Fundamentos da Prática ClínicaPsicologia médica e comunicação

Adesão ao tratamento

Metade não faz o combinado — e você não consegue adivinhar quem

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A cena

Terceira consulta do mesmo paciente hipertenso, terceira vez que a pressão vem alta. O preceptor olha a prescrição, comenta que o esquema não está funcionando e acrescenta mais um remédio. A consulta dura sete minutos e ninguém, em nenhuma das três vezes, perguntou se ele está tomando os comprimidos.

Ele não está. Acaba a caixa antes da data da próxima retirada, e nas duas últimas semanas de cada mês ele não toma nada. Nunca contou isso porque ninguém perguntou, e porque a única vez que o assunto chegou perto foi quando o médico disse que era simples, era só tomar direitinho.

Agora ele vai sair com três medicações em vez de duas — mais caras de manter, mais fáceis de esquecer, e com um efeito colateral novo que talvez o faça abandonar as três. O problema não era o esquema. Era que ninguém investigou o que estava acontecendo antes de escalonar o tratamento em cima de uma informação falsa.

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De onde vem o sinal

Adesão é o quanto o comportamento da pessoa corresponde ao que foi combinado com a equipe de saúde. A palavra combinado é a parte importante: a versão antiga do conceito chamava-se obediência, e presumia que a tarefa do paciente era cumprir. A troca de nome acompanhou uma constatação prática — quando o plano não é acordado, ele simplesmente não acontece.

Barreiras e facilitadores da adesão reunidos ao redor do paciente.
Adesão é uma propriedade do plano em contexto, não um traço moral do paciente.

A magnitude do problema é maior do que quase todo estudante imagina. O relatório da Organização Mundial da Saúde de 2003 sobre terapias de longo prazo, na seção de mensagens-chave, registra que a adesão ao tratamento de doenças crônicas nos países desenvolvidos gira em torno de 50%, e que nos países em desenvolvimento as taxas são ainda menores. Metade. Em doença crônica, presumir que a prescrição virou tratamento é presumir contra a probabilidade.

O segundo fato desmonta o preconceito mais comum. Existe a crença de que dá para saber quem não vai aderir: o mais pobre, o mais velho, o menos escolarizado. Na maior revisão quantitativa já feita sobre o tema, reunindo 569 estudos de cinquenta anos, os efeitos das características demográficas sobre a adesão foram pequenos e ainda por cima dependentes do tipo de amostra e de medida. Traduzindo: você não consegue olhar para o paciente e prever. Só perguntando.

O terceiro é o mais útil para quem está aprendendo a conversar. Como o médico comunica está associado ao que o paciente faz depois — e não apenas por correlação. A meta-análise que reuniu essa literatura encontrou tanto o vínculo observacional quanto os ensaios em que médicos foram treinados em comunicação, e a adesão dos pacientes deles aumentou. É uma das poucas evidências em que a variável treinável é o comportamento do profissional, não o do paciente.

Vale organizar a não adesão em três perguntas, porque cada uma tem uma saída diferente. A pessoa entendeu o que era para fazer? Ela consegue fazer — tem o remédio, o dinheiro, a rotina, a mão, a memória? E ela concorda com o plano, ou saiu do consultório achando que não precisava daquilo? Escalonar o tratamento resolve nenhuma das três.

Por fim, uma advertência de honestidade que este capítulo faz questão de dar antes de qualquer técnica: a literatura de intervenções para melhorar adesão é vasta e decepcionante. Depois de 182 ensaios randomizados, a conclusão da revisão sistemática que os reuniu é que os métodos atuais são, na maioria, complexos e pouco efetivos. Isso não torna o assunto inútil — torna suspeita qualquer receita de bolo que prometa resolver.

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O que perguntar

A pergunta errada garante a resposta errada. 'O senhor está tomando os remédios certinho?' convida ao sim educado; a formulação abaixo dá permissão para a verdade.

  • Muita gente acaba esquecendo de tomar, ou para quando se sente bem. Nas últimas duas semanas, quantos dias o senhor acha que deixou passar?

    Normaliza antes de perguntar e pede um número, não um sim ou não. A pergunta julgadora produz a resposta que o paciente acha que o médico quer ouvir.

  • Me mostra como o senhor toma? Que horas, quantos comprimidos, com o quê?

    Descobre o erro de entendimento, que é diferente de esquecimento. Muita 'não adesão' é a pessoa tomando de um jeito que ninguém explicou direito.

  • O senhor conseguiu pegar todos na farmácia? Está conseguindo manter?

    Acesso e custo são causa frequente e a que o paciente menos oferece espontaneamente, porque envolve admitir falta de dinheiro.

