Farmacologia e Terapêutica › Decidir com o paciente: variação, risco e desprescrição
Adesão: o remédio que não é tomado
Adesão ao tratamento: por que a causa mais comum de falha terapêutica é a droga que não foi tomada, e como perguntar isso sem julgar
Não adesão é causa frequente e multifatorial de resposta insuficiente, mas deve ser investigada com escuta e medidas adequadas, não presumida.
O caso
Caso 1. Seu Antônio tem 64 anos, hipertensão conhecida há doze, e está na terceira consulta com a pressão acima do alvo. Ele usa três anti-hipertensivos de classes diferentes. Na discussão do caso, a equipe começa a falar em hipertensão resistente, levanta a hipótese de causa secundária e planeja uma bateria de exames. Ninguém, em nenhuma das três consultas, perguntou de um jeito que desse a ele a chance de contar que, das três caixas, uma acabou há dois meses e ele não voltou à farmácia.
Pare e faça as perguntas que um aluno de primeiro ano tem o direito de fazer: Por que a primeira explicação que ocorre a todo mundo é que o corpo dele resiste ao remédio, e não que o remédio não entrou nele? E, se eu quisesse saber, como eu saberia? Caso 2. Dona Cleide tem 71 anos e teve alta há seis semanas depois de uma internação por insuficiência cardíaca. Saiu com quatro medicações, duas delas novas. Voltou hoje ao pronto-socorro com falta de ar e ganho de peso. Na bolsa dela está a receita da alta, dobrada, com o carimbo do hospital — e duas das quatro caixas nunca chegaram a ser compradas.
De novo, as perguntas ingênuas — que são as certas: Ela recebeu a receita na mão e não comprou. Isso é falta de vontade dela, ou tem alguma coisa que ninguém perguntou? Guarde as duas cenas, porque elas mostram falhas em pontos diferentes do mesmo caminho. Num caso, o tratamento começou e foi interrompido no meio. No outro, ele nunca chegou a começar. Nos dois, a ficha registrou um tratamento que na verdade não estava acontecendo. O capítulo sobre resistência antimicrobiana, em Mecanismos de Doença e Infecção, já mostrou que existe uma resistência de verdade, com mecanismo molecular, que viaja em plasmídeo e responde à pressão seletiva. Ela existe e é séria. O ponto deste capítulo é que ela costuma ser acusada no lugar de uma explicação mais simples, e que a explicação mais simples é a mais comum.
Este é o capítulo da lição K47: uma causa frequente e subinvestigada de resposta terapêutica insuficiente não é resistência nem quantidade insuficiente de droga — é a droga que não foi tomada, e perguntar isso sem julgar é técnica que se aprende.
A ideia central
Comece pela cadeia inteira, porque quase todo erro deste assunto vem de olhar só o último elo. Para uma droga fazer efeito, ela precisa ser prescrita, comprada, tomada no esquema combinado e mantida ao longo do tempo. Só depois disso tudo é que a farmacologia dos capítulos anteriores começa a valer. A literatura organiza esse caminho em três fases, e é útil decorar os três nomes porque cada um falha por motivo diferente. Iniciação é chegar a tomar a primeira dose. Implementação é tomar conforme o combinado nos dias que se seguem. Persistência é continuar tomando pelo tempo em que o tratamento faz sentido. Falhar na iniciação é diferente de falhar na implementação, e as duas são diferentes de interromper. Quem esquece uma tomada por semana, quem nunca comprou a caixa e quem parou no terceiro mês têm problemas distintos, e a conduta que resolve cada um deles também é distinta.
A primeira falha é a mais invisível, porque acontece fora do hospital e não deixa rastro no prontuário: a receita que nunca vira caixa. Numa coorte de 6.111 internações por insuficiência cardíaca, com prontuário cruzado com registros de dispensação em farmácia, 51% das novas prescrições de betabloqueador nunca foram retiradas. O mesmo aconteceu com 48% das de inibidor do sistema renina-angiotensina, 39% das de antagonista mineralocorticoide e 35% das de inibidor de SGLT2. Some tudo e o resultado é desconfortável: das 4.873 prescrições novas dadas na alta, apenas 54% foram iniciadas em 7 dias, e outros 20% começaram com atraso, entre 7 e 90 dias. Em 6 meses, só 42% dos pacientes estavam aderentes a todos os medicamentos com que tinham recebido alta.
