Fundamentos da Prática Clínica › Segurança do paciente e biossegurança
Precauções
Necessárias — e com custo medido: o paciente isolado recebe menos cuidado documentado e sofre mais evento adverso evitável
A cena
Leito 12, precaução de contato por bactéria multirresistente. Placa na porta, avental e luvas na antessala. A visita passa pelo corredor, o preceptor olha para dentro pelo vidro, pergunta ao residente como o paciente evoluiu e segue para o leito 13. Ninguém entrou.
No fim do dia, o prontuário desse paciente tem uma evolução mais curta que a dos demais e nenhum registro de exame físico. Os sinais vitais das 14h não foram anotados. A família reclamou que ninguém aparece.
A precaução estava tecnicamente correta: ela existe e é necessária. O que aconteceu foi o efeito colateral dela, e ele está medido — pacientes isolados sofrem mais eventos adversos evitáveis, têm menos registro de cuidado e reclamam mais.
De onde vem o sinal
As precauções se organizam em dois níveis, e confundi-los é a origem de quase todos os erros práticos. O primeiro nível é o das precauções padrão. Elas se aplicam a todos os pacientes, o tempo todo, independentemente de diagnóstico conhecido ou suspeito. A premissa é simples e desconfortável: qualquer sangue, secreção, excreção — exceto suor — e qualquer pele não íntegra ou mucosa pode ser fonte de infecção, e você não sabe quem está colonizado.

Esse é o conceito central deste capítulo, e ele contraria a intuição mais comum entre estudantes, que é a de proteger-se conforme o rótulo do paciente. Rótulo é informação incompleta por definição: o paciente colonizado que ninguém rastreou não tem placa na porta. Precaução padrão existe justamente para cobrir o que não se sabe.
O segundo nível é o das precauções específicas por via de transmissão, acrescentadas às padrão quando o agente exige. A lógica é direta: a via de transmissão determina a barreira. Agentes que se transmitem por contato direto ou indireto exigem barreiras de contato; agentes veiculados por gotículas exigem proteção respiratória e distância; agentes veiculados por partículas que permanecem suspensas exigem proteção respiratória de maior filtração e controle do ambiente.
As listas de quais agentes exigem qual precaução, e quais equipamentos compõem cada uma, são padronizadas e estão nas fontes indicadas — elas devem ser consultadas na origem, porque mudam com a epidemiologia e porque a distinção entre agentes que se parecem é o tipo de detalhe que se perde em resumos.
O que este capítulo acrescenta ao que qualquer manual descreve é a outra metade do problema, que raramente é ensinada: a precaução tem custo, e ele foi medido. Um estudo comparou pacientes em isolamento com controles pareados, em duas coortes — uma geral, com 78 pacientes, e outra específica de insuficiência cardíaca congestiva, com 72. Os pacientes isolados sofreram 31 eventos adversos por 1.000 dias, contra 15 nos controles.
Entre os eventos adversos evitáveis, a diferença foi ainda maior: 20 contra 3 por 1.000 dias. Quase sete vezes. E o mecanismo aparece nos indicadores de processo. Entre os isolados, 51% tiveram sinais vitais não registrados conforme prescrito, contra 31% dos controles. E 26% tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13% dos controles. Reclamações formais sobre o cuidado foram feitas por 8% dos isolados, contra 1% dos controles. Não houve diferença significativa de mortalidade entre os grupos.
Leia esses números como o que eles são: a barreira física que protege os outros pacientes reduz, na prática, a frequência com que a equipe entra no quarto. Menos entradas significam menos exame, menos registro, menos observação — e é aí que o evento adverso evitável encontra espaço.
Uma revisão da literatura sobre desfechos adversos associados à precaução de contato identificou 15 estudos publicados entre 1989 e 2008, dos quais 9 de melhor qualidade por terem coleta padronizada de dados e grupos de comparação. Ela agrupou os achados em quatro desfechos.
São eles: menos contato entre paciente e profissional de saúde; mudanças nos sistemas de cuidado que produzem atrasos e mais eventos adversos não infecciosos; aumento de sintomas de depressão e ansiedade; e queda da satisfação do paciente com o cuidado.
A conclusão dos autores é equilibrada e vale reproduzir na íntegra do sentido: embora a precaução de contato seja recomendada como intervenção para conter a disseminação de microrganismos multirresistentes, a literatura demonstra que essa abordagem tem consequências não intencionais potencialmente deletérias ao paciente, e são urgentemente necessárias medidas para atenuá-las.
