Farmacologia e TerapêuticaDecidir com o paciente: variação, risco e desprescrição

Explicar risco sem enganar

Riscos absoluto e relativo respondem a perguntas diferentes; decisão exige risco basal, horizonte de tempo, benefício, dano e valores do paciente.

01

O caso

Caso 1. Rogério tem 52 anos, nunca teve doença do coração, tem colesterol um pouco alto e nenhuma queixa. Numa consulta de rotina, ouve a frase que decide o assunto em quatro segundos: este remédio reduz o seu risco de infarto em mais de um terço. Ele sai da sala convencido, e com razão — mais de um terço é muita coisa. O que ele não ouviu foi de quanto era o risco dele antes, para quanto ele passa a ser depois, em quantos anos, e o que ele ganha se não tomar nada.

Pare e faça as perguntas que um aluno de primeiro ano tem o direito de fazer: Um terço de quê, exatamente? E, se a redução é tão grande assim, por que a médica dele hesitou antes de prescrever? Caso 2. Na sala de hemodinâmica, um homem com infarto de parede inferior vai ser desobstruído. Antes de abrir a artéria, a equipe usa uma medicação preventiva, e o motivo é dito com o mesmo formato de frase do caso anterior: isso reduz em cerca de dois terços a chance de ele ter queda de pressão e bradicardia na reperfusão. Aqui, ninguém hesita.

De novo, as perguntas ingênuas — que são as certas: Como pode a mesma conta, reduziu tanto por cento, valer tão pouco num caso e tanto no outro? O número está mentindo em algum dos dois? Guarde as duas cenas, porque a resposta é desconfortável: o número não mente em nenhum dos dois. Ele é insuficiente nos dois. E é exatamente essa insuficiência que faz dele o número preferido de quem quer convencer. Este é o último capítulo da área, e ele fecha o caminho que começou na primeira apostila. Ali a pergunta era se a droga chega. Depois, o que ela faz quando chega, em que alvo, com que efeito indesejado previsível. Nos últimos capítulos, por que a mesma quantidade age diferente em cada pessoa e se ela chega a ser tomada. Falta a última pergunta, que é a que o paciente faz: e o que eu ganho com isso?

Este é o capítulo da lição J17: o risco relativo compara proporções e o risco absoluto mostra a diferença no risco basal — escolher a forma de apresentar é escolha ética, e o número de que o paciente precisa é o absoluto, com horizonte de tempo.

02

A ideia central

Comece pelo começo, que é mais simples do que parece. Todo ensaio clínico produz dois números básicos: quantos eventos aconteceram no grupo que não recebeu o tratamento e quantos aconteceram no grupo que recebeu. Chame o primeiro de risco sem tratar e o segundo de risco tratando. Tudo o mais que se lê num artigo é derivado desses dois. Da diferença entre eles sai a redução absoluta de risco: quanto do risco desapareceu, medido na mesma escala em que o risco foi medido. Da razão entre eles sai a redução relativa de risco: que fração do risco desapareceu, medida em proporção do que existia antes. E do inverso da redução absoluta sai o número necessário para tratar: quantas pessoas precisam receber o tratamento, por aquele tempo, para que um evento seja evitado.

Repare no que cada uma guarda e no que cada uma joga fora. A redução absoluta carrega o risco de base junto; ela é uma diferença, e diferenças têm unidade. A redução relativa é uma razão, e razões descartam o denominador: ela é a mesma quer o risco de base seja de 50% ou de 0,5%. Essa indiferença é a virtude científica dela e é também o defeito comunicativo dela.

Coloque as duas cenas na mesma régua. Em prevenção primária, terapias hipolipemiantes reduziram infarto com risco relativo de 0,64, ou 36% de redução relativa. Em uma população de maior risco, o NNT estimado foi 78,3 em 10 anos. Expresso com denominador fixo, isso corresponde a cerca de 13 eventos evitados a cada 1.000 pessoas tratadas por 10 anos. O relativo resume a proporção; a frequência natural mostra o benefício absoluto, para quem e em qual horizonte.