Guarde esse número ao lado de outro fato: a mesma coorte mostra que a prescrição na alta aumentou muito em relação à admissão. Prescrever mais é medida de qualidade em muitos serviços, e é uma medida que não vê nada do que acontece depois da porta.
A segunda fase, a implementação, tem uma régua convencional que vale conhecer: a proporção de dias cobertos, calculada pelo quanto de medicamento a pessoa retirou em relação ao período, com o corte habitual em 80%. É uma medida indireta e generosa — ela mede posse, não ingestão —, e mesmo assim revela muito. Num conjunto de 56 estudos com 75.902 pessoas em uso de uma classe injetável para colesterol, a iniciação foi alta, 91,7%, e a posse do medicamento chegou a 95,1% aos 6 meses. Aos 12 meses, porém, a proporção de dias cobertos caiu para 69,7%, e aos 24 meses a posse estava em 86,5%. A persistência em 12 meses foi de 81,8%, com descontinuação de 12,1%.
Esse conjunto mostra o padrão temporal que se repete em quase toda doença crônica: o começo é bom, e o problema aparece meses depois, quando o tratamento sai da novidade e entra na rotina. Quem só pergunta sobre adesão na primeira consulta pergunta no único momento em que a resposta tende a ser boa. Agora a consequência clínica, medida. Em coorte de 448 pacientes acompanhados por 2 anos após internação por insuficiência cardíaca, 34% tinham proporção de dias cobertos abaixo de 80% em pelo menos uma classe. As reinternações por qualquer causa foram de 92,8% no grupo de adesão baixa contra 85,9% no grupo aderente, com p menor ou igual a 0,01, e as reinternações por insuficiência cardíaca foram de 58,2% contra 48,5%, com p igual a 0,04.
A mesma coorte pede uma leitura sóbria: a mortalidade em 2 anos não diferiu entre os grupos, com 16,9% e 19,1% e p igual a 0,6. É um estudo observacional, com número modesto de participantes, e quem adere difere de quem não adere em muitas outras coisas. O que ele sustenta é a associação com reinternação, e é assim que deve ser citado. Chegamos ao ponto que dá nome ao capítulo. Quando o alvo não é atingido, existe uma bifurcação, e ela decide toda a conduta seguinte. De um lado, a droga chegou ao alvo e não bastou: aí se discute aumentar, associar, trocar de classe, investigar causa secundária, pensar em resistência. Do outro, a droga não chegou: aí nada disso resolve, e tudo isso pode fazer mal.
Repare no custo de errar essa bifurcação. Diante de um paciente que não toma o remédio, escalar o esquema significa acrescentar mais uma caixa a quem já não consegue dar conta das que tem, expor a efeitos adversos sem obter benefício e, em infecção, aplicar pressão seletiva sem controle da doença. A hipótese cara e agressiva é investigada, e a hipótese barata e comum nunca foi testada.
Como saber em qual ramo se está? O instrumento mais usado é a pergunta, e ele tem defeito conhecido. Num ambulatório de hipertensão, 162 pacientes responderam a uma escala de adesão auto-relatada e entregaram urina para análise química por espectrometria de massas: a escala classificou 65% como não aderentes, e a química, 27%. A concordância entre os dois foi fraca, com p igual a 0,142. O detalhe que mais ensina desse estudo é qual das duas medidas andava com a doença. Os pacientes classificados como aderentes pela análise química tinham pressão sistólica menor, com p igual a 0,026, e diastólica menor, com p menor que 0,001; entre os grupos definidos pela escala auto-relatada não houve diferença de pressão nenhuma.
Duas lições saem daí. A primeira: o auto-relato não erra sempre para o mesmo lado — aqui ele acusou mais não adesão do que a química encontrou. A segunda, mais importante: o instrumento que se correlaciona com o desfecho é o objetivo, e um instrumento que não se move junto com aquilo que ele deveria medir tem valor clínico frágil. O teste químico existe e é recomendado como forma objetiva de avaliar a não adesão: detecta a droga ou seus metabólitos em sangue ou urina. Ele não é mágico. A leitura do resultado exige a farmacocinética da apostila sobre o caminho da droga — meia-vida, concentração máxima e concentração mínima esperada no intervalo entre tomadas —, e uma revisão que reuniu esses parâmetros para 20 anti-hipertensivos registra lacunas relevantes na literatura disponível.
