatalmente a intoxicação (é antídoto de síndrome anticolinérgica, o oposto do caso).
Mulher de 22 anos é levada ao pronto-socorro por familiares 4 horas após ingerir, com intenção suicida, 30 comprimidos de paracetamol 750 mg. Pesa 55 kg. Encontra-se lúcida, orientada, referindo apenas náuseas e um episódio de vômito. Exame físico sem alterações: PA 116x74 mmHg, FC 82 bpm, FR 16 irpm, SpO2 98% em ar ambiente, abdome indolor, sem icterícia. Transaminases e INR colhidos na admissão estão normais. Assinale o antídoto específico indicado para esta paciente.
A dose ingerida (30 x 750 mg = 22,5 g, cerca de 409 mg/kg) está muito acima do limiar tóxico (>150 mg/kg ou >7,5–10 g), configurando intoxicação aguda por paracetamol. O antídoto é a N-acetilcisteína, que repõe glutationa e conjuga o metabólito tóxico NAPQI; é altamente eficaz quando iniciada em até 8 horas da ingestão — a fase inicial assintomática, com transaminases e INR ainda normais, é exatamente o momento em que o antídoto previne a hepatite fulminante e não motivo para postergá-lo. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínico; naloxona, de opioide; deferoxamina, de intoxicação por ferro — nenhum tem ação sobre o NAPQI.
Família de quatro pessoas é trazida ao pronto-socorro pelo SAMU após ser encontrada prostrada em casa, em noite fria, com portas e janelas fechadas e um aquecedor a gás queimando no ambiente. Todos referem cefaleia holocraniana, náuseas e tontura de início simultâneo. O caso-índice é um homem de 45 anos, confuso, Glasgow 13, pele sem cianose. PA 132x84 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, SpO2 98% na oximetria de pulso, ausculta pulmonar limpa. Assinale a conduta inicial adequada.
Exposição a queima de gás em ambiente fechado, com sintomas simultâneos em todos os moradores (cefaleia, náusea, tontura, confusão), é intoxicação por monóxido de carbono até prova em contrário. A conduta imediata é oxigênio a 100% sob máscara não reinalante, que reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina de ~4–5 h para ~60–90 min, com confirmação por cooximetria (dosagem de COHb). A oximetria de pulso convencional NÃO distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina e mostra saturação falsamente normal — por isso é erro usar a SpO2 e a ausência de cianose para excluir o diagnóstico. A PaO2 da gasometria mede oxigênio dissolvido e permanece normal na intoxicação por CO, de modo que aguardá-la em ar ambiente apenas retarda o antídoto. Naloxona e hidroxocobalamina não têm indicação de rotina aqui (a última é antídoto de cianeto, considerado em incêndios com combustão de materiais sintéticos), e postergar o oxigênio até SpO2 <90% é conduta francamente inadequada.
Um menino de 4 anos, previamente hígido, residente em área rural, é levado à UPA cerca de 40 minutos após ter sido encontrado sozinho no depósito de insumos agrícolas da propriedade, ao lado de um frasco aberto de inseticida. Chega sonolento, com sialorreia intensa, vômitos, lacrimejamento e perda involuntária de urina. Ao exame: FC 52 bpm, FR 38 irpm, SpO2 88% em ar ambiente, miose puntiforme bilateral não reativa, broncorreia abundante com sibilos e estertores difusos, além de fasciculações em coxas. Assinale a conduta medicamentosa específica a ser instituída, após descontaminação e suporte ventilatório.
O quadro é a síndrome colinérgica clássica da intoxicação por organofosforado (inibição da acetilcolinesterase): miose puntiforme, sialorreia, broncorreia, bradicardia, incontinência e fasciculações (efeitos muscarínicos + nicotínicos). O antídoto muscarínico é a ATROPINA, titulada a cada 5 minutos até a atropinização — cujo alvo NÃO é a pupila nem a FC, mas a secagem das secreções brônquicas (a broncorreia é o que mata) —, associada à pralidoxima, que reativa a colinesterase antes do 'envelhecimento' da enzima. Naloxona reverte opioide (miose sim, mas sem sialorreia/broncorreia/fasciculações e com depressão respiratória sem secreções). Flumazenil reverte benzodiazepínico (pupilas normais, sem síndrome colinérgica) e é contraindicado em intoxicação de causa desconhecida pelo risco de convulsão. Azul de metileno trata metemoglobinemia (cianose sem resposta ao O2, sangue achocolatado).
Homem de 58 anos, com transtorno afetivo bipolar tipo I em uso de carbonato de lítio 900 mg/dia há oito anos, estável. Há duas semanas iniciou hidroclorotiazida por hipertensão em outra unidade. É trazido à emergência com vômitos há três dias, tremor grosseiro de extremidades, marcha atáxica, fasciculações e sonolência, respondendo apenas a estímulo verbal vigoroso. PA 100x60 mmHg, FC 104 bpm, afebril, mucosas secas. Exames: litemia 3,1 mEq/L (VR: 0,6-1,2), creatinina 2,1 mg/dL (basal 0,9), sódio 148 mEq/L. Além da suspensão do lítio e da hidroclorotiazida e da hidratação com solução salina isotônica, a conduta indicada é
Tiazídicos aumentam a reabsorção proximal de sódio e de lítio, e o quadro gastrointestinal gerou depleção volêmica e lesão renal aguda — combinação clássica de intoxicação crônica por lítio. Há indicação formal de hemodiálise (critérios EXTRIP): litemia acima de 4,0 mEq/L, ou acima de 2,5 mEq/L com rebaixamento do nível de consciência/convulsões/arritmia ou com função renal comprometida que impeça a eliminação — exatamente o caso (3,1 mEq/L, creatinina 2,1, sonolência e ataxia). Carvão ativado não adsorve lítio (íon inorgânico). Furosemida agrava a hipovolemia e a reabsorção de lítio, piorando a intoxicação. Irrigação intestinal só teria papel em ingestão aguda maciça de formulação de liberação prolongada, e não substitui a diálise em paciente sintomático grave.
Mulher de 28 anos, em uso de paroxetina 20 mg/dia há três dias por transtorno depressivo maior, é trazida ao pronto-socorro por familiares. Nas últimas horas apresenta agitação, confusão, sudorese, tremores, hiper-reflexia, mioclonias, taquicardia e temperatura axilar de 38,7 graus. Os familiares relatam que, por conta própria, ela também vinha usando um chá contendo hipérico (erva-de-são-joão) e, no dia anterior, tomou tramadol para dor lombar. Ao exame, destaca-se hiperreflexia e clônus em membros inferiores, mais intensos que a rigidez. Considerando o diagnóstico mais provável, a conduta inicial inclui:
O quadro agudo com agitação, hiper-reflexia, clônus (predominando sobre a rigidez), mioclonias, hipertermia e disautonomia, no contexto de múltiplos agentes serotoninérgicos (paroxetina + hipérico + tramadol), caracteriza síndrome serotoninérgica. A base do tratamento é suspender todos os agentes serotoninérgicos e oferecer suporte (hidratação, resfriamento, controle de sinais vitais), com benzodiazepínicos para agitação e rigidez; em casos graves, ciproheptadina (antagonista serotoninérgico). Bromocriptina (agonista dopaminérgico) e dantrolene são usados na síndrome neuroléptica maligna, não como primeira escolha aqui; reintroduzir o serotoninérgico é contraindicado. Haloperidol tem efeito anticolinérgico e pode piorar a hipertermia e a disautonomia, não sendo a conduta de escolha. O clônus predominante ajuda a diferenciar da neuroléptica maligna, na qual predomina rigidez em cano de chumbo.
Homem de 42 anos, trabalhador rural, é trazido à UPA cerca de 40 minutos após aplicar inseticida em lavoura sem equipamento de proteção. Refere náuseas, vômitos, cólicas abdominais, visão turva e dificuldade respiratória progressiva. Ao exame: sonolento, sudorese profusa, sialorreia intensa, incontinência urinária, pupilas puntiformes, estertores bolhosos difusos em ambos os hemitórax. PA 100 x 60 mmHg, FC 48 bpm, FR 30 irpm, SpO2 88% em ar ambiente. Roupas impregnadas de odor característico de solvente. Após remoção das vestes, descontaminação da pele e suporte ventilatório com oxigênio, assinale a conduta farmacológica prioritária.
O quadro é uma síndrome colinérgica muscarínica clássica por organofosforado (exposição ocupacional a inseticida, miose, sialorreia, broncorreia com estertores difusos, bradicardia, sudorese, incontinência, hipoxemia). O antídoto de primeira linha é a ATROPINA, titulada em doses dobradas até a atropinização, cujo alvo é o controle da broncorreia/broncoespasmo (o pulmão limpo, e não a frequência cardíaca ou o diâmetro pupilar, é o parâmetro de titulação); a pralidoxima é adjuvante para o componente nicotínico. Naloxona reverteria opioides — que também cursam com miose, mas com pele seca, sem sialorreia/broncorreia e sem essa sudorese profusa. Flumazenil é antagonista de benzodiazepínicos, que não produzem hipersecreção colinérgica. Azul de metileno trata metemoglobinemia, na qual há cianose refratária ao oxigênio, sem miose ou sialorreia.
Mulher de 23 anos é levada ao pronto-socorro pela irmã após ingerir, há 8 horas, em tentativa de autoextermínio, cerca de 25 comprimidos de paracetamol 750 mg (peso 60 kg), em dose única e sem uso de álcool ou outras substâncias. Está lúcida, orientada, refere apenas náuseas e leve desconforto em hipocôndrio direito. Exame físico sem icterícia e sem sinais de encefalopatia; PA 118 x 74 mmHg, FC 84 bpm. Exames: AST 32 U/L, ALT 28 U/L, INR 1,0, creatinina 0,8 mg/dL, glicemia 92 mg/dL. Nível sérico de paracetamol colhido na admissão (8 horas pós-ingestão): 150 mcg/mL — acima da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew para esse tempo. Assinale a conduta adequada neste momento.
A dose ingerida (cerca de 18,75 g, aproximadamente 312 mg/kg) e, sobretudo, o nível sérico ACIMA da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew em ingestão aguda única com tempo conhecido indicam N-acetilcisteína imediata; a eficácia é máxima quando iniciada até 8 a 10 horas da ingestão, e exames hepáticos normais nessa janela são a REGRA, não sinal de segurança (a lesão pelo metabólito NAPQI só se expressa em 24 a 72 horas). Carvão ativado tem indicação restrita à primeira hora (até 2 a 4 horas em doses maciças) e jamais substitui o antídoto nem justifica esperar a elevação enzimática. Manter só hidratação subestima o risco: aguardar a alteração laboratorial é justamente perder a janela terapêutica. Transplante hepático é discutido apenas na hepatite fulminante instalada, pelos critérios do King's College (pH < 7,3, ou a tríade INR > 6,5 + creatinina > 3,4 mg/dL + encefalopatia grau III/IV) — nenhum presente aqui.
Gestante de 27 anos, 26 semanas, é trazida ao pronto-socorro após ser encontrada confusa no banheiro de casa, onde usava aquecedor a gás com janelas fechadas durante o inverno. Refere cefaleia holocraniana intensa, náuseas e tontura iniciadas há cerca de 3 horas; a irmã relata que a paciente chegou a desmaiar brevemente. Ao exame: sonolenta, responsiva ao chamado, sem déficits focais; pele corada; PA 112 x 70 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm, oximetria de pulso 98% em ar ambiente. BCF 148 bpm. Gasometria arterial: pH 7,32, pCO2 32 mmHg, HCO3 17 mEq/L, lactato 3,4 mmol/L; carboxi-hemoglobina 18%. ECG sem alterações isquêmicas. Iniciado oxigênio a 15 L/min em máscara não reinalante. Assinale a conduta mais adequada.
Trata-se de intoxicação por monóxido de carbono (fonte de combustão em ambiente fechado, cefaleia, náuseas, síncope, taquicardia, acidose metabólica com lactato elevado e COHb de 18%). São indicações consagradas de OXIGENOTERAPIA HIPERBÁRICA: perda de consciência (mesmo transitória), sintomas neurológicos ou alteração do estado mental, isquemia miocárdica, acidose metabólica significativa, COHb > 25% e — de forma peculiar — GESTAÇÃO com COHb acima de 15% a 20% ou qualquer sinal de sofrimento fetal, porque a hemoglobina fetal tem maior afinidade pelo CO e sua meia-vida no compartimento fetal é bem mais longa que a materna. Manter apenas oxigênio normobárico ignora que o corte isolado de 25% não se aplica à gestante e desconsidera a síncope e a acidose, que por si só já indicam a câmara. Suspender o oxigênio é erro grave: a oximetria de pulso convencional não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, gerando leitura falsamente normal — é preciso co-oximetria. A interrupção da gestação não é conduta indicada: tratar a mãe com oxigênio hiperbárico é o que melhor protege o feto nessa idade gestacional.
Mulher de 27 anos é trazida ao pronto-socorro por náuseas, vômitos e dor em hipocôndrio direito. Após abordagem cuidadosa, admite ingestão única de cerca de 20 g de paracetamol com finalidade autolesiva, há aproximadamente 26 horas. Nega uso de álcool e outras medicações. Ao exame: consciente, orientada, ictérica (+/4+), FC 98 bpm, PA 110x70 mmHg. Exames: AST 3.400 U/L, ALT 3.900 U/L, bilirrubina total 4,8 mg/dL, INR 2,3, creatinina 1,1 mg/dL, glicemia 78 mg/dL, paracetamol sérico indetectável. Assinale a conduta imediata mais adequada.
Paciente com apresentação tardia (>24 h) já em hepatite tóxica estabelecida (transaminases em milhares, INR alargado, icterícia): nessa situação o nomograma de Rumack-Matthew NÃO se aplica e o nível sérico indetectável não exclui lesão — o fármaco já foi metabolizado, mas o NAPQI já consumiu a glutationa. A N-acetilcisteína deve ser iniciada imediatamente e mantida enquanto houver evidência de lesão hepática, pois reduz mortalidade mesmo iniciada tardiamente. Suspender a NAC pelo nível indetectável é o erro clássico. Carvão ativado só tem papel nas primeiras 1 a 2 horas da ingestão, e apenas adiar a NAC é deletério. A hemodiálise não está indicada, já que não há paracetamol circulante; ela seria discutida em intoxicação maciça precoce com acidose e coma. Os critérios do King's College (aqui ainda não preenchidos) devem ser monitorados para acionar centro de transplante.
Menino de 3 anos é trazido à emergência 40 minutos após ingerir grânulos de um produto usado pela família para matar ratos ("chumbinho"), encontrado sob a pia. Chegou sonolento, com sialorreia intensa, vômitos e incontinência urinária. Ao exame: pupilas puntiformes e pouco reativas, secreção brônquica abundante com estertores difusos, sibilos, frequência respiratória 44 irpm, saturação 90% em ar ambiente, frequência cardíaca 58 bpm, pressão arterial 82 x 50 mmHg, fasciculações em membros inferiores. Após garantir via aérea, oxigênio e acesso venoso, assinale a conduta específica adequada.
O quadro é uma síndrome colinérgica muscarínica e nicotínica clássica (miose, sialorreia, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, incontinência, fasciculações) por inibidor da colinesterase — o antídoto é a atropina, iniciada em 0,02–0,05 mg/kg IV e repetida (com doses dobradas se necessário) a cada 5 minutos, tendo como alvo terapêutico o desaparecimento das secreções brônquicas, e não a frequência cardíaca ou o diâmetro pupilar; a descontaminação de pele e roupas é obrigatória. A miose com rebaixamento pode simular opioide, mas a naloxona não reverte broncorreia, fasciculações nem bradicardia colinérgica. A descontaminação gastrointestinal é adjuvante e nunca substitui o antídoto; a lavagem gástrica tem indicação restrita e risco de broncoaspiração no paciente sonoloso. A pralidoxima é adjuvante (útil sobretudo nos organofosforados, reativando a colinesterase antes do envelhecimento) e nunca deve ser usada sem atropinização prévia.
Adolescente de 17 anos é atendida no pronto-socorro após ingerir 40 comprimidos de um medicamento em tentativa de suicídio. Recebe tratamento, evolui bem e recebe alta em 48 horas. Quanto às obrigações de vigilância nesse caso, é correto afirmar que:
A intoxicação exógena por substâncias ou compostos químicos, incluindo medicamentos, é agravo de notificação compulsória semanal e vai para o Sinan na Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena. Quando a circunstância é tentativa de suicídio, acrescenta-se a Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada, no prazo de até 24 horas para a secretaria municipal de saúde. Não é preciso confirmação laboratorial: notifica-se o caso suspeito, e mesmo o exposto assintomático entra na definição de caso. Quem notifica é o município que atendeu, independentemente de residência ou local de exposição. E a lista não se restringe a agrotóxicos e metais: medicamentos são o grupo mais frequente.
Homem de 41 anos, trabalhador rural, chega à unidade de pronto atendimento 40 minutos depois de ser encontrado caído ao lado do pulverizador. Está sonolento, sudoreico, com sialorreia intensa, pupilas de 1 mm, FR 28 irpm, FC 50 bpm, PA 100x60 mmHg e estertores difusos em ambos os hemitórax. As roupas estão molhadas com o produto. Qual é a conduta correta nos primeiros minutos?
A síndrome é colinérgica (miose, pele úmida, sialorreia, broncorreia, bradicardia) por inibidor de colinesterase. Enquanto a roupa impregnada permanece, a absorção cutânea continua, e nenhuma dose de atropina se sustenta: descontaminação de pele e antídoto andam juntos. A dose no quadro grave é de 2 a 4 mg repetidos a cada 3 a 10 minutos, titulados até boca e pele secas, queda da estertoração e frequência em torno de 120 bpm. A primeira alternativa erra duas vezes: mantém a fonte de exposição e usa carvão num paciente sonolento, sem via aérea protegida. A segunda usa flumazenil como teste diagnóstico, que é contraindicação formal. A terceira suspende a atropina pela taquicardia, que não contraindica o antídoto e é parte do alvo. A quinta atrasa o antídoto por um exame que não muda a conduta inicial e que nem sempre está disponível.
Sobre a descontaminação gastrointestinal com carvão ativado, segundo o guia brasileiro de indicações, uso e estoque de antídotos de 2025, assinale a situação em que ele está corretamente indicado.
As doses múltiplas de carvão ativado, a cada 4 a 6 horas, são indicadas para aumentar a eliminação de xenobióticos com circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina —, desde que não haja obstrução ou perfuração intestinal, íleo, instabilidade hemodinâmica ou via aérea desprotegida. Metanol é álcool tóxico e não é adsorvido pelo carvão, assim como o lítio, os metais e seus sais. Corrosivo é contraindicação expressa, e o carvão ainda atrapalharia a endoscopia. A última alternativa tem a substância certa, mas o paciente com Glasgow 8 sem intubação está justamente na contraindicação de depressão neurológica sem proteção de via aérea.
Quatro pacientes resgatados de ambientes com monóxido de carbono chegam ao serviço. Segundo a diretriz de utilização da oxigenoterapia hiperbárica da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica (2019), qual deles preenche critério para indicar a câmara?
O Grupo I da diretriz de 2019 indica a câmara com carboxi-hemoglobina acima de 25%, ou acima de 20% em gestante, ou diante de história de perda de consciência, acidose metabólica severa com pH abaixo de 7,1, evidência de isquemia de órgão central (alteração de ECG, dor torácica ou alteração do estado mental) ou suspeita de inalação concomitante de cianeto. A gestante com 22% cruza o corte específico da gestação, que é mais baixo justamente por causa da hemoglobina fetal. Os demais ficam abaixo dos cortes, sem perda de consciência, sem acidose e sem sinal de isquemia central — recebem oxigênio normobárico a 100%. O tabagista assintomático com 9% ilustra que fumantes têm carboxi-hemoglobina basal mais alta que não fumantes.
Três trabalhadores são atendidos após passarem a manhã num galpão com um gerador a gasolina ligado. O mais grave, 34 anos, está confuso, com cefaleia e náusea, PA 130x80 mmHg, FC 104 bpm e SpO2 de 99% em ar ambiente. A gasometria arterial mostra PaO2 de 96 mmHg. Qual a conduta imediata?
A oximetria de pulso não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e vem normal na intoxicação por monóxido de carbono; a PaO2 mede oxigênio dissolvido e também vem normal. Nenhuma das duas afasta o diagnóstico, o que elimina a primeira alternativa. Vários doentes no mesmo ambiente com motor a combustão é a apresentação clássica. O tratamento começa antes da confirmação, com oxigênio a 100% em máscara não reinalante, e o exame que fecha é a dosagem de carboxi-hemoglobina. Cateter nasal a 3 L/min não entrega fração inspirada suficiente. O azul de metileno trata meta-hemoglobinemia, quadro diferente, e não tem papel aqui.
Mulher de 35 anos com transtorno depressivo é trazida rebaixada após ingerir comprimidos de clonazepam e amitriptilina. Glasgow 10, PA 92x58 mmHg, FC 118 bpm, pupilas em midríase, pele seca e quente. O ECG mostra QRS de 145 ms. Qual a conduta?
A coingestão de benzodiazepínico com antidepressivo tricíclico é contraindicação formal ao flumazenil: em associação com drogas pró-convulsivantes e cardiotóxicas, o antagonista pode induzir arritmia grave e estado de mal convulsivo. O que ameaça a vida aqui é a cardiotoxicidade do tricíclico, e o gatilho terapêutico é a largura do QRS: com QRS entre 120 e 160 ms, bolus de 50 mEq de bicarbonato de sódio a 8,4%, repetível; acima de 160 ms, 100 mEq. Naloxona não tem indicação sem síndrome opioide. O guia brasileiro de antídotos de 2025 não traz fisostigmina em sua lista. Lavagem gástrica sem via aérea protegida em paciente com Glasgow 10 troca um risco por outro, o de aspiração.
Homem de 30 anos é encontrado inconsciente, com FR de 6 irpm, pupilas puntiformes, pele seca, SpO2 de 84% e marcas de punção nos antebraços. Recebe 0,4 mg de naloxona IV, com melhora da ventilação. Quarenta minutos depois, volta a rebaixar e a bradipneia retorna. Qual a explicação e a conduta?
A tríade de rebaixamento, bradipneia e miose puntiforme com pele seca é síndrome opioide, e a resposta à naloxona confirma. A recorrência em 40 minutos é o comportamento farmacológico esperado: a naloxona tem meia-vida de 30 a 90 minutos no adulto, menor que a de muitos opioides, sobretudo os de ação prolongada. A conduta é repetir e manter infusão contínua com 60% a 75% da dose total que reverteu a depressão respiratória, por hora, ajustando pela resposta. Flumazenil não tem indicação aqui e é contraindicado como teste diagnóstico. A abstinência por naloxona cursa com hiperatividade adrenérgica, não com depressão respiratória. Suspender o antídoto ou atribuir tudo à hipóxia deixa o paciente exposto a nova parada.
Mulher de 22 anos, 60 kg, chega 5 horas depois de ingerir de uma só vez 24 comprimidos de paracetamol de 500 mg. Está lúcida, sem queixas, com exame físico normal e transaminases normais. O horário da ingestão é certo. Qual a conduta?
Foram 12 g em 60 kg, ou seja, 200 mg/kg, acima do limiar de 150 mg/kg. Com horário certo, ingestão única e 5 horas decorridas, a coleta é válida (a partir de 4 horas, preferencialmente dentro de 8) e o nomograma modificado se aplica: a decisão sai da plotagem. Estar assintomática é o esperado nessa janela e não afasta risco, porque a glutationa cai a 30% do normal em 6 a 8 horas — o que elimina a segunda e a quarta alternativas. Carvão ativado já está fora da janela de 60 minutos. Iniciar e manter o antídoto ignorando o nomograma trata em excesso quem cai abaixo da linha de risco; se o resultado fosse demorar, a N-acetilcisteína começaria empiricamente e seria suspensa caso o ponto ficasse abaixo da linha.
Na endoscopia de paciente que ingeriu álcali, observa-se ulceração circunferencial profunda com áreas de necrose acinzentada em terço médio do esôfago. Qual a classificação e a implicação prognóstica?
A classificação de Zargar gradua a lesão: grau I é edema e eritema da mucosa; IIa traz úlceras superficiais, exsudato e friabilidade; IIb acrescenta úlceras profundas ou circunferenciais; IIIa apresenta necrose focal e IIIb, necrose extensa; grau IV é perfuração. Lesões a partir de IIb têm risco elevado de estenose cicatricial, que sobe muito nos graus III, e IIIb associa-se a mortalidade alta e a necessidade de ressecção. Classificar como IIa ou I é subestimar necrose visível e liberar prematuramente um paciente que precisa de vigilância. Afirmar que IIb dispensa seguimento também contraria a evolução esperada, já que a estenose costuma aparecer entre a segunda e a oitava semana.
Em relação às diferenças entre ingestão de álcalis e de ácidos fortes, qual afirmação é correta?
A distinção é de mecanismo químico: o álcali dissolve proteínas e saponifica gorduras, produzindo necrose de liquefação que avança em profundidade e pode alcançar toda a parede esofágica, com risco de perfuração e mediastinite. O ácido coagula proteínas e forma uma escara que limita a penetração, mas o piloro em espasmo retém o líquido no antro, concentrando ali a lesão, com risco de perfuração gástrica e estenose antral tardia. Inverter os dois padrões é o erro clássico do tema. Dizer que a lesão se limita à boca ignora que a ausência de lesão orofaríngea não afasta lesão distal — motivo pelo qual a endoscopia é indicada mesmo com exame oral normal em ingestão significativa.
Trabalhador é resgatado de silo com sinais de intoxicação. Sobre a oxigenoterapia nas emergências ambientais, qual afirmativa está correta?
O monóxido de carbono liga-se à hemoglobina com afinidade muito maior que o oxigênio e forma carboxiemoglobina, que o oxímetro de pulso convencional não distingue da oxiemoglobina — daí a leitura falsamente tranquilizadora, o mesmo motivo pelo qual a pressão parcial de oxigênio na gasometria pode estar normal, já que ela mede oxigênio dissolvido. O diagnóstico exige dosagem de carboxiemoglobina, e o tratamento é oxigênio a alta fração inspirada, que acelera a dissociação, com câmara hiperbárica considerada em situações selecionadas, como perda de consciência, déficit neurológico, isquemia miocárdica e gestação.
Paciente com estenose esofágica cicatricial 8 semanas após ingestão de cáustico, com disfagia para sólidos e perda de 6 kg. Qual a conduta inicial?
A estenose cáustica é tratada inicialmente por dilatações endoscópicas repetidas, com balão ou velas, associadas a suporte nutricional; a maioria dos pacientes obtém alívio duradouro da disfagia com o programa, ainda que ele possa exigir muitas sessões. A cirurgia de substituição esofágica, geralmente com cólon, fica para quem falha às dilatações, desenvolve estenoses longas e refratárias ou perfura durante o procedimento — indicá-la de saída impõe uma operação de grande porte antes de esgotar a alternativa menos invasiva. Adiar por seis meses um paciente que já perde peso é negligenciar desnutrição progressiva. Próteses metálicas permanentes migram e induzem hiperplasia, e a gastrostomia isolada resolve a nutrição, mas abandona o esôfago.
Paciente que ingeriu cáustico apresenta rouquidão, estridor e edema de orofaringe progressivo. Qual a prioridade?
Edema laríngeo progressivo em queimadura cáustica evolui rápido e transforma uma via aérea difícil em impossível: a conduta é assegurá-la precocemente, com o profissional mais experiente disponível, preparado para o acesso cirúrgico, já que a manipulação de tecido edemaciado e friável pode piorar o quadro. Esperar a endoscopia inverte prioridades — a via aérea antecede qualquer avaliação digestiva. Adrenalina inalatória e corticoide podem ser adjuvantes, mas apostar neles enquanto o estridor progride é a decisão que resulta em parada por hipóxia. A cricotireoidostomia é plano de resgate, não conduta universal, e a intubação às cegas ou por via nasal em tecido cáustico deve ser evitada.
Paciente com ingestão de cáustico apresenta, 6 horas após, dor abdominal intensa, defesa difusa, hipotensão e pneumoperitônio na radiografia. Qual a conduta?
Peritonite com pneumoperitônio após ingestão de cáustico significa perfuração de víscera com necrose transmural, e a conduta é cirúrgica imediata, com inventário da cavidade, ressecção do que estiver inviável — o que pode incluir esofagectomia e gastrectomia — e derivações, deixando a reconstrução para um segundo tempo. Fazer endoscopia nesse cenário é contraindicado, porque a insuflação amplia a perfuração e atrasa a operação: essa é a armadilha da questão, já que o exame é a conduta correta no paciente estável. Tratamento clínico prolongado ou observação com sonda são incompatíveis com choque e perfuração. Dilatação endoscópica precoce em tecido necrótico é conduta que perfura, além de não ter indicação nessa fase.
Homem de 34 anos ingere soda cáustica em tentativa de suicídio há 40 minutos. Está consciente, com sialorreia, dor retroesternal e odinofagia, sem estridor. Qual a conduta inicial?
Na ingestão de cáustico o tratamento inicial é de suporte com avaliação da via aérea, jejum, analgesia e endoscopia precoce, entre 12 e 24 horas — depois de esse período o tecido está mais friável e o risco de perfuração aumenta. Induzir vômito reexpõe o esôfago ao agente e é das piores condutas possíveis. Neutralizar com substância ácida gera reação exotérmica, agravando a lesão térmica sobre o tecido já necrótico. Carvão ativado não adsorve cáusticos, atrapalha a visão endoscópica e aumenta risco de aspiração. Lavagem gástrica com sonda calibrosa às cegas pode perfurar um esôfago necrótico. Álcalis causam necrose de liquefação, com penetração profunda, enquanto ácidos causam necrose de coagulação, com predomínio de lesão gástrica.
Sobre o uso de corticoide na lesão esofágica por cáustico, qual é a orientação atual?
Os estudos não sustentam o uso rotineiro de corticoide para prevenir estenose após ingestão de cáustico, e há preocupação de que ele encubra sinais de infecção e comprometa a cicatrização, com relatos de maior risco de perfuração; permanece objeto de discussão apenas em subgrupos selecionados de lesão circunferencial em crianças, e ainda assim sem consenso. Prescrever para todos é justamente o hábito antigo que a evidência derrubou. Usar nas lesões grau I é ilógico, pois essas evoluem bem sem qualquer tratamento específico. Estenose estabelecida se trata com dilatação endoscópica seriada, e nenhum medicamento substitui esse procedimento. Corticoide não tem papel como preparo para o exame endoscópico.
Paciente em uso de analgesia controlada pelo paciente com morfina endovenosa apresenta frequência respiratória de 8 incursões por minuto, sonolência importante e miose. Qual a conduta imediata?
Depressão respiratória com sonolência e pupilas puntiformes é toxicidade por opioide, e o tratamento é suspender a droga, oferecer oxigênio e reverter com antagonista titulado para restaurar a ventilação sem provocar dor intensa e abstinência. O flumazenil engana quem associa sedação a benzodiazepínico, mas ele não reverte opioide e pode desencadear convulsão em usuários crônicos dessa outra classe.
Sobre a ingestão de substâncias cáusticas, qual conduta é correta na fase aguda?
Na ingestão de cáusticos as manobras intuitivas são as mais nocivas: induzir vômito reexpõe o esôfago à substância e aumenta o risco de perfuração e aspiração; tentar neutralizar gera reação exotérmica que agrava a lesão térmica; e a sonda às cegas pode perfurar tecido já necrótico. A endoscopia precoce, nas primeiras 24 a 48 horas, gradua a lesão e orienta prognóstico e alimentação, evitando-se o período de maior fragilidade entre o quinto e o décimo quinto dia. Álcalis produzem necrose liquefativa com lesão esofágica profunda e ácidos, necrose coagulativa com predomínio gástrico, e ambos evoluem com estenose tardia.
Vítima de incêndio em ambiente fechado apresenta acidose metabólica grave com lactato muito elevado, hipotensão e rebaixamento do nível de consciência, sem hipoxemia proporcional e sem hemorragia. Deve-se suspeitar de:
A combustão de materiais sintéticos libera cianeto, que bloqueia a cadeia respiratória mitocondrial e produz acidose láctica grave com oxigenação preservada, exatamente o padrão descrito. O choque hipovolêmico engana porque também ocorre no queimado, mas raramente nas primeiras horas e não explica lactato desproporcional com boa oxigenação. O antídoto deve ser considerado precocemente, junto com oxigênio a alto fluxo.
Sobre a oxigenoterapia na intoxicação por monóxido de carbono, é correto afirmar que:
Aumentar a pressão parcial de oxigênio desloca o monóxido da hemoglobina e encurta drasticamente sua permanência, o que faz do oxigênio a alto fluxo o tratamento imediato em qualquer suspeita. A oximetria de pulso engana como parâmetro de acompanhamento porque não distingue as formas de hemoglobina. O uso da câmara hiperbárica é seletivo e depende de disponibilidade e transporte seguro.
Paciente resgatado de incêndio apresenta cefaleia, náusea e confusão mental, com oximetria de pulso mostrando 98% e gasometria com PaO2 normal. A hipótese mais provável é:
A carboxi-hemoglobina absorve luz de forma semelhante à oxi-hemoglobina, e o oxímetro comum lê valores falsamente normais, assim como a pressão parcial de oxigênio permanece normal porque o problema é o transporte, não a difusão. O diagnóstico exige dosagem específica de carboxi-hemoglobina, e o tratamento é oxigênio a alto fluxo, que reduz drasticamente a meia-vida do monóxido.
Paciente ingeriu acidentalmente substância cáustica ácida. Sobre a conduta inicial, é correto afirmar que:
Provocar vômito ou passar sonda expõe o esôfago novamente ao cáustico e aumenta o risco de perfuração, por isso ambas as medidas são proscritas. A endoscopia realizada nas primeiras horas gradua a lesão e orienta prognóstico e conduta, sendo evitada apenas quando há sinais de perfuração. Neutralizar com leite engana porque a reação libera calor e o volume favorece o vômito.
Família inteira apresenta cefaleia, náusea, tontura e sonolência simultaneamente durante o inverno, com melhora ao sair de casa. Qual a hipótese?
Sintomas simultâneos em vários moradores, com melhora fora do ambiente, apontam intoxicação por monóxido de carbono, geralmente ligada a aquecedores e a combustão em ambiente fechado, e o tratamento é oxigênio em alta concentração. Pensar em causa infecciosa engana quem raciocina por acometimento coletivo, mas a resolução ao deixar o ambiente e a ausência de febre apontam a fonte ambiental.
Homem de 58 anos, alcoolista, chega confuso, com pH 7,05, bicarbonato 8 mEq/L, ânion-gap de 28 mEq/L, glicemia 96 mg/dL e cetonemia fracamente positiva. Refere ingestão de bebida adulterada e apresenta borramento visual. Qual a hipótese e a conduta?
Acidose grave com ânion-gap muito elevado, glicemia normal e distúrbio visual em paciente que ingeriu bebida adulterada aponta intoxicação por metanol, cujo metabólito, o ácido fórmico, lesa o nervo óptico: o tratamento associa antídoto que bloqueia a álcool desidrogenase à hemodiálise. Pensar em cetoacidose alcoólica engana porque o contexto de alcoolismo com acidose e cetonas fracamente positivas é comum, mas ali não há borramento visual nem história de bebida adulterada.
Homem de 30 anos chega agitado, com dor torácica intensa após uso de cocaína há 1 hora. PA 190x110 mmHg, FC 128 bpm, ECG com infradesnivelamento de ST em parede lateral. Qual medicação deve ser evitada?
Na dor torácica associada à cocaína, o betabloqueador é classicamente evitado porque o bloqueio beta deixa o estímulo alfa sem oposição e pode agravar o vasoespasmo coronariano e a hipertensão. O tratamento se apoia em benzodiazepínico, que reduz a hiperatividade adrenérgica, nitrato e ácido acetilsalicílico; um alfabloqueador como a fentolamina é opção quando a hipertensão persiste. O distrator perigoso é achar que a taquicardia obriga betabloqueio — nesse contexto específico é justamente o contrário, e o sedativo resolve a frequência.
Qual é o mecanismo da hepatotoxicidade do paracetamol em superdosagem?
Em doses terapêuticas, o metabólito reativo formado pelo citocromo P450 é conjugado com glutationa e eliminado sem dano; na superdosagem, as vias de conjugação saturam, a glutationa se esgota e o metabólito liga-se a proteínas hepáticas, causando necrose centrolobular. A N-acetilcisteína funciona como precursora de glutationa, o que explica por que é tão mais eficaz quanto mais precoce. Etilismo crônico e desnutrição aumentam a suscetibilidade por reduzirem os estoques.
Homem de 38 anos com intoxicação por paracetamol evolui no terceiro dia com icterícia, INR de 4,2, encefalopatia grau II e creatinina de 2,5 mg/dL. Qual a conduta prioritária?
Encefalopatia associada a coagulopatia em paciente sem hepatopatia prévia define insuficiência hepática aguda, condição em que o encaminhamento precoce a centro de transplante é decisivo, mantendo-se o antídoto e o suporte. Corrigir o INR com plasma sem sangramento ativo apaga o principal marcador prognóstico e não melhora desfecho. Biópsia acrescenta risco em paciente coagulopata, e corticoide não tem papel nessa etiologia.
Qual afirmação sobre a N-acetilcisteína na insuficiência hepática aguda está correta?
A N-acetilcisteína é o antídoto específico do paracetamol e mantém benefício mesmo em apresentações tardias, com dados que apoiam seu uso em insuficiência hepática aguda de outras causas, sobretudo com encefalopatia inicial. Suspender o antídoto quando as transaminases sobem inverte a lógica do tratamento, que deve continuar até melhora dos parâmetros hepáticos. E nenhuma medida clínica dispensa a avaliação para transplante quando os critérios de gravidade se cumprem.
Qual sequência é típica da intoxicação por amatoxinas, como a causada por Amanita phalloides?
As amatoxinas produzem uma síndrome de início tardio: vômitos e diarreia aparecem após horas sem sintomas, podendo ser seguidos de melhora enganosa antes da hepatotoxicidade. Essa evolução exige acompanhamento clínico e laboratorial e avaliação toxicológica especializada; melhora digestiva isolada não permite concluir que o risco passou. Não se deve atribuir essa mesma síndrome a todas as espécies do gênero Amanita.
Qual antídoto está corretamente associado à intoxicação correspondente?
Fomepizol e etanol competem pela álcool desidrogenase e impedem a formação dos metabólitos tóxicos do metanol e do etilenoglicol, sendo a base do tratamento junto com bicarbonato e diálise. As demais associações estão trocadas: intoxicação por organofosforado se trata com atropina e pralidoxima, opioide com naloxona, benzodiazepínico com flumazenil usado com cautela, e a intoxicação por betabloqueador responde a glucagon e à terapia com insulina em dose alta.
Mulher de 24 anos é trazida 6 horas após ingestão intencional de 25 comprimidos de paracetamol de 750 mg. Está assintomática, com exames iniciais normais. Qual a conduta?
O paciente com intoxicação por paracetamol permanece assintomático nas primeiras horas, justamente quando o antídoto é mais eficaz, e a N-acetilcisteína deve ser iniciada precocemente, guiada pelo nomograma quando a ingestão é aguda e de horário conhecido, ou empiricamente quando há dúvida ou dose maciça. Esperar a lesão hepática aparecer é o erro que transforma um caso tratável em insuficiência hepática fulminante. Carvão ativado tem papel apenas nas primeiras horas.
Qual antídoto está indicado na intoxicação grave por etilenoglicol, além das medidas de suporte?
Fomepizol e etanol competem pela álcool desidrogenase e bloqueiam a formação dos metabólitos tóxicos, sendo associados a bicarbonato para a acidose e a diálise em casos graves, com lesão renal ou acidose refratária. Protamina reverte heparina, deferoxamina quela ferro, fisostigmina trata toxicidade anticolinérgica grave e naloxona reverte opioides — todos antídotos reais, porém de indicações completamente distintas.
Agricultor de 42 anos é trazido com sialorreia intensa, broncorreia, miose, bradicardia, vômitos e fasciculações após aplicar inseticida sem proteção. Qual a síndrome e o tratamento?
Secreções abundantes, miose, bradicardia, sintomas gastrintestinais e fasciculações compõem a síndrome colinérgica por inibição da acetilcolinesterase, e a atropina deve ser titulada pelo controle da broncorreia, não pela frequência cardíaca ou pelo diâmetro pupilar, muitas vezes exigindo doses muito altas. A pralidoxima reativa a enzima antes do envelhecimento da ligação. A síndrome anticolinérgica é o oposto, com pele seca, midríase e retenção urinária.
Qual conduta de descontaminação gastrintestinal tem indicação mais consistente em intoxicações agudas?
O carvão ativado é a medida com melhor relação entre benefício e risco, desde que administrado precocemente, em paciente consciente ou com via aérea protegida, e lembrando que não adsorve álcoois, lítio, ferro nem cáusticos. Lavagem gástrica de rotina caiu em desuso pelo risco de aspiração e pelo benefício incerto, a ipeca foi abandonada, e a irrigação intestinal tem indicações restritas, como pacotes de drogas e comprimidos de liberação prolongada.
Paciente intoxicado apresenta pupilas puntiformes, bradipneia de 6 irpm e rebaixamento de consciência. Qual a conduta imediata?
Miose puntiforme com depressão respiratória e do sensório configura a síndrome opioide, e a naloxona deve ser titulada para restaurar a ventilação sem precipitar abstinência aguda, lembrando que sua meia-vida é curta e pode exigir doses repetidas ou infusão. A prioridade continua sendo a via aérea e a ventilação. Atropina e fisostigmina atuam sobre síndromes colinérgica e anticolinérgica, com apresentações clínicas opostas à descrita.
Homem de 35 anos é resgatado de incêndio em ambiente fechado, com rebaixamento de consciência, fuligem em orofaringe, lactato de 12 mmol/L e saturação de oxigênio normal ao oxímetro. Qual a hipótese e a conduta?
O oxímetro não distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina e pode mostrar valores normais mesmo em intoxicação grave, o que torna a leitura falsamente tranquilizadora — a suspeita nasce do cenário. Oxigênio a 100% acelera a eliminação do monóxido, e a acidose lática desproporcional em vítima de incêndio levanta intoxicação concomitante por cianeto, com indicação de hidroxocobalamina. A câmara hiperbárica é considerada em casos selecionados.
Paciente de 45 anos com intoxicação por betabloqueador apresenta bradicardia de 38 bpm e hipotensão refratária a atropina e volume. Qual a próxima medida?
O glucagon ativa a adenilato ciclase por via independente do receptor beta, restaurando o inotropismo e o cronotropismo, e a terapia com insulina em dose alta associada a glicose melhora o desempenho miocárdico ao otimizar o metabolismo de carboidratos, sendo pilar tanto na intoxicação por betabloqueador quanto por bloqueador de canal de cálcio. Marca-passo pode não capturar e não corrige a falência inotrópica, e naloxona atua sobre opioides, sem papel aqui.
Homem de 27 anos é levado ao pronto-socorro após ingestão de grande quantidade de amitriptilina. Apresenta rebaixamento de consciência, hipotensão, convulsão e ECG com QRS de 140 ms e onda R proeminente em aVR. Qual a conduta imediata?
O alargamento do QRS na intoxicação por tricíclico reflete bloqueio dos canais de sódio, e o bicarbonato reverte esse efeito pela alcalinização e pela oferta de sódio, sendo a medida que previne arritmia e parada. Antiarrítmicos das classes IA e III agravam o bloqueio de canais e são contraindicados. Flumazenil pode desencadear convulsão refratária nesse contexto, e a fenitoína, também bloqueadora de canais de sódio, é má escolha para as crises, que respondem a benzodiazepínico.
Paciente com intoxicação por salicilatos apresenta taquipneia, zumbido, febre e gasometria com alcalose respiratória associada a acidose metabólica com ânion gap aumentado. Qual medida acelera a eliminação do tóxico?
