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Cardiomiopatias: o que sobra quando não é isquemia nem valva
Três doenças carregam o mesmo sobrenome porque um dia foram agrupadas pelo formato do ventrículo, e o formato não explica nenhuma delas. O que as une é uma pergunta prática: quando o coração vai mal e a coronária e as valvas estão limpas, o que se procura? A hipertrófica mata gente jovem e cobra uma consulta com a família inteira. A dilatada é um achado que exige nome, e no Brasil um dos nomes é Chagas. A restritiva é a que se confunde com o pericárdio, e a confusão decide quem opera.
Fernandes F, Simões MV, Correia EB, Marcondes-Braga FG, Coelho-Filho OR, Mesquita CT, et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e202400415. DOI 10.36660/abc.20240415.
Marin-Neto JA, Rassi A Jr, Oliveira GMM, Correia LCL, Ramos Júnior AN, Luquetti AO, et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas – 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20230269. DOI 10.36660/abc.20230269.
Simões MV, Fernandes F, Marcondes-Braga FG, Scheinberg P, Correia EB, Rohde LEP, et al. Posicionamento sobre Diagnóstico e Tratamento da Amiloidose Cardíaca – 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;117(3):561-598.
Rohde LEP, Montera MW, Bocchi EA, Clausell NO, Albuquerque DC, Rassi S, et al. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539.
Teixeira RA, Fagundes AA, Baggio Junior JM, Oliveira JC, Medeiros PTJ, Valdigem BP, et al. Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(1):e20220892.
Montera MW, Marcondes-Braga FG, Simões MV, Moura LAZ, Fernandes F, Mangine S, et al. Diretriz de Miocardites da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143-211.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Cloridrato de verapamil — comprimidos revestidos de 80 mg, 120 mg de ação prolongada e 240 mg de liberação retardada. Bula profissional, Sandoz do Brasil Indústria Farmacêutica Ltda., medicamento genérico.
Cloridrato de amiodarona — solução injetável 50 mg/mL, ampola de 3 mL. Bula profissional, Fresenius Kabi Brasil Ltda., medicamento genérico.
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Rapaz de 19 anos chega ao ambulatório três semanas depois de ter desmaiado durante uma partida de futebol, sem pródromo e sem confusão pós-episódio. Traz ecocardiograma com hipertrofia assimétrica de 21 mm no septo anterosseptal médio, ventrículo esquerdo de dimensões normais e fração de ejeção de 68%. Um tio materno morreu dormindo aos 41 anos, sem autópsia. À ausculta, há sopro sistólico ejetivo na borda esternal esquerda baixa, que fica mais intenso quando ele levanta rapidamente do decúbito. Qual é a leitura correta do exame físico e o que ela indica?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, dez e dez da manhã, ambulatório de cardiologia de um hospital de ensino. Você é o interno da sala 2 e a preceptora está na sala ao lado, com um retorno de transplante que vai demorar. Sobre a mesa há três pastas e, grampeado na frente de cada uma, um laudo de ecocardiograma. A residente saiu para o café e deixou um bilhete por cima: os três vieram por causa do eco, os três já fizeram investigação de coronária em algum momento, e nenhum tem valva doente. Veja o que dá para adiantar.
A primeira pasta é de Deivid Craveiro, 19 anos, entregador de aplicativo. Ele não tem queixa nenhuma — está aqui porque desmaiou jogando bola num campo de terra há três semanas, no meio do segundo tempo, e acordou no chão com os amigos em volta. O laudo diz hipertrofia assimétrica do septo interventricular, com 21 milímetros no segmento anterosseptal médio, ventrículo esquerdo de dimensões normais e função sistólica preservada. Na folha de anamnese que a técnica preencheu, na linha de antecedentes familiares, está escrito à mão: tio morreu dormindo, 41 anos, ninguém sabe do quê.
A segunda é de Norival Guedelha, 52 anos, pedreiro, natural de um município do norte de Minas onde morou até os 26. Ele veio porque cansa para subir a rampa do canteiro de obras e porque o pé incha no fim do dia. O eco diz ventrículo esquerdo dilatado, com diâmetro diastólico de 64 milímetros, fração de ejeção estimada em 34%, hipocinesia difusa com acinesia da ponta e uma imagem que o ecocardiografista descreve como abaulamento apical. O cateterismo de dois anos atrás, que ele traz na pasta, mostra coronárias sem lesões obstrutivas.
A terceira é de Gercina Tavolaro, 71 anos, aposentada. Ela chegou empurrando um carrinho de compras porque não consegue mais carregar sacola, e a queixa dela é a barriga: está inchada há quatro meses, mais do que as pernas, e a roupa não fecha. O eco diz espessura de paredes aumentada, cavidade ventricular esquerda de tamanho normal, fração de ejeção de 51%, átrios muito aumentados e padrão restritivo de enchimento. A pressão dela, que foi 160 por 90 durante quinze anos, hoje está 96 por 62 — e o cardiologista de onde ela veio suspendeu dois anti-hipertensivos no último ano porque ela desmaiava ao levantar.
Os três laudos usam palavras diferentes para dizer a mesma coisa geral: o problema é o músculo. Não é a artéria, não é a valva, não é o pericárdio. É a parede do ventrículo, e o que ela faz de errado tem três formas — engrossar sem dilatar, dilatar sem engrossar, e endurecer sem fazer nem uma coisa nem outra. Essa divisão é morfológica, tem quase sessenta anos, e não é uma classificação de causas: é uma classificação de aparências.
Vale dizer de saída o que esse agrupamento não faz, porque é a fonte da maior parte da confusão sobre o assunto. Ele não diz a causa: a mesma doença de depósito produz a aparência hipertrófica no começo e a restritiva depois. Ele não diz o prognóstico: há hipertrófica com expectativa de vida normal e hipertrófica que mata aos dezenove anos. E não diz o tratamento: o que se faz pelo Deivid, pelo Norival e pela Gercina não tem quase nada em comum. O que o agrupamento faz é organizar a primeira pergunta, e a primeira pergunta vale muito, porque ela recorta a investigação seguinte.
Este capítulo trabalha com os três de uma vez, e não porque se pareçam. Trabalha porque os três chegam pela mesma porta — um laudo de ecocardiograma na mão de alguém que já descartou coronária e valva — e porque, a partir daí, o interno precisa saber para que lado ir com cada um. Do Deivid sai a pergunta sobre a família e sobre a morte súbita. Do Norival sai a busca de uma causa que tenha nome e, no Brasil, um nome muito específico. Da Gercina sai o diagnóstico diferencial que mais muda conduta em toda a cardiologia de enfermaria: o coração é que está rígido, ou é o saco que está em volta dele?
Quem adoece disso
A cardiomiopatia hipertrófica é a mais prevalente das cardiopatias de origem genética, transmitida de forma autossômica dominante e causada em sua maior parte por mutações em genes de proteínas do sarcômero. Os primeiros registros epidemiológicos, feitos por ecocardiograma, encontraram um caso em cada 500 pessoas da população geral. Estudos mais recentes, que passaram a contar também quem carrega a variante patogênica sem ainda expressar a doença, chegaram a um caso em cada 200. A diretriz brasileira de 2024 registra que a doença já foi descrita em 122 países, o que corresponde a 90% da população mundial, e estima em cerca de 400 mil o número de brasileiros que possam ser afetados.
Essa estimativa de 400 mil merece uma conta, porque ela aparece no mesmo período em que a prevalência citada é de um em 200. Com a população brasileira na casa dos 203 milhões, um em 200 daria cerca de um milhão de pessoas; 400 mil é o que resulta de um em 500. O número que a diretriz imprime é, portanto, o da régua antiga, colado numa frase sobre a régua nova. A ordem de grandeza que interessa ao interno é esta: seja 400 mil ou um milhão, é uma doença que qualquer médico brasileiro vai encontrar, e não uma raridade de serviço terciário.
O que faz a hipertrófica pesar mais do que o número sugere é o desfecho que ela produz. É uma das principais causas de morte súbita em jovens e atletas, e a diretriz brasileira descreve o curso como heterogêneo e imprevisível: manifesta-se da infância à oitava década, cerca de 46% dos pacientes evoluem de forma benigna com expectativa de vida semelhante à da população geral, e o restante desenvolve sintomas progressivos ou complicações ao longo da vida. Entre os portadores, de 30% a 40% terão algum evento adverso: morte súbita, sintomas limitantes por obstrução ou disfunção diastólica, insuficiência cardíaca por disfunção sistólica, ou fibrilação atrial com risco tromboembólico.
A dilatada não é uma doença única e por isso não tem prevalência própria: é o formato final de muitas causas diferentes. O que o interno brasileiro precisa carregar é que, entre essas causas, uma tem peso próprio e distribuição geográfica. A Organização Mundial da Saúde estima de 6 a 7 milhões de infectados pelo Trypanosoma cruzi no mundo, a maioria na América Latina, e a diretriz brasileira de 2023 aponta o Brasil como o segundo país em número absoluto, com 1,2 milhão de pessoas infectadas, atrás da Argentina, com 1,5 milhão. Estima-se que de 30% a 40% das pessoas infectadas e não tratadas desenvolvam, ao longo da vida, alguma síndrome clínica grave — cardíaca, digestiva, neurológica ou mista.
Duas outras cifras da mesma fonte mudam a forma de pensar o rastreamento. A primeira: apenas 10% a 30% das pessoas acometidas sabem do próprio diagnóstico, e somente 1% das que precisariam de tratamento etiológico têm acesso a ele. A segunda: com o controle da transmissão vetorial e transfusional, a prevalência entre doadores de sangue no Brasil está projetada em 0,18%. O quadro que essas duas cifras desenham é o de uma população que envelheceu com a infecção adquirida décadas atrás, e que chega ao consultório não pela doença aguda, mas pela consequência tardia — que é justamente a cardiomiopatia.
As taxas de progressão da doença de Chagas dão a dimensão do que está em jogo em cada estágio, e vale carregá-las porque elas justificam o acompanhamento de quem não tem sintoma. A diretriz de 2023 compila, de metanálises, uma evolução anual de 1,9% da forma crônica indeterminada para a cardiomiopatia, de 4,6% ao ano nos casos com fase aguda diagnosticada, e uma mortalidade anual de 7,9% depois que a forma cardíaca crônica está instalada. A distância entre esses números é o argumento: quem está na forma indeterminada troca pouco risco por ano por muito risco depois, e o intervalo entre os dois é longo o bastante para caber uma vida de acompanhamento.
A restritiva é a menos comum das três e a que mais depende de alguém pensar nela. A causa que hoje mais importa no adulto é a amiloidose cardíaca, e o posicionamento brasileiro de 2021 diz de forma direta que ela é subdiagnosticada, listando entre os motivos o conhecimento fragmentado entre especialidades, a escassez de centros dedicados e a crença equivocada de que se trata de doença rara e incurável. É a única das três em que o principal obstáculo diagnóstico não é técnico: o exame que fecha existe e está disponível, e o que falta é a suspeita.
Por que acontece o que acontece
Na hipertrófica, a mutação está numa proteína do sarcômero, e o efeito final é um miócito que contrai demais e relaxa mal. O músculo responde ao defeito com hipertrofia, e a hipertrofia vem acompanhada de duas coisas que não são simples aumento de tamanho: desarranjo da arquitetura das fibras, que deixam de correr paralelas, e fibrose intersticial. Esses dois achados explicam por que a doença produz arritmia — fibra desalinhada e cicatriz no meio do músculo são substrato para reentrada — e por que a quantidade de hipertrofia não prevê bem quem vai morrer: o que mata é o tecido desorganizado, e ele não se mede em milímetros.
O ventrículo hipertrofiado também fica isquêmico sem ter doença coronária. A massa muscular cresce mais do que a rede de capilares que a irriga, as artérias intramurais ficam comprimidas e deformadas pela parede espessa, e o relaxamento prolongado encurta o tempo de perfusão, que na circulação coronariana acontece na diástole. O resultado é dor torácica de esforço com coronariografia limpa, e é por isso que a angina típica neste capítulo não afasta cardiomiopatia hipertrófica nem, ao contrário, dispensa a investigação de aterosclerose em quem tem idade e fatores de risco para tê-la.
A obstrução dinâmica da via de saída é o mecanismo que dá à hipertrófica o seu comportamento mais característico, e é o que o interno precisa entender de verdade, porque é dele que sai tudo o que se faz de errado com esses pacientes. O septo hipertrofiado estreita o caminho de saída; o sangue passa por ali em alta velocidade e arrasta o folheto anterior da mitral para dentro do fluxo — é o movimento sistólico anterior, que ao mesmo tempo fecha ainda mais a saída e abre a valva mitral para o átrio, produzindo regurgitação. Tudo o que reduz o volume do ventrículo aproxima o folheto do septo e agrava a obstrução; tudo o que enche o ventrículo a alivia. É por isso que a obstrução piora em pé, na desidratação, depois de uma refeição, com álcool, com taquicardia e com qualquer droga que aumente a contratilidade ou reduza a pré-carga.
É essa mecânica que inverte o sinal do sopro, e a inversão é a razão de o exame físico ainda decidir alguma coisa aqui. Numa estenose valvar fixa, reduzir o retorno venoso reduz o volume ejetado e o sopro diminui. Na obstrução dinâmica acontece o contrário: reduzir o retorno venoso encolhe o ventrículo, aproxima o folheto do septo e o sopro aumenta. Por definição, a diretriz brasileira considera obstrutiva a forma com gradiente máximo de 30 milímetros de mercúrio ou mais na via de saída, em repouso ou provocado por manobra, e chama de obstrução significativa a de 50 ou mais.

Na dilatada, o mecanismo depende da causa, mas o caminho final é comum e vale conhecer como uma peça só. Uma agressão qualquer — tóxica, inflamatória, infecciosa, metabólica, hemodinâmica — mata ou disfunciona miócitos; o ventrículo perde força de ejeção; para manter o volume sistólico ele se alonga e assume forma globosa. A geometria nova afasta os músculos papilares e estira o aparelho valvar, e a mitral, com folhetos estruturalmente normais, passa a fechar mal — a insuficiência mitral secundária, que devolve volume ao átrio e realimenta a dilatação. Esse é o motor que gira sozinho depois que a causa já parou de agir, e é a razão pela qual retirar a causa nem sempre resolve, mas quase sempre ajuda.