No ensaio da hemodinâmica, o desfecho ocorreu em 493 de cada 1.000 pessoas com placebo e em 173 de cada 1.000 com o fármaco no período do estudo: cerca de 320 eventos evitados por 1.000 tratados, redução relativa de 65% e NNT próximo de 3. Compare sempre 1.000 com 1.000 e mantenha explícito o horizonte próprio de cada estudo: cerca de 13 por 1.000 em 10 anos no primeiro exemplo e 320 por 1.000 no período agudo do segundo. A diferença vem do risco de base, não de trocar o denominador para tornar uma frase mais impressionante.

A regra que sai daí é mecânica e vale para qualquer tratamento: a redução absoluta é o produto da redução relativa pelo risco de base. Um mesmo tratamento, com o mesmo efeito relativo, entrega muito em quem tem muito a perder e quase nada em quem tem pouco. Não é o remédio que muda entre os dois pacientes — é o denominador. Por isso o escore de risco não é burocracia de guideline. Ele existe para estimar o risco de base daquela pessoa, que é o número que transforma um efeito relativo publicado em benefício individual esperado. Sem ele, aplica-se a média de uma população a alguém que pode estar longe da média.

E essa escolha tem consequência de larga escala. Num estudo de modelagem com 7.287 adultos, representando 324,6 milhões de pessoas, decidir a elegibilidade pelo risco absoluto em 10 anos ou pelo benefício individual previsto levou a números parecidos de elegíveis, 50,3 milhões contra 49,2 milhões, e a números parecidos de eventos evitados. Mas, entre os 58,9 milhões elegíveis por alguma das duas regras, a concordância foi de apenas 68,9%: cerca de um terço das pessoas selecionadas era diferente.

Vale defender a medida relativa antes de seguir, para o capítulo não virar caricatura. Ela não é o vilão: é justamente por descartar o risco de base que ela se transporta de uma população para outra, e é por isso que ela é a forma correta de resumir o efeito de um tratamento na literatura. O problema não está em calculá-la — está em entregá-la sozinha a uma pessoa que precisa decidir. Há ainda um segundo número que a frase de vitrine costuma esconder, e ele é o mais importante de todos: o desfecho escolhido. Na mesma metanálise de prevenção primária, com os mesmos 85.829 participantes, a mortalidade por qualquer causa foi de 3,9% no grupo tratado e 3,9% no controle, com risco relativo de 0,98 e intervalo de 0,89 a 1,07. Não houve redução de morte.

Segure as duas afirmações ao mesmo tempo, porque as duas são verdadeiras e vêm do mesmo trabalho: naquele grupo de pessoas sem doença prévia, o tratamento reduziu infarto, revascularização, acidente vascular cerebral e internação cardiovascular, e não reduziu mortalidade. Dizer só a primeira metade é vender; dizer só a segunda é sabotar. Dizer as duas é informar. Existe um cardápio de manobras que transformam um resultado modesto numa manchete, e conhecê-lo protege o aluno pelo resto da carreira. A primeira é a que este capítulo inteiro trata: dar o relativo sem o absoluto. A segunda é trocar o desfecho por um substituto — falar do exame que melhorou em vez do evento que não aconteceu. A terceira é o desfecho composto, em que a soma se move por causa do componente mais leve enquanto o mais grave fica parado.

A quarta é omitir o horizonte de tempo. Um número necessário para tratar sem prazo é um número sem significado, porque tratar 78 pessoas por dez anos e tratar 78 pessoas por um mês são propostas radicalmente diferentes. A quinta é apresentar o benefício em detalhe e o dano em uma frase genérica, o que quebra a comparação. Isso não é suspeita: foi medido na própria literatura. Numa revisão de meta-pesquisa com 160 ensaios clínicos, 97% dos resumos continham ao menos um item de distorção de apresentação; 90% deixaram de mencionar eventos adversos e 77% interpretaram de forma excessivamente entusiasmada desfechos primários sem significância estatística. Em outra revisão, dedicada a 40 ensaios que tinham desfecho primário sem significância, a distorção apareceu em ao menos uma seção em 62,5% dos artigos e em três ou mais seções em 47,5%, sobretudo na conclusão do resumo. Ela foi mais frequente em estudos com amostra menor, com razão de chances de 7,00 e intervalo de 1,29 a 37,91. Ou seja: quanto menos o estudo tinha a dizer, mais a forma de dizer foi trabalhada.

