Fundamentos da Prática ClínicaSegurança do paciente e biossegurança

Identificação e cirurgia segura

Identificação do paciente e cirurgia segura

O checklist funcionou em oito hospitais e não funcionou em cento e um — e a diferença ensina mais que os dois resultados isolados

01

A cena

Centro cirúrgico, primeira cirurgia da manhã. O circulante lê a lista de verificação em voz alta, rápido, enquanto a equipe termina de se posicionar. Ninguém para. O cirurgião responde 'sim' a três perguntas sem levantar os olhos, e a lista é assinada como cumprida.

Duas horas depois, descobre-se que o antibiótico profilático não foi administrado. Ele constava da lista, foi lido em voz alta e recebeu um sim. A lista de verificação foi cumprida no papel e não aconteceu na sala. Essa diferença — entre executar e encenar — é exatamente o que separa os dois grandes estudos sobre o tema, e é o assunto deste capítulo.

02

De onde vem o sinal

Comece pelo problema mais simples e mais subestimado: identificar corretamente o paciente. Toda a cadeia de segurança depende disso. Medicação certa no paciente errado é medicação errada; exame certo no paciente errado gera conduta errada em duas pessoas ao mesmo tempo; e cirurgia no paciente ou no lado errado é o exemplo extremo do mesmo erro.

Identificação do paciente, sítio correto e pausa cirúrgica.
Identificadores independentes e conferências coletivas interceptam erros antes que alcancem o paciente.

A regra prática é usar sempre pelo menos dois identificadores, e nenhum deles pode ser o número do leito ou a localização física. Leito muda, paciente é transferido, e a identificação por posição é justamente a que falha quando o serviço está cheio — que é quando ela mais é usada.

A confirmação ativa vale mais que a passiva. Perguntar 'o senhor é o José?' convida a um sim automático, especialmente de quem está sonolento, ansioso ou com dificuldade auditiva. Pedir que a pessoa diga o próprio nome e a data de nascimento, e conferir com a pulseira e com a prescrição, é o procedimento que efetivamente detecta a troca.

Em cirurgia, some-se a marcação do sítio, feita antes e com participação do paciente enquanto ele ainda está acordado e capaz de confirmar. Marcação feita depois da sedação perde o principal verificador disponível — a própria pessoa que sabe qual joelho dói.

Passando ao instrumento que organiza tudo isso, a lista de verificação de segurança cirúrgica é um roteiro curto, aplicado em momentos definidos do procedimento, desenhado para melhorar a comunicação e a consistência do cuidado na equipe. Sua estrutura padronizada e a forma de aplicação estão no material da Organização Mundial da Saúde, que é a fonte a consultar.

Agora a evidência, que precisa ser contada inteira — porque contá-la pela metade é como esse assunto costuma ser ensinado, e é o que produz a lista lida sem ninguém parar.

O estudo que consagrou o instrumento acompanhou oito hospitais em oito cidades de contextos econômicos muito distintos — Toronto, Nova Délhi, Amã, Auckland, Manila, Ifakara, Londres e Seattle —, entre outubro de 2007 e setembro de 2008. Coletou dados de 3.733 pacientes consecutivos com 16 anos ou mais submetidos a cirurgia não cardíaca antes da introdução da lista, e de 3.955 pacientes depois.

A taxa de morte foi de 1,5% antes e caiu para 0,8% depois (P=0,003). Complicações hospitalares ocorreram em 11,0% dos pacientes na linha de base e em 7,0% após a introdução da lista (P<0,001). Praticamente metade da mortalidade e mais de um terço das complicações.

Note a redação da conclusão dos próprios autores, que é cuidadosa: a implementação da lista foi associada a reduções concomitantes nas taxas de morte e complicações. Associada, e concomitante — não demonstrada como causa isolada. O desenho é antes-depois, sem grupo controle paralelo.

Cinco anos depois veio a réplica em escala populacional, e o resultado foi outro. Um estudo examinou 101 hospitais de Ontário, no Canadá, comparando 109.341 procedimentos antes e 106.370 depois da adoção obrigatória das listas.

A mortalidade foi de 0,71% (IC 95% 0,66 a 0,76) antes e 0,65% (0,60 a 0,70) depois, com razão de chances de 0,91 (IC 95% 0,80 a 1,03; P=0,13). As complicações foram de 3,86% (3,76 a 3,96) antes e 3,82% (3,71 a 3,92) depois, com razão de chances de 0,97 (0,90 a 1,03; P=0,29). A conclusão dos autores é direta: a implementação das listas em Ontário não se associou a reduções significativas de mortalidade ou complicações operatórias.

