381 min de leitura

Clínica MédicaToxicologia

Intoxicações exógenas agudas e antídotos

A vinheta entrega uma síndrome tóxica, não o nome da molécula. A prova quer que você leia pupila, pele e ventilação, escolha o antídoto certo — e recuse os que quase nunca entram.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 35 anos com transtorno bipolar tipo I em uso de lítio há 6 meses procura a emergência com náuseas, vômitos, diarreia, tremor grosseiro das mãos, ataxia e fala arrastada, iniciados após um quadro de desidratação por gastroenterite. Refere ter iniciado recentemente um anti-inflamatório para dor lombar. PA 118/78 mmHg, FC 88 bpm, consciente mas letárgico. Qual é a conduta inicial MAIS adequada?

02

Como esse tema cai

Intoxicação exógena tem capítulo próprio no Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (6.ª edição revisada, 2024), sob o CID-10 T65.9. Esse capítulo é de vigilância: define caso, classifica o encerramento da investigação e diz como notificar — não prescreve conduta clínica. A régua de tratamento vem de outros documentos: o guia de indicações, uso e estoque de antídotos elaborado pelo CIATox de Campinas e referendado pela SBTox e pela Abracit, de março de 2025, e, no caso dos agrotóxicos, os protocolos estaduais de atendimento ao intoxicado. Saber de onde sai cada número explica por que dois documentos brasileiros podem discordar sobre lavagem gástrica e continuarem os dois valendo.

A vinheta quase nunca entrega o nome da molécula. Entrega um exame físico, e quer que você diga qual síndrome tóxica está na frente — porque é a síndrome, e não o rótulo do frasco, que define os primeiros minutos. Pupila, umidade da pele, ruídos hidroaéreos, frequência respiratória, temperatura e nível de consciência resolvem a maioria dos casos antes de qualquer exame complementar.

O segundo eixo é o antídoto, e aqui a prova separa quem estudou: a maior parte das intoxicações não tem antídoto, e dois dos mais lembrados — flumazenil e carvão ativado — têm mais contraindicação do que indicação. Via aérea, ventilação, hemodinâmica e glicemia tratam mais intoxicado do que qualquer ampola. O terceiro eixo é o que sobra depois da alta: a intoxicação exógena é agravo de notificação compulsória semanal, e a circunstância da exposição muda o que se preenche.

03

O que muda decisão

A anamnese que decide o caso

O Guia de Vigilância em Saúde organiza a coleta em seis perguntas: quem (idade, ocupação, gravidez, doenças e medicamentos em uso, álcool e drogas), o que foi usado e quanto (com a embalagem e a bula em mãos sempre que possível), qual a via (oral, dérmica, inalatória, intravenosa), onde, como — isto é, a circunstância: acidental, tentativa de suicídio, agressão, ocupacional ou ambiental — e há quanto tempo.

A circunstância não é burocracia. Ela muda a probabilidade diagnóstica (exposição ocupacional a agrotóxico em zona rural, acidente doméstico com saneante em criança de 2 anos, ingestão intencional de caixa inteira de medicamento em adolescente) e muda o que se notifica: tentativa de suicídio exige, além da ficha de intoxicação, a ficha de violência. O tempo decorrido decide se ainda cabe descontaminação e se o nível sérico já pode ser colhido.

Os agentes que mais aparecem, segundo o mesmo documento, são medicamentos, agrotóxicos, raticidas, produtos veterinários, produtos de uso domiciliar, cosméticos, produtos químicos de uso industrial, metais, drogas de abuso, plantas tóxicas, alimentos e bebidas. Intoxicação aguda é a que decorre de exposição única ou de exposições sucessivas dentro de um prazo médio de 24 horas. Gestantes, lactantes, crianças e idosos são os grupos de maior suscetibilidade.

O telefone do sistema é o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001, que conecta ao CIATox de referência da região. Essa não é uma orientação de cortesia: em decisões como a do flumazenil, o próprio guia brasileiro de antídotos manda que a indicação e a dose sigam a orientação do CIATox regional. A conduta orientada pelo centro entra no prontuário.

Cinco síndromes tóxicas, e o exame físico que as separa

A síndrome colinérgica é a do organofosforado e do carbamato, e se lê em três blocos. O muscarínico dá sialorreia, lacrimejamento, sudorese, miose, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, vômito, cólica abdominal e incontinência urinária e fecal. O nicotínico dá fasciculação, tremor, fraqueza, mioclonia e contratura. O componente central dá confusão, letargia, ansiedade, convulsão e coma. É o quadro em que a pele está molhada e o pulmão, cheio de secreção.

A síndrome opioide é miose puntiforme com bradipneia e rebaixamento — a tríade que a naloxona reverte. A pele está seca. É a que mais se confunde com a colinérgica, e o que separa as duas é justamente a umidade da pele e a ausculta: no opioide não há sialorreia nem broncorreia, e a bradipneia domina o quadro.