E medir não basta, o que é uma lição amarga. Num ensaio randomizado multicêntrico, de 606 pacientes com hipertensão não controlada, 46 foram identificados como não aderentes e sorteados entre receber a informação da dosagem sérica ou seguir no cuidado usual. A pressão caiu 6,7 mmHg num grupo e 7,3 mmHg no outro, com p igual a 0,9, e a adesão melhorou nos dois, 73% contra 59%, com p igual a 0,51. Leia esse ensaio pelo que ele é: pequeno, com 46 participantes randomizados de 606 avaliados, e portanto sem poder para diferenças modestas. Ainda assim, ele desmonta uma fantasia comum — a de que basta mostrar ao paciente a prova de que ele não tomou. Confrontar com evidência não é a mesma coisa que ajudar a tomar.
A técnica da pergunta tem regras que cabem numa mão. Normalize antes de perguntar, dizendo que a dificuldade é comum. Não peça confirmação, peça descrição. Ancore num intervalo curto e recente, como os últimos sete dias, porque memória distante vira estimativa. Pergunte caixa por caixa, e não sobre o conjunto. E deixe claro que a informação serve para ajustar o plano, não para avaliar o caráter de quem responde. Depois de descobrir que existe uma lacuna, vem a pergunta que decide a conduta: por quê? As causas se dividem em dois grupos. Não intencional é quando a pessoa pretende tomar e não consegue: esquecimento, esquema complicado, dificuldade de abrir o frasco, falta na farmácia, preço, rotina caótica. Intencional é quando ela decide não tomar: sente efeito adverso, não sente sintoma da doença, não acredita no diagnóstico, teme dependência, ouviu algo que assustou.
A distinção não é acadêmica. Lembrete e simplificação do esquema resolvem o primeiro grupo e não tocam no segundo. Conversar sobre o efeito adverso sentido, sobre a crença de que doença sem sintoma não precisa de remédio e sobre o custo é o que abre o segundo — e o capítulo anterior, sobre expectativa, mostrou que parte desse efeito adverso sentido nasce da forma como o tratamento foi apresentado. Existe evidência de que trabalhar essas causas funciona. Num ensaio randomizado com 235 adultos em uso de colírio para glaucoma, um programa de 6 meses baseado em entrevista motivacional, conduzido por profissional não médico, com sessões presenciais, telefonemas e lembretes, elevou a adesão medida eletronicamente no frasco para 77,6%, contra 58,0% no grupo que recebeu material escrito padrão — diferença de 19,7%, com intervalo de confiança de 95% de 13,7 a 25,6 e p menor que 0,001.
Um número desse ensaio fecha a discussão sobre auto-relato: para entrar no estudo era preciso relatar adesão de 85% ou menos, e a média auto-relatada na entrada foi de 63,9%. Ou seja, quando a pergunta é feita num contexto que não julga, as pessoas contam. O silêncio do consultório não é característica do paciente; é característica da pergunta.
Falta o lado do sistema, e ele tem um exemplo que assusta. Entre 548 pessoas tratadas de tuberculose e classificadas pelo programa como sucesso terapêutico, a análise dos registros de retirada de medicamento encontrou três padrões: 84,1% com engajamento consistente, que acumularam 9,7 dias de retirada perdidos, e cerca de 16% divididos em dois padrões subótimos, que acumularam 68,4 e 55,5 dias perdidos. Ponha isso ao lado do capítulo sobre resistência antimicrobiana: dezenas de dias sem droga durante um tratamento longo é exatamente a condição que seleciona população resistente, e todas essas pessoas estavam contadas na estatística como tratamento bem-sucedido. O rótulo de sucesso escondeu a heterogeneidade, e o que ficou invisível é justamente o que gera o problema que depois se chama de resistência.