A forma cardíaca da doença de Chagas merece o mecanismo separado, porque ele explica quatro achados que nenhuma outra dilatada reúne. A persistência do parasita no tecido mantém uma inflamação crônica de baixa intensidade que destrói miócitos, fibras do sistema de condução e neurônios do plexo cardíaco; a fibrose que substitui esse tecido é irregular e segmentar, não difusa, e tem predileção pela parede ínfero-lateral e pela ponta. Daí vêm o bloqueio de condução em coração ainda com boa função, a alteração segmentar de contração sem coronária doente, o aneurisma apical com colo estreito — que a literatura descreve como dedo de luva — e a arritmia ventricular desproporcional ao grau de disfunção. A disautonomia acrescenta a resposta cronotrópica pobre.
Na restritiva, o defeito não é de força nem de tamanho: é de complacência. A parede aceita mal ser distendida, e a pressão de enchimento sobe rápido logo no começo da diástole. Como o ventrículo não pode crescer, quem cresce são os átrios, empurrados contra uma câmara que não os recebe — é por isso que o átrio muito grande com ventrículo de tamanho normal é a assinatura ecocardiográfica desse grupo. A congestão que aparece é predominantemente sistêmica, com jugular alta, hepatomegalia, ascite e edema, e a fração de ejeção pode estar preservada até tarde, o que faz o quadro ser rotulado de insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e parar por aí.
Resta a pergunta que separa a restritiva do seu vizinho de fronteira: se a parede está rígida, o quadro é de cardiomiopatia; se quem está rígido é o saco em volta, o quadro é de pericardite constritiva, e a diferença é a de operar ou não operar. A mecânica da constrição — a casca que isola o coração das variações da pressão intratorácica, a interdependência entre os ventrículos e os sinais que daí decorrem — é do capítulo de pericardite aguda e tamponamento desta apostila, e é lá que ela deve ser lida. O que cabe aqui é o outro lado da comparação: na restritiva o miocárdio está doente, a doença não poupa nenhum dos dois ventrículos igualmente e não existe barreira mecânica entre o coração e o tórax. Essa é a raiz de todas as diferenças que aparecem nos exames.
Como se apresenta de verdade
As três se apresentam de formas que não se parecem, e o interno que espera um quadro comum às cardiomiopatias vai passar por todas elas. O que segue está organizado por porta de entrada, e não por doença: a síncope do jovem, a família que o jovem traz, o coração grande de quem nunca infartou, as pistas que apontam Chagas antes de qualquer sorologia, a congestão direita num ventrículo que não dilatou, e os sinais que tiram a amiloidose da gaveta das raridades.
Duas dessas seis portas não são queixas do paciente: são achados de terceiros. A morte de um parente e um eletrocardiograma feito por outro motivo entram nesta lista porque, nestas doenças, é frequentemente por elas que o diagnóstico começa.
A síncope no esforço, e o sopro que faz o contrário do esperado
A maioria das pessoas com cardiomiopatia hipertrófica é assintomática e tem expectativa de vida normal. Quando há sintoma, os principais são dispneia de esforço e fadiga, seguidos de dor torácica, palpitação, tontura e síncope. A ortopneia e a dispneia paroxística noturna são menos frequentes, e a congestão grave é rara — o quadro é bem mais ambulatorial do que de sala de emergência, o que ajuda a explicar por que ele passa despercebido por anos.
A síncope é o sintoma que muda a conversa. Ela entra na lista de fatores de risco de morte súbita quando é inexplicada, e a diretriz brasileira faz questão de excluir duas situações da contagem: a síncope claramente vasovagal e a atribuída à própria obstrução da via de saída. A circunstância pesa mais do que a descrição. Síncope durante o esforço, e não depois dele, aponta obstrução ao fluxo ou arritmia deflagrada por catecolamina; síncope em decúbito elimina a explicação postural.
O sopro da forma obstrutiva é sistólico, ejetivo, mais audível na borda esternal esquerda baixa e no ápice, e tem uma propriedade que quase nada mais na cardiologia tem: ele aumenta quando se reduz o retorno venoso. Peça ao paciente para levantar rápido do decúbito, ou para fazer a manobra de Valsalva, e ausculte durante. Se o sopro fica mais alto, a suspeita se desloca da valva para o músculo. Uma estenose aórtica faz o oposto — diminui —, e essa comparação é do capítulo de valvopatias desta apostila, onde a régua ecocardiográfica das valvas está descrita.
Duas ressalvas evitam o erro mais comum de quem acabou de aprender a manobra. A primeira: um terço dos pacientes não tem obstrução em nenhuma condição, e nesses não há sopro para variar — ausência de sopro não afasta a doença. A segunda: o gradiente é dinâmico e flutua de hora em hora com a hidratação, a posição, a alimentação e o consumo de álcool, de modo que um exame sem sopro numa manhã não contradiz um sopro achado na semana anterior.
A família entra no exame do paciente
Em nenhuma outra doença deste capítulo a história familiar é parte do exame físico como aqui. A hipertrófica é autossômica dominante: cada filho de um portador tem, em média, metade de chance de carregar a variante. Perguntar por morte súbita na família não é preencher formulário — é procurar um fator de risco que vai entrar na decisão sobre desfibrilador e, ao mesmo tempo, identificar pessoas que ainda não são pacientes e que precisam ser examinadas.
A pergunta tem que ser feita com cuidado, porque a resposta espontânea das famílias quase nunca vem em linguagem médica. Ninguém diz morte súbita cardíaca; dizem que o tio morreu dormindo, que o primo caiu no meio do jogo, que o avô morreu de repente e ninguém investigou. Vale perguntar idade, circunstância e se houve autópsia, e vale perguntar por parente que tenha marca-passo, desfibrilador, transplante ou diagnóstico de coração grande — porque a mesma família pode ter recebido rótulos diferentes ao longo de trinta anos.
A idade do parente ao morrer é o dado que a régua brasileira usa, e ela merece ser anotada com número. A tabela de estratificação de risco da diretriz de 2024 conta como fator de risco a história familiar de morte súbita em parente com 50 anos ou menos. A calculadora eletrônica que a mesma diretriz recomenda como apoio usa outro corte: morte súbita de parente de primeiro grau antes dos 40 anos. Anote a idade exata na primeira consulta, e não a impressão de que a morte foi precoce — porque o número vai ser usado por duas réguas diferentes.
O rastreamento familiar não é uma consulta de genética a que se encaminha e esquece. É um combinado de acompanhamento por décadas, com periodicidade definida por idade, e o interno que vê o caso índice é quem tem a chance de iniciá-lo. A conduta prática está adiante, no bloco de conduta.
O coração grande de quem nunca infartou
A dilatada raramente se apresenta como dilatada. Ela se apresenta como insuficiência cardíaca: dispneia aos esforços que vai encurtando a distância, ortopneia, edema, e às vezes uma primeira descompensação franca. O que a distingue, no consultório, é o contexto: alguém relativamente jovem, sem infarto prévio, sem valva doente, com um ventrículo que já está grande na primeira vez que alguém olha para ele.
O exame físico traz o ictus deslocado para fora da linha hemiclavicular e difuso, a terceira bulha, e o sopro sistólico de regurgitação mitral que é consequência da geometria e não causa dela. Esses achados não distinguem etiologia; eles distinguem gravidade e cronicidade, e é assim que devem ser lidos.
A palavra que precisa ficar é etiologia, e o motivo é prático. A síndrome de insuficiência cardíaca tem tratamento próprio, descrito no capítulo desta apostila sobre insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, e ele independe da causa. Mas algumas causas têm tratamento adicional que muda a história natural, e é por elas que se procura de propósito quando o ventrículo aparece dilatado: doença coronária, valvopatia com indicação cirúrgica, álcool, cardiotoxicidade por quimioterápico, forma periparto, doença de Chagas, pressão arterial nunca controlada, taquiarritmia sustentada e disfunção da tireoide.
Três dessas causas têm particularidades que valem ser lembradas na anamnese. O álcool exige uma pergunta quantitativa, e não a pergunta social: a diretriz brasileira de insuficiência cardíaca orienta abstinência completa na forma alcoólica, com a informação de que ela pode se traduzir em melhora substancial da função ventricular. O quimioterápico exige que se pergunte o esquema e não só se houve câncer. E a forma periparto exige que se pergunte a data do parto, porque sem a linha do tempo ela vira uma dilatada idiopática numa mulher jovem.
As pistas que apontam Chagas antes da sorologia
A primeira pista não é do coração: é da biografia. Onde a pessoa nasceu, onde morou até que idade, em que tipo de casa, se havia barbeiro. A migração interna brasileira levou a doença para as capitais, e o paciente que hoje mora numa periferia urbana do Sudeste pode ter adquirido a infecção aos oito anos num município rural do Nordeste ou do norte de Minas. Perguntar isso custa vinte segundos e reorganiza toda a investigação seguinte.
A segunda pista está no eletrocardiograma, e é o achado que mais vezes abre o caso. O bloqueio de ramo direito somado ao divisional anterossuperior à esquerda desenha o padrão clássico, e ele pode aparecer muito antes de qualquer sintoma, em coração ainda com função preservada. Entre as causas infecciosas de bloqueio atrioventricular no Brasil, o documento nacional sobre dispositivos cardíacos implantáveis dá destaque à miocardite crônica desta mesma doença. Ao exame, o desdobramento da segunda bulha acompanha o bloqueio de ramo direito.
A terceira pista é o padrão de lesão no ecocardiograma. A cardiomiopatia chagásica produz alteração segmentar de contração num paciente sem doença coronária, com predileção pela parede ínfero-lateral e pela ponta, e o aneurisma apical é o achado quase assinatura. A diretriz de 2023 registra prevalência média de aneurisma apical de 8,5% em pacientes assintomáticos ou com cardiopatia leve, chegando a até 55% naqueles com disfunção sistólica moderada a importante.
A quarta pista é o que a doença faz além de bombear mal. Ela emboliza. O acidente vascular cerebral pode ser a primeira e devastadora manifestação, e a diretriz lista como fatores da gênese desse evento a disfunção sistólica, o aumento do átrio esquerdo, o aneurisma apical, o trombo mural e a fibrilação atrial. Em áreas endêmicas, a doença chega a responder por até 20% dos acidentes vasculares cerebrais, o que a torna diagnóstico diferencial obrigatório do acidente vascular na América Latina.
Congestão sistêmica num ventrículo que não dilatou
A restritiva se apresenta com o que a fisiologia dela produz: pressão de enchimento alta transmitida para trás, dos dois lados. Cansaço, dispneia de esforço, e uma congestão que é mais sistêmica do que pulmonar — jugular alta, fígado aumentado e doloroso, ascite, edema. A queixa que traz o paciente muitas vezes é abdominal, e não respiratória, e o encaminhamento inicial pode ser para o gastroenterologista.
A desproporção entre a ascite e o edema de membros inferiores é o achado que levanta a suspeita, e ela vale tanto para a restritiva quanto para a constrição pericárdica — a diferença entre as duas não está aqui, está nos exames. O que importa reconhecer neste momento é que uma congestão dessas, num paciente cujo ventrículo esquerdo tem tamanho normal e fração de ejeção preservada, não se explica pela insuficiência cardíaca que se aprende primeiro.
O erro de rotulagem que acontece aqui tem consequência. Um paciente com ascite, jugular alta e fração de ejeção preservada recebe com frequência o rótulo de insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada de causa hipertensiva, sobe de dose de diurético e é dispensado. O rótulo é compatível com os números, mas fecha a investigação exatamente onde ela deveria começar, e as duas doenças que estão por baixo dele — a restritiva e a constritiva — têm tratamentos totalmente diferentes entre si e do que se prescreveu.
Há um dado de anamnese barato que reabre a investigação: o histórico de pressão arterial. Um paciente que foi hipertenso por décadas e nos últimos meses vem tendo anti-hipertensivos suspensos porque a pressão caiu, ou porque começou a sentir tontura ao levantar, está contando alguma coisa. Numa parede que engrossou por hipertensão, a pressão não some sozinha.
Os sinais de alerta que tiram a amiloidose da lista de raridades
O posicionamento brasileiro de 2021 organiza como pistas clínicas um conjunto de achados que, isolados, ninguém liga ao coração, e que juntos mudam a probabilidade. Entre os de história e exame físico estão a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada em homem idoso, a intolerância a inibidores da enzima conversora, bloqueadores de receptor e betabloqueadores, o bloqueio atrioventricular inexplicado com implante prévio de marca-passo, a síndrome do túnel do carpo bilateral, a estenose do canal vertebral, a ruptura do tendão do bíceps e a polineuropatia sensorial ou motora sem explicação.
A síndrome do túnel do carpo bilateral merece destaque porque frequentemente vem primeiro. O posicionamento a descreve como a manifestação não cardíaca mais comum da forma por transtirretina, capaz de preceder os sintomas de insuficiência cardíaca em vários anos. É uma cirurgia de mão feita anos antes, esquecida na anamnese, que o interno só encontra se perguntar.
A intolerância a anti-hipertensivos e a queda de pressão em quem sempre foi hipertenso são o mesmo sinal visto de dois ângulos, e o mecanismo é duplo: o débito depende de um enchimento que não acontece, e a disautonomia por infiltração reduz a resposta vascular. Síncope e hipotensão ortostática entram por essa porta e são comuns.
Vale registrar o que não afasta o diagnóstico, porque é aqui que a maior parte das suspeitas morre. A baixa voltagem no eletrocardiograma tem grande especificidade, mas não é o achado mais prevalente: nas formas por transtirretina confirmadas por biópsia, menos de 40% dos pacientes têm baixa voltagem. A ausência de critérios de baixa voltagem, e mesmo a presença de sinais de sobrecarga ventricular esquerda, não devem afastar a suspeita.
Como fechar o diagnóstico
A investigação das cardiomiopatias tem uma ordem que raramente é seguida, e a desorganização custa caro em exame repetido. A ordem que funciona é: eletrocardiograma sempre, ecocardiograma com as perguntas certas escritas no pedido, ressonância quando ela responde uma pergunta que o eco deixou aberta, e só então os exames que fecham etiologia — sorologia, eletroforese, cintilografia, genética.
