Clínica Médica › Cardiologia
Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida
Nada precisa ser feito nos próximos dez minutos, e é exatamente por isso que quase nunca é feito. O tratamento que muda a sobrevida se titula ao longo de semanas — e o paciente sai da internação com a dose de partida que ninguém subiu.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS nº 10, de 13 de setembro de 2024 (anexo alterado em novembro de 2024)
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda (Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539)
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021 (Arq Bras Cardiol. 2021;116(6):1174-1212)
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, RENAME 2024, 2ª edição, aprovada pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024
Albuquerque DC, Souza Neto JD, Bacal F, Rohde LEP, Bernardez-Pereira S, Berwanger O, Almeida DR, em nome dos investigadores do estudo BREATHE — I Registro Brasileiro de Insuficiência Cardíaca: aspectos clínicos, qualidade assistencial e desfechos hospitalares (Arq Bras Cardiol. 2015;104(6):433-442)
Girardi JM, Girardi IA, Nascimento ACS, Silva DML, Soares LVG, Dias SAL, Lima SQL, Girardi FA — Tendência Temporal das Internações Hospitalares por Insuficiência Cardíaca no Brasil (Arq Bras Cardiol. 2025;122(6):e20240505)
Arruda VL, Machado LMG, Lima JC, Silva PRS — Tendência da mortalidade por insuficiência cardíaca no Brasil: 1998 a 2019 (Rev Bras Epidemiol. 2022;25)
Ministério da Saúde — página oficial do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos
Secretaria da Saúde do Estado da Bahia — orientações de acesso aos medicamentos do Componente Especializado para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida
ACC — síntese da diretriz AHA/ACC/HFSA de insuficiência cardíaca, 2022. https://www.acc.org/latest-in-cardiology/ten-points-to-remember/2022/03/29/19/53/2022-aha-acc-hfsa-heart-failure-guideline-gl-hf
Responda antes de ler
Paciente com insuficiência cardíaca e fração de ejeção de 33% recebe alta com maleato de enalapril 2,5 mg de 12/12 h e carvedilol 3,125 mg de 12/12 h. Considerando, para este exercício, alvos de enalapril 20 mg de 12/12 h e carvedilol 25 mg de 12/12 h, com titulação tolerada por duplicação a cada duas semanas, quantos aumentos de dose ainda são necessários em cada fármaco e em quanto tempo, no mínimo, ele chegaria ao alvo?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, dez e meia da manhã, enfermaria de clínica médica de um hospital municipal. Nivaldo tem 63 anos, é motorista de ônibus aposentado por invalidez, pesa 71 quilos e está no quarto dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada. Chegou com dispneia aos mínimos esforços, edema até os joelhos e três quilos a mais do que costuma pesar. Recebeu furosemida endovenosa, urinou, emagreceu quatro quilos e hoje está sentado na cama, sem dispneia, comendo. O time já falou a palavra alta.
Você é o interno e está com a prescrição na mão. Está escrito: furosemida 40 mg endovenosa de 8 em 8 horas; maleato de enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas; carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas; ácido acetilsalicílico 100 mg por dia; sinvastatina 40 mg à noite; enoxaparina profilática. Está tudo certo, no sentido de que nada ali está errado.
No prontuário antigo, no envelope que a filha trouxe, está a receita da alta anterior — sete meses atrás, mesma enfermaria, mesmo motivo. E está escrito exatamente a mesma coisa: enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas, carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas. O ecocardiograma daquela internação, grampeado atrás, diz fração de ejeção de 28%. Ninguém repetiu o exame; ninguém subiu nenhuma dose; o retorno estava marcado como retorno ambulatorial, sem data, sem serviço, sem nome.