Do lado da solução, a boa notícia é que informar direito é intervenção testada. Em 32 ensaios randomizados de decisões cardiovasculares, os pacientes que usaram instrumentos estruturados de apoio à decisão tiveram 12% mais conhecimento, em 20 ensaios, e 127% mais percepções acuradas de risco, em 7 ensaios, além de sentirem-se menos desinformados e menos submetidos a decisões tomadas apenas pelo profissional. Nenhum dano foi identificado. Repare no desfecho mais eloquente dessa lista: percepção acurada de risco. Não é sobre concordar com o médico, e sim sobre a pessoa passar a ter, na cabeça, um número parecido com o número real. É isso que o consentimento exige, e é isso que a frase de vitrine impede.

Na prática, o paciente precisa de quatro coisas ditas em voz alta, e elas cabem em meio minuto: qual é o risco dele sem o tratamento, qual passa a ser com o tratamento, em quanto tempo, e qual é o dano possível na mesma unidade em que o benefício foi expresso. Se uma das quatro faltar, ele não tem como decidir — tem apenas como concordar. Existe uma simetria que fecha o arco desta apostila. No capítulo sobre expectativa, a forma de enunciar a probabilidade de um efeito adverso mudava o que o paciente esperava sentir; aqui, a forma de enunciar a probabilidade de um benefício muda o que ele decide fazer. É a mesma lição em duas direções, e ela não é sobre retórica: é sobre a informação que sobra depois que a frase termina.

Feche o caso 1. Rogério ouviu um número verdadeiro e insuficiente. O que muda a conversa dele não é desmentir os 36%: é estimar o risco dele, dizer para quanto ele vai, dizer em quantos anos, e colocar ao lado o que se sabe sobre efeitos adversos — inclusive que boa parte do sintoma muscular atribuído a essa classe não se confirma no re-desafio mascarado, como o capítulo sobre expectativa mostrou. A hesitação da médica dele não era dúvida sobre a droga; era consciência de que faltavam três dos quatro números. Feche o caso 2. Na hemodinâmica, ninguém hesitou porque o risco de base era de 49,3%, e um efeito relativo grande sobre um risco grande produz benefício absoluto grande: 32 pontos percentuais, um evento evitado a cada três pessoas tratadas, hoje. A frase de vitrine ali coincide com a realidade — não porque o número relativo seja melhor, mas porque o denominador é alto o bastante para que ele não engane.

E agora a última volta, que é a da área inteira. Sete apostilas fizeram sete perguntas encadeadas sobre a mesma seta que vai do frasco ao paciente. A droga chega ao alvo, e em que quantidade, e por quanto tempo? O que ela faz quando chega, e que efeito indesejado o mesmo alvo torna previsível? Onde fica o alvo mais usado da medicina, e por que mexer no sistema autônomo repercute em tudo? O que muda quando o alvo está no coração, no vaso, no rim e no sangue? O que muda quando o alvo é a dor, a inflamação e o sistema nervoso central? E quando o alvo não é uma célula nossa, mas de um micro-organismo dentro de um ecossistema que responde à pressão que fazemos sobre ele? Por fim: quem é a pessoa que recebe tudo isso — a idade dela, o rim dela, o gene dela, a expectativa dela, a rotina dela, a lista de caixas dela?

As seis primeiras perguntas são de farmacologia. A sétima é de medicina, e é a que transforma as outras seis em cuidado. Um aluno que saiba responder às seis e não saiba responder à sétima sabe descrever drogas; um que responda às sete começa a tratar pessoas. A pergunta de cabeceira deste capítulo: qual é o risco desta pessoa sem o tratamento, qual passa a ser com ele, em quanto tempo — e ela ficou sabendo do benefício e do dano na mesma unidade?

03

O mecanismo

As perguntas ingênuas dos dois casos — agora respondíveis.

  • Um terço de quê, exatamente?

    Do risco de base dele, que a frase relativa não menciona.

  • Por que a médica hesitou diante de 36%?

    Faltavam três dos quatro números que permitem decidir.