É tentador escolher um dos dois estudos e descartar o outro. Resistir a essa tentação é o que este capítulo pede, porque a diferença entre eles é mais instrutiva do que qualquer um isoladamente.

Três diferenças ajudam a entender. A primeira é o risco de base. No estudo original, a mortalidade partia de 1,5%; em Ontário, de 0,71% — menos da metade. Quando o dano de base é menor, há menos espaço para reduzir, e o mesmo efeito relativo produz uma diferença absoluta muito menor e mais difícil de detectar.

A segunda é o modo de implantação. O estudo original foi um programa conduzido com apoio intensivo, treinamento e acompanhamento em oito hospitais que aceitaram participar. Em Ontário, a adoção foi generalizada e obrigatória em toda uma província, com o grau de aplicação real variando de serviço para serviço.

A terceira é a mais importante para quem vai entrar em um centro cirúrgico: a diferença entre aplicar e encenar. A lista não é um formulário; é um dispositivo que obriga a equipe a parar, falar e conferir em voz alta. Uma lista lida rapidamente enquanto ninguém interrompe o que está fazendo não realiza a função que o instrumento tem — e é razoável esperar que ela não produza o efeito medido no estudo em que a função foi realizada.

A leitura honesta, portanto, não é que a lista funciona nem que ela não funciona. É que o instrumento tem efeito quando a prática que ele organiza acontece de fato, e que sua mera presença no prontuário não garante nada. Isso vale para praticamente toda intervenção de segurança do paciente, e é a razão de este capítulo existir.

Há, ainda, um argumento que sobrevive independentemente da controvérsia sobre magnitude. Erros de identificação e de lado, medicação profilática esquecida e material não conferido são falhas de comunicação e de verificação — e um roteiro curto que obriga a equipe a confirmar em voz alta é uma resposta proporcional, barata e sem risco. O que ele exige não é orçamento: é que alguém pare.

Para o estudante, isso se traduz em uma conduta simples e desconfortável: ser a pessoa que pergunta. Confirmar o nome com o paciente, conferir o sítio marcado, perguntar se o antibiótico foi feito. Em uma equipe apressada, essas perguntas parecem inconvenientes — e são exatamente o que o instrumento existe para tornar rotineiras.

03

O que perguntar

Perguntas de identificação e de verificação — feitas ao paciente e à equipe, em voz alta.

  • Pode me dizer seu nome completo e sua data de nascimento?

    Confirmação ativa detecta troca; a passiva — 'o senhor é o José?' — recebe um sim automático de quem está sonolento ou ansioso.

  • Confere com a pulseira e com a prescrição que estou com a mão?

    São necessários pelo menos dois identificadores, e nenhum deles pode ser o número do leito ou a posição física.

  • [Ao paciente, acordado] Qual lado vai ser operado? Pode me mostrar?

    A marcação do sítio deve ser feita com participação do paciente enquanto ele ainda pode confirmar — depois da sedação, perde-se o melhor verificador.

  • Todos na sala já se apresentaram por nome e função?

    O instrumento foi desenhado para melhorar a comunicação da equipe, e equipe que não se conhece hesita mais em apontar um problema.

  • O antibiótico profilático foi administrado? Há quanto tempo?

    É um dos itens que mais recebe um sim automático quando a lista é lida rápido — e um dos que mais aparecem esquecidos depois.

  • Alguém tem alguma preocupação antes de começarmos?

    É a pergunta que abre espaço para quem viu algo e não sabia se podia falar — e é a que desaparece quando ninguém para.

04

Antes de encostar

Conferir identidade em todo ponto de contato
Medicação, coleta, exame, transporte, procedimento. Identificação não é etapa única na admissão; é verificação repetida.
Nunca usar leito ou posição como identificador
Leito muda e paciente é transferido. A identificação por posição falha exatamente quando o serviço está cheio, que é quando ela mais é usada.
Marcar o sítio antes da sedação
Com participação do paciente. Depois de sedado, perde-se o verificador que sabe qual lado dói.
Chegar a tempo de participar da verificação
Quem entra na sala depois do início não participou da conferência — e a lista existe para que todos estejam presentes nela.
Saber quais itens são frequentemente esquecidos
Antibiótico profilático, alergias, disponibilidade de material e imagens necessárias. Conhecer os pontos frágeis torna a conferência mais que protocolar.
Preparar-se para ser quem pergunta
Em equipe apressada, a pergunta de verificação parece inconveniente. Decidir antes que você vai fazê-la é o que permite fazê-la.
05

A técnica

Identificar, marcar, verificar — e fazer a verificação acontecer de fato.