  • Algum deles te fez sentir mal?

    Efeito adverso é motivo comum de abandono silencioso — a pessoa para, não conta, e o médico conclui que a dose foi insuficiente.

  • O senhor concorda que precisa desse tratamento? Tem alguma dúvida se ele é necessário?

    Vai ao terceiro eixo. Quem não acredita que precisa não vai tomar por muito tempo, e discordância silenciosa não aparece se ninguém abre espaço.

  • O que mais atrapalha na hora de tomar?

    Deixa o paciente nomear a barreira real — que pode ser trabalho em turno, o remédio que fica na casa da filha, ou vergonha de tomar na frente dos colegas.

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Antes de encostar

Decidir perguntar antes de julgar o esquema
Antes de concluir que o tratamento falhou, é preciso saber se ele aconteceu. Sem esse passo, todo ajuste é feito em cima de informação falsa.
Postura sem cobrança
Tom, expressão e a palavra 'certinho' comunicam se aquela conversa comporta uma resposta honesta. O paciente lê isso antes de responder.
Pedir para ver as caixas
Pedir que traga as medicações na próxima consulta transforma uma conversa abstrata em algo verificável — e revela duplicidades e caixas vencidas.
Saber o que está prescrito de fato
Conferir a prescrição atual e o que foi retirado na farmácia antes de perguntar evita a conversa em que médico e paciente falam de esquemas diferentes.
Reservar o assunto para quando houver tempo
Barreira real leva alguns minutos para aparecer. Perguntar com a mão na maçaneta produz um sim automático.
Envolver quem cuida, quando existe
Em idoso ou criança, quem administra o remédio muitas vezes não é quem está respondendo. Perguntar à pessoa errada dá resposta inútil.
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A técnica

A sequência serve para descobrir a causa antes de agir sobre ela. Cada passo evita um erro específico.

  1. 1

    Perguntar sempre, e antes de escalonar

    Adesão entra na avaliação de todo tratamento que não está funcionando, na frente do ajuste. Como metade não segue o plano em doença crônica, presumir adesão é apostar contra a probabilidade.

    Erro comum: Aumentar dose ou acrescentar medicação sem checar. Trata-se um problema que não existe e cria-se outro.

  2. 2

    Formular a pergunta sem julgamento

    Normalize primeiro e peça um número: muita gente esquece, quantos dias passaram nas últimas duas semanas. A resposta muda conforme a permissão que a pergunta dá.

    Erro comum: Perguntar se está tomando certinho. É uma pergunta de sim ou não com uma resposta socialmente correta embutida.

  3. 3

    Separar não entendeu, não consegue e não concorda

    As três produzem o mesmo comprimido não tomado e exigem saídas opostas: explicar de novo, remover a barreira, ou renegociar o plano.

    Erro comum: Tratar tudo como esquecimento. É a causa mais fácil de nomear e frequentemente não é a verdadeira.

  4. 4

    Investigar acesso e custo explicitamente

    Pergunte se conseguiu pegar na farmácia e se está conseguindo manter. É a barreira que o paciente menos oferece por conta própria.

    Erro comum: Presumir que o que é gratuito na teoria chegou às mãos da pessoa na prática.

  5. 5

    Perguntar sobre efeito adverso

    Abandono por efeito colateral costuma ser silencioso: a pessoa para e não conta, e o médico interpreta como dose insuficiente.

    Erro comum: Concluir falha terapêutica sem ter perguntado se o remédio fez a pessoa passar mal.

  6. 6

    Simplificar o que der para simplificar

    Menos tomadas por dia e horários ancorados em algo que a pessoa já faz — café da manhã, escovar os dentes — competem menos com a vida real dela.

    Erro comum: Montar um esquema elegante no papel e impossível na rotina de quem trabalha por turnos.

  7. 7

    Fechar o plano junto e por escrito

    Combine em vez de determinar, e entregue escrito de forma legível o que é cada remédio, para que serve e quando tomar.

    Erro comum: Sair da consulta com o plano claro só na cabeça do médico.

  8. 8

    Confirmar o entendimento pedindo que ele repita

    Peça que a pessoa conte com as próprias palavras como vai fazer em casa. É onde aparece o mal-entendido que nenhuma explicação revelou.

    Erro comum: Perguntar se ficou claro. Quase todo mundo responde que sim.

  9. 9

    Registrar a barreira encontrada

    Anote qual era o obstáculo real e o que foi combinado, para que a próxima consulta continue de onde esta parou em vez de recomeçar.

    Erro comum: Registrar apenas 'má adesão'. Não informa nada a quem atender depois.

