Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Infecção necrosante: quem vai para a sala agora

Infecções necrosantes de partes moles (fasciíte necrotizante e gangrena de Fournier)

O único quadro desta apostila que não mora no abdome, e o único em que o exame que confirma o diagnóstico é a própria operação.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 6 anos, previamente hígido, é levado ao PS com febre há 4 dias e uma lesão em membro inferior que evoluiu rapidamente. Ao exame: placa eritematosa quente, dor DESPROPORCIONAL à aparência da lesão, área central com bolhas violáceas e crepitação à palpação. FC 148 bpm, PA 82/50 mmHg, FR 34 ipm, tempo de enchimento capilar 4 s, aspecto toxêmico. Qual é a conduta imediata mais importante?

02

Como esse tema cai

Este é o único capítulo da apostila que tira o cirurgião de dentro do abdome. Os onze anteriores organizam dor abdominal: apendicite, colecistite, pancreatite, obstrução, diverticulite, úlcera perfurada, colangite, os cinco tipos de abdome agudo, o estoma e a alça de viabilidade duvidosa. A infecção necrosante de partes moles não entra em nenhum deles, e mesmo assim é a urgência cirúrgica em que o atraso cobra mais caro por hora.

O que se decide aqui é um ato só: quem vai para o centro cirúrgico agora. Não se discute o manejo geral da sepse nem a graduação da pressa por foco, que pertencem à apostila de Pré e Pós-operatório; não se discute a classificação de infecção de sítio cirúrgico nem a deiscência de ferida, que moram no mesmo lugar. Aqui interessa a etapa anterior a tudo isso: reconhecer, no meio de muitas infecções de pele que se tratam com antibiótico, a minoria que só se trata abrindo.

A dificuldade do assunto é de assimetria, e ela organiza o capítulo inteiro. A infecção necrosante é rara diante do volume de celulites e erisipelas que chegam ao pronto-socorro; é clinicamente pobre nas primeiras horas, quando ainda é operável com margem estreita; e é ruidosa quando já não adianta. Somando as três, o erro que mata não é operar quem não precisava — é esperar mais uma reavaliação.

03

O que muda decisão

A infecção que corre por baixo da pele intacta

A definição que a diretriz internacional usa é anatômica e vale a pena guardar na forma dela: são infecções invasivas de partes moles, que ameaçam a vida, com componente necrosante, envolvendo qualquer camada do compartimento de partes moles — da derme superficial e do tecido subcutâneo até a fáscia profunda e o músculo. A palavra que faz o trabalho é compartimento. O processo não respeita o desenho da lesão de pele: ele corre pelo plano, e a pele é apenas o teto por onde se olha.

Daí vem a dissociação que define o quadro. A trombose dos vasos que perfuram a fáscia e alimentam a pele acontece depois que o plano profundo já está tomado. Enquanto isso, o tecido subcutâneo se liquefaz e a fáscia perde aderência, mas a pele acima continua com aspecto quase normal, ou apenas eritematosa. Quem examina vê uma celulite; quem opera encontra um plano descolado muito além do que o eritema anunciava.

Vale dimensionar a raridade, porque ela é metade do problema clínico. Num pronto-socorro universitário brasileiro, em pouco mais de um ano, quase cinco mil doentes foram atendidos por infecção de partes moles e menos de um em cada dez precisou de internação: celulite simples, erisipela, foliculite e impetigo se resolvem com antibiótico, e boa parte dos abscessos cutâneos, com drenagem no próprio pronto-socorro. A necrosante é uma agulha nesse palheiro.

Vale dimensionar a raridade, porque ela é metade do problema clínico. Num pronto-socorro universitário brasileiro, em pouco mais de um ano, quase cinco mil doentes foram atendidos por infecção de partes moles e menos de um em cada dez precisou de internação: a imensa maioria — celulite simples, erisipela, foliculite, impetigo — se resolve com antibiótico, e boa parte dos abscessos cutâneos, com drenagem no próprio pronto-socorro. A necrosante é uma agulha nesse palheiro.

Corte vertical das camadas de partes moles: a pele mostra apenas um leve rubor num ponto, enquanto a faixa de necrose ao longo da fáscia se estende muito além, para os dois lados.
O eritema marca o teto; a doença corre pelo plano. É por isso que o exame da pele subestima a extensão justamente enquanto a operação ainda seria pequena.

A dor que não combina com o que se vê

O achado mais citado do assunto também é o mais mal usado, e vale enunciá-lo com precisão: o doente com infecção necrosante costuma se apresentar com dor intensa e desproporcional aos achados do exame físico. Desproporcional não quer dizer forte. Quer dizer incompatível com o que a inspeção mostra — uma área modesta de eritema num doente que não consegue tolerar o toque, ou que pede analgésico de resgate com frequência incomum para o que se está vendo.

Há um segundo sinal precoce e igualmente barato: o edema que ultrapassa o eritema. Na celulite, a área endurecida e a área avermelhada coincidem razoavelmente. Na necrosante, palpa-se tensão e endurecimento lenhoso além da borda vermelha, porque o edema acompanha o plano tomado e não a pele. Correr o dorso da mão da periferia para o centro, com o doente relaxado, encontra essa borda antes de qualquer exame.

O terceiro elemento não é um achado, é uma medida: a velocidade. O gesto mais útil do plantão é marcar o limite do eritema na pele com caneta, registrando a hora, e reavaliar em intervalo curto. Se a marca foi ultrapassada antes da reavaliação, a discussão diagnóstica terminou. Nenhum exame de sangue tem esse poder discriminatório, e ele custa uma caneta.

Os sinais tardios, e o preço de esperar por eles

Os achados que todo mundo associa ao diagnóstico são, quase sem exceção, achados de doença avançada. Crepitação indica gás no tecido e aponta agente produtor de gás, mas está ausente na maior parte dos casos e aparece tarde quando aparece. Tratar crepitação como requisito diagnóstico é adiar a operação em todos os doentes cujo agente não produz gás — que são a maioria.

As bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágico marcam o momento em que a trombose dos vasos perfurantes finalmente alcançou a pele. Elas confirmam, mas confirmam tarde: quando surgem, o plano profundo já está comprometido em extensão bem maior do que a bolha sugere. O mesmo vale para as áreas de coloração acinzentada ou violácea e para a demarcação de necrose franca da pele.

A anestesia cutânea é o sinal mais elegante e o mais mal interpretado. A área que perdeu sensibilidade perdeu porque os ramos nervosos superficiais foram destruídos junto com o tecido que os alimentava. Ou seja: a região que parou de doer é a região que já morreu. O alívio espontâneo da dor numa infecção de partes moles em progressão não é melhora, é perda de tecido.

A leitura correta desse conjunto é temporal, e vale enunciá-la como regra de leitura: os achados precoces são de sintoma e de velocidade, e os tardios são de aspecto. Quem indica operação por aspecto está sempre operando com atraso; quem indica por sintoma desproporcional e progressão em horas opera na janela em que o desbridamento ainda é econômico. Toda a diferença de sobrevida se produz nessa escolha de qual grupo de achados governa a decisão.

O escore que só serve para um lado

Existe um escore laboratorial construído para separar infecção necrosante de infecção grave não necrosante, montado com exames de rotina — proteína C reativa, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicemia. Ele é atraente porque é barato e objetivo, e é exatamente por isso que arma a pior armadilha do assunto.

A diretriz internacional é explícita ao registrar seu desempenho: o escore tem acurácia diagnóstica ruim, e um valor baixo não afasta o diagnóstico. Os números da metanálise que ela reproduz mostram por quê — no ponto de corte mais permissivo, a sensibilidade fica em torno de dois terços, e no ponto de corte mais alto ela desaba para menos da metade, ganhando especificidade em troca. Traduzindo para a beira do leito: uma parcela relevante das infecções necrosantes pontua abaixo do limiar de suspeita.

A leitura correta é assimétrica, e essa assimetria vale para qualquer instrumento com esse perfil. Valor alto acrescenta informação, aumenta a probabilidade e acelera a ida à sala. Valor baixo não retira nada, porque a sensibilidade não autoriza a retirar. Escore baixo num doente com dor desproporcional e progressão em horas é um resultado que não muda conduta nenhuma.

Vale entender por que a sensibilidade é baixa, porque isso previne o uso errado. O escore foi derivado numa população específica e mede consequência sistêmica de inflamação e de lesão tecidual; ele depende, portanto, de que já tenha havido tempo e volume de destruição suficientes para alterar a rotina laboratorial. O doente que chega cedo — justamente aquele em que a operação precoce salva mais — é o que tende a pontuar baixo. O instrumento falha na população em que ele seria mais útil.

A imagem que não pode segurar a sala

A tomografia mostra achados úteis: gás nos planos moles, espessamento e realce anormal da fáscia, coleções mal delimitadas seguindo o plano fascial, e a extensão aproximada do processo. A ressonância descreve com mais fidelidade a profundidade do acometimento. Nenhuma das duas transforma um diagnóstico clínico duvidoso em certeza, e as duas consomem tempo.

Por isso a instrução das duas edições da diretriz é conservadora no sentido inverso do habitual. O documento mais recente escreve que, se a suspeita clínica é alta, a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia, porque nesse cenário o desbridamento precoce é essencial para reduzir a mortalidade. O documento anterior é ainda mais direto ao dizer que a imagem nunca substitui o desbridamento cirúrgico.

A frase merece ser lida nas suas duas metades, porque a segunda é a que costuma ser esquecida. Não atrasar é o óbvio. Não demover é a parte difícil: uma tomografia sem gás, sem espessamento fascial evidente e descrita como compatível com celulite não afasta a hipótese num doente com dor desproporcional e progressão horária. Imagem negativa em suspeita alta é imagem que não respondeu à pergunta, e não resposta negativa.

O corolário organiza o fluxo do plantão. Doente instável não vai ao tomógrafo, vai à sala com ressuscitação correndo em paralelo. Doente estável com suspeita alta vai à sala, e a imagem entra apenas se puder ser feita sem consumir a janela. Doente estável com suspeita intermediária é o único em que a imagem decide alguma coisa — e mesmo nele, o que decide de fato é a reavaliação clínica próxima, com o limite do eritema marcado e a hora anotada.

O relógio, e o que o número mede

O número mais importante do assunto está na diretriz mais recente e é uma comparação simples: o tratamento cirúrgico realizado dentro de seis horas associou-se a uma mortalidade da ordem de um quinto, contra cerca de um terço quando a operação passou desse intervalo. É a diferença entre dois grupos de um mesmo desfecho duro, produzida por uma variável que está inteiramente sob controle da equipe.

Convém dizer o que esse número é e o que não é. Não existe, e não vai existir, ensaio que sorteie doentes para operar cedo ou tarde numa doença assim: a evidência do prazo é observacional e vai continuar sendo. Parte da diferença entre os grupos reflete que o doente reconhecido cedo é diferente do reconhecido tarde. Mas a direção é consistente entre séries e o custo de agir como se o número fosse verdadeiro é baixo.

A revisão brasileira de dermatologia registra o mesmo fenômeno em outra escala de tempo, e a comparação entre as duas escalas é instrutiva. Ela descreve mortalidade muito menor entre os tratados nos primeiros dias de evolução do que na casuística geral. O intervalo é de dias, não de horas, porque a população e o desenho eram outros — mas o sentido é idêntico: o tempo até o tratamento definitivo é a variável modificável mais poderosa do quadro.

A tradução operacional é uma frase única, e ela vale mais do que qualquer algoritmo: na suspeita alta, o tempo até a incisão é o tratamento. Tudo o que se coloca entre a suspeita e a incisão — um exame, uma interconsulta, uma dose de antibiótico dada com o doente ainda na emergência, uma reavaliação em duas horas para ver como evolui — precisa caber dentro da janela, e nenhum desses gestos, isolado, é capaz de substituí-la.

