Saúde Coletiva e Atenção Primária › Saúde da família ao longo da vida
O homem que não aparece
Saúde do homem na atenção primária: por que ele chega tarde, o que a jornada de trabalho tem a ver com isso e como transformar cada contato eventual em cuidado
Acesso dos homens melhora quando o serviço reduz barreiras e aborda necessidades reais; prevenção não deve virar rastreamento indiscriminado ou estereótipo de gênero.
O caso
Jailson tem 47 anos e é pedreiro. Ele entrou na unidade hoje pela primeira vez em seis anos, e não para ser atendido: veio trazer a filha de 5 anos para vacinar, porque a esposa não conseguiu sair do trabalho. Enquanto esperava na fila, comentou com a técnica que às vezes a vista escurece quando ele levanta rápido, e que na semana passada sentiu uma gastura no peito subindo a laje, que passou quando ele parou. A técnica aferiu a pressão dele ali mesmo, na cadeira da sala de espera: 180 por 110.
O prontuário eletrônico não tem nada em nome dele desde um acidente de trabalho seis anos atrás, quando ele cortou a mão e veio fazer curativo por três dias. A unidade funciona das sete às dezessete horas. A obra dele começa às sete e termina às dezessete. Para ser atendido, ele precisa faltar, e faltar significa perder a diária. Ninguém nunca perguntou nada disso, porque ele nunca esteve numa consulta. As perguntas que essa história obriga a fazer são as três deste capítulo.
Ele não se cuida, ou o serviço não abre quando ele pode ir? As duas explicações parecem plausíveis. Por que homem só aparece quando não dá mais para adiar? É o padrão que todo mundo na unidade reconhece. Ele está aqui como acompanhante — posso atendê-lo? Ele não tem consulta marcada. Este é o sexto capítulo do percurso: o único em que o paciente do capítulo não está na lista de ninguém.
A ideia central
Três passos: entender qual parte da diferença de mortalidade entre homens e mulheres é evitável, ver o que de fato separa o homem do serviço, e reconhecer o que fazer com os contatos que ele tem com o sistema. Ato 1 — Nem toda diferença é natural, e a parte evitável é grande. Homens vivem menos que mulheres em quase todos os países, e é fácil arquivar isso como biologia. Uma análise comparativa entre países propôs separar as duas coisas: a diferença de expectativa de vida entre sexos, que existe em toda parte, e a desigualdade, definida como a parte dessa diferença que é evitável quando se compara cada sexo com o melhor desempenho alcançado no mundo (PLoS Medicine, 2025).
A separação importa porque muda o que se faz. Se a diferença fosse toda biológica, não haveria conduta. Como parte dela é evitável, há. E o desenho dessa parte evitável, no Brasil, é bem descrito. Em análise de 3.240.023 óbitos por causas externas ao longo de 23 anos, as taxas mais altas concentraram-se em homens e adultos jovens de 20 a 39 anos, com agressões respondendo por 36,61%, acidentes de transporte por 26,55%, quedas por 7,83% e lesões autoprovocadas por 7,43% (JMIR Public Health and Surveillance, 2025). A saúde mental entra pelo mesmo lado. Em análise de série temporal interrompida das taxas de suicídio no Brasil, entre homens tanto a tendência de aumento anterior à pandemia quanto o incremento posterior foram estatisticamente significativos, enquanto entre mulheres a tendência prévia era modesta (Epidemiology and Psychiatric Sciences, 2026).
Ato 2 — O acesso tem relação com o trabalho, mas não uma causa única. Em uma análise preditiva com inquéritos de Brasil, México e Equador, a variável ocupação teve grande contribuição para o desempenho do modelo entre homens. Isso mostra que informação ocupacional acrescentou capacidade preditiva naquele conjunto de dados; não prova que o trabalho seja o determinante causal dominante de todo homem adulto. Horários, renda, vínculo laboral, experiências anteriores, racismo, normas de gênero, território e organização do serviço podem se combinar de maneiras diferentes.