A síndrome sedativo-hipnótica (benzodiazepínico, álcool, barbitúrico) dá rebaixamento com pupila pouco alterada e sem sinal autonômico marcante. Isolada, costuma preservar razoavelmente a ventilação; o que faz o paciente parar de respirar é quase sempre a coingestão. A anticolinérgica é o espelho da colinérgica: midríase, pele seca, quente e ruborizada, febre, retenção urinária, íleo e delirium com alucinação — antidepressivo tricíclico, anti-histamínico, escopolamina e plantas do gênero Datura. O guia brasileiro de antídotos de 2025 não traz fisostigmina na lista; o manejo é de suporte, e o bicarbonato de sódio entra quando o tricíclico alarga o QRS.

A síndrome simpaticomimética (cocaína, anfetamina) também dá midríase, mas com pele úmida, agitação, hipertensão, taquicardia e hipertermia. O par de perguntas que resolve quase toda vinheta é, portanto, curto: a pupila está pequena ou grande, e a pele está molhada ou seca.

Cinco silhuetas de cabeça lado a lado, com tamanhos de pupila diferentes e marcas que sugerem pele úmida ou pele seca.
Pupila e umidade da pele separam a maioria das síndromes tóxicas antes de qualquer exame complementar.

Descontaminação: cedo, pouco, e quase nunca

O carvão ativado em dose única é considerado em exposição potencialmente grave, até 60 minutos da ingestão, e só para substâncias que ele adsorve: 50 g no adulto, 1 g/kg na criança até o teto de 50 g, por via oral ou por sonda. Está contraindicado em paciente com nível de consciência rebaixado, pelo risco de aspiração; em ingestão de corrosivo; em ingestão de hidrocarboneto; e diante de substâncias que ele simplesmente não adsorve — álcoois tóxicos (metanol, etilenoglicol, dietilenoglicol, butilglicol), lítio, metais e seus sais, como arsênio, chumbo, ferro e mercúrio.

As doses múltiplas de carvão ativado são outra técnica, com outra indicação: aumentar a eliminação de xenobióticos que fazem circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina —, e podem ser consideradas na digoxina. Repetem-se 50 g a cada 4 a 6 horas no adulto (1 g/kg por dose na criança, até 50 g). São contraindicadas em obstrução ou perfuração intestinal, íleo paralítico, depressão neurológica sem via aérea protegida e instabilidade hemodinâmica.

A descontaminação que mais muda desfecho em agrotóxico não é a gastrointestinal, é a de pele. Retira-se toda a roupa e faz-se banho de arraste com água e sabão em abundância, com atenção aos espaços interdigitais e à região sob as unhas. A equipe usa avental impermeável, evita friccionar a pele do paciente e não fica manipulando roupa e objetos contaminados, para não criar novas exposições. Exposição ocular pede irrigação abundante com água ou salina isotônica em baixa pressão por, no mínimo, 15 minutos. Na via inalatória, retirar do ambiente e ofertar oxigênio.

Êmese provocada está contraindicada. E paciente assintomático após exposição a organofosforado fica em observação por pelo menos 6 horas antes de qualquer alta.

Organofosforado e carbamato: atropina até secar

As intoxicações por organofosforado podem se apresentar de três formas — a crise colinérgica aguda, a síndrome intermediária e a neurotoxicidade tardia. As por carbamato se manifestam só de forma aguda, porque esses compostos são rapidamente degradados no organismo, e em geral se recuperam em cerca de 6 horas. Persistência do quadro além disso levanta outro diagnóstico ou associação com organofosforado.

A atropina antagoniza os efeitos muscarínicos: seca as secreções, corrige a bradicardia, alivia o broncoespasmo. Não antagoniza os efeitos nicotínicos — fasciculação, mioclonia e fraqueza não respondem a ela, e é por isso que o paciente atropinizado pode continuar precisando de ventilação. Nos quadros leves a moderados, a dose é de 1 a 2 mg por vez; nos graves, de 2 a 4 mg, repetidas a intervalos de 3 a 10 minutos. O guia de antídotos de 2025 sintetiza a dose inicial do adulto como 1 a 4 mg IV, e a da criança como 0,03 a 0,05 mg/kg; o material técnico do Paraná trabalha com 0,01 a 0,05 mg/kg na criança, tanto no ataque quanto na manutenção horária.

O alvo da titulação é clínico e precisa ser dito com todas as letras: boca seca, pele seca, queda da hipersecreção brônquica avaliada pela ausculta e frequência cardíaca em torno de 120 bpm. A miose é o último sinal a desaparecer e não serve de parâmetro de atropinização. Taquicardia não contraindica a atropina. Estabilizado o paciente, mantém-se infusão contínua em bomba, de 1 a 2 mg/h nos casos mais leves e de 3 a 4 mg/h nos graves, com reavaliação a cada 30 minutos nas três primeiras horas e retirada gradual. Se os sinais colinérgicos voltarem depois da suspensão, retoma-se pela dose de ataque, não pela manutenção anterior. Casos muito graves podem exigir mais de 4 mg/h.