Note o que essa conclusão não diz. Ela não diz para abandonar a precaução. Diz que a precaução tem um custo real e que esse custo precisa ser compensado deliberadamente — o que é uma tarefa clínica, e não um problema do serviço de controle de infecção.
É preciso registrar os limites desses estudos. O estudo com coortes pareadas é observacional, com números modestos, e pacientes isolados diferem dos não isolados em características que o pareamento reduz mas não elimina — quem é isolado costuma estar mais doente. A revisão reuniu estudos heterogêneos, a maioria pequenos, ao longo de duas décadas. A direção dos achados é consistente; a magnitude exata, não.
Daí decorre a conduta que este capítulo defende, e que é simples de enunciar e difícil de manter. Aplicar a precaução corretamente, aplicá-la apenas quando indicada, e compensar ativamente o que ela retira: entrar no quarto, examinar, registrar, conversar. O paciente isolado precisa de mais visita, não de menos — e a barreira, deixada por conta própria, produz exatamente o contrário.
Há ainda um ponto sobre o uso incorreto do equipamento, que é onde o estudante mais erra. Luva não substitui higiene das mãos, e circular com a mesma luva entre superfícies é pior do que não usar nenhuma, porque transporta com falsa sensação de segurança. Avental e luvas se vestem antes de entrar e se retiram antes de sair, na ordem que evita autocontaminação. E a máscara não protege quando fica apoiada no queixo entre um paciente e outro.
Por fim, a precaução indicada e não retirada quando deixa de ser necessária também é um problema. Como o custo é real e medido, manter isolamento além da indicação não é conduta neutra: é impor a alguém menos cuidado documentado, mais evento adverso evitável e mais sintomas depressivos, sem contrapartida de proteção coletiva.
O que perguntar
Três perguntas antes de entrar, três sobre o paciente que já está isolado.
“Estou aplicando precaução padrão a este paciente, independentemente do que a placa diz?”
Precauções padrão se aplicam a todos, o tempo todo — porque o paciente colonizado que ninguém rastreou não tem placa na porta.
“Qual é a via de transmissão do agente em questão?”
A via determina a barreira. Decorar equipamentos sem entender a via leva a usar o errado quando a situação foge do rótulo.
“Tenho o equipamento correto e sei a ordem de colocar e retirar?”
A retirada é o momento de maior risco de autocontaminação, e o erro de ordem anula a proteção do uso inteiro.
“Há quantos dias este paciente está isolado, e a indicação ainda existe?”
O custo do isolamento é real e medido. Mantê-lo além da indicação impõe dano sem contrapartida de proteção.
“Quando foi a última vez que alguém entrou neste quarto para examinar?”
Entre isolados, 26% tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13% dos controles. A pergunta expõe o efeito antes que ele vire evento adverso.
“Este paciente está mais ansioso ou deprimido desde o isolamento?”
Aumento de sintomas de depressão e ansiedade é um dos quatro desfechos adversos identificados na revisão — e é o menos procurado.
Antes de encostar
- Consultar as listas na fonte
- Quais agentes exigem qual precaução e quais equipamentos compõem cada uma são informação padronizada que muda com a epidemiologia — e que se degrada em resumos de segunda mão.
- Verificar disponibilidade do equipamento antes
- Antessala sem avental é motivo frequente de entrada sem proteção ou, pior, de não entrada.
- Planejar a visita ao isolado com tempo
- Paramentar e desparamentar consome minutos. Deixar o isolado por último e com pressa é como se produzem as evoluções mais curtas.
- Levar tudo o que será necessário
- Entrar, sair para buscar algo e entrar de novo multiplica paramentações — e, na prática, faz alguém desistir da segunda entrada.
- Combinar quem examina e quando
- Se todos evitam o quarto por atrito, ninguém examina. Definir responsabilidade nominal reduz a difusão que produz o abandono.
- Saber a ordem de paramentação e desparamentação
- A retirada tem sequência própria porque é o momento de maior risco de autocontaminação. Improvisar ali anula o uso inteiro.
A técnica
Aplicar a precaução certa, do jeito certo — e compensar o que ela custa.