Some-se a isso o que já se sabe sobre o peso material do acesso: na decomposição das desigualdades de acesso a serviços no Brasil, renda e posse de plano privado foram os principais componentes explicativos (BMC Health Services Research, 2025). O problema não é primariamente informacional. Ato 3 — A norma de gênero fecha a porta que o horário já tinha entreaberto. A dimensão cultural existe e é mensurável. Em inquérito com cerca de mil moradores de uma comunidade do Rio de Janeiro, usando vinéculas narrativas, homens relataram maior dificuldade percebida de acesso justamente nos cenários que envolviam transtornos mentais comuns, sugerindo estigma internalizado (BMJ Public Health, 2026). O estudo qualitativo complementa o mecanismo: normas rígidas de masculinidade associam sofrimento psíquico a fraqueza, desencorajam a expressão emocional e a busca de ajuda, e produzem uma linguagem em que o sofrimento é descrito por qualquer palavra menos as clínicas (PLoS Mental Health, 2026).
Um serviço aberto apenas no horário de trabalho, somado a normas que associam busca de ajuda à fragilidade, pode adiar o cuidado de parte dos homens até que o sintoma limite a rotina. Isso não descreve todos os homens nem autoriza estereótipos. A primeira resposta é tratar cada contato como oportunidade, conforme a necessidade e com consentimento: acompanhante, retirada de medicação, atestado, exame ocupacional, curativo ou pronto-atendimento podem abrir espaço para aferir riscos, atualizar vacinas e oferecer seguimento, sem transformar qualquer presença em rastreamento indiscriminado.
A segunda é mudar o formato antes de cobrar o comportamento. Horário estendido, atendimento em outro turno, ações no local de trabalho, oferta que não exija perder a diária. Enquanto o custo de ser atendido for um dia de salário, a orientação de procurar o serviço descreve algo inexecutável — é o mesmo mecanismo do capítulo sobre promoção da saúde, aplicado a outro grupo. Voltemos ao Jailson. Ele não deixou de se cuidar por seis anos: ele não teve, em seis anos, uma única ocasião em que ser cuidado não custasse uma diária. A pressão de 180 por 110 estava lá o tempo todo, e a única coisa que mudou hoje foi que alguém aferiu enquanto ele esperava.
A pergunta de cabeceira: quando um homem entra na sua unidade como acompanhante, alguém pergunta alguma coisa a ele?



O mecanismo
As perguntas do caso do Jailson, respondidas pela combinação entre organização do serviço, trabalho e norma de gênero.
“Ele não se cuida, ou o serviço não abre quando ele pode ir?”
As duas coisas se somam, mas a segunda é a que o serviço controla. Quando o horário da unidade coincide com a jornada, ser atendido custa uma diária — e esse preço se repete a cada tentativa.
“Por que ele só aparece quando não dá mais para adiar?”
Porque só nesse ponto o custo de não ir supera o custo de ir. Até então, o sintoma que não impede de trabalhar não compete com a perda do dia.
“A diferença de mortalidade entre homens e mulheres é biológica?”
Em parte. A análise comparativa entre países separa diferença de desigualdade, e a fatia evitável é grande — no Brasil ela aparece nas causas externas, concentradas em homens de 20 a 39 anos.
“É só questão de comportamento e vergonha?”
Não. Entre homens, a ocupação foi a variável crítica na predição de doença crônica, reduzindo o desempenho do modelo em 19,6% quando neutralizada — mais que qualquer variável entre mulheres.
“Onde o estigma pesa mais?”
Na saúde mental. Homens relataram maior dificuldade percebida de acesso justamente nos cenários envolvendo transtornos mentais comuns, o que sugere estigma internalizado.
“Ele está como acompanhante — posso atendê-lo?”
Deve. Acompanhamento, retirada de medicação, atestado, exame ocupacional e curativo são os pontos em que ele efetivamente toca o serviço; cada um é uma consulta que não foi feita.
