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Clínica MédicaCardiologia

IAM com supradesnível de ST

Síndrome coronariana aguda com supradesnível de ST (IAMCSST)

O diagnóstico é um eletrocardiograma em dez minutos. A decisão difícil não é trombolisar ou cateterizar — é onde este paciente está, e quanto tempo custa sair daqui.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e Protocolo Clínico de Síndromes Coronarianas Agudas, aprovados pela Portaria GM/MS nº 2.994, de 13 de dezembro de 2011

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, elaborado a partir das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do protocolo clínico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais

Sociedade Brasileira de Cardiologia — V Diretriz sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST (Arq Bras Cardiol. 2015;105(2, Supl. 1):1-105)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620)

Bula profissional de ACTILYSE (alteplase), Boehringer Ingelheim do Brasil — pó liofilizado injetável de 10 mg, 20 mg e 50 mg

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Responda antes de ler

Mulher de 79 anos, 61 kg, com infarto com supradesnivelamento inferior há 2 horas, em hospital sem hemodinâmica e sem possibilidade de angioplastia em menos de 4 horas. Sem contraindicações ao fibrinolítico, pressão 118x74 mmHg. Qual conjunto de doses está correto?

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O paciente que você vai ver

São 21h40 de uma terça-feira. O hospital tem sessenta leitos, atende sete municípios, fica a cento e oitenta quilômetros da capital e não tem laboratório de hemodinâmica. Você é o interno de plantão com um clínico e duas técnicas de enfermagem. Na sala de emergência há um monitor, um desfibrilador, um eletrocardiógrafo de doze derivações e um armário com um frasco de tenecteplase dentro.

Antônio tem 58 anos, é pedreiro, pesa 82 quilos e chegou de carro, trazido pela esposa. Está sentado na maca, inclinado para a frente, com a mão fechada sobre o esterno — o gesto, e não a frase, é o que primeiro chama sua atenção. A dor começou às 20h50, enquanto jantava: um peso que não passa, que sobe para o pescoço e desce pelo braço esquerdo. Está pálido e molhado de suor frio, vomitou uma vez no caminho, fuma há quarenta anos e toma, às vezes, um comprimido para pressão que não sabe nomear.

Pressão de 148 por 92 mmHg nos dois braços, pulsos radiais simétricos, frequência de 96 bpm, saturação de 96% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, glicemia capilar de 138 mg/dL. O eletrocardiograma sai às 21h48 com supradesnivelamento de 3 mm em V2, V3 e V4 e infradesnivelamento em DII, DIII e aVF.

Esse traçado não tem sutileza nenhuma, e é aqui que o capítulo começa: reconhecer não era o difícil. O difícil é que a artéria está fechada agora, que o serviço mais próximo com hemodinâmica fica a duas horas e meia de ambulância, que a esposa continua na recepção com o horário na cabeça, e que a decisão de tratar Antônio aqui mesmo — com a droga do armário — ou de mandá-lo embora vai ser tomada por você e pelo clínico nos próximos vinte minutos, sem cardiologista na sala. Ele é o paciente que a maioria dos internos brasileiros vai atender, e o tratamento de que precisa é o que os livros descrevem como segunda opção.

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Quem adoece disso

A doença isquêmica do coração é a principal causa isolada de morte no Brasil, e o infarto agudo do miocárdio responde por cerca de três quartos dessas mortes. Nos dados do DATASUS usados para construir a Linha de Cuidado nacional, o infarto matou 75.868 pessoas em um único ano — 6,9% de todos os óbitos do país. Não é doença que você vai ver de vez em quando: é a que mais mata os adultos que entram pela porta do seu plantão.

O primeiro número que muda o que você faz é onde essas pessoas morrem. Quase quatro em cada dez óbitos por infarto aconteceram fora do hospital, e mais de oito em cada dez desses foram em casa — a fibrilação ventricular da primeira hora, antes de qualquer contato médico. Entre 25% e 35% dos infartados morrem antes de receber cuidado. O paciente que chega vivo à sua porta já é um sobrevivente selecionado da parte mais letal da doença, e o benefício do que você fizer a partir dali é real e mensurável.

O segundo número é o do acesso. As internações por infarto no SUS subiram de cerca de 61 mil em 2010 para cerca de 93 mil em 2022. No acumulado de 2008 a 2021 foram 914.668 internações por infarto e 119.811 angioplastias primárias — cerca de treze procedimentos para cada cem internações, num período em que a média de angioplastias primárias registradas era de 6.500 por ano contra mais de 100 mil infartos anuais estimados. A angioplastia primária é o melhor tratamento disponível e é oferecida a uma minoria dos brasileiros que infartam.

O terceiro número separa quem recebe tratamento de quem não recebe. Num registro brasileiro multicêntrico com 1.553 pacientes com supradesnivelamento dentro de 12 horas, 76,8% receberam alguma reperfusão — 58,7% por angioplastia primária, o restante por fibrinolítico — e 23,2% não receberam nada. A diferença entre regiões é maior que a diferença entre as drogas: 80,5% no Sudeste contra 47,5% no Norte, com chance 4,65 vezes maior de não ser reperfundido no Norte. E esse registro é voluntário, feito em serviços que decidiram se medir. Num levantamento de todos os hospitais com hemodinâmica de um estado do Nordeste, apenas 53,3% dos 878 pacientes com supra foram reperfundidos, e a fibrinólise foi usada em 2,3% do total — quase ninguém.

Esse último dado é o retrato do problema. Não é falta de droga: o trombolítico está na tabela do SUS, é barato e existe no armário. É que, num sistema organizado em torno da promessa da angioplastia, o paciente que não chega ao cateterismo tende a não receber nada. Quando um serviço decide resolver isso, o resultado aparece rápido: em vinte e cinco municípios do interior paulista, criar um canal para enviar o traçado a um cardiologista distante elevou a proporção de reperfundidos de 60,0% para 92,0%, encurtou a mediana de tempo até a reperfusão de 9 para 4 horas e derrubou a mortalidade hospitalar de 13,4% para 5,6% — um óbito evitado a cada doze pacientes.

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Por que acontece o que acontece

Uma placa aterosclerótica pode se romper ou sofrer erosão, ativando plaquetas e coagulação e formando um trombo. No infarto com supra persistente, a hipótese operacional é uma oclusão coronariana aguda que exige reperfusão urgente. Essa associação não é uma identidade anatômica: pode haver oclusão aguda sem o supra clássico, sobretudo em territórios pouco representados no ECG habitual, e pode haver fluxo residual ou reperfusão espontânea em quem apresentou supra. ECG, sintomas e estabilidade orientam a urgência; a angiografia define a anatomia. Por isso o paciente com forte suspeita de oclusão ou instabilidade não é tranquilizado pela ausência de supra.

O que acontece a partir daí tem direção e velocidade. A necrose não começa em toda a área irrigada ao mesmo tempo: avança como uma frente de onda, do subendocárdio para o epicárdio. O subendocárdio é a camada mais distante das artérias epicárdicas, a mais comprimida pela pressão intracavitária na sístole e a de maior demanda de oxigênio — morre primeiro, em minutos. O epicárdio ainda recebe alguma coisa da circulação colateral e resiste por horas. Desfazer a oclusão não ressuscita o que já morreu; salva o que a frente ainda não alcançou. É por isso que o benefício da reperfusão cai com o tempo em vez de simplesmente existir ou não existir. Os números traduzem a curva: tratar na primeira hora salva cerca de 65 vidas a cada mil pacientes tratados, e entre a sexta e a décima segunda hora, cerca de dez. Esses números se referem ao benefício da fibrinólise conforme o tempo de apresentação e não estabelecem que toda reperfusão deixe de ajudar depois de doze horas. Isquemia persistente, insuficiência cardíaca grave, choque ou arritmia ameaçadora exigem avaliação invasiva urgente mesmo na apresentação tardia; a estratégia para o paciente estável é individualizada pela equipe.

A isquemia transmural é o que produz o supradesnivelamento. A camada lesada não mantém o potencial de repouso normal, e a diferença de potencial entre tecido lesado e tecido sadio gera uma corrente de lesão que desloca o ST para cima nas derivações que olham a parede acometida — e para baixo nas que a olham pelo lado oposto. Esse é o mecanismo da imagem em espelho: o infradesnivelamento inferior de Antônio não é um segundo problema, é o mesmo problema visto de trás. E é por isso que uma oclusão da parede posterior aparece como infradesnivelamento em V1 a V3, e só se revela como supradesnivelamento quando se põem eletrodos nas costas.

Três consequências do mecanismo mudam prescrição. O ventrículo direito é uma câmara de parede fina que depende de pré-carga para ejetar: quando a oclusão da coronária direita pega o ramo que o irriga, qualquer droga que reduza o retorno venoso — nitrato, morfina, diurético — derruba a pressão de forma dramática. O miocárdio reperfundido fica atordoado por horas ou dias, o que significa que uma reperfusão bem-sucedida convive com disfunção transitória e que piora hemodinâmica precoce nem sempre é falha do tratamento. E a volta do fluxo por si só provoca arritmias — ritmo idioventricular acelerado, extrassistolia, bradicardia no infarto inferior — que podem acompanhar a reperfusão, mas não a comprovam isoladamente. Ritmo idioventricular acelerado autolimitado, sem repercussão, costuma dispensar tratamento específico; bradicardia com hipoperfusão, taquicardia ventricular sustentada e fibrilação ventricular são complicações a tratar imediatamente.