  • Como a mesma conta vale tão pouco e tanto?

    O benefício absoluto é o efeito relativo vezes o risco de base.

  • O número relativo está mentindo?

    Não: ele é verdadeiro e insuficiente sozinho.

  • Por que dizer o prazo junto do número?

    Tratar 78 pessoas por dez anos ou por um mês são propostas distintas.

  • Então nunca se usa risco relativo?

    Usa-se: é ele que transporta o efeito entre populações.

04

Da dose à exposição

Perguntar o risco de base antes de citar qualquer redução; Converter o efeito relativo em benefício absoluto daquela pessoa
Sem o denominador, nenhuma porcentagem tem tamanho. Redução relativa vezes risco de base é o que ela ganha.
Dizer o horizonte de tempo junto do número; Nomear o desfecho de que se está falando
Número necessário para tratar sem prazo não tem significado. Reduzir infarto e reduzir morte são afirmações diferentes.
Checar se o desfecho é clínico ou substituto; Abrir o desfecho composto em seus componentes
Exame que melhora não é evento que deixou de acontecer. Ver qual deles moveu a soma antes de citar o conjunto.
Apresentar dano e benefício na mesma unidade; Verificar se o paciente ficou com um número na cabeça
Comparação exige denominador e horizonte iguais dos dois lados. O alvo é percepção acurada de risco, e não concordância.
05

Da exposição ao efeito

Dos dois casos ao risco de base, e dele de volta à conversa com o paciente.

  1. 1

    Levar a sério as perguntas ingênuas dos casos — Reconhecer os dois riscos que todo ensaio produz

    Um terço de quê, e por que a mesma conta vale diferente. Atenção: Aceitar a porcentagem sem perguntar de que ela é fração. O risco sem tratar e o risco tratando, na mesma população. Atenção: Começar a leitura pela conclusão do resumo. É uma diferença, e diferenças carregam o risco de base. Atenção: Confundir a diferença entre riscos com a razão entre eles. É proporção do risco que existia antes, e descarta o denominador. Atenção: Tratar a razão como se ela tivesse unidade clínica.

    Esquema farmacológico de levar a sério as perguntas ingênuas dos casos — reconhecer os dois riscos que todo ensaio produz: Um terço de quê, e por que a mesma conta vale diferente.
    Um terço de quê, e por que a mesma conta vale diferente.
  2. 2

    Derivar o número necessário para tratar — Comparar os dois casos com os números reais

    É o inverso da redução absoluta e herda o prazo do estudo. Atenção: Citar esse número sem o horizonte de tempo que o define. Reduz 36% com 78 pessoas em dez anos; reduz 65% com 3 pessoas hoje. Atenção: Julgar o tamanho do benefício pela frase relativa. Benefício absoluto é efeito relativo vezes risco de base. Atenção: Supor que o mesmo remédio rende o mesmo em qualquer pessoa. Estimar o risco de base que individualiza o benefício. Atenção: Aplicar a média de uma população a quem está longe dela.

    Esquema farmacológico de derivar o número necessário para tratar — comparar os dois casos com os números reais: É o inverso da redução absoluta e herda o prazo do estudo.
    É o inverso da redução absoluta e herda o prazo do estudo.
  3. 3

    Reconhecer o impacto da regra de elegibilidade — Defender o uso legítimo da medida relativa

    Concordância de 68,9% entre duas estratégias razoáveis. Atenção: Achar que critério de elegibilidade é detalhe administrativo. É ela que transporta o efeito de uma população para outra. Atenção: Concluir que risco relativo é sempre manipulação. Reduzir infarto e não reduzir mortalidade convivem no mesmo estudo. Atenção: Generalizar o efeito de um desfecho para todos os outros. Exame que melhora não é evento que deixou de acontecer. Atenção: Prometer proteção com base em marcador laboratorial.