Como se organiza
- Separar diferença biológica de desigualdade evitável; Perguntar a ocupação antes de qualquer orientação
- Só a segunda comporta conduta, e ela é grande. Entre homens, o trabalho é o determinante dominante.
- Calcular o custo real de comparecer à unidade; Tratar todo contato eventual como oportunidade
- Perder a diária é um preço que se repete a cada consulta. Acompanhante, atestado, curativo e farmácia são consultas não feitas.
- Aferir pressão e glicemia em contato oportunístico; Investigar sofrimento psíquico com linguagem não clínica
- É o rastreio mais barato disponível para quem não agenda. A norma de gênero desloca o relato para outras palavras.
- Investigar risco ocupacional e uso de álcool; Mudar o formato antes de cobrar o comportamento
- Causas externas concentram-se em homens jovens. Horário estendido e ação no território mudam quem chega.
Como raciocinar
Como transformar um contato eventual de um homem adulto com o serviço em cuidado efetivo.
- 1
Reconhecer o contato oportunístico como consulta possível — Abordar de forma direta e sem constrangimento
Acompanhante, atestado, curativo, farmácia ou procedimento. Atenção: Atender apenas quem tem consulta agendada em nome próprio. Oferta objetiva, breve, sem sermão sobre autocuidado. Atenção: Iniciar pela cobrança de que ele deveria ter vindo antes. Medida simples, imediata e de alto rendimento. Atenção: Adiar a aferição para uma consulta futura. Fatores de risco, sintomas ou ausência de exames recentes. Atenção: Solicitar exame para outro dia e perder o contato.
- 2
Perguntar a ocupação e a jornada — Investigar exposição e risco no trabalho
O que faz, quantas horas, e em que horário. Atenção: Registrar a profissão sem investigar o horário real. Altura, máquinas, produtos químicos, ruído e esforço. Atenção: Tratar saúde do homem e saúde do trabalhador como temas separados. Cansaço, dor, escurecimento visual e falta de ar ao esforço. Atenção: Aceitar está tudo bem sem investigar sintomas de esforço. Quantidade, frequência e uso para dormir ou aliviar. Atenção: Perguntar em tom acusatório e encerrar a conversa.
- 3
Investigar sofrimento psíquico em linguagem cotidiana — Perguntar diretamente sobre ideias de morte quando houver sinal
Sono, irritação, desânimo e o que anda pesando. Atenção: Usar apenas termos clínicos que ele não vai reconhecer. Pergunta objetiva, sem rodeio, no mesmo tom das demais. Atenção: Evitar o tema por julgá-lo improvável em homem adulto. Registro conferido, não relato de estar em dia. Atenção: Presumir cobertura vacinal em adulto que não frequenta o serviço. O que é recomendado, e não o que é habitual pedir. Atenção: Solicitar bateria ampla de exames sem indicação.
- 4
Discutir rastreio de próstata pela decisão compartilhada — Estimar o custo de comparecer às próximas consultas
Benefícios, danos e preferência, sem oferta automática. Atenção: Transformar saúde do homem em sinônimo de exame de próstata. Perda de diária, deslocamento e autorização do empregador. Atenção: Agendar retorno sem verificar se ele consegue vir. Turno estendido, sábado, ou horário de menor perda. Atenção: Oferecer apenas o horário padrão e registrar falta depois. Resolver o máximo possível no contato existente. Atenção: Fracionar a conduta em várias vindas à unidade.
- 5
Vincular a um profissional de referência — Registrar o atendimento em nome dele
Nome, forma de contato e caminho de acesso direto. Atenção: Deixar o retorno dependente da fila comum. Prontuário próprio, com achados e condutas. Atenção: Registrar a aferição no prontuário do familiar acompanhado. Agente comunitário, contato telefônico e visita. Atenção: Aguardar que ele retorne espontaneamente. Discussão sobre horário, formato e ações no território. Atenção: Tratar como individual o que se repete com todos os homens da área.
