Saúde Coletiva e Atenção PrimáriaEpidemiologia: contar para entender

Incidência e prevalência são perguntas diferentes

Incidência mede ocorrência de eventos novos; prevalência mede a carga existente em um ponto ou período e depende de entradas, duração e saídas.

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O caso

Reunião de equipe numa unidade básica, discussão do planejamento do ano. A enfermeira apresenta dois números que ela tirou dos registros do território. O primeiro: o número de pessoas que tiveram um derrame pela primeira vez caiu nos últimos anos. O segundo: o número de pessoas do bairro que vivem com sequela de derrame nunca foi tão alto — são mais de quarenta, e a equipe está sem conseguir dar conta das visitas domiciliares. Um agente comunitário levanta a mão e faz a pergunta mais razoável do mundo: se está caindo, por que tem mais gente?

A sala fica em silêncio por alguns segundos. É uma boa pergunta, e ela não tem nada de ingênua — é exatamente a pergunta que separa duas medidas que quase todo estudante confunde no primeiro ano. Como pode cair o número de casos novos e subir o número de doentes? Alguém está contando errado? Qual dos dois números diz se estamos melhorando? Se um sobe e o outro desce, qual serve para avaliar o trabalho da equipe? Se o tratamento salva mais gente, a doença fica mais comum? Isso significa que salvar vidas piora a estatística?

As três perguntas têm resposta, e as três dependem de entender que existem duas maneiras diferentes de contar doença — e que elas respondem a coisas diferentes.

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A ideia central

Vamos em três passos: o que cada medida conta, a relação matemática que liga as duas, e para que serve cada uma. Ato 1 — Fluxo e estoque: duas contagens, dois significados. Incidência conta casos novos que surgem num período. É uma medida de fluxo: quantas pessoas atravessaram a fronteira entre estar sadio e estar doente naquele intervalo. Prevalência conta casos existentes num momento. É uma medida de estoque: quantas pessoas estão doentes agora, independentemente de quando adoeceram. A imagem que resolve a confusão de vez é a de um reservatório de água. A torneira que enche é a incidência: casos novos entrando. O nível da água é a prevalência: casos existentes acumulados. E existe um ralo, por onde saem os que se curam e os que morrem.

Agora repare no que acontece se você fechar parcialmente o ralo — isto é, se as pessoas pararem de morrer da doença sem que ela seja curada. O nível sobe, mesmo com a torneira mais fechada. É exatamente o caso do bairro da reunião. Esse fenômeno tem escala nacional e está medido. Numa série de três décadas sobre acidente vascular cerebral na China, a incidência padronizada por idade caiu de 246,15 para 192,19 por 100 mil, e a mortalidade caiu muito mais, de 302,72 para 92,83 por 100 mil — enquanto o número absoluto de pessoas vivendo com a doença subiu de 11,56 para 26,68 milhões, com os anos vividos com incapacidade mais que dobrando (Fu e colaboradores, Online Journal of Public Health Informatics, 2026).

Menos casos novos, menos mortes e mais pessoas vivendo com as consequências podem descrever a mesma realidade. A duração ajuda a explicar o aparente paradoxo, mas a fórmula exige condições. A aproximação prevalência ≈ incidência × duração média é útil sobretudo quando a população e a ocorrência da doença estão aproximadamente estáveis, entradas e saídas não mudam rapidamente e a doença é relativamente rara. Fora desse equilíbrio — epidemias, mudanças diagnósticas, migração ou tratamento novo — ela pode falhar e não deve ser usada como identidade matemática.

Compare dois exemplos reais e o contraste fica evidente. Uma infecção de curta duração, a gonorreia, medida numa base laboratorial nacional: prevalência pontual de 0,3% (IC 95% 0,2 a 0,5) e taxa de incidência de 2,57 por mil pessoas-ano (IC 95% 0,83 a 7,97), com três infecções novas em 1.167 pessoas-ano de seguimento (Abu-Dayyeh e colaboradores, BMC Public Health, 2026). Agora uma doença crônica, o lúpus eritematoso sistêmico, medido na população inteira de um país: prevalência pontual de 85,8 por 100 mil (IC 95% 85,1 a 86,5), com 55.956 casos existentes numa população de 65.204.797 pessoas, e incidência anual entre 23,6 e 24,8 por 100 mil pessoas-ano nos anos seguintes (Pongkulkiat e colaboradores, Lupus Science & Medicine, 2025).