Três cortes da parede ventricular com necrose avançando do subendocárdio para o epicárdio.
A lesão irreversível pode avançar do subendocárdio para as camadas externas durante a isquemia persistente. A velocidade varia com o fluxo residual, as colaterais e outros fatores. Os painéis não representam tempos universais, e a altura do ST não mede diretamente a extensão da necrose. Ilustração didática original.
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Como se apresenta de verdade

A apresentação clássica existe e é maioria: desconforto retroesternal em peso ou aperto, construído em minutos, com irradiação para ombro, braço, pescoço ou mandíbula, com sudorese fria, náusea ou dispneia, que não muda com a posição nem com a palpação. Nela o diagnóstico se faz da porta, e o único risco é perder tempo confirmando o óbvio. O que interessa aqui é o espectro em torno dela — não porque a suspeita seja difícil, mas porque cada variante muda o relógio, a droga ou o destino.

A pergunta que define o relógio: quando começou a dor que não passou

O horário de início dos sintomas decide se existe reperfusão a oferecer, e não está em exame nenhum. Menos de 12 horas abre a rota do fibrinolítico; menos de 3 horas acirra a escolha entre trombolisar aqui ou transferir; mais de 12 horas fecha a porta da fibrinólise e deixa apenas a angioplastia, em situações específicas.

A dificuldade prática não é lembrar de perguntar — é que muitos pacientes têm dor em soluços. Antônio pode dizer que sente dor no peito há três dias. A pergunta certa não é quando começou a dor, e sim quando começou a dor que não passou mais: o episódio contínuo, que não cedeu com repouso, que o fez procurar ajuda. É nele que a artéria fechou, e é dele que se conta a janela. Os episódios anteriores, curtos e resolvidos, são angina que precedeu a oclusão — valiosa para a história, irrelevante para o relógio.

Anote hora e minuto no prontuário, com o nome de quem informou, enquanto o acompanhante ainda está na sala, e peça um telefone. O horário mal levantado não custa um exame: custa uma terapia inteira, e custa nas duas direções — subestimar exclui quem ainda tinha janela; superestimar dá fibrinolítico a quem já não ganha nada e continua ganhando o risco de sangrar.

As apresentações que já chegam com a complicação

Parte dos infartos com supra não se apresenta como dor, e sim como o desfecho dela. Reconhecer o padrão evita tratar a consequência e perder a causa.

Síncope ou bradicardia extrema com hipotensão, em paciente de meia-idade, é infarto inferior até prova em contrário: o bloqueio atrioventricular total acompanha o infarto de parede inferior com frequência, costuma ser transitório, com QRS estreito e escape acima de 40 bpm, e responde a atropina. O mesmo bloqueio no infarto anterior é outra doença: nasce abaixo do nó, tem escape instável e QRS alargado, traduz necrose extensa e exige marca-passo.

Dispneia súbita com crepitações difusas é edema agudo de pulmão, e o eletrocardiograma é que revela a causa. Hipotensão com má perfusão, oligúria e confusão é choque cardiogênico, definido por sistólica abaixo de 90 mmHg com índice cardíaco baixo e pressões de enchimento altas; a insuficiência ventricular esquerda responde por 74% dos casos, e o restante se divide entre insuficiência mitral aguda, rotura do septo, infarto isolado de ventrículo direito e tamponamento. O manejo ventilatório e hemodinâmico dos dois pertence aos capítulos de edema agudo de pulmão e de insuficiência cardíaca aguda; o que importa aqui é que ambos são indicação de reperfusão mecânica, e não motivo para adiá-la.

Náusea, vômito e desconforto epigástrico com sudorese, sobretudo em idosos e diabéticos, é a apresentação que mais atrasa o eletrocardiograma, porque o paciente é encaminhado como abdome. O critério objetivo que resolve isso não depende da qualidade da dor: dor ou desconforto significativo, de início recente, com mais de 15 minutos de duração, em qualquer ponto entre o abdome superior e a mandíbula, exige eletrocardiograma em até 10 minutos.

Duas notas sobre quem chega tarde. Metade dos pacientes com supra é inelegível para fibrinólise, e na maioria das vezes por apresentação tardia, não por contraindicação — o principal motivo pelo qual um brasileiro não recebe trombolítico é ter demorado a chegar. E, no jovem com poucos fatores de risco, investigue cocaína e metanfetamina: o supradesnivelamento é igual, e a informação muda o manejo adjuvante.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação do infarto com supradesnivelamento é curta e tem uma característica que a distingue de quase tudo o que você faz na emergência: quase todo exame adicional atrasa o tratamento sem mudá-lo. O eletrocardiograma decide, e o que vem depois serve para achar a contraindicação, não para confirmar o diagnóstico.

Três perguntas, nesta ordem. Este traçado é de oclusão coronária aguda? Há alguma coisa que proíba abrir essa artéria com droga? E qual é a estratégia possível no lugar em que estou?

O corte em milímetros, medido no ponto J

O critério é elevação nova do segmento ST, aferida no ponto J, em pelo menos duas derivações contíguas, com pontos de corte que dependem da derivação, da idade e do sexo: 2,5 mm em V2 e V3 nos homens com menos de 40 anos; 2 mm em V2 e V3 nos homens com 40 anos ou mais; 1,5 mm em V2 e V3 nas mulheres; e 1 mm em todas as demais derivações, independentemente de idade ou sexo.

Três detalhes desse enunciado separam acerto de erro. A medida é no ponto J, a junção do fim do QRS com o início do ST, e não no ponto mais alto do segmento — medir no meio de um ST convexo superestima. Contíguas significa vizinhas no mesmo território: V2 e V3, DII e aVF, DI e aVL; um milímetro isolado em uma derivação não é critério. E os cortes de V2 e V3 são mais altos porque ali existe supradesnivelamento normal em homens jovens — aplicar 1 mm produz falso-positivo e trombolisa gente sadia.

Elevações limítrofes em DI e aVL merecem valorização, especialmente com infradesnivelamento recíproco nas inferiores. A imagem em espelho é argumento a favor do diagnóstico e deve ser procurada de propósito. Localizar a parede também tem consequência: anterior é V1 a V6, com ântero-septal em V1 a V3 e apical ou lateral em DI, aVL e V4 a V6; inferior é DII, DIII e aVF. A parede diz qual artéria fechou, quanta massa está em risco, quais complicações esperar — e, no infarto inferior, obriga a um exame a mais.

As duas derivações que quase ninguém pede e que mudam a conduta

Em todo supradesnivelamento de parede inferior, faça V3R e V4R: os eletrodos precordiais espelhados para o lado direito do tórax, trinta segundos de trabalho. Supradesnivelamento de pelo menos 0,5 mm nessas derivações indica comprometimento do ventrículo direito, presente em até metade dos infartos inferiores, com alterações hemodinâmicas clássicas em 10% a 15% deles e mortalidade de 25% a 30%. O achado não muda a indicação de reperfusão — muda a prescrição do alívio da dor, e é a diferença entre um paciente estável e um paciente hipotenso por iatrogenia.

Diante de infradesnivelamento de V1 a V3 com onda R proeminente e ampla, tipicamente dominante em V2, e onda T positiva, faça V7, V8 e V9, com os eletrodos nas costas. Elevação de pelo menos 0,5 mm em ao menos uma delas confirma infarto de parede ínfero-lateral, o antigo posterior. Sem essas derivações o traçado é lido como infradesnivelamento anterior, o paciente é rotulado como síndrome sem supra e não recebe reperfusão nenhuma — quando tem uma artéria fechada e uma janela correndo.

Nas complementares — V7, V8, V9, V3R e V4R — o corte é 0,5 mm, e não 1 mm. Trocar a régua descarta o achado. A mesma lógica vale para os padrões que traduzem oclusão sem preencher o critério clássico: ondas T hiperagudas, amplas e simétricas, que podem preceder o supradesnivelamento; o padrão de De Winter, com T altas precedidas de infradesnivelamento ascendente maior que 1 mm no ponto J nas precordiais; o padrão de Aslanger, com elevação em DIII mas não nas demais inferiores; e a distorção terminal do QRS. Diante de qualquer um deles em paciente com dor, repita o traçado em intervalos curtos e chame ajuda — eles são a lista de motivos pelos quais um paciente com artéria ocluída passa a noite na observação.

O bloqueio completo de ramo esquerdo é o caso especial que fecha essa lista. Ele deforma a repolarização e mascara o supradesnivelamento, e o que confirma oclusão dentro dele são os critérios de Sgarbossa: elevação concordante do ST de pelo menos 1 mm em derivações com QRS positivo, infradesnivelamento concordante de pelo menos 1 mm em V1 a V3, ou elevação discordante de pelo menos 5 mm em derivações com QRS negativo. O bloqueio novo isolado, sem esses critérios, é assunto do bloco de divergências, porque os documentos brasileiros não concordam sobre ele.

Posições de V3R e V4R no hemitórax direito e de V7, V8 e V9 no hemitórax posterior esquerdo.
V4R fica no quinto espaço intercostal, na linha medioclavicular direita; V3R fica entre V1 e V4R. V7, V8 e V9 seguem, à esquerda, as linhas axilar posterior, escapular e paravertebral, no plano horizontal de V6. A figura orienta a localização; os critérios de interpretação dependem da derivação e do contexto. Ilustração didática original.

O que não se espera: troponina, radiografia e coagulograma

Diante de indicação clínica e eletrocardiográfica de reperfusão, colha troponina, mas não aguarde seu resultado. Um valor inicial normal não exclui infarto precoce, e ensaios ultrassensíveis podem positivar bem antes de seis horas. Radiografia e exames de rotina também não devem atrasar a reperfusão. Se houver suspeita de dissecção de aorta, a investigação dessa alternativa muda a segurança dos antitrombóticos; uma radiografia normal não a exclui.

A coleta de admissão vai toda na mesma punção do acesso: glicemia, ureia, creatinina, sódio, potássio, magnésio, hemograma completo, tempo de protrombina com RNI e TTPA, e troponina ou CK-MB massa. O perfil lipídico fica para as primeiras 24 horas. Nada disso é pré-requisito da agulha. Duas exceções em que o exame precisa voltar antes: uso de antagonista da vitamina K, em que o RNI muda a decisão; e história ou suspeita de coagulopatia, plaquetopenia ou sangramento.

