Fundamentos da Prática ClínicaSegurança do paciente e biossegurança

Acidente com material biológico

O risco médio é 0,3% — e o que mais aumenta é a profundidade, não o susto

01

A cena

Duas da manhã, punção venosa difícil, agulha na ponta do dedo do estudante. Ele tira a luva, espreme o dedo para 'tirar o sangue contaminado', passa álcool e volta para o box. Não conta a ninguém — o plantão está cheio, e ele acha que vai atrapalhar.

Duas semanas depois ele lembra do episódio e procura o serviço. A janela em que a profilaxia teria maior chance de funcionar passou, não houve coleta de sorologia do paciente-fonte nem dele, e não existe registro de que o acidente aconteceu.

Três erros, todos evitáveis, e nenhum deles técnico: espremer, não notificar e adiar. O único que talvez pareça inofensivo — não contar para não atrapalhar — é o que custa mais caro.

02

De onde vem o sinal

Acidente com material biológico é evento frequente, previsível e com conduta padronizada. O que decide o desfecho não é a habilidade técnica de quem se acidentou, e sim o que acontece nos minutos e nas horas seguintes.

Conduta imediata e longitudinal após acidente biológico.
Tempo importa: cuidar do local, avaliar rapidamente e iniciar profilaxia quando indicada precedem o seguimento.

Comece pela magnitude do risco, porque ela orienta a proporção da resposta. O risco médio de transmissão do HIV após exposição percutânea a sangue sabidamente infectado é de aproximadamente 0,3%. O risco é considerado maior nas exposições que envolvem volume aumentado de sangue e carga viral elevada.

Guarde esse número com as duas leituras que ele comporta. Ele é baixo o suficiente para que a reação correta não seja o pânico — a esmagadora maioria das exposições não resulta em transmissão. E é alto o suficiente para que a conduta seja obrigatória, imediata e completa, porque a fração que transmite é evitável e o desfecho é permanente.

O que multiplica esse risco foi medido em um estudo de casos e controles com 33 profissionais que soroconverteram e 665 controles. A profundidade da lesão apresentou razão de chances de 15 (IC 95% 6,0 a 41). Sangue visível no dispositivo, 6,2 (2,2 a 21). Agulha que havia sido colocada em artéria ou veia do paciente, 4,3 (1,7 a 12). E morte do paciente-fonte por aids em até dois meses — marcador de doença avançada e carga viral alta —, 5,6 (2,0 a 16).

Leia essa lista como a descrição do que torna uma exposição grave. Não é o susto, não é o sangramento aparente no dedo, não é o horário. É profundidade, sangue visível no material, agulha que estava dentro de um vaso e gravidade da doença da fonte.

O achado mais importante do mesmo estudo é sobre o que reduz o risco. Os profissionais que soroconverteram tinham significativamente menos probabilidade de ter usado zidovudina após a exposição do que os controles, com razão de chances de 0,19 (IC 95% 0,06 a 0,52). É a evidência que sustenta a profilaxia pós-exposição.

Vale a ressalva metodológica, que os próprios dados impõem: trata-se de estudo de casos e controles, com número pequeno de casos, e o antirretroviral avaliado é de uma era anterior aos esquemas atuais. A magnitude precisa da proteção não pode ser transportada diretamente para os regimes de hoje. A direção do efeito — profilaxia reduz soroconversão — é o que sustenta a conduta, e ela é robusta.

Sobre os primeiros minutos, a conduta é curta e há duas coisas que não se faz. Lava-se o local imediatamente com água e sabão; em mucosa, lava-se abundantemente com água ou solução fisiológica. Não se espreme o ferimento e não se aplica substância cáustica.

O motivo de não espremer merece ser entendido, porque o gesto é instintivo e parece útil. Espremer traumatiza o tecido e aumenta a vascularização local, o que trabalha contra o objetivo. E o mesmo raciocínio vale para as substâncias cáusticas, que lesam a barreira que ainda existe.

Depois vem o passo que a cena de abertura ilustra como o mais falhado: comunicar. O acidente precisa ser comunicado imediatamente ao serviço responsável — pronto atendimento, medicina do trabalho, comissão de controle de infecção, conforme o fluxo da instituição — porque tudo o que vem depois depende disso.

O que depende: a avaliação do risco da exposição, a definição sobre profilaxia, a coleta de sorologias do paciente-fonte e do profissional exposto, o registro formal do acidente e o seguimento. Nenhuma dessas coisas o profissional consegue fazer sozinho, e nenhuma delas pode ser reconstruída bem duas semanas depois.

