Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
Infecção necrosante: quem vai para a sala agora
Infecções necrosantes de partes moles (fasciíte necrotizante e gangrena de Fournier)
O único quadro desta apostila que não mora no abdome, e o único em que o exame que confirma o diagnóstico é a própria operação.
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Menino de 6 anos, previamente hígido, é levado ao PS com febre há 4 dias e uma lesão em membro inferior que evoluiu rapidamente. Ao exame: placa eritematosa quente, dor DESPROPORCIONAL à aparência da lesão, área central com bolhas violáceas e crepitação à palpação. FC 148 bpm, PA 82/50 mmHg, FR 34 ipm, tempo de enchimento capilar 4 s, aspecto toxêmico. Qual é a conduta imediata mais importante?
Como esse tema cai
Este é o único capítulo da apostila que tira o cirurgião de dentro do abdome. Os onze anteriores organizam dor abdominal: apendicite, colecistite, pancreatite, obstrução, diverticulite, úlcera perfurada, colangite, os cinco tipos de abdome agudo, o estoma e a alça de viabilidade duvidosa. A infecção necrosante de partes moles não entra em nenhum deles, e mesmo assim é a urgência cirúrgica em que o atraso cobra mais caro por hora.
O que se decide aqui é um ato só: quem vai para o centro cirúrgico agora. Não se discute o manejo geral da sepse nem a graduação da pressa por foco, que pertencem à apostila de Pré e Pós-operatório; não se discute a classificação de infecção de sítio cirúrgico nem a deiscência de ferida, que moram no mesmo lugar. Aqui interessa a etapa anterior a tudo isso: reconhecer, no meio de muitas infecções de pele que se tratam com antibiótico, a minoria que só se trata abrindo.
A dificuldade do assunto é de assimetria, e ela organiza o capítulo inteiro. A infecção necrosante é rara diante do volume de celulites e erisipelas que chegam ao pronto-socorro; é clinicamente pobre nas primeiras horas, quando ainda é operável com margem estreita; e é ruidosa quando já não adianta. Somando as três, o erro que mata não é operar quem não precisava — é esperar mais uma reavaliação.
O que muda decisão
A infecção que corre por baixo da pele intacta
A definição que a diretriz internacional usa é anatômica e vale a pena guardar na forma dela: são infecções invasivas de partes moles, que ameaçam a vida, com componente necrosante, envolvendo qualquer camada do compartimento de partes moles — da derme superficial e do tecido subcutâneo até a fáscia profunda e o músculo. A palavra que faz o trabalho é compartimento. O processo não respeita o desenho da lesão de pele: ele corre pelo plano, e a pele é apenas o teto por onde se olha.
Daí vem a dissociação que define o quadro. A trombose dos vasos que perfuram a fáscia e alimentam a pele acontece depois que o plano profundo já está tomado. Enquanto isso, o tecido subcutâneo se liquefaz e a fáscia perde aderência, mas a pele acima continua com aspecto quase normal, ou apenas eritematosa. Quem examina vê uma celulite; quem opera encontra um plano descolado muito além do que o eritema anunciava.
Vale dimensionar a raridade, porque ela é metade do problema clínico. Num pronto-socorro universitário brasileiro, em pouco mais de um ano, quase cinco mil doentes foram atendidos por infecção de partes moles e menos de um em cada dez precisou de internação: celulite simples, erisipela, foliculite e impetigo se resolvem com antibiótico, e boa parte dos abscessos cutâneos, com drenagem no próprio pronto-socorro. A necrosante é uma agulha nesse palheiro.
Vale dimensionar a raridade, porque ela é metade do problema clínico. Num pronto-socorro universitário brasileiro, em pouco mais de um ano, quase cinco mil doentes foram atendidos por infecção de partes moles e menos de um em cada dez precisou de internação: a imensa maioria — celulite simples, erisipela, foliculite, impetigo — se resolve com antibiótico, e boa parte dos abscessos cutâneos, com drenagem no próprio pronto-socorro. A necrosante é uma agulha nesse palheiro.

A dor que não combina com o que se vê
O achado mais citado do assunto também é o mais mal usado, e vale enunciá-lo com precisão: o doente com infecção necrosante costuma se apresentar com dor intensa e desproporcional aos achados do exame físico. Desproporcional não quer dizer forte. Quer dizer incompatível com o que a inspeção mostra — uma área modesta de eritema num doente que não consegue tolerar o toque, ou que pede analgésico de resgate com frequência incomum para o que se está vendo.
Há um segundo sinal precoce e igualmente barato: o edema que ultrapassa o eritema. Na celulite, a área endurecida e a área avermelhada coincidem razoavelmente. Na necrosante, palpa-se tensão e endurecimento lenhoso além da borda vermelha, porque o edema acompanha o plano tomado e não a pele. Correr o dorso da mão da periferia para o centro, com o doente relaxado, encontra essa borda antes de qualquer exame.
O terceiro elemento não é um achado, é uma medida: a velocidade. O gesto mais útil do plantão é marcar o limite do eritema na pele com caneta, registrando a hora, e reavaliar em intervalo curto. Se a marca foi ultrapassada antes da reavaliação, a discussão diagnóstica terminou. Nenhum exame de sangue tem esse poder discriminatório, e ele custa uma caneta.
Os sinais tardios, e o preço de esperar por eles
Os achados que todo mundo associa ao diagnóstico são, quase sem exceção, achados de doença avançada. Crepitação indica gás no tecido e aponta agente produtor de gás, mas está ausente na maior parte dos casos e aparece tarde quando aparece. Tratar crepitação como requisito diagnóstico é adiar a operação em todos os doentes cujo agente não produz gás — que são a maioria.
As bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágico marcam o momento em que a trombose dos vasos perfurantes finalmente alcançou a pele. Elas confirmam, mas confirmam tarde: quando surgem, o plano profundo já está comprometido em extensão bem maior do que a bolha sugere. O mesmo vale para as áreas de coloração acinzentada ou violácea e para a demarcação de necrose franca da pele.
A anestesia cutânea é o sinal mais elegante e o mais mal interpretado. A área que perdeu sensibilidade perdeu porque os ramos nervosos superficiais foram destruídos junto com o tecido que os alimentava. Ou seja: a região que parou de doer é a região que já morreu. O alívio espontâneo da dor numa infecção de partes moles em progressão não é melhora, é perda de tecido.
A leitura correta desse conjunto é temporal, e vale enunciá-la como regra de leitura: os achados precoces são de sintoma e de velocidade, e os tardios são de aspecto. Quem indica operação por aspecto está sempre operando com atraso; quem indica por sintoma desproporcional e progressão em horas opera na janela em que o desbridamento ainda é econômico. Toda a diferença de sobrevida se produz nessa escolha de qual grupo de achados governa a decisão.
O escore que só serve para um lado
Existe um escore laboratorial construído para separar infecção necrosante de infecção grave não necrosante, montado com exames de rotina — proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia. Ele é atraente porque é barato e objetivo, e é exatamente por isso que arma a pior armadilha do assunto.
A diretriz internacional é explícita ao registrar seu desempenho: o escore tem acurácia diagnóstica ruim, e um valor baixo não afasta o diagnóstico. Os números da metanálise que ela reproduz mostram por quê — no ponto de corte mais permissivo, a sensibilidade fica em torno de dois terços, e no ponto de corte mais alto ela desaba para menos da metade, ganhando especificidade em troca. Traduzindo para a beira do leito: uma parcela relevante das infecções necrosantes pontua abaixo do limiar de suspeita.
A leitura correta é assimétrica, e essa assimetria vale para qualquer instrumento com esse perfil. Valor alto acrescenta informação, aumenta a probabilidade e acelera a ida à sala. Valor baixo não retira nada, porque a sensibilidade não autoriza a retirar. Escore baixo num doente com dor desproporcional e progressão em horas é um resultado que não muda conduta nenhuma.
Vale entender por que a sensibilidade é baixa, porque isso previne o uso errado. O escore foi derivado numa população específica e mede consequência sistêmica de inflamação e de lesão tecidual; ele depende, portanto, de que já tenha havido tempo e volume de destruição suficientes para alterar a rotina laboratorial. O doente que chega cedo — justamente aquele em que a operação precoce salva mais — é o que tende a pontuar baixo. O instrumento falha na população em que ele seria mais útil.
A imagem que não pode segurar a sala
A tomografia mostra achados úteis: gás nos planos moles, espessamento e realce anormal da fáscia, coleções mal delimitadas seguindo o plano fascial, e a extensão aproximada do processo. A ressonância descreve com mais fidelidade a profundidade do acometimento. Nenhuma das duas transforma um diagnóstico clínico duvidoso em certeza, e as duas consomem tempo.
Por isso a instrução das duas edições da diretriz é conservadora no sentido inverso do habitual. O documento mais recente escreve que, se a suspeita clínica é alta, a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia, porque nesse cenário o desbridamento precoce é essencial para reduzir a mortalidade. O documento anterior é ainda mais direto ao dizer que a imagem nunca substitui o desbridamento cirúrgico.
A frase merece ser lida nas suas duas metades, porque a segunda é a que costuma ser esquecida. Não atrasar é o óbvio. Não demover é a parte difícil: uma tomografia sem gás, sem espessamento fascial evidente e descrita como compatível com celulite não afasta a hipótese num doente com dor desproporcional e progressão horária. Imagem negativa em suspeita alta é imagem que não respondeu à pergunta, e não resposta negativa.
O corolário organiza o fluxo do plantão. Doente instável não vai ao tomógrafo, vai à sala com ressuscitação correndo em paralelo. Doente estável com suspeita alta vai à sala, e a imagem entra apenas se puder ser feita sem consumir a janela. Doente estável com suspeita intermediária é o único em que a imagem decide alguma coisa — e mesmo nele, o que decide de fato é a reavaliação clínica próxima, com o limite do eritema marcado e a hora anotada.
O relógio, e o que o número mede
O número mais importante do assunto está na diretriz mais recente e é uma comparação simples: o tratamento cirúrgico realizado dentro de seis horas associou-se a uma mortalidade da ordem de um quinto, contra cerca de um terço quando a operação passou desse intervalo. É a diferença entre dois grupos de um mesmo desfecho duro, produzida por uma variável que está inteiramente sob controle da equipe.
Convém dizer o que esse número é e o que não é. Não existe, e não vai existir, ensaio que sorteie doentes para operar cedo ou tarde numa doença assim: a evidência do prazo é observacional e vai continuar sendo. Parte da diferença entre os grupos reflete que o doente reconhecido cedo é diferente do reconhecido tarde. Mas a direção é consistente entre séries e o custo de agir como se o número fosse verdadeiro é baixo.
A revisão brasileira de dermatologia registra o mesmo fenômeno em outra escala de tempo, e a comparação entre as duas escalas é instrutiva. Ela descreve mortalidade muito menor entre os tratados nos primeiros dias de evolução do que na casuística geral. O intervalo é de dias, não de horas, porque a população e o desenho eram outros — mas o sentido é idêntico: o tempo até o tratamento definitivo é a variável modificável mais poderosa do quadro.
A tradução operacional é uma frase única, e ela vale mais do que qualquer algoritmo: na suspeita alta, o tempo até a incisão é o tratamento. Tudo o que se coloca entre a suspeita e a incisão — um exame, uma interconsulta, uma dose de antibiótico dada com o doente ainda na emergência, uma reavaliação em duas horas para ver como evolui — precisa caber dentro da janela, e nenhum desses gestos, isolado, é capaz de substituí-la.

Quem é o agente, e o que ele muda no esquema
A classificação microbiológica da diretriz anterior tem três tipos, e a proporção entre eles importa mais do que os nomes. O primeiro tipo é polimicrobiano, nasce de foco crônico e indolente e se espalha pelos planos fasciais; responde por algo entre oitenta e cinco e noventa por cento dos casos. É a forma do diabético, do doente com ferida perineal ou de parede abdominal, do imunodeprimido — e é por isso que a cobertura empírica precisa ser larga por padrão.
O segundo tipo é monomicrobiano por cocos gram-positivos aeróbios, tipicamente estreptococo ou estafilococo resistente à meticilina de aquisição comunitária, e responde por cerca de dez a quinze por cento. É a forma que atinge o jovem previamente hígido, muitas vezes depois de trauma mínimo, e a que mais frequentemente vem acompanhada de choque tóxico. O terceiro tipo reúne infecções monomicrobianas por bacilos virulentos, entre eles clostrídios e germes associados a água e a ferimentos por manipulação de pescado.
O antimicrobiano empírico, portanto, é largo por obrigação e não por hábito: precisa cobrir gram-positivos, incluindo resistente à meticilina conforme o cenário local, gram-negativos e anaeróbios, com descalonamento assim que a cultura e o antibiograma voltarem.
Há um acréscimo com racional próprio, e ele é cobrável: somar ao esquema um inibidor de síntese proteica, tipicamente a clindamicina, pela supressão da produção de toxina. O raciocínio é que os antimicrobianos que agem na parede celular perdem eficácia diante de inóculo alto e bactérias em fase estacionária, e não interrompem a produção de exotoxinas — que é justamente o que sustenta o choque tóxico do tipo estreptocócico. A revisão brasileira descreve o esquema clássico nessa lógica, associando o inibidor de síntese proteica a doses altas de penicilina.
O que nenhum esquema faz é substituir a operação. O antimicrobiano circula ao redor de tecido morto e trombosado, onde não há perfusão que o entregue; ele protege o território ainda vivo e trata a bacteremia, e é indispensável por isso. Mas o tecido necrótico não é esterilizável — ele é retirável. Prescrever esquema mais largo diante de um doente que não melhora é a forma mais comum de adiar a única conduta que muda o desfecho.
A operação: até onde vai a mão
A exploração cirúrgica tem estatuto duplo, e é o ponto mais importante para quem vem de uma apostila inteira de abdome: ela é ao mesmo tempo o exame que confirma o diagnóstico e o tratamento que o resolve. Não há teste que a anteceda com autoridade suficiente para dispensá-la, e não existe cenário em que confirmar sem operar seja útil.
Os achados intraoperatórios são característicos e se leem em segundos. A fáscia se descola sem resistência ao dedo ou ao instrumento, num plano que deveria oferecer aderência; o tecido não sangra ao corte, porque os vasos estão trombosados; e drena líquido turvo, acinzentado, de odor característico, sem o aspecto espesso e cremoso do pus de abscesso. Gordura subcutânea liquefeita e músculo que não se contrai ao estímulo completam o quadro.
A extensão do desbridamento é o que separa a operação que resolve da que obriga a uma terceira. A instrução é retirar todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra — e a margem precisa ser generosa, porque a fronteira da doença está sempre além da fronteira do que a pele mostrava. Operação econômica em infecção necrosante não é conservadora, é incompleta: ela devolve à terapia intensiva um doente que continua com o motor da sepse ligado.
Existe uma contrapartida legítima, e ela ganhou espaço recentemente: as técnicas que poupam pele, concentrando a ressecção no tecido diretamente comprometido pela necrose e preservando o retalho cutâneo viável acima. Isso reduz a área a reconstruir sem abrir mão da retirada do tecido morto. Poupar pele não é o mesmo que poupar desbridamento, e confundir as duas coisas produz exatamente a reoperação que se queria evitar.
Voltar à sala por calendário, não por convite
A primeira operação da infecção necrosante é deliberadamente incompleta em um sentido específico: ela retira o que está claramente morto num processo que ainda pode estar avançando. Por isso a reabordagem não é um recurso de resgate, é parte do desenho — e essa é a mesma lógica que a apostila já usou no controle de danos abdominal, com uma diferença importante de gatilho.
No abdome operado por peritonite, a comparação entre reabordagem programada e reabordagem sob demanda favorece deixar o doente convocar a segunda operação. Na infecção necrosante de partes moles, não: a reinspeção é programada por calendário, e o doente que piora apenas antecipa a data. O motivo é o mecanismo — a fronteira entre tecido vivo e morto continua se movendo por conta própria nas horas seguintes, e esperar sinal clínico de progressão é esperar que a progressão já tenha acontecido.
Quanto à periodicidade, os dois documentos da mesma sociedade não dizem o mesmo, e a diferença está detalhada no bloco de divergências. O documento mais recente manda reinspecionar em intervalo curto, contado em algumas horas, ou antes disso se houver sinal local ou sistêmico de piora; o anterior fala em retorno à sala num intervalo mais largo, de até dois dias, para segunda inspeção nos casos de necrose extensa. Nenhum dos dois admite deixar o doente sem data marcada.
O que a segunda operação encontra define a terceira. Tecido novo comprometido além da margem anterior significa que o processo continua e que o intervalo precisa encurtar; leito limpo, com bordas que sangram e sem progressão, autoriza começar a pensar em cobertura. As reinspeções seguem enquanto houver progressão, e é a evolução do leito, não um número fixo de procedimentos, que decide quando param.
Fournier: o mesmo raciocínio no períneo
A gangrena de Fournier é a infecção necrosante do períneo e da genitália externa, e a primeira coisa a fixar é que ela não é uma doença diferente: é a mesma doença num território que muda a origem, a extensão possível e a reconstrução. Tudo o que vale para o membro vale aqui — dor desproporcional, progressão horária, exploração como exame confirmatório, desbridamento amplo e reinspeção programada.
A origem é o que o território acrescenta, e é o que a série brasileira de Curitiba mediu num serviço universitário. Entre quarenta doentes acompanhados por pouco mais de seis anos, a origem anorretal foi a mais frequente, seguida das origens urogenital e cutânea; o fator predisponente predominante foi o diabetes, e a grande maioria dos doentes era do sexo masculino, com idade média na quinta década. Procurar a porta de entrada não é academicismo: ela decide se haverá necessidade de derivação.
A derivação do trânsito intestinal é a decisão específica do território, e a série brasileira mostra que ela é frequente sem ser automática — foi feita em pouco menos da metade dos doentes daquele serviço, enquanto a derivação urinária foi rara. O critério é funcional: deriva-se quando a contaminação fecal contínua impede o controle da ferida ou quando o esfíncter está comprometido, não pelo simples fato de a necrose alcançar a região perianal.
Um detalhe anatômico é cobrado com frequência e vale guardar pelo mecanismo. Os testículos costumam ser poupados mesmo quando a bolsa escrotal é inteiramente ressecada, porque sua irrigação vem das artérias testiculares, que descem pelo cordão a partir da aorta abdominal, e não da vascularização da parede escrotal comprometida pelo processo. Orquiectomia, portanto, não é rotina — é exceção, reservada ao testículo comprovadamente inviável ou à origem intratesticular.
O que mata — e o que as séries brasileiras não conseguiram responsabilizar
A parte mais útil deste assunto para quem vai responder prova, e também para quem vai operar, está numa análise brasileira de fatores de mortalidade feita em serviço terciário de São Paulo, com quarenta e três doentes acompanhados ao longo de sete anos. O desenho é simples e a leitura é o que interessa: os autores testaram um conjunto de variáveis contra o desfecho óbito e reportaram tanto as que se associaram quanto as que não se associaram.
Associaram-se ao óbito, com significância: idade mais avançada, tempo de evolução prolongado até o tratamento, índice de gravidade fisiológica elevado, sepse instalada, acidose e broncopneumonia. Todas essas variáveis descrevem a mesma coisa por ângulos diferentes — o quanto a doença avançou sobre a fisiologia do doente antes de alguém interrompê-la, e o quanto de reserva sobrou para atravessar a operação.
Não se associaram ao óbito, na mesma casuística: sexo, diabetes, desnutrição, o agente isolado nas culturas, o local de início da necrose, a extensão da necrose, o número de desbridamentos realizados, a realização de colostomia e a realização de cistostomia. Essa lista é mais instrutiva do que a primeira, porque contraria quase todas as intuições que um cirurgião carrega ao olhar uma ferida enorme.
É exatamente aí que o achado vira conduta. Se o que mata é o tempo e a fisiologia, e não o tamanho da ressecção nem a quantidade de idas à sala, então a decisão de desbridar amplamente e de voltar quantas vezes forem necessárias não carrega o custo que a intuição lhe atribui. O medo de uma ferida grande é um mau conselheiro numa doença em que a ferida grande não foi o que matou — e em que a demora foi.
O contraponto honesto é que essas são séries de um único centro, retrospectivas, de um território específico da doença, e que nenhuma delas foi desenhada para responder à pergunta causal. Elas não provam que operar mais amplo salva; elas mostram que, nos doentes daqueles serviços, a amplitude e o número de operações não explicaram os óbitos, e o atraso explicou. Para uma decisão que precisa ser tomada em minutos e sem ensaio disponível, é o tipo de evidência com que se trabalha.
Os adjuvantes e o tamanho real de cada um
Dois tratamentos coadjuvantes aparecem sempre que o assunto é discutido, e ambos ocupam lugar menor do que a conversa sugere: acrescentam-se a um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado. Nenhum dos dois compra tempo.
A imunoglobulina endovenosa tem racional restrito e alvo definido: neutralizar exotoxinas circulantes na infecção necrosante estreptocócica, particularmente quando há síndrome do choque tóxico instalada. A diretriz internacional a inclui entre as medidas para esse subgrupo, e a revisão brasileira registra redução significativa de mortalidade quando o choque tóxico foi diagnosticado. Fora desse recorte — infecção polimicrobiana sem quadro toxínico —, não há indicação apoiada.
