Saúde Coletiva e Atenção PrimáriaEpidemiologia: contar para entender

Mortalidade, letalidade e sobrevida

Mortalidade situa óbitos na população; letalidade os situa entre casos; sobrevida exige origem, desfecho e horizonte temporal explicitados.

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O caso

Reunião mensal de vigilância epidemiológica do município. Três números na tela, todos do mesmo ano e da mesma cidade. O primeiro: entre os casos de uma infecção grave notificados no ano, quase quatro em cada dez morreram. É uma doença assustadora, e a sala reage. O segundo: essa mesma doença respondeu por seis óbitos no município inteiro. Seis, num ano. O terceiro: o infarto do miocárdio, que mata uma fração muito menor de quem o tem, foi responsável por mais de duzentas mortes no mesmo período — é a principal causa de óbito da cidade.

Um estudante do internato, presente na reunião, faz a pergunta mais honesta possível: então qual das duas é a doença mais grave? E, na sequência, aparecem as outras duas perguntas que este capítulo responde. Se a letalidade de uma doença cai, o número de mortes por ela cai junto? Parece que sim, mas não é automático. Se a sobrevida em cinco anos de um câncer melhorou, o tratamento melhorou? Também parece óbvio, e também não é. As três perguntas confundem porque envolvem três medidas que quase todo mundo chama de mortalidade — e que têm denominadores diferentes. Separá-las é o assunto do capítulo.

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A ideia central

Três medidas, três denominadores, três perguntas. Mortalidade relaciona óbitos à população e estima o impacto populacional. Letalidade relaciona óbitos aos casos identificados em um período e expressa a gravidade observada entre eles. Sobrevida estima a probabilidade ou proporção de permanecer vivo desde um tempo zero definido — como diagnóstico ou início do tratamento — até um horizonte especificado, considerando seguimento e censura. Cinco anos é um horizonte frequente em oncologia, não uma regra universal, e sobrevida não é sinônimo de tempo médio vivido após o diagnóstico.

Agora a cena da reunião se resolve sozinha. A infecção grave tem letalidade alta e mortalidade baixa: mata quatro em cada dez que a contraem, mas pouca gente a contrai. O infarto tem letalidade menor e mortalidade alta: mata proporcionalmente menos por caso, e atinge muitíssimas pessoas. Qual é mais grave? A pergunta não tem resposta única, e é isso que o estudante precisa entender. Para o indivíduo que adoece, a infecção é muito mais perigosa. Para a saúde da população e para a alocação de recursos, o infarto é o problema maior. Duas perguntas legítimas, duas medidas diferentes, e nenhuma delas é a resposta correta em abstrato. Um exemplo real com as três medidas juntas: numa análise nacional de sepse ao longo de vinte anos, foram registradas 266.105 hospitalizações associadas e 27.402 óbitos, com incidência padronizada por idade de 320,4 por 100 mil e mortalidade padronizada de 34,2 por 100 mil; a letalidade caiu de 15,9 mortes por 100 internações em 2000 para 8,1 em 2019 (McTavish e colaboradores, The Lancet Regional Health — Western Pacific, 2025).

Ato 2 — As três se movem separadas. Aqui está o ponto que gera erro em prova e em imprensa: reduzir a letalidade não garante reduzir a mortalidade. Se a doença passa a atingir mais gente, o número de mortes pode subir mesmo com cada caso sendo menos fatal. A pandemia deu o exemplo mais didático dessa dissociação. Numa análise das transições de risco num estado brasileiro entre 2020 e 2023, a letalidade em 2023 foi 91% menor que em 2020 (razão de risco 0,09) e o risco de mortalidade caiu 99% (razão de risco 0,01), enquanto a incidência permanecia elevada em 2022, com razão de risco de 1,42 em relação ao ano de referência (Cavalcanti e colaboradores, Epidemiologia, 2026).

A letalidade também varia por circunstâncias que nada têm a ver com a biologia da doença. Numa base nacional com 4.236.789 internações por acidente vascular cerebral isquêmico, a letalidade hospitalar foi de 7,4% no inverno contra 6,6% no verão, com razão de chances ajustada de 1,140 (IC 95% 1,128 a 1,152) para o inverno (Hahad e colaboradores, Frontiers in Epidemiology, 2026). A mesma doença, o mesmo país, e desfechos diferentes conforme a estação. E a letalidade varia enormemente com o acesso e com a qualidade do cuidado. Numa série de dez anos sobre cardiopatia congênita, foram identificados 733 casos entre 78.713 recém-nascidos, com letalidade global de 36,7%, oscilando entre 27,7% em dois anos e 68,1% em outro (Haq e colaboradores, Health Science Reports, 2026). Uma variação dessas, na mesma população, fala mais sobre o serviço do que sobre a doença.