O diazepam entra a partir da gravidade moderada: 10 mg IV lentos no adulto, sem ultrapassar 5 mg por minuto, e 0,1 a 0,2 mg/kg em 3 minutos na criança, repetíveis a cada 1 a 4 horas. Ficam de fora morfina, fenotiazinas e barbitúricos, por depressão do sistema nervoso central, e teofilina e aminofilina, por predisposição a arritmia grave. Nos documentos brasileiros correntes, o antídoto da intoxicação colinérgica é a atropina: o guia de antídotos de 2025 percorre a lista de N-acetilcisteína a vitamina K1 sem incluir oxima, e o material técnico do Paraná cita a pralidoxima apenas para registrar que ela, como a atropina, não previne a neuropatia tardia.

A síndrome intermediária é a armadilha de alta. Surge entre 24 e 96 horas depois da recuperação da crise colinérgica, em paciente consciente, sem fasciculações e sem outras manifestações colinérgicas, e se caracteriza por fraqueza dos flexores do pescoço e da musculatura proximal dos membros superiores, podendo acometer nervos cranianos, com insuficiência respiratória de aparecimento súbito e risco de óbito por paralisia respiratória. Por isso o intoxicado por organofosforado permanece no hospital de 3 a 5 dias após a melhora da crise aguda. A neuropatia tardia é outra coisa: aparece de 10 dias a 3 ou 4 semanas depois, é distal e progressiva, com fraqueza, ataxia, parestesia e hiporreflexia, e nenhum fármaco provou tratá-la — a recuperação vem com fisioterapia.

A dosagem de colinesterase ajuda quando existe: uma inibição de 25 a 30% — ou menos, na vigência de sintomas característicos — confirma a intoxicação aguda. A plasmática cai e se recupera antes (cerca de 7% ao dia); a eritrocitária permanece baixa por semanas a meses (cerca de 1% ao dia) e é a de escolha na vigilância das exposições crônicas. Hepatopatia, uremia, gravidez, desnutrição, alcoolismo e cerca de 3% da população, por variação genética, cursam com atividade baixa sem intoxicação nenhuma. Onde o exame não existe, cabe a prova diagnóstico-terapêutica: 1 mg de atropina IV no adulto (0,01 mg/kg na criança) produz, em poucos minutos, taquicardia, rubor facial, boca seca e midríase em quem não está intoxicado — e nada disso em quem está.

Paracetamol: o dano que só aparece depois

Uma pequena fração do paracetamol é normalmente convertida em NAPQI, metabólito reativo que é neutralizado pela glutationa. Na superdose, as vias usuais de conjugação saturam, aumenta a formação de NAPQI e a reserva de glutationa se esgota; então o metabólito passa a ligar-se às proteínas hepáticas e produz necrose. A N-acetilcisteína repõe glutationa e também oferece benefício depois de instalada a lesão. Por isso, o tratamento é mais eficaz nas primeiras 8 horas, quando o paciente em geral ainda está assintomático; esperar dor abdominal ou transaminases elevadas é esperar o dano.

Na ingestão aguda única, com horário conhecido, dosa-se o paracetamol a partir de 4 horas e plota-se o resultado no nomograma de Rumack–Matthew adotado pelo protocolo utilizado pelo serviço. O nomograma não vale para horário incerto, ingestão repetida ou escalonada, nem decide sozinho a conduta diante de lesão hepática. Formulação de liberação prolongada, coingestão que retarde o esvaziamento gástrico ou concentração ainda mensurável perto da linha podem exigir nova dosagem 4 a 6 horas depois. Nessas situações, a decisão combina história, concentração, AST/ALT e RNI, com apoio do CIATox.

Não se deve atrasar a N-acetilcisteína aguardando um resultado que chegará depois de 8 horas da ingestão. Também se inicia tratamento quando o horário é desconhecido e há paracetamol detectável ou transaminases elevadas com história compatível, nas ingestões repetidas de alto risco e diante de evidência de lesão ou falência hepática. A estimativa de dose ingerida ajuda a decidir o início empírico, mas não substitui a concentração sérica quando o nomograma é aplicável.

O guia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit de 2025 adota o esquema SNAP de duas bolsas em 12 horas: 100 mg/kg em 2 horas, seguidos de 200 mg/kg em 10 horas, total de 300 mg/kg; em crianças, ajustam-se concentração e volume para evitar sobrecarga. Esse não é o único regime aceito internacionalmente: há protocolos intravenosos de 20 a 21 horas. Em qualquer regime, o relógio não autoriza a suspensão automática. Ao término, reavaliam-se clínica, concentração de paracetamol, AST/ALT e RNI; a N-acetilcisteína prossegue se ainda houver fármaco detectável, piora laboratorial ou insuficiência hepática.

Opioide e benzodiazepínico: um antídoto que salva e um que quase nunca entra

A naloxona é indicada na síndrome opioide quando há hipoventilação. O alvo é restaurar ventilação e proteção de via aérea — não necessariamente deixar o paciente completamente desperto. Em adulto sem dependência conhecida, pode-se iniciar com 0,4 mg IV; se não houver resposta em 2 a 3 minutos, escalam-se doses, lembrando que exposições a opioides muito potentes podem exigir quantidades maiores. No usuário crônico, doses iniciais menores e tituladas reduzem o risco de precipitar abstinência abrupta.

