Raciocínio Clínico e ExamesLer um estudo sem ser enganado

Medidas de efeito: relativo, absoluto e o número que trata

Efeito relativo descreve proporção; efeito absoluto incorpora risco basal e permite traduzir impacto em pessoas.

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O caso

Manchete A: "Medicação reduz em 9% o risco de morte, reinfarto e internação". A frase circula, entra em apresentação de congresso e vira argumento de prescrição. Nove por cento parece um ganho respeitável.

Olhe o mesmo estudo por outro ângulo. A análise agrupada de quatro ensaios com 19.245 pacientes encontrou redução de risco relativo de 9% e redução de risco absoluto de 0,9%. Traduzindo: seria preciso tratar 111 pacientes para evitar um único evento do desfecho composto — e bastariam cinco pacientes com desfecho diferente para a conclusão deixar de ser significativa.

Manchete B: "Gota de antibiótico no fim da cirurgia reduz em 82% o risco de infecção intraocular". Oitenta e dois por cento parece um número quase implausível de tão grande.

Olhe o estudo. Entre 424 olhos operados, a infecção ocorreu em 2 de 294 no grupo que recebeu a profilaxia, ou 0,7%, contra 5 de 130 no grupo que não recebeu, ou 3,9%. A redução de risco absoluto é de 3,2 pontos percentuais, e o número necessário para tratar é 32.

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O modelo mental

Risco relativo pode parecer estável entre populações enquanto redução absoluta varia muito. Diferença de risco e NNT dependem do risco basal e do tempo de seguimento; NNT sem horizonte, desfecho e intervalo é incompleto. Benefícios e danos devem usar denominadores comparáveis.

Em cada etapa, separe descrição, inferência e decisão. Essa distinção torna visível onde a evidência termina, onde começa o julgamento e qual dado exigiria revisão.

Todo estudo comparativo começa com dois riscos: o risco no grupo que recebeu a intervenção e o risco no grupo que não recebeu. Todas as medidas de efeito são formas diferentes de comparar esses dois números — e cada forma revela uma coisa e esconde outra.

A diferença absoluta subtrai um risco do outro. É a medida que responde à pergunta do paciente, porque ela está na mesma unidade da experiência dele: quantos eventos a menos, em cem pessoas como ele. A medida relativa — risco relativo, redução de risco relativo, razão de chances, razão de risco — divide um pelo outro. Ela responde à pergunta do mecanismo: que fração do risco a intervenção remove.

A diferença essencial: a medida relativa não carrega consigo o risco de partida. Uma redução relativa de 50% significa passar de 40% para 20% — vinte eventos a menos em cem pessoas — ou passar de 0,2% para 0,1% — um evento a menos em mil. As duas frases usam o mesmo número e descrevem mundos incomparáveis.

Daí nasce a medida mais útil para conversar com quem vai receber o tratamento: o número necessário para tratar. Ele é o inverso da diferença absoluta e responde a uma pergunta concreta — quantas pessoas precisam receber a intervenção, por aquele tempo, para que uma delas evite o desfecho. Um número necessário para tratar de 32 significa: em 32 pessoas tratadas, 31 não obtêm benefício algum daquele desfecho específico, e uma escapa dele.

Guarde três características dessa medida, porque elas evitam quase todos os erros. Primeira: ela depende do risco de partida, então muda de população para população — o mesmo remédio tem número necessário pequeno em quem tem risco alto e número enorme em quem tem risco baixo. Segunda: ela depende do tempo — número necessário para tratar por um ano e por cinco anos são grandezas distintas. Terceira: ela é específica do desfecho — o mesmo tratamento pode ter número 91 para evitar internação e nenhum benefício estabelecido para mortalidade.

Os exemplos reais mostram como essas três características operam. Numa análise de um antagonista mineralocorticoide em pacientes com diabetes e doença renal, o desfecho composto teve razão de risco de 0,86 em dois conjuntos de dados, com números necessários para tratar de 56 e 59 — praticamente iguais, como esperado, já que a medida relativa era a mesma e as populações eram parecidas. Já a internação por insuficiência cardíaca teve razão de risco de 0,78 — efeito relativo maior — e número necessário para tratar de 91, porque aquele desfecho específico era menos frequente. Efeito relativo maior e benefício absoluto menor, no mesmo estudo.

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A pergunta central

Uma pergunta explícita delimita o que o dado pode e não pode decidir.

  • Qual é o risco basal aplicável e quantas pessoas terão benefício ou dano no horizonte estudado?

    Risco relativo pode parecer estável entre populações enquanto redução absoluta varia muito. Diferença de risco e NNT dependem do risco basal e do tempo de seguimento; NNT sem horizonte, desfecho e intervalo é incompleto. Benefícios e danos devem usar denominadores comparáveis.

  • Por que 9% rende menos que 82%?

    A fração relativa não diz de que tamanho era o risco.

  • Qual medida está na unidade do paciente?

    A diferença absoluta: eventos a menos em cem pessoas.

  • O que é o número necessário para tratar?

    Quantos recebem para que um evite o desfecho.

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Aplicação passo a passo

Reconstrua a pergunta e o método antes de ler o resultado. Depois integre efeito, incerteza, viés e aplicabilidade à decisão.

  1. 1

    Desconfiar da porcentagem isolada

    Reduzir tanto por cento não diz de quanto se partiu.

    Erro comum: Repetir a redução relativa como se fosse o benefício.

  2. 2

    Dividir para obter o relativo

    Ela informa a fração do risco removida pelo tratamento.

    Erro comum: Descartar a medida relativa, que descreve o mecanismo.

  3. 3

    Converter em número necessário para tratar

    Inverso da diferença absoluta, em pessoas.

    Erro comum: Apresentar porcentagens onde caberia contar gente.