Peso e pressão nos dois braços não são exame complementar, mas precisam existir antes da prescrição. O peso define a dose do fibrinolítico, da heparina e da enoxaparina — e peso estimado no olho é a origem mais comum de subdose e de sobredose. A pressão nos dois braços, com palpação dos dois pulsos radiais, é o rastreio de dissecção de aorta que custa quarenta segundos e evita a única catástrofe verdadeiramente iatrogênica desta doença.

O que existe no serviço em que você está

A pergunta operacional não é qual é o melhor tratamento, e sim qual é o melhor tratamento que este paciente pode receber a tempo. Responder isso exige saber três coisas sobre o lugar onde você está, e elas não estão no livro: se há hemodinâmica no próprio hospital e se funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana; qual é o serviço de referência pactuado e por qual telefone a regulação é acionada; e se existe fibrinolítico no armário, qual é e quantas doses.

O trombolítico está incorporado ao SUS. A tenecteplase é o agente de escolha nas UPAs e no SAMU, por ser o único aplicável em bolus único, e seu financiamento e uso pré-hospitalar no SAMU 192 estão regulamentados desde a Portaria nº 2.777, de 18 de dezembro de 2014 — habilitar um SAMU para trombolisar exige declarar equipe capacitada, referência pactuada em cardiologia intervencionista e em cirurgia cardiovascular e leitos de terapia intensiva ou de unidade coronariana nomeados por CNES. O eletrocardiograma à distância também está incorporado: a portaria que atualizou a Linha de Cuidado do Infarto criou na tabela do SUS os procedimentos de eletrocardiograma em serviço de atendimento móvel e de tele-eletrocardiograma síncrono com laudo. O traçado feito e interpretado antes da chegada ao hospital reduz em 34% o tempo porta-agulha e em 18% o tempo porta-balão.

Descubra hoje, antes de precisar: o número da regulação do seu serviço, quanto tempo leva a ambulância até o centro com hemodinâmica, e onde está guardado o fibrinolítico. Essas três informações são conteúdo clínico tanto quanto uma dose.

07

Duas variáveis decidem tudo: quanto tempo de dor, e quanto tempo daqui até o balão

A sequência que precisa ficar clara é reconhecer o padrão de isquemia, avaliar contraindicações, organizar a reperfusão e procurar ativamente falha ou complicação. Os cortes do ECG e as doses ficam nas tabelas para consulta e conferência. Na apresentação ao supervisor, informe também início dos sintomas, primeiro contato, horário do ECG, estabilidade e tempo real até a hemodinâmica. A escolha da estratégia de reperfusão não é uma preferência clínica. É o cruzamento de dois relógios: o do paciente, que começou quando a dor não passou mais, e o do serviço, que começa no primeiro contato médico e termina no cateter ou na agulha. O primeiro você levanta com o acompanhante; o segundo você levanta com a regulação, por telefone, antes de decidir.

  1. 1Porta. Dor ou desconforto significativo de início recente, com mais de 15 minutos de duração, em qualquer ponto entre o abdome superior e a mandíbula, abre o protocolo com prioridade máxima: sala com monitor e desfibrilador, não a fila.
  2. 2Dez minutos. Eletrocardiograma de 12 derivações interpretado por um médico, contados do primeiro contato — e mostrado a alguém no mesmo minuto. Leia procurando oclusão: cortes por derivação, idade e sexo; V3R e V4R no supra inferior; V7 a V9 diante de infra de V1 a V3 com R proeminente; Sgarbossa no bloqueio de ramo; e os equivalentes.
  3. 3Traçado diagnóstico. Antes de qualquer dose: os dois pulsos, as duas pressões e a pergunta se a dor foi máxima desde o primeiro segundo. Em seguida, AAS mastigado e o inibidor de P2Y12 conforme a estratégia — sem esperar troponina, radiografia ou coagulograma.
  4. 4O telefonema. Pergunte à regulação com número: em quanto tempo este paciente estará com o cateter dentro da artéria, a partir de agora? Balão em até 90 minutos no próprio hospital, ou em até 120 minutos do primeiro contato se for preciso transferir, é angioplastia primária. Fora disso, e sem contraindicação, é fibrinolítico aqui com agulha em até 30 minutos.
  5. 5Após a fibrinólise, transferir imediatamente em transporte assistido assim que seguro. Reavaliar clínica e ECG em 60 a 90 minutos, ou antes se houver piora. Resolução inferior a 50% do supra é sinal de falha; dor persistente ou instabilidade também exigem angiografia de resgate imediata. Com resposta favorável e estabilidade, programar angiografia entre 2 e 24 horas. O ECG isolado não comprova reperfusão anatômica.

Angioplastia primária — 58,7% de todos os pacientes do registro nacional

O melhor tratamento quando o balão cabe no relógio. Restabelece fluxo normal em mais de 90% dos casos, com menos reinfarto e menos AVC que o fibrinolítico. Depende de hemodinâmica funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Fibrinólise — cerca de 18%, e é o tratamento do Brasil real

Existe no armário, é barata, cabe em bolus único e não depende de ninguém além de você. Salva cerca de 65 vidas por mil tratados na primeira hora. É a diferença entre tratar e não tratar quando o cateterismo está a duas horas de estrada.

Nenhuma reperfusão — 23,2%

Quase um quarto dos pacientes de um registro voluntário brasileiro, e quase metade no Norte. A maioria não foi excluída por contraindicação: chegou tarde, ou o serviço esperou uma transferência que não veio e a janela fechou dentro do hospital.

Onde você estáTempo desde o início da dor que não passouO que fazerO detalhe que decide
Hospital com hemodinâmica 24 horas por dia, 7 dias por semanaAté 12 horasAngioplastia primária, balão em até 90 minutos da admissãoAcionar a hemodinâmica da sala, antes de qualquer exame
Hospital sem hemodinâmica, com transferência confirmada e balão previsto em até 120 minutos do primeiro contatoAté 12 horasTransferir para angioplastia primáriaConfirmar o tempo com a regulação ANTES de decidir
Hospital sem hemodinâmica, com transferência incerta ou prevista para mais de 120 minutosAté 12 horasFibrinolítico aqui, agulha em até 30 minutos, transferência depoisCorrer a lista de contraindicações
Hospital sem hemodinâmicaDe 3 a 12 horasAplicar a mesma régua: angioplastia em até 120 minutos do primeiro contato; se inviável, fibrinólise quando elegívelSomar espera, transporte e tempo até a reperfusão no destino
Qualquer serviçoMais de 12 horas, estável e sem dorNão usar fibrinolítico de rotina; discutir avaliação invasiva conforme tempo, área em risco e evoluçãoO fim da janela habitual de fibrinólise não exclui benefício de angioplastia em apresentação tardia selecionada
Qualquer serviçoMais de 12 horas, com isquemia persistente, instabilidade ou arritmia ameaçadoraAngioplastia primáriaA porta mecânica continua aberta fora da janela do fibrinolítico
Qualquer serviço, paciente em choque cardiogênicoIndependentemente de um corte rígido de duração do choqueAcionar revascularização de emergência e suporte intensivoA avaliação e o transporte para reperfusão mecânica são prioritários; não aplicar os limites históricos de 36 e 18 horas como exclusão
Qualquer serviço, com contraindicação absoluta ao fibrinolíticoAté 12 horasTransferência para angioplastia primáriaAqui a transferência é a única reperfusão possível

Os três fibrinolíticos disponíveis no Brasil — dose, e a conta já feita

AgenteDoseComo correO que não esquecer
Tenecteplase (TNK)Bolus único por faixa de peso: 30 mg abaixo de 60 kg; 35 mg de 60 a menos de 70 kg; 40 mg de 70 a menos de 80 kg; 45 mg de 80 a menos de 90 kg; 50 mg de 90 kg em diante. Máximo de 50 mgBolus endovenoso único, em segundosÉ o único em bolus único e por isso é o de escolha nas UPAs e no SAMU. Com 75 anos ou mais, considerar metade da dose calculada pelo peso
Alteplase (tPA)Com 65 kg ou mais: 15 mg em bolus, 50 mg em infusão nos primeiros 30 minutos, 35 mg nos 60 minutos seguintes — total de 100 mg. Abaixo de 65 kg: 15 mg em bolus, 0,75 mg/kg (no máximo 50 mg) em 30 minutos e 0,5 mg/kg (no máximo 35 mg) em 60 minutosBomba de infusão; frasco reconstituído a 1 mg/mL, o que faz miligrama e mililitro serem o mesmo númeroNão pode correr no mesmo frasco nem no mesmo acesso de nenhuma outra droga, inclusive heparina. Um segundo acesso é parte da prescrição
Estreptoquinase (SK)1,5 milhão de UI diluído em 100 mL de soro glicosado a 5% ou fisiológico a 0,9%Em 30 a 60 minutos, o que dá 200 mL/h ou 100 mL/h em bombaHipotensão durante a infusão se trata parando a infusão e repondo volume, não abandonando a droga. Não se repete entre 5 dias e 10 anos da última dose, porque os anticorpos persistem