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Achados, limites e forma de registro

Normal
  • O paciente relata espontaneamente os dias em que não tomou, sem parecer constrangido.
  • A barreira principal foi nomeada por ele — custo, esquecimento, efeito adverso, discordância — e não presumida pelo médico.
  • O plano foi ajustado à rotina real dele e ele consegue repeti-lo com as próprias palavras.
  • Ele sai com o esquema por escrito e sabe o que fazer se algo o fizer passar mal.
  • A barreira e o combinado ficaram registrados no prontuário.
  • Exemplo de registro: relata interrupção por tontura e custo; barreiras exploradas sem julgamento, alternativas discutidas e meta de uso pactuada com retorno para reavaliação.
  • Exemplo de registro: uso irregular relacionado a náusea, custo e turno de trabalho, sem rotular a pessoa; benefício e risco discutidos, opções simplificadas com a equipe, estratégia escolhida pelo paciente e barreiras que exigem apoio social registradas.
Responde que toma tudo certinho, sem hesitar, e o exame ou o controle não acompanha
Resposta socialmente correta é o padrão quando a pergunta soa como cobrança. Vale reformular sem julgamento e pedir para ver as caixas na próxima consulta.
Não sabe dizer para que serve cada remédio
É problema de entendimento, não de disciplina. Escalonar o esquema aqui piora — a saída é explicar de novo e simplificar.
Toma alguns e outros não, sempre os mesmos
Padrão seletivo aponta causa específica: o mais caro, o que dá efeito adverso, ou aquele que ele não acredita que precisa. Investigue qual dos três.
Parou tudo depois de se sentir melhor
Comum em doença crônica assintomática e em antibiótico. Revela que o modelo de doença dele é outro — o tratamento parecia um remédio para sintoma.
Diz que não consegue pegar na farmácia
Barreira de acesso, que nenhuma técnica de comunicação resolve sozinha. Precisa de solução concreta, e é informação que raramente aparece sem pergunta direta.
Concorda com tudo na consulta e nada muda entre uma e outra
Possível discordância silenciosa: ele não acha que precisa e evita o confronto. Abrir espaço explícito para discordar costuma ser mais produtivo que repetir a orientação.
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O que isso quer dizer

Comece pela escala. O relatório da Organização Mundial da Saúde de 2003 sobre adesão a terapias de longo prazo abre a seção de mensagens-chave afirmando que, em doenças crônicas, a adesão nos países desenvolvidos gira em torno de 50%, com taxas ainda menores nos países em desenvolvimento. O mesmo documento registra a frase que virou lema da área: aumentar a efetividade das intervenções de adesão poderia impactar mais a saúde da população do que qualquer avanço em tratamentos específicos.

Agora compare com a meta-análise. Reunindo 569 estudos publicados entre 1948 e 1998, a taxa média de não adesão encontrada foi de 24,8% — bem menos alarmante que os 50% da OMS. Os dois números não se contradizem: falam de coisas diferentes. A OMS trata de terapia de longo prazo em doença crônica, que é o cenário pior; a meta-análise inclui tratamentos curtos e agudos, em que aderir é mais fácil. A lição é que o número depende do que se mediu, e que citar qualquer um deles sem dizer a qual cenário se refere é impreciso.

A mesma meta-análise mostra que a adesão varia muito por condição: foi maior em HIV, artrite, doenças gastrointestinais e câncer, e menor em doença pulmonar, diabetes e distúrbios do sono. Vale notar que as menores taxas aparecem justamente em condições que exigem tratamento contínuo com benefício pouco perceptível no dia a dia.

O achado que mais deveria mudar a conduta do estudante, porém, é outro: os efeitos das características demográficas — idade, sexo, escolaridade, renda — sobre a adesão foram pequenos, e ainda moderados por variáveis de amostra, de regime e de medida. Isto é, o perfil não prediz. A prática de olhar para o paciente e decidir que aquele ali não vai aderir não tem apoio nos dados, e tem um custo: o médico que acha que já sabe não pergunta.

O que é possível mudar aparece na segunda meta-análise. Em 106 estudos correlacionais com 45.093 pacientes, a comunicação do médico associou-se à adesão com r = 0,19 (IC 95% 0,16 a 0,21) — e os autores traduzem esse efeito dizendo que o risco de não adesão é 19% maior entre pacientes cujo médico comunica mal do que entre aqueles cujo médico comunica bem.