A oxigenoterapia hiperbárica é o adjuvante mais controverso, e o estado da evidência precisa ser dito com precisão porque as fontes divergem. A diretriz internacional a recomenda onde estiver disponível. A revisão brasileira de dermatologia a classifica como controversa, apontando a falta de ensaios randomizados que a sustentem. A série brasileira de Curitiba relata mortalidade menor no subgrupo que recebeu câmara do que no que recebeu apenas tratamento cirúrgico e clínico.
Esse último número merece uma advertência de leitura, e ela vale para qualquer comparação do gênero. Os grupos não foram sorteados: quem chega ao serviço em condições de ser transportado e submetido a sessões de câmara hiperbárica é, por construção, um doente diferente daquele que não chega. Uma diferença de mortalidade entre subgrupos assim descreve a prática de um centro; ela não estabelece que o tratamento produziu a diferença. Registrar o número e registrar o que ele não prova são a mesma tarefa.
A conclusão prática é hierárquica e não precisa de mais nada. Ressuscitação, antimicrobiano largo com inibidor de síntese proteica, e a sala — nessa ordem e em paralelo, não em fila. Imunoglobulina no doente estreptocócico com choque tóxico. Câmara hiperbárica onde existir, para o doente que já foi operado, e sem que a logística dela atrase um único desbridamento. Nenhum adjuvante ocupa o lugar da mão que retira o tecido morto.
O que decide a ida à sala, e o que só descreve
A tabela separa o que a diretriz internacional usa para indicar a operação daquilo que apenas descreve a doença depois de instalada. A coluna da direita é a que muda conduta; a do meio é a que atrasa quando é tratada como requisito. Os números vêm das duas edições da diretriz da sociedade de cirurgia de emergência e das duas séries brasileiras lidas na íntegra.
A doença corre pelo plano
O rubor visível na pele é estreito; a necrose ao longo da fáscia é larga. O exame da pele subestima a extensão justamente enquanto a operação ainda seria pequena.
Precoce é sintoma, tardio é aspecto
Dor desproporcional, edema além do eritema e progressão horária chegam cedo. Crepitação, bolhas e anestesia cutânea chegam quando o tecido já morreu.
O escore é de mão única
Valor alto acrescenta e acelera a ida à sala. Valor baixo não retira nada: a sensibilidade não autoriza afastar o diagnóstico.
Achados da infecção necrosante: o que indica a operação e o que apenas confirma tarde
| Achado | Momento em que aparece | O que fazer com ele |
|---|---|---|
| Dor intensa e desproporcional aos achados do exame | Precoce, muitas vezes o primeiro | Gatilho de suspeição; combinado a progressão horária, indica exploração |
| Edema e endurecimento além da borda do eritema | Precoce | Gatilho de suspeição; delimita território a explorar |
| Progressão do eritema em horas (limite marcado a caneta) | Precoce e mensurável | Encerra a discussão diagnóstica: infecção rapidamente progressiva é tratada como necrosante |
| Toxemia, confusão, taquicardia e disfunção sem outro foco | Precoce a intermediário | Ressuscitação em paralelo e antecipação da sala |
| Escore laboratorial com 6 pontos ou mais | Depende de destruição já ocorrida | Se alto, acelera; se baixo, não afasta (sensibilidade 68,2% no corte de 6; 40,8% no corte de 8) |
| Bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágico | Tardio | Confirma, mas já indica trombose que alcançou a pele |
| Crepitação subcutânea | Tardio e pouco sensível | Quando presente, aponta agente produtor de gás; quando ausente, não afasta |
| Anestesia cutânea sobre a área acometida | Tardio | Sinaliza destruição dos ramos nervosos superficiais: a pele que parou de doer já morreu |
| Necrose franca e demarcação da pele | Muito tardio | Descreve a doença instalada; não é requisito para indicar a operação |
Os três tipos microbiológicos e o que cada um muda
| Tipo | Microbiologia | Perfil típico | Consequência no esquema |
|---|---|---|---|
| Tipo I | Polimicrobiano: anaeróbios com facultativos, a partir de foco crônico e indolente | 85% a 90% dos casos; diabético, ferida perineal ou de parede, imunodeprimido | Cobertura larga por padrão: gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios |
| Tipo II | Monomicrobiano por cocos gram-positivos aeróbios: estreptococo ou estafilococo resistente à meticilina comunitário | 10% a 15% dos casos; jovem hígido, trauma mínimo, choque tóxico associado | Inibidor de síntese proteica pela supressão de toxina; imunoglobulina se houver choque tóxico |
| Tipo III | Monomicrobiano por bacilos virulentos: clostrídios e germes associados a água e a pescado | Menos frequente; ferimento contaminado, exposição aquática | Cobertura que contemple o agente suspeito pela exposição relatada |
O que as duas séries brasileiras mediram
| Série | Casuística | Achado principal |
|---|---|---|
| Hospital universitário de Curitiba (1999-2006) | 40 doentes; 77% homens; idade média 47,2 anos | Origem anorretal a mais frequente (27,5%); diabetes o predisponente predominante (22,5%); colostomia em 42,5% e cistostomia em 2 doentes; mortalidade global de 20% |
| Serviço terciário de São Paulo (1998-2005) | 43 doentes; 39 homens; idade média 54,8 anos | 10 óbitos (23,2%); associados ao óbito: idade, tempo de evolução (p = 0,009), APACHE II elevado, sepse, acidose e broncopneumonia |
| Serviço terciário de São Paulo — o que não se associou | Mesma casuística de 43 doentes | Extensão da necrose (p = 0,19), número de desbridamentos (p = 0,32), colostomia (p = 0,06), cistostomia (p = 0,43), diabetes (p = 0,98) e sexo (p = 0,593) |
Os graus e os pontos de corte citados são os dos próprios documentos e não se comparam entre eles: as duas edições da diretriz da sociedade de cirurgia de emergência usam formatos distintos de recomendação, e as séries brasileiras são observacionais de centro único.
A mortalidade hospitalar da infecção necrosante fica, na diretriz de 2022, na faixa de 20% a 30%, com 21,1% na metanálise que ela reproduz (1.277 óbitos entre 6.051 doentes). As séries brasileiras de gangrena de Fournier lidas aqui ficaram em 20% e 23,2%.
A proporção de infecções de partes moles que chega a exigir internação é pequena: num pronto-socorro universitário brasileiro, 4.883 atendimentos por infecção de partes moles em pouco mais de um ano geraram 345 internações, cerca de 7%. A forma necrosante é uma fração dessa fração — e é a razão de o gatilho ser clínico e barato, não laboratorial.
O tempo de seis horas da diretriz de 2022 compara mortalidade de 19% quando a cirurgia ocorreu dentro do intervalo com 32% quando ela passou dele. É evidência observacional, e nenhum ensaio randomizado sobre o prazo existe ou deve existir.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
A cada 12 a 24 horas
"Scheduled re-explorations should be done at least every 12–24 h after the initial operation or sooner if clinical local or systemic signs of worsening infection become evident."
WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3
Segunda inspeção em 24 a 48 horas
Diante de necrose extensa, o doente deve retornar ao centro cirúrgico em 24 a 48 horas para uma segunda inspeção.
World Society of Emergency Surgery (WSES) guidelines for management of skin and soft tissue infections, World Journal of Emergency Surgery 2014;9:57
Na prova
É a mesma sociedade, em dois documentos, e não é descuido: o intervalo apertou entre uma edição e outra, e o texto mais recente ainda acrescenta o "pelo menos" e o "ou antes". O enunciado costuma entregar de qual régua fala pela data ou pelo nome do documento que cita. Quando não cita nenhum, o que nunca varia é o que se deve procurar na resposta: reinspeção com data marcada, dentro de no máximo dois dias, e antecipada por qualquer sinal de piora. Resposta que deixe a reabordagem por conta da evolução clínica, sem data, está errada nas duas edições.
Seis horas, com números
"Surgical treatment within 6 h resulted in a 19% mortality rate compared to 32% when surgical treatment was delayed over 6 h."
WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3
Dias, na leitura dermatológica
A revisão registra mortalidade em torno de 12% entre os doentes tratados dentro dos primeiros 4 dias do início do quadro, contra 35% a 40% na casuística geral.
Fasciíte necrosante: revisão com enfoque nos aspectos dermatológicos, Anais Brasileiros de Dermatologia 2004;79(2):211-225
Na prova
As duas escalas não se contradizem, medem populações e desfechos diferentes, e a diferença de unidade é a pista de qual documento o enunciado está usando. Quando aparece a palavra "horas" e um par de percentuais próximos de um quinto e de um terço, a régua é a diretriz cirúrgica de 2022. Quando aparecem dias e uma mortalidade geral acima de um terço, a régua é a revisão dermatológica. O que as duas sustentam igualmente, e é o que se procura na resposta, é que o tempo até o tratamento definitivo é a variável modificável que mais pesa.
A extensão e o número de operações não explicaram os óbitos
Na casuística de 43 doentes, não houve associação com óbito para extensão da necrose (p = 0,19), número de desbridamentos (p = 0,32), colostomia (p = 0,06), cistostomia (p = 0,43), diabetes (p = 0,98) e sexo (p = 0,593).
Síndrome de Fournier: análise dos fatores de mortalidade, Revista Brasileira de Coloproctologia 2009;29(2):206-212
O tempo, a idade e a fisiologia explicaram
Associaram-se ao óbito idade mais avançada (p < 0,001), tempo de evolução prolongado (p = 0,009), APACHE II acima de 19 (p = 0,001), sepse (p < 0,001), broncopneumonia (p < 0,001) e acidose (p = 0,001).
Síndrome de Fournier: análise dos fatores de mortalidade, Revista Brasileira de Coloproctologia 2009;29(2):206-212, mesma casuística
A leitura internacional, pelo mesmo lado do tempo
"Early surgical debridement with complete removal of necrotic tissue, including potential major amputation is essential to decrease mortality."
WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3
Na prova
Este é o achado que mais contraria a intuição e o mais rentável de reconhecer. O enunciado costuma oferecer uma ferida extensa e muitas idas à sala como se fossem o problema, e pedir o fator prognóstico. O que se procura na resposta é o eixo do tempo e da fisiologia — atraso até o desbridamento, gravidade fisiológica, sepse instalada, idade —, e não o tamanho da ressecção nem a contagem de desbridamentos. Cuidado com a leitura oposta: ausência de associação numa série de 43 doentes não prova ausência de efeito, e algumas variáveis ficaram perto do limiar.
Recomendar onde houver
A diretriz inclui a oxigenoterapia hiperbárica entre as medidas adjuvantes, onde estiver disponível.
WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3
Controversa por falta de ensaio
A revisão classifica a oxigenoterapia hiperbárica como controversa, apontando a ausência de estudos randomizados e controlados que a sustentem.
Fasciíte necrosante: revisão com enfoque nos aspectos dermatológicos, Anais Brasileiros de Dermatologia 2004;79(2):211-225
Diferença observada entre subgrupos não sorteados
A série relata mortalidade de 11,5% no subgrupo submetido a oxigenoterapia hiperbárica contra 37,5% no subgrupo conduzido apenas com tratamento cirúrgico e clínico.
Manejo da gangrena de Fournier: experiência de um hospital universitário de Curitiba, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões 2010;37(6)
Na prova
Três registros diferentes sobre o mesmo adjuvante, e o enunciado costuma escolher um sem avisar. O que nunca muda, e é o que se procura na resposta, é a hierarquia: a câmara é adjuvante de um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado, e a logística dela não pode atrasar nenhuma operação. Resposta que coloque a oxigenoterapia hiperbárica antes ou no lugar do desbridamento está errada nas três fontes. E o par de percentuais da série brasileira compara subgrupos não randomizados, o que descreve a prática de um centro sem estabelecer que o tratamento produziu a diferença.
Caso resolvido
- primeiro
- Reconheça o padrão antes de olhar qualquer número. Dor desproporcional ao que se vê, endurecimento que ultrapassa a borda do eritema, piora acelerada nas últimas horas e repercussão sistêmica num diabético compõem exatamente a tríade de suspeição da diretriz. A ausência de crepitação, de bolhas e de necrose franca não conta contra a hipótese: esses são achados tardios, e o doente está sendo visto cedo — que é a única fase em que a operação ainda é pequena.
- segundo
- Leia o escore pelo lado que ele serve. Cinco pontos ficam abaixo do limiar de suspeição, e é exatamente sobre esse resultado que a diretriz escreve que a acurácia diagnóstica é ruim e que valor baixo não afasta o diagnóstico. Com sensibilidade em torno de dois terços no corte mais permissivo, um resultado abaixo do limiar num doente com este quadro clínico não muda conduta nenhuma. Usá-lo para justificar observação é usar o instrumento ao contrário.
- terceiro
- Trate a tomografia da mesma forma. O laudo descreve celulite e não encontra gás, e nenhuma dessas duas informações afasta a hipótese num doente com suspeita clínica alta. A instrução do documento tem duas metades e a segunda é esta: a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia. Aqui ela já consumiu tempo e não respondeu à pergunta; o que ela ainda pode oferecer é o mapa da extensão para planejar as incisões.
- quarto
- Comece o tratamento clínico sem que ele vire a conduta. Ressuscitação volêmica, correção da glicemia e antimicrobiano empírico de amplo espectro cobrindo gram-positivos com atenção ao resistente à meticilina conforme o cenário local, gram-negativos e anaeróbios, somado a um inibidor de síntese proteica pela supressão de toxina. Tudo isso corre em paralelo com o preparo da sala, e não antes dele: nenhum desses gestos alcança tecido trombosado.
- quinto
- Marque o limite do eritema a caneta e anote a hora — não para decidir se opera, porque isso já está decidido, mas para dar à equipe da sala uma medida objetiva da velocidade e um ponto de partida para comparar o leito. É o gesto mais barato do plantão e o único capaz de transformar impressão em dado.
- sexto
- Leve à exploração cirúrgica, que aqui é ao mesmo tempo o exame que confirma e o tratamento. Procure os achados que decidem: fáscia que se descola sem resistência, tecido que não sangra ao corte e líquido turvo acinzentado. Confirmado o diagnóstico, desbride todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra, com margem generosa — a fronteira está além do que o eritema mostrava, e operação econômica aqui obriga a uma terceira.
- sétimo
- Saia da sala com a próxima operação marcada. A reinspeção é programada por calendário e não por convite do doente: o documento mais recente pede intervalo curto, contado em algumas horas, e antecipação diante de qualquer sinal local ou sistêmico de piora. Colha material para cultura, planeje o descalonamento para quando o antibiograma voltar e converse com a família sobre extensão provável da ferida, número esperado de operações e mortalidade da doença.
Agora feche você
- primeiro
- Decida sobre a tomografia dizendo, antes, para que ela serviria neste caso — e o que aconteceria se ela viesse normal.
- segundo
- Defina a extensão do desbridamento e diga qual achado intraoperatório marca o ponto de parar.
- terceiro
- Decida sobre a derivação do trânsito intestinal enunciando o critério, e diga o que as séries brasileiras mediram sobre colostomia e mortalidade.
- quarto
- Responda à pergunta do residente sobre os testículos pelo mecanismo anatômico, e diga qual seria a exceção.
- quinto
- Programe o pós-operatório imediato: quando volta à sala, o que decide antecipar, e o que você diz à família antes da primeira incisão.
Onde a banca derruba
- 1Esperar crepitação para indicar a operação Crepitação exige agente produtor de gás e volume suficiente para ser palpável, e falta na maior parte dos casos. Quem a trata como requisito adia a sala em todos os doentes cujo agente não produz gás, que são a maioria. O achado confirma quando está presente e não afasta nada quando está ausente.
- 2Usar escore laboratorial baixo para observar mais um pouco A diretriz registra que o escore tem acurácia diagnóstica ruim e que valor baixo não afasta o diagnóstico. Com sensibilidade em torno de dois terços no corte mais permissivo, uma parcela relevante das infecções necrosantes pontua abaixo do limiar — e o doente que chega cedo é justamente o que tende a pontuar baixo.
- 3Pedir tomografia para decidir se opera O documento é literal: em suspeita clínica alta, a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia, e nunca substitui o desbridamento. Imagem serve para mapear extensão e planejar incisões em doente estável. Exame descrito como compatível com celulite, num doente com dor desproporcional e progressão horária, não respondeu à pergunta.
- 4Ler o alívio da dor como melhora A área que perde sensibilidade perdeu porque os ramos nervosos superficiais foram destruídos junto com o tecido. Dor que cede espontaneamente numa infecção de partes moles em progressão é perda de tecido, não resposta ao tratamento — e costuma vir acompanhada de piora sistêmica.
- 5Escalonar o antimicrobiano no doente que não melhora Tecido necrótico e trombosado não recebe perfusão, e nenhum esquema alcança concentração útil dentro dele. Celulite que piora sob tratamento adequado, sobretudo no diabético, deve ser tratada como necrosante até que a exploração diga o contrário. Trocar o esquema é a forma mais comum de adiar a operação que resolve.
- 6Fazer desbridamento econômico para poupar a ferida A instrução é retirar todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra, com margem generosa, porque a fronteira da doença está sempre além do que a pele mostrava. A operação incompleta devolve à terapia intensiva um doente com o motor da sepse ligado, e a série brasileira mostra que o número de desbridamentos não foi o que explicou os óbitos.
- 7Confundir poupar pele com poupar desbridamento As técnicas que preservam o retalho cutâneo viável concentram a ressecção no tecido diretamente comprometido e reduzem a área a reconstruir. Elas não autorizam deixar tecido necrótico no leito. Confundir as duas coisas produz exatamente a reoperação de resgate que se pretendia evitar.
- 8Deixar a reabordagem por conta da evolução clínica Diferente da peritonite já operada por completo, em que a reoperação sob demanda se sustenta, aqui a reinspeção é programada por calendário, porque a fronteira entre vivo e morto continua se movendo sozinha. Esperar sinal de progressão é esperar que a progressão tenha acontecido. As duas edições da diretriz divergem no intervalo, e nenhuma delas admite ficar sem data marcada.
- 9Indicar orquiectomia porque a bolsa escrotal foi ressecada Os testículos têm irrigação própria pelas artérias testiculares, que descem pelo cordão a partir da aorta abdominal, independente da vascularização da parede escrotal. Eles costumam ser poupados mesmo com ressecção escrotal ampla. A retirada fica reservada ao testículo comprovadamente inviável ou à origem intratesticular.
- 10Derivar o trânsito intestinal por rotina na gangrena de Fournier Na série brasileira de Curitiba a colostomia foi feita em pouco menos da metade dos doentes, e a série de São Paulo não encontrou associação entre colostomia e óbito. O critério é funcional: deriva-se quando a contaminação fecal contínua impede o controle da ferida ou quando o esfíncter está comprometido, não pelo simples fato de a necrose alcançar a região perianal.
- 11Transferir para a câmara hiperbárica antes de operar A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante de um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado. As fontes divergem sobre seu tamanho, e a série que relata benefício compara subgrupos não sorteados. Nenhuma delas admite que a logística da câmara atrase um desbridamento.
- 12Tratar controle local da ferida como sobrevida garantida Um doente brasileiro com fasciíte de face teve a infecção controlada por desbridamentos seriados e curativo a vácuo, com a ferida preparada para reconstrução, e morreu de choque séptico e falência de múltiplos órgãos. A operação bem feita compra a chance; o desfecho depende também da reserva fisiológica e do tempo que a doença correu antes.
Dor desproporcional à lesão, bolhas violáceas, crepitação (gás) e sinais de choque séptico configuram fasciíte necrosante — emergência cirúrgica. A conduta que muda o prognóstico é o desbridamento cirúrgico precoce, associado a antibioticoterapia de amplo espectro e ressuscitação volêmica. Tratamento oral ambulatorial é fatal nesse contexto. Compressas/anti-inflamatório atrasam a intervenção e podem mascarar. Antibiótico isolado, sem explorar e desbridar o tecido necrótico, é insuficiente — a fonte infecciosa precisa ser removida. O quadro não é herpes-zóster (não há distribuição dermatomérica vesicular nem o padrão descrito).
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Homem de 62 anos, diabético, é atendido no pronto-socorro com febre alta (39 °C), calafrios, dor perineal e escrotal intensa e progressiva há 2 dias, com piora acentuada nas últimas horas. Ao exame, apresenta-se prostrado, taquicárdico (FC 118 bpm), hipotenso (PA 90/60 mmHg); a região do períneo e da bolsa escrotal mostra edema, eritema, áreas de coloração violácea/necrótica, crepitação à palpação e odor fétido. Exames com leucocitose importante, hiperglicemia e elevação de lactato. Considerando a hipótese diagnóstica e a conduta prioritária, respectivamente, assinale a alternativa correta.
