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Bradiarritmias e bloqueios atrioventriculares
A pergunta deste capítulo não é qual o grau do bloqueio. É quem precisa de estimulação artificial agora e quem não precisa de nada — e a resposta depende menos da frequência que o monitor mostra do que de duas outras coisas: se existe sintoma que a lentidão explique, e em que altura do sistema de condução o estímulo está parando.
Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular — Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023 (Arq Bras Cardiol. 2023;120(1):e20220892)
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019 (Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663)
Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, volume de Suporte Avançado de Vida, ficha AC13 (bradicardia)
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 (Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680)
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024, Brasília, 2024
Bula profissional do sulfato de atropina monoidratado 0,25 mg/mL solução injetável, Hipolabor Farmacêutica, medicamento genérico
Bula profissional da epinefrina 1 mg/mL solução injetável, Hipolabor Farmacêutica
Bula profissional do cloridrato de dopamina 5 mg/mL solução injetável, Hipolabor Farmacêutica
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018
Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618)
American Heart Association. Adult Bradycardia With a Pulse Algorithm. 2025. https://cpr.heart.org/-/media/CPR-Files/CPR-Guidelines-Files/2025-Algorithms/Algorithm-ACLS-Bradycardia-250514.pdf?sc_lang=en
Responda antes de ler
Você instalou marca-passo transcutâneo em um paciente com bloqueio atrioventricular total sintomático. Subindo a corrente, cada espícula do aparelho passa a ser seguida por um complexo alargado com onda T larga e de polaridade oposta ao complexo, em praticamente todos os batimentos da tela. O paciente permanece pálido e sonolento. Qual é a próxima providência?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, 4h50. O hospital é municipal, tem sessenta leitos, atende quatro municípios e fica a cento e noventa quilômetros da capital. Não há cardiologista na escala e não há laboratório de hemodinâmica. Você é o interno da noite; o clínico plantonista está na sala ao lado desde as três da manhã, com uma criança em crise de broncoespasmo.
O filho estaciona o carro em cima da rampa e entra empurrando uma cadeira de rodas do próprio hospital, daquelas que ficam encostadas na porta. Ele fala antes de qualquer pergunta: o pai caiu no banheiro, bateu a cabeça na pia e ficou uns segundos sem responder.
Na cadeira está Teodolino Salustiano Vidigal, 74 anos, lavrador aposentado, 62 quilos. Está acordado e conversa, com um corte pequeno acima da sobrancelha direita que já parou de sangrar. Conta o que aconteceu sem hesitar em nada, exceto num ponto: entre levantar da cama e acordar no chão do banheiro, não há lembrança nenhuma. Não teve tontura antes, não teve calor, não teve visão escura. Estava em pé e depois estava deitado.
O filho acrescenta o que o pai não acha importante. Esta é a terceira vez em duas semanas. Nas outras duas ele apenas se sentou no chão e disse que tinha escorregado, e a família aceitou a explicação porque o chão da cozinha é liso.
O monitor da sala de emergência mostra 33 batimentos por minuto. A pressão arterial, no braço direito, é 82 por 50. A saturação em ar ambiente é de 95% e ele respira 20 vezes por minuto. A glicemia capilar dá 104 e a temperatura axilar, 36,0. O leito ungueal, comprimido, leva três segundos para recorar. Os pés estão frios até acima do tornozelo. Ele responde a tudo, mas o filho diz uma frase que vale mais que o exame: desde ontem o pai está devagar de um jeito que não é dele.
O eletrocardiograma de doze derivações sai da máquina às 5h02. As ondas P estão lá, marchando num ritmo próprio e regular, a cerca de 88 por minuto. Os complexos ventriculares também são regulares, a 33, e são largos — largos o bastante para ocupar quase quatro quadradinhos pequenos. E não há relação nenhuma entre uma coisa e outra: as ondas P caem onde calha, algumas dentro do complexo, outras em cima da onda T, sem que nenhuma delas jamais conduza.
A lista de medicamentos sai da bolsa que o filho trouxe. Atenolol de 50 miligramas, um por dia, há seis anos, por pressão alta. E uma caixa de verapamil de 80 miligramas, de oito em oito horas, iniciada há três semanas em outro serviço, também por pressão — ninguém suspendeu o primeiro ao começar o segundo. Você pergunta de onde ele é, e o filho responde antes: nasceu no norte de Minas e morou em casa de pau a pique até os dezenove anos.
A técnica de enfermagem já ligou o monitor desfibrilador na tomada e está com a mão nas pás adesivas, ainda no plástico. A pergunta que ela faz às 5h06 é a que decide os próximos vinte minutos: se ela pega a ampola de atropina na gaveta ou se cola as pás e liga o marca-passo do aparelho. Do outro lado do telefone, a regulação já avisou que a vaga na capital não sai antes das oito.
Quem adoece disso
A doença do nó sinusal costuma ser, em âmbito global, a indicação mais comum de estimulação cardíaca artificial: cerca de metade dos implantes de marca-passo definitivo. Ela aumenta com a idade e atinge um em cada seiscentos pacientes acima dos 65 anos, sem preferência por sexo. E a síncope, que é o sintoma que mais assusta quem atende, está presente em aproximadamente metade dos pacientes encaminhados para implante por essa causa — de modo que o desmaio do idoso não é um detalhe da história, é frequentemente a própria indicação chegando à porta.
Do outro lado da mesma estatística está o achado que não é doença nenhuma, e ele é igualmente comum. Episódios de bloqueio atrioventricular de primeiro grau e de segundo grau tipo I ocorrem em cerca de 10% das crianças e em até 20% dos adolescentes normais, mais frequentes durante o sono, e aparecem também em vagotônicos e atletas. A diretriz brasileira de laudos de 2022 é explícita ao classificar, no eletrocardiograma do atleta, a bradicardia sinusal, o ritmo ectópico atrial ou juncional, o bloqueio de primeiro grau e o de segundo grau tipo I entre os achados normais, que não pedem investigação alguma em quem é assintomático e não tem história familiar de doença hereditária ou morte súbita. Tratar esses achados é o erro mais frequente deste capítulo, e ele custa consulta, exame e susto.
O que reposiciona a probabilidade é a etiologia. A causa intrínseca mais comum de disfunção do nó sinusal é a fibrose degenerativa idiopática relacionada à idade, e as causas degenerativas de bloqueio atrioventricular estão associadas ao envelhecimento, à hipertensão arterial e ao diabetes. Entre as infecciosas, no nosso meio, a diretriz de dispositivos destaca em primeiro lugar a miocardite crônica da doença de Chagas, e em menor proporção as miocardites virais agudas, capazes de produzir bloqueios intermitentes agudos e também definitivos. Perguntar onde a pessoa nasceu e em que tipo de casa morou na infância, num idoso com bloqueio, não é folclore — é a pergunta que separa uma fibrose de setenta anos de uma cardiopatia que também vai trazer arritmia ventricular e insuficiência cardíaca.
Dois números descrevem a velocidade com que um distúrbio de condução vira bloqueio, e eles apontam para lados diferentes. A progressão do bloqueio de ramo esquerdo ou do bloqueio bifascicular para bloqueio atrioventricular avançado é baixa, cerca de 1% ao ano — o que significa que achar um bloqueio de ramo num eletrocardiograma de rotina raramente é urgência. Mas, quando esse mesmo paciente teve síncope, o quadro muda de categoria: em 61% dos pacientes com síncope e bloqueio de ramo ou bifascicular existem anormalidades significativas e clinicamente relevantes da condução no sistema His-Purkinje ao estudo eletrofisiológico. O achado isolado é quase inofensivo; o mesmo achado com um desmaio ao lado é outra doença.
Vale conhecer também o custo do lado de cá, porque ele existe e é o que impede que o marca-passo seja a resposta fácil. Entre 5% e 9% das pessoas com estimulação crônica do ventrículo direito desenvolvem disfunção ventricular grave com sintomas de insuficiência cardíaca. E o número que fecha a série é o da hipersensibilidade do seio carotídeo, que cresce de praticamente zero abaixo dos 50 anos para 2,4% entre 50 e 59, 9,1% entre 60 e 69, 20% entre 70 e 79 e 40% acima dos 80 — uma prevalência tão alta em idosos que encontrá-la não prova, sozinha, que ela explica o desmaio daquela pessoa.
Por que acontece o que acontece
A fisiologia que serve neste capítulo não é a que explica por que um coração lento entrega menos sangue por minuto. Essa parte é aritmética e todo mundo já sabe. A parte que decide conduta é outra e é topográfica: em que altura do sistema de condução o estímulo está parando. O sítio da falha prevê, de uma vez só, três coisas que você vai precisar nos próximos vinte minutos — quão rápido e quão confiável será o batimento de substituição, se existe droga capaz de melhorar aquilo, e qual é o risco de o traçado virar uma linha reta enquanto você telefona.
Há três andares e dois modos de falhar. O primeiro andar é o nó sinusal, que é o gerador: ele pode disparar devagar, pode parar por alguns segundos, ou pode disparar e não conseguir sair para o átrio. O segundo é o nó atrioventricular, que é o pedágio entre átrio e ventrículo: ele pode retardar cada impulso, pode deixar cair um de vez em quando, ou pode fechar. O terceiro é o tronco do feixe de His e os seus ramos, que são a fiação: ali o impulso não é retardado com elegância, ele passa ou não passa. Falhar como gerador e falhar como via são problemas diferentes, com escape diferente, com prognóstico diferente e — este é o ponto — com resposta diferente à única droga que você tem na gaveta.
O nó atrioventricular obedece ao vago; o que está abaixo dele, não
O nó atrioventricular sofre influência intensa do sistema nervoso autônomo, e essa é a diferença que organiza o capítulo inteiro. A diretriz brasileira de laudos de 2022 registra a consequência de forma direta: em situações de predominância parassimpática, como o sono e o treinamento de atletas, é possível observar bloqueio de primeiro grau e bloqueio de segundo grau tipo I sem que haja lesão do nó atrioventricular. O mesmo tecido que trava sob tônus vagal destrava quando o vago é bloqueado ou quando o simpático sobe — no esforço, no susto, com atropina.
O tecido do tronco do feixe de His e dos seus ramos não tem essa propriedade. Ele é uma via de condução rápida, com pouca modulação autonômica, e quando adoece a falha é estrutural. A diretriz brasileira de dispositivos de 2023 põe os dois lados frente a frente: o bloqueio nodal está associado a progressão mais lenta, a escape juncional mais rápido e confiável e a melhor resposta à manipulação autonômica — atropina, isoproterenol, epinefrina —, enquanto os bloqueios intra-His e infra-His progridem mais rapidamente, cursam com escape ventricular mais lento e imprevisível, com complexos mais largos, e respondem mal ao bloqueio vagal e ao estímulo adrenérgico. Daí sai a regra prática que este capítulo existe para instalar. A pergunta que você faz diante de um bloqueio não é qual o grau. É se o nó atrioventricular está sozinho no problema, porque, se estiver, existe conversa possível com a farmácia; e, se não estiver, o que resolve é corrente elétrica e um telefonema, e cada minuto gasto empurrando ampola é minuto perdido.
O batimento de substituição entrega o endereço da falha
Quando a condução para, o coração não para junto: algum tecido abaixo do bloqueio assume o comando, e é esse batimento de substituição que denuncia de onde ele veio. Um escape que nasce na junção, logo abaixo do nó atrioventricular, usa o sistema His-Purkinje inteiro para se distribuir — e por isso sai com complexo estreito, com frequência mais alta e com regularidade. Um escape que nasce abaixo do tronco não tem essa estrada: propaga-se de célula em célula pelo músculo, e por isso sai largo, lento e sem garantia nenhuma de continuar.

A frase da diretriz de dispositivos que fecha o raciocínio é curta e vale como aviso: bloqueio de alto grau — avançado ou total — carrega risco maior de queda de débito e de assistolia grave, e por isso exige tratamento urgente. O que torna o escape ventricular perigoso não é a frequência baixa em si — é a imprevisibilidade. Um escape juncional a 45 costuma manter-se a 45 por horas; um escape ventricular a 30 pode simplesmente não vir da próxima vez, e não há sinal clínico que antecipe isso. Existe ainda uma forma que engana justamente por não avisar. A diretriz de laudos de 2022 nomeia o bloqueio atrioventricular paroxístico: a ocorrência súbita e inesperada de uma sucessão de ondas P bloqueadas. Entre uma crise e outra o traçado pode ser inteiramente normal, o que explica a cena mais frustrante deste capítulo — o paciente que desmaiou três vezes e cujo eletrocardiograma, feito depois de cada desmaio, não mostra nada.
As duas maneiras de o coração ficar lento sem estar doente
A primeira é farmacológica e é a mais frequente de todas. Os fármacos mais associados à disfunção do nó sinusal são os betabloqueadores, os bloqueadores dos canais de cálcio, os digitálicos, os antiarrítmicos e as medicações simpaticolíticas; o lítio também se associa a disfunção sinusal, muitas vezes definitiva. E há um grupo de anormalidades metabólicas e sistêmicas que a diretriz de dispositivos lista lado a lado: hipercalemia e hipocalemia, hipocalcemia, acidose sistêmica grave, hipotireoidismo, hipotermia, hipóxia e toxinas. Nenhuma dessas exige marca-passo. Todas exigem que alguém pergunte. A segunda é autonômica. A disfunção autonômica com manifestação cardioinibitória pode mimetizar ou intensificar a doença do nó sinusal na síncope vasovagal e na hipersensibilidade do seio carotídeo — e a mesma diretriz nomeia duas causas raras que merecem existir na sua cabeça porque a solução delas não é cardiológica: a epilepsia assistólica do lobo temporal e a neuralgia do glossofaríngeo associada a assistolia e síncope. Em ambas, o manejo específico da doença de base pode regularizar a disfunção sinusal ou o bloqueio sem necessidade de implante definitivo, ainda que um dispositivo provisório possa ser fundamental na fase aguda. A consequência dessas duas listas é a régua que a diretriz de dispositivos escreve em uma linha e que vale a pena guardar antes de qualquer tabela: para definição de conduta e eventual indicação de implante, é fundamental a correlação entre os sintomas clínicos e a bradicardia, além da identificação de causas reversíveis. As duas coisas, e nesta ordem. Bradicardia sem sintoma não vira indicação; sintoma com causa reversível também não.
Como se apresenta de verdade
As seis situações abaixo não são seis diagnósticos: são seis maneiras de um coração lento chegar até você, na ordem aproximada em que aparecem, e o que cada uma acrescenta à decisão. A leitura sistemática do traçado — eixo, intervalos, ordem dos passos — pertence ao capítulo de eletrocardiograma na prática desta apostila; aqui interessa apenas o que muda a conduta da bradiarritmia.
