Raciocínio Clínico e ExamesA lógica do diagnóstico

Razão de verossimilhança: quanto este resultado move a agulha

A razão de verossimilhança resume quanto um resultado desloca odds pré-teste para odds pós-teste.

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O caso

Caso 1. Dona Alzira, 82 anos, escorregou no banheiro e chegou ao pronto-socorro. Queixa dor na região das costelas quando respira fundo. O interno de plantão fica seguro: "a dor está presente, e a dor aparece em 98 de cada 100 pacientes com fratura de costela — isso praticamente fecha o diagnóstico".

O preceptor discorda com um número na ponta da língua: aquele achado, naquela população de idosos que caíram, desloca a probabilidade de fratura pouquíssimo. Tão pouco que quase não vale a pena mencioná-lo no raciocínio.

Caso 2. Lucas, 2 anos, caiu do trocador. O pediatra faz um ultrassom do crânio à beira do leito e vê uma interrupção na cortical óssea. Esse achado, ao contrário, muda o caso inteiro: ele multiplica a probabilidade de fratura por mais de vinte.

Pare aqui e faça as perguntas que um aluno de primeiro ano tem todo o direito de fazer:

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O modelo mental

LR positiva combina sensibilidade com falso-positivo; LR negativa combina falso-negativo com especificidade. Valores próximos de 1 quase não movem a hipótese. O tamanho do deslocamento depende também do ponto de partida.

A definição cabe numa frase, e vale decorar esta: a razão de verossimilhança de um resultado é quantas vezes mais provável esse resultado é em quem tem a doença do que em quem não tem.

Repare que a definição já contém os dois grupos e já contém a comparação. Se um achado aparece em 90% dos doentes e em 10% dos sadios, ele é nove vezes mais provável entre os doentes: razão de verossimilhança 9. Se aparece em 90% dos doentes e em 85% dos sadios, ele é apenas 1,06 vez mais provável: razão de verossimilhança 1,06, ou seja, praticamente nenhuma informação.

Daí saem as duas versões que aparecem nos artigos. A razão de verossimilhança positiva compara a frequência do resultado positivo entre doentes e entre sadios — em fórmula, a sensibilidade dividida por um menos a especificidade. A negativa faz o mesmo com o resultado negativo — um menos a sensibilidade, dividido pela especificidade. Não é preciso decorar as fórmulas para usar o conceito; é preciso entender que as duas comparam a mesma coisa: a desigualdade do achado entre os dois grupos.

E há o valor de referência mais importante da apostila: 1. Uma razão de verossimilhança igual a 1 significa que o achado é igualmente comum em doentes e sadios — ele não move a probabilidade. Acima de 1, empurra para cima; quanto maior, mais forte. Abaixo de 1, empurra para baixo; quanto mais perto de zero, mais forte. Valores entre 0,5 e 2 movem pouco; valores acima de 10 ou abaixo de 0,1 movem muito.

Agora o caso 1 se explica sozinho. No estudo com 2.882 idosos atendidos após queda, a dor documentada tinha sensibilidade de 0,98 para fratura de arcos costais e de 0,98 para fratura do anel pélvico. Números altíssimos. Mas a especificidade era de pobre a moderada em todas as regiões — porque quem cai e não fratura também sente dor. O resultado: razão de verossimilhança positiva de 1,08 no anel pélvico, com intervalo de 1,03 a 1,13, e de 1,48 na coluna torácica, com intervalo de 1,09 a 2,02. Multiplicar a probabilidade por 1,08 é, na prática, não multiplicar.

O mesmo estudo mostra o outro lado da moeda, e ele é útil: a razão de verossimilhança negativa para arcos costais foi de 0,07, com intervalo de 0,01 a 0,50. Ou seja, a ausência de dor empurra a probabilidade de fratura de costela bastante para baixo. O mesmo achado é quase inútil quando presente e informativo quando ausente. Isso é comum e não tem nada de paradoxal: são duas perguntas diferentes sobre o mesmo sinal.