Linha do tempo dividida em dois trechos por um relógio, com uma coluna baixa sobre o trecho curto e uma coluna visivelmente mais alta sobre o trecho longo.
Operar dentro da janela e operar depois dela produzem mortalidades diferentes na mesma doença. É a variável que a equipe controla.

Quem é o agente, e o que ele muda no esquema

A classificação microbiológica da diretriz anterior tem três tipos, e a proporção entre eles importa mais do que os nomes. O primeiro tipo é polimicrobiano, nasce de foco crônico e indolente e se espalha pelos planos fasciais; responde por algo entre oitenta e cinco e noventa por cento dos casos. É a forma do diabético, do doente com ferida perineal ou de parede abdominal, do imunodeprimido — e é por isso que a cobertura empírica precisa ser larga por padrão.

O segundo tipo é monomicrobiano por cocos gram-positivos aeróbios, tipicamente estreptococo ou estafilococo resistente à meticilina de aquisição comunitária, e responde por cerca de dez a quinze por cento. É a forma que atinge o jovem previamente hígido, muitas vezes depois de trauma mínimo, e a que mais frequentemente vem acompanhada de choque tóxico. O terceiro tipo reúne infecções monomicrobianas por bacilos virulentos, entre eles clostrídios e germes associados a água e a ferimentos por manipulação de pescado.

O antimicrobiano empírico, portanto, é largo por obrigação e não por hábito: precisa cobrir gram-positivos, incluindo resistente à meticilina conforme o cenário local, gram-negativos e anaeróbios, com descalonamento assim que a cultura e o antibiograma voltarem.

Há um acréscimo com racional próprio, e ele é cobrável: somar ao esquema um inibidor de síntese proteica, tipicamente a clindamicina, pela supressão da produção de toxina. O raciocínio é que os antimicrobianos que agem na parede celular perdem eficácia diante de inóculo alto e bactérias em fase estacionária, e não interrompem a produção de exotoxinas — que é justamente o que sustenta o choque tóxico do tipo estreptocócico. A revisão brasileira descreve o esquema clássico nessa lógica, associando o inibidor de síntese proteica a doses altas de penicilina.

O que nenhum esquema faz é substituir a operação. O antimicrobiano circula ao redor de tecido morto e trombosado, onde não há perfusão que o entregue; ele protege o território ainda vivo e trata a bacteremia, e é indispensável por isso. Mas o tecido necrótico não é esterilizável — ele é retirável. Prescrever esquema mais largo diante de um doente que não melhora é a forma mais comum de adiar a única conduta que muda o desfecho.

A operação: até onde vai a mão

A exploração cirúrgica tem estatuto duplo, e é o ponto mais importante para quem vem de uma apostila inteira de abdome: ela é ao mesmo tempo o exame que confirma o diagnóstico e o tratamento que o resolve. Não há teste que a anteceda com autoridade suficiente para dispensá-la, e não existe cenário em que confirmar sem operar seja útil.

Os achados intraoperatórios são característicos e se leem em segundos. A fáscia se descola sem resistência ao dedo ou ao instrumento, num plano que deveria oferecer aderência; o tecido não sangra ao corte, porque os vasos estão trombosados; e drena líquido turvo, acinzentado, de odor característico, sem o aspecto espesso e cremoso do pus de abscesso. Gordura subcutânea liquefeita e músculo que não se contrai ao estímulo completam o quadro.

A extensão do desbridamento é o que separa a operação que resolve da que obriga a uma terceira. A instrução é retirar todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra — e a margem precisa ser generosa, porque a fronteira da doença está sempre além da fronteira do que a pele mostrava. Operação econômica em infecção necrosante não é conservadora, é incompleta: ela devolve à terapia intensiva um doente que continua com o motor da sepse ligado.

Existe uma contrapartida legítima, e ela ganhou espaço recentemente: as técnicas que poupam pele, concentrando a ressecção no tecido diretamente comprometido pela necrose e preservando o retalho cutâneo viável acima. Isso reduz a área a reconstruir sem abrir mão da retirada do tecido morto. Poupar pele não é o mesmo que poupar desbridamento, e confundir as duas coisas produz exatamente a reoperação que se queria evitar.

Voltar à sala por calendário, não por convite

A primeira operação da infecção necrosante é deliberadamente incompleta em um sentido específico: ela retira o que está claramente morto num processo que ainda pode estar avançando. Por isso a reabordagem não é um recurso de resgate, é parte do desenho — e essa é a mesma lógica que a apostila já usou no controle de danos abdominal, com uma diferença importante de gatilho.

No abdome operado por peritonite, a comparação entre reabordagem programada e reabordagem sob demanda favorece deixar o doente convocar a segunda operação. Na infecção necrosante de partes moles, não: a reinspeção é programada por calendário, e o doente que piora apenas antecipa a data. O motivo é o mecanismo — a fronteira entre tecido vivo e morto continua se movendo por conta própria nas horas seguintes, e esperar sinal clínico de progressão é esperar que a progressão já tenha acontecido.

Quanto à periodicidade, os dois documentos da mesma sociedade não dizem o mesmo, e a diferença está detalhada no bloco de divergências. O documento mais recente manda reinspecionar em intervalo curto, contado em algumas horas, ou antes disso se houver sinal local ou sistêmico de piora; o anterior fala em retorno à sala num intervalo mais largo, de até dois dias, para segunda inspeção nos casos de necrose extensa. Nenhum dos dois admite deixar o doente sem data marcada.

O que a segunda operação encontra define a terceira. Tecido novo comprometido além da margem anterior significa que o processo continua e que o intervalo precisa encurtar; leito limpo, com bordas que sangram e sem progressão, autoriza começar a pensar em cobertura. As reinspeções seguem enquanto houver progressão, e é a evolução do leito, não um número fixo de procedimentos, que decide quando param.

Fournier: o mesmo raciocínio no períneo

A gangrena de Fournier é a infecção necrosante do períneo e da genitália externa, e a primeira coisa a fixar é que ela não é uma doença diferente: é a mesma doença num território que muda a origem, a extensão possível e a reconstrução. Tudo o que vale para o membro vale aqui — dor desproporcional, progressão horária, exploração como exame confirmatório, desbridamento amplo e reinspeção programada.