A meia-vida da naloxona é menor que a de muitos opioides. Depois da resposta, mantém-se observação e reavaliação respiratória; quando foram necessárias doses repetidas ou o agente é de ação prolongada, pode ser necessária infusão contínua, calculada a partir da dose efetiva e ajustada pela ventilação. Recorrência de bradipneia pede nova naloxona e suporte de via aérea, não apenas estímulo verbal.

Com o flumazenil, a régua é oposta. Ele é raramente indicado no intoxicado e tem uso mais habitual na reversão de sedação procedimental. Na intoxicação, só se cogita diante de exposição exclusivamente benzodiazepínica, depressão neurológica importante e comprometimento ventilatório, após avaliação do risco e orientação do CIATox.

Não se usa flumazenil como teste diagnóstico, em uso crônico de benzodiazepínicos, epilepsia ou coingestão desconhecida/proconvulsivante — especialmente antidepressivo tricíclico — porque pode precipitar abstinência, convulsão, arritmia e estado de mal. Na intoxicação isolada por benzodiazepínico, a base do tratamento continua sendo suporte de via aérea e observação.

Monóxido de carbono: quando o oxímetro mente

O cenário é reconhecível: aquecedor a gás, gerador ou motor ligado em ambiente fechado, braseiro, incêndio. Mais de uma pessoa doente no mesmo ambiente — às vezes incluindo o animal da casa — é a pista mais barata do enunciado. A clínica é inespecífica: cefaleia, náusea, tontura, confusão, síncope; nos casos graves, coma, convulsão, isquemia miocárdica e acidose metabólica.

O erro clássico é confiar na oximetria de pulso. O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e a saturação vem normal num paciente que não está transportando oxigênio; a PaO2 da gasometria arterial também vem normal, porque mede oxigênio dissolvido. O exame que fecha é a dosagem de carboxi-hemoglobina.

O tratamento começa antes da confirmação: oxigênio a 100% em máscara não reinalante, imediatamente, e mantido enquanto se organiza qualquer outra coisa. A diretriz da SBMH de 2019 indica oxigenoterapia hiperbárica quando o paciente preenche pelo menos um critério do Grupo I: carboxi-hemoglobina acima de 25%; gestante com carboxi-hemoglobina acima de 20%; história de perda de consciência; acidose metabólica severa concomitante, com pH abaixo de 7,1; evidência de isquemia de órgão central, como alteração de ECG, dor torácica ou alteração do estado mental; e história ou sinais sugestivos de inalação concomitante de cianeto, o que na prática significa inalação de fumaça de incêndio.

O esquema recomendado é de 2,8 ATA com oxigênio a 100% por 90 minutos, iniciado o mais precocemente possível, com oxigênio normobárico mantido até o início da sessão, e revisão a cada três sessões com testes psicométricos. Não se inicia — ou se descontinua — na ausência de suporte avançado de vida para conduzir o tratamento nos casos mais graves, diante de contraindicação absoluta à câmara, de complicações insanáveis, de ausência de melhora após três sessões consecutivas ou de remissão sustentada dos sinais e sintomas. No Brasil, o que reconhece o envenenamento por monóxido de carbono e a inalação de fumaça entre as aplicações da medicina hiperbárica é a Resolução CFM n.º 1.457/1995; a diretriz de 2019 recorta em quem indicar.

Incêndio em ambiente fechado obriga a lembrar do cianeto junto do monóxido. Nesse cenário, a hidroxicobalamina é a escolha — 70 mg/kg IV em 15 minutos na criança, com teto de 10 g no adulto — justamente porque os agentes metemoglobinizantes, como o nitrito de sódio, estão contraindicados quando há monóxido concomitante: produzir meta-hemoglobina pioraria um transporte de oxigênio já comprometido.

Notificação: o caso não termina na alta

As intoxicações exógenas por substâncias ou compostos químicos, incluindo agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados, são agravo de notificação compulsória semanal, conforme a Portaria n.º 1.061/2020, e são registradas no Sinan pela Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena. A obrigação é de médicos, dos demais profissionais de saúde e dos responsáveis por serviços públicos e privados — e qualquer cidadão também pode comunicar. Notifica o município que atendeu o caso, independentemente de onde o paciente mora ou de onde se expôs.

Quando a circunstância é tentativa de suicídio, além da ficha de intoxicação preenche-se a Ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada, no prazo de até 24 horas para a secretaria municipal de saúde. Os dados são processados assim que se toma conhecimento do caso, suspeito ou confirmado: não se espera o encerramento da investigação para registrar.

O encerramento classifica o caso em uma de cinco categorias: intoxicação confirmada (exposição comprovada com manifestação clínica ou alteração laboratorial), só exposição (sem sinal, sintoma ou alteração), reação adversa a medicamento, outro diagnóstico e síndrome de abstinência. Caso exposto, para fins de vigilância, é o indivíduo com história provável ou conhecida de exposição, apresentando ou não sintomas — o que significa que o assintomático também é notificado.

O documento marca ainda os pontos de atenção que pedem medida imediata: intoxicação de gestante e lactante, de criança e adolescente (principalmente quando ligada a trabalho infantil), emergência com envolvimento de substâncias químicas, intoxicação por agrotóxico ilegal ou proibido e surtos.