O que proíbe, o que só pesa contra, e o que não impede o fibrinolítico

CategoriaItens
Contraindicação absoluta — não se administraQualquer sangramento intracraniano prévio; AVC isquêmico nos últimos 3 meses; dano ou neoplasia do sistema nervoso central; trauma significativo de cabeça ou face nos últimos 3 meses; sangramento ativo ou diátese hemorrágica, exceto menstruação; lesão vascular cerebral conhecida, como malformação arteriovenosa; suspeita de dissecção de aorta; discrasia sanguínea
Contraindicação relativa — pesa na balança, e a decisão é do casoAVC isquêmico há mais de 3 meses ou outra doença intracraniana; gravidez; uso atual de antagonista da vitamina K, com risco proporcional ao RNI; sangramento interno recente, de 2 a 4 semanas; reanimação cardiopulmonar traumática ou prolongada, acima de 10 minutos, ou cirurgia de grande porte há menos de 3 semanas; hipertensão não controlada, com sistólica acima de 180 ou diastólica acima de 110 mmHg; punções não compressíveis; história de hipertensão crônica grave não controlada; úlcera péptica ativa; exposição prévia à estreptoquinase, que contraindica apenas a estreptoquinase
O que NÃO contraindicaIdade avançada isolada: acima de 75 anos existe benefício demonstrado e a idade não é fator limitante da fibrinólise. Troponina ainda negativa: no supradesnivelamento ela não faz parte da decisão. Menstruação. Reanimação cardiopulmonar com retorno de circulação espontânea, quando não houver angioplastia disponível — o que não se faz é usar fibrinolítico durante a parada

Classificação de Killip — o exame físico que estima o prognóstico sem exame nenhum

ClasseO que se encontraRisco de óbito
ISem sinais de insuficiência cardíaca2% a 3%
IIInsuficiência cardíaca discreta: estertores nas bases e terceira bulha8% a 10%
IIIEdema agudo de pulmão20% a 25%
IVChoque cardiogênico45% a 70%

A tabela de doses de alteplase reproduzida pelos dois documentos brasileiros de referência traz o esquema como 15 mg em bolus, 0,75 mg/kg em 30 minutos e 0,5 mg/kg em 60 minutos, com dose máxima total de 100 mg — sem os tetos de cada fase. Aplicada literalmente, a fórmula ultrapassa o próprio teto declarado em qualquer paciente acima de 68 kg: um homem de 82 kg receberia 117,5 mg, e um de 100 kg receberia 140 mg. O esquema correto, registrado na bula aprovada, limita a segunda fase a 50 mg e a terceira a 35 mg, o que fecha exatamente em 100 mg. Quem prescrever pela tabela, e não pela bula, dá quase 40% a mais de fibrinolítico ao paciente mais pesado.

A mesma tabela define a última faixa de tenecteplase como acima de 90 kg e a anterior como de 80 a menos de 90 kg, o que deixa o paciente de exatamente 90 kg fora das duas. O bolus corresponde a 0,5 mg/kg arredondado por faixa; a leitura que fecha a lacuna sem mudar nenhum outro valor é 50 mg de 90 kg em diante, e é a que este capítulo usa.

Os relógios devem ser nomeados: primeiro contato, chegada ao hospital, ECG diagnóstico, administração do fibrinolítico e reperfusão mecânica. Para transferência, este capítulo adota o limite de 120 minutos desde o primeiro contato, compatível com a diretriz ACC/AHA de 2025. Porta-agulha de até 30 minutos é a meta dos protocolos brasileiros apresentados, não um tempo a ser consumido. Não combine esses critérios com o antigo atraso adicional de 60 minutos como se fossem condições cumulativas.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a linha do tempo de Antônio: 58 anos, 82 kg, dor iniciada às 20h50, chegada às 21h40, eletrocardiograma às 21h48 com supradesnivelamento anterior extenso, pressão de 148 por 92 mmHg simétrica, sem congestão. Hospital sem hemodinâmica, centro de referência a duas horas e meia. São 21h50 e ele tem 60 minutos de dor.

Nenhuma dose abaixo se aplica sem que o traçado tenha sido lido por um médico e sem que a lista de contraindicações tenha sido corrida. Correr a lista leva dois minutos e é a única coisa entre o seu paciente e uma hemorragia intracraniana iatrogênica.

  1. Minuto 0 a 10 — a porta e o traçado

    O critério de abertura é objetivo e não depende da qualidade da dor. O traçado sai em até 10 minutos do primeiro contato — e é mostrado a alguém no mesmo minuto, porque traçado feito e não visto é tempo perdido com aparência de trabalho.

    Prescrição
    • Monitorização eletrocardiográfica contínua, com desfibrilador ao lado do leito — a fibrilação ventricular é a forma mais frequente de parada nas primeiras horas do infarto (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Acesso venoso calibroso, com a coleta inteira na mesma punção: glicemia, ureia, creatinina, sódio, potássio, magnésio, hemograma completo, RNI e TTPA, troponina ou CK-MB massa (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Oxigênio suplementar se houver hipoxemia, em geral saturação abaixo de 90%, com titulação e reavaliação. Dispneia ou congestão com saturação normal exigem tratar a causa e avaliar suporte ventilatório, não oxigênio automático (ACC/AHA, SCA 2025, seção 4.1).
  2. Minuto 10 a 15 — a antiagregação, e a checagem que a precede

    Antes da primeira dose: os dois pulsos, as duas pressões, e a pergunta sobre a dor ter sido máxima desde o primeiro segundo. Descartada a dissecção, o AAS entra, porque é bom nas duas rotas. O inibidor de P2Y12 depende da estratégia, e a idade muda a dose de ataque.

    Prescrição
    • AAS 160 a 325 mg mastigados no primeiro atendimento; no Brasil a dose habitual é 200 mg. Manutenção de 100 mg por dia (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Se houver contraindicação verdadeira ao AAS: clopidogrel 300 mg de ataque e 75 mg por dia (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Clopidogrel de ataque no IAM com supra: 300 mg quando a estratégia for fibrinolítico ou quando não houver reperfusão; 600 mg quando for angioplastia primária, considerando 300 mg se o risco de sangramento for aumentado (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
    • Na estratégia com fibrinolítico, com 75 anos ou mais, iniciar clopidogrel 75 mg por via oral sem ataque. Essa regra não deve ser transferida automaticamente para a angioplastia primária, cujo P2Y12 e ataque são definidos pela equipe conforme estratégia e risco hemorrágico (ACC/AHA, SCA 2025, seção 4.3.2).
    • Prasugrel e ticagrelor não foram testados em associação a fibrinolítico e a segurança dessa combinação não está estabelecida; quem vai ser trombolisado recebe clopidogrel (V Diretriz sobre Tratamento do IAM com Supradesnível do Segmento ST, SBC, 2015)
  3. Minuto 10 a 20 — o alívio da dor, sem apagar o quadro nem derrubar a pressão

    Nitrato sublingual depois de checadas as contraindicações — e a mais importante delas, no infarto inferior, você só conhece se tiver feito V3R e V4R. Morfina apenas se a dor não ceder: apagá-la cedo cega o principal parâmetro das próximas horas.

    Prescrição
    • Dinitrato de isossorbida 5 mg por via sublingual, repetível até 3 vezes a cada 5 minutos enquanto a dor persistir (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Contraindicações ao nitrato: frequência cardíaca abaixo de 50 bpm, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, infarto de ventrículo direito, sildenafila nas últimas 24 horas ou tadalafila nas últimas 48 horas (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Morfina 2 a 4 mg por via endovenosa a cada 5 a 15 minutos, se a dor não cedeu com o nitrato (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Na suspeita de infarto de ventrículo direito com hipotensão, evitar nitrato e diurese indiscriminada. Fazer prova cautelosa de volume se houver indicação, reavaliando perfusão e congestão a cada etapa; baixo débito persistente requer suporte vasoativo individualizado e reperfusão urgente pela equipe, em vez de repetir volume automaticamente (protocolos brasileiros citados; ACC/AHA, SCA 2025, manejo do choque).
  4. Minuto 15 a 25 — o telefonema que decide a estratégia

    A decisão depende de uma estimativa verificável: quando ocorrerá a reperfusão mecânica, contando desde o primeiro contato médico? Some o tempo já gasto, espera, transporte e atendimento no destino. Se a angioplastia puder ocorrer em até 120 minutos, a transferência para angioplastia primária é a rota preferida. Se esse tempo não for viável e o início dos sintomas tiver menos de 12 horas, avalie fibrinólise imediata, após conferir contraindicações com o supervisor, mantendo a transferência acionada.

    Prescrição
    • Meta de tempo: contato médico até eletrocardiograma, 10 minutos; contato médico até fibrinólise, 30 minutos; contato médico até angioplastia primária, 90 minutos em hospital com hemodinâmica ou 120 minutos em hospital sem (V Diretriz da SBC, 2015)
    • A régua operacional deste capítulo usa até 120 minutos do primeiro contato à reperfusão mecânica para decidir a transferência. Não some a ela um segundo veto por atraso adicional de 60 minutos nem uma obrigação de fibrinólise apenas porque a dor tem menos de 3 horas. Preserve a meta local de porta-agulha de até 30 minutos como limite, buscando tratar tão cedo quanto possível (ACC/AHA, SCA 2025, seção 5.3; meta porta-agulha dos protocolos brasileiros citados).
  5. Minuto 25 a 30 — a agulha

    Antônio tem 82 kg, 58 anos, nenhuma contraindicação e nenhuma promessa de cateterismo em menos de duas horas e meia. A dose é 45 mg de tenecteplase em bolus único, e precisa entrar até 22h10 para respeitar os 30 minutos de porta-agulha. Junto vai o anticoagulante, que não é opcional.