Fasciíte necrosante do períneo/genitália (gangrena de Fournier) em diabético: dor intensa desproporcional, febre, necrose/violácea, crepitação (gás), odor fétido e sinais de sepse. É emergência cirúrgica; a conduta prioritária combina ressuscitação volêmica e suporte hemodinâmico, antibioticoterapia de amplo espectro (cobrindo gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios) e, principalmente, desbridamento cirúrgico precoce e amplo do tecido necrótico — pilar que determina a sobrevida. Celulite simples, abscesso ou orquiepididimite não explicam necrose, crepitação e choque, e manejo ambulatorial/observação num quadro séptico com fasciíte necrosante seria fatal por retardar o desbridamento.
Homem, 62 anos, diabético, no 2º dia de pós-operatório de cirurgia abdominal de urgência. Evolui com dor desproporcional e progressiva na ferida, agora acompanhada de FC 124 bpm, PA 88×54 mmHg, FR 26 ipm, T 38,8 °C. O exame mostra edema e eritema que se estendem muito além da incisão, áreas de coloração acinzentada da pele com bolhas, secreção serosa turva acinzentada ('água de lavar louça') e crepitação à palpação. Exames: leucócitos 22.000/mm³, Na 128 mEq/L (VR 135–145), PCR 180 mg/L, creatinina 1,9 mg/dL. Qual a conduta imediata?
O quadro é de infecção necrosante de partes moles (fasciíte necrosante): dor desproporcional, toxemia/choque, bolhas, secreção acinzentada, crepitação e alterações laboratoriais (leucocitose, hiponatremia, PCR e creatinina elevadas — componentes do escore LRINEC). O tratamento é tempo-dependente: desbridamento cirúrgico precoce e amplo + antibiótico de largo espectro, com clindamicina pelo efeito antitoxina. Correta: Errada: abertura à beira do leito e observação são insuficientes; a exploração deve ser em centro cirúrgico e ampla. Errada: aguardar imagem retarda o desbridamento e piora o prognóstico; o diagnóstico é clínico-cirúrgico. Errada: antibiótico isolado sem controle cirúrgico do foco é fatal nesse contexto. Errada: a hiperbárica é, no máximo, adjuvante, jamais terapia inicial isolada.
Um homem de 47 anos, obeso e diabético, está no 4º dia de pós-operatório de herniorrafia inguinal com implante de tela em hospital do SUS. Evolui com piora rápida da dor na ferida, descrita como muito intensa e desproporcional ao exame. Ao exame, apresenta-se febril (38,9°C), taquicárdico (118 bpm) e hipotenso (90x60 mmHg); a pele ao redor da incisão mostra coloração violácea com bolhas hemorrágicas, secreção acinzentada de odor fétido e crepitação à palpação, que se estende para a coxa. Além da ressuscitação volêmica e do antibiótico endovenoso de amplo espectro, qual é a conduta determinante para o prognóstico?
Dor desproporcional, toxemia, bolhas hemorrágicas, secreção acinzentada fétida e crepitação configuram infecção necrosante de partes moles (fasciíte necrosante) — não uma infecção de sítio cirúrgico comum. O fator prognóstico decisivo é o desbridamento cirúrgico amplo e PRECOCE, associado a antibiótico de amplo espectro e suporte hemodinâmico. Aguardar tomografia atrasa o tratamento e não deve retardar a cirurgia num paciente instável com diagnóstico clínico. Curativo à beira do leito e observação é insuficiente e perigoso. A oxigenoterapia hiperbárica é, no máximo, adjuvante e nunca substitui/precede o desbridamento cirúrgico.
Um homem de 55 anos, diabético com controle irregular, foi submetido a herniorrafia inguinal eletiva. Retorna à unidade de pronto atendimento cerca de 36 horas após a cirurgia com dor intensa e progressiva na ferida, desproporcional ao esperado, e mal-estar importante. Ao exame: sonolento, temperatura axilar de 39,1 °C, frequência cardíaca de 126 bpm, pressão arterial de 88x54 mmHg, frequência respiratória de 26 irpm. A incisão apresenta bordas com área de coloração acinzentada, bolhas de conteúdo serossanguinolento, crepitação à palpação e drenagem de secreção acinzentada de odor fétido; o eritema ultrapassa a região inguinal e avança sobre a coxa proximal.
O quadro é de infecção necrosante de sítio cirúrgico de instalação precoce (menos de 48 horas), com dor desproporcional, bolhas, crepitação, necrose cutânea e choque séptico. O tratamento é cirúrgico e imediato: desbridamento amplo, associado a ressuscitação volêmica e antibiótico endovenoso de amplo espectro. Cefazolina com ferida fechada e reavaliação em 24 horas Inadequada: tanto no espectro quanto no tempo — a mortalidade sobe a cada hora de atraso do desbridamento. Aguardar cultura e realizar tomografia antes da abordagem atrasam o único tratamento que altera desfecho; o diagnóstico é clínico, exames de imagem não devem retardar a cirurgia, e o caráter da abordagem é de urgência, jamais eletivo.
Paciente de 63 anos com infecção necrosante de membro inferior encontra-se em choque séptico, já ressuscitado e com antimicrobiano de amplo espectro em curso. O hospital dispõe de convênio com serviço de oxigenoterapia hiperbárica situado a 40 minutos de distância, e a equipe discute transferi-lo para sessão antes do desbridamento. Qual é a conduta correta e seu fundamento?
A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante de um paciente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado, e as fontes divergem sobre seu tamanho: a diretriz internacional a recomenda onde estiver disponível, a revisão brasileira a classifica como controversa pela ausência de estudos randomizados, e uma série brasileira relata mortalidade menor no subgrupo que a recebeu — comparação entre grupos não sorteados, que descreve a prática de um centro sem estabelecer que o tratamento produziu a diferença. O que nenhuma dessas fontes admite é que a logística da câmara atrase um desbridamento. Não há demonstração de que ela reduza a extensão da necrose ou substitua a operação, e nenhuma delas a contraindica formalmente. O escore laboratorial não tem qualquer papel nessa decisão, e valor baixo sequer afasta o diagnóstico.
Durante a exploração cirúrgica de um paciente com suspeita de infecção necrosante de partes moles em parede abdominal, qual conjunto de achados intraoperatórios confirma o diagnóstico?
Os achados que confirmam são a fáscia que se descola sem resistência ao dedo ou ao instrumento num plano que deveria oferecer aderência, o tecido que não sangra ao corte porque os vasos estão trombosados, e a drenagem de líquido turvo e acinzentado, sem o aspecto espesso e cremoso do pus de abscesso. Gordura subcutânea liquefeita e músculo que não se contrai ao estímulo completam o quadro. Coleção bem delimitada com cápsula e planos preservados descreve abscesso, cuja conduta é drenagem. Sangramento abundante ao corte com fáscia aderida indica tecido viável e afasta a necrose naquele ponto — é justamente o achado que marca o limite do desbridamento. Tecido de granulação exuberante pertence a ferida em cicatrização, não a processo agudo. A exploração tem estatuto duplo: é o exame que confirma e o tratamento que resolve.
Homem de 47 anos é submetido a desbridamento amplo por infecção necrosante em membro inferior. A operação transcorreu com retirada de todo o tecido necrótico até bordas que sangravam. Sobre a programação da reabordagem cirúrgica nesse paciente, assinale a conduta correta:
A reinspeção na infecção necrosante é programada por calendário, e não deixada por conta da evolução clínica: a fronteira entre tecido vivo e morto continua se movendo por conta própria nas horas seguintes, e esperar sinal de progressão é esperar que a progressão já tenha acontecido. As duas edições da diretriz divergem no intervalo — a mais recente pede reexploração em intervalo curto, contado em horas, ou antes disso diante de piora; a anterior admite retorno à sala em até dois dias na necrose extensa —, mas nenhuma delas aceita o paciente sem data marcada. A estratégia sob demanda tem lugar na peritonite já operada por completo, cenário em que a comparação entre programada e sob demanda a favorece, e não neste. Bordas sangrantes na primeira operação não garantem que o processo parou, e a decisão de voltar não depende do resultado da cultura.
Mulher de 66 anos, diabética, apresenta infecção de partes moles em perna direita com dor desproporcional e progressão em poucas horas. A tomografia é laudada como alterações compatíveis com celulite, sem gás nos planos moles e sem coleções organizadas. A paciente encontra-se taquicárdica e hipotensa. Qual é a interpretação correta desse exame de imagem?
A instrução da diretriz tem duas metades, e a segunda é a que costuma ser esquecida: em suspeita clínica alta, a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia, porque o desbridamento precoce é essencial para reduzir a mortalidade. O documento anterior da mesma sociedade acrescenta que a imagem nunca substitui o desbridamento cirúrgico. Um exame descrito como compatível com celulite num quadro de dor desproporcional e progressão horária é um exame que não respondeu à pergunta, e não uma resposta negativa. Gás nos planos moles é achado específico mas pouco sensível, presente apenas quando o agente o produz. Repetir a imagem, complementar com ressonância ou refazer com contraste consome exatamente a janela em que a operação ainda seria econômica, e a paciente já está instável — o que a leva à sala com a ressuscitação em paralelo, não ao tomógrafo.
Sobre a classificação microbiológica das infecções necrosantes de partes moles adotada pela sociedade internacional de cirurgia de emergência, assinale a alternativa correta:
A forma polimicrobiana nasce de foco crônico e indolente, espalha-se pelos planos fasciais e responde por algo entre 85% e 90% dos casos — é a apresentação do diabético, do doente com ferida perineal ou de parede abdominal e do imunodeprimido. A forma monomicrobiana por cocos gram-positivos aeróbios, estreptococo ou estafilococo resistente à meticilina comunitário, responde por cerca de 10% a 15% e atinge tipicamente o jovem previamente hígido, muitas vezes com choque tóxico associado. As infecções monomicrobianas por bacilos virulentos, entre eles clostrídios e germes ligados a exposição aquática, são menos frequentes. A consequência prática dessa distribuição é que a cobertura empírica precisa ser larga por obrigação, alcançando gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios, com descalonamento assim que o antibiograma retornar.
Homem de 59 anos, diabético, é operado por gangrena de Fournier com necrose extensa de bolsa escrotal, que é integralmente ressecada. Ao final do desbridamento, os testículos apresentam-se de aspecto preservado, com túnica íntegra e sem sinais de necrose. Qual é a conduta adequada em relação às gônadas e qual o fundamento anatômico?
Os testículos costumam ser poupados mesmo quando a bolsa escrotal é inteiramente ressecada, porque sua irrigação vem das artérias testiculares, que descem pelo cordão espermático a partir da aorta abdominal e não dependem da vascularização da parede escrotal comprometida pelo processo. A retirada fica reservada ao testículo comprovadamente inviável à inspeção ou à doença de origem intratesticular. A afirmação de que a irrigação testicular depende dos vasos da parede escrotal inverte a anatomia e é o erro que sustenta a indicação equivocada de orquiectomia. A manutenção da temperatura testicular e a possibilidade de reconstrução imediata não são critérios para ressecar gônada viável: as gônadas preservadas podem ser acomodadas temporariamente em bolsas subcutâneas até a reconstrução, que pertence a outro tempo cirúrgico.
Sobre a associação de clindamicina ao esquema antimicrobiano empírico na infecção necrosante de partes moles, qual é o fundamento correto?
A clindamicina é acrescentada como inibidor de síntese proteica pela supressão da produção de toxina, mecanismo particularmente relevante nas formas estreptocócicas que cursam com síndrome do choque tóxico. O racional é que os antimicrobianos que agem na parede celular perdem eficácia diante de inóculo alto e bactérias em fase estacionária e não interrompem a produção de exotoxinas. Ela é somada ao esquema largo, e não o substitui: a cobertura empírica continua precisando alcançar gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios. Nenhum antimicrobiano melhora a penetração em tecido necrótico e trombosado, que não tem perfusão que o entregue — tecido morto é retirável, não esterilizável, e supor o contrário é o raciocínio que adia a operação. A redução de nefrotoxicidade dos demais agentes não é atributo da droga.
Na análise retrospectiva de Candelária e colaboradores, publicada em 2009, sobre 43 pacientes com síndrome de Fournier na Santa Casa de São Paulo, qual conjunto NÃO apresentou associação estatisticamente significativa com mortalidade?
Na série retrospectiva de Candelária e colaboradores, com 43 pacientes da Santa Casa de São Paulo, diabetes (p=0,98), tamanho da lesão inicial (p=0,19) e número de desbridamentos (p=0,32) não apresentaram associação estatisticamente significativa com óbito. Idade, tempo de evolução, sepse, acidose, infecção pulmonar e APACHE II tiveram associação. Os resultados pertencem a essa pequena casuística: não provam que extensão da doença ou diabetes sejam irrelevantes em outras populações, nem que o número de operações cause ou previna mortalidade. A necessidade de novos desbridamentos depende da evolução clínica.
Homem de 52 anos, diabético, é avaliado por dor intensa na coxa esquerda iniciada há 20 horas após ferimento cortante superficial. Ao exame: PA 108x64 mmHg, FC 118 bpm, temperatura axilar 38,7 °C; há eritema de cerca de 8 cm na face lateral da coxa, sem crepitação e sem bolhas, com endurecimento tenso que se estende além da borda do eritema. O paciente não tolera a palpação superficial da área. O escore laboratorial de risco calculado pela equipe resulta em 4 pontos, abaixo do limiar de suspeição. Considerando as recomendações da diretriz da sociedade internacional de cirurgia de emergência, qual é a conduta mais adequada?
A diretriz registra que o escore laboratorial tem acurácia diagnóstica ruim e que um valor baixo não afasta o diagnóstico: no ponto de corte mais permissivo a sensibilidade fica em torno de dois terços, de modo que uma parcela relevante das infecções necrosantes pontua abaixo do limiar. O quadro descrito — dor desproporcional aos achados, endurecimento além da borda do eritema e repercussão sistêmica em diabético — configura suspeita alta, e nesse cenário a exploração cirúrgica é simultaneamente o exame que confirma e o tratamento. Reavaliar em 24 horas consome a janela em que a operação ainda é econômica. Condicionar a decisão à ressonância contraria a instrução de que a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia. Esperar crepitação, bolhas ou anestesia cutânea é esperar achados tardios, presentes quando o tecido já morreu. Ampliar espectro não alcança tecido trombosado e é a forma mais comum de adiar a operação que resolve.
Segundo a diretriz de 2022 da sociedade internacional de cirurgia de emergência sobre infecções de pele e partes moles, qual foi a diferença de mortalidade observada conforme o tempo até o tratamento cirúrgico da infecção necrosante?
O documento compara mortalidade de 19% quando o tratamento cirúrgico foi realizado dentro de seis horas com 32% quando ele passou desse intervalo. É evidência observacional, e nenhum ensaio randomizado sobre o prazo existe ou deve existir nessa doença, mas a direção é consistente entre séries e o custo de agir como se o número fosse verdadeiro é baixo. Os intervalos de 12, 24 e 48 horas com as respectivas mortalidades não correspondem ao que o documento registra. A afirmação de que o início precoce do antimicrobiano equalizaria os grupos inverte a hierarquia do tratamento: o antimicrobiano protege o território vivo e trata a bacteremia, mas não alcança concentração útil em tecido necrótico e trombosado, que é retirável e não esterilizável.
Em uma série brasileira de 40 pacientes com gangrena de Fournier conduzida em hospital universitário de Curitiba, qual foi a origem mais frequente do processo infeccioso e o fator predisponente predominante?
Na série citada, acompanhada entre 1999 e 2006, a origem anorretal foi a mais frequente, presente em 11 dos 40 pacientes (27,5%), seguida das origens urogenital e cutânea; o fator predisponente predominante foi o diabetes melito, em 9 pacientes (22,5%). A maioria era do sexo masculino (77%), com idade média de 47,2 anos, e a mortalidade global do serviço foi de 20%. Procurar a porta de entrada tem consequência prática direta: é ela que orienta a busca de acometimento pélvico ou retroperitoneal e que pesa na decisão sobre derivação do trânsito intestinal, realizada em 42,5% dos pacientes dessa casuística. As demais origens e fatores listados ocorrem na doença, mas não foram os predominantes nessa série brasileira.
Sobre o escore LRINEC, utilizado na avaliação de suspeita de fasciíte necrosante, qual afirmativa está correta?
O escore combina proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia, e serve para levantar a suspeita em casos duvidosos. O ponto que a prova cobra é a limitação: a sensibilidade é insuficiente para excluir, e há séries com fasciíte confirmada e escore baixo. Quem usa o escore para tranquilizar-se diante de dor desproporcional, bolhas ou toxemia toma a pior decisão possível. O diagnóstico definitivo continua sendo a exploração cirúrgica, que mostra fáscia acinzentada, ausência de sangramento e dissecção romba sem resistência.
Homem de 55 anos, diabético, com dor intensa e desproporcional ao exame em coxa, área de eritema com bolhas violáceas, crepitação à palpação, hipotensão e lactato elevado. Qual é a conduta prioritária?
Dor desproporcional ao exame, bolhas violáceas, crepitação e instabilidade hemodinâmica são a apresentação da infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento é cirúrgico e imediato: desbridamento amplo de todo o tecido inviável, com reoperações programadas, somado a antibiótico de amplo espectro e suporte. Antibiótico isolado não alcança tecido desvitalizado e sem perfusão e o paciente morre esperando. Drenagem limitada subestima a extensão da necrose. Esperar tomografia em paciente instável com quadro clínico já evidente atrasa a única medida que altera a mortalidade — a imagem só é aceitável quando o diagnóstico é duvidoso e o paciente está estável. Oxigenoterapia hiperbárica é, no máximo, adjuvante.
Homem de 38 anos, vítima de ferimento contuso em coxa há 2 dias, apresenta dor intensa, edema tenso, pele bronzeada com bolhas, crepitação e secreção seropurulenta de odor adocicado. Está toxemiado. Qual é o agente classicamente envolvido e a conduta?
Mionecrose clostridial, ou gangrena gasosa, segue trauma com desvitalização muscular e evolui em horas: dor intensa, edema tenso, pele bronzeada, bolhas, crepitação e a secreção de odor característico. O agente clássico é o Clostridium perfringens, e o tratamento é cirúrgico e radical, com penicilina em altas doses associada à clindamicina, que reduz a produção de toxinas. Nenhum antibiótico isolado trata músculo necrótico, e essa é a armadilha: o paciente pode estar lúcido e falando enquanto a necrose avança centímetros por hora.
Paciente com abscesso submandibular drenado há 24 horas mantém febre, taquicardia e piora da dor. À reavaliação da ferida há crepitação à palpação, secreção acinzentada de odor fétido e área de anestesia cutânea. Qual é a conduta?
Crepitação, secreção acinzentada fétida e anestesia cutânea sobre a área infectada são sinais de infecção necrosante — a anestesia decorre da destruição dos nervos cutâneos e é um sinal tardio e temível. O único tratamento que altera a mortalidade é o desbridamento cirúrgico imediato e amplo, repetido quantas vezes for preciso. Escalonar antibiótico e esperar mais 24 horas é o erro clássico: nenhum antimicrobiano perfunde tecido necrótico. A câmara hiperbárica é adjuvante discutível e nunca substitui a sala. Pedir nova imagem em paciente com sinais físicos evidentes só serve para atrasar; a tomografia se reserva a quando o diagnóstico é duvidoso e o paciente permite espera.
Homem de 58 anos, diabético descompensado, com dor perianal intensa há 3 dias, febre e prostração. Ao exame há crepitação em bolsa escrotal e períneo, com área de necrose cutânea e secreção fétida. PA 90 x 60 mmHg. Qual é a conduta?
Crepitação em períneo e escroto, necrose cutânea e sepse em diabético descompensado é gangrena de Fournier, e a mortalidade acompanha o tempo até o desbridamento — que precisa ser amplo, até tecido sangrante e viável, e repetido em reoperações programadas. Antibiótico e câmara hiperbárica são adjuvantes e nunca justificam adiar a sala; imagem só se o diagnóstico for duvidoso e o paciente estável, que não é o caso. Drenagem limitada subestima a extensão subcutânea, sempre maior que a lesão de pele sugere. A derivação fecal pode ser necessária para proteger o desbridamento, mas isolada não trata a necrose.
Confirmada a suspeita de gangrena de Fournier em paciente com sinais de sepse, a conduta prioritária é:
O determinante isolado de sobrevida é o tempo até o desbridamento: cada hora de atraso aumenta a mortalidade, e nenhum antibiótico penetra fáscia necrosada e trombosada. A imagem pode ajudar em casos duvidosos, mas nunca deve atrasar a sala — na suspeita clínica clara, o exame é a exploração cirúrgica. A oxigenoterapia hiperbárica é, quando muito, adjuvante posterior, jamais tratamento inicial.
Após o primeiro desbridamento por gangrena de Fournier, a conduta cirúrgica subsequente adequada é:
Um único desbridamento raramente é suficiente: a necrose costuma se estender além do que era visível na primeira exploração, e a revisão programada em 24 a 48 horas é regra, não exceção. Condicionar a reoperação ao retorno da febre é esperar por um sinal tardio e pouco confiável em paciente já sob antibiótico. Fechar a ferida no primeiro tempo aprisiona tecido inviável e é erro técnico grave nessa doença.