Intoxicações que não cabem apenas numa tabela

Antidepressivo tricíclico e outros bloqueadores de canal de sódio cobram ECG, não nível sérico. Hipotensão, arritmia ventricular, convulsão ou QRS alargado apontam cardiotoxicidade; bicarbonato de sódio IV é o tratamento específico, em bolus titulados à melhora hemodinâmica e ao estreitamento do QRS, com monitorização de pH, sódio e potássio. Fisostigmina e antiarrítmicos bloqueadores de sódio não entram nesse cenário.

No salicilato, taquipneia não é ansiedade: a combinação típica é alcalose respiratória com acidose metabólica de ânion gap elevado. Dosagens seriadas importam porque a absorção pode ser tardia; corrigem-se glicose e potássio, alcalinizam-se soro e urina com bicarbonato e indica-se hemodiálise nos quadros graves. Intubação é decisão de alto risco: a queda da ventilação-minuto e do pH aumenta rapidamente a fração não ionizada que entra no sistema nervoso central.

Metanol e etilenoglicol entram diante de acidose metabólica de ânion gap elevado, possível gap osmolar e pistas de órgão-alvo — alteração visual no metanol, hipocalcemia e injúria renal no etilenoglicol. Forte suspeita com acidose ou lesão de órgão não deve aguardar dosagem específica: bloqueia-se a álcool-desidrogenase com fomepizol quando disponível e discute-se hemodiálise precocemente com toxicologia e nefrologia.

Na ingestão de cáustico, a prioridade é via aérea e avaliação da extensão da lesão. Não se induz vômito, não se neutraliza ácido com base ou vice-versa e não se administra carvão ativado. Dor orofaríngea ausente não exclui lesão esofagogástrica; sintomas ou ingestão intencional relevante exigem avaliação especializada para endoscopia em janela segura. Hidrocarboneto, por sua vez, cobra sobretudo risco de aspiração: não provocar vômito e observar clinicamente o pulmão.

04

Da porta ao antídoto

O intoxicado é paciente de emergência antes de ser caso de toxicologia. A sequência abaixo vale para qualquer agente, e o antídoto entra tarde nela de propósito.

  1. 1Estabilize primeiro: via aérea, ventilação, circulação e glicemia capilar. Rebaixamento sem via aérea protegida já contraindica descontaminação gastrointestinal.
  2. 2Descreva a síndrome tóxica no exame físico: pupila, umidade da pele, ruídos hidroaéreos, frequência respiratória, temperatura e nível de consciência.
  3. 3Reconstrua a exposição: agente, quantidade, via, tempo decorrido e circunstância — a circunstância também define o que se notifica.
  4. 4Descontamine o que ainda cabe: pele e olhos sempre que a via for essa; carvão ativado só dentro da janela e sem contraindicação.
  5. 5Aplique o antídoto quando ele existe e titule pelo alvo clínico, não pela dose da tabela.
  6. 6Defina o tempo de observação pelo agente, não pela melhora: carbamato costuma resolver em cerca de 6 horas; organofosforado grave fica de 3 a 5 dias.
  7. 7Notifique no Sinan e acione o CIATox pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001.

Colinérgica leve

Náusea, fadiga, mal-estar, miose, sialorreia discreta, cólica abdominal sem diarreia e fraqueza muscular mínima — o paciente deambula. Atropina de 1 a 2 mg por dose, a cada 3 a 10 minutos.

Colinérgica moderada

Salivação, lacrimejamento, miose, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, vômito, sudorese, incontinência, fasciculação, confusão e letargia — não deambula. Atropina de 1 a 2 mg por dose; o diazepam entra aqui.

Colinérgica grave

Insuficiência respiratória, pupilas puntiformes, arritmia, paralisia, convulsão e coma. Atropina de 2 a 4 mg por dose a cada 3 a 10 minutos, via aérea definitiva e manutenção em bomba de 3 a 4 mg por hora.

SíndromePupilaPeleO que fechaAgentes típicosAntídoto
ColinérgicaMioseÚmida, sudoreseSialorreia, broncorreia, bradicardia, cólica, fasciculaçãoOrganofosforado, carbamatoAtropina, titulada
OpioideMiose puntiformeSecaBradipneia com rebaixamento, sem hipersecreçãoMorfina, fentanil, tramadol, heroínaNaloxona
Sedativo-hipnóticaPouco alteradaSecaRebaixamento sem sinal autonômico marcanteBenzodiazepínico, álcool, barbitúricoSuporte; flumazenil quase nunca
AnticolinérgicaMidríaseSeca, quente, ruborizadaRetenção urinária, íleo, febre, delirium com alucinaçãoTricíclico, anti-histamínico, escopolamina, DaturaSuporte; bicarbonato se QRS alargado por tricíclico
SimpaticomiméticaMidríaseÚmidaAgitação, hipertensão, taquicardia, hipertermiaCocaína, anfetaminaSuporte; benzodiazepínico