O que muda entre as três doenças não é a bateria de exames: é o que se está perguntando a cada um deles. Um ecocardiograma pedido sem pergunta volta com um laudo descritivo que não decide nada.
O eletrocardiograma, que aqui não é formalidade
Na hipertrófica, o eletrocardiograma costuma estar alterado, mas as alterações não formam um padrão característico. A diretriz de 2024 arrola desvio do eixo para a esquerda, anormalidades da onda P refletindo aumento atrial esquerdo ou biatrial, com prolongamento da onda P sendo preditor de fibrilação atrial futura, além dos critérios de sobrecarga e das alterações de repolarização. O valor prático do traçado é outro: um eletrocardiograma francamente anormal num jovem com sopro, ou num familiar de portador, é o que justifica pedir imagem.
Na doença de Chagas, o traçado é ao mesmo tempo diagnóstico e prognóstico, e a dupla formada pelo ramo direito bloqueado e pelo divisional anterossuperior à esquerda é o que mais vezes levanta a hipótese em quem ainda não tem sintoma. A ausência de alterações eletrocardiográficas, por outro lado, é a base de uma das definições da doença: é a forma indeterminada, e ela tem prognóstico próprio.
Na amiloidose, o traçado é onde mora a armadilha mais citada e mais mal compreendida. A baixa voltagem é específica, mas pouco sensível; o achado realmente frequente é a ausência de progressão de onda R nas precordiais, simulando zona eletricamente inativa anterosseptal — o padrão de pseudoinfarto —, presente em 60% a 70% dos casos confirmados, independentemente do tipo de amiloidose. A desproporção entre a voltagem e a espessura da parede é o sinal de alerta que alcança 73% a 80% dos pacientes.
O Holter de 24 horas entra na hipertrófica com uma pergunta específica: existe taquicardia ventricular não sustentada? A diretriz brasileira qualifica o que conta — episódios múltiplos, mais longos que 10 batimentos e mais rápidos que 200 batimentos por minuto — e a resposta entra tanto na lista de fatores de risco quanto na calculadora. Na doença de Chagas, o mesmo exame entra no escore de risco de mortalidade.
O ecocardiograma, e o que precisa estar escrito no pedido
O ecocardiograma transtorácico é o método diagnóstico fundamental e inicial da hipertrófica. O diagnóstico se faz na presença de espessura miocárdica diastólica de 15 milímetros ou mais, em qualquer segmento, na ausência de outra condição que justifique a hipertrofia num ventrículo não dilatado. Em quem tem história familiar da doença ou mutação conhecida, o corte cai para 13 milímetros. Em crianças não se aplica valor de corte único: as medidas vão em escore z, e o diagnóstico se faz com escore z acima de 2.
A conta de conversão que a própria diretriz oferece ajuda a entender por que os dois cortes convivem: no adulto, o escore z correspondente a um septo de 15 milímetros é de 6 a 7, e o de 13 milímetros equivale a um escore z de 4 a 6. São dois pontos muito acima da média em qualquer leitura, e a diferença entre eles é de probabilidade prévia, não de biologia — quem tem um parente doente precisa de menos hipertrofia para ter o diagnóstico feito.
O pedido precisa dizer que se quer avaliação da via de saída com manobra provocativa, e essa é a linha que mais falta nos pedidos. Se o gradiente máximo em repouso for ausente ou menor que 30 milímetros de mercúrio, a diretriz orienta provocar: manobra de Valsalva, posição ortostática, exercício físico, inalação de nitrito de amilo. Sem isso, um terço a metade dos pacientes obstrutivos sai do exame classificado como não obstrutivo, e a classificação muda o tratamento.
Na dilatada, o ecocardiograma não serve para dizer que o ventrículo está grande — isso a radiografia já sugeriu. Serve para dizer o padrão da lesão, e o padrão aponta a etiologia. Hipocinesia difusa sem território sugere causa tóxica ou inflamatória; alteração segmentar em território coronário sugere isquemia; aneurisma de ponta com bloqueio no traçado sugere doença de Chagas. Escreva a pergunta etiológica dentro do pedido, e registre o diâmetro diastólico, porque ele entra no escore de risco.
Na restritiva, o achado que organiza tudo é a combinação de cavidade ventricular de tamanho normal com átrios muito aumentados e padrão restritivo de enchimento. Na amiloidose, o posicionamento brasileiro acrescenta espessura do septo acima de 12 milímetros, aspecto granuloso e hiper-refringente do miocárdio, espessamento das paredes do ventrículo direito além do esquerdo, dilatação biatrial, espessamento de valvas e do septo interatrial, e a deformação longitudinal alterada que poupa a ponta — o padrão que a literatura chama de preservação apical, e que aparece mesmo com fração de ejeção normal.
Há ainda um uso do ecocardiograma que o interno raramente vê pedido e que vale conhecer, porque ele antecipa o diagnóstico na doença de Chagas. A análise da deformação miocárdica identifica alteração regional de contração antes de a fração de ejeção cair, e os achados aparecem principalmente nos segmentos inferiores e ínfero-laterais do ventrículo esquerdo — inclusive em pacientes na forma indeterminada e nos que ainda têm fração de ejeção preservada. A diretriz de 2023 registra que o valor prognóstico dessas alterações precoces na forma indeterminada ainda não está definido, de modo que o achado orienta seguimento mais próximo e não muda, por si, o tratamento.
A ressonância, e quando ela deixa de ser luxo
A ressonância magnética cardiovascular não é exame de rotina nestas doenças, mas há situações em que ela responde uma pergunta que nenhum outro método responde. Na hipertrófica, a diretriz reserva o exame para janela acústica limitada, para traçado alterado com ecocardiograma aparentemente normal, e para as formas que o eco vê mal — a apical, as hipertrofias localizadas e o aneurisma de ponta.
A segunda função é medir fibrose. O realce tardio quantifica a cicatriz miocárdica, e na hipertrófica ele entrou na decisão sobre desfibrilador: em paciente sem nenhum outro fator de risco e sem taquicardia ventricular não sustentada, realce tardio em extensão de 15% ou mais da massa ventricular é o que pode fazer o dispositivo ser considerado. Sem esse dado, o mesmo paciente fica na faixa em que o implante é contraindicado.
Na doença de Chagas, a ressonância detecta o padrão característico — acometimento dos segmentos ínfero-laterais basal e médio e da ponta, com aneurisma apical de morfologia em dedo de luva — e localiza trombos intracavitários em pacientes com janela ecocardiográfica ruim. A diretriz de 2023 registra que o valor prognóstico adicional ao do escore clínico ainda depende de confirmação por estudos em andamento.
Na suspeita de doença infiltrativa, a ressonância mostra o padrão de realce, e a diretriz de hipertrófica é explícita ao dizer que os padrões de realce são diferentes na amiloidose, na sarcoidose e na doença de Fabry — de modo que o exame é o que separa a hipertrófica verdadeira das suas fenocópias, e essa separação muda tratamento, prognóstico e o que se diz à família.
As duas sorologias de Chagas, e por que uma não basta
O diagnóstico da fase crônica é sorológico, e a regra brasileira é de dois testes de princípios diferentes. A diretriz de 2023 explica a lógica da combinação: dois testes reagentes indicam que o paciente tem anticorpos por duas metodologias distintas e está infectado; dois testes não reagentes afastam. É a concordância entre métodos diferentes que sustenta a conclusão, e é por isso que uma sorologia isolada positiva não fecha nem uma isolada negativa afasta.
O resultado discordante existe e não é raro, e o que se faz com ele é uma nova coleta com dois testes. O documento traz um exemplo instrutivo dessa zona cinzenta: entre doadores de sangue excluídos por sorologia, 70% a 80% são efetivamente infectados na casuística de serviços de referência, mas de 20% a 30% não terão a doença confirmada. Um resultado de triagem, portanto, não é um diagnóstico, e comunicá-lo como se fosse produz um paciente rotulado por engano.
Feito o diagnóstico da infecção, a investigação não acabou: falta dizer em que estágio a pessoa está, e isso exige eletrocardiograma e ecocardiograma. Essa é a diferença entre saber que alguém é soropositivo e saber se tem cardiopatia. A classificação em estágios, que aparece na seção de critérios, é o que organiza essa resposta.
Há uma consequência de saúde pública que o interno pode acionar e quase sempre esquece. A pessoa que recebe o diagnóstico veio de uma família e de uma casa, e irmãos, mãe e filhos podem ter a mesma exposição. A transmissão vertical no Brasil tem taxa de prevalência de 1,7%, uma das menores da América do Sul, mas não é zero — e filhos de mulheres com infecção crônica precisam ser investigados.
A investigação etiológica da dilatada, feita de propósito
A investigação etiológica costuma morrer na enfermaria porque o paciente melhora e recebe alta com o diagnóstico sindrômico. O que evita isso é transformar a busca numa lista escrita, feita na admissão, com o nome de cada causa que tem tratamento próprio e o exame que a procura.
A bateria mínima que responde à maior parte dessa lista é modesta: eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma com Doppler, hemograma, função renal, eletrólitos, glicemia, perfil lipídico, função hepática, ferritina e saturação de transferrina, hormônio tireoestimulante, e — em qualquer paciente com história epidemiológica compatível — as duas sorologias para doença de Chagas. A investigação de doença coronária se decide caso a caso, pela probabilidade prévia e pelo padrão de lesão ao eco.
Duas causas exigem pergunta e não exame. O álcool se investiga com quantidade e tempo, não com a pergunta se bebe: a diretriz brasileira de insuficiência cardíaca recomenda limitar a menos de sete doses por semana para homens, ressalvando que em mulheres esses níveis são menos definidos, e registra que a elevação das transaminases parece identificar quem tem maior risco de insuficiência cardíaca relacionada ao consumo. A forma periparto se investiga com a data do parto na mão.
Um alerta de sequência fecha esta seção. Em paciente com hipertrofia ventricular encontrada ao ecocardiograma, a diretriz de 2024 manda avaliar durante o próprio exame as causas que justificariam a hipertrofia — estenose aórtica, membrana subaórtica, coarctação da aorta —, porque o diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica exige a ausência dessas condições. Rotular como cardiomiopatia uma hipertrofia secundária é fechar a porta de uma doença que tem correção mecânica.
Quando o exame que fecha não é do coração
Na suspeita de amiloidose, o primeiro passo não é de imagem cardíaca: é separar a forma por cadeia leve da forma por transtirretina, porque a primeira é uma doença hematológica com urgência própria. Isso se faz com pesquisa de gamopatia monoclonal — eletroforese de proteínas com imunofixação em soro e urina e dosagem de cadeias leves livres séricas. Esse trio é a triagem que precede tudo.
Excluída a gamopatia monoclonal, a cintilografia com traçador ósseo permite o diagnóstico não invasivo da forma por transtirretina. O posicionamento brasileiro é específico sobre o insumo: entre os traçadores marcados com tecnécio-99m, o pirofosfato é o único disponível no Brasil, e o metilenodifosfonato — que é eficiente para cintilografia óssea comum e por isso está em toda medicina nuclear — tem baixa sensibilidade para esse fim e não deve ser usado. Escrever o traçador no pedido evita um exame perdido.
Na hipertrófica, o exame que fecha a origem é genético, e ele tem duas finalidades diferentes que não devem ser confundidas. No caso índice, confirma o diagnóstico e identifica a variante; na família, permite dizer quem precisa seguir em vigilância e quem pode ser dispensado. A diretriz recomenda a investigação genética com força máxima quando se suspeita de outra condição genética por trás do fenótipo, para procurar as fenocópias; considera o teste para facilitar a identificação de familiares em risco; e não recomenda o teste familiar quando o caso índice não tem variante patogênica.
Há um resultado desse fluxo que o interno precisa saber explicar, porque ele cria uma categoria de pessoa que não existe em nenhuma outra doença deste capítulo: quem tem a variante e ainda não tem a doença. A diretriz descreve o prognóstico desses indivíduos como benigno em qualquer faixa etária, com baixa morbimortalidade e raros eventos de morte súbita, e é por isso que neles não há restrição a esporte competitivo, nem indicação de monitorização, nem de terapia farmacológica preventiva, nem de desfibrilador para prevenção primária. Eles entram em seguimento, não em tratamento.
Do laudo à decisão: o fluxo, os cortes, a fronteira com o pericárdio e a conta do comprimido
Na primeira leitura, concentre-se em reconhecer um fenótipo, procurar causas tratáveis e identificar risco: síncope, arritmia, insuficiência cardíaca e morte súbita na família. Ressonância, genética e decisões sobre dispositivos aprofundam a investigação especializada; devem ser entendidas a partir da pergunta clínica que precisam responder. Quatro consultas rápidas, na ordem em que o ambulatório e a enfermaria as pedem. O fluxo é a sequência de decisões desde o laudo de ecocardiograma até o encaminhamento. A primeira tabela compara as três em eixos próprios. A segunda reúne os cortes numéricos que definem cada uma, com a fonte de cada corte e o que acontece quando o valor do paciente cai exatamente na borda. A terceira é a fronteira que mais muda conduta: restritiva ou constritiva. A quarta é a régua brasileira de desfibrilador na hipertrófica, que é lida por faixa etária e não por número único.
- 1Comece pelo que o laudo diz da cavidade, e não da parede: cavidade dilatada com parede fina aponta o grupo da dilatada; cavidade normal ou pequena com parede espessa aponta hipertrófica ou infiltrativa; cavidade normal com parede pouco alterada e átrios muito grandes aponta fisiologia restritiva.
- 2Antes de chamar de cardiomiopatia, exclua o que produz a mesma aparência com outra causa: coronária ocluída, valva doente, hipertensão descontrolada de longa data, estenose aórtica, membrana subaórtica e coarctação da aorta. O diagnóstico das três é de exclusão nesse sentido específico.
- 3Diante de parede espessa, pergunte se há obstrução: peça gradiente de via de saída em repouso e com manobra provocativa. Trinta milímetros de mercúrio ou mais define obstrutiva; cinquenta ou mais define obstrução significativa e abre a conversa sobre redução septal quando os sintomas persistem.