Feche o caso 1. Seu Antônio pode ter hipertensão resistente verdadeira, não adesão ou ambas. Não existe hierarquia universal: a ordem da investigação depende de gravidade, probabilidade clínica, acesso, complexidade do esquema, efeitos adversos e risco de adiar outra causa. Aqui, uma das três caixas havia acabado; pergunta não julgadora, dispensação e, se necessário, teste químico esclarecem exposição antes de intensificar. Feche o caso 2. Dona Cleide teve falha de iniciação, não falha de vontade. O plano precisava testar se as caixas seriam obtidas, quanto custariam e quem as buscaria — barreiras do paciente, tratamento e sistema interagem.
A pergunta de cabeceira deste capítulo: antes de eu concluir que este tratamento falhou, eu sei se ele chegou a ser tomado — e como exatamente eu sei disso?
O mecanismo
As perguntas ingênuas dos dois casos — agora respondíveis.
“Por que pensar em resistência antes de pensar em adesão?”
Porque o prontuário registra a prescrição, e não a ingestão.
“Como eu saberia se ele está tomando?”
Pergunta bem feita, registro de retirada e teste químico.
“Ela não comprou por falta de vontade?”
É falha de iniciação, e metade das receitas novas repete isso.
“Por que a resposta 'estou tomando certinho' engana?”
A pergunta que pede confirmação já traz a resposta embutida.
“Basta mostrar ao paciente que a droga não apareceu?”
Não: confrontar com a prova não superou o cuidado usual.
“Dá para melhorar adesão de verdade?”
Sim: acompanhamento motivacional subiu 19,7 pontos percentuais.
Da dose à exposição
- Colocar a adesão na lista de diferenciais da falha; Identificar em qual das três fases o tratamento parou
- Antes de resistência, causa secundária ou quantidade insuficiente. Iniciação, implementação e persistência falham por motivos distintos.
- Normalizar a dificuldade antes de perguntar; Ancorar a pergunta nos últimos sete dias
- Dizer que muita gente tem dificuldade abre a porta da resposta. Memória de intervalo curto vira dado; memória distante vira estimativa.
- Perguntar caixa por caixa, não sobre o conjunto; Separar causa não intencional de causa intencional
- A falha costuma ser de um item do esquema, não de todos. Esquecimento e acesso pedem conduta diferente de decisão de não tomar.
- Perguntar o preço e quem busca o remédio; Repetir a pergunta meses depois, não só na primeira consulta
- Custo e logística explicam boa parte da receita que não vira caixa. A queda de adesão aparece quando o tratamento vira rotina.
Da exposição ao efeito
Dos dois casos à cadeia da adesão, e dela de volta aos casos.
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Levar a sério as perguntas ingênuas dos casos — Reconstruir a cadeia inteira até o efeito
Por que se acusa o corpo antes de checar se a droga entrou. Atenção: Aceitar que o tratamento falhou sem perguntar se aconteceu. Prescrever, comprar, tomar no esquema e manter no tempo. Atenção: Começar o raciocínio farmacológico depois da prescrição. Iniciação, implementação e persistência, com falhas próprias. Atenção: Tratar toda não adesão como um fenômeno único. A receita que nunca foi retirada não deixa rastro no prontuário. Atenção: Supor que receita entregue equivale a tratamento iniciado.

Por que se acusa o corpo antes de checar se a droga entrou. - 2
Dimensionar a falha de iniciação com números — Notar que prescrever mais é métrica cega
51% das novas prescrições de betabloqueador não foram retiradas. Atenção: Achar que isso acontece só em serviço mal organizado. Ela mede a alta e não enxerga nada depois da porta. Atenção: Confundir indicador de prescrição com tratamento efetivo. Mede posse do medicamento, com corte convencional em 80%. Atenção: Ler posse de medicamento como prova de ingestão. O começo é bom e a adesão cai quando o tratamento vira rotina. Atenção: Perguntar sobre adesão só na consulta em que se prescreve.

51% das novas prescrições de betabloqueador não foram retiradas. - 3
Ligar adesão baixa a desfecho medido — Colocar a bifurcação antes de qualquer escalonamento
Mais reinternação por qualquer causa e por insuficiência cardíaca. Atenção: Citar a associação como se fosse efeito causal comprovado. A droga chegou ao alvo e não bastou, ou não chegou ao alvo. Atenção: Escalar o esquema sem ter respondido essa pergunta. Mais uma caixa, mais adverso e pressão seletiva sem controle. Atenção: Tratar o escalonamento como decisão sem risco. Concordância fraca com a análise química, com p igual a 0,142. Atenção: Registrar o auto-relato como se fosse medida objetiva.