O registro formal do acidente de trabalho tem consequência prática que estudantes subestimam. Sem ele, uma eventual soroconversão futura fica sem nexo documentado com a exposição ocupacional — e o profissional perde direitos que dependem exatamente dessa documentação.

A avaliação do paciente-fonte é parte do procedimento, e não uma invasão: define se há indicação de profilaxia e por quanto tempo. Ela envolve informar o paciente e solicitar consentimento para os testes, e é conduzida pelo serviço, não improvisada pelo profissional acidentado à beira do leito.

Sobre tempo, o princípio é simples: profilaxia é profilaxia. Ela existe para agir antes que a infecção se estabeleça, e quanto mais cedo iniciada, maior a plausibilidade de funcionar. As janelas específicas, os esquemas e a duração estão no protocolo nacional — que é a fonte a consultar, e cuja prescrição não cabe a quem está começando.

Há uma medida que age antes de tudo isso e que é a mais eficaz de todas: a vacinação contra hepatite B, com comprovação de resposta sorológica. É a única das três infecções clássicas desse cenário para a qual existe proteção prévia — e verificar o próprio estado vacinal antes do primeiro estágio é conduta de biossegurança, não burocracia.

E, antes ainda, existe a prevenção do acidente. Não reencapar agulhas, descartar imediatamente em recipiente rígido apropriado, não sobrecarregar o descarte, usar dispositivos de segurança quando disponíveis e não circular com material perfurocortante na mão. A maior parte dos acidentes acontece em situações previsíveis: pressa, iluminação ruim, paciente agitado e descarte distante.

Por fim, a razão pela qual estudantes não comunicam, que é o obstáculo real deste capítulo. Achar que vai atrapalhar o plantão, achar que foi bobagem, temer parecer descuidado, não saber a quem recorrer. Nenhum desses motivos sobrevive à comparação com o que se perde: a janela da profilaxia, a sorologia da fonte e o registro que documenta o nexo.

03

O que perguntar

As primeiras são sobre a exposição; as últimas, sobre você.

  • A lesão foi profunda?

    Profundidade foi o fator com maior razão de chances para soroconversão — 15 (IC 95% 6,0 a 41). É o principal marcador de gravidade da exposição.

  • Havia sangue visível no dispositivo?

    Sangue visível no material apresentou razão de chances de 6,2 (2,2 a 21). Torna a exposição substancialmente mais grave.

  • A agulha havia sido introduzida em artéria ou veia do paciente?

    Razão de chances de 4,3 (1,7 a 12). Agulha que esteve dentro de um vaso carrega mais sangue do que a que não esteve.

  • Qual é a condição clínica do paciente-fonte?

    Doença avançada da fonte associou-se a risco maior — razão de chances de 5,6 (2,0 a 16) para morte por aids em até dois meses.

  • Qual é o meu estado vacinal para hepatite B, e houve comprovação de resposta?

    É a única proteção prévia disponível entre as infecções clássicas desse cenário, e precisa ser conhecida antes do acidente.

  • A quem eu comunico isso agora, neste serviço?

    Tudo o que vem depois — avaliação, profilaxia, sorologias, registro e seguimento — depende da comunicação imediata.

04

Antes de encostar

Saber o fluxo do serviço antes do acidente
A quem comunicar, em que horário, onde fica o serviço de referência. Descobrir isso às duas da manhã, com o dedo sangrando, é descobrir tarde.
Ter o esquema vacinal de hepatite B completo e comprovado
É a única proteção prévia disponível entre as infecções clássicas do cenário, e a comprovação de resposta faz parte.
Manter o descarte ao alcance
Recipiente rígido distante ou cheio é causa previsível de acidente. Aproximar o descarte é medida de prevenção, não de organização.
Não reencapar agulhas, nunca
É a manobra que mais produz acidente evitável, e o hábito se instala cedo se ninguém o interromper.
Usar dispositivos de segurança quando disponíveis
Existem para reduzir exatamente esse evento, e só funcionam se acionados corretamente após o uso.
Decidir antes que vai comunicar
Quem decide na hora, em plantão cheio, tende a adiar — e adiar é o erro que fecha a janela da profilaxia.
05

A técnica

Os primeiros minutos, e o que se segue.

  1. 1

    Interromper o procedimento e afastar-se com segurança

    Sem criar um segundo acidente e sem deixar material perfurocortante solto. Estabilizar a situação vem antes de cuidar de si.