A bradicardia que não pede nada
É a mais comum das seis e a que mais gera intervenção desnecessária. Um homem de 26 anos que corre dez quilômetros três vezes por semana, com frequência de 44 em repouso; um idoso dormindo, com pausas curtas; um adolescente com um Wenckebach de madrugada no Holter pedido por outro motivo. A diretriz de dispositivos é explícita: é importante identificar quadros de bradicardia funcional assintomática, como ocorre durante o sono, em jovens saudáveis e em atletas, que não representam risco e não devem ser tratados de forma geral.
O que caracteriza esse grupo é a ausência dos dois elementos que fazem os outros cinco existirem: não há sintoma que a lentidão explique, e a frequência sobe quando ela precisa subir. Essa segunda parte é a que se esquece de conferir e a que custa menos: peça à pessoa que caminhe pelo corredor, ou que faça vinte agachamentos se ela puder, e olhe o monitor. Coração que acelera com o esforço tem nó sinusal e nó atrioventricular funcionando; o que não acelera tem incompetência cronotrópica, que é uma das manifestações eletrocardiográficas da doença do nó sinusal e já pertence a outro grupo.
Há uma armadilha específica no atleta e ela é de leitura, não de clínica. A mesma diretriz de laudos que põe a bradicardia sinusal e o bloqueio de segundo grau tipo I entre os achados normais do atleta põe, entre os anormais que exigem investigação, a bradicardia sinusal acentuada abaixo de 30 por minuto, o intervalo PR igual ou superior a 400 milissegundos, o bloqueio de segundo grau tipo II e o bloqueio total. Os dois grupos usam as mesmas palavras, e é fácil parar de ler no primeiro. Quando o número aparecer, confira contra o segundo grupo antes de escrever que o exame é normal.
Quando o número vira doença: o sintoma, e o problema de amarrá-lo à bradicardia
Os sintomas atribuíveis à doença do nó sinusal, segundo a diretriz de dispositivos, decorrem da frequência baixa ou da duração da pausa, e os mais comuns são palpitação, cansaço, dispneia, tontura, pré-síncope e síncope. Note o que está nessa lista: cansaço e falta de ar, que são as duas queixas mais inespecíficas da medicina, e que ninguém liga espontaneamente a um coração devagar. O idoso que parou de subir a rua da igreja há três meses e atribuiu isso à idade pode estar descrevendo exatamente isto.
O problema clínico de verdade não é reconhecer o sintoma, é amarrá-lo ao traçado. A documentação da correlação entre a alteração eletrocardiográfica e a manifestação clínica é, nas palavras da própria diretriz, essencial para o diagnóstico — e pode ser feita pelo eletrocardiograma convencional de doze derivações pelo Holter — de um a dois dias, ou de sete —, pelo monitor de eventos externo ou pelo implantável. Isso quer dizer que, no paciente que está bradicárdico e sintomático agora, na sua frente, o traçado de agora vale mais do que qualquer exame futuro, e é irrecuperável se ninguém imprimir.
Vale saber o que a diretriz recomenda não fazer nessa investigação, porque poupa exame. O estudo eletrofisiológico invasivo não deve ser utilizado regularmente na prática clínica para decidir implante na doença do nó sinusal, por ausência de dados conclusivos sobre o significado de um tempo de recuperação do nó sinusal ou de um tempo de condução sinoatrial alterados. A ferramenta que decide é a que documenta o sintoma junto com o ritmo, não a que mede a eletrofisiologia fora da crise.
O bloqueio que avisa: o de primeiro grau e o Wenckebach
No bloqueio de primeiro grau todo estímulo ainda chega ao ventrículo, só que atrasado: o intervalo PR passa de 200 milissegundos — a diretriz de laudos acrescenta uma condição que quase ninguém repete, e que é a de que a definição vale para adultos com frequência entre 50 e 90 por minuto. Ele é geralmente assintomático. Mas existe uma exceção nomeada: quando o intervalo PR é longo o bastante para desfazer o sincronismo entre átrio e ventrículo, pode haver fadiga e intolerância ao esforço, quadro que a diretriz de dispositivos chama de pseudossíndrome do marca-passo e situa em intervalos acima de 300 milissegundos.
No bloqueio de segundo grau tipo I, ou fenômeno de Wenckebach, o alentecimento é gradual: o intervalo PR aumenta progressivamente, com acréscimos cada vez menores, até que uma onda P não conduza. Há um detalhe de leitura que confirma o diagnóstico quando o traçado está ruim — o intervalo PR do batimento que vem logo depois da onda P bloqueada é o menor de todos, e o incremento seguinte é o maior. A frequência de bloqueio pode ser variável, cinco para quatro, quatro para três, três para dois.
É frequentemente assintomático e observado em pacientes ativos e saudáveis, com ou sem doença cardíaca, sobretudo durante atividade parassimpática. Mas há uma condição que o transforma: se ele ocorrer com frequência ou durante o exercício, pode causar intolerância ao esforço ou tontura. Bloqueio nodal que aparece no repouso e some no esforço é fisiologia; bloqueio que aparece justamente quando o átrio acelera está no lugar errado, e essa é uma das poucas observações de beira de leito que reposiciona a suspeita para baixo do nó.
O bloqueio que não avisa: o tipo II, o dois para um e o avançado
No bloqueio de segundo grau tipo II a interrupção é súbita: há condução um para um com intervalo PR fixo e, de repente, uma onda P bloqueada, seguida de nova condução um para um com PR semelhante ao anterior. Não há aviso, não há alongamento progressivo, e a localização desse bloqueio é, pela diretriz de laudos, a região intra ou infra-His. É a apresentação que muda o plano da noite mesmo quando o paciente está sentado conversando.
O bloqueio de condução dois para um caracteriza-se pela alternância de uma onda P conduzida e outra bloqueada, e é o mais desconfortável dos três porque não se deixa classificar. A diretriz de dispositivos diz com todas as letras que, nesse padrão, não há como afirmar com segurança se o bloqueio é do tipo I ou do tipo II sem recorrer a manobras sobre o tônus autonômico, a fármacos ou ao estudo por cateter. Antes de tudo isso, porém, cabe excluir uma imitação barata e comum: extrassístoles atriais não conduzidas, que produzem uma onda P bloqueada sem que exista bloqueio nenhum.
O bloqueio avançado, ou de alto grau, é definido pela diretriz de dispositivos como aquele em que duas ou mais ondas P seguidas ficam bloqueadas, sobrando ainda alguns batimentos conduzidos — o que indica que existe alguma preservação da condução. A diretriz de laudos descreve o mesmo achado por outro caminho, como condução em menos da metade dos batimentos sinusais, em proporção três para um, quatro para um ou maior, e situa a maior parte desses bloqueios também na região intra ou infra-His. As duas descrições convergem, e a mensagem prática das três apresentações desta seção é a mesma: complexo largo e bloqueio que não avisa colocam o problema abaixo do nó, onde a farmácia não alcança.
O bloqueio total, e as duas caras do escape
No bloqueio de terceiro grau nenhum estímulo sinusal chega ao ventrículo, e um foco abaixo da região bloqueada assume o comando. O que se vê no papel é a dissociação: ondas P sem relação com os complexos, e a frequência atrial maior que a do ritmo de escape. Esse último detalhe é o que distingue o bloqueio total de uma dissociação por interferência, em que o ritmo de baixo é o mais rápido dos dois. O bloqueio total pode ser intermitente ou permanente, o que significa que um traçado normal colhido depois não desfaz o diagnóstico.
As duas caras do bloqueio total estão na largura do escape, e elas mudam a urgência. Bloqueios de origem supra-hissiana podem apresentar escapes com morfologia semelhante à do traçado de base — complexos estreitos, frequência em geral mais alta, comportamento estável. A origem infra-hissiana evidencia complexos largos como escape, e é a que carrega o risco de assistolia. Diante de um bloqueio total, medir a largura do escape é a informação de maior valor por segundo gasto do capítulo inteiro.
Existe uma forma congênita, que quase sempre chega diagnosticada, e que vale reconhecer porque a régua dela é etária. No bloqueio total congênito, a indicação de marca-passo é mandatória na presença de sintomas ou quando a frequência de repouso da criança fica abaixo de 55 por minuto, ou abaixo de 70 quando existe doença cardíaca estrutural junto. Nos assintomáticos, o acompanhamento é regular e procura frequência média, intervalo QT, pausas, arritmia ventricular, distúrbio de condução intraventricular e tolerância ao exercício.
Bradicardia na fibrilação atrial, a síndrome bradi-taqui, e o paciente que chegou normal
Na fibrilação atrial não há onda P para comparar com o complexo, e a leitura muda de ferramenta: o que se olha é a regularidade do intervalo entre os batimentos. A diretriz de dispositivos dá o critério em uma linha — dentro de uma fibrilação atrial há bloqueio total quando a resposta ventricular cai abaixo de 50 por minuto e os intervalos entre batimentos ficam regulares. Fibrilação atrial com resposta baixa e irregular é controle de frequência, às vezes excessivo, e se resolve mexendo na prescrição; fibrilação atrial com resposta baixa e regular é bloqueio total escondido atrás de uma linha de base tremida, e não se resolve assim.
A síndrome bradi-taqui é o outro rosto da doença do nó sinusal e a que mais confunde a prescrição. São taquiarritmias atriais — sobretudo flutter e fibrilação atrial — associadas a bradiarritmias e pausas sinusais, no mesmo paciente e às vezes no mesmo dia. O conflito é evidente: a droga que controla a taquicardia piora a pausa, e retirar a droga devolve a taquicardia. Reconhecer o padrão é o que evita duas semanas de ajustes que se anulam, e é o que justifica encaminhar cedo, porque a solução costuma envolver dispositivo.
Sobra o paciente que chegou normal, e ele é o mais difícil dos seis. Desmaiou sem pródromo, acordou no chão, e agora tem ritmo sinusal a 72 e exame normal. Se a bradiarritmia foi paroxística, o traçado de agora não vai mostrar nada, e a única testemunha possível do evento é a tira que alguém imprimiu na chegada ou o registro de um monitor mais longo. Aqui a investigação da síncope propriamente dita — quem interna, qual escore, como estratificar — é assunto do capítulo de síncope no pronto-socorro, na apostila de síndromes na emergência. O que pertence a este capítulo é o gesto estreito: procurar no eletrocardiograma em ritmo sinusal os achados que sustentam a hipótese bradiarrítmica, que são bloqueio de ramo, bloqueio bifascicular, bloqueio de primeiro grau com PR muito longo, e sinais de doença do nó sinusal entre as crises.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da bradiarritmia tem uma inversão que confunde quem está aprendendo: quase tudo o que decide se resolve nos primeiros cinco minutos, sem exame nenhum, e o exame de sangue serve para achar a causa, não para fazer o diagnóstico. As seis seções abaixo estão em ordem de rendimento por minuto gasto.
As três perguntas que se respondem antes de qualquer exame
A primeira é se existe sinal de baixo débito, e a lista é curta e igual nas duas fontes nacionais: sinais de choque, hipotensão, insuficiência cardíaca aguda, desconforto torácico isquêmico e mudança aguda do estado mental — e a ficha AC13 acrescenta congestão pulmonar e queda de saturação. Um item basta. Na ausência de qualquer um deles, a conduta que a mesma ficha prescreve tem duas palavras: observar e monitorar.
A segunda é se o sintoma que trouxe a pessoa é explicado pela lentidão, e ela é mais difícil do que parece porque a resposta honesta muitas vezes é não sei. A diretriz de dispositivos exige a correlação documentada entre a alteração eletrocardiográfica e a manifestação clínica, e reserva uma linha inteira da sua tabela de recomendações para negar o implante ao paciente assintomático e àquele cujo sintoma documentado claramente não se relaciona à bradicardia. Uma síncope em pé, com pródromo de calor e visão escura, em alguém que tem uma bradicardia sinusal de 52, tem duas explicações concorrentes, e a bradicardia é a mais fraca das duas.
A terceira é se existe causa reversível, e é a que mais muda desfecho porque pode dispensar um aparelho definitivo. Vale reparar em como a diretriz de dispositivos redige a exceção, porque a redação é precisa: ela indica o implante na doença do nó sinusal espontânea, sem causa passível de tratamento ou induzida por fármacos necessários e insubstituíveis, e recusa o implante quando a bradicardia decorre de causas reversíveis, incluindo fármacos não essenciais. Ou seja: o remédio que trava o nó só deixa de ser causa reversível quando não há como tirá-lo, e essa é uma decisão que exige que alguém a tome, não que se presuma.
O que o traçado entrega de graça sobre a altura do bloqueio
Quatro observações, todas feitas com o papel na mão e sem instrumento nenhum, localizam a falha melhor do que qualquer exame de sangue. A primeira é a largura do complexo de escape: estreito aponta para uma origem acima ou logo abaixo do nó atrioventricular, largo aponta para uma origem abaixo do tronco, com todas as consequências de imprevisibilidade que isso carrega. A segunda é o comportamento do intervalo PR nos batimentos que ainda conduzem: crescente antes da falha é nodal, fixo antes da falha é intra ou infra-His.
A terceira é a relação numérica entre ondas P e complexos, que dá o grau — todas conduzidas com atraso, uma caindo de vez em quando, uma sim e uma não, duas ou mais seguidas bloqueadas, ou nenhuma conduzida. E a quarta é a frequência atrial: no bloqueio total, a frequência das ondas P é maior que a do escape, e é essa desigualdade que distingue o bloqueio de uma dissociação por interferência, em que o ritmo de baixo é o mais rápido porque tomou a frente, e não porque o de cima não passa.
Duas exigências de execução fazem essas quatro observações renderem. A primeira é ter tira longa: em bloqueios intermitentes e no bloqueio paroxístico, um registro de três segundos por derivação pode não conter nenhuma falha. A segunda é olhar a linha de base onde ela é mais limpa, normalmente V1 e as derivações inferiores, porque a onda P que cai dentro de um complexo largo se esconde bem, e uma onda P escondida transforma um bloqueio total num escape idioventricular sem causa aparente.
A manobra que separa o nodal do infra-His, e o que ela não é
O que separa os dois é a resposta ao sistema nervoso autônomo, e as duas diretrizes brasileiras dizem isso de maneiras complementares. A de dispositivos: o bloqueio nodal responde melhor à manipulação autonômica, com atropina, isoproterenol e epinefrina; os intra e infra-His respondem mal à atividade adrenérgica ou ao bloqueio vagal. A de laudos: sob predominância parassimpática, como no sono e no atleta, aparecem bloqueio de primeiro grau e de segundo grau tipo I sem lesão nenhuma do nó — o que é a mesma frase vista do outro lado.