Sobre o esquema antimicrobiano empírico da gangrena de Fournier, é correto afirmar:
A infecção é tipicamente polimicrobiana, com aeróbios e anaeróbios agindo em sinergia, então o esquema empírico precisa ser largo desde a primeira dose. O acréscimo da clindamicina não é redundância de cobertura: ela inibe a síntese proteica bacteriana e reduz a produção de toxinas, contribuição relevante em infecção necrosante. Esperar a cultura para iniciar é o erro que mata — as amostras são colhidas no ato cirúrgico e o esquema é ajustado depois.
Homem com quadro clínico altamente sugestivo de gangrena de Fournier. O cirurgião solicita tomografia para 'confirmar' antes de operar; o exame demorará 4 horas. A conduta correta é:
A imagem tem papel quando o quadro é duvidoso ou quando é preciso mapear extensão em planos profundos, mas jamais deve atrasar a exploração numa suspeita clara — a necrose avança por planos fasciais em horas. Cobrir com antibiótico enquanto se espera dá falsa sensação de que algo está sendo feito, sem controlar o foco. Aguardar parecer de outra especialidade para uma emergência cirúrgica é diluir responsabilidade e perder tempo.
Homem de 57 anos, diabético, com dor perineal intensa há 2 dias. Ao exame: eritema escrotal com áreas acinzentadas, bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação e dor desproporcional aos achados. Temperatura 38,9°C, FC 122 bpm, PA 92/56 mmHg. O diagnóstico mais provável é:
Dor desproporcional ao exame, crepitação, bolhas hemorrágicas e áreas acinzentadas com repercussão sistêmica compõem a fasciíte necrosante do períneo — quadro cirúrgico, não clínico. A celulite é o distrator que mais adia a cirurgia: ela dá eritema quente e doloroso, mas sem crepitação, sem necrose cutânea e sem toxemia dessa intensidade. Diabetes, alcoolismo e imunossupressão são o pano de fundo típico, e a evolução se conta em horas.
Entre os fatores associados a maior mortalidade na gangrena de Fournier, destaca-se:
De todas as variáveis estudadas, o tempo até a primeira cirurgia é a mais consistentemente associada ao desfecho — e é a única inteiramente sob controle da equipe. Idade avançada, extensão da necrose, disfunção orgânica na admissão e imunossupressão também pesam. A origem anatômica do foco, muito lembrada em prova, não tem o peso prognóstico que se atribui a ela: o que decide é a velocidade e a adequação do controle cirúrgico.
Sobre a indicação de colostomia derivativa no tratamento da gangrena de Fournier, é correto afirmar:
A derivação existe para proteger a ferida da contaminação fecal contínua, e por isso se reserva a situações em que o períneo não tem como ser mantido limpo ou em que a origem do processo é colorretal. Indicá-la para todos acrescenta morbidade e um segundo tempo cirúrgico desnecessário à maioria. E nenhuma derivação dispensa o que realmente controla a doença: revisões cirúrgicas programadas até que não reste tecido inviável.
Paciente diabético com celulite de parede abdominal em uso de antibiótico há 48 horas apresenta piora do eritema, que se estende além da marcação feita na admissão, com febre mantida. Não há crepitação nem bolhas, e a tomografia mostra edema difuso do subcutâneo sem coleção. Qual é a conduta?
Celulite que progride além da marcação em 48 horas de antibiótico apropriado significa cobertura insuficiente ou infecção necrosante em fase inicial. A conduta razoável é revisar o espectro — pensando em estafilococo resistente e em anaeróbios no diabético — e manter reavaliações muito próximas, com limiar baixo para explorar. Manter o esquema por mais uma semana confia numa melhora que não veio e é o erro que permite a necrose amadurecer. Por outro lado, levar à sala sem qualquer sinal de necrose expõe o paciente a uma ferida grande sem indicação, e a exploração deve ser guiada pelos sinais que aparecerem. Não há coleção para drenar: agulha em edema difuso não traz nada.
Paciente com angina de Ludwig, já com via aérea assegurada e antibiótico iniciado, apresenta na tomografia coleções nos espaços submandibular e sublingual, com gás nos planos fasciais. Qual é a conduta?
Gás nos planos fasciais indica anaeróbios produtores de gás e processo necrosante, e coleções organizadas não respondem a antimicrobiano isolado: a conduta é a exploração cirúrgica com abertura ampla dos espaços comprometidos, desbridamento do tecido desvitalizado e remoção do foco odontogênico, com reabordagens se necessário. Esperar três dias de antibiótico com esses achados é permitir a extensão para o mediastino. Punção aspirativa não descomprime adequadamente espaços múltiplos e septados, e corticoide pode ser adjuvante para edema, nunca tratamento principal.
Homem de 60 anos, diabético, no terceiro dia após herniorrafia, apresenta dor desproporcional ao exame, área de eritema com bolhas violáceas, crepitação e anestesia cutânea local. PA 92x58 mmHg, FC 124 bpm, lactato 4,2 mmol/L. Qual a conduta imediata?
O quadro é de infecção necrosante de partes moles, e nela o tempo até o desbridamento é o principal determinante de sobrevida: leva-se o paciente ao centro cirúrgico ao mesmo tempo em que se inicia antibiótico de amplo espectro com cobertura para gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios, acrescentando clindamicina pelo efeito antitoxina, além de ressuscitação volêmica. Dor desproporcional, bolhas, crepitação e anestesia cutânea são os sinais que dispensam confirmação. Esperar exame de imagem é o erro mais letal aqui — a tomografia ajuda em casos duvidosos, jamais deve atrasar a cirurgia no caso evidente. Antibiótico isolado não alcança tecido desvascularizado, e a oxigenoterapia hiperbárica é, no máximo, adjuvante posterior. Escores como o LRINEC auxiliam a triagem, mas não excluem o diagnóstico.
Homem de 45 anos apresenta lesão eritematosa em antebraço com evolução rápida em 12 horas, dor muito além do esperado pelo exame, bolhas com conteúdo hemorrágico e áreas acinzentadas. Está taquicárdico e confuso. Qual é a conduta?
Dor desproporcional ao exame, evolução em horas, bolhas hemorrágicas, áreas acinzentadas e toxemia formam o quadro de infecção necrosante, e o único tratamento que muda a mortalidade é o desbridamento imediato — a exploração cirúrgica é, ao mesmo tempo, o exame diagnóstico definitivo, porque revela a fáscia necrótica que se separa sem resistência. Observar por 24 horas sob antibiótico é a decisão que mais custa membro e vida nesse cenário. Imagem só faz sentido quando a suspeita é fraca e o paciente está estável; aqui, atrasa. Aspirar bolha e ocluir trata sintoma e esconde a progressão.
Homem de 62 anos, obeso e diabético descompensado, no quarto dia após herniorrafia incisional, apresenta dor desproporcional ao exame, eritema violáceo com bolhas, crepitação e hipotensão. Leucócitos 24.000/mm3, sódio 128 mEq/L, creatinina 2,1 mg/dL, PCR 260 mg/L. Qual é a conduta?
Dor desproporcional, bolhas, crepitação e instabilidade num diabético descompensado desenham fasciíte necrosante, e as alterações laboratoriais reforçam (hiponatremia, leucocitose alta, elevação de creatinina e proteína C reativa, componentes do escore LRINEC). O que muda a mortalidade é o tempo até o desbridamento — cada hora de atraso conta. Pedir tomografia num paciente com sinais físicos francos e hipotenso é o distrator que mais mata: a imagem serve quando o diagnóstico é duvidoso e o doente pode esperar. Antibiótico é obrigatório, mas nunca isolado; e o escore LRINEC ajuda a levantar suspeita, jamais a excluir o diagnóstico ou adiar a sala.
Sobre o escore LRINEC na avaliação de infecção necrosante de partes moles, é correto afirmar:
O escore combina proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia, e serve para aumentar a suspeita — nunca para tranquilizar. A armadilha é exatamente usá-lo como teste de exclusão: pacientes com necrose extensa já documentada podem pontuar baixo, sobretudo nas primeiras horas, e a decisão cirúrgica permanece clínica. Nenhum escore substitui o achado intraoperatório de fáscia acinzentada que se descola sem resistência ao dedo.
Após dois desbridamentos, o paciente está estável, afebril, sem vasopressor, com ferida abdominal ampla, granulada, sem tecido necrótico e com aponeurose parcialmente exposta. Qual é a conduta?
Controlado o foco, a fase muda: a pressão negativa reduz edema, estimula granulação, contrai a ferida e prepara o leito para enxerto de pele parcial ou retalho, sendo o padrão no abdome desbridado. Fechar primariamente uma ferida desse porte é o erro que recria espaço morto e coleção. O antibiótico não precisa acompanhar a ferida aberta, pois sem sinais sistêmicos e com foco controlado ele é descalonado e suspenso, e prolongá-lo apenas seleciona resistência e favorece fungos e Clostridioides difficile. Reexplorações diárias só se mantêm enquanto houver tecido necrótico a remover.
Mulher de 61 anos, obesa e diabética, drenou abscesso perianal há 3 dias e retorna com piora da dor, febre de 39 °C e área de eritema que se estendeu para a região glútea e para o grande lábio, com região central de coloração violácea e hipoestesia. Qual é a conduta?
Piora após uma drenagem que deveria aliviar, com progressão do eritema para além do períneo, área violácea e hipoestesia, é a apresentação de uma infecção necrosante em evolução, e a hipoestesia, causada pela trombose dos vasos que nutrem os nervos cutâneos, é um dos sinais mais específicos. O que engana é atribuir a dor à drenagem recente, já que uma drenagem adequada melhora a dor em 24 a 48 horas. Ressonância e observação por 48 horas atrasam o único tratamento que muda a mortalidade. Antibiótico oral em quadro com febre alta e progressão rápida é subtratamento evidente.
Homem de 45 anos apresenta dor e edema em flanco após drenagem de abscesso de parede abdominal. Está hemodinamicamente estável, sem bolhas e sem crepitação, e persiste a dúvida entre celulite e infecção necrosante. Qual exame é o mais útil neste momento?
No paciente estável e com quadro ambíguo, a tomografia com contraste é o exame mais prático: mostra gás em planos profundos, espessamento e ausência de realce da fáscia, coleções e a extensão real do acometimento, orientando inclusive a incisão. A radiografia simples é o distrator clássico porque de fato pode mostrar gás, mas só nos casos avançados, e sua ausência não afasta nada. A ressonância é sensível, porém demorada e pouco disponível na urgência. E o dogma de levar todos direto à sala vale para quem já tem sinais duros ou instabilidade, enquanto aqui a imagem esclarece sem atrasar o tratamento.
Após o primeiro desbridamento de fasciíte necrosante de parede abdominal, o paciente permanece com necessidade crescente de noradrenalina e com proteína C reativa em elevação nas primeiras 24 horas. Qual é a conduta?
Infecção necrosante quase nunca se resolve em um único tempo cirúrgico: a regra é a reabordagem programada em 12 a 24 horas, repetida até que não reste tecido desvitalizado, e a persistência de vasopressor com marcadores inflamatórios em alta é justamente o sinal de foco não controlado. Esperar 72 horas de antibiótico é o raciocínio da celulite, não o da fasciíte, porque o antimicrobiano não chega ao tecido sem perfusão. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante discutível e jamais substitui o desbridamento, e a imunoglobulina tem lugar apenas como coadjuvante no choque tóxico estreptocócico, também sem dispensar a sala.
Mulher de 34 anos, no 4º dia após cesariana, apresenta dor desproporcional ao exame na incisão de Pfannenstiel, febre de 39 °C, FC 126 bpm e PA 88/54 mmHg. A pele periincisional está acinzentada, com bolhas e áreas de anestesia cutânea, há crepitação à palpação e drenagem de secreção acinzentada e fétida. Qual é a conduta imediata?
Dor desproporcional, bolhas, anestesia cutânea, crepitação e instabilidade hemodinâmica configuram infecção necrosante, e nesse cenário o diagnóstico é clínico, com o relógio contra o doente: cada hora de atraso do desbridamento aumenta a mortalidade. Volume, antibiótico de amplo espectro e sala de cirurgia caminham juntos. A imagem é o distrator que mais mata, porque tomografia e ressonância ajudam quando o quadro é duvidoso e o paciente está estável, jamais em quem já tem sinais cutâneos francos e hipotensão. Antibiótico isolado não alcança tecido desvascularizado, e a abertura à beira do leito não avalia nem remove a fáscia necrótica.
Sobre a gangrena de Fournier em mulheres, qual afirmativa é correta?
A doença é bem mais comum em homens, na ordem de 10 para 1, mas ocorre em mulheres, com portas de entrada ginecológicas e anorretais como abscesso de Bartholin, episiotomia infectada, aborto séptico e abscesso perianal, e progride pelos mesmos planos, porque as fáscias de Colles e de Scarpa não têm sexo. Acreditar que se trata de doença exclusivamente masculina é o preconceito que atrasa o diagnóstico feminino, e as séries mostram justamente diagnóstico mais tardio, e não prognóstico melhor. A proporção invertida e a restrição a uma única porta de entrada são falsas.
Homem de 68 anos, diabético, é levado à emergência com parafimose de 4 dias de evolução. Ao exame, a glande apresenta áreas escuras, secas e insensíveis, com odor fétido e crepitação em pele peniana e escrotal, além de febre e taquicardia. A conduta prioritária é:
Necrose tecidual com crepitação, odor fétido e sinais sistêmicos configura infecção necrosante de períneo, e o único tratamento que muda a mortalidade é o desbridamento precoce e amplo somado a antibiótico e suporte. Tentar apenas a redução manual engana quem ainda vê o quadro original, mas a doença já mudou de natureza. Oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante, jamais substituto da cirurgia.
Homem de 30 anos, previamente hígido, evolui com infecção necrosante perineal, hipotensão refratária, eritrodermia macular difusa e insuficiência renal. A cultura cresce Streptococcus pyogenes. Além do desbridamento e da ressuscitação, qual medida é a mais apropriada?
O quadro é de síndrome do choque tóxico estreptocócico. A penicilina permanece como droga de escolha contra o agente, mas em inóculo alto os betalactâmicos perdem eficácia porque atuam sobre a parede de bactérias em crescimento, o chamado efeito Eagle. A clindamicina resolve esse ponto ao inibir a síntese proteica e, com isso, a produção de exotoxinas, independentemente da fase de crescimento. A imunoglobulina, que neutraliza superantígenos, é adjuvante razoável no choque tóxico refratário. Vancomicina não cobre o estreptococo melhor que a penicilina, e corticoide imunossupressor e antifúngico empírico não têm indicação aqui.
Qual é a origem mais frequente da gangrena de Fournier?
A maioria dos casos tem porta de entrada identificável, e a origem anorretal, com abscesso perianal, fístula, doença perianal de Crohn ou complicação de hemorroidectomia, é a mais comum, seguida das causas urogenitais como estenose de uretra, cateterismo e extravasamento urinário, e das causas cutâneas locais. Isso tem consequência prática direta: o inventário intraoperatório precisa incluir o reto e a uretra, e não apenas a pele necrosada. O grupo urogenital é o segundo em frequência e engana quem generaliza, e os casos idiopáticos existem, mas são minoria. Trauma fechado e foco hematogênico pulmonar são raridades.
Qual fator se associa de forma mais consistente à maior mortalidade nas infecções necrosantes de partes moles?
Entre todas as variáveis estudadas, o intervalo entre a admissão e o primeiro desbridamento é o preditor modificável mais forte, com séries mostrando mortalidade várias vezes maior quando a operação ultrapassa 12 a 24 horas. Idade e comorbidades pesam, mas não são modificáveis e explicam menos variância. A distinção entre forma mono e polimicrobiana muda o perfil do doente, não decide o prognóstico. Gás nos tecidos é sinal diagnóstico e não fator prognóstico independente. E, uma vez escolhido um esquema de amplo espectro adequado, a troca entre betalactâmicos não altera desfecho, pois o que altera é chegar cedo à sala.
Paciente com gangrena de Fournier, após três desbridamentos, encontra-se estável, com ferida perineoescrotal granulada, testículos expostos e sem necrose residual. Qual é a melhor conduta para a cobertura?
Com o foco controlado e o leito granulado, a etapa passa a ser reconstrutiva: o enxerto de pele parcial cobre a maior parte das feridas perineais e, quando o escroto foi perdido, os testículos podem ser alojados temporariamente em bolsas subcutâneas nas coxas ou cobertos por retalhos, preservando função e viabilidade. A orquiectomia é o erro mais grave e desnecessário, já que a irrigação testicular é independente da parede escrotal e os testículos costumam estar íntegros. A epitelização espontânea de ferida ampla leva meses e resulta em retração e sequela funcional, e o fechamento sob tensão simplesmente deiscia.
Durante o desbridamento de uma gangrena de Fournier extensa, quando está indicada a derivação intestinal por colostomia?
A derivação é seletiva e entra quando o esfíncter está destruído, quando a origem é anorretal com lesão do complexo esfincteriano, ou quando a contaminação fecal contínua impede o controle da ferida e a cobertura posterior. Indicá-la em todos os casos é o excesso mais comum, pois acrescenta morbidade e uma segunda operação de reconstrução a quem já está grave, e hoje existem alternativas menos agressivas, como os sistemas fechados de manejo fecal. Dizer que nunca modifica a evolução também é falso, porque em ferida perineal ampla e continuamente contaminada a derivação pode ser o que viabiliza o enxerto. O número de desbridamentos, por si só, não indica derivação.
Homem de 58 anos, diabético mal controlado, refere dor escrotal intensa há 2 dias, com piora rápida. Ao exame: bolsa escrotal edemaciada, com área de necrose cutânea de 4 cm, crepitação e odor fétido; os testículos são palpáveis e indolores. Temperatura de 38,8 °C e FC 118 bpm. Qual é o diagnóstico e a conduta?
Necrose cutânea, crepitação e odor fétido em períneo e escroto de um diabético é gangrena de Fournier até prova em contrário, e o tratamento é a sala de cirurgia agora, com antibiótico largo em paralelo. Vale notar o detalhe anatômico muito cobrado: os testículos costumam estar preservados e indolores porque têm irrigação própria, vinda das artérias testiculares, independente da vascularização da parede escrotal, e por isso a orquiectomia raramente é necessária. A orquiepididimite é o diagnóstico que mais atrasa esse doente, mas não produz necrose de pele nem crepitação. Torção acomete jovens, é de instalação súbita e cursa com testículo doloroso e elevado.
Homem de 52 anos, diabético, apresenta celulite de parede abdominal em rápida expansão. Exames: leucócitos 24.000/mm³, proteína C reativa 320 mg/L, sódio 128 mEq/L, creatinina 1,9 mg/dL, glicemia 268 mg/dL e hemoglobina 11,2 g/dL. Como esses achados devem ser interpretados?
O conjunto de proteína C reativa muito elevada, leucocitose importante, hiponatremia, hiperglicemia e disfunção renal é exatamente o que o escore LRINEC captura, e pontuação alta desloca a probabilidade para infecção necrosante, apoiando a decisão de explorar. O ponto que mais confunde é imaginar que o escore fecha ou exclui diagnóstico: ele apenas estratifica risco, tem sensibilidade limitada, e valor baixo em paciente com quadro clínico suspeito não autoriza esperar. Também não se trata de mera descompensação diabética, pois hiponatremia e queda da função renal com celulite de progressão rápida são sinais de gravidade. Nenhum exame substitui a exploração cirúrgica, que é o padrão-ouro.
Em gangrena de Fournier com extensa lesão perineal e suspeita de extravasamento urinário por estenose de uretra, qual é a conduta em relação à via urinária?
Com a uretra comprometida e urina contaminando a ferida, a derivação protege o leito e permite a cicatrização, e a cistostomia suprapúbica é a via lógica quando o cateterismo uretral é inviável ou perpetua a lesão. Forçar a passagem de sonda através de uma estenose é o erro que cria falso trajeto e agrava a infecção, e é justamente o reflexo mais comum de quem quer resolver rápido. Nefrostomia bilateral é desproporcional para drenagem vesical. Reconstrução uretral é cirurgia eletiva, feita meses depois, com o processo infeccioso resolvido, e jamais no tempo do desbridamento.
Mulher de 63 anos, diabética, no 2º dia de pós-operatório de herniorrafia inguinal, apresenta febre de 39,2 °C, taquicardia, dor intensa e desproporcional na ferida, com bolhas de conteúdo escuro e área de crepitação periincisional. Qual é a conduta?
Febre precoce com dor desproporcional, bolhas e crepitação na ferida é infecção necrosante de sítio cirúrgico, uma das poucas causas de febre nas primeiras 48 horas que exige retorno imediato à sala. Os agentes clássicos desse quadro fulminante e precoce são estreptococo do grupo A e clostrídios. Tratar como celulite superficial com antibiótico oral é o erro que custa a vida do paciente, porque o antimicrobiano não perfunde tecido necrótico. Ultrassonografia e observação atrasam o desbridamento, que é o único tratamento que muda o desfecho, e retirar alguns pontos não abre nem inventaria o plano acometido.
Durante o desbridamento cirúrgico de uma fasciíte necrosante de parede abdominal, qual achado define a margem de ressecção?