Antídotos que a prova cobra: dose inicial de adulto

AntídotoQuandoDose inicial no adultoO detalhe que a questão explora
AtropinaOrganofosforado e carbamato1 a 4 mg IV, repetidos a cada 3 a 10 minutosO alvo é boca e pele secas com ausculta limpa e FC em torno de 120 bpm; miose não é parâmetro e taquicardia não contraindica
N-acetilcisteínaParacetamolGuia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit: 100 mg/kg em 2 h + 200 mg/kg em 10 h (300 mg/kg em 12 h)Nomograma só na ingestão aguda única e com horário conhecido; ao final, suspensão depende de clínica, paracetamol, AST/ALT e RNI
NaloxonaSíndrome opioide com depressão respiratória0,4 mg IV; sem resposta, 0,8 mg a cada 2 a 3 minutos até 2 mgMeia-vida de 30 a 90 minutos, menor que a do opioide: manter infusão contínua com 60% a 75% da dose que reverteu
FlumazenilIntoxicação exclusiva por benzodiazepínico com falência ventilatóriaSomente conforme orientação do CIATox de referênciaContraindicado como teste diagnóstico e em coingestão com tricíclico ou carbamazepina
Oxigênio a 100%Monóxido de carbonoMáscara não reinalante, imediatamenteA oximetria de pulso não separa carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e vem normal
Azul de metilenoMeta-hemoglobinemia1 a 2 mg/kg IV em 5 a 10 minutosIndicado com meta-hemoglobina de 30% a 40%, ou abaixo disso se houver comorbidade que limite a oferta de oxigênio; acima de 7 mg/kg ele próprio oxida
Bicarbonato de sódioQRS alargado por tricíclico ou cocaína50 mEq IV com QRS de 120 a 160 ms; 100 mEq acima de 160 msO gatilho é a largura do QRS no ECG, não o nível sérico da droga
HidroxicobalaminaCianeto, sobretudo em incêndio com monóxido junto70 mg/kg IV em 15 minutos na criança; teto de 10 g no adultoÉ a escolha quando há monóxido concomitante, porque o nitrito de sódio geraria meta-hemoglobina

Descontaminação: o que ainda se faz e o que saiu

MedidaQuandoComoLimite
Carvão ativado em dose únicaExposição potencialmente grave a substância que ele adsorve50 g no adulto; 1 g/kg na criança, até 50 g, por via oral ou sondaAté 60 minutos da ingestão
Doses múltiplas de carvãoXenobiótico com circulação êntero-hepática: dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina, quinina50 g a cada 4 a 6 horas no adulto; 1 g/kg por dose na criançaContraindicadas em íleo, obstrução, instabilidade e via aérea desprotegida
Descontaminação de peleExposição cutânea, sobretudo a agrotóxicoRetirar toda a roupa e banho de arraste com água e sabão, com atenção a espaços interdigitais e sob as unhasEquipe com avental impermeável; não friccionar a pele
Irrigação ocularRespingo ocularÁgua ou salina isotônica em baixa pressãoNo mínimo 15 minutos
Êmese provocadaNenhuma situaçãoContraindicada
Carvão em álcoois, lítio, ferro e metaisNenhuma situaçãoEssas substâncias não são adsorvidas pelo carvão

Rebaixamento de consciência sem via aérea protegida contraindica qualquer descontaminação gastrointestinal — o desfecho que se evita é a pneumonite aspirativa.

Ingestão de corrosivo e de hidrocarboneto também contraindica o carvão ativado.

Assintomático após exposição a organofosforado fica em observação por pelo menos 6 horas antes de qualquer alta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Lavagem gástrica no atendimento inicial do intoxicado

Lavagem gástrica com soro fisiológico até 1 hora da ingestão

No protocolo estadual de agrotóxicos, a via digestiva é descontaminada com lavagem gástrica abundante com soro fisiológico em até 1 hora da ingestão, com intubação orotraqueal prévia quando há alteração do nível de consciência e cuidado redobrado quando o diluente é hidrocarboneto, pelo risco de broncoaspiração e pneumonite química.

SESA-PR, Intoxicações agudas por agrotóxicos: atendimento inicial do paciente intoxicado, 2018.

Descontaminação gastrointestinal restrita ao carvão ativado

No guia brasileiro de antídotos de 2025, a única medida de descontaminação gastrointestinal descrita é o carvão ativado, com janela de 60 minutos na dose única, lista fechada de contraindicações e indicações específicas para as doses múltiplas. A lavagem gástrica não figura entre as medidas recomendadas.

CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, Recomendações gerais de indicações, uso e estoque de antídotos, março de 2025.

Na prova

A diferença é de data e de escopo: o material estadual descreve todo o atendimento inicial e é de 2018; o guia de antídotos é de 2025 e trata a descontaminação gastrointestinal só pelo carvão. O recorte se identifica no enunciado. Cenário de agrotóxico com rótulo do produto, zona rural, unidade de pronto atendimento e expressão 'atendimento inicial' costuma vir do corpo estadual de agrotóxicos. Enunciado que dá o tempo decorrido em minutos e o nome da substância ingerida, com alternativas que citam janela e contraindicação, costuma vir do corpo do guia de antídotos. E as próprias alternativas denunciam: se uma delas oferece lavagem gástrica em paciente rebaixado sem via aérea protegida, ela é distrator nos dois mundos.