Na prática de enfermaria, a manobra mais barata é o esforço. Peça ao paciente que caminhe, ou que se sente e levante algumas vezes, com o monitor ligado e a tira correndo, e olhe o que acontece com a relação entre ondas P e complexos. Um bloqueio que melhora quando o simpático sobe está no nó; a diretriz de laudos registra o inverso como sinal de alarme ao notar que o bloqueio tipo I que ocorre durante o exercício pode causar intolerância ao esforço e tontura, ou seja, que ele já não está no lugar inofensivo.
É preciso dizer com clareza o que essa manobra não é, para não transformá-la em promessa. A diretriz de dispositivos nomeia as manobras autonômicas, os fármacos e o estudo eletrofisiológico como o que permitiria classificar inequivocamente um bloqueio de condução dois para um — mas não publica protocolo, ponto de corte nem critério de positividade para nenhuma delas. Vale como orientação de raciocínio e como observação clínica; não vale como teste com resultado. E há uma consequência de segurança que fecha a seção: nada disso justifica retardar a estimulação em quem tem sinal de baixo débito. A observação se faz no paciente estável, com as pás já coladas.
Documentar: o traçado de agora vale mais do que o exame de amanhã
A documentação da correlação entre o ritmo e o sintoma é, pela diretriz de dispositivos, essencial ao diagnóstico, e pode ser feita por eletrocardiograma convencional de doze derivações, por Holter de 24 ou de 48 horas, por Holter de 7 dias, por monitor de eventos externo ou por monitor implantável. Repare na ordem: o eletrocardiograma convencional vem primeiro, e é o único de toda a lista que está disponível agora, com o paciente sintomático deitado à sua frente.
Isso tem uma consequência operacional que se perde todos os dias. Enquanto a bradicardia está acontecendo, imprima o traçado de doze derivações e imprima também uma tira longa em pelo menos duas derivações. Assine, date, escreva a hora e escreva o sintoma que o paciente tinha naquele minuto. Depois que a frequência subir — porque a droga fez efeito, porque a causa foi corrigida, porque o marca-passo capturou —, nenhum exame do mundo recupera aquele registro, e a fila do cardiologista pode levar meses.
O escalonamento dos exames de ritmo obedece a uma lógica de frequência do sintoma, e vale saber para não pedir o errado. Sintoma diário ou quase diário é Holter de 24 ou 48 horas. Sintoma semanal pede o Holter mais longo ou o monitor de eventos externo. Sintoma raro, de meses, é o território do monitor de eventos implantável, que é justamente o que a diretriz coloca como útil na investigação de síncopes inexplicadas em maiores de 40 anos, quando a avaliação inicial foi negativa. Pedir um Holter de 24 horas para quem desmaia a cada três meses tem chance quase nula de documentar o evento, e o resultado normal costuma ser lido, erradamente, como exclusão.
Os exames que mudam a causa, e um que não muda nada
A lista útil sai diretamente das causas extrínsecas que a diretriz de dispositivos enumera, e cada item responde a uma pergunta que pode dispensar um aparelho. Potássio sérico, porque tanto a hipercalemia quanto a hipocalemia causam bradicardia sinusal — e porque o potássio alto alarga o complexo de qualquer origem, produzindo um traçado que imita bloqueio infra-His em quem não tem bloqueio nenhum. Cálcio sérico, pela hipocalcemia. Gasometria, pela acidose sistêmica grave. Função tireoidiana, pelo hipotireoidismo. E temperatura medida de verdade, porque hipotermia entra na mesma lista e é a única dessas causas que se descobre com um termômetro.
A revisão da caixa de remédios é o exame de maior rendimento de todos e não custa nada. Os fármacos mais associados à disfunção do nó sinusal são os betabloqueadores, os bloqueadores dos canais de cálcio, os digitálicos, os antiarrítmicos e as medicações simpaticolíticas — e o lítio, que a diretriz destaca à parte porque a disfunção que ele causa é muitas vezes definitiva. Pergunte também pelo que começou nas últimas semanas e pelo que foi prescrito em outro serviço, porque a associação de dois freios do nó, cada um prescrito por um médico diferente que não sabia do outro, é uma das histórias mais frequentes deste capítulo.
Vale registrar o que não decide nada aqui, para poupar exame e ansiedade. O estudo eletrofisiológico invasivo não deve ser usado rotineiramente para decidir implante na doença do nó sinusal, porque um tempo de recuperação do nó sinusal ou um tempo de condução sinoatrial alterados não têm significado conclusivo. E o ecocardiograma, que quase sempre é pedido, não responde à pergunta deste capítulo: ele descreve o músculo, não a fiação. Ele é indispensável por outra razão — porque, em quem tem bradicardia indicativa de implante e disfunção ventricular esquerda, a diretriz manda considerar um dispositivo diferente do marca-passo comum, e essa decisão precisa da fração de ejeção.
O que a lista nacional garante, e as três ausências que valem antecipar
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 é generosa com este capítulo, ao contrário do que acontece com as taquiarritmias. Ela traz o sulfato de atropina como solução injetável de 0,25 mg por mililitro no componente básico, o cloridrato de dopamina a 5 mg por mililitro injetável e a epinefrina a 1 mg por mililitro injetável, todos no mesmo componente. Ou seja: as três drogas do algoritmo da bradicardia estão na lista que o país garante, e a conversa sobre falta muda de assunto — o que costuma faltar não é a ampola, é o aparelho com função de marca-passo e alguém treinado para usá-lo.
Três ausências merecem ser sabidas antes de o paciente chegar. A primeira é a isoprenalina, também chamada isoproterenol, que a diretriz de dispositivos nomeia entre os agentes a que o bloqueio nodal responde e que não consta de componente algum da relação de 2024. A segunda é o glucagon, que não consta, e cuja falta importa no cenário específico da bradicardia por betabloqueador. A terceira é o sal de cálcio injetável de uso terapêutico: a relação traz carbonato e fosfato de cálcio por via oral e o folinato de cálcio, mas nenhuma ampola de gluconato ou de cloreto de cálcio para uso isolado — o que importa na bradicardia da hipercalemia e na do bloqueador de canal de cálcio.
Há ainda uma ausência que muda o preparo do procedimento e que quase ninguém confere. O marca-passo transcutâneo dói: a diretriz de 2019 manda considerar analgesia e sedação, e a ficha AC13 fala em analgesia ou sedação leve. A relação de 2024 traz o diazepam como solução injetável de 5 mg por mililitro no componente básico e o sulfato de morfina injetável a 10 mg por mililitro no componente especializado, mas o midazolam aparece apenas como solução oral de 2 mg por mililitro — não há midazolam injetável na lista. Se o seu plano para a dor da captura era midazolam, confira a gaveta antes, e não com o aparelho já ligado.
Do traçado à altura do bloqueio, e da altura à decisão
Uma frequência baixa precisa ser interpretada pela perfusão e pela relação entre ondas P e QRS. Primeiro reconheça comprometimento clínico; depois localize a falha e procure causas reversíveis. O algoritmo deve permitir que suporte, preparação de estimulação e avaliação especializada aconteçam sem esperar todas as doses de uma droga pouco provável de funcionar. O roteiro, a tabela de conversões e a tabela de causas reversíveis servem à hora que se segue à estabilização, e não a substituem: quem tem sinal de baixo débito recebe estimulação enquanto alguém procura a causa, e isso já está resolvido no bloco de conduta. O que vem aqui é o trabalho que decide o resto da internação — localizar a falha, eliminar o que é reversível, converter miligrama em ampola antes de pedir, e escrever no prontuário uma frase que sobreviva à pergunta do cardiologista.
- 1Responda, em voz alta e para a equipe, se a bradicardia está causando o que você está vendo. Queda de pressão, sinais de choque, insuficiência cardíaca aguda, dor torácica de padrão isquêmico, congestão pulmonar, saturação caindo, estado mental que mudou de ontem para hoje: um item basta para mudar tudo. Nenhum item, e a conduta é observar e monitorar enquanto se investiga.
- 2Peça a caixa de remédios e leia caixa por caixa, inclusive a que a família achou que não valia trazer. Anote o que começou nas últimas semanas e o que veio de outro serviço. Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digital, antiarrítmico, simpaticolítico e lítio são a lista curta, e dois deles juntos são a história mais comum deste capítulo.
- 3Meça a largura do complexo de escape e o comportamento do intervalo PR nos batimentos que ainda conduzem. Estreito e crescente aponta para o nó; largo e fixo aponta para baixo do tronco. Essa medida é o que decide se você tem tempo de tentar farmacologia ou se deve ir direto para as pás.
- 4Colha as causas reversíveis num tubo só: potássio, cálcio, função renal, gasometria se houver acidose ou insuficiência renal, e hormônio tireoestimulante. Meça a temperatura de verdade. Nenhum desses resultados atrasa a conduta, e todos podem dispensar um aparelho definitivo.
- 5Imprima, ainda durante a bradicardia, o eletrocardiograma de doze derivações e uma tira longa de pelo menos duas derivações. Assine, date, escreva a hora e escreva ao lado qual sintoma o paciente tinha naquele minuto. Este é o único documento do atendimento que não pode ser refeito depois.
- 6Escreva no prontuário a correlação com o grau de certeza que ela tem. "Bloqueio atrioventricular total com escape de complexo largo a 33 por minuto, concomitante a síncope presenciada, em uso de betabloqueador e de bloqueador de canal de cálcio associados" é uma frase que decide sozinha o próximo passo. "Bradicardia" não decide nada.
- 7Ao entregar o caso — para a regulação, para o cardiologista, para o plantão seguinte —, diga três coisas antes de qualquer outra: a largura do escape, se existe sintoma correlacionado, e o que já foi excluído como causa reversível. São as três informações que decidem se aquele paciente precisa de vaga hoje.
O intervalo antes da falha é o que separa os dois bloqueios
Em cima, o intervalo entre a atividade atrial e o complexo que a segue vai se alongando batimento a batimento — as três marcas de medida crescem — até que uma atividade atrial não é seguida por complexo nenhum, e o ciclo recomeça com o intervalo mais curto de todos. É o comportamento do bloqueio nodal, que retarda antes de falhar. Embaixo, as três marcas têm o mesmo comprimento: o intervalo é fixo, batimento após batimento, e a falha chega sem qualquer aviso no traçado. É o comportamento do tecido abaixo do nó, que não retarda — passa ou não passa. A diferença mora inteira no que acontece antes da falha, e não na falha em si, que é idêntica nos dois desenhos.