- 1
Aplicar precaução padrão a todos os pacientes
Independentemente de diagnóstico conhecido ou suspeito, e independentemente de haver placa na porta. Qualquer fluido, pele não íntegra ou mucosa pode ser fonte.
Erro comum: Calibrar a própria proteção pelo rótulo do paciente — que é informação incompleta por definição.
- 2
Identificar a via de transmissão antes de escolher a barreira
Contato, gotículas ou partículas suspensas. A via determina o equipamento e as medidas de ambiente.
Erro comum: Decorar equipamentos sem a via, e usar o errado quando a situação foge do rótulo conhecido.
- 3
Somar a precaução específica à padrão, não substituí-la
A precaução por via de transmissão é acrescentada. A padrão continua valendo integralmente.
Erro comum: Achar que o avental e a luva dispensam a higiene das mãos ou as demais medidas.
- 4
Paramentar antes de entrar e desparamentar antes de sair
Na ordem que evita autocontaminação, com higiene das mãos ao final. A retirada é o momento de maior risco.
Erro comum: Sair paramentado para o corredor, ou retirar o equipamento em ordem improvisada.
- 5
Trocar luvas entre sítios e higienizar as mãos
Luva não substitui higiene das mãos, e circular com a mesma luva transporta microrganismos com falsa sensação de segurança.
Erro comum: Usar o mesmo par de luvas do sítio contaminado para o sítio limpo do mesmo paciente.
- 6
Usar a máscara corretamente durante todo o tempo
Cobrindo nariz e boca, ajustada, sem manipulação. Máscara no queixo entre pacientes não protege ninguém e contamina as mãos.
Erro comum: Abaixar a máscara para falar com o paciente.
- 7
Entrar no quarto e examinar de fato
Este é o passo que a evidência torna obrigatório: entre isolados, 51% tiveram sinais vitais não registrados conforme prescrito, contra 31% dos controles.
Erro comum: Avaliar pelo vidro, ou pelo relato de quem entrou — que é como a barreira vira ausência de cuidado.
- 8
Registrar com o mesmo detalhe dos demais leitos
26% dos isolados tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13% dos controles. Registro mais curto é sinal de visita mais curta.
Erro comum: Evoluções de duas linhas no leito isolado e completas nos demais.
- 9
Compensar ativamente o isolamento social
Aumento de sintomas de depressão e ansiedade e queda de satisfação estão entre os quatro desfechos identificados. Conversar, explicar e avisar quando se volta são conduta clínica.
Erro comum: Tratar o desconforto emocional do isolado como consequência inevitável.
- 10
Explicar ao paciente e à família por que a precaução existe
Quem entende a razão do avental interpreta a barreira como cuidado, e não como abandono ou punição.
Erro comum: Entrar paramentado sem explicar nada, o que costuma ser lido como repulsa.
- 11
Reavaliar a indicação periodicamente
O custo do isolamento é real e medido, e manter além da indicação impõe dano sem contrapartida de proteção coletiva.
Erro comum: Deixar a precaução instalada porque ninguém revisou a prescrição.
- 12
Não abandonar a precaução por causa do custo
A conclusão da literatura é que as consequências não intencionais precisam ser atenuadas, e não que a precaução deva ser dispensada.
Erro comum: Usar os dados deste capítulo como argumento para não isolar quem tem indicação.
Achados, limites e forma de registro
- Precauções padrão são aplicadas a todos os pacientes, com ou sem placa na porta.
- A precaução específica corresponde à via de transmissão do agente.
- A paramentação e a desparamentação seguem a ordem correta, com higiene das mãos ao final.
- O paciente isolado é examinado e tem sinais vitais registrados como os demais.
- A evolução do leito isolado tem o mesmo detalhe das outras.
- A indicação de isolamento é reavaliada periodicamente.
- Paciente e família sabem por que a precaução existe.
- Exemplo de registro: precauções padrão aplicadas após avaliação do risco de exposição; para suspeita de transmissão respiratória, modalidade adicional, acomodação, máscara do paciente no transporte e EPI da equipe foram definidos conforme agente, procedimento e protocolo institucional vigente.
- Equipe avalia o paciente isolado pelo vidro ou pelo relato de terceiros
- É o mecanismo central do dano medido: menos entradas produzem menos exame, menos registro e mais evento adverso evitável.
- Evolução mais curta no leito isolado
- Indicador de processo do mesmo fenômeno — 26% dos isolados tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13% dos controles.