    Prescrição
    • Tenecteplase em bolus único conforme o peso — 45 mg para 82 kg (faixa de 80 a menos de 90 kg). Máximo de 50 mg (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde; V Diretriz da SBC, 2015)
    • Acima de 75 anos, considerar metade da dose calculada pelo peso, conforme a emenda do estudo STREAM (V Diretriz da SBC, 2015)
    • Enoxaparina adjuvante da fibrinólise, abaixo de 75 anos: 30 mg em bolus intravenoso e 1 mg/kg subcutâneo a cada 12 horas, respeitando máximo de 100 mg em cada uma das duas primeiras doses subcutâneas; depois, dose por peso. Para Antônio, 82 mg por dose subcutânea. Manter até revascularização, alta ou no máximo 8 dias, conforme evolução e protocolo (ACC/AHA, SCA 2025, Tabela 10).
    • Com 75 anos ou mais: omitir bolus intravenoso e usar enoxaparina 0,75 mg/kg subcutânea a cada 12 horas, com máximo de 75 mg em cada uma das duas primeiras doses. Se clearance de creatinina for inferior a 30 mL/min, usar 1 mg/kg a cada 24 horas; o bolus continua omitido no idoso. Conferir função renal, sangramento e a estratégia com a equipe (ACC/AHA, SCA 2025, Tabela 10).
    • Alternativa com heparina não fracionada: bolus de 60 U/kg, no máximo 4.000 U, seguido de 12 U/kg/h, no máximo 1.000 U/h, com TTPa mantido entre 1,5 e 2,0 vezes o valor de referência — para 82 kg, bolus de 4.000 U (o cálculo daria 4.920 e o teto corta) e manutenção de 984 U/h (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Se a escolha for alteplase, siga o esquema da bula e não a tabela: com 65 kg ou mais, 15 mg em bolus, 50 mg em 30 minutos e 35 mg em 60 minutos, total de 100 mg, em acesso exclusivo (bula profissional de ACTILYSE)
    • Se a escolha for estreptoquinase: 1,5 milhão de UI em 100 mL de soro glicosado a 5% ou fisiológico a 0,9%, correndo em 30 a 60 minutos (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
  6. Minuto 30 a 120 — durante e depois da infusão

    O paciente fica monitorizado, com o desfibrilador ao lado, e não sai da sala. Arritmias de reperfusão são esperadas e quase sempre não se tratam. O que se busca ativamente é o oposto: sinal de que a droga não funcionou, e sinal de que ela sangrou.

    Prescrição
    • Novo eletrocardiograma 60 a 90 minutos após o trombolítico, comparado ao da admissão na mesma derivação de maior supradesnivelamento (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • Critérios de reperfusão: alívio da dor e redução de pelo menos 50% do supradesnivelamento. Supra que reduziu pouco, que persiste ou que aumentou é falha (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde; V Diretriz da SBC, 2015)
    • Falha de reperfusão, isquemia persistente ou recorrente e instabilidade hemodinâmica ou elétrica exigem angiografia imediata com angioplastia de resgate quando indicada. Não aguardar uma janela de 180 minutos nem repetir rotineiramente o fibrinolítico (ACC/AHA, SCA 2025, seção 5.3.2).
    • Betabloqueador por via oral nas primeiras 24 horas, em paciente de baixo risco de choque. Contraindicam: frequência abaixo de 60 bpm, sistólica abaixo de 100 mmHg, intervalo PR acima de 0,24 s, bloqueio atrioventricular de 2º ou 3º grau, asma ou doença pulmonar obstrutiva grave, doença vascular periférica grave, disfunção ventricular grave e Killip II ou mais (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • A via endovenosa do betabloqueador fica reservada a hipertensão ou taquiarritmia sem disfunção ventricular — os fatores que apontam risco de choque nas primeiras 24 horas são idade acima de 70 anos, sistólica abaixo de 120 mmHg, frequência acima de 110 bpm e Killip maior que 1 (V Diretriz da SBC, 2015)
    • Nifedipino de liberação rápida está contraindicado na síndrome coronariana aguda (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
  7. Após a fibrinólise — transferência imediata; o cateterismo depende da resposta

    Trombolisar não encerra o caso; abre a segunda metade dele. A transferência é recomendada a todos os pacientes após a fibrinólise, e o que muda é a pressa. Essa é a estratégia fármaco-invasiva: a droga onde o paciente está, o cateter onde ele pode chegar.

    Prescrição
    • Providenciar transferência para centro com hemodinâmica imediatamente após iniciar a fibrinólise, assim que o transporte assistido for seguro; a organização do transporte não aguarda o ECG de controle (ACC/AHA, SCA 2025, seção 5.3.2).
    • Se a reperfusão parece bem-sucedida e o paciente permanece estável, programar angiografia entre 2 e 24 horas após a fibrinólise. Se houver falha ou instabilidade, a angiografia é imediata, sem esperar esse intervalo (ACC/AHA, SCA 2025, seção 5.3.2).
    • Não administrar fibrinolítico de rotina antes de uma angioplastia já disponível em tempo adequado — a angioplastia facilitada aumentou oclusão aguda do vaso, reinfarto e mortalidade (V Diretriz da SBC, 2015, classe III A)
    • Internação em unidade coronariana ou terapia intensiva para todo paciente com IAM com supra submetido a reperfusão (Linha de Cuidado do IAM, Ministério da Saúde)
    • IECA nas primeiras 24 horas, mantido indefinidamente, em quem tem infarto anterior, congestão pulmonar, fração de ejeção abaixo de 40%, hipertensão, diabetes ou doença renal crônica. Captopril 12,5 a 25 mg a cada 8 horas, até 50 mg a cada 8 horas; ou enalapril 5 a 10 mg a cada 12 horas, até 20 mg a cada 12 horas (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
    • Iniciar estatina de alta intensidade durante a internação, por exemplo atorvastatina 40 a 80 mg por via oral uma vez ao dia, conforme tolerância e interações. Na régua brasileira de risco muito alto, buscar LDL-c abaixo de 50 mg/dL; reavaliar perfil lipídico e necessidade de associação no seguimento, conforme o capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global (ACC/AHA, SCA 2025, Tabela 12; Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025).
  8. Dia 3 ao dia 7 — a alta, e o que vai escrito nela

    O infarto com supra não complicado e reperfundido fica internado no mínimo 72 horas; o anterior extenso, não reperfundido ou complicado, de 5 a 7 dias. A interrupção precoce da antiagregação dupla é causa evitável de reinfarto — por isso o hospital entrega os 30 primeiros comprimidos de clopidogrel no dia da alta.

    Prescrição
    • AAS 75 a 200 mg por dia, por tempo indeterminado, para todos (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
    • Dupla antiagregação com AAS e um P2Y12 por 12 meses é o plano padrão após SCA quando não há alto risco hemorrágico. Se for escolhido clopidogrel, manutenção de 75 mg por via oral ao dia. Duração menor, extensão, troca de agente ou associação com anticoagulante exigem plano individualizado da equipe, registrado na alta; não suspender por conta própria (ACC/AHA, SCA 2025, seção 11.1).
    • Betabloqueador oral após estabilização, quando não houver contraindicação; na disfunção ventricular, escolher um dos agentes com benefício em insuficiência cardíaca. A necessidade de manutenção prolongada em fração de ejeção preservada deve ser reavaliada conforme sintomas, arritmia, pressão e evolução, sem prescrição vitalícia automática. Sem disfunção ventricular: propranolol 20 mg a cada 8 horas ou 40 mg a cada 12 horas, até 160 a 240 mg por dia; ou atenolol 25 mg por dia, até 200 mg por dia. Com disfunção ventricular: carvedilol 3,125 mg a cada 12 horas, até 25 mg a cada 12 horas (50 mg se o peso passar de 85 kg); ou succinato de metoprolol 12,5 a 25 mg por dia, até 200 mg por dia (doses dos protocolos brasileiros citados; indicação e reavaliação conforme ACC/AHA, SCA 2025, seção 4.6)
    • Espironolactona 25 mg por dia em quem tem fração de ejeção abaixo de 40% com sinais de insuficiência cardíaca ou diabetes, desde que creatinina abaixo de 2,5 mg/dL em homens e 2,0 mg/dL em mulheres e potássio abaixo de 5,0 mmol/L (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
    • Retorno às atividades: sexuais em 7 a 10 dias no paciente estável de baixo risco; físicas em 2 a 4 semanas no infarto não complicado, com avaliação cardiológica; direção em 1 semana sem complicações (Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, Ministério da Saúde/Conitec)
09

Como saber se está funcionando

Depois que a droga entra, o interno costuma achar que o trabalho acabou — e é aí que a decisão volta a ser dele. O fibrinolítico funciona em cerca de dois terços dos pacientes; no terço restante a artéria continua fechada, o relógio continua correndo, e o único jeito de saber é ir olhar. Quatro parâmetros dão a resposta, e três deles não custam nada.

A dor — presença, com hora anotadaContinuamente, com registro a cada reavaliação e imediatamente na recorrência

Esperado: Alívio progressivo nos primeiros 60 a 90 minutos após o fibrinolítico. Alívio da dor é um dos dois critérios clínicos de reperfusão.

Se não melhora: Dor persistente e intensa, sobretudo com sudorese, dispneia ou instabilidade hemodinâmica, é critério clínico de falha da fibrinólise. Não aumente a analgesia e siga observando: peça o eletrocardiograma agora e acione a angioplastia de resgate. Morfina a mais transforma um critério de decisão em um paciente calado com a artéria fechada.

O eletrocardiograma de 60 a 90 minutosEntre 60 e 90 minutos após o início do trombolítico, e imediatamente diante de qualquer piora clínica

Esperado: Redução de pelo menos 50% do supradesnivelamento, medida na derivação que tinha o maior supra no traçado inicial, no mesmo ponto J e com a mesma calibração.

Se não melhora: Redução inferior a 50%, supra persistente ou em aumento, dor persistente ou instabilidade indicam suspeita de falha: acione angiografia de resgate imediatamente. Não espere completar 180 minutos nem repita rotineiramente o fibrinolítico. Integre a evolução clínica ao ECG; melhora parcial de um parâmetro não torna segura a deterioração de outro.

As arritmias — separar as que são sinal das que são problemaMonitorização contínua durante toda a permanência

Esperado: Ritmo idioventricular acelerado, extrassístoles ventriculares e bradicardia transitória nos minutos que seguem a reperfusão são esperados e não se tratam. Bradicardia sinusal ocorre em 30% a 40% dos infartados, sobretudo nos inferiores.