  1. 1

    Usar pelo menos dois identificadores

    Nome completo e data de nascimento, conferidos com pulseira e prescrição. Nenhum deles pode ser leito ou posição física.

    Erro comum: Identificar pelo número do leito, que muda e que falha justamente quando o serviço está cheio.

  2. 2

    Fazer confirmação ativa

    Pedir que o paciente diga o próprio nome e a data de nascimento, em vez de perguntar se ele é fulano.

    Erro comum: Fazer pergunta que só comporta o sim, a quem está sonolento, ansioso ou com dificuldade auditiva.

  3. 3

    Conferir identidade em cada ponto de contato

    Antes de medicar, coletar, examinar, transportar e operar. É verificação repetida, e não etapa única na admissão.

    Erro comum: Conferir uma vez na entrada e presumir pelo resto da internação.

  4. 4

    Marcar o sítio com o paciente acordado

    Marcação com participação de quem sabe qual lado dói, antes da sedação, e conferida depois na sala.

    Erro comum: Marcar depois de sedado, ou não marcar por achar que o caso é óbvio.

  5. 5

    Parar de verdade para a verificação

    O instrumento é um dispositivo que obriga a equipe a parar, falar e conferir em voz alta. Sem a parada, ele não realiza a função para a qual foi desenhado.

    Erro comum: Ler a lista enquanto todos continuam o que estavam fazendo — cumprimento no papel, ausência na sala.

  6. 6

    Apresentar a equipe por nome e função

    Equipe que se conhece hesita menos em apontar um problema, e o instrumento foi desenhado para melhorar exatamente essa comunicação.

    Erro comum: Começar com pessoas que não sabem quem é quem na sala.

  7. 7

    Confirmar item a item, com resposta de quem sabe

    Cada item confirmado por quem tem a informação, e não por quem está mais perto. Antibiótico responde quem administrou.

    Erro comum: Aceitar um sim genérico do cirurgião para itens que ele não executou.

  8. 8

    Abrir espaço para preocupações antes de começar

    A pergunta final da verificação existe para quem viu algo e não sabia se podia falar. É a parte que mais se perde na pressa.

    Erro comum: Encerrar a conferência sem perguntar se alguém tem alguma preocupação.

  9. 9

    Conferir contagem de material e peças ao final

    A verificação de saída fecha o ciclo, e a contagem é o que impede que algo permaneça onde não deveria.

    Erro comum: Encerrar com a equipe já se dispersando, sem a conferência final.

  10. 10

    Registrar o que foi conferido, não apenas que foi

    Registro que apenas atesta cumprimento não distingue conferência real de leitura rápida.

    Erro comum: Assinar a lista como cumprida quando a verificação não aconteceu.

  11. 11

    Perguntar mesmo parecendo inconveniente

    Para o estudante, ser quem confirma o nome e pergunta pelo antibiótico é a contribuição concreta disponível — e ela é real.

    Erro comum: Calar por hierarquia, que é como o item esquecido atravessa a sala inteira.

  12. 12

    Não confundir presença da lista com segurança

    A adoção generalizada em 101 hospitais não se associou a redução significativa de mortalidade ou complicações. O instrumento vale pela prática que organiza.

    Erro comum: Tratar a lista assinada como prova de que a verificação ocorreu.