Ato 3 — Sobrevida é a mais traiçoeira das três. Chegamos à terceira pergunta da reunião, e ela merece cuidado especial porque sobrevida é a medida mais usada para anunciar progresso — e a mais fácil de interpretar errado. Primeiro, um esclarecimento técnico. Sobrevida relativa compara a sobrevivência observada dos doentes com a esperada para pessoas de mesma idade e sexo na população geral. Isso separa o efeito da doença do efeito de simplesmente envelhecer, e é por isso que ela é preferida em registros de câncer. Segundo, a sobrevida melhora por três motivos possíveis, e apenas um deles é o que se comemora: tratamento melhor; diagnóstico mais precoce sem mudança no curso da doença — o viés de antecipação que você viu em Raciocínio Clínico; ou incorporação de casos mais brandos, que a definição ampliada trouxe para dentro, como discutido no primeiro capítulo desta apostila.

Há uma pista útil para distinguir progresso real de artefato: comparar a sobrevida com a mortalidade. Se a sobrevida sobe e a mortalidade populacional cai junto, é provável que algo tenha de fato mudado. Se a sobrevida sobe e a mortalidade fica estável, a suspeita de antecipação ou de incorporação de casos brandos aumenta. Um panorama nacional ajuda a ver as quatro medidas juntas. Num sistema de registro de câncer, o ano de 2023 registrou 288.613 casos novos e 85.271 óbitos, com sobrevida relativa em cinco anos de 73,7% no conjunto e de 92,7% nos casos diagnosticados em estágio localizado; a proporção de diagnósticos em estágio localizado subiu de 45,6% em 2005 para 51,8% em 2023, e a prevalência alcançou 2,73 milhões de pessoas, 5,3% da população (Park e colaboradores, Cancer Research and Treatment, 2026).

Note a informação embutida: se a fração de casos diagnosticados em estágio localizado aumentou, parte da melhora de sobrevida vem da mudança de composição dos casos, e não apenas do tratamento. Ler os dois números juntos evita a conclusão apressada. Falta um conceito elegante e pouco conhecido: a sobrevida condicional, que responde a uma pergunta que os pacientes fazem o tempo todo — já que eu sobrevivi a estes dois anos, qual a minha chance agora? Num registro nacional com 46.916 pacientes com câncer de vias biliares extra-hepáticas, a probabilidade de sobrevida em cinco anos era de 20,8% no momento do diagnóstico, mas subia para 35,4% entre quem já havia sobrevivido um ano, 55,5% entre os de dois anos, 74,0% entre os de três e 88,6% entre os de quatro; entre os que chegaram a cinco anos, 72,4% viveram mais cinco (Kang e colaboradores, International Journal of Surgery, 2026).

Esse é um dado de enorme valor clínico e humano: o prognóstico de uma pessoa não é o do momento do diagnóstico congelado para sempre. Ele se atualiza a cada ano que ela atravessa — e essa é uma informação que se pode dar ao paciente com honestidade. Por fim, a sobrevida também muda com o tempo histórico. Numa análise por períodos, a sobrevida relativa em cinco anos do câncer de fígado numa região chinesa foi de 37,32% no período 2019–2023, contra 5,56% quando calculada para o conjunto que se inicia em 2004 (Chen e colaboradores, Frontiers in Oncology, 2026). Anunciar a sobrevida de uma doença sem dizer de qual período e de qual população se está falando é dizer muito pouco.

Voltemos à reunião. Não existe a doença mais grave em abstrato: existe a mais letal para quem a tem e a mais mortal para a população. E a melhora de uma sobrevida só se interpreta olhando o que aconteceu com a mortalidade e com a composição dos casos no mesmo período. A pergunta de cabeceira: quando alguém te disser que uma doença é grave, você vai perguntar se ela mata muito quem a tem ou se ela mata muita gente?