Carvão ativado em doses múltiplas na intoxicação por organofosforado

Doses repetidas também no organofosforado

O protocolo estadual de agrotóxicos recomenda o carvão ativado em dose de 1 g/kg até 1 hora da ingestão e acrescenta que, nas intoxicações por organofosforado, se recomenda também o uso em doses repetidas a cada 4 horas, com laxante não oleoso intercalado conforme o trânsito intestinal, por no máximo 48 horas.

SESA-PR, Intoxicações agudas por agrotóxicos: atendimento inicial do paciente intoxicado, 2018.

Doses múltiplas só em xenobiótico com circulação êntero-hepática

O guia de antídotos de 2025 reserva as doses múltiplas de carvão ativado, a cada 4 a 6 horas, ao aumento da eliminação de xenobióticos com circulação êntero-hepática — dapsona, fenobarbital, carbamazepina, teofilina e quinina —, podendo ser consideradas na digoxina. Organofosforado não está nessa lista.

CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, Recomendações gerais de indicações, uso e estoque de antídotos, março de 2025.

Na prova

O vocabulário separa os dois corpos. Questão que fala em 'doses repetidas de carvão com laxante intercalado' num caso de agrotóxico está usando o protocolo estadual; questão que nomeia circulação êntero-hepática e lista fenobarbital, carbamazepina, teofilina ou dapsona está usando o guia de antídotos. Vale ainda olhar o distrator: alternativa que oferece carvão — em dose única ou múltipla — para álcool tóxico, lítio, ferro ou outro metal está fora dos dois corpos, porque essas substâncias não são adsorvidas.

Duração do esquema intravenoso de N-acetilcisteína

Guia brasileiro de antídotos — SNAP 12 h

Duas bolsas: 100 mg/kg em 2 h e 200 mg/kg em 10 h.

CIATox-Campinas/SBTox/Abracit, 2025

Consenso EUA/Canadá — dose mínima em 20–24 h

Aceita mais de um regime, desde que entregue dose adequada e use critérios de suspensão.

Dart et al., JAMA Network Open, 2023

Na prova

Não existe um único relógio universal. Se o enunciado citar o guia CIATox-Campinas/SBTox/Abracit de 2025, use o SNAP de 12 horas. Se citar o consenso norte-americano de 2023, reconheça regimes que entreguem pelo menos 300 mg/kg nas primeiras 20 a 24 horas. Em ambos, a suspensão depende de reavaliação clínica e laboratorial, não apenas do término da última bolsa.

06

Caso resolvido

Homem de 41 anos, trabalhador rural, é trazido pela família 40 minutos depois de ser encontrado caído perto do pulverizador. Está sonolento, sudoreico, salivando, com pupilas de 1 mm, FR 28 irpm, FC 52 bpm, PA 100x60 mmHg e estertores difusos à ausculta. As roupas estão molhadas e com cheiro forte de produto.
achado
Miose com pele úmida, sialorreia, broncorreia e bradicardia fecham síndrome colinérgica de predomínio muscarínico. Roupa encharcada de produto significa que a absorção continua acontecendo enquanto o paciente é atendido.
antes do antídoto
Oxigênio, monitorização e retirada de toda a roupa, com banho de arraste com água e sabão em abundância, incluindo espaços interdigitais e região sob as unhas. A equipe usa avental impermeável, não fricciona a pele e não fica manipulando a roupa contaminada. Enquanto a fonte cutânea não sai, nenhuma dose de atropina se sustenta.
antídoto
Quadro grave: atropina de 2 a 4 mg IV, repetida a cada 3 a 10 minutos até a atropinização — boca e pele secas, queda da estertoração à ausculta e frequência cardíaca em torno de 120 bpm. A bradicardia inicial desaparece, e a taquicardia que surge não é motivo para suspender.
o que não guia e o que não entra
A miose não guia a titulação: é o último sinal a ceder. Morfina, fenotiazina e barbitúrico estão fora, por depressão do sistema nervoso central; teofilina e aminofilina, por arritmia. O diazepam entra a partir da gravidade moderada, 10 mg IV lentos, sem ultrapassar 5 mg por minuto.
depois de estabilizar
Manutenção de atropina em bomba, de 3 a 4 mg por hora nos casos graves, com reavaliação a cada 30 minutos nas primeiras 3 horas e retirada gradual. Se os sinais colinérgicos reaparecerem após a suspensão, retoma-se pela dose de ataque, não pela manutenção anterior. A fraqueza e as fasciculações não respondem à atropina — se a ventilação falha, a resposta é via aérea definitiva.
não dar alta
Internação de 3 a 5 dias. Entre 24 e 96 horas depois da recuperação da crise colinérgica pode surgir a síndrome intermediária: paciente lúcido, sem fasciculações, que evolui com fraqueza de flexores do pescoço e da musculatura proximal dos membros superiores e insuficiência respiratória súbita.
vigilância
Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena no Sinan, notificação semanal. Sendo exposição ocupacional, ocupação e atividade econômica são campos que orientam a investigação de campo e a busca por outros expostos.
07