Mais reinternação por qualquer causa e por insuficiência cardíaca. - 4
Verificar qual medida anda junto com o desfecho — Interpretar o teste químico com farmacocinética
A pressão diferiu pela análise química, e não pela escala. Atenção: Escolher instrumento pela praticidade e não pelo desempenho. Meia-vida e concentração mínima no intervalo entre tomadas. Atenção: Ler ausência da droga sem considerar quando ela foi tomada. Informar a dosagem sérica não superou o cuidado usual. Atenção: Confrontar o paciente com a prova e chamar isso de conduta. Descrever em vez de confirmar, em intervalo curto e caixa a caixa. Atenção: Perguntar se está tomando direitinho e anotar que sim.

A pressão diferiu pela análise química, e não pela escala. - 5
Separar causa não intencional de causa intencional — Reconhecer que intervenção estruturada funciona
Lembrete e simplificação não tocam na decisão de não tomar. Atenção: Oferecer alarme no celular para quem parou por efeito adverso. Adesão de 77,6% contra 58,0%, com p menor que 0,001. Atenção: Concluir que adesão é fatalidade do paciente. Dezenas de dias sem droga dentro de tratamentos declarados bem-sucedidos. Atenção: Aceitar o rótulo de sucesso sem olhar o padrão de retirada. Saber se o tratamento chegou a ser tomado, e como se sabe. Atenção: Declarar falha terapêutica sem ter medido a exposição.

Lembrete e simplificação não tocam na decisão de não tomar.
Benefício e dano
- Adesão alta nas primeiras semanas de um tratamento recém-iniciado.
- Alguma variação de horário e alguma dose esquecida ao longo de meses.
- Queda de pressão arterial compatível com o esquema efetivamente tomado.
- Paciente que relata a dificuldade quando a pergunta é feita sem julgamento.
- Receita da alta encontrada intacta na bolsa semanas depois
- Falha de iniciação, a não adesão primária do esquema.
- Registro de retirada na farmácia cobrindo menos de 80% dos dias
- Falha de implementação: posse do medicamento insuficiente.
- Última retirada de medicamento há vários meses
- Falha de persistência: o tratamento foi interrompido.
- Droga ou metabólito ausente na urina de quem diz estar tomando
- Exposição efetiva à droga não confirmada pelo teste químico.
- Pressão fora do alvo com três classes e sem causa secundária
- Pede a bifurcação antes de novo escalonamento do esquema.
- Adesão que cai a partir do sexto mês de tratamento crônico
- Padrão temporal habitual quando o tratamento vira rotina.
- Paciente que para o remédio por sentir efeito adverso
- Causa intencional: lembrete e simplificação não resolvem.
- Tratamento concluído no papel com dezenas de dias sem droga
- Lacuna de exposição que seleciona população resistente.
O que modifica a resposta
As duas cenas de abertura falham em pontos diferentes da mesma cadeia. Seu Antônio parou no meio; Dona Cleide nunca começou. Nos dois, o prontuário registra um tratamento em curso, e o tratamento não está acontecendo. A dimensão da falha de iniciação foi medida com registros de dispensação em farmácia, e não com pergunta. Numa coorte de 6.111 internações por insuficiência cardíaca, nunca foram retiradas 51% das novas prescrições de betabloqueador, 48% das de inibidor do sistema renina-angiotensina, 39% das de antagonista mineralocorticoide e 35% das de inibidor de SGLT2. Das 4.873 prescrições novas, 54% foram iniciadas em 7 dias, e aos 6 meses 42% dos pacientes estavam aderentes a todas.
Na fase seguinte, o padrão é temporal. Em 56 estudos com 75.902 pessoas em uso de uma classe injetável para colesterol, a iniciação foi de 91,7% e a posse de medicamento de 95,1% aos 6 meses, enquanto a proporção de dias cobertos aos 12 meses foi de 69,7% e a persistência, de 81,8%. O começo é bom; o problema mora depois. Adesão baixa tem consequência medida. Em 448 pacientes seguidos por 2 anos após internação por insuficiência cardíaca, com 34% abaixo de 80% de dias cobertos, as reinternações por qualquer causa foram de 92,8% contra 85,9%, com p menor ou igual a 0,01, e as por insuficiência cardíaca de 58,2% contra 48,5%, com p igual a 0,04. A mortalidade não diferiu, com 16,9% e 19,1% e p igual a 0,6, e a coorte é observacional — a associação é com reinternação, e é assim que ela deve ser citada.