A alcalinização da urina aumenta a fração ionizada do salicilato e impede sua reabsorção tubular, acelerando a eliminação, mas exige correção da hipopotassemia, sem a qual a urina não alcaliniza. A associação de alcalose respiratória com acidose metabólica é a assinatura da intoxicação em adultos. Diálise entra nos casos graves, com nível muito elevado, alteração neurológica, edema pulmonar ou insuficiência renal.
Qual exame simples e imediato deve ser realizado em todo paciente com rebaixamento de consciência por suspeita de intoxicação?
A hipoglicemia é causa comum, rapidamente reversível e potencialmente fatal de rebaixamento de consciência, e sua exclusão à beira do leito custa segundos, devendo preceder qualquer investigação complexa. Exames de imagem e dosagens toxicológicas quantitativas têm papel em situações selecionadas, mas não substituem a avaliação inicial. O eletrocardiograma também merece destaque precoce, por identificar bloqueio de canais de sódio e prolongamento do intervalo QT.
Homem de 50 anos apresenta visão borrada, cegueira progressiva, dor abdominal, acidose metabólica com ânion gap elevado e ânion gap osmolar aumentado, após ingerir bebida clandestina. Qual o diagnóstico?
Alterações visuais associadas a acidose com ânion gap elevado e ânion gap osmolar aumentado, após ingestão de bebida adulterada, apontam metanol, cujo metabólito ácido fórmico lesa o nervo óptico. O etilenoglicol produz quadro semelhante, mas com cristais de oxalato na urina e lesão renal, sem o comprometimento visual característico. O isopropanol causa cetose sem acidose significativa, e a cetoacidose alcoólica não eleva o ânion gap osmolar.
Qual é a conduta correta diante de ingestão de substância cáustica, como soda cáustica?
Vomitar reexpõe o esôfago ao agente e aumenta o risco de perfuração, e a tentativa de neutralização gera reação exotérmica que agrava a lesão. O carvão não adsorve cáusticos e ainda atrapalha a visualização endoscópica, e a passagem de sonda às cegas arrisca perfurar tecido friável. A conduta é jejum, suporte, avaliação de via aérea, imagem quando há suspeita de perfuração e endoscopia para estadiamento.
Qual é o parâmetro que orienta a titulação da atropina na intoxicação por organofosforado?
O desfecho que salva a vida é o controle da broncorreia e do broncoespasmo, pois a morte ocorre por insuficiência respiratória; a pupila responde de forma tardia e não deve ser usada como alvo, sob risco de subdosagem grave. Taquicardia extrema indica excesso. A dosagem da enzima confirma a exposição e ajuda no prognóstico, mas não guia a titulação em tempo real, que é clínica e frequentemente exige doses muito acima do habitual.
Qual achado clínico caracteriza a síndrome simpaticomimética, típica da intoxicação por cocaína e anfetaminas?
A ativação adrenérgica produz agitação, dilatação pupilar, taquicardia, hipertensão, hipertermia e pele úmida pela sudorese — e é justamente a sudorese que separa essa síndrome da anticolinérgica, em que a pele está seca apesar da midríase e da taquicardia. O tratamento é de suporte, com benzodiazepínico como pilar, resfriamento ativo e cuidado com o uso isolado de betabloqueador na intoxicação por cocaína.
Qual cuidado é essencial ao usar flumazenil em paciente com rebaixamento de consciência de causa indeterminada?
O antagonista benzodiazepínico pode desencadear convulsões de difícil controle em pacientes dependentes ou em coingestão com tricíclicos e outros agentes pró-convulsivantes, e nesses casos a droga que reverteria a crise está justamente bloqueada. Por isso o uso é restrito a situações selecionadas, como reversão de sedação iatrogênica em paciente sem exposição crônica, e não como teste diagnóstico universal no coma.
Qual conduta é prioritária no atendimento inicial de qualquer paciente com intoxicação exógena grave?
A abordagem do intoxicado segue a mesma lógica de qualquer emergência: suporte às funções vitais, glicemia capilar, monitorização e correção de distúrbios que matam em minutos, enquanto se busca a identificação do agente por história, exame e reconhecimento de toxíndromes. Esperar a confirmação laboratorial para agir é o erro que custa vidas, já que a maioria das intoxicações se maneja clinicamente e poucos agentes têm antídoto específico.
Paciente com intoxicação por paraquate apresenta lesões orais, vômitos e, nos dias seguintes, insuficiência respiratória progressiva. Qual cuidado é específico nessa intoxicação?
O paraquate gera radicais livres e a suplementação de oxigênio amplifica o dano pulmonar, de modo que a oxigenoterapia é reservada à hipoxemia grave e mantida no menor nível tolerável — conduta contraintuitiva que costuma ser cobrada. A fibrose pulmonar progressiva explica a alta letalidade, e as medidas se concentram em descontaminação precoce, terra de Fuller ou carvão e suporte, sem antídoto realmente eficaz.
Qual intoxicação tem indicação estabelecida de hemodiálise como parte do tratamento?
São dialisáveis as substâncias de baixo peso molecular, baixa ligação proteica e pequeno volume de distribuição, o que inclui álcoois tóxicos, lítio, salicilatos, valproato em intoxicação grave e teofilina. Tricíclicos, benzodiazepínicos, opioides e fenotiazínicos têm volume de distribuição elevado e alta ligação proteica, de modo que a diálise não os remove de forma eficaz — indicá-la nesses casos gera falsa sensação de tratamento.
Adolescente de 17 anos apresenta hipertermia de 41 °C, rigidez muscular, clônus, hiper-reflexia, agitação e midríase após associar dois antidepressivos serotoninérgicos. Qual o diagnóstico?
Início rápido após ajuste de drogas serotoninérgicas, com hiper-reflexia, clônus mais intenso em membros inferiores, agitação e hipertermia caracteriza a síndrome serotoninérgica, tratada com suspensão dos agentes, benzodiazepínico, resfriamento e, em casos graves, cipro-heptadina. A síndrome neuroléptica maligna, ligada a antipsicóticos, instala-se em dias e cursa com rigidez em cano de chumbo e bradirreflexia — a diferença nos reflexos é o dado que separa as duas.
Homem de 45 anos, aplicador de agrotóxicos em pomar de citros, comparece ao exame periódico de saúde ocupacional. Está assintomático e sem contato com o produto há duas semanas; refere uso diário de bebida alcoólica. Exame físico normal: pupilas de 3 mm, pele seca, ausculta pulmonar limpa, FC 76 bpm. A atividade da colinesterase plasmática está reduzida em 18% em relação ao valor de referência. Qual a conduta?
A inibição que confirma intoxicação aguda é de 25 a 30% — ou menos, na vigência de sintomas característicos —, e aqui não há sintoma algum: uma queda de 18% num trabalhador assintomático não fecha diagnóstico. Etilismo, hepatopatia, uremia, gravidez, desnutrição e cerca de 3% da população, por variação genética, cursam com atividade baixa sem intoxicação nenhuma. A enzima que serve à vigilância da exposição crônica é a eritrocitária, que permanece baixa por semanas a meses e se recupera cerca de 1% ao dia, enquanto a plasmática sobe cerca de 7% ao dia e normaliza antes. A prova diagnóstico-terapêutica com 1 mg de atropina cabe onde o exame não existe e há quadro clínico compatível, não em quem está assintomático e já tem a dosagem em mãos. Carvão ativado tem janela de 60 minutos na dose única e não alcança o que foi absorvido semanas antes. E titular atropina pelo valor da enzima inverte a régua: a atropinização se mede por boca e pele secas, ausculta limpa e frequência em torno de 120 bpm.
Menino de 20 kg é resgatado de incêndio em apartamento fechado, com fuligem em narinas e orofaringe. Chega torporoso, FR 32 irpm, PA 82 × 50 mmHg, SpO2 de 99% em ar ambiente, lactato de 12 mmol/L, acidose metabólica e carboxi-hemoglobina de 28%. Já recebe oxigênio a 100% em máscara não reinalante. Além do oxigênio, qual antídoto e em que dose?
Incêndio em ambiente fechado, torpor, hipotensão e lactato muito elevado apontam envenenamento por cianeto junto do monóxido de carbono, e a escolha é a hidroxicobalamina, 70 mg/kg em 15 minutos na criança: 70 × 20 kg dá 1400 mg, ou 1,4 g. O teto de 10 g é do adulto e não substitui a conta por peso — aplicá-lo a uma criança de 20 kg entrega mais de sete vezes a dose devida. Os agentes metemoglobinizantes, como o nitrito de sódio, estão formalmente contraindicados quando há monóxido concomitante, e a carboxi-hemoglobina de 28% confirma que há: produzir meta-hemoglobina pioraria um transporte de oxigênio já comprometido. O azul de metileno trata meta-hemoglobinemia, quadro diferente, e nada faz contra o cianeto. Atropina responde à síndrome colinérgica, que exigiria miose, sialorreia e broncorreia — ausentes aqui. Vale lembrar que a SpO2 de 99% não tranquiliza: o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina.
Homem de 38 anos foi admitido em crise colinérgica grave por ingestão de organofosforado, precisou de atropina em infusão contínua e de ventilação mecânica. Está no segundo dia de internação, extubado há 12 horas e sem atropina há 10 horas: lúcido, orientado, sem sialorreia, sem fasciculações, ausculta pulmonar limpa, FC 88 bpm e força muscular preservada. A família pede alta. Qual a conduta?
Este é o momento em que o intoxicado por organofosforado parece curado e não está: entre 24 e 96 horas depois da recuperação da crise colinérgica pode surgir a síndrome intermediária, em paciente consciente, sem fasciculações e sem outras manifestações colinérgicas, com fraqueza dos flexores do pescoço e da musculatura proximal dos membros superiores e insuficiência respiratória de aparecimento súbito. Por isso a permanência hospitalar é de 3 a 5 dias após a melhora da crise aguda. As 6 horas de observação são o prazo mínimo de outro paciente — o assintomático que apenas se expôs e nunca fez crise —, e não se aplicam a quem já teve quadro grave. A neuropatia tardia é distal, aparece de 10 dias a 3 ou 4 semanas depois e não é o que ameaça a vida nesta janela; nenhum fármaco a previne, e a pralidoxima, como a atropina, tampouco. Prender o paciente até a colinesterase eritrocitária normalizar prolongaria a internação por semanas a meses sem ganho clínico, porque a recuperação dessa enzima é de cerca de 1% ao dia.
Paciente ressuscitado após parada por intoxicação exógena apresenta, na fase pós-parada, QRS alargado de 140 ms e hipotensão. Qual antidepressivo é a causa clássica desse padrão e qual a conduta?
O tricíclico bloqueia canais de sódio rápidos e alarga o QRS, com risco de arritmia ventricular e hipotensão; o bicarbonato corrige ambos os mecanismos, pela alcalinização e pelo aporte de sódio. Pensar em síndrome serotoninérgica engana quem associa antidepressivo a hipertermia e hiperreflexia, mas ali não há alargamento de QRS. Flumazenil e naloxona são antídotos de benzodiazepínico e opioide, sem qualquer papel aqui.
Homem de 34 anos, sem fatores de risco clássicos, apresenta dor torácica intensa 30 minutos após uso de cocaína, com supradesnivelamento de ST em parede inferior. Qual conduta é contraindicada nesse contexto?
Na isquemia relacionada à cocaína, o betabloqueador isolado pode deixar o estímulo alfa sem oposição e agravar o espasmo coronariano e a hipertensão. A base do tratamento inclui benzodiazepínico, nitrato, antiagregante e reperfusão quando indicada. Prescrever betabloqueador por reflexo do protocolo de síndrome coronariana é justamente o erro que a questão testa.
Segundo a classificação endoscópica de Zargar, qual grau de lesão cáustica apresenta risco significativo de estenose e exige seguimento prolongado?
Lesões de grau IIb, com ulceração profunda ou circunferencial, e de grau III, com necrose, são as que evoluem para fibrose e estenose e demandam seguimento e programação de dilatações. O grau I, com apenas edema e hiperemia, evolui bem e permite alta precoce, e é o distrator de quem confunde alteração visível com lesão transmural. O grau IIa tem risco intermediário e baixo.
Sobre o uso de corticoide na prevenção de estenose após ingestão de cáustico, qual afirmação é correta?
Os estudos não confirmaram redução consistente de estenose com corticoide, e há o risco concreto de mascarar mediastinite e perfuração — por isso ele não é conduta de rotina. A ideia de que se trata da medida de maior impacto é justamente a que sobreviveu em manuais antigos e ainda seduz. Nas lesões de primeiro grau, superficiais, não há sequer risco relevante de estenose para prevenir.
Sobre o momento ideal da endoscopia digestiva alta na ingestão de cáusticos, qual afirmação é correta?
A janela segura é precoce, nas primeiras 12 a 24 horas, quando ainda não houve amolecimento do tecido; entre o quinto e o décimo quinto dia a parede está no ponto de maior fragilidade pela fase de granulação, e o exame passa a oferecer risco elevado de perfuração. Escolher justamente esse intervalo intermediário é a inversão que a questão testa. Com perfuração suspeita, a endoscopia dá lugar à tomografia.
Qual a diferença fundamental entre a lesão causada por álcalis e a causada por ácidos na ingestão de cáusticos?
O álcali dissolve proteínas e lipídeos e penetra em profundidade por liquefação, atingindo preferencialmente o esôfago e ameaçando perfurar; o ácido coagula a superfície e forma escara que limita a penetração, com dano concentrado no estômago. Inverter os mecanismos é o erro clássico, e ele muda a expectativa de complicação: estenose esofágica tardia é típica do álcali, enquanto estenose antropilórica é mais associada ao ácido.
Qual é a complicação tardia mais frequente da ingestão de álcali com lesão esofágica circunferencial profunda?
Lesões circunferenciais profundas cicatrizam com fibrose, e a estenose com disfagia progressiva aparece em semanas a meses, exigindo dilatações repetidas e, às vezes, substituição esofágica. O esôfago de Barrett costuma ser lembrado por associação genérica entre esôfago e complicação tardia, mas ele decorre de refluxo ácido crônico e não da queimadura química. Vale lembrar que a cicatriz cáustica aumenta o risco de carcinoma epidermoide décadas depois.
Adulto que ingeriu grande quantidade de soda cáustica apresenta estridor, rouquidão e dificuldade respiratória progressiva. Qual a prioridade absoluta?
Estridor e rouquidão indicam acometimento laríngeo, e o edema progressivo pode fechar a via aérea em minutos — garantir a via aérea vem antes de qualquer estadiamento. A intubação às cegas é perigosa em tecido queimado, o que torna a visualização direta ou a via cirúrgica as opções seguras. Confiar no corticoide para reverter o edema é apostar no tempo que o paciente não tem.
Paciente recebeu flumazenil e despertou. Duas horas depois volta a ficar sonolento. Qual a explicação?
O antagonista tem meia-vida em torno de uma hora, bem menor que a de muitos benzodiazepínicos e seus metabólitos ativos, e a ressedação é esperada — por isso quem recebe flumazenil precisa de monitorização prolongada e eventuais doses repetidas ou infusão. Imaginar que o despertar encerra o caso e liberar o paciente é o desfecho perigoso que esse detalhe farmacocinético previne.
Qual sintoma visual é classicamente descrito na intoxicação digitálica?
A xantopsia, com objetos tingidos de amarelo e halos luminosos, é o sintoma visual clássico e costuma acompanhar náuseas, vômitos e confusão no idoso — muitas vezes é a queixa que levanta a suspeita antes da dosagem sérica. A perda de visão para vermelho e verde com escotoma central pertence à neurite óptica por etambutol e captura quem associa toxicidade visual a qualquer fármaco.
Qual das seguintes arritmias é considerada altamente sugestiva de intoxicação digitálica?
O digital combina aumento do automatismo com depressão da condução nodal, e a taquicardia atrial com bloqueio traduz exatamente essa dupla ação, sendo quase uma assinatura da intoxicação — a taquicardia juncional não paroxística e a taquicardia ventricular bidirecional têm o mesmo valor. Fibrilação atrial com alta resposta é o oposto do esperado, já que a droga é usada justamente para frear a condução, e o achado sugere subdose e não intoxicação.
Qual distúrbio eletrolítico predispõe à intoxicação digitálica mesmo com níveis séricos da droga dentro da faixa terapêutica?
A hipocalemia aumenta a sensibilidade à digoxina e pode favorecer toxicidade mesmo com concentração sérica aparentemente terapêutica, especialmente durante uso de diuréticos que reduzem o potássio. Hipomagnesemia e hipercalcemia também são fatores predisponentes, razão pela qual a hipercalcemia não seria um distrator válido nesta pergunta. A hipocalcemia isolada, agora apresentada na alternativa, não corresponde a esse fator predisponente clássico. A avaliação inclui eletrólitos, função renal, manifestações clínicas e eletrocardiograma. Referência: FDA, bula de Lanoxin, seção 5.3.
Além do alargamento do QRS, qual outro achado eletrocardiográfico é característico da intoxicação por antidepressivos tricíclicos?
O desvio do eixo terminal para a direita produz onda R proeminente em aVR, achado descrito como preditor de convulsão e arritmia junto com a largura do QRS. As ondas T apiculadas pertencem à hipercalemia e a onda J à hipotermia: ambas capturam quem memoriza sinais eletrocardiográficos isolados sem ligá-los ao mecanismo, que aqui é o bloqueio de canais rápidos de sódio.
Após a administração de anticorpo antidigoxina, qual cuidado é necessário na interpretação laboratorial?
Os ensaios habituais não distinguem a digoxina livre da ligada ao anticorpo, e por isso o nível total dosado depois do antídoto sobe e perde utilidade clínica — o acompanhamento passa a ser clínico e eletrocardiográfico. Esperar valor indetectável é o erro que leva a repetir doses desnecessárias. Quanto ao potássio, a tendência após o antídoto é CAIR, com risco de hipocalemia que exige monitorização.
Em intoxicação por tricíclico com colapso cardiovascular refratário a bicarbonato, volume e vasopressor, qual terapia de resgate pode ser considerada?
A emulsão lipídica sequestra fármacos lipofílicos no compartimento vascular e é opção de resgate descrita no colapso refratário, ao lado do suporte circulatório extracorpóreo. A hemodiálise é ineficaz nessa intoxicação porque a droga tem grande volume de distribuição e alta ligação proteica — pensar em removê-la do sangue é o raciocínio que falha justamente por ela quase não estar no sangue.
Qual conjunto de manifestações caracteriza a síndrome anticolinérgica da intoxicação por tricíclicos?
O bloqueio muscarínico produz o quadro clássico de pele seca e quente, pupilas dilatadas, retenção urinária, íleo, taquicardia e agitação com delirium. O conjunto com miose, sialorreia e broncorreia é exatamente o oposto, a síndrome colinérgica dos organofosforados, e o padrão com sudorese profusa e clônus corresponde à síndrome serotoninérgica — distinguir a pele SECA da pele ÚMIDA é o detalhe que separa as toxíndromes à beira do leito.
Mulher de 78 anos, em uso de digoxina e furosemida, apresenta náuseas, vômitos e visão amarelada há 3 dias. Exames: potássio 5,9 mEq/L, creatinina 2,3 mg/dL, digoxinemia 4,2 ng/mL. O eletrocardiograma mostra bradicardia com bloqueio atrioventricular avançado. Qual a conduta específica?
Bradiarritmia grave com hipercalemia e nível sérico elevado configura intoxicação digitálica ameaçadora, e o fragmento de anticorpo antidigoxina é o único tratamento que reverte o mecanismo, ligando-se à droga e corrigindo também o potássio. O cálcio é o distrator perigoso: embora seja reflexo automático diante de hipercalemia com alteração eletrocardiográfica, na intoxicação digitálica ele agrava a sobrecarga intracelular de cálcio e pode precipitar assistolia. A diálise não remove a droga, que tem grande volume de distribuição.
Qual achado eletrocardiográfico é o melhor preditor de convulsão e arritmia ventricular na intoxicação por antidepressivos tricíclicos?
A largura do QRS é o parâmetro de risco mais estudado: acima de 100 ms cresce a chance de convulsão e acima de 160 ms a de arritmia ventricular, o que faz do eletrocardiograma seriado a ferramenta central de monitorização. A taquicardia sinusal está presente em quase todos os intoxicados pelo efeito anticolinérgico e por isso não discrimina gravidade — usá-la como marcador é o erro que subestima o paciente com QRS já alargado.
Qual achado clínico sugere que o rebaixamento de consciência NÃO se deve apenas a benzodiazepínico e exige investigação adicional?
Hipotensão marcada e apneia não são típicas da intoxicação isolada por benzodiazepínico, e sua presença sugere coingestão de opioide, álcool, barbitúrico ou outra causa de coma que precisa ser buscada ativamente. Atribuir tudo ao benzodiazepínico e aguardar a metabolização é o erro que deixa passar uma segunda intoxicação mais letal ou uma lesão estrutural do sistema nervoso central.
Mulher de 22 anos é trazida 1 hora após ingestão de amitriptilina. Está sonolenta, com pupilas midriáticas, pele seca e retenção urinária. O eletrocardiograma mostra QRS de 130 ms e onda R proeminente em aVR. Qual a conduta imediata?
O alargamento do QRS traduz bloqueio dos canais rápidos de sódio, e o bicarbonato de sódio é o antídoto funcional: a carga de sódio supera o bloqueio e a alcalinização reduz a fração livre da droga. A fisostigmina é o distrator mais perigoso, porque a síndrome anticolinérgica está de fato presente, mas o fármaco pode precipitar assistolia e convulsão nesse contexto e está contraindicado. A amiodarona bloqueia canais de sódio e agravaria o quadro.
Qual medida reduz a mortalidade na insuficiência hepática aguda por paracetamol mesmo quando iniciada tardiamente, já com encefalopatia instalada?
A N-acetilcisteína tem benefício demonstrado mesmo quando iniciada tardiamente, com melhora da sobrevida livre de transplante, e por isso não se espera nível sérico para começar quando a suspeita é razoável. O carvão ativado é o distrator de quem raciocina apenas em descontaminação: ele só é útil nas primeiras horas após a ingestão e é inútil no paciente que já chega com falência instalada.
Homem de 45 anos é trazido sonolento após ingestão de clonazepam. Responde a estímulo verbal vigoroso, mantém via aérea pérvia, frequência respiratória de 14 incursões por minuto e saturação de 96% em ar ambiente. Qual a conduta?
A intoxicação isolada por benzodiazepínico raramente causa depressão respiratória grave, e o tratamento é de suporte, com observação até que o paciente desperte. O flumazenil é o distrator central do tema: ele reverte a sedação, mas pode precipitar convulsão refratária no usuário crônico ou em quem coingeriu tricíclico, e passa a ser mais perigoso que o próprio quadro. Intubação profilática em paciente que ventila e protege a via aérea é excesso desnecessário.
Qual é a causa mais frequente de insuficiência hepática aguda relacionada a fármacos, e qual seu antídoto?
O paracetamol responde pela maior parte dos casos de origem medicamentosa, com padrão de aminotransferases muito elevadas, e a N-acetilcisteína repõe glutationa e neutraliza o metabólito tóxico. A isoniazida também causa hepatite grave, mas a piridoxina trata a NEUROTOXICIDADE e as convulsões da intoxicação, não a lesão hepática — associar antídoto ao órgão errado é a armadilha da questão.
Paciente com intoxicação por tricíclico evolui com hipotensão refratária a volume e bicarbonato. Qual a droga vasoativa mais adequada?
A hipotensão decorre de bloqueio alfa-adrenérgico direto pela droga, e a noradrenalina age diretamente nesse receptor, superando o bloqueio. A dopamina é escolha inferior porque depende em parte da liberação de noradrenalina endógena, cujos estoques estão depletados pelo próprio tricíclico. A dobutamina agrava a hipotensão por vasodilatação periférica e é a opção que mais piora o paciente descrito.
Paciente assintomática chega 5 horas após ingestão de dose desconhecida de nortriptilina. Está lúcida, com eletrocardiograma normal e sinais vitais estáveis. Qual a conduta quanto ao tempo de observação?
O efeito anticolinérgico retarda o esvaziamento gástrico e a absorção, de modo que a deterioração pode ocorrer tardiamente — a observação monitorizada com eletrocardiogramas seriados é obrigatória, e a alta só se cogita após período livre de sintomas com traçado normal. Liberar pela ausência de sintomas até ali é o erro clássico. A dosagem sérica não se correlaciona bem com gravidade, e o parâmetro que guia é o eletrocardiograma.
Qual alteração eletrocardiográfica é esperada em pacientes em uso terapêutico de digoxina, sem indicar intoxicação?
O impregnamento digitálico produz o característico infradesnivelamento côncavo do segmento ST, com achatamento da onda T e encurtamento do intervalo QT — é achado esperado com dose terapêutica e não implica toxicidade. Confundi-lo com isquemia ou com sinal de intoxicação leva a suspender indevidamente uma droga em uso adequado; o diagnóstico de intoxicação se faz por sintomas e arritmias, não por essa alteração de repolarização.
Paciente com intoxicação digitálica apresenta taquicardia ventricular com pulso e instabilidade hemodinâmica. Qual cuidado específico existe em relação à cardioversão elétrica?
O miocárdio intoxicado por digital é elétricamente irritável, e o choque pode desencadear arritmias ventriculares refratárias, de modo que se prioriza o anticorpo antidigoxina e, quando o choque for inevitável, começa-se com energias baixas. Contraindicar de forma absoluta é excessivo e deixaria o paciente instável sem saída. Administrar cálcio antes do choque soma dois erros, porque o cálcio é justamente o que se evita nessa intoxicação.
Sobre o valor do potássio sérico na intoxicação digitálica AGUDA por ingestão maciça, qual afirmação é correta?
O bloqueio maciço da bomba de sódio e potássio impede a entrada de potássio na célula, e valores acima de 5,5 mEq/L na intoxicação aguda associam-se a mortalidade elevada, servindo inclusive de critério para indicar o antídoto. Repor potássio nessa situação é justamente o oposto do necessário e pode ser fatal — a reposição cabe na intoxicação CRÔNICA com hipocalemia associada, cenário completamente diverso.
Paciente com intoxicação por tricíclico apresenta convulsão tônico-clônica. Qual o anticonvulsivante de escolha e qual deve ser evitado?
O benzodiazepínico controla a crise sem agravar a cardiotoxicidade, e interromper a convulsão é essencial porque a acidose que ela produz aumenta a fração livre da droga e piora o bloqueio de sódio. A fenitoína é a escolha que parece lógica para crise convulsiva e é justamente a errada aqui: ela também bloqueia canais de sódio e soma seu efeito ao do tricíclico, com risco de agravar a arritmia.
Sobre o carvão ativado na intoxicação por antidepressivos tricíclicos, qual afirmação é correta?
O carvão adsorve bem os tricíclicos e é útil na ingestão recente, mas exige via aérea protegida porque o rebaixamento é rápido e a aspiração de carvão causa pneumonite grave. Administrá-lo a um paciente comatoso não intubado é o erro que a questão pune. Nenhuma medida de descontaminação substitui o bicarbonato quando já há alargamento do QRS, pois a droga absorvida precisa ser antagonizada.
Em qual situação o uso de flumazenil é mais aceitável?
O cenário mais seguro é o iatrogênico e controlado: exposição única, dose conhecida, sem uso crônico e sem coingestão, exatamente o resgate após sedação para procedimento. Em intoxicação de identidade desconhecida o risco é máximo, porque um tricíclico oculto transforma a reversão em convulsão sem benzodiazepínico disponível para tratá-la. No usuário crônico e no epiléptico, a retirada abrupta do agonismo desencadeia crise.
Homem de 30 anos ingeriu, em tentativa de autoextermínio, dezenas de comprimidos de digoxina há 90 minutos. Está consciente, com bradicardia de 45 bpm e potássio de 6,2 mEq/L. Além do antídoto, qual medida de descontaminação é adequada?
O carvão ativado adsorve a digoxina no trato gastrointestinal e interrompe também a recirculação êntero-hepática, sendo útil quando a ingestão é recente e o paciente protege a via aérea. A indução de vômito está proscrita na prática moderna, tanto pelo risco de aspiração quanto por estimular resposta vagal, que agravaria a bradicardia já presente. A emulsão lipídica pertence à intoxicação por anestésico local, não a esta.
Qual é o alvo de pH arterial ao se administrar bicarbonato de sódio na intoxicação por antidepressivos tricíclicos com QRS alargado?
A alcalinização moderada, com pH entre 7,45 e 7,55, reduz a fração livre da droga e reverte o bloqueio dos canais de sódio, e o parâmetro de resposta é o estreitamento do QRS. Buscar pH acima de 7,70 é excesso que causa hipocalemia grave, tetania e arritmias por alcalose, sem ganho adicional. Apenas normalizar o pH deixa de aproveitar o mecanismo terapêutico central do antídoto.
Qual adjuvante bioquímico é recomendado na intoxicação por etilenoglicol para desviar o metabolismo dos metabólitos mais tóxicos?
A tiamina e a piridoxina atuam como cofatores que desviam o ácido glioxílico para vias que geram metabólitos menos tóxicos, reduzindo a formação de oxalato, e por isso são recomendadas como adjuvantes nessa intoxicação. O ácido folínico e o ácido fólico são os adjuvantes correspondentes na intoxicação por metanol, pois aceleram a metabolização do ácido fórmico, e essa troca é a confusão mais comum entre os dois álcoois. Vitamina K trata coagulopatia por antagonistas da vitamina K, e antioxidantes genéricos não têm papel definido nesse contexto.
Por que o etanol pode ser usado como antídoto na intoxicação por metanol quando não há fomepizol disponível?
A álcool desidrogenase tem afinidade muito maior pelo etanol do que pelo metanol, de modo que a presença de etanol em concentração adequada ocupa a enzima e impede a conversão em formaldeído e ácido fórmico, ganhando tempo até a remoção do tóxico. O uso exige monitorização de nível de etanol, risco de hipoglicemia e depressão do sistema nervoso central, o que torna o fomepizol preferível quando disponível. Não há neutralização química, quelação nem aumento de excreção renal, e a indução de vômito não faz parte do tratamento.
Mulher de 62 anos, hipertensa em uso de atenolol, chega assintomática 30 minutos após ingestão acidental do dobro da dose habitual. Está com FC 62 bpm, PA 132x82 mmHg, eletrocardiograma normal. Qual é a conduta?
Em ingestão pequena, com paciente assintomático e eletrocardiograma normal, a conduta é observar com monitorização cardíaca pelo tempo adequado ao agente, lembrando que formulações de liberação prolongada exigem vigilância bem mais longa, e considerar carvão ativado quando a apresentação é precoce e a via aérea está protegida. Alta imediata ignora o risco de deterioração tardia e é o erro mais comum. Antídoto profilático em paciente estável não se justifica. Lavagem gástrica de rotina foi abandonada por baixa eficácia e risco de aspiração, e a diálise remove apenas alguns agentes hidrossolúveis, como atenolol e sotalol, em casos graves.
Qual é a fase inicial da intoxicação por etilenoglicol, nas primeiras horas após a ingestão?
A evolução clássica tem três fases: neurológica nas primeiras horas, com aspecto de embriaguez sem o odor característico do etanol, podendo chegar a convulsões e coma; cardiopulmonar entre 12 e 24 horas, com taquicardia, hipertensão e por vezes congestão; e renal após 24 a 72 horas, com oligúria e insuficiência renal. A amaurose precoce é o marco da intoxicação por metanol, e escolhê-la aqui é a confusão mais comum entre os dois álcoois. O comprometimento hepático não é característico dessa intoxicação.
Paciente usuário de cocaína apresenta taquicardia de complexo largo com QRS de 160 ms e hipotensão leve. Qual é a conduta específica?
A cocaína bloqueia canais rápidos de sódio, produzindo alargamento do QRS semelhante ao dos antidepressivos tricíclicos, e o bicarbonato de sódio endovenoso reverte esse efeito ao aumentar o gradiente de sódio e alcalinizar o meio. A procainamida é o distrator mais perigoso, porque também bloqueia canais de sódio e agrava o alargamento do QRS, sendo formalmente evitada. Adenosina não trata arritmia por bloqueio de canal de sódio, a amiodarona tem papel limitado nesse contexto específico, e a digoxina não corrige o distúrbio de condução induzido pela droga.
Homem de 45 anos é levado ao pronto-socorro 90 minutos após ingerir grande quantidade de propranolol em tentativa de suicídio. Está sonolento, com FC 38 bpm, PA 70x40 mmHg, glicemia de 48 mg/dL e broncoespasmo à ausculta. Qual achado ajuda a diferenciar essa intoxicação da causada por bloqueador de canal de cálcio?
O bloqueio beta-adrenérgico inibe a glicogenólise e a lipólise mediadas por receptores beta, e além disso alguns agentes são lipofílicos com penetração no sistema nervoso central, o que explica hipoglicemia, sonolência, convulsões e broncoespasmo em asmáticos. A hiperglicemia é a inversão exata e caracteriza a intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, que reduz a secreção de insulina e gera resistência à sua ação: essa é a chave de diferenciação mais cobrada. Midríase e pele seca compõem síndrome anticolinérgica, e os demais achados não caracterizam nenhuma das duas intoxicações.
Qual é o antídoto de escolha na intoxicação grave por betabloqueador com bradicardia e hipotensão refratárias a atropina e fluidos?
O glucagon ativa a adenilato ciclase por via independente do receptor beta, elevando o monofosfato cíclico de adenosina intracelular e restaurando inotropismo e cronotropismo mesmo com os receptores bloqueados, sendo o antídoto clássico dessa intoxicação, com vômitos como efeito adverso frequente. Naloxona reverte opioides, acetilcisteína trata paracetamol, flumazenil antagoniza benzodiazepínicos e pode precipitar convulsões em polimedicados, e fisostigmina é usada na síndrome anticolinérgica. Nenhum deles atua na via bloqueada aqui, e escolhê-los reflete memorização de lista de antídotos sem ligação com o mecanismo.
Sobre o uso de pralidoxima na intoxicação por carbamatos, qual afirmativa é a mais adequada?
Como a ligação do carbamato à enzima se desfaz espontaneamente, a reativação farmacológica tem pouco a acrescentar, e o uso da oxima nesse grupo é considerado desnecessário na maioria dos casos, com discussão sobre possível efeito indesejável em algumas situações. Considerá-la obrigatória é o erro que decorre de aplicar o protocolo dos organofosforados a um agente com cinética diferente. Em nenhuma dessas intoxicações a oxima substitui a atropina, que é o pilar do tratamento junto com o suporte ventilatório, e miose isolada não é critério para indicá-la.
Qual é a conduta indicada em paciente com intoxicação crônica por lítio, litemia de 3,2 mEq/L, alteração do nível de consciência e creatinina de 2,6 mg/dL?
O lítio é um íon pequeno, com baixo volume de distribuição e sem ligação proteica, o que o torna excelente candidato à remoção por hemodiálise, indicada quando há manifestações neurológicas graves, insuficiência renal ou níveis muito elevados, sobretudo na intoxicação crônica. O carvão ativado não adsorve lítio, sendo o distrator que aplica uma medida geral a um agente que não responde a ela. A furosemida agrava a depleção de volume e aumenta a reabsorção proximal, piorando a intoxicação. Não existe quelante específico, e a alcalinização não altera a excreção do lítio.
Quais são as indicações de hemodiálise na intoxicação por metanol?
Metanol e ácido fórmico são moléculas pequenas, hidrossolúveis e sem ligação proteica significativa, o que os torna prontamente dialisáveis, e a hemodiálise está indicada diante de acidose grave, comprometimento visual, insuficiência renal ou níveis séricos altos, acelerando a correção da acidemia e a remoção do metabólito. Afirmar que o metanol não é dialisável é erro conceitual grave, e reservar o procedimento apenas para parada ou coma prolongado significa dialisar depois que a lesão já ocorreu. Durante a sessão, a dose do antídoto precisa ser ajustada.
Paciente com intoxicação por metanol recuperou-se da acidose, mas permanece com visão de percepção luminosa apenas. Qual é a orientação correta quanto ao prognóstico visual?
A lesão do nervo óptico pelo ácido fórmico pode ser irreversível, com atrofia óptica e cegueira permanente, e o principal determinante é o tempo até o início do tratamento, o que reforça a urgência do antídoto e da diálise. Prometer recuperação completa é o erro de comunicação que fere o vínculo com o paciente e a família. Corticoide não tem eficácia comprovada para reverter o dano estabelecido, e a diálise remove o tóxico circulante, não recupera neurônios já lesados, sendo inútil quando a acidose já foi corrigida e o dano se consolidou.
Sobre a descontaminação gastrointestinal em intoxicação por betabloqueador de liberação prolongada, qual conduta é apropriada?
Formulações de liberação prolongada podem formar concreções e liberar droga por muitas horas, e nesses casos a irrigação intestinal total com polietilenoglicol soma-se ao carvão ativado, sempre com via aérea protegida em paciente com rebaixamento. A indução de êmese com ipeca foi abandonada por risco de aspiração e ausência de benefício, e permanece como distrator de textos antigos. Lavagem gástrica de rotina não é recomendada, catártico isolado não é medida eficaz, e afirmar que nenhuma descontaminação ajuda ignora cenários selecionados em que ela muda a evolução.
Qual medida adicional pode ser considerada na intoxicação refratária por bloqueador de canal de cálcio lipofílico, com choque persistente?
A emulsão lipídica endovenosa é usada como resgate em intoxicações por drogas lipofílicas com colapso cardiovascular, funcionando como compartimento que sequestra o agente do plasma, e embora a evidência seja limitada, é considerada em situações refratárias. A hemodiálise é o distrator lógico mas ineficaz, porque esses fármacos têm alto volume de distribuição e intensa ligação proteica. A alcalinização urinária é útil em salicilatos, o flumazenil pertence à intoxicação por benzodiazepínicos e pode desencadear convulsão, e a diurese forçada não remove drogas com essa farmacocinética.
Sobre a conduta inicial em qualquer intoxicação exógena aguda no pronto-socorro, qual é a prioridade?
A abordagem do intoxicado começa pela estabilização das funções vitais e pela correção de hipoglicemia, hipóxia e arritmias, antes de qualquer medida específica, porque o paciente morre da falência orgânica e não da falta do antídoto. Esperar a identificação exata do agente ou o resultado toxicológico é o erro que atrasa condutas salvadoras, já que muitos exames demoram e vários agentes não são detectados nas triagens habituais. Carvão ativado tem contraindicações e não se aplica a todos os tóxicos, e flumazenil empírico pode desencadear convulsões em pacientes que usaram múltiplas substâncias.
Durante o atendimento de paciente contaminado por praguicida na pele e nas roupas, qual medida deve preceder o transporte para a sala de emergência?
A descontaminação externa com remoção das roupas e lavagem com água e sabão reduz a absorção contínua pelo paciente e protege a equipe, que pode se intoxicar secundariamente, sendo passo precoce e simultâneo às medidas de suporte. Adiar a descontaminação até a estabilização é o erro que perpetua a exposição e prolonga o quadro. Não existem neutralizantes químicos aplicáveis à pele nesse contexto, e o álcool aumenta a absorção de agentes lipossolúveis. Curativo oclusivo mantém o tóxico em contato com a pele e agrava a absorção.
Paciente chega 1 hora após ingestão de etilenoglicol, ainda assintomático, com gasometria normal. Qual é a conduta?
Como a toxicidade depende da conversão em metabólitos, o momento de maior benefício do bloqueio da álcool desidrogenase é antes de a acidose se instalar, e por isso o antídoto se inicia com base na história de ingestão significativa, no hiato osmolar ou nos níveis, sem aguardar a deterioração. Esperar a acidose é o erro que permite justamente o dano que se pretende evitar, incluindo a lesão renal. Liberar o paciente assintomático nessas primeiras horas é conduta perigosa, e o carvão ativado tem baixa eficácia para álcoois.
Qual exame laboratorial pode auxiliar na confirmação diagnóstica da intoxicação por inibidores da colinesterase?
A redução da atividade da colinesterase plasmática ou da acetilcolinesterase eritrocitária apoia o diagnóstico e ajuda no acompanhamento, embora o tratamento seja sempre iniciado com base na clínica, pois o resultado costuma demorar e a correlação com a gravidade é imperfeita. A amilase pode elevar-se por pancreatite associada a essas intoxicações, mas é achado inespecífico e não confirma nada. Gasometria e enzimas cardíacas avaliam repercussões, não etiologia, e o hemograma não tem papel diagnóstico nesse quadro.
Qual é a diferença esperada entre a intoxicação por diidropiridinas e a por verapamil ou diltiazem?
As diidropiridinas têm seletividade vascular, produzindo vasodilatação intensa com taquicardia reflexa, enquanto verapamil e diltiazem atuam mais no nó sinusal e atrioventricular e no miocárdio, gerando bradicardia, bloqueios e queda da contratilidade. Em doses muito altas, porém, essa seletividade se perde e os quadros se aproximam, o que explica por que afirmar ausência total de diferença é meio verdadeiro e ainda assim incorreto como regra. A hiperglicemia é comum ao grupo todo, e a alteração do sensório na intoxicação por bloqueadores de cálcio geralmente decorre da hipoperfusão, não de ação direta.
Durante o tratamento com insulina em dose alta em paciente intoxicado, qual monitorização é obrigatória?
A infusão de insulina em dose muito superior à usual exige controle glicêmico frequente, com reposição contínua de glicose, e monitorização do potássio, que se desloca para o intracelular e pode cair de forma significativa. A hipocalemia induzida costuma ser tolerada em níveis moderados justamente por ser de redistribuição, mas precisa ser acompanhada para evitar arritmia. Monitorização hemodinâmica esparsa é insuficiente em paciente instável. Enzimas pancreáticas e plaquetas não fazem parte da vigilância específica dessa terapia, e escolhê-las revela desconhecimento do mecanismo.
Trabalhador rural de 42 anos chega ao pronto-socorro apos aplicar inseticida sem equipamento de protecao, com miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, vomitos e fasciculacoes. A conduta imediata inclui:
A sindrome colinergica muscarinica e nicotinica descrita e tipica de intoxicacao por organofosforado ou carbamato; o tratamento e descontaminacao, suporte ventilatorio e atropina titulada pelo controle das secrecoes bronquicas, com pralidoxima nos casos por organofosforado. Naloxona engana quem confunde as sindromes toxicologicas, mas ela reverte opioides — cujo quadro tem miose porem com depressao respiratoria SEM secrecoes nem fasciculacoes. O caso ainda exige comunicacao de acidente e notificacao de intoxicacao exogena.
Paciente com intoxicação por betabloqueador e choque refratário a todas as medidas farmacológicas, incluindo insulina em dose alta e vasopressores, permanece com hipoperfusão grave. Qual é a opção de resgate em centros com disponibilidade?
Em intoxicação por cardiotóxicos com choque refratário, o suporte circulatório extracorpóreo funciona como ponte enquanto o organismo metaboliza e elimina a droga, cenário em que a recuperação completa é possível justamente por se tratar de lesão reversível e temporária. Transplante não faz sentido em disfunção reversível e por intoxicação. Plasmaférese remove pouco de drogas com alto volume de distribuição e ligação tecidual. Exsanguineotransfusão tem indicações restritas, sobretudo em pediatria e em outros contextos, e imunossupressores não têm qualquer papel nesse mecanismo.
Homem de 44 anos é trazido sonolento após ingerir líquido de radiador. Gasometria com pH 7,08, bicarbonato de 6 mEq/L, ânion gap de 32 e osmolalidade medida muito acima da calculada. O sedimento urinário mostra cristais de oxalato de cálcio. Qual é o diagnóstico?
Acidose metabólica com ânion gap elevado somada a hiato osmolar aumentado e cristais de oxalato de cálcio na urina caracteriza a intoxicação por etilenoglicol, cujo metabolismo gera ácidos glicólico e oxálico. Cetoacidose e acidose láctica também elevam o ânion gap e são distratores legítimos, mas não produzem hiato osmolar significativo nem cristalúria oxálica. A intoxicação por salicilato cursa tipicamente com acidose metabólica somada a alcalose respiratória, sem hiato osmolar. A acidose tubular renal é hiperclorêmica, com ânion gap normal, o que a exclui de imediato.