A margem é funcional e não geométrica: desbrida-se até encontrar fáscia aderida, que oferece resistência ao dedo, e tecido que sangra, porque a fáscia necrótica se descola sem esforço e não sangra, o clássico sinal do dedo positivo. Marcar a hiperemia da pele é o distrator mais intuitivo e o mais enganoso, já que a necrose fascial se estende muito além do que a pele mostra, e é exatamente por isso que a doença surpreende. O Gram intraoperatório orienta o antibiótico, não a extensão da ressecção. E a tomografia subestima a margem real, servindo para planejar o acesso, não para encerrá-lo.
Paciente de 34 anos, em quimioterapia por linfoma e neutropênico, apresenta dor perineal intensa e desproporcional ao exame, com eritema discreto, sem crepitação e com febre de 38,5 °C. Qual é a interpretação correta?
No neutropênico faltam justamente as células que produzem os sinais clássicos: o eritema é discreto, o pus pode não existir e a crepitação pode nunca aparecer, mas a necrose progride igual, e a dor desproporcional ao exame permanece o sinal mais confiável. Por isso o limiar para explorar deve ser mais baixo, e não mais alto. Excluir a doença pela ausência de crepitação é o erro mais frequente e mais fatal nesse grupo. Esperar a recuperação medular condena o paciente, e rotular o quadro como mucosite ignora a gravidade sistêmica.
Homem de 47 anos com gangrena de Fournier chega instável a um hospital secundário que não dispõe de urologista de plantão, mas tem cirurgião geral e centro cirúrgico disponíveis. Qual é a conduta correta?
O desbridamento de infecção necrosante é procedimento de cirurgia geral, e o desfecho depende do tempo até a primeira operação, de modo que quem tem sala e cirurgião opera e só depois discute transferência, já com o foco controlado. Aguardar vaga em terciário é a decisão que mais mata nessa doença, porque transforma horas em dias. Esperar o especialista pela manhã é a mesma armadilha com outro nome. Tomografia não é pré-requisito quando o quadro é evidente, e punção diagnóstica não trata nem exclui nada.
Qual achado clínico é considerado o mais precoce e sugestivo de infecção necrosante de partes moles, antes do aparecimento de alterações cutâneas evidentes?
A dor intensa e desproporcional ao que o exame mostra é o primeiro sinal, porque a necrose começa nos planos profundos, na fáscia, muito antes de a pele traduzir o que acontece embaixo. Crepitação, bolhas hemorrágicas, necrose e anestesia cutânea são todos sinais reais da doença, porém tardios: quando aparecem, o processo já avançou e o prognóstico já piorou. Confiar neles para diagnosticar é a razão pela qual tantos casos chegam à sala tarde demais, e reconhecer a fase da dor é o que permite operar cedo.
Sobre a oxigenoterapia hiperbárica na gangrena de Fournier, qual afirmativa é correta?
A câmara hiperbárica pode melhorar a atividade de neutrófilos e ter efeito sobre anaeróbios, mas a evidência é de séries e estudos observacionais, sem ensaio randomizado que sustente obrigatoriedade. Ela é adjuvante em serviços que a possuem e em paciente já estabilizado e desbridado. O erro clássico é transferir o doente para um centro com câmara antes de operar, porque qualquer minuto gasto assim piora o prognóstico, já que o determinante é o tempo até o desbridamento. Também não é contraindicada, apenas não substitui nem antecede a cirurgia.
Em um paciente com suspeita de gangrena de Fournier e sinais de sepse, qual das condutas a seguir é INADEQUADA?
As medidas de ressuscitação, antibiótico precoce, exploração cirúrgica e reabordagem programada são todas corretas, e a única inaceitável é condicionar o tratamento ao resultado microbiológico. A cultura leva de um a três dias e serve para descalonar o esquema, não para decidir se opera, e nesse intervalo a necrose progride. Esse é o erro de raciocínio mais frequente de quem trata a doença como se fosse celulite grave. A coleta de hemocultura antes da primeira dose é desejável, mas apenas quando não atrasa a terapia, já que a prioridade é o antibiótico e a sala de cirurgia.
Sobre a mortalidade e a evolução da gangrena de Fournier, qual afirmativa é correta?
Mesmo com terapia intensiva e antimicrobianos modernos, a mortalidade da gangrena de Fournier segue alta, tipicamente entre 20% e 40%, e a maioria dos doentes precisa de dois a quatro tempos cirúrgicos até que não reste tecido desvitalizado. A ideia de que o antibiótico moderno resolveu o problema é o engano central, pois a droga não perfunde tecido necrótico, e o que muda o desfecho é a rapidez e a radicalidade do desbridamento. Tempo até a cirurgia e extensão da área acometida são, ambos, preditores consistentes de mortalidade.
Qual é a comorbidade mais frequentemente associada à gangrena de Fournier?
O diabetes está presente em cerca de metade a dois terços das séries de gangrena de Fournier, e a explicação é fisiopatológica: microangiopatia, disfunção de neutrófilos e neuropatia, que reduz a percepção da dor inicial e retarda a busca por atendimento. Outros fatores relevantes são alcoolismo, obesidade, imunossupressão, doença renal crônica e neoplasia. A hipertensão isolada aparece muito nesses doentes por sua prevalência populacional, mas não é fator de risco independente, sendo o distrator que confunde associação com causalidade.
Qual das variáveis a seguir NÃO faz parte do índice de gravidade da gangrena de Fournier (FGSI)?
O índice de gravidade da gangrena de Fournier deriva do APACHE II e é composto por temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, sódio, potássio, creatinina, bicarbonato, hematócrito e leucócitos. A glicemia, apesar de o diabetes ser a comorbidade mais associada à doença, não entra nessa conta. Valores do índice acima de 9 se associam a mortalidade bem mais alta, e é por isso que ele aparece em prova. O que engana é justamente a intuição de que a hiperglicemia, tão presente nesses doentes, seria pontuada: ela pesa como comorbidade e no manejo clínico, não no cálculo do escore.
A disseminação da gangrena de Fournier a partir do períneo segue planos fasciais definidos. Qual é o caminho anatômico correto e sua consequência prática?
A continuidade entre as fáscias de Colles no períneo, de Dartos no escroto e no pênis e de Scarpa na parede abdominal explica por que uma infecção que começa no períneo sobe pelo abdome sem atravessar a cavidade peritoneal, e é por isso que o desbridamento precisa expor toda a extensão desses planos, e não apenas a área com pele alterada. A fáscia de Buck é o distrator mais elegante, pois envolve os corpos cavernosos e, quando íntegra, na verdade limita a progressão para o pênis. A via não é linfática nem peritoneal, e a coxa não é etapa obrigatória do trajeto.
Sobre a microbiologia das infecções necrosantes de partes moles, qual afirmativa está correta?
As infecções necrosantes polimicrobianas, do chamado tipo I, respondem pela maioria dos casos e são as do doente com diabetes, obesidade e ferida abdominal ou perineal, com mistura de anaeróbios, enterobactérias e cocos gram-positivos. A forma monomicrobiana por estreptococo do grupo A é a que mais aparece em prova por ser dramática e acometer jovens hígidos, mas não é a mais frequente. Gás nos tecidos aponta anaeróbios produtores, tipicamente na forma polimicrobiana, e não é sinônimo de clostrídio. Vibrio vulnificus de fato acomete cirróticos, mas após exposição a água salgada ou frutos do mar, e é raro.
Iniciado o tratamento de uma fasciíte necrosante de parede abdominal em paciente séptico, qual esquema antimicrobiano empírico é o mais adequado?
A infecção necrosante de parede abdominal costuma ser polimicrobiana, com anaeróbios, enterobactérias e gram-positivos, e o esquema empírico precisa ser largo: um betalactâmico de amplo espectro somado à cobertura para estafilococo resistente à meticilina. A clindamicina entra por um motivo específico e muito cobrado, pois inibe a síntese proteica e bloqueia a produção de exotoxinas do estreptococo e do estafilococo, efeito que independe da fase de crescimento bacteriano, ao contrário dos betalactâmicos. Penicilina isolada só se justificaria em infecção comprovadamente estreptocócica pura, o que não se sabe no início. Esquemas orais não têm lugar em paciente com sepse.
Qual achado clínico é o mais sugestivo de infecção necrosante e deve motivar exploração cirúrgica mesmo com pele ainda pouco alterada?
A dor desproporcional aos achados é o sinal precoce mais valioso, porque a necrose começa nos planos fasciais profundos e a pele pode parecer relativamente preservada quando a fáscia já está destruída. Eritema bem delimitado com bordas elevadas descreve erisipela, infecção superficial que responde a antibiótico. Febre isolada é inespecífica. Prurido não caracteriza infecção necrosante. Linfonodomegalia inguinal aparece em diversas infecções regionais. Confiar apenas na aparência da pele é o erro que mais atrasa a sala nessa doença, em que cada hora de demora acrescenta mortalidade.
Paciente com quadro cutâneo em membro inferior apresenta dor desproporcional aos achados, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia local e toxemia com hipotensão. Qual a conduta?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia da pele e toxemia definem infecção necrosante, na qual o antibiótico isolado não alcança o tecido desvitalizado e a sobrevida depende do desbridamento imediato e repetido. Aguardar cultura engana quem quer terapia dirigida, mas o resultado leva dias e o paciente evolui em horas. Corticoide não tem papel e pode agravar a evolução.
Qual conduta deve ser EVITADA no manejo da síndrome de Fournier?
Esperar a cultura para iniciar o antibiótico desperdiça horas decisivas em uma infecção que progride por centímetros a cada hora; o esquema empírico é iniciado de imediato e depois ajustado pelo resultado. As demais condutas compõem o manejo correto: antibiótico empírico precoce, desbridamento até encontrar tecido viável e sangrante, reabordagens programadas em intervalos curtos e coleta de culturas de tecido profundo durante a cirurgia, que orientam o descalonamento. A sequência prática é operar, cobrir amplamente e ajustar depois, nunca o contrário.
Qual esquema antimicrobiano inicial é adequado na síndrome de Fournier, considerando a natureza polimicrobiana da infecção?
A infecção é tipicamente polimicrobiana, com aeróbios e anaeróbios agindo em sinergia, e por isso o esquema inicial cobre amplamente esses grupos; a clindamicina entra pelo efeito adicional de inibir a síntese proteica e reduzir a produção de toxinas, útil também quando há estreptococo do grupo A. Cefalexina oral não tem espectro nem via adequados. Fluconazol trata fungos, que não são os agentes habituais. Ciprofloxacino isolado deixa anaeróbios e gram-positivos descobertos. Penicilina cristalina isolada cobre bem estreptococo, mas é insuficiente diante de enterobactérias e anaeróbios do períneo.
Homem de 58 anos, diabético mal controlado, apresenta dor perineal intensa há 48 horas, febre de 39 graus, taquicardia e área de eritema escrotal com crepitação à palpação e pequena mancha necrótica. Qual a conduta imediata?
Dor desproporcional, crepitação e necrose cutânea em diabético caracterizam infecção necrosante perineal, e a única medida que altera mortalidade é o desbridamento cirúrgico imediato, acompanhado de antibiótico de amplo espectro e ressuscitação. Antibiótico isolado não alcança tecido desvitalizado e sem perfusão. A tomografia pode ajudar em casos duvidosos, mas em quadro clínico evidente ela apenas atrasa a sala, sendo a armadilha mais frequente. Punção drena coleção líquida e não remove tecido necrótico. Curativo e alta em infecção necrosante é conduta com desfecho previsivelmente fatal.
Sobre escores laboratoriais de risco para infecção necrosante de partes moles, qual afirmação é correta?
Escores construídos a partir de proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia ajudam a levantar a suspeita em apresentações atípicas, mas têm valor auxiliar: diante de quadro clínico sugestivo, a exploração cirúrgica não espera cálculo nenhum. Tratá-los como decisores isolados inverte a hierarquia da decisão. Escore baixo não exclui a doença, e essa falsa segurança já custou vidas. Exigir recálculo diário para autorizar desbridamento programado atrasa o controle do foco. E não há qualquer contraindicação de aplicá-los no diabético, que aliás é o paciente típico.
Após o primeiro desbridamento por síndrome de Fournier, qual é a conduta cirúrgica esperada nas 24 a 48 horas seguintes?
A necrose progride além dos limites visíveis no primeiro tempo, e por isso a regra é programar reabordagens a cada 24 a 48 horas até que o leito esteja limpo, com tecido viável e sangrante. Fechar primariamente aprisiona infecção em campo necrótico. Enxertar de imediato falha, porque o enxerto depende de leito granulado e bem vascularizado para pegar. Suspender antibiótico ao primeiro dia sem febre ignora a extensão da infecção e o tempo necessário de tratamento. Dar alta com curativo domiciliar em fase de desbridamentos seriados é conduta que perde a janela de controle do foco.
Em qual situação se indica colostomia derivativa no paciente com síndrome de Fournier?
A derivação fecal não é rotina, e sim decisão seletiva: indica-se quando o esfíncter está comprometido, quando há fístula ou quando a contaminação fecal repetida inviabiliza o cuidado da ferida e a futura reconstrução. Fazer colostomia em todos acrescenta morbidade e uma segunda operação de reconstrução do trânsito sem benefício demonstrado. Constipação não é critério. Derivar depois de a ferida já ter cicatrizado inverte a lógica, já que o objetivo é proteger o leito durante a cicatrização. E dizer que é contraindicada ignora seu papel consagrado em casos selecionados.
Homem de 54 anos, diabético, apresenta há 36 horas dor intensa e desproporcional em coxa direita, com eritema mal delimitado, bolhas hemorrágicas, área de anestesia cutânea e crepitação. Temperatura 39 °C, PA 88x50 mmHg, lactato 4,8 mmol/L. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional ao exame, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea e crepitação com toxemia definem infecção necrosante, e o tratamento que salva é o desbridamento cirúrgico precoce e amplo — cada hora de atraso aumenta a mortalidade. Antibiótico e ressuscitação são simultâneos, nunca substitutos. Esperar imagem é o erro mais comum e mais letal: tomografia e ressonância podem apoiar casos duvidosos, mas diante de quadro clínico sugestivo com instabilidade elas apenas atrasam a sala. Aguardar cultura é inadmissível num quadro que progride em horas.
Homem de 58 anos, diabético, com dor e edema em região perineal e escrotal, com necrose cutânea e odor fétido. Qual o diagnóstico e a etiologia mais provável?
Fasciíte necrosante da região perineal, genital e perianal é a gangrena de Fournier, tipicamente polimicrobiana — o chamado tipo I — com aeróbios e anaeróbios agindo em sinergia, e por isso o odor fétido e a formação de gás. Diabetes é o fator predisponente mais frequente. A conduta é a mesma: desbridamento amplo e precoce, antibiótico de amplo espectro cobrindo gram-negativos e anaeróbios, e frequentemente reabordagens seriadas. Tratar como erisipela é o erro que a apresentação inicial favorece, porque o eritema escrotal pode parecer superficial nas primeiras horas antes de a necrose se instalar.
Sobre o escore LRINEC na avaliação de suspeita de fasciíte necrosante, qual afirmativa está correta?
O LRINEC combina proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicose e serve para aumentar a suspeição, mas sua sensibilidade é insuficiente para excluir a doença: pacientes com escore baixo e quadro clínico sugestivo já foram operados com necrose extensa. Usar o escore para tranquilizar e adiar a exploração é o erro que a questão cobra, e é o mesmo erro que a imagem produz. Nenhum escore substitui a decisão cirúrgica: a exploração é diagnóstica e terapêutica, e o achado de fáscia acinzentada sem resistência ao dedo confirma o diagnóstico na sala.
Paciente com fasciíte necrosante em membro inferior foi desbridado há 24 horas e mantém febre, elevação de lactato e piora do exame local. Qual a conduta?
A infecção necrosante exige reabordagens programadas: a primeira cirurgia raramente remove todo o tecido inviável, e a persistência de sinais sistêmicos com piora local é indicação de retorno à sala em 12 a 24 horas, quantas vezes forem necessárias. Trocar antibiótico e esperar é o erro que a questão persegue, porque nenhum antimicrobiano penetra tecido necrótico desvascularizado. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante discutível e jamais substitui o desbridamento. Repetir imagem em paciente que já tem indicação clínica de reabordagem apenas atrasa, e ninguém desmama ventilação com foco infeccioso ativo.
Qual característica clínica melhor diferencia fasciíte necrosante de celulite não complicada?
O sinal que muda a conduta é a dor desproporcional ao que se vê na pele, associada à progressão em horas — a infecção corre pelo plano fascial, onde não há sinais visíveis, enquanto a pele demora a acompanhar. Eritema, calor, febre e leucocitose estão presentes nas duas condições e por isso não discriminam: apostar neles é o erro que mantém o paciente na enfermaria recebendo antibiótico enquanto a fáscia se necrosa. Linfangite é achado mais típico de infecção superficial. Anestesia cutânea, bolhas hemorrágicas, crepitação e toxemia desproporcional completam o quadro de alarme.
Mulher de 33 anos, previamente hígida, desenvolve fasciíte necrosante em membro superior após trauma mínimo, com hipotensão, exantema macular difuso e descamação palmar. Qual a síndrome associada?
Infecção necrosante por estreptococo do grupo A em paciente jovem após trauma trivial, com hipotensão precoce, exantema e descamação, caracteriza a síndrome do choque tóxico estreptocócico, mediada por superantígenos que ativam linfócitos T em massa. O tratamento associa desbridamento, penicilina com clindamicina e suporte, discutindo-se imunoglobulina endovenosa em casos graves. Stevens-Johnson acomete mucosas com descolamento epidérmico e tem gatilho medicamentoso. Púrpura fulminante meningocócica cursa com petéquias e púrpura extensa. Atribuir a reação alérgica é o desvio que retarda a cirurgia.
Qual antibiótico deve ser associado ao esquema de amplo espectro na fasciíte necrosante por estreptococo do grupo A, pela sua ação sobre a produção de toxinas?
A clindamicina inibe a síntese proteica bacteriana e, com isso, bloqueia a produção de exotoxinas superantigênicas responsáveis pela síndrome do choque tóxico estreptocócico, além de manter eficácia mesmo com alta densidade bacteriana, quando os betalactâmicos perdem potência pelo efeito Eagle. Escolher vancomicina é o reflexo natural de quem pensa apenas em cobertura de gram-positivo resistente: ela cobre o germe, mas não tem esse efeito antitoxina. Ceftriaxona e metronidazol compõem esquemas de amplo espectro em infecção polimicrobiana, e aminoglicosídeo não acrescenta ação antitoxina.
Paciente com fasciíte necrosante confirmada em membro inferior. Além do desbridamento cirúrgico amplo e precoce, qual a conduta antimicrobiana inicial?
O esquema empírico deve ser amplo, cobrindo os polimicrobianos do tipo I e os estreptococos e estafilococos do tipo II, e a clindamicina é acrescentada por inibir a síntese proteica bacteriana, reduzindo a produção de toxinas e superantígenos - efeito que independe do inóculo, ao contrário dos betalactâmicos, que perdem eficácia em alta carga bacteriana. Esperar cultura em doença que progride em horas é inaceitável. Antibiótico isolado, por melhor que seja, não substitui o desbridamento: o tecido necrótico é avascular e não recebe o fármaco.
Qual achado deve levantar a suspeita de infecção necrosante em paciente com quadro inicialmente interpretado como celulite de membro inferior?
Os sinais de alarme são dor desproporcional ao aspecto da pele, toxemia com instabilidade, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia cutânea por destruição de nervos e, sobretudo, progressão rápida apesar de antibiótico adequado - a infecção necrosante é diagnóstico CIRÚRGICO, e a exploração não deve ser adiada por exames de imagem. Escores laboratoriais auxiliam, mas não excluem. Bordas bem delimitadas com febre baixa e linfonodo reacional descrevem erisipela não complicada, e é justamente a confiança nesse quadro benigno que atrasa a sala cirúrgica em casos que evoluem mal.
Mulher de 35 anos com abscesso de Bartholin drenado ontem evolui com febre de 39°C, dor desproporcional ao exame, crepitação à palpação da vulva e áreas de necrose cutânea com bolhas. Diabética descompensada. Qual a suspeita e a conduta?
Dor desproporcional ao exame, crepitação, necrose cutânea e toxemia em paciente diabética descompensada configuram fasciite necrotizante, na região perineal também chamada de gangrena de Fournier — emergência cirúrgica em que a sobrevida depende de desbridamento amplo e precoce, associado a antibiótico de amplo espectro e suporte. Tratar como celulite simples é o erro que custa a vida, porque a progressão ao longo da fáscia é rápida e a aparência cutânea inicial subestima a extensão da necrose profunda. Nova drenagem localizada é insuficiente diante de doença que já ultrapassou os limites da glândula.
Homem de 47 anos, previamente hígido, chega com celulite extensa em membro inferior, dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação e PA 80/45 mmHg. Lactato de 6 mmol/L. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação e toxicidade sistêmica indicam infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento definitivo é o desbridamento cirúrgico precoce e amplo — cada hora de atraso aumenta a mortalidade. Aguardar imagem ou resposta ao antibiótico é o erro mais letal desse cenário; a oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante e nunca substitui a cirurgia.