Correlação, sozinha, não provaria causa: médico que comunica bem pode simplesmente atender pacientes diferentes. Por isso o dado seguinte importa mais. A mesma revisão reuniu 21 estudos experimentais, com 1.280 médicos e 10.190 pacientes, em que os médicos foram treinados em comunicação — e a chance de adesão dos pacientes desses médicos foi 1,62 vez maior (IC 95% 1,38 a 1,91) que a dos pacientes de médicos sem treinamento. É intervenção com grupo controle, e o que mudou foi o comportamento do profissional.

Feita a defesa do assunto, cabe a ressalva que evita a promessa fácil. A revisão sistemática mais ampla sobre intervenções para melhorar adesão à medicação reuniu 182 ensaios randomizados e concluiu que os métodos atuais são, na maior parte, complexos e pouco efetivos, de modo que o benefício pleno dos tratamentos não se realiza. Dos 182 ensaios, apenas 17 tinham o menor risco de viés, e mesmo as intervenções mais efetivas não produziram grandes melhoras.

Como conciliar as duas coisas — comunicação importa, mas intervenções não funcionam bem? A leitura mais defensável é de modéstia calibrada. Perguntar sobre adesão de forma não julgadora, descobrir a barreira real e ajustar o plano são condutas baratas, sem risco e com plausibilidade sustentada por dados experimentais. Não são cura. Quem promete que uma técnica de consulta resolve a não adesão está vendendo o que 182 ensaios não conseguiram entregar — e o estudante que sabe disso não vai culpar a si mesmo, nem ao paciente, quando o problema persistir.

Não adesão descreve comportamento em contexto, não caráter. Antes de persuadir, investigam-se efeitos adversos, custo, acesso, rotina, compreensão, saúde mental e discordância informada; coerção ou ocultação transforma uma meta terapêutica em violação de autonomia.

SinalMedidaValorFonte
Taxa média de não adesão a tratamento prescrito por médico não psiquiatraMeta-análise de 569 estudos publicados entre 1948 e 1998. Note que este número cobre tratamentos de todos os tipos, inclusive curtos — em doença crônica de longo prazo o cenário é pior.24,8% de não adesão média (adesão média em torno de 75%); maior em HIV, artrite, doenças gastrointestinais e câncer; menor em doença pulmonar, diabetes e distúrbios do sonoDiMatteo MR. Variations in patients' adherence to medical recommendations: a quantitative review of 50 years of research. Med Care. 2004;42(3):200-9.
Poder da demografia para predizer quem não vai aderirAnálise de 164 estudos que forneciam correlações entre adesão e características demográficas, dentro da mesma revisão de cinquenta anos. É o dado que retira o apoio empírico do julgamento de perfil.Efeitos de idade, sexo, escolaridade e renda sobre a adesão foram pequenos, e ainda moderados por variáveis de amostra, de regime e de medidaDiMatteo MR. Variations in patients' adherence to medical recommendations: a quantitative review of 50 years of research. Med Care. 2004;42(3):200-9.
Associação entre a comunicação do médico e a adesão do pacienteMeta-análise. Por ser correlacional, esta parte mostra associação, não causa — é o braço experimental abaixo que sustenta a direção.r = 0,19 (IC 95% 0,16 a 0,21) em 106 estudos correlacionais com 45.093 pacientes; os autores traduzem como risco de não adesão 19% maior quando o médico comunica malZolnierek KB, DiMatteo MR. Physician communication and patient adherence to treatment: a meta-analysis. Med Care. 2009;47(8):826-34.
Efeito de treinar o médico em comunicação sobre a adesão dos pacientes deleBraço experimental da mesma meta-análise. Aqui a variável manipulada é o comportamento do profissional, o que sustenta a direção causal.Chance de adesão 1,62 vez maior (IC 95% 1,38 a 1,91) entre pacientes de médicos treinados, em 21 estudos experimentais com 1.280 médicos e 10.190 pacientesZolnierek KB, DiMatteo MR. Physician communication and patient adherence to treatment: a meta-analysis. Med Care. 2009;47(8):826-34.
Efetividade das intervenções para melhorar adesão à medicaçãoRevisão sistemática Cochrane. É a ressalva que impede prometer que uma técnica de consulta resolve o problema.182 ensaios randomizados; apenas 17 com o menor risco de viés; conclusão de que os métodos atuais são majoritariamente complexos e pouco efetivos, sem grandes melhoras mesmo nas intervenções mais efetivasNieuwlaat R, Wilczynski N, Navarro T, et al. Interventions for enhancing medication adherence. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(11):CD000011. doi:10.1002/14651858.CD000011.pub4
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Três causas de não adesão e o que cada uma pede

O mesmo comprimido não tomado tem três origens, e a saída de uma não serve para as outras.