- 4Diante de parede espessa, pergunte também se aquilo é sarcômero ou depósito. Voltagem baixa ou desproporcional à espessura, espessamento também do ventrículo direito, aspecto granuloso, dilatação biatrial e intolerância a anti-hipertensivos apontam infiltração, e a investigação vira a de amiloidose.
- 5Na hipertrófica confirmada, a próxima decisão não é de droga: é de risco. Procure em toda avaliação clínica parada cardíaca abortada, taquicardia ou fibrilação ventricular, síncope inexplicada, história familiar de morte súbita, hipertrofia acentuada, aneurisma apical e disfunção sistólica.
- 6Na hipertrófica confirmada, abra a segunda frente na mesma consulta: o rastreamento dos parentes de primeiro grau. Não é encaminhamento a ser lembrado depois — é a única intervenção deste capítulo que alcança quem ainda não adoeceu.
- 7Diante de ventrículo dilatado, escreva a lista de causas com tratamento próprio e vá riscando: coronária, valva, Chagas, álcool, hipertensão, taquiarritmia sustentada, tireoide, quimioterápico e periparto. O tratamento da disfunção começa em paralelo e não espera a etiologia.
- 8Diante de história epidemiológica compatível, peça as duas sorologias para doença de Chagas de princípios diferentes. Uma só não decide, em nenhuma direção.
- 9Com sorologia positiva, estadie: eletrocardiograma e ecocardiograma dizem se a pessoa está na forma indeterminada ou já tem cardiopatia, e se a função sistólica está normal ou comprometida. O estágio é o que organiza tudo o que vem depois.
- 10Diante de fisiologia restritiva, faça a pergunta de fronteira antes de qualquer outra: o que está rígido é o miocárdio ou o pericárdio? A resposta separa uma doença que se opera de outra que não se opera, e é o assunto da terceira tabela.
- 11Na suspeita de amiloidose, procure gamopatia monoclonal antes de pedir cintilografia. A forma por cadeia leve é doença hematológica com urgência própria e muda o serviço para onde o paciente vai.
- 12Em qualquer das três, registre por escrito no prontuário o que foi excluído e com que exame. Estas doenças são acompanhadas por décadas e por muitos médicos, e o próximo a ver o paciente decide melhor se souber o que já foi descartado.
As três lado a lado, nos eixos que mudam conduta
| Eixo | Hipertrófica | Dilatada | Restritiva |
|---|---|---|---|
| O que está errado no músculo | Contrai demais e relaxa mal; fibras desalinhadas e fibrose | Perdeu força de ejeção e se alongou para compensar | Perdeu complacência; aceita mal ser distendido |
| O que o ecocardiograma mostra | Parede de 15 mm ou mais sem outra causa, cavidade normal ou pequena | Cavidade aumentada, parede afinada, fração de ejeção reduzida | Cavidade normal, átrios muito aumentados, padrão restritivo de enchimento |
| Como costuma chegar | Sopro, síncope no esforço, parente que morreu de repente, ou rastreamento | Insuficiência cardíaca em quem não infartou nem tem valva doente | Congestão sistêmica com ascite desproporcional e fração de ejeção preservada |
| A pergunta que o interno tem de fazer | Há obstrução, há risco de morte súbita, e quem mais na família precisa ser visto | Qual é a causa, e ela tem tratamento próprio | É o miocárdio ou é o pericárdio que está rígido |
| O que mais muda o desfecho | Estratificar o risco e implantar desfibrilador em quem precisa | Achar a causa reversível e tratar a disfunção segundo a diretriz de insuficiência cardíaca | Chegar ao diagnóstico etiológico enquanto ele ainda muda o tratamento |
| Régua brasileira em uso | Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024, a primeira do tema no país | Não há documento brasileiro sobre a dilatada como entidade; a régua é a de insuficiência cardíaca, com a de Chagas para a forma chagásica | Não há documento brasileiro sobre a restritiva como entidade; o mais próximo é o posicionamento de amiloidose cardíaca de 2021 |
| Erro clássico | Chamar de estenose aórtica um sopro que aumenta ao levantar | Parar no diagnóstico sindrômico e não escrever a lista de causas | Rotular como insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e subir o diurético |
Os cortes numéricos, a fonte de cada um, e o que acontece na borda
| O que define | Corte | Fonte | O que muda se o valor cair exatamente na borda |
|---|---|---|---|
| Cardiomiopatia hipertrófica no adulto | Espessura diastólica de 15 mm ou mais em qualquer segmento, sem outra causa e sem dilatação | Diretriz brasileira de 2024, seção de ecocardiograma | Quinze exatos fecham o diagnóstico; catorze não fecham e pedem ressonância ou repetição do exame |
| Cardiomiopatia hipertrófica em familiar ou genótipo positivo | Espessura de 13 mm ou mais | Diretriz brasileira de 2024, mesma seção | O corte mais baixo só vale com o parente doente documentado ou a mutação identificada; sem isso volta para 15 mm |
| Cardiomiopatia hipertrófica na criança | Escore z acima de 2, medido com indexação para a superfície corporal | Diretriz brasileira de 2024, seção de ecocardiograma | Valor de corte único em milímetros não se aplica; usar 15 mm em criança superestima e subestima conforme o tamanho |
| Obstrução da via de saída | Gradiente máximo de 30 mmHg ou mais, em repouso ou provocado | Diretriz brasileira de 2024, seção de fisiopatologia | Trinta exatos classificam como obstrutiva; abaixo disso é preciso provocar antes de dizer que não há obstrução |
| Obstrução significativa | Gradiente de 50 mmHg ou mais, em repouso ou dinâmico | Diretriz brasileira de 2024, seção de fisiopatologia | É o valor que abre a discussão de redução septal em quem permanece sintomático apesar do tratamento clínico |
| Hipertrofia acentuada como fator de risco de morte súbita | Espessura septal de 28 mm ou mais | Diretriz brasileira de 2024, tabela de estratificação de risco | Vinte e oito é mais baixo que o corte de 30 mm com que o mesmo documento decide entre miectomia e alcoolização; o paciente de 29 mm é fator de risco e não é septo grosso para escolha de técnica |
| Fibrose extensa como fator isolado | Realce tardio em 15% ou mais da massa ventricular | Diretriz brasileira de 2024, algoritmo de desfibrilador | É o único parâmetro capaz de tirar da faixa de contraindicação um paciente sem nenhum outro fator e sem taquicardia ventricular não sustentada |
| Infecção crônica pelo Trypanosoma cruzi | Dois testes sorológicos reagentes, de princípios diferentes | Diretriz brasileira de Chagas de 2023, seção de interpretação de resultados | Resultado discordante não é diagnóstico nem exclusão: pede nova coleta com os dois testes |
Restritiva ou constritiva: onde as duas se separam
| Onde se olha | Aponta miocárdio rígido (restritiva) | Aponta pericárdio rígido (constritiva) |
|---|---|---|
| História | Doença sistêmica de depósito, gamopatia, neuropatia, túnel do carpo bilateral, história familiar | Pericardite prévia, tuberculose, radioterapia torácica, cirurgia cardíaca prévia |
| Espessura da parede ventricular | Aumentada, às vezes também do ventrículo direito | Normal; a espessura anormal está no pericárdio, não no músculo |
| Átrios | Muito aumentados, com frequência de forma acentuada e bilateral | Aumentados de forma mais modesta |
| Eletrocardiograma | Voltagem baixa ou desproporcional à espessura, pseudoinfarto, distúrbio de condução | Alterações inespecíficas; a voltagem baixa não é a marca |
| Imagem do pericárdio | Pericárdio de espessura normal | Espessamento e calcificação pericárdica são o achado que sustenta o diagnóstico |
| Deformação miocárdica | Deformação longitudinal global reduzida, com o padrão de preservação apical na amiloidose | Deformação longitudinal habitualmente preservada, porque o músculo não está doente |
| Exame que fecha | Pesquisa de gamopatia monoclonal, cintilografia com pirofosfato, ressonância, biópsia | Tomografia ou ressonância do pericárdio e cateterismo com registro simultâneo das câmaras |
| O que se ganha em acertar | Tratamento específico da doença de base, e a decisão de não operar | Pericardiectomia, que é potencialmente curativa e cujo detalhamento é do capítulo de pericardite aguda e tamponamento |
Desfibrilador na hipertrófica: a régua brasileira lida por faixa etária
| Situação do paciente | Até 40 anos | De 40 a 60 anos | Acima de 60 anos |
|---|---|---|---|
| Parada cardíaca reanimada por taquicardia ventricular sustentada ou fibrilação ventricular | Implante indicado, com o grau mais forte de recomendação | Implante indicado, com o grau mais forte de recomendação | Implante indicado, com o grau mais forte de recomendação |
| Pelo menos um fator de risco: síncope inexplicada, septo de 28 mm ou mais, morte súbita em parente até 50 anos, aneurisma apical, disfunção sistólica | Implante deve ser considerado | Implante deve ser considerado, em decisão compartilhada e discussão em centro de referência | Implante pode ser considerado |
| Sem esses fatores, mas com taquicardia ventricular não sustentada de episódios múltiplos, mais de 10 batimentos e 200 batimentos por minuto ou mais | Implante deve ser considerado | Implante pode ser considerado | Implante pode ser considerado |
| Sem fatores de risco e sem taquicardia ventricular não sustentada, mas com realce tardio em 15% ou mais da massa | Implante pode ser considerado | Implante pode ser considerado | Implante pode ser considerado |
| Sem fator de risco, sem taquicardia ventricular não sustentada e sem realce tardio extenso | Implante contraindicado | Implante contraindicado | Implante contraindicado |
| Papel da calculadora eletrônica de risco em 5 anos | Não se aplica abaixo dos 16 anos; existe modelo pediátrico próprio | Deve ser considerada como apoio à decisão compartilhada, acima dos 16 anos | Deve ser considerada como apoio à decisão compartilhada |
Conferência que não fecha, e é a primeira que o leitor encontra no capítulo: a diretriz brasileira de 2024 cita prevalência de um caso por 200 pessoas quando se incluem os portadores de variante patogênica sem fenótipo, e na mesma frase estima em cerca de 400 mil os brasileiros afetados. Com população nacional de aproximadamente 203,1 milhões, um em 200 dá 1.015.500 pessoas, e 400 mil corresponde a 406.200, isto é, a um em 500. O número impresso é o da régua antiga preso a uma frase sobre a régua nova, e a diferença entre as duas leituras é de duas vezes e meia.
Conferência que não fecha dentro de uma única tabela. Na tabela de estratificação de risco de morte súbita da diretriz de 2024, a primeira linha manda pesquisar disfunção sistólica como fração de ejeção menor que 50%, e as três linhas seguintes, que estratificam por faixa etária, escrevem fração de ejeção menor ou igual a 50%. O paciente com fração de ejeção de exatamente 50% não tem fator de risco pela primeira linha e tem pela terceira. Como a conduta na faixa até 40 anos é implantar desfibrilador com um único fator, a diferença entre as duas redações decide um implante.
Segunda discordância na mesma tabela, e pelo mesmo mecanismo: a primeira linha conta história familiar de morte súbita com menos de 50 anos, e as linhas por faixa etária contam morte súbita com idade menor ou igual a 50 anos. O parente que morreu aos 50 exatos entra por uma redação e não entra pela outra. Some-se a isso que a seção que descreve a calculadora eletrônica define a mesma variável como morte súbita em parente de primeiro grau antes dos 40 anos: são três limiares para o mesmo fator de risco dentro do mesmo documento. A conduta prática é anotar a idade exata do parente, e não a impressão de precocidade.
Resposta à pergunta que o leitor faria: qual é o corte de risco em 5 anos que a diretriz brasileira usa para indicar o desfibrilador? Nenhum. Os únicos cortes numéricos da calculadora que o documento imprime — baixo risco abaixo de 4%, moderado de 4% a menos de 6%, alto em 6% ou mais — aparecem na tabela de prescrição de atividade física, não na de desfibrilador. Na decisão de implante, a calculadora é recomendada como apoio à decisão compartilhada em maiores de 16 anos, sem limiar associado. Quem procurar um número para indicar o dispositivo não vai encontrá-lo nesse documento.
Conferência que não fecha entre duas seções da mesma diretriz: hipertrofia acentuada como fator de risco de morte súbita é definida como septo de 28 mm ou mais na tabela de estratificação, enquanto o algoritmo de escolha entre miectomia e alcoolização septal trabalha com a fronteira de 30 mm. Não são a mesma pergunta — uma é sobre risco, a outra sobre técnica —, mas o paciente de 29 mm cai numa classe por um critério e na outra pelo segundo, e vale saber disso antes de discutir o caso com quem usa réguas internacionais, que trabalham com 30 mm também para o risco.
Erro de dose por peso num documento oficial, e a conta é aritmética simples. O protocolo do Ministério da Saúde que governa a doença de Chagas fixa a dose pediátrica em 5 a 10 mg/kg/dia em duas tomadas diárias e, na mesma tabela, sugere esquemas por faixa de peso. As duas primeiras faixas fecham com precisão: de 2,5 a 5 kg, um comprimido de 12,5 mg duas vezes ao dia dá 25 mg/dia, o que é 10 mg/kg/dia no limite inferior e 5 no superior; de 5 a 10 kg, dois comprimidos duas vezes ao dia dão 50 mg/dia, de novo 10 e 5. A terceira faixa quebra o padrão: de 10 a 15 kg, três comprimidos de 12,5 mg três vezes ao dia dão 112,5 mg/dia, o que é 11,25 mg/kg/dia numa criança de 10 kg — acima do teto de 10 declarado na mesma linha. Com duas tomadas, como diz o cabeçalho da própria linha, seriam 75 mg/dia, ou seja, 7,5 e 5,0 mg/kg/dia, coerentes com as outras duas faixas.