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A pergunta central

Uma boa pergunta impede que o capítulo vire lista de definições.

  • Este resultado é quantas vezes mais provável em quem tem a doença do que em quem não tem?

    LR positiva combina sensibilidade com falso-positivo; LR negativa combina falso-negativo com especificidade. Valores próximos de 1 quase não movem a hipótese. O tamanho do deslocamento depende também do ponto de partida.

  • Por que um achado sensível não confirma a doença?

    Ele também é comum em quem não tem: o desnível é pequeno.

  • Existe um número único por achado?

    Sim: a razão de verossimilhança, com versão positiva e negativa.

  • Qual é o valor que significa nada?

    O número 1: achado igualmente comum nos dois grupos.

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Aplicação passo a passo

Comece pela hipótese e termine na decisão. Os cálculos abaixo servem para tornar explícito o deslocamento de probabilidade, não para substituir julgamento clínico.

  1. 1

    Recusar a conclusão automática

    Achado frequente na doença não confirma a doença.

    Erro comum: Tratar sensibilidade alta como poder de confirmação.

  2. 2

    Fixar o valor neutro

    Razão igual a 1 não move a probabilidade em nada.

    Erro comum: Achar que todo achado positivo aumenta a probabilidade.

  3. 3

    Aplicar ao caso da queda

    Dor com sensibilidade de 0,98 e razão positiva de 1,08.

    Erro comum: Deixar a dor pesar na decisão de imagem como se confirmasse.

  4. 4

    Usar o nomograma ou as aproximações

    Marcar a partida, aplicar a razão, ler a chegada.

    Erro comum: Fazer contas de porcentagem direto, sem converter em chances.

  5. 5

    Encadear achados independentes

    Cada razão multiplica o resultado da anterior.

    Erro comum: Multiplicar dois sinais que expressam o mesmo fenômeno.

  6. 6

    Ler o intervalo de confiança da razão

    Razão de 6,3 com intervalo de 2,0 a 19,5.

    Erro comum: Citar o valor central como se fosse preciso.

  7. 7

    Fechar o caso da idosa

    A dor não decide; a decisão de imagem vem de outro lugar.

    Erro comum: Justificar ou dispensar a imagem por causa do achado fraco.

  8. 8

    Fechar pela pergunta de cabeceira

    Quantas vezes mais provável, em que limiar e em quem?

    Erro comum: Citar razão de memória, sem limiar nem população.

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Exemplo resolvido

Volte ao caso e aplique o modelo sem pular da seta do laudo para a conclusão. O ponto de controle é: Este resultado é quantas vezes mais provável em quem tem a doença do que em quem não tem?

Pergunta do casoPeça que respondeResposta em uma linha
Achado sensível não confirma?Desnível entre gruposSe é comum também nos sadios, a razão fica perto de 1
Existe um número por achado?Razão de verossimilhançaSim, com uma versão para o positivo e outra para o negativo
Qual valor significa nada?Ponto neutroO número 1: nenhuma mudança na probabilidade
Como somar vários achados?EncadeamentoMultiplicando, se os achados forem independentes
Razão infinita é certeza?Limite da amostraNão: significa zero falso-positivo naquele estudo