    Esquema farmacológico de reconhecer o impacto da regra de elegibilidade — defender o uso legítimo da medida relativa: Concordância de 68,9% entre duas estratégias razoáveis.
    Concordância de 68,9% entre duas estratégias razoáveis.
  4. 4

    Abrir o desfecho composto — Exigir o horizonte de tempo em qualquer número

    Ver se a soma se moveu pelo componente mais leve. Atenção: Citar o composto como se todos os componentes tivessem se movido. O prazo faz parte da medida, e não é adorno. Atenção: Comparar números de estudos com durações diferentes. Sem simetria de unidade não existe comparação possível. Atenção: Detalhar o benefício e resumir o dano numa frase genérica. Em 160 ensaios, 97% dos resumos tinham ao menos um item. Atenção: Confiar na conclusão do resumo sem conferir os números.

    Esquema farmacológico de abrir o desfecho composto — exigir o horizonte de tempo em qualquer número: Ver se a soma se moveu pelo componente mais leve.
    Ver se a soma se moveu pelo componente mais leve.
  5. 5

    Suspeitar mais quando o estudo tem pouco a dizer — Usar instrumento estruturado de apoio à decisão

    A distorção foi mais frequente em amostras menores. Atenção: Ler ênfase de linguagem como sinal de tamanho de efeito. Mais conhecimento e percepções de risco mais acuradas, sem dano. Atenção: Substituir a conversa pela entrega de um folheto. Sem tratar, tratando, em quanto tempo e o dano na mesma unidade. Atenção: Obter concordância no lugar de uma decisão informada. A droga chega, faz o que se quer, nesta pessoa, com que ganho. Atenção: Saber descrever drogas sem saber decidir com o paciente.

    Esquema farmacológico de suspeitar mais quando o estudo tem pouco a dizer — usar instrumento estruturado de apoio à decisão: A distorção foi mais frequente em amostras menores.
    A distorção foi mais frequente em amostras menores.
06

Benefício e dano

Normal
  • Efeito relativo semelhante entre pessoas com riscos de base diferentes.
  • Benefício absoluto maior em quem tem risco de base mais alto.
  • Número necessário para tratar sempre acompanhado do horizonte de tempo.
  • Paciente que, ao fim da conversa, sabe dizer seu risco com e sem tratamento.
Redução relativa apresentada sem o risco de base correspondente
Número verdadeiro e insuficiente para qualquer decisão.
Número necessário para tratar citado sem prazo
Medida sem significado, porque o horizonte a define.
Benefício descrito por marcador laboratorial que melhorou
Desfecho substituto no lugar do evento que importa.
Desfecho composto que se move pelo componente mais leve
A soma sugere um benefício que o componente grave não teve.
Benefício em números e dano em frase genérica
Assimetria de unidade que impede a comparação pelo paciente.
Redução de eventos não fatais sem redução de mortalidade
Duas afirmações verdadeiras do mesmo estudo, e ambas devem ser ditas.
Conclusão entusiasmada em estudo com desfecho primário sem significância
Padrão de distorção mais frequente em amostras pequenas.
Paciente que concorda com o tratamento sem saber o próprio risco
Houve concordância, e não decisão informada.
07

O que modifica a resposta

As duas cenas de abertura usam a mesma frase e descrevem mundos diferentes. Numa, reduzir mais de um terço corresponde a tratar 78 pessoas por dez anos para evitar um evento; na outra, reduzir dois terços corresponde a tratar três pessoas hoje. O que separa os dois não é a droga nem a estatística: é o risco de base. Os números do primeiro caso vêm de uma metanálise de dez ensaios randomizados com 85.829 participantes, restrita a pessoas sem doença cardiovascular prévia. O infarto do miocárdio caiu com risco relativo de 0,64 e intervalo de confiança de 95% de 0,57 a 0,72, e eventos cardiovasculares maiores com 0,76 e intervalo de 0,68 a 0,84. A frase de vitrine é honesta e incompleta.

O mesmo trabalho traz a metade que não vira manchete: a mortalidade por qualquer causa foi de 3,9% nos dois grupos, com risco relativo de 0,98 e intervalo de 0,89 a 1,07, e a mortalidade cardíaca teve 0,92 com intervalo de 0,82 a 1,04. Nessa população, houve redução de eventos não fatais sem redução de morte, e dizer as duas coisas é o que separa informar de vender. O tamanho do benefício individual foi estimado em população real. Num inquérito nacional com 3.229 participantes, representativo de 101,9 milhões de adultos, o risco médio em 10 anos foi de 2,0% e em 30 anos de 9,7%; entre os 9% com risco alto projetado para 30 anos, o número necessário para tratar em 10 anos foi de 78,3 pessoas, com intervalo de 74,6 a 82,0.