Homem de 29 anos é trazido após ingerir raticida clandestino do tipo chumbinho. Apresenta sialorreia intensa, broncorreia, miose puntiforme, vômitos, diarreia, fasciculações e FC 46 bpm. Qual é a síndrome tóxica?
A inibição da acetilcolinesterase acumula acetilcolina nas sinapses e produz sinais muscarínicos, com sialorreia, broncorreia, miose, bradicardia, vômitos, diarreia e incontinência, além de sinais nicotínicos como fasciculações e fraqueza. A síndrome opioide é o distrator mais próximo por também cursar com miose e rebaixamento, mas não apresenta hipersecreção brônquica, fasciculações nem diarreia. A anticolinérgica é o espelho exato, com midríase, pele seca e delirium. Os quadros simpaticomimético e serotoninérgico cursam com midríase, hipertermia e agitação, sem hipersecreção.
Qual é o metabólito responsável pela toxicidade do metanol e sua principal consequência?
O metanol é convertido em formaldeído e depois em ácido fórmico, que inibe a citocromo oxidase mitocondrial, produzindo acidose metabólica grave e lesão característica do nervo óptico e do putame. O ácido oxálico é o metabólito do etilenoglicol, e trocar os dois é a confusão mais frequente entre os álcoois tóxicos, com consequências práticas diferentes, já que ali predomina lesão renal com cristalúria. A acetona provém do isopropanol, e o aldeído acético é metabólito do etanol, responsável pela reação desagradável observada com dissulfiram.
Homem de 38 anos chega 18 horas após ingerir bebida clandestina. Refere que enxerga como se estivesse em uma nevasca, com borramento visual progressivo. Está taquipneico, com pH 7,02, bicarbonato de 5 mEq/L e ânion gap de 30. Qual é o diagnóstico?
A queixa visual descrita como campo nevado, associada a acidose metabólica grave com ânion gap elevado após ingestão de bebida de procedência duvidosa, é o quadro característico da intoxicação por metanol, cujo metabólito ácido fórmico lesa o nervo óptico e os núcleos da base. A cetoacidose alcoólica é o distrator razoável em etilista com acidose, mas não causa sintoma visual e cursa com cetonemia. O etanol isolado não produz acidose grave desse tipo. O isopropanol gera cetose sem acidose importante, e a neurite óptica primária não explica o distúrbio metabólico.
Paciente com intoxicação grave por betabloqueador permanece hipotenso apesar de glucagon, atropina, volume e noradrenalina em dose alta. Qual terapia adicional está indicada?
A terapia com insulina em dose alta associada a glicose melhora o inotropismo ao otimizar o metabolismo miocárdico de carboidratos no coração intoxicado, e é hoje intervenção de resgate consagrada tanto no bloqueio beta quanto no bloqueio dos canais de cálcio, exigindo controle rigoroso de glicemia e potássio. Bicarbonato tem papel em intoxicações com bloqueio de canal de sódio, como por antidepressivos tricíclicos, e é o distrator que troca o mecanismo. Dopamina em dose baixa não tem efeito hemodinâmico útil, digoxina agrava a bradicardia e o bloqueio, e o magnésio não trata a depressão miocárdica.
Adolescente de 16 anos ingeriu comprimidos de nifedipino de liberação prolongada há 2 horas e permanece assintomático, com sinais vitais normais. Qual é a conduta adequada?
Formulações de liberação prolongada podem cursar com início tardio e deterioração abrupta muitas horas após a ingestão, o que torna obrigatória a observação monitorizada prolongada, geralmente por ao menos 24 horas, mesmo em paciente inicialmente assintomático. Liberar após poucas horas de estabilidade é justamente o erro que produz óbitos domiciliares nesse tipo de intoxicação. Carvão ativado é apropriado quando a apresentação é precoce, podendo-se considerar irrigação intestinal total em ingestões maciças. Antídoto profilático em paciente estável não se justifica, e indução de vômito foi abandonada.
Paciente com intoxicação grave por diltiazem mantém choque apesar de cálcio, atropina, volume e noradrenalina. Qual é a terapia de resgate com melhor respaldo?
A insulina em dose alta com glicose melhora o metabolismo energético do miocárdio intoxicado, que passa a depender mais de carboidratos, e aumenta o inotropismo com efeito hemodinâmico consistente nessa intoxicação, sendo hoje intervenção precoce e não apenas último recurso. É preciso monitorar glicemia e potássio de perto, pois hipoglicemia e hipocalemia são complicações esperadas. Diurético em paciente chocado agrava a hipovolemia relativa. Levotiroxina não tem papel, vasodilatador piora a hipotensão já causada pela vasoplegia, e corticoide isolado não corrige a depressão miocárdica.
Homem de 56 anos ingeriu comprimidos de verapamil de liberação prolongada há 8 horas e apresenta FC 40 bpm, PA 76x44 mmHg e bloqueio atrioventricular de segundo grau. Qual é a primeira medida farmacológica específica após atropina e volume?
O cálcio endovenoso é a terapia específica inicial nessa intoxicação, pois eleva o gradiente de cálcio e supera parcialmente o bloqueio dos canais, melhorando a contratilidade e a condução, ainda que a resposta seja frequentemente parcial e transitória, exigindo doses repetidas e as demais medidas de resgate. Bicarbonato serve ao bloqueio de canais de sódio, um mecanismo diferente, e é o distrator que troca a intoxicação. Adenosina e amiodarona agravam bradicardia e bloqueio. Naloxona é antídoto de opioides e nada faz aqui, e escolhê-la revela raciocínio por reflexo diante de paciente hipotenso e sonolento.
Homem de 52 anos com intoxicação colinérgica é intubado por insuficiência respiratória. Qual bloqueador neuromuscular deve ser evitado nesse paciente?
A succinilcolina é metabolizada pela colinesterase plasmática, justamente a enzima inibida pelo tóxico, o que prolonga o bloqueio de forma imprevisível, por vezes por horas. Rocurônio é a alternativa segura e habitualmente preferida nesse cenário. Cisatracúrio e atracúrio sofrem eliminação de Hofmann, independente de fígado, rim e colinesterase, e por isso são opções adequadas, o que desfaz as afirmações das demais opções. Vecurônio não promove liberação de acetilcolina, e nenhum dos bloqueadores adespolarizantes compartilha a via metabólica que torna a succinilcolina problemática aqui.
Homem de 32 anos chega agitado, com dor torácica opressiva há 40 minutos, sudorese, midríase e PA 210x120 mmHg, FC 130 bpm. Refere uso de cocaína inalada há 2 horas. O eletrocardiograma mostra supradesnível de ST em parede anterior. Qual droga deve ser evitada?
Na intoxicação por cocaína, o bloqueio beta isolado deixa a estimulação alfa sem oposição, o que pode agravar a vasoconstrição coronariana e a hipertensão, motivo pelo qual essa classe é classicamente evitada na fase aguda. O tratamento se apoia em benzodiazepínico, que reduz o tônus simpático central e trata agitação, dor e hipertensão simultaneamente, somado a nitrato, antiagregante e, se necessário, alfabloqueador como fentolamina. Escolher nitroglicerina ou antiagregante como algo a evitar inverte a conduta correta, já que ambos fazem parte do tratamento do infarto associado ao uso de cocaína.
Paciente usuário de cocaína apresenta hipertermia de 40,5 graus, agitação intensa, rigidez muscular e creatinofosfoquinase de 42.000 U/L. Qual é a prioridade terapêutica?
A hipertermia por simpaticomimético é emergência: o tripé é sedação com benzodiazepínico, resfriamento externo ativo e hidratação vigorosa para prevenir lesão renal pela rabdomiólise, sem esperar exames. Antitérmico não age em hipertermia de origem não pirogênica. Antipsicóticos elevam o risco de arritmia, reduzem o limiar convulsivo e prejudicam a termorregulação, sendo escolha inferior ao benzodiazepínico. A contenção mecânica isolada aumenta a atividade muscular isométrica e piora a hipertermia e a rabdomiólise. O dantroleno pertence à hipertermia maligna por anestésicos.
Qual é o mecanismo pelo qual a cocaína provoca isquemia miocárdica em usuários jovens sem doença coronariana obstrutiva?
A cocaína bloqueia a recaptação de catecolaminas e produz vasoconstrição coronariana, taquicardia e hipertensão, aumentando o consumo de oxigênio ao mesmo tempo em que reduz a oferta, além de favorecer agregação plaquetária e trombose, e a longo prazo acelera a aterosclerose. A depressão da contratilidade ocorre por bloqueio de canais de sódio em doses altas, mas não explica a isquemia aguda típica. Bradicardia não é o padrão dessa intoxicação, não há hemólise característica, e o bloqueio de canais de cálcio produziria vasodilatação, exatamente o oposto do observado.
Qual é a diferença clínica esperada entre a intoxicação aguda e a crônica por lítio?
Na ingestão aguda o lítio ainda não se distribuiu para o compartimento intracelular e o quadro é dominado por náuseas, vômitos e diarreia, com neurotoxicidade proporcionalmente menor; já na intoxicação crônica o íon está acumulado no sistema nervoso central e o paciente adoece com litemias bem menores. Julgar a gravidade apenas pelo número da litemia é o erro mais comum e leva a subestimar a intoxicação crônica. A crônica é justamente a que mais frequentemente exige diálise, e a insuficiência renal costuma acompanhar quadros crônicos por depleção e nefropatia associada.
Qual achado de imagem é característico da intoxicação grave por metanol?
A lesão bilateral e simétrica do putame, por vezes hemorrágica, é o achado neurorradiológico característico da intoxicação grave por metanol e se associa a sequelas motoras e parkinsonismo. Os demais achados listados pertencem a outros diagnósticos e não têm relação com essa intoxicação. É importante lembrar que a imagem confirma o dano já estabelecido e não deve ser esperada para iniciar o tratamento, cuja janela de maior eficácia é anterior ao surgimento das lesões, quando o paciente ainda apresenta apenas hiato osmolar elevado.
Paciente com suspeita de intoxicação por metanol chega 3 horas após a ingestão, ainda sem acidose, com hiato osmolar de 28 mOsm/kg. Qual é a interpretação?
No início predomina o álcool intacto, que eleva o hiato osmolar sem ainda gerar ácidos, e é exatamente essa a janela em que o bloqueio da álcool desidrogenase evita toda a toxicidade, motivo para iniciar o antídoto sem hesitar. Esperar a acidose aparecer é o erro que troca uma intervenção preventiva por um resgate tardio, quando a lesão óptica pode já estar instalada. Desidratação não produz hiato osmolar dessa magnitude. A presença de etanol também eleva o hiato, mas deve ser considerada no cálculo e não afasta a coingestão de metanol.
Qual é o conjunto terapêutico indicado na intoxicação por metanol com acidose grave e alteração visual?
O tratamento reúne bloqueio da álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, correção da acidemia com bicarbonato, que reduz a fração não ionizada do ácido fórmico e sua penetração tecidual, ácido folínico para acelerar a degradação do formato, e hemodiálise para remover o álcool e o metabólito nos casos graves. Tratar só a acidose ignora a produção contínua do metabólito. Acetilcisteína pertence ao paracetamol, azul de metileno à metemoglobinemia, oxigênio hiperbárico ao monóxido de carbono, e antagonistas de opioide e benzodiazepínico não têm papel algum aqui.
Mulher de 34 anos chega ao pronto-socorro 4 horas após ingerir 30 comprimidos de anlodipino. Está lúcida, com PA 68x40 mmHg, FC 96 bpm, extremidades quentes e bem perfundidas, glicemia de 268 mg/dL. Qual é o achado que mais orienta o diagnóstico dessa intoxicação específica?
Os bloqueadores dos canais de cálcio reduzem a secreção de insulina pelas células beta pancreáticas e induzem resistência periférica à insulina, o que produz hiperglicemia, achado que os separa dos betabloqueadores, nos quais predomina hipoglicemia. As diidropiridinas, como o anlodipino, causam vasodilatação intensa com taquicardia reflexa e consciência preservada, enquanto verapamil e diltiazem provocam mais bradicardia e depressão da contratilidade. Miose com bradipneia aponta opioides, midríase com delirium sugere anticolinérgicos, e hipertermia com rigidez remete a síndromes serotoninérgica ou neuroléptica maligna.
Paciente com intoxicação colinérgica recebe altas doses de atropina e evolui com agitação, delirium, midríase, pele seca e hipertermia, com ausculta pulmonar limpa. Qual é a interpretação?
Pele seca, midríase, hipertermia, delirium e pulmões limpos após doses altas de atropina indicam efeito anticolinérgico excessivo, momento de reduzir ou suspender a infusão e reavaliar, já que a ausculta limpa mostra que o alvo terapêutico foi atingido. Aumentar a dose diante de agitação é o erro mais comum e transforma uma síndrome tóxica na outra. A síndrome intermediária é fraqueza de musculatura proximal e respiratória que aparece dias depois, sem esses sinais anticolinérgicos. Não há aqui indício de infecção nem de reação alérgica.
Paciente com intoxicação por etilenoglicol apresenta tetania, parestesias e prolongamento do intervalo QT. Qual é a causa?
O ácido oxálico formado no metabolismo do etilenoglicol se liga ao cálcio e precipita como oxalato de cálcio nos tecidos e nos túbulos renais, causando hipocalcemia com tetania, parestesias e prolongamento do intervalo QT, além de contribuir para a lesão renal. Pensar em hipercalcemia inverte o mecanismo e leva à conduta oposta. A reposição de cálcio deve ser feita quando há sintomas, mas com cautela, pois pode aumentar a precipitação. As demais alterações eletrolíticas não são características dessa intoxicação nem explicam a tetania com QT prolongado.
Qual é o antídoto de escolha na intoxicação por etilenoglicol e seu mecanismo?
A toxicidade decorre dos metabólitos, e não do álcool original, de modo que bloquear a álcool desidrogenase com fomepizol, ou com etanol quando aquele não está disponível, impede a formação dos ácidos responsáveis pela acidose e pela lesão renal. Acetilcisteína trata paracetamol, embora tiamina e piridoxina sejam adjuvantes úteis aqui por desviarem o metabolismo para vias menos tóxicas. Naloxona, azul de metileno e deferoxamina pertencem a outras intoxicações e revelam associação memorizada sem raciocínio sobre o mecanismo bioquímico envolvido.
Paciente intoxicado por chumbinho apresenta convulsões tônico-clônicas repetidas. Além da atropina e do suporte, qual é a conduta específica para as crises?
As convulsões nas intoxicações por inibidores da colinesterase respondem bem ao benzodiazepínico, que é a droga de escolha e também reduz a mortalidade em quadros graves ao controlar a atividade convulsiva e a agitação. A fenitoína é o distrator de quem aplica o protocolo geral do estado de mal, mas mostra eficácia limitada em convulsões de origem tóxica, nas quais o benzodiazepínico tem papel central. Carbamazepina oral não controla crise aguda, o magnésio é o tratamento da eclâmpsia e das torsades, e o fenobarbital por via oral não tem início adequado para a emergência.
Qual é a principal diferença entre a intoxicação por carbamatos e a por organofosforados?
Os carbamatos ligam-se à enzima de forma espontaneamente reversível e não sofrem o fenômeno de envelhecimento, o que torna o quadro em geral mais curto, com recuperação em horas a poucos dias, e reduz a importância da pralidoxima. Supor que sejam sempre mais graves inverte a comparação e é o erro conceitual mais comum. Ambos produzem síndrome colinérgica completa e respondem à atropina, que é o pilar do tratamento nos dois casos. O mecanismo é a inibição enzimática com acúmulo de acetilcolina, e não bloqueio direto de receptores nicotínicos.
Paciente com intoxicação por carbamato apresenta broncorreia intensa, sibilos e SpO2 de 86%. Qual é a droga e o alvo terapêutico principal?
A atropina deve ser titulada em doses crescentes, frequentemente dobradas a cada poucos minutos, e o alvo é a secagem das secreções brônquicas com melhora da ventilação, não a frequência cardíaca nem o diâmetro pupilar, pois é a broncorreia que mata esses pacientes por afogamento em secreção. Usar dose única fixa e considerar o tratamento feito é o erro que mais custa vidas nessa intoxicação, porque as doses necessárias podem ser muito altas e repetidas por horas ou dias. Broncodilatador e corticoide não revertem o mecanismo colinérgico, e a adrenalina não é o agente indicado.
Paciente com intoxicação por etilenoglicol apresenta creatinina de 4,8 mg/dL, anúria, pH de 6,98 e alteração do nível de consciência. Qual é a conduta adicional indicada?
Acidose grave refratária, lesão renal, alteração do sensório e níveis séricos elevados são indicações de hemodiálise, que remove com eficiência tanto o etilenoglicol quanto seus metabólitos e corrige a acidemia, devendo o antídoto ser mantido e ter a dose ajustada durante o procedimento. A diálise peritoneal é lenta demais para essa finalidade. Diurese forçada não remove os metabólitos e agrava a instabilidade. A alcalinização auxilia como medida adjuvante, mas não substitui a remoção extracorpórea, e o carvão ativado adsorve mal os álcoois.
Após 48 horas de melhora aparente, paciente intoxicado por inibidor de colinesterase evolui com fraqueza de musculatura proximal, cervical e respiratória, sem sinais muscarínicos. Qual é a hipótese?
A síndrome intermediária surge entre um e quatro dias após a fase aguda, com fraqueza de músculos proximais, flexores do pescoço, pares cranianos e musculatura respiratória, sem sinais muscarínicos, e o tratamento é suporte ventilatório, pois não responde a atropina nem a oxima. Aumentar a atropina é o erro que decorre de confundir a fase da doença. A neuropatia tardia é distal, predominantemente motora, e aparece semanas depois, o que a torna incompatível com esse prazo. A polineuropatia do doente crítico exige tempo de internação e disfunção orgânica prolongados.
Em um surto de intoxicação por bebida adulterada, vários pacientes chegam ao pronto-socorro. Qual medida de saúde pública é obrigatória?
Intoxicações exógenas são de notificação compulsória, e um surto por bebida adulterada exige comunicação imediata à vigilância para retirada do produto de circulação e busca ativa de outros expostos, além de acionamento do centro de informação toxicológica, que orienta condutas e ajuda a mobilizar antídotos. Esperar óbito, confirmação laboratorial ou o fim do surto é justamente o que permite novos casos evitáveis. Tratar como evento individual ignora que a fonte segue disponível para outras pessoas na comunidade.
Que fenômeno neurológico pode persistir após intoxicação grave por lítio, mesmo com litemia normalizada?
A síndrome de neurotoxicidade irreversível induzida pelo lítio se manifesta principalmente por disfunção cerebelar persistente, com ataxia, disartria e nistagmo, podendo somar-se déficits cognitivos e sinais extrapiramidais, o que reforça a importância de diálise precoce nos quadros graves. A amaurose permanente é sequela típica da intoxicação por metanol, e escolhê-la revela troca de agente. Parkinsonismo com resposta plena à levodopa não é o padrão, a neuropatia periférica isolada não caracteriza a sequela, e a recuperação em horas contradiz o conceito de sequela.
Paciente intoxicado por betabloqueador com bradicardia sintomática recebe atropina sem resposta. Qual explicação é a mais correta?
A atropina antagoniza receptores muscarínicos e aumenta a frequência ao retirar o freio vagal, mas nada faz contra o bloqueio farmacológico dos receptores beta, o que explica a resposta pobre nessa intoxicação e reforça a necessidade de glucagon, cronotrópicos em infusão, insulina em dose alta e estimulação artificial. Supor erro diagnóstico diante da falta de resposta é o raciocínio que atrasa o antídoto correto. Não há efeito paradoxal por dose alta nesse contexto nem inativação plasmática, e a atropina tende a ser menos eficaz, e não mais, em bloqueios com QRS largo.
Paciente com intoxicação grave por salicilato apresenta nível sérico muito elevado, alteração do nível de consciência, edema pulmonar não cardiogênico e insuficiência renal. Qual é a conduta?
Alteração neurológica, edema pulmonar não cardiogênico, insuficiência renal, acidemia refratária e níveis séricos muito altos são indicações de hemodiálise, que remove eficientemente o salicilato por ser molécula pequena, com baixo volume de distribuição e ligação proteica saturável nas concentrações tóxicas, além de corrigir a acidose. Insistir apenas na alcalinização diante desses achados é o erro que atrasa a única medida capaz de reverter o quadro. Acetilcisteína, plasmaférese e flumazenil pertencem a outros contextos e não removem o agente.
Três semanas após intoxicação grave por monóxido de carbono com perda de consciência, paciente apresenta déficit cognitivo, apatia, parkinsonismo e incontinência. Qual é a hipótese?
A síndrome neurológica tardia aparece dias a semanas após aparente recuperação, com declínio cognitivo, alterações de personalidade, parkinsonismo, incontinência e lesões de substância branca e de globo pálido na imagem, sendo mais frequente após perda de consciência e em intoxicações graves. Atribuir o quadro apenas a depressão é o erro que retarda a avaliação neurológica e a reabilitação. Doença de Alzheimer não se instala em semanas, e a hidrocefalia de pressão normal, embora compartilhe a tríade clínica, é diagnóstico idiopático que não explica o antecedente recente.
Ao atender paciente com intoxicação exógena por tentativa de suicídio, além do tratamento clínico, qual conduta é obrigatória?
Toda tentativa de suicídio exige avaliação estruturada de risco e plano de cuidado em saúde mental antes da alta, com seguimento garantido, além da notificação como agravo de notificação compulsória, já que a tentativa prévia é o principal fator de risco para nova tentativa e para o suicídio consumado. Dar alta apenas com base na estabilidade clínica é a falha mais frequente e mais grave. Internação compulsória universal não é indicada nem legalmente adequada, e excluir o paciente das decisões fere sua autonomia e o vínculo terapêutico.
Qual é a evolução clínica típica da intoxicação grave por paraquat?
O paraquat causa primeiro lesão cáustica em boca, faringe e esôfago, com dor e disfagia, seguida de necrose tubular renal e lesão hepática nos primeiros dias, e finalmente proliferação fibroblástica alveolar que leva à fibrose pulmonar e à morte por insuficiência respiratória, mesmo em pacientes que aparentavam estabilização. É justamente essa aparente melhora intermediária que engana a equipe e a família. As demais opções descrevem padrões que não correspondem ao curso reconhecido dessa intoxicação, de mortalidade muito elevada.
Paciente com intoxicação por paraquat e prognóstico reservado apresenta dor intensa por lesão de mucosa oral e esofágica e dispneia progressiva. Qual é a abordagem mais adequada?
Diante de intoxicação com mortalidade muito elevada e sofrimento importante, é dever clínico associar às medidas disponíveis um plano de conforto, com analgesia adequada, controle da dispneia com opioides quando indicado e comunicação honesta sobre prognóstico. Recusar analgesia por medo de depressão respiratória é subtratamento injustificável em paciente com dor por lesão cáustica extensa. Transplante pulmonar não é conduta padrão, sobretudo enquanto houver agente circulante, e oxigênio em alto fluxo agrava a lesão oxidativa característica.
Vítima resgatada de incêndio em ambiente fechado apresenta rebaixamento do sensório, acidose láctica intensa, hipotensão e fuligem em orofaringe, sem melhora com oxigênio. Qual coingestão deve ser suspeitada e tratada?
A combustão de materiais sintéticos libera cianeto, que inibe a citocromo oxidase e produz acidose láctica profunda com hipotensão e rebaixamento desproporcionais, frequentemente associada ao monóxido de carbono nas vítimas de incêndio em ambiente fechado. A hidroxicobalamina é o antídoto preferido por não induzir metemoglobinemia, o que é vantagem decisiva em quem já tem hemoglobina comprometida pelo monóxido. Os demais antídotos pertencem a intoxicações sem relação com o cenário de incêndio, e a fuligem em orofaringe reforça a inalação de fumaça.
Qual medida é a mais eficaz para prevenir intoxicação por monóxido de carbono em ambientes domésticos?
A prevenção é ambiental: manutenção de aparelhos de combustão, exaustão e ventilação adequadas, proibição de uso de geradores e churrasqueiras em ambientes fechados e instalação de detectores, que alertam antes de os sintomas aparecerem, uma vez que o gás é inodoro e incolor. Manter janelas fechadas concentra o gás e é justamente o comportamento associado aos casos graves em dias frios. Máscara cirúrgica não filtra o monóxido, e rastreamento laboratorial anual não substitui a eliminação da fonte de exposição.
Família de quatro pessoas é resgatada de casa com aquecedor a gás sem exaustão adequada. Uma delas, mulher de 40 anos, apresenta cefaleia intensa, náuseas, tontura e confusão. SpO2 pelo oxímetro de pulso é 99% em ar ambiente. Qual é a explicação para a saturação normal?
A carboxi-hemoglobina tem espectro de absorção semelhante ao da oxi-hemoglobina nos comprimentos de onda usados pelo oxímetro convencional, o que produz saturação aparentemente normal em paciente gravemente intoxicado. Confiar nesse número é a armadilha central da intoxicação por monóxido de carbono e já custou diagnósticos. O diagnóstico exige dosagem de carboxi-hemoglobina por cooximetria em sangue arterial ou venoso. A anemia e a hipotermia interferem na oximetria por outros mecanismos, mas não explicam a discrepância característica desse quadro.
Qual é o tratamento inicial da intoxicação por monóxido de carbono?
A meia-vida da carboxi-hemoglobina cai de cerca de cinco horas em ar ambiente para aproximadamente uma hora com oxigênio a 100 por cento, e para cerca de vinte minutos em câmara hiperbárica, de modo que a oferta máxima de oxigênio deve começar imediatamente, antes mesmo da confirmação laboratorial. Oxigênio em baixo fluxo é subtratamento e desperdiça a única terapia disponível na maioria dos serviços. Azul de metileno trata metemoglobinemia, a hidroxicobalamina é antídoto do cianeto, frequentemente coingerido em incêndios, e transfusão não corrige o bloqueio da hemoglobina existente.
Qual achado ajuda a distinguir a intoxicação por organofosforado da intoxicação por carbamato quanto ao curso clínico?
A ligação do organofosforado à enzima pode se tornar irreversível pelo envelhecimento, e muitos agentes são lipossolúveis com liberação prolongada a partir do tecido adiposo, o que resulta em quadro mais duradouro, com necessidade de atropina por dias e maior risco de síndrome intermediária e de neuropatia tardia. Miose, broncorreia, bradicardia e resposta à atropina são comuns aos dois grupos, e afirmar exclusividade de qualquer um desses sinais revela desconhecimento de que ambos compartilham exatamente o mesmo mecanismo final de acúmulo de acetilcolina.
Qual é a apresentação clínica típica da fase inicial, nas primeiras 24 horas, da intoxicação por paracetamol?
Nas primeiras horas o paciente costuma estar assintomático ou apresentar apenas náuseas, vômitos e mal-estar, o que dá falsa sensação de segurança; a dor em hipocôndrio direito com elevação de transaminases surge após 24 a 72 horas, e a icterícia com coagulopatia e encefalopatia caracteriza a terceira fase, entre o terceiro e o quarto dia. Esperar sinais de hepatite para agir é justamente o erro que a estrutura em fases procura evitar. Convulsões e coma precoces sugerem outras intoxicações ou coingestão, devendo levantar hipótese diagnóstica distinta.
Qual é o mecanismo da hepatotoxicidade do paracetamol e a ação da N-acetilcisteína?
Em doses terapêuticas, pequena fração do paracetamol gera um metabólito altamente reativo que é conjugado pela glutationa; na superdosagem essa reserva se esgota e o metabólito liga-se a proteínas do hepatócito, causando necrose centrolobular. A acetilcisteína repõe precursores de glutationa e atua também por vias antioxidantes e de melhora da perfusão hepática. Considerar a lesão como reação de hipersensibilidade é o distrator que levaria a corticoide, tratamento inútil aqui, e a lesão é hepatocelular e não colestática.
Qual medida de saúde pública tem maior impacto na redução da mortalidade por paraquat?
Não existe antídoto específico e o tratamento é essencialmente de suporte com letalidade alta, de modo que a intervenção mais eficaz é reduzir o acesso ao agente, estratégia que em vários países se traduziu em queda expressiva das mortes por intoxicação e por suicídio. Investir apenas em estrutura hospitalar não altera de forma significativa um desfecho determinado pela toxicidade intrínseca. Treinamento para um antídoto inexistente não faz sentido, e distribuição domiciliar de adsorventes não substitui a retirada do produto do mercado.
Paciente que ingeriu pequena quantidade de paraquat evolui, na primeira semana, com creatinina em ascensão e oligúria. Qual é a implicação prognóstica?
O paraquat é eliminado predominantemente por via renal, e a necrose tubular que ele mesmo provoca reduz sua depuração, aumentando a exposição pulmonar e piorando o prognóstico, o que torna a monitorização da função renal um marcador precoce de gravidade. Imaginar efeito protetor da retenção inverte a fisiopatologia. A alteração não é simples desidratação, a lesão renal não protege contra a fibrose pulmonar, e a diálise, embora de eficácia limitada para remover o agente, tem indicação para suporte da insuficiência renal.
Homem de 27 anos ingeriu herbicida à base de paraquat há 4 horas. Apresenta lesões ulceradas em orofaringe, dor retroesternal, náuseas e vômitos, com SpO2 de 97% em ar ambiente. Qual é a conduta em relação à oxigenoterapia?
O paraquat gera radicais livres em ciclos de oxirredução que dependem de oxigênio, de modo que a suplementação amplifica a lesão alveolar e acelera a fibrose pulmonar, contrariando o reflexo habitual de ofertar oxigênio a todo paciente grave. A recomendação é manter a menor fração inspirada possível, reservando o oxigênio para hipoxemia grave, quando o benefício imediato supera o dano. Oxigênio hiperbárico é ainda mais deletério nesse contexto, e a intubação com fração inspirada alta aumenta o estresse oxidativo pulmonar.
Qual exame simples auxilia na triagem qualitativa da exposição ao paraquat?
O teste do ditionito em urina fornece resultado qualitativo rápido, com mudança de coloração proporcional à concentração do agente, sendo útil para confirmar exposição e estimar gravidade em serviços sem dosagem quantitativa. A colinesterase plasmática se aplica aos inibidores da acetilcolinesterase, e escolhê-la revela troca de agrotóxico, um erro comum quando se agrupa todo praguicida na mesma categoria. Cristais de oxalato apontam etilenoglicol, enquanto amilase e reticulócitos não têm papel diagnóstico específico nessa intoxicação.
Por que a intubação e a ventilação mecânica exigem cuidado especial no paciente com intoxicação grave por salicilato?
Esses pacientes sustentam o pH com hiperventilação intensa, e qualquer interrupção, seja pela apneia da indução, seja por parâmetros ventilatórios que não reproduzam a ventilação-minuto prévia, provoca queda abrupta do pH, aumentando a fração não ionizada que atravessa a barreira hematoencefálica, com deterioração neurológica e óbito descritos. Por isso se recomenda evitar a intubação quando possível e, se necessária, manter ventilação-minuto alta e bicarbonato disponível. Não há contraindicação formal, mas sim exigência de técnica cuidadosa.
Qual complicação pulmonar pode ocorrer na intoxicação grave por salicilato e indica gravidade?
O aumento da permeabilidade capilar pulmonar induzido pelo salicilato provoca edema não cardiogênico com pressões de enchimento normais, achado que caracteriza intoxicação grave e integra as indicações de hemodiálise, exigindo cautela com a sobrecarga de volume durante a alcalinização. Confundir esse edema com origem cardiogênica leva ao uso indevido de diurético em paciente frequentemente hipovolêmico. As demais complicações listadas não são características dessa intoxicação, e a fibrose pulmonar progressiva pertence ao quadro da intoxicação por paraquat.
Paciente com intoxicação por salicilato apresenta hipoglicemia do sistema nervoso central, com glicemia sérica normal e alteração do sensório. Qual é a conduta?
O salicilato aumenta o consumo cerebral de glicose e pode produzir concentração liquórica baixa apesar de glicemia sérica normal, de modo que a oferta de glicose é recomendada em pacientes com alteração do sensório, medida simples, segura e potencialmente decisiva. Esperar a glicemia periférica cair é o erro que ignora esse desacoplamento entre compartimentos. Insulina não tem qualquer indicação nesse contexto, e a tiamina, embora recomendada em desnutridos e etilistas, não substitui a glicose para a disfunção neurológica descrita.
Durante a alcalinização com bicarbonato em paciente intoxicado por salicilato, a urina permanece ácida apesar da infusão adequada. Qual é a causa mais provável?
Na hipocalemia, o túbulo distal reabsorve potássio às custas da secreção de hidrogênio, resultando em urina ácida mesmo com alcalose sistêmica, fenômeno conhecido como aciduria paradoxal, o que impede o aprisionamento iônico do salicilato e frustra a alcalinização. Corrigir o potássio é, portanto, condição para o tratamento funcionar. Acetazolamida realmente alcaliniza a urina, mas agrava a acidose metabólica sistêmica e é contraindicada aqui, e as demais alterações listadas não explicam a persistência da urina ácida.
Qual é indicação classicamente aceita para oxigenoterapia hiperbárica na intoxicação por monóxido de carbono?
As indicações mais aceitas incluem perda de consciência, déficit neurológico ou alteração do sensório persistente, evidência de isquemia miocárdica, acidose metabólica significativa, gestação com nível elevado pelo risco fetal e níveis muito altos de carboxi-hemoglobina, com o objetivo de reduzir sequelas neurológicas tardias. Indicar para sintomas leves isolados extrapola a evidência e a disponibilidade. A oximetria de pulso não serve para triagem nesse quadro, e esperar 24 horas anula o benefício, que depende de tratamento precoce.
Qual é o mecanismo de toxicidade do monóxido de carbono?
O monóxido de carbono tem afinidade pela hemoglobina cerca de duzentas a trezentas vezes maior que a do oxigênio, reduz a capacidade de transporte e desvia a curva de dissociação para a esquerda, dificultando a liberação do oxigênio remanescente aos tecidos, e ainda inibe a citocromo oxidase, comprometendo a respiração celular. A oxidação do ferro para o estado férrico descreve a metemoglobinemia, que é o distrator mais próximo e tem antídoto e apresentação diferentes, com cianose que não melhora com oxigênio e sangue de cor achocolatada.
Qual é o fundamento para administrar pralidoxima precocemente na intoxicação por organofosforados?
O complexo entre o organofosforado e a acetilcolinesterase sofre um processo chamado envelhecimento, tornando-se irreversível após um intervalo que varia com o agente, e a oxima só é capaz de reativar a enzima antes que isso ocorra, o que explica a ênfase na administração precoce. Confundi-la com antagonista de receptor é o erro que leva a suprimir a atropina, sendo os mecanismos complementares e não intercambiáveis: a oxima atua na enzima, sobretudo sobre os efeitos nicotínicos, e a atropina, no receptor muscarínico. Ela não altera excreção, metabolismo nem neutraliza o agente no trato digestivo.
Paciente intoxicado por organofosforado apresenta fraqueza respiratória progressiva com necessidade de intubação. Qual é o cuidado adicional na condução do caso?
A atropina permanece necessária mesmo em paciente intubado, para controlar as secreções brônquicas, e a succinilcolina deve ser evitada porque depende da colinesterase plasmática inibida pelo tóxico, com bloqueio muito prolongado. Durante o desmame é preciso vigiar a síndrome intermediária, que pode surgir dias depois e causar falência ventilatória em paciente aparentemente recuperado. Suspender a atropina após a intubação ignora que a broncorreia continua. A miose não é critério para extubação, e antibiótico profilático universal não está indicado.
Mulher de 22 anos ingeriu 25 comprimidos de paracetamol de 750 mg há 6 horas em tentativa de suicídio. Está assintomática, com exames iniciais normais. Qual é a conduta?
A intoxicação por paracetamol é silenciosa nas primeiras horas, e a decisão terapêutica se baseia na dose ingerida e no nível sérico plotado no nomograma a partir de quatro horas, com antídoto iniciado empiricamente quando a dosagem não estiver disponível em tempo hábil. Esperar icterícia é o erro que só permite tratar quando a necrose hepática já está estabelecida e a eficácia do antídoto despenca. A ausência de sintomas é característica da fase inicial e não autoriza alta, e o corticoide não tem qualquer papel nessa hepatotoxicidade.
Paciente intoxicado por organofosforado recebe atropina em bolus repetidos. Qual parâmetro melhor indica atropinização adequada?
O alvo da atropinização é respiratório: secreções brônquicas secas, ausculta limpa e ventilação adequada, com frequência cardíaca e pressão aceitáveis. Usar a midríase como alvo é o erro mais comum e leva a doses excessivas, com delirium, hipertermia e retenção urinária, além de que a pupila pode permanecer miótica por absorção ocular direta do agente. Taquicardia extrema, rubor e hipertermia são sinais de excesso de atropina, e não metas terapêuticas, e devem levar à redução da dose e à reavaliação do paciente.
Sobre terapias imunossupressoras na intoxicação por paraquat, qual afirmativa é a mais adequada?
A tentativa de bloquear a resposta inflamatória e proliferativa com pulsos de corticoide e ciclofosfamida foi estudada em séries e ensaios pequenos, com resultados conflitantes e sem demonstração consistente de benefício, permanecendo terapia de exceção em centros com experiência. Apresentá-la como padrão comprovado é excesso, e afirmar contraindicação formal é o extremo oposto. Nenhuma dessas medidas substitui descontaminação precoce e suporte, e iniciar tratamento apenas quando a fibrose já se instalou contraria a lógica de intervir antes do dano consolidado.
Duas a três semanas após intoxicação por certos organofosforados, paciente evolui com fraqueza distal, parestesias em membros inferiores e marcha escarvante. Qual é o diagnóstico?
A neuropatia tardia decorre da inibição da esterase-alvo de neuropatia e se manifesta duas a três semanas após a exposição, com comprometimento predominantemente motor e distal em membros inferiores, marcha escarvante e recuperação lenta e por vezes incompleta, sem resposta a atropina ou oxima. A síndrome intermediária é o distrator temporal e ocorre entre um e quatro dias, com fraqueza proximal, cervical e respiratória. A crise colinérgica traria sinais muscarínicos, e corticoide não faz parte do tratamento dessa intoxicação.
Gestante de 24 semanas é exposta a monóxido de carbono e apresenta carboxi-hemoglobina de 18%, com sintomas leves. Qual é a conduta?
A hemoglobina fetal liga-se ao monóxido com afinidade ainda maior que a materna, e o feto elimina o gás mais lentamente, de modo que o tratamento deve ser mais prolongado do que sugeriria o quadro materno, com indicação ampliada de câmara hiperbárica. Basear a conduta na melhora dos sintomas da gestante é o erro que ignora a exposição fetal persistente. Não existe limiar de segurança que dispense tratamento na gestação, e a interrupção da gravidez não é conduta indicada, embora a monitorização fetal deva acompanhar a oxigenoterapia.
Qual é o tratamento que aumenta a eliminação do salicilato e reduz sua entrada no sistema nervoso central?
A alcalinização mantém o salicilato na forma ionizada, o que reduz sua difusão para o tecido cerebral e aumenta a excreção renal por aprisionamento iônico, sendo medida central do tratamento, e depende de reposição adequada de potássio, pois a hipocalemia impede a urina de alcalinizar. Acidificar a urina faz exatamente o oposto e aumenta a toxicidade. A furosemida isolada não promove aprisionamento iônico e agrava a depleção de volume. O carvão ativado é útil, inclusive em doses repetidas em ingestões grandes, mas não substitui a alcalinização.
Paciente idoso em uso crônico de ácido acetilsalicílico em dose analgésica apresenta confusão, taquipneia, desidratação e alcalose respiratória com acidose metabólica. Nível sérico de salicilato apenas discretamente elevado. Qual é a interpretação?
Na intoxicação crônica o salicilato se distribui aos tecidos, incluindo o sistema nervoso central, de modo que a gravidade clínica não acompanha o nível sérico, e idosos com confusão e distúrbio ácido-base misto frequentemente têm o diagnóstico retardado por semanas, com mortalidade elevada. Descartar a hipótese por causa de um nível apenas discretamente elevado é exatamente o erro que perpetua esse atraso. A infecção deve ser considerada, mas não explica o padrão ácido-base característico, e o achado laboratorial é coerente com a forma crônica.
Qual medida de descontaminação é indicada precocemente na ingestão de paraquat?
A absorção do paraquat é rápida, e a administração precoce de adsorventes como terra de Fuller, bentonita ou carvão ativado é uma das poucas medidas com potencial de reduzir a carga absorvida, ainda que o prognóstico permaneça sombrio. A lavagem gástrica tem papel muito limitado e risco elevado, sobretudo diante da lesão cáustica de mucosa já instalada, o mesmo valendo para a indução de vômito, que expõe novamente o esôfago ao agente. Diluição com leite não impede a absorção e pode atrasar medidas eficazes.
Homem de 45 anos, etilista crônico e desnutrido, usa paracetamol em doses terapêuticas altas por dor dentária durante uma semana. Qual é o risco?
O consumo crônico de álcool induz a via enzimática que produz o metabólito reativo, e a desnutrição reduz a reserva de glutationa, de modo que a hepatotoxicidade pode ocorrer com doses terapêuticas altas ou levemente supraterapêuticas, um cenário chamado de intoxicação terapêutica que costuma ser diagnosticado tarde. Supor proteção pelo álcool é a inversão exata do mecanismo. A lesão renal pode ocorrer, mas não isoladamente, e exigir doses maciças para considerar o risco é justamente o raciocínio que deixa passar esses casos.
Paciente chega 40 horas após ingestão de dose tóxica de paracetamol, com transaminases acima de 6.000 U/L, INR de 3,2 e encefalopatia. Qual é a conduta?
A acetilcisteína mantém benefício mesmo em apresentação tardia e com insuficiência hepática instalada, reduzindo mortalidade por mecanismos que vão além da reposição de glutationa, e deve ser iniciada sem hesitação. Simultaneamente, encefalopatia com coagulopatia grave configura falência hepática aguda e obriga o contato precoce com centro transplantador, pois a janela para o transplante é estreita. Considerar o antídoto inútil após 24 horas é o erro que retira do paciente uma terapia comprovadamente benéfica, e a vitamina K não corrige a coagulopatia da falência hepática.
Sobre a duração do tratamento com N-acetilcisteína na intoxicação por paracetamol, qual conduta é a mais adequada?
O esquema padrão define a duração mínima, mas em pacientes com lesão hepática estabelecida o antídoto deve ser mantido até que transaminases e coagulação mostrem melhora consistente e a encefalopatia se resolva. Interromper com exames em piora apenas porque o protocolo terminou é o erro de seguir o cronograma em vez do paciente. Usar o nível sérico como único critério ignora que a lesão já iniciada evolui mesmo sem droga circulante. Dose única é insuficiente, e tratamento por trinta dias em todos os casos não tem qualquer respaldo.
Quais critérios são classicamente usados para indicar transplante hepático na falência hepática aguda por paracetamol?
Os critérios do King's College para intoxicação por paracetamol consideram acidemia com pH abaixo de 7,3 após ressuscitação adequada, ou a combinação de coagulopatia grave, insuficiência renal e encefalopatia avançada, marcando prognóstico ruim sem transplante. O escore de Child-Pugh avalia hepatopatia crônica e não se aplica à falência aguda, sendo o distrator mais escolhido. Transaminases muito elevadas indicam necrose extensa, mas não predizem desfecho isoladamente e podem até cair na fase final por exaustão hepatocelular. O escore de Ranson pertence à pancreatite aguda.
Qual achado clínico precoce é característico da intoxicação por salicilato e frequentemente relatado pelo paciente?
Zumbido e hipoacusia são manifestações precoces e características da toxicidade por salicilato, geralmente reversíveis com a redução dos níveis séricos, e servem como pista clínica valiosa quando a história é incompleta. Visão em campo nevado aponta metanol, miose com broncorreia indica síndrome colinérgica, e cianose refratária ao oxigênio sugere metemoglobinemia: cada um desses achados é a assinatura de outra intoxicação, e reconhecê-los como síndromes distintas é o que permite direcionar tratamento específico em paciente que chega sem informação confiável.
Sobre a proteção da equipe durante o atendimento a paciente contaminado por organofosforado, qual conduta é correta?