    Erro comum: Continuar o procedimento com a mão lesada, ou largar o material em qualquer lugar.

  2. 2

    Lavar imediatamente o local

    Pele: água e sabão. Mucosa: lavagem abundante com água ou solução fisiológica. É a primeira medida, e é imediata.

    Erro comum: Procurar o serviço antes de lavar — a lavagem leva segundos e não concorre com o resto.

  3. 3

    Não espremer o ferimento

    O gesto é instintivo e trabalha contra o objetivo: traumatiza o tecido e aumenta a vascularização local.

    Erro comum: Espremer para 'tirar o sangue contaminado'.

  4. 4

    Não aplicar substâncias cáusticas

    Lesam a barreira que ainda existe, pelo mesmo raciocínio que desaconselha espremer.

    Erro comum: Usar hipoclorito, éter, ou qualquer irritante sobre a lesão.

  5. 5

    Comunicar imediatamente o serviço responsável

    Pronto atendimento, medicina do trabalho ou comissão de controle de infecção, conforme o fluxo institucional. Tudo o que vem depois depende disso.

    Erro comum: Não contar para não atrapalhar o plantão — o erro mais comum e o mais caro.

  6. 6

    Descrever a exposição com os elementos que definem gravidade

    Profundidade, presença de sangue visível no dispositivo, se a agulha esteve em vaso, tipo de material e volume. São os fatores medidos como determinantes de risco.

    Erro comum: Relatar apenas que houve um acidente, sem os elementos que orientam a decisão.

  7. 7

    Permitir que o serviço avalie a fonte

    A avaliação do paciente-fonte, com informação e consentimento para os testes, define indicação e duração da profilaxia. É conduzida pelo serviço.

    Erro comum: Improvisar a coleta ou abordar o paciente à beira do leito por conta própria.

  8. 8

    Colher as próprias sorologias basais

    Sem a sorologia inicial, uma eventual soroconversão futura fica sem marco temporal — e o nexo com a exposição fica frágil.

    Erro comum: Recusar a coleta inicial por achar que o risco é baixo.

  9. 9

    Iniciar profilaxia o quanto antes, quando indicada

    A evidência de proteção vem de estudo em que quem soroconverteu tinha usado profilaxia com muito menos frequência — razão de chances de 0,19. Profilaxia atua antes de a infecção se estabelecer.

    Erro comum: Adiar para o dia seguinte porque o serviço de referência abre de manhã.

  10. 10

    Registrar formalmente o acidente de trabalho

    É o documento que estabelece o nexo entre a exposição ocupacional e um eventual desfecho futuro, e do qual dependem direitos.

    Erro comum: Ser atendido e não formalizar o registro.

  11. 11

    Cumprir o seguimento sorológico

    O acompanhamento tem prazos definidos no protocolo nacional, e abandoná-lo no meio anula boa parte do que foi feito.

    Erro comum: Sumir depois da primeira consulta porque o resultado inicial foi negativo.

  12. 12

    Verificar e completar a vacinação para hepatite B

    É a única proteção prévia disponível entre as infecções clássicas do cenário, e a comprovação de resposta faz parte da conduta.

    Erro comum: Presumir imunidade pelo cartão da infância, sem comprovação de resposta.

06

Achados, limites e forma de registro

Normal
  • O local foi lavado imediatamente, sem espremer e sem cáusticos.
  • O acidente foi comunicado ao serviço responsável na hora.
  • A exposição foi descrita com profundidade, presença de sangue no dispositivo e situação da agulha.
  • A fonte foi avaliada pelo serviço, com informação e consentimento.
  • Sorologias basais do profissional foram colhidas.
  • A profilaxia, quando indicada, começou o mais cedo possível.
  • Há registro formal do acidente e seguimento marcado.
  • Exemplo de registro: exposição percutânea por agulha com lúmen, em dedo, após uso em paciente-fonte; lavagem imediata sem espremer ou usar substância irritante, horário e circunstâncias documentados, chefia e serviço de referência acionados, avaliação de HIV, HBV e HCV iniciada sem aguardar todos os resultados.
Profissional espremeu o ferimento
Gesto instintivo que trabalha contra o objetivo: traumatiza o tecido e aumenta a vascularização local.
Uso de substância cáustica sobre a lesão
Lesa a barreira remanescente, pelo mesmo raciocínio que desaconselha espremer.
Acidente não comunicado no plantão
É a falha mais frequente e a mais custosa: perdem-se a janela da profilaxia, a sorologia da fonte e o registro do nexo.
Lesão profunda, com sangue visível no dispositivo
Combinação dos dois fatores de maior razão de chances medidos — 15 para profundidade e 6,2 para sangue visível. Exposição de alta gravidade.
Agulha que esteve em artéria ou veia do paciente
Razão de chances de 4,3. Carrega mais sangue do que a que não esteve em vaso, e isso muda a avaliação.
Paciente-fonte com doença avançada
Doença avançada associou-se a risco maior — razão de chances de 5,6 para morte por aids em até dois meses após a exposição.
Profilaxia iniciada com atraso de dias
Profilaxia atua antes de a infecção se estabelecer. Quanto mais tarde, menor a plausibilidade de funcionar.
Ausência de registro formal do acidente
Uma eventual soroconversão futura fica sem nexo documentado com a exposição ocupacional, e direitos que dependem dessa documentação se perdem.
Abandono do seguimento após resultado inicial negativo
A sorologia basal serve como marco temporal, não como desfecho. O acompanhamento tem prazos próprios.
Estado vacinal para hepatite B desconhecido
É a única proteção prévia disponível no cenário, e presumir imunidade sem comprovação de resposta é assumir risco evitável.
07