A prevalência do lúpus ser maior que sua incidência anual é coerente com uma condição duradoura, mas essa razão isolada não estima validamente a duração média sem as condições de estabilidade da aproximação. Incidência, prevalência e sobrevida devem ser lidas como medidas observadas em populações e períodos comparáveis. Quando o prognóstico ou a detecção muda, as curvas podem se afastar por vários mecanismos ao mesmo tempo.

Três medidas, três trajetórias diferentes, na mesma população e no mesmo estudo. Quem olhasse só a prevalência concluiria que a demência aumentou e depois diminuiu; quem olhasse só a incidência veria outro desenho; e só quem olha a sobrevida entende por que as curvas não coincidem. Ato 3 — Para que serve cada uma. Agora a parte prática, que responde à segunda pergunta da reunião. As duas medidas servem para coisas diferentes, e usar a errada leva a decisão errada. Use incidência quando a pergunta for sobre causa e sobre prevenção. Se um fator provoca doença, ele aparece como mais casos novos entre expostos. Se uma medida preventiva funciona, ela aparece como menos casos novos. Prevalência não serve bem para isso, porque ela mistura quem adoeceu ontem com quem adoeceu há vinte anos, e é contaminada pela duração.

Um bom exemplo de incidência bem usada: numa coorte sueca de base nacional, mulheres com diabetes tipo 1 de início na infância tiveram taxa de incidência de anorexia nervosa de 74,7 por 100 mil pessoas-ano contra 45,2 nas controles, com razão de taxas de 1,77 (IC 95% 1,35 a 2,32); a prevalência de período foi de 1,9% contra 1,1% (Sjögren e colaboradores, BMJ Open, 2026). A pergunta era sobre risco associado a uma exposição, e a medida adequada é a de casos novos. Use prevalência quando a pergunta for sobre planejamento e carga de cuidado. Quantas visitas domiciliares a equipe precisa fazer? Quantos frascos de insulina o município precisa comprar? Quantos fisioterapeutas o serviço precisa? Nada disso depende de quantos adoeceram este ano; depende de quantos existem hoje.

É o caso da equipe da reunião: as quarenta pessoas com sequela precisam de visita agora, independentemente de terem tido o derrame neste ano ou há oito. A prevalência é o número que dimensiona o trabalho. Existe ainda um terceiro cuidado, mostrado por um estudo sobre complicações microvasculares em diabetes de início precoce: a incidência caiu de 32,2 para 12,0 por mil pessoas, enquanto a prevalência subiu até 2012 e só depois começou a declinar, chegando a 71,4 em 2021 (Kim e colaboradores, Diabetes Research and Clinical Practice, 2026). A prevalência responde com atraso, porque ela carrega o acúmulo do passado. Avaliar uma política nova pela prevalência é olhar no retrovisor.

Voltemos à reunião. A queda dos casos novos mostra que a prevenção está funcionando — controle de pressão, de diabetes, de tabagismo. O aumento das pessoas com sequela mostra que menos gente está morrendo e que a equipe precisa de mais capacidade de acompanhamento. Os dois números estão certos, medem coisas diferentes, e a resposta correta ao planejamento usa os dois: manter a prevenção que reduz a torneira e ampliar o cuidado de quem já está no reservatório. A pergunta de cabeceira: quando alguém te disser que uma doença aumentou, você vai perguntar se aumentaram os casos novos ou o número de pessoas vivendo com ela?

Reservatório com torneira de entrada rotulada incidência, nível de água rotulado prevalência e ralo com saídas de cura e óbito.
Incidência é o que entra; prevalência é o que está dentro. Fechar o ralo eleva o nível mesmo com a torneira mais fraca.
Dois reservatórios: doença curta com muita entrada e nível baixo, doença longa com pouca entrada e nível alto.
O nível não depende só da torneira: depende de quanto tempo cada pessoa permanece dentro do reservatório.
Duas colunas indicando os usos próprios da incidência e da prevalência.
Incidência responde perguntas sobre causa e prevenção; prevalência dimensiona serviço e carga de cuidado.
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O mecanismo

As perguntas da reunião de equipe, respondidas com fluxo, estoque e duração.

  • Como pode cair o número de casos novos e subir o de doentes?

    Porque são medidas diferentes: incidência é o que entra, prevalência é o que está dentro. Se menos gente morre da doença sem que ela seja curada, o nível sobe mesmo com a torneira mais fechada.