A contaminação secundária de profissionais é real e já foi documentada, sobretudo com agentes lipossolúveis e em ambientes mal ventilados, o que torna obrigatórios equipamento de proteção adequado, retirada precoce das roupas e lavagem da pele com água e sabão. Subestimar esse risco é o erro que transforma um caso em vários. Adiar a descontaminação prolonga a absorção do paciente e contamina o ambiente da sala. O álcool aumenta a absorção de substâncias lipossolúveis, e manter as roupas mantém a fonte em contato com a pele.
Trabalhador rural de 36 anos aplicou inseticida organofosforado sem equipamento de proteção e chega ao pronto-socorro com miose, sialorreia, broncorreia, fasciculações, vômitos e FC 44 bpm. Qual é o tratamento inicial fundamental?
A atropina antagoniza os efeitos muscarínicos e é a base do tratamento, titulada até que as secreções brônquicas sequem e a ventilação melhore, o que pode exigir doses muito altas mantidas por horas ou dias, junto com suporte ventilatório e descontaminação. A pralidoxima é adjuvante que reativa a enzima, mas não substitui a atropina, e usá-la isoladamente deixa o paciente morrer afogado nas próprias secreções. Broncodilatador não reverte a broncorreia colinérgica, e adrenalina e naloxona pertencem a outros contextos clínicos.
Paciente em atendimento no pronto-socorro apos ingestao alcoolica apresenta rebaixamento de consciencia desproporcional ao esperado, com pupilas mioticas e depressao respiratoria. A conduta correta e:
Atribuir rebaixamento de consciencia 'ao alcool' e uma das armadilhas mais perigosas do pronto-socorro: traumatismo cranioencefalico, hipoglicemia, intoxicacao mista por opioides ou benzodiazepinicos e infeccao podem coexistir e ser fatais. Miose com depressao respiratoria sugere justamente componente opioide. Aguardar a metabolizacao engana porque parece conduta conservadora, mas retarda o diagnostico de condicoes tempo-dependentes.
Paciente comatoso apresenta miose puntiforme, bradipneia e marcas de punção venosa nos antebraços. Qual é a conduta?
A tríade de rebaixamento de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória caracteriza a síndrome opioide, e a naloxona titulada reverte a depressão respiratória, devendo ser administrada em doses que restaurem a ventilação sem precipitar abstinência abrupta, com atenção à possibilidade de nova depressão quando o opioide tem meia-vida maior que a do antagonista. Flumazenil pertence aos benzodiazepínicos e é perigoso empiricamente. Fisostigmina trata a síndrome anticolinérgica, e atropina agravaria um quadro que não é colinérgico.
Vítima de incêndio em ambiente fechado apresenta cefaleia, confusão mental e saturação de oxigênio de 99% no oxímetro de pulso, sem dispneia importante. Qual a hipótese e a conduta?
A carboxi-hemoglobina é lida pelo oxímetro de pulso convencional como se fosse oxi-hemoglobina, produzindo saturação falsamente normal em paciente gravemente intoxicado — a conduta é oxigênio a 100% em alto fluxo, que acelera a eliminação do monóxido, com dosagem específica e consideração de câmara hiperbárica em casos selecionados. Confiar na saturação exibida é o erro que dá alta a um paciente em risco de morte.
Paciente com dermatite herpetiforme em uso de dapsona apresenta cianose de lábios e leitos ungueais, saturação de 85% por oximetria de pulso que não melhora com oxigênio suplementar, e gasometria arterial com pressão parcial de oxigênio normal. Qual o diagnóstico?
A discordância entre uma saturação baixa refratária ao oxigênio e uma pressão parcial de oxigênio normal na gasometria é a assinatura da metemoglobinemia, efeito adverso conhecido da dapsona: a hemoglobina oxidada não transporta oxigênio, mas a fração dissolvida no plasma, medida pela gasometria, permanece normal. O tratamento é suspender a droga e, nos casos graves, administrar azul de metileno, com a ressalva de evitá-lo em deficientes de glicose-6-fosfato desidrogenase. A embolia pulmonar cursaria com hipoxemia verdadeira na gasometria.
Paciente em coma sem causa definida apresenta pupilas puntiformes e depressão respiratória. Qual a conduta diagnóstica e terapêutica?
Miose puntiforme com depressão respiratória e rebaixamento compõem a tríade opioide, e a naloxona é diagnóstica e terapêutica, sempre com suporte ventilatório adequado. Hemorragia pontina produz pupilas puntiformes e deve permanecer no diferencial, o que reforça a necessidade de imagem quando não há resposta à naloxona. Flumazenil empírico é arriscado por precipitar crises, e lavagem gástrica de rotina não é recomendada.
Menina de 4 anos ingeriu comprimidos do avô encontrados na sala. Chega sonolenta, com bradicardia de 48 bpm, PA 70/40 mmHg e glicemia capilar de 42 mg/dL. Não há midríase. A classe medicamentosa mais provável e o antídoto são:
A tríade bradicardia, hipotensão e HIPOGLICEMIA em criança aponta betabloqueador: o bloqueio beta-2 hepático inibe glicogenólise e gliconeogênese. O glucagon age por receptor próprio acoplado à adenilato-ciclase, contornando o receptor bloqueado. Bloqueador de canal de cálcio engana porque também dá bradicardia e hipotensão, mas cursa classicamente com HIPERglicemia, já que o cálcio é necessário para a secreção de insulina. Tricíclico daria alargamento de QRS com anticolinérgicos, e opioide daria miose com depressão respiratória, não hipoglicemia.
Criança de 3 anos foi encontrada com frasco aberto de removedor contendo metanol. Após 12 horas apresenta cefaleia, taquipneia, visão turva e acidose metabólica grave com ânion gap elevado. Além de suporte e hemodiálise, o tratamento específico é:
O metanol em si é pouco tóxico; o dano vem do ácido fórmico gerado pela álcool-desidrogenase, que causa a acidose e a neurite óptica com visão turva. Bloquear a enzima com fomepizol (ou etanol, que compete pelo mesmo sítio) interrompe a produção do metabólito. Bicarbonato corrige o pH e reduz a fração não ionizada, mas é adjuvante — usá-lo isoladamente engana porque melhora o número do gasômetro enquanto o formato continua sendo produzido. Piridoxina e atropina pertencem a outros quadros toxicológicos.
Sobre a descontaminação gastrointestinal em intoxicações agudas na criança, é correto afirmar que:
O carvão ativado é a única descontaminação com uso corrente, e sua eficácia cai rapidamente após 60 minutos; com consciência rebaixada e via aérea desprotegida, o risco de aspiração supera o benefício. Lítio, ferro, álcoois, cáusticos e hidrocarbonetos não são adsorvidos — regra mnemônica clássica de banca. A ipeca foi abandonada por não melhorar desfecho e atrasar o carvão. A irrigação intestinal total é reservada a situações específicas (liberação prolongada, pacotes de drogas, ferro em grande quantidade), não é rotina.
Menino de 2 anos e meio ingeriu comprimidos de sulfato ferroso da mãe. Após 6 horas, apresenta vômitos, dor abdominal e melena; exames mostram acidose metabólica com ânion gap elevado e leucocitose. A conduta específica é:
A intoxicação por ferro tem fases previsíveis: gastrointestinal com sangramento, latência enganosa, choque com acidose e hepatotoxicidade, e estenose pilórica tardia. Com sangramento, acidose e sinais sistêmicos, o quelante deferoxamina é a terapia específica. Carvão ativado é inútil porque não adsorve metais — erro que atrai quem generaliza descontaminação. N-acetilcisteína trata paracetamol, azul de metileno trata metemoglobinemia e ácido folínico trata metotrexato; nenhum quela ferro.
Menino de 2 anos é levado ao pronto-socorro 30 minutos após ingerir soda cáustica de um frasco de desentupidor guardado sob a pia. Apresenta sialorreia, recusa alimentar e lesões esbranquiçadas em lábios e língua. Está estável, sem estridor. A conduta inicial mais adequada é:
Cáustico ingerido não se dilui, não se neutraliza e não se devolve. Diluição gera vômito e reexpõe o esôfago; neutralização é reação exotérmica que agrava a queimadura; êmese e lavagem gástrica trazem o álcali de volta pelo mesmo trajeto e podem perfurar. O que muda a conduta é a endoscopia precoce (12–24 h), que gradua a lesão e define dieta, risco de estenose e seguimento. Oferecer leite engana porque parece inofensivo e figura em orientação leiga antiga, mas o volume distende o estômago e provoca o vômito que se quer evitar.
Lactente de 18 meses ingere quantidade desconhecida de água sanitária doméstica (hipoclorito de sódio 2,5%). Chega assintomático, sem lesão oral, aceitando líquidos. A conduta correta é:
Hipoclorito doméstico em concentração baixa é irritante, não corrosivo verdadeiro: a lesão esperada é irritação de mucosa autolimitada. Criança assintomática, sem lesão oral e aceitando líquidos, não precisa de endoscopia. Indicar endoscopia para toda ingestão engana quem decorou a regra dos cáusticos fortes (álcalis de desentupidor, ácidos de bateria) e a aplica ao produto errado. Carvão ativado não adsorve cáusticos, íons nem álcoois, e ainda escurece a mucosa e atrapalha a endoscopia.
Criança de 3 anos ingeriu produto de limpeza multiuso contendo hidrocarboneto (querosene). Duas horas depois apresenta tosse, taquipneia e estertores em base direita. A radiografia mostra infiltrado peri-hilar à direita. O mecanismo da lesão pulmonar e a conduta são, respectivamente:
Hidrocarbonetos de baixa viscosidade e baixa tensão superficial espalham-se pela árvore brônquica quando aspirados, destruindo o surfactante — a lesão é química e ocorre na aspiração, não na absorção. O tratamento é suporte: oxigênio, observação e radiografia seriada; antibiótico só se houver deterioração ou febre persistente além das primeiras 48 horas. Prescrever antibiótico de amplo espectro na admissão engana porque o infiltrado radiológico aparece precocemente e imita pneumonia bacteriana, mas naquele momento ele é inflamação química, não infecção.
Qual complicacao pulmonar esta classicamente associada ao uso inalatorio ou fumado de cocaina?
O uso fumado de cocaina associa-se a lesao alveolar aguda, hemorragia alveolar, edema pulmonar nao cardiogenico e infiltrados difusos, quadro conhecido como pulmao de crack, alem de barotrauma com pneumotorax e pneumomediastino pela manobra de Valsalva na inalacao. Embolia gordurosa engana porque tambem produz hipoxemia aguda com infiltrados, mas o contexto classico dela e fratura de ossos longos, e nao inalacao de droga.
Qual e o risco especifico do uso do flumazenil em paciente com dependencia cronica de benzodiazepinico?
O flumazenil reverte competitivamente o agonismo no receptor e, em quem tem tolerancia instalada, desencadeia retirada abrupta, com convulsoes que respondem mal justamente porque o antagonista bloqueia o benzodiazepinico que seria usado para trata-las. Por isso seu uso e restrito a reversao de sedacao em paciente sem dependencia, e evitado no intoxicado cronico ou em coingestao com substancias proconvulsivantes. Pensar em depressao respiratoria engana porque esse e o efeito do agonista, e nao do antagonista.
Homem de 26 anos e trazido ao pronto-socorro por amigos apos festa. Encontra-se sonolento, com fala arrastada, marcha ataxica, nistagmo e halito etilico. Glasgow 13, PA 110x70 mmHg, FC 96 bpm, glicemia capilar 68 mg/dL, saturacao 96 por cento. Qual a conduta inicial mais importante?
Hipoglicemia e a complicacao metabolica mais imediatamente letal e reversivel na intoxicacao alcoolica aguda, especialmente em jovens em jejum, e precisa ser corrigida ja. A tiamina acompanha a glicose para nao precipitar encefalopatia de Wernicke em paciente com possivel deficiencia. O flumazenil engana porque o paciente esta rebaixado e ha reflexo de buscar antagonista, mas ele so reverte benzodiazepinico, pode desencadear convulsao em usuario cronico e nao tem qualquer efeito sobre o alcool. Lavagem gastrica nao tem papel na intoxicacao alcoolica.
Homem de 28 anos chega ao pronto-socorro agitado, com midriase, sudorese, PA 190x110 mmHg, FC 138 bpm, temperatura 38,4 C e dor toracica. Refere uso de cocaina inalada ha 2 horas. Qual farmaco esta contraindicado nesse contexto?
O betabloqueio isolado remove a vasodilatacao mediada por receptores beta e deixa a estimulacao alfa sem oposicao, podendo agravar a vasoconstricao coronariana e a hipertensao, fenomeno conhecido como estimulacao alfa sem oposicao. O manejo correto comeca por benzodiazepinico, que reduz agitacao, frequencia, pressao e consumo miocardico de oxigenio de uma so vez, associado a nitrato e antiagregante na dor toracica. A nitroglicerina engana como candidata a contraindicacao pelo receio de hipotensao, mas ela e justamente parte do tratamento da isquemia por cocaina.
Homem de 35 anos usuario cronico de benzodiazepinico chega em coma apos ingestao de dose desconhecida associada a alcool. FR 8 irpm, saturacao 86 por cento. Qual a prioridade?
Na intoxicacao por depressor, o tratamento e de suporte: garantir via aerea, ventilar e monitorizar ate a metabolizacao. Em usuario cronico e em coingestao, o flumazenil e evitado porque pode precipitar convulsoes e, na presenca de outros agentes proconvulsivantes, torna o quadro ainda mais dificil. Administra-lo de imediato engana porque existe um antidoto disponivel e a tentacao de reverter e grande, mas o risco supera o beneficio fora de cenarios muito selecionados. A hemodialise nao remove significativamente essa classe.
Qual e a base do tratamento da agitacao e da hiperatividade adrenergica na intoxicacao por cocaina?
O benzodiazepinico e a pedra angular porque ataca simultaneamente agitacao, taquicardia, hipertensao, hipertermia e risco convulsivo, todos decorrentes da hiperestimulacao simpatica. Doses tituladas ate a sedacao leve costumam bastar. O haloperidol engana porque agitacao psicomotora remete a antipsicotico, mas ele reduz o limiar convulsivo, prejudica a termorregulacao em paciente ja hipertermico e pode prolongar o intervalo QT; se usado, e como adjuvante e nunca como base. A naloxona so tem papel se houver coingestao de opioide.
Mulher de 33 anos com intoxicacao alcoolica aguda evolui com rebaixamento progressivo do nivel de consciencia apesar de tempo de observacao adequado. Qual conduta e obrigatoria?
A intoxicacao alcoolica pura tende a melhorar com o tempo; piora progressiva quebra essa expectativa e obriga a procurar o que mais esta acontecendo, sobretudo hematoma subdural em quem caiu bebado, coingestao de benzodiazepinico ou opioide, hipoglicemia nao corrigida e infeccao. Atribuir a piora ao alcool engana porque e a explicacao mais disponivel e frequentemente correta na admissao, mas e exatamente o vies que faz perder um subdural. A hidratacao volumosa nao acelera a eliminacao, que segue cinetica de ordem zero.
Qual achado laboratorial sugere intoxicacao por alcool toxico, como metanol ou etilenoglicol, e nao por etanol isoladamente?
Metanol e etilenoglicol geram metabolitos acidos, produzindo acidose com anion gap elevado, e a molecula-mae eleva o gap osmolar. A combinacao dos dois, especialmente quando desproporcional a alcoolemia medida, e o alerta para alcool toxico e indica antidoto com fomepizol ou etanol, alem de hemodialise nos casos graves. O metanol ainda cursa com alteracao visual e o etilenoglicol com cristais de oxalato e lesao renal. Atribuir a acidose apenas a cetoacidose alcoolica engana, porque ela existe, mas nao eleva o gap osmolar.
Sobre a cinetica de eliminacao do etanol em adultos, qual afirmativa e correta?
O etanol satura a alcool desidrogenase em concentracoes baixas, de modo que a eliminacao ocorre a taxa aproximadamente constante, na faixa de 15 a 20 mg/dL por hora no nao dependente. Isso explica por que nao existe atalho: o tempo e o unico tratamento. A cafeina engana porque a crenca popular de que cafe acorda o bebado e universal, mas ela apenas aumenta o alerta subjetivo sem alterar a alcoolemia, o que e perigoso porque o individuo se julga apto a dirigir. Diureticos e hidratacao tambem nao mudam a taxa.
Homem de 35 anos usuario de cocaina apresenta dor toracica opressiva ha 40 minutos, com supradesnivelamento de ST em parede inferior. Qual a interpretacao correta?
A cocaina causa isquemia por vasoespasmo, aumento do consumo de oxigenio, disfuncao endotelial e estado protrombotico, e usuarios cronicos podem ter aterosclerose acelerada, de modo que a trombose verdadeira e possivel e o paciente com supradesnivelamento segue a via da sindrome coronariana aguda, com benzodiazepinico e nitrato somados. Assumir origem nao isquemica engana porque a idade jovem sugere baixo risco, mas e justamente esse vies que atrasa reperfusao em infarto por cocaina. Betabloqueio isolado antes de tudo e o erro classico.
Sobre a relacao entre alcoolemia e manifestacoes clinicas, qual afirmativa e correta?
A tolerancia farmacodinamica e funcional faz com que o dependente cronico se apresente conversando e deambulando com alcoolemias que rebaixariam um nao tolerante, o que torna o numero isolado pouco util para decidir conduta. O corolario pratico e que o exame clinico e a evolucao mandam mais que a dosagem. Tornar a dosagem obrigatoria antes de qualquer conduta engana porque parece rigor diagnostico, mas atrasa a correcao de hipoglicemia e a busca de trauma, que sao as prioridades reais.
Paciente de 30 anos usuario de cocaina apresenta temperatura de 41 C, rigidez, agitacao intensa e CPK de 22.000 U/L. Qual e a prioridade terapeutica?
A hipertermia por cocaina e preditor independente de mortalidade e exige resfriamento externo ativo imediato, sedacao para abolir a atividade muscular que gera calor e hidratacao vigorosa para proteger o rim da mioglobinuria. Antipiretico engana porque a febre e o gatilho mental para prescreve-lo, mas a hipertermia aqui e por producao muscular de calor e nao por reajuste do termostato hipotalamico, e o antipiretico e ineficaz. A restricao hidrica e o oposto do necessario diante de rabdomiolise com CPK nessa faixa.
Qual e a conduta correta diante de paciente que faz uso de multiplas substancias e chega ao servico com quadro clinico confuso?
No poliusuario as sindromes toxicologicas se sobrepoem e podem se mascarar, e o manejo prioriza estabilizacao, correcao de hipoglicemia, busca de trauma cranioencefalico e de infeccao, com uso criterioso de antidotos especificos. Atribuir tudo a substancia relatada engana porque e a explicacao mais disponivel na admissao, mas e exatamente o vies que faz perder um hematoma subdural ou uma meningite.
Paciente chega agitado, com pele quente e seca, rubor facial, midríase, retenção urinária, taquicardia, febre e alucinações, após ingestão de grande quantidade de anti-histamínico. Qual a síndrome tóxica?
Pele quente, seca e ruborizada, midríase, retenção urinária, taquicardia, hipertermia e delirium compõem a síndrome anticolinérgica, cuja marca distintiva é justamente a ausência de sudorese, o que a diferencia da síndrome simpaticomimética, em que o paciente está diaforético. Esse detalhe semiológico é o divisor entre as duas hipóteses mais confundidas no paciente agitado e hipertérmico, e orienta desde o manejo de suporte até a indicação de antídoto.
Após a administração de naloxona a um paciente com intoxicação por opioide de ação prolongada, qual cuidado é essencial?
A naloxona tem meia-vida curta em comparação a muitos opioides, sobretudo metadona e formulações de liberação prolongada, de modo que a reversão pode se esgotar antes da eliminação do agente e o paciente voltar a deprimir a respiração: observação prolongada, doses repetidas ou infusão contínua são necessárias. Dar alta assim que o paciente acorda é o erro que produz óbitos evitáveis logo após um atendimento aparentemente bem-sucedido.
Por que a associação de opioides com benzodiazepínicos ou álcool aumenta substancialmente o risco de morte por overdose?
Opioides deprimem o centro respiratório por ação em receptores mu, enquanto benzodiazepínicos e álcool potencializam a neurotransmissão inibitória gabaérgica, e a soma dos mecanismos produz hipoventilação profunda: essa combinação está presente em grande parte das mortes por overdose. Reconhecer isso tem consequência prática direta na prescrição, ao desaconselhar a coprescrição rotineira dessas classes e ao orientar o paciente sobre o risco do uso concomitante de álcool.
Homem de 25 anos e encontrado inconsciente em via publica. Apresenta FR 6 irpm, saturacao 82 por cento, miose puntiforme bilateral e marcas de puncao em antebraco. Qual a conduta imediata?
A triade rebaixamento de consciencia, depressao respiratoria e miose puntiforme e a assinatura da intoxicacao por opioides, e o tratamento e ventilar e administrar naloxona titulada, o suficiente para restaurar a respiracao sem precipitar abstinencia intensa. Vale lembrar que a meia-vida da naloxona e menor que a de varios opioides, exigindo observacao prolongada. O flumazenil engana por ser tambem um antagonista usado em rebaixamento, mas atua sobre benzodiazepinicos.
Homem de 30 anos apresenta agitacao intensa, hipertermia, taquicardia e forca aumentada apos uso de estimulante, com resistencia a contencao e evolucao para colapso. Qual sindrome deve ser reconhecida e qual a conduta?
O delirium agitado associado a estimulantes cursa com hipertermia, agitacao extrema e insensibilidade a dor, e a morte costuma ocorrer apos o pico de agitacao, por arritmia, acidose e rabdomiolise. A conduta e sedacao rapida, resfriamento, hidratacao e monitorizacao. A contencao prolongada em posicao que restrinja a expansao toracica engana porque parece a resposta a agressividade, mas contribui para o desfecho fatal.
Qual e a manifestacao clinica classica da intoxicacao por alucinogeno como LSD e a conduta inicial?
A intoxicacao por LSD produz distorcoes perceptivas, sinestesias, alteracao da nocao de tempo e ansiedade que pode chegar ao panico, com midriase e hiperatividade simpatica leve. O manejo classico e ambiente calmo, com poucos estimulos e presenca tranquilizadora, associado a benzodiazepinico quando necessario, evitando antipsicoticos de baixa potencia que podem reduzir o limiar convulsivo e agravar a hipotensao.
Qual e o risco especifico associado ao uso de GHB e substancias correlatas?
O GHB tem janela estreita entre efeito recreativo e depressao grave do sistema nervoso central, com coma de instalacao rapida e recuperacao tambem rapida, e o risco se multiplica com alcool ou outros depressores. Sua acao sedativa e amnestica explica o uso em crimes de submissao quimica, o que exige atencao clinica e forense diante de vitimas com lacuna de memoria e rebaixamento de causa nao esclarecida.
Jovem de 21 anos e trazido de uma festa com agitacao, temperatura de 40,3 C, taquicardia, midriase, bruxismo e sodio serico de 122 mEq/L. Refere uso de ecstasy e ingestao de grande quantidade de agua. Qual a complicacao presente e a conduta?
O MDMA estimula a liberacao de hormonio antidiuretico e a ingestao excessiva de agua livre, comportamento comum entre usuarios para evitar superaquecimento, o que produz hiponatremia potencialmente grave, com convulsoes e edema cerebral, alem da hipertermia por hiperatividade serotoninergica e motora. O tratamento e resfriamento, sedacao e correcao cuidadosa do sodio. Oferecer mais agua livre engana porque a hipertermia sugere desidratacao, mas agrava a hiponatremia.
Homem de 31 anos é encontrado inconsciente, com frequência respiratória de 6 incursões por minuto, pupilas puntiformes e cianose. Qual a conduta imediata?
Depressão respiratória, miose puntiforme e rebaixamento do nível de consciência formam a tríade da intoxicação por opioides, e a conduta é suporte ventilatório imediato somado à naloxona, que reverte o quadro em minutos. Flumazenil é o antagonista de benzodiazepínicos e, além de não atuar aqui, pode precipitar convulsões em usuários crônicos ou em intoxicações mistas, o que faz dessa opção o erro mais perigoso da lista. A prioridade sempre é a via aérea, antes de qualquer antídoto.
Qual e o quadro clinico da intoxicacao por metanfetamina e uma complicacao odontologica caracteristica do uso cronico?
A metanfetamina produz sindrome adrenergica intensa e prolongada, com agitacao, psicose paranoide, hipertermia e risco cardiovascular, e o uso cronico causa deterioracao dentaria acentuada, resultado da combinacao de boca seca, bruxismo, consumo de bebidas acucaradas e negligencia da higiene. Sedacao com miose engana porque descreve o padrao oposto, da intoxicacao por opioides.
Qual e a conduta correta diante de uma overdose de opioide em ambiente extra-hospitalar, dentro de uma politica de reducao de danos?
Programas de reducao de danos distribuem naloxona e treinam usuarios, familiares e agentes comunitarios, ja que a reversao precisa ocorrer em minutos e o servico de emergencia raramente chega a tempo; a intervencao combina acionar socorro, ventilar e administrar o antagonista. Aguardar recuperacao espontanea engana porque em outras intoxicacoes o tempo resolve, mas aqui a morte ocorre por parada respiratoria em poucos minutos.
Qual e o papel do exame toxicologico na avaliacao de paciente com suspeita de uso de substancias?
O rastreio toxicologico ajuda, mas tem janelas de deteccao que variam de horas a semanas, sofre interferencia de outros farmacos gerando falsos positivos, nao detecta boa parte das substancias sinteticas mais recentes e nao informa dose nem momento do uso. Por isso a conduta clinica se orienta pela sindrome toxicologica observada, e esperar o resultado antes de agir engana porque atrasa o tratamento em situacoes que nao toleram espera.
Qual e a caracteristica dos canabinoides sinteticos que os torna mais perigosos que a cannabis vegetal?
Ao contrario do delta-9-tetraidrocanabinol, que e agonista parcial, os canabinoides sinteticos atuam como agonistas totais e muito mais potentes, o que amplia a gravidade das reacoes, com psicose, agitacao intensa, convulsoes, arritmias e lesao renal. Some-se a isso a nao deteccao nos testes de rotina para cannabis e a enorme variabilidade de composicao entre lotes, o que dificulta o diagnostico.
Paciente jovem, sem diagnóstico psiquiátrico prévio, chega com quadro psicótico agudo, midríase, hipertensão, taquicardia e hipertermia. Qual hipótese deve ser priorizada?
Midríase, hipertensão, taquicardia e hipertermia acompanhando psicose aguda apontam toxidrome simpaticomimética, com necessidade de rastreio toxicológico e de manejo clínico da hiperatividade adrenérgica, em que benzodiazepínicos são a base do controle. Firmar diagnóstico psiquiátrico primário diante desse conjunto de sinais autonômicos é o erro que deixa sem tratamento uma condição clínica potencialmente fatal por hipertermia, rabdomiólise e arritmias.
Menino de 2 anos ingeriu comprimidos de anti-hipertensivo do avô e evolui, após 4 horas, com bradicardia de 60 bpm, pressão arterial 62/30 mmHg, sonolência e glicemia de 260 mg/dL. Qual o agente mais provável e o tratamento específico?
Bradicardia com hipotensão e hiperglicemia é a assinatura do bloqueio de canal de cálcio, porque a entrada de cálcio também é necessária para a liberação de insulina pelas células beta; o tratamento une cálcio venoso, vasopressor e a terapia com insulina em dose alta associada a glicose, que melhora a contratilidade. O betabloqueador é o distrator mais próximo, pois também produz bradicardia e hipotensão, mas cursa tipicamente com hipoglicemia e seu antídoto é o glucagon, não a naloxona. Inibidor da enzima conversora causa hipotensão sem bradicardia marcada, e tiazídico produz hipovolemia com hipopotassemia, sem esse padrão hemodinâmico.
Em qual momento deve ser coletado o nível sérico de paracetamol para uso no nomograma de Rumack-Matthew?
O nomograma foi construído para a ingestão aguda única com horário conhecido e só é válido a partir da quarta hora, tempo necessário para que a absorção se complete e a curva de eliminação se torne interpretável. Colher na chegada é o erro operacional mais frequente: um nível baixo colhido na segunda hora dá falsa segurança e libera um paciente que ainda vai atingir concentração tóxica. Nível de 24 horas não é plotável na ferramenta. Esperar a alteração enzimática significa perder a janela do antídoto, e limiares de gramas ingeridas orientam a suspeita, mas não determinam quando colher.
Qual achado laboratorial confirma a exposição a organofosforado?
A queda das colinesterases é o marcador da exposição: a plasmática cai mais rápido e serve para diagnóstico precoce, enquanto a eritrocitária reflete melhor a inibição sináptica e a gravidade, além de se recuperar mais lentamente. A elevação de creatinofosfoquinase engana porque fasciculações intensas de fato aumentam essa enzima, mas o achado é inespecífico e ocorre em qualquer situação com dano muscular. Acidose com lactato alto e alteração de transaminases são consequências possíveis de um quadro grave, sem valor diagnóstico, e hipercalemia com QRS largo remete a distúrbio eletrolítico ou bloqueio de canal de sódio.
Qual das seguintes situações NÃO indica início de N-acetilcisteína em criança com exposição a paracetamol?
A ingestão exploratória de dose abaixo do limiar de risco, em criança assintomática e com nível de quatro horas abaixo da linha de tratamento, permite observação sem antídoto, e essa é a única situação da lista sem indicação. Horário desconhecido com enzimas alteradas obriga a tratar, porque não há como usar o nomograma e a lesão já está documentada. A exposição repetida sintomática tem indicação clínica independentemente de nível. Nível acima da linha é a indicação clássica, e o quadro tardio com coagulopatia e encefalopatia mantém indicação por benefício mesmo na hepatotoxicidade instalada, o que costuma enganar quem acredita em janela terapêutica rígida.
Paciente de 12 anos intoxicado por organofosforado melhorou da fase colinérgica aguda. No terceiro dia de internação, evolui com fraqueza proximal de membros, dificuldade para elevar a cabeça do travesseiro e insuficiência respiratória, sem sialorreia ou miose. Qual o diagnóstico?
A síndrome intermediária aparece entre 24 e 96 horas, depois de resolvida a fase muscarínica, e se caracteriza por fraqueza de musculatura proximal, cervical, de nervos cranianos e respiratória, exigindo vigilância e suporte ventilatório. Interpretar o quadro como recidiva colinérgica é o erro que leva a atropinizar de novo sem benefício, e o dado que separa as duas situações é a ausência de secreções e de miose. A neuropatia tardia surge após uma a três semanas, é distal e predominantemente sensitivo-motora dos membros inferiores. Guillain-Barré teria progressão ascendente com dissociação proteinocitológica, e miopatia por corticoide não explica esse tempo de instalação.
Assinale a associação correta entre agente e antídoto específico:
Metanol e etilenoglicol dependem da álcool desidrogenase para gerar seus metabólitos tóxicos, e tanto o fomepizol quanto o etanol bloqueiam essa enzima, o que faz deles os antídotos corretos. As demais associações trocam pares clássicos e são exatamente os erros mais frequentes de memorização: paracetamol tem N-acetilcisteína, benzodiazepínico tem flumazenil, cumarínico tem vitamina K, e ferro tem deferoxamina. O azul de metileno é o antídoto da metemoglobinemia, situação em que a saturação da oximetria fica presa perto de 85% e o sangue tem cor achocolatada.
Por que crianças menores de 6 anos costumam evoluir com menor gravidade que adolescentes após ingestão aguda de paracetamol?
O pré-escolar conjuga proporcionalmente mais paracetamol por sulfatação, o que desvia menos substrato para a via oxidativa e reduz a geração do metabólito tóxico; soma-se a isso o fato de a ingestão exploratória ser tipicamente de pequeno volume, diferente da ingestão intencional do adolescente. Dizer que não há citocromo P450 funcionante é o exagero que engana quem lembra corretamente da imaturidade enzimática: a via existe, apenas contribui menos. A absorção intestinal é preservada, o volume de distribuição maior não protege o fígado, e a excreção renal do fármaco inalterado é mínima em qualquer idade.
Lactente de 15 meses ingeriu produto desentupidor de pia há 20 minutos. Apresenta sialorreia, recusa alimentar e lesões esbranquiçadas em mucosa oral. Qual a conduta correta?
Cáustico alcalino produz necrose de liquefação, e a conduta é suporte com jejum, analgesia e hidratação, seguida de endoscopia precoce para estadiar a lesão e definir prognóstico e dieta. Provocar vômito ou passar sonda expõe o esôfago a uma segunda passagem do agente e pode perfurar. Carvão não adsorve cáusticos e ainda impede a visão endoscópica, e a neutralização com leite ou ácidos gera reação exotérmica. A ideia de que a mucosa oral prediz a lesão esofágica é a armadilha mais perigosa da questão: há lesão esofágica grave com boca praticamente normal e o inverso também ocorre.
Menina de 3 anos, encontrada com o frasco de medicação do pai, chega com sonolência, miose puntiforme, frequência respiratória de 8 irpm e saturação de 88% em ar ambiente. Qual a conduta imediata?
Miose puntiforme com depressão respiratória e rebaixamento define a toxíndrome opioide, e a resposta é ventilar e reverter com naloxona titulada, o que restaura o drive respiratório em minutos. O flumazenil engana porque também trata sedação, mas é antídoto de benzodiazepínico, que não causa miose puntiforme nem essa magnitude de depressão respiratória em criança, e seu uso pode desencadear convulsão. Atropina reverte a síndrome colinérgica, que cursa com miose acompanhada de sialorreia, broncorreia e bradicardia. Fisostigmina trata a síndrome anticolinérgica, cuja pupila é midriática, e bicarbonato não tem papel na depressão respiratória por opioide.
Sobre a evolução clínica da intoxicação aguda por paracetamol não tratada, assinale a alternativa correta:
O curso tem fases bem descritas: um primeiro dia pobre em sintomas, com náusea e mal-estar, seguido de dor em hipocôndrio direito e elevação enzimática, e o pico de necrose entre o terceiro e o quarto dia, quando surgem encefalopatia, coagulopatia e acidose. Essa latência é justamente o que produz o erro clínico mais frequente, que é confundir paciente assintomático com paciente sem risco. Coma nas primeiras horas sugere coingestão, não o paracetamol isolado. A icterícia é tardia, e a lesão, quando o paciente sobrevive, costuma regenerar sem sequela crônica.
Lactente de 20 meses recebeu paracetamol da mãe por 4 dias, em doses repetidas e maiores que as prescritas, por febre persistente. Chega com vômitos, letargia e hepatomegalia dolorosa. Exames: TGO 4.200 U/L, TGP 3.800 U/L, INR 2,3, glicemia 42 mg/dL. Qual a conduta?
Na exposição supraterapêutica repetida o nomograma não se aplica, e a indicação do antídoto passa a ser clínica e laboratorial: transaminases elevadas, alteração de coagulação ou sintomas justificam iniciar N-acetilcisteína de imediato, sem esperar nível sérico, que a essa altura pode estar baixo. A hipoglicemia é sinal de falência hepatocelular e precisa de correção e monitorização. Negar o antídoto por causa do nomograma é o raciocínio que mais mata nesse cenário, porque troca o julgamento clínico por uma ferramenta feita para outra situação. Corticosteroide não tem papel, e carvão não age dias após a exposição.
Menino de 6 anos foi encontrado brincando no depósito da lavoura do pai. Chega ao pronto-socorro com sialorreia intensa, vômitos, incontinência urinária, miose puntiforme, sibilos difusos e frequência cardíaca de 52 bpm. Qual a hipótese diagnóstica?
Sialorreia, broncorreia com sibilos, vômito, incontinência, miose e bradicardia formam o bloco muscarínico do excesso de acetilcolina, e o contexto rural com depósito de agrotóxico fecha o raciocínio. A intoxicação por opioide é o distrator que engana pela miose, mas nela a pele está seca e não há secreções nem hiperperistaltismo. A síndrome anticolinérgica é a imagem em espelho, com pele quente e seca e midríase. A crise asmática não explica sialorreia, miose e incontinência, e o tricíclico cursa com taquicardia, midríase e alargamento do QRS.
Adolescente de 14 anos chega com síndrome colinérgica após contato com inseticida agrícola, com roupas encharcadas do produto. Qual deve ser a primeira medida na sala de emergência?
A descontaminação da pele é medida simultânea ao suporte e precede o resto porque a roupa impregnada continua entregando tóxico ao paciente e contamina a equipe, com relatos de profissionais intoxicados na sala de emergência. Priorizar a atropina antes de despir engana porque ela é de fato o antídoto que salva, mas de nada adianta antagonizar receptor enquanto a absorção segue pela pele. Carvão tem papel limitado e só na ingestão recente com via aérea protegida. A dosagem de colinesterase é confirmatória e nunca deve atrasar o tratamento, e a radiografia não muda a conduta imediata.
Adolescente de 15 anos ingeriu 20 comprimidos de paracetamol de 750 mg em tentativa de suicídio há 5 horas. Nível sérico colhido na quarta hora está acima da linha de tratamento do nomograma. Qual a conduta?
Nível acima da linha de tratamento é indicação formal e imediata do antídoto, cuja eficácia é praticamente completa quando iniciado nas primeiras 8 a 10 horas, ou seja, antes de qualquer alteração de exame. Esperar as transaminases é a armadilha mais letal desse tema, porque significa esperar a necrose acontecer. Hemodiálise não é conduta de rotina e se reserva a intoxicações maciças com acidose e coma. Carvão isolado após várias horas não protege quem já tem nível tóxico circulante. Transplante se discute pelos critérios de falência hepática instalada, jamais pelo nível sérico do fármaco.
Sobre o carvão ativado na intoxicação exógena aguda em pediatria, é correto afirmar:
O carvão adsorve a maior parte das substâncias orgânicas e seu benefício cai rapidamente após a primeira hora; a contraindicação central é a via aérea desprotegida, porque a aspiração de carvão causa pneumonite grave. Estender a indicação a cáusticos é o erro que mais aparece: o carvão não adsorve esses agentes, escurece a mucosa e inviabiliza a endoscopia que decide a conduta. Hidrocarbonetos têm risco aspirativo e não se beneficiam. Lítio, ferro, álcoois, ácidos e álcalis não são adsorvidos, o que derruba a ideia de universalidade. E antídoto específico nunca é substituído por descontaminação.
Criança intoxicada por organofosforado recebe atropina venosa. Qual é o parâmetro que deve guiar a titulação da dose?
O alvo da atropinização é pulmonar: o que mata nessa intoxicação é o afogamento pela broncorreia e o broncoespasmo, e por isso a dose é dobrada até que o tórax esteja limpo à ausculta e a oxigenação melhore, sem teto arbitrário. Usar a pupila como alvo é o erro clássico, porque a miose pode persistir por absorção conjuntival mesmo com o paciente já bem atropinizado, levando a subdosagem fatal. Frequência cardíaca alta é consequência tolerada, não meta. A dosagem enzimática demora e serve para confirmar o diagnóstico, não para titular. E fasciculação é efeito nicotínico, que a atropina não reverte.
Diferença fundamental entre a intoxicação por carbamato e por organofosforado:
Os carbamatos carbamilam a enzima de forma instável, e a hidrólise espontânea devolve a atividade em horas, motivo pelo qual o quadro é geralmente mais breve e a oxima costuma ser dispensável. Ambos produzem a mesma síndrome colinérgica, o que derruba a ideia de toxíndromes distintas e é o erro que mais aparece nas provas. A penetração no sistema nervoso central é menor, porém não nula, e convulsão pode ocorrer. A atropina segue sendo o antídoto de titulação idêntica, e a colinesterase também cai no carbamato, embora se recupere rápido, o que pode dar falsa normalização se a coleta for tardia.
Menino de 2 anos é trazido 40 minutos após ser encontrado com a cartela de comprimidos da avó. Está sonolento mas desperta ao chamado, com glicemia capilar 38 mg/dL, pressão arterial normal e sem alterações pupilares. A avó usa glibenclamida, losartana, sinvastatina e omeprazol. Qual a conduta imediata mais importante?
Hipoglicemia em criança que mexeu na cartela de um idoso aponta a sulfonilureia, e o ponto que a prova cobra é que a correção pontual não basta: a glibenclamida tem meia-vida longa e a hipoglicemia recorre por muitas horas, o que obriga infusão contínua de glicose e observação de pelo menos 24 horas, com octreotida nos casos refratários. Dar carvão e liberar em quatro horas é a armadilha, porque a criança volta a hipoglicemiar em casa, quando ninguém está olhando. Lavagem gástrica não é conduta de rotina, naloxona só reverte opioide e alcalinização se aplica a antidepressivo tricíclico com alargamento do QRS.
Criança de 4 anos chega agitada, com pele quente e seca, rubor facial, midríase, retenção urinária, febre de 38,5 graus e taquicardia, após ingerir xarope da irmã. Qual toxíndrome está presente e qual conduta é prioritária?
Pele quente e seca, midríase, retenção urinária, febre e delirium compõem a toxíndrome anticolinérgica, comum em anti-histamínicos e antiespasmódicos de uso doméstico; o manejo inicial é sedação com benzodiazepínico e resfriamento, deixando a fisostigmina para casos com delirium grave e sem sinais de bloqueio de canal de sódio. A toxíndrome colinérgica é o oposto, com pele úmida, sialorreia e broncorreia, e é o distrator mais tentador para quem confunde os pares. A simpaticomimética cursa com sudorese, e betabloqueador isolado é contraindicado por estímulo alfa sem oposição. Nada nesse quadro sugere opioide ou síndrome serotoninérgica com clônus.
Paciente com intoxicação grave por organofosforado precisa de intubação orotraqueal por insuficiência respiratória. Qual bloqueador neuromuscular deve ser evitado nesse cenário?
A succinilcolina é hidrolisada pela butirilcolinesterase, exatamente a enzima que o organofosforado inibiu, de modo que o bloqueio se prolonga de forma imprevisível por horas. A escolha correta nesse paciente recai sobre bloqueadores não despolarizantes, e o rocurônio é a alternativa habitual, o que torna sua exclusão um distrator tentador para quem lembra apenas que ele é de ação rápida. Vecurônio e cisatracúrio não têm interação relevante com a atropina, e o cisatracúrio, na verdade, tem eliminação de Hofmann independente de função renal e hepática. Nenhum bloqueador não despolarizante libera acetilcolina adicional na fenda.
Menino de 9 anos, no quarto dia após ingestão de paracetamol, apresenta encefalopatia grau III, INR 7,2, creatinina 3,1 mg/dL e pH arterial 7,25 apesar da reposição volêmica. Qual a conduta prioritária?
Acidose persistente após ressuscitação volêmica, ou a combinação de encefalopatia avançada com INR muito alargado e disfunção renal, preenche os critérios de mau prognóstico que indicam avaliação urgente para transplante, e o antídoto e o suporte intensivo se mantêm enquanto isso. Corrigir o INR com plasma é a conduta mais tentadora e mais nociva, porque apaga o principal marcador prognóstico usado para indicar o transplante, sem benefício de sobrevida na ausência de sangramento. Lactulose trata encefalopatia da cirrose, e não substitui a decisão de transplante. Biópsia expõe a risco hemorrágico e não é necessária para indicar o procedimento.
Menina de 3 anos ingeriu, há 2 horas, quantidade estimada de 250 mg/kg de paracetamol em gotas. Está assintomática, com exame físico normal. Qual a conduta mais adequada neste momento?
Nas primeiras horas o paciente é assintomático por definição, e a decisão terapêutica se apoia no nível sérico colhido a partir da quarta hora, plotado no nomograma; o carvão ainda tem papel porque a ingestão é recente. Esperar sintoma para iniciar o antídoto é o erro mais grave possível nessa intoxicação, já que quando surgem dor e vômitos a lesão hepatocelular já se instalou e a janela de máxima eficácia se fechou. Transaminases normais nas primeiras horas não excluem risco algum, pois só se elevam após 24 horas. Lavagem gástrica não é rotina e flumazenil não tem qualquer relação com o agente.