| O que o traçado mostra | Como se chama | Onde a falha provavelmente está | O que isso muda agora |
|---|---|---|---|
| Intervalo PR acima de 200 ms, e todas as ondas P conduzem | Bloqueio atrioventricular de primeiro grau | No nó atrioventricular | Nada, na maioria. Só vira assunto se o PR for longo a ponto de desfazer o sincronismo e causar fadiga, o que a diretriz situa acima de 300 ms |
| Intervalo PR cresce a cada batimento até uma onda P não conduzir | Segundo grau tipo I, ou fenômeno de Wenckebach | No nó atrioventricular | Nada, se o paciente é assintomático e o achado é de repouso ou de sono. Muda se ele aparecer durante o esforço, ou se houver tontura e intolerância |
| Intervalo PR fixo e, de repente, uma onda P bloqueada | Segundo grau tipo II, ou Mobitz II | Intra ou infra-His | Monitorização contínua, pás adesivas coladas e contato com quem passa marca-passo, mesmo com o paciente conversando |
| Uma onda P conduz, a seguinte não, alternando | Bloqueio de condução dois para um | Não classificável sem manobra autonômica, fármaco ou estudo eletrofisiológico; a maior parte está intra ou infra-His | Excluir extrassístole atrial não conduzida, que o imita; e, na dúvida, tratar como alto grau até que se prove o contrário |
| Duas ou mais ondas P bloqueadas seguidas, com alguns batimentos ainda conduzidos | Bloqueio avançado, ou de alto grau | Intra ou infra-His na maior parte | Risco de baixo débito e de assistolia grave, com necessidade de terapêutica urgente pela própria diretriz. Procurar causa reversível ao mesmo tempo, não antes |
| Ondas P e complexos sem relação, com as P mais rápidas que os complexos | Bloqueio de terceiro grau, ou total | Supra-hissiana se o escape é estreito; infra-hissiana se é largo | A largura do escape decide a urgência. Escape estreito e estável dá tempo; escape largo pede as pás coladas e transporte |
| Fibrilação atrial com resposta ventricular baixa e intervalos regulares entre os batimentos | Bloqueio total dentro da fibrilação atrial | Abaixo do nó atrioventricular | Deixa de ser conversa de controle de frequência: a regularidade é o achado, e ela não se resolve reduzindo a dose do freio |
Da dose escrita à ampola de vidro: as conversões refeitas contra a apresentação real
| Fármaco e apresentação | A dose como se escreve | Em mililitros | Em ampolas | Na Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Sulfato de atropina 0,25 mg/mL, ampola de 1 mL — 0,25 mg por ampola | 1 mg intravenoso por dose, repetível a cada 3 a 5 minutos; AHA 2025 | 4 mL por dose | 4 ampolas por dose | Componente Básico: solução injetável 0,25 mg/mL |
| Sulfato de atropina — o teto total de 3 mg | Até 3 doses de 1 mg; se necessárias, teto em 6 a 10 minutos após a primeira, sem adiar estimulação | 12 mL no total | 12 ampolas no total | Idem acima |
| Atropina na isquemia miocárdica | Mesmo algoritmo, com reavaliação de perfusão e isquemia a cada etapa; não perseguir taquicardia | Conferir concentração e dose acumulada | Preparar suporte elétrico em paralelo quando indicado | AHA 2025; cautelas da bula |
| Epinefrina 1 mg/mL, ampola de 1 mL — 1 mg por ampola | 2 a 10 mcg/min, titulados pela resposta | 1 mg em 100 mL dá 10 mcg/mL: 12 a 60 mL/h | 1 ampola por bolsa; a 10 mcg/min ela dura 100 minutos | Componente Básico: solução injetável 1 mg/mL |
| Epinefrina — a diluição mais rala, quando a bomba é imprecisa em vazão baixa | A mesma faixa de 2 a 10 mcg/min | 1 mg em 250 mL dá 4 mcg/mL: 30 a 150 mL/h | 1 ampola por bolsa | Idem acima |
| Cloridrato de dopamina 5 mg/mL, ampola de 10 mL — 50 mg por ampola | 5 a 20 mcg/kg/min, titulados pela resposta; AHA 2025 | Para 70 kg: 21 a 84 mg/h; volume depende da diluição final | Ampola de 50 mg: quantidade a preparar depende da concentração padronizada e do tempo de infusão | Componente Básico: solução injetável 5 mg/mL |
| Sedação e analgesia para a estimulação transcutânea | A diretriz de 2019 manda considerar analgesia e sedação; a ficha AC13 fala em analgesia ou sedação leve. Nenhuma das duas fixa dose | Titulada, com o paciente monitorizado | Não aplicável | Diazepam injetável 5 mg/mL no Básico; sulfato de morfina injetável 10 mg/mL no Especializado; midazolam consta apenas como solução oral 2 mg/mL |
| Isoprenalina, também chamada isoproterenol | Nomeada pela diretriz de 2023 entre os agentes a que o bloqueio nodal responde | Não afirmado aqui: a bula não foi lida | Não afirmado | Não consta em componente algum |
As causas reversíveis: onde procurar cada uma em cinco minutos
| A causa | Como se procura, à beira do leito | O que muda se for ela |
|---|---|---|
| Fármaco que freia o nó ou a condução | Ler a caixa de remédios uma a uma e perguntar o que começou nas últimas semanas e o que veio de outro serviço | Pode dispensar o dispositivo definitivo. A diretriz recusa o implante quando a causa é fármaco não essencial, e o mantém quando o fármaco é necessário e insubstituível — quem decide qual dos dois é você, com o prescritor |
| Hipercalemia | Potássio sérico; gasometria se houver insuficiência renal ou acidose | Corrigir a causa. Potássio elevado alarga o complexo venha ele de onde vier, e o traçado resultante imita um bloqueio infra-His em quem não tem nada de infranodal |
| Hipocalemia e hipocalcemia | Potássio e cálcio séricos, colhidos junto com o resto | Repor. Quanto de potássio, por qual via e em quanto tempo é matéria do capítulo dedicado a ele na apostila de prescrição, e não deste |
| Acidose sistêmica grave | Gasometria | Tratar a acidose, e não a frequência. Não há indicação de dispositivo enquanto essa causa estiver de pé |
| Hipotireoidismo | Perguntar por lentificação, intolerância ao frio, pele seca e ganho de peso; dosar hormônio tireoestimulante | Repor levotiroxina, que consta na Rename como comprimido no Componente Básico. O ritmo pode levar semanas para responder, o que às vezes exige suporte enquanto isso |
| Hipóxia | Oximetria de pulso e a olhada no esforço respiratório | Oxigenar antes de qualquer ampola. A ficha AC13 põe a via aérea e a oxigenação como passo 1, antes do acesso venoso |
| Hipotermia | Temperatura medida de verdade, de preferência central quando houver suspeita | Reaquecer. A bradicardia da hipotermia não é indicação de estimulação artificial |
| Isquemia ou infarto de parede inferior | O mesmo eletrocardiograma de doze derivações, lido também para supradesnível do segmento ST | O bloqueio atribuível à isquemia inferior pode ser reversível, pela própria diretriz de dispositivos. O manejo do infarto é do capítulo de infarto com supradesnível desta apostila; o que fica aqui é a decisão sobre o bloqueio |
| Reflexo mediado pelo sistema nervoso autônomo | História: postura, dor, esforço evacuatório, vômito, compressão ou movimento do pescoço, e o contexto do desmaio | Os bloqueios mediados pelo sistema autônomo podem ser reversíveis. A investigação da síncope em si é do capítulo de síncope no pronto-socorro, na apostila de síndromes na emergência |
Onde começa a bradicardia depende de qual documento nacional está aberto, e são três respostas. A diretriz brasileira de laudos eletrocardiográficos de 2022 define bradicardia sinusal como o ritmo sinusal com frequência inferior a 50 por minuto. No item das bradicardias, a atualização da diretriz de ressuscitação de 2019 abre dizendo que elas correspondem à alteração do ritmo cuja frequência é menor que 50. Já a ficha AC13, do protocolo nacional de suporte avançado, adota como critério de inclusão a frequência abaixo de 60. A faixa de desacordo tem dez valores inteiros: de 50 a 59 por minuto, o paciente é bradicárdico para o protocolo do Ministério e não é para nenhum dos dois documentos da sociedade. E o valor exato de 60 não é bradicardia em nenhum dos três — como a ficha das taquiarritmias exige frequência acima de 100, o intervalo de 60 a 100 não tem ficha nenhuma no protocolo nacional. Na prática, nada disso decide conduta, e as próprias fontes explicam por quê: a diretriz de 2019 escreve que esse limite é individual, que frequências menores podem ser fisiológicas para alguns e inadequadas para outros, e que o tratamento está indicado somente quando a bradicardia provoca sinais clínicos de baixo débito. A lição do desacordo é sobre desigualdade estrita, e ela morde de verdade nos cortes em que a classificação muda a decisão — que é o caso das duas notas seguintes.
Um erro de nomenclatura na diretriz de ressuscitação de 2019, dentro de uma única frase, e no lugar em que ele mais atrapalha. Ao listar os graus de bloqueio, o item 5.8 escreve que o bloqueio de segundo grau inclui o tipo I, ou Mobitz I, ou fenômeno de Wenckebach, e o tipo II, ou Mobitz tipo I. Os dois subtipos recebem o mesmo nome próprio: o tipo II é batizado de Mobitz I, que é como o tipo I acabou de ser chamado duas orações antes. O documento, portanto, nunca escreve a expressão Mobitz II. A leitura correta está na outra diretriz da mesma sociedade, a de laudos de 2022, cujo item 4.1.1.3 define o tipo II como a interrupção súbita da condução, com PR fixo, localizada na região intra ou infra-His. A consequência é concreta para quem estuda por um documento só: quem procura Mobitz II no texto da diretriz de emergência não encontra, e o bloqueio que ela deixa sem nome é justamente aquele cujo reconhecimento muda o plano da noite.
A classificação da resposta ventricular na fibrilação atrial, na diretriz de laudos de 2022, deixa dezoito valores inteiros sem classe. O texto lista quatro possibilidades: baixa resposta ventricular quando a frequência é menor ou igual a 50; controle adequado em repouso quando ela fica entre 60 e 80; controle leniente ou inadequado entre 90 e 110; e resposta elevada acima de 110. Somando os intervalos, ficam de fora as faixas de 51 a 59 e de 81 a 89, nove valores inteiros cada. Uma fibrilação atrial a 85 por minuto — que é o número mais banal de uma enfermaria — não tem controle adequado nem controle leniente pela régua da própria diretriz, e uma a 55 não é resposta baixa nem controle adequado. As faixas foram escritas com os extremos fechados e sem se tocarem, o que é o defeito oposto ao das faixas que se sobrepõem, e produz o mesmo resultado: um traçado real que não se deixa laudar.
O mesmo número, 50 batimentos por minuto numa fibrilação atrial, é classificado de formas opostas por dois documentos que compartilham a mesma sociedade realizadora, e aqui a classificação muda conduta. A diretriz de laudos de 2022 diz que a fibrilação atrial tem baixa resposta ventricular quando a frequência é menor ou igual a 50 — o valor exato entra. A diretriz de dispositivos de 2023 manda reconhecer bloqueio atrioventricular total dentro de uma fibrilação atrial quando a resposta ventricular for baixa e os intervalos entre batimentos forem regulares, e fixa esse baixa em menos de 50 por minuto — o valor exato fica de fora. Um paciente com fibrilação atrial a exatamente 50 por minuto e intervalos regulares tem, portanto, baixa resposta ventricular para quem lauda e não preenche o critério de bloqueio total para quem indica marca-passo. Diferentemente do desacordo da primeira nota, este tem consequência: é o critério que dispara a procura por bloqueio total escondido atrás de uma linha de base tremida.
Duas linhas da mesma tabela, na mesma classe e no mesmo nível de evidência, dão prazos diferentes para a mesma situação. A Tabela 3 da diretriz de dispositivos de 2023, no bloco de classe I com nível de evidência B, recomenda o implante quando um Mobitz II, um bloqueio avançado, um bloqueio total ou um bloqueio de ramo alternante — ainda que sem sintoma algum — persistir por 72 horas ou mais depois de um infarto agudo do miocárdio. Quatro linhas abaixo, no mesmo bloco, recomenda o implante no bloqueio avançado que, depois de um infarto, persista por 5 dias ou mais. Setenta e duas horas são 3 dias; 5 dias são 120 horas; sobra uma janela de 48 horas em que o mesmo paciente — bloqueio avançado, assintomático, quarto dia de infarto — já tem indicação classe I pela primeira linha e ainda não tem pela segunda. A diretriz não diz qual das duas prevalece nesse intervalo, e os dois erros possíveis são de naturezas diferentes: implantar cedo num bloqueio que ia se resolver deixa um dispositivo para a vida inteira, e esperar demais devolve à comunidade um bloqueio infranodal com risco de assistolia. É decisão de especialista, não de plantão.
Três cortes de pausa convivem na mesma diretriz de dispositivos de 2023, e dois deles usam a mesma palavra. No item 2.2, o texto manda cogitar bloqueio de alto grau diante de fibrilação atrial que apresente pausas significativas — e o parêntese diz mais de 5 segundos. Dois parágrafos adiante, ainda sobre fibrilação atrial, o mesmo texto indica o marca-passo quando as pausas significativas — e agora o parêntese diz mais de 3 segundos — forem sintomáticas ou atribuíveis a bloqueio infranodal. Uma pausa de 4 segundos numa fibrilação atrial é significativa por um parágrafo e não é pelo outro, com o mesmo adjetivo e no mesmo item. A Tabela 1, sobre doença do nó sinusal, acrescenta um terceiro corte: síncope inexplicada com documentação de pausa sinusal maior que 6 segundos assintomática recebe classe IIb. Os três cortes respondem a perguntas diferentes — suspeitar de bloqueio, indicar dispositivo com sintoma, indicar sem ele — e nesse sentido não se contradizem; o problema é que dois deles vestem a mesma palavra, e é a palavra que o leitor leva embora.
A dose operacional adotada é a do algoritmo AHA 2025: 1 mg intravenoso a cada 3 a 5 minutos, máximo 3 mg. Com 0,25 mg/mL, uma dose é 4 mL; com ampolas de 1 mL, são quatro ampolas por dose e doze no total. Três administrações, se todas forem necessárias, alcançam o teto em 6 a 10 minutos após a primeira. Essa aritmética organiza o material; não autoriza adiar estimulação em um paciente instável.
As conversões devem usar a concentração declarada na apresentação dispensada, com conferência independente de dose, volume e rótulo. Para a apresentação deste exemplo, 1 mg dividido por 0,25 mg/mL corresponde a 4 mL. Não recalcular dose clínica a partir de diferenças de expressão química da composição sem orientação da farmácia.
As duas metades de uma mesma frase da bula da atropina só coincidem numa faixa estreita de peso. Na advertência sobre agravamento da cardiopatia isquêmica, o texto determina que, nesses pacientes, a dose total seja restrita a 2 a 3 mg — e acrescenta, entre parênteses, na mesma linha, máximo de 0,03 a 0,04 mg por quilo. As duas regras divergem fora de uma janela curta. O piso de 0,03 mg/kg só alcança os 2 mg declarados a partir de 66,67 kg, de modo que num paciente de 50 quilos a regra por peso autoriza de 1,5 a 2,0 mg, abaixo do piso escrito ao lado. E o teto de 0,04 mg/kg atinge os 3 mg em 75 kg, de modo que acima disso ele passa por cima não só do teto da frase como do teto geral de 3 mg da mesma bula: em 90 quilos autoriza 3,6 mg, em 100 quilos autoriza 4,0 mg. As duas metades da frase só se contêm mutuamente entre 66,67 e 75 quilos. Quem prescreve pelo parêntese num coronariopata grande ultrapassa, pela aritmética da própria bula, o limite que ela escreveu para proteger exatamente aquele paciente. A leitura segura é a que a advertência quis dizer: na cardiopatia isquêmica vale o menor dos dois valores.
A dopamina tem dois desencontros dentro do mesmo documento, e o segundo é de classe de recomendação. O primeiro é de dose: o item 3.3 da diretriz de 2019, que trata do marca-passo transcutâneo, manda considerar infusão de dopamina de 2 a 10 microgramas por quilo por minuto enquanto se aguarda o aparelho; o item 5.8, que trata das bradicardias, escreve que a infusão é de 2 a 20 microgramas por quilo por minuto. Mesma droga, mesma indicação, mesmo documento, tetos que diferem por um fator de dois. Num adulto de 70 quilos isso é a diferença entre 42 e 84 miligramas por hora, e com a ampola de 50 mg da bula lida significa uma ampola durando 71 minutos pelo teto menor e 36 minutos pelo maior — o que muda quantas ampolas alguém precisa separar antes de ligar a bomba. O segundo desencontro é de classe: o corpo do item 5.8 e o Quadro 5.9 colocam dopamina e adrenalina em classe IIb com nível de evidência B, enquanto o Quadro 5.11, que é o resumo das indicações, junta dopamina, epinefrina e marca-passo transcutâneo para a bradicardia refratária à atropina numa única linha de classe IIa, nível B. São dois contra um em favor do IIb — mas o quadro-resumo é justamente a página que se abre com pressa. A comparação acima é histórica. Para executar o plano deste capítulo, usar a faixa AHA 2025 de 5 a 20 mcg/kg/min, conforme tabela e conduta, sem misturar os limites dos documentos.
Os grupos do eletrocardiograma do atleta, na diretriz de laudos de 2022, se sobrepõem por construção, e as instruções dos dois grupos são opostas. O Grupo 1, dos achados normais, que dispensa investigação em quem é assintomático e sem história familiar, lista bradicardia sinusal e bloqueio atrioventricular de primeiro grau. O Grupo 2, dos achados anormais, que manda investigar transtornos associados à morte súbita, lista bradicardia sinusal acentuada abaixo de 30 por minuto e intervalo PR igual ou superior a 400 milissegundos. Como a mesma diretriz define bradicardia sinusal como frequência abaixo de 50 e bloqueio de primeiro grau como PR acima de 200 milissegundos, cada entrada desse par no Grupo 2 é também, e ao mesmo tempo, uma entrada do Grupo 1: um PR de 400 milissegundos num atleta é simultaneamente bloqueio de primeiro grau e PR maior ou igual a 400; uma frequência de 28 é simultaneamente bradicardia sinusal e bradicardia sinusal acentuada. O documento não enuncia regra de precedência entre os grupos. A leitura que salva é a de que a classe mais específica prevalece, e é o que faz qualquer leitor atento — o problema é o leitor que para na primeira lista, e ele existe, porque a primeira lista é a que autoriza liberar.