O instrumento mais usado para detectar o problema tem desempenho frágil. Em 162 pacientes de ambulatório de hipertensão, a escala auto-relatada classificou 65% como não aderentes e a análise química da urina, 27%, com concordância fraca e p igual a 0,142. E só o grupo definido pela química diferiu em pressão arterial, com p igual a 0,026 na sistólica e p menor que 0,001 na diastólica. Medir, porém, não é o mesmo que resolver. Num ensaio randomizado, entre 606 pacientes com hipertensão não controlada, 46 identificados como não aderentes foram sorteados entre receber a informação da dosagem sérica e o cuidado usual: a pressão caiu 6,7 e 7,3 mmHg, com p igual a 0,9, e a adesão melhorou nos dois braços, com 73% e 59% e p igual a 0,51. O estudo é pequeno, e ainda assim desfaz a ideia de que confrontar com a prova é conduta.
O que moveu adesão de verdade foi acompanhamento. Em 235 adultos em uso de colírio para glaucoma, seis meses de programa baseado em entrevista motivacional elevaram a adesão medida no frasco a 77,6%, contra 58,0% no grupo que recebeu material escrito, com diferença de 19,7% e intervalo de 13,7 a 25,6. E a adesão auto-relatada média na entrada foi de 63,9%: perguntada num contexto que não julga, a dificuldade é contada. Falta o elo com a apostila de antimicrobianos. Entre 548 pessoas tratadas de tuberculose e classificadas como sucesso terapêutico, 84,1% tiveram engajamento consistente, com 9,7 dias de retirada perdidos, e cerca de 16% acumularam 68,4 e 55,5 dias perdidos. Dezenas de dias sem droga num tratamento longo é a condição que seleciona resistência — dentro de um grupo contado como bem-sucedido.
Junte tudo e o capítulo entrega uma regra de ordem. Diante de um alvo não atingido, a hipótese de exposição insuficiente vem antes da hipótese de resistência, porque é mais comum, mais barata de testar e porque errar essa ordem produz dano: mais uma caixa para quem já não dá conta, mais efeito adverso sem benefício e, em infecção, mais pressão seletiva sem controle da doença.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Quantas receitas novas de alta nunca chegam a virar tratamento | Coorte de 6.111 internações com registros de dispensação em farmácia (E3). | Em coorte de 6.111 internações por insuficiência cardíaca, cerca de metade das prescrições novas de alta nunca chegou a ser retirada na farmácia (51% dos betabloqueadores, 48% dos inibidores do sistema renina-angiotensina, 35% dos inibidores de SGLT2), e apenas 42% dos pacientes estavam aderentes a todos os medicamentos em 6 meses. | Initiation, adherence, and persistence to guideline-directed medical therapy after heart failure hospitalization. JAMA Intern Med. 2026. doi:10.1001/jamainternmed.2026.2908 |
| O que a escala auto-relatada acerta e o que ela deixa passar | Estudo transversal com 162 pacientes e análise química de urina (E3). | Em 162 hipertensos, a escala de adesão auto-relatada classificou 65% como não aderentes e a dosagem do fármaco na urina, 27%; a concordância entre os métodos foi fraca, e só o grupo aderente pela análise química tinha pressão mais baixa. | Adherence to antihypertensive medications in Omani patients: a comparison of drug biochemical analysis and the Morisky Medication Adherence Scale. J Hypertens. 2025. doi:10.1097/hjh.0000000000003917 |
| Informar o paciente da dosagem sérica não substituiu o cuidado usual | Ensaio randomizado multicêntrico com 46 pacientes randomizados (E1). | Em ensaio randomizado com 46 hipertensos não aderentes, devolver ao paciente a dosagem sérica do anti-hipertensivo reduziu a pressão sistólica em 6,7 mmHg contra 7,3 mmHg no cuidado usual (p = 0,9), sem ganho adicional de adesão; o estudo ficou abaixo do tamanho planejado. | Effect of therapeutic drug monitoring on adherence and blood pressure: a multicenter randomized clinical trial. Am J Hypertens. 2024. doi:10.1093/ajh/hpae059 |