A régua da razão de verossimilhança

FaixaEfeito sobre a probabilidadeExemplo do capítulo
Acima de 10Deslocamento grande para cimaUltrassom de crânio infantil: 23,21
Entre 5 e 10Deslocamento moderado para cimaUltrassom para apendicite: 7,22
Entre 2 e 5Deslocamento pequeno para cimaDímero-D no puerpério: 2,61
Perto de 1Praticamente nenhum deslocamentoDor após queda no anel pélvico: 1,08
Entre 0,5 e 0,2Deslocamento pequeno a moderado para baixoUltrassom para apendicite, negativo: 0,25
Abaixo de 0,1Deslocamento grande para baixoAusência de dor em arcos costais: 0,07
  • As aproximações de bolso funcionam no meio da régua de probabilidade e perdem sentido nos extremos, onde o ponto de partida domina o resultado.
  • Toda razão de verossimilhança de exame contínuo pertence ao ponto de corte que a produziu: mudar o corte muda o par de razões.
Barra de probabilidade com um ponto de partida e duas setas: positivo levando a 84 por cento e negativo levando a 44 por cento.
Os dois destinos do mesmo teste: o positivo sobe bastante, o negativo desce pouco — e 44 por cento de probabilidade restante não é exclusão.
Dois pares de barras comparando a frequência de um achado em doentes e sadios: barras desiguais geram razão 9, barras quase iguais geram razão 1,08.
A razão de verossimilhança é literalmente uma divisão entre duas barras: o que move a probabilidade é o desnível entre elas.
Fluxo de multiplicação sucessiva de razões de verossimilhança com dois avisos: exigência de independência e o significado de uma razão infinita.
Encadear é multiplicar — desde que os achados sejam independentes. Razão infinita não é certeza: é ausência de falso-positivo numa amostra pequena.
Régua logarítmica de razões de verossimilhança de 0,05 a mais de 20, com o ponto neutro em 1 e cinco exemplos reais marcados.
A régua inteira da razão de verossimilhança: o número 1 é o ponto em que o resultado não informa nada, e a distância até ele mede a força do empurrão.
06

Limites e armadilhas

Confundir frequência com poder de informar
Achado comum nos dois grupos tem razão perto de 1.
Usar adjetivo onde existe número
Dizer que o achado pesa muito sem citar a razão medida.
Interpretar a razão como probabilidade final
Ela é multiplicador; sem partida não há chegada.
Chamar de excluído o que caiu pouco
Razão negativa de 0,51 deixou 44% de probabilidade.
Multiplicar achados que dizem a mesma coisa
Dor à palpação e ao movimento contam o mesmo fato.
Celebrar razão infinita
Ela indica ausência de falso-positivo em amostra pequena.
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Regra prática para o atendimento

Feche o raciocínio em voz alta e deixe um plano que outra pessoa consiga revisar.

  1. 01Use a LR para medir o deslocamento e depois volte à decisão clínica; um número não decide sozinho.
  2. 02Recusar a conclusão automática do achado frequente
  3. 03Classificar a força do empurrão pela distância até 1
  4. 04Aplicar a razão pelo nomograma ou pela aproximação
  5. 05Amarrar cada razão ao seu ponto de corte
  6. 06Registrar probabilidade antes e depois no prontuário
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Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para o atendimento

No caso vinculado, formule uma probabilidade pré-teste antes de abrir os exames. Diga quais dados da história e do exame físico sustentam essa faixa e escolha um resultado que realmente possa cruzar um limiar de decisão. Depois atualize a hipótese e explique por que o mesmo laudo teria outro significado em um cenário de menor ou maior risco.

Feche com três caminhos explícitos: o que fazer diante de resultado positivo, negativo e inconclusivo. Inclua preferência do paciente, custo de cada erro e plano de reavaliação.

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Revisão espaçada

7 dias

O que significa uma razão de verossimilhança igual a 1? Por que um achado com sensibilidade de 0,98 pode ter razão de verossimilhança positiva de 1,08? Como se encadeiam vários achados e qual é a condição para que essa multiplicação seja honesta?

30 dias

Explique os dois casos de abertura por inteiro: por que a dor da idosa quase não move a probabilidade de fratura e por que o ultrassom da criança a multiplica por mais de vinte. Inclua na resposta o significado de razão de verossimilhança infinita e por que a razão pertence ao limiar que a produziu.

Razão de verossimilhança: quanto este resultado move a agulha — Ciclo básico | OsceLabs