O esperado e os alertas
- Contatos eventuais de homens adultos com o serviço são aproveitados como oportunidade de avaliação.
- A ocupação e a jornada são registradas e consideradas no plano de seguimento.
- Pressão arterial e, quando indicado, glicemia são aferidas no próprio contato.
- A oferta da unidade inclui horários compatíveis com quem trabalha em jornada integral.
- Homem adulto sem nenhum registro no prontuário por anos
- Ausência de contato programado, e não necessariamente ausência de doença — o risco é desconhecido, não baixo.
- Primeiro contato ocorrendo como acompanhante de familiar
- Oportunidade que costuma passar em branco: é o ponto em que ele efetivamente toca o serviço.
- Horário da unidade coincidente com a jornada de trabalho
- Ser atendido custa uma diária, e esse preço se repete a cada tentativa de acesso.
- Sintomas de esforço normalizados pelo próprio paciente
- Sintoma que não impede de trabalhar tende a não competir com a perda do dia de salário.
- Relato de sofrimento em linguagem não clínica
- Norma de gênero desloca a descrição; a pergunta precisa acompanhar a linguagem dele.
- Maior dificuldade percebida de acesso em cenários de saúde mental
- Estigma internalizado medido em inquérito comunitário; exige abordagem ativa e não oferta passiva.
- Conduta fracionada em vários retornos
- Cada retorno é uma nova barreira de custo; a chance de conclusão do plano cai a cada etapa.
- Mesmo padrão de ausência em todos os homens do território
- Problema de organização da oferta, e não característica individual dos usuários.
Por que isso importa
A ausência de homens na APS reflete horários, acolhimento, trabalho, normas sociais e experiências anteriores, não uma essência masculina. O encontro deve partir da demanda real e incluir saúde mental, sexual, cardiovascular, violência, trabalho, vacinação e paternidade quando pertinentes. No caso, use decisão compartilhada para rastreamentos; oferecer exames indiscriminadamente pode gerar dano sem melhorar vínculo.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Separação entre diferença e desigualdade evitável na expectativa de vida por sexo | Análise observacional comparativa entre países, com expectativa de vida aos 0, 5, 15, 35, 50 e 70 anos | Proposta e aplicação da razão de sexo ajustada, calculada dividindo a razão de sexo de cada país pela razão observada nos países no melhor percentil de desempenho para cada sexo; razão ajustada acima de um indica desvantagem masculina e abaixo de um, desvantagem feminina, permitindo distinguir a diferença esperada da parcela evitável | From sex differences to sex inequalities in life expectancy: A cross-country observational benchmarking analysis. PLoS Medicine. 2025. PMID 41379774 |
| Concentração das mortes por causas externas em homens jovens | Estudo ecológico de base populacional com 3.240.023 óbitos registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade entre 2000 e 2022 | Taxas mais altas em homens e em adultos jovens de 20 a 39 anos; agressões responderam por 36,61% das mortes, acidentes de transporte por 26,55%, quedas por 7,83% e lesões autoprovocadas por 7,43%, com aumento nas regiões Norte e Nordeste apesar da queda geral | Spatiotemporal Trends in Deaths From External Causes in Brazil: 23-Year Ecological and Population-Based Study. JMIR Public Health and Surveillance. 2025. PMID 40960187 |
| Tendência das taxas de suicídio por sexo no Brasil | Série temporal interrompida com ajuste sazonal das taxas de suicídio por 100 mil habitantes, estratificada por sexo e região | Aumento significativo das taxas antes da pandemia no conjunto da população; entre homens, tanto a tendência prévia quanto o incremento posterior ao início da pandemia foram estatisticamente significativos, enquanto entre mulheres a tendência prévia foi modesta | No turning point? Suicide trends in Brazil and the impact of the COVID-19 pandemic. Epidemiology and Psychiatric Sciences. 2026. PMID 42076805 |