O que isso quer dizer

O primeiro número que orienta a conduta é o risco médio: a transmissão do HIV após exposição percutânea a sangue sabidamente infectado ocorre em aproximadamente 0,3% dos casos, com risco considerado maior quando há volume aumentado de sangue e carga viral elevada.

Esse número precisa ser lido nas duas direções ao mesmo tempo, e é isso que o torna útil. Ele é baixo o bastante para que a resposta correta não seja pânico: a grande maioria das exposições não resulta em transmissão, e o profissional acidentado não deve ser tratado como alguém que já adoeceu. E é alto o bastante para tornar a conduta obrigatória e imediata, porque a fração que transmite é evitável e o desfecho é permanente.

O que transforma uma exposição comum em exposição grave foi medido em estudo de casos e controles com 33 profissionais que soroconverteram e 665 controles. A profundidade da lesão apresentou razão de chances de 15 (IC 95% 6,0 a 41); sangue visível no dispositivo, 6,2 (2,2 a 21); agulha previamente colocada em artéria ou veia do paciente, 4,3 (1,7 a 12); e morte do paciente-fonte por aids em até dois meses, 5,6 (2,0 a 16).

Essa lista é o que se deve relatar ao serviço, e é a razão pela qual dizer apenas que houve um acidente não basta. A decisão sobre profilaxia depende de saber a profundidade, se havia sangue visível no material, se a agulha esteve dentro de um vaso e qual a condição clínica da fonte.

Note ainda o que não está na lista: o susto, o sangramento aparente do próprio dedo, o horário e a experiência de quem se acidentou. A gravidade da exposição é definida por características do material e da fonte, e não pela intensidade da reação de quem sofreu o acidente.

O achado que sustenta a profilaxia vem do mesmo estudo. Os profissionais que soroconverteram tinham probabilidade significativamente menor de ter usado zidovudina após a exposição, com razão de chances de 0,19 (IC 95% 0,06 a 0,52). É a base empírica da profilaxia pós-exposição.

Duas ressalvas precisam acompanhar esse dado. O desenho é de casos e controles, com apenas 33 casos, o que produz estimativas com intervalos amplos. E o antirretroviral estudado pertence a uma era anterior aos esquemas atuais, de modo que a magnitude exata da proteção não se transporta para os regimes de hoje. O que se transporta, e é o que importa para a conduta, é a direção: profilaxia iniciada após exposição reduz soroconversão.

Sobre os primeiros minutos, o procedimento é curto e inclui duas proibições. Lava-se o local imediatamente com água e sabão; em mucosas, faz-se lavagem abundante com água ou solução fisiológica. Não se espreme o ferimento e não se aplicam substâncias cáusticas.

A explicação de por que não espremer vale ser guardada, porque o gesto é instintivo e parece produtivo: espremer traumatiza o tecido e aumenta a vascularização local, trabalhando contra o objetivo. Substâncias cáusticas seguem a mesma lógica, lesando a barreira que ainda resta.

O passo seguinte é o que mais falha na prática, e a razão de ele falhar não é técnica. Comunicar imediatamente o serviço responsável — pronto atendimento, medicina do trabalho ou comissão de controle de infecção, conforme o fluxo da instituição — é o que viabiliza tudo o mais: avaliação do risco, decisão sobre profilaxia, sorologias do paciente-fonte e do exposto, registro formal e seguimento.