Três frações comparadas: mortalidade sobre a população, letalidade sobre os doentes e sobrevida ao longo do tempo.
As três medidas usam o mesmo numerador em dois casos e denominadores completamente diferentes — por isso respondem a perguntas distintas.
Três curvas com trajetórias diferentes ao longo do tempo: incidência, letalidade e mortalidade.
As três medidas podem seguir caminhos independentes na mesma população e no mesmo período.
Três painéis mostrando tratamento eficaz, antecipação do diagnóstico e incorporação de casos brandos como causas de melhora de sobrevida.
Sobrevida maior pode significar tratamento melhor, diagnóstico mais precoce sem ganho real, ou entrada de casos mais leves na contagem.
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O mecanismo

As perguntas da reunião de vigilância, respondidas pelos três denominadores.

  • Qual das duas doenças é a mais grave?

    Depende da pergunta. Para quem adoece, a de maior letalidade; para a população e para a alocação de recursos, a de maior mortalidade. Nenhuma das duas medidas responde por si só o que é ser mais grave.

  • Se a letalidade cai, o número de mortes cai junto?

    Não necessariamente. Se mais gente adoece, a mortalidade pode não cair mesmo com cada caso sendo menos fatal — as duas medidas têm denominadores diferentes e podem seguir caminhos independentes.

  • Se a sobrevida melhorou, o tratamento melhorou?

    Pode ser, mas há duas alternativas: diagnóstico antecipado sem mudança no curso da doença, e incorporação de casos mais brandos por critério mais amplo. Comparar com a mortalidade ajuda a distinguir progresso real de artefato.

  • Por que a letalidade da mesma doença varia tanto entre lugares e anos?

    Porque ela depende do acesso, da qualidade do cuidado e até da estação do ano. Variações desse tipo na mesma população falam mais sobre o serviço do que sobre a biologia da doença.

  • Por que a sobrevida relativa é preferida em registros de câncer?

    Porque compara a sobrevivência observada com a esperada para pessoas de mesma idade e sexo na população geral, separando o efeito da doença do efeito de simplesmente envelhecer.

  • O prognóstico dado no diagnóstico vale para sempre?

    Não. A sobrevida condicional se atualiza a cada ano vivido: num câncer com 20,8% de sobrevida em cinco anos ao diagnóstico, quem chegou ao quarto ano tinha 88,6% de probabilidade de completar o quinto.

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Como se organiza

Identificar o denominador antes de nomear a medida; Perguntar para quem a gravidade está sendo avaliada
População, doentes ou diagnosticados definem se é mortalidade, letalidade ou sobrevida. Risco individual e peso populacional são perguntas distintas.
Ler letalidade junto com a incidência; Interpretar letalidade variável como sinal de serviço
Letalidade em queda com incidência em alta pode manter a mortalidade estável. Grandes oscilações na mesma população costumam refletir acesso e qualidade do cuidado.
Confirmar se a sobrevida é relativa ou bruta; Comparar sobrevida com mortalidade no mesmo período
A relativa desconta a mortalidade esperada por idade e sexo. Melhora isolada da sobrevida levanta suspeita de antecipação diagnóstica.
Verificar mudanças na composição dos casos; Usar sobrevida condicional ao conversar com o paciente
Mais diagnósticos em estágio inicial elevam a sobrevida sem mudar o tratamento. O prognóstico se atualiza a cada ano vivido, e isso é informação honesta e útil.
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Como raciocinar

Como distinguir e usar corretamente as três medidas de desfecho fatal.

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    Localizar o numerador da medida apresentada — Localizar o denominador correspondente

    Óbitos por aquela causa, no período definido. Atenção: Aceitar a palavra mortalidade sem verificar o que foi contado. População, doentes ou pessoas diagnosticadas. Atenção: Chamar de mortalidade o que é letalidade. Mortalidade, letalidade ou sobrevida, conforme o denominador. Atenção: Usar os três termos como sinônimos. Risco individual, peso populacional ou prognóstico ao longo do tempo. Atenção: Escolher a medida disponível em vez da adequada.

  2. 2

    Verificar o período de referência — Checar se a mortalidade foi padronizada por idade

    Letalidade em 28 dias, hospitalar ou do episódio inteiro. Atenção: Comparar letalidades apuradas em janelas diferentes. Comparações entre populações exigem padronização. Atenção: Comparar mortalidades brutas de populações com idades distintas. A mortalidade resulta das duas combinadas. Atenção: Concluir queda de mortalidade a partir de queda de letalidade. Tempo até o atendimento, estrutura disponível e gravidade na chegada. Atenção: Atribuir à doença o que decorre da organização do cuidado.