O contraste vem de um ensaio randomizado duplamente mascarado em infarto de parede inferior, no qual o desfecho composto de hipotensão e bradicardia sintomática ocorreu em 49,3% do grupo placebo e 17,3% do grupo ativo: risco relativo de 0,35 e intervalo de 0,20 a 0,61, redução absoluta de 32,0 pontos percentuais com intervalo de 17,81 a 46,19, e número necessário para tratar de 3. O efeito relativo é da mesma ordem do primeiro caso; o efeito absoluto, não. A escolha da régua tem consequência populacional. Num estudo de modelagem representando 324,6 milhões de adultos, decidir elegibilidade pelo risco absoluto ou pelo benefício individual previsto gerou números parecidos de elegíveis e de eventos evitados — 50,3 contra 49,2 milhões, e 2,16 contra 2,19 milhões — mas concordância de apenas 68,9% sobre quem seriam essas pessoas.

A distorção na apresentação de resultados foi medida na própria literatura. Em 160 ensaios avaliados, 97% dos resumos continham ao menos um item de distorção, com 90% omitindo eventos adversos e 77% interpretando com entusiasmo desfechos primários sem significância. Em outra revisão, de 40 ensaios com desfecho primário sem significância, houve distorção em 62,5%, mais frequente em amostras menores, com razão de chances de 7,00. Do lado da solução, há evidência randomizada. Em 32 ensaios de decisões cardiovasculares, instrumentos estruturados de apoio à decisão produziram 12% mais conhecimento e 127% mais percepções acuradas de risco, com menos sensação de estar desinformado e menos decisões controladas apenas pelo profissional, sem dano identificado. O alvo é a percepção acurada, e não a concordância.

Este capítulo fecha a área, e o que ele entrega não é uma fórmula, e sim uma ordem de perguntas que atravessa as sete apostilas: a droga chega, faz o que se quer no alvo certo, e o que esta pessoa ganha com isso, em números que ela entenda. As seis primeiras perguntas são de farmacologia; a sétima é o que transforma as outras seis em cuidado.

SinalMedidaValorFonte
O mesmo estudo reduz eventos e não reduz mortalidadeMetanálise de 10 ensaios randomizados com 85.829 participantes (E1).Em metanálise de 10 ensaios de prevenção primária com 85.829 participantes, os hipolipemiantes não reduziram a mortalidade por qualquer causa (3,9% contra 3,9%; risco relativo 0,98), mas reduziram eventos cardiovasculares maiores (0,76) e infarto do miocárdio (0,64).The role of lipid lowering medications in the primary prevention of cardiovascular disease and mortality: a meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Cardiovasc Disord. 2026. doi:10.1186/s12872-026-05659-2
Quantas pessoas é preciso tratar, e por quanto tempo, na prevençãoEstudo transversal representativo de 101,9 milhões de adultos (E3).Em amostra nacionalmente representativa de 3.229 adultos de 30 a 59 anos sem doença conhecida, o risco cardiovascular médio foi de 2,0% em 10 anos e 9,7% em 30 anos; estender a estatina a quem tem risco alto em 30 anos exigiria tratar 78 pessoas por 10 anos para evitar um evento.Thirty-year atherosclerotic cardiovascular disease risk among US adults aged 30 to 59 years. Circ Popul Health Outcomes. 2026. doi:10.1161/circoutcomes.125.012348
O mesmo tipo de frase relativa, com risco de base alto, vira benefício grandeEnsaio randomizado duplamente mascarado com 150 pacientes analisados (E1).Em ensaio randomizado com 150 pacientes com infarto de parede inferior submetidos a angioplastia primária, a atropina intravenosa reduziu hipotensão e bradicardia sintomática de 49,3% para 17,3% (risco relativo 0,35): como o risco de base é alto, a mesma redução relativa vira 32% de redução absoluta e número necessário para tratar de 3.Intravenous atropine in reducing reperfusion arrhythmias, conduction abnormalities, and hypotension in inferior ST-elevation myocardial infarction undergoing primary percutaneous coronary intervention. J Saudi Heart Assoc. 2026. doi:10.37616/2212-5043.1505
Instrumento estruturado melhora a percepção de risco do pacienteMetanálise de 32 ensaios randomizados de decisões cardiovasculares (E1).Em metanálise de 32 ensaios de instrumentos de apoio à decisão em cardiologia, os pacientes expostos tiveram 12% mais conhecimento e 127% mais percepções acuradas de risco, com 31% menos decisões controladas pelo profissional e nenhum dano identificado.Effectiveness of patient decision aids for cardiovascular decisions: systematic review with sex/gender-based analysis. Eur J Cardiovasc Nurs. 2025. doi:10.1093/eurjcn/zvaf103
A régua escolhida muda quem recebe o tratamentoEstudo de modelagem sobre coorte representativa de 324,6 milhões de adultos (E7).Em estudo de modelagem com 7.287 adultos, decidir estatina por risco absoluto em 10 anos ou por benefício individualizado torna elegível número parecido de pessoas (50,3 contra 49,2 milhões) para evitar os mesmos eventos, mas os dois critérios só concordam em 68,9%: a régua escolhida muda quem é tratado.Absolute risk-based versus individualized benefit approaches for determining statin eligibility in primary prevention of cardiovascular diseases in Chinese populations: a modeling study. PLoS Med. 2025. doi:10.1371/journal.pmed.1004556
Com que frequência o resumo de um ensaio distorce o próprio resultadoRevisão de meta-pesquisa de 160 ensaios com avaliação por dois revisores (E3).Em revisão de 160 ensaios de intervenção robótica em fisioterapia, 97% dos resumos continham ao menos um item de distorção: 90% omitiam eventos adversos, 77% interpretavam com entusiasmo desfecho primário sem significância e 23% recomendavam tratamento sem efeito clinicamente importante.Ninety-seven percent of trials investigating robotic interventions in physiotherapy contained abstract spin: a meta-research review. Cochrane Evid Synth Methods. 2026. doi:10.1002/cesm.70072
08

Como comparar

As perguntas dos casos, o mecanismo que responde e a resposta.

Pergunta do casoMecanismo que respondeResposta em uma linha
Um terço de quê?Risco de baseDa chance que ele já tinha, e que a frase não menciona
Por que a médica hesitou?Quatro númerosFaltavam risco sem tratar, com tratar, prazo e dano
Por que vale tão pouco num caso?Regra do produtoBenefício absoluto é efeito relativo vezes risco de base
O número relativo mente?Razão sem denominadorNão: é verdadeiro e insuficiente sozinho
Como dizer sem enganar?Simetria de unidadeBenefício e dano na mesma escala e no mesmo prazo

A mesma evidência em duas roupas

Prevenção em risco baixoTratamento em risco alto
Frase relativaReduz o infarto em 36%Reduz o desfecho em 65%
Risco sem tratarBaixo, com média de 2,0% em 10 anos na população estudada49,3% no braço placebo do ensaio
Efeito absolutoPequeno, diluído pelo risco de base baixo32,0 pontos percentuais (17,81 a 46,19)
Número necessário para tratar78,3 pessoas em 10 anos (74,6 a 82,0)3 pessoas, no procedimento de hoje

Os números citados neste capítulo

MedidaValor
Infarto do miocárdio na prevenção primária verdadeiraRisco relativo de 0,64 (0,57 a 0,72)
Mortalidade por qualquer causa na mesma metanálise3,9% contra 3,9%, risco relativo de 0,98 (0,89 a 1,07)
Número necessário para tratar em 10 anos na prevenção78,3 pessoas (74,6 a 82,0)
Desfecho no ensaio de reperfusão, com e sem o fármaco17,3% contra 49,3%, com número necessário para tratar de 3
Concordância entre duas regras de elegibilidade68,9% entre 58,9 milhões de elegíveis
Resumos de ensaios com ao menos um item de distorção97% de 160 ensaios, com 90% omitindo eventos adversos
  • Benefício absoluto é o efeito relativo multiplicado pelo risco de base: o remédio é o mesmo em todos os pacientes, e o que muda é o denominador.
  • Número necessário para tratar sem horizonte de tempo não é uma medida incompleta — é uma medida sem significado.
09