| Peso da ocupação como determinante de doença crônica entre homens | Modelos de floresta aleatória aplicados a inquéritos nacionais de saúde de Brasil, México e Equador, com população ponderada de 96.726.891 adultos | Ao neutralizar a variável ocupação, o desempenho do modelo preditivo de doença crônica caiu 19,6% entre os homens; entre as mulheres, a queda foi de 8,57% ao neutralizar ocupação e 7,36% ao neutralizar escolaridade; os modelos apresentaram melhor desempenho para populações indígenas e afrodescendentes | Decoding health disparities by gender, ethnicity and chronic diseases across three Latin American countries. Nature Communications. 2026. PMID 41760626 |
| Estigma internalizado e barreira percebida de acesso entre homens | Inquérito transversal com aproximadamente mil moradores entrevistados presencialmente em comunidade do Rio de Janeiro em 2024, com vinhetas narrativas adaptadas | Não houve diferença significativa na dificuldade percebida de acesso entre participantes pretos e não pretos, mas homens relataram maior dificuldade percebida nos cenários envolvendo transtornos mentais comuns; participantes mais jovens perceberam maior barreira em situações envolvendo comportamentos socialmente marginalizados | Perceived barriers to primary healthcare access in a violence-affected community in Rio de Janeiro, Brazil: sociodemographic characteristics and self-reported health. BMJ Public Health. 2026. PMID 42299244 |
| Normas de masculinidade e busca por ajuda em saúde mental | Estudo qualitativo com 24 entrevistas semiestruturadas, incluindo 12 adolescentes de 15 a 19 anos e 12 mentores e profissionais, com análise temática reflexiva | Participantes frequentemente não reconheciam o termo saúde mental e descreviam sofrimento em linguagem cotidiana; normas rígidas de masculinidade associaram dificuldades de saúde mental a fraqueza, desencorajaram a expressão emocional e a busca de ajuda, e impuseram pressão precoce por desempenho | "Being a man is like being put in a box": A qualitative study of adolescent boys' and young men's understanding and experiences of mental health in an urban community in South Africa. PLOS Mental Health. 2026. PMID 41662008 |
Síntese para comparar
As perguntas do caso, o mecanismo que responde e a resposta em uma linha.
| Pergunta da cena | Mecanismo | Resposta em uma linha |
|---|---|---|
| Ele não se cuida ou não consegue vir? | Custo de comparecer | Ser atendido custa uma diária, sempre |
| Por que só aparece tarde? | Limiar de decisão | Só quando o sintoma impede de trabalhar |
| A diferença é biológica? | Diferença × desigualdade | Parte dela é evitável, e é grande |
| É só comportamento? | Peso da ocupação | O trabalho é o determinante dominante |
| Posso atendê-lo como acompanhante? | Contato oportunístico | É a consulta que de fato existe |
Onde o homem toca o serviço sem ter consulta
| Ponto de contato | O que costuma acontecer | O que poderia acontecer |
|---|---|---|
| Acompanhante de familiar | Espera na recepção | Aferição de pressão e três perguntas |
| Retirada de medicação da família | Entrega do medicamento | Verificação de vacinas e oferta de avaliação |
| Atestado ou declaração | Emissão do documento | Avaliação clínica breve e vinculação |
| Exame ocupacional | Documento para o empregador | Rastreio de risco e encaminhamento à unidade |
| Curativo ou procedimento | Realização do procedimento | Aferição, ocupação e agendamento compatível |
| Pronto-atendimento | Resolução do episódio agudo | Contrarreferência ativa para a unidade básica |
Duas frentes de correção
| Frente | O que muda | Por que funciona |
|---|---|---|
| Aproveitar o contato | Atender quem está ali, sem agendamento | É o único momento em que ele está no serviço |
| Resolver no mesmo dia | Reduzir o número de retornos necessários | Cada retorno recobra o custo da diária |
| Ampliar horário | Turno estendido ou fim de semana | Elimina a colisão com a jornada |
| Ir ao território | Ação no local de trabalho ou na comunidade | Dispensa o deslocamento e a falta |
| Adaptar a linguagem | Perguntar com as palavras dele | A norma de gênero desloca o vocabulário do sofrimento |
| Vincular a um profissional | Referência com nome e acesso direto | Reduz dependência da fila comum |
Armadilhas reais
- Atribuir a ausência apenas a desinteresse; Atender só quem tem consulta em nome próprio; Iniciar a conversa pela cobrança
- A ocupação é o determinante dominante entre homens adultos. O contato eventual é a única consulta que de fato existe. Sermão sobre autocuidado encerra o contato que se tinha.
