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MorfologiaLocomotor

Coluna vertebral

Disco degenerado é idade; raiz comprimida é sintoma

01

O caso

Homem de 41 anos, estoquista, com três semanas de dor lombar que desce pela face posterior da coxa e da panturrilha esquerdas e alcança a borda lateral do pé. Piora ao sentar e ao tossir. A ressonância mostra protrusão discal em L5-S1. Parece um caso fechado: achou-se a imagem, achou-se a causa.

Só que a ressonância lombar de 98 pessoas sem nenhuma dor nas costas, lida por dois neurorradiologistas cegos para o estado clínico, encontrou discos normais em todos os níveis em apenas 36% delas. 52% tinham abaulamento em pelo menos um nível, 27% tinham protrusão e 38% tinham alteração em mais de um disco. O achado que explica a dor desse paciente está presente em uma a cada quatro pessoas que não sentem nada.

E o número nem sequer é um número só. Uma revisão sistemática de 33 estudos, com 3.110 pessoas assintomáticas, mostrou que a prevalência de degeneração discal sobe de 37% aos 20 anos para 96% aos 80, e a de abaulamento, de 30% para 84% no mesmo intervalo. A imagem descreve a idade de uma articulação, não a origem de um sintoma. O que decide se aquela protrusão explica aquela dor não está na imagem: está em saber onde a raiz passa, e qual raiz passa onde. Este capítulo termina quando ficar claro por que a dor desce pela borda lateral do pé, e não pela face medial da coxa.

02

Da origem ao mapa do corpo

Ato 1 — Embriologia.

Esclerótomos se reorganizam ao redor da notocorda e do tubo neural; a resegmentação explica vértebras, discos e passagem dos nervos espinais.

A segmentação vem do embrião e explica um detalhe que costuma parecer arbitrário. Dos somitos derivam os esclerótomos, e cada vértebra se forma pela fusão da metade caudal de um esclerótomo com a metade cranial do seguinte — a ressegmentação. É por isso que o nervo segmentar sai entre duas vértebras, e não no meio de uma: a vértebra é montada fora de fase com o nervo que a acompanhava.

Ato 2 — Histologia.

Ânulo fibroso, núcleo pulposo, cartilagem terminal, ligamentos e articulações facetárias combinam tecidos avasculares e vascularizados com reparação desigual.

O disco intervertebral tem duas partes e uma engenharia elegante. O anel fibroso é feito de lamelas concêntricas de colágeno tipo I, com as fibras dispostas em obliquidade — e a inclinação alterna de sentido de uma lamela para a seguinte. O núcleo pulposo, no centro, é um gel muito hidratado, rico em proteoglicanos e colágeno tipo II.

A alternância de sentido entre lamelas explica a fragilidade à torção. Numa dada direção de rotação, apenas as lamelas cujas fibras estão orientadas naquele sentido se tensionam: metade das fibras trabalha e a outra metade folga. Sob compressão pura, todo o anel participa; sob torção, só metade. Nenhum outro tecido da região tem essa assimetria.

A histologia impõe o preço. O disco é a maior estrutura avascular do corpo. O núcleo não tem vasos, e a nutrição chega por difusão através das placas terminais cartilaginosas — dependente, como na cartilagem articular, da alternância de carga e descarga que bombeia líquido para dentro e para fora da matriz. Estrutura grande, sem vasos, nutrida por difusão: envelhece cedo e repara mal.

O envelhecimento do disco segue uma cascata previsível. Perdem-se proteoglicanos; perdida a capacidade de reter água, o núcleo desidrata; desidratado, ele deixa de se comportar como fluido pressurizado. A carga que antes se distribuía pelo hidráulico passa a incidir diretamente sobre o anel e, por perda de altura do disco, sobre as facetas.

Ato 3 — Anatomia.

Curvaturas, canal vertebral, forames e articulações orientam carga e movimento; a relação entre disco, raiz e nível vertebral localiza a compressão.

A coluna vertebral tem de atender exigências que brigam entre si. Sustentar o peso do tronco e transmiti-lo à pelve. Permitir movimento nos três planos. Proteger a medula espinal, um tecido que não se regenera. E servir de ancoragem para costelas e para toda a musculatura do tronco.

A solução foi segmentar. Em vez de uma coluna rígida única, o corpo montou uma pilha de vértebras separadas por articulações. Cada nível se move pouco; o somatório dos níveis produz amplitude grande. É a mesma lógica de um cabo formado por muitos fios: flexibilidade sem perda de resistência.

Da notocorda, o eixo que organizou todo o embrião, sobra um único resto no adulto: o núcleo pulposo do disco intervertebral. A estrutura mais antiga do plano corporal continua ali, no centro de cada disco, funcionando como bolsa de água pressurizada.

Cada vértebra tem duas partes com funções distintas. O corpo, anterior, é a peça de carga: quase todo osso trabecular com casca cortical fina e uma placa terminal cartilaginosa em cada face. O arco, posterior, formado por pedículos e lâminas, protege e projeta processos — espinhoso, transversos e articulares. Corpo e arco delimitam o forame vertebral, e a soma dos forames é o canal vertebral.