Nenhum desses procedimentos pode ser conduzido pelo próprio acidentado, e nenhum deles é reconstruível duas semanas depois. A sorologia da fonte, em particular, tende a se tornar impossível quando o paciente já recebeu alta.

O registro formal do acidente de trabalho tem uma função que estudantes costumam subestimar por ser burocrática na aparência: ele documenta o nexo entre a exposição ocupacional e um eventual desfecho futuro. Sem esse registro, um profissional que venha a soroconverter perde a documentação de que a exposição ocorreu no trabalho — e com ela, direitos que dependem exatamente disso.

Sobre tempo, o princípio se deduz do próprio nome da medida: profilaxia existe para agir antes que a infecção se estabeleça, e por isso quanto mais precoce o início, maior a plausibilidade de eficácia. As janelas, os esquemas e a duração estão no protocolo nacional, que é a fonte a consultar — e cuja prescrição não pertence a quem está em formação.

Existe uma medida que age antes de todo esse fluxo e que é a mais eficaz do capítulo: a vacinação contra hepatite B, com comprovação de resposta sorológica. Entre as infecções classicamente envolvidas nesse cenário, é a única para a qual há proteção prévia disponível — o que faz de conferir o próprio estado vacinal antes do primeiro estágio uma conduta de biossegurança, e não um item administrativo.

E antes ainda existe a prevenção do próprio acidente, que é onde o ganho é maior. Não reencapar agulhas, descartar imediatamente em recipiente rígido apropriado e ao alcance, não sobrecarregar o descarte, acionar dispositivos de segurança quando disponíveis e não circular com perfurocortante na mão. A maior parte desses acidentes ocorre em situações previsíveis: pressa, iluminação ruim, paciente agitado e caixa de descarte longe.

Fecha o capítulo o obstáculo real, que não é conhecimento. Estudantes deixam de comunicar por acharem que vão atrapalhar o plantão, por acharem que foi bobagem, por temerem parecer descuidados ou por não saberem a quem recorrer. Comparado ao que se perde — a janela da profilaxia, a sorologia da fonte e o registro do nexo —, nenhum desses motivos se sustenta. E é por isso que a decisão de comunicar precisa estar tomada antes de o acidente acontecer.

Exposição a material biológico é urgência de avaliação, não de pânico. Tipo de fluido, via, gravidade, paciente-fonte e imunidade para hepatite B orientam a conduta; cuidados locais, notificação e testes não devem atrasar PEP para HIV quando indicada, idealmente imediata e no máximo até 72 horas, por 28 dias.

SinalMedidaValorFonte
Risco médio de transmissão do HIV por exposição percutâneaRevisão do risco ocupacional em profissionais de saúde. Refere-se a exposição percutânea a sangue sabidamente infectado — não a qualquer contato com material biológico.Aproximadamente 0,3% após exposição percutânea a sangue infectado pelo HIV; risco considerado maior com volume aumentado de sangue e carga viral elevadaBell DM. Occupational risk of human immunodeficiency virus infection in healthcare workers: an overview. Am J Med. 1997;102(5B):9-15. doi:10.1016/s0002-9343(97)89441-7
Fatores que aumentam o risco de soroconversão após exposição percutâneaEstudo de casos e controles com 33 profissionais que soroconverteram e 665 controles. Poucos casos produzem intervalos de confiança amplos.Lesão profunda razão de chances 15 (IC 95% 6,0 a 41); sangue visível no dispositivo 6,2 (2,2 a 21); agulha previamente em artéria ou veia 4,3 (1,7 a 12); morte da fonte por aids em até dois meses 5,6 (2,0 a 16)Cardo DM, Culver DH, Ciesielski CA, et al. A case-control study of HIV seroconversion in health care workers after percutaneous exposure. N Engl J Med. 1997;337(21):1485-90. doi:10.1056/nejm199711203372101
Efeito da profilaxia pós-exposição sobre a soroconversãoMesmo estudo de casos e controles. O antirretroviral avaliado é anterior aos esquemas atuais: a direção do efeito se transporta, a magnitude exata não.Quem soroconverteu tinha probabilidade significativamente menor de ter usado zidovudina após a exposição — razão de chances 0,19 (IC 95% 0,06 a 0,52)Cardo DM, Culver DH, Ciesielski CA, et al. A case-control study of HIV seroconversion in health care workers after percutaneous exposure. N Engl J Med. 1997;337(21):1485-90. doi:10.1056/nejm199711203372101
08

O que define a gravidade da exposição

A avaliação se faz por características do material e da fonte — não pela intensidade do susto.