  3. 3

    Considerar o perfil de gravidade dos casos atendidos — Confirmar se a sobrevida é relativa ou observada

    Serviço de referência recebe casos mais graves e tende a ter letalidade maior. Atenção: Comparar letalidade entre serviços sem ajustar por gravidade. A relativa desconta a mortalidade esperada da população geral. Atenção: Comparar sobrevida relativa com sobrevida bruta. Um ano, cinco anos, dez anos. Atenção: Comparar sobrevidas com horizontes diferentes. Aumento de casos localizados eleva a sobrevida do conjunto. Atenção: Atribuir a melhora inteiramente ao tratamento.

  4. 4

    Comparar a trajetória da sobrevida com a da mortalidade — Considerar antecipação diagnóstica como explicação alternativa

    Progresso real costuma aparecer nas duas. Atenção: Anunciar avanço com base apenas na sobrevida. Diagnóstico mais precoce alonga o intervalo medido sem adiar o óbito. Atenção: Descartar a hipótese sem examinar a mortalidade. Critério ampliado traz para dentro casos de melhor prognóstico. Atenção: Ignorar mudanças de definição ocorridas no período. Probabilidade atualizada conforme o tempo já sobrevivido. Atenção: Repetir ao paciente o prognóstico do diagnóstico anos depois.

  5. 5

    Situar o período histórico dos dados — Distinguir dado populacional de prognóstico individual

    Sobrevida de décadas diferentes não é comparável sem ressalva. Atenção: Citar sobrevida sem informar de que período ela é. Estatística descreve grupos; o paciente é um caso com características próprias. Atenção: Transferir a média do grupo diretamente para a pessoa à sua frente. Risco de morrer da doença, e não peso dela na cidade. Atenção: Confundir o familiar com um dado que não responde à pergunta dele. A declaração alimenta a estatística de mortalidade do país. Atenção: Preencher a causa de forma genérica e inutilizar o dado.

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O esperado e os alertas

Normal
  • A medida apresentada é nomeada corretamente conforme o denominador que a sustenta.
  • Mortalidades comparadas entre populações estão padronizadas por idade.
  • A sobrevida informada declara se é relativa ou observada, e a que período histórico se refere.
  • Melhora de sobrevida é interpretada em conjunto com a trajetória da mortalidade.
Doença com letalidade alta e mortalidade baixa na mesma população
Perigosa para quem adoece e de pequeno peso populacional; prioridade individual alta, prioridade de política menor.
Letalidade em queda com mortalidade estável
A incidência aumentou o suficiente para compensar a redução do risco por caso.
Letalidade da mesma doença variando muito entre anos ou serviços
Sinal de acesso e de qualidade do cuidado, e não de mudança na biologia da doença.
Letalidade hospitalar maior em serviço de referência
Perfil de gravidade dos casos recebidos; comparação exige ajuste, sob pena de penalizar quem atende os mais graves.
Sobrevida em cinco anos melhorando sem queda de mortalidade
Suspeita de antecipação diagnóstica ou de incorporação de casos mais brandos, e não necessariamente de tratamento melhor.
Aumento da proporção de diagnósticos em estágio localizado
Parte da melhora de sobrevida vem da mudança de composição dos casos contados.
Prognóstico repetido ao paciente anos depois do diagnóstico
Uso de informação desatualizada: a sobrevida condicional melhora a cada ano efetivamente vivido.
Declaração de óbito preenchida com causa genérica
Perda de informação na estatística nacional de mortalidade, que depende do que o médico assina.
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Por que isso importa

As três medidas usam óbitos, mas respondem a perguntas distintas. Mortalidade estima impacto na população; letalidade expressa gravidade entre casos identificados; sobrevida acompanha o tempo desde uma origem definida até um desfecho. Cinco anos é horizonte frequente em oncologia, não regra universal. No caso, declare denominador, tempo zero, período e possibilidade de censura antes de interpretar melhora.