- Sinais vitais não registrados conforme prescrito
- Ocorreu em 51% dos isolados contra 31% dos controles. É onde o evento adverso evitável encontra espaço.
- Proteção calibrada pelo rótulo do paciente
- Precauções padrão se aplicam a todos: o paciente colonizado que ninguém rastreou não tem placa na porta.
- Mesma luva usada entre sítios ou entre superfícies
- Transporta microrganismos com falsa sensação de segurança, e é pior do que não usar luva nenhuma.
- Máscara apoiada no queixo entre pacientes
- Não protege e contamina as mãos na manipulação. O uso correto é contínuo e sem ajuste.
- Paciente isolado mais ansioso, deprimido ou insatisfeito
- Está entre os quatro desfechos adversos identificados na revisão — e é o menos procurado ativamente.
- Isolamento mantido sem revisão de indicação
- Impõe custo real sem contrapartida. Reavaliar periodicamente faz parte da prescrição.
- Precaução dispensada por causa dos efeitos adversos do isolamento
- Inversão da conclusão da literatura, que pede atenuação das consequências não intencionais — não abandono da medida.
O que isso quer dizer
O conceito que organiza o capítulo é a distinção entre dois níveis. As precauções padrão se aplicam a todos os pacientes, o tempo todo, independentemente de diagnóstico conhecido ou suspeito, partindo da premissa de que qualquer fluido corporal, pele não íntegra ou mucosa pode ser fonte de infecção. As precauções por via de transmissão são acrescentadas — nunca substituem — quando o agente exige, e a via determina a barreira.
O erro conceitual mais comum entre estudantes é calibrar a própria proteção pelo rótulo do paciente. A precaução padrão existe precisamente para cobrir o que não se sabe: quem está colonizado e nunca foi rastreado não tem placa na porta, e é justamente esse paciente que a proteção baseada em rótulo deixa descoberto.
As listas de agentes por tipo de precaução e de equipamentos por tipo de barreira são padronizadas e devem ser consultadas na origem, porque mudam com a epidemiologia e porque a distinção entre agentes semelhantes é o detalhe que se perde em material de segunda mão.
A contribuição própria deste capítulo é a outra metade do assunto, e ela costuma faltar no ensino. A precaução funciona e tem custo — e o custo foi medido. Um estudo comparou pacientes isolados com controles pareados, em duas coortes: uma geral, com 78 pacientes, e outra específica de insuficiência cardíaca congestiva, com 72. Os isolados sofreram 31 eventos adversos por 1.000 dias, contra 15 nos controles.
A diferença é maior no que mais importa. Entre os eventos adversos evitáveis, foram 20 contra 3 por 1.000 dias — quase sete vezes mais nos pacientes isolados. Os indicadores de processo mostram por onde o dano entra. Entre os isolados, 51% tiveram sinais vitais não registrados conforme prescrito, contra 31% dos controles; e 26% tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13%. Reclamações formais sobre o cuidado partiram de 8% dos isolados, contra 1% dos controles. Não houve diferença significativa de mortalidade entre os grupos.
O mecanismo é evidente quando se lê a sequência: a barreira física que protege os demais pacientes reduz a frequência com que a equipe entra no quarto. Menos entradas significam menos exame físico, menos aferição, menos observação e menos registro — e é nesse espaço que o evento adverso evitável acontece.
Uma revisão da literatura sobre desfechos adversos da precaução de contato identificou 15 estudos publicados entre 1989 e 2008, dos quais 9 de melhor qualidade por coleta padronizada de dados ou presença de grupo controle, e organizou os achados em quatro desfechos.
São eles: menos contato entre paciente e profissional de saúde; mudanças nos sistemas de cuidado que produzem atrasos e mais eventos adversos não infecciosos; aumento de sintomas de depressão e ansiedade; e diminuição da satisfação do paciente com o cuidado.
A conclusão dos autores merece ser entendida com precisão, porque ela é frequentemente distorcida nas duas direções. Eles afirmam que, embora a precaução de contato seja recomendada para conter a disseminação de microrganismos multirresistentes, a revisão demonstra que a abordagem tem consequências não intencionais potencialmente deletérias ao paciente, e que medidas para atenuá-las são urgentemente necessárias.
Isto é: o problema não é a precaução, é o que ela produz quando ninguém compensa. Usar esses dados como argumento para não isolar quem tem indicação inverte a conclusão; ignorá-los e seguir isolando sem compensação também.