  • Qual dos dois números diz se estamos melhorando?

    A incidência, quando a pergunta é sobre prevenção. Prevalência mistura quem adoeceu ontem com quem adoeceu há vinte anos e responde com atraso, porque carrega o acúmulo do passado.

  • Se o tratamento salva vidas, a doença fica mais comum?

    Mais prevalente, sim — e isso é resultado de sucesso, não de fracasso. Na série chinesa, a mortalidade por derrame caiu de 302,72 para 92,83 por 100 mil e o número de pessoas vivendo com a doença mais que dobrou.

  • Por que uma virose tem prevalência baixa mesmo pegando muita gente?

    Porque prevalência é aproximadamente incidência vezes duração. Doença que dura poucos dias produz nível baixo no reservatório, mesmo com fluxo de entrada alto.

  • Qual medida usar para planejar o trabalho da equipe?

    A prevalência. As pessoas com sequela precisam de visita agora, independentemente do ano em que adoeceram — é o estoque que dimensiona o trabalho, não o fluxo.

  • Por que a prevalência demora a responder a uma política nova?

    Porque ela acumula casos antigos. Nas complicações do diabetes de início precoce, a incidência caiu de 32,2 para 12,0 por mil enquanto a prevalência ainda subia — avaliar política nova por prevalência é olhar no retrovisor.

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Como se organiza

Identificar se o número é de casos novos ou existentes; Lembrar da fórmula que liga as duas
A palavra aumento não diz qual medida se moveu. Em situação aproximadamente estável, a prevalência pode ser relacionada à incidência e à duração média.
Verificar o que aconteceu com a duração; Usar incidência para perguntas de causa e prevenção
Tratamento que prolonga a vida sem curar eleva a prevalência. Fator de risco e medida preventiva se expressam em casos novos.
Usar prevalência para dimensionar serviço; Conferir o denominador e o período
Agenda, insumo e equipe se calculam pelo que existe hoje. Pessoas-tempo, população em risco e data de referência mudam a leitura.
Distinguir prevalência pontual de prevalência de período; Não avaliar política recente pela prevalência
Uma fotografia num instante não é o mesmo que o acumulado de um intervalo. Ela responde com atraso porque carrega o estoque acumulado do passado.
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Como raciocinar

Como ler um número de frequência e escolher a medida certa para a pergunta que se quer responder.

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    Determinar qual pergunta se quer responder — Identificar se o número apresentado é fluxo ou estoque

    Causa, efeito de prevenção, carga de cuidado ou dimensionamento de serviço. Atenção: Escolher a medida antes de formular a pergunta. Casos novos num período ou casos existentes num momento. Atenção: Tratar as duas medidas como sinônimos de frequência. Um ano, cinco anos, o seguimento inteiro da coorte. Atenção: Comparar incidências apuradas em intervalos diferentes. População em risco, pessoas-tempo ou população total. Atenção: Usar como denominador quem não podia adoecer da condição.

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    Distinguir incidência cumulativa de densidade de incidência — Distinguir prevalência pontual de prevalência de período

    Proporção de novos casos versus casos por pessoa-tempo. Atenção: Somar as duas ou compará-las diretamente. Fotografia num instante versus acumulado num intervalo. Atenção: Comparar as duas como se medissem o mesmo. Tempo entre o início e a cura ou o óbito. Atenção: Interpretar prevalência sem considerar quanto a doença dura. Prevalência aproximadamente igual a incidência vezes duração. Atenção: Explicar variação de prevalência apenas por variação de incidência.

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    Verificar mudanças de sobrevida no período — Verificar mudanças de cura ou de letalidade

    Melhora de prognóstico aumenta a prevalência sem aumentar o risco. Atenção: Ler prevalência crescente como piora da situação de saúde. Cura acelera a saída do reservatório e reduz a prevalência. Atenção: Ignorar o ralo ao interpretar o nível. Crescimento populacional e envelhecimento elevam o absoluto sem elevar o risco. Atenção: Comparar números absolutos entre populações de tamanhos distintos. Estruturas etárias diferentes produzem taxas diferentes sem mudança de risco. Atenção: Comparar taxas brutas entre populações de idades distintas.