Conferência que fecha com identidade exata, e vale conhecer porque resolve um problema prático de prescrição. O protocolo oferece dois esquemas de benznidazol para o adulto: 5 mg/kg/dia por 60 dias, ou, acima de 60 kg, 300 mg/dia pelo número de dias equivalente ao peso em quilogramas. Os dois entregam o mesmo total, e a identidade é algébrica: 5 mg/kg/dia vezes 60 dias são 300 mg por quilograma, exatamente o que resulta de 300 mg/dia vezes um número de dias igual ao peso. Para 70 kg, ambos dão 21.000 mg. A vantagem do segundo esquema é caber no comprimido, e é por isso que ele existe. Abaixo de 60 kg o total ainda fecha, mas a dose diária não: em 40 kg, 300 mg/dia são 7,5 mg/kg/dia, uma vez e meia a do primeiro esquema — por isso o texto do protocolo restringe o segundo esquema a quem pesa mais de 60 kg, condição que a tabela de posologia omite (a conta está em Doença de Chagas e leishmanioses, na apostila de Infectologia).
A mesma identidade tem um ponto em que deixa de valer, e o documento o assume explicitamente: o esquema estendido é limitado a 80 dias, mesmo em quem pesa mais de 80 kg. Um paciente de 100 kg receberia 30.000 mg pelo esquema por peso e recebe 24.000 mg pelo esquema estendido — 20% a menos. Aos 90 kg a diferença é de 11,1%. Não é erro de conta: é uma escolha de tolerabilidade que o protocolo faz e que o prescritor precisa saber que está fazendo.
A conta do comprimido para um adulto de 70 kg, contra a apresentação real. Benznidazol a 5 mg/kg/dia são 350 mg/dia, ou 3,5 comprimidos de 100 mg — em duas tomadas, 1,75 comprimido por vez; em três, 1,17. Nenhuma das duas frações existe no comprimido disponível. Pelo esquema alternativo, 300 mg/dia são três comprimidos inteiros, um em cada tomada, por 70 dias. Amiodarona, na dose que o mesmo protocolo indica para quem já teve parada ou taquicardia ventricular sustentada, sai da ampola de 3 mL a 50 mg/mL: 300 mg são duas ampolas, ou 6 mL, e a dose suplementar de 150 mg é uma ampola.
A conta do comprimido para o verapamil, e o achado que ela produz. A diretriz de 2024 prescreve dose inicial de 40 mg três vezes ao dia, até o máximo de 480 mg/dia. As duas fontes brasileiras conferidas — o elenco nacional de medicamentos essenciais na edição de 2024 e a bula profissional do genérico — trazem comprimidos de 80 mg, de 120 mg de ação prolongada e de 240 mg de liberação retardada, além da solução injetável de 2,5 mg/mL. Não há apresentação de 40 mg em nenhuma das duas listas: a dose inicial recomendada corresponde a meio comprimido revestido de 80 mg. O teto de 480 mg/dia, esse sim, fecha redondo: seis comprimidos de 80 mg, quatro de 120 ou dois de 240.
O que o Sistema Único de Saúde fornece, por busca exata na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 e não por impressão. Benznidazol está no elenco, em comprimidos de 12,5 mg e de 100 mg, pelo componente estratégico. Verapamil está, em comprimidos de 80 mg e 120 mg e em solução injetável, pelo componente básico. Propranolol está, em comprimidos de 10 mg e 40 mg, pelo componente básico — e vale registrar que a diretriz de 2024 recomenda betabloqueador como base do tratamento sem fixar dose. Tafamidis está, em cápsulas de 61 mg e como tafamidis meglumina de 20 mg, pelo componente especializado. Duas ausências importam: disopiramida e mavacamteno, ambos nomeados pela diretriz brasileira de 2024 como opções de tratamento, têm zero ocorrências no documento.
Erro de transcrição numa lista oficial, com consequência de elegibilidade. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 descreve a incorporação do tafamidis 61 mg como destinada a pacientes com cardiopatia amiloide associada à transtirretina, selvagem ou hereditária, classe funcional da New York Heart Association II e II, acima de 60 anos. Uma classe repetida não é uma faixa: a linha, como impressa, não diz qual é a segunda classe contemplada. Três espelhos independentes do mesmo documento, comparados depois de normalizar espaço e hifenização, trazem a frase idêntica, o que exclui a hipótese de artefato de extração. O documento norteador para a faixa correta é o relatório de recomendação nº 899 e a Portaria Sectics/MS nº 26, de 19 de junho de 2024, citados na própria linha.
Conferência que não fecha na epidemiologia da doença de Chagas, e é uma soma de categorias. A diretriz de 2023 informa que cerca de 63% dos casos mundiais estão em países da Iniciativa dos Países do Cone Sul, e ilustra com Argentina, com 1,5 milhão, Brasil, com 1,2 milhão, México, com 880 mil, e Bolívia, com 610 mil. O México não pertence à iniciativa do Cone Sul. Somando só os três países que pertencem, chega-se a 3,31 milhões; a faixa de 63% sobre a estimativa mundial de 6 a 7 milhões vai de 3,78 a 4,41 milhões. A faixa só é alcançada quando se inclui o México na conta, isto é, quando se conta fora da iniciativa que a frase nomeia.
Segunda conferência de epidemiologia que não fecha, e é de arredondamento com consequência de leitura. A mesma seção afirma que a estimativa mundial de 6 a 7 milhões de infectados representa redução de aproximadamente 65% em relação aos 17 milhões de 1980. A redução de 17 para 6 milhões é de 64,7%; a de 17 para 7 milhões é de 58,8%. O número citado só vale no extremo otimista da própria faixa, e a diferença entre os extremos é de quase seis pontos percentuais.
Conferência que fecha, e que vale como argumento de conversa com o paciente. A diretriz de 2023 registra progressão anual de 1,9% da forma indeterminada para a cardiomiopatia, e em outra seção atribui à forma indeterminada um risco de 30% de desenvolver cardiomiopatia. As duas afirmações são compatíveis: a 1,9% ao ano, o risco acumulado atinge 30% em cerca de 18,6 anos. Isso explica por que a doença aparece na quinta e sexta décadas em quem se infectou na infância, e por que a pessoa assintomática de hoje precisa de acompanhamento e não de alta.
Conferência que fecha no escore de acidente vascular cerebral. O escore desenvolvido no Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas atribui 2 pontos à disfunção sistólica do ventrículo esquerdo de qualquer grau ou localização, e 1 ponto a cada um destes: aneurisma apical, alteração primária da repolarização ventricular ao eletrocardiograma e idade acima de 48 anos. O total possível é 5, e a soma dos componentes confere. Na faixa de 4 a 5 pontos, os autores estimaram incidência de acidente vascular cerebral de 4,4% ao ano contra 2,0% ao ano de sangramento grave com varfarina — uma razão de 2,2 a favor de anticoagular. A própria diretriz de 2023 registra que o escore precisa ser revisitado para considerações científicas mais atualizadas.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo se divide em três, e por isso o primeiro marco não é de tratamento: é de classificação. Errar o grupo faz prescrever a droga que piora o paciente, e o exemplo mais caro é dar vasodilatador ou diurético em dose alta a quem tem obstrução dinâmica.
O que não está aqui, e é intencional: o tratamento da disfunção sistólica com as quatro classes de fármaco e a titulação pertence ao capítulo sobre insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida, e o manejo da descompensação, ao capítulo sobre a forma aguda descompensada. A dilatada é a causa; o tratamento da disfunção que ela produz mora naqueles dois capítulos e não se repete neste.
Há também uma ordem entre os marcos que vale ser respeitada. Na hipertrófica, a estratificação de risco e o rastreamento familiar não vêm depois do alívio sintomático: vêm junto, porque o paciente aliviado é o que menos volta. Na dilatada, a busca de causa corre em paralelo ao tratamento da disfunção, e não depois dele. Na restritiva, o diagnóstico etiológico precede a otimização de dose, porque prescrever no escuro aqui produz hipotensão e não melhora.
Primeira consulta — antes de qualquer receita, decidir o grupo
Com o laudo na mão, responda a três perguntas na ordem: a cavidade está dilatada? a parede está espessa sem causa que a justifique? há obstrução de via de saída? A terceira só se pergunta se a segunda for sim, e é a que muda a prescrição de forma imediata. Registre no prontuário qual dos três grupos você está assumindo e com que dado, porque essa frase vai orientar todo médico que vier depois.
Prescrição- Ecocardiograma transtorácico com avaliação de gradiente de via de saída em repouso e com manobra provocativa, escrito assim no pedido
- Eletrocardiograma de 12 derivações em todos, e Holter de 24 horas quando a hipótese é hipertrófica ou doença de Chagas
- Duas sorologias de princípios diferentes para doença de Chagas em todo paciente com ventrículo dilatado e história epidemiológica compatível
- Pesquisa de gamopatia monoclonal — eletroforese de proteínas com imunofixação em soro e urina e cadeias leves livres séricas — quando a parede é espessa com sinais de alerta de infiltração
Hipertrófica sintomática — o alívio, e o que não se prescreve
O betabloqueador é a base do tratamento clínico, indicado para alívio sintomático de angina e dispneia tanto na forma obstrutiva quanto na não obstrutiva, e o benefício vem do aumento do tempo diastólico, da melhora da perfusão coronariana e da redução do consumo de oxigênio. Quando ele é contraindicado ou ineficaz, entram verapamil ou diltiazem, com monitoramento rigoroso em quem tem obstrução grave. Note que a diretriz brasileira recomenda a classe sem fixar dose de betabloqueador, o que deixa a titulação ao julgamento clínico, guiada por sintoma e frequência. Duas situações merecem nome próprio. A primeira é o paciente sintomático sem obstrução: nele o alvo é a disfunção diastólica e a isquemia microvascular, e não o gradiente, de modo que a expectativa de resposta é menor e a escalada de dose tem menos a oferecer. A segunda é o sintomático refratário com obstrução, em que a diretriz posiciona um inibidor da miosina cardíaca como alternativa à terapia de redução septal quando a fração de ejeção está em 55% ou mais — fármaco que, como a disopiramida, não consta do elenco do Sistema Único de Saúde, o que na prática brasileira transfere esse paciente mais cedo para a discussão de miectomia ou alcoolização em centro de referência.
Prescrição- Betabloqueador titulado por sintoma e frequência cardíaca; propranolol está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais em comprimidos de 10 mg e 40 mg pelo componente básico
- Verapamil como alternativa: dose inicial de 40 mg três vezes ao dia, até 480 mg/dia, lembrando que 40 mg correspondem a meio comprimido de 80 mg
- Cautela com verapamil em obstrução grave, com gradiente de 100 mmHg ou mais, e em elevação da pressão sistólica da artéria pulmonar
- Evitar em quem tem obstrução: vasodilatador arterial, diurético em dose alta e desidratação; todos reduzem o volume ventricular e agravam a obstrução
- Orientar hidratação, refeições menores e cautela com álcool, porque os três alteram o gradiente ao longo do dia
Hipertrófica — a conversa sobre esforço físico, na mesma consulta
A prescrição de atividade física não é liberação nem proibição em bloco: a diretriz brasileira recomenda estratificar o risco com escores específicos e com os parâmetros observados no esforço, e a partir daí sugerir alta, moderada ou baixa intensidade. Os eixos que a tabela usa são o escore de risco de morte súbita em 5 anos, o gradiente de via de saída, a resposta da pressão arterial ao exercício e a arritmia induzida pelo esforço. O paciente assintomático com boa capacidade de exercício, escore abaixo de 4%, sem gradiente e com resposta pressórica normal fica no extremo permissivo.
Prescrição- Teste ergométrico com registro da resposta pressórica; incremento da pressão sistólica menor que 20 mmHg é resposta atenuada e queda no esforço é o pior cenário
- Escore de risco de morte súbita em 5 anos: abaixo de 4% é baixo risco, de 4% a menos de 6% é moderado, 6% ou mais é alto
- Gradiente de via de saída ausente ou abaixo de 30 mmHg em repouso e esforço no cenário permissivo; acima de 50 mmHg no restritivo
- Registrar por escrito a intensidade sugerida e revisar a decisão a cada reavaliação, porque o gradiente e a arritmia mudam com o tempo
Hipertrófica — quem recebe desfibrilador
A decisão tem três degraus. Quem já teve parada cardíaca reanimada por taquicardia ventricular sustentada ou fibrilação ventricular recebe o dispositivo com a recomendação mais forte, e isso não depende de idade nem de escore. Quem tem pelo menos um fator de risco é estratificado por faixa etária, com a força da recomendação caindo conforme a idade sobe. Quem não tem fator nenhum, nem taquicardia ventricular não sustentada qualificada, nem realce tardio extenso, tem contraindicação — e essa é a parte da régua que mais se esquece, porque implantar sem indicação não é conduta neutra. Decidido o implante, ainda há a escolha do sistema, e ela não é detalhe: em quem está em ritmo sinusal estável, com condução preservada e indicação de prevenção primária, o dispositivo transvenoso de eletrodo único e o subcutâneo são os recomendados, principalmente em indivíduos mais jovens, pelo menor risco de complicações a longo prazo. O transvenoso tem a vantagem de estimular em caso de bradicardia acentuada e a desvantagem do eletrodo intravascular; o subcutâneo é mais fácil de remover, mas é maior, não serve a massa corpórea muito baixa, tem menor longevidade de bateria e maior risco de choque inapropriado.
Prescrição- Pesquisar em toda avaliação clínica: parada cardíaca abortada, taquicardia ou fibrilação ventricular, síncope inexplicada, morte súbita em parente com até 50 anos, septo de 28 mm ou mais, aneurisma apical e disfunção sistólica
- Em caso de dúvida na indicação, indicar monitorização prolongada para pesquisa de taquicardia ventricular não sustentada e ressonância para realce tardio e aneurisma apical
- Usar a calculadora eletrônica de risco em 5 anos como apoio à decisão compartilhada em maiores de 16 anos, sabendo que a diretriz não lhe atribui limiar de indicação
- Encaminhar a discussão de terapias avançadas e de redução septal a centro de referência, com decisão em equipe multidisciplinar
- Registrar a decisão compartilhada, incluindo o que foi dito ao paciente sobre as desvantagens de longo prazo do dispositivo
Hipertrófica — abrir o rastreamento da família antes de o paciente sair
Esta é a intervenção deste capítulo que alcança mais gente do que o paciente sentado à sua frente, e ela se perde quando fica para depois. O rastreamento se faz com avaliação clínica, eletrocardiograma e ecocardiograma, e a periodicidade depende da idade e da presença de variante patogênica. Quem tem a variante e não tem a doença entra em vigilância com prognóstico benigno, sem restrição a esporte competitivo e sem indicação de desfibrilador para prevenção primária — e explicar isso evita que uma família inteira seja transformada em doente.