Os limites metodológicos precisam ser ditos. O estudo com coortes pareadas é observacional, com números modestos, e pacientes isolados diferem sistematicamente dos não isolados — costumam estar mais doentes, e o pareamento reduz mas não elimina essa diferença. A revisão reuniu estudos heterogêneos, em sua maioria pequenos, ao longo de duas décadas. A direção dos achados é consistente entre fontes; a magnitude exata, não.
Ainda assim, a implicação prática é robusta e acionável, porque ela não depende do valor preciso: o paciente isolado tende a receber menos cuidado presencial do que os demais, e essa tendência precisa ser contrariada de propósito.
Daí a conduta que este capítulo defende, em três partes. Aplicar a precaução corretamente, incluindo a ordem de paramentação e desparamentação, porque a retirada é o momento de maior risco de autocontaminação. Aplicá-la apenas enquanto indicada, revisando periodicamente, já que manter além da necessidade impõe custo sem contrapartida. E compensar ativamente o que ela retira — entrar, examinar, registrar com o mesmo detalhe dos outros leitos, conversar e explicar.
Uma última observação sobre o uso do equipamento, que é onde a falha é mais visível e mais fácil de corrigir. Luva não substitui higiene das mãos, e circular com o mesmo par entre sítios ou superfícies transporta microrganismos com falsa sensação de segurança — situação em que a luva é pior do que a ausência dela. Máscara apoiada no queixo entre pacientes não protege e ainda contamina as mãos a cada ajuste.
E vale dizer ao paciente por que existe o avental. Quem recebe a explicação interpreta a barreira como cuidado; quem vê a equipe entrar paramentada e em silêncio tende a interpretá-la como repulsa — e a percepção de abandono é, segundo a revisão, um dos custos medidos do isolamento.
Precauções padrão valem para todas as pessoas e dependem da tarefa e do risco previsto, não de um diagnóstico conhecido. Precauções de contato, gotículas ou aerossóis são adicionais e exigem agente, via, ambiente e procedimento compatíveis; excesso indiscriminado também causa dano por isolamento, atraso e desperdício.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Eventos adversos em pacientes isolados para controle de infecção | Duas coortes com controles pareados — geral (n = 78) e de insuficiência cardíaca congestiva (n = 72). Estudo observacional: pacientes isolados diferem sistematicamente dos não isolados, e o pareamento reduz mas não elimina a diferença. | 31 eventos adversos por 1.000 dias em isolados contra 15 nos controles; entre os evitáveis, 20 contra 3 por 1.000 dias | Stelfox HT, Bates DW, Redelmeier DA. Safety of patients isolated for infection control. JAMA. 2003;290(14):1899-905. doi:10.1001/jama.290.14.1899 |
| Indicadores de processo do cuidado a pacientes isolados | Mesmo estudo. Os indicadores de processo mostram o mecanismo: a barreira reduz a frequência de entrada no quarto. | 51% dos isolados contra 31% dos controles tiveram sinais vitais não registrados conforme prescrito; 26% contra 13% tiveram dias sem evolução médica registrada; 8% contra 1% apresentaram reclamação formal sobre o cuidado; sem diferença significativa de mortalidade | Stelfox HT, Bates DW, Redelmeier DA. Safety of patients isolated for infection control. JAMA. 2003;290(14):1899-905. doi:10.1001/jama.290.14.1899 |
| Desfechos adversos associados à precaução de contato | Revisão da literatura com 15 estudos publicados entre 1989 e 2008, dos quais 9 de melhor qualidade por coleta padronizada de dados ou inclusão de grupo controle. Estudos heterogêneos e majoritariamente pequenos. | Quatro desfechos identificados: menos contato entre paciente e profissional; mudanças nos sistemas de cuidado que produzem atrasos e mais eventos adversos não infecciosos; aumento de sintomas de depressão e ansiedade; e queda da satisfação com o cuidado | Morgan DJ, Diekema DJ, Sepkowitz K, Perencevich EN. Adverse outcomes associated with contact precautions: a review of the literature. Am J Infect Control. 2009;37(2):85-93. doi:10.1016/j.ajic.2008.04.257 |
Dois níveis de precaução
O segundo se soma ao primeiro. Nunca o substitui.