Se não melhora: Bradicardia com hipotensão, alteração de consciência, isquemia ou hipoperfusão: acionar suporte e tratar a causa; atropina 1 mg intravenoso, repetível a cada 3 a 5 minutos, máximo total 3 mg (AHA 2025). Em bloqueio de alto grau, sobretudo com escape largo, preparar estimulação sem esperar o teto da atropina. Taquicardia ventricular monomórfica com pulso e instabilidade exige cardioversão sincronizada; taquicardia ventricular polimórfica ou fibrilação ventricular exige choque não sincronizado. Sem pulso, iniciar o algoritmo de parada. Após estabilização, a equipe define antiarrítmico e manutenção conforme o ritmo; ver Taquiarritmias e Bradiarritmias.

A hemodinâmica e o sangramentoPressão, frequência, saturação, perfusão e nível de consciência a cada 15 a 30 minutos nas primeiras horas

Esperado: Estabilidade, com Killip I. Reavalie a ausculta procurando estertores e terceira bulha — a subida de uma classe de Killip triplica o risco de óbito, e é achado de exame físico, não de exame complementar.

Se não melhora: Queda de pressão com má perfusão em infarto inferior: pense em ventrículo direito antes de pensar em bomba, e trate com volume. Congestão progressiva, hipotensão com oligúria e confusão: choque cardiogênico, indicação de reperfusão mecânica de emergência, com janela até 36 horas de sintoma e 18 horas de choque. Cefaleia intensa, rebaixamento de consciência ou déficit focal em trombolisado é hemorragia intracraniana até prova em contrário: pare a infusão, se ainda estiver correndo, e acione neuroimagem. Piora hemodinâmica entre o terceiro e o sétimo dia com sopro novo é complicação mecânica — insuficiência mitral aguda por rotura de músculo papilar, mais comum no infarto inferior, ou rotura de septo — e quem responde é o ecocardiograma.

O relógio da transferênciaDo momento em que a regulação é acionada até a ambulância sair

Esperado: Que alguém no plantão seja dono desse número. Anote a hora do pedido, a hora da autorização e a hora da saída.

Se não melhora: Transferência que não anda é o modo mais comum de perder um paciente que já estava tratado. Mantenha o paciente monitorizado e em jejum, reavalie os critérios de reperfusão e escale: coordenação do serviço, regulação estadual, o médico regulador pelo nome.

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Onde o erro machuca

Fazer o eletrocardiograma e deixá-lo no prontuário esperando alguém ver

O dano: É o erro mais barato de cometer e o mais caro de todos. O traçado de Antônio existe às 21h48; se ninguém o interpretar até as 22h10, a diferença não aparece em lugar nenhum do prontuário — o exame foi feito no prazo, o registro está impecável, e o paciente perdeu vinte e dois minutos de músculo. O tempo do infarto não se perde na rua: perde-se dentro do serviço, entre o exame pronto e a decisão tomada.

Como pegar a tempo: Trate o traçado como resultado crítico, não como exame: leve na mão até o plantonista, ou fotografe e envie ao cardiologista de referência no mesmo minuto. Onde existe canal de tele-eletrocardiograma, a resposta volta em menos de 10 minutos na grande maioria dos casos. E anote a hora em que o traçado foi mostrado, não só a hora em que foi feito.

Registrar dor há três dias e usar isso como o relógio

O dano: Muitos pacientes têm angina em soluços antes da oclusão. Quem anota o primeiro episódio como início dos sintomas coloca o paciente fora da janela de 12 horas e o exclui da fibrinólise — quando a artéria fechou há uma hora e ele está no melhor momento possível para ser tratado. O erro inverso também acontece: aceitar a hora em que o paciente percebeu que estava pior subestima a janela e leva a trombolisar quem já passou de 12 horas, ganhando o risco sem ganhar benefício.

Como pegar a tempo: A pergunta é sempre a mesma, e não é quando começou a dor: é quando começou a dor que não passou mais. Separe os episódios anteriores e escreva no prontuário a hora e o minuto do episódio contínuo, com o nome de quem informou e um telefone. Faça isso enquanto o acompanhante ainda está na sala — depois que ele sai para estacionar, o dado sai junto.

Esperar a troponina para acionar a regulação

O dano: A troponina pode estar normal na apresentação precoce; o tempo de elevação depende do ensaio e não cabe numa regra universal de 6 a 12 horas. Ensaios ultrassensíveis detectam lesão mais cedo, mas seu resultado não é requisito para reperfundir um quadro com indicação clínica e eletrocardiográfica estabelecida. Esperar pelo laboratório nessa situação perde tempo de miocárdio salvável.

Como pegar a tempo: Colha na mesma punção do acesso e siga em frente. No supradesnivelamento, o exame que diagnostica é o traçado, e nenhum exame muda a conduta enquanto você espera. A radiografia de tórax também não pode atrasar a reperfusão, com uma exceção: suspeita de dissecção de aorta.

Dar nitrato ou morfina no infarto inferior sem ter feito V3R e V4R

O dano: Metade dos infartos inferiores compromete o ventrículo direito, uma câmara de parede fina que depende de pré-carga. Nitrato e morfina reduzem o retorno venoso; nesse paciente a pressão despenca em minutos, e o quadro é confundido com choque cardiogênico ou com reação ao fibrinolítico. É uma hipotensão que você fabricou, num paciente que já tinha 25% a 30% de mortalidade só pelo território acometido.

Como pegar a tempo: V3R e V4R em todo supradesnivelamento inferior, antes da primeira dose de alívio. Elevação de pelo menos 0,5 mm nessas derivações muda a prescrição: nada de vasodilatador venoso nem de diurético, e a hipotensão se trata com expansão volêmica — soro fisiológico, com dobutamina se o débito não melhorar após 500 a 1.000 mL.

Prescrever a dose de ataque de clopidogrel no paciente de 78 anos

O dano: A regra dos documentos nacionais é direta e costuma ser esquecida na pressa: na fibrinólise de quem tem 75 anos ou mais, não se administra dose de ataque de clopidogrel — apenas um comprimido de 75 mg. Dar 300 ou 600 mg a um idoso que também vai receber fibrinolítico e heparina soma três antitrombóticos em dose plena numa pessoa cujo risco de hemorragia intracraniana já é o mais alto do espectro. O mesmo vale para a enoxaparina: acima de 75 anos o bolus endovenoso é omitido e a dose subcutânea cai para 0,75 mg/kg.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever qualquer antitrombótico, diga a idade em voz alta. Na estratégia de fibrinólise em quem tem 75 anos ou mais, três coisas mudam ao mesmo tempo: clopidogrel sem ataque, enoxaparina sem bolus e a 0,75 mg/kg, e tenecteplase em meia dose calculada pelo peso. O erro oposto é mais frequente e mais caro — deixar de reperfundir o idoso por prudência genérica, quando o benefício está demonstrado acima de 75 anos e a idade não é fator limitante.

Achar que o trombolítico encerrou o caso

O dano: O desaparecimento parcial da dor não demonstra abertura da artéria. Sem reavaliação clínica e ECG entre 60 e 90 minutos, pode-se perder a identificação de falha que exige resgate imediato. Mesmo quando os sinais de reperfusão são favoráveis, a estratégia inclui transferência imediata e angiografia programada entre 2 e 24 horas no paciente estável; esse intervalo é do exame, não uma autorização para adiar o transporte.

Como pegar a tempo: Ao iniciar a fibrinólise, registre o horário, programe o ECG de 60 a 90 minutos e mantenha a transferência assistida acionada. Com falha, dor persistente ou instabilidade, solicite angiografia de resgate imediatamente. Com resposta favorável e estabilidade, a angiografia ocorre entre 2 e 24 horas. Não repita o fibrinolítico por rotina.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas do infarto com supra são difíceis por um motivo específico: todas acontecem com o relógio correndo e nenhuma pode ser abreviada por causa disso. As falas abaixo são para dizer em voz alta, em português comum.

Explicar o trombolítico e pedir consentimento, com a família assustada e o tempo curto

Seu Antônio, o senhor está tendo um infarto agora: tem uma artéria do coração entupida por um coágulo neste momento. Existe um remédio que dissolve esse coágulo, e ele funciona muito melhor quanto mais cedo entrar — por isso eu quero começar nos próximos minutos. O que ele pode fazer de bom é salvar a parte do músculo que ainda está viva. O risco principal é sangramento, e há um risco pequeno de sangrar dentro da cabeça. Sem ele, o entupimento continua e o dano é maior. Eu já verifiquei tudo o que impediria o senhor de tomar. Posso começar?

Não diga: Descrever só o benefício para ganhar tempo. A família que não foi avisada do risco vive a complicação como erro, e não como risco que aceitou.

Explicar por que o paciente vai ser transferido — e por que não fica aqui

O tratamento que ele começou aqui é o certo para este momento, e já está feito. Mas o coágulo pode voltar a fechar, e o exame que olha a artéria por dentro e coloca um stent só existe no hospital da região. Ele vai para lá hoje, de ambulância, com médico junto e monitorado o tempo todo. Não é porque piorou nem porque aqui não deu certo: é a segunda parte do mesmo tratamento, e ela é planejada desde agora.

Não diga: Dizer que aqui não tem estrutura ou que não podemos fazer nada. Além de falso — o tratamento que mais salva vida na primeira hora já foi dado ali —, faz a família chegar ao destino desconfiando do serviço que a atendeu e o paciente duvidar da medicação que recebeu.

A fibrinólise falhou e o paciente precisa ir para o resgate agora

O exame que eu repeti mostra que o remédio não abriu a artéria por completo. Isso acontece com cerca de um em cada três pacientes, e não é sinal de que algo foi feito errado — é por isso mesmo que a gente repete o exame nesse horário. O que muda é a pressa: em vez de ir amanhã, ele vai agora, para desentupir a artéria com cateter. Eu já acionei a transferência enquanto falo com vocês.