Isso cria dois sistemas paralelos que fazem coisas diferentes. A coluna anterior — corpos e discos — suporta a carga. A coluna posterior — as articulações dos processos articulares, as facetas — guia a direção do movimento. A carga vai por um caminho, a direção é decidida por outro.

E a orientação das facetas muda de região para região, determinando o que cada trecho da coluna consegue fazer. Na região cervical, as facetas ficam em plano oblíquo e permitem rotação ampla. Na torácica, ficam quase no plano frontal e permitem rotação, mas as costelas limitam o resto. Na lombar, ficam quase no plano sagital, o que libera flexão e extensão e quase proíbe rotação.

Essa última frase tem consequência mecânica direta. Se as facetas lombares impedem a rotação, quem absorve a torção aplicada ao tronco em carga é o disco. Torcer com peso nas mãos não é bloqueado pelas articulações que guiam o movimento — é entregue ao anel fibroso, que não foi construído para isso.

Em conjunto, o disco funciona como um sistema hidráulico fechado. A carga axial comprime o núcleo, que, sendo praticamente incompressível, empurra para os lados; esse empurrão tensiona as lamelas do anel. O disco converte compressão em tração circunferencial e distribui a carga uniformemente sobre a placa terminal. É por isso que um disco saudável não tem um ponto de concentração de carga.

As consequências dessa perda de altura são todas anatômicas. O forame intervertebral encolhe, aproximando as paredes da raiz que passa por ele. As facetas, que existiam para guiar e não para carregar, passam a suportar carga e desenvolvem artrose. O ligamento amarelo, encurtado pela aproximação das lâminas, deixa de estar tensionado e pode se pregar para dentro do canal. Em conjunto, o canal e o forame estreitam.

Onde a hérnia vai é decidido por dois detalhes de forma. O ligamento longitudinal posterior reforça o disco pela linha média, e na região lombar ele é estreito. O anel fibroso, por sua vez, é mais fino posterolateralmente. Resultado: quando o núcleo migra, o caminho de menor resistência é para trás e para o lado — exatamente por onde caminha a raiz nervosa.

Para saber qual raiz, é preciso ter a numeração na cabeça. Na região cervical, as raízes de C1 a C7 saem acima do pedículo da vértebra de mesmo nome; C8 sai entre C7 e T1; e de T1 para baixo cada raiz sai abaixo do pedículo da sua vértebra. Assim, na coluna lombar, a raiz L4 sai pelo forame L4-L5, sob o pedículo de L4.

Agora a geometria que responde à cena. No forame L4-L5, a raiz L4 já saiu, ocupando a porção superior do forame. Uma hérnia posterolateral nesse nível fica abaixo dela e atinge a raiz que ainda está descendo pelo canal a caminho do seu próprio forame: a raiz L5. Ou seja, a hérnia posterolateral comprime a raiz do nível de baixo.

A exceção confirma a regra pela forma. Uma hérnia foraminal, muito lateral, ocupa o próprio forame — e ali quem está passando é a raiz que sai naquele nível. A mesma hérnia, no mesmo disco, comprime raízes diferentes conforme a distância que percorre lateralmente. Isso não se decora: se deduz do mapa.

Aplicando ao paciente: uma hérnia posterolateral em L5-S1 comprime a raiz S1. O território de S1 é a face posterior da coxa e da panturrilha, a borda lateral do pé e o quinto dedo; a função é a flexão plantar; e o reflexo é o aquileu. É por isso que a dor da cena desce por trás e termina na borda lateral do pé.

O contraste fecha o raciocínio. A raiz L5 leva sensibilidade ao dorso do pé e ao hálux, comanda a dorsiflexão e a extensão do hálux, e não tem reflexo próprio de rotina — de modo que uma radiculopatia L5 pode cursar com reflexos normais, o que engana quem espera que toda compressão de raiz aboliria algum reflexo.

Um segundo desencontro de crescimento organiza a região lombar baixa. A coluna vertebral cresce mais que a medula espinal, de modo que no adulto a medula termina em torno de L1 e L2, no cone medular. Abaixo disso, o canal contém apenas um feixe de raízes que continuam descendo até seus forames: a cauda equina.

Essa diferença de nível tem duas consequências práticas. Primeiro, a punção lombar é feita abaixo do fim da medula, onde há raízes móveis em líquido e não cordão nervoso. Segundo, uma hérnia central e volumosa abaixo de L1 não comprime medula — comprime um feixe de raízes, e por isso produz um quadro bilateral, com alteração de sensibilidade em sela e comprometimento de esfíncteres. É a síndrome da cauda equina, e ela existe por causa de onde a medula termina.

Os ligamentos completam o desenho e cada um combina com sua função. O longitudinal anterior, largo, resiste à extensão. O longitudinal posterior, estreito na região lombar, resiste à flexão e deixa desprotegida justamente a região posterolateral. O ligamento amarelo é o mais rico em elastina do corpo: ele recolhe elasticamente quando a coluna volta da flexão, o que impede que se pregue para dentro do canal.

As curvaturas também vêm do desenvolvimento. As cifoses torácica e sacral são primárias, presentes desde a vida fetal. As lordoses cervical e lombar são secundárias: a cervical aparece quando o lactente sustenta a cabeça, a lombar quando ele fica em pé. Curvas alternadas aumentam a resistência da coluna à carga axial, e nascem do uso.