Sobre a N-acetilcisteína no tratamento da intoxicação por paracetamol, é correto afirmar:
O antídoto atua como precursor da glutationa e, quando a lesão já se instalou, ainda ajuda por efeitos antioxidantes e de melhora da perfusão hepática, com redução de mortalidade documentada mesmo em início tardio, o que sustenta seu uso na hepatite fulminante. A ideia de janela rígida de 24 horas é o engano mais comum e leva a suspender tratamento de quem mais precisa. A formulação venosa pode causar reação anafilactoide, geralmente controlável com redução da velocidade de infusão e anti-histamínico, mas não é contraindicada em pediatria. Monitorização laboratorial permanece obrigatória, e asma não contraindica o uso.
Sobre a pralidoxima no tratamento da intoxicação por organofosforado, é correto afirmar:
A oxima quebra a ligação entre o fósforo e a enzima e devolve a atividade da acetilcolinesterase, mas essa reversão só é possível antes do envelhecimento, processo em que a ligação se torna irreversível, o que impõe administração precoce. Achar que ela dispensa a atropina é o erro mais perigoso: as duas são complementares, e a atropina continua sendo o que salva a via aérea. No carbamato a inibição é espontaneamente reversível e o uso de oxima não é rotina, podendo ser desnecessário. Quem bloqueia receptor muscarínico é a atropina, e adiar a oxima para depois de 48 horas garante que ela não funcione.
Criança intoxicada por organofosforado apresenta convulsão tônico-clônica generalizada durante o atendimento. Qual a conduta medicamentosa adequada para a crise?
O benzodiazepínico é o anticonvulsivante de escolha nessa intoxicação, com evidência de proteção contra o dano neuronal induzido pelo excesso colinérgico, além de controlar a agitação. A fenitoína é o distrator mais tentador para quem aplica o algoritmo genérico de estado de mal, mas ela tem eficácia pobre nas convulsões tóxicas. Aminofilina e morfina são formalmente evitadas nesse contexto: a primeira baixa o limiar convulsivo e favorece arritmia, a segunda deprime o centro respiratório de um paciente que já está com broncorreia e fraqueza muscular. Magnésio pode ser adjuvante em estudos, mas não é a resposta padrão da crise.
Qual associação entre toxíndrome e conjunto de achados está correta?
O excesso colinérgico produz pupila puntiforme e umidade em todos os territórios, com secreções, vômito, diarreia, incontinência e bradicardia, o que orienta tanto o diagnóstico quanto o alvo da atropinização, que é secar o pulmão. As demais associações invertem pares clássicos e são justamente os erros de memorização mais comuns: a síndrome anticolinérgica tem midríase e pele seca, a simpaticomimética cursa com sudorese, taquicardia e hipertermia, o opioide tem miose com bradipneia, e a sedativo-hipnótica se caracteriza por depressão do sensório com sinais vitais deprimidos, não por febre e agitação.
Menino de 3 anos ingeriu querosene guardado em garrafa de refrigerante. Chega tossindo, com taquipneia e sibilos, saturação de 92%. Qual a conduta correta?
O risco dos hidrocarbonetos é respiratório e não sistêmico: são substâncias de baixa viscosidade e alta volatilidade que causam pneumonite química ao serem aspiradas, de modo que qualquer manobra que traga o líquido de volta pelo esôfago aumenta o dano. Por isso não se induz vômito nem se passa sonda, e o carvão não adsorve esses compostos além de provocar vômito. Corticoide e antibiótico profiláticos não mostraram benefício e são o distrator mais tentador para quem quer prevenir a pneumonite. A conduta é oxigênio, imagem e observação, tratando infecção apenas se ela se documentar.
Criança de 4 anos ingeriu acidentalmente comprimidos de raticida à base de superwarfarínico. Está assintomática 6 horas após. Qual a conduta mais adequada?
Os anticoagulantes cumarínicos de longa ação só se manifestam quando os fatores dependentes de vitamina K já circulantes se consomem, o que leva um a dois dias, e por isso a conduta na ingestão exploratória assintomática é acompanhar a coagulação e tratar apenas quem alargar. Dar vitamina K profilática por semanas é o distrator sedutor, mas ela mascara a alteração e prende a criança em tratamento prolongado desnecessário. Plasma fresco se reserva a sangramento ativo. Liberar sem retorno ignora justamente a latência do efeito, e o fármaco tem alta ligação proteica, o que torna a diálise ineficaz.
Sobre a avaliação inicial da criança com suspeita de intoxicação exógena aguda, qual sequência é a correta?
A abordagem é a mesma de qualquer emergência: sustentar via aérea, respiração e circulação, medir glicemia porque a hipoglicemia é causa reversível e frequente de rebaixamento, e avaliar pupilas, pele e sinais vitais para reconhecer a toxíndrome. Esperar a identificação do agente para agir é o erro que atrasa o essencial, ainda que o dado seja de fato importante. Não existe antídoto universal, a descontaminação tem indicações específicas e contraindicações claras, e a triagem toxicológica ampla demora, tem baixa sensibilidade para muitos agentes e raramente muda a conduta imediata.
Menina de 2 anos ingeriu comprimidos de sulfato ferroso da mãe há 3 horas. Apresenta vômitos com estrias de sangue, diarreia e dor abdominal, com pressão arterial no limite inferior. Qual a conduta específica além do suporte?
O ferro é radiopaco, o que permite documentar comprimidos no trato digestivo e indicar irrigação intestinal total, e sua toxicidade tem uma fase digestiva hemorrágica seguida de choque e acidose, com quelação por deferoxamina nos casos sistêmicos. O carvão é inútil porque não adsorve metais, e essa é a armadilha que atrai quem generaliza a descontaminação. A N-acetilcisteína pertence ao paracetamol, ainda que o ferro também lese o fígado. A alcalinização urinária serve a salicilato e fenobarbital. Liberar após a melhora dos vômitos ignora a fase de latência enganosa que precede o colapso circulatório.
Uma família de quatro pessoas é resgatada de casa com aquecedor a gás em ambiente fechado. Todos apresentam cefaleia, náusea e tontura; a oximetria de pulso mostra saturação de 98%. Qual a conduta imediata?
Cefaleia, náusea e tontura em múltiplas pessoas do mesmo ambiente com fonte de combustão apontam monóxido de carbono, e o tratamento é oxigênio em alta fração desde já, o que acelera a dissociação do gás da hemoglobina; a oximetria normal é armadilha, pois o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Esperar sinal focal desperdiça tempo e aumenta risco de sequela neurológica tardia. Azul de metileno trata metemoglobinemia, situação diferente. Alta após melhora sintomática sem oxigenoterapia e sem investigar a fonte devolve a família ao ambiente que a intoxicou, e a tomografia não precede o tratamento.
Lactente de 11 meses chega cianótico, com saturação de 85% na oximetria que não melhora com oxigênio suplementar, mas com gasometria arterial mostrando PaO2 de 180 mmHg. O sangue coletado tem coloração achocolatada. A avó usou naftalina nas gavetas de roupa. Qual o diagnóstico e o tratamento?
A dissociação entre saturação baixa e fixa na oximetria e uma PaO2 alta na gasometria é a assinatura da metemoglobinemia, e o sangue de cor achocolatada confirma; naftalina, dapsona, anestésicos tópicos e nitratos são gatilhos clássicos, e o tratamento é azul de metileno. A intoxicação por monóxido de carbono é o distrator mais próximo por também produzir hipoxia com PaO2 normal, mas nela a oximetria costuma ser falsamente normal e a pele fica rosada, não cianótica. Cardiopatia cianótica não surge subitamente aos 11 meses com esse gatilho, e nem sepse nem cianeto explicam a cor do sangue com PaO2 elevada.
Adolescente de 15 anos ingeriu grande quantidade de paracetamol há 6 horas em tentativa de autoextermínio. Está assintomático. Qual a conduta?
O paciente assintomático é a regra nas primeiras horas, e é exatamente essa janela silenciosa que decide o desfecho: o antídoto é altamente eficaz quando iniciado dentro de 8 a 10 horas e perde eficácia depois. Esperar icterícia ou elevação de transaminases é esperar a necrose já instalada. Além do tratamento clínico, todo caso de intoxicação intencional exige avaliação de saúde mental e proteção antes da alta.
Criança de 3 anos é trazida após ingestão acidental de comprimidos do avô, com miose puntiforme, sialorreia, broncorreia, bradicardia e vômitos. Qual o antídoto?
A síndrome colinérgica, com miose, secreções abundantes, broncoespasmo e bradicardia, pede atropina em doses crescentes até controlar a secreção brônquica, que é o alvo terapêutico real, e pralidoxima quando o agente é organofosforado. Naloxona reverte opioide, cuja síndrome tem miose mas cursa com depressão respiratória sem sialorreia e broncorreia — é o distrator mais escolhido pela miose compartilhada. Flumazenil tem uso restrito pelo risco de convulsão.
Criança de 2 anos chega sonolenta após ingestão de medicação desconhecida, com pupilas dilatadas, pele seca e quente, rubor facial, retenção urinária e taquicardia. Qual a síndrome tóxica?
Pele seca e quente com rubor, midríase, retenção urinária, taquicardia e delirium compõem a síndrome anticolinérgica, associada a anti-histamínicos, antidepressivos tricíclicos, escopolamina e algumas plantas. A síndrome simpaticomimética é o distrator mais próximo por também dar midríase e taquicardia, mas nela a pele é úmida de sudorese, e essa diferença é o que separa as duas no leito. O tratamento é de suporte, com fisostigmina reservada a casos selecionados.
Qual antídoto está corretamente associado ao agente?
O bloqueio da álcool desidrogenase por fomepizol ou etanol impede a formação dos metabólitos tóxicos do metanol e do etilenoglicol, sendo a base do tratamento junto com bicarbonato e hemodiálise. As demais associações estão trocadas: naloxona é para opioide, flumazenil para benzodiazepínico, desferroxamina para ferro e azul de metileno para metemoglobinemia. Guardar esses pares corretamente é o tipo de conhecimento que a prova cobra e que a emergência exige.
Menino de 2 anos ingere soda cáustica armazenada em garrafa de refrigerante. Chega ao pronto-socorro babando, com recusa alimentar, dor à deglutição e lesões esbranquiçadas em orofaringe. Qual é a conduta imediata?
O manejo é de suporte com avaliação endoscópica precoce, que estadia a lesão e define prognóstico e conduta. Induzir vômito é proibido, pois expõe o esôfago ao cáustico uma segunda vez e aumenta o risco de aspiração e perfuração; neutralizar com substâncias ácidas ou alcalinas engana por parecer lógico do ponto de vista químico, mas a reação é EXOTÉRMICA e agrava a queimadura. A sondagem gástrica às cegas pode perfurar tecido já lesado.
Adolescente de 16 anos chega ao pronto-socorro sonolento após ingestão de comprimidos não identificados. Apresenta pupilas puntiformes, frequência respiratória de 8 irpm e saturação de 88%. Qual o antídoto indicado?
Miose puntiforme com depressão respiratória e rebaixamento compõe a tríade opioide, revertida com naloxona, sempre acompanhada de suporte ventilatório. O flumazenil é o distrator perigoso: parece simétrico para intoxicação por sedativo, mas em ingestão mista ou em usuário crônico pode precipitar convulsão refratária e por isso praticamente não se usa às cegas. Atropina reverte a síndrome colinérgica, que cursa com miose acompanhada de sialorreia, broncorreia e bradicardia, quadro bem diferente.
Menino de 14 anos ingeriu grande quantidade de comprimidos de antidepressivo tricíclico há 3 horas. ECG mostra QRS de 130 ms e taquicardia sinusal. Qual a conduta prioritária?
Os tricíclicos bloqueiam canais de sódio e o alargamento do QRS acima de 100 ms é o marcador que prediz convulsão e arritmia ventricular; o bicarbonato reverte esse bloqueio por alcalinização e sobrecarga de sódio, e é a medida que salva. Antiarrítmicos das classes que bloqueiam sódio, como a amiodarona nesse contexto, agravam a toxicidade cardíaca. Fisostigmina, apesar do componente anticolinérgico do quadro, está contraindicada por risco de assistolia. Apenas observar um QRS alargado é subestimar o único sinal preditivo disponível.
Adolescente de 15 anos é trazida ao pronto-socorro 2 horas após ingerir cerca de 30 comprimidos de paracetamol 500 mg em tentativa de suicídio. Está lúcida, com náuseas e vômitos, sem outras alterações. Qual a conduta específica?
A intoxicação por paracetamol é traiçoeira porque as primeiras 24 horas são pobres em sintomas, e a lesão hepática só aparece quando o antídoto já perdeu boa parte da eficácia. Por isso a N-acetilcisteína deve ser iniciada precocemente, com a nível sérico colhido a partir de 4 horas para orientar a manutenção pelo nomograma. Esperar a icterícia é o erro que transforma uma intoxicação tratável em insuficiência hepática fulminante. Naloxona é antídoto de opioide e diálise não é a terapia de escolha aqui.
Qual afirmação sobre o uso de corticoide na ingestão de cáusticos está correta?
Estudos não demonstraram redução consistente de estenose com corticoterapia sistêmica de rotina, ao passo que a imunossupressão pode ocultar sinais de infecção e comprometer a cicatrização — daí seu uso ter deixado de ser padrão. Prescrevê-lo a todos engana quem se apoia na lógica anti-inflamatória e em condutas antigas, ainda repetidas, mas a evidência atual não sustenta o benefício. Lesões de grau I são superficiais e não evoluem para estenose.
Qual é a complicação tardia mais frequente da ingestão de cáustico com lesão esofágica de grau elevado?
A cicatrização das queimaduras profundas produz fibrose circunferencial, com disfagia progressiva que surge semanas após o episódio e exige dilatações repetidas — e há ainda o risco aumentado de carcinoma escamoso do esôfago décadas depois, o que justifica seguimento prolongado. A acalasia engana por também causar disfagia, mas é distúrbio motor primário por degeneração do plexo mientérico, sem relação com trauma químico.
Qual é a diferença fisiopatológica entre a lesão causada por álcalis e a causada por ácidos na ingestão de cáusticos?
A liquefação dissolve proteínas e lipídios, permitindo que o álcali avance por camadas mais profundas e produza estenose esofágica, enquanto a coagulação forma uma escara que funciona como barreira parcial, com predomínio de lesão gástrica. Inverter os mecanismos é o erro clássico do tema, e ele importa porque muda o órgão de maior preocupação e o padrão de complicação esperada.
Qual é o momento ideal para a realização da endoscopia digestiva alta após ingestão de cáustico, e por quê?
Antes de 12 horas a extensão da lesão ainda não se manifestou plenamente, e entre o terceiro e o décimo quarto dia o tecido necrótico está no ponto de maior fragilidade, com risco elevado de perfuração pelo aparelho — a janela inicial equilibra informação e segurança. Aguardar o surgimento de disfagia engana quem espera um sinal clínico para agir, mas nesse ponto a estenose já se instalou e a chance de intervenção precoce foi perdida.
Adolescente com ingestão intencional de organofosforado apresenta miose, sialorreia, broncorreia, vômitos, bradicardia e fasciculações. Qual a conduta específica?
A síndrome colinérgica se trata com atropina titulada, e o alvo terapêutico não é a pupila nem a frequência cardíaca, e sim a secagem das secreções brônquicas, já que a morte ocorre por insuficiência respiratória e broncorreia. A pralidoxima reativa a colinesterase e atua no componente nicotínico, que explica as fasciculações e a fraqueza. Miose também aparece na intoxicação por opioide, o que torna a naloxona o distrator natural, mas ali não há sialorreia, broncorreia nem fasciculação. Descontaminar a pele protege o paciente e a equipe.
Adolescente de 13 anos ingeriu comprimidos de sulfato ferroso da mãe. Apresenta vômitos, dor abdominal e hematêmese há 2 horas. Está taquicárdico e com dor abdominal difusa. Qual a conduta correta?
A intoxicação por ferro tem fase gastrointestinal hemorrágica precoce, seguida de um período enganosamente quieto e depois de choque, acidose metabólica e insuficiência hepática. O antídoto é a desferroxamina, indicada por toxicidade sistêmica ou nível sérico elevado, e a radiografia ajuda porque os comprimidos são radiopacos. O carvão ativado é o erro clássico neste tema: ele não adsorve ferro. Considerar o vômito com sangue como gastrite banal e mandar para casa ignora justamente a fase silenciosa que antecede a deterioração.
Menina de 3 anos ingeriu quantidade desconhecida de água sanitária doméstica diluída, está assintomática, sem lesões orais, tolerando líquidos e sem sialorreia. Qual é a conduta?
A água sanitária de uso doméstico tem baixa concentração de hipoclorito e costuma provocar apenas irritação leve, de modo que a criança assintomática, tolerando líquidos, pode ser observada e orientada. Indicar endoscopia para todos engana quem aplica indistintamente o protocolo dos álcalis fortes, expondo a criança a sedação e a procedimento invasivo desnecessários. O carvão ativado não adsorve cáusticos e ainda prejudica a visualização endoscópica.
Criança que ingeriu cáustico apresenta ausência de lesões visíveis na orofaringe. Qual é a interpretação correta?
A correlação entre lesão oral e esofágica é fraca: crianças sem qualquer lesão visível na boca podem ter queimadura esofágica grave, e o inverso também ocorre. Usar a orofaringe como critério para dispensar a endoscopia engana quem busca um marcador clínico simples, e é justamente o raciocínio que resulta em estenoses diagnosticadas semanas depois, em pacientes liberados como assintomáticos.
Adolescente de 16 anos é levado por ingestão de grande quantidade de comprimidos há 30 minutos, consciente, orientado, com via aérea protegida e sem contraindicação. Qual medida de descontaminação pode ser considerada?
O carvão ativado é a descontaminação de escolha quando indicado, com maior rendimento na primeira hora e em paciente com via aérea protegida; não adsorve álcoois, hidrocarbonetos, metais como ferro e lítio, nem cáusticos. Xarope de ipeca foi abandonado por não melhorar desfecho e aumentar risco de aspiração, e a lavagem gástrica de rotina caiu pelo mesmo motivo, ficando restrita a situações muito selecionadas e precoces. Oferecer leite é conduta popular sem respaldo e pode atrapalhar a avaliação endoscópica em cáusticos.
Lactente de 6 meses em uso de digoxina apresenta vômitos, recusa alimentar, letargia e bradicardia com bloqueio atrioventricular ao eletrocardiograma. Qual é a hipótese?
A digoxina tem janela terapêutica estreita, e a intoxicação se manifesta por sintomas digestivos, letargia e distúrbios de condução, sendo precipitada por hipocalemia, hipomagnesemia e queda da função renal — daí a necessidade de monitorar eletrólitos e função renal em quem a utiliza. Atribuir os sintomas à progressão da miocardite engana porque ambos cursam com vômitos e prostração, mas a bradicardia com bloqueio aponta para o efeito da droga, e não para a doença de base.
Adolescente de 15 anos é trazido após ingestão de cerca de 20 comprimidos de paracetamol há 5 horas, com intenção suicida. Está assintomático. Qual é a conduta?
A intoxicação por paracetamol é silenciosa nas primeiras 24 horas, e a N-acetilcisteína repõe glutationa, prevenindo a necrose hepática — sua eficácia é máxima nas primeiras 8 a 10 horas, o que torna a espera por sintomas o pior erro possível. A avaliação psiquiátrica é obrigatória em toda ingestão intencional. O carvão ativado é útil apenas nas primeiras horas, como adjuvante, e não substitui o antídoto.
Sobre a intoxicação por monóxido de carbono na vítima de incêndio, qual afirmação é correta?
O monóxido se liga à hemoglobina com afinidade muito maior que o oxigênio e forma um composto que o oxímetro convencional lê como se fosse hemoglobina oxigenada, produzindo saturação aparentemente normal em um paciente gravemente hipóxico. O diagnóstico exige a dosagem específica, e o tratamento é oxigênio na maior concentração possível, que acelera a dissociação, considerando-se a câmara hiperbárica em casos selecionados.
Menino de 4 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro 45 minutos após ingerir acidentalmente comprimidos de paracetamol, em dose estimada de 300 mg/kg. Está alerta, sem vômitos, com exame físico e sinais vitais normais. Quanto à descontaminação gastrointestinal, a conduta correta é:
O paracetamol é bem adsorvido pelo carvão ativado, e a janela em que a descontaminação muda alguma coisa é a primeira hora a duas horas após a ingestão, em paciente alerta e com via aérea protegida — exatamente o cenário descrito, ainda mais com dose muito acima do limiar de risco de 150 mg/kg. Recusar a descontaminação por medo de o carvão anular o antídoto é o erro mais comum: a interferência sobre a N-acetilcisteína é pequena, irrelevante com a formulação endovenosa, e jamais justifica perder a única janela útil. Lavagem gástrica não mostrou benefício na ingestão de comprimidos em criança alerta e ainda acrescenta risco de aspiração e trauma; o xarope de ipeca está abandonado há décadas pelos centros de toxicologia, por atrasar o carvão e provocar vômitos prolongados. Esperar o nível sérico da quarta hora confunde duas decisões diferentes: o nível serve para indicar o antídoto pelo nomograma, enquanto a descontaminação precisa acontecer agora, porque perde o valor assim que a absorção se completa.
Mulher de 24 anos é levada ao pronto-atendimento 12 horas após ingestão intencional de 20 comprimidos de paracetamol de 750 mg. Está lúcida, com náuseas e dor epigástrica. PA 112 x 70 mmHg, FC 90 bpm. Exames iniciais: AST 480 U/L, ALT 520 U/L, INR 1,4, creatinina normal. Qual é a conduta imediata?
A N-acetilcisteína é o antídoto da intoxicação por paracetamol e mantém benefício mesmo administrada tardiamente, sobretudo quando já há elevação de transaminases e alteração da coagulação, como no caso. Carvão ativado só é útil nas primeiras horas e, isoladamente, não substitui o antídoto. Aguardar 24 horas permite a progressão da necrose hepatocelular quando o tratamento poderia limitar o dano. A hemodiálise é reservada a intoxicações maciças com acidose e coma, não sendo a medida inicial nesse quadro.
Mulher de 32 anos ingere acidentalmente solução de soda cáustica e chega ao pronto-socorro 1 hora depois, com odinofagia, sialorreia e lesões orais. Está estável, sem sinais de perfuração. Qual é a conduta inicial correta?
Na ingestão de cáustico, o manejo inclui jejum, suporte clínico e endoscopia precoce, em geral nas primeiras 24 horas, para classificar a lesão e orientar prognóstico e conduta. Indução de vômito reexpõe o esôfago ao agente e aumenta o risco de perfuração e aspiração. Neutralização química gera reação exotérmica e agrava a lesão. Sondagem às cegas pode perfurar tecido lesado e é contraindicada nesse contexto.
Homem de 36 anos, aplicador de agrotóxicos, chega à Unidade de Pronto Atendimento com náuseas, vômitos, sudorese profusa, sialorreia, lacrimejamento, dor abdominal e diarreia, iniciados 2 horas após pulverização sem equipamento de proteção. Ao exame: miose puntiforme, bradicardia de 48 bpm, broncorreia e fasciculações. Consciente, mas confuso. Qual é a conduta imediata?
A síndrome colinérgica com miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia e fasciculações em exposição a organofosforados exige descontaminação, atropina titulada até controle das secreções e consideração de oxima, com suporte ventilatório à disposição. Naloxona reverte opioides, que não causam fasciculações nem broncorreia desse padrão. Carvão ativado isolado não trata a crise colinérgica instalada. Benzodiazepínico é adjuvante em convulsões, mas não substitui o antídoto.
Mulher de 19 anos é levada à Unidade de Pronto Atendimento 4 horas após ingestão intencional de 20 comprimidos de paracetamol de 500 mg. Está consciente, com náuseas e vômitos, sem icterícia. Sinais vitais estáveis. Não ingeriu outras substâncias e não usa álcool. Exames laboratoriais em coleta. O serviço dispõe de antídoto específico. Qual é a conduta correta?
Ingestão de dose potencialmente tóxica de paracetamol indica N-acetilcisteína o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras oito a dez horas, período em que a proteção hepática é máxima, sem aguardar alteração laboratorial. Esperar a elevação das transaminases significa tratar quando a lesão já ocorreu. Flumazenil antagoniza benzodiazepínicos e não tem qualquer papel aqui. Observação isolada com alta pela ausência de icterícia desconsidera a evolução tardia da hepatotoxicidade.
Homem de 33 anos, trabalhador rural, é levado à Unidade de Pronto Atendimento cerca de duas horas após pulverizar lavoura de tomate sem equipamento de proteção. Apresenta náuseas, vômitos, sudorese profusa, cólicas abdominais e visão turva. Ao exame, encontra-se sonolento, com pupilas puntiformes, sialorreia intensa, frequência cardíaca de 48 bpm, pressão arterial de 96 x 58 mmHg, frequência respiratória de 26 irpm e estertores bolhosos difusos. Saturação de 89% em ar ambiente e glicemia capilar de 104 mg/dL. Além do suporte ventilatório e da descontaminação, a conduta é:
Síndrome colinérgica com miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia e rebaixamento após exposição a organofosforado exige atropina titulada, tendo como alvo a secagem das secreções brônquicas — a broncorreia é a causa de morte —, associada à pralidoxima como reativador de colinesterase, além de descontaminação e suporte ventilatório. Naloxona reverte opioides, que não causam sialorreia, broncorreia nem fasciculações. Flumazenil não tem papel e pode precipitar convulsões. Bicarbonato serve à intoxicação por antidepressivos tricíclicos e a distúrbios ácido-básicos específicos, não sendo antídoto nesse caso. O caso também é de notificação compulsória.
Homem de 42 anos é trazido à Unidade de Pronto Atendimento por familiares cerca de 12 horas depois de ingerir bebida destilada de procedência clandestina em uma festa. Queixa-se de dor abdominal, náuseas e, sobretudo, de visão borrada, referindo enxergar como se estivesse dentro de uma nevasca. Ao exame: sonolento, taquipneico, pressão arterial 110x70 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, pupilas midriáticas e pouco reativas. Gasometria arterial: pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, ânion gap de 26. Considerando a principal hipótese diagnóstica, qual é a conduta específica indicada?
A acidose metabólica grave com ânion gap elevado e distúrbio visual após ingestão de destilado clandestino caracteriza intoxicação por metanol: o tratamento é bloquear a álcool-desidrogenase com etanol ou fomepizol e remover o tóxico e o formato por hemodiálise, indicada pela acidose refratária e pela alteração visual. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol, que não cursa com amaurose nem com esse padrão de acidose precoce. O azul de metileno trata metemoglobinemia, na qual há cianose que não responde ao oxigênio e sangue achocolatado, ausentes aqui. Descontaminação gástrica não tem papel 12 horas após a ingestão de álcool, já completamente absorvido, e o carvão ativado não adsorve álcoois.
Adolescente de 16 anos é levada ao pronto-atendimento pela mãe quatro horas depois de ingerir, em tentativa de autoextermínio, cerca de 25 comprimidos de paracetamol de 750 mg. Está consciente, orientada e refere apenas náuseas, com dois episódios de vômito. Sinais vitais: pressão arterial 112x68 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm, saturação de oxigênio 98% em ar ambiente. Ao exame não há icterícia e o abdome é indolor. Transaminases e tempo de protrombina ainda normais. Além do acolhimento em saúde mental e da notificação, qual é a conduta medicamentosa prioritária?
Na intoxicação por paracetamol a lesão hepática só aparece após 24 a 48 horas, e o antídoto é tanto mais eficaz quanto mais precoce: com dose tóxica ingerida há quatro horas, a N-acetilcisteína deve ser iniciada de imediato, guiada pelo nomograma quando a dosagem sérica estiver disponível. Esperar a alta das transaminases significa tratar quando a necrose já se instalou, justamente o erro que o protocolo pretende evitar. O flumazenil é antídoto de benzodiazepínicos e não tem qualquer ação sobre o paracetamol. A hemodiálise fica reservada a ingestão maciça com nível sérico muito elevado, acidose e coma, situação distinta da paciente estável descrita.
Trabalhador rural de 35 anos chega à Unidade de Pronto Atendimento cerca de uma hora depois de aplicar inseticida em lavoura sem equipamento de proteção individual. Apresenta sudorese profusa, sialorreia, lacrimejamento, vômitos, diarreia e dispneia progressiva. Ao exame: confuso, pupilas puntiformes, frequência cardíaca 48 bpm, pressão arterial 100x60 mmHg, frequência respiratória 28 irpm, ausculta pulmonar com estertores bolhosos difusos e fasciculações musculares em coxas. Qual é o antídoto que deve ser administrado imediatamente, titulado até a redução das secreções brônquicas?
A síndrome colinérgica muscarínica e nicotínica após exposição a inseticida organofosforado exige atropina em doses crescentes e repetidas, tendo como alvo terapêutico a secagem das secreções brônquicas, principal causa de morte por insuficiência respiratória. A naloxona reverte opioides, que também cursam com miose mas provocam pele seca, bradipneia e ausência de secreções e fasciculações. O flumazenil antagoniza benzodiazepínicos, sem qualquer efeito sobre a acetilcolinesterase inibida. O azul de metileno é reservado à metemoglobinemia, na qual predomina cianose refratária ao oxigênio, e não traz benefício na crise colinérgica.
Homem de 28 anos é admitido na sala de emergência com síndrome colinérgica após exposição a agrotóxico durante pulverização. Chegou com as roupas de trabalho encharcadas do produto, com odor forte, e a equipe iniciou atropina endovenosa. Sinais vitais: pressão arterial 96x58 mmHg, frequência cardíaca 52 bpm, saturação de oxigênio 90% sob máscara. Um técnico de enfermagem que manipulou o paciente passou a referir náuseas e lacrimejamento. Qual é a medida que deve ser adotada de imediato, em paralelo à atropinização?
Os organofosforados são lipossolúveis e continuam a ser absorvidos pela pele e pelos cabelos enquanto o paciente permanecer com roupas contaminadas, o que perpetua o envenenamento e ainda intoxica a equipe, exatamente o que sugere o mal-estar do técnico: a descontaminação externa com água e sabão, feita por profissionais paramentados, é prioridade junto com o antídoto. Preservar as roupas para perícia não se sobrepõe ao risco de vida e à contaminação ocupacional, pois o material pode ser acondicionado depois de retirado. O carvão ativado atua apenas sobre o que foi ingerido e não interrompe a via dérmica, predominante neste caso. Corticoide tópico não cria barreira à absorção e apenas atrasa a medida efetiva.
Mulher de 28 anos, em tratamento de depressão com amitriptilina, é trazida ao pronto-socorro pelo serviço de urgência duas horas após ingestão intencional de grande quantidade de comprimidos. Encontra-se torporosa, com pele seca e quente, mucosas secas, midríase e globo vesical palpável. Sinais vitais: pressão arterial 88x54 mmHg, frequência cardíaca 128 bpm, saturação de oxigênio 94%. O eletrocardiograma mostra taquicardia de complexo largo, com QRS de 140 ms e onda R proeminente em aVR. Além do suporte ventilatório e da expansão volêmica, qual é a medida específica indicada?
O alargamento do QRS com onda R proeminente em aVR traduz bloqueio dos canais rápidos de sódio pelo antidepressivo tricíclico, e o bicarbonato de sódio é a medida que reverte esse bloqueio ao aumentar o gradiente de sódio e alcalinizar o meio, prevenindo arritmia ventricular e melhorando a hipotensão. A fenitoína também bloqueia canais de sódio e pode agravar a cardiotoxicidade. O flumazenil é antídoto de benzodiazepínico e, em intoxicação mista com tricíclico, favorece convulsão de difícil controle. A amiodarona prolonga o intervalo QT e piora a instabilidade elétrica já induzida pela droga, sendo formalmente evitada.
Homem de 62 anos, em uso crônico de clonazepam para insônia há oito anos, é levado à Unidade de Pronto Atendimento pela filha por sonolência progressiva depois de tomar comprimidos a mais na noite anterior. Está sonolento, mas desperta ao chamado vigoroso e mantém vias aéreas pérvias, sem roncos. Sinais vitais: pressão arterial 118x72 mmHg, frequência cardíaca 72 bpm, frequência respiratória 14 irpm, saturação de oxigênio 95% em ar ambiente, glicemia capilar 96 mg/dL. O plantonista pergunta se deve prescrever flumazenil. Qual é a conduta mais adequada?
Na intoxicação isolada por benzodiazepínico em paciente com via aérea protegida e ventilação adequada, o tratamento é de suporte, com observação até a recuperação; o flumazenil é evitado em usuário crônico porque a reversão abrupta precipita convulsão por abstinência, de difícil controle justamente porque o antagonista bloqueia o receptor usado no resgate. Administrar flumazenil em bolus é o erro que a situação testa. A naloxona não tem ação sobre benzodiazepínicos e o quadro não mostra miose puntiforme nem bradipneia de opioide. A lavagem gástrica não está indicada horas após a ingestão e expõe o paciente sonolento à broncoaspiração.
Homem de 30 anos é encontrado inconsciente em via pública e levado à Unidade de Pronto Atendimento por transeuntes. Ao exame: escala de coma de Glasgow 7, pupilas puntiformes e simétricas, frequência respiratória 6 irpm com respiração superficial, saturação de oxigênio 82% em ar ambiente, pressão arterial 100x60 mmHg, frequência cardíaca 58 bpm, temperatura axilar 36,2 °C e glicemia capilar de 104 mg/dL. Há marcas de punção venosa recente em ambos os antebraços. Após abertura de via aérea e ventilação com bolsa-válvula-máscara, qual é o antídoto indicado?
A tríade de rebaixamento do sensório, miose puntiforme e depressão respiratória, em paciente com marcas de punção venosa, define intoxicação por opioide, revertida pela naloxona titulada até a recuperação da ventilação. O flumazenil trata benzodiazepínico, cuja intoxicação isolada raramente cursa com miose puntiforme e depressão respiratória tão intensa, e pode desencadear convulsão. A atropina é antídoto da síndrome colinérgica, que traz sialorreia, broncorreia, diarreia e fasciculações, ausentes aqui. A N-acetilcisteína se aplica ao paracetamol, que não produz coma com miose nas primeiras horas.
Família de quatro pessoas chega à Unidade de Pronto Atendimento depois de passar a noite em quarto aquecido por equipamento a gás, com portas e janelas fechadas. Todos referem cefaleia intensa, náuseas e tontura, e a criança de 7 anos está sonolenta e irritada. Ao exame, os pacientes estão corados, sem cianose, com ausculta pulmonar normal e saturação de oxigênio de 98% na oximetria de pulso em ar ambiente. A carboxi-hemoglobina dosada em um dos adultos foi de 22%. Qual é a conduta imediata para todo o grupo?
Na intoxicação por monóxido de carbono a oximetria de pulso não distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina e por isso aparece falsamente normal; o tratamento é oxigênio em alta fração inspirada para todos os expostos, o que reduz a meia-vida do monóxido de várias horas para cerca de uma. Restringir o oxigênio aos mais graves ignora que o dano neurológico tardio ocorre também em sintomáticos leves e que a exposição foi coletiva. O azul de metileno trata metemoglobinemia e pode ser deletério aqui. A N-acetilcisteína não tem qualquer ação sobre a ligação do monóxido à hemoglobina.
Homem de 24 anos procura pronto-atendimento com cianose de lábios e extremidades iniciada há seis horas, tendo começado o uso de dapsona há uma semana para tratamento de hanseníase. Refere cefaleia e dispneia leve aos esforços. Ao exame: cianose central intensa, sem tiragem nem esforço respiratório, ausculta cardíaca e pulmonar normais, pressão arterial 122x76 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm. A oximetria de pulso registra 85% e não melhora com oxigênio a 100%; o sangue coletado tem coloração achocolatada e a gasometria arterial mostra PaO2 de 96 mmHg. Qual é o tratamento específico?
A dissociação entre cianose intensa com saturação baixa refratária ao oxigênio e PaO2 arterial normal, somada ao sangue achocolatado em paciente usando dapsona, é a assinatura da metemoglobinemia adquirida, tratada com azul de metileno, que reduz a metemoglobina de volta a hemoglobina funcionante. A câmara hiperbárica é alternativa quando o azul de metileno está contraindicado ou falha, e raramente está disponível na urgência. A N-acetilcisteína não corrige a hemoglobina oxidada. A transfusão pode ser recurso extremo em casos refratários, mas não trata o mecanismo e não antecede o antídoto.
Mulher de 45 anos chega ao pronto-socorro seis horas após ingerir grande quantidade de comprimidos de ácido acetilsalicílico em contexto de crise conjugal. Queixa-se de zumbido, náuseas e sudorese. Ao exame: agitada, taquipneica, com frequência respiratória de 32 irpm, frequência cardíaca 112 bpm, pressão arterial 124x74 mmHg e temperatura axilar de 38 °C. Gasometria arterial: pH 7,44, PaCO2 22 mmHg, bicarbonato 15 mEq/L. Salicilemia elevada, sem rebaixamento do sensório, com função renal preservada e potássio de 3,4 mEq/L. Qual é a conduta terapêutica adequada neste momento?
O padrão de alcalose respiratória com acidose metabólica associada, zumbido e hipertermia caracteriza intoxicação salicílica; a alcalinização do plasma e da urina com bicarbonato aprisiona o salicilato ionizado no túbulo e acelera sua eliminação, sendo obrigatório repor potássio, pois a hipocalemia impede a urina alcalina. A hemodiálise fica reservada a alteração do nível de consciência, edema agudo de pulmão, insuficiência renal, acidose refratária ou níveis muito elevados, condições ausentes nesta paciente. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol e não atua sobre o salicilato. Acidificar a urina faz exatamente o oposto do desejado, aumentando a reabsorção tubular do tóxico.
Homem de 27 anos chega ao pronto-socorro com dor torácica opressiva iniciada há 40 minutos, após uso de cocaína inalada em festa. Refere palpitações e ansiedade intensa, sem história prévia de doença cardíaca. Ao exame: agitado, sudoreico, com midríase, pressão arterial 178x104 mmHg, frequência cardíaca 132 bpm, temperatura axilar 37,8 °C e ausculta cardiopulmonar sem alterações. O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal com infradesnivelamento do segmento ST de 1 mm em parede anterior. Qual é a medicação de primeira escolha para o controle inicial do quadro?
Na dor torácica associada à cocaína o benzodiazepínico é a primeira escolha porque reduz simultaneamente a agitação, a frequência cardíaca, a pressão arterial e o consumo miocárdico de oxigênio, atuando sobre o estímulo adrenérgico central que origina o quadro. Betabloqueadores não seletivos ou seletivos são evitados nessa fase porque o bloqueio beta deixa a estimulação alfa sem oposição e pode agravar a vasoconstrição coronariana e a hipertensão. O haloperidol reduz o limiar convulsivo, prejudica a dissipação de calor e prolonga o intervalo QT, sendo desaconselhado na intoxicação por simpaticomimético.
O carvão ativado é a medida de descontaminação gastrointestinal mais utilizada nas intoxicações exógenas agudas atendidas nas unidades de urgência do SUS, mas sua eficácia depende do intervalo desde a ingestão, das propriedades físico-químicas da substância e das condições clínicas do paciente, sobretudo da proteção da via aérea. Considerando as recomendações dos centros de informação e assistência toxicológica e a segurança do procedimento, em qual das situações a seguir a administração de carvão ativado em dose única está indicada?
O carvão ativado tem melhor rendimento na primeira hora após a ingestão de substâncias orgânicas que ele adsorve bem, como os anticonvulsivantes, e exige paciente com nível de consciência preservado e via aérea protegida, condições reunidas apenas na ingestão recente de carbamazepina em paciente colaborativo. Em ingestão de cáustico o carvão é contraindicado porque não adsorve álcalis, atrapalha a endoscopia e pode agravar a lesão. Álcoois não são adsorvidos pelo carvão, e o paciente sonolento ainda corre risco de aspiração. Metais como o ferro também não são adsorvidos, e o quelante específico é a conduta indicada.
Homem de 44 anos é trazido à Unidade de Pronto Atendimento pela esposa cerca de seis horas depois de ingerir, com intenção suicida, comprimidos de um antipsicótico cujo nome ela desconhece. Encontra-se sonolento, mas responde ao chamado, com pressão arterial 108x64 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, frequência respiratória 16 irpm, saturação de oxigênio 96% em ar ambiente e reflexo de tosse presente. A família pergunta por que a equipe não vai lavar o estômago, procedimento que viram em outro serviço. Qual é a resposta tecnicamente correta?
A lavagem gástrica perdeu espaço porque remove fração pequena do tóxico e, passada cerca de uma hora da ingestão, não altera desfecho, além de expor a broncoaspiração, arritmia e lesão esofágica, de modo que a conduta correta é o suporte clínico com monitorização. Indicá-la por rotina em toda ingestão intencional é justamente a prática abandonada pelos protocolos toxicológicos. Desconhecer a substância não cria indicação, e sim reforça a necessidade de contato com o centro de informação toxicológica. O rebaixamento do sensório, longe de indicar a lavagem, é fator de risco para aspiração e exige via aérea protegida antes de qualquer descontaminação.
Homem de 47 anos, trabalhador rural que aplica agrotóxicos há quinze anos sem equipamento de proteção adequado, é levado à Unidade Básica de Saúde uma hora após pulverizar lavoura em dia quente. Apresenta náuseas, vômitos, sudorese profusa, sialorreia, cólicas abdominais e visão borrada. Ao exame: consciente, pupilas puntiformes, FC 52 bpm, PA 104x62 mmHg, FR 24 ipm, ausculta pulmonar com estertores bolhosos difusos, fasciculações em coxas. A conduta imediata mais adequada é:
Miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, fasciculações e vômitos após exposição a agrotóxico compõem a síndrome colinérgica por inibidor da colinesterase, cujo manejo imediato inclui descontaminação, suporte respiratório e atropina titulada até secar as secreções brônquicas, além de transporte para serviço de urgência para eventual uso de oxima. Carvão ativado isolado não trata a crise colinérgica instalada, que é ameaçadora à vida. Naloxona reverte opioides e não tem efeito sobre inibição de colinesterase, apesar da miose comum aos dois quadros. Adiar a atropina até o hospital retarda o único antídoto que controla a broncorreia responsável pela morte precoce.
Homem de 41 anos, trabalhador rural, é trazido ao pronto-atendimento cerca de uma hora após ingerir voluntariamente um produto usado na lavoura. Apresenta sialorreia intensa, lacrimejamento, vômitos, diarreia e dispneia. Ao exame encontra-se sudoreico, com pupilas puntiformes, FC 48 bpm, PA 92x58 mmHg, FR 28 ipm, saturação de 88% em ar ambiente e ausculta pulmonar com estertores difusos por broncorreia. A equipe já realizou a descontaminação com retirada das roupas e lavagem da pele. A conduta farmacológica imediata é:
O conjunto de miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, vômitos e diarreia caracteriza síndrome colinérgica por inibidor da colinesterase, e o antídoto é a atropina em doses crescentes e repetidas, tendo como alvo terapêutico a secagem das secreções brônquicas, principal causa de morte. Naloxona reverte opioide, que provoca miose e depressão respiratória, mas não gera hipersecreção nem diarreia. Flumazenil é antagonista de benzodiazepínico e pode desencadear convulsão em intoxicações mistas. Carvão ativado isolado não trata a crise colinérgica instalada e não substitui o antídoto.
Mulher de 26 anos é trazida pelo SAMU à emergência após ser encontrada inconsciente em via pública, com seringa ao lado. Ao exame apresenta Glasgow 7, pupilas puntiformes e pouco reativas, FR 6 ipm com respiração superficial, saturação de 82% em ar ambiente, PA 100x62 mmHg, FC 58 bpm, glicemia capilar 104 mg/dL e ausência de sinais de trauma. Foi instalada ventilação com bolsa-válvula-máscara e obtido acesso venoso periférico. A conduta imediata mais adequada é:
Rebaixamento do sensório com miose puntiforme e bradipneia forma a tríade da intoxicação por opioide, cujo antídoto é a naloxona, titulada até recuperar ventilação adequada sem precipitar abstinência grave. A intubação imediata pode ser evitada com o antídoto, ficando reservada à falha de resposta ou à impossibilidade de proteger a via aérea. Flumazenil trata intoxicação por benzodiazepínico, que não cursa com miose puntiforme e cuja reversão traz risco convulsivo. Glicose e tiamina se justificariam com hipoglicemia ou suspeita de Wernicke, mas a glicemia capilar está normal.