Não diga: Apresentar a falha como piora do paciente ou como má notícia definitiva. É um resultado previsto do plano, com conduta pronta atrás dela.

O paciente chegou depois de 12 horas e não há reperfusão a oferecer

Pelo horário que a gente conseguiu estabelecer, já se passou tempo demais para os tratamentos que abrem a artéria: eles têm hora para funcionar, e depois dela o risco fica maior que o benefício. Isso não quer dizer que não há o que fazer. Ele fica internado, monitorado, recebendo os remédios que protegem o coração e evitam um novo entupimento, e vai ser avaliado por um cardiologista para decidir se precisa de cateterismo nos próximos dias.

Não diga: Dizer que ele demorou demais ou que devia ter vindo antes. Mesmo quando é verdade, transfere à família uma culpa que não muda nada do que vem pela frente — e costuma ser injusta, porque boa parte do atraso acontece depois da porta do hospital.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Paciente com menos de 3 horas de dor, em hospital sem hemodinâmica: trombolisar aqui ou transferir?

Trombolisar no local

Pacientes atendidos até 3 horas do início da dor devem receber trombolítico no local de atendimento, na ausência de contraindicações, se a angioplastia primária no local for indisponível — eles se beneficiam mais do trombolítico no local do evento.

Ministério da Saúde — Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e Protocolo Clínico de Síndromes Coronarianas Agudas (Portaria GM/MS nº 2.994/2011)

Transferir para angioplastia primária

Transferência de um centro clínico para um de cardiologia intervencionista, com retardo menor que 3 horas do início dos sintomas, expectativa de angioplastia primária em menos de 120 minutos do primeiro contato médico e disponibilidade logística reconhecida e ativa — classe IIa, nível B. Os pacientes preferenciais para transferência são justamente os com menos de 3 horas de sintoma.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — V Diretriz sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST (2015)

Como decidir

As duas posições descrevem o mesmo paciente e chegam a condutas opostas porque medem coisas diferentes: a primeira olha o benefício biológico do trombolítico precoce, a segunda a superioridade da angioplastia quando ela é factível. O que decide, para o paciente à sua frente, é uma variável que nenhum documento pode saber — se a promessa de 120 minutos é real no seu serviço, hoje, a esta hora. Ela se apura por telefone: a ambulância está na base ou em ocorrência? a vaga está confirmada ou em análise? a equipe de hemodinâmica está no hospital ou de sobreaviso em casa? Some espera, estrada e porta no destino; se passar de 120 minutos, ou se a resposta vier vaga, trombolise aqui e transfira depois. Duas assimetrias fecham a conta: trombolisar não impede a angioplastia, porque a estratégia fármaco-invasiva prevê o cateterismo em seguida; e, no Brasil, o erro que mais custa vida não é escolher a droga em vez do cateter, é esperar por um cateter que não vem e terminar a noite sem ter feito nem uma coisa nem outra.

Qual fibrinolítico no paciente com mais de 75 anos?

Estreptoquinase, pelo menor risco de sangramento cerebral

A estreptoquinase deve ser preferida em maiores de 75 anos pelo menor risco de sangramento cerebral. Nos ambientes hospitalares, os fibrino-específicos ficam reservados ao infarto de apresentação mais precoce e com maior área de miocárdio afetada, ou a quem tem contraindicação à estreptoquinase.

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas; e Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio (Portaria GM/MS nº 2.994/2011)

Fibrino-específico em meia dose

Tenecteplase ou alteplase são preferíveis à estreptoquinase — classe IIa, nível B. Acima de 75 anos, deve-se considerar metade da dose calculada pelo peso, conforme a emenda adotada no estudo STREAM, após a qual a diferença na taxa de AVC hemorrágico deixou de ser estatisticamente significativa.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — V Diretriz sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST (2015)

Como decidir

A divergência é real e tem quinze anos entre as duas posições: a primeira nasceu antes de existir um protocolo de ajuste de dose para idosos e resolvia o excesso de sangramento trocando de droga; a segunda mantém a droga melhor e corta a dose pela metade. Três coisas orientam a decisão. O que existe no armário: em UPA e no SAMU o agente disponível é a tenecteplase, e discutir estreptoquinase ali é discutir uma droga que não está lá. O cenário: se o paciente vai ser transferido para angioplastia depois, o fibrino-específico em meia dose é o que se encaixa na estratégia fármaco-invasiva, testada exatamente assim. E o que mais importa: acima de 75 anos a pergunta não é qual das duas drogas, e sim se alguma será dada. A mortalidade do infarto no idoso é de cinco a oito vezes a do adulto jovem, enquanto o risco de sangramento e AVC sobe apenas duas a três vezes. O conservadorismo que troca de droga é defensável; o que não trata, não.

Bloqueio de ramo esquerdo novo: é ou não critério para reperfusão imediata?

É critério, como o supradesnivelamento

São critérios eletrocardiográficos de infarto com supradesnivelamento a presença de supra de ST em duas derivações contíguas ou a presença de bloqueio completo do ramo esquerdo novo ou presumivelmente novo, que corresponde a cerca de 7% dos casos. Esses pacientes devem ser submetidos à terapia de reperfusão.

Ministério da Saúde — Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e Protocolo Clínico de Síndromes Coronarianas Agudas (Portaria GM/MS nº 2.994/2011); a mesma redação consta da V Diretriz da SBC de 2015, que inclui bloqueio de ramo novo entre os critérios de indicação de fibrinolítico

Não é critério por si só; o que confirma são os critérios de Sgarbossa

Bloqueio de ramo esquerdo novo isoladamente não é mais considerado necessariamente critério diagnóstico para elevação persistente de ST, embora indique situação de maior risco. O que confirma oclusão dentro do bloqueio são os critérios de Sgarbossa: elevação concordante do ST de pelo menos 1 mm em derivações com QRS positivo, infradesnivelamento concordante de pelo menos 1 mm em V1 a V3, ou elevação discordante de pelo menos 5 mm em derivações com QRS negativo.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025, Tabela 7

Como decidir

A régua mais recente é a de 2025 e descreve melhor a realidade: a maioria dos bloqueios de ramo esquerdo encontrados na emergência é antiga, e tratar todos como equivalente de supra significa trombolisar quem não tem oclusão. Mas a régua antiga continua viva nos protocolos de serviço e nos formulários de regulação, e você vai encontrá-la citada por quem atende do outro lado do telefone. Três informações decidem, e você consegue as três em minutos. Existe traçado prévio? Se existe e não tinha o bloqueio, ele é novo, e com dor típica isso é altíssimo risco. Existe critério de Sgarbossa? Se sim, o caso entra na rota da reperfusão. O paciente está instável? Hipotensão, congestão ou dor refratária empurram para reperfusão mecânica, independentemente da discussão eletrocardiográfica. A conduta que raramente é errada: mostrar o traçado agora a um médico mais experiente e acionar a transferência em paralelo. O que não se faz é trombolisar por reflexo diante do rótulo bloqueio de ramo, nem mandar o paciente para a observação porque não tem supra.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Antônio. 58 anos, pedreiro, 82 kg, hipertenso em uso irregular de anti-hipertensivo, tabagista de quarenta anos. Dor retroesternal em peso iniciada às 20h50, contínua, com irradiação para pescoço e braço esquerdo, sudorese e um episódio de vômito. Chegou às 21h40 ao hospital municipal sem hemodinâmica, a 180 km da capital. Pressão 148 por 92 mmHg simétrica nos dois braços, pulsos radiais simétricos, frequência 96 bpm, saturação 96%, ausculta pulmonar limpa, glicemia capilar 138 mg/dL. Eletrocardiograma às 21h48: supradesnivelamento de 3 mm em V2, V3 e V4, com infradesnivelamento em DII, DIII e aVF. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso nos primeiros trinta segundos

    Homem de meia-idade, tabagista, com dor construída em minutos, sudorese e vômito, e um traçado com supradesnivelamento de 3 mm em três precordiais contíguas. O corte para homem com 40 anos ou mais em V2 e V3 é 2 mm, e V4 exige 1 mm — os três estão preenchidos com folga, e o infradesnivelamento inferior é a imagem em espelho do mesmo evento. Isso é oclusão da descendente anterior com uma área grande de músculo em risco. Não preciso de mais nenhum exame para saber o que ele tem; preciso de duas informações que ainda não tenho, e nenhuma vem de laboratório.

  2. a primeira informação: o relógio dele

    A esposa ainda está na recepção. Pergunto quando começou a dor que não passou mais, e ela responde com precisão porque estavam jantando: 20h50, ele largou o garfo. Ele diz que sentiu umas fisgadas na semana passada, que duraram minutos e sumiram — angina prévia, que não entra no cálculo. São 21h50: uma hora de oclusão. Escrevo no prontuário o horário, o informante e o telefone dela. Estamos no melhor ponto da curva.

  3. a segunda informação: o relógio do serviço

    Peço à técnica que puncione e colha tudo na mesma agulha, ligo o monitor com o desfibrilador ao lado e ligo para a regulação com o traçado na mão. Pergunto com número: em quanto tempo, a partir de agora, este paciente estará com o cateter na artéria? A resposta é honesta e ruim — a ambulância de suporte avançado está em ocorrência e chega em uma hora, e o transporte leva duas horas e meia. Isso dá três horas e meia até a porta do outro hospital, sem contar o tempo lá dentro. O limite para preferir a transferência é 120 minutos do primeiro contato. Não cabe.