Por fim, dois detalhes de inervação evitam erros comuns. O terço externo do anel fibroso e o ligamento longitudinal posterior são inervados pelo nervo sinuvertebral — o disco pode doer, mas só por fora; o núcleo é insensível. E a estenose do canal, somando facetas hipertrofiadas, ligamento amarelo pregueado e disco abaulado, produz sintomas que aliviam com a flexão do tronco, porque fletir abre o canal e o forame.

Reunindo: a coluna segmentou para conciliar carga com movimento; a segmentação exigiu um amortecedor hidráulico entre os corpos; o amortecedor, para funcionar, teve de ser grande e avascular, e por isso envelhece cedo e em quase todo mundo; o envelhecimento reduz altura e estreita forames; e o ponto por onde o núcleo escapa é o mesmo por onde a raiz caminha. Nada disso torna a imagem irrelevante — torna a anatomia da raiz a régua que decide quando a imagem explica o sintoma.

Três painéis do disco intervertebral: vista axial com lamelas de fibras alternadas e anel mais fino posterolateralmente; corte sagital mostrando o núcleo convertendo compressão em tração no anel; e o mesmo corte com disco desidratado, perda de altura, forame estreitado e ligamento amarelo pregueado.
O núcleo converte compressão em tração circunferencial e distribui a carga. Quando desidrata, a altura cai — e o forame por onde a raiz passa encolhe junto.
03

O que a forma explica

Seis perguntas que dizem qual raiz está comprometida, em que nível e se o quadro exige avaliação imediata, antes de qualquer imagem.

  • Por onde exatamente a dor desce, e até onde vai no pé?

    O território separa as raízes: S1 desce por trás e alcança a borda lateral do pé e o quinto dedo; L5 alcança o dorso do pé e o hálux. A distribuição localiza a raiz antes do exame de imagem.

  • A dor piora ao tossir, espirrar ou fazer força?

    Essas manobras aumentam a pressão dentro do canal e do disco. A piora sugere que a origem é uma estrutura sensível a essa variação de pressão, e não dor muscular local.

  • Há fraqueza para ficar na ponta do pé ou para andar sobre os calcanhares?

    Ficar na ponta testa a flexão plantar, de S1; andar sobre os calcanhares testa a dorsiflexão, de L5. Dois gestos simples separam as duas raízes mais envolvidas.

  • Houve alteração para urinar ou evacuar, ou dormência na região que toca a sela de uma bicicleta?

    Aponta comprometimento de múltiplas raízes sacrais no canal, abaixo do fim da medula. É o quadro da cauda equina, e muda a urgência da avaliação.

  • A dor nas pernas aparece ao caminhar e melhora ao sentar ou inclinar o tronco para frente?

    Fletir a coluna abre o canal e o forame. O alívio pela flexão sugere estreitamento do canal, e não obstrução arterial, que aliviaria apenas com a parada.

  • Há febre, perda de peso, história de câncer, trauma importante ou dor que não alivia em nenhuma posição?

    São dados que deslocam a hipótese para fora do envelhecimento do disco. Sem eles, achados degenerativos na imagem têm alta chance de ser coincidentes.

04

Como se orientar

Aceitar que a coluna resolveu carga e movimento por segmentação
Muitos níveis com pouco movimento cada somam amplitude grande sem perder resistência. Todo o resto decorre dessa escolha.
Separar coluna anterior de coluna posterior
Corpos e discos carregam; facetas guiam a direção. Carga e direção viajam por caminhos diferentes, e falham de modos diferentes.
Ler o disco como sistema hidráulico fechado
O núcleo converte compressão em tração no anel. Quando desidrata, a carga deixa de ser distribuída e passa a incidir sobre anel e facetas.
Saber que o disco é a maior estrutura avascular do corpo
A nutrição chega por difusão pelas placas terminais. Grande, sem vasos e nutrido por difusão: envelhece cedo e repara mal.
Ter a numeração das raízes na cabeça antes de olhar imagem
Da região torácica para baixo, cada raiz sai abaixo do pedículo da sua vértebra. Sem isso, não dá para dizer que raiz uma hérnia atinge.
Lembrar onde a medula termina
No adulto, em torno de L1 e L2. Abaixo disso o canal contém a cauda equina, e uma hérnia central comprime um feixe de raízes, não a medula.
05

A leitura

Ler a coluna como uma pilha segmentada que trocou rigidez por amplitude — e seguir essa troca até o disco que desidrata, o forame que encolhe e a raiz que dói.

  1. 1

    Enunciar as quatro exigências que a coluna concilia

    Sustentar o tronco e transmitir a carga à pelve, permitir movimento nos três planos, proteger a medula e ancorar costelas e musculatura do tronco.

    Erro comum: Estudar a coluna como estrutura de sustentação apenas. Ela é, ao mesmo tempo, eixo de carga, conjunto de articulações e estojo de um tecido que não se regenera.

  2. 2

    Usar a ressegmentação para entender por onde o nervo sai

    Cada vértebra se forma pela metade caudal de um esclerótomo somada à metade cranial do seguinte. Por isso o nervo segmentar emerge entre vértebras, e não no meio de uma.

    Erro comum: Tratar a saída do nervo entre duas vértebras como convenção arbitrária. É consequência de a vértebra ser montada fora de fase com o nervo.