Não há nada para fazer nos próximos dez minutos. Nivaldo não vai morrer hoje, e é por isso que este é o paciente que mais se perde. O que decide se ele vive mais cinco anos ou reinterna em julho não é o que aconteceu na madrugada em que ele chegou: é a receita que sai daqui, quantas classes ela tem, em que dose, e se existe uma data escrita em algum lugar para alguém subir essa dose. Esse é o trabalho que ninguém faz porque ninguém tem tempo — e é o único trabalho do dia em que um interno tem tempo de sobra.
Quem adoece disso
Duas séries brasileiras do DATASUS, quando lidas juntas, dizem tudo o que este capítulo tenta corrigir. Entre 2000 e 2021 houve 2.851.437 internações por insuficiência cardíaca em homens e 2.749.424 em mulheres com 40 anos ou mais no país. A taxa de internação caiu de forma consistente — 6,7% a 8,1% ao ano nos homens, 7,5% a 8,3% ao ano nas mulheres, em todas as faixas etárias. E a taxa de morte durante a internação subiu, no mesmo período, 1,8% a 3,6% ao ano nos homens e 3,1% a 3,5% nas mulheres. Interna-se menos, e quem interna morre mais. A internação por insuficiência cardíaca deixou de ser um evento de rotina e virou marcador de gravidade: quando o seu paciente é internado, ele já está na parte ruim da curva.
A segunda série conta o desfecho. Entre 1998 e 2019 foram 567.789 óbitos por insuficiência cardíaca em adultos de 50 anos ou mais, com taxa média de 75,5 por 100 mil habitantes; 45,31% deles na faixa de 80 anos ou mais e 71,64% dentro de um hospital. A mortalidade caiu no Sul, no Sudeste e no Norte, e subiu no Nordeste, a 2,67% ao ano. A doença é a mesma; o acesso ao tratamento que a modifica é que não é.
O número que muda o que você faz na quinta-feira de manhã vem de um registro brasileiro com 1.263 pacientes internados por descompensação em 51 hospitais. O principal fator de descompensação não foi a doença progredindo: foi a má aderência ao tratamento, em 29,9% dos casos — mais que infecção (22,7%), arritmia (12,5%) e excesso de sal e água (8,9%). E, durante a internação, apenas 57,1% dos pacientes estavam com betabloqueador e 42,2% com IECA ou BRA, enquanto 89,8% recebiam diurético de alça. Quase todo mundo recebia o que alivia o sintoma; menos da metade recebia o que muda a sobrevida.
A mortalidade intra-hospitalar desse registro foi de 12,6%, contra cerca de 3,5% no registro norte-americano ADHERE e 5,5% no europeu — diferença grande demais para caber só na gravidade, num sistema em que a maioria dos pacientes chega ao hospital sem estar tomando o tratamento que reduz mortalidade e sai dele do mesmo jeito. A sobrevida em cinco anos após o diagnóstico chega a apenas 35%.
Isso desenha o alvo com precisão. Esta é uma das poucas doenças crônicas em que quatro classes de medicamento, todas com evidência de redução de mortalidade, estão à sua disposição — e em que o problema documentado do país não é escolher entre elas, e sim o paciente não estar tomando nenhuma, ou estar tomando uma dose que não foi a testada.
Por que acontece o que acontece
O coração de Nivaldo ejeta menos sangue por sístole do que precisaria. O corpo interpreta isso da única forma que sabe interpretar queda de débito: como hemorragia. E aciona o programa que salva quem sangra — o sistema renina-angiotensina-aldosterona retém sódio e água e contrai o leito arterial; o simpático acelera a frequência, aumenta a contratilidade e contrai mais ainda. Nas primeiras horas de um trauma isso mantém a perfusão cerebral. Numa doença que dura anos, é o próprio programa de resgate que mata o paciente: mais volume numa bomba que já não vaza direito, mais pós-carga contra um ventrículo fraco, mais frequência num miocárdio isquêmico, e um estímulo trófico contínuo que dilata a câmara e mata miócito. O ventrículo remodela — fica maior, mais esférico, com parede mais fina — e a fração de ejeção cai mais, o que ativa mais o sistema. A alça se fecha e se aperta sozinha.