A unidade da infusão precisa acompanhar a prescrição: microgramas por minuto não é o mesmo que microgramas por quilo por minuto. Para epinefrina, 1 mg em volume final de 100 mL fornece 10 mcg/mL; 12 a 60 mL/h entregam 2 a 10 mcg/min. Para volume final de 250 mL, a concentração é 4 mcg/mL e a mesma faixa exige 30 a 150 mL/h. Conferir a preparação com a equipe e titular pela perfusão, sempre em bomba.
A conduta, hora a hora
Os oito marcos abaixo estão em ordem de decisão, e não de relógio. O primeiro separa em dois todos os pacientes deste capítulo, e do segundo em diante os dois caminhos correm em paralelo: um deles é quase todo feito de perguntas, o outro é quase todo feito de gestos. Nenhum marco deste bloco se executa sem que o monitor desfibrilador esteja ligado e com as pás adesivas ao alcance da mão, mesmo no paciente que conversa.
Antes de qualquer nome — a pergunta que divide o capítulo em dois
Faça a avaliação primária com o que ela tem de concreto: via aérea pérvia, ventilação assistida se for necessária, e oxigênio se houver hipoxemia, dispneia ou aumento do trabalho respiratório — não por rotina. Monitorize ritmo, pressão e oximetria, faça o eletrocardiograma de doze derivações e instale acesso venoso. Então a pergunta, com a lista fechada: existe hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinal de choque, insuficiência cardíaca aguda, desconforto torácico isquêmico, congestão pulmonar ou queda de saturação? Um item basta. Se a resposta for não, a ficha nacional prescreve duas palavras e nada além delas: observar e monitorar. Se for sim, a bradicardia deixa de ser um achado e passa a ser a doença que você está tratando, e os marcos seguintes valem. Há uma segunda metade dessa pergunta que é a que mais se esquece, e ela é de atribuição: o sinal que você viu é causado pela lentidão, ou existe outra coisa que o explique melhor? Um paciente séptico, hipovolêmico ou sangrando pode estar hipotenso com frequência de 55 sem que a frequência tenha qualquer participação nisso, e tratar o número ali é perder tempo e piorar o foco. A regra que a ficha AC13 escreve no seu passo 5 é exatamente esta: avaliar o grau de instabilidade e determinar se ela está relacionada à bradicardia.
Sem sinal de baixo débito — o trabalho aqui é investigar, e investigar não é esperar
Observar e monitorar não significa deixar o paciente numa maca até o plantão acabar. Significa três coisas ativas, todas feitas nas primeiras duas horas. A primeira é imprimir o registro enquanto a bradicardia está acontecendo, com data, hora, assinatura e a anotação de qual sintoma existia naquele minuto — porque, sem esse papel, a próxima equipe recebe um paciente com frequência normal e uma história de segunda mão. A segunda é a caça às causas reversíveis, que tem marco próprio adiante e não espera resultado de exame para começar. A terceira é medir a resposta ao esforço com o monitor ligado, pedindo que o paciente caminhe ou se levante algumas vezes: a frequência que sobe descarta incompetência cronotrópica e, quando o achado era um bloqueio, mostra de que lado do nó ele está. Há um grupo dentro deste marco que não precisa nem disso, e reconhecê-lo poupa exame e susto: o jovem saudável, o atleta e o paciente dormindo, com bradicardia sinusal, ritmo ectópico atrial ou juncional, bloqueio de primeiro grau ou bloqueio de segundo grau tipo I, todos assintomáticos e sem história familiar de doença hereditária ou de morte súbita. A diretriz brasileira de laudos põe esses achados entre os normais do atleta e dispensa investigação adicional; a de dispositivos diz que a bradicardia funcional assintomática não representa risco e não deve ser tratada de forma geral. Escrever isso no prontuário, com essas palavras, é o que impede que o próximo médico recomece a investigação do zero.
Com sinal de baixo débito — a atropina, o que ela faz e onde ela não é a aposta
Na bradicardia com comprometimento cardiopulmonar, a equipe trata causas reversíveis e prepara suporte em paralelo. Este capítulo adota atropina 1 mg intravenoso, repetível a cada 3 a 5 minutos, máximo total 3 mg, conforme o algoritmo AHA 2025. Na apresentação de 0,25 mg/mL em ampola de 1 mL, cada dose corresponde a 4 mL, ou quatro ampolas; o teto corresponde a doze ampolas. Conferir a concentração disponível antes da administração. A atropina reduz a ação vagal e tem maior chance de funcionar em bradicardia sinusal ou bloqueio nodal. Mobitz II e bloqueio total com escape largo exigem preparação de estimulação sem esperar que todas as doses sejam dadas. Resposta é melhora de perfusão, pressão, consciência e sintomas, e não apenas aumento da frequência. Se for ineficaz, considerar estimulação transcutânea e/ou infusão titulada de epinefrina ou dopamina, com avaliação especializada para estimulação transvenosa. No coração transplantado, a resposta é imprevisível e a abordagem exige orientação especializada. Os esquemas históricos de 0,5 mg aparecem apenas na comparação de documentos, não como uma segunda prescrição ativa.
O marca-passo transcutâneo, passo a passo — o procedimento deste capítulo
É uma técnica não invasiva, de instalação praticamente imediata, que fornece corrente por eletrodos colados na pele e cuja despolarização leva à contração. A indicação principal é a bradicardia sintomática, e o quadro de indicações da diretriz de 2019 nomeia duas situações: a bradicardia de alto grau sintomática e com pulso — que ela define como incluindo os bloqueios de segundo grau Mobitz II e o de terceiro grau — e a falência do tratamento da bradicardia sintomática com atropina. O mesmo quadro nomeia uma situação em que ele não é indicado, e ela é importante: assistolia. A sequência é esta. Confirme que o seu monitor tem a função — a primeira instrução da diretriz é literalmente essa, e é o gênero de coisa que não se descobre com o paciente na maca. Monitorize. Considere analgesia e sedação, com cuidado quanto à qualidade da ventilação, lembrando que a ficha nacional fala em analgesia ou sedação leve e que nenhuma das duas fontes fixa dose. Fixe as pás autoadesivas: o eletrodo anterior à esquerda do esterno, centralizado e o mais próximo possível do ponto de máximo impulso cardíaco, e o posterior nas costas, diretamente atrás do anterior e à esquerda da coluna torácica; a alternativa é a colocação semelhante à do desfibrilador automático, com uma pá sobre o ápice e a outra na região paraesternal direita. Ligue o aparelho na frequência desejada, procurando a opção de marca-passo. Depois aumente a corrente gradualmente até obter captura elétrica, que se reconhece pelo alargamento do complexo com uma onda T larga e de polaridade oposta à do complexo. Observe em que valor de corrente praticamente todas as espículas passam a capturar e deixe a corrente com uma margem de segurança de 10% acima desse limiar. Duas coisas que a diretriz diz e que mudam a expectativa: o acionamento pode ser doloroso e pode não produzir captura mecânica eficaz — o que significa que espícula seguida de complexo na tela não encerra a checagem, e alguém precisa confirmar que aquilo está gerando pulso; e a desvantagem do método é a necessidade de alta energia, por causa da impedância transtorácica que precisa ser vencida. O dispositivo existe para oferecer condição hemodinâmica até a reversão do ritmo, até o tratamento da causa ou até o implante de um marca-passo transvenoso, e a própria diretriz recomenda solicitar avaliação de um especialista.
As aminas — a ponte quando o marca-passo não está pronto ou não está capturando
Se a atropina for ineficaz, a equipe pode usar estimulação transcutânea e/ou infusão titulada como ponte, enquanto trata a causa e organiza avaliação especializada. Na régua AHA 2025 adotada neste capítulo, dopamina é 5 a 20 mcg/kg/min e epinefrina é 2 a 10 mcg/min. As unidades são diferentes: a dose da dopamina depende do peso; a faixa de epinefrina aqui é por minuto. Usar bomba de infusão, concentração padronizada e monitorização contínua, com conferência independente do preparo. Não se espera atingir a dose máxima de atropina para preparar suporte em bloqueio de alto grau com hipoperfusão. A escolha inicial depende da rapidez e da eficácia do recurso disponível, mas a resposta precisa ser mecânica e clínica: pressão, pulso, consciência e perfusão, não apenas o traçado do monitor. Se houver falha, a equipe avança no suporte e na estimulação transvenosa quando indicada. As faixas diferentes dos documentos nacionais antigos são discutidas como contexto histórico; não constituem prescrições concorrentes para esta linha do tempo.
A caça às causas reversíveis, que corre em paralelo e não depois
Este marco não é uma etapa posterior: ele começa no mesmo minuto do primeiro e não espera resultado nenhum. A ficha AC13 põe identificar e tratar causas reversíveis como passo 5, antes ainda da avaliação de baixo débito. Comece pela caixa de remédios, que é o achado mais frequente: betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digital, antiarrítmico, simpaticolítico, lítio — e, sobretudo, a combinação de dois deles prescrita por serviços diferentes. Colha potássio e cálcio, gasometria se houver acidose ou insuficiência renal, e hormônio tireoestimulante. Meça a temperatura com termômetro, e não pela mão. Olhe o eletrocardiograma de doze derivações também para o segmento ST, porque isquemia de parede inferior é causa listada e potencialmente reversível. E colha da história o que só ela dá: postura, dor, esforço evacuatório, vômito, movimento ou compressão do pescoço, que apontam para bloqueio mediado pelo sistema autônomo. Duas advertências fecham o marco. A primeira: identificar a causa reversível não suspende a estimulação em quem está mal — as duas coisas correm juntas, e a diretriz de dispositivos deixa isso implícito ao separar o tratamento agudo da indicação de implante definitivo. A segunda: suspender o fármaco culpado não é o fim do atendimento, é o início de uma observação, porque a resposta pode levar horas e porque, quando o escape é largo, a chance de existir doença estrutural por baixo do fármaco é alta. O fármaco pode ter revelado o bloqueio em vez de tê-lo causado.
Dois contextos brasileiros que mudam o plano: o infarto e a cardiopatia chagásica
O bloqueio atribuível à isquemia de parede inferior ou ao infarto agudo do miocárdio pode ser reversível, do mesmo modo que os bloqueios mediados pelo sistema nervoso autônomo — é a própria diretriz de dispositivos que escreve isso, e é a razão pela qual não se implanta dispositivo definitivo nas primeiras horas do infarto. Onde fica a fronteira: o manejo do infarto em si, da reperfusão à antiagregação, é do capítulo de infarto com supradesnível desta apostila, e este capítulo assume apenas a decisão sobre o bloqueio — que é a de sustentar a frequência com atropina ou com estimulação transcutânea enquanto a reperfusão acontece, e a de não fechar indicação de marca-passo definitivo antes dos prazos que a Tabela 3 da diretriz de 2023 estabelece, prazos cujo desencontro está registrado nas notas deste capítulo. A cardiopatia chagásica muda o plano por outro caminho, e o caminho é a prescrição de saída. O protocolo nacional da doença de Chagas registra que o uso de betabloqueadores exige cautela nessa etiologia porque, apesar do benefício em taquiarritmias e ectopias ventriculares, eles podem acentuar o grau de bradicardia ou de bloqueio do sistema de condução, que são muito comuns nela — de modo que a dose máxima que o paciente tolera costuma ficar abaixo da dos estudos feitos em outras cardiopatias. Traduzindo para o que você escreve: num chagásico que acabou de ter um bloqueio, a decisão sobre reintroduzir ou não o betabloqueador da insuficiência cardíaca não é automática nem é sua sozinha, e precisa ir escrita para quem receber o paciente.
Quando o coração para de responder — e o instante em que este capítulo termina
Há uma saída deste capítulo que precisa estar decidida antes de acontecer. Se a bradicardia extrema progredir e o pulso desaparecer, o atendimento sai deste capítulo e vira o da parada cardiorrespiratória, com compressão torácica imediata — e o quadro de indicações do marca-passo transcutâneo é explícito ao listar a assistolia entre as situações em que ele não é indicado. Isto é o oposto do reflexo natural de quem já está com o aparelho na mão: diante de uma linha reta, ligar o marca-passo é a coisa errada, e o que se faz é comprimir. O manejo da parada propriamente dita, com o algoritmo, os ritmos e as drogas, pertence ao capítulo de parada cardiorrespiratória na enfermaria, na apostila de síndromes do paciente internado; o que fica aqui é só o gatilho e o gesto de troca. Na direção oposta, o desfecho comum deste capítulo não é a parada, é o transporte. O marca-passo transcutâneo é ponte, não destino: ele sustenta até a reversão do ritmo, até o tratamento da causa ou até o implante do transvenoso provisório, procedimento de especialista que não se faz num serviço sem quem o faça. Ligue para a regulação cedo, com a bradicardia ainda instalada, e diga as três coisas que decidem a vaga: a largura do escape, se há sintoma correlacionado, e o que já foi excluído como causa reversível. Enquanto a vaga não sai, o paciente fica monitorizado, com as pás coladas, com acesso venoso funcionando e com alguém ao lado — e não no corredor.
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, do minuto seguinte à primeira ampola até a passagem de plantão. Cada um tem um achado que diz se está indo bem, e três deles são coisas que só existem se alguém tiver escrito.
Os primeiros minutos depois da atropina, e o que é resposta satisfatória
A meia-vida da atropina é curta — a ficha AC13 dá o número, cerca de 4 minutos —, e o próprio documento diz para que serve essa brevidade: a principal vantagem da droga é permitir um intervalo de tempo para o preparo do marca-passo transcutâneo ou de outras medicações. Ou seja, a expectativa correta não é que a atropina resolva; é que ela compre minutos.
Resposta satisfatória se mede em três coisas e nenhuma delas é a frequência isolada: a pressão arterial subiu, o nível de consciência melhorou, a perfusão periférica voltou. Frequência que sobe de 34 para 44 sem que a pressão se mexa não é resposta, é ruído. E há um sinal de que a droga não é o caminho: se a frequência sobe e o grau de bloqueio piora — mais ondas P bloqueadas do que antes —, o que aconteceu foi o átrio acelerar sem que a passagem melhorasse, e isso aponta para uma falha abaixo do nó. Nesse caso o marco seguinte já é o marca-passo.