  3. 3

    Reconhecer o núcleo pulposo como resto da notocorda

    O eixo que organizou o embrião sobrevive no adulto apenas no centro de cada disco, como bolsa de água pressurizada entre dois corpos vertebrais.

    Erro comum: Decorar o núcleo como um tecido qualquer. Sua origem explica por que ele é gel hidratado e não fibrocartilagem como o anel em volta.

  4. 4

    Dividir a vértebra em peça de carga e peça de proteção

    Corpo anterior, quase todo trabecular, com placas terminais cartilaginosas; arco posterior com pedículos, lâminas e processos. Juntos delimitam o forame vertebral.

    Erro comum: Ver os processos apenas como pontos de inserção. Os processos articulares formam as facetas, que decidem a direção do movimento em cada região.

  5. 5

    Usar a orientação das facetas para prever o movimento de cada região

    Cervical em plano oblíquo, com rotação ampla; torácica quase frontal, com costelas limitando; lombar quase sagital, com flexão e extensão amplas e rotação quase nula.

    Erro comum: Supor que toda a coluna se move igual. A lombar praticamente não roda, e é o disco que acaba recebendo a torção aplicada ao tronco.

    Três pares de vértebras mostrando facetas em plano oblíquo na região cervical com rotação ampla, quase frontal na torácica com costelas limitando, e quase sagital na lombar com flexão livre e rotação bloqueada, sobrando a torção para o disco.
    A orientação das facetas decide o que cada região consegue fazer. Como a lombar quase não roda, a torção aplicada ao tronco vai para o anel fibroso, que não foi construído para ela.
  6. 6

    Montar o disco lamela por lamela

    Anel fibroso em lamelas concêntricas de colágeno tipo I, com fibras oblíquas que alternam de sentido entre lamelas vizinhas; núcleo pulposo central, gel hidratado rico em proteoglicanos.

    Erro comum: Ignorar a alternância de sentido das fibras. Sob compressão todo o anel trabalha; sob torção, apenas as lamelas orientadas naquele sentido se tensionam.

  7. 7

    Fazer o disco funcionar como sistema hidráulico

    A carga axial comprime o núcleo, praticamente incompressível, que empurra para os lados e tensiona as lamelas. Compressão vira tração circunferencial, e a carga se distribui pela placa terminal.

    Erro comum: Imaginar o disco como almofada passiva. Ele redistribui carga ativamente, e é essa redistribuição que se perde quando o núcleo desidrata.

  8. 8

    Seguir a cascata da desidratação até o forame

    Perda de proteoglicanos, perda de água, fim do comportamento hidráulico, carga direta sobre anel e facetas, perda de altura do disco, forame menor e ligamento amarelo pregueado.

    Erro comum: Tratar cada achado degenerativo como doença separada. Abaulamento, artrose facetária e estreitamento do forame são etapas de uma mesma cascata mecânica.

  9. 9

    Deduzir para onde o núcleo escapa

    O ligamento longitudinal posterior é estreito na região lombar e reforça a linha média; o anel é mais fino posterolateralmente. O caminho de menor resistência é para trás e para o lado.

    Erro comum: Esperar hérnias centrais como regra. A geometria empurra o material para a região posterolateral, que é exatamente por onde a raiz caminha.

  10. 10

    Aplicar a numeração das raízes ao nível da hérnia

    Da região torácica para baixo, cada raiz sai abaixo do pedículo da sua vértebra. No forame L4-L5, a raiz L4 já saiu e ocupa a porção superior do forame.

    Erro comum: Assumir que a hérnia de um nível comprime a raiz de mesmo número. Depende de quão lateral ela é, e a numeração precisa vir antes da conclusão.

    Vista posterior do canal lombar com as raízes L4, L5 e S1 e duas hérnias no disco L4-L5: a posterolateral atinge a raiz L5 que está descendo, e a foraminal atinge a raiz L4 que sai naquele nível.
    O mesmo disco produz dois quadros diferentes conforme a distância que o material percorre lateralmente. A posterolateral pega a raiz do nível de baixo; a foraminal, a que sai ali.
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    Traduzir a raiz comprimida em território, força e reflexo

    S1: face posterior da coxa e panturrilha, borda lateral do pé e quinto dedo, flexão plantar, reflexo aquileu. L5: dorso do pé e hálux, dorsiflexão e extensão do hálux, sem reflexo próprio de rotina.

    Erro comum: Esperar que toda radiculopatia aboliria algum reflexo. A raiz L5 não tem reflexo próprio de rotina, e o exame pode ser normal nesse item.

  12. 12

    Localizar o fim da medula e o que existe abaixo dele

    No adulto a medula termina em torno de L1 e L2, no cone medular; abaixo, o canal contém a cauda equina. A coluna cresceu mais que a medula.

    Erro comum: Chamar de compressão medular o que ocorre abaixo de L2. Ali se comprime um feixe de raízes, e o quadro é bilateral, com alteração em sela e de esfíncteres.