| Nível | A quem se aplica | Princípio |
|---|---|---|
| Precauções padrão | Todos os pacientes, o tempo todo | Qualquer fluido, pele não íntegra ou mucosa pode ser fonte — e não se sabe quem está colonizado |
| Precaução de contato | Agentes transmitidos por contato direto ou indireto | Barreira nas mãos e no corpo; atenção a superfícies e equipamentos |
| Precaução por gotículas | Agentes veiculados por gotículas | Proteção respiratória e distância; gotículas não permanecem suspensas |
| Precaução por aerossóis | Agentes veiculados por partículas que permanecem suspensas | Proteção respiratória de maior filtração e controle do ambiente |
| Reavaliação da indicação | Todo paciente em precaução específica | O custo do isolamento é real: manter além da indicação impõe dano sem contrapartida |
- As listas de agentes e de equipamentos por tipo de precaução são padronizadas e devem ser consultadas na fonte, porque mudam com a epidemiologia.
- Paciente isolado precisa de mais visita, não de menos — a barreira, por conta própria, produz o contrário.
Erros que custam o achado
- Calibrar a proteção pelo rótulo do paciente
- Precauções padrão valem para todos, o tempo todo. Quem está colonizado e nunca foi rastreado não tem placa na porta.
- Achar que a precaução específica substitui a padrão
- Ela se soma. Avental e luvas não dispensam higiene das mãos nem as demais medidas.
- Avaliar o paciente isolado pelo vidro
- É o mecanismo do dano medido: menos entradas produzem menos exame, menos registro e quase sete vezes mais eventos adversos evitáveis.
- Evoluir o leito isolado em duas linhas
- 26% dos isolados tiveram dias sem evolução médica registrada, contra 13% dos controles. Registro curto é sinal de visita curta.
- Circular com a mesma luva
- Transporta microrganismos com falsa sensação de segurança, o que é pior do que não usar luva nenhuma.
- Manter a máscara no queixo entre pacientes
- Não protege e contamina as mãos a cada ajuste. O uso correto é contínuo, cobrindo nariz e boca.
- Improvisar a ordem de desparamentação
- A retirada é o momento de maior risco de autocontaminação, e o erro de sequência anula a proteção do uso inteiro.
- Não explicar ao paciente por que existe a barreira
- Equipe que entra paramentada e em silêncio costuma ser lida como repulsa — e a percepção de abandono é um dos custos medidos.
- Ignorar sintomas depressivos e ansiosos do isolado
- Estão entre os quatro desfechos adversos identificados na revisão, e são os menos procurados ativamente.
- Manter isolamento sem revisar a indicação
- Impõe custo real — mais evento adverso evitável, menos cuidado documentado — sem contrapartida de proteção coletiva.
- Usar os dados de dano como argumento para não isolar
- Inverte a conclusão da literatura, que pede atenuação das consequências não intencionais, e não abandono da medida.
- Tomar a magnitude como precisa
- São estudos observacionais, com números modestos e populações que diferem sistematicamente. A direção é consistente; o valor exato, não.
Roteiro da estação
Do corredor ao registro.
- 01Aplicar precaução padrão a todos os pacientes, com ou sem placa
- 02Identificar a via de transmissão do agente
- 03Somar a precaução específica correspondente, sem substituir a padrão
- 04Conferir a disponibilidade do equipamento antes de entrar
- 05Levar tudo o que será necessário, para não repetir a paramentação
- 06Paramentar na ordem correta antes de entrar
- 07Entrar e examinar de fato, com o mesmo cuidado dos demais leitos
- 08Trocar luvas entre sítios e higienizar as mãos
- 09Explicar ao paciente e à família por que a precaução existe
- 10Desparamentar na ordem correta antes de sair, com higiene das mãos ao final
- 11Registrar com o mesmo detalhe das outras evoluções
- 12Procurar ativamente sintomas de ansiedade e depressão
- 13Reavaliar periodicamente a indicação do isolamento
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 70 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, voltei a ter febre à noite e o curativo da barriga está molhando de novo; e minha filha quer saber por que agora só entram aqui de avental e luva." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
A quem se aplicam as precauções padrão, e por que o rótulo do paciente é critério ruim? A precaução específica substitui ou se soma à padrão?
Pacientes isolados tiveram 20 contra 3 eventos adversos evitáveis por 1.000 dias. Explique o mecanismo por trás desse número — e por que ele NÃO é argumento para deixar de isolar quem tem indicação.