SinalMedidaValorFonte
As três medidas apresentadas lado a lado numa mesma condiçãoAnálise nacional de hospitalizações e óbitos associados a sepse no período de 2000 a 2019266.105 hospitalizações associadas a sepse e 27.402 óbitos; incidência padronizada por idade de 320,4 por 100 mil e mortalidade padronizada de 34,2 por 100 mil; letalidade caindo de 15,9 mortes por 100 internações em 2000 para 8,1 em 2019; incidência 1,7 vez maior entre Māori e 2,3 vezes maior entre povos do PacíficoMcTavish S, et al. Sepsis in Aotearoa New Zealand, 2000-2019. The Lancet Regional Health — Western Pacific. 2025. PMID 41476796; doi 10.1016/j.lanwpc.2025.101767
Letalidade, mortalidade e incidência com magnitudes de mudança distintasAnálise de transições de risco em um estado brasileiro ao longo do período 2020–2023Letalidade em 2023 com redução de 91% em relação a 2020 (razão de risco 0,09) e risco de mortalidade com redução de 99% (razão de risco 0,01), enquanto a incidência permanecia elevada em 2022, com razão de risco de 1,42 em relação ao ano de referênciaCavalcanti MPE, et al. COVID-19 risk transitions in Ceará, Brazil, 2020-2023. Epidemiologia (Basel). 2026. PMID 42346170; doi 10.3390/epidemiologia7030083
Letalidade hospitalar variando por circunstância externa à doençaBase nacional com 4.236.789 internações por acidente vascular cerebral isquêmico, 2005–2022Letalidade hospitalar de 7,4% no inverno contra 6,6% no verão, com razão de chances ajustada de 1,140 (IC 95% 1,128 a 1,152) para o invernoHahad O, et al. Ischemic stroke seasonality in Germany, 2005-2022. Frontiers in Epidemiology. 2026. PMID 42147257; doi 10.3389/fepid.2026.1750089
Letalidade oscilando na mesma população ao longo dos anosSérie de dez anos com 733 casos de cardiopatia congênita identificados entre 78.713 recém-nascidos, 2013–2023Letalidade global de 36,7% entre os casos identificados, com máximo de 68,1% em um ano e mínimo de 27,7% em dois outros anos do períodoHaq IU, et al. Congenital heart disease in Pakistan, 2013-2023. Health Science Reports. 2026. PMID 42482790; doi 10.1002/hsr2.72812
Sobrevida relativa lida junto com a composição dos casosSistema nacional de registro de câncer com dados de incidência desde 1999 e seguimento até dezembro de 2024288.613 casos novos e 85.271 óbitos no ano; sobrevida relativa em cinco anos de 73,7% no conjunto e de 92,7% nos casos em estágio localizado; proporção de diagnósticos em estágio localizado subindo de 45,6% em 2005 para 51,8% em 2023; prevalência de 2,73 milhões de pessoas, equivalente a 5,3% da populaçãoPark EH, Jung KW, Choi SH, et al. Cancer statistics in Korea: incidence, mortality, survival, and prevalence in 2023. Cancer Research and Treatment. 2026. PMID 41881851; doi 10.4143/crt.2026.298
Sobrevida condicional, que se atualiza a cada ano vividoCoorte retrospectiva de base populacional com 46.916 pacientes com câncer de vias biliares extra-hepáticas, 1999–2021Probabilidade de sobrevida em cinco anos de 20,8% no momento do diagnóstico, subindo para 35,4% entre os que sobreviveram um ano, 55,5% aos dois anos, 74,0% aos três e 88,6% aos quatro; entre os que alcançaram cinco anos, 72,4% viveram mais cincoKang MJ, Ha J, Park SJ, et al. Long-term conditional relative survival trends in extrahepatic bile duct cancer. International Journal of Surgery. 2026. PMID 41677333; doi 10.1097/js9.0000000000004593
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Síntese para comparar

As perguntas da reunião, o mecanismo que responde e a resposta em uma linha.

Pergunta da cenaMecanismoResposta em uma linha
Qual doença é mais grave?Denominadores diferentesMais letal para quem tem, mais mortal para a cidade
Letalidade cai, mortes caem?Incidência entra na contaSó se a doença não passar a atingir mais gente
Sobrevida melhor é tratamento melhor?Três explicações possíveisCompare com a mortalidade antes de concluir
Por que a letalidade varia tanto?Acesso e qualidade do cuidadoOscilação na mesma população fala do serviço
O prognóstico do diagnóstico vale sempre?Sobrevida condicionalEle melhora a cada ano efetivamente vivido

As três medidas comparadas

MedidaDenominadorPergunta que responde
MortalidadePopulação da área, num períodoQuanto essa doença pesa sobre a comunidade
LetalidadePessoas que tiveram a doençaQual a chance de morrer, uma vez doente
SobrevidaPessoas diagnosticadas, ao longo do tempoQuanto tempo se vive após o diagnóstico
Sobrevida relativaIdem, comparada à população de mesma idade e sexoQuanto do risco se deve à doença, e não a envelhecer
Sobrevida condicionalQuem já sobreviveu um tempo definidoQual o prognóstico atualizado de quem chegou até aqui