    Corte sagital da coluna toracolombar mostrando a medula terminando no cone medular entre L1 e L2, a cauda equina descendo abaixo dela, o espaço seguro para punção lombar e uma hérnia central comprimindo o feixe de raízes dos dois lados.
    A coluna cresce mais que a medula, e o desencontro cria um trecho de canal que contém apenas raízes. É por isso que ali se punciona com segurança — e por isso a compressão ali é bilateral.
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Normal e alterado

Normal
  • Curvaturas alternadas presentes ao exame de perfil: lordose cervical, cifose torácica e lordose lombar.
  • Flexão e extensão lombares amplas, com rotação do tronco ocorrendo sobretudo na região torácica.
  • Marcha na ponta dos pés e sobre os calcanhares executadas sem dificuldade e de forma simétrica.
  • Reflexos patelar e aquileu presentes e simétricos.
  • Sensibilidade preservada e simétrica no dorso do pé, na borda lateral do pé e na face medial da perna.
  • Elevação passiva da perna estendida sem reprodução de dor irradiada até o pé.
Dor que desce pela face posterior da coxa e da panturrilha até a borda lateral do pé e o quinto dedo, com reflexo aquileu reduzido
Território, função e reflexo da raiz S1. O conjunto localiza a raiz, e uma hérnia posterolateral em L5-S1 é a causa que a geometria prevê.
Dor irradiada ao dorso do pé e ao hálux, com fraqueza para andar sobre os calcanhares e reflexos normais
Padrão da raiz L5. A ausência de alteração de reflexo não afasta a radiculopatia, porque L5 não tem reflexo próprio de rotina.
Piora nítida da dor irradiada ao tossir, espirrar ou fazer força
A dor responde a variações de pressão dentro do canal e do disco, o que aponta estrutura sensível a pressão, e não dor muscular local.
Dormência em sela, retenção urinária ou perda de controle esfincteriano com dor lombar
Comprometimento simultâneo de múltiplas raízes sacrais no canal, abaixo do fim da medula. Quadro da cauda equina, com necessidade de avaliação imediata.
Dor nas pernas ao caminhar que melhora ao sentar ou inclinar o tronco para frente
Sugere estreitamento do canal. Fletir a coluna abre canal e forame, e é essa dependência da postura que a diferencia da limitação por fluxo arterial.
Perda de altura corporal ao longo dos anos, com acentuação da cifose torácica
Reflete perda de altura dos discos por desidratação, somada a alterações dos corpos vertebrais. É a mesma cascata que estreita forames.
Abaulamento discal em ressonância de pessoa sem dor nas costas
Achado presente em 52% de pessoas assintomáticas e cuja prevalência sobe de 30% aos 20 anos para 84% aos 80. Descreve a idade do disco, não a origem de um sintoma.
Dor lombar com febre, perda de peso ou história de câncer
Desloca a hipótese para fora do envelhecimento do disco. Nesses casos, o achado degenerativo na imagem tem maior chance de ser apenas concomitante.
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Por que isso importa

A cena colocou lado a lado uma dor típica e uma imagem que a explica. O capítulo inteiro serve para responder se essa coincidência basta. O primeiro dado veio de 98 pessoas sem nenhuma dor nas costas, submetidas a ressonância lombar. Para reduzir viés, os exames foram lidos por dois neurorradiologistas cegos ao estado clínico, e 27 exames de pessoas com dor foram misturados ao lote. Apenas 36% tinham discos normais em todos os níveis. 52% tinham abaulamento em pelo menos um nível, 27% tinham protrusão, 1% tinha extrusão e 38% tinham alteração em mais de um disco.

Havia mais: nódulos de Schmorl em 19%, defeitos do anel em 14% e artropatia facetária em 8%. Os achados foram semelhantes em homens e mulheres, e a prevalência de abaulamentos, mas não a de protrusões, aumentava com a idade.

A conclusão dos autores é a que interessa aqui: dada a alta prevalência tanto desses achados quanto de dor lombar na população, encontrar abaulamento ou protrusão em quem tem dor pode ser, com frequência, coincidência. Duas coisas comuns se encontram sem que uma cause a outra.

Um único percentual, porém, ainda é enganoso — e é aqui que a segunda fonte muda a conversa. Uma revisão sistemática reuniu 33 artigos com 3.110 pessoas assintomáticas e estimou a prevalência por década de idade, em vez de um número único.

Os resultados desenham curvas: degeneração discal em 37% aos 20 anos e 96% aos 80; abaulamento em 30% aos 20 e 84% aos 80; protrusão em 29% aos 20 e 43% aos 80; fissura do anel em 19% aos 20 e 29% aos 80.

Colocar as duas fontes juntas é o ponto do capítulo, e as duas leituras precisam conviver. O número agregado — 52% de abaulamento entre assintomáticos — informa que o achado é comum. A curva por idade informa o quanto ele é esperado naquela pessoa. Um abaulamento aos 70 anos é praticamente o estado basal do tecido; o mesmo abaulamento aos 22 anos é bem menos banal. Quem só decora o percentual único perde a segunda informação; quem só olha a curva perde a magnitude do problema de interpretação.

Há também o que essas fontes não dizem, e isso precisa estar explícito. Elas descrevem a prevalência do achado em quem não tem sintoma. Não dizem qual é a prevalência do mesmo achado em quem tem sintoma, e é a diferença entre as duas que determina o quanto a imagem informa. A extrusão, por exemplo, apareceu em apenas 1% dos assintomáticos — um achado raro nesse grupo pesa muito mais que um abaulamento presente em metade deles.