| Acompanhamento estruturado move a adesão medida por dispositivo | Ensaio randomizado com 235 participantes e adesão medida por dispositivo (E1). | Em ensaio randomizado com 235 adultos com glaucoma, 6 meses de acompanhamento estruturado por entrevista motivacional elevaram a adesão medida pelo frasco eletrônico de 58,0% para 77,6%, com 54,9% do grupo da intervenção contra 23,7% do controle atingindo adesão de 80% ou mais. | Effect of the support, educate, empower personalized glaucoma coaching program on medication adherence: the SEE program randomized clinical trial. JAMA Ophthalmol. 2026. doi:10.1001/jamaophthalmol.2026.0001 |
| Adesão baixa associa-se a mais reinternação, e não à mortalidade nesta coorte | Coorte multicêntrica de 448 pacientes com 2 anos de seguimento (E3). | Em coorte de 448 pacientes com alta após internação por insuficiência cardíaca, 34% tinham adesão baixa; em 2 anos a mortalidade não diferiu (16,9% contra 19,1%), mas a reinternação por insuficiência cardíaca foi maior no grupo de adesão baixa (58,2% contra 48,5%). | Drug adherence after hospitalisation for heart failure: what have we learned from a French survey? J Clin Med. 2026. doi:10.3390/jcm15093483 |
| O rótulo de tratamento bem-sucedido esconde lacunas de exposição | Coorte de 548 pacientes com modelagem de trajetórias de retirada (E3). | Entre 548 pacientes com tuberculose que o programa classificou como sucesso terapêutico, 16% seguiram trajetória de engajamento subótimo e acumularam 55 a 68 dias sem retirar o medicamento, contra 9,7 dias no grupo consistente: o rótulo de tratamento concluído esconde lacunas de exposição. | Hidden in success: gendered patterns of suboptimal care engagement among tuberculosis patients who successfully completed treatment in South Africa. Clin Infect Dis. 2026. doi:10.1093/cid/ciaf714 |
Como comparar
As perguntas dos casos, o mecanismo que responde e a resposta.
| Pergunta do caso | Mecanismo que responde | Resposta em uma linha |
|---|---|---|
| Por que pensar em resistência antes? | Viés do registro | O prontuário guarda a prescrição, e não a ingestão |
| Como saber se ele toma? | Três instrumentos | Pergunta que normaliza, registro de retirada e teste químico |
| Ela não comprou por preguiça? | Falha de iniciação | Não adesão primária, que atinge metade das receitas novas |
| Por que ele disse que toma tudo? | Forma da pergunta | Pedir confirmação entrega a resposta desejada ao paciente |
| Mostrar a prova resolve? | Ensaio de monitorização | Não superou o cuidado usual naquele ensaio pequeno |
As três fases da adesão e o que resolve cada falha
| Como se manifesta | Por onde começar | |
|---|---|---|
| Iniciação | A receita nunca virou caixa na farmácia | Perguntar preço, acesso e quem vai buscar antes da alta |
| Implementação | Doses puladas e horários trocados na rotina | Simplificar o esquema e trabalhar lembretes e rotina |
| Persistência | Interrupção meses depois do início | Perguntar o motivo da parada antes de represcrever |
| Causa intencional em qualquer fase | Decisão de não tomar por adverso, custo ou crença | Conversar sobre o motivo: lembrete não alcança decisão |
Os números citados neste capítulo
| Medida | Valor |
|---|---|
| Prescrições de betabloqueador nunca retiradas após alta por insuficiência cardíaca | 51% de 1.904 |
| Pacientes aderentes a todos os medicamentos da alta aos 6 meses | 42% |
| Não adesão pela escala auto-relatada e pela análise química | 65% contra 27%, com concordância fraca |
| Efeito de informar a dosagem sérica sobre a pressão | 6,7 contra 7,3 mmHg, com p igual a 0,9 |
| Adesão com acompanhamento motivacional contra material escrito | 77,6% contra 58,0% (diferença de 19,7%) |
| Dias de retirada perdidos nas trajetórias subótimas de tuberculose | 68,4 e 55,5 dias, dentro do rótulo de sucesso |
- A ordem correta é exposição antes de resistência: a hipótese mais comum e mais barata de testar vem primeiro.