Prescrição- Listar nominalmente os parentes de primeiro grau e registrar quem já foi avaliado e quando
- Seguimento clínico, eletrocardiograma e ecocardiograma a cada 1 a 2 anos em crianças e adolescentes até os 30 anos; a cada 3 a 5 anos a partir da idade adulta
- Em assintomáticos com variante patogênica ou início precoce de sinais e sintomas na família, ecocardiograma a cada 1 ou 2 anos; sem essas duas condições, a cada 2 ou 3 anos
- Ressonância nos casos duvidosos, quando o ecocardiograma não decide
- Considerar teste genético no caso índice para facilitar a identificação de familiares em risco; quando o caso índice não tem variante patogênica, o teste genético familiar não é recomendado
Dilatada — achar a causa enquanto se trata a disfunção
As duas frentes correm em paralelo e nenhuma espera a outra. O tratamento da disfunção sistólica começa segundo a diretriz de insuficiência cardíaca e está descrito no capítulo próprio desta apostila. A busca de causa é a que morre na enfermaria, e o que a salva é escrevê-la como lista na admissão. Algumas causas revertem a disfunção quando tratadas, e nenhuma reverte se ninguém a procurar. Disso saem duas consequências práticas. Uma delas: achar uma causa reversível cria uma expectativa mensurável, porque depois de retirada a causa e otimizado o tratamento, a fração de ejeção deve ser reavaliada em meses, e o retorno dos números funciona como confirmação tardia daquela etiologia. A segunda é que a etiologia muda quem mais precisa ser visto: na forma chagásica há uma família com a mesma exposição, e nas dilatadas de causa genética há parentes de primeiro grau que também deveriam ser avaliados — a mesma lógica de rastreamento que a hipertrófica torna óbvia vale, em menor grau, aqui.
Prescrição- Lista escrita na admissão: doença de Chagas, álcool, quimioterápico cardiotóxico, forma periparto, doença coronária, valvopatia operável, pressão arterial nunca controlada, taquiarritmia sustentada e disfunção da tireoide
- Na forma alcoólica, orientar abstinência completa, informando que ela pode produzir melhora substancial da função ventricular; em quem não consegue abstinência, a redução traz benefício parcial
- Quantificar o consumo em doses por semana, e não perguntar apenas se bebe; transaminases elevadas identificam quem tem maior risco
- Registrar a data do parto em toda mulher em idade fértil com ventrículo dilatado, porque sem a linha do tempo a forma periparto não é reconhecida
- Perguntar o esquema quimioterápico recebido, e não apenas se houve câncer
Chagas — estadiar, tratar a infecção quando cabe, e proteger do êmbolo
Com as duas sorologias positivas, o estágio evolutivo organiza a conduta: estágio A é a forma indeterminada, sem doença estrutural cardíaca ou digestiva ao eletrocardiograma e ao estudo radiológico, com risco de 30% de desenvolver cardiopatia; B1 tem doença estrutural com função sistólica global normal e sem sintomas; B2 tem disfunção sistólica sem sintomas; C tem sintomas prévios ou atuais de insuficiência cardíaca; D tem sintomas em repouso refratários ao tratamento otimizado. O tratamento etiológico tem mais lugar quanto mais cedo no estágio, e a decisão na cardiopatia estabelecida é discutida no bloco de divergências. O protocolo do Ministério da Saúde recorta esses cenários com critérios que dá para conferir na beira do leito: trata-se a fase aguda em qualquer idade; trata-se a forma crônica indeterminada ou digestiva em crianças, adolescentes e adultos com menos de 50 anos; a partir dos 50 anos não se trata de rotina, decidindo com o paciente quando não houver contraindicação; na forma cardíaca inicial — assim definida quando não há insuficiência cardíaca nem arritmia grave, o eletrocardiograma está alterado e a fração de ejeção passa de 40% — a decisão é compartilhada; e na doença avançada não se trata, em nenhuma faixa etária. As duas metades da doença cardíaca são separadas por critérios numéricos, e é isso que torna a decisão auditável.
Prescrição- Benznidazol no adulto: 5 mg/kg/dia por 60 dias, ou, acima de 60 kg, 300 mg/dia pelo número de dias equivalente ao peso, limitado a 80 dias; comprimidos de 12,5 mg e 100 mg, componente estratégico; quem trata e quem não trata, em Doença de Chagas e leishmanioses, na apostila de Infectologia
- Benznidazol na criança: 5 a 10 mg/kg/dia em duas tomadas por 60 dias, com dose máxima diária de 300 mg; ultrapassando 300 mg/dia, estender o tempo até completar o total calculado para 60 dias
- Amiodarona de rotina em quem já teve parada cardíaca ou taquicardia ventricular sustentada; considerar na taquicardia ventricular não sustentada de alto risco, na dose de 200 a 400 mg ao dia por via oral
- Não usar amiodarona na taquicardia ventricular não sustentada de baixo risco nem em extrassístoles ventriculares não complexas
- Cautela com betabloqueador: nesta etiologia o teto tolerado fica com frequência abaixo do alcançado nos ensaios de outras cardiopatias, pela bradicardia e pelos bloqueios que ela produz
- Avaliar anticoagulação pelo escore específico: 2 pontos para disfunção sistólica de qualquer grau, 1 ponto para aneurisma apical, 1 para alteração primária de repolarização e 1 para idade acima de 48 anos
- Encaminhar para avaliação de marca-passo quando houver bradiarritmia ou bloqueio sintomático, lembrando o destaque que o documento nacional de dispositivos dá à miocardite crônica desta doença entre as causas infecciosas de bloqueio no país
Restritiva — separar do pericárdio, e não medicar no escuro
Antes de tratar, responda a pergunta de fronteira, porque a resposta muda o destino do paciente: se quem está rígido é o pericárdio, a doença é potencialmente curável por cirurgia e o caminho é o do capítulo de pericardite aguda e tamponamento. Se é o miocárdio, o próximo passo é etiológico. Na suspeita de amiloidose, a ordem importa: pesquisa de gamopatia monoclonal primeiro, porque a forma por cadeia leve é uma doença hematológica com urgência própria; só depois a cintilografia, e com o traçador certo escrito no pedido.
Prescrição- Pesquisa de gamopatia monoclonal antes da cintilografia: eletroforese com imunofixação em soro e urina, e cadeias leves livres séricas
- Cintilografia com tecnécio-99m pirofosfato, que é o único traçador ósseo disponível no Brasil para essa finalidade; o metilenodifosfonato tem baixa sensibilidade e não deve ser usado
- Imagem do pericárdio — tomografia ou ressonância — sempre que a fisiologia for restritiva e a espessura da parede ventricular estiver normal
- Diurético na menor dose que controla a congestão, sabendo que o débito depende de pressão de enchimento alta e que a redução excessiva de volume derruba a pressão arterial
- Cautela com as classes consagradas na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, porque a intolerância a elas é ela própria um sinal de alerta de amiloidose
- Encaminhar a forma por transtirretina para avaliação de terapia específica: tafamidis 61 mg em cápsula está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais pelo componente especializado, com o protocolo das amiloidoses hereditárias como documento norteador
Como saber se está funcionando
Estas doenças não se reavaliam em horas: reavaliam-se em consultas, ao longo de anos, e essa é a diferença de ritmo que o interno vindo da emergência estranha. O que segue são os parâmetros que valem a pena registrar de forma que o próximo médico possa comparar.
Um princípio organiza todos eles: anote número, e não impressão. Espessura em milímetros, gradiente em milímetros de mercúrio, diâmetro diastólico, idade do parente que morreu, dose e data. Doença acompanhada por décadas se perde em prontuário escrito por adjetivos.
Esperado: Estabilidade ou melhora com o tratamento instituído. Na hipertrófica obstrutiva, espera-se melhora de dispneia e angina com betabloqueador; na dilatada, melhora com o tratamento da disfunção; na restritiva, controle da congestão com a menor dose de diurético.
Se não melhora: Na hipertrófica, sintoma refratário em classe funcional III ou IV apesar de tratamento medicamentoso otimizado é o que abre a discussão de terapia de redução septal, e essa discussão pertence a centro de referência. Na restritiva, piora com aumento de diurético sugere que o débito depende da pressão de enchimento e que se está espremendo demais.
Esperado: Redução do gradiente com betabloqueador ou bloqueador de canal de cálcio não diidropiridínico, e estabilidade nas reavaliações seguintes. Lembre que o valor flutua com hidratação, posição, alimentação e álcool, e que um único valor não descreve o paciente.
Se não melhora: Gradiente que permanece em 50 mmHg ou mais com sintoma persistente apesar de tratamento otimizado é a situação em que se discute redução septal. Um gradiente que sobe sem explicação pede que se procure o que mudou: diurético novo, vasodilatador introduzido por outro médico, desidratação, perda de peso.
Esperado: Que a lista seja percorrida inteira a cada vez: parada cardíaca abortada, arritmia ventricular, síncope inexplicada, história familiar de morte súbita, espessura septal, aneurisma apical e fração de ejeção. O risco não é atributo fixo do paciente; ele muda com o tempo, com a idade e com o que aparece na família.
Se não melhora: O aparecimento de um fator novo reabre a decisão sobre desfibrilador, e a faixa etária em que o paciente está naquele momento muda a força da recomendação. Um paciente que não tinha indicação aos 35 anos pode ter aos 38, e o contrário também acontece — a mesma lista pesa menos depois dos 60.
Esperado: Na dilatada com causa reversível tratada — álcool suspenso, taquiarritmia controlada, tireoide compensada —, recuperação parcial ou completa é o desfecho que se persegue, e ela confirma a posteriori qual era a causa. Na hipertrófica, espera-se estabilidade em valores normais ou altos.
Se não melhora: Na hipertrófica, queda da fração de ejeção para menos de 50% muda o paciente de categoria: entra na lista de fatores de risco de morte súbita, passa a receber tratamento medicamentoso guiado pelas diretrizes de insuficiência cardíaca, e a descontinuação de inotrópicos negativos como verapamil ou diltiazem entra em discussão. Na forma não obstrutiva com disfunção e insuficiência cardíaca avançada, o paciente é candidato potencial a transplante.
Esperado: Ritmo sinusal mantido. Na hipertrófica, a manutenção do ritmo sinusal é a estratégia ideal, porque a perda da contração atrial piora a classe funcional e aumenta a chance de internação. Na doença de Chagas, espera-se que o distúrbio de condução não progrida.
Se não melhora: Fibrilação atrial na hipertrófica anticoagula independentemente do escore habitual de risco tromboembólico, e este é um dos raros cenários em que a regra habitual do escore fica de fora. Bradiarritmia ou bloqueio sintomático na doença de Chagas é avaliação de marca-passo, e não ajuste de dose.
Esperado: Que a cada retorno haja um parente a mais avaliado, até a lista se esgotar, e que os já avaliados estejam dentro do intervalo devido — 1 a 2 anos em crianças e adolescentes até os 30 anos, 3 a 5 anos a partir da idade adulta.
Se não melhora: Quando a família não comparece, o obstáculo costuma ser prático e não de recusa: distância, horário de trabalho, medo do resultado. Vale perguntar qual é o obstáculo e resolver o que for resolvível, porque o rastreamento que não acontece é a única parte deste capítulo cujo custo recai sobre quem ainda está saudável.
Esperado: Conclusão do esquema. O protocolo do Ministério da Saúde registra frequência de eventos adversos em torno de 53% com o benznidazol, com destaque para parestesias e artralgias, o que faz do acompanhamento próximo parte do tratamento e não cortesia.
Se não melhora: Intolerância importante é a situação em que o nifurtimox entra como alternativa, e ele é solicitado por via específica ao Ministério da Saúde, não retirado na farmácia básica. Interromper por conta própria no meio do esquema é o desfecho que o acompanhamento existe para evitar.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mais vezes atrasa o diagnóstico da hipertrófica em jovem, e ele tem consequência imediata porque o tratamento é diferente e algumas condutas usadas na valvopatia pioram a obstrução dinâmica. Um paciente rotulado como sopro inocente ou estenose leve sai sem estratificação de risco de morte súbita e sem rastreamento familiar.
Como pegar a tempo: Ausculte durante a manobra, e não antes nem depois. Peça ao paciente para levantar rápido do decúbito ou fazer Valsalva, mantendo o estetoscópio no lugar. Sopro que aumenta com a queda do retorno venoso desloca a suspeita para a obstrução dinâmica. E lembre que a ausência de sopro não afasta: um terço dos pacientes não tem obstrução em nenhuma condição.
O dano: O laudo volta descritivo e o paciente é classificado como não obstrutivo por falta de provocação, não por ausência de obstrução. A classificação errada muda o tratamento medicamentoso, retira da mesa a discussão de redução septal e altera a prescrição de atividade física, que usa o gradiente como um de seus eixos.
Como pegar a tempo: Escreva no pedido, com essas palavras, que se quer avaliação da via de saída em repouso e com manobra provocativa. Quando o gradiente em repouso for ausente ou menor que 30 mmHg, a provocação é o que responde à pergunta, e ela pode ser Valsalva, ortostatismo ou exercício.
O dano: Nas duas direções o dano é real. Rotular por um resultado isolado cria um paciente com diagnóstico crônico que pode não ter a doença — e entre doadores excluídos por triagem, de 20% a 30% não têm a infecção confirmada. Afastar por um resultado isolado devolve à rua alguém que precisaria de estadiamento e acompanhamento por décadas.
Como pegar a tempo: Peça sempre dois testes de princípios diferentes e leia o par. Dois reagentes confirmam, dois não reagentes afastam, e resultado discordante pede nova coleta com os dois testes. Comunique o resultado de triagem como triagem, e não como diagnóstico.