CausaComo apareceO que fazer
Não entendeuNão sabe para que serve, toma em horário ou dose diferente do combinadoExplicar de novo em linguagem simples, entregar por escrito e pedir que repita
Não consegueNão pegou na farmácia, não tem dinheiro, esquece, rotina incompatível, dificuldade de manuseioRemover a barreira concreta: simplificar o esquema, ancorar em hábito existente, resolver o acesso
Não concordaConcorda na consulta e não faz; parou ao se sentir melhor; acha que não precisaAbrir espaço explícito para discordar e renegociar o plano — repetir a orientação não muda crença
Efeito adversoParou sem contar; abandono seletivo de um dos remédiosPerguntar diretamente; sem isso, interpreta-se como dose insuficiente
  • Nenhuma das quatro é resolvida aumentando a dose ou acrescentando medicação. Escalonar sem investigar trata um problema que não existe.
  • Perfil demográfico não prediz quem não adere. Só perguntando — e a forma da pergunta determina a resposta.
  • ‘Não aderente’ não explica a barreira; registre o que aconteceu, por quê e qual alternativa foi pactuada.
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Erros que custam o achado

Presumir adesão porque o paciente parece organizado
Em doença crônica a adesão gira em torno de 50%, e os efeitos de idade, escolaridade e renda são pequenos. O perfil não informa — a impressão do médico apenas dispensa a pergunta.
Perguntar se está tomando certinho
É pergunta de sim ou não, com resposta socialmente correta embutida. Normalizar antes e pedir um número de dias muda o que a pessoa se sente autorizada a dizer.
Escalonar o tratamento sem checar adesão
O erro mais caro do capítulo: mais medicação, mais custo, mais efeito adverso e mais chance de abandono — para tratar uma falha terapêutica que talvez nunca tenha existido.
Chamar tudo de esquecimento
É a causa mais fácil de nomear e frequentemente a errada. Não entender, não conseguir pagar, passar mal e não concordar produzem exatamente o mesmo comprimido na cartela.
Não perguntar sobre custo e acesso
É a barreira que o paciente menos oferece espontaneamente, porque envolve admitir falta de dinheiro. E é a que nenhuma técnica de comunicação resolve sozinha.
Confundir concordância na consulta com concordância real
Discordar do médico é socialmente difícil. Quem não acredita que precisa costuma dizer que sim e não fazer — e abrir espaço explícito para discordar produz mais informação que repetir a orientação.
Culpar o paciente
Além de injusto, é inútil: encerra a investigação. A não adesão é um achado clínico a explicar, como qualquer outro, e não um defeito de caráter.
Prometer que uma técnica resolve
Depois de 182 ensaios randomizados, a conclusão é que as intervenções são complexas e pouco efetivas. Perguntar bem é barato e vale a pena; não é cura.
Perguntar à pessoa errada
Em criança e em idoso dependente, quem administra o remédio muitas vezes não é quem está respondendo à pergunta.
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Roteiro da estação

Investigação de adesão, antes de qualquer ajuste de tratamento.

  1. 01Conferir o que está de fato prescrito antes de perguntar
  2. 02Normalizar o esquecimento e pedir um número de dias das últimas duas semanas
  3. 03Pedir que descreva como toma: horário, quantidade, com o quê
  4. 04Perguntar se conseguiu pegar na farmácia e se consegue manter o custo
  5. 05Perguntar se algum remédio o fez passar mal
  6. 06Perguntar se ele concorda que precisa do tratamento
  7. 07Identificar qual das causas predomina: não entendeu, não consegue, não concorda
  8. 08Simplificar o que for simplificável e ancorar em hábito que já existe
  9. 09Combinar o plano junto, e entregá-lo por escrito de forma legível
  10. 10Pedir que ele conte como vai fazer em casa
  11. 11Registrar a barreira encontrada e o que ficou combinado
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Teste-se

Sorteando as questões…
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Agora faça no paciente

Homem de 52 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Olha, doutor, eu vim mais porque a minha esposa insistiu. Mediram minha pressão na farmácia e disseram que tava alta, mas eu me sinto ótimo." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.

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Revisão espaçada

7 dias

Quais são as três causas de não adesão e por que a saída de uma não serve para as outras? Por que 'o senhor está tomando certinho?' é uma pergunta ruim?

30 dias

A OMS registra adesão em torno de 50% em doença crônica; a meta-análise de 569 estudos encontrou 24,8% de não adesão. Explique por que os dois números não se contradizem. E por que o achado de que demografia quase não prediz adesão deveria mudar a sua conduta na consulta?

Adesão ao tratamento — Ciclo básico | OsceLabs