A origem é o que o território acrescenta, e é o que a série brasileira de Curitiba mediu num serviço universitário. Entre quarenta doentes acompanhados por pouco mais de seis anos, a origem anorretal foi a mais frequente, seguida das origens urogenital e cutânea; o fator predisponente predominante foi o diabetes, e a grande maioria dos doentes era do sexo masculino, com idade média na quinta década. Procurar a porta de entrada não é academicismo: ela decide se haverá necessidade de derivação.

A derivação do trânsito intestinal é a decisão específica do território, e a série brasileira mostra que ela é frequente sem ser automática — foi feita em pouco menos da metade dos doentes daquele serviço, enquanto a derivação urinária foi rara. O critério é funcional: deriva-se quando a contaminação fecal contínua impede o controle da ferida ou quando o esfíncter está comprometido, não pelo simples fato de a necrose alcançar a região perianal.

Um detalhe anatômico é cobrado com frequência e vale guardar pelo mecanismo. Os testículos costumam ser poupados mesmo quando a bolsa escrotal é inteiramente ressecada, porque sua irrigação vem das artérias testiculares, que descem pelo cordão a partir da aorta abdominal, e não da vascularização da parede escrotal comprometida pelo processo. Orquiectomia, portanto, não é rotina — é exceção, reservada ao testículo comprovadamente inviável ou à origem intratesticular.

O que mata — e o que as séries brasileiras não conseguiram responsabilizar

A parte mais útil deste assunto para quem vai responder prova, e também para quem vai operar, está numa análise brasileira de fatores de mortalidade feita em serviço terciário de São Paulo, com quarenta e três doentes acompanhados ao longo de sete anos. O desenho é simples e a leitura é o que interessa: os autores testaram um conjunto de variáveis contra o desfecho óbito e reportaram tanto as que se associaram quanto as que não se associaram.

Associaram-se ao óbito, com significância: idade mais avançada, tempo de evolução prolongado até o tratamento, índice de gravidade fisiológica elevado, sepse instalada, acidose e broncopneumonia. Todas essas variáveis descrevem a mesma coisa por ângulos diferentes — o quanto a doença avançou sobre a fisiologia do doente antes de alguém interrompê-la, e o quanto de reserva sobrou para atravessar a operação.

Não se associaram ao óbito, na mesma casuística: sexo, diabetes, desnutrição, o agente isolado nas culturas, o local de início da necrose, a extensão da necrose, o número de desbridamentos realizados, a realização de colostomia e a realização de cistostomia. Essa lista é mais instrutiva do que a primeira, porque contraria quase todas as intuições que um cirurgião carrega ao olhar uma ferida enorme.

É exatamente aí que o achado vira conduta. Se o que mata é o tempo e a fisiologia, e não o tamanho da ressecção nem a quantidade de idas à sala, então a decisão de desbridar amplamente e de voltar quantas vezes forem necessárias não carrega o custo que a intuição lhe atribui. O medo de uma ferida grande é um mau conselheiro numa doença em que a ferida grande não foi o que matou — e em que a demora foi.

O contraponto honesto é que essas são séries de um único centro, retrospectivas, de um território específico da doença, e que nenhuma delas foi desenhada para responder à pergunta causal. Elas não provam que operar mais amplo salva; elas mostram que, nos doentes daqueles serviços, a amplitude e o número de operações não explicaram os óbitos, e o atraso explicou. Para uma decisão que precisa ser tomada em minutos e sem ensaio disponível, é o tipo de evidência com que se trabalha.

Os adjuvantes e o tamanho real de cada um

Dois tratamentos coadjuvantes aparecem sempre que o assunto é discutido, e ambos ocupam lugar menor do que a conversa sugere: acrescentam-se a um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado. Nenhum dos dois compra tempo.

A imunoglobulina endovenosa tem racional restrito e alvo definido: neutralizar exotoxinas circulantes na infecção necrosante estreptocócica, particularmente quando há síndrome do choque tóxico instalada. A diretriz internacional a inclui entre as medidas para esse subgrupo, e a revisão brasileira registra redução significativa de mortalidade quando o choque tóxico foi diagnosticado. Fora desse recorte — infecção polimicrobiana sem quadro toxínico —, não há indicação apoiada.

A oxigenoterapia hiperbárica é o adjuvante mais controverso, e o estado da evidência precisa ser dito com precisão porque as fontes divergem. A diretriz internacional a recomenda onde estiver disponível. A revisão brasileira de dermatologia a classifica como controversa, apontando a falta de ensaios randomizados que a sustentem. A série brasileira de Curitiba relata mortalidade menor no subgrupo que recebeu câmara do que no que recebeu apenas tratamento cirúrgico e clínico.

Esse último número merece uma advertência de leitura, e ela vale para qualquer comparação do gênero. Os grupos não foram sorteados: quem chega ao serviço em condições de ser transportado e submetido a sessões de câmara hiperbárica é, por construção, um doente diferente daquele que não chega. Uma diferença de mortalidade entre subgrupos assim descreve a prática de um centro; ela não estabelece que o tratamento produziu a diferença. Registrar o número e registrar o que ele não prova são a mesma tarefa.

A conclusão prática é hierárquica e não precisa de mais nada. Ressuscitação, antimicrobiano largo com inibidor de síntese proteica, e a sala — nessa ordem e em paralelo, não em fila. Imunoglobulina no doente estreptocócico com choque tóxico. Câmara hiperbárica onde existir, para o doente que já foi operado, e sem que a logística dela atrase um único desbridamento. Nenhum adjuvante ocupa o lugar da mão que retira o tecido morto.

04

O que decide a ida à sala, e o que só descreve

A tabela separa o que a diretriz internacional usa para indicar a operação daquilo que apenas descreve a doença depois de instalada. A coluna da direita é a que muda conduta; a do meio é a que atrasa quando é tratada como requisito. Os números vêm das duas edições da diretriz da sociedade de cirurgia de emergência e das duas séries brasileiras lidas na íntegra.