Mulher de 22 anos chega ao pronto-atendimento 6 horas após ingerir, com intenção suicida, cerca de 30 comprimidos de paracetamol de 750 mg. Está consciente, orientada, referindo náuseas e dor epigástrica, com PA 112x70 mmHg, FC 92 bpm, FR 16 ipm e temperatura axilar 36,4 °C. Exame abdominal com discreta dor à palpação em hipocôndrio direito, sem icterícia. Transaminases e tempo de protrombina ainda dentro da normalidade nesta primeira coleta. A conduta mais adequada neste momento é:
Na intoxicação por paracetamol, a N-acetilcisteína deve ser iniciada precocemente, idealmente nas primeiras 8 a 10 horas, quando ainda é máxima a proteção contra a necrose hepática; enzimas normais nesse intervalo são esperadas e não afastam a toxicidade. Esperar 24 horas por nova dosagem desperdiça a janela de maior eficácia do antídoto. Flumazenil não tem qualquer papel na intoxicação por paracetamol, e o encaminhamento psiquiátrico é necessário, porém após a estabilização clínica. Lavagem gástrica isolada, seis horas após a ingestão, não remove o fármaco já absorvido nem substitui o antídoto.
Lactente de 7 meses, em uso de digoxina por insuficiência cardíaca secundária a cardiopatia congênita, é levado ao pronto-atendimento com vômitos, recusa alimentar e sonolência há um dia. A mãe relata que, por engano, dobrou a dose nos últimos três dias. Ao exame, frequência cardíaca de 76 bpm, irregular, perfusão preservada e pressão arterial de 82 x 50 mmHg. O eletrocardiograma mostra bradiarritmia com bloqueio atrioventricular de segundo grau e infradesnivelamento do segmento ST em concavidade. Potássio de 5,9 mEq/L. A conduta inicial correta é:
Vômitos, sonolência, bradiarritmia com bloqueio atrioventricular e hipercalemia em criança que recebeu dose dobrada de digoxina configuram intoxicação digitálica; a conduta é suspender o fármaco, monitorizar continuamente o ritmo, corrigir eletrólitos e considerar o anticorpo específico conforme gravidade da arritmia e dos níveis. Aumentar a dose agravaria a intoxicação. O cálcio endovenoso é evitado na hipercalemia por digitálicos, pelo risco de agravar a toxicidade cardíaca. Liberar para casa com antiemético desconsidera arritmia potencialmente fatal em curso.
Homem de 29 anos chega à Unidade de Pronto Atendimento agitado e agressivo, trazido por familiares, após uso de cocaína nas últimas horas. Ao exame, encontra-se hipervigilante, com discurso acelerado, midríase, sudorese, temperatura axilar de 38,4 °C, frequência cardíaca de 138 bpm, pressão arterial de 186 x 108 mmHg e dor torácica de leve intensidade. Eletrocardiograma sem supradesnivelamento do segmento ST. Sem sinais focais neurológicos e glicemia capilar normal. A conduta farmacológica inicial adequada é:
Na intoxicação por cocaína, o benzodiazepínico é a base do tratamento, pois controla agitação, hipertensão, taquicardia e reduz o risco de convulsão e de eventos isquêmicos. O betabloqueador isolado é evitado nesse cenário pelo risco de estímulo alfa sem oposição, com piora da hipertensão e do vasoespasmo coronariano. Haloperidol em dose alta reduz o limiar convulsivo e prejudica a termorregulação, agravando a hipertermia. Antitérmico isolado não trata a hiperatividade adrenérgica, e observar sem sedação mantém o paciente em risco cardiovascular e de rabdomiólise.
Homem de 32 anos é trazido à Unidade de Pronto Atendimento por amigos após ser encontrado sonolento em uma festa. Ao exame, encontra-se torporoso, com frequência respiratória de 6 irpm, pupilas puntiformes, saturação de 82% em ar ambiente, pressão arterial de 100 x 64 mmHg e frequência cardíaca de 58 bpm. Não há sinais de trauma, e a glicemia capilar é de 96 mg/dL. Os amigos relatam que ele usou um comprimido que compraram como analgésico forte. A conduta imediata correta é:
Depressão do nível de consciência, bradipneia acentuada e miose puntiforme compõem a tríade da intoxicação por opioides, cuja prioridade é assegurar via aérea e ventilação, seguida de naloxona titulada até a recuperação da ventilação adequada, com vigilância pelo risco de re-sedação, já que a meia-vida do antagonista pode ser menor que a do opioide. Flumazenil reverte benzodiazepínicos e pode precipitar convulsões. Lavagem gástrica não é prioridade e é perigosa sem proteção de via aérea. Apenas observar, com frequência respiratória de 6 irpm e hipoxemia, expõe a parada respiratória iminente.
Mulher de 36 anos é atendida na Unidade Básica de Saúde após ingerir, há 40 minutos, quantidade desconhecida de produto de limpeza à base de soda cáustica, em tentativa de autoextermínio. Está consciente, com dor intensa em orofaringe e retroesternal, sialorreia e disfagia. Ao exame: lesões esbranquiçadas em mucosa oral, voz preservada, sem estridor, FR 20 ipm, saturação 96%, PA 118x76 mmHg, FC 100 bpm, abdome sem sinais de irritação peritoneal. A conduta correta é:
Na ingestão de cáusticos, indução de vômito é contraindicada, pois reexpõe a mucosa ao agente e aumenta o risco de perfuração e aspiração; a conduta é jejum, atenção à via aérea, analgesia e encaminhamento urgente para avaliação endoscópica hospitalar, além do cuidado em saúde mental diante da tentativa de autoextermínio. Neutralização química com ácidos gera reação exotérmica e agrava a lesão. Liberar a paciente ignora tanto o risco de estenose e perfuração quanto o risco de nova tentativa, que exige avaliação e plano de segurança.
Homem de 71 anos, com apneia obstrutiva do sono, está no primeiro dia de pós-operatório de prostatectomia, recebendo morfina para dor. A enfermagem chama a equipe porque o paciente está muito sonolento. Ao exame, encontra-se pouco responsivo ao chamado, com frequência respiratória de 7 irpm, saturação de 86% em ar ambiente, pupilas puntiformes, pressão arterial de 108 x 66 mmHg e frequência cardíaca de 62 bpm. Glicemia capilar normal e sem sinais neurológicos focais. A conduta imediata é:
Sonolência, bradipneia, hipoxemia e miose puntiforme em paciente recebendo morfina, com apneia obstrutiva do sono como fator de risco, indicam depressão respiratória por opioide; a conduta é suspender o fármaco, estimular, garantir oxigenação e ventilação e administrar naloxona titulada, com vigilância pelo risco de re-sedação. Aumentar o opioide agrava a depressão respiratória. Flumazenil reverte benzodiazepínicos, não opioides. Tomografia de crânio atrasa uma intervenção simples e imediatamente eficaz diante de um quadro com explicação evidente.
Homem de 71 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial em uso de digoxina, furosemida e enalapril, é levado ao pronto-socorro com náuseas, vômitos, anorexia e alteração visual, referindo enxergar halos amarelados. Iniciou espironolactona há duas semanas em outro serviço. Ao exame: confuso, PA 118x74 mmHg, FC 46 bpm irregular, sem congestão importante. Eletrocardiograma com bradiarritmia e infradesnivelamento em colher do segmento ST. Exames: potássio 5,8 mEq/L, creatinina 2,0 mg/dL, previamente 1,3 mg/dL. A hipótese e a conduta corretas são:
Náuseas, anorexia, alterações visuais com halos amarelados, bradiarritmia e infradesnivelamento em colher, em paciente que teve piora da função renal e hipercalemia após introdução de espironolactona, caracterizam intoxicação digitálica; a conduta é suspender a digoxina, corrigir a hipercalemia e a função renal, monitorizar o ritmo e considerar anticorpo antidigoxina em casos graves. O infradesnivelamento em colher é efeito digitálico, não isquemia. Marca-passo não trata a causa tóxica. Manter as medicações perpetua a intoxicação, que pode ser fatal.
Homem de 34 anos, usuário de cocaína, é levado ao pronto-socorro com dor torácica intensa iniciada há duas horas, após uso da substância. Ao exame: agitado, PA 182x108 mmHg, FC 128 bpm, sudorese, pupilas midriáticas, ausculta cardíaca sem sopros, ausculta pulmonar limpa, saturação 97%, sem déficits neurológicos. Eletrocardiograma com taquicardia sinusal e infradesnivelamento discreto do segmento ST em derivações laterais. Exames: troponina discretamente elevada, creatinoquinase elevada, função renal preservada, eletrólitos normais. A conduta farmacológica correta é:
Na dor torácica associada à cocaína, o benzodiazepínico reduz o tônus adrenérgico e a pressão, sendo primeira linha, associado a nitrato e, se necessário, antagonista de canal de cálcio, evitando-se o betabloqueador nesta fase pelo risco de estímulo alfa sem oposição, com vasoconstrição coronariana e piora da hipertensão. Analgesia isolada com alta ignora isquemia miocárdica em curso. Trombólise não é indicada de forma automática e exige critérios eletrocardiográficos específicos, ausentes neste traçado.
Homem de 55 anos é levado ao pronto-socorro por familiares após ingestão intencional de grande quantidade de comprimidos de betabloqueador há duas horas. Ao exame: sonolento, PA 76x44 mmHg, FC 38 bpm, extremidades frias, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, ausculta pulmonar limpa, sem estase jugular, glicemia capilar 62 mg/dL. Eletrocardiograma mostra bradicardia sinusal com intervalo PR alargado e QRS estreito. Exames: potássio 4,0 mEq/L, função renal normal, lactato elevado. Foram administrados atropina e cristaloide, sem resposta hemodinâmica adequada. A conduta específica correta é:
Na intoxicação grave por betabloqueador refratária à atropina, o glucagon estimula a produção de monofosfato cíclico de adenosina por via independente do receptor beta, e a terapia com insulina em alta dose associada a glicose melhora o desempenho miocárdico, complementadas por vasoativos e marca-passo quando necessário. Repetir atropina sem resposta prévia não altera o desfecho. Administrar mais betabloqueador agravaria a intoxicação. Desfibrilação não tem qualquer papel em bradicardia, que não é ritmo chocável.
Homem de 70 anos, com fibrilação atrial permanente e insuficiência cardíaca, é atendido em ambulatório com queixa de cansaço e dispneia. Ele usa digoxina, furosemida, carvedilol e apixabana. Refere náuseas ocasionais e perda de apetite nas últimas semanas. Ao exame: PA 118x72 mmHg, FC 56 bpm irregular, sem congestão importante, edema maleolar discreto. Exames: creatinina 2,0 mg/dL, previamente 1,3 mg/dL, potássio 5,0 mEq/L, sódio 137 mEq/L, hemoglobina 11,8 g/dL. Eletrocardiograma com bradiarritmia e infradesnivelamento côncavo do segmento ST. A conduta mais adequada é:
Náuseas, anorexia, bradiarritmia e alterações eletrocardiográficas típicas em paciente com piora da função renal usando digoxina apontam intoxicação digitálica, já que o fármaco tem excreção renal e janela terapêutica estreita, exigindo suspensão, dosagem sérica quando disponível, correção da função renal e reavaliação da indicação. Aumentar a dose agrava a intoxicação. Tratar apenas as náuseas mascara o quadro. Retirar o carvedilol e manter a digoxina preserva justamente o fármaco tóxico e elimina outro com benefício prognóstico.
Homem de 41 anos chega ao pronto-socorro cerca de 1 hora após ingerir, em tentativa de suicídio, produto de limpeza alcalino concentrado. Refere dor intensa em boca, garganta e retroesternal, com sialorreia e dificuldade para engolir. Ao exame apresenta PA 128x80 mmHg, FC 108 bpm, saturação de 96% em ar ambiente, lesões esbranquiçadas em lábios e orofaringe, sialorreia abundante, sem estridor e sem sinais de perfuração à radiografia inicial de tórax e abdome. A conduta correta é:
Na ingestão de cáustico, a conduta é jejum, analgesia, suporte, avaliação endoscópica precoce para estadiar a lesão e vigilância rigorosa da via aérea, sendo formalmente contraindicados a indução de vômito, a neutralização química e a lavagem gástrica às cegas. Induzir vômito reexpõe o esôfago ao agente e aumenta o risco de perfuração e aspiração. Neutralizar com ácido gera reação exotérmica e agrava a lesão. Sonda às cegas pode perfurar tecido já lesado.
Homem de 44 anos é atendido no pronto-socorro com dispneia, tosse e sensação de queimação em vias aéreas após inalação de vapores de produto de limpeza contendo cloro em ambiente fechado, há duas horas. Ao exame: taquipneico, FR 30 ipm, saturação 91% em ar ambiente, ausculta com sibilos difusos, hiperemia conjuntival, irritação de orofaringe, sem estridor, sem lesões cutâneas de queimadura. Radiografia de tórax sem infiltrados no momento. Exames: gasometria com hipoxemia leve, sem acidose. Ele não tem antecedentes respiratórios prévios e nega tabagismo. A conduta correta é:
Inalação de gases irritantes exige remoção da exposição, oxigenoterapia, broncodilatador para o broncoespasmo e observação prolongada, pois o edema pulmonar pode instalar-se horas após a exposição, mesmo com radiografia inicial normal. Liberar o paciente com base em radiografia normal precoce ignora esse risco. Antibiótico não trata lesão química das vias aéreas. Lavagem gástrica e carvão ativado são medidas para intoxicações por ingestão e não têm qualquer papel na exposição inalatória.
Homem de 52 anos, com doença pulmonar obstrutiva crônica, é atendido no pronto-socorro com dispneia e confusão. Ele foi encontrado em casa com queimadores a gás ligados por várias horas em ambiente fechado, durante uma noite fria. Ao exame: confuso, cefaleia intensa referida, PA 128x78 mmHg, FC 108 bpm, FR 24 ipm, saturação por oximetria de pulso de 98% em ar ambiente, ausculta pulmonar sem alterações importantes, pele sem cianose evidente. Exames: gasometria com pressão parcial de oxigênio normal, acidose metabólica leve com lactato elevado, carboxi-hemoglobina muito elevada. A conduta correta é:
Cefaleia, confusão e acidose láctica após exposição a combustão em ambiente fechado, com oximetria de pulso falsamente normal e carboxi-hemoglobina elevada, caracterizam intoxicação por monóxido de carbono, exigindo oxigênio a alta concentração imediatamente, que acelera a dissociação da carboxi-hemoglobina, e consideração de câmara hiperbárica conforme critérios. A oximetria de pulso não distingue oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina. Broncodilatador não trata a intoxicação. Aguardar exames retarda o antídoto, que é o próprio oxigênio.
Mulher de 44 anos, com doença renal crônica estágio 3, é atendida no pronto-socorro com náuseas, vômitos e dor abdominal há um dia. Ela ingeriu grande quantidade de bebida destilada adulterada em uma festa. Ao exame: taquipneica, PA 108x66 mmHg, FC 108 bpm, FR 30 ipm, sem edema, sem sinais focais, visão referida como turva. Exames: pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, ânion gap muito elevado, hiato osmolar elevado, creatinina 2,4 mg/dL, lactato normal, glicemia normal, cetonúria negativa. A hipótese mais provável é:
Acidose metabólica com ânion gap elevado, hiato osmolar aumentado, lactato normal e alteração visual após ingestão de bebida adulterada caracteriza intoxicação por álcool tóxico, situação que exige antídoto específico e frequentemente diálise. Cetoacidose diabética cursa com hiperglicemia e cetonúria positiva. Acidose láctica exigiria lactato elevado. Acidose tubular renal cursa com ânion gap normal e hiperclorêmica, sendo essa distinção decisiva para o raciocínio diagnóstico do caso.
Uma equipe de saúde da família investiga o aumento de casos de intoxicação em trabalhadores rurais do território, com quadros de náuseas, cefaleia, sudorese, sialorreia e miose ocorridos após aplicação de defensivos agrícolas sem uso de equipamentos de proteção adequados. Muitos trabalhadores relatam que os produtos são armazenados dentro das residências e que as roupas usadas na aplicação são lavadas junto com as demais peças da família, incluindo roupas de crianças pequenas. A conduta correta inclui:
As intoxicações por agrotóxicos são agravos de notificação compulsória e exigem tratamento clínico, afastamento da exposição, notificação e acionamento da vigilância em saúde do trabalhador e ambiental, com ações sobre armazenamento, uso de equipamentos adequados, destino de embalagens e proteção das famílias expostas indiretamente. Tratar e devolver ao trabalho mantém a exposição. Máscara comum não protege contra esses produtos. Negar o nexo ocupacional impede intervenções coletivas e a proteção de outros trabalhadores.
Gestante de 28 anos, com 26 semanas, é levada ao pronto-atendimento após ingestão intencional de grande quantidade de paracetamol há cerca de quatro horas, em contexto de sofrimento psíquico. Ela está consciente, orientada, com náuseas e vômitos, pressão arterial de 112x70 mmHg e frequência cardíaca de 92 bpm. O exame obstétrico é normal, com batimentos cardiofetais presentes e sem contrações. Os exames iniciais mostram transaminases normais e a equipe discute o antídoto e o cuidado em saúde mental. A conduta correta é
Na intoxicação por paracetamol, a N-acetilcisteína é o antídoto indicado e seguro na gestação, com maior eficácia quanto mais precoce a administração, devendo ser associada à avaliação de saúde mental e à vigilância do risco de suicídio, causa importante de morte materna. Evitar o antídoto expõe mãe e feto à hepatotoxicidade. Aguardar elevação de transaminases retarda o tratamento e piora o prognóstico. Resolver a gestação antes de tratar a intoxicação não corrige a lesão hepática materna.
Mulher de 48 anos é atendida no pronto-socorro com dispneia e cianose de lábios e extremidades há duas horas, após uso de anestésico tópico em procedimento odontológico. Ao exame: cianose central e periférica evidente, PA 128x78 mmHg, FC 108 bpm, FR 26 ipm, saturação por oximetria de pulso de 85% que não melhora com oxigênio suplementar, ausculta pulmonar limpa, sem sinais de insuficiência cardíaca. Exames: gasometria arterial com pressão parcial de oxigênio normal, sangue com coloração achocolatada, nível de metemoglobina elevado, hemoglobina 13,2 g/dL. A conduta correta é:
Cianose com saturação por oximetria que não melhora com oxigênio, pressão parcial de oxigênio normal na gasometria, sangue achocolatado e metemoglobina elevada após exposição a anestésico tópico caracteriza metemoglobinemia, cujo tratamento específico é o azul de metileno, além da suspensão do agente. Aumentar oxigênio não corrige a hemoglobina alterada. Transfusão não é conduta inicial. Tromboembolismo pulmonar não produz sangue achocolatado nem dissociação entre oximetria e gasometria.
Homem de 47 anos é atendido no pronto-socorro com fraqueza, dor abdominal e alterações do comportamento há semanas. Ele trabalha em reciclagem de baterias sem proteção adequada há cinco anos. Ao exame: palidez, linha azulada na margem gengival, dor abdominal difusa sem sinais de irritação peritoneal, fraqueza de extensores de punho bilateralmente, sem visceromegalias. Exames: hemoglobina 9,6 g/dL, volume corpuscular médio 76 fL, esfregaço com pontilhado basófilo grosseiro nas hemácias, ferritina normal, saturação de transferrina normal, chumbo sérico muito elevado. A conduta correta é:
Anemia microcítica com pontilhado basófilo grosseiro, linha gengival azulada, dor abdominal, neuropatia motora com fraqueza de extensores e chumbo sérico muito elevado, em trabalhador de reciclagem de baterias, caracteriza intoxicação por chumbo, exigindo afastamento imediato da exposição, quelação conforme protocolo e notificação. Manter a exposição perpetua a intoxicação. Repor ferro isoladamente não trata o quadro, pois os estoques estão normais. Analgesia isolada ignora a intoxicação sistêmica.
Mulher de 29 anos é resgatada de incêndio em apartamento fechado e levada à sala de emergência. Apresenta queimaduras superficiais em apenas 4% da superfície corporal, mas está confusa, com cefaleia intensa, náuseas e tontura. PA 118x74 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 irpm. A oximetria de pulso mostra saturação de 99% em ar ambiente, mas a gasometria arterial revela pressão parcial de oxigênio normal com carboxi-hemoglobina de 26%. A ausculta pulmonar é limpa e não há estridor. Qual é a conduta imediata?
Carboxi-hemoglobina de 26% em vítima de incêndio em ambiente fechado, com cefaleia, náusea e confusão, define intoxicação por monóxido de carbono, tratada com oxigênio a 100% em máscara não reinalante, que reduz a meia-vida do complexo de cerca de cinco horas para pouco mais de uma. A oximetria de pulso não distingue oxi de carboxi-hemoglobina e por isso é falsamente normal, o que torna perigoso manter a paciente em ar ambiente. Hidroxocobalamina é o antídoto do cianeto, suspeitado quando há acidose láctica grave e instabilidade desproporcional. A tomografia pode ser considerada depois, mas não precede o tratamento com oxigênio.
Homem de 44 anos é resgatado de incêndio em fábrica de estofados e chega à sala de emergência 25 minutos depois. Tem queimaduras em 10% da superfície corporal e fuligem em orofaringe. Está torporoso, com PA 78x44 mmHg e FC 132 bpm, sem sangramento aparente e sem sinais de trauma. A gasometria arterial mostra pH 7,04, bicarbonato 10 mEq/L e lactato de 14 mmol/L, com saturação venosa central elevada. A carboxi-hemoglobina é de 8%. A hipotensão persiste após 2 litros de cristaloide. Qual é a conduta específica indicada?
Acidose metabólica grave com lactato muito elevado, saturação venosa central alta e choque refratário em vítima de incêndio com fuligem, sem carboxi-hemoglobina que justifique o quadro, sugere intoxicação por cianeto, que bloqueia a cadeia respiratória mitocondrial; a hidroxocobalamina é o antídoto de escolha. O azul de metileno trata meta-hemoglobinemia, que cursa com cianose refratária ao oxigênio e sangue achocolatado. Naloxona reverte opioide, sem relação com o contexto. Bicarbonato pode ser adjuvante, mas corrigir apenas o pH sem tratar a causa não restabelece o metabolismo celular.
Um homem de 33 anos é levado por policiais ao pronto-socorro após ser detido em aeroporto, com suspeita de transporte de drogas no trato digestivo. Está assintomático, com sinais vitais normais, abdome flácido e sem dor. A tomografia mostra múltiplos pacotes bem delimitados, com invólucro íntegro, distribuídos no estômago e no intestino delgado, sem sinais de obstrução ou extravasamento de conteúdo. A contagem estimada é de 45 pacotes, ele nega agitação, sudorese ou palpitações e a monitorização mostra ritmo sinusal, com pupilas normorreativas. Qual é a conduta mais adequada?
No portador assintomático de pacotes íntegros, a conduta padrão é a observação em ambiente monitorado com eliminação espontânea assistida por laxantes suaves, reservando-se a cirurgia para obstrução, perfuração ou sinais de intoxicação por ruptura, situação de altíssima letalidade. Laparotomia sistemática expõe a morbidade desnecessária. A remoção endoscópica arrisca romper o invólucro durante a apreensão do pacote. Eméticos podem provocar ruptura e intoxicação maciça.
Mulher de 24 anos é levada à sala de emergência 90 minutos após ingestão intencional de comprimidos de amitriptilina. Está sonolenta, com pupilas midriáticas, pele seca e quente e retenção urinária. PA 84x50 mmHg, FC 128 bpm. O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal com QRS de 130 ms e onda R proeminente em aVR. A glicemia capilar é de 96 mg/dL e a saturação está adequada em ar ambiente. Recebeu carvão ativado na chegada. Qual é a conduta específica mais adequada?
O alargamento do QRS na intoxicação por antidepressivo tricíclico decorre do bloqueio de canais de sódio, e o bicarbonato de sódio endovenoso é o tratamento específico, por alcalinizar o plasma e ofertar sódio, revertendo a cardiotoxicidade e prevenindo arritmias ventriculares. Flumazenil não atua sobre tricíclicos e pode precipitar convulsões. Antiarrítmicos da classe I, como a amiodarona em seu componente de bloqueio, agravam o bloqueio de canais de sódio e são contraindicados. Fisostigmina pode precipitar assistolia nesse cenário e não é recomendada.
Homem de 61 anos chega à sala de emergência duas horas após ingestão intencional de grande quantidade de propranolol. Está sonolento, com PA 72x38 mmHg e FC 38 bpm, extremidades frias e glicemia capilar de 54 mg/dL. O eletrocardiograma mostra bradicardia sinusal sem bloqueio avançado. Recebeu atropina em duas doses e cristaloide, sem resposta sustentada da frequência cardíaca nem da pressão arterial. Não há hipercalemia nem sinais de intoxicação digitálica associada. Qual é a conduta específica indicada?
Na intoxicação por betabloqueador refratária a atropina e volume, o glucagon é o antídoto de escolha, pois eleva o AMP cíclico intracelular por receptor próprio, contornando o bloqueio beta-adrenérgico, e a hipoglicemia observada reforça essa etiologia. O cálcio é útil sobretudo na intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, sendo apenas adjuvante aqui. Naloxona reverte opioide, sem relação com o mecanismo. O propranolol é altamente lipossolúvel e com grande volume de distribuição, o que torna a hemodiálise ineficaz.
Homem de 29 anos é trazido à unidade de pronto atendimento por familiares após ser encontrado inconsciente no quarto. Ao exame: torporoso, sem resposta verbal, FR 6 irpm com respiração superficial, saturação de 84% em ar ambiente, pupilas puntiformes e simétricas, PA 106x62 mmHg, FC 58 bpm. A glicemia capilar é de 88 mg/dL e não há sinais de trauma. Há marcas de punção nos antebraços e a família refere uso de heroína pelo paciente. Qual é a conduta imediata?
A tríade de rebaixamento de consciência, depressão respiratória e miose caracteriza a síndrome opioide, e o manejo é suporte ventilatório imediato com naloxona titulada até restaurar ventilação adequada, evitando abstinência abrupta. Flumazenil reverte benzodiazepínicos, que causam depressão respiratória sem miose puntiforme, e pode precipitar convulsões. Lavagem gástrica não tem papel em intoxicação por via injetável e jamais precede a estabilização da via aérea. Glicose não corrige o quadro, e a glicemia já está normal.
Homem de 42 anos chega à sala de emergência com náuseas, dor abdominal e queixa de visão embaçada, referindo ter ingerido bebida alcoólica clandestina há cerca de 12 horas. Ao exame: taquipneico, com FR 30 irpm, pupilas pouco reativas e fundoscopia com hiperemia de disco. A gasometria arterial mostra pH 7,08, bicarbonato 8 mEq/L e ânion gap de 30 mEq/L, com lactato de apenas 2,0 mmol/L. A glicemia é normal e não há cetonúria significativa. Qual é a conduta específica adequada?
Acidose metabólica com ânion gap elevado, lactato desproporcionalmente baixo e alterações visuais após ingestão de bebida clandestina caracterizam intoxicação por metanol, cujo tratamento é bloquear a álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, corrigir a acidose e realizar hemodiálise, que remove o tóxico e seu metabólito. Bicarbonato isolado não impede a formação continuada de ácido fórmico. Naloxona e tiamina não atuam sobre o metanol. Carvão ativado adsorve mal álcoois e é inútil doze horas após a ingestão.
Homem, 28 anos, é levado ao pronto-socorro com dor precordial intensa iniciada há 1 hora, após uso de cocaína inalada em festa. PA 178/104 mmHg, FC 128 bpm, FR 22 ipm, T 37,8 °C, pupilas midriáticas. ECG mostra taquicardia sinusal com infradesnivelamento de ST de 1 mm em parede lateral. Troponina ultrassensível inicial 22 ng/L (VR < 14). Qual fármaco deve ser EVITADO neste paciente?
O metoprolol é o fármaco a evitar: o bloqueio beta isolado na intoxicação por cocaína deixa a estimulação alfa sem oposição, podendo agravar a vasoconstrição coronariana e a hipertensão. O diazepam é justamente a primeira linha, pois reduz o tônus adrenérgico central, a frequência e a pressão. A nitroglicerina é vasodilatador coronariano recomendado para reverter o espasmo e aliviar a dor. O ácido acetilsalicílico é indicado pela contribuição trombótica da cocaína na formação do trombo coronariano. O diltiazem é alternativa aceitável para controle de frequência e pressão nesse contexto, por não produzir estimulação alfa sem oposição.
Mulher, 78 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial em uso de digoxina, iniciou espironolactona há 10 dias. Refere náuseas, anorexia e visão amarelada há 3 dias. PA 108/68 mmHg, FC 44 bpm. ECG mostra bradicardia com extrassístoles ventriculares e infradesnivelamento de ST em concavidade. Potássio 6,1 mEq/L (VR 3,5–5,0), creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,6–1,1), digoxinemia 3,8 ng/mL (VR 0,5–0,9). Qual a conduta específica indicada?
Intoxicação digitálica com bradiarritmia, arritmia ventricular e hipercalemia acima de 5,5 mEq/L é indicação de anticorpo antidigoxina, o único tratamento que remove o fármaco do sítio de ação e reverte simultaneamente a hipercalemia. O gluconato de cálcio é classicamente evitado na intoxicação digitálica, pelo risco teórico de agravar a contratura miocárdica. O marca-passo transvenoso pode precipitar arritmias ventriculares no miocárdio intoxicado e não é a primeira medida. A diálise é ineficaz por causa do grande volume de distribuição e da ligação tecidual da digoxina. O isoproterenol aumenta o risco arrítmico nesse contexto e não corrige o mecanismo da intoxicação.
Homem, 62 anos, hipertenso em uso de atenolol, é trazido após ingestão intencional de grande quantidade de comprimidos há 2 horas. Sonolento, PA 72/44 mmHg, FC 34 bpm, glicemia capilar 58 mg/dL. ECG mostra bradicardia sinusal com PR de 240 ms, sem alargamento do QRS. Não houve resposta a 2 mg de atropina nem à expansão volêmica com 1.000 mL de cristaloide. Qual o antídoto específico indicado?
Bradicardia refratária com hipotensão e hipoglicemia após ingestão de betabloqueador aponta intoxicação por essa classe, e o glucagon é o antídoto específico, por ativar a adenilato ciclase independentemente do receptor beta. O gluconato de cálcio é o antídoto de escolha na intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, que tipicamente cursa com hiperglicemia, e não hipoglicemia. O bicarbonato de sódio trata intoxicação por antidepressivo tricíclico com alargamento do QRS, ausente aqui. A naloxona reverte opioides, cujo quadro inclui miose e depressão respiratória. O flumazenil reverte benzodiazepínicos, que não causam bradicardia refratária com hipoglicemia.
Mulher, 26 anos, chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa e vômitos há 8 horas, após ingestão acidental de soda cáustica. PA 118/72 mmHg, FC 108 bpm, FR 22 ipm, T 37,2 °C. Apresenta sialorreia, odinofagia intensa e lesões esbranquiçadas em orofaringe. Abdome doloroso em epigástrio, sem defesa. Radiografia de tórax sem pneumomediastino e sem ar livre subdiafragmático. Qual a conduta inicial mais adequada?
Na ingestão de cáustico sem sinais de perfuração, a conduta é jejum, suporte clínico com hidratação e analgesia, e endoscopia digestiva alta precoce, idealmente entre 12 e 24 horas, para classificar a gravidade das lesões e orientar prognóstico e alimentação. Induzir vômito reexpõe o esôfago ao agente e aumenta a lesão, e a neutralização química gera reação exotérmica lesiva. A passagem às cegas de sonda nasogástrica pode perfurar tecido friável. A esofagectomia de urgência só se justifica na necrose transmural com perfuração ou mediastinite, expressamente afastadas pela radiografia. A corticoterapia isolada não tem benefício comprovado na prevenção de estenose e não substitui a avaliação endoscópica.
Mulher, 80 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial, em uso de digoxina 0,25 mg/dia. Iniciou recentemente amiodarona e mantém furosemida. PA 112/70 mmHg, FC 58 bpm. Creatinina 1,6 mg/dL (VR 0,6–1,1), potássio 3,2 mEq/L (VR 3,5–5,0), magnésio 1,5 mg/dL (VR 1,7–2,4). Refere náuseas e visão turva; digoxinemia de 2,6 ng/mL (VR 0,5–0,9). Qual fator NÃO contribui para a toxicidade digitálica observada?
A paciente apresenta hipomagnesemia, e não hipermagnesemia, de modo que esta última não contribui para o quadro — ao contrário, é o magnésio baixo que aumenta a suscetibilidade à toxicidade. A hipopotassemia favorece a ligação da digoxina à bomba de sódio e potássio, potencializando os efeitos tóxicos. A amiodarona reduz a depuração da digoxina e eleva seus níveis séricos, exigindo redução da dose. A queda da função renal reduz a excreção do fármaco, que é predominantemente renal. A idade avançada diminui a massa magra e a depuração, aumentando o risco de intoxicação.
Mulher, 70 anos, hipertensa em uso de verapamil de liberação prolongada, é trazida após ingestão acidental de dose excessiva. Sonolenta, PA 78/44 mmHg, FC 44 bpm. Glicemia capilar 232 mg/dL. ECG mostra bradicardia sinusal com bloqueio atrioventricular de primeiro grau e QRS estreito. Não respondeu à atropina nem à expansão volêmica inicial com 1.000 mL de cristaloide. Qual a terapia específica indicada?
A hiperglicemia associada a bradicardia e hipotensão sugere intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, tratada com cálcio endovenoso e terapia com insulina em dose alta associada a glicose, que melhora a contratilidade miocárdica. O glucagon é antídoto preferencial na intoxicação por betabloqueador, que cursa tipicamente com hipoglicemia. A naloxona reverte opioides, com miose e depressão respiratória. O flumazenil reverte benzodiazepínicos, sem esse padrão cardiovascular. O bicarbonato trata intoxicação por antidepressivo tricíclico com alargamento do QRS, ausente neste traçado.
Homem, 32 anos, trazido por agitação e dor torácica há 3 horas após uso de metanfetamina. PA 190/110 mmHg, FC 138 bpm, T 38,4 °C, pupilas midriáticas, sudoreico e agitado. ECG mostra taquicardia sinusal com infradesnivelamento de ST de 1 mm em parede lateral. Troponina ultrassensível 30 ng/L (VR < 14). Creatinoquinase 2.400 U/L (VR até 190), creatinina 1,5 mg/dL. Qual a conduta inicial mais adequada?
Na intoxicação por simpaticomiméticos, o benzodiazepínico é a base do tratamento, reduzindo agitação, frequência, pressão e temperatura, associado a hidratação e resfriamento para tratar a rabdomiólise e a hipertermia, evitando-se betabloqueador isolado pelo risco de estimulação alfa sem oposição. O metoprolol incorre exatamente nesse risco. O haloperidol em dose alta reduz o limiar convulsivo, prolonga o QT e prejudica a termorregulação. A restrição hídrica agrava a rabdomiólise e a lesão renal. A trombólise não está indicada sem supradesnivelamento de ST e é perigosa em crise hipertensiva.
Mulher, 28 anos, trazida após ingestão intencional de amitriptilina há 2 horas. Sonolenta, PA 88/52 mmHg, FC 128 bpm, pupilas midriáticas, mucosas secas e retenção urinária. ECG mostra taquicardia com QRS de 140 ms e onda R proeminente em aVR. Glicemia capilar 96 mg/dL; gasometria com pH 7,28 e bicarbonato de 16 mEq/L. Qual a conduta específica indicada?
O alargamento do QRS com R proeminente em aVR na intoxicação por tricíclico reflete bloqueio dos canais de sódio, e o tratamento é o bicarbonato de sódio endovenoso, que alcaliniza o plasma e aumenta o sódio extracelular, revertendo a cardiotoxicidade. O flumazenil é contraindicado, pois pode precipitar convulsões nesse contexto. A fenitoína também bloqueia canais de sódio e agrava o quadro. A amiodarona prolonga o QT e pode piorar a arritmia. O gluconato de cálcio é antídoto de bloqueador de canal de cálcio, sem papel na intoxicação por tricíclico.
Homem, 66 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial em uso de digoxina, é atendido na UBS com náuseas, vômitos, anorexia e alteração visual descrita como halos amarelados, há 4 dias. Iniciou espironolactona e teve piora da função renal recentemente. Exame: FC 46 bpm, PA 118/72 mmHg, sem congestão. Potássio 5,6 mEq/L; creatinina 2,2 mg/dL; digoxinemia 3,2 ng/mL (VR 0,5–0,9). ECG com bradicardia e infradesnivelamento em colher. Qual a conduta correta?
Náuseas, anorexia, alterações visuais com halos, bradicardia e digoxinemia claramente supraterapêutica em contexto de piora renal e hipercalemia caracterizam intoxicação digitálica, exigindo suspensão imediata do fármaco, monitorização de ritmo e eletrólitos e avaliação da necessidade de anticorpo antidigoxina. Manter o fármaco com dose reduzida perpetua a toxicidade em paciente que já acumula o medicamento por disfunção renal. Cálcio intravenoso é classicamente evitado na hipercalemia da intoxicação digitálica pelo risco de agravar a toxicidade miocárdica. Aumentar a espironolactona elevaria ainda mais o potássio e pioraria a função renal. Tratar como sintoma inespecífico e liberar ignora um quadro com risco de arritmias fatais.
Homem, 33 anos, é atendido na UBS após ser encontrado por familiares com sonolência, tendo ingerido quantidade desconhecida de comprimidos há cerca de 3 horas, em contexto de conflito conjugal. Refere que queria morrer e que se arrepende. Exame: sonolento mas despertável, PA 118/74 mmHg, FC 92 bpm, pupilas médias, glicemia capilar 96 mg/dL, sem sinais focais. Nega uso de álcool. Familiares trazem cartela vazia de paracetamol. Qual a conduta correta?
Intoxicação por paracetamol exige encaminhamento hospitalar para dosagem sérica no tempo adequado, aplicação do nomograma e uso de N-acetilcisteína, além de avaliação psiquiátrica formal de risco de suicídio, pois a hepatotoxicidade é tardia e o paciente pode estar assintomático nas primeiras horas. Observar por 6 horas e liberar ignora que a lesão hepática se manifesta após 24 a 72 horas. Protetor gástrico e consulta ambulatorial subestimam gravemente tanto o risco toxicológico quanto o risco de novo ato. Indução de vômito é contraindicada, sobretudo em paciente sonolento, pelo risco de aspiração. Afirmar que o paracetamol não causa toxicidade relevante é falso, pois ele é uma das principais causas de insuficiência hepática aguda.
Uma equipe de saúde da família atende em território com alta prevalência de trabalhadores rurais que aplicam agrotóxicos. Um deles, homem de 42 anos, chega com náuseas, vômitos, sudorese profusa, sialorreia, cólicas abdominais e visão turva iniciados 1 hora após aplicação de inseticida sem equipamento de proteção. Exame: miose puntiforme, FC 48 bpm, PA 96/58 mmHg, sibilos difusos, fasciculações musculares, roupas impregnadas do produto. Qual a conduta imediata?
A síndrome colinérgica com miose puntiforme, sialorreia, broncoespasmo, bradicardia e fasciculações após exposição a inseticida indica intoxicação por organofosforado ou carbamato, e a conduta imediata é descontaminação com remoção de roupas e lavagem da pele, uso de atropina titulada até a reversão das secreções brônquicas e transferência urgente, considerando também a pralidoxima. Antiemético isolado não trata a crise colinérgica. Naloxona reverte opioides e não tem qualquer efeito nessa intoxicação. Aguardar o hospital retarda a atropina, que é a medida que evita a morte por insuficiência respiratória. Betabloqueador agravaria a bradicardia e o broncoespasmo, sendo potencialmente fatal.
Homem, 49 anos, é atendido na UBS com queixa de dor torácica de forte intensidade iniciada há 2 horas, associada a sudorese e náuseas. Faz uso recente de cocaína inalada. Exame: PA 178/104 mmHg, FC 128 bpm, agitado, sudoreico, midríase, ausculta cardíaca sem sopros. ECG com taquicardia sinusal e infradesnivelamento de ST em parede lateral, sem supradesnivelamento. Troponina em coleta. A unidade dispõe de benzodiazepínico, nitrato e betabloqueador. Qual a conduta correta?
Na dor torácica associada ao uso de cocaína, o benzodiazepínico reduz a hiperatividade adrenérgica e a demanda miocárdica, e o nitrato alivia o vasoespasmo coronariano, devendo-se evitar betabloqueador pelo risco de estimulação alfa sem oposição com piora do vasoespasmo e da hipertensão. Administrar betabloqueador é justamente o erro clássico nessa situação. Analgésico simples com observação prolongada ignora a isquemia documentada no eletrocardiograma. Fibrinolítico não está indicado sem supradesnivelamento de ST e seria perigoso, sobretudo com hipertensão grave. Anti-hipertensivo oral com alta subestima a possibilidade de síndrome coronariana aguda e de complicações como dissecção de aorta.
Mulher, 84 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial, em uso de digoxina 0,25 mg/dia, betabloqueador e diurético. Refere náuseas, inapetência e confusão leve há 1 semana. PA 112/70 mmHg, FC 52 bpm. Creatinina 1,7 mg/dL (VR 0,6–1,1), potássio 3,3 mEq/L, digoxinemia de 2,4 ng/mL (VR 0,5–0,9). ECG com bradicardia e extrassístoles ventriculares frequentes. Qual a conduta inicial mais adequada?
Sintomas gastrointestinais e neurológicos com bradicardia, extrassistolia e digoxinemia elevada em idosa com disfunção renal e hipopotassemia caracterizam intoxicação digitálica, cuja conduta inicial é suspender o fármaco, corrigir o potássio e monitorizar o ritmo, reservando o anticorpo antidigoxina aos casos graves. Aumentar a dose agrava a intoxicação. A amiodarona eleva ainda mais os níveis de digoxina por interação. O cálcio endovenoso é classicamente evitado na intoxicação digitálica. Manter a digoxina reduzindo apenas o betabloqueador não corrige a causa dos sintomas.
Homem, 78 anos, com fibrilação atrial permanente em uso de betabloqueador e digoxina, apresenta tontura e episódios de pré-síncope há 2 semanas. PA 118/72 mmHg, FC 38 bpm. ECG mostra fibrilação atrial com resposta ventricular lenta e regularização do ritmo, com QRS estreito. Digoxinemia de 2,2 ng/mL (VR 0,5–0,9), potássio 3,4 mEq/L e creatinina de 1,8 mg/dL. Qual a interpretação mais provável?
A regularização do ritmo em paciente com fibrilação atrial, associada a bradicardia, digoxinemia elevada, hipopotassemia e disfunção renal, indica intoxicação digitálica com bloqueio atrioventricular e ritmo juncional de escape. A reversão espontânea para ritmo sinusal mostraria ondas P presentes e regulares. O flutter com condução fixa exibiria ondas em dente de serra. A taquicardia ventricular lenta teria QRS largo, e o traçado descreve QRS estreito. O bloqueio de ramo esquerdo intermitente alteraria a morfologia do QRS sem regularizar o ritmo.
Homem, 38 anos, com uso frequente de cocaína, apresenta hipertensão persistente com PA de 162/98 mmHg em várias medidas fora de episódios agudos de uso. FC 88 bpm, IMC 24 kg/m². Ecocardiograma mostra hipertrofia ventricular esquerda leve; creatinina normal e sem albuminúria. Não usa outros fármacos e nega tabagismo ou etilismo importante. Qual classe anti-hipertensiva deve ser evitada como primeira escolha nesse paciente?
Betabloqueadores não seletivos são evitados como primeira escolha em usuários de cocaína, pelo risco de estimulação alfa sem oposição com agravamento da vasoconstrição e da hipertensão durante episódios de uso. Os bloqueadores de canal de cálcio são opção adequada, com efeito favorável sobre o vasoespasmo. Os inibidores da enzima conversora e os bloqueadores do receptor de angiotensina são seguros e úteis, sobretudo com hipertrofia ventricular. O diurético tiazídico é aceitável como parte do esquema, sem a preocupação específica desse mecanismo adrenérgico.