Mulher de 34 anos, no 5º dia de pós-operatório de cesariana, com febre de 39 °C, dor intensa em ferida operatória, secreção acinzentada de odor fétido e eritema que ultrapassa as bordas. PA 88x52 mmHg, FC 124 bpm, leucócitos 22.000/mm³ com desvio. Qual a conduta?
Dor desproporcional, secreção acinzentada fétida, eritema progressivo e instabilidade hemodinâmica no pós-operatório apontam infecção profunda de sítio cirúrgico com possibilidade de componente necrosante — a conduta é abrir, explorar e desbridar, associando antibiótico de amplo espectro. Manter a ferida fechada e confiar apenas no antibiótico é o erro que permite a progressão pelo plano fascial, onde a droga não alcança tecido desvitalizado. A imagem só tem lugar quando o quadro é duvidoso e a paciente está estável, o que não é o caso.
Homem de 58 anos, diabético, com dor desproporcional em coxa, edema tenso, bolhas violáceas e crepitação, febre e PA 82x50 mmHg. Lactato 5,8 mmol/L. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional ao exame, bolhas violáceas, crepitação e instabilidade hemodinâmica configuram infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento definitivo é cirúrgico e cujo atraso aumenta a mortalidade a cada hora — o antibiótico de amplo espectro acompanha, mas não substitui, o desbridamento. Pedir tomografia é a armadilha mais frequente: exame de imagem em paciente instável com quadro clínico já sugestivo apenas retarda a sala; a imagem serve para os casos em que a dúvida diagnóstica é real e o paciente está estável.
Puerpera de 34 anos, obesa e diabetica, no 4o dia pos-cesariana, com dor desproporcional ao exame, ferida com bolhas violaceas, crepitacao e area de anestesia cutanea. PA 88x54 mmHg, FC 128 bpm, lactato 4,2 mmol/L. Qual a conduta?
Dor desproporcional, crepitacao, bolhas e anestesia cutanea com instabilidade hemodinamica configuram fasciite necrotizante: o tratamento e desbridamento cirurgico imediato, junto com ressuscitacao e antibiotico de amplo espectro. Esperar imagem e o erro que mais custa vida - a tomografia atrasa e o diagnostico e clinico-cirurgico; imagem so se cogita quando o quadro e duvidoso e nao ha instabilidade. Camara hiperbarica e adjuvante, jamais tratamento inicial isolado.
Puerpera de 35 anos, 12 horas apos parto vaginal, apresenta febre de 39,5 C, hipotensao, eritrodermia difusa e dor intensa em perineo desproporcional ao exame, com edema progressivo. Qual a hipotese e a conduta?
Febre altissima nas primeiras horas, choque, eritrodermia e dor perineal desproporcional apontam infeccao invasiva por estreptococo do grupo A, quadro fulminante em que se soma clindamicina (inibe a producao de toxina) ao amplo espectro e se explora cirurgicamente sem demora. Tratar como endometrite comum e reavaliar em 48 horas e o erro fatal - o tempo aqui e de horas. Febre reacional nao cursa com hipotensao e eritrodermia.
No segundo dia de pós-operatório de histerectomia abdominal, paciente diabética apresenta dor intensa e desproporcional na ferida, febre de 39,5 °C, taquicardia, secreção acinzentada com odor fétido e crepitação à palpação da parede abdominal. Qual a conduta?
Dor desproporcional, secreção acinzentada e crepitação em paciente diabética séptica configuram infecção necrosante de partes moles, condição em que a sobrevida depende de quantas horas se leva até o bisturi; antibiótico e suporte são adjuvantes indispensáveis, mas não substituem a remoção do tecido desvitalizado. Esperar cultura ou reavaliar em 24 horas é o comportamento que transforma infecção de parede em choque séptico. Curativos e pressão negativa só fazem sentido depois do controle cirúrgico do foco.
Homem de 55 anos, etilista, com quadro de 24 horas de dor intensa em região perineal, febre e edema escrotal com área de crepitação, em investigação de infecção necrosante. Qual conduta está CONTRAINDICADA neste cenário?
Na gangrena de Fournier e demais infecções necrosantes, a ressuscitação acontece no caminho da sala — condicionar a cirurgia à estabilização completa é o erro que mata, porque o foco necrótico é a causa do choque e não vai reverter com volume e droga vasoativa. Amplo espectro precoce, clindamicina como antitoxina, desbridamento com reabordagens programadas e hemocultura sem atrasar a dose são todos condutas corretas. A tentação de esperar engana porque copia a lógica de cirurgia eletiva, em que otimizar antes de operar é a regra.
Homem de 68 anos, em quimioterapia, com placa eritematosa em membro inferior evoluindo há 12 horas para área central violácea e anestésica, com bolhas hemorrágicas. Não há crepitação. Está afebril, PA 100/60 mmHg. Qual achado é o mais valioso, à beira do leito, para suspeitar de infecção necrosante mesmo sem crepitação?
A perda de sensibilidade sobre a placa traduz necrose dos filetes nervosos superficiais e é um dos sinais mais específicos de infecção necrosante — vale ainda mais quando falta crepitação, que só aparece em parte dos casos e depende do agente produtor de gás. Linfangite é achado de erisipela comum e engana quem procura um sinal chamativo. Ausência de febre não afasta nada, sobretudo no imunossuprimido, e leucocitose isolada é inespecífica; dor que responde a analgésico simples aponta contra, já que a dor da necrosante costuma ser desproporcional e refratária.
Homem de 62 anos, diabético, com lesão em coxa iniciada há 36 horas. Ao exame: eritema mal delimitado com áreas acinzentadas, bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação e dor desproporcional ao aspecto da pele. PA 88/54 mmHg, FC 128 bpm, lactato 4,2 mmol/L. Qual a conduta que mais reduz mortalidade neste momento?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação e instabilidade hemodinâmica compõem infecção necrosante de partes moles: o desbridamento cirúrgico precoce é a intervenção que mais muda mortalidade, e antibiótico e ressuscitação correm junto, não antes. A tomografia engana o raciocínio de quem quer confirmar o que já está clinicamente evidente — em paciente instável com quadro típico, o exame de imagem só adia a sala. Antibiótico isolado falha porque o tecido necrótico é avascular e a droga não chega; oxigenoterapia hiperbárica é, na melhor das hipóteses, adjuvante, jamais tratamento inicial.
Ao avaliar um paciente com suspeita de infecção necrosante, qual afirmativa sobre o escore LRINEC está correta?
O LRINEC combina proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicose para estratificar risco, mas tem sensibilidade insuficiente para excluir a doença — em paciente com dor desproporcional, bolhas hemorrágicas ou instabilidade, escore baixo não muda a conduta e a exploração cirúrgica segue indicada. A leitura de que abaixo de 6 se pode liberar o paciente engana justamente por dar ao escore um poder de exclusão que ele não tem, e essa confiança já custou vidas. O escore também não substitui a cirurgia no extremo oposto nem tem qualquer papel na decisão de amputação.
Paciente internado por celulite de membro inferior evolui, após 48 horas de antibiótico adequado, com aumento da dor, extensão do eritema e surgimento de áreas de anestesia cutânea sobre a lesão. Qual a interpretação desse último achado?
A perda de sensibilidade sobre uma área previamente muito dolorosa é sinal de alarme: reflete a destruição das terminações nervosas cutâneas pela necrose tecidual, e não melhora. Somada à falta de resposta ao antibiótico adequado em 48 horas, à progressão do eritema e à dor desproporcional, aponta infecção necrosante e indica exploração cirúrgica. Interpretar a anestesia como alívio é o erro que atrasa a cirurgia em uma condição em que cada hora conta. Outros sinais que devem ser buscados são bolhas hemorrágicas, crepitação, áreas violáceas e toxemia sistêmica.
Paciente de 62 anos, diabético, apresenta dor desproporcional aos achados cutâneos em coxa, com eritema mal delimitado, áreas violáceas com bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação, hipotensão e taquicardia. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, áreas violáceas, crepitação e toxemia caracterizam infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento definitivo é cirúrgico: a sobrevida depende do tempo até o desbridamento amplo, feito em paralelo à antibioticoterapia de amplo espectro e à reanimação. Antibiótico isolado não alcança o tecido desvitalizado e trombosado. Buscar imagem antes de operar é o erro que custa horas decisivas — a suspeita clínica já indica a exploração, e o exame de imagem se reserva a casos duvidosos e estáveis. Corticoide não tem papel e mascara a progressão.
Sobre o escore LRINEC, usado na suspeita de fascite necrosante, qual afirmativa está correta?
O LRINEC combina proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia, e serve para elevar a suspeita — mas sua sensibilidade é insuficiente para descartar a doença, e séries mostram pacientes com escore baixo e necrose extensa em sala. Usá-lo como critério de exclusão é o erro mais perigoso relacionado a esse escore. A confirmação vem da exploração cirúrgica, que revela fáscia acinzentada, ausência de sangramento e dissecção romba fácil dos planos.
Qual das apresentações abaixo mais sugere fascite necrosante em vez de celulite não complicada?
Os sinais que separam a necrose da celulite são dor desproporcional, anestesia cutânea por destruição de filetes nervosos, evolução em horas, bolhas hemorrágicas, crepitação e toxemia. Eritema quente e bem delimitado com bordas elevadas descreve a erisipela, e linfangite com adenomegalia é infecção de partes moles não necrosante — ambos enganam justamente porque também produzem eritema e febre, mas a velocidade e a desproporção entre dor e pele são a assinatura da necrose. Vesículas em dermátomo apontam para herpes-zóster.
Qual condição de base está mais fortemente associada à fascite necrosante de membro e piora seu prognóstico?
Diabetes é o fator de risco mais frequente, e a combinação com doença arterial periférica agrava tudo: microangiopatia, neuropatia que retarda a percepção da lesão e comprometimento da chegada de oxigênio e de antibiótico ao tecido. Imunossupressão, etilismo, obesidade, uso de drogas injetáveis e idade avançada completam a lista. As demais condições não guardam relação com a incidência ou a gravidade dessa infecção.
Qual esquema antimicrobiano empírico é o mais adequado na fascite necrosante de membro em adulto grave, antes do resultado das culturas?
O esquema empírico precisa cobrir flora polimicrobiana, incluindo anaeróbios e Gram-negativos, somar cobertura para Staphylococcus aureus resistente à meticilina e incluir clindamicina pelo efeito antitoxina, que reduz a produção de exotoxinas por estreptococo e clostrídio. Penicilina isolada só se justificaria depois de identificado estreptococo do grupo A, e mesmo assim mantendo a clindamicina — iniciar com ela às cegas é o engano que deixa descoberta a metade polimicrobiana dos casos. Esquemas orais ou monoterapias estreitas são inadequados em choque.
Homem de 54 anos, diabético, com dor intensa e progressiva na perna direita há 24 horas após ferimento mínimo. Exame: temperatura 38,9 °C, PA 88/54 mmHg, FC 126 bpm, eritema mal delimitado com bolhas violáceas, crepitação à palpação e dor desproporcional ao aspecto da pele. Qual a conduta imediata?
Dor desproporcional, bolhas violáceas, crepitação e instabilidade hemodinâmica configuram infecção necrosante: o tratamento é cirúrgico e imediato, com desbridamento amplo, associado a ressuscitação e antibiótico de amplo espectro que cubra Gram-positivos, Gram-negativos e anaeróbios. Antibiótico isolado não alcança tecido desvitalizado e sem perfusão — é a conduta que mais custa vidas nessa doença. Imagem só se justifica quando não atrasa a sala, e esperar cultura ou usar corticoide são atrasos inaceitáveis num quadro em que cada hora aumenta a mortalidade.
Homem de 60 anos submetido a desbridamento por fascite necrosante de coxa há 18 horas. Persiste com febre, taquicardia, necessidade crescente de noradrenalina e progressão do eritema além das margens do desbridamento. Qual a conduta?
A infecção necrosante exige reabordagens programadas a cada 12 a 24 horas até que não haja mais tecido desvitalizado — progressão do eritema com piora hemodinâmica significa que ainda há tecido necrótico alimentando a toxemia, e a resposta é a sala, não a prescrição. Trocar antibiótico ou acrescentar imunoglobulina sem remover o foco é tratar o efeito. Oxigenoterapia hiperbárica pode ser adjuvante em contextos selecionados, mas nunca substitui o desbridamento, e transportar um paciente em choque para a câmara pode custar a janela cirúrgica.
Homem de 35 anos, previamente hígido, com dor e edema em coxa há 12 horas após trauma fechado durante jogo de futebol, sem ferimento cutâneo. Apresenta febre alta, taquicardia, hipotensão e eritema difuso com rápida progressão. Suspeita-se de infecção necrosante por estreptococo do grupo A. Além do desbridamento e do antibiótico, qual adjuvante pode ser considerado?
Na síndrome do choque tóxico estreptocócico, a imunoglobulina venosa é adjuvante considerado pela hipótese de neutralizar superantígenos, sempre somada ao desbridamento e à clindamicina, e nunca no lugar deles. Anti-inflamatório não esteroidal é particularmente indesejável nesse cenário: mascara sinais inflamatórios e há preocupação de que atrase o diagnóstico em infecção necrosante — é o distrator que engana quem raciocina apenas pela analgesia. Corticoide, heparina plena e plasma de rotina não têm indicação estabelecida.
Paciente com fascite necrosante em membro inferior, após três desbridamentos, apresenta perna com necrose muscular extensa, ausência de função e sepse persistente. Qual a conduta?
Quando a necrose compromete o compartimento muscular de forma extensa e a sepse não cede apesar de desbridamentos repetidos, a amputação é o controle de foco que salva a vida — postergá-la por apego ao membro é decisão que custa a sobrevida. Curativo a vácuo é ferramenta da fase de cobertura, depois que o tecido está viável, e enxerto sobre tecido necrótico não pega. Antibiótico e hiperbárica não substituem a retirada do tecido morto.
Recém-nascido com onfalite evolui, em poucas horas, com área de coloração violácea na parede abdominal, crepitação, dor intensa desproporcional e instabilidade hemodinâmica. Qual a hipótese e a conduta?
Progressão rápida, coloração violácea, crepitação, dor desproporcional e instabilidade caracterizam infecção necrosante de partes moles, complicação temida da onfalite, cujo tratamento depende de desbridamento cirúrgico precoce e amplo, associado a antimicrobianos e suporte intensivo, pois nenhum antibiótico esteriliza tecido desvitalizado. Manter apenas a antibioticoterapia é o erro que sela o desfecho, e as demais hipóteses não explicam a instabilidade hemodinâmica nem a crepitação subcutânea.
Homem de 58 anos, diabético, chega ao pronto-socorro com dor intensa e desproporcional em membro inferior, edema, eritema mal delimitado com áreas violáceas e bolhas, além de crepitação à palpação. Está febril, taquicárdico e hipotenso. Qual é a conduta adequada?
Dor desproporcional, bolhas, necrose cutânea e crepitação com sepse indicam infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento é a exploração e o desbridamento cirúrgico imediato, associado a suporte e antimicrobiano de amplo espectro. Antibiótico oral ambulatorial é inadequado diante de sepse e necrose. Medidas conservadoras permitem progressão rápida da necrose. Aguardar cultura atrasa a intervenção que determina a sobrevida.
Criança de 4 anos apresenta febre e lesões cutâneas dolorosas em membro inferior com progressão rápida, dor desproporcional ao exame, área de coloração acinzentada e crepitação à palpação. Está toxemiada, taquicárdica e hipotensa. Havia varicela em fase de crostas. Qual é a conduta imediata?
Dor desproporcional, alteração de coloração, crepitação e toxemia após varicela sugerem fascite necrosante, emergência que exige ressuscitação, antibiótico de amplo espectro e desbridamento cirúrgico urgente, pois o retardo aumenta a mortalidade. O tratamento oral ambulatorial é incompatível com a gravidade. O corticoide não trata a infecção necrosante. Compressas e observação retardam a única intervenção que altera o desfecho.
Homem de 58 anos, diabético descompensado, chega à Unidade de Pronto Atendimento com dor perineal intensa há dois dias, febre e mal-estar. Ao exame, temperatura axilar de 39,2 °C, frequência cardíaca de 128 bpm, pressão arterial de 92 x 58 mmHg e frequência respiratória de 26 irpm. Observa-se eritema e edema em bolsa escrotal e períneo, com áreas de coloração acinzentada, bolhas e crepitação à palpação; a dor é desproporcional aos achados cutâneos. Glicemia capilar de 386 mg/dL e leucócitos de 24.000/mm³. A conduta prioritária é:
Crepitação, bolhas, necrose cutânea e dor desproporcional em períneo de diabético descompensado, com instabilidade hemodinâmica, configuram gangrena de Fournier, forma de fasciíte necrosante em que a sobrevida depende do desbridamento cirúrgico precoce e amplo, associado a antibiótico de amplo espectro, ressuscitação e controle glicêmico. Antibiótico isolado não alcança tecido necrótico desvascularizado e adiar 48 horas eleva drasticamente a mortalidade. Curativos e drenagem de bolhas não removem a fáscia necrosada. Oxigenoterapia hiperbárica é, quando muito, adjuvante, jamais substituta do desbridamento imediato.
Homem de 61 anos, diabético, é atendido no pronto-socorro com dor intensa e edema em perna esquerda há 24 horas, com febre de 39 °C e prostração. Ao exame, há eritema mal delimitado com áreas violáceas, bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação e dor desproporcional aos achados cutâneos. A pressão arterial é de 88x52 mmHg, a frequência cardíaca é de 128 bpm e a glicemia capilar é de 420 mg/dL. Os leucócitos estão em 26.000/mm³ com desvio e o lactato é de 5,1 mmol/L. A conduta correta é
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação, áreas violáceas e choque em diabético descompensado caracterizam infecção necrosante de partes moles, cuja sobrevida depende de ressuscitação, antibiótico de amplo espectro e desbridamento cirúrgico imediato. Antibiótico isolado não remove o tecido necrótico e a doença progride em horas. Aguardar exame de imagem retarda a única intervenção que altera a mortalidade. Tratar como erisipela subestima gravemente o quadro e ignora os sinais de necrose e de choque.
Homem de 61 anos, diabético descompensado e obeso, chega à Unidade de Pronto Atendimento com dor perineal e escrotal intensa há dois dias, com febre e mal-estar. Ao exame: toxemiado, temperatura axilar 38,9 °C, frequência cardíaca 126 bpm, pressão arterial 92x54 mmHg, com edema, eritema e áreas de coloração violácea no escroto e no períneo, crepitação à palpação e dor desproporcional aos achados cutâneos, além de odor fétido. Exames: leucocitose intensa, glicemia 386 mg/dL e lactato elevado. Qual é a conduta prioritária?
Dor desproporcional, crepitação, necrose cutânea e sepse em diabético descompensado caracterizam gangrena de Fournier, fasciíte necrosante perineal cuja sobrevida depende do desbridamento cirúrgico amplo e imediato, associado a ressuscitação e antibiótico de amplo espectro com cobertura polimicrobiana. Antibiótico isolado não penetra em tecido necrótico e desvitalizado, e adiar a cirurgia aumenta a mortalidade a cada hora. Curativos e antibiótico oral são absolutamente insuficientes diante de infecção necrosante com sepse. Corticoide não trata a infecção e pode agravar o quadro.
Homem de 45 anos é internado com febre, dor intensa e edema em membro inferior direito iniciados há 36 horas, após pequeno ferimento no pé. Ao exame: toxemiado, temperatura axilar 39,1 °C, frequência cardíaca 132 bpm, pressão arterial 88x50 mmHg, com dor desproporcional aos achados cutâneos, áreas de coloração acinzentada e bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea local e crepitação à palpação. Exames: leucocitose intensa, lactato elevado, creatinina 2,2 mg/dL e creatinofosfoquinase muito elevada. Qual é a conduta prioritária?
Dor desproporcional, anestesia cutânea, bolhas hemorrágicas, crepitação e sepse indicam fasciíte necrosante, cuja sobrevida depende do desbridamento cirúrgico imediato e amplo, associado a ressuscitação volêmica e antibiótico de amplo espectro com cobertura polimicrobiana. Antibiótico isolado não atinge tecido desvitalizado e o retardo cirúrgico aumenta drasticamente a mortalidade. Elevação do membro e antibiótico oral são conduta de infecção superficial não complicada. Corticoide não trata a infecção necrosante e pode piorar o quadro.
Homem de 58 anos, diabético e obeso, chega ao pronto-socorro com dor perineal intensa há 3 dias, febre e mal-estar progressivo. Ao exame apresenta PA 88x52 mmHg, FC 132 bpm, temperatura axilar 39 °C, prostração, e a região perineal e escrotal mostra edema importante, áreas de necrose cutânea com bolhas, secreção fétida e crepitação à palpação, com dor desproporcional aos achados cutâneos em áreas adjacentes ainda íntegras. A conduta imediata mais adequada é:
A gangrena de Fournier é infecção necrosante de partes moles do períneo com alta mortalidade, cujo tratamento exige ressuscitação volêmica, antibioticoterapia de amplo espectro e, sobretudo, desbridamento cirúrgico amplo e imediato, repetido conforme necessário. Antibiótico isolado com reavaliação tardia não interrompe a progressão da necrose fascial. Curativos e observação são condutas inaceitáveis diante de sepse e necrose. Oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante em serviços selecionados, jamais substituindo o desbridamento precoce.