FatorRazão de chances medidaO que informar ao serviço
Lesão profunda15 (IC 95% 6,0 a 41)Profundidade estimada e tipo de material
Sangue visível no dispositivo6,2 (2,2 a 21)Se havia sangue visível na agulha ou instrumento
Agulha previamente em artéria ou veia4,3 (1,7 a 12)Se a agulha estava em vaso do paciente antes do acidente
Doença avançada da fonte5,6 (2,0 a 16)Condição clínica do paciente-fonte
Profilaxia pós-exposição0,19 (0,06 a 0,52) — protetoraIniciar o quanto antes, quando indicada
  • Não espremer e não aplicar cáusticos: os dois gestos trabalham contra o objetivo.
  • Sem comunicação imediata, perdem-se a janela da profilaxia, a sorologia da fonte e o registro do nexo ocupacional.
09

Erros que custam o achado

Não comunicar para não atrapalhar o plantão
É a falha mais frequente e a mais cara. Perdem-se, de uma vez, a janela da profilaxia, a sorologia da fonte e o registro do nexo.
Espremer o ferimento
Traumatiza o tecido e aumenta a vascularização local. O gesto é instintivo e trabalha contra o objetivo.
Aplicar substância cáustica
Lesa a barreira remanescente, pelo mesmo raciocínio que desaconselha espremer.
Adiar para o dia seguinte
Profilaxia existe para agir antes de a infecção se estabelecer. Quanto mais tarde o início, menor a plausibilidade de eficácia.
Relatar apenas que houve um acidente
A decisão depende de profundidade, sangue visível no dispositivo, se a agulha esteve em vaso e qual a condição da fonte.
Avaliar a gravidade pelo susto
Os fatores medidos são características do material e da fonte. A intensidade da reação de quem se acidentou não entra na conta.
Recusar a sorologia basal
Sem o marco temporal inicial, uma eventual soroconversão futura fica sem como ser datada em relação à exposição.
Abandonar o seguimento após resultado inicial negativo
A sorologia basal é marco temporal, não desfecho. O acompanhamento tem prazos definidos no protocolo nacional.
Ser atendido e não registrar formalmente
O registro é o que documenta o nexo com a exposição ocupacional, e dele dependem direitos em caso de desfecho futuro.
Abordar o paciente-fonte por conta própria
A avaliação da fonte, com informação e consentimento para os testes, é conduzida pelo serviço — não improvisada à beira do leito.
Presumir imunidade para hepatite B
É a única proteção prévia disponível no cenário, e ela exige esquema completo com comprovação de resposta sorológica.
Reencapar agulhas
É a manobra que mais produz acidente evitável, e o hábito se instala cedo quando ninguém o interrompe.
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Roteiro da estação

Do momento do acidente ao seguimento.

  1. 01Interromper o procedimento com segurança e descartar o material
  2. 02Lavar imediatamente: água e sabão na pele, lavagem abundante em mucosa
  3. 03Não espremer o ferimento e não aplicar cáusticos
  4. 04Comunicar imediatamente o serviço responsável
  5. 05Descrever profundidade, sangue visível, se a agulha esteve em vaso e o tipo de material
  6. 06Informar a condição clínica do paciente-fonte
  7. 07Permitir que o serviço avalie a fonte, com informação e consentimento
  8. 08Colher as próprias sorologias basais
  9. 09Iniciar profilaxia o quanto antes, quando indicada
  10. 10Registrar formalmente o acidente de trabalho
  11. 11Cumprir o seguimento sorológico nos prazos do protocolo
  12. 12Verificar e completar a vacinação para hepatite B
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Teste-se

Sorteando as questões…
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Agora faça no paciente

Mulher de 27 anos chega ao ambulatório e a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, eu me furei com a agulha de um paciente hoje de madrugada, no plantão; eu lavei, espremi bastante e passei álcool, e estou muito assustada." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.

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Revisão espaçada

7 dias

Quais são as duas coisas que NÃO se faz nos primeiros minutos, e por quê? Qual o risco médio de transmissão do HIV por exposição percutânea?

30 dias

Liste os quatro fatores medidos que aumentam o risco de soroconversão, com suas razões de chances. Depois explique por que a magnitude do efeito protetor da profilaxia no estudo de 1997 não se transporta diretamente para os esquemas atuais.

Acidente com material biológico — Ciclo básico | OsceLabs