A doença corre pelo plano

O rubor visível na pele é estreito; a necrose ao longo da fáscia é larga. O exame da pele subestima a extensão justamente enquanto a operação ainda seria pequena.

Precoce é sintoma, tardio é aspecto

Dor desproporcional, edema além do eritema e progressão horária chegam cedo. Crepitação, bolhas e anestesia cutânea chegam quando o tecido já morreu.

O escore é de mão única

Valor alto acrescenta e acelera a ida à sala. Valor baixo não retira nada: a sensibilidade não autoriza afastar o diagnóstico.

Achados da infecção necrosante: o que indica a operação e o que apenas confirma tarde

AchadoMomento em que apareceO que fazer com ele
Dor intensa e desproporcional aos achados do examePrecoce, muitas vezes o primeiroGatilho de suspeição; combinado a progressão horária, indica exploração
Edema e endurecimento além da borda do eritemaPrecoceGatilho de suspeição; delimita território a explorar
Progressão do eritema em horas (limite marcado a caneta)Precoce e mensurávelEncerra a discussão diagnóstica: infecção rapidamente progressiva é tratada como necrosante
Toxemia, confusão, taquicardia e disfunção sem outro focoPrecoce a intermediárioRessuscitação em paralelo e antecipação da sala
Escore laboratorial com 6 pontos ou maisDepende de destruição já ocorridaSe alto, acelera; se baixo, não afasta (sensibilidade 68,2% no corte de 6; 40,8% no corte de 8)
Bolhas de conteúdo escuro ou hemorrágicoTardioConfirma, mas já indica trombose que alcançou a pele
Crepitação subcutâneaTardio e pouco sensívelQuando presente, aponta agente produtor de gás; quando ausente, não afasta
Anestesia cutânea sobre a área acometidaTardioSinaliza destruição dos ramos nervosos superficiais: a pele que parou de doer já morreu
Necrose franca e demarcação da peleMuito tardioDescreve a doença instalada; não é requisito para indicar a operação

Os três tipos microbiológicos e o que cada um muda

TipoMicrobiologiaPerfil típicoConsequência no esquema
Tipo IPolimicrobiano: anaeróbios com facultativos, a partir de foco crônico e indolente85% a 90% dos casos; diabético, ferida perineal ou de parede, imunodeprimidoCobertura larga por padrão: gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios
Tipo IIMonomicrobiano por cocos gram-positivos aeróbios: estreptococo ou estafilococo resistente à meticilina comunitário10% a 15% dos casos; jovem hígido, trauma mínimo, choque tóxico associadoInibidor de síntese proteica pela supressão de toxina; imunoglobulina se houver choque tóxico
Tipo IIIMonomicrobiano por bacilos virulentos: clostrídios e germes associados a água e a pescadoMenos frequente; ferimento contaminado, exposição aquáticaCobertura que contemple o agente suspeito pela exposição relatada

O que as duas séries brasileiras mediram

SérieCasuísticaAchado principal
Hospital universitário de Curitiba (1999-2006)40 doentes; 77% homens; idade média 47,2 anosOrigem anorretal a mais frequente (27,5%); diabetes o predisponente predominante (22,5%); colostomia em 42,5% e cistostomia em 2 doentes; mortalidade global de 20%
Serviço terciário de São Paulo (1998-2005)43 doentes; 39 homens; idade média 54,8 anos10 óbitos (23,2%); associados ao óbito: idade, tempo de evolução (p = 0,009), APACHE II elevado, sepse, acidose e broncopneumonia
Serviço terciário de São Paulo — o que não se associouMesma casuística de 43 doentesExtensão da necrose (p = 0,19), número de desbridamentos (p = 0,32), colostomia (p = 0,06), cistostomia (p = 0,43), diabetes (p = 0,98) e sexo (p = 0,593)

Os graus e os pontos de corte citados são os dos próprios documentos e não se comparam entre eles: as duas edições da diretriz da sociedade de cirurgia de emergência usam formatos distintos de recomendação, e as séries brasileiras são observacionais de centro único.

A mortalidade hospitalar da infecção necrosante fica, na diretriz de 2022, na faixa de 20% a 30%, com 21,1% na metanálise que ela reproduz (1.277 óbitos entre 6.051 doentes). As séries brasileiras de gangrena de Fournier lidas aqui ficaram em 20% e 23,2%.

A proporção de infecções de partes moles que chega a exigir internação é pequena: num pronto-socorro universitário brasileiro, 4.883 atendimentos por infecção de partes moles em pouco mais de um ano geraram 345 internações, cerca de 7%. A forma necrosante é uma fração dessa fração — e é a razão de o gatilho ser clínico e barato, não laboratorial.

O tempo de seis horas da diretriz de 2022 compara mortalidade de 19% quando a cirurgia ocorreu dentro do intervalo com 32% quando ela passou dele. É evidência observacional, e nenhum ensaio randomizado sobre o prazo existe ou deve existir.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

De quanto em quanto tempo se volta à sala

A cada 12 a 24 horas

"Scheduled re-explorations should be done at least every 12–24 h after the initial operation or sooner if clinical local or systemic signs of worsening infection become evident."

WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3

Segunda inspeção em 24 a 48 horas

Diante de necrose extensa, o doente deve retornar ao centro cirúrgico em 24 a 48 horas para uma segunda inspeção.

World Society of Emergency Surgery (WSES) guidelines for management of skin and soft tissue infections, World Journal of Emergency Surgery 2014;9:57

Na prova

É a mesma sociedade, em dois documentos, e não é descuido: o intervalo apertou entre uma edição e outra, e o texto mais recente ainda acrescenta o "pelo menos" e o "ou antes". O enunciado costuma entregar de qual régua fala pela data ou pelo nome do documento que cita. Quando não cita nenhum, o que nunca varia é o que se deve procurar na resposta: reinspeção com data marcada, dentro de no máximo dois dias, e antecipada por qualquer sinal de piora. Resposta que deixe a reabordagem por conta da evolução clínica, sem data, está errada nas duas edições.