A captura do marca-passo transcutâneo: a da tela e a do pulso
A captura elétrica é a que se vê no monitor, e a diretriz descreve o que procurar: alargamento do complexo com uma onda T larga e de polaridade oposta à do complexo, acompanhando cada espícula. Ache o valor de corrente em que praticamente todas as espículas capturam e deixe a corrente 10% acima dele — essa margem existe porque o limiar sobe com o tempo, com a sudorese e com o descolamento parcial das pás.
A captura mecânica é a outra, e é a que importa para o paciente. A diretriz registra que o acionamento pode não produzir captura mecânica eficaz, o que significa que espícula seguida de complexo na tela não prova contração. Confirme por outro caminho — pulso, pressão, perfusão — e reconfira sempre que a corrente for alterada, sempre que o paciente for mobilizado e sempre que alguém trocar as pás. E anote no prontuário o valor da corrente em que a captura foi obtida, porque ele é a referência de quem assumir o plantão.
A dor, e a sedação que não pode virar o problema seguinte
O acionamento do marca-passo transcutâneo dói, e essa é a razão pela qual pacientes acordados às vezes arrancam as pás. A diretriz manda considerar analgesia e sedação com cuidado quanto à qualidade da ventilação; a ficha nacional fala em analgesia ou sedação leve. Nenhuma das duas fixa dose, e a razão é que a titulação depende do paciente que está na sua frente.
O cuidado que a diretriz destaca é o respiratório, e ele tem uma armadilha específica neste cenário: o paciente sedado que hipoventila fica hipóxico, e a hipóxia é ela própria causa de bradicardia. Sedar demais um bradicárdico é fechar um círculo. Mantenha oximetria contínua, mantenha a bolsa-válvula-máscara ao lado, e reavalie o nível de sedação a cada aumento de corrente — porque a dor aumenta com a corrente, e a tentação de sedar mais aparece junto.
A causa reversível respondeu, ou você só a suspendeu?
Suspender o fármaco é rápido; medir a resposta não é. Um betabloqueador de meia-vida longa não sai do organismo em duas horas, e a frequência pode levar de horas a um dia inteiro para subir. Estabeleça um horário de reavaliação e escreva-o na prescrição, em vez de deixar a checagem para quem passar pelo leito.
Duas correções têm relógio próprio e vale conhecê-los para não concluir cedo demais. A da hipercalemia costuma ser rápida, e o alargamento do complexo recua junto com o potássio; se o complexo não estreitar quando o potássio normalizar, o bloqueio não era do potássio. A do hipotireoidismo é lenta, de semanas, o que significa que um paciente com bradicardia sintomática e hipotireoidismo grave pode precisar de suporte durante a espera, e que a levotiroxina não substitui essa decisão.
A frequência quando ele se mexe
Depois de estabilizado, e antes de qualquer alta, veja o que a frequência faz com o esforço. Com o monitor ligado, peça que o paciente caminhe pelo corredor ou que se levante e sente algumas vezes. A frequência que sobe adequadamente afasta a incompetência cronotrópica, que é uma das manifestações da doença do nó sinusal listadas pela diretriz de dispositivos.
Este parâmetro tem um segundo uso, que é o de reposicionar um bloqueio. Um bloqueio de segundo grau tipo I que desaparece no esforço confirma que ele era vagal, e é um argumento a favor de deixar aquele paciente em paz. Um bloqueio que aparece ou que piora no esforço aponta para o lado errado do nó — a diretriz de laudos registra que o tipo I ocorrendo durante o exercício pode causar intolerância e tontura, e essa é a mesma observação vista pelo sintoma.
Recorrência dentro do plantão, e o traçado que ninguém guardou
Bradiarritmia que volta muda o peso da indicação, mas só se houver prova. A recorrência que se documenta é a que conta; a recorrência que a técnica viu no monitor e ninguém imprimiu não existe para o cardiologista que vai receber o caso. Deixe combinado com a equipe, em voz alta, que qualquer novo episódio é motivo de impressão imediata, com hora anotada e com o sintoma anotado ao lado.
Existe uma forma de recorrência que se anuncia de maneira traiçoeira: o bloqueio atrioventricular paroxístico, que a diretriz de laudos define como a ocorrência súbita e inesperada de uma sucessão de ondas P bloqueadas. Entre os episódios o traçado pode ser inteiramente normal. Por isso, num paciente que já teve síncope, o eletrocardiograma normal do momento não autoriza reduzir a monitorização — o que autoriza é o tempo de observação sem evento, e mesmo esse com cautela.
O que precisa estar escrito quando o plantão trocar
São seis itens e nenhum deles é opinião. O traçado da bradicardia, impresso, com data, hora e assinatura. O sintoma que existia naquele minuto, escrito ao lado do traçado. A largura do complexo de escape, em milissegundos, medida e anotada. A lista completa de medicamentos que o paciente usava na chegada, com o que foi suspenso e a que horas. As causas reversíveis já excluídas, nomeadas uma a uma, e as que ainda estão pendentes de resultado. E, se houve estimulação transcutânea, o valor de corrente em que a captura foi obtida e o horário em que ela começou.
O sétimo item não é um dado, é uma frase, e é a que decide o que acontece com essa pessoa nos próximos meses: a correlação entre o ritmo e o sintoma, escrita com o grau de certeza que ela tem. Quando a correlação está documentada, escreva que está e diga como. Quando não está, escreva que não está — porque a diretriz de dispositivos separa explicitamente a indicação com sintoma documentado da indicação por diagnóstico presuntivo, e quem vai fazer essa distinção precisa saber em qual das duas o seu paciente está.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente deste capítulo e o único cujo dano é inteiramente iatrogênico. Uma bradicardia sinusal de 44 num corredor de rua, um Wenckebach de madrugada num adolescente, um bloqueio de primeiro grau num vagotônico: os três são achados que a diretriz brasileira de laudos classifica entre os normais do atleta e que a de dispositivos descreve como bradicardia funcional assintomática, sem risco e que não deve ser tratada de forma geral. O que se ganha investigando é uma cascata de exames, uma consulta que ocupa vaga de quem precisa, e um paciente que passa a se achar cardiopata.
Como pegar a tempo: Antes de pedir qualquer coisa, faça as duas perguntas na ordem certa: existe sintoma que a lentidão explique, e a frequência sobe quando ela precisa subir? Se as duas respostas forem não e sim, escreva no prontuário que se trata de achado fisiológico, com essas palavras e citando o critério — é o que impede o próximo médico de recomeçar do zero.
O dano: No bloqueio de alto grau com escape largo, a atropina tem baixa probabilidade de resolver a falha de condução. O dano é insistir em doses seriadas enquanto a perfusão piora e a estimulação não está preparada. Mesmo no esquema AHA 2025, não é obrigatório chegar ao teto de 3 mg antes de iniciar suporte elétrico ou uma infusão titulada pela equipe.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem do preparo. Cole as pás adesivas e confirme que o aparelho tem a função de marca-passo antes de puncionar a atropina, e não depois de ela falhar. A ficha AC13 diz isso em nove palavras entre parênteses: não retardar diante de Mobitz II ou de bloqueio de terceiro grau. A atropina, nesse cenário, é o que se faz enquanto — não em vez de.
O dano: Duas coisas dão errado. A primeira é farmacocinética: o fármaco não desaparece porque a prescrição mudou, e a frequência pode levar de horas a mais de um dia para responder — de modo que a alta acontece antes de existir qualquer prova de que a suspensão funcionou. A segunda é conceitual e mais grave: o fármaco pode ter revelado um bloqueio que já existia em vez de tê-lo causado, e isso é especialmente provável quando o escape é largo. Nesses casos a suspensão melhora um pouco, a alta acontece, e o bloqueio volta em casa sem testemunha.
Como pegar a tempo: Trate a suspensão como um teste com resultado, e não como uma conclusão. Escreva na prescrição o horário da reavaliação, meça de novo a frequência e a largura do complexo depois desse intervalo, e só depois decida. E use a largura do escape como semáforo: escape estreito autoriza otimismo com a causa farmacológica; escape largo obriga a assumir que existe doença estrutural por baixo, até que alguém prove o contrário.
O dano: A chance de o evento cair dentro da janela é quase nula, e o resultado normal produz um dano que o exame não pedido não produziria: ele é lido como prova de que não há arritmia. O paciente sai com um laudo tranquilizador, a investigação para, e a próxima síncope acontece sem nada de novo no prontuário. A diretriz de dispositivos lista o Holter de 24 ou 48 horas, o de 7 dias, o monitor de eventos externo e o monitor de eventos implantável como ferramentas distintas justamente porque elas cobrem frequências de sintoma distintas.
Como pegar a tempo: Escolha o exame pela frequência do sintoma, e não pelo que o serviço tem mais à mão. Sintoma quase diário cabe no Holter curto; sintoma semanal pede o longo ou o monitor externo; sintoma de meses é território do monitor implantável, que a diretriz coloca como útil justamente na síncope inexplicada de maiores de 40 anos com investigação inicial negativa. E, qualquer que seja o exame, escreva no pedido a frase que salva o laudo: correlacionar com diário de sintomas.
O dano: Captura elétrica e captura mecânica são coisas diferentes, e a diretriz de 2019 registra em uma linha que o acionamento dói e pode não gerar captura mecânica eficaz. Um aparelho que dispara sem gerar contração produz uma tela tranquilizadora e um paciente que continua sem débito — e, como todo mundo olha o monitor, a deterioração é percebida tarde. O mesmo vale quando a corrente foi deixada no limiar exato: a impedância sobe com a sudorese e com o descolamento parcial das pás, e a captura se perde sem que nada mude na tela imediatamente.
Como pegar a tempo: Depois de obter captura elétrica, confirme por outro caminho que aquilo está gerando circulação — pulso, pressão, perfusão — e refaça essa checagem a cada mudança de corrente, a cada mobilização do paciente e a cada troca de pás. E deixe a corrente com a margem de segurança de 10% acima do limiar que a diretriz recomenda, anotando no prontuário o valor em que a captura foi obtida.
O dano: É um rótulo que descreve o papel e omite a única informação que decide. A diretriz de dispositivos constrói toda a indicação de implante sobre a correlação documentada entre a alteração eletrocardiográfica e a manifestação clínica, e separa em linhas diferentes o paciente com sintoma documentado, o com diagnóstico presuntivo e o assintomático, para quem o implante não é indicado. Sem a correlação escrita, o cardiologista que receber esse paciente daqui a quatro meses não tem como saber em qual das três linhas ele está — e vai recomeçar a investigação, com o paciente correndo o risco no intervalo.
Como pegar a tempo: Escreva a frase inteira, com ritmo, número, sintoma e simultaneidade: bradicardia sinusal de 38 por minuto documentada às 5h10, concomitante a episódio de pré-síncope presenciado pela equipe, em uso de atenolol e verapamil associados. E, quando não houver correlação, escreva que não houve: traçado colhido fora do sintoma, sem documentação do ritmo durante o episódio. As duas frases são úteis; a que não diz nada é a que traz só o rótulo.
O que dizer ao paciente e à família
Sete conversas. Três acontecem com o monitor apitando, duas acontecem depois que tudo passou, e duas são com quem não é o paciente. Nenhuma delas muda a frequência cardíaca; todas mudam o que essa pessoa faz nas semanas em que a fila não anda.
Antes de ligar o marca-passo transcutâneo: avisar que vai doer
O acionamento é doloroso, e a diretriz registra isso como característica do método, não como complicação. O paciente sente uma contração forte e repetida da musculatura do tórax, no ritmo do aparelho. Quem não foi avisado interpreta aquilo como o próprio coração falhando, e a reação previsível é arrancar as pás.
Uma versão que funciona: "eu vou ligar um aparelho que dá pequenos choques na parede do peito, um atrás do outro, para obrigar o coração a bater na velocidade certa. Vai incomodar, e o músculo do peito vai se contrair junto — isso é o esperado, não é o coração piorando. Eu vou te dar remédio para a dor e vou estar aqui do lado o tempo todo. Se ficar insuportável, você me diz e a gente ajusta." Dito antes, é um procedimento; dito depois, é um trauma.
Explicar por que você não vai tratar um número que assustou
Esta conversa acontece com o jovem que fez um exame para a academia, com o atleta e com a família do idoso que viu 46 no aparelho de pressão da farmácia. O número já assustou antes de você entrar na sala, e desfazer o susto exige mais do que dizer que está tudo bem.
O que funciona é explicar a lógica, não o resultado: "um coração treinado bate menos vezes porque cada batida rende mais. O que importa não é o número em repouso, é se ele sobe quando você precisa — e o seu sobe, a gente acabou de ver aqui no corredor. Se algum dia aparecer desmaio, tontura ao esforço ou um cansaço novo que não passa, aí muda, e você volta. Enquanto isso, isso aqui é o seu normal." Termine escrevendo essa frase no relatório, porque ela vai ser lida por outro médico algum dia.
Dizer que o remédio dele é a causa, sem transformar isso em culpa de alguém
A conversa mais delicada deste capítulo é a que explica que dois remédios do coração, tomados juntos, fizeram o coração ficar devagar demais. Ela tem duas armadilhas: virar acusação a quem prescreveu, ou virar medo de tomar remédio, que é o dano de longo prazo mais caro que este atendimento pode causar.
Uma forma de dizer: "os dois remédios que o senhor toma servem para a mesma coisa e agem no mesmo lugar do coração. Cada um sozinho está certo; os dois juntos, no seu caso, seguraram demais. Não é que algum estava errado — é que os dois foram prescritos em lugares diferentes e ninguém viu a soma. A gente vai suspender um e olhar o que acontece, e o senhor não vai parar nenhum remédio por conta própria depois disso." E entregue por escrito qual foi suspenso e por quê, porque a próxima consulta vai ser com quem prescreveu.
Falar do marca-passo definitivo quando ele ainda é uma possibilidade
Muitas vezes a palavra marca-passo aparece na sala antes de a indicação existir, e o paciente sai achando que vai operar. É melhor dizer a verdade inteira, incluindo a parte que ainda não se sabe: que existe uma decisão a ser tomada, que ela depende de duas coisas que estão sendo verificadas agora, e que não é você quem a toma.
"O que aconteceu com o senhor pode ter três explicações: um remédio que segurou demais, alguma coisa no sangue que a gente está dosando, ou um desgaste do sistema elétrico do coração. Se for uma das duas primeiras, resolve e acabou. Se for a terceira, existe um aparelho que resolve, que se coloca com anestesia local e não é cirurgia de peito aberto. Quem decide isso é o cardiologista, com os exames que estamos colhendo — e o papel que eu vou te dar é o que permite que ele decida sem começar do zero."