06

Achados, limites e forma de registro

Normal
  • Identidade confirmada ativamente, com dois identificadores, em cada ponto de contato.
  • Sítio cirúrgico marcado antes da sedação, com participação do paciente.
  • A equipe parou de fato para a verificação e se apresentou por nome e função.
  • Cada item foi confirmado por quem tem a informação.
  • Houve espaço explícito para preocupações antes do início.
  • Conferência final de material realizada com a equipe ainda presente.
  • Exemplo de registro: dois identificadores ativos conferidos com paciente e pulseira antes do procedimento; procedimento, sítio, lateralidade, consentimento, alergias e materiais críticos verificados; equipe realizou pausa verbal antes da incisão e conferência final antes da saída da sala, com discrepância resolvida antes de prosseguir.
Lista lida em voz alta enquanto ninguém interrompe o que faz
Cumprimento no papel sem realização na sala. É a diferença que ajuda a explicar por que a adoção obrigatória em 101 hospitais não reproduziu o efeito original.
Paciente identificado pelo número do leito
Identificador proibido: leito muda, paciente é transferido, e a falha ocorre justamente quando o serviço está cheio.
Confirmação passiva — 'o senhor é o José?'
Recebe sim automático de quem está sonolento, ansioso ou com dificuldade auditiva. Não detecta troca.
Sítio marcado após a sedação
Perde-se o verificador mais confiável disponível, que é o próprio paciente.
Cirurgião responde por itens que não executou
Confirmação sem lastro. Antibiótico profilático, um dos itens mais esquecidos, deve ser confirmado por quem o administrou.
Ninguém se apresenta na sala
Equipe que não se conhece hesita mais em apontar problema — e a comunicação da equipe é justamente o que o instrumento foi desenhado para melhorar.
Verificação encerrada sem perguntar por preocupações
Perde-se a parte que existe para quem viu algo e não sabia se podia falar.
Lista assinada como cumprida sem conferência real
Registro que atesta cumprimento sem distinguir verificação de leitura. A presença do documento não é evidência da prática.
07

O que isso quer dizer

A identificação correta do paciente é a base sobre a qual todo o resto se apoia, e sua regra é curta: pelo menos dois identificadores, nenhum deles sendo o número do leito ou a posição física, verificados em cada ponto de contato e por confirmação ativa.

A distinção entre confirmação ativa e passiva merece atenção porque parece um detalhe de forma e não é. Perguntar se a pessoa é fulano oferece a resposta pronta, e quem está sonolento, ansioso, com dor ou com dificuldade auditiva tende a concordar. Pedir que ela diga o próprio nome e a data de nascimento é o que efetivamente detecta a troca.

Em cirurgia, acrescenta-se a marcação do sítio, realizada antes da sedação e com participação do paciente. A razão é a mesma: o paciente acordado é o verificador mais confiável de qual lado deve ser operado, e sedá-lo antes de marcar significa dispensar essa verificação.

O instrumento que organiza a verificação é uma lista curta de 19 itens, aplicada em momentos definidos do procedimento, desenhada para melhorar a comunicação da equipe e a consistência do cuidado. Sua estrutura e a forma de aplicação estão no material da Organização Mundial da Saúde.

A evidência sobre esse instrumento precisa ser apresentada inteira, e é aqui que a maioria dos ensinos falha. Ela tem dois capítulos, e o segundo é tão importante quanto o primeiro.

O estudo que consagrou a lista acompanhou oito hospitais em oito cidades de realidades econômicas muito diferentes — Toronto, Nova Délhi, Amã, Auckland, Manila, Ifakara, Londres e Seattle — entre outubro de 2007 e setembro de 2008, no programa Cirurgias Seguras Salvam Vidas. Foram 3.733 pacientes consecutivos antes da introdução da lista e 3.955 depois, todos com 16 anos ou mais e submetidos a cirurgia não cardíaca.

A taxa de morte caiu de 1,5% para 0,8% (P=0,003), e as complicações hospitalares, de 11,0% para 7,0% (P<0,001). São reduções grandes, e explicam por que o instrumento se difundiu tão rapidamente.

Repare, no entanto, na formulação da conclusão dos autores: a implementação da lista foi associada a reduções concomitantes nas taxas de morte e complicações. É uma frase deliberadamente cautelosa, porque o desenho é antes-depois, sem grupo de comparação paralelo — o mesmo tipo de limitação que este material apontou em outros capítulos.

O segundo capítulo da evidência veio em 2014, em escala populacional. Um estudo examinou 101 hospitais da província canadense de Ontário, comparando 109.341 procedimentos antes e 106.370 depois da adoção das listas.

A mortalidade foi de 0,71% (IC 95% 0,66 a 0,76) antes e 0,65% (0,60 a 0,70) depois, com razão de chances de 0,91 (IC 95% 0,80 a 1,03; P=0,13). As complicações passaram de 3,86% (3,76 a 3,96) para 3,82% (3,71 a 3,92), com razão de chances de 0,97 (0,90 a 1,03; P=0,29). A conclusão foi que a implementação das listas em Ontário não se associou a reduções significativas de mortalidade ou complicações operatórias.

Diante de dois resultados assim, o reflexo é escolher um e descartar o outro — e é justamente esse reflexo que produz o pior aprendizado. Quem só conhece o primeiro estudo trata a lista como garantia; quem só conhece o segundo a trata como burocracia. As duas leituras erram.