Qual é o relógio do desbridamento

Seis horas, com números

"Surgical treatment within 6 h resulted in a 19% mortality rate compared to 32% when surgical treatment was delayed over 6 h."

WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3

Dias, na leitura dermatológica

A revisão registra mortalidade em torno de 12% entre os doentes tratados dentro dos primeiros 4 dias do início do quadro, contra 35% a 40% na casuística geral.

Fasciíte necrosante: revisão com enfoque nos aspectos dermatológicos, Anais Brasileiros de Dermatologia 2004;79(2):211-225

Na prova

As duas escalas não se contradizem, medem populações e desfechos diferentes, e a diferença de unidade é a pista de qual documento o enunciado está usando. Quando aparece a palavra "horas" e um par de percentuais próximos de um quinto e de um terço, a régua é a diretriz cirúrgica de 2022. Quando aparecem dias e uma mortalidade geral acima de um terço, a régua é a revisão dermatológica. O que as duas sustentam igualmente, e é o que se procura na resposta, é que o tempo até o tratamento definitivo é a variável modificável que mais pesa.

O que prediz a morte: o tamanho da doença ou o tempo até tratá-la

A extensão e o número de operações não explicaram os óbitos

Na casuística de 43 doentes, não houve associação com óbito para extensão da necrose (p = 0,19), número de desbridamentos (p = 0,32), colostomia (p = 0,06), cistostomia (p = 0,43), diabetes (p = 0,98) e sexo (p = 0,593).

Síndrome de Fournier: análise dos fatores de mortalidade, Revista Brasileira de Coloproctologia 2009;29(2):206-212

O tempo, a idade e a fisiologia explicaram

Associaram-se ao óbito idade mais avançada (p < 0,001), tempo de evolução prolongado (p = 0,009), APACHE II acima de 19 (p = 0,001), sepse (p < 0,001), broncopneumonia (p < 0,001) e acidose (p = 0,001).

Síndrome de Fournier: análise dos fatores de mortalidade, Revista Brasileira de Coloproctologia 2009;29(2):206-212, mesma casuística

A leitura internacional, pelo mesmo lado do tempo

"Early surgical debridement with complete removal of necrotic tissue, including potential major amputation is essential to decrease mortality."

WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3

Na prova

Este é o achado que mais contraria a intuição e o mais rentável de reconhecer. O enunciado costuma oferecer uma ferida extensa e muitas idas à sala como se fossem o problema, e pedir o fator prognóstico. O que se procura na resposta é o eixo do tempo e da fisiologia — atraso até o desbridamento, gravidade fisiológica, sepse instalada, idade —, e não o tamanho da ressecção nem a contagem de desbridamentos. Cuidado com a leitura oposta: ausência de associação numa série de 43 doentes não prova ausência de efeito, e algumas variáveis ficaram perto do limiar.

Oxigenoterapia hiperbárica: recomendar, relativizar ou registrar sem atribuir

Recomendar onde houver

A diretriz inclui a oxigenoterapia hiperbárica entre as medidas adjuvantes, onde estiver disponível.

WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways, World Journal of Emergency Surgery 2022;17:3

Controversa por falta de ensaio

A revisão classifica a oxigenoterapia hiperbárica como controversa, apontando a ausência de estudos randomizados e controlados que a sustentem.

Fasciíte necrosante: revisão com enfoque nos aspectos dermatológicos, Anais Brasileiros de Dermatologia 2004;79(2):211-225

Diferença observada entre subgrupos não sorteados

A série relata mortalidade de 11,5% no subgrupo submetido a oxigenoterapia hiperbárica contra 37,5% no subgrupo conduzido apenas com tratamento cirúrgico e clínico.

Manejo da gangrena de Fournier: experiência de um hospital universitário de Curitiba, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões 2010;37(6)

Na prova

Três registros diferentes sobre o mesmo adjuvante, e o enunciado costuma escolher um sem avisar. O que nunca muda, e é o que se procura na resposta, é a hierarquia: a câmara é adjuvante de um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado, e a logística dela não pode atrasar nenhuma operação. Resposta que coloque a oxigenoterapia hiperbárica antes ou no lugar do desbridamento está errada nas três fontes. E o par de percentuais da série brasileira compara subgrupos não randomizados, o que descreve a prática de um centro sem estabelecer que o tratamento produziu a diferença.