Tudo neste capítulo decorre disso. Os quatro medicamentos que aumentam a sobrevida são quatro maneiras de cortar essa alça: o IECA ou o BRA bloqueiam a angiotensina II; o antagonista do receptor mineralocorticoide bloqueia a aldosterona; o betabloqueador desliga o simpático; o inibidor de SGLT2 age por uma via em parte diferente, natriurética, hemodinâmica e metabólica, mas com o mesmo efeito de desfecho. O diurético não está na lista, e não é por descuido: ele retira o sódio e a água que a alça reteve, o que alivia o sintoma de forma espetacular, sem tocar em nada do que produz o sintoma. Aliviar congestão não é tratar insuficiência cardíaca; é limpar o chão sem fechar a torneira.
Daí nasce a dissociação que organiza o capítulo inteiro. O que melhora o sintoma amanhã não muda a sobrevida. O que muda a sobrevida quase não melhora o sintoma no dia seguinte, e no começo piora: o betabloqueador reduz a contratilidade antes de melhorar o remodelamento, e o paciente pode se sentir pior por algumas semanas. O ganho vem do remodelamento reverso, que leva semanas a meses, e em alguns pacientes só aparece depois de doze meses de uso. Quem julga o tratamento pelo que o paciente sente na semana seguinte suspende exatamente a droga que estava funcionando.
Três consequências do mecanismo explicam as travas que aparecem no meio da titulação. A primeira é renal: a angiotensina II contrai preferencialmente a arteríola eferente do glomérulo, e é essa constrição que sustenta a pressão de filtração num rim mal perfundido. Bloqueá-la faz a filtração cair um pouco de propósito, e a creatinina sobe um degrau e para — efeito farmacológico esperado, não lesão renal, já que o mesmo bloqueio que reduz a filtração hoje preserva o rim em cinco anos. A segunda é o potássio: menos angiotensina II significa menos aldosterona e menos excreção de potássio, e a espironolactona bloqueia o mesmo receptor diretamente. Quem soma as duas classes, como se deve, mede o potássio, e não evita a combinação. A terceira é a pressão: bloquear o eixo derruba a pressão arterial, e pressão baixa aqui não significa o que significa em outras situações — se o paciente está lúcido, urinando e sem tontura, aquela é a pressão dele sob o tratamento correto.
Por fim, o mecanismo explica por que a dose importa. O benefício de cada uma dessas drogas foi medido com o eixo bloqueado na intensidade dos ensaios clínicos, e a intensidade do bloqueio depende da dose. Metade da dose é aproximadamente metade do bloqueio, com todo o inconveniente do comprimido e uma fração do ganho. O paciente que toma enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas há dois anos não está em tratamento otimizado com um efeito colateral pequeno: está em um oitavo da dose que foi testada.

Como se apresenta de verdade
A apresentação clássica existe e é a maioria: dispneia aos esforços que vem piorando ao longo de semanas ou meses, ortopneia contada em número de travesseiros, dispneia paroxística noturna, edema de membros inferiores que aumenta ao longo do dia e ganho de peso. Nela o diagnóstico se faz na porta e o único risco é demorar a medir a fração de ejeção. O que interessa aqui é o entorno dessa forma — as apresentações em que a insuficiência cardíaca chega com outro nome e sai com outro tratamento.
Os sinais que valem muito e aparecem pouco
Turgência venosa jugular, refluxo hepatojugular e terceira bulha indicam elevada suspeita de insuficiência cardíaca, e habitualmente não estão presentes na maioria dos pacientes que têm a doença. A frase parece contraditória e é a chave do exame físico aqui: são achados de alta especificidade e baixa sensibilidade. Encontrá-los praticamente fecha o caso; não encontrá-los não abre nada.