As limitações do estudo de 98 pessoas também importam. A amostra é pequena para estimar prevalências com precisão, os critérios de classificação eram os daquele protocolo, e a tecnologia de ressonância de 1994 difere da atual, o que pode mudar tanto o que se enxerga quanto o que se chama de anormal. A revisão sistemática ganha em tamanho, mas herda a heterogeneidade dos 33 estudos incluídos: definições de "assintomático" e critérios de laudo variam entre eles, e as estimativas por idade vêm de um modelo ajustado, não de medições diretas em cada década.

Se a imagem não decide sozinha, o que decide? A anatomia da raiz. E é aqui que a morfologia deste capítulo entrega a resposta clínica. A geometria começa pelo caminho da hérnia. O ligamento longitudinal posterior é estreito na região lombar e reforça a linha média; o anel fibroso é mais fino posterolateralmente. O material que escapa segue o caminho de menor resistência, que é para trás e para o lado — a mesma região por onde a raiz caminha. Não é coincidência que a hérnia encontre a raiz: as duas usam o mesmo corredor.

Depois vem a numeração. Da região torácica para baixo, cada raiz sai abaixo do pedículo da vértebra de mesmo nome. No forame L4-L5, portanto, a raiz L4 já saiu e ocupa a porção superior do forame. Uma hérnia posterolateral nesse disco fica abaixo dela e atinge a raiz que ainda desce pelo canal rumo ao próprio forame: a L5.

Daí a regra que se deduz em vez de decorar: hérnia posterolateral comprime a raiz do nível de baixo; hérnia foraminal, muito lateral, comprime a raiz que sai naquele nível. O mesmo disco, dois quadros clínicos, e a diferença é quanto o material caminhou para o lado.

Aplicando ao paciente da cena: hérnia posterolateral em L5-S1 comprime a raiz S1. O território de S1 percorre a face posterior da coxa e da panturrilha e alcança a borda lateral do pé e o quinto dedo; a função é a flexão plantar; o reflexo é o aquileu. Era exatamente por onde a dor descia. A imagem sozinha não fecharia o caso; a imagem com o mapa da raiz fecha.

O contraste com L5 evita um erro comum. A raiz L5 leva sensibilidade ao dorso do pé e ao hálux, comanda a dorsiflexão e a extensão do hálux, e não tem reflexo próprio de rotina. Uma radiculopatia L5 pode cursar com reflexos patelar e aquileu normais. Quem espera que toda compressão de raiz abole algum reflexo descarta o diagnóstico pelo motivo errado.

O exame físico também precisa ser lido com números, e aqui uma revisão sistemática de acurácia ajuda. Reunindo 16 coortes e 3 estudos de caso-controle, a elevação da perna estendida mostrou, em populações cirúrgicas, sensibilidade agrupada de 0,92 (IC 95% 0,87 a 0,95) e especificidade agrupada de 0,28 (IC 95% 0,18 a 0,40), com especificidade variando de 0,10 a 1,00 entre os estudos. A versão cruzada do mesmo teste inverteu o perfil: especificidade agrupada de 0,90 (IC 95% 0,85 a 0,94) e sensibilidade agrupada de 0,28 (IC 95% 0,22 a 0,35).

Esses dois pares de números ensinam a mesma lição em outra escala. Um teste muito sensível e pouco específico serve sobretudo para não deixar passar; um teste muito específico e pouco sensível serve sobretudo para confirmar. Elevar a perna do lado doente e elevar a perna do lado são gestos parecidos com utilidades opostas.

As limitações, de novo, mudam o que se pode afirmar. Essas estimativas vêm em sua maioria de populações cirúrgicas, nas quais a prevalência de hérnia ia de 58% a 98% — pessoas já selecionadas por gravidade. Apenas um dos estudos foi feito na atenção primária, e nele os testes mostraram especificidade maior e sensibilidade menor do que nos demais contextos. Ou seja: os números não se transportam intactos do centro cirúrgico para o consultório. Sensibilidade e especificidade não são propriedades fixas de um teste; elas mudam com o espectro de doentes em que o teste foi medido.

Duas consequências anatômicas de nível fecham a parte clínica. A coluna cresce mais que a medula, de modo que no adulto a medula termina em torno de L1 e L2. Abaixo disso, o canal contém apenas o feixe de raízes da cauda equina, banhado em líquido — o que torna aquele trecho seguro para punção lombar.

E torna outra coisa possível. Uma hérnia central e volumosa abaixo desse nível não comprime medula: comprime um feixe de raízes de ambos os lados. Por isso o quadro da cauda equina é bilateral, com alteração de sensibilidade na região em sela e comprometimento de esfíncteres. É uma exceção anatômica ao padrão unilateral da radiculopatia, e é a razão de perguntar sobre esfíncteres em toda dor lombar irradiada.

A estenose do canal repete a cascata do disco em escala maior. Facetas hipertrofiadas por sobrecarga, ligamento amarelo pregueado pela perda de altura e disco abaulado somam-se e estreitam o canal. O sintoma resultante depende da postura: piora ao caminhar em pé e melhora ao fletir o tronco, porque fletir abre canal e forame. É semiologia deduzida diretamente da forma.