06

Caso resolvido

Homem de 54 anos, diabético tipo 2 em uso irregular de metformina, procura o pronto-socorro com dor na face medial da coxa direita iniciada há cerca de 30 horas, depois de um pequeno ferimento por espinho durante trabalho no quintal. Refere que a dor piorou muito nas últimas 8 horas e que "não aguenta o lençol encostando". Ao exame: consciente, prostrado, ansioso, PA 104x62 mmHg, FC 122 bpm, FR 26 ipm, SpO2 95% em ar ambiente, temperatura axilar 38,9 °C. Na coxa há área de eritema de aproximadamente 10 cm, mal delimitada, sem flutuação, sem crepitação e sem bolhas; a palpação revela endurecimento tenso que se estende cerca de 6 cm além da borda avermelhada, e o doente não tolera a palpação superficial. Exames: leucócitos 16.200/mm³, proteína C reativa 180 mg/L, sódio 133 mEq/L, creatinina 1,6 mg/dL (basal 1,0), glicemia 268 mg/dL, hemoglobina 13,1 g/dL, lactato 3,4 mmol/L. O plantonista calcula o escore laboratorial e obtém 5 pontos. Solicita tomografia, que é laudada como "alterações compatíveis com celulite, sem coleções organizadas e sem gás nos planos moles". A equipe discute se inicia antibiótico e reavalia em 6 horas.
primeiro
Reconheça o padrão antes de olhar qualquer número. Dor desproporcional ao que se vê, endurecimento que ultrapassa a borda do eritema, piora acelerada nas últimas horas e repercussão sistêmica num diabético compõem exatamente a tríade de suspeição da diretriz. A ausência de crepitação, de bolhas e de necrose franca não conta contra a hipótese: esses são achados tardios, e o doente está sendo visto cedo — que é a única fase em que a operação ainda é pequena.
segundo
Leia o escore pelo lado que ele serve. Cinco pontos ficam abaixo do limiar de suspeição, e é exatamente sobre esse resultado que a diretriz escreve que a acurácia diagnóstica é ruim e que valor baixo não afasta o diagnóstico. Com sensibilidade em torno de dois terços no corte mais permissivo, um resultado abaixo do limiar num doente com este quadro clínico não muda conduta nenhuma. Usá-lo para justificar observação é usar o instrumento ao contrário.
terceiro
Trate a tomografia da mesma forma. O laudo descreve celulite e não encontra gás, e nenhuma dessas duas informações afasta a hipótese num doente com suspeita clínica alta. A instrução do documento tem duas metades e a segunda é esta: a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia. Aqui ela já consumiu tempo e não respondeu à pergunta; o que ela ainda pode oferecer é o mapa da extensão para planejar as incisões.
quarto
Comece o tratamento clínico sem que ele vire a conduta. Ressuscitação volêmica, correção da glicemia e antimicrobiano empírico de amplo espectro cobrindo gram-positivos com atenção ao resistente à meticilina conforme o cenário local, gram-negativos e anaeróbios, somado a um inibidor de síntese proteica pela supressão de toxina. Tudo isso corre em paralelo com o preparo da sala, e não antes dele: nenhum desses gestos alcança tecido trombosado.
quinto
Marque o limite do eritema a caneta e anote a hora — não para decidir se opera, porque isso já está decidido, mas para dar à equipe da sala uma medida objetiva da velocidade e um ponto de partida para comparar o leito. É o gesto mais barato do plantão e o único capaz de transformar impressão em dado.
sexto
Leve à exploração cirúrgica, que aqui é ao mesmo tempo o exame que confirma e o tratamento. Procure os achados que decidem: fáscia que se descola sem resistência, tecido que não sangra ao corte e líquido turvo acinzentado. Confirmado o diagnóstico, desbride todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra, com margem generosa — a fronteira está além do que o eritema mostrava, e operação econômica aqui obriga a uma terceira.
sétimo
Saia da sala com a próxima operação marcada. A reinspeção é programada por calendário e não por convite do doente: o documento mais recente pede intervalo curto, contado em algumas horas, e antecipação diante de qualquer sinal local ou sistêmico de piora. Colha material para cultura, planeje o descalonamento para quando o antibiograma voltar e converse com a família sobre extensão provável da ferida, número esperado de operações e mortalidade da doença.
07