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    Ler incidência e prevalência lado a lado quando existirem — Escolher incidência para avaliar exposição e risco

    A razão entre elas informa sobre a duração média. Atenção: Usar apenas uma delas quando as duas estão disponíveis. Comparação entre expostos e não expostos exige casos novos. Atenção: Estimar risco a partir de prevalência, que é contaminada pela duração. Agenda, insumos, equipe e leitos derivam do que existe hoje. Atenção: Dimensionar serviço pelo número de casos novos do ano. Incidência reage rápido a intervenção; prevalência reage devagar. Atenção: Concluir que a política falhou porque a prevalência ainda não caiu.

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    Registrar novos casos identificados no território — Manter atualizado o cadastro de casos existentes

    Data de início, confirmação e situação atual. Atenção: Registrar apenas o atendimento sem marcar se o caso é novo. Altas, óbitos e mudanças de endereço saem do estoque. Atenção: Manter na lista quem já não pertence a ela, inflando a prevalência local. Visitas, consultas e insumos proporcionais aos casos existentes. Atenção: Planejar com número desatualizado e subdimensionar a equipe. Dizer quantos surgiram e quantos existem evita conclusão equivocada. Atenção: Apresentar só a que favorece a narrativa desejada.

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O esperado e os alertas

Normal
  • O número apresentado identifica claramente se é de casos novos ou de casos existentes.
  • A incidência é usada para avaliar risco e efeito de prevenção, e a prevalência para dimensionar serviço.
  • Taxas comparadas entre populações estão padronizadas por idade.
  • O cadastro de casos existentes do território é revisado, com saídas por alta, óbito e mudança.
Incidência em queda e prevalência em alta para a mesma condição
A duração aumentou: menos pessoas morrendo da doença sem que ela seja curada, com acúmulo de casos existentes.
Prevalência alta com incidência baixa
Doença de longa duração, cujos casos se acumulam ano após ano; o serviço precisa de capacidade de acompanhamento, não só de prevenção.
Incidência alta com prevalência baixa
Doença de curta duração, que entra e sai rapidamente do reservatório; o esforço se concentra em detecção e tratamento imediato.
Política preventiva recente avaliada pela prevalência
Avaliação em retrovisor: a prevalência carrega o acúmulo do passado e responde com atraso à mudança na incidência.
Comparação de números absolutos entre populações de tamanhos diferentes
Crescimento e envelhecimento populacionais inflam o absoluto sem que o risco individual tenha mudado.
Taxas brutas comparadas entre populações com estruturas etárias distintas
Diferença produzida pela composição da população, e não pela ocorrência da doença.
Risco estimado a partir de prevalência em estudo de exposição
Medida contaminada pela duração: quem sobrevive mais tempo tem mais chance de ser incluído entre os casos existentes.
Lista de casos do território sem atualização de óbitos e mudanças
Prevalência local superestimada e planejamento dimensionado sobre estoque inexistente.
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Por que isso importa

Incidência responde sobre aparecimento de eventos novos em pessoas sob risco; prevalência descreve quantas pessoas vivem com a condição no recorte observado. A aproximação prevalência ≈ incidência × duração ajuda apenas em situação estável, doença relativamente rara e duração média coerente. No caso, escolha a medida pela pergunta e explicite período, população e regra de contagem.