Por que a sobrevida pode melhorar

ExplicaçãoO que se observa juntoComo distinguir
Tratamento mais eficazMortalidade populacional também caiProgresso real, visível nas duas medidas
Diagnóstico antecipado sem ganhoMortalidade estávelIntervalo medido aumenta sem adiar o óbito
Incorporação de casos mais brandosAumento de casos em estágio inicialComposição dos diagnósticos mudou no período
Mudança de definição de casoSalto na incidência no mesmo anoCritério revisado trouxe formas leves para dentro
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Armadilhas reais

Chamar de mortalidade o que é letalidade; Perguntar qual doença é mais grave sem definir para quem; Concluir queda de mortalidade a partir de queda de letalidade
Os denominadores são a população e os doentes, respectivamente. Risco individual e peso populacional são perguntas distintas. Se a incidência sobe, a mortalidade pode não se mover.
Comparar letalidade entre serviços sem ajustar gravidade; Comparar letalidades apuradas em janelas diferentes; Comparar mortalidades brutas entre populações de idades distintas
Serviço de referência recebe casos mais graves e terá letalidade maior. Letalidade em 28 dias, hospitalar e do episódio inteiro não são a mesma coisa. Sem padronização, a diferença pode ser apenas de composição etária.
Anunciar avanço com base apenas na sobrevida; Ignorar a distribuição por estágio ao diagnóstico; Comparar sobrevida relativa com sobrevida observada
Ela sobe por três motivos, e apenas um deles é tratamento melhor. Mais casos localizados elevam a sobrevida sem que o tratamento tenha mudado. A relativa desconta a mortalidade esperada por idade e sexo.
Citar sobrevida sem informar o período histórico; Repetir ao paciente o prognóstico do diagnóstico anos depois; Transferir a média do grupo diretamente para a pessoa
Sobrevidas de décadas diferentes não são comparáveis sem ressalva. A sobrevida condicional melhora conforme o tempo já vivido. Estatística descreve populações; o paciente tem características próprias.
Responder ao familiar com a medida errada; Preencher a causa do óbito de forma genérica
A pergunta sobre gravidade quase nunca é sobre mortalidade populacional. A declaração é a origem da estatística nacional e não se recupera depois.
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Roteiro executável

Da identificação da medida à comunicação correta do prognóstico.

  1. 01Localizar o numerador da medida apresentada Localizar o denominador correspondente Nomear corretamente a medida
  2. 02Definir a pergunta que se quer responder Verificar o período de referência da letalidade Checar se a mortalidade foi padronizada por idade
  3. 03Ler letalidade e incidência em conjunto Investigar variações de letalidade entre serviços e anos Considerar o perfil de gravidade dos casos atendidos
  4. 04Confirmar se a sobrevida é relativa ou observada Verificar o horizonte de acompanhamento da sobrevida Examinar a distribuição por estágio ao diagnóstico
  5. 05Comparar a trajetória da sobrevida com a da mortalidade Considerar antecipação diagnóstica como explicação alternativa Considerar incorporação de casos brandos no período
  6. 06Consultar a sobrevida condicional quando disponível Distinguir dado populacional de prognóstico individual Registrar corretamente a causa do óbito
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Questões (10)

Sorteando as questões…
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Ponte para a pessoa e o território

No caso vinculado, transforme a impressão em uma pergunta mensurável. Defina evento, população, período e fonte; verifique quem poderia entrar no numerador e no denominador; procure mudanças de registro ou acesso antes de atribuir causalidade. Ao comunicar o resultado, separe o que o dado mostra, o que apenas sugere e qual decisão ele sustenta.

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Revisão espaçada

7 dias

Quais são os denominadores de mortalidade, letalidade e sobrevida, e que pergunta cada uma responde? Por que a queda da letalidade não garante queda da mortalidade? E quais são as três explicações possíveis para uma sobrevida em cinco anos que melhora?

30 dias

Retome a reunião de vigilância e resolva as três perguntas: explique por que não existe doença mais grave em abstrato, mostre com um exemplo como letalidade e mortalidade podem seguir caminhos opostos no mesmo período, e liste o que você verificaria antes de aceitar que uma melhora de sobrevida representa avanço terapêutico. Termine explicando, com as palavras que usaria diante de um familiar, o que significa dizer que a probabilidade de sobrevida de um paciente melhora a cada ano que ele atravessa.