Mulher, 49 anos, é admitida na UTI com rebaixamento do nível de consciência. Familiares relatam ingestão de grande quantidade de bebida artesanal de origem duvidosa há 12 horas. Exame: torporosa, FR 32 ipm profunda, PA 118/72 mmHg, visão referida como borrada antes do rebaixamento. Gasometria: pH 7,10; bicarbonato 8 mEq/L; PaCO2 24 mmHg. Sódio 140 mEq/L; cloro 104 mEq/L; glicemia 108 mg/dL; lactato 2,0 mmol/L; gap osmolar elevado. Qual a hipótese diagnóstica e a conduta?
Acidose metabólica grave com ânion gap elevado e gap osmolar aumentado, associada a alteração visual e ingestão de bebida clandestina, caracteriza intoxicação por metanol, cujo tratamento inclui bloqueio da álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol e hemodiálise nas formas graves com acidose refratária ou acometimento visual. Cetoacidose diabética cursaria com hiperglicemia e cetonemia, e a glicemia está normal. Acidose lática por sepse teria lactato elevado, o que não ocorre. Acidose tubular renal tipo 1 cursa com ânion gap normal e hipercloremia, sem gap osmolar. Intoxicação por salicilato produz alcalose respiratória associada à acidose metabólica sem gap osmolar aumentado.
Homem, 32 anos, é admitido na UTI após ingestão intencional de antidepressivo tricíclico há 3 horas. Exame: sonolento, PA 86/50 mmHg, FC 132 bpm, pupilas midriáticas, mucosas secas, retenção urinária. ECG com QRS de 140 ms e desvio do eixo terminal para a direita. Gasometria: pH 7,28; bicarbonato 18 mEq/L. Glicemia 104 mg/dL; sódio 139 mEq/L; potássio 3,8 mEq/L. Apresentou uma crise convulsiva breve na admissão. Qual a conduta prioritária?
O alargamento do QRS na intoxicação por tricíclico decorre do bloqueio de canais de sódio e é o principal marcador de risco de arritmia e convulsão, sendo o bicarbonato de sódio intravenoso a terapia prioritária, por alcalinizar o plasma e aumentar o gradiente de sódio. Flumazenil é contraindicado nesse contexto por reduzir o limiar convulsivo. Amiodarona e outros antiarrítmicos da classe I agravam o bloqueio de canais de sódio e são contraindicados. Fenitoína também bloqueia canais de sódio e não é a escolha para as crises, que são tratadas com benzodiazepínico. Apenas expandir volume e observar não corrige o distúrbio de condução que ameaça a vida.
Mulher, 52 anos, é admitida na UTI com insuficiência hepática aguda por intoxicação por paracetamol. Exame: icterícia, confusão mental com flapping, sem sinais focais. INR 3,8; bilirrubina total 14 mg/dL; ALT 4.200 U/L; creatinina 2,2 mg/dL; glicemia 58 mg/dL; lactato 4,2 mmol/L; pH 7,28. Não há sangramento ativo. Sem história de hepatopatia prévia e sem uso de outras substâncias hepatotóxicas conhecidas. Qual a conduta correta?
A insuficiência hepática aguda por paracetamol exige N-acetilcisteína, que traz benefício mesmo em apresentação tardia, correção agressiva da hipoglicemia, que é causa evitável de dano neurológico, e contato precoce com centro de transplante, dado que a coagulopatia, a encefalopatia e a acidose indicam mau prognóstico. Corrigir integralmente o INR com plasma remove o principal marcador prognóstico e não previne sangramento em quem não sangra. Lactulose isolada trata encefalopatia sem abordar a causa e a gravidade. Corticoide não é tratamento da hepatotoxicidade por paracetamol. Diurético em paciente com lesão renal e hipoperfusão agrava a função renal e não trata a insuficiência hepática.
Homem, 59 anos, internado na UTI, apresenta gasometria arterial com pH 7,30; PaCO2 30 mmHg; bicarbonato 14 mEq/L. Sódio 138 mEq/L; cloro 100 mEq/L; albumina 4,0 g/dL; lactato 1,2 mmol/L; glicemia 110 mg/dL; creatinina 1,1 mg/dL; cetonemia negativa. Refere ingestão de anticongelante automotivo há 8 horas em tentativa de autoextermínio. Urina com cristais de oxalato de cálcio ao exame microscópico. Qual o distúrbio e a conduta?
O ânion gap calculado é de 24 mEq/L, portanto elevado, com lactato e cetonas normais e cristais de oxalato de cálcio na urina após ingestão de anticongelante, o que caracteriza intoxicação por etilenoglicol, tratada com bloqueio da álcool desidrogenase por fomepizol ou etanol e hemodiálise nos casos graves. Acidose hiperclorêmica por diarreia cursa com ânion gap normal. Alcalose respiratória primária não explicaria o bicarbonato reduzido com ânion gap elevado, sendo a hipocapnia aqui compensatória. Acidose lática exigiria lactato elevado, que está normal. Cetoacidose alcoólica cursaria com cetonemia positiva e história de etilismo com jejum, dados ausentes.
Mulher, 48 anos, internada na UTI, apresenta rebaixamento do nível de consciência e hipotensão. Trabalha em oficina e foi encontrada em garagem fechada com motor ligado. Exame: sonolenta, pele com coloração normal, SatO2 de 99% no oximetria de pulso, PA 92/56 mmHg, FC 116 bpm, sem sinais focais. Gasometria com PaO2 de 96 mmHg e acidose metabólica com lactato de 5,4 mmol/L. Carboxi-hemoglobina de 32%. Qual a conduta correta?
A intoxicação por monóxido de carbono exige oxigênio a 100% em alto fluxo, que reduz drasticamente a meia-vida da carboxi-hemoglobina, com consideração de oxigenoterapia hiperbárica em casos graves, como perda de consciência, acidose importante, isquemia miocárdica ou gestação. Confiar na oximetria de pulso é erro clássico, pois o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. O azul de metileno trata metemoglobinemia, condição diferente. A hidroxicobalamina é antídoto do cianeto, que pode coexistir em incêndios, mas não é a primeira linha nessa apresentação isolada. Reduzir a oferta de oxigênio é exatamente o oposto do tratamento, pois prolonga a permanência do monóxido ligado à hemoglobina.
Mulher, 36 anos, internada na UTI, apresenta agitação, hipertermia e tremores após introdução de novo fármaco. Estava em uso de inibidor seletivo da recaptação de serotonina e recebeu tramadol para analgesia. Exame: T 39,4 °C, PA 162/96 mmHg, FC 138 bpm, clônus induzível em membros inferiores, hiperreflexia generalizada, midríase, diaforese, tremor. Creatinoquinase 1.200 U/L. Sem rigidez em cano de chumbo e sem uso de antipsicóticos. Qual a hipótese diagnóstica e a conduta?
Clônus induzível, hiperreflexia, midríase, tremor, diaforese e hipertermia após associação de fármacos serotoninérgicos caracterizam síndrome serotoninérgica, cuja conduta é suspender os agentes implicados, resfriar, sedar com benzodiazepínico e, nos casos graves, usar ciproeptadina. A síndrome neuroléptica maligna cursa com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia, além de exigir antipsicótico, negado. Hipertermia maligna depende de anestésico inalatório ou succinilcolina. Tempestade tireotóxica não produz clônus e hiperreflexia com essa relação temporal e farmacológica. Sepse não explica o clônus induzível, e manter os fármacos serotoninérgicos perpetuaria o mecanismo do quadro.
Homem, 47 anos, internado na UTI após tentativa de autoextermínio por ingestão de organofosforado. Exame: miose puntiforme, sialorreia abundante, broncorreia, sibilos difusos, bradicardia de 42 bpm, PA 88/50 mmHg, fasciculações. SatO2 86% com máscara. Já recebeu descontaminação da pele e roupas, e a equipe iniciou atropina, com melhora parcial. As secreções brônquicas persistem abundantes apesar de várias doses do antídoto administradas. Qual o parâmetro que guia a titulação da atropina e qual a conduta?
Na intoxicação por organofosforado, o alvo da atropinização é o controle das secreções brônquicas, principal causa de morte por insuficiência respiratória, devendo-se dobrar as doses até a secura das secreções, com associação de pralidoxima para reativar a acetilcolinesterase. Guiar-se apenas pela frequência cardíaca leva à subatropinização com broncorreia persistente. Buscar midríase máxima ignora o alvo respiratório e pode causar toxicidade anticolinérgica. Guiar pela pressão arterial também é inadequado, pois ela pode normalizar antes do controle das secreções. Aguardar o nível de colinesterase retarda um tratamento que deve ser guiado clinicamente.
Mulher, 60 anos, internada na UTI, apresenta bradicardia, hipotensão e hipoglicemia refratária após ingestão intencional de grande quantidade de betabloqueador há 4 horas. Exame: FC 38 bpm, PA 72/40 mmHg, sonolenta, glicemia capilar 46 mg/dL. Não houve resposta a atropina nem a expansão volêmica. Foi iniciada infusão de vasopressor com resposta parcial. A unidade dispõe de glucagon, insulina em altas doses, glicose hipertônica e marca-passo transcutâneo. Qual a conduta específica indicada?
Na intoxicação grave por betabloqueador, o glucagon contorna o receptor beta ao estimular diretamente a adenilato ciclase, e a terapia com insulina em altas doses associada a glicose melhora a contratilidade e o metabolismo miocárdico, podendo-se associar estimulação cardíaca e vasopressores. A atropina tem eficácia limitada nesse cenário e não deve ser a única estratégia. Naloxona é antídoto de opioides. Bicarbonato é útil em intoxicações por bloqueadores de canal de sódio, mecanismo diferente. Aguardar a depuração espontânea em paciente com choque e hipoglicemia refratária é conduta inaceitável.
Mulher, 33 anos, internada na UTI após ingestão intencional de grande quantidade de salicilato. Exame: taquipneia, agitação, zumbido, sudorese, T 38,2 °C, PA 108/66 mmHg. Gasometria: pH 7,44; PaCO2 22 mmHg; bicarbonato 15 mEq/L. Ânion gap elevado; nível sérico de salicilato elevado e em ascensão; potássio 3,2 mEq/L; glicemia 96 mg/dL. Consciente, sem convulsões e sem edema pulmonar até o momento da avaliação. Qual a conduta correta?
A intoxicação por salicilato cursa com alcalose respiratória associada a acidose metabólica com ânion gap elevado, e o tratamento inclui alcalinização urinária com bicarbonato para aumentar a eliminação, reposição de potássio, que é indispensável para manter a alcalinização eficaz, e hemodiálise em casos graves conforme nível sérico e manifestações. Carvão ativado tem valor nas primeiras horas, não após 24 horas. Sedar e hipoventilar é potencialmente fatal, pois a acidemia aumenta a penetração do salicilato no sistema nervoso central. A acetilcisteína é o antídoto do paracetamol. Aguardar a eliminação espontânea com nível em ascensão é conduta perigosa.
Homem, 46 anos, internado na UTI, apresenta convulsões, hipertermia e agitação após uso de droga estimulante. Exame: T 41,2 °C, PA 178/104 mmHg, FC 152 bpm, midríase, sudorese, rigidez muscular. Creatinoquinase 22.000 U/L; potássio 6,0 mEq/L; creatinina 2,4 mg/dL; sódio 138 mEq/L; urina escura. Está agitado, com necessidade de contenção e sedação, e apresenta piora da consciência nos últimos minutos de avaliação. Qual a conduta prioritária?
Hipertermia grave induzida por estimulante com rabdomiólise e hipercalemia exige resfriamento ativo agressivo, sedação com benzodiazepínico para reduzir a atividade muscular e a hiperatividade adrenérgica, hidratação vigorosa e manejo imediato da hipercalemia. Antitérmico isolado é ineficaz, pois a hipertermia não é mediada por reajuste do centro termorregulador. Betabloqueador isolado favorece estimulação alfa sem oposição, com crise hipertensiva e vasoconstrição coronariana. Antipsicótico em dose alta reduz o limiar convulsivo e prejudica a termorregulação. Restringir fluidos agrava a lesão renal por mioglobinúria e a hipercalemia.
Mulher, 22 anos, com 26 semanas, é trazida ao pronto-socorro 6 horas após ingestão intencional de 20 comprimidos de paracetamol de 750 mg. Refere náuseas e mal-estar. PA 112/70 mmHg, FC 96 bpm, sem icterícia. Transaminases ainda normais, RNI 1,1, glicemia normal. A nomograma de risco indica nível plasmático acima da linha de tratamento. Cardiotocografia com padrão normal e movimentos fetais presentes. Qual a conduta correta?
A conduta correta é iniciar a N-acetilcisteína o quanto antes, pois o antídoto é seguro na gestação, atravessa a placenta e protege também o fígado fetal, e sua eficácia é máxima quando administrado nas primeiras 8 a 10 horas, além de garantir avaliação psiquiátrica pelo caráter intencional da ingestão e vigilância fetal. Aguardar a elevação das transaminases significa perder a janela de maior eficácia. A interrupção da gestação não integra o tratamento da intoxicação. O carvão ativado tem pouca utilidade 6 horas após a ingestão e não substitui o antídoto. Contraindicar a N-acetilcisteína por suposta toxicidade fetal é incorreto, sendo justamente a hepatotoxicidade materna não tratada o principal risco para o feto.
Um trabalhador rural de 38 anos é atendido com náuseas, sudorese, sialorreia, miose, bradicardia e fasciculações musculares, iniciadas 2 horas após aplicação de agrotóxico sem uso de equipamento de proteção individual. PA 96/58 mmHg, FC 48 bpm, FR 26 ipm, com secreção brônquica abundante à ausculta e desconforto respiratório progressivo durante a avaliação inicial no serviço. Qual a conduta e a notificação indicadas?
O quadro colinérgico com miose, sialorreia, bradicardia, fasciculações e broncorreia após exposição a organofosforado exige descontaminação, administração de atropina em doses tituladas, considerar oxima e suporte ventilatório, além da notificação compulsória de intoxicação exógena relacionada ao trabalho e das ações de vigilância no ambiente laboral. Observar sem antídoto permite evolução para insuficiência respiratória. O betabloqueador agravaria a bradicardia e o broncoespasmo. O anti-histamínico não tem qualquer papel na síndrome colinérgica. Restringir a notificação a óbitos ou internações prolongadas descumpre a norma e impede a vigilância dos agravos relacionados ao trabalho.
Homem, 71 anos, internado na UTI, apresenta hipotensão e bradicardia progressivas após ingestão acidental de dose elevada de bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico. Exame: FC 40 bpm, PA 74/42 mmHg, sonolento, extremidades frias. Glicemia 210 mg/dL. Atropina e expansão volêmica sem resposta significativa. Cálcio iônico normal. A unidade dispõe de cálcio intravenoso, glucagon, insulina em altas doses com glicose e marca-passo transcutâneo. Qual a conduta específica indicada?
Na intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, o cálcio intravenoso e a terapia com insulina em altas doses associada a glicose melhoram a contratilidade e a perfusão, complementados por vasopressor e estimulação cardíaca conforme a resposta; a hiperglicemia observada é típica dessa intoxicação, por bloqueio da secreção de insulina. Atropina isolada é pouco eficaz nesse mecanismo. Bicarbonato é antídoto de intoxicações por bloqueadores de canal de sódio. Naloxona reverte opioides, sem relação com o mecanismo em questão. Aguardar a depuração espontânea em paciente com choque e bradicardia refratária é conduta inaceitável.
Homem, 44 anos, internado na UTI, apresenta convulsões e rebaixamento após overdose de cocaína, evoluindo com hipertermia e rigidez. Exame: T 40,8 °C, PA 190/110 mmHg, FC 156 bpm, agitação intensa, midríase, sudorese. ECG com taquicardia sinusal e QRS de 130 ms. Creatinoquinase 18.000 U/L; potássio 5,8 mEq/L; creatinina 2,0 mg/dL; pH 7,20; bicarbonato 14 mEq/L. Urina escura, com diurese reduzida nas últimas horas de observação. Qual conduta específica está indicada além do resfriamento e da sedação?
O alargamento do QRS na intoxicação por cocaína decorre do bloqueio de canais de sódio e responde ao bicarbonato de sódio, enquanto a rabdomiólise com hipercalemia e lesão renal exige hidratação vigorosa, tudo somado ao resfriamento e à sedação com benzodiazepínico. Betabloqueador isolado provoca estimulação alfa sem oposição, com crise hipertensiva e vasoconstrição coronariana. Haloperidol reduz o limiar convulsivo e prejudica a termorregulação. Restringir fluidos agrava a lesão renal por mioglobinúria. Flumazenil é antídoto de benzodiazepínicos e pode precipitar convulsões nesse contexto.
Gestante de 24 anos, com 26 semanas, é resgatada de incêndio domiciliar. Apresenta cefaleia intensa, náusea e confusão leve. PA 108x66 mmHg, FC 108 bpm, SatO2 pelo oxímetro de 99% em ar ambiente, sem queimaduras cutâneas. Carboxi-hemoglobina de 22% (VR menor que 3 em não fumantes). A cardiotocografia mostra variabilidade reduzida e ausência de acelerações. Qual a conduta correta?
O tratamento é oxigênio a 100% em alta concentração, com tempo mais prolongado que na não gestante, pois a hemoglobina fetal tem maior afinidade pelo monóxido de carbono e a eliminação fetal é mais lenta, sendo a câmara hiperbárica considerada diante de níveis elevados ou sofrimento fetal. Aguardar a normalização espontânea é perigoso, e a saturação de 99% é falsamente tranquilizadora porque o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina. Ofertar apenas 2 litros por minuto é insuficiente para acelerar a eliminação do monóxido. Resolver a gestação com 26 semanas antes de tratar a causa reversível impõe prematuridade extrema sem necessidade. Azul de metileno é antídoto da metemoglobinemia, e não desta intoxicação.
Trabalhador rural, 42 anos, é atendido na unidade básica após aplicar agrotóxico sem equipamento de proteção. Apresenta náuseas, sudorese profusa, sialorreia, miose e cólicas abdominais iniciadas 2 horas após a exposição. PA 100x60 mmHg, FC 52 bpm, FR 22 ipm, SatO2 95%. Ausculta pulmonar com estertores difusos e broncorreia. A equipe inicia o atendimento e discute as medidas subsequentes. Sobre esse atendimento, assinale a alternativa INCORRETA.
Afirmar que a atropina dispensa a descontaminação e a proteção da equipe é o erro pedido: sem remoção do agente, a absorção continua, e a equipe pode se contaminar pelo contato com roupas e pele do paciente. É verdadeiro que a descontaminação precoce com remoção das roupas e lavagem da pele é medida essencial. É correto que a atropina controla as manifestações muscarínicas, como sialorreia, broncorreia e bradicardia. É correto que o caso é de notificação como intoxicação exógena relacionada ao trabalho. Também é correto que a comunicação de acidente de trabalho deve ser emitida.
Homem, 38 anos, retirado de incêndio em garagem fechada há 40 minutos. Está confuso, com cefaleia intensa e náuseas. PA 128/80 mmHg, FC 112 bpm, FR 24 ipm e oximetria de pulso indicando SatO2 de 99% em ar ambiente. Não há queimaduras cutâneas significativas nem estridor. Gasometria arterial mostra pH 7,32, pO2 96 mmHg e carboxi-hemoglobina de 28% (VR até 3% em não fumantes). Qual a conduta indicada?
Na intoxicação por monóxido de carbono, o tratamento imediato é oxigênio a 100 por cento em alto fluxo, que reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina de várias horas para cerca de uma hora. Cateter nasal em baixo fluxo oferece fração inspirada insuficiente para acelerar a dissociação. A hidroxicobalamina é o antídoto do cianeto, eventualmente associado, mas não substitui a oxigenoterapia. Confiar na oximetria de pulso é erro grave, pois o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e superestima a saturação. A câmara hiperbárica, quando indicada, deve ser precoce e não postergada por 24 horas.
Homem, 52 anos, encontrado sonolento em casa, com relato de ingestão de solução anticongelante há cerca de 8 horas. PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, FR 30 ipm. Exames: pH 7,10 (VR 7,35–7,45); bicarbonato 8 mEq/L (VR 22–26); sódio 140 mEq/L; cloro 104 mEq/L; ânion gap 28 mEq/L (VR 8–12); osmolalidade medida 340 mOsm/kg, com gap osmolar de 32; cristais de oxalato na urina; creatinina 2,4 mg/dL. Assinale a conduta específica.
A intoxicação por etilenoglicol é indicada pelo gap osmolar de 32, ânion gap de 28 mEq/L, cristais de oxalato e injúria renal, e o tratamento específico é o bloqueio da álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, associado a hemodiálise nos casos graves. O bicarbonato isolado corrige a acidose parcialmente, mas não impede a formação contínua de metabólitos tóxicos. A N-acetilcisteína é antídoto da intoxicação por paracetamol, sem papel aqui. A naloxona reverte opioides e não explica acidose com gap osmolar. O carvão ativado adsorve mal os álcoois tóxicos e, oito horas após a ingestão, seria ainda menos eficaz.
Mulher, 24 anos, ingeriu 20 comprimidos de paracetamol de 750 mg há 10 horas em tentativa de autoextermínio. Chega com náuseas e dor epigástrica. PA 112x70 mmHg, FC 96 bpm, T 36,3 °C; sem icterícia ou flapping. AST 240 U/L (VR até 40); ALT 310 U/L (VR até 40); INR 1,3; creatinina 0,9 mg/dL (VR 0,6–1,2). Nível sérico de paracetamol acima da linha de tratamento do nomograma. Qual a conduta imediata?
Intoxicação por paracetamol com nível acima da linha de tratamento do nomograma de Rumack-Matthew impõe N-acetilcisteína intravenosa imediata, que repõe glutationa e neutraliza o metabólito NAPQI, com benefício máximo nas primeiras horas mas ainda válido depois. O carvão ativado só tem utilidade nas primeiras duas horas da ingestão, prazo já ultrapassado. O transplante hepático é decidido pelos critérios do King's College, que exigem acidose, encefalopatia ou coagulopatia grave, ausentes aqui. A hemodiálise não é rotina, ficando para intoxicações maciças com acidose e coma. Apenas observar desperdiça a janela terapêutica do antídoto e permite a necrose centrolobular.
Mulher, 29 anos, ingeriu soda cáustica há 3 horas em tentativa de autoextermínio. Apresenta sialorreia, odinofagia e dor retroesternal. PA 118x72 mmHg, FC 104 bpm, FR 20 ipm, T 36,8 °C, SatO2 97% em ar ambiente. Há lesões esbranquiçadas em lábios e orofaringe, sem estridor. Radiografia de tórax sem pneumomediastino e abdome sem sinais de irritação peritoneal. Qual a conduta indicada nas primeiras horas?
Na ingestão de cáustico sem perfuração ou instabilidade, a endoscopia digestiva alta entre 12 e 48 horas é o passo que gradua a lesão pela classificação de Zargar e orienta prognóstico, dieta e risco de estenose. A lavagem gástrica e o carvão ativado são contraindicados por reexpor a mucosa ao agente e por não adsorver álcalis. Neutralizar com substância ácida gera reação exotérmica e agrava a queimadura. A indução de vômito repete o trajeto lesivo e aumenta o risco de perfuração e aspiração. A esofagectomia profilática não se justifica sem necrose transmural demonstrada, e as estenoses são manejadas com dilatação posterior.
Mulher, 52 anos, encontrada sonolenta em casa com aquecedor a gás mal ventilado, junto do marido, que apresenta cefaleia e náuseas. Exame: PA 116x70 mmHg, FC 104 bpm, FR 22 ipm, SatO2 por oximetria de 98% em ar ambiente, letargia e desorientação, sem déficits focais. Gasometria arterial: PaO2 96 mmHg, pH 7,32, lactato 4,0 mmol/L (VR até 2,0). Carboxi-hemoglobina de 32%. Eletrocardiograma sem isquemia; gestação afastada. Sobre essa intoxicação, assinale a alternativa INCORRETA.
É incorreta — e por isso é a resposta — a afirmação de que saturação normal na oximetria descarta intoxicação grave: o oxímetro convencional não diferencia carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e exibe valores falsamente tranquilizadores mesmo com 32% de carboxi-hemoglobina, como no caso. A possibilidade de saturação falsamente normal pelo mesmo mecanismo está corretamente descrita. A redução da meia-vida da carboxi-hemoglobina de cerca de cinco horas em ar ambiente para pouco mais de uma hora com oxigênio a 100% justifica a conduta imediata. A PaO2 normal, por refletir apenas o oxigênio dissolvido no plasma e não a capacidade de transporte da hemoglobina, também é afirmação correta. A indicação de câmara hiperbárica em casos selecionados, como alteração neurológica, isquemia miocárdica ou gestação, é igualmente correta.
Homem, 28 anos, submetido a broncoscopia com anestesia tópica por benzocaína há 30 minutos, evolui com cianose intensa de lábios e extremidades. Exame: PA 124x78 mmHg, FC 108 bpm, FR 24 ipm, SatO2 por oximetria fixa em 85% apesar de oxigênio a 100% em máscara com reservatório, sem estridor, ausculta pulmonar limpa. Gasometria arterial: PaO2 340 mmHg e sangue arterial de coloração achocolatada que não se altera com a exposição ao ar ambiente. Qual a conduta imediata?
Cianose desproporcional com saturação fixa em torno de 85% que não responde ao oxigênio, PaO2 arterial elevada e sangue de aspecto achocolatado após anestésico tópico caracterizam metemoglobinemia adquirida, e o tratamento é azul de metileno endovenoso, que reduz a metemoglobina a hemoglobina funcional, junto da retirada imediata do agente causal. Intubar e aumentar a PEEP não corrige o defeito, pois o problema não é troca gasosa, mas incapacidade da hemoglobina oxidada de transportar oxigênio. A adrenalina intramuscular trataria anafilaxia, que cursaria com urticária, broncoespasmo e hipotensão, ausentes aqui. A transfusão é medida de exceção, considerada em deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, quando o azul de metileno é contraindicado. Nebulização com adrenalina e corticoide trata edema de via aérea, que não corresponde ao quadro descrito.
Mulher, 31 anos, é trazida 2 horas após ingestão intencional de soda cáustica. Apresenta sialorreia, odinofagia intensa e lesões esbranquiçadas em orofaringe. PA 122x74 mmHg, FC 108 bpm, FR 20 ipm, SatO2 96%, sem estridor. O abdome é flácido e indolor. A radiografia de tórax não mostra pneumomediastino nem ar livre subdiafragmático. Assinale a conduta correta nas primeiras horas.
A endoscopia digestiva alta entre 12 e 24 horas é a conduta correta, pois permite estadiar a lesão e orientar o prognóstico antes que o amolecimento tecidual da fase subaguda aumente o risco de perfuração. A indução de vômito reexpõe o esôfago ao cáustico e amplia a lesão. A tentativa de neutralização com ácido gera reação exotérmica e agrava a queimadura química. A passagem às cegas de sonda nasogástrica pode perfurar o esôfago já necrótico. A laparotomia de urgência está reservada a sinais de perfuração ou necrose transmural, ausentes em doente com abdome flácido e radiografia sem pneumoperitônio.
Homem, 32 anos, submetido a anestesia tópica com benzocaína para endoscopia, evolui 30 minutos depois com cianose central intensa. PA 124x76 mmHg, FC 108 bpm, FR 24 ipm, SatO2 de 85% pelo oxímetro, sem melhora com oxigênio a 100%. Ausculta pulmonar limpa. Exames: gasometria arterial com pO2 de 180 mmHg; sangue de coloração achocolatada; metemoglobina de 28% (VR < 2). Qual o tratamento?
A metemoglobinemia induzida por benzocaína, indicada pela discrepância entre saturação baixa refratária ao oxigênio e pO2 arterial elevada, com sangue achocolatado e metemoglobina de 28%, é tratada com azul de metileno endovenoso, desde que não haja deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase. A oxigenoterapia hiperbárica é alternativa quando o azul de metileno é contraindicado ou ineficaz, não a primeira escolha. A naloxona reverte opioides, sem relação com o mecanismo. O plasma fresco não contém redutase capaz de corrigir o distúrbio. Broncodilatador e corticoide tratam broncoespasmo, afastado pela ausculta limpa.
Mulher, 29 anos, em uso de sertralina, iniciou tramadol há 2 dias por lombalgia e chega agitada, com tremores e sudorese. PA 162x94 mmHg, FC 124 bpm, FR 24 ipm, T 38,8 °C. Clônus induzível em tornozelos, hiper-reflexia difusa e midríase, com rigidez de predomínio em membros inferiores. Exames: creatinofosfoquinase 620 U/L (VR 30–200); leucócitos 11.000; função renal normal. Qual o diagnóstico e a conduta?
A síndrome serotoninérgica é reconhecida pela tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e excitação neuromuscular com clônus e hiper-reflexia, surgida em horas a dias após associação de sertralina com tramadol; o tratamento é suspender os agentes, oferecer suporte e usar ciproeptadina nos casos moderados a graves. A síndrome neuroléptica maligna instala-se em dias, com rigidez em cano de chumbo e sem clônus. A hipertermia maligna surge no intraoperatório após anestésicos halogenados ou succinilcolina. A encefalite viral não explicaria o gatilho farmacológico e o clônus. A tireotoxicose não produz clônus induzível nem esse padrão de instalação.
Homem, 42 anos, encontrado confuso em casa, com relato de ingestão de anticongelante há oito horas. PA 108/66 mmHg, FC 112 bpm, FR 28 ipm. Exames: pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L (VR 22–26), ânion gap de 28 mEq/L, gap osmolar de 32 mOsm/kg, creatinina de 3,2 mg/dL. O sedimento urinário mostra cristais de oxalato de cálcio em forma de envelope e o cálcio sérico é de 7,0 mg/dL. Qual a conduta indicada?
Acidose metabólica com ânion gap e gap osmolar elevados, cristais de oxalato de cálcio na urina, hipocalcemia e injúria renal caracterizam intoxicação por etilenoglicol, cujo tratamento combina bloqueio da álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, hemodiálise para remover o tóxico e os metabólitos e correção da acidose. O carvão ativado adsorve mal álcoois e é inútil após oito horas. A naloxona reverte opioides, sem relação com o quadro. A diurese forçada não remove os metabólitos tóxicos de forma eficaz. Apenas hidratar e observar permite a progressão para insuficiência renal e óbito.
Homem, 29 anos, trabalhador rural, ingeriu herbicida em tentativa de suicídio há 18 horas. Apresenta odinofagia intensa, vômitos e lesões ulceradas em orofaringe. Exame: T 36,8 °C, FR 22 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, creatinina de 2,1 mg/dL. A família traz o rótulo do produto, que contém paraquat. Radiografia de tórax neste momento sem alterações parenquimatosas. Qual a conduta correta quanto à oxigenoterapia?
O paraquat concentra-se no tecido pulmonar e gera radicais livres em ciclo redox dependente de oxigênio, de modo que a suplementação aumenta o estresse oxidativo e acelera a fibrose pulmonar característica dessa intoxicação; a recomendação é restringir o oxigênio, reservando-o para hipoxemia grave e refratária, com alvo de saturação deliberadamente baixo. Administrar oxigênio a 100% profilaticamente é justamente a conduta que agrava a lesão. A oxigenoterapia hiperbárica potencializa ainda mais a formação de radicais livres. A ventilação mecânica eletiva com FiO2 elevada reproduz o mesmo erro em escala maior. Manter cânula contínua a 5 L/min independentemente da saturação expõe o paciente a oxigênio desnecessário e contraindicado nesse cenário.
Mulher, 34 anos, retirada de incêndio em garagem fechada há 30 minutos, com cefaleia intensa, náuseas e confusão. Sem queimaduras cutâneas extensas. PA 118x72 mmHg, FC 112 bpm, FR 22 ipm, SatO2 de 99% pelo oxímetro de pulso. Exames: gasometria com pO2 de 96 mmHg; carboxi-hemoglobina de 28% (VR < 3 em não fumantes); lactato 4,2 mmol/L; eletrocardiograma sem alterações isquêmicas. Qual a conduta?
A intoxicação por monóxido de carbono, com carboxi-hemoglobina de 28% e sintomas neurológicos, é tratada com oxigênio a 100% em alto fluxo, que reduz drasticamente a meia-vida do complexo, considerando-se oxigenoterapia hiperbárica em casos graves com alteração neurológica. O oxigênio em baixo fluxo prolonga a eliminação. O azul de metileno é antídoto da metemoglobinemia, condição diferente. A hidroxicobalamina trata intoxicação por cianeto e jamais substitui o oxigênio. Confiar na oximetria é erro clássico, pois o aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e mostra valores falsamente normais.
Homem, 45 anos, resgatado de incêndio em residência com queima de espumas e plásticos, chega em coma há 20 minutos. PA 78x44 mmHg, FC 130 bpm, FR 34 ipm, SatO2 97% com oxigênio a 100%. Exames: lactato 14 mmol/L (VR < 2); pH 6,98; carboxi-hemoglobina de 12%; saturação venosa central de oxigênio de 88%, com sangue venoso de coloração vermelho-vivo. Qual a conduta específica?
A intoxicação por cianeto deve ser presumida em vítima de incêndio com combustão de plásticos, coma, choque, acidose láctica grave e saturação venosa central elevada com sangue venoso vermelho-vivo, sinal de bloqueio da cadeia respiratória mitocondrial; o antídoto de escolha é a hidroxicobalamina, segura mesmo em vítimas com carboxi-hemoglobina elevada. A naloxona reverte opioides, sem relação com o mecanismo. O azul de metileno trata metemoglobinemia e pioraria o transporte de oxigênio. O nitrito de sódio isolado induz metemoglobinemia e é perigoso em quem já tem intoxicação por monóxido. Aguardar a dosagem sérica é inviável no tempo útil.
Homem, 38 anos, encontrado torporoso após ingestão de líquido não identificado. PA 118/72 mmHg, FC 104 bpm, FR 26 ipm. Sódio de 140 mEq/L, glicemia de 90 mg/dL, ureia de 30 mg/dL, osmolaridade plasmática medida de 330 mOsm/kg. O pH é de 7,30 com bicarbonato de 16 mEq/L (VR 22–26) e ânion gap de 20 mEq/L. Não há cetonemia detectável nos exames. Qual a interpretação do gap osmolar e a suspeita diagnóstica?
A osmolaridade calculada a partir de sódio, glicose e ureia fica em torno de 296 mOsm/kg, e a diferença para a medida de 330 mOsm/kg resulta em gap osmolar acima de 30, que somado à acidose com ânion gap elevado sugere intoxicação por álcool tóxico. Considerar o gap normal contraria o próprio cálculo. Atribuir a elevação à glicemia e à ureia é incorreto, pois esses componentes já entram na fórmula. Um gap reduzido não decorre dos valores apresentados. O cálculo do gap osmolar depende apenas de sódio, glicose, ureia e osmolaridade medida.
Mulher, 34 anos, admitida por insuficiência hepática aguda após ingestão de paracetamol em dose elevada há três dias. PA 98/58 mmHg, FC 112 bpm, icterícia e encefalopatia grau II. INR de 3,4 (VR até 1,2), transaminases acima de 4.000 U/L, creatinina de 2,8 mg/dL (VR 0,6–1,1) e sódio urinário de 12 mEq/L, com débito urinário de 0,3 mL/kg/h nas últimas seis horas. Qual a conduta indicada quanto ao tratamento específico?
A N-acetilcisteína deve ser administrada mesmo em apresentações tardias da hepatotoxicidade por paracetamol, pois melhora desfechos na insuficiência hepática estabelecida, associada a suporte intensivo e avaliação para transplante hepático. O carvão ativado só é útil nas primeiras horas após a ingestão. A hemodiálise não remove eficazmente o paracetamol nessa fase, quando o dano já ocorreu. O flumazenil reverte benzodiazepínicos e não trata encefalopatia hepática. O corticoide não é tratamento específico da hepatotoxicidade por paracetamol.
Mulher, 41 anos, funcionária de piscina, inalou vapores após mistura acidental de produtos de limpeza clorados em ambiente fechado há 2 horas. Apresenta tosse intensa, ardência ocular e dispneia. Exame: FR 28 ipm, FC 106 bpm, PA 128x78 mmHg, SatO2 91% em ar ambiente, hiperemia conjuntival, sibilos difusos, sem queimadura de face nem estridor. Radiografia de tórax sem infiltrados neste momento. Qual a conduta inicial mais adequada?
O cloro é irritante de solubilidade intermediária, atingindo vias aéreas superiores e inferiores, e a conduta inicial é remover da exposição, ofertar oxigênio umidificado, administrar broncodilatador para o broncoespasmo e manter observação por algumas horas, pois o edema pulmonar pode instalar-se de forma tardia. A intubação imediata não se justifica em paciente sem estridor, sem queimadura de face e com nível de consciência preservado. O antibiótico profilático não previne pneumonite química e seleciona flora resistente. A alta imediata é insegura, pois a radiografia normal nas primeiras horas não exclui evolução tardia. O corticoide sistêmico isolado, sem oxigênio nem broncodilatador, não constitui manejo adequado e seu benefício nessa lesão permanece controverso.
Mulher, 27 anos, admitida com zumbido, náuseas, hiperventilação e agitação após ingestão de grande quantidade de comprimidos há seis horas. PA 112/70 mmHg, FC 116 bpm, FR 34 ipm, T 38,2 °C. Gasometria: pH 7,44, pressão parcial de gás carbônico de 22 mmHg, bicarbonato de 15 mEq/L (VR 22–26). Ânion gap de 20 mEq/L e glicemia de 68 mg/dL. Qual a interpretação e a conduta indicada?
A intoxicação por salicilato produz classicamente distúrbio misto, com alcalose respiratória por estímulo direto do centro respiratório somada a acidose metabólica com ânion gap elevado, e o tratamento inclui alcalinização urinária com bicarbonato para aumentar a eliminação e hemodiálise nos casos graves. A acidose respiratória isolada não corresponde à hipocapnia observada. A alcalose metabólica pura não explica o bicarbonato baixo com ânion gap elevado. A acidose hiperclorêmica exigiria ânion gap normal. Considerar o distúrbio normal ignora achados objetivos evidentes.
Mulher, 23 anos, é trazida ao pronto-socorro 90 minutos após ingerir cerca de 30 comprimidos de amitriptilina 25 mg. Apresenta sonolência, boca seca e retenção urinária. PA 88x54 mmHg, FC 132 bpm, FR 18 ipm, T 37,2 °C. Exame: midríase, pele seca e quente, Glasgow 12. Eletrocardiograma: taquicardia de complexo largo com QRS de 140 ms e desvio do eixo para a direita no terço terminal. Qual a conduta prioritária?
A cardiotoxicidade dos tricíclicos decorre do bloqueio de canais rápidos de sódio, expresso por alargamento do QRS acima de 100 ms e desvio do eixo terminal para a direita, e o tratamento prioritário é bicarbonato de sódio venoso, que alcaliniza o plasma e aumenta o sódio extracelular, revertendo o bloqueio e a hipotensão. O flumazenil não reverte tricíclicos e pode precipitar convulsões refratárias nesse contexto. A amiodarona é bloqueadora de canais de sódio e potássio, agravando o alargamento do QRS e o prolongamento do QT. A fisostigmina é perigosa na intoxicação por tricíclicos, podendo causar assistolia. Carvão ativado tem papel na descontaminação precoce, mas jamais substitui o tratamento da cardiotoxicidade nem autoriza alta em seis horas.
Homem, 26 anos, é encontrado inconsciente em via pública e trazido ao pronto-socorro. PA 92x58 mmHg, FC 52 bpm, FR 6 ipm, SatO2 84% em ar ambiente, T 35,8 °C. Exame: Glasgow 7, pupilas puntiformes e fotorreagentes, marcas de punção em fossa antecubital. Exames: glicemia capilar 96 mg/dL; eletrocardiograma com bradicardia sinusal. Qual a conduta imediata?
A tríade de rebaixamento do sensório, depressão respiratória e miose puntiforme, com marcas de punção, indica overdose de opioide, e a conduta imediata é naloxona titulada com suporte ventilatório, mantendo observação prolongada porque a meia-vida da naloxona costuma ser menor que a do opioide, com risco de recorrência da depressão respiratória. O flumazenil não reverte opioides e é perigoso em intoxicações mistas. A glicemia está normal, afastando causa metabólica. A atropina corrigiria a bradicardia sem tratar a hipoventilação, que é a ameaça imediata. Carvão ativado em paciente com via aérea desprotegida e Glasgow 7 acarreta risco elevado de broncoaspiração.
Homem, 31 anos, chega ao pronto-socorro com dor torácica opressiva há 2 horas, iniciada após uso de cocaína inalada. PA 178x108 mmHg, FC 128 bpm, FR 22 ipm, T 37,4 °C. Exame: agitação psicomotora, midríase, sudorese. Eletrocardiograma: taquicardia sinusal com supradesnivelamento de ST de 2 mm em parede inferior. Troponina 0,9 ng/mL (VR até 0,04). Qual fármaco deve ser EVITADO no manejo inicial?
O betabloqueador isolado deve ser evitado na isquemia associada à cocaína, pois o bloqueio beta deixa a estimulação alfa sem oposição, o que pode intensificar o vasoespasmo coronariano e elevar ainda mais a pressão arterial. O benzodiazepínico venoso é a primeira medida, reduzindo a hiperatividade adrenérgica, a agitação e indiretamente a demanda miocárdica. A nitroglicerina alivia a dor e reverte o vasoespasmo. O ácido acetilsalicílico integra o manejo da síndrome coronariana aguda. Os bloqueadores de canal de cálcio são alternativas úteis para controle pressórico e do vasoespasmo nesse contexto.
Mulher, 30 anos, resgatada de incêndio em ambiente fechado, apresenta cefaleia, náuseas e confusão mental. PA 118x72 mmHg, FC 108 bpm, FR 22 ipm, oximetria de pulso 99% em ar ambiente. Escarro carbonáceo presente, sem estridor. Carboxi-hemoglobina 26% (VR < 3 em não fumantes); lactato 3,0 mmol/L (VR < 2). Gasometria arterial com PaO2 96 mmHg. Qual a conduta imediata?
O tratamento da intoxicação por monóxido de carbono é oxigênio a 100% em máscara não reinalante, que reduz a meia-vida da carboxi-hemoglobina de cerca de 5 horas para menos de 1 hora, indicado nesta paciente com carboxi-hemoglobina de 26% e confusão mental; a câmara hiperbárica é considerada em casos graves selecionados. Manter em ar ambiente confiando na oximetria é erro clássico, pois o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e mostra valores falsamente normais. A hidroxicobalamina é antídoto do cianeto, que pode coexistir, mas não reverte a ligação do monóxido. Broncodilatador e corticoide não tratam a hipóxia tecidual por monóxido. A sangria terapêutica não tem qualquer respaldo nessa intoxicação.
Homem, 46 anos, resgatado de incêndio residencial com queima de espuma de poliuretano, chega torporoso. PA 84x50 mmHg, FC 128 bpm, FR 30 ipm, SatO2 96% com oxigênio a 100%. Fuligem em orofaringe, sem queimadura cutânea extensa. Lactato 14 mmol/L (VR < 2); pH 7,08 (VR 7,35-7,45); saturação venosa central de oxigênio 88%. Carboxi-hemoglobina 12%. Qual a conduta específica indicada?
Acidose láctica intensa com lactato de 14 mmol/L, saturação venosa central elevada em 88% e história de queima de poliuretano indicam intoxicação por cianeto, cujo antídoto de escolha é a hidroxicobalamina, segura mesmo com carboxi-hemoglobina associada. O azul de metileno trata metemoglobinemia, que cursa com cianose e saturação fixa em torno de 85%, quadro distinto. O nitrito de sódio induz metemoglobinemia e é perigoso na presença de intoxicação concomitante por monóxido de carbono, como os 12% de carboxi-hemoglobina aqui. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol. O bicarbonato isolado corrige transitoriamente o pH sem tratar o bloqueio da cadeia respiratória mitocondrial.