Três diferenças ajudam a conciliar os achados. A primeira é o risco de base: a mortalidade partia de 1,5% no primeiro estudo e de 0,71% em Ontário — menos da metade. Com dano de base menor, há menos espaço para redução, e um mesmo efeito relativo produz diferença absoluta muito menor e mais difícil de detectar estatisticamente.

A segunda é o modo de implantação. O primeiro foi um programa conduzido com apoio intensivo, treinamento e acompanhamento, em oito hospitais que escolheram participar. O segundo avaliou a adoção generalizada em uma província inteira, com grau de aplicação real variando de serviço para serviço.

A terceira é a diferença entre aplicar e encenar, e é a que importa para quem vai entrar em uma sala cirúrgica. A lista não é um formulário: é um dispositivo que obriga a equipe a parar, falar e conferir em voz alta. Lida rapidamente enquanto ninguém interrompe o que está fazendo, ela não executa a função para a qual foi desenhada — e não há razão para esperar que produza o efeito medido onde a função foi executada.

A conclusão que este capítulo defende, portanto, não é que a lista funciona nem que não funciona. É que ela tem efeito quando a prática que organiza acontece de fato, e que sua presença assinada no prontuário não garante nada. Essa lição vale para quase toda intervenção de segurança do paciente, e é a razão de o capítulo tratar dos dois estudos e não de um.

Resta um argumento que sobrevive independentemente da controvérsia sobre magnitude. Troca de paciente, cirurgia em lado errado, antibiótico profilático esquecido e material não conferido são falhas de comunicação e de verificação. Um roteiro curto que obriga a equipe a confirmar em voz alta é resposta proporcional, barata e sem risco a esse tipo de falha — e o que ela exige não é orçamento, é que alguém pare.

Para o estudante, a tradução é direta e um pouco desconfortável: ser a pessoa que pergunta. Confirmar o nome com o paciente antes de qualquer coisa, conferir a marcação do sítio, perguntar se o antibiótico foi administrado e por quem. Em uma equipe apressada, essas perguntas soam inconvenientes — e tornar rotineiro justamente o que parece inconveniente é a função do instrumento.

Pulseira, demarcação e checklist são barreiras complementares, não assinaturas burocráticas. Identificação exige ao menos dois identificadores e participação ativa sempre que possível; cirurgia segura requer pausas reais da equipe, confirmação verbal e resolução de qualquer divergência antes de anestesia, incisão ou saída da sala.

SinalMedidaValorFonte
Efeito da lista de verificação cirúrgica em programa com implementação apoiadaOito hospitais em oito cidades de contextos econômicos diversos, com 3.733 pacientes antes e 3.955 depois, com 16 anos ou mais e cirurgia não cardíaca. Desenho antes-depois, sem grupo de comparação paralelo — os autores descrevem os achados como associação concomitante.Taxa de morte de 1,5% antes e 0,8% depois (P=0,003); complicações hospitalares de 11,0% antes e 7,0% depois (P<0,001)Haynes AB, Weiser TG, Berry WR, et al. A surgical safety checklist to reduce morbidity and mortality in a global population. N Engl J Med. 2009;360(5):491-9. doi:10.1056/nejmsa0810119
Efeito da adoção generalizada de listas de verificação em escala populacional101 hospitais de Ontário, com 109.341 procedimentos antes e 106.370 depois. Os autores concluem que a implementação não se associou a reduções significativas de mortalidade ou complicações operatórias.Mortalidade de 0,71% (IC 95% 0,66 a 0,76) para 0,65% (0,60 a 0,70), razão de chances 0,91 (IC 95% 0,80 a 1,03; P=0,13); complicações de 3,86% (3,76 a 3,96) para 3,82% (3,71 a 3,92), razão de chances 0,97 (0,90 a 1,03; P=0,29)Urbach DR, Govindarajan A, Saskin R, Wilton AS, Baxter NN. Introduction of surgical safety checklists in Ontario, Canada. N Engl J Med. 2014;370(11):1029-38. doi:10.1056/nejmsa1308261
Diferença de risco de base entre os dois estudosComparação entre os dois estudos citados. Com dano de base menor há menos espaço para redução, e o mesmo efeito relativo produz diferença absoluta menor e mais difícil de detectar.Mortalidade de base de 1,5% no programa com implementação apoiada, contra 0,71% na adoção populacionalUrbach DR, Govindarajan A, Saskin R, Wilton AS, Baxter NN. Introduction of surgical safety checklists in Ontario, Canada. N Engl J Med. 2014;370(11):1029-38. doi:10.1056/nejmsa1308261
08

Identificação: o que vale e o que não vale

Dois identificadores, nenhum deles ligado a posição física, verificados ativamente e em cada contato.