O dano: É o erro que mata a investigação da restritiva, e ele é confortável porque os números batem: fração de ejeção preservada, congestão, paciente idoso. O rótulo encerra a investigação exatamente onde ela deveria começar, e leva à perda das duas saídas que existiam — o tratamento específico da doença de base e, se for o pericárdio, a cirurgia.
Como pegar a tempo: Diante de congestão sistêmica desproporcional, olhe três coisas antes de aceitar o rótulo: o tamanho dos átrios contra o do ventrículo, a relação entre a voltagem do eletrocardiograma e a espessura da parede, e a história de pressão arterial. Anti-hipertensivo que precisou ser suspenso em quem sempre foi hipertenso é o dado que mais barato reabre o caso.
O dano: Inverter a ordem produz dois danos distintos. O primeiro é diagnóstico: a captação do traçador ósseo só permite o diagnóstico não invasivo da forma por transtirretina depois de excluída a gamopatia. O segundo é de tempo: a forma por cadeia leve é uma doença hematológica com urgência própria, e o atraso custa prognóstico.
Como pegar a tempo: Peça primeiro eletroforese de proteínas com imunofixação em soro e urina e dosagem de cadeias leves livres séricas. Só depois a cintilografia, e escrevendo no pedido que o traçador é o pirofosfato marcado com tecnécio-99m — porque o metilenodifosfonato, que é o traçador da cintilografia óssea comum, tem baixa sensibilidade para esta finalidade.
O dano: É a perda mais silenciosa deste capítulo, porque ninguém a percebe acontecendo. A doença é autossômica dominante, e o caso índice é a única porta de entrada que os parentes têm para um rastreamento que pode identificar quem vai morrer subitamente antes que isso aconteça. A consulta que não abre essa porta deixa o risco inteiro em quem não sabe que o tem.
Como pegar a tempo: Faça a lista nominal de parentes de primeiro grau ainda na primeira consulta e registre-a no prontuário como parâmetro a ser revisto em cada retorno. Explique que o rastreamento inicial é clínico, com eletrocardiograma e ecocardiograma, e que quem tem a variante sem a doença tem prognóstico benigno — porque essa informação é o que faz a família comparecer em vez de fugir do assunto.
O que dizer ao paciente e à família
Três conversas muito diferentes moram neste capítulo: a que se tem com um jovem saudável que acabou de descobrir que pode morrer de repente, a que se tem com quem descobriu uma infecção adquirida na infância, e a que se tem com quem recebeu um diagnóstico raro numa idade em que já se espera pouco da medicina. As três têm em comum a necessidade de dizer o risco sem transformar a pessoa em inválido.
Contar a um jovem que ele tem uma doença que pode causar morte súbita
“O exame mostrou que o músculo do seu coração é mais grosso do que deveria, e isso tem um nome e um acompanhamento. A maior parte das pessoas com isso vive uma vida normal, e é isso que a gente espera para você. Mas existe um grupo menor que tem risco de arritmia grave, e o desmaio que você teve jogando bola é justamente o sinal que faz a gente precisar olhar isso com cuidado. Vamos fazer alguns exames para saber em que grupo você está, e enquanto isso eu preciso que você não volte a jogar.”
Não diga: Evite duas frases opostas e igualmente ruins. Não diga que não é nada, porque produz o paciente que some do seguimento. E não diga que ele pode morrer a qualquer momento, porque produz o paciente que abandona a vida — e a maioria evolui bem. Evite também prometer o resultado dos exames antes de tê-los.
Suspender esporte por tempo indeterminado em quem vive disso ou vive para isso
“Eu sei o que isso significa para você, e não estou pedindo para sempre: estou pedindo até a gente saber o tamanho do risco. A decisão sobre atividade física nessa doença não é sim ou não, é de intensidade, e ela depende de coisas que a gente ainda vai medir — o quanto o coração aperta a saída do sangue, como a sua pressão responde ao esforço, se aparece arritmia quando você se exercita. Quando eu tiver esses números, a gente conversa de novo e decide junto.”
Não diga: Evite a proibição sem prazo e sem critério, porque ela não é cumprida. Evite também generalizar para toda a família: quem tem a variante genética sem a doença não tem restrição a esporte competitivo, e dizer o contrário cria uma proibição que a régua não sustenta.
Pedir que o paciente traga a família para ser examinada
“Essa doença passa de pai e mãe para filhos, e cada filho tem em média metade de chance de ter herdado. Isso quer dizer que seus irmãos, seus pais e seus filhos precisam ser examinados, mesmo que estejam se sentindo muito bem — e é exatamente por estarem bem que vale a pena. O exame é simples: consulta, eletrocardiograma e ecocardiograma. Muita gente vai fazer e não ter nada, e quem tiver descobre cedo, que é quando a gente consegue proteger.”
Não diga: Evite entregar isso como recado para o paciente transmitir e sair. Escreva os nomes, ofereça o encaminhamento e marque de revisar a lista no retorno. Evite também a palavra hereditário sem explicação: para muita família ela soa como sentença, e o que se está oferecendo é o contrário disso.
Dizer a alguém que tem doença de Chagas, décadas depois da infecção
“O exame mostrou que o senhor teve contato com o parasita da doença de Chagas, provavelmente ainda criança, lá onde o senhor morava. Isso não é uma doença que o senhor pegou agora, e não passa de pessoa para pessoa no convívio. O que a gente precisa saber agora é se ela mexeu com o seu coração e o quanto, e para isso servem o eletrocardiograma e o ecocardiograma que eu vou pedir. Muita gente com esse exame positivo nunca desenvolve problema no coração.”
Não diga: Evite tratar o resultado da triagem como diagnóstico fechado antes do segundo teste. Evite também o tom de culpa retrospectiva — a pessoa não escolheu a casa em que nasceu — e evite dizer que não há nada a fazer, porque há estadiamento, acompanhamento, prevenção de embolia e, em parte dos casos, tratamento da infecção.
Explicar por que o remédio da pressão foi retirado, e não trocado
“A senhora ficou anos tomando remédio para baixar a pressão, e agora a pressão está baixa sem remédio nenhum. Isso não é uma boa notícia disfarçada: é um sinal de que o coração está com dificuldade de encher, e por isso não consegue mandar sangue com força. Se eu insistir em baixar mais, a senhora vai desmaiar. O que a gente precisa descobrir agora é por que o músculo ficou desse jeito, e existem exames que respondem isso.”
Não diga: Evite deixar a impressão de que a hipertensão melhorou sozinha, porque a paciente vai contar isso ao próximo médico como boa evolução. Registre no prontuário que a queda de pressão é sintoma e não melhora.
Oferecer o tratamento etiológico da doença de Chagas quando a decisão é compartilhada
“Existe um remédio que ataca o parasita. Ele é tomado por 60 dias, e cerca de metade das pessoas tem algum efeito colateral, principalmente formigamento e dor nas juntas — a maioria consegue completar. O que os estudos mostram é que ele reduz o parasita no sangue; o que eles não mostraram com clareza é que, em quem já tem o coração afetado como o senhor, ele mude o rumo da doença do coração. Por isso essa decisão é sua junto comigo, e não uma ordem médica.”
Não diga: Evite apresentar o tratamento como cura, e evite apresentá-lo como inútil. As duas descrições estão erradas, e a segunda é a que faz o paciente recusar sem entender o que está recusando. Evite também prometer o remédio antes de confirmar a disponibilidade, porque ele é distribuído por fluxo próprio.
Explicar por que vai pedir um exame de sangue de proteína antes do exame do coração
“A suspeita aqui é de uma doença em que uma proteína se deposita dentro do músculo do coração e o deixa duro. Existem tipos diferentes dessa proteína, e eles têm tratamentos e urgências diferentes: um deles vem da medula óssea e precisa ser descartado primeiro, porque se for esse o caso a senhora precisa de um hematologista rápido. Por isso o exame de sangue vem antes do exame de imagem do coração — não é burocracia, é ordem.”
Não diga: Evite a palavra rara como sinônimo de sem tratamento. Evite também antecipar qual tipo é antes do resultado, porque a diferença entre eles muda tudo o que se vai dizer depois.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Vinte e oito milímetros — Sociedade Brasileira de Cardiologia, diretriz de cardiomiopatia hipertrófica de 2024
A tabela de estratificação de risco de morte súbita e implante de desfibrilador define hipertrofia acentuada como espessura septal de 28 mm ou mais, e repete o valor nas três linhas que estratificam por faixa etária. É o corte que o documento brasileiro manda pesquisar em toda avaliação clínica, ao lado de síncope inexplicada, história familiar de morte súbita, aneurisma apical e disfunção sistólica.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e202400415, Tabela 18
Trinta milímetros — o mesmo documento, no algoritmo de escolha da terapia de redução septal, e as réguas internacionais que ele cita
O algoritmo que decide entre miectomia cirúrgica e alcoolização septal trabalha com a fronteira de 30 mm: septo acima de 30 mm favorece a miectomia, septo abaixo de 30 mm entra na comparação com a alcoolização. É também o valor com que as referências internacionais citadas ao longo do documento tratam a hipertrofia maciça, inclusive no contexto de risco de morte súbita.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, Figura 17, e as referências internacionais ali arroladas
Nenhum corte — a espessura como variável contínua, posição embutida na calculadora que a mesma diretriz recomenda
A calculadora de risco em 5 anos que o documento recomenda como apoio à decisão compartilhada não usa limiar de espessura: ela entra com a espessura máxima da parede como variável contínua, ao lado de idade, diâmetro atrial esquerdo, gradiente máximo, síncope inexplicada, taquicardia ventricular não sustentada e história familiar. Pela mesma lógica, a seção de história natural lista a espessura máxima entre os fatores relacionados à morte súbita sem lhe atribuir valor de corte.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, seções 1.3 e 4.2.6
A divergência só aparece na faixa estreita entre 28 e 30 mm, e é aí que ela deve ser resolvida — em qualquer valor fora dela as três posições concordam. Diante de um paciente nessa faixa, não decida pelo número isolado: veja quantos outros fatores ele tem, porque a própria diretriz registra que múltiplos fatores pesam a favor do implante em cada uma das situações do algoritmo. Veja a idade, porque abaixo de 40 anos um único fator já faz o implante dever ser considerado. E leve o caso para discussão em centro de referência, que é o que o documento recomenda quando a indicação é ambígua.
Não tratar pela cardiopatia — o ensaio clínico randomizado que testou a hipótese, publicado em 2015 e descrito na diretriz de 2023
O ensaio envolveu 2.854 pacientes com cardiomiopatia chagásica crônica que receberam benznidazol ou placebo por até 80 dias, com seguimento médio de 5,4 anos. O tratamento reduziu a parasitemia nos tratados, mas não influenciou significativamente a deterioração clínica cardíaca em relação ao grupo controle, nem a mortalidade e outros desfechos graves na população como um todo, que incluía pacientes de cinco países da América Latina.
Ensaio BENEFIT, conforme descrito e referenciado na Diretriz da SBC sobre Cardiomiopatia da Doença de Chagas – 2023, seções 5.2.3 e 8
Oferecer com recomendação condicional — Sociedade Brasileira de Cardiologia, diretriz de 2023
A diretriz mantém recomendação condicional com nível de evidência C para o tratamento etiológico, e sustenta a posição em três críticas ao ensaio: a redução estatisticamente significante de hospitalizações por causas cardiovasculares no grupo tratado não chegou a ser discutida na análise primária; a análise de subgrupos foi arbitrária, não pré-especificada e potencialmente enviesada; e uma análise posterior levantou a possibilidade de efeito do tratamento nos pacientes brasileiros, que eram 40% da amostra.
Diretriz da SBC sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas – 2023, Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20230269
Depende do estágio, com corte explícito — Ministério da Saúde, protocolo aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018
O protocolo divide a forma cardíaca em duas e trata cada uma de um jeito. Nas fases iniciais — reconhecidas por eletrocardiograma alterado, fração de ejeção que passa de 40%, nenhum sinal de insuficiência cardíaca e nenhuma arritmia grave — a conduta é decisão compartilhada, com tratar e não tratar declarados como alternativas igualmente válidas. Na doença avançada, a orientação é não tratar, em todas as faixas etárias.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, Ministério da Saúde, 2018, Tabela 2 e nota de rodapé
Repare que a divergência não é sobre se o remédio mata o parasita — as três posições concordam que mata. É sobre se matar o parasita, depois que a cicatriz já está instalada, muda o rumo do coração. Decida pelo estágio antes de decidir pela opinião: use os critérios objetivos do protocolo — fração de ejeção acima ou abaixo de 40%, presença de insuficiência cardíaca, presença de arritmia grave — para saber em qual das duas metades o seu paciente está. Na metade inicial, ofereça de fato a escolha, dizendo o que está estabelecido e o que segue em aberto, e registre a decisão. Na avançada, a divergência não se aplica: os três documentos convergem para não tratar.
A lista de fatores de risco — desempenho relatado na própria diretriz brasileira de 2024
A abordagem baseada na detecção de fatores de risco alcançou sensibilidade de 95% para identificar pacientes que vieram a ter morte súbita, com especificidade de 78%, e número necessário para tratar de 6,6 para salvar uma vida. É a estrutura sobre a qual o algoritmo brasileiro foi construído: fatores de risco primeiro, depois faixa etária.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, seção 4.2.6, coortes retrospectivas ali compiladas
A calculadora de risco em 5 anos — mesmo conjunto de coortes, mesma diretriz
O modelo de predição alcançou sensibilidade de 33% e especificidade de 92%, com número necessário para tratar de 7,2 e benefício potencial de reduzir em 20% o total de implantes. O argumento é o de evitar dispositivo em quem não precisa, e a diretriz acrescenta que o número de implantes desnecessários poderia ser ainda menor com seguimento mais longo, já que 36% dos pacientes recebem a primeira terapia por arritmia além de 10 anos após o implante.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, seção 4.2.6
Nem uma nem outra sozinha, e nenhuma abaixo dos 16 anos — a posição que a diretriz brasileira adota na prática
O documento constrói o algoritmo sobre a lista de fatores e recomenda a calculadora como apoio à decisão compartilhada em maiores de 16 anos, sem lhe atribuir limiar de indicação. Na pediatria, registra que o escore europeu não é utilizado abaixo dos 16 anos, que a história familiar de morte súbita não se comportou como fator de risco em metanálise de crianças — ao contrário do que ocorre no documento europeu —, e que um modelo pediátrico próprio foi proposto e validado externamente.