Homem de 51 anos é internado com dor intensa em coxa direita 36 horas após ferimento profundo com material contaminado em ambiente rural. Ao exame: toxemiado, com taquicardia de 132 bpm, pressão arterial 88x52 mmHg, pele da coxa com áreas bronzeadas e bolhas, crepitação à palpação, dor desproporcional e secreção serossanguinolenta com odor adocicado, sem pus franco. A radiografia mostra gás nos planos musculares e os exames revelam acidose metabólica e insuficiência renal. Qual é a hipótese diagnóstica e a conduta?
Dor desproporcional, crepitação, bolhas, coloração bronzeada, secreção com odor característico e gás nos planos musculares após ferimento contaminado caracterizam gangrena gasosa por clostrídios, emergência que exige desbridamento cirúrgico imediato e amplo, antibiótico dirigido e suporte intensivo, com mortalidade elevada quando há atraso. Celulite simples não produz gás e necrose muscular. A trombose venosa profunda não cursa com crepitação e gás. Drenagem percutânea isolada é insuficiente diante de mionecrose extensa.
Puérpera de 26 anos, no terceiro dia após parto vaginal, apresenta febre de 38,4 °C e dor perineal intensa, desproporcional ao exame, com edema e eritema que se estendem além da região da episiotomia. Ao exame, há área de coloração violácea com bolhas, crepitação à palpação e secreção acinzentada com odor fétido, além de anestesia local. Ela está prostrada, com frequência cardíaca de 124 bpm, pressão arterial de 92x54 mmHg e leucócitos de 23.000/mm³. A conduta correta é
Dor desproporcional, crepitação, bolhas, anestesia local e toxemia caracterizam fasciíte necrosante perineal, emergência cirúrgica cuja sobrevida depende do desbridamento precoce e amplo, associado a antibioticoterapia de amplo espectro e suporte intensivo. Antibiótico isolado não remove o tecido necrótico e a doença progride em horas. Drenagem superficial é insuficiente. Aguardar exames de imagem retarda a única intervenção que altera a mortalidade.
Menina de 4 anos, no quinto dia de varicela, é levada ao pronto-socorro com febre alta que havia cedido e retornou, além de dor intensa e vermelhidão em uma das lesões da coxa esquerda. Ao exame: toxemiada, febril, com área de eritema extenso, edema endurecido e dor desproporcional na coxa esquerda, com pele de coloração acinzentada em uma região e bolhas hemorrágicas, além de taquicardia e tempo de enchimento capilar de 4 segundos. Qual é a hipótese diagnóstica e a conduta?
Reaparecimento de febre alta com dor desproporcional, eritema extenso, coloração acinzentada da pele, bolhas hemorrágicas e sinais de má perfusão durante a varicela caracteriza infecção necrosante de partes moles, complicação grave que exige desbridamento cirúrgico imediato, antibiótico de amplo espectro e suporte intensivo. Tratar como celulite simples com antibiótico oral é conduta potencialmente fatal. Anti-histamínico não tem qualquer papel. Considerar evolução esperada ignora sinais claros de complicação bacteriana invasiva.
Homem de 44 anos é atendido no pronto-socorro com dor perianal intensa, febre alta e prostração há dois dias, com piora rápida. Ele tem diabetes mal controlado. Ao exame: temperatura 39,2 °C, PA 92x56 mmHg, FC 126 bpm, região perineal e escrotal com eritema, crepitação à palpação, áreas de necrose cutânea e dor desproporcional ao exame, odor fétido. Exames: leucócitos 24.000/mm3, glicemia 380 mg/dL, lactato 4,2 mmol/L, creatinina 2,0 mg/dL. A conduta imediata correta é:
Dor desproporcional, crepitação, necrose cutânea, odor fétido e toxemia em diabético descompensado caracterizam fasciite necrosante perineal, emergência cirúrgica em que a sobrevida depende de reanimação, antibioticoterapia de amplo espectro e desbridamento cirúrgico amplo e imediato, frequentemente com reabordagens. Antibiótico isolado com observação aumenta drasticamente a mortalidade. Drenagem simples é insuficiente. Curativos e controle glicêmico isolados não removem o tecido necrótico.
Menino de 7 anos é levado ao pronto-socorro com febre alta, dor intensa e edema em face medial da coxa direita há dois dias, com piora rápida e dor desproporcional aos achados iniciais. Ao exame: toxemiado, com temperatura axilar 39,4 °C, taquicárdico, com área de eritema violáceo mal delimitado, bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação, anestesia cutânea sobre a lesão e tempo de enchimento capilar de 4 segundos, com deterioração clínica observada durante o atendimento. Qual é a conduta imediata?
Dor desproporcional, anestesia cutânea, bolhas hemorrágicas, crepitação e toxemia caracterizam infecção necrosante de partes moles, emergência cirúrgica em que a sobrevida depende do desbridamento precoce associado a antibiótico de amplo espectro e suporte hemodinâmico. Antibiótico oral com observação é conduta fatal nesse cenário. Aguardar exame de imagem retarda o tratamento definitivo. Analgesia e elevação do membro não interrompem a progressão da necrose.
Um homem de 59 anos, diabético descompensado, apresenta dor desproporcional ao exame na parede abdominal inferior, iniciada dois dias após drenagem de abscesso perianal. Está febril, com frequência cardíaca de 128 bpm, pressão arterial de 88x52 mmHg e leucocitose de 24.000. À inspeção há eritema mal delimitado, bolhas de conteúdo acinzentado, crepitação e área de anestesia cutânea. A glicemia é de 420 mg/dL, o lactato é de 4,5 mmol/L, a creatinina está em 2,1 mg/dL e há cetonúria, com débito urinário reduzido nas últimas horas. Qual é a conduta imediata mais adequada?
Dor desproporcional, bolhas, crepitação, anestesia cutânea e instabilidade hemodinâmica caracterizam infecção necrosante de partes moles, cujo tratamento é a ressuscitação, antibioticoterapia de amplo espectro e, sobretudo, o desbridamento cirúrgico amplo e imediato, principal determinante de sobrevida. Antibiótico isolado sem controle do foco leva a progressão rápida e óbito. Aguardar tomografia em paciente instável atrasa a cirurgia que salva a vida. Colagenase e câmara hiperbárica são adjuvantes e jamais substituem o desbridamento.
Um homem de 58 anos, diabético descompensado, chega ao pronto-socorro com dor perineal intensa há dois dias, febre e mal-estar. Ao exame, há edema, eritema e áreas de necrose cutânea na bolsa escrotal e no períneo, com crepitação à palpação e odor fétido. A pressão arterial é de 88x50 mmHg, a frequência cardíaca é de 126 bpm, a glicemia é de 480 mg/dL e o lactato está em 4,2 mmol/L. Qual é a conduta imediata?
A gangrena de Fournier é infecção necrosante do períneo com alta letalidade, e o desbridamento cirúrgico amplo e imediato, associado a ressuscitação, antibioticoterapia de amplo espectro e controle metabólico, é o principal determinante de sobrevida. Antibiótico isolado sem controle do foco permite progressão rápida da necrose ao longo das fáscias. Curativos e desbridamento químico são inadequados diante de necrose extensa e sepse. Câmara hiperbárica é adjuvante e nunca substitui nem precede o desbridamento cirúrgico.
Homem, 44 anos, apresenta há 2 dias dor perineal intensa, febre alta e prostração, com antecedente de diabetes mal controlado. PA 92/54 mmHg, FC 130 bpm, FR 28 ipm, T 39,0 °C. Bolsa escrotal e períneo com edema, crepitação, áreas de necrose cutânea e secreção fétida. Leucócitos 26.000/mm³ (VR 4.000–11.000); creatinina 2,2 mg/dL (VR 0,7–1,3); glicemia 380 mg/dL (VR 70–99); lactato 4,8 mmol/L (VR < 2,0). Qual a conduta prioritária?
A gangrena de Fournier é uma fasciite necrosante do períneo, e a prioridade absoluta é o desbridamento cirúrgico amplo e imediato de todo tecido desvitalizado, associado a antibiótico de amplo espectro e suporte intensivo, pois o atraso cirúrgico é o principal determinante de mortalidade. A antibioticoterapia isolada não alcança o tecido necrótico avascular e permite progressão em horas. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante discutível e jamais deve preceder ou retardar o desbridamento. Desbridamento químico com colagenase é medida de feridas crônicas, incompatível com infecção fulminante. A colostomia derivativa pode ser necessária para controle de contaminação fecal em alguns casos, mas isoladamente não remove o foco necrótico.
Homem, 57 anos, diabético descompensado, apresenta há 36 horas dor intensa e progressiva na coxa esquerda, desproporcional aos achados iniciais, com evolução para eritema violáceo, bolhas hemorrágicas e áreas de anestesia cutânea. T 39,2 °C, PA 88 x 52 mmHg, FC 128 bpm. Exame: crepitação à palpação e edema tenso. Leucócitos 24.000/mm³ (VR 4.000–11.000), creatinina 2,4 mg/dL (VR 0,7–1,3), lactato 4,8 mmol/L (VR até 2,0). Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, crepitação, sepse e lactato elevado configuram fasciíte necrosante, cuja prioridade absoluta é a exploração cirúrgica com desbridamento amplo imediato, associada a antibiótico de amplo espectro e suporte hemodinâmico — o atraso cirúrgico é o principal determinante de mortalidade. Aguardar exames de imagem retarda o tratamento definitivo em paciente já com diagnóstico clínico e instabilidade. Antibiótico isolado não remove o tecido necrótico e não interrompe a progressão. Punção com alta é inaceitável em quadro séptico. O corticoide não trata a infecção e agrava a imunossupressão.
Homem, 41 anos, é submetido a herniorrafia inguinal com tela e, no terceiro dia de pós-operatório, apresenta dor local intensa, febre e edema com hiperemia que se estende para a bolsa escrotal. T 38,9 °C, FC 118 bpm, PA 106/64 mmHg. Ao exame, há crepitação subcutânea, áreas de bolhas com conteúdo acinzentado e dor desproporcional ao aspecto da pele. Leucócitos 24.000/mm³ (VR 4.000–11.000); creatinina 1,9 mg/dL (VR 0,7–1,3). Qual a conduta indicada?
Dor desproporcional, crepitação, bolhas acinzentadas, toxemia e lesão renal aguda caracterizam infecção necrosante de partes moles, cuja conduta é exploração cirúrgica imediata com desbridamento amplo e antibiótico de amplo espectro, pois o atraso cirúrgico é o principal determinante de mortalidade. Antibiótico isolado com reavaliação em 24 horas não alcança o tecido necrótico avascular e permite progressão em horas. Aspirar a bolha e aplicar antisséptico é intervenção superficial e insuficiente. Aguardar ressonância retarda a única medida que altera o desfecho. Retirar apenas a tela, sem desbridar o tecido desvitalizado, deixa o foco necrótico ativo.
Menina, 4 anos, chega ao pronto-socorro com febre há 2 dias e dor intensa em membro inferior esquerdo, com recusa a deambular. Nas últimas 12 horas, surgiu área de eritema com edema endurado e bolhas violáceas na coxa, com dor desproporcional ao aspecto da pele. T 39,4 °C, FC 158 bpm, PA 84/48 mmHg, enchimento capilar de 4 segundos. Leucócitos 26.000/mm³ (VR 5.000–15.000); creatinina 1,4 mg/dL (VR 0,3–0,7); lactato 4,4 mmol/L. Teve varicela há 6 dias. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, bolhas violáceas, edema endurado e instabilidade hemodinâmica após varicela caracterizam fasciite necrosante, geralmente por estreptococo do grupo A, cuja prioridade é a exploração cirúrgica com desbridamento amplo associada a antibiótico venoso e suporte hemodinâmico. Antibiótico oral ambulatorial é conduta incompatível com choque e necrose tecidual. A imobilização gessada mascara a progressão e retarda o diagnóstico. Corticoide isolado não remove o tecido necrótico e não trata a infecção. Aspirar bolhas com curativo tópico é intervenção superficial que ignora a necrose profunda, principal determinante da mortalidade nessa condição.
Mulher, 34 anos, diabética, no 5º dia após cesariana, apresenta dor desproporcional ao exame na ferida operatória, com eritema de bordas mal delimitadas que progrediu rapidamente em 12 horas, áreas acinzentadas com bolhas e crepitação à palpação. T 39,2 °C, PA 84/48 mmHg, FC 134 bpm, confusão leve. Leucócitos 26.000/mm³ (VR 4.000–11.000), creatinina 2,1 mg/dL, sódio 128 mEq/L, lactato 4,8 mmol/L. Qual a conduta correta?
Ressuscitação hemodinâmica, antibioticoterapia de amplo espectro cobrindo gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios, e desbridamento cirúrgico amplo e imediato, com reoperações programadas, é a conduta correta na fasciíte necrosante, cujo diagnóstico é clínico e cujo prognóstico depende diretamente do tempo até a cirurgia, sendo dor desproporcional, progressão rápida, bolhas, crepitação e disfunção orgânica os sinais de alerta. Antibiótico oral ambulatorial com curativos é inaceitável em paciente séptica. Corticoterapia não trata infecção necrosante e agrava a imunossupressão. Aguardar tomografia com contraste retarda o único tratamento efetivo e ainda arrisca a função renal já comprometida. Abertura parcial com drenagem simples é insuficiente, pois a necrose se estende muito além dos limites visíveis na pele.
Mulher, 48 anos, internada na UTI, apresenta hipotensão e febre com suspeita de infecção de sítio cirúrgico profundo após laparotomia. Exame: PA 86/50 mmHg, FC 124 bpm, ferida operatória com secreção purulenta abundante e crepitação em subcutâneo, dor desproporcional e áreas de necrose cutânea de progressão rápida nas últimas horas. Lactato 4,8 mmol/L; leucócitos 26.000/mm³; creatinina 2,0 mg/dL; plaquetas 92.000/mm³. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, crepitação, necrose de progressão rápida e sepse caracterizam infecção necrosante de partes moles, cuja sobrevida depende do desbridamento cirúrgico amplo e imediato, associado a antibioticoterapia de amplo espectro e suporte hemodinâmico. Antibiótico isolado com reavaliação em 48 horas permite progressão da necrose e aumenta a mortalidade. Curativos locais com observação são absolutamente insuficientes. Oxigenoterapia hiperbárica é, quando muito, adjuvante, jamais tratamento definitivo isolado. Aguardar culturas antes da cirurgia retarda a única intervenção que controla o foco.
Homem, 58 anos, diabético descompensado, é atendido no pronto-socorro com dor perineal intensa e febre há 3 dias. Exame: T 39,2 °C, PA 88/52 mmHg, FC 128 bpm, escroto e períneo com edema, eritema, áreas de necrose cutânea e crepitação à palpação, com odor fétido. Leucócitos 26.000/mm³; lactato 4,4 mmol/L; glicemia 380 mg/dL; creatinina 2,2 mg/dL. Tomografia mostra gás em partes moles do períneo e da parede escrotal. Qual a conduta correta?
Gangrena de Fournier é infecção necrosante do períneo com alta mortalidade, e o tratamento exige ressuscitação, antibioticoterapia de amplo espectro e, sobretudo, desbridamento cirúrgico amplo e imediato de todo o tecido desvitalizado, com reabordagens programadas. Antibiótico isolado com reavaliação tardia permite progressão rápida da necrose. Drenagem por incisão pequena é insuficiente para o controle do foco. Oxigenoterapia hiperbárica é, no máximo, adjuvante. Aguardar a compensação do diabetes antes da cirurgia inverte a prioridade, pois o controle do foco é condição para a estabilização metabólica e hemodinâmica.
Menina, 4 anos, com quadro de varicela iniciado há 5 dias, apresenta febre alta persistente e dor intensa em membro inferior direito, com recusa a apoiar o pé. FC 148 bpm, FR 32 ipm, PA 84x48 mmHg, T 39,4 °C. Ao exame, área de eritema violáceo com bolhas e anestesia cutânea na coxa, com dor desproporcional ao aspecto da pele. Lactato 4,2 mmol/L (VR até 2,0); creatinoquinase 2.400 U/L (VR até 200). Qual a conduta imediata?
Exploração cirúrgica com desbridamento imediato e antibiótico endovenoso é a conduta imediata: dor desproporcional, anestesia cutânea, bolhas violáceas, choque e elevação de lactato e creatinoquinase durante varicela caracterizam fasciite necrosante, complicação bacteriana em que cada hora de atraso aumenta a mortalidade. O aciclovir isolado não trata a infecção bacteriana invasiva. O antibiótico oral ambulatorial é inadequado em criança chocada. O corticoide não substitui o controle cirúrgico do foco. Aguardar ressonância retarda um desbridamento cujo diagnóstico é essencialmente clínico e cirúrgico.
Homem, 54 anos, diabético, no terceiro dia após ferimento contaminado em coxa direita suturado no pronto-socorro. Retorna com dor desproporcional ao exame, T 39,2 °C, PA 88/54 mmHg, FC 132 bpm. A pele apresenta áreas violáceas com bolhas hemorrágicas e crepitação à palpação. Leucócitos de 24.000/mm3 (VR 4.000–11.000), sódio de 130 mEq/L e creatinina de 2,2 mg/dL (VR 0,7–1,3). Qual a conduta indicada?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação, hipotensão e disfunção orgânica caracterizam fasciíte necrosante, emergência cirúrgica cujo determinante prognóstico é o desbridamento amplo e precoce associado a antibiótico e suporte. Antibiótico isolado com reavaliação em doze horas permite progressão da necrose por planos fasciais. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante e nunca precede o desbridamento. Curativo a vácuo sobre tecido necrótico não controla o foco. Colher cultura por punção antes de operar apenas atrasa a única medida que altera a mortalidade.
Homem, 58 anos, diabético em uso irregular de metformina, apresenta há 48 horas dor intensa e edema em coxa esquerda após escoriação. Ao exame: PA 90x56 mmHg, FC 126 bpm, FR 28 ipm, T 39,1 graus Celsius. A pele tem coloração acinzentada com bolhas hemorrágicas, crepitação à palpação e anestesia cutânea local, com dor desproporcional aos achados. Leucócitos 26.000/mm3 (VR 4.000-11.000); creatinina 2,1 mg/dL (VR 0,6-1,3); lactato 4,5 mmol/L (VR 0,5-2,2). A conduta prioritária é:
O desbridamento cirúrgico amplo de urgência associado a antibiótico de largo espectro é a prioridade na fasciíte necrotizante, sugerida por dor desproporcional, anestesia cutânea, bolhas hemorrágicas, crepitação e sepse com lactato de 4,5 mmol/L. A antibioticoterapia isolada não alcança o tecido desvitalizado e sem perfusão, deixando o foco ativo. A ressonância magnética retarda o controle do foco em doente instável e não altera a indicação cirúrgica, que é clínica. A oxigenoterapia hiperbárica é apenas adjuvante, sempre posterior ao desbridamento. A drenagem percutânea é insuficiente, pois a doença é difusa ao longo dos planos fasciais e não uma coleção localizada.
Homem, 60 anos, diabético descompensado, apresenta há 3 dias dor perineal intensa e progressiva, com febre. PA 92x56 mmHg, FC 128 bpm, FR 28 ipm, T 39,0 graus Celsius. Há eritema, edema e áreas de necrose cutânea em bolsa escrotal e períneo, com crepitação à palpação e odor fétido. Leucócitos 28.000/mm3 (VR 4.000-11.000); glicemia 380 mg/dL (VR 70-99); creatinina 2,0 mg/dL (VR 0,6-1,3). Qual a conduta prioritária?
O desbridamento cirúrgico amplo imediato associado a antibiótico de amplo espectro e suporte intensivo é a prioridade na gangrena de Fournier, fasciíte necrotizante perineal com mortalidade elevada e progressão em horas, favorecida pelo diabetes descompensado. A antibioticoterapia isolada não alcança o tecido desvitalizado e permite a progressão da necrose. A tomografia pode delimitar a extensão, mas não deve retardar a cirurgia em doente séptico com crepitação e necrose visíveis. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante posterior ao desbridamento. A incisão puntiforme é insuficiente diante de doença difusa dos planos fasciais.
Homem, 46 anos, com ferimento contaminado por terra em coxa direita, suturado há três dias. Retorna com dor intensa, edema e crepitação à palpação, com secreção acinzentada de odor fétido pela ferida. T 38,8 °C, PA 90/56 mmHg, FC 130 bpm. A radiografia mostra gás dissecando planos musculares e o Gram da secreção evidencia bacilos gram-positivos volumosos sem leucócitos abundantes. Qual o diagnóstico e a conduta indicada?