No paciente crônico o problema é maior, porque os sinais de congestão se apagam: o sistema linfático se adapta a pressões de enchimento cronicamente elevadas e drena mais, de modo que o paciente pode ter pressão alta dentro das câmaras e ausculta limpa. Estertores basais, que todo mundo procura, são pouco sensíveis e pouco específicos aqui — a ausculta limpa de Nivaldo no quarto dia não significa que ele está seco. O que resiste melhor é a ortopneia, e o que responde de forma objetiva é a balança: quem dorme com dois travesseiros e ganhou dois quilos em três dias está congestionando, com ou sem estertor. É por isso que o peso diário, e não a ausculta, é o parâmetro que se entrega ao paciente na alta.
O paciente que parece bem porque parou de andar
A classificação funcional da New York Heart Association gradua a doença em quatro classes pelo esforço que produz sintoma: sem limitação (I), limitação leve com sintomas às atividades habituais (II), limitação importante com sintomas a esforços menores que os habituais (III) e sintomas em repouso (IV). É subjetiva e é a variável que mais decide conduta, inclusive administrativamente: no SUS, é a classe funcional que define quem fica na Atenção Primária, quem vai ao ambulatório especializado e quem pode receber sacubitril valsartana.
A armadilha é dupla. Não é incomum que pacientes em classe II se encontrem autolimitados, ou seja, com a classe subestimada por não se submeterem a esforços no dia a dia: o aposentado que não sobe escada há três anos dirá que não sente nada, porque de fato não sente. A pergunta que resolve isso não é se ele tem falta de ar, e sim o que ele deixou de fazer no último ano e por quê. Do outro lado, a classe é atribuída por quem escreve, e um mesmo paciente vira II na mão de um plantonista e III na de outro — o que muda a elegibilidade a um medicamento inteiro.
Registre sempre com um exemplo concreto. Sobe um lance de escada e para no meio, com falta de ar, é uma frase que qualquer médico depois de você lê da mesma forma. Classe funcional III não é.
As apresentações que atrasam o diagnóstico
No idoso, a insuficiência cardíaca costuma aparecer sem dispneia: fadiga que se atribui à idade, perda de apetite e emagrecimento que se investiga como neoplasia, confusão e quedas, ou simplesmente uma pessoa que passou a ficar sentada. No obeso, a dispneia é atribuída ao peso e o exame físico rende menos, porque jugular e edema são mais difíceis de avaliar. No pneumopata, já existe um diagnóstico que explica a falta de ar, e o segundo demora anos.
Duas apresentações têm consequência imediata. A primeira é a disfunção ventricular assintomática: um ecocardiograma pedido por outra razão mostra fração de ejeção de 34% em alguém que se diz bem. Esse paciente recebe IECA e betabloqueador desde já, com indicação classe I, sintomático ou não; esperar o sintoma é esperar o remodelamento. A segunda é a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, clinicamente idêntica e com fração acima de 50% no ecocardiograma. Não é variação de grau: é outra doença, com outro tratamento farmacológico, e o paciente é encaminhado à atenção especializada para avaliação e tratamento inicial. Sem saber a fração de ejeção, você não sabe qual das duas está tratando — e a maior parte deste capítulo não se aplica à segunda.
Duas etiologias merecem ser lembradas pelo perfil brasileiro. A chagásica respondeu por 10,8% dos pacientes internados no registro nacional, acomete gente mais jovem, cursa com distúrbios de condução e arritmia ventricular e tem prognóstico pior. A isquêmica é a mais frequente, com 30,1%, e é a única cuja causa pode ter tratamento próprio e urgente — quando a insuficiência cardíaca aparece junto com dor torácica e supradesnivelamento de ST, o capítulo que resolve o momento é o da síndrome coronariana aguda com supradesnível de ST, e não este.

Como fechar o diagnóstico
A investigação da insuficiência cardíaca crônica responde a três perguntas, nesta ordem, e a segunda é a que mais muda o que você vai prescrever. É insuficiência cardíaca? Qual é a fração de ejeção? E o que causou isso, entre as causas que têm tratamento próprio?