Agora feche você

Mulher de 19 anos, 50 kg, chega ao pronto-socorro 5 horas depois de ingerir de uma só vez 30 comprimidos de paracetamol de 500 mg, em tentativa de suicídio. Está lúcida, sem dor abdominal, exame físico normal e sinais vitais estáveis. A ingestão foi única e o horário é certo.
achado
Quinze gramas em 50 kg equivalem a 300 mg/kg — o dobro do limiar de 150 mg/kg que muda a conduta. Estar assintomática às 5 horas é o esperado e não afasta nada: a glutationa cai a 30% do normal em 6 a 8 horas.
exame que decide
Dosagem plasmática de paracetamol. A coleta vale a partir de 4 horas da ingestão, preferencialmente dentro de 8 horas, e o resultado é plotado no nomograma modificado do TOXBASE. Como o horário é certo e a ingestão foi única, o nomograma se aplica — e fatores de risco não entram na decisão.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Titular a atropina pela pupila Atrai porque a miose é o sinal mais visível do quadro colinérgico. Só que ela é o último a ceder: quem espera a pupila abrir infunde atropina muito além do necessário, e quem vê a pupila ainda miótica e conclui que o antídoto falhou troca de conduta sem motivo. O alvo é boca e pele secas, ausculta limpa e frequência em torno de 120 bpm.
  2. 2Suspender a atropina porque o paciente taquicardizou Atrai porque taquicardia soa como efeito adverso. No intoxicado por inibidor de colinesterase, ela é parte do alvo — taquicardia não contraindica atropina. O que mata nesse quadro é a broncorreia enchendo o pulmão, não a frequência cardíaca.
  3. 3Dar flumazenil para confirmar intoxicação por benzodiazepínico Atrai pela elegância do raciocínio: o paciente acorda, está feito o diagnóstico. É contraindicação formal. Como teste diagnóstico pode desencadear convulsão em epiléptico, e em coingestão com tricíclico ou carbamazepina pode induzir arritmia grave e estado de mal convulsivo. A indicação que resta é rara e passa pelo CIATox de referência.
  4. 4Confiar na saturação do oxímetro no monóxido de carbono Atrai porque a SpO2 de 99% parece tranquilizadora e desloca a suspeita para causa neurológica. O aparelho não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina, e a PaO2 da gasometria também vem normal. O exame é a dosagem de carboxi-hemoglobina, e o oxigênio a 100% em máscara não reinalante começa antes dela.
  5. 5Dar alta ao intoxicado por organofosforado que melhorou Atrai porque o paciente está lúcido, sem fasciculações e sem sinais colinérgicos — parece curado. Entre 24 e 96 horas pode aparecer a síndrome intermediária, com fraqueza cervical e proximal e insuficiência respiratória súbita. Quem resolve em cerca de 6 horas é o carbamato; organofosforado grave fica de 3 a 5 dias.
  6. 6Tratar paracetamol pelo sintoma Atrai porque o paciente assintomático parece o menos urgente da sala. É justamente nessa janela que a N-acetilcisteína previne a lesão, antes de a glutationa cair a 30% do normal em 6 a 8 horas. Esperar dor em hipocôndrio direito ou transaminase alta é esperar o dano se instalar.
  7. 7Pedir carvão ativado por reflexo Atrai por ser a medida mais lembrada de descontaminação. Ele não adsorve álcoois tóxicos, lítio, ferro nem outros metais, e está contraindicado em corrosivo, hidrocarboneto e em qualquer paciente rebaixado sem via aérea protegida. Fora da janela de 60 minutos e dessas travas, só adiciona risco de aspiração.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: tremor grosseiro, ataxia, disartria, sintomas gastrointestinais e letargia em usuário de lítio, precipitados por desidratação e AINE (que reduzem a depuração renal do lítio), indicam intoxicação por lítio — conduta é suspender a droga, dosar a litemia e hidratar (casos graves: hemodiálise). Aumentar a dose agravaria a toxicidade. Antipsicótico não trata a causa e mascara o quadro. Trocar por carbamazepina sem confirmar/tratar a intoxicação é inadequado. Liberar para casa é perigoso: intoxicação pode progredir para convulsões e coma.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de cabeça a tabela das cinco síndromes tóxicas usando apenas pupila e umidade da pele, e escreva em seguida o alvo clínico da atropinização, a janela do carvão ativado e as três contraindicações que mais caem.

em 30 dias

Refaça as decisões tempo-dependentes: quando o nomograma de Rumack–Matthew se aplica, quando iniciar N-acetilcisteína sem esperar o nível, quais exames precisam melhorar antes de suspender o tratamento, como titular naloxona para ventilação e quais sinais tornam o flumazenil perigoso. Depois, reconstrua os critérios de encaminhamento para oxigenoterapia hiperbárica no monóxido de carbono.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos é trazido pelo Samu de um galpão onde trabalhava com um gerador a gasolina ligado, junto de dois colegas com cefaleia e náusea. Está confuso, com SpO2 de 99% em ar ambiente e exame neurológico sem déficit focal. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.