Crepitação com gás em planos musculares, secreção acinzentada fétida e bacilos gram-positivos volumosos com escassez de leucócitos caracterizam mionecrose clostridiana, ou gangrena gasosa, que exige desbridamento cirúrgico amplo e imediato associado a penicilina em altas doses e clindamicina. A celulite estreptocócica não produz gás nem esse padrão bacterioscópico. O abscesso localizado não dissecaria planos musculares com crepitação extensa. O tétano cursa com trismo e espasmos, sem gás nos tecidos. A tromboflebite séptica não produz gás nem necrose muscular difusa.
Homem, 58 anos, diabético descompensado, com dor perineal intensa há 3 dias, evoluindo com febre e prostração. PA 92x54 mmHg, FC 128 bpm, FR 28 ipm, T 39,0 °C; há edema e eritema do escroto e do períneo, com áreas de necrose cutânea e crepitação à palpação. Leucócitos 26.000/mm³ (VR 4.000–11.000); glicemia 420 mg/dL; lactato 4,8 mmol/L (VR até 2,0). Qual a conduta indicada?
Gangrena de Fournier é fasciíte necrosante do períneo, emergência cirúrgica cujo determinante prognóstico é o desbridamento amplo e precoce de todo o tecido desvitalizado, associado a antibiótico de amplo espectro, controle metabólico e suporte intensivo, com desbridamentos seriados. O antibiótico isolado não alcança tecido necrótico sem perfusão. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante em serviços selecionados, jamais tratamento inicial isolado. A drenagem percutânea é inadequada em necrose difusa de fáscia. Curativos enzimáticos são lentos e permitem progressão rápida da necrose e da sepse.
Homem, 54 anos, diabético, apresenta dor intensa em coxa direita há 30 horas, desproporcional aos achados cutâneos, com evolução rápida. Exame: T 38,9 °C, FC 128 bpm, PA 92x54 mmHg, eritema mal delimitado com áreas violáceas, bolhas hemorrágicas, crepitação e anestesia cutânea local. Leucócitos de 26.400/mm³; sódio de 130 mEq/L; proteína C reativa muito elevada; creatinina de 2,0 mg/dL; lactato de 4,6 mmol/L. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, evolução rápida, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia cutânea, hipotensão e alterações laboratoriais compatíveis caracterizam fasciíte necrosante, emergência cirúrgica cujo determinante prognóstico é a precocidade do desbridamento amplo, associado a antibioticoterapia de amplo espectro com cobertura para anaeróbios e estreptococo, além de suporte intensivo e reabordagens programadas. O antibiótico isolado com reavaliação tardia é conduta associada a mortalidade muito elevada. Aguardar tomografia atrasa a cirurgia, sendo o diagnóstico essencialmente clínico. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante em casos selecionados, jamais tratamento inicial isolado. Curativo com desbridamento químico e antibiótico oral ambulatorial é incompatível com a gravidade do quadro.
Homem, 61 anos, diabético e etilista, apresenta dor perineal intensa há 3 dias, com evolução para escurecimento da pele escrotal e odor fétido. Exame: T 39,0 °C, FC 132 bpm, PA 88x50 mmHg, necrose de pele escrotal com crepitação, secreção fétida, edema que se estende para parede abdominal inferior. Leucócitos de 28.000/mm³; glicemia de 420 mg/dL; lactato de 5,2 mmol/L; creatinina de 2,4 mg/dL. Qual a conduta mais adequada?
A gangrena de Fournier é fasciíte necrosante do períneo e da região genital, com mortalidade elevada, e o tratamento exige desbridamento cirúrgico amplo e urgente de todo o tecido desvitalizado, antibioticoterapia de amplo espectro cobrindo aeróbios, anaeróbios e gram-negativos, suporte intensivo, controle glicêmico e reabordagens programadas, com derivações urinária ou fecal quando necessárias. O antibiótico isolado não controla o foco necrótico. Aguardar demarcação completa permite progressão rápida da necrose e sepse. Curativos ambulatoriais são incompatíveis com paciente séptico e hipotenso. A orquiectomia raramente é necessária, pois os testículos têm irrigação própria e costumam ser poupados, não sendo primeira medida.
Homem, 55 anos, com cirrose hepática, apresenta há 24 horas dor intensa, eritema e bolhas hemorrágicas em perna direita, após ferimento durante manipulação de frutos do mar. T 38,8 graus Celsius, PA 84x50 mmHg, FC 132 bpm. Há progressão rápida da lesão com áreas de necrose cutânea. Leucócitos 3.100/mm3 com desvio à esquerda; lactato 4,8 mmol/L (VR 0,5-2,2); plaquetas 78.000/mm3. Qual o agente mais provável e a conduta?
O Vibrio vulnificus é o agente mais provável, associado a exposição a água salgada e frutos do mar em pacientes com cirrose, causando infecção necrosante fulminante com bolhas hemorrágicas e sepse, exigindo desbridamento urgente e antibiótico dirigido, habitualmente com doxiciclina associada a cefalosporina de terceira geração. O tratamento oral ambulatorial para estafilococo é incompatível com a gravidade. A penicilina benzatina não cobre esse agente e não trata infecção necrosante. Colírio tópico não tem qualquer aplicação. O Clostridioides difficile causa colite, não infecção de partes moles.
Homem, 59 anos, diabético, com ferimento puntiforme na perna direita há 3 dias, procura o pronto-socorro com dor intensa e desproporcional ao exame. Exame: PA 88x52 mmHg, FC 124 bpm, T 38,9 graus C; eritema mal delimitado com bolhas hemorrágicas e crepitação à palpação; anestesia cutânea local. Laboratório: leucócitos 24.000/mm3 (VR 4.000-11.000); sódio 128 mEq/L (VR 135-145); PCR 240 mg/L (VR abaixo de 5). Qual a conduta imediata?
A conduta é o desbridamento cirúrgico imediato, associado a antibiótico de amplo espectro e ressuscitação hemodinâmica: dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, crepitação, anestesia cutânea, hipotensão, hiponatremia e leucocitose acentuada compõem fasciíte necrosante, cuja sobrevida depende do tempo até a exploração cirúrgica. Antibiótico isolado não penetra tecido necrótico e desvascularizado. Aguardar ressonância atrasa uma emergência em que o diagnóstico é clínico-cirúrgico. Curativo com pressão negativa pressupõe leito já desbridado e paciente estável. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante em casos selecionados e jamais substitui o desbridamento.
Homem, 58 anos, diabético descompensado, procura o pronto-socorro com dor e edema em bolsa escrotal há 3 dias, com piora rápida. Exame: PA 92x54 mmHg, FC 122 bpm, T 38,8 graus C; escroto edemaciado com áreas de necrose cutânea, crepitação à palpação e odor fétido, com extensão para o períneo. Laboratório: leucócitos 26.000/mm3 (VR 4.000-11.000); glicemia 388 mg/dL (VR 70-99); creatinina 2,2 mg/dL (VR 0,7-1,3). Qual a conduta?
A conduta é o desbridamento cirúrgico amplo e imediato, associado a antibiótico de amplo espectro, controle glicêmico e suporte hemodinâmico: a gangrena de Fournier é infecção necrosante polimicrobiana do períneo com alta letalidade, e o prognóstico depende diretamente da precocidade e da radicalidade da remoção do tecido necrótico. Antibiótico isolado por 72 horas permite progressão fulminante da necrose. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante e jamais substitui o desbridamento. Curativos enzimáticos e conduta ambulatorial são incompatíveis com o quadro séptico apresentado. A orquiectomia não é padrão, pois os testículos têm irrigação própria e costumam ser poupados.
Menino, 5 anos, no 6º dia de varicela, apresenta piora clínica com febre alta e dor intensa em coxa direita. Temperatura axilar 39,4 °C, frequência cardíaca 148 bpm, PA 86x50 mmHg, tempo de enchimento capilar 4 segundos. Área de eritema violáceo com edema e dor desproporcional na coxa, com bolhas hemorrágicas. Leucócitos 24.000/mm³ (VR 5.000-15.000); PCR 260 mg/L (VR < 5); creatinofosfoquinase elevada. Qual a conduta prioritária?
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, toxemia e choque em criança com varicela indicam fasciíte necrotizante por Streptococcus pyogenes, complicação temida da doença; a conduta é ressuscitação volêmica, antimicrobiano de amplo espectro com clindamicina e exploração cirúrgica urgente. Aciclovir oral domiciliar ignora a infecção bacteriana invasiva com choque. Corticoide e anti-histamínico não tratam infecção necrosante e podem mascarar a evolução. Anti-inflamatório não esteroidal é associado a maior gravidade nessas infecções e a alta seria desastrosa. Punção para cultura com observação de 24 horas retarda o desbridamento, principal determinante de sobrevida.
Homem, 51 anos, com ferimento contuso contaminado com terra em coxa esquerda há 30 horas, apresenta dor desproporcional e piora rápida. PA 88x50 mmHg, FC 132 bpm, T 38,8 °C. Pele com coloração bronzeada, bolhas e crepitação à palpação; secreção serossanguinolenta com odor adocicado. Radiografia mostra gás dissecando planos musculares. Hb 8,4 g/dL com hemólise; creatinina 2,4 mg/dL. Qual a conduta prioritária?
A mionecrose clostridiana, ou gangrena gasosa, exige desbridamento cirúrgico amplo e imediato, eventualmente amputação, associado a penicilina com clindamicina, esta pelo efeito antitoxina, e suporte hemodinâmico, diante de choque e hemólise como neste paciente. O antibiótico isolado não alcança o tecido necrótico avascular. Curativo com peróxido e observação por mais 24 horas permitiria a progressão fulminante da necrose. A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante e jamais deve retardar a cirurgia. Corticoide e imunoglobulina não constituem tratamento específico dessa mionecrose.
Homem, 52 anos, submetido a ligadura elástica de mamilo hemorroidário interno há 4 dias, retorna com dor perineal intensa, febre e dificuldade para urinar. PA 96x58 mmHg, FC 122 bpm, T 39,2 °C. Exame: edema e dor intensa em períneo, com crepitação à palpação e área de escurecimento cutâneo. Leucócitos 23.000/mm3 (VR 4.000 a 11.000); lactato 3,6 mmol/L (VR até 2,0). Qual a conduta mais adequada?
O desbridamento cirúrgico de urgência associado a antibiótico de amplo espectro é a conduta correta diante de sepse perineal com crepitação e necrose cutânea após ligadura elástica, quadro compatível com fasciíte necrotizante perineal, complicação rara e potencialmente fatal. Analgesia e banhos de assento tratam a dor esperada do procedimento, não a infecção necrotizante. Realizar nova ligadura em vigência de sepse perineal é inaceitável. Antibiótico oral ambulatorial não controla infecção necrosante com instabilidade hemodinâmica. A sondagem vesical alivia a retenção urinária, mas isoladamente ignora o foco infeccioso que exige controle cirúrgico imediato.
Paciente tem dor desproporcional, progressão rápida de edema, bolhas e toxicidade sistêmica em membro, com forte suspeita de infecção necrosante. Qual intervenção atende melhor ao problema identificado?
O risco de necrose exige exploração e desbridamento imediatos. Suspeita de infecção necrosante exige abordagem cirúrgica rápida; imagem ou resposta a antibiótico não devem atrasar controle de tecido infectado. Referência: https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Pessoa diabética apresenta dor perineal intensa, crepitação e deterioração sistêmica, com suspeita de gangrena de Fournier. Qual intervenção atende melhor ao problema identificado?
Controle cirúrgico urgente é essencial na infecção necrosante perineal. Suspeita de infecção necrosante exige abordagem cirúrgica rápida; imagem ou resposta a antibiótico não devem atrasar controle de tecido infectado. Referência: https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Infecção de membro progride em horas com dor intensa, anestesia cutânea tardia e choque. A hipótese de necrose fascial é elevada. Qual intervenção atende melhor ao problema identificado?
A progressão e a toxicidade tornam desbridamento urgente prioritário. Suspeita de infecção necrosante exige abordagem cirúrgica rápida; imagem ou resposta a antibiótico não devem atrasar controle de tecido infectado. Referência: https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Paciente apresenta infecção de partes moles com dor desproporcional, alterações cutâneas rápidas e sepse, sem possibilidade de excluir necrose clinicamente. Qual intervenção atende melhor ao problema identificado?
Suspeita forte exige abordagem cirúrgica sem atrasos evitáveis. Suspeita de infecção necrosante exige abordagem cirúrgica rápida; imagem ou resposta a antibiótico não devem atrasar controle de tecido infectado. Referência: https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Qual condição deve orientar o uso de terapia por pressão negativa no cuidado de ferida resultante de uma infecção necrosante?
A pressão negativa pode auxiliar o manejo de exsudato e a formação de granulação após controle do foco. Não substitui o desbridamento nem deve ser utilizada para ocultar necrose que ainda exige remoção. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Em uma infecção de partes moles com progressão rápida, por que dor intensa que ultrapassa o esperado pelo aspecto superficial merece atenção imediata?
A agressão profunda pode ser maior que os sinais visíveis na pele. Dor desproporcional e evolução rápida são alertas para avaliação cirúrgica urgente; esperar bolhas ou necrose pode atrasar o diagnóstico. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Como deve ser utilizado um escore LRINEC baixo em paciente com dor desproporcional e sinais clínicos de progressão rápida de uma infecção de partes moles?
LRINEC possui sensibilidade insuficiente para funcionar como teste de exclusão. Forte suspeita clínica deve orientar a urgência, mesmo com pontuação baixa. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Uma radiografia não mostra gás nos tecidos de paciente com suspeita de infecção necrosante. Qual explicação limita o valor desse achado negativo?
A ausência de gás não exclui doença necrosante. O achado depende do agente e da fase da doença; a avaliação clínica e, quando apropriado, outros exames continuam determinantes. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Na forte suspeita de infecção necrosante acompanhada de deterioração clínica, qual princípio deve orientar a solicitação de tomografia ou ressonância?
O diagnóstico é principalmente clínico e a demora no controle do foco piora o prognóstico. Imagem pode esclarecer dúvidas e extensão quando não atrasa tratamento de uma situação já convincente. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Após o primeiro desbridamento de uma infecção necrosante extensa, qual princípio justifica programar reavaliação cirúrgica precoce da ferida?
Uma operação inicial não garante que todo tecido posteriormente inviável já esteja delimitado. Reexploração planejada e antecipada se houver piora permite remover necrose residual e verificar o controle do foco. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Qual fundamento sustenta a inclusão de clindamicina ou linezolida em determinados esquemas para infecção necrosante com suspeita de produção de exotoxinas por bactérias Gram-positivas?
Além da atividade antimicrobiana, esses agentes podem limitar produção de exotoxinas. Esse papel complementa a cobertura adequada, a reanimação e o desbridamento; não os substitui. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Como deve ser planejada a cobertura antimicrobiana inicial em uma infecção necrosante grave cuja microbiologia ainda é desconhecida?
A apresentação pode ser polimicrobiana ou monomicrobiana. Cobertura inicial deve contemplar Gram-positivos, inclusive MRSA conforme o esquema, Gram-negativos e anaeróbios, com adequação posterior às culturas e ao contexto. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Ao considerar oxigenoterapia hiperbárica para uma infecção necrosante, qual limite deve orientar sua relação com o tratamento cirúrgico urgente?
A base do tratamento é controle cirúrgico precoce, antimicrobianos e suporte. Eventual benefício adjuvante da hiperbárica não justifica postergar essas medidas ou tratar a transferência como prioridade sobre o foco. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Na gangrena de Fournier, a relativa preservação dos testículos pode ser explicada por sua irrigação principal, distinta da circulação superficial do períneo. Qual vaso representa essa irrigação principal?
A origem aórtica da artéria testicular e seu trajeto diferem da vascularização superficial perineal. Essa anatomia ajuda a explicar preservação testicular apesar da necrose escrotal, sem dispensar avaliação direta da viabilidade. Referência: Sartelli M, Guirao X, Hardcastle TC et al. WSES/SIS-E recommendations for management of skin and soft-tissue infections (2018). https://doi.org/10.1186/s13017-018-0219-9. CC BY 4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/. Questão original elaborada a partir das recomendações, com adaptação didática.
Se um escore laboratorial for baixo, como deve ser utilizado?

Escores não têm sensibilidade suficiente para excluir todos os casos.
Qual decisão integra suspeita forte e instabilidade apesar da ausência de gás?

Ausência de gás não afasta doença necrosante; atraso no controle de foco pode ser fatal.
Qual tecido pode estar primariamente envolvido na fasciíte necrosante?

A infecção pode disseminar-se pelos planos fasciais.
Após desbridamento inicial, por que reavaliações operatórias podem ser necessárias?

Controle adequado exige vigilância clínica e reintervenção quando indicada.
Qual característica da dor é um sinal de alerta?

Dor intensa além do esperado para o aspecto inicial sugere acometimento profundo.
Homem de 64 anos foi tratado com cirurgia e antibióticos por mionecrose sem ferimento prévio. As culturas identificaram Clostridium septicum. Após estabilização, qual associação merece investigação dirigida?
A identificação do agente orienta investigação após o controle da emergência. A ausência de trauma torna especialmente relevante buscar doença predisponente. Referências: IDSA. Skin and Soft Tissue Infections Guideline, 2014, seções VIII e X — https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Paciente com choque tóxico estreptocócico permanece grave apesar de suporte, antibióticos adequados e desbridamento. Discute-se imunoglobulina intravenosa. Qual afirmação corresponde à orientação do CDC?
Terapia adjuvante com evidência limitada requer decisão individualizada. Controle do foco e suporte não devem aguardar a sua disponibilidade. Referências: CDC. Clinical Guidance for Streptococcal Toxic Shock Syndrome — https://www.cdc.gov/group-a-strep/hcp/clinical-guidance/streptococcal-toxic-shock-syndrome.html
Mulher com infecção profunda de partes moles evolui com hipotensão, lesão renal aguda e coagulopatia. Hemoculturas isolam Streptococcus pyogenes. Qual síndrome integra o isolamento em sítio estéril com choque e falência de órgãos?
O reconhecimento exige suporte imediato, antimicrobianos e controle do foco. A síndrome pode coexistir com fasciíte necrosante. Referências: CDC. Clinical Guidance for Streptococcal Toxic Shock Syndrome — https://www.cdc.gov/group-a-strep/hcp/clinical-guidance/streptococcal-toxic-shock-syndrome.html
Durante desbridamento por infecção necrosante, a equipe dispõe de um swab superficial prévio com flora mista. Qual amostra é preferível para orientar o ajuste do tratamento antimicrobiano?
As coletas devem acompanhar o tratamento, sem atrasar o desbridamento. Um resultado superficial pode ser enganoso quanto à etiologia profunda. Referências: IDSA. Skin and Soft Tissue Infections Guideline, 2014, seções VIII e X — https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
Após desbridamentos seriados, paciente com fasciíte necrosante está melhor, sem febre há 72 horas e não necessita de novo desbridamento. Não há bacteremia persistente, osteomielite ou outro foco. Segundo a IDSA, qual princípio orienta a duração do antibiótico?
A duração não se define apenas pelo nome da doença. Focos adicionais ou evolução desfavorável podem exigir outro planejamento. Referências: IDSA. Skin and Soft Tissue Infections Guideline, 2014, seções VIII e X — https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/
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em 7 dias
Escreva de memória duas colunas: à esquerda, os achados que autorizam indicar a exploração (dor desproporcional, edema além do eritema, progressão horária do limite marcado a caneta, desproporção sistêmica); à direita, os que só confirmam tarde (crepitação, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, necrose franca). Ao lado, anote a frase da diretriz sobre imagem, com as duas metades — não atrasar e não demover. Depois recite os três tipos microbiológicos com a proporção aproximada de cada um e diga o que cada um muda no esquema, sem esquecer o inibidor de síntese proteica e o motivo dele.
em 30 dias
Pegue um doente com celulite de membro que não melhorou em vinte e quatro horas de antimicrobiano e decida em voz alta: quais achados você procura antes de tocar no telefone, o que faz com o limite do eritema, o que pede de exame e com que finalidade explícita, e em que momento a conversa deixa de ser sobre diagnóstico e passa a ser sobre horário de sala. Em seguida, refaça o mesmo raciocínio para um doente diabético com dor perineal de dois dias, acrescentando a busca da porta de entrada, o critério funcional da derivação do trânsito e o que você diria à família sobre extensão da ferida, número provável de operações e mortalidade. Termine escrevendo, de memória, quais variáveis a série brasileira associou ao óbito e quais ela testou e não conseguiu associar — e por que a segunda lista muda a sua disposição para desbridar amplamente.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você é o cirurgião de plantão de um hospital geral sem serviço de cirurgia plástica e sem câmara hiperbárica. Chega um homem de 58 anos, diabético, com dor intensa em membro inferior há um dia e meio, eritema modesto, endurecimento que ultrapassa a borda avermelhada, taquicardia e febre. O clínico já iniciou antibiótico e pede sua opinião sobre "aguardar a resposta em 24 horas". Conduza os primeiros minutos em voz alta: diga quais achados você procura no exame e por que a ausência de crepitação não o tranquiliza, explique ao colega para que serviria uma tomografia neste doente e o que você faria se ela viesse normal, defina o que corre em paralelo enquanto a sala é preparada, e diga à família, antes da incisão, o que espera encontrar, qual a extensão provável da ferida e por que a operação de hoje provavelmente não será a única. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