Agora feche você

Mulher de 61 anos, diabética de longa data e hipertensa, chega ao pronto-socorro de um hospital geral com dor perineal iniciada há 3 dias, hoje intensa, associada a febre e mal-estar progressivo. Relata episódio de abscesso perianal drenado ambulatorialmente há cerca de duas semanas. Ao exame: sonolenta mas orientada, PA 96x58 mmHg, FC 128 bpm, FR 28 ipm, temperatura axilar 39,1 °C. Há eritema e edema tenso em períneo estendendo-se para a região glútea direita e para a raiz da coxa, com duas bolhas de conteúdo escuro na margem lateral e uma pequena área acinzentada, insensível ao toque, junto ao sulco interglúteo. Não se palpa crepitação. Exames: leucócitos 24.000/mm³, creatinina 2,3 mg/dL, sódio 129 mEq/L, glicemia 412 mg/dL, lactato 4,6 mmol/L, pH 7,28. A equipe inicia cristaloide e antimicrobiano de amplo espectro e discute quatro pontos: se solicita tomografia de abdome e pelve antes de levar à sala, qual é a extensão do desbridamento, se indica colostomia no mesmo tempo cirúrgico e o que fazer com os testículos — a paciente é do sexo feminino, e um residente pergunta se a conduta perineal mudaria num homem com o mesmo quadro.
primeiro
Decida sobre a tomografia dizendo, antes, para que ela serviria neste caso — e o que aconteceria se ela viesse normal.
segundo
Defina a extensão do desbridamento e diga qual achado intraoperatório marca o ponto de parar.
terceiro
Decida sobre a derivação do trânsito intestinal enunciando o critério, e diga o que as séries brasileiras mediram sobre colostomia e mortalidade.
quarto
Responda à pergunta do residente sobre os testículos pelo mecanismo anatômico, e diga qual seria a exceção.
quinto
Programe o pós-operatório imediato: quando volta à sala, o que decide antecipar, e o que você diz à família antes da primeira incisão.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar crepitação para indicar a operação Crepitação exige agente produtor de gás e volume suficiente para ser palpável, e falta na maior parte dos casos. Quem a trata como requisito adia a sala em todos os doentes cujo agente não produz gás, que são a maioria. O achado confirma quando está presente e não afasta nada quando está ausente.
  2. 2Usar escore laboratorial baixo para observar mais um pouco A diretriz registra que o escore tem acurácia diagnóstica ruim e que valor baixo não afasta o diagnóstico. Com sensibilidade em torno de dois terços no corte mais permissivo, uma parcela relevante das infecções necrosantes pontua abaixo do limiar — e o doente que chega cedo é justamente o que tende a pontuar baixo.
  3. 3Pedir tomografia para decidir se opera O documento é literal: em suspeita clínica alta, a imagem não deve atrasar nem demover a cirurgia, e nunca substitui o desbridamento. Imagem serve para mapear extensão e planejar incisões em doente estável. Exame descrito como compatível com celulite, num doente com dor desproporcional e progressão horária, não respondeu à pergunta.
  4. 4Ler o alívio da dor como melhora A área que perde sensibilidade perdeu porque os ramos nervosos superficiais foram destruídos junto com o tecido. Dor que cede espontaneamente numa infecção de partes moles em progressão é perda de tecido, não resposta ao tratamento — e costuma vir acompanhada de piora sistêmica.
  5. 5Escalonar o antimicrobiano no doente que não melhora Tecido necrótico e trombosado não recebe perfusão, e nenhum esquema alcança concentração útil dentro dele. Celulite que piora sob tratamento adequado, sobretudo no diabético, deve ser tratada como necrosante até que a exploração diga o contrário. Trocar o esquema é a forma mais comum de adiar a operação que resolve.
  6. 6Fazer desbridamento econômico para poupar a ferida A instrução é retirar todo o tecido necrótico até encontrar tecido viável que sangra, com margem generosa, porque a fronteira da doença está sempre além do que a pele mostrava. A operação incompleta devolve à terapia intensiva um doente com o motor da sepse ligado, e a série brasileira mostra que o número de desbridamentos não foi o que explicou os óbitos.
  7. 7Confundir poupar pele com poupar desbridamento As técnicas que preservam o retalho cutâneo viável concentram a ressecção no tecido diretamente comprometido e reduzem a área a reconstruir. Elas não autorizam deixar tecido necrótico no leito. Confundir as duas coisas produz exatamente a reoperação de resgate que se pretendia evitar.
  8. 8Deixar a reabordagem por conta da evolução clínica Diferente da peritonite já operada por completo, em que a reoperação sob demanda se sustenta, aqui a reinspeção é programada por calendário, porque a fronteira entre vivo e morto continua se movendo sozinha. Esperar sinal de progressão é esperar que a progressão tenha acontecido. As duas edições da diretriz divergem no intervalo, e nenhuma delas admite ficar sem data marcada.
  9. 9Indicar orquiectomia porque a bolsa escrotal foi ressecada Os testículos têm irrigação própria pelas artérias testiculares, que descem pelo cordão a partir da aorta abdominal, independente da vascularização da parede escrotal. Eles costumam ser poupados mesmo com ressecção escrotal ampla. A retirada fica reservada ao testículo comprovadamente inviável ou à origem intratesticular.
  10. 10Derivar o trânsito intestinal por rotina na gangrena de Fournier Na série brasileira de Curitiba a colostomia foi feita em pouco menos da metade dos doentes, e a série de São Paulo não encontrou associação entre colostomia e óbito. O critério é funcional: deriva-se quando a contaminação fecal contínua impede o controle da ferida ou quando o esfíncter está comprometido, não pelo simples fato de a necrose alcançar a região perianal.
  11. 11Transferir para a câmara hiperbárica antes de operar A oxigenoterapia hiperbárica é adjuvante de um doente já ressuscitado, já com antimicrobiano e já desbridado. As fontes divergem sobre seu tamanho, e a série que relata benefício compara subgrupos não sorteados. Nenhuma delas admite que a logística da câmara atrase um desbridamento.
  12. 12Tratar controle local da ferida como sobrevida garantida Um doente brasileiro com fasciíte de face teve a infecção controlada por desbridamentos seriados e curativo a vácuo, com a ferida preparada para reconstrução, e morreu de choque séptico e falência de múltiplos órgãos. A operação bem feita compra a chance; o desfecho depende também da reserva fisiológica e do tempo que a doença correu antes.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor desproporcional à lesão, bolhas violáceas, crepitação (gás) e sinais de choque séptico configuram fasciíte necrosante — emergência cirúrgica. A conduta que muda o prognóstico é o desbridamento cirúrgico precoce, associado a antibioticoterapia de amplo espectro e ressuscitação volêmica. Tratamento oral ambulatorial é fatal nesse contexto. Compressas/anti-inflamatório atrasam a intervenção e podem mascarar. Antibiótico isolado, sem explorar e desbridar o tecido necrótico, é insuficiente — a fonte infecciosa precisa ser removida. O quadro não é herpes-zóster (não há distribuição dermatomérica vesicular nem o padrão descrito).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória duas colunas: à esquerda, os achados que autorizam indicar a exploração (dor desproporcional, edema além do eritema, progressão horária do limite marcado a caneta, desproporção sistêmica); à direita, os que só confirmam tarde (crepitação, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, necrose franca). Ao lado, anote a frase da diretriz sobre imagem, com as duas metades — não atrasar e não demover. Depois recite os três tipos microbiológicos com a proporção aproximada de cada um e diga o que cada um muda no esquema, sem esquecer o inibidor de síntese proteica e o motivo dele.

em 30 dias

Pegue um doente com celulite de membro que não melhorou em vinte e quatro horas de antimicrobiano e decida em voz alta: quais achados você procura antes de tocar no telefone, o que faz com o limite do eritema, o que pede de exame e com que finalidade explícita, e em que momento a conversa deixa de ser sobre diagnóstico e passa a ser sobre horário de sala. Em seguida, refaça o mesmo raciocínio para um doente diabético com dor perineal de dois dias, acrescentando a busca da porta de entrada, o critério funcional da derivação do trânsito e o que você diria à família sobre extensão da ferida, número provável de operações e mortalidade. Termine escrevendo, de memória, quais variáveis a série brasileira associou ao óbito e quais ela testou e não conseguiu associar — e por que a segunda lista muda a sua disposição para desbridar amplamente.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o cirurgião de plantão de um hospital geral sem serviço de cirurgia plástica e sem câmara hiperbárica. Chega um homem de 58 anos, diabético, com dor intensa em membro inferior há um dia e meio, eritema modesto, endurecimento que ultrapassa a borda avermelhada, taquicardia e febre. O clínico já iniciou antibiótico e pede sua opinião sobre "aguardar a resposta em 24 horas". Conduza os primeiros minutos em voz alta: diga quais achados você procura no exame e por que a ausência de crepitação não o tranquiliza, explique ao colega para que serviria uma tomografia neste doente e o que você faria se ela viesse normal, defina o que corre em paralelo enquanto a sala é preparada, e diga à família, antes da incisão, o que espera encontrar, qual a extensão provável da ferida e por que a operação de hoje provavelmente não será a única. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecções necrosantes de partes moles – Infecção necrosante: quem vai para a sala agora — Preparatório para provas | OsceLabs