  4. a checagem que antecede a primeira dose

    Antes de qualquer antitrombótico, quarenta segundos: pulsos radiais simétricos, pressão igual nos dois braços, e a dor foi aumentando aos poucos. Dissecção afastada. Corro a lista de contraindicações em voz alta com o plantonista: sem AVC prévio, sem trauma de cabeça, sem cirurgia recente, sem sangramento, sem úlcera ativa, sem anticoagulante, pressão abaixo de 180 por 110. Nada proíbe. AAS 200 mg mastigados agora, e clopidogrel 300 mg de ataque, porque a estratégia é fibrinolítico e ele tem 58 anos — com 75 ou mais, seriam 75 mg sem ataque.

  5. a conta da dose

    82 kg cai na faixa de 80 a menos de 90 kg: tenecteplase 45 mg em bolus único. É a conta inteira, e é por isso que essa é a droga de quem trabalha sozinho — sem bomba, sem diluição, sem segundo acesso obrigatório. Junto, enoxaparina: 30 mg em bolus endovenoso e 1 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horas, o que dá 82 mg. Se só houvesse heparina não fracionada, seriam 60 U/kg em bolus — 4.920 pelo cálculo, cortados pelo teto de 4.000 U — seguidos de 12 U/kg/h, ou 984 U/h. A infusão começa às 22h08: porta-agulha de 28 minutos, e 78 minutos de dor total.

  6. o que faço enquanto a droga age

    Dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual — aqui o infarto é anterior, então a armadilha do ventrículo direito não se aplica, mas confiro pressão e frequência antes assim mesmo. Ele fica na sala, monitorizado, com o desfibrilador ao lado, e eu não saio. Aos vinte minutos aparece um ritmo idioventricular acelerado que dura dois minutos e some sozinho: arritmia de reperfusão, sinal bom, não se trata. E, no mesmo minuto em que dei o trombolítico, escrevi duas ordens com hora na prescrição: eletrocardiograma às 23h10, e vaga solicitada agora.

  7. o exame que fecha o plantão

    Às 23h10, o supra de V3 caiu de 3 para 1 mm: redução de cerca de 67%, acompanhada de alívio da dor. São sinais favoráveis de reperfusão, sem dispensar vigilância. A transferência já foi acionada após a tenecteplase das 22h08 e segue tão logo haja transporte assistido seguro. Comunico os horários e a resposta à regulação e solicito angiografia entre 2 e 24 horas após a fibrinólise, se a estabilidade persistir. Se surgirem dor recorrente, falha de resolução do supra ou instabilidade, a prioridade muda para angiografia de resgate imediata. Enquanto aguarda, Antônio permanece monitorizado; tratamento oral e prevenção secundária são introduzidos conforme perfusão, função ventricular e contraindicações.

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Faça você

Agora é Dona Aparecida, no mesmo hospital, três semanas depois. 79 anos, 61 kg, hipertensa e diabética, mora sozinha na zona rural. Chega às 04h20 trazida pelo filho, com dor epigástrica em peso, náusea e sudorese que começaram às 02h30 e não passaram. Ao exame: pressão 96 por 62 mmHg, igual nos dois braços, pulsos radiais simétricos, frequência 52 bpm, saturação 95% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, jugulares túrgidas com o leito a 45 graus, glicemia capilar 214 mg/dL. Nega cirurgia, sangramento, AVC ou anticoagulante; diz que a dor foi aumentando aos poucos. Eletrocardiograma às 04h28: supradesnivelamento de 2 mm em DII, DIII e aVF, com infradesnivelamento em DI e aVL. A regulação informa que a ambulância de suporte avançado chega em 90 minutos e o transporte leva 2h30.

  1. o que o traçado diz — e o exame de trinta segundos que ele obriga

    Supradesnivelamento de 2 mm em DII, DIII e aVF é infarto de parede inferior, com o corte de 1 mm preenchido em três derivações contíguas, e o infradesnivelamento em DI e aVL é a imagem em espelho. Todo supradesnivelamento inferior obriga a V3R e V4R: os eletrodos precordiais espelhados para a direita, antes de qualquer medicação de alívio.

  2. o relógio dela

    A dor contínua começou às 02h30 e agora são 04h35: duas horas e cinco minutos. Menos de 3 horas, portanto dentro da faixa em que a discussão entre trombolisar e transferir é mais acirrada. Somando 90 minutos de espera pela ambulância com 2h30 de estrada, o balão não acontece antes de quatro horas a partir de agora — muito além dos 120 minutos do primeiro contato.

  3. o que a idade e o exame físico acrescentam

    79 anos, 61 kg, pressão de 96 por 62 mmHg, frequência de 52 bpm e jugulares túrgidas com ausculta pulmonar limpa. Nenhuma contraindicação absoluta ou relativa ao fibrinolítico foi encontrada na anamnese, e a pressão está bem abaixo de 180 por 110 mmHg. A glicemia de 214 mg/dL é hiperglicemia hospitalar, cujo manejo tem capítulo próprio e não muda nada da decisão desta hora.

  4. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

A conduta é fazer V3R e V4R, tratar como infarto inferior com ventrículo direito e trombolisar aqui, com as doses ajustadas pela idade. Primeiro, o exame que muda tudo: solicitar V3R e V4R para documentar o envolvimento do ventrículo direito, já fortemente sugerido por hipotensão, jugulares túrgidas e pulmões limpos. O resultado dessas derivações ainda não foi fornecido na vinheta; não se deve inventá-lo para fechar o raciocínio. A consequência é imediata e é o ponto do caso: nitrato e morfina estão proibidos, porque essa câmara depende de pré-carga; a equipe pode fazer prova cautelosa de volume com soro fisiológico, reavaliando pressão, perfusão e congestão a cada etapa. Persistência de choque exige suporte hemodinâmico e reperfusão urgente, sem insistir em volume por um total fixo. Betabloqueador também está fora, por frequência de 52 bpm e sistólica de 96 mmHg. Segundo, a estratégia: com duas horas de dor e nenhuma possibilidade de balão em até 120 minutos do primeiro contato, o tratamento é o fibrinolítico onde ela está, com agulha até 04h50. Terceiro, as doses, todas modificadas pelos 79 anos: tenecteplase pela faixa de 60 a menos de 70 kg seriam 35 mg, e com 75 anos ou mais considera-se metade da dose calculada pelo peso, o que dá 17,5 mg em bolus único; enoxaparina sem bolus endovenoso, 0,75 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horas, o que dá 45,75 mg; clopidogrel 75 mg em comprimido único, sem ataque; e AAS 200 mg mastigados, que não muda com a idade. Quarto, o que fica marcado com hora: eletrocardiograma de controle entre 60 e 90 minutos procurando redução de pelo menos 50% do supra em DIII; monitorização contínua com desfibrilador ao lado, atenta ao bloqueio atrioventricular do infarto inferior, que pode responder à atropina quando nodal. Se houver bradicardia com repercussão, usar 1 mg intravenoso a cada 3 a 5 minutos, máximo 3 mg, conforme AHA 2025, sem adiar estimulação diante de bloqueio de alto grau e hipoperfusão; e o pedido de vaga acionado no mesmo minuto do trombolítico, porque ela vai para o centro com hemodinâmica de qualquer forma — com transferência imediata em transporte assistido assim que seguro. O cateterismo é imediato diante de falha ou instabilidade e ocorre entre 2 e 24 horas quando há resposta favorável e estabilidade.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Acima de 75 anos, três doses mudam ao mesmo tempo, e é comum lembrar de uma e esquecer as outras duas. A tenecteplase de 61 kg cairia na faixa de 60 a menos de 70 kg, que são 35 mg, mas acima de 75 anos considera-se metade da dose calculada pelo peso: 17,5 mg. O clopidogrel não recebe dose de ataque nessa faixa etária, apenas um comprimido de 75 mg. A enoxaparina adjuvante do trombolítico perde o bolus endovenoso e cai para 0,75 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horas, o que dá 45,75 mg. O que não muda é a indicação: existe benefício demonstrado de fibrinólise acima de 75 anos, a idade não é fator limitante, e a mortalidade do infarto nessa faixa é de cinco a oito vezes a do adulto jovem enquanto o risco de sangramento e AVC sobe apenas duas a três vezes. Não tratar por prudência genérica é o erro mais frequente, e o mais caro.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua os primeiros minutos de Antônio: qual dado permite acionar a reperfusão, o que precisa ser verificado antes do antitrombótico e qual informação concreta a regulação deve fornecer. Explique por que a troponina inicial normal não encerra o caso e por que ausência de supra, em outro paciente, não garante artéria aberta. Confira sua sequência no fluxo e consulte a tabela para conferir peso, idade, função renal e doses. A aprendizagem está completa quando você consegue justificar a estratégia e dizer quem será acionado, sem deixar o paciente esperando por uma informação que não muda a decisão.

Em 30 dias

Refaça o caso com três mudanças, uma por vez: angioplastia viável em 100 minutos do primeiro contato; dor persistente e redução de apenas 15% do supra após fibrinólise; aparecimento de hipotensão e bradicardia. Para cada situação, descreva a prioridade, a ajuda necessária e o parâmetro de reavaliação. Depois prepare, com consulta às doses e validação do supervisor, a prescrição simulada de fibrinólise para um adulto de 96 kg e função renal normal. Escolha um anticoagulante adjuvante. Calcule a alternativa em outra linha, deixando explícito que enoxaparina e heparina não fracionada não são administradas simultaneamente como dois esquemas completos. Termine com a passagem do caso à equipe de destino.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 64 anos trazido pela filha a um pronto atendimento sem hemodinâmica, com dor no peito e sudorese há cerca de duas horas. A filha precisa sair para buscar o cartão do SUS no carro. Conduza da porta à decisão de reperfusão — levante o horário antes que ela saia, decida a estratégia com base no tempo real de transferência, e explique em voz alta, para o paciente e para a filha, o que o remédio faz, qual é o risco e por que ele vai ser transferido mesmo depois de tratado.