A primeira pergunta se responde à beira do leito na maioria das vezes; a segunda exige um ecocardiograma e não tem substituto; a terceira exige que alguém se lembre de fazê-la, porque o paciente melhora com diurético de qualquer jeito e o time inteiro tende a parar por ali.
A probabilidade clínica decide qual exame vem primeiro
A insuficiência cardíaca é diagnóstico clínico, e o exame que se pede depende de quão convencido você já está. Escores estruturados ajudam quem tem menos experiência a colocar isso em número: pelos critérios de Boston, 4 pontos ou menos indicam diagnóstico improvável, 5 a 7 pontos diagnóstico possível e 8 a 12 diagnóstico definitivo. Os critérios de Framingham fecham o diagnóstico com dois critérios maiores, ou um maior e dois menores.
Em probabilidade clínica baixa, o exame de escolha é o peptídeo natriurético, e a razão é o valor preditivo negativo: BNP abaixo de 35 pg/mL ou NT-proBNP abaixo de 125 pg/mL torna o diagnóstico improvável o bastante para você investigar outra coisa. Os dois são intercambiáveis. Em probabilidade moderada, a investigação inicial pode ser o peptídeo ou o ecocardiograma, conforme a disponibilidade. Em probabilidade alta, não se preconizam testes diagnósticos adicionais, e o peptídeo é exame desperdiçado: resultado negativo não derruba a hipótese.
O peptídeo se eleva em muitas outras coisas — síndrome coronariana aguda, embolia pulmonar, miocardite, fibrilação atrial, hipertrofia ventricular, disfunção renal ou hepática moderada a grave, sepse, anemia, acidente vascular cerebral — e por isso um resultado positivo pede confirmação com ecocardiografia. Ele exclui bem e confirma mal.
Uma nota que vale ouro na enfermaria: em probabilidade alta, o tratamento inicial, inclusive o diurético, começa antes do resultado do ecocardiograma. Esperar a fila do eco para dar furosemida ao congesto é confundir o exame que trata com o exame que classifica.
O ecocardiograma é o exame que decide o capítulo
O ecocardiograma transtorácico com Doppler é o exame de imagem preferencial na avaliação inicial e permite estimar a fração de ejeção do ventrículo esquerdo, idealmente pelo método de Simpson quando aplicável. Na presença da síndrome de insuficiência cardíaca, FE ≤40% define ICFEr; 41–49%, fração levemente reduzida; e ≥50%, preservada. O tratamento combina fenótipo, sintomas, comorbidades e elegibilidade individual. A terapia fundamental da ICFEr reúne quatro classes; isso não significa que todas elas sejam exclusivas desse grupo ou que os critérios administrativos do PCDT definam a classificação clínica.
O ecocardiograma não é exame de rotina no paciente estável. Ele se repete diante de mudança significativa do estado clínico, descompensação ou progressão de sintomas — e, obrigatoriamente, 3 a 6 meses após o tratamento com as medicações que modificam o prognóstico, para avaliar o remodelamento reverso. Esse segundo exame não é acadêmico: é ele que separa quem recuperou função de quem permanece com fração de ejeção de 35% ou menos e passa a ter indicação de cardiodesfibrilador ou de terapia de ressincronização.
Além da fração, o exame responde à terceira pergunta em boa parte dos casos: alteração segmentar da contração aponta etiologia isquêmica; valva doente aponta valvopatia; hipertrofia importante, sobrecarga pressórica; aneurisma de ponta com disfunção regional em paciente com bloqueio, doença de Chagas. Peça o exame querendo saber a etiologia, e não apenas o número.

O painel de exames, e o que cada um responde
Na avaliação inicial entram, com recomendação classe I: hemograma, eletrólitos séricos, função renal, glicemia de jejum, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função tireoