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Estômago: glândulas e barreira
O mesmo risco relativo vale 15 para uns e 245 para outros
O caso
Dois pacientes, mesmo consultório, mesma bactéria. O primeiro é um homem de 45 anos com úlcera duodenal. A pesquisa de Helicobacter pylori é positiva. Ele tem hipersecreção ácida. O segundo é um homem de 68 anos com úlcera gástrica e gastrite crônica. A pesquisa de Helicobacter pylori também é positiva. Ele tem hipossecreção ácida.
A mesma bactéria produziu, nos dois, doenças opostas quanto à acidez. Não é acaso, não é cepa diferente e não é sorte: o que decide é a geografia da inflamação dentro do estômago, e isso se explica pela distribuição das glândulas e das células que as compõem.
Há uma segunda pergunta neste capítulo, e ela é sobre o que fazer com quem tem a bactéria e nenhum sintoma. Seis ensaios randomizados, com quase seis mil e quinhentos participantes, mediram se erradicar o Helicobacter pylori em pessoas saudáveis e infectadas previne câncer gástrico. A resposta foi sim, com risco relativo de 0,66.
E, no mesmo estudo, o número necessário para tratar foi de 15 em homens chineses e de 245 em mulheres norte-americanas. Quinze e duzentos e quarenta e cinco. Mesmo risco relativo, dezesseis vezes de diferença no benefício absoluto. Entender por que — e o que isso exige de quem decide — é metade deste capítulo. A outra metade é a mucosa que se defende de um ácido capaz de dissolvê-la.
Da origem ao mapa do corpo
Ato 1 — Embriologia.
A dilatação e rotação do intestino anterior posicionam curvaturas, omentos e duodeno; o mesogástrio dorsal origina relações que persistem no adulto.
Ato 2 — Histologia.
Fovéolas, glândulas, células mucosas, parietais, principais e enteroendócrinas variam por região; muco, bicarbonato, junções e renovação constroem a barreira.
O estômago tem um problema que nenhum outro órgão do tubo enfrenta com essa intensidade: ele secreta ácido clorídrico em concentração suficiente para desnaturar proteínas e dissolver tecido, e precisa não dissolver a si mesmo.
Praticamente toda a morfologia da mucosa gástrica é resposta a esse problema. Vale ver primeiro quem produz o ácido, depois como a parede se protege dele, e só então as doenças.
A mucosa gástrica é formada por fossetas gástricas — invaginações do epitélio de superfície — no fundo das quais desembocam as glândulas. E as glândulas não são iguais nas três regiões do órgão.
Na cárdia, junto à junção esofagogástrica, as glândulas são predominantemente mucosas. No fundo e no corpo ficam as glândulas oxínticas, que são as glândulas principais do estômago e contêm cinco tipos celulares que vale conhecer um a um.
As células mucosas do colo, na porção superior da glândula, produzem um muco mais fluido que o do epitélio de superfície. As células parietais, ou oxínticas, são grandes, arredondadas e acidófilas — coram-se em rosa forte —, com um citoplasma cheio de mitocôndrias e um sistema de canalículos intracelulares que se abre na luz da glândula. As mitocôndrias abundantes têm razão de ser: bombear prótons contra um gradiente enorme custa energia. São elas que produzem o ácido clorídrico e, além dele, o fator intrínseco, necessário à absorção de vitamina B12 no íleo.
As células principais, ou zimogênicas, ficam na porção mais profunda, são basófilas — pelo retículo rugoso abundante — e produzem pepsinogênio, ativado a pepsina pelo próprio ácido. As células enteroendócrinas, e em particular as células enterocromafins-símile, produzem histamina, que é o principal estímulo local à célula parietal.
E no istmo ficam as células-tronco, que repovoam continuamente tanto a superfície quanto a glândula. No antro pilórico, as glândulas voltam a ser predominantemente mucosas, e nelas ficam duas células endócrinas decisivas: a célula G, que produz gastrina, e a célula D, que produz somatostatina.
Pare aqui, porque a geografia do controle é o que explica os dois pacientes da abertura. A gastrina é produzida no antro e age no corpo. A célula G, no antro, secreta gastrina, que chega pela circulação e estimula as células parietais e as enterocromafins-símile do corpo. E a célula D, também no antro, secreta somatostatina, que inibe a célula G — é o freio local do sistema.
Ou seja: uma lesão numa região altera a secreção de outra. Guarde isso. Passe à defesa. A mucosa gástrica se protege por um conjunto de mecanismos que costuma ser chamado de barreira mucosa gástrica, e vale enumerá-los porque cada um deles corresponde a uma vulnerabilidade.
Primeiro: a camada de muco e bicarbonato. O epitélio de superfície secreta um gel de muco aderente e, por baixo dele, bicarbonato. O bicarbonato fica preso dentro do gel, e o resultado é um gradiente de pH: ácido junto à luz, praticamente neutro junto à membrana das células. A célula epitelial não está exposta ao pH do estômago.
Segundo: a hidrofobicidade da superfície, conferida por fosfolipídios, que dificulta a penetração de substâncias hidrossolúveis. Terceiro: as junções oclusivas entre as células superficiais, que impedem a passagem de ácido pelo espaço intercelular.
Quarto: a restituição rápida. Quando uma célula superficial morre, as vizinhas se achatam e migram lateralmente, cobrindo a falha em minutos — antes e independentemente de qualquer divisão celular. É um reparo mecânico, não proliferativo.
Quinto: o fluxo sanguíneo da mucosa. Ele remove o ácido que porventura retrodifunda e traz bicarbonato e nutrientes. E aqui está o ponto que amarra a farmacologia: esse fluxo é dependente de prostaglandinas, assim como a secreção de muco e de bicarbonato.
Daí a conclusão que reorganiza o entendimento de um dos efeitos adversos mais comuns da medicina. A lesão gástrica pelos anti-inflamatórios não esteroidais não é um efeito químico direto do comprimido sobre a mucosa. Eles inibem a ciclo-oxigenase, reduzem a produção de prostaglandinas e, com isso, retiram três das cinco defesas ao mesmo tempo: menos muco, menos bicarbonato e menos fluxo sanguíneo mucoso.
A lesão é por remoção da defesa, e não por agressão adicional. É por isso que anti-inflamatório administrado por via parenteral também causa úlcera — o que importa não é o contato, é a inibição sistêmica da síntese de prostaglandina.
Passe ao Helicobacter pylori, que é o exemplo mais elegante deste capítulo. Ele é uma bactéria que não invade a mucosa. Vive dentro da camada de muco, sobre o epitélio de superfície, num microambiente que ele próprio alcaliniza: produz urease, que quebra a ureia e libera amônia, neutralizando o ácido em torno de si.
A inflamação que ele provoca pode se distribuir de duas maneiras — e essa distribuição decide a doença. Primeira geografia: gastrite de predomínio antral. A inflamação se concentra no antro, que é exatamente onde estão as células D. Com elas comprometidas, cai a somatostatina, e sem o freio a célula G produz mais gastrina.
Mais gastrina significa mais estímulo às células parietais — que estão no corpo, e nesse padrão o corpo está preservado. Resultado: hipersecreção ácida, com uma carga ácida maior chegando ao duodeno. O duodeno responde com metaplasia gástrica em sua mucosa, que passa a poder ser colonizada pela bactéria, e o desfecho é a úlcera duodenal.
Segunda geografia: pangastrite ou predomínio de corpo. A inflamação atinge as glândulas oxínticas do corpo e leva à atrofia delas — perda de células parietais e principais. Menos células parietais significa menos ácido.
Aqui o desfecho é o oposto: hipossecreção, com úlcera gástrica e, ao longo de anos, o caminho para o carcinoma. A mesma bactéria, dois padrões de distribuição, duas doenças opostas quanto à acidez. O que decide não é o agente: é onde a inflamação se instala em relação às células que controlam a secreção.
O segundo desfecho merece detalhe, porque ele é uma sequência morfológica com etapas identificáveis na biópsia — a chamada cascata de Correa. Ela começa como gastrite crônica, evolui para atrofia das glândulas, depois para metaplasia intestinal — em que o epitélio gástrico é substituído por epitélio de tipo intestinal, com células caliciformes —, depois para displasia e, por fim, para adenocarcinoma do tipo intestinal.
Note o que a metaplasia intestinal representa: o tecido trocou de identidade. Não é apenas um tecido inflamado — é um epitélio de outro tipo ocupando o lugar do original. Guarde isso, porque será medido adiante.
Antes disso, vale um segundo caminho para a atrofia, de mecanismo completamente diferente e com uma consequência elegante. Na gastrite autoimune, autoanticorpos destroem as células parietais. Como elas estão no corpo e no fundo, a doença poupa o antro — e essa distribuição é o oposto da do Helicobacter antral.
As consequências se encadeiam. Sem células parietais, falta ácido — acloridria — e falta fator intrínseco, o que produz anemia perniciosa por má absorção de vitamina B12. E há um terceiro efeito que costuma ser esquecido e que decorre da geografia. O ácido normalmente inibe a célula G por retroalimentação. Sem ácido, esse freio desaparece, e o antro — que está preservado — passa a produzir gastrina sem controle: hipergastrinemia.
A gastrina em excesso estimula cronicamente as células enterocromafins-símile, que se hiperplasiam e podem originar tumores neuroendócrinos gástricos. Uma doença que destrói uma célula produz, à distância, a proliferação de outra — porque o circuito de controle atravessa duas regiões do órgão.
Chega-se então às medidas, e a pergunta clínica é direta: erradicar o Helicobacter pylori em pessoas saudáveis e infectadas previne câncer gástrico? Uma revisão sistemática reuniu 6 ensaios clínicos randomizados, com 6.497 participantes assintomáticos e infectados. O resultado: 51 cânceres (1,6%) no grupo tratado contra 76 (2,4%) nos controles, com risco relativo de 0,66 (IC95% 0,46-0,95).
Uma metanálise maior, com 24 estudos, 48.064 indivíduos e 715 cânceres incidentes, encontrou razão de taxas de incidência de 0,53 (IC95% 0,44-0,64), e de 0,62 (0,49-0,79) especificamente entre infectados assintomáticos.
A direção é consistente: erradicar reduz o risco em torno de um terço a metade. Até aqui, nada de surpreendente. O achado que muda a forma de pensar está no mesmo estudo dos seis ensaios, e é sobre o benefício absoluto.
O número necessário para tratar — quantas pessoas é preciso tratar para evitar um câncer — foi de 15 em homens chineses e de 245 em mulheres norte-americanas. Dezesseis vezes de diferença, com um único risco relativo. E não há contradição nenhuma nisso.
A razão é aritmética e vale internalizar de uma vez: o risco relativo descreve uma proporção; o benefício absoluto depende de sobre qual base essa proporção incide. Reduzir em um terço um risco basal alto evita muitos casos; reduzir em um terço um risco basal baixo evita poucos.
Homens chineses vivem numa região de alta incidência de câncer gástrico; mulheres norte-americanas, numa de incidência baixa. A eficácia relativa é a mesma; o valor de tratar não é.
É por isso que um risco relativo, sozinho, não permite decidir. Ele responde "funciona?", e não "vale a pena aqui?". A segunda pergunta exige saber o risco basal da população à sua frente — e é ela que decide se um programa de rastreamento e erradicação faz sentido em determinado país.
Há um segundo achado, e ele é morfológico. Uma metanálise com 10 estudos provenientes de 8 ensaios randomizados e 7.955 participantes estratificou o efeito da erradicação pelo estado da mucosa antes do tratamento.
O risco relativo global foi de 0,64 (IC95% 0,48-0,85) — coerente com os demais estudos. Mas os subgrupos contam histórias diferentes. Em pacientes sem lesões precursoras — gastrite não atrófica ou atrófica —, o risco relativo foi de 0,25 (IC95% 0,08-0,81): uma redução grande.
Em pacientes que já tinham metaplasia intestinal ou displasia, o risco relativo foi de 0,88 (IC95% 0,59-1,31) — sem benefício estatisticamente significativo. Volte à cascata de Correa e o achado se explica sozinho. Enquanto a mucosa é apenas gastrite, remover a bactéria remove o estímulo, e o tecido pode recuar. Uma vez instalada a metaplasia intestinal, o epitélio já trocou de identidade — e essa mudança não depende mais da bactéria para progredir.
A cascata tem um ponto a partir do qual tratar a causa deixa de ser suficiente. E esse ponto é morfológico: ele se vê na biópsia, e tem nome. As duas medidas deste capítulo dizem, cada uma à sua maneira, a mesma coisa sobre intervenções: o mesmo tratamento não faz a mesma coisa em todo mundo. Numa delas, o que varia é o risco basal da população. Na outra, o que varia é o estado do tecido antes de tratar.
Este material vem colecionando modos de ler evidência: o número repetido sem ter sido medido; o que se moveu com o denominador; o subestimado por depender de quem chegava a ser testado; a categoria que não classificava todo mundo; o achado frequente em saudáveis promovido a causa; o intervalo transportado entre populações; o resumo que escondia heterogeneidade; a convergência de métodos independentes; a dispersão que informa o que é regulado; a regra certa sobre o mecanismo e incompleta sobre a margem; o erro de prazo em vez de magnitude; o limiar como decisão sobre risco aceitável; e a direção robusta com magnitude instável.
Este acrescenta o mais frequente de todos na leitura de tratamento: risco relativo não é benefício. A mesma redução proporcional vale um número necessário para tratar de 15 ou de 245 conforme a base — e pode valer zero se o tecido já passou do ponto em que a causa ainda importava. A pergunta que acompanha: sobre qual risco basal essa redução incide, e em que estado está o tecido deste paciente?

Ato 3 — Anatomia.
Cárdia, fundo, corpo, antro e piloro devem ser relacionados às curvaturas, ao leito gástrico, à irrigação e à drenagem linfática, sem confundir regiões anatômicas com tipos celulares.
O que a forma explica
Seis perguntas que localizam a lesão na região certa e traduzem risco relativo em decisão.
“Em que região a inflamação está?”
Antral predominante compromete a célula D, eleva a gastrina e produz hipersecreção com úlcera duodenal. Corpo predominante atrofia as glândulas oxínticas e produz hipossecreção.
“Qual defesa foi removida?”
Anti-inflamatórios não retiram uma agressão: retiram três defesas — muco, bicarbonato e fluxo sanguíneo mucoso —, todas dependentes de prostaglandinas.
“Este paciente tem acloridria com antro preservado?”
Sem ácido, some o freio sobre a célula G. A hipergastrinemia resultante estimula as células enterocromafins-símile e pode originar tumor neuroendócrino.
“Em que etapa da cascata está esta mucosa?”
Gastrite, atrofia, metaplasia intestinal, displasia, carcinoma. A metaplasia marca a troca de identidade do epitélio — e ela muda o que o tratamento pode fazer.
“Sobre qual risco basal incide esta redução?”
O mesmo risco relativo de 0,66 corresponde a um número necessário para tratar de 15 em homens chineses e de 245 em mulheres norte-americanas.
“O tecido já passou do ponto em que a causa importava?”
Sem lesões precursoras, a erradicação teve RR 0,25. Com metaplasia intestinal ou displasia, RR 0,88 — sem benefício significativo.
Como se orientar
- Partir do problema: secretar ácido sem se dissolver
- Praticamente toda a morfologia da mucosa gástrica é resposta a isso — quem produz o ácido e como a parede se defende dele.
- Separar as glândulas por região
- Cárdia mucosa, corpo e fundo oxínticas, antro mucoso com células G e D. As doenças seguem essa divisão.
- Guardar a geografia do controle
- Gastrina é produzida no antro e age no corpo; o freio dela, a somatostatina, também está no antro. Lesão numa região altera a secreção de outra.
- Enumerar as cinco defesas antes de falar em úlcera
- Muco com bicarbonato, hidrofobicidade, junções oclusivas, restituição rápida e fluxo sanguíneo mucoso. Cada uma corresponde a uma vulnerabilidade.
- Lembrar que três delas dependem de prostaglandina
- Muco, bicarbonato e fluxo. É por isso que anti-inflamatório causa úlcera mesmo por via parenteral.
- Situar o Helicobacter dentro do muco
- Ele não invade: vive sobre o epitélio, num microambiente que alcaliniza com a amônia produzida pela urease.
- Perguntar o risco basal antes de aceitar um risco relativo
- A mesma redução proporcional vale muito ou pouco conforme a base sobre a qual incide.
A leitura
Das glândulas à barreira, da barreira às duas doenças da mesma bactéria, e daí ao que um risco relativo não diz.
- 1
Enunciar o problema do estômago
Secretar ácido clorídrico em concentração capaz de dissolver tecido, e não dissolver a si mesmo. Toda a morfologia da mucosa responde a isso.
Erro comum: Estudar os tipos celulares antes do problema, o que transforma a glândula oxíntica numa lista.
- 2
Dividir as glândulas por região
Cárdia com glândulas mucosas; fundo e corpo com glândulas oxínticas; antro pilórico com glândulas mucosas e as células endócrinas de controle.
Erro comum: Tratar a mucosa gástrica como uniforme. As três regiões têm glândulas diferentes e doenças diferentes.
- 3
Identificar os cinco tipos da glândula oxíntica
Mucosas do colo, células-tronco no istmo, parietais acidófilas com canalículos e mitocôndrias abundantes, principais basófilas com pepsinogênio, e enterocromafins-símile com histamina.
Erro comum: Confundir parietal com principal. A parietal é acidófila e superficial na glândula; a principal é basófila e profunda.
- 4
Explicar a morfologia da célula parietal
Mitocôndrias abundantes porque bombear prótons contra gradiente enorme custa energia, e canalículos intracelulares que ampliam a superfície de secreção. Ela produz também o fator intrínseco.
Erro comum: Esquecer o fator intrínseco. Perder a célula parietal é perder ácido e é perder a absorção de vitamina B12.
- 5
Montar a geografia do controle
A célula G, no antro, produz gastrina que age nas parietais e enterocromafins-símile do corpo. A célula D, também no antro, produz somatostatina, que inibe a célula G. E o ácido do corpo inibe a célula G por retroalimentação.
Erro comum: Estudar as células endócrinas isoladamente. É o circuito atravessando duas regiões que explica as doenças.
- 6
Enumerar as cinco defesas da barreira
Gel de muco com bicarbonato preso dentro dele, criando gradiente de pH; hidrofobicidade da superfície; junções oclusivas; restituição rápida por migração lateral das células vizinhas; e fluxo sanguíneo mucoso.
Erro comum: Imaginar a célula epitelial exposta ao pH da luz. O gradiente dentro do gel a mantém em pH praticamente neutro.

Três das cinco defesas dependem de prostaglandina. O anti-inflamatório não agride a mucosa: ele desliga as defesas ao mesmo tempo — inclusive quando dado na veia. - 7
Derivar a lesão por anti-inflamatórios
A inibição da ciclo-oxigenase reduz prostaglandinas e retira três defesas ao mesmo tempo: muco, bicarbonato e fluxo sanguíneo mucoso.
Erro comum: Atribuir a úlcera ao contato do comprimido com a mucosa. A lesão é por remoção da defesa — daí a úlcera com uso parenteral.
- 8
Situar o Helicobacter pylori
Vive dentro da camada de muco, sobre o epitélio, sem invadir. Sua urease quebra ureia e libera amônia, alcalinizando o microambiente ao redor.
Erro comum: Imaginar invasão tecidual. Ele fica sobre o epitélio, e é a inflamação que provoca que causa o dano.
- 9
Separar as duas geografias da gastrite
Predomínio antral compromete a célula D, reduz somatostatina, eleva gastrina e, com o corpo preservado, produz hipersecreção. Pangastrite ou predomínio de corpo atrofia as glândulas oxínticas e produz hipossecreção.
Erro comum: Esperar que a mesma bactéria produza sempre o mesmo efeito sobre a acidez. O que decide é onde a inflamação se instala.

Duas geografias, duas doenças opostas quanto à acidez. O agente é o mesmo — o que muda é onde a inflamação se instala em relação às células que controlam a secreção. - 10
Derivar a úlcera duodenal do padrão antral
Hipersecreção leva maior carga ácida ao duodeno, que desenvolve metaplasia gástrica em sua mucosa, passa a poder ser colonizado e ulcera.
Erro comum: Explicar a úlcera duodenal apenas por acidez. É preciso a metaplasia gástrica no duodeno para a colonização acontecer ali.
- 11
Percorrer a cascata de Correa
Gastrite crônica, atrofia das glândulas, metaplasia intestinal com células caliciformes, displasia e adenocarcinoma do tipo intestinal. Cada etapa é identificável na biópsia.
Erro comum: Ver a metaplasia intestinal como mais um grau de inflamação. Ela é troca de identidade do epitélio.
- 12
Derivar as três consequências da gastrite autoimune
Destruição das células parietais, que estão no corpo e no fundo, poupando o antro: acloridria; falta de fator intrínseco com anemia perniciosa; e perda do freio ácido sobre a célula G, com hipergastrinemia, hiperplasia de células enterocromafins-símile e risco de tumor neuroendócrino.
Erro comum: Parar na anemia perniciosa. A terceira consequência decorre da geografia do circuito e é a menos lembrada.
- 13
Ler o efeito da erradicação sobre o câncer gástrico
Em 6 ensaios randomizados com 6.497 participantes assintomáticos e infectados: 51 cânceres (1,6%) no grupo tratado contra 76 (2,4%) nos controles, com RR 0,66 (IC95% 0,46-0,95). Uma metanálise maior, com 24 estudos e 48.064 indivíduos, encontrou razão de taxas de 0,53 (0,44-0,64).
Erro comum: Parar no risco relativo. Ele responde se funciona, e não se vale a pena naquela população.
- 14
Traduzir risco relativo em benefício absoluto
No mesmo estudo, o número necessário para tratar foi de 15 em homens chineses e de 245 em mulheres norte-americanas — dezesseis vezes de diferença com um único risco relativo.
Erro comum: Ver contradição onde há aritmética. A proporção é a mesma; a base sobre a qual ela incide não é.

Mesmo risco relativo, dezesseis vezes de diferença no benefício absoluto. E, passada a metaplasia, o mesmo tratamento deixa de mostrar benefício — porque o tecido já trocou de identidade. - 15
Perguntar o risco basal antes de decidir
O risco relativo responde se a intervenção funciona; o risco basal da população responde se vale a pena tratar ali. É essa segunda pergunta que decide programas de rastreamento e erradicação.
Erro comum: Transportar uma recomendação de um país de alta incidência para outro de baixa sem refazer a conta do benefício absoluto.
- 16
Estratificar pelo estado da mucosa
Em 10 estudos de 8 ensaios randomizados, com 7.955 participantes: RR global 0,64 (0,48-0,85); sem lesões precursoras RR 0,25 (0,08-0,81); com metaplasia intestinal ou displasia RR 0,88 (0,59-1,31).
Erro comum: Aplicar o efeito global a todos os pacientes. O subgrupo com metaplasia não mostrou benefício significativo.
- 17
Reconhecer o ponto de não retorno da cascata
Enquanto há apenas gastrite, remover a bactéria remove o estímulo e o tecido pode recuar. Instalada a metaplasia intestinal, o epitélio já trocou de identidade e não depende mais da bactéria para progredir.
Erro comum: Supor que tratar a causa sempre reverte a consequência. Há um ponto morfológico a partir do qual isso deixa de valer.
Normal e alterado
- Glândulas classificadas por região: cárdia, corpo e fundo, antro.
- Cinco tipos celulares da glândula oxíntica identificados pelo que produzem.
- Célula parietal reconhecida como acidófila, com canalículos e mitocôndrias abundantes.
- Circuito de controle traçado do antro para o corpo e de volta.
- Cinco defesas da barreira enumeradas, com as três dependentes de prostaglandina identificadas.
- Helicobacter situado dentro do muco, sem invasão.
- Etapas da cascata de Correa reconhecidas como identificáveis na biópsia.
- Úlcera duodenal com hipersecreção ácida e Helicobacter positivo
- Gastrite de predomínio antral: queda da somatostatina, elevação da gastrina e corpo preservado — com metaplasia gástrica no duodeno permitindo a colonização.
- Úlcera gástrica com hipossecreção ácida e Helicobacter positivo
- Pangastrite ou predomínio de corpo, com atrofia das glândulas oxínticas. Mesma bactéria, efeito oposto sobre a acidez.
- Úlcera em paciente usando anti-inflamatório por via parenteral
- A lesão não depende do contato do comprimido: a inibição da ciclo-oxigenase retira muco, bicarbonato e fluxo sanguíneo mucoso simultaneamente.
- Metaplasia intestinal na biópsia gástrica
- Etapa da cascata de Correa em que o epitélio trocou de identidade. A partir dela, a erradicação não mostrou benefício significativo na prevenção do câncer.
- Anemia macrocítica com acloridria e antro preservado
- Gastrite autoimune: destruição das células parietais do corpo e do fundo, com perda de ácido e de fator intrínseco.
- Hipergastrinemia com hiperplasia de células enterocromafins-símile
- Consequência da acloridria: sem ácido, some o freio sobre a célula G do antro preservado. Pode originar tumor neuroendócrino gástrico.
- Recomendação de erradicação transportada de país de alta para país de baixa incidência
- O risco relativo é o mesmo, mas o benefício absoluto não: número necessário para tratar de 15 contra 245 nas populações estudadas.