Mulher, 24 anos, é trazida ao pronto-socorro 5 horas após ingerir cerca de 40 comprimidos de ácido acetilsalicílico em tentativa de suicídio. Exame: agitada, com zumbido e hiperventilação; FR 34 ipm, T 38,2 graus C, PA 108x64 mmHg. Gasometria arterial: pH 7,46; PaCO2 22 mmHg; bicarbonato 15 mEq/L. Sódio 140 mEq/L, cloro 100 mEq/L (VR 98-107). Salicilato sérico de 62 mg/dL (VR terapêutico até 30). Qual a conduta mais adequada?
A conduta é a alcalinização urinária com bicarbonato de sódio venoso, associada à reposição de potássio, pois a hipocalemia impede a alcalinização eficaz: o quadro é de intoxicação por salicilatos, com zumbido, hiperventilação, hipertermia e o distúrbio misto característico de alcalose respiratória com acidose metabólica de ânion gap elevado. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol, não do salicilato. Induzir hipoventilação é gravemente deletério, pois a hiperventilação compensatória protege o sistema nervoso central do influxo de salicilato não ionizado. Aguardar pH abaixo de 7,20 para iniciar bicarbonato é conduta tardia. O flumazenil reverte benzodiazepínico e não tem indicação aqui.
Homem, 31 anos, é trazido 2 horas após ingerir amitriptilina em tentativa de suicídio. Exame: sonolento, com pupilas midriáticas, pele seca e quente, retenção urinária; PA 88x52 mmHg, FC 128 bpm. Eletrocardiograma mostra QRS de 140 ms e onda R proeminente em aVR. Durante a avaliação, apresenta crise convulsiva tônico-clônica autolimitada. Qual a conduta específica mais adequada?
A conduta específica é o bicarbonato de sódio venoso em bolus: na intoxicação por antidepressivo tricíclico, o bloqueio dos canais rápidos de sódio alarga o QRS acima de 100 ms e produz a onda R proeminente em aVR, e o bicarbonato aumenta o gradiente de sódio e alcaliniza o plasma, estreitando o QRS e reduzindo o risco de arritmia ventricular. A amiodarona é evitada por prolongar ainda mais a repolarização. O flumazenil pode precipitar convulsões e é contraindicado nesse contexto. A fisostigmina é contraindicada na intoxicação por tricíclicos pelo risco de assistolia e convulsão. A procainamida é antiarrítmico da classe IA, que também bloqueia canais de sódio e agrava a toxicidade.
Mulher, 46 anos, com transtorno bipolar em uso de lítio há 8 anos, iniciou hidroclorotiazida há 3 semanas e apresenta quadro diarreico há 2 dias. É trazida com tremor grosseiro, ataxia, disartria e confusão mental. Exame: FC 92 bpm, PA 104x62 mmHg, mucosas secas, hiperreflexia e mioclonias. Laboratório: creatinina 2,3 mg/dL (VR 0,6-1,1); sódio 148 mEq/L (VR 135-145); litemia de 3,4 mEq/L (VR terapêutico 0,6-1,2). Qual a conduta mais adequada?
A conduta é suspender o lítio, hidratar com salina isotônica para restaurar a volemia e a filtração glomerular e indicar hemodiálise, pois há litemia acima de 2,5 mEq/L com sintomas neurológicos graves e insuficiência renal, situação de intoxicação grave em que o lítio, de baixo peso molecular e sem ligação proteica, é bem depurado. Manter o fármaco perpetua a toxicidade em paciente com função renal comprometida pelo tiazídico e pela desidratação. O carvão ativado não adsorve lítio, que é um íon. A furosemida agrava a depleção volêmica e aumenta a reabsorção proximal de lítio. O flumazenil reverte benzodiazepínico e não tem indicação.
Homem, 74 anos, com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial em uso de digoxina, iniciou espironolactona há 10 dias. Procura o pronto-socorro com náuseas, vômitos, anorexia e visão amarelada. Exame: FC 44 bpm, PA 102x60 mmHg, sem sinais de congestão. Eletrocardiograma mostra bradicardia com bloqueio atrioventricular de segundo grau. Laboratório: potássio 6,4 mEq/L (VR 3,5-5,0); creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,7-1,3); digoxinemia de 4,2 ng/mL (VR 0,5-2,0). Qual a conduta específica?
A conduta específica é o anticorpo antidigoxina, indicado por arritmia com instabilidade, hipercalemia acima de 5 mEq/L e digoxinemia muito elevada; o gluconato de cálcio é classicamente evitado na intoxicação digitálica pelo risco de agravar a sobrecarga intracelular de cálcio, sendo preferidas insulina com glicose e o próprio antídoto. Usar cálcio como primeira medida contraria essa recomendação. O marca-passo transvenoso pode ser necessário, mas não antecede o antídoto e traz risco de arritmia ventricular pela irritação do miocárdio intoxicado. Manter ou reintroduzir digoxina agrava a intoxicação, favorecida pela espironolactona e pela piora renal. A amiodarona eleva os níveis de digoxina e piora o quadro.
Homem, 52 anos, hipertenso em uso de propranolol, é trazido 90 minutos após ingerir grande quantidade do medicamento em tentativa de suicídio. Exame: sonolento, PA 76x44 mmHg, FC 38 bpm, extremidades frias, enchimento capilar de 4 segundos. Glicemia capilar de 52 mg/dL (VR 70-99). Eletrocardiograma mostra bradicardia sinusal com QRS estreito. Não houve resposta a 1 mg de atropina venosa nem a expansão volêmica com 1.000 mL de cristaloide. Qual a conduta específica?
A conduta específica é o glucagon venoso em bolus seguido de infusão, pois ele estimula a adenilato ciclase por via independente do receptor beta, elevando o monofosfato de adenosina cíclico e restaurando inotropismo e cronotropismo, com correção concomitante da hipoglicemia, achado típico da intoxicação por betabloqueador. A adenosina agrava a bradicardia por bloquear ainda mais o nó atrioventricular. Administrar betabloqueador de curta duração intensifica a intoxicação. O nitroprussiato é vasodilatador e agravaria a hipotensão. O flumazenil é antídoto de benzodiazepínico e não tem qualquer ação sobre o bloqueio beta-adrenérgico.
Mulher, 39 anos, ingeriu grande quantidade de anlodipino e verapamil há 3 horas em tentativa de suicídio. Exame: PA 70x40 mmHg, FC 52 bpm, nível de consciência preservado, extremidades frias, diurese reduzida. Glicemia capilar de 288 mg/dL (VR 70-99). Não houve resposta a cristaloide, a cálcio venoso e a noradrenalina em dose crescente. Lactato de 4,6 mmol/L (VR até 2). Qual a terapia específica mais adequada neste momento?
A terapia específica é a insulina em dose alta com glicose, chamada terapia hiperinsulinêmica euglicêmica: o bloqueio dos canais de cálcio reduz a liberação de insulina e leva o miocárdio a um estado de resistência ao uso de substrato, e a insulina em dose suprafisiológica melhora o inotropismo e a utilização miocárdica de glicose, o que explica também a hiperglicemia como marcador de gravidade. A glibenclamida não tem papel e agrava a instabilidade. A furosemida reduz ainda mais a pré-carga em paciente hipotensa. Flumazenil e naloxona revertem benzodiazepínico e opioide, sem ação aqui. O betabloqueador soma efeito depressor sobre um miocárdio já bloqueado.
Homem, 44 anos, etilista, é trazido 12 horas após ingerir bebida clandestina em uma festa. Refere visão embaçada, com sensação de tempestade de neve. Exame: FR 32 ipm, PA 106x64 mmHg, pupilas midriáticas com reflexo fotomotor lentificado, fundoscopia com hiperemia de disco óptico. Gasometria: pH 7,08; bicarbonato 6 mEq/L. Ânion gap de 30 mEq/L (VR 8-12) e osmolaridade medida 40 mOsm/kg acima da calculada. Qual a conduta específica?
A conduta é bloquear a álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, corrigir a acidose com bicarbonato, oferecer ácido folínico e indicar hemodiálise precoce: o quadro é de intoxicação por metanol, sugerido pela bebida clandestina, alterações visuais com hiperemia de disco, acidose metabólica grave com ânion gap elevado e hiato osmolar aumentado; o dano decorre do ácido fórmico. A naloxona reverte opioide e não atua sobre álcoois tóxicos. Piridoxina e tiamina são adjuvantes na intoxicação por etilenoglicol, e isoladamente não tratam o metanol. O carvão ativado não adsorve álcoois de forma significativa. O corticoide não substitui o bloqueio metabólico nem a remoção do tóxico.
Homem, 36 anos, é levado ao pronto-socorro após ingerir anticongelante automotivo há 6 horas, em tentativa de suicídio. Exame: sonolento, com fala arrastada, sem odor etílico marcante; FR 30 ipm, PA 118x74 mmHg. Laboratório: pH 7,10; bicarbonato 8 mEq/L; ânion gap 28 mEq/L (VR 8-12); cálcio 6,8 mg/dL (VR 8,5-10,5); creatinina 2,6 mg/dL (VR 0,7-1,3). O sedimento urinário mostra cristais em formato de envelope e a urina apresenta fluorescência à lâmpada de Wood. Qual a conduta?
A conduta é o bloqueio da álcool desidrogenase com fomepizol ou etanol, associado a tiamina e piridoxina, que desviam o metabolismo para vias menos tóxicas, além de bicarbonato e hemodiálise diante de acidose grave e lesão renal: o quadro é de intoxicação por etilenoglicol, com acidose de ânion gap elevado, hipocalcemia por quelação pelo oxalato, cristais de oxalato de cálcio em envelope e fluorescência urinária pela fluoresceína do anticongelante. Hidratação isolada não impede a formação de metabólitos tóxicos. A alcalinização urinária isolada é insuficiente. O cálcio corrige a hipocalcemia sintomática, mas não é o tratamento principal. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol.
Homem, 28 anos, é trazido do carnaval com dor torácica opressiva há 1 hora, após uso de cocaína inalada. Exame: agitado, sudoreico, com midríase; PA 178x104 mmHg, FC 132 bpm, T 38,3 graus C. Eletrocardiograma mostra supradesnivelamento de ST de 2 mm em parede inferior. Troponina elevada. Qual a conduta farmacológica inicial mais adequada para o controle da hipertensão e da isquemia?
A conduta inicial é o benzodiazepínico venoso, que reduz o tônus adrenérgico central, associado a nitrato para vasodilatação coronariana, evitando o betabloqueador isolado pelo risco clássico de estímulo alfa sem oposição, com agravamento do vasoespasmo e da hipertensão. O metoprolol isolado é justamente o que se deve evitar nesse cenário. O haloperidol reduz o limiar convulsivo, prolonga o intervalo QT e prejudica a dissipação de calor em paciente hipertérmico. O nifedipino sublingual causa queda pressórica abrupta e imprevisível, prática abandonada. A adenosina trata taquicardia supraventricular por reentrada nodal, não a taquicardia sinusal adrenérgica do quadro.
Homem, 34 anos, em uso de sertralina, teve tramadol prescrito há 2 dias para dor lombar. Chega ao pronto-socorro com agitação e tremores. Exame: T 38,9 graus C, FC 126 bpm, PA 156x92 mmHg, midríase, sudorese, hiperreflexia intensa e clônus espontâneo mais evidente nos membros inferiores, com rigidez de predomínio distal. Laboratório: creatinofosfoquinase 1.900 U/L (VR até 200); leucócitos normais. Qual o diagnóstico e a conduta?
O diagnóstico é síndrome serotoninérgica: associação de inibidor seletivo da recaptação de serotonina com tramadol, início em até 24 a 48 horas, hipertermia, instabilidade autonômica e, sobretudo, hiperreflexia com clônus de predomínio em membros inferiores, que é o achado discriminante; o tratamento inclui suspensão dos fármacos, benzodiazepínico, resfriamento e ciproeptadina. A síndrome neuroléptica maligna cursa com rigidez em cano de chumbo generalizada, hiporreflexia e instalação em dias, associada a antipsicótico. A hipertermia maligna ocorre no intraoperatório com anestésico inalatório ou succinilcolina. A meningoencefalite traria sinais meníngeos. A crise tireotóxica não produz clônus com esse padrão nem se relaciona à introdução do tramadol.
Mulher, 30 anos, é trazida 1 hora após ingerir um produto vendido como raticida clandestino, conhecido popularmente como chumbinho. Exame: sialorreia intensa, lacrimejamento, sudorese, vômitos e diarreia; FC 46 bpm, PA 92x56 mmHg, pupilas mióticas puntiformes, sibilos difusos e secreção brônquica abundante; fasciculações musculares. Sobre o manejo dessa intoxicação, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que torna a pralidoxima obrigatória e insubstituível em todos os casos: nas intoxicações por carbamato, como o chumbinho, a inibição da colinesterase é reversível e a atropina é o pilar do tratamento, com a pralidoxima considerada dispensável ou de indicação controversa. É correto titular a atropina pelo alvo de secar as secreções brônquicas, e não pela pupila ou pela frequência isoladamente. A descontaminação cutânea com proteção da equipe é necessária. O quadro descrito é de fato a síndrome colinérgica por inibição da acetilcolinesterase. A insuficiência respiratória por broncorreia e fraqueza muscular é reconhecidamente a principal causa de óbito.
Homem, 35 anos, trabalhador rural, ingeriu herbicida à base de paraquat há 5 horas em tentativa de suicídio. Exame: ulcerações dolorosas em orofaringe, vômitos, dor abdominal; FR 22 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, PA 116x70 mmHg. Laboratório: creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,7-1,3); transaminases discretamente elevadas. Radiografia de tórax ainda sem infiltrados. Qual conduta é fundamental no manejo inicial desse paciente?
A conduta fundamental é evitar oxigênio suplementar desnecessário, oferecendo-o apenas diante de hipoxemia significativa: o paraquat gera radicais livres em ciclo redox dependente de oxigênio, e a suplementação acelera a lesão alveolar e a fibrose pulmonar progressiva que caracteriza a intoxicação. Administrar oxigênio a 100% de rotina é exatamente o erro que piora o desfecho. A N-acetilcisteína não é antídoto específico e não reverte a toxicidade estabelecida. A lavagem gástrica 12 horas após a ingestão não tem benefício e agrava lesões cáusticas. Aguardar a fibrose instalada elimina qualquer janela de descontaminação precoce, que inclui adsorventes como terra de Fuller nas primeiras horas.
Homem, 52 anos, é atendido com equimoses extensas e hematúria há 3 dias. Nega uso de anticoagulante, mas relata ter manipulado raticida em pó no galpão onde trabalha, sem proteção, nas últimas semanas. Exame: PA 122x76 mmHg, FC 92 bpm, equimoses em membros e tronco, sem sangramento ativo. Laboratório: INR acima de 10; tempo de tromboplastina parcial ativada prolongado; plaquetas 218.000/mm3 (VR 150.000-450.000); fibrinogênio normal. Qual a conduta mais adequada?
A conduta é vitamina K em dose alta e por tempo prolongado, associada a plasma fresco ou complexo protrombínico se houver sangramento grave: os raticidas superwarfarínicos têm meia-vida muito longa e podem exigir semanas a meses de reposição de vitamina K, com coagulograma seriado. A transfusão de plaquetas não corrige o defeito, pois a contagem está normal e o problema é a inibição dos fatores dependentes de vitamina K. A protamina reverte heparina, não anticoagulante cumarínico. Suspender a exposição e reavaliar em 30 dias deixa o paciente sob risco de sangramento fatal. A heparina agravaria de forma grave o quadro hemorrágico.
Homem, 43 anos, bombeiro, é resgatado de incêndio em depósito de materiais sintéticos em ambiente fechado. Exame: rebaixamento do nível de consciência, FR 34 ipm, PA 82x48 mmHg, sem queimaduras cutâneas extensas; SatO2 de 98% no oximetria de pulso. Gasometria arterial com PaO2 normal, saturação venosa central muito elevada e lactato de 12 mmol/L (VR até 2). Carboxi-hemoglobina de 12% (VR abaixo de 3). Qual o diagnóstico e a conduta específica?
O diagnóstico é intoxicação por cianeto, liberado na combustão de materiais sintéticos em ambiente fechado: acidose láctica intensa com PaO2 normal, saturação venosa central elevada por bloqueio da citocromo-oxidase e incapacidade de extrair oxigênio, além de instabilidade neurológica e hemodinâmica; o tratamento é hidroxocobalamina venosa com oxigênio a 100%. A intoxicação isolada por monóxido de carbono não explica lactato dessa magnitude nem a saturação venosa elevada, embora coexista. O choque hipovolêmico por queimadura é afastado pela ausência de queimaduras extensas. A embolia pulmonar cursaria com hipoxemia. A metemoglobinemia produz cianose com PaO2 normal e não eleva a saturação venosa central dessa forma.
Homem, 29 anos, recebeu benzocaína tópica em spray para endoscopia digestiva alta há 40 minutos e evolui com cianose importante. Exame: cianose central e periférica que não melhora com oxigênio a 100%; SatO2 de 85% na oximetria de pulso, sem alterações à ausculta pulmonar; PA 128x78 mmHg, FC 108 bpm. Gasometria arterial mostra PaO2 de 96 mmHg. O sangue coletado apresenta coloração achocolatada. Qual o diagnóstico e a conduta?
O diagnóstico é metemoglobinemia adquirida por benzocaína: cianose refratária ao oxigênio, dissociação entre a saturação medida pelo oxímetro e a PaO2 normal na gasometria e sangue de coloração achocolatada são a tríade característica; o tratamento é azul de metileno venoso, após confirmação por cooximetria e desde que não haja deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase. O tromboembolismo pulmonar cursaria com hipoxemia real na gasometria. O pneumotórax hipertensivo traria assimetria à ausculta e instabilidade hemodinâmica. A broncoaspiração produziria alterações auscultatórias e hipoxemia verdadeira. A anafilaxia cursaria com hipotensão, urticária e broncoespasmo, ausentes na descrição.
Homem, 38 anos, aplicador de inseticida doméstico, apresenta, após um dia de trabalho sem equipamento de proteção, ardência e parestesia em face e mãos, sem sialorreia, sem miose e sem broncorreia. Exame: FC 84 bpm, PA 128x78 mmHg, pupilas isocóricas e fotorreagentes, ausculta pulmonar limpa, sem fasciculações; eritema leve em face. Atividade da colinesterase plasmática normal. Qual o diagnóstico e a conduta?
O diagnóstico é exposição a piretroide: parestesia e ardência em áreas expostas, sem síndrome colinérgica e com colinesterase normal, é o quadro típico, e a conduta é lavagem cutânea, remoção da roupa contaminada e sintomáticos, com evolução benigna. A intoxicação por organofosforado cursaria com miose, sialorreia, broncorreia, fasciculações e queda da colinesterase. O carbamato produz o mesmo padrão colinérgico, também ausente. A anafilaxia traria urticária, broncoespasmo e hipotensão. A intoxicação por paraquat decorre principalmente da ingestão e cursa com lesões cáusticas e evolução pulmonar progressiva, sem parestesia facial isolada.
Mulher, 62 anos, é trazida pelo filho 3 horas após ingerir grande quantidade de zolpidem em tentativa de suicídio. Exame: sonolenta, desperta ao estímulo verbal vigoroso, Glasgow 13; FR 14 ipm, SatO2 96% em ar ambiente, PA 118x72 mmHg, FC 82 bpm; pupilas médias e reagentes, sem sinais focais. Glicemia capilar de 96 mg/dL (VR 70-99). Sobre a conduta, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que indica flumazenil de rotina: seu uso indiscriminado é desaconselhado porque pode precipitar convulsões e arritmias, sobretudo em usuários crônicos de benzodiazepínico e em coingestão de antidepressivos tricíclicos, sendo reservado a casos selecionados. É correto que o suporte clínico com vigilância da via aérea é a base do tratamento. Também é correto o alerta sobre o risco convulsivo do flumazenil. A avaliação psiquiátrica após a estabilização é obrigatória em tentativa de suicídio. Pesquisar ativamente a coingestão de outras substâncias é conduta fundamental, já que a informação inicial costuma ser incompleta.
Mulher, 27 anos, recebe N-acetilcisteína venosa por intoxicação por paracetamol. Vinte minutos após o início da dose de ataque, apresenta rubor facial, urticária difusa, prurido e sibilos leves. Exame: PA 112x70 mmHg, FC 104 bpm, SatO2 96%, sem estridor, sem edema de glote e sem hipotensão. A infusão é interrompida. Qual a conduta mais adequada?
A conduta é tratar com anti-histamínico e, após a melhora, reiniciar a N-acetilcisteína em velocidade de infusão mais lenta: a reação anafilactoide é dose e velocidade dependente, mediada por liberação direta de histamina, e não constitui alergia verdadeira nem contraindicação definitiva ao antídoto, que é essencial para prevenir a hepatotoxicidade. Suspender definitivamente priva a paciente da única terapia eficaz. A adrenalina é reservada a reações graves com hipotensão ou comprometimento de via aérea, ausentes aqui, e não substitui o antídoto. O flumazenil não tem qualquer papel na intoxicação por paracetamol. Manter a mesma velocidade perpetua o gatilho da reação.
Homem, 24 anos, ingeriu grande quantidade de quetiapina há 4 horas em tentativa de suicídio. Exame: sonolento, com Glasgow 12, pupilas médias, boca seca, retenção urinária; PA 88x52 mmHg, FC 132 bpm, T 37,2 graus C. Eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal com intervalo QT corrigido de 520 ms (VR até 440) e QRS de 90 ms. Potássio 3,2 mEq/L (VR 3,5-5,0) e magnésio 1,4 mg/dL (VR 1,7-2,4). Qual a conduta mais adequada?
A conduta é corrigir a hipocalemia e a hipomagnesemia, retirar fármacos que prolongam o intervalo QT e manter monitorização contínua, com sulfato de magnésio disponível caso ocorra torsades de pointes: a intoxicação por antipsicótico atípico cursa com sedação, efeitos anticolinérgicos, hipotensão por bloqueio alfa e prolongamento do QT, agravado por distúrbios eletrolíticos. O haloperidol prolonga ainda mais o QT. A amiodarona também prolonga a repolarização e não é profilaxia adequada nesse cenário. O sotalol é justamente um antiarrítmico que aumenta o QT, contraindicado aqui. O flumazenil não reverte antipsicótico e pode precipitar convulsão.
Mulher, 33 anos, epiléptica, é trazida após ingerir grande quantidade de carbamazepina há 5 horas. Exame: sonolenta, com nistagmo, ataxia, disartria e midríase; FC 118 bpm, PA 104x62 mmHg. Eletrocardiograma com QRS de 118 ms. Laboratório: sódio 126 mEq/L (VR 135-145); carbamazepinemia de 32 mcg/mL (VR terapêutico 4-12). O nível sérico colhido 2 horas depois é ainda maior, apesar de nenhuma nova ingestão. Qual a conduta mais adequada?
A conduta é carvão ativado em doses múltiplas, que interrompe a recirculação êntero-hepática e explica a utilidade mesmo horas após a ingestão, associada a bicarbonato de sódio diante do alargamento do QRS por bloqueio de canais de sódio, além de suporte clínico; a absorção errática e o efeito anticolinérgico justificam a elevação tardia do nível sérico. O flumazenil não atua sobre a carbamazepina. A fenitoína é outro bloqueador de canais de sódio e agravaria a cardiotoxicidade. A diurese forçada não elimina fármaco com alta ligação proteica e traz risco de sobrecarga. Corrigir o sódio tão rapidamente expõe à síndrome de desmielinização osmótica.
Homem, 31 anos, com transtorno bipolar, ingeriu grande quantidade de ácido valproico há 6 horas. Exame: torporoso, com Glasgow 9, sem sinais focais; FR 12 ipm, PA 106x64 mmHg, FC 96 bpm. Laboratório: amônia de 180 mcmol/L (VR até 55); transaminases discretamente elevadas; pH 7,30 com ânion gap de 18 mEq/L (VR 8-12); valproatemia de 320 mcg/mL (VR terapêutico 50-100). Qual a conduta específica mais adequada?
A conduta específica é a L-carnitina venosa, que corrige a depleção induzida pelo valproato e reduz a hiperamonemia, associada a suporte clínico e à consideração de hemodiálise em níveis muito elevados, coma profundo, instabilidade ou acidose refratária. A lactulose isolada não trata o mecanismo da hiperamonemia por valproato, ligado à inibição do ciclo da ureia. O flumazenil não atua sobre o valproato e pode precipitar convulsões em paciente epiléptico. A naloxona reverte opioides. O fenobarbital acrescenta depressão do sistema nervoso central e respiratória em paciente já torporoso, sem indicação profilática nesse contexto.
Homem, 66 anos, com doença pulmonar obstrutiva crônica em uso de teofilina, iniciou ciprofloxacino há 4 dias por infecção urinária. É trazido com vômitos incoercíveis, tremores e agitação, seguidos de crise convulsiva. Exame: FC 148 bpm com extrassístoles frequentes, PA 96x54 mmHg. Laboratório: potássio 2,8 mEq/L (VR 3,5-5,0); glicemia 210 mg/dL (VR 70-99); teofilinemia de 42 mcg/mL (VR terapêutico 10-20). Qual a conduta mais adequada?
A conduta é suspender a teofilina, tratar as convulsões com benzodiazepínico, repor potássio com cautela e considerar hemodiálise, indicada em intoxicação com convulsão, arritmia ou nível muito elevado: o ciprofloxacino inibe o metabolismo hepático da teofilina e precipitou a intoxicação, que cursa com vômitos, taquiarritmia, hipocalemia e hiperglicemia por estímulo beta-adrenérgico. A adrenalina agrava a estimulação adrenérgica e as arritmias. A fenitoína é ineficaz nas convulsões por teofilina. Negar a interação entre teofilina e ciprofloxacino contraria a causa do quadro. A hipocalemia é sobretudo redistributiva, e reposição muito agressiva pode causar hipercalemia de rebote.
Casal, ambos com 40 anos, colheu e consumiu cogumelos silvestres. Cerca de 10 horas depois, iniciaram vômitos e diarreia aquosa profusa, com melhora aparente no segundo dia. No terceiro dia, ambos retornam com icterícia e sonolência. Exame: icterícia, encefalopatia grau II; laboratório de um deles com ALT 4.200 U/L (VR até 40); INR 3,8; bilirrubina total 8,6 mg/dL (VR até 1,2). Qual a hipótese e a conduta?
A hipótese é intoxicação por amatoxinas, presentes em cogumelos do gênero Amanita: o intervalo longo entre a ingestão e os sintomas gastrointestinais, seguido de falsa melhora e de hepatite fulminante no terceiro dia, é o padrão clássico; a conduta inclui suporte intensivo, silibinina ou N-acetilcisteína, carvão ativado em doses múltiplas e contato precoce com centro de transplante hepático. A intoxicação por muscarina cursa com síndrome colinérgica precoce, em minutos a poucas horas. A gastroenterite viral não causa hepatite fulminante. A hepatite A não teria essa relação temporal com a refeição e o padrão bifásico. A toxina estafilocócica provoca vômitos em 1 a 6 horas, sem lesão hepática.
Quatro pessoas que jantaram atum mal conservado em um restaurante chegam juntas ao pronto-socorro cerca de 30 minutos após a refeição. Exame: todas apresentam rubor facial e cervical, cefaleia latejante, prurido, urticária, palpitações e diarreia; uma delas com PA 96x58 mmHg e broncoespasmo leve. Nenhuma tem história de alergia a peixe e todas já consumiram atum antes sem reações. Qual o diagnóstico e a conduta?
O diagnóstico é intoxicação escombroide: peixes de carne escura mal conservados acumulam histamina pela ação bacteriana sobre a histidina, e o quadro surge em minutos com rubor, cefaleia, urticária, palpitações e diarreia, acometendo simultaneamente vários comensais sem história prévia de alergia; o tratamento é com anti-histamínicos e suporte, com adrenalina reservada aos casos graves. A anafilaxia alérgica não explicaria o acometimento simultâneo de quatro pessoas sem sensibilização prévia. A ciguatoxina cursa com sintomas neurológicos e inversão da sensação térmica, e não com rubor histamínico. A tetrodotoxina causa paralisia flácida progressiva. A gastroenterite por Salmonella teria incubação de horas e cursaria com febre.
Homem, 52 anos, consumiu peixe baiacu preparado por conhecido há 90 minutos. Chega com parestesia perioral e nas extremidades, tontura e fraqueza progressiva. Exame: consciente e orientado, com fraqueza ascendente, disartria leve; FR 22 ipm com respiração superficial, PA 104x62 mmHg, SatO2 94%. Não há febre, exantema, prurido nem broncoespasmo. Sobre esse quadro, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que menciona antídoto específico amplamente disponível: não existe antídoto para a tetrodotoxina, e o tratamento é de suporte, com atenção prioritária à ventilação. É correto que a toxina bloqueia canais de sódio dependentes de voltagem, impedindo a propagação do potencial de ação. Também é correto que o suporte ventilatório até a eliminação da toxina é a medida central. O paciente de fato pode permanecer consciente apesar da paralisia, característica marcante e angustiante do quadro. Por fim, é correto que o cozimento habitual não destrói a tetrodotoxina, que é termoestável.
Mulher, 30 anos, chega ao pronto-socorro 45 minutos após ingerir comprimidos de amitriptilina em tentativa de suicídio. Exame: sonolenta, mas desperta e protege a via aérea, Glasgow 14; PA 108x66 mmHg, FC 112 bpm; sem vômitos e sem convulsões. Não houve ingestão de substância cáustica nem de hidrocarboneto. Sobre o uso de carvão ativado nessa situação, assinale a alternativa correta.
A alternativa correta indica o carvão ativado: a ingestão ocorreu há menos de 1 hora, o fármaco é bem adsorvido e a paciente mantém a via aérea protegida, que é a condição essencial de segurança. Afirmar que o carvão não adsorve tricíclicos é falso, ao contrário de íons como lítio e ferro e de álcoois. Exigir intubação em qualquer nível de consciência é excessivo, pois a intubação é necessária apenas quando há risco de aspiração por rebaixamento. Reservar o uso para ingestões acima de 6 horas inverte a lógica, pois o benefício é maior quanto mais precoce. Oferecer leite não neutraliza o fármaco e pode induzir vômito com risco de aspiração.
Homem, 44 anos, é internado por intoxicação exógena, com rebaixamento do nível de consciência e acidose metabólica grave. A equipe discute a indicação de hemodiálise como método de eliminação extracorpórea. Exame: PA 96x58 mmHg, FC 104 bpm, Glasgow 10. Laboratório: pH 7,05; bicarbonato 7 mEq/L; creatinina 3,2 mg/dL (VR 0,7-1,3). Assinale a alternativa INCORRETA sobre a eliminação extracorpórea nas intoxicações.
A afirmação incorreta é a que atribui boa remoção a substâncias com alto volume de distribuição e alta ligação proteica: essas características indicam justamente que o tóxico está fora do compartimento plasmático ou ligado a proteínas, o que torna a hemodiálise ineficaz, como ocorre com antidepressivos tricíclicos e digoxina. É correto que metanol, etilenoglicol, lítio e salicilatos são dialisáveis. Também é correto que o método corrige simultaneamente acidose e distúrbios eletrolíticos. A indicação depende de fato da gravidade clínica e da falha do suporte. Substâncias de baixo peso molecular e hidrossolúveis são realmente as mais bem depuradas.
Homem, 36 anos, aplicador de agrotóxico, é trazido pelos colegas com as roupas encharcadas do produto. Exame: sialorreia, miose puntiforme, sudorese profusa, fasciculações e vômitos; FC 48 bpm, PA 94x56 mmHg, sibilos e secreção brônquica abundante. Dois profissionais que o atenderam sem luvas iniciaram cefaleia e náuseas. Sobre a condução do atendimento, assinale a alternativa correta.
A alternativa correta prioriza a remoção das roupas contaminadas e a lavagem cutânea abundante, com proteção da equipe usando luvas e avental impermeável: os organofosforados são bem absorvidos pela pele, e a contaminação secundária, sugerida pelos sintomas dos profissionais, é risco real. Adiar a descontaminação mantém a absorção contínua e impede a estabilização. Afirmar que a absorção é apenas digestiva é falso. Negar a necessidade de proteção da equipe contraria o próprio relato de sintomas nos profissionais. Evitar a atropina é equivocado, pois ela é o antídoto que reverte a bradicardia e as secreções, devendo ser titulada até secar as secreções brônquicas.
Dois trabalhadores entram em um poço de esgoto para manutenção. O primeiro perde a consciência em segundos; o segundo, que desceu para socorrer, também desmaia. São resgatados por equipe com equipamento autônomo. Exame do primeiro: Glasgow 6, FR 8 ipm, PA 88x50 mmHg, sem cianose acentuada; relato de forte odor de ovo podre pelos socorristas antes da perda de olfato. Lactato de 9 mmol/L (VR até 2). Qual o agente e a conduta?
O agente é o gás sulfídrico, típico de espaços confinados como poços de esgoto, com odor de ovo podre que desaparece rapidamente por fadiga olfatória e capacidade de causar perda de consciência fulminante, o chamado efeito nocaute, além de acidose láctica por inibição da citocromo-oxidase; a conduta é remoção do ambiente por equipe protegida, oxigênio a 100% e suporte ventilatório. O monóxido de carbono é inodoro e não produz esse odor característico. A amônia e o cloro são irritantes de vias aéreas, com lacrimejamento e tosse intensa, sem colapso imediato. O dióxido de carbono desloca oxigênio, mas não causa acidose láctica por bloqueio celular nem responde a hemodiálise.
Homem, 29 anos, sifonou combustível com a boca e engoliu pequena quantidade de querosene há 3 horas. Chega com tosse persistente iniciada logo após o episódio. Exame: FR 26 ipm, SatO2 93% em ar ambiente, crepitações em base direita, T 37,9 graus C, sem vômitos. Radiografia de tórax mostra infiltrado em base direita. Abdome indolor, sem sinais de irritação peritoneal. Qual a conduta mais adequada?
A conduta é suporte respiratório com oxigênio e observação, sem indução de vômito nem lavagem gástrica: os hidrocarbonetos de baixa viscosidade e alta volatilidade causam dano principalmente por aspiração, e qualquer manobra que provoque vômito multiplica esse risco, sendo a pneumonite química a complicação temida, já evidenciada pelo infiltrado. A indução de vômito é justamente o erro clássico. A lavagem gástrica com carvão ativado não beneficia e aumenta o risco de aspiração. Antibiótico e corticoide de rotina não têm eficácia comprovada na pneumonite química. Dar alta com infiltrado radiológico e hipoxemia é inaceitável.
Homem, 52 anos, com gota, ingeriu grande quantidade de colchicina há 8 horas em tentativa de suicídio. Exame: vômitos incoercíveis e diarreia profusa, desidratado; PA 84x48 mmHg, FC 128 bpm, enchimento capilar de 4 segundos. Laboratório: leucócitos 22.000/mm3 (VR 4.000-11.000); creatinina 2,6 mg/dL (VR 0,7-1,3); creatinofosfoquinase elevada; plaquetas 140.000/mm3 (VR 150.000-450.000). Qual a evolução esperada e a conduta?
A evolução esperada é grave e trifásica: após a fase gastrointestinal com vômitos, diarreia e choque hipovolêmico, segue-se em 1 a 7 dias a falência de múltiplos órgãos com pancitopenia por bloqueio mitótico, rabdomiólise, lesão renal e arritmias, exigindo suporte intensivo precoce e vigilância hematológica. Considerar o quadro autolimitado com alta é erro grave, pois a fase mais letal ainda está por vir. A colestiramina foi estudada, mas não é antídoto estabelecido de reversão completa. A hemodiálise é ineficaz pelo enorme volume de distribuição da colchicina. Vitamina K não tem qualquer papel nesse mecanismo tóxico.
Mulher, 63 anos, com artrite reumatoide, usou por engano metotrexato em dose diária, em vez de semanal, durante 6 dias. Chega com mucosite oral extensa, diarreia e febre. Exame: T 38,6 graus C, PA 106x64 mmHg, lesões ulceradas em toda a cavidade oral. Laboratório: leucócitos 1.100/mm3 (VR 4.000-11.000) com 300 neutrófilos; plaquetas 42.000/mm3 (VR 150.000-450.000); creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,6-1,1). Qual a conduta específica?
A conduta específica é suspender o metotrexato, iniciar ácido folínico, que é o folinato de cálcio e não depende da di-hidrofolato redutase bloqueada, e tratar a neutropenia febril com antibiótico de amplo espectro, além de hidratação e alcalinização quando indicado. O ácido fólico comum em dose baixa não resgata a toxicidade aguda, pois precisa ser reduzido pela enzima inibida. Manter o fármaco perpetua a toxicidade em paciente com pancitopenia e mucosite graves. O filgrastim é adjuvante, mas em neutropenia febril o antibiótico é obrigatório e imediato. A N-acetilcisteína é antídoto do paracetamol.
Médico plantonista de unidade de pronto atendimento em município do interior atende criança de 2 anos que ingeriu produto de limpeza de identificação incerta. A criança está estável, mas o produto não pode ser identificado pela embalagem, sem rótulo legível. O serviço não dispõe de toxicologista presencial nem de laboratório para dosagens específicas. Sobre a condução do caso, assinale a alternativa correta.
A alternativa correta afirma que o contato com o centro de informação e assistência toxicológica orienta a conduta a distância e que a notificação de intoxicação exógena é compulsória, integrando o sistema de vigilância epidemiológica. Considerar a notificação facultativa conforme a gravidade contraria a norma vigente. Aguardar dosagem sérica específica antes de qualquer medida é inviável e perigoso, pois a maior parte das intoxicações é conduzida clinicamente, por síndrome tóxica. Afirmar que a ausência de toxicologista presencial impede orientação especializada ignora a existência dos centros de referência acessíveis por telefone. Restringir a notificação a óbito ou internação prolongada também é incorreto.
Homem, 47 anos, etilista, é trazido com hálito adocicado e rebaixamento do nível de consciência após ingerir álcool de limpeza contendo isopropanol há 4 horas. Exame: Glasgow 11, PA 108x64 mmHg, FC 96 bpm, FR 16 ipm, dor abdominal e vômitos. Laboratório: pH 7,36; bicarbonato 22 mEq/L; ânion gap 11 mEq/L (VR 8-12); cetonemia positiva; glicemia 92 mg/dL (VR 70-99); hiato osmolar aumentado. Qual a interpretação mais adequada?
A interpretação é de intoxicação por isopropanol: ele é metabolizado a acetona, o que produz cetose com hálito adocicado e hiato osmolar aumentado, porém sem acidose metabólica significativa, já que a acetona não é ácido, e o tratamento é essencialmente de suporte, com hemodiálise em casos graves e refratários. A intoxicação por metanol cursaria com acidose grave e ânion gap elevado, ausentes. O etilenoglicol também produziria acidose e cristais de oxalato com lesão renal. A cetoacidose diabética exigiria hiperglicemia, e a glicemia está normal. A intoxicação por salicilato produziria distúrbio ácido-base misto com taquipneia e zumbido.
Homem, 33 anos, é encontrado inconsciente em via pública, sem informantes. Exame: Glasgow 7, FR 7 ipm, SatO2 88% em ar ambiente, pupilas mióticas puntiformes e simétricas, PA 104x62 mmHg, FC 62 bpm; ausculta pulmonar limpa, sem sinais focais, glicemia capilar de 98 mg/dL (VR 70-99). Há marcas de punção venosa recente em fossa antecubital. Qual a síndrome tóxica e a conduta imediata?
A síndrome é opioide, caracterizada pela tríade de rebaixamento do nível de consciência, depressão respiratória e miose puntiforme, reforçada pelas marcas de punção venosa; a conduta imediata é suporte ventilatório com bolsa-válvula-máscara e naloxona titulada até a ventilação adequada, evitando abstinência abrupta. A síndrome anticolinérgica cursaria com midríase e pele seca e quente. A simpaticomimética traria hipertensão, taquicardia e sudorese, com midríase. A colinérgica também tem miose, mas viria com sialorreia, broncorreia e fasciculações, ausentes na ausculta limpa. A síndrome sedativo-hipnótica não produz miose puntiforme, e o flumazenil de rotina traz risco de convulsão.
Homem, 27 anos, é trazido ao pronto-socorro com delírios persecutórios, alucinações táteis de insetos sob a pele e agitação intensa, iniciados há 24 horas. PA 176x104 mmHg, FC 132 bpm, FR 24 ipm, T 38,2 °C. Exame: midríase, sudorese, escoriações lineares em antebraços por escoriação repetida da pele, bruxismo. Exames: triagem toxicológica positiva para anfetaminas; creatinoquinase 3.200 U/L (VR até 170); sódio 138 mEq/L. Qual a conduta inicial mais adequada?
Na intoxicação por metanfetamina com psicose e hiperatividade adrenérgica, o benzodiazepínico é a base do tratamento, reduzindo agitação, taquicardia, hipertensão e o risco de hipertermia e rabdomiólise, associado a hidratação e monitorização, com antipsicótico como adjuvante quando a agitação persiste. Betabloqueador isolado pode gerar estimulação alfa sem oposição, como na cocaína. Haloperidol isolado em dose alta reduz o limiar convulsivo, não trata a hiperatividade autonômica e agrava a hipertermia por interferir na termorregulação. O flumazenil não tem indicação e é perigoso. Apenas observar sem tratar mantém o risco de rabdomiólise, hipertermia e complicações cardiovasculares.
Homem, 21 anos, é levado ao pronto-socorro por familiares 3 horas após ingerir substância em festa. Apresenta alucinações visuais coloridas com crítica flutuante, sinestesias, ansiedade intensa e sensação de que o tempo passa lentamente. PA 146x88 mmHg, FC 112 bpm, T 37,6 °C. Exame: midríase acentuada, sudorese, tremor fino, orientado quanto a pessoa, sem sinais focais. Glicemia capilar 98 mg/dL. Qual a conduta mais adequada?
A intoxicação por alucinógenos como LSD e psilocibina é manejada com ambiente calmo, com pouca estimulação, reasseguramento verbal e presença de acompanhante, usando benzodiazepínico quando há agitação ou ansiedade intensa, e antipsicótico apenas se necessário. Haloperidol em dose alta como primeira medida é desnecessário, reduz o limiar convulsivo e pode agravar a hipertermia. O flumazenil reverte benzodiazepínicos e a naloxona reverte opioides, sem qualquer efeito sobre alucinógenos serotoninérgicos. Lavagem gástrica três horas após a ingestão não tem benefício e acarreta risco de broncoaspiração.
A amostra pertence a paciente com miose, sonolência e frequência respiratória de 5/min após uso de analgésico. Qual medida específica deve acompanhar o suporte ventilatório?

A toxíndrome sugere opioide; antagonização com naloxona pode reverter depressão respiratória, sem substituir suporte e observação.
Durante o manejo da intoxicação suspeita, qual mudança ventilatória poderia agravar rapidamente o componente acidótico mostrado?

Perder a hiperventilação reduz a compensação e faz o pH cair; se houver necessidade de suporte invasivo, o planejamento ventilatório é crucial.
Qual agente combina melhor com zumbido e o padrão misto demonstrado no diagrama?

Salicilatos podem estimular a ventilação e produzir ácidos metabólicos, gerando a combinação mostrada.
Qual combinação de A é típica de intoxicação por opioide?

Opioides frequentemente causam rebaixamento, miose e hipoventilação.
Qual quadro apresenta bradipneia importante?

A frequência de 6/minuto é muito baixa e ameaça a ventilação.
Em B, qual dado ajuda a diferenciar um toxíndrome anticolinérgico de um simpaticomimético?

Os dois podem causar agitação e midríase; secura favorece bloqueio antimuscarínico, enquanto sudorese favorece simpaticomimético.
A desperta após naloxona, mas volta a hipoventilar 40 minutos depois. Qual explicação orienta monitorização e novo suporte?

Pode ocorrer renarcotização quando o efeito do agonista supera o do antagonista.
A ventilação em A é muito reduzida. Qual abordagem tem prioridade sobre procurar o nome exato do produto?

Depressão respiratória exige ventilação; naloxona pode reverter toxicidade opioide, com titulação clínica.
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