Reunindo o capítulo: a coluna segmentou para conciliar carga e movimento; a segmentação exigiu um amortecedor hidráulico grande e avascular entre os corpos; grande e avascular significa envelhecimento precoce e em quase todo mundo, o que explica por que a imagem quase sempre encontra algo; o envelhecimento reduz a altura e estreita forames; e o material que escapa usa o mesmo corredor por onde a raiz passa. A imagem descreve a idade do tecido. Quem decide se ela explica o sintoma é o mapa da raiz — território, força e reflexo.

Dor axial, radicular e déficit medular devem ser separados pela estrutura atingida, mantendo a imagem como confirmação do mapa clínico.

SinalMedidaValorFonte
Achados degenerativos na ressonância lombar de pessoas sem dor nas costasRessonância da coluna lombar em 98 voluntários sem dor nas costas, com laudo independente de dois neurorradiologistas cegos ao estado clínico e 27 exames de pessoas com dor misturados ao lote para reduzir viés de leitura; os valores são a média das duas leituras. Amostra pequena para estimativas precisas, critérios de classificação próprios daquele protocolo e tecnologia de ressonância de 1994. O estudo mede a prevalência do achado em quem não tem sintoma, e não a prevalência em quem tem — a comparação entre as duas é que determinaria o quanto o achado informa.Entre 98 pessoas assintomáticas, 36% tinham discos normais em todos os níveis; 52% tinham abaulamento em pelo menos um nível; 27% tinham protrusão; 1% tinha extrusão; 38% tinham alteração em mais de um disco. Nódulos de Schmorl em 19%, defeitos do anel em 14% e artropatia facetária em 8%Jensen MC, Brant-Zawadzki MN, Obuchowski N, Modic MT, Malkasian D, Ross JS. Magnetic resonance imaging of the lumbar spine in people without back pain. N Engl J Med. 1994;331(2):69-73. doi:10.1056/nejm199407143310201
Prevalência de achados degenerativos da coluna em pessoas assintomáticas, por idadeRevisão sistemática de 33 artigos publicados até abril de 2014, somando 3.110 pessoas assintomáticas examinadas por tomografia ou ressonância, com estimativas por década obtidas por modelo linear generalizado de efeitos mistos ajustado pelo ponto médio do intervalo etário de cada estudo. As estimativas vêm de um modelo, não de medições diretas em cada década, e herdam a heterogeneidade dos estudos incluídos, que variam na definição de pessoa assintomática e nos critérios de laudo. Descreve prevalência em quem não tem sintoma, sem comparar com quem tem.Degeneração discal em 37% aos 20 anos e 96% aos 80 anos; abaulamento discal em 30% aos 20 e 84% aos 80; protrusão discal em 29% aos 20 e 43% aos 80; fissura do anel em 19% aos 20 e 29% aos 80Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-816. doi:10.3174/ajnr.a4173
Elevação da perna estendida e sua versão cruzada para radiculopatia por hérnia discal lombarRevisão sistemática de acurácia com 16 estudos de coorte (mediana de 126 participantes, variação de 71 a 2.504) e 3 estudos de caso-controle, comparando o exame físico com imagem ou achados cirúrgicos. A maior parte das estimativas vem de populações cirúrgicas, com prevalência de hérnia entre 58% e 98% — pessoas já selecionadas por gravidade. Apenas um estudo foi feito na atenção primária, e nele os testes mostraram especificidade maior e sensibilidade menor que nos demais contextos. Estudos que usaram imagem como referência apresentaram mais heterogeneidade e sensibilidade menor.Elevação da perna estendida em populações cirúrgicas: sensibilidade agrupada 0,92 (IC 95% 0,87 a 0,95) e especificidade agrupada 0,28 (IC 95% 0,18 a 0,40), com especificidade variando de 0,10 a 1,00 entre os estudos. Versão cruzada: especificidade agrupada 0,90 (IC 95% 0,85 a 0,94) e sensibilidade agrupada 0,28 (IC 95% 0,22 a 0,35)van der Windt DA, Simons E, Riphagen II, Ammendolia C, Verhagen AP, Laslett M, et al. Physical examination for lumbar radiculopathy due to disc herniation in patients with low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2010;(2):CD007431. doi:10.1002/14651858.CD007431.pub2
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As três raízes lombossacrais mais envolvidas, lado a lado

Território, força e reflexo formam um trio que localiza a raiz sem depender de imagem. Com esse mapa, dor que desce pela perna deixa de ser queixa genérica e passa a ter endereço.