Trinta segundos com quem está na porta enquanto o monitor apita
Em algum ponto do atendimento uma filha, um vizinho ou um genro para na soleira e fica ali, sem entrar e sem ir embora. Expulsar custa caro: quem espera sem notícia preenche o silêncio com a pior hipótese, e aqui a pior hipótese já vem com palavra pronta, porque alguém na sala falou em aparelho e em choque.
Três informações, sempre nesta sequência: o problema, a medida em curso e o horário do próximo encontro. "O coração dele está batendo devagar demais, e foi isso que derrubou ele em casa. Estamos usando um aparelho que dá estímulos pequenos e seguidos para segurar a frequência enquanto investigamos o motivo. Ele está acordado, respondendo, e eu acabei de conversar com ele. Daqui a vinte minutos eu venho até a senhora, havendo novidade ou não." O prazo se cumpre inclusive de mãos vazias: voltar sem nada novo a dizer é o que sustenta a confiança do resto da noite.
A conversa sobre dirigir, morar sozinho e subir escada, enquanto a fila não anda
Esta é a conversa que ninguém tem e que mais muda a vida de quem espera. Um paciente com síncope de origem bradiarrítmica aguardando avaliação vai voltar para casa, e ele precisa de instruções concretas sobre um intervalo que pode durar meses.
Combine um plano curto, com quem mora com ele presente: não dirigir até a avaliação; não subir em escada, telhado ou laje; tomar banho com alguém em casa e sem trancar a porta; e procurar atendimento imediatamente se houver novo desmaio, tontura ao esforço ou falta de ar nova. Sobre dirigir, seja direto e não prometa prazo: "enquanto não estiver definido o que causou o desmaio, o senhor não dirige — não é castigo, é que ele voltou três vezes em duas semanas e a gente não sabe quando volta de novo." Não invente data de consulta que você não controla; combine, em vez disso, o que fazer se a data não chegar.
Entregar o caso em trinta segundos, ao telefone
Para a regulação ou para o cardiologista, a ordem da informação é o que permite decidir. Comece pelo que define a urgência — a largura do escape e a existência de sintoma correlacionado —, depois o que já foi excluído, e só então o que já foi feito.
"Homem de 74 anos, síncope sem pródromo há uma hora, terceira em duas semanas. Bloqueio atrioventricular total, escape de complexo largo a 33 por minuto, pressão de 82 por 50, perfusão lentificada. Em uso de atenolol e verapamil associados, os dois suspensos agora. Potássio, cálcio e função tireoidiana colhidos, sem resultado ainda. Atropina 1 mg sem resposta; marca-passo transcutâneo em uso desde as 5h20, capturando, pressão de 104 por 62. Traçado da bradicardia impresso e anexado. Preciso de vaga com quem passe marca-passo transvenoso." São trinta segundos, e quem ouve já tem tudo de que precisa para dizer sim ou não à vaga.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
É medida temporária, e vale inclusive no bloqueio sintomático de alto grau
A diretriz brasileira de ressuscitação, na atualização de 2019, escreve no item das bradicardias que o sulfato de atropina reverte as bradicardias mediadas por colinérgicos e deve ser considerado medida temporária, enquanto se aguarda a colocação do marca-passo transcutâneo, nos pacientes com bloqueio atrioventricular sintomático de alto grau. A recomendação de usar atropina na bradicardia sintomática vem com classe IIa e nível de evidência B, e o mesmo documento repete a orientação no capítulo do marca-passo: considere atropina 0,5 mg enquanto aguarda o aparelho, repetível até o total de 3 mg, e, se não for eficaz, inicie a estimulação.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019, itens 3.3 e 5.8
A bula do próprio fármaco diz para não confiar nele exatamente nesses bloqueios
A bula profissional do sulfato de atropina traz, em nota de rodapé da tabela de posologia adulta, imediatamente abaixo da linha da bradicardia sintomática, a advertência de não confiar na atropina diante de Mobitz II, nem de bloqueio total com QRS alargado, porque essas bradiarritmias provavelmente não respondem à reversão dos efeitos colinérgicos. A mesma nota acrescenta que a droga não tem efeito sobre a bradicardia do coração transplantado. A diretriz de dispositivos de 2023 dá a razão fisiológica do mesmo lado, ao registrar que os bloqueios intra e infra-His respondem mal ao bloqueio vagal.
Bula profissional do sulfato de atropina monoidratado 0,25 mg/mL, Hipolabor, nota da tabela de posologia em adultos; e Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023, item 2.2.1
As duas posições concordam mais do que aparentam, e a discordância está no custo de tentar. Nenhuma delas diz que a atropina resolve o bloqueio infranodal; uma diz que vale dar enquanto se prepara o aparelho, a outra diz que não se deve contar com ela. O que decide à beira do leito é se dar a droga consome, ou não consome, o tempo do preparo. Se você tem duas pessoas na sala, uma prepara as pás enquanto a outra injeta, e a atropina não custa nada: dê. Se você está sozinho, o preparo vem primeiro, porque insistir em todas as doses antes de preparar a estimulação consome tempo crítico e são exatamente os minutos em que o marca-passo não estava sendo montado. Três informações ajustam a decisão no paciente concreto. A largura do escape: complexo estreito eleva muito a chance de o bloqueio ser nodal, e aí a expectativa de resposta é real. A causa: bradicardia mediada por colinérgico ou por tônus vagal responde por definição, e é justamente aquela em que a bula prevê eficácia. E a coronariopatia: nela a própria bula restringe a dose total, porque acelerar o coração isquêmico aumenta a demanda de oxigênio. Em qualquer cenário, a frase que a ficha nacional escreve entre parênteses vale como piso e não é objeto de disputa nenhuma: não retardar a estimulação diante de Mobitz II ou de bloqueio total.
Primeiro o marca-passo transcutâneo; a amina é o que se faz enquanto ele não chega
A diretriz brasileira de ressuscitação de 2019, no capítulo do marca-passo transcutâneo, ordena os passos: considerar atropina enquanto se aguarda o aparelho, repetível até 3 mg, e, se não for eficaz, iniciar a estimulação; e considerar epinefrina de 2 a 10 microgramas por minuto ou dopamina em infusão enquanto se aguarda a colocação do marca-passo, ou caso ele não seja eficaz. A amina aparece, nas duas menções, subordinada ao aparelho. O quadro de orientação farmacológica do mesmo documento reforça a hierarquia ao separar as classes: atropina em IIa, marca-passo transcutâneo em IIa, adrenalina e dopamina em IIb.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019, item 3.3 e Quadro 5.9
Marca-passo transcutâneo ou amina, no mesmo degrau, como alternativas
A ficha AC13 do protocolo nacional de suporte avançado de vida, cujo rodapé registra elaboração em agosto de 2014 e revisão em outubro de 2014, escreve os dois recursos ligados por uma conjunção alternativa: se não houver resposta satisfatória à atropina, considerar instalação de marca-passo transcutâneo — com a ressalva, entre parênteses, de não retardar diante de Mobitz II ou de bloqueio total — ou usar adrenalina ou dopamina. A mesma ficha acrescenta a condição material que costuma decidir na prática: o uso de adrenalina e de dopamina exige bomba de infusão para controle da dosagem.
Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, ficha AC13 (bradicardia), revisão de outubro de 2014
O algoritmo AHA 2025 apresenta estimulação transcutânea e/ou infusão de dopamina ou epinefrina após resposta insuficiente à atropina. No bloqueio de alto grau com hipoperfusão, o preparo ocorre em paralelo. A escolha considera disponibilidade imediata, experiência da equipe e resposta clínica; não há autorização para titular catecolamina em gotejamento livre. Confira função de marca-passo, pás, bomba e concentração padronizada antes de precisar deles. Verifique captura elétrica e mecânica e procure a causa reversível. Tanto a estimulação transcutânea quanto a infusão são pontes; persistência do bloqueio ou da instabilidade exige avaliação especializada e organização do suporte definitivo.
Não se classifica sem manobra autonômica, fármaco ou estudo eletrofisiológico
A diretriz brasileira de dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis de 2023, ao descrever os graus de bloqueio, afirma que o padrão dois para um retira do observador a possibilidade de dizer com segurança se aquilo é do tipo I ou do tipo II: chegar lá exigiria manobras sobre o tônus autonômico, fármacos, ou até o estudo eletrofisiológico por cateter. A posição é de suspensão do juízo: o traçado, sozinho, não basta, e o documento não oferece estimativa de probabilidade a favor de nenhum dos dois lados.
Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023, item 2.2.1
A maior parte está intra ou infra-His, e é assim que se lauda
A diretriz brasileira sobre análise e emissão de laudos eletrocardiográficos de 2022, no item dedicado ao bloqueio dois para um, afirma que a maior parte desse bloqueio se localiza na região intra ou infra His-Purkinje, e acrescenta apenas a exigência de excluir o diagnóstico de extrassístoles atriais não conduzidas. É uma posição probabilística e operacional: sem suspender o juízo, ela informa para que lado apostar, e é a mesma frase que o documento usa para o bloqueio avançado e para o de segundo grau tipo II.
Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022, item 4.1.1.4
As duas posições respondem a perguntas diferentes, e é por isso que convivem: uma diz o que se pode afirmar, a outra diz onde apostar quando é preciso decidir agora. À beira do leito, o que resolve é notar que os dois erros custam coisas diferentes. Tratar como alto grau um bloqueio que era nodal custa monitorização, pás coladas e um telefonema; tratar como nodal um bloqueio que era infranodal custa a chance de assistolia sem ninguém ao lado. Por isso, no paciente sintomático, a posição operacional é a que serve, e a suspensão do juízo não deve virar espera. Três coisas ajustam a estimativa antes de qualquer manobra, e são gratuitas. A largura do complexo conduzido: estreito abre espaço real para origem nodal, largo praticamente fecha a discussão para baixo do nó. A companhia: um bloqueio dois para um num paciente com bloqueio de ramo prévio ou bifascicular está, quase por construção, no sistema His-Purkinje. E a exclusão que a diretriz de laudos exige antes de tudo: extrassístole atrial não conduzida imita o padrão e não é bloqueio nenhum — procure a onda P prematura deformando a onda T anterior antes de nomear qualquer coisa. Só depois disso, e só no paciente estável e monitorizado, cabe a observação com esforço, lembrando que nenhum dos dois documentos publica protocolo ou ponto de corte para ela.
O raciocínio, em voz alta
Teodolino Salustiano Vidigal, 74 anos, lavrador aposentado, 62 quilos, o mesmo paciente da abertura. Chega às 4h50 de quinta-feira trazido pelo filho depois de síncope no banheiro, sem pródromo, com corte superficial na sobrancelha; é a terceira queda em duas semanas e a primeira com lesão. Nasceu no norte de Minas e morou em casa de pau a pique até os dezenove anos. Usa atenolol 50 mg por dia há seis anos e verapamil 80 mg de oito em oito horas iniciado há três semanas em outro serviço, sem que o primeiro tenha sido suspenso. Monitor a 33 por minuto, pressão de 82 por 50, saturação de 95% em ar ambiente, 20 incursões respiratórias por minuto, glicemia de 104, temperatura axilar de 36,0, enchimento capilar de três segundos e pés frios. Consciente e orientado, mas o filho relata lentificação desde a véspera. O eletrocardiograma de doze derivações mostra ondas P regulares a cerca de 88 por minuto, complexos regulares a 33, largos, e nenhuma relação entre uns e outros. O hospital não tem cardiologista de plantão nem hemodinâmica, e a regulação avisou que a vaga na capital não sai antes das oito.
A decisão que vem antes do nome, e por que este não é caso de observar
A pergunta não é qual o grau do bloqueio — isso o traçado já respondeu. É se a bradicardia está causando o que estou vendo, e a resposta é sim por dois caminhos independentes: pressão sistólica de 82 com enchimento capilar de três segundos e pés frios, que é sinal de choque; e alteração aguda do estado mental relatada pela família, além da própria síncope. Um item bastaria. A segunda metade da pergunta também está respondida: não há febre, não há sangramento, não há hipovolemia nem dor que expliquem melhor a hipotensão, e o filho descreve piora progressiva acompanhando a lentificação. A instabilidade é da bradicardia. Portanto a resposta à técnica é: cole as pás. E depois abra a gaveta — para pegar atropina e sedativo, não para escolher entre uma coisa e outra.
O que o traçado já me diz sobre a altura da falha
Ondas P a 88, complexos a 33, sem relação nenhuma entre eles e com a frequência atrial maior que a do escape: é bloqueio atrioventricular total. E o complexo do escape é largo, o que situa a origem abaixo do tronco do feixe de His. Isso muda três expectativas de uma vez. A primeira é a resposta à atropina, que a diretriz de dispositivos descreve como ruim nos bloqueios intra e infra-His e que a bula do fármaco desaconselha explicitamente no terceiro grau com complexo largo. A segunda é a estabilidade: escape ventricular é lento e imprevisível, e a diretriz avisa que os bloqueios de alto grau têm maior risco de baixo débito e de assistolia grave, com necessidade de terapêutica urgente. A terceira é o prognóstico da causa reversível — mesmo que as drogas sejam culpadas, um escape largo diz que existe doença estrutural do sistema de condução por baixo delas.
O que sai da minha boca para a equipe, e em que ordem
Pás adesivas coladas com o eletrodo anterior à esquerda do esterno, o mais próximo possível do ponto de máximo impulso, e o posterior nas costas, atrás dele e à esquerda da coluna. Confirmação de que este monitor tem função de marca-passo — pergunto e olho o painel, porque não é hora de descobrir que não tem. Doze ampolas de atropina separadas na bandeja, porque 0,25 mg por ampola significa quatro ampolas por dose e doze até o teto de 3 mg. Diazepam preparado para a sedação, já que é o injetável que existe aqui. Segundo acesso venoso. Tubos para potássio, cálcio, função renal e hormônio tireoestimulante, colhidos agora e não depois. E a tira de ritmo que já corre no monitor precisa ser impressa e guardada, com a hora escrita à mão — é o único documento deste atendimento que não pode ser refeito.