- Adiar a aferição de pressão para outro dia; Registrar a profissão sem perguntar a jornada; Separar saúde do homem de saúde do trabalhador
- É a medida mais barata e a que mais rende no contato oportunístico. É o horário, e não o nome do ofício, que determina o acesso. Para o homem adulto, os dois temas são o mesmo tema.
- Fracionar a conduta em vários retornos; Agendar retorno sem verificar se ele consegue vir; Perguntar sobre sofrimento apenas em termos clínicos
- Cada retorno recobra o custo da diária perdida. Falta registrada não é o mesmo que recusa de cuidado. A norma de gênero desloca o relato para linguagem cotidiana.
- Evitar a pergunta sobre ideias de morte em homem adulto; Reduzir saúde do homem a rastreio de próstata; Solicitar bateria ampla de exames sem indicação
- A tendência de aumento das taxas de suicídio entre homens é significativa. Deixa de fora o que mais mata nessa faixa etária. Consome o único contato disponível com investigação de baixo rendimento.
- Presumir cobertura vacinal em adulto ausente do serviço; Tratar como individual o que se repete no território
- Quem não frequenta costuma ter registro incompleto. Ausência de todos os homens da área é problema de oferta.
Roteiro executável
Do contato eventual ao vínculo, aproveitando o único momento em que ele está no serviço.
- 01Reconhecer o contato oportunístico como consulta possível Abordar de forma direta, sem cobrança inicial Aferir pressão arterial no próprio contato
- 02Aferir glicemia capilar quando indicado Perguntar a ocupação e a jornada real Investigar exposição e risco no trabalho
- 03Perguntar sobre sintomas de esforço já normalizados Investigar uso de álcool e outras substâncias Investigar sofrimento psíquico em linguagem cotidiana
- 04Perguntar sobre ideias de morte diante de qualquer sinal Conferir situação vacinal no registro Avaliar os rastreios indicados para a idade e o risco
- 05Discutir rastreio de próstata por decisão compartilhada Estimar o custo de comparecer aos retornos Oferecer horário compatível com a jornada
- 06Resolver o máximo possível no contato existente Vincular a um profissional de referência com acesso direto Registrar em prontuário próprio e acionar busca ativa se houver risco
Questões (10)
Ponte para a pessoa e o território
No caso vinculado, combine risco clínico, fase da vida, funcionalidade, preferências e contexto familiar. Identifique barreiras de acesso, negocie uma decisão possível e registre quem fará o quê, em qual prazo e quais sinais exigem retorno. Longitudinalidade não é apenas repetir consultas: é usar o conhecimento acumulado para ajustar o cuidado.
Revisão espaçada
Qual é a diferença entre diferença e desigualdade na expectativa de vida por sexo, e por que a distinção muda a conduta? Por que a explicação puramente comportamental para a ausência dos homens no serviço é insuficiente? E quais são os pontos em que o homem adulto toca o sistema sem nunca ter consulta agendada?
Retome o caso do Jailson e refaça os seis anos: descreva quantos contatos ele provavelmente teve com o serviço nesse período e o que poderia ter sido feito em cada um, escreva a conduta completa do atendimento de hoje a partir da pressão de 180 por 110 e defina um plano de seguimento que não exija que ele perca uma diária por consulta. Depois explique, com os dados do capítulo, por que a ocupação é o determinante dominante entre homens e onde exatamente o estigma pesa mais.