- Erradicação indicada a paciente que já tem displasia gástrica
- O subgrupo com metaplasia intestinal ou displasia teve RR 0,88 (IC95% 0,59-1,31) — sem benefício significativo. A vigilância endoscópica não se dispensa por ter erradicado.
Por que isso importa
O estômago precisa secretar ácido capaz de dissolver tecido sem dissolver a si mesmo, e praticamente toda a morfologia da sua mucosa responde a esse problema. As glândulas diferem por região: mucosas na cárdia, oxínticas no fundo e no corpo, mucosas com células endócrinas no antro. Na glândula oxíntica há cinco tipos celulares: mucosas do colo, células-tronco no istmo, parietais acidófilas com canalículos intracelulares e mitocôndrias abundantes — que produzem ácido clorídrico e fator intrínseco —, principais basófilas com pepsinogênio, e enterocromafins-símile com histamina.
No antro ficam a célula G, que produz gastrina, e a célula D, que produz somatostatina. E aqui está a chave: a gastrina é produzida no antro e age no corpo, o freio dela também está no antro, e o ácido do corpo inibe a célula G por retroalimentação. Uma lesão numa região altera a secreção de outra.
A defesa da mucosa tem cinco componentes: o gel de muco com bicarbonato preso dentro dele, criando um gradiente que mantém a célula epitelial em pH praticamente neutro; a hidrofobicidade da superfície; as junções oclusivas; a restituição rápida, em que as células vizinhas se achatam e migram cobrindo a falha em minutos, sem divisão celular; e o fluxo sanguíneo mucoso.
Três dessas defesas dependem de prostaglandinas: muco, bicarbonato e fluxo. Por isso a lesão pelos anti-inflamatórios não esteroidais não é agressão química do comprimido, e sim remoção simultânea de três defesas — e por isso o anti-inflamatório por via parenteral também causa úlcera.
O Helicobacter pylori não invade: vive dentro do muco, sobre o epitélio, alcalinizando o microambiente com a amônia produzida pela urease. E a distribuição da inflamação que ele provoca decide a doença.
Na gastrite de predomínio antral, a inflamação compromete as células D, reduz a somatostatina e libera a célula G — mais gastrina, mais estímulo às parietais do corpo preservado, e portanto hipersecreção. A carga ácida maior chega ao duodeno, que desenvolve metaplasia gástrica, passa a poder ser colonizado, e o desfecho é a úlcera duodenal.
Na pangastrite ou predomínio de corpo, a inflamação atinge as glândulas oxínticas e leva à atrofia — menos células parietais, menos ácido, úlcera gástrica e, ao longo de anos, o caminho para o carcinoma.
A mesma bactéria produz duas doenças opostas quanto à acidez, e o que decide é onde a inflamação se instala em relação às células que controlam a secreção. O segundo desfecho segue a cascata de Correa, com etapas identificáveis na biópsia: gastrite crônica, atrofia, metaplasia intestinal com células caliciformes, displasia e adenocarcinoma do tipo intestinal. A metaplasia intestinal merece destaque porque ali o epitélio troca de identidade — não é inflamação em grau maior, é outro tipo de epitélio no lugar do original.
A gastrite autoimune chega à atrofia por outro caminho: autoanticorpos destroem as células parietais, que estão no corpo e no fundo, poupando o antro. Daí três consequências encadeadas — acloridria; falta de fator intrínseco, com anemia perniciosa; e, porque o ácido normalmente freia a célula G, hipergastrinemia, com hiperplasia de células enterocromafins-símile e risco de tumor neuroendócrino gástrico.
Vem então a pergunta clínica: erradicar o Helicobacter pylori em pessoas saudáveis e infectadas previne câncer gástrico? Seis ensaios randomizados com 6.497 participantes assintomáticos e infectados: 51 cânceres (1,6%) no grupo tratado contra 76 (2,4%) nos controles, com RR 0,66 (IC95% 0,46-0,95). Uma metanálise maior, com 24 estudos, 48.064 indivíduos e 715 cânceres incidentes, encontrou razão de taxas de 0,53 (IC95% 0,44-0,64), e de 0,62 (0,49-0,79) entre infectados assintomáticos.
A direção é consistente. O achado que muda a forma de pensar está no benefício absoluto: o número necessário para tratar foi de 15 em homens chineses e de 245 em mulheres norte-americanas.
Dezesseis vezes de diferença com um único risco relativo — e não há contradição. O risco relativo descreve uma proporção; o benefício absoluto depende da base sobre a qual essa proporção incide. Reduzir em um terço um risco alto evita muitos casos; reduzir em um terço um risco baixo evita poucos.
Daí a regra: um risco relativo, sozinho, não permite decidir. Ele responde "funciona?", não "vale a pena aqui?". A segunda pergunta exige o risco basal da população à sua frente.
Há um segundo achado, e ele é morfológico. Uma metanálise com 10 estudos de 8 ensaios randomizados e 7.955 participantes estratificou o efeito pelo estado da mucosa antes do tratamento. RR global de 0,64 (0,48-0,85). Em pacientes sem lesões precursoras, RR 0,25 (0,08-0,81). Em pacientes que já tinham metaplasia intestinal ou displasia, RR 0,88 (0,59-1,31) — sem benefício significativo.
Volte à cascata e o achado se explica: enquanto há apenas gastrite, remover a bactéria remove o estímulo e o tecido pode recuar; instalada a metaplasia intestinal, o epitélio já trocou de identidade e não depende mais da bactéria para progredir.
A cascata tem um ponto a partir do qual tratar a causa deixa de ser suficiente — e esse ponto é morfológico, visível na biópsia e com nome próprio. As duas medidas dizem, cada uma à sua maneira, a mesma coisa: o mesmo tratamento não faz a mesma coisa em todo mundo. Numa, o que varia é o risco basal; na outra, o estado do tecido.
Este material vem colecionando modos de ler evidência. Este acrescenta o mais frequente na leitura de tratamento: risco relativo não é benefício. A mesma redução proporcional vale um número necessário para tratar de 15 ou de 245 conforme a base — e pode valer nada se o tecido já passou do ponto em que a causa importava. Sobre qual risco basal essa redução incide, e em que estado está o tecido deste paciente?
Gastrite, úlcera e ressecção devem ser interpretadas reunindo região, glândula, camada e vaso; a síntese evita reduzir toda proteção ao muco ou toda secreção a uma única célula.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Erradicação de Helicobacter pylori para prevenção de câncer gástrico em infectados assintomáticos | Revisão sistemática e metanálise de 6 ensaios clínicos randomizados, com 6.497 participantes saudáveis, assintomáticos e infectados. | 51 cânceres (1,6%) no grupo tratado contra 76 (2,4%) nos controles; risco relativo 0,66 (IC95% 0,46-0,95) | Ford AC, Forman D, Hunt RH, Yuan Y, Moayyedi P. Helicobacter pylori eradication therapy to prevent gastric cancer in healthy asymptomatic infected individuals: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2014;348:g3174. doi:10.1136/bmj.g3174 |
| Número necessário para tratar, por população | Mesmo estudo. A diferença de dezesseis vezes decorre inteiramente do risco basal de câncer gástrico em cada população, com o mesmo risco relativo aplicado a bases muito diferentes. | 15 em homens chineses e 245 em mulheres norte-americanas | Ford AC, Forman D, Hunt RH, Yuan Y, Moayyedi P. Helicobacter pylori eradication therapy to prevent gastric cancer in healthy asymptomatic infected individuals: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2014;348:g3174. doi:10.1136/bmj.g3174 |
| Efeito da erradicação estratificado pelo estado da mucosa | Metanálise de 10 estudos provenientes de 8 ensaios clínicos randomizados, com 7.955 participantes, estratificando pelo estado da mucosa antes do tratamento. | Risco relativo global 0,64 (IC95% 0,48-0,85); sem lesões precursoras 0,25 (IC95% 0,08-0,81); com metaplasia intestinal ou displasia 0,88 (IC95% 0,59-1,31), sem benefício estatisticamente significativo | Chen HN, Wang Z, Li X, Zhou ZG. Helicobacter pylori eradication cannot reduce the risk of gastric cancer in patients with intestinal metaplasia and dysplasia: evidence from a meta-analysis. Gastric Cancer. 2016;19(1):166-175. doi:10.1007/s10120-015-0462-7 |
| Incidência de câncer gástrico após erradicação em revisão de maior escala | Revisão sistemática e metanálise de 24 estudos, com 48.064 indivíduos e 715 cânceres gástricos incidentes. | Razão de taxas de incidência agrupada de 0,53 (IC95% 0,44-0,64); entre infectados assintomáticos, 0,62 (IC95% 0,49-0,79) | Lee YC, Chiang TH, Chou CK, et al. Association between Helicobacter pylori eradication and gastric cancer incidence: a systematic review and meta-analysis. Gastroenterology. 2016;150(5):1113-1124.e5. doi:10.1053/j.gastro.2016.01.028 |
Duas geografias, duas doenças
O agente é o mesmo. O que muda é onde a inflamação se instala em relação às células que controlam a secreção.
| Aspecto | Predomínio antral | Pangastrite ou predomínio de corpo |
|---|---|---|
| Região inflamada | Antro — onde estão as células G e D | Corpo e fundo — onde estão as glândulas oxínticas |
| Efeito endócrino | Queda da somatostatina, aumento da gastrina | Atrofia das glândulas oxínticas |
| Corpo gástrico | Preservado, responde ao estímulo | Atrófico, com perda de células parietais |
| Secreção ácida | Aumentada | Diminuída |
| Desfecho | Metaplasia gástrica no duodeno e úlcera duodenal | Úlcera gástrica e, ao longo de anos, carcinoma |
As cinco defesas da mucosa gástrica
| Defesa | Como funciona | Depende de prostaglandina? |
|---|---|---|
| Muco com bicarbonato | Gel aderente com bicarbonato preso dentro, criando gradiente de pH | Sim |
| Hidrofobicidade da superfície | Fosfolipídios dificultam a penetração de substâncias hidrossolúveis | Não diretamente |
| Junções oclusivas | Impedem passagem de ácido pelo espaço intercelular | Não |
| Restituição rápida | Células vizinhas se achatam e migram, cobrindo a falha em minutos, sem divisão | Não |
| Fluxo sanguíneo mucoso | Remove ácido retrodifundido e traz bicarbonato e nutrientes | Sim |
A cascata de Correa e o que a erradicação faz em cada etapa
| Etapa | O que se vê na biópsia | Efeito medido da erradicação |
|---|---|---|
| Gastrite crônica | Infiltrado inflamatório, glândulas preservadas | RR 0,25 (IC95% 0,08-0,81) no grupo sem lesões precursoras |
| Atrofia | Perda de glândulas oxínticas | Ainda dentro do grupo sem metaplasia |
| Metaplasia intestinal | Epitélio de tipo intestinal com células caliciformes — troca de identidade | RR 0,88 (IC95% 0,59-1,31) — sem benefício significativo |
| Displasia | Alterações citológicas e arquiteturais | Mesmo subgrupo, sem benefício significativo |
| Adenocarcinoma intestinal | Invasão | — |
- A gastrite autoimune atinge corpo e fundo e poupa o antro — daí a acloridria com hipergastrinemia e hiperplasia de células enterocromafins-símile.