- Posse de medicamento não é ingestão, e auto-relato não é medida objetiva — cada instrumento responde a uma pergunta diferente.
Armadilhas e segurança
- Concluir falha terapêutica sem checar a exposição; Acusar resistência antes de descartar a droga não tomada; Supor que receita entregue é tratamento iniciado
- A hipótese mais comum é a que não foi testada. A resistência existe e costuma ser culpada no lugar errado. Metade das novas prescrições de betabloqueador não foi retirada.
- Perguntar se o paciente está tomando direitinho; Perguntar sobre o esquema inteiro de uma vez; Ancorar a pergunta num período longo demais
- A pergunta pede confirmação e recebe a resposta desejada. A falha costuma ser de uma caixa específica do conjunto. Memória distante devolve estimativa, e não contagem.
- Anotar o auto-relato como medida objetiva; Ler posse de medicamento como prova de ingestão; Interpretar teste químico sem a farmacocinética da droga
- A concordância com a análise química foi fraca, com p de 0,142. A proporção de dias cobertos mede retirada, não tomada. Meia-vida e intervalo desde a última tomada mudam a leitura.
- Confrontar o paciente com a prova e parar por aí; Oferecer lembrete a quem parou por efeito adverso; Perguntar sobre adesão só na consulta em que se prescreve
- Informar a dosagem sérica não superou o cuidado usual. Causa intencional não se resolve com alarme no celular. A queda aparece meses depois, quando vira rotina.
- Escalar o esquema para quem já não dá conta do atual; Aceitar o rótulo de tratamento bem-sucedido sem olhar as retiradas
- Acrescenta adverso e custo sem acrescentar benefício. Dezenas de dias sem droga cabem dentro desse rótulo.
Fechando o caso
Dos dois casos à cadeia da adesão, e dela de volta aos casos.
- 01Levar a sério as perguntas ingênuas dos dois casos Reconstruir a cadeia da prescrição até o efeito Nomear iniciação, implementação e persistência
- 02Reconhecer a não adesão primária e sua invisibilidade Dimensionar a falha de iniciação com os números da coorte Notar que prescrever mais não mede tratamento efetivo
- 03Ler a proporção de dias cobertos como posse, não ingestão Reconhecer a queda de adesão ao longo dos meses Ligar adesão baixa a mais reinternação, com sobriedade
- 04Colocar a bifurcação antes de qualquer escalonamento Calcular o dano de escalar em quem não está tomando Conhecer o desempenho frágil do auto-relato
- 05Verificar qual instrumento se move junto com o desfecho Interpretar o teste químico com a farmacocinética da droga Separar medir o problema de resolver o problema
- 06Aplicar a técnica da pergunta que normaliza a dificuldade Classificar a causa em não intencional ou intencional Fechar pela pergunta de cabeceira sobre a exposição real
Questões (10)
Ponte para o atendimento
No caso vinculado, use esta regra como hipótese de trabalho: Não adesão é causa frequente e multifatorial de resposta insuficiente, mas deve ser investigada com escuta e medidas adequadas, não presumida. Reconstrua indicação, dose, via, tempo, exposições concomitantes e reserva do paciente antes de atribuir causalidade ou modificar o tratamento.
Converta o mecanismo em um plano verificável: explicite o benefício esperado, o dano que será procurado, o prazo de reavaliação e o limite para manter, ajustar, trocar ou retirar. Registre também o que foi discutido com o paciente e qual incerteza permanece.
Revisão espaçada
Quais são as três fases da adesão e qual falha é característica de cada uma? Por que a proporção de dias cobertos não é prova de ingestão? Qual foi a diferença entre a não adesão medida por escala auto-relatada e por análise química de urina, e qual das duas se correlacionou com a pressão arterial?
Explique os dois casos de abertura por inteiro: por que a pressão de Seu Antônio segue fora do alvo com três classes, e por que Dona Cleide voltou ao pronto-socorro seis semanas após a alta — dizendo, em cada um, qual fase da adesão falhou, qual instrumento você usaria para confirmar e qual conduta seria dano se a hipótese de exposição insuficiente estivesse certa.