Diretriz sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024, Tabela 18, Figura 18 e seção de pediatria
Leia os dois números como o que eles são: a lista erra por excesso e a calculadora erra por falta. Se o seu paciente é jovem e o custo do erro por falta é a morte dele, a assimetria de danos empurra para a lista; se ele é idoso, com comorbidades e expectativa de vida limitada, o custo de um dispositivo desnecessário — choques inapropriados, infecção, trocas de eletrodo ao longo de décadas — pesa mais, e a calculadora ajuda a não implantar. Em qualquer idade, quando as duas divergem, a conduta que a diretriz recomenda é a mesma: monitorização prolongada e ressonância para procurar o que ainda falta saber, e discussão em centro de referência.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, dez e vinte da manhã, ambulatório de cardiologia do hospital de ensino. Deivid Craveiro, 19 anos, 72 quilos, entregador de aplicativo. Desmaiou jogando bola há três semanas, no meio do segundo tempo, sem aviso; acordou no chão, sem confusão e sem mordedura de língua, e voltou para casa de moto. Nunca teve nada. Não bebe, não fuma, não usa suplemento. Traz um ecocardiograma feito na semana passada: hipertrofia assimétrica com 21 mm no septo anterosseptal médio, ventrículo esquerdo de dimensões normais, fração de ejeção de 68%. Na folha de anamnese, na linha de antecedentes familiares, a técnica escreveu: tio morreu dormindo, 41 anos.
o que penso antes de encostar nele
Síncope durante o esforço em jovem, com hipertrofia assimétrica no eco e uma morte súbita na família, é a combinação que define este capítulo. A síncope durante o esforço, e não depois dele, aponta obstrução ao fluxo ou arritmia deflagrada por catecolamina — as duas coisas que a cardiomiopatia hipertrófica faz. Antes de perguntar qualquer coisa nova, decido que ele não vai voltar a jogar até eu ter os exames.
a anamnese que ainda falta
Pergunto se houve pródromo — se ficou tonto, se escureceu a vista, se sentiu palpitação antes. Ele diz que não: estava correndo e acordou no chão. Pergunto se já aconteceu antes, mesmo pequeno, e ele lembra de duas vezes em que ficou tonto correndo e teve que sentar. Pergunto sobre dor no peito e falta de ar em esforço, e ele minimiza as duas, o que é comum em quem tem 19 anos e não conhece outro corpo.
a família, na mesma consulta
Volto ao tio. Ele diz que era irmão da mãe, que morreu dormindo, e que a família achou que foi do coração porque ele era gordo. Não houve autópsia. Anoto: morte súbita em parente de segundo grau, aos 41 anos. Pergunto por outros: um primo que desmaia direto e a família acha que é fraqueza, e um avô que morreu de repente na roça, idade incerta. Escrevo os nomes dos parentes de primeiro grau — mãe, pai, duas irmãs — numa lista à parte.
o exame físico que decide, e a manobra
Ausculto sentado: sopro sistólico ejetivo de intensidade moderada na borda esternal esquerda baixa, sem irradiação carotídea marcante. Peço que ele levante rápido e mantenho o estetoscópio no lugar. O sopro aumenta. Repito com Valsalva e ele aumenta de novo. Numa estenose aórtica isso não acontece — ali o sopro diminui quando cai o retorno venoso. O aumento me diz que a obstrução é dinâmica e depende do volume do ventrículo.
o eletrocardiograma na sala
Faço na hora. Ritmo sinusal, 62 batimentos por minuto, critérios de sobrecarga ventricular esquerda com alteração de repolarização em parede lateral, e onda P alargada. Não há padrão patognomônico nesta doença, e não é isso que estou procurando: estou procurando um traçado francamente anormal num jovem com sopro, que é o que justifica seguir adiante e o que vou usar quando examinar a família.
o que peço no ecocardiograma, e por que o laudo anterior não basta
O laudo que ele traz diz espessura e função, mas não diz gradiente com manobra. Peço um novo exame escrevendo, com essas palavras, avaliação da via de saída em repouso e com manobra provocativa. Sem provocação, um paciente obstrutivo sai classificado como não obstrutivo, e a classificação muda o tratamento e a prescrição de atividade física.
o resultado que volta
Gradiente máximo de 22 mmHg em repouso e de 74 mmHg com Valsalva, com movimento sistólico anterior do folheto anterior da mitral e regurgitação mitral moderada decorrente dele. Isso o classifica como forma obstrutiva, e com obstrução significativa sob provocação. A espessura máxima confirmada é de 21 mm.
a estratificação de risco, item por item
Percorro a lista inteira. Parada cardíaca abortada: não. Taquicardia ou fibrilação ventricular documentada: não. Síncope inexplicada: sim — e ela não é vasovagal pela circunstância, embora eu precise considerar que possa ser atribuível à própria obstrução, o que a régua exclui da contagem. História familiar de morte súbita em parente com até 50 anos: sim, aos 41, ainda que em parente de segundo grau. Septo de 28 mm ou mais: não, são 21. Aneurisma apical: não. Fração de ejeção abaixo de 50%: não, é 68%.
os dois exames que faltam para decidir
Com a indicação ambígua, a diretriz manda fazer exatamente o que eu faço agora: monitorização prolongada para pesquisar taquicardia ventricular não sustentada — e o que conta são episódios múltiplos, mais longos que 10 batimentos e mais rápidos que 200 batimentos por minuto — e ressonância para procurar realce tardio e aneurisma apical. Peço os dois. Também peço teste ergométrico com registro da resposta pressórica, que vai entrar na prescrição de atividade física.
o que prescrevo enquanto espero
Betabloqueador titulado por sintoma e frequência, que é a base do tratamento clínico e serve tanto para a angina quanto para a dispneia. Oriento hidratação, refeições menores e cautela com álcool, porque os três mexem no gradiente. Registro no prontuário, em letra legível, que ele está afastado de esporte competitivo até a reavaliação, e explico que a decisão final vai ser de intensidade e não de sim ou não.
a conversa com ele, e o combinado com a família
Digo que o músculo do coração dele é mais grosso do que deveria, que a maioria das pessoas com isso vive normalmente, e que o desmaio no esforço é justamente o sinal que obriga a olhar com cuidado. Entrego a lista com os nomes da mãe, do pai e das duas irmãs e explico que cada um tem em média metade de chance de ter herdado, que o exame inicial é consulta com eletrocardiograma e ecocardiograma, e que quem tiver a alteração descobre cedo. Marco o retorno já com os exames pedidos e com a primeira parente agendada.
o desfecho e o que ele ensina
A ressonância mostra realce tardio em 9% da massa ventricular e nenhum aneurisma apical; o Holter registra extrassístoles ventriculares isoladas, sem taquicardia ventricular não sustentada. Ele fica na faixa em que o desfibrilador deve ser considerado, porque tem menos de 40 anos e ao menos um fator de risco, e a decisão vai para discussão em centro de referência com a calculadora de 5 anos como apoio. A mãe, examinada seis semanas depois, tem septo de 14 mm — que, por ser familiar de caso confirmado, já é diagnóstica. O caso ensina que a consulta do Deivid produziu duas pacientes, e que a segunda não tinha queixa nenhuma.
Faça você
Quinta-feira, quatro da tarde, ambulatório geral de uma unidade básica. Genildo Marçal, 44 anos, 78 quilos, motorista de caminhão. Veio buscar o atestado para renovar a habilitação profissional, e o eletrocardiograma exigido pelo exame voltou com um laudo que ele não entendeu: bloqueio de ramo direito associado a bloqueio divisional anterossuperior esquerdo. Ele não tem queixa. Nasceu e viveu até os 19 anos numa comunidade do sertão pernambucano, em casa de taipa, e conta, quando perguntado, que via barbeiro na parede à noite. Pressão 124 por 78, frequência 68, ausculta sem sopro, jugulares normais, sem edema.
o que precisa ser reconhecido antes de solicitar qualquer exame
Duas coisas se encontram nesta consulta e nenhuma delas é queixa: um padrão eletrocardiográfico específico e uma biografia. Reconheça que o traçado não é um achado incidental banal em alguém com essa história de moradia, e reconheça também que a ausência de sintoma não afasta doença — ela apenas localiza o paciente num estágio.
o que perguntar que ainda não foi perguntado
Falta a história familiar e a história de outros exames. Pergunte se alguém da casa já teve o mesmo diagnóstico, se houve morte súbita entre irmãos ou pais, se ele já doou sangue e foi recusado, e se já sentiu palpitação, tontura ou escurecimento de vista dirigindo. A última pergunta tem peso próprio na profissão dele.
os exames a pedir, e em que ordem
Escreva a bateria mínima e a razão de cada item. Duas sorologias de princípios diferentes para doença de Chagas; ecocardiograma pedido com a pergunta etiológica, procurando alteração segmentar e aneurisma apical; radiografia de tórax; e Holter de 24 horas, cujo resultado vai entrar tanto na estratificação de risco quanto na conversa sobre dirigir.
o que fazer com cada combinação possível de resultados
Pense antes de os exames voltarem. Se as duas sorologias vierem não reagentes, o bloqueio precisa de outra explicação e a investigação continua por outro caminho. Se vierem discordantes, o passo é nova coleta com os dois testes, e não uma conclusão. Se vierem as duas reagentes, o próximo movimento não é tratar: é estadiar.
como estadiar, com os critérios explícitos
Use o eletrocardiograma e o ecocardiograma para responder duas perguntas em ordem: há doença estrutural cardíaca? e, se há, a função sistólica global está normal ou comprometida? Sem doença estrutural, é forma indeterminada. Com doença estrutural e função normal, sem sintomas, é o estágio seguinte. Com disfunção e sem sintomas, o outro. Com sintomas de insuficiência cardíaca, o seguinte.
as três decisões que dependem do estágio
Escreva quais são, porque elas não são a mesma coisa. A primeira é se cabe oferecer tratamento etiológico, e o critério objetivo do protocolo reúne três itens: nenhuma insuficiência cardíaca, nenhuma arritmia grave e fração de ejeção que passe de 40%. A segunda é se cabe anticoagular, e o escore específico soma disfunção sistólica, aneurisma apical, alteração primária de repolarização e idade acima de 48 anos. A terceira é o que dizer sobre a profissão dele.
Ver como fecharíamos
As duas sorologias voltam reagentes. O ecocardiograma mostra ventrículo esquerdo de dimensões normais, fração de ejeção de 61% e hipocinesia discreta da parede ínfero-lateral basal, sem aneurisma. O Holter registra extrassístoles ventriculares isoladas, sem taquicardia ventricular. A radiografia é normal. O paciente tem doença estrutural cardíaca com função sistólica global normal e sem sintomas de insuficiência cardíaca: é o estágio B1, o primeiro degrau da cardiomiopatia crônica. O tratamento etiológico se enquadra na faixa em que a decisão é compartilhada, porque o eletrocardiograma está alterado, a fração de ejeção passa de 40%, não há insuficiência cardíaca e não há arritmia grave — e a conversa precisa incluir tanto o que os estudos mostraram quanto o ponto em que eles pararam, além dos 60 dias de tratamento e dos efeitos adversos, que ocorrem em cerca de metade das pessoas. Pelo esquema por peso, 5 mg/kg/dia em 78 kg seriam 390 mg diários, o que não cabe em comprimidos de 100 mg; pelo esquema alternativo, são 300 mg por dia — três comprimidos, um em cada tomada — durante 78 dias, e os dois esquemas entregam o mesmo total. Sobre anticoagulação: ele soma zero ponto por disfunção sistólica, zero por aneurisma, zero por alteração primária de repolarização e zero por idade, porque tem 44 anos — não há indicação. Sobre a profissão, o que ele tem hoje não impede dirigir, mas o Holter e a avaliação de condução passam a ser parte do acompanhamento, e ele precisa saber que tontura ou escurecimento de vista ao volante é motivo para procurar atendimento, não para esperar o próximo retorno. E a consulta não termina nele: irmãos e filhos têm a mesma exposição, e a transmissão vertical, embora baixa no Brasil, não é zero.
Numa obstrução fixa, como a estenose aórtica valvar, reduzir o retorno venoso reduz o volume ejetado e o sopro diminui. Na obstrução dinâmica da cardiomiopatia hipertrófica acontece o inverso: o ventrículo encolhe, o folheto anterior da mitral se aproxima do septo e o sopro aumenta. Levantar rápido e a manobra de Valsalva reduzem o retorno venoso, e é por isso que ambas intensificam o sopro. A ausência de irradiação carotídea não afasta nada, e a variação postural não caracteriza sopro inocente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare os padrões dilatado, hipertrófico e restritivo por mecanismo, sintomas e achados iniciais. Sem tentar fechar um diagnóstico genético, descreva quais informações da história familiar, do ECG e do ecocardiograma orientam a suspeita. Confira se você procurou causas adquiridas e sinais que exigem encaminhamento prioritário. O objetivo é apresentar uma hipótese bem sustentada e uma pergunta útil ao especialista.
Em 30 dias
Simule uma consulta com dispneia e cardiomiopatia recém-identificada. Acrescente, uma de cada vez, síncope de esforço, familiar com morte súbita e exposição a álcool ou medicamento cardiotóxico. Explique como cada dado muda risco e investigação. Faça um plano com avaliação especializada, orientação sobre atividade enquanto o risco é esclarecido e eventual avaliação familiar, sem atribuir uma variante genética ou indicar um dispositivo apenas pelo nome do fenótipo.
Agora atenda
Agora atenda: ambulatório de cardiologia de um hospital de ensino, dez e vinte da manhã. Rapaz de 19 anos, desmaiou jogando bola há três semanas, traz um ecocardiograma com hipertrofia assimétrica do septo e função preservada, e conta que um tio morreu dormindo aos 41 anos. Ausculte com manobra, decida se há obstrução, percorra a lista de fatores de risco de morte súbita, diga o que pede e por quê, e não encerre a consulta sem tratar da família.