- Um risco relativo responde se a intervenção funciona; só o risco basal responde se vale a pena tratar naquela população.
Onde se erra
- Estudar os tipos celulares antes do problema
- Secretar ácido sem se dissolver é o problema. Sem ele, a glândula oxíntica vira uma lista de nomes.
- Tratar a mucosa gástrica como uniforme
- As três regiões têm glândulas diferentes, células diferentes e doenças diferentes.
- Confundir célula parietal com célula principal
- A parietal é acidófila e mais superficial na glândula; a principal é basófila e profunda, com pepsinogênio.
- Esquecer que a parietal também produz fator intrínseco
- Perdê-la é perder ácido e é perder a absorção de vitamina B12 no íleo.
- Estudar as células endócrinas isoladamente
- O circuito atravessa duas regiões: gastrina do antro age no corpo, somatostatina do antro freia a gastrina, e o ácido do corpo freia a célula G.
- Imaginar a célula epitelial exposta ao pH da luz
- O bicarbonato preso no gel de muco cria um gradiente que mantém a membrana celular em pH praticamente neutro.
- Atribuir a úlcera por anti-inflamatório ao contato do comprimido
- A lesão é por remoção de três defesas dependentes de prostaglandina — por isso a via parenteral também ulcera.
- Imaginar invasão tecidual pelo Helicobacter
- Ele vive dentro do muco, sobre o epitélio. O dano vem da inflamação que provoca, não de invasão.
- Esperar sempre o mesmo efeito da bactéria sobre a acidez
- Predomínio antral produz hipersecreção; predomínio de corpo produz hipossecreção. A geografia decide.
- Ver a metaplasia intestinal como grau maior de inflamação
- É troca de identidade do epitélio — e é a partir dela que a erradicação deixa de mostrar benefício significativo.
- Parar na anemia perniciosa na gastrite autoimune
- A acloridria remove o freio sobre a célula G do antro preservado, produzindo hipergastrinemia e hiperplasia de células enterocromafins-símile.
- Decidir com base apenas no risco relativo
- Ele responde se funciona. O número necessário para tratar variou de 15 a 245 com o mesmo risco relativo, conforme o risco basal.
- Transportar recomendação entre países sem refazer a conta
- A eficácia relativa é a mesma; o valor de tratar não é, porque a incidência basal difere.
- Supor que tratar a causa sempre reverte a consequência
- Com metaplasia intestinal ou displasia, o risco relativo foi 0,88 (0,59-1,31) — sem benefício significativo. A vigilância não se dispensa por ter erradicado.
Roteiro de leitura
Percorra o capítulo em três escalas: origem, tecido e relações anatômicas; use a síntese clínica para reuni-las.
- 01Enunciar o problema do estômago
- 02Dividir as glândulas por região
- 03Identificar os cinco tipos da glândula oxíntica
- 04Explicar a morfologia da célula parietal
- 05Montar a geografia do controle endócrino
- 06Enumerar as cinco defesas da barreira
- 07Derivar a lesão por anti-inflamatórios
- 08Situar o Helicobacter dentro do muco
- 09Separar as duas geografias da gastrite
- 10Derivar a úlcera duodenal do padrão antral
- 11Percorrer a cascata de Correa
- 12Derivar as três consequências da gastrite autoimune
- 13Ler o efeito da erradicação sobre o câncer gástrico
- 14Traduzir risco relativo em benefício absoluto
- 15Perguntar o risco basal antes de decidir
- 16Estratificar o efeito pelo estado da mucosa
- 17Reconhecer o ponto de não retorno da cascata
Teste-se
Leve para o paciente
Homem de 54 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, vim buscar o resultado da endoscopia. Eu não sinto nada, mas meu pai morreu de câncer no estômago e isso não me sai da cabeça." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Quais são os cinco tipos celulares da glândula oxíntica? Quais das cinco defesas da mucosa dependem de prostaglandina? Por que a mesma bactéria produz úlcera duodenal em um paciente e gástrica em outro?
Explique por que um risco relativo de 0,66 corresponde a um número necessário para tratar de 15 numa população e de 245 em outra — e por que a erradicação deixa de mostrar benefício depois que a metaplasia intestinal se instalou.