  4. 4

    Amarrar o número ao tempo

    Um ano e cinco anos produzem números distintos.

    Erro comum: Citar número necessário sem o horizonte temporal.

  5. 5

    Procurar o número necessário para causar dano

    Um evento adverso grave a cada 15 tratados, por exemplo.

    Erro comum: Discutir benefício sem colocar o dano na mesma balança.

  6. 6

    Somar a fragilidade ao benefício absoluto

    0,9 ponto percentual com índice de fragilidade 5.

    Erro comum: Recomendar com firmeza o que é pequeno e frágil.

  7. 7

    Ligar com a conversa de risco do paciente

    É o mesmo problema visto do outro lado da mesa.

    Erro comum: Tratar comunicação de risco como assunto separado da leitura.

  8. 8

    Fechar pela pergunta de cabeceira

    Qual o risco de partida e quantos tratar para evitar um evento?

    Erro comum: Encerrar a leitura na porcentagem relativa do resumo.

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Exemplo resolvido

Volte ao caso e aplique o modelo sem pular da seta do laudo para a conclusão. O ponto de controle é: Qual é o risco basal aplicável e quantas pessoas terão benefício ou dano no horizonte estudado?

Pergunta do casoPeça que respondeResposta em uma linha
Por que 9% rende menos que 82%?Risco de partidaA medida relativa não carrega o tamanho do risco original
Qual medida serve ao paciente?Diferença absolutaEventos a menos por cem pessoas, na unidade da experiência
Como transformar isso em gente?Número necessário para tratarInverso da diferença absoluta: quantos tratar para evitar um
Ele vale sempre?Três amarrasDepende do risco de partida, do tempo e do desfecho
E o dano?Número necessário para causar danoMesma unidade, no outro prato da balança

As medidas de efeito e o que cada uma revela

MedidaO que informaO que esconde
Risco relativo e redução relativaFração do risco removidaO tamanho do risco de partida
Diferença absolutaEventos evitados por cem pessoasNada essencial, se vier com o prazo
Número necessário para tratarQuantos tratar para evitar um eventoDepende de risco, tempo e desfecho
Número necessário para causar danoQuantos tratar para causar um evento adversoDepende da definição de evento adverso
Razão de chancesComparação entre chancesExagera o efeito quando o desfecho é comum
  • Efeito relativo maior não significa benefício absoluto maior: quando o desfecho é menos frequente, a mesma redução relativa evita menos eventos.
  • Este capítulo é o par, do lado de quem lê o estudo, do capítulo de Farmacologia sobre comunicar risco relativo e absoluto ao paciente.
Balança comparando número necessário para tratar e número necessário para causar dano, com três pares reais de valores.
Benefício e dano na mesma unidade: contar os dois em pessoas é o que torna a decisão compartilhável.
Régua de números necessários para tratar de 7 a 111 com exemplos reais posicionados ao longo dela.
Da oncologia à cardiologia: o mesmo tipo de medida percorre duas ordens de grandeza, e é ela que dimensiona a conversa com o paciente.
Três populações com riscos de partida de 40, 4 e 0,2 por cento recebendo a mesma redução relativa de 50 por cento, com benefícios absolutos muito diferentes.
A mesma redução relativa, aplicada a três riscos de partida, produz de vinte eventos evitados a um décimo de evento evitado por cem pessoas.
Uma caixa central com os dois riscos observados gerando quatro apresentações: relativa, absoluta, número necessário para tratar e fragilidade.
O mesmo par de riscos, contado de quatro maneiras: escolher a medida é escolher a impressão que o leitor vai levar.
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Limites e armadilhas

Repetir a redução relativa como benefício
Ela não informa de que tamanho era o risco de partida.
Comparar estudos só por medidas relativas
Riscos de base diferentes tornam a comparação vazia.
Citar número necessário sem prazo
Um ano e cinco anos produzem números distintos.
Citar número necessário sem desfecho
O mesmo tratamento tem um número para cada desfecho.
Transportar o número entre populações
Risco de partida diferente muda o benefício por pessoa.
Discutir benefício sem dano
A balança fica com um prato só.
07

Regra prática para o atendimento

Feche o raciocínio em voz alta e deixe um plano que outra pessoa consiga revisar.

  1. 01Apresente riscos com e sem intervenção, diferença absoluta, efeito relativo, horizonte e incerteza usando frequências naturais.
  2. 02Desconfiar da porcentagem relativa isolada
  3. 03Ver a mesma redução em riscos de partida diferentes
  4. 04Amarrar o número ao tempo de seguimento
  5. 05Reconhecer benefícios grandes quando existirem
  6. 06Perguntar quantos tratar para evitar um evento
08

Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para o atendimento

No caso vinculado, transforme a dúvida em população, intervenção ou exposição, comparação, desfecho e tempo. Identifique o desenho, reconstrua o risco basal e apresente efeito absoluto, relativo e intervalo; depois localize o principal mecanismo de viés e teste a aplicabilidade.

Conclua dizendo quanto a evidência muda a decisão e qual incerteza ainda precisa ser compartilhada.

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Revisão espaçada

7 dias

Qual a diferença entre redução de risco relativo e absoluto, e por que só a segunda serve para conversar com o paciente? Como se calcula o número necessário para tratar e de quais três coisas ele depende? Por que razão de chances e risco relativo se distanciam em desfechos comuns?

30 dias

Explique as duas manchetes de abertura por inteiro: por que uma redução relativa de 9% rende um evento evitado a cada 111 tratados e uma redução relativa de 82% rende um a cada 32. Inclua na resposta por que um efeito relativo maior pode corresponder a benefício absoluto menor e como o número necessário para causar dano entra na decisão.

Medidas de efeito: relativo, absoluto e o número que trata — Ciclo básico | OsceLabs