AspectoRaiz L4Raiz L5Raiz S1
Hérnia que tipicamente a comprimeForaminal em L4-L5, ou posterolateral em L3-L4Posterolateral em L4-L5Posterolateral em L5-S1
Território sensitivoFace anterior da coxa e face medial da pernaFace lateral da perna, dorso do pé e háluxFace posterior da coxa e panturrilha, borda lateral do pé e quinto dedo
Força tipicamente comprometidaExtensão do joelhoDorsiflexão do pé e extensão do háluxFlexão plantar do pé
Gesto que testa à beira do leitoLevantar de uma cadeira sem apoio de braçosAndar sobre os calcanharesFicar e caminhar na ponta dos pés
Reflexo correspondentePatelarSem reflexo próprio de rotinaAquileu
Erro clínico frequenteConfundir com dor de origem no próprio quadrilDescartar a hipótese por reflexos normaisAtribuir a fraqueza de ponta de pé a dor, sem testar a marcha
  • Da região torácica para baixo, cada raiz sai abaixo do pedículo da vértebra de mesmo nome: no forame L4-L5, a raiz L4 já saiu e ocupa a porção superior, o que faz a hérnia posterolateral atingir a raiz que ainda desce.
  • Dormência em sela, alteração de esfíncteres ou déficit bilateral sugerem compressão de múltiplas raízes abaixo do fim da medula, e saem do padrão unilateral da radiculopatia por hérnia posterolateral.
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Onde se erra

Fechar o diagnóstico na imagem
Apenas 36% das pessoas sem dor nas costas tinham discos normais em todos os níveis. O achado é comum demais para explicar sozinho um sintoma.
Usar um percentual único para qualquer idade
A prevalência de abaulamento em assintomáticos sobe de 30% aos 20 anos para 84% aos 80. O mesmo achado significa coisas diferentes em pessoas diferentes.
Tratar abaulamento e extrusão como equivalentes
Abaulamento apareceu em 52% dos assintomáticos e extrusão em 1%. Achado raro entre quem não tem sintoma pesa muito mais.
Assumir que a hérnia comprime a raiz de mesmo número do disco
A posterolateral atinge a raiz do nível de baixo; a foraminal, a que sai naquele nível. A conclusão depende de quão lateral o material foi.
Descartar radiculopatia L5 por reflexos normais
A raiz L5 não tem reflexo próprio de rotina. Esperar abolição de reflexo em toda compressão de raiz descarta o diagnóstico pelo motivo errado.
Transportar acurácia de população cirúrgica para o consultório
As estimativas vêm de grupos com prevalência de hérnia entre 58% e 98%. No único estudo de atenção primária, especificidade e sensibilidade se comportaram de outro modo.
Chamar de compressão medular o que acontece abaixo de L2
No adulto a medula termina em torno de L1 e L2. Abaixo disso comprime-se um feixe de raízes, com quadro bilateral e comprometimento de esfíncteres.
Esquecer de perguntar sobre esfíncteres e região em sela
É o que separa uma radiculopatia unilateral de um comprometimento de múltiplas raízes sacrais, que muda a urgência da avaliação.
Ver o disco como almofada passiva
Ele é um sistema hidráulico que converte compressão em tração no anel. Ao desidratar, deixa de distribuir carga e a transfere para anel e facetas.
Tratar cada achado degenerativo como doença independente
Perda de altura, abaulamento, artrose facetária e estreitamento do forame são etapas encadeadas de uma mesma cascata mecânica.
Supor que a coluna lombar roda como a cervical
As facetas lombares ficam quase no plano sagital e praticamente impedem rotação. A torção aplicada ao tronco acaba absorvida pelo anel fibroso.
Ignorar a postura que alivia a dor nas pernas
Alívio ao fletir o tronco sugere estreitamento do canal, porque fletir abre canal e forame. A dependência da postura é informação anatômica.
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Roteiro de leitura

Percorra o capítulo em três escalas: origem, tecido e relações anatômicas; use a síntese clínica para reuni-las.

  1. 01Enunciar as quatro exigências que a coluna concilia por segmentação
  2. 02Usar a ressegmentação do esclerótomo para entender por onde o nervo sai
  3. 03Reconhecer o núcleo pulposo como único resto da notocorda no adulto
  4. 04Separar coluna anterior de carga e coluna posterior de direção
  5. 05Prever o movimento de cada região pela orientação das facetas
  6. 06Montar o disco lamela por lamela e notar a alternância das fibras
  7. 07Fazer o disco funcionar como sistema hidráulico fechado
  8. 08Seguir a cascata da desidratação até o forame estreitado
  9. 09Deduzir para onde o núcleo escapa a partir do anel e do ligamento
  10. 10Aplicar a numeração das raízes ao nível e ao tipo da hérnia
  11. 11Traduzir a raiz comprimida em território, força e reflexo
  12. 12Localizar o fim da medula e reconhecer o que muda abaixo dele
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Teste-se

Sorteando as questões…
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Leve para o paciente

Homem de 38 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, minha coluna travou e a dor desce pela perna direita até o pé." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.

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Revisão espaçada

7 dias

Por que o disco intervertebral é a maior estrutura avascular do corpo, e o que isso implica para o modo como ele envelhece e repara? Por que uma hérnia posterolateral em L4-L5 comprime a raiz L5, e não a L4? Onde termina a medula espinal no adulto, e que consequência isso traz para o quadro de uma hérnia central em L4-L5?

30 dias

Explique, partindo da geometria do anel fibroso e do ligamento longitudinal posterior, por que a hérnia sai pela região posterolateral e encontra ali a raiz nervosa. Depois pegue os números de prevalência em pessoas assintomáticas — 52% de abaulamento no estudo com 98 pessoas, e a curva de 30% aos 20 anos a 84% aos 80 na revisão com 3.110 — e diga o que o percentual único informa, o que a curva por idade acrescenta, e por que nenhum dos dois permite dizer o quanto o achado informa sem saber a prevalência em quem tem sintoma.