SinalMedidaValorFonte
Incidência caindo enquanto a prevalência cresceAnálise de carga de doença de âmbito nacional cobrindo o período de 1990 a 2023Incidência padronizada por idade de acidente vascular cerebral caiu de 246,15 para 192,19 por 100 mil e a mortalidade de 302,72 para 92,83 por 100 mil, enquanto o número de pessoas vivendo com a doença subiu de 11,56 para 26,68 milhões, com os anos vividos com incapacidade mais que dobrandoFu L, Jiang W, Peng Y, Zhang X, Zhou R. Burden of stroke in China from 1990 to 2023. Online Journal of Public Health Informatics. 2026. PMID 42330168; doi 10.2196/86225
As três medidas acompanhadas na mesma população ao longo do tempoCoorte comunitária japonesa acompanhada por 37 anos, com medidas repetidas de prevalência, incidência e prognósticoIncidência ajustada de demência aumentou entre as coortes de 1988 e 2002 (razão de risco ajustada 1,68) e caiu entre 2002 e 2012 (0,60); a sobrevida em cinco anos passou de 47,3% para 65,2% entre as duas primeiras coortes; a prevalência bruta atingiu 17,9% em 2012 e recuou para 12,1% em 2022Ohara T, Minohara T, Nakazawa T, et al. Thirty-seven-year trends in the prevalence, incidence, and prognosis of dementia. Alzheimer's Research & Therapy. 2025. PMID 41466306; doi 10.1186/s13195-025-01909-1
Prevalência e incidência lado a lado numa doença crônicaEstudo retrospectivo de coorte com bases nacionais de seguro cobrindo cerca de 80% da população tailandesaPrevalência pontual de 85,8 por 100 mil (IC 95% 85,1 a 86,5), com 55.956 casos existentes numa população de 65.204.797 pessoas em 2017; incidência anual de 23,6, 24,8 e 24,3 por 100 mil pessoas-ano entre 2018 e 2020, com incidência cumulativa de 72,7 por 100 mil no triênioPongkulkiat P, Foocharoen C, Onchan T, Suwannaroj S, Mahakkanukrauh A. Prevalence and incidence of systemic lupus erythematosus in Thailand based on national health data. Lupus Science & Medicine. 2025. PMID 40908041
Densidade de incidência e prevalência de período em estudo de exposiçãoCoorte retrospectiva nacional sueca com 12.202 pessoas com diabetes tipo 1 e 48.484 controles pareados, com registros de 1977 a 2019Taxa de incidência de anorexia nervosa em mulheres com diabetes tipo 1 de início na infância de 74,7 por 100 mil pessoas-ano contra 45,2 nas controles, com razão de taxas de 1,77 (IC 95% 1,35 a 2,32); prevalência de período de 1,9% contra 1,1% (razão de chances 1,64; IC 95% 1,31 a 2,06)Sjögren M, Englund E, Erlandsson AÅE, Möllsten A. Incidence, prevalence and mortality of anorexia nervosa in individuals with childhood-onset type 1 diabetes. BMJ Open. 2026. PMID 41689220
Incidência cumulativa até uma idade definida, medida em coorteCoorte prospectiva com 7.275 crianças com obesidade e 35.636 comparadores da população geral, com seguimento de 1997 a 2020 e desfechos avaliados até os 30 anosAté os 30 anos de idade, incidência cumulativa de diabetes tipo 2 de 9,1% na obesidade metabolicamente saudável, 16,8% na metabolicamente não saudável e 0,5% na população geral; para hipertensão, 10,8%, 18,3% e 3,7%; para dislipidemia, 5,3%, 12,7% e 0,9%Putri RR, Danielsson P, Hagman E, Marcus C. Long-term cardiometabolic outcomes in children with metabolically healthy and unhealthy obesity. JAMA Pediatrics. 2026. PMID 41870461
Trajetórias divergentes de incidência e prevalência nas complicações crônicasAnálise de tendências temporais com base em dados nacionais de seguro de saúde, com 6.202 casos de diabetes tipo 1 de início precoce, 2008–2021Incidência de complicações microvasculares que exigiam tratamento caiu de 32,2 para 12,0 por mil pessoas, enquanto a prevalência subiu até 2012 e só depois declinou, chegando a 71,4 em 2021Kim HY, Ji E, Kim J. Temporal trends in treatment-requiring microvascular complications in young-onset diabetes. Diabetes Research and Clinical Practice. 2026. PMID 42248524; doi 10.1016/j.diabres.2026.113349
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Síntese para comparar

As perguntas da reunião, o mecanismo que responde e a resposta em uma linha.

Pergunta da cenaMecanismoResposta em uma linha
Cai o novo e sobe o total?Fluxo e estoqueTorneira mais fechada e ralo também mais fechado
Qual número mede melhora?Uso próprio de cada medidaIncidência para prevenção, prevalência para carga
Salvar vidas aumenta a doença?Duração médiaAumenta a prevalência, e isso é sucesso
Virose pega muita gente e some?Duração curtaFluxo alto com nível baixo no reservatório
Como dimensionar a equipe?Prevalência atualizadaPelo que existe hoje, não pelo que surgiu no ano

Incidência e prevalência comparadas

AspectoIncidênciaPrevalência
O que contaCasos novos surgidos num períodoCasos existentes num momento ou intervalo
Natureza da medidaFluxoEstoque
Denominador típicoPopulação em risco ou pessoas-tempoPopulação total num instante definido
Influência da duraçãoNão é afetada por elaDiretamente proporcional a ela
Pergunta que responde bemCausa, risco e efeito de prevençãoCarga de cuidado e dimensionamento de serviço
Velocidade de resposta a intervençãoRápidaLenta, por carregar o acúmulo anterior