ElementoVale como identificador?Observação
Nome completo dito pelo pacienteSimConfirmação ativa: pedir que ele diga, não perguntar se é ele
Data de nascimento dita pelo pacienteSimSegundo identificador mais usado, e independente do primeiro
Pulseira de identificaçãoSim, como conferênciaConfere-se contra o que o paciente disse e contra a prescrição
Número do leito ou posiçãoNãoMuda com transferência e falha quando o serviço está cheio
Reconhecimento visual pela equipeNãoDepende de memória e falha em troca de plantão
Marcação do sítio cirúrgicoSim, específica de procedimentoFeita antes da sedação, com participação do paciente
  • A lista de verificação é um dispositivo que obriga a equipe a parar, falar e conferir — não um formulário a assinar.
  • Presença da lista assinada não é evidência de que a verificação ocorreu.
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Erros que custam o achado

Identificar pelo número do leito
Leito muda, paciente é transferido, e a identificação por posição falha exatamente quando o serviço está cheio — que é quando ela mais é usada.
Fazer confirmação passiva
'O senhor é o José?' recebe sim automático de quem está sonolento, ansioso ou com dificuldade auditiva. Não detecta troca.
Conferir identidade só na admissão
Identificação é verificação repetida, em cada ponto de contato: medicar, coletar, examinar, transportar, operar.
Marcar o sítio depois da sedação
Perde-se o verificador mais confiável disponível — o próprio paciente, que sabe qual lado dói.
Ler a lista sem ninguém parar
O instrumento existe para obrigar a equipe a parar, falar e conferir. Sem a parada, há cumprimento no papel e ausência na sala.
Aceitar sim genérico para itens não executados por quem responde
Cada item deve ser confirmado por quem tem a informação. Antibiótico profilático é confirmado por quem o administrou.
Encerrar sem perguntar por preocupações
É a parte que existe para quem viu algo e não sabia se podia falar — e a que mais se perde na pressa.
Tratar a lista assinada como prova de verificação
A adoção generalizada em 101 hospitais não se associou a redução significativa de mortalidade ou complicações. O documento não é a prática.
Concluir que a lista não funciona
No programa com implementação apoiada, mortalidade caiu de 1,5% para 0,8% e complicações de 11,0% para 7,0%. Descartar esse achado é o erro simétrico.
Ignorar a diferença de risco de base entre os estudos
Mortalidade de 1,5% contra 0,71%: com dano de base menor há menos espaço para reduzir, e a diferença absoluta fica mais difícil de detectar.
Citar o estudo original como prova de causalidade
O desenho é antes-depois sem grupo paralelo, e os próprios autores descrevem os achados como reduções concomitantes associadas à implementação.
Calar por hierarquia na sala
Ser quem confirma o nome e pergunta pelo antibiótico é a contribuição concreta do estudante — e é como o item esquecido deixa de atravessar a sala inteira.
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Roteiro da estação

Da identificação à conferência final.

  1. 01Pedir que o paciente diga nome completo e data de nascimento
  2. 02Conferir com a pulseira e com a prescrição
  3. 03Repetir a conferência em cada ponto de contato
  4. 04Marcar o sítio antes da sedação, com participação do paciente
  5. 05Garantir que a equipe pare de fato para a verificação
  6. 06Apresentar todos por nome e função
  7. 07Confirmar cada item com quem tem a informação
  8. 08Confirmar administração e horário do antibiótico profilático
  9. 09Perguntar se alguém tem alguma preocupação antes de começar
  10. 10Realizar a conferência final de material com a equipe presente
  11. 11Registrar o que foi conferido, e não apenas que foi
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Teste-se

Sorteando as questões…
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Agora faça no paciente

Mulher de 70 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, eu tô esperando essa cirurgia do quadril desde a semana passada, e agora essa perna esquerda começou a doer e a inchar." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.

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Revisão espaçada

7 dias

Quantos identificadores são necessários e quais NÃO podem ser usados? Por que a marcação do sítio deve ser feita antes da sedação?

30 dias

Um estudo mostrou queda de mortalidade de 1,5% para 0,8% com a lista de verificação; outro, em 101 hospitais, não encontrou redução significativa. Apresente as três diferenças que ajudam a conciliar os achados — e diga por que descartar qualquer um dos dois produz o aprendizado errado.

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