Armadilhas e segurança

Entregar a redução relativa sozinha ao paciente; Julgar o tamanho do benefício pela frase relativa; Esquecer que a redução absoluta depende do risco de base
Número verdadeiro que não permite decidir coisa alguma. Reduz 36% e reduz 65% soam iguais e valem muito diferente. É o denominador que decide quanto o paciente ganha.
Citar número necessário para tratar sem prazo; Concluir que risco relativo é sempre manipulação; Generalizar o efeito de um desfecho para os demais
Sem horizonte, a medida perde o significado inteiro. É a medida que transporta o efeito entre populações. Reduzir infarto e não reduzir morte convivem no mesmo estudo.
Aceitar desfecho substituto como prova de benefício; Citar desfecho composto sem abrir os componentes; Detalhar o benefício e resumir o dano
Exame que melhorou não é evento que deixou de acontecer. A soma pode ter se movido pelo componente mais leve. Sem simetria de unidade, não existe comparação possível.
Confiar na conclusão do resumo sem conferir os números; Ler ênfase de linguagem como tamanho de efeito; Aplicar a média da população a quem está longe dela
Em 160 ensaios, 97% dos resumos tinham algum item de distorção. A distorção foi mais frequente justamente em amostras menores. É para isso que serve estimar o risco de base individual.
Tratar critério de elegibilidade como detalhe administrativo; Confundir concordância do paciente com decisão informada
Duas regras razoáveis concordaram em apenas 68,9% das pessoas. O alvo é percepção acurada de risco, e ela se mede.
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Fechando o caso

Dos dois casos ao risco de base, e dele de volta à conversa com o paciente.

  1. 01Levar a sério as perguntas ingênuas dos dois casos Reconhecer os dois riscos que todo ensaio produz Derivar a redução absoluta pela subtração
  2. 02Derivar a redução relativa pela razão Derivar o número necessário para tratar e seu prazo Comparar os dois casos com os números reais
  3. 03Aplicar a regra do produto entre efeito relativo e risco de base Entender para que serve o escore de risco Reconhecer o impacto da regra de elegibilidade
  4. 04Defender o uso legítimo da medida relativa Perguntar sempre qual desfecho foi medido Recusar desfecho substituto como prova de benefício
  5. 05Abrir o desfecho composto em seus componentes Exigir o horizonte de tempo em qualquer número Exigir o dano na mesma unidade do benefício
  6. 06Reconhecer a frequência da distorção na literatura Dizer os quatro números em voz alta ao paciente Fechar a área pela pergunta que reúne as sete apostilas
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Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para o atendimento

No caso vinculado, use esta regra como hipótese de trabalho: Riscos absoluto e relativo respondem a perguntas diferentes; decisão exige risco basal, horizonte de tempo, benefício, dano e valores do paciente. Reconstrua indicação, dose, via, tempo, exposições concomitantes e reserva do paciente antes de atribuir causalidade ou modificar o tratamento.

Converta o mecanismo em um plano verificável: explicite o benefício esperado, o dano que será procurado, o prazo de reavaliação e o limite para manter, ajustar, trocar ou retirar. Registre também o que foi discutido com o paciente e qual incerteza permanece.

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Revisão espaçada

7 dias

Como se calculam a redução absoluta de risco, a redução relativa de risco e o número necessário para tratar a partir dos dois riscos de um ensaio? Por que a medida relativa é a mesma em risco alto e em risco baixo? Por que o número necessário para tratar não significa nada sem o horizonte de tempo?

30 dias

Explique os dois casos de abertura por inteiro, com os números: por que reduzir o infarto em 36% na prevenção corresponde a tratar cerca de 78 pessoas por dez anos, e por que reduzir em 65% num infarto em curso corresponde a tratar três pessoas — e escreva as quatro frases que você diria a Rogério para que ele possa decidir, incluindo o desfecho em que não houve diferença.

Explicar risco sem enganar — Ciclo básico | OsceLabs