O que a combinação das duas medidas revela

Situação observadaInterpretaçãoConsequência para o serviço
Incidência alta e prevalência baixaDoença de curta duração, com cura ou óbito rápidosÊnfase em detecção e tratamento imediato
Incidência baixa e prevalência altaDoença longa, com acúmulo de casosÊnfase em acompanhamento prolongado
Incidência caindo e prevalência subindoSobrevida aumentando sem curaPrevenção mantida e cuidado crônico ampliado
Incidência e prevalência caindo juntasMenos casos novos e menor duraçãoRedução real de carga, com liberação de capacidade
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Armadilhas reais

Usar aumento sem dizer de qual medida; Ler prevalência crescente como piora automática; Estimar risco a partir de prevalência
Casos novos e casos existentes se movem por razões diferentes. Pode significar que menos gente está morrendo da doença. Ela favorece quem sobrevive mais tempo e mistura adoecer com morrer.
Explicar variação de prevalência só pela incidência; Avaliar política preventiva recente pela prevalência; Comparar números absolutos entre populações diferentes
A duração média entra na conta e costuma ser o que mudou. Ela responde com atraso porque carrega o estoque acumulado. Tamanho e envelhecimento inflam o absoluto sem alterar o risco.
Comparar taxas brutas entre populações de idades distintas; Confundir incidência cumulativa com densidade de incidência; Confundir prevalência pontual com prevalência de período
Sem padronização, a diferença pode ser só de composição etária. Proporção e taxa por pessoa-tempo não são intercambiáveis. Uma fotografia num instante difere do acumulado de um intervalo.
Ignorar o ralo do reservatório; Dimensionar serviço pelos casos novos do ano; Manter cadastro do território sem atualização
Cura e óbito determinam o nível tanto quanto a entrada. A carga de trabalho vem de todos os que existem, não só dos recentes. Óbitos e mudanças não retirados inflam a prevalência local.
Apresentar só a medida que favorece a narrativa; Esquecer que a razão entre as duas estima a duração
Quem lê precisa de quantos surgiram e de quantos existem. Ler prevalência e incidência juntas informa mais que cada uma isolada.
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Roteiro executável

Da pergunta à medida certa, e desta ao planejamento.

  1. 01Determinar qual pergunta se quer responder Identificar se o número disponível é fluxo ou estoque Verificar o período de referência da incidência
  2. 02Conferir o denominador utilizado Distinguir incidência cumulativa de densidade de incidência Distinguir prevalência pontual de prevalência de período
  3. 03Estimar a duração média da condição Aplicar a relação entre incidência, duração e prevalência Verificar mudanças de sobrevida no período analisado
  4. 04Verificar mudanças de cura e de letalidade Separar número absoluto de taxa Checar se a taxa foi padronizada por idade
  5. 05Ler incidência e prevalência lado a lado quando existirem Escolher incidência para avaliar exposição e risco Escolher prevalência para calcular necessidade de serviço
  6. 06Ajustar a expectativa de resposta de cada medida no tempo Manter atualizado o cadastro de casos existentes Comunicar as duas medidas ao apresentar dados
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Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para a pessoa e o território

No caso vinculado, transforme a impressão em uma pergunta mensurável. Defina evento, população, período e fonte; verifique quem poderia entrar no numerador e no denominador; procure mudanças de registro ou acesso antes de atribuir causalidade. Ao comunicar o resultado, separe o que o dado mostra, o que apenas sugere e qual decisão ele sustenta.

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Revisão espaçada

7 dias

Qual a diferença entre uma medida de fluxo e uma de estoque em epidemiologia, e qual delas é cada uma das duas medidas de frequência? Que relação liga incidência, duração e prevalência? E por que estimar risco de exposição a partir de prevalência produz conclusão viesada?

30 dias

Retome a reunião de equipe e resolva o planejamento inteiro: explique ao agente comunitário como os dois números podem estar certos ao mesmo tempo, diga qual deles mostra que a prevenção está funcionando e qual deles dimensiona as visitas domiciliares, e descreva o que aconteceu com a duração da doença naquele território. Depois faça o mesmo exercício com três exemplos de naturezas distintas — uma infecção de curta duração, uma doença crônica de longa duração e uma condição cujo tratamento passou a prolongar a sobrevida — dizendo, em cada caso, o que se espera da incidência e o que se espera da prevalência.

Incidência e prevalência são perguntas diferentes — Ciclo básico | OsceLabs