A atropina, que eu dou sabendo o que esperar dela
A equipe prepara estimulação imediatamente, porque o paciente tem hipoperfusão e escape largo. Enquanto outra pessoa termina o preparo, pode ser administrada atropina 1 mg intravenoso, equivalente a quatro ampolas de 0,25 mg, sem atrasar o marca-passo. Neste caso, uma segunda dose de 1 mg é dada três minutos depois, em paralelo ao preparo. A frequência sobe para 38, mas a pressão fica em 86 por 52 e a perfusão permanece inadequada. Não é resposta satisfatória. A estimulação e, quando necessária, infusão titulada avançam sem aguardar a terceira dose. O benefício esperado da atropina é baixo nesse padrão, e a prioridade é restaurar perfusão.
A estimulação transcutânea, com a checagem que eu não pulo
Explico ao paciente em duas frases que vai incomodar e que a contração do peito é esperada. Sedo com diazepam titulado, com oximetria contínua e a bolsa-válvula-máscara ao lado, atento ao que a diretriz destaca sobre a qualidade da ventilação — sedar demais um bradicárdico produz hipóxia, e hipóxia é ela própria causa de bradicardia. Ligo o aparelho na função de marca-passo e subo a corrente gradualmente até que praticamente todas as espículas capturem, reconhecendo a captura elétrica pelo alargamento do complexo com onda T larga e de polaridade oposta. Encontro o limiar e deixo a corrente 10% acima dele, anotando o valor no prontuário. E então faço a checagem que a tela não faz: palpo o pulso e meço a pressão, porque a própria diretriz registra que o acionamento pode não produzir captura mecânica eficaz. Pressão de 104 por 62, pulso presente e regular, pele começando a esquentar.
As causas reversíveis, procuradas em paralelo e não depois
Suspendo o atenolol e o verapamil — os dois, agora, e escrevo o horário. É a associação clássica: dois freios do nó atrioventricular prescritos em serviços diferentes, nenhum dos dois errado sozinho. Mas não trato isso como resposta final por causa do escape largo. Mando o potássio, o cálcio, a creatinina e o hormônio tireoestimulante, meço a temperatura com termômetro e releio o eletrocardiograma procurando supradesnível de ST em parede inferior, porque o bloqueio da isquemia inferior é potencialmente reversível. E registro a origem geográfica no prontuário com a mesma seriedade de um exame: nascido e criado até os dezenove anos em casa de pau a pique no norte de Minas é, num idoso com bloqueio total, um dado que reposiciona a etiologia para cardiopatia chagásica — o que muda a prescrição de saída, porque nessa doença o betabloqueador pode acentuar o bloqueio e a dose tolerada costuma ser menor.
O telefonema, feito com a bradicardia ainda instalada
Ligo para a regulação às 5h30, com o marca-passo já capturando, e não espero a coleta voltar. Digo as três coisas que decidem a vaga, nesta ordem: escape de complexo largo, o que situa o bloqueio abaixo do tronco; síncope presenciada e correlacionada, com três episódios em duas semanas; e duas drogas nodais já suspensas, com as demais causas reversíveis colhidas e ainda sem resultado. Acrescento o que já foi feito e o que está sustentando o paciente. Peço vaga com quem passe marca-passo transvenoso, e digo com todas as letras que estou com estimulação transcutânea em uso, que ela é ponte e que aqui não há quem a substitua. Enquanto a vaga não sai, ele fica na sala de emergência, monitorizado, com as pás coladas e com alguém ao lado — não no corredor, e não sozinho.
O que fica escrito, e por que essa frase vale um aparelho
No prontuário: bloqueio atrioventricular total com escape de complexo largo a 33 por minuto, documentado às 5h02, concomitante a síncope sem pródromo ocorrida às 4h20 e presenciada pelo filho, com terceiro episódio em duas semanas; sinais de baixo débito com pressão sistólica de 82 e enchimento capilar de três segundos; em uso associado de atenolol e verapamil, ambos suspensos às 5h25; atropina 2 mg no total, sem resposta hemodinâmica; marca-passo transcutâneo iniciado às 5h20, com captura elétrica e mecânica confirmadas na corrente anotada; traçado da bradicardia impresso e anexado, com hora e sintoma anotados ao lado. E a frase que fecha: causa farmacológica plausível, porém escape de complexo largo e antecedente epidemiológico de doença de Chagas — investigação de doença estrutural do sistema de condução mandatória antes de atribuir o quadro exclusivamente aos fármacos. É essa correlação escrita que permite ao cardiologista decidir sem recomeçar, e é ela que transforma três quedas em casa numa indicação documentada.
Faça você
Herondina Quitéria Zuzarte, 68 anos, costureira aposentada, 71 quilos, cumpre o terceiro dia de internação numa enfermaria de clínica médica, tratando pneumonia adquirida na comunidade. Vinha bem: a febre cedeu no segundo dia e ela já se alimentava sozinha. Às 9h20 a técnica te chama porque o monitor de sinais vitais da manhã marcou 44 batimentos por minuto. Deitada, Herondina diz que está bem e conversa normalmente; sentada na beira do leito, refere tontura que passa quando volta a deitar. Pressão de 104 por 62 deitada e de 92 por 58 sentada. Saturação de 96% em ar ambiente, 18 incursões respiratórias por minuto, temperatura de 36,3, glicemia de 98. Antes da internação usava enalapril, espironolactona e carvedilol, todos mantidos na prescrição hospitalar; recebe ceftriaxona desde a admissão. A diurese de ontem foi de 700 mL em 24 horas. O eletrocardiograma de doze derivações feito agora mostra ondas P regulares a 88 por minuto, com uma onda P conduzida e a seguinte bloqueada, alternando de forma constante; os complexos conduzidos têm 148 milissegundos de duração e as ondas T são altas, apiculadas e de base estreita nas derivações precordiais. Os exames da manhã acabam de sair: creatinina de 2,3 (era 1,0 na admissão), ureia de 96, potássio de 6,4, sódio de 136, cálcio total de 8,9.
Passo 1
Classifique o bloqueio pelo que o traçado mostra e diga, citando o que cada uma das duas diretrizes brasileiras afirma sobre esse padrão, o que é lícito concluir e o que não é sobre a altura da falha só com este eletrocardiograma.
Passo 2
Liste as causas potencialmente reversíveis presentes neste caso. Depois escolha, entre elas, a que melhor explica a largura de 148 milissegundos dos complexos conduzidos, e justifique por que essa explicação compete com a hipótese de bloqueio infra-His.
Passo 3
Diga se esta paciente tem, neste momento, indicação de marca-passo definitivo, citando a régua que fundamenta a resposta. Depois diga o que precisaria acontecer nas próximas 48 horas para que essa resposta mudasse.
Passo 4
Escreva a conduta das próximas duas horas, separando o que se faz em paralelo do que se faz em sequência, e nomeando explicitamente uma coisa que você NÃO faz e por quê.
Passo 5
Escreva a frase do prontuário que registra a correlação entre ritmo e sintoma com o grau de certeza que este caso permite, e diga o que precisa estar impresso e anexado até o fim do plantão.
Ver como fecharíamos
Passo 1. É bloqueio atrioventricular de segundo grau com condução dois para um: uma onda P conduz, a seguinte é bloqueada, de forma constante, com frequência atrial de 88 e frequência ventricular de 44 — exatamente a metade, que é o que o padrão prevê. Sobre a altura da falha, as duas diretrizes dizem coisas complementares e nenhuma delas autoriza certeza. A diretriz de dispositivos de 2023 afirma que, nesse padrão, ninguém consegue dizer com segurança se o bloqueio é do tipo I ou do tipo II sem recorrer ao tônus autonômico, a fármacos ou ao estudo por cateter. A diretriz de laudos de 2022 afirma que a maior parte desses bloqueios se localiza na região intra ou infra His-Purkinje, e exige, antes de qualquer coisa, excluir extrassístoles atriais não conduzidas — que aqui estão afastadas, porque as ondas P bloqueadas são regulares, na mesma cadência das conduzidas, e não prematuras. Portanto: o padrão, isoladamente, não permite dizer tipo I ou tipo II, e a aposta probabilística seria para baixo do nó — mas essa aposta está fragilizada neste caso pelo que vem no passo seguinte. Passo 2. As causas reversíveis presentes são quatro. Hipercalemia, com potássio de 6,4. Injúria renal aguda, com creatinina que subiu de 1,0 para 2,3 e diurese de 700 mL em 24 horas, que é a causa da hipercalemia e que também faz acumular fármaco. Fármacos que freiam o nó e retêm potássio, mantidos na prescrição hospitalar sem reavaliação: o carvedilol, que é betabloqueador e freia diretamente a condução nodal, e o enalapril e a espironolactona, que elevam o potássio. E o próprio contexto agudo da pneumonia, que produziu a injúria renal. A causa que melhor explica a largura de 148 milissegundos é a hipercalemia, e a evidência está no mesmo traçado: ondas T altas, apiculadas e de base estreita nas precordiais acompanham o alargamento, e potássio elevado alarga o complexo seja qual for a sua origem, e o resultado imita um bloqueio infra-His em quem não tem nada de infranodal. Ela compete com a hipótese infra-His porque é reversível em horas, e porque a hipercalemia consta entre as anormalidades metabólicas que a diretriz de dispositivos lista como causadoras de bradicardia. A prova está no tempo: se o complexo estreitar quando o potássio normalizar, a largura era do potássio; se não estreitar, era do sistema de condução. Passo 3. Não há indicação de marca-passo definitivo agora, e a régua é explícita: a diretriz de dispositivos recusa o implante em paciente sintomático cuja bradicardia decorra de causas reversíveis, incluindo fármacos não essenciais, e condiciona a indicação à ausência de causa passível de tratamento. Aqui existem pelo menos duas causas tratáveis simultâneas — hipercalemia com injúria renal aguda e betabloqueador acumulando. A resposta mudaria se, corrigido o potássio, restaurada a função renal e suspenso o carvedilol, o bloqueio dois para um persistisse com sintoma correlacionado; ou se, durante a correção, aparecesse bloqueio avançado ou total com escape largo, ou se surgisse síncope. Nesse cenário a indicação passaria a existir, e ela é de especialista, não do plantão. Passo 4. Em paralelo, e ao mesmo tempo: monitorização contínua com o desfibrilador ao lado e as pás adesivas ao alcance; suspensão imediata do carvedilol, do enalapril e da espironolactona, com horário anotado; tratamento da hipercalemia com potássio de 6,4 e alteração eletrocardiográfica, que é emergência e cujo manejo detalhado é matéria do capítulo dedicado ao potássio na apostila de prescrição; avaliação da injúria renal, que é do capítulo próprio; e impressão do eletrocardiograma e de uma tira longa, com hora e sintoma anotados. Em sequência, depois disso: repetir o eletrocardiograma após a correção do potássio, medindo de novo a largura do complexo e a relação entre ondas P e complexos; e, com a paciente estável, observar a resposta ao esforço leve com o monitor ligado. O que eu NÃO faço: não administro atropina. Ela não está indicada porque não há sinal de baixo débito — a paciente está com pressão de 104 por 62, consciente, com tontura apenas postural —, e porque tratar a frequência aqui seria tratar o número em vez da causa, que está identificada e é corrigível. Também não peço marca-passo transvenoso nem transferência antes de ver o que a correção do potássio faz. Passo 5. Registro possível: bloqueio atrioventricular de segundo grau com condução dois para um, frequência ventricular de 44 e atrial de 88, documentado às 9h35, com complexos conduzidos de 148 ms e ondas T apiculadas, concomitante a hipercalemia de 6,4 e injúria renal aguda (creatinina 2,3, era 1,0 na admissão), em uso mantido de carvedilol, enalapril e espironolactona, os três suspensos às 9h40. Sintoma correlacionado: tontura postural reprodutível, sem síncope. Bloqueio dois para um não classificável como tipo I ou tipo II somente pelo traçado; alargamento do complexo atribuível à hipercalemia até prova em contrário, a ser reavaliado após a correção. Sem indicação de dispositivo definitivo enquanto houver causa reversível ativa. Precisam estar impressos e anexados até o fim do plantão: o eletrocardiograma de doze derivações desta manhã, uma tira longa de pelo menos duas derivações mostrando a alternância, e o eletrocardiograma de controle feito depois da correção do potássio — porque é a comparação entre os dois que decide se sobrou bloqueio quando a causa saiu.
O que a tela mostrou é captura elétrica, e a diretriz brasileira de ressuscitação registra, no mesmo item em que descreve o método, que o acionamento pode ser doloroso e não produzir captura mecânica eficaz. Espícula seguida de complexo não prova contração ventricular, e um aparelho que dispara sem gerar débito produz uma tela tranquilizadora com um paciente que continua mal perfundido — que é exatamente o quadro descrito, com palidez e sonolência mantidas. A confirmação se faz por outro caminho: pulso palpável no ritmo do aparelho, pressão arterial e perfusão periférica. A mesma diretriz orienta deixar a corrente com margem de segurança de 10% acima do limiar em que praticamente todas as espículas capturam, e não no limiar exato, porque a impedância sobe com a sudorese e com o descolamento parcial das pás. A posição anteroposterior é uma das duas descritas, e a alternativa semelhante à do desfibrilador automático também é válida. E o transporte não dispensa a checagem: um paciente que sai da sala sem captura mecânica confirmada viaja sem débito.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Leia um traçado com bradicardia e descreva frequência, relação P-QRS e largura do escape. Explique por que um bloqueio 2:1 não pode ser chamado automaticamente de Mobitz I ou II. Depois consulte o algoritmo de bradicardia adotado: atropina 1 mg intravenoso, repetível a cada 3 a 5 minutos, máximo 3 mg, conforme AHA 2025. Confira a conversão: na ampola de 1 mL a 0,25 mg/mL, são quatro ampolas por dose. Diga em que situação a preparação do marca-passo não pode esperar a resposta farmacológica.
Em 30 dias
Compare bradicardia assintomática, bradicardia associada a hipoperfusão e bloqueio total com escape largo. Para cada uma, apresente a prioridade, as causas reversíveis e o destino. Na simulação de estimulação transcutânea, explique como a equipe confirma captura elétrica e mecânica, controla dor e acompanha a perfusão. Termine com uma passagem de caso que registre ritmo, sintomas, horários, medicamentos administrados e resposta, distinguindo estabilização temporária de decisão sobre dispositivo definitivo.
Agora atenda
Agora atenda. O paciente com bradiarritmia pune os dois excessos com a mesma facilidade: quem trata o número de um assintomático e quem espera o nome antes de colar as pás em quem está mal. Neste atendimento, responda em voz alta se existe sintoma que a lentidão explique antes de pedir qualquer exame, meça a largura do complexo de escape antes de escolher entre a ampola e o aparelho, e não deixe a bradicardia passar sem que exista papel impresso com a hora e o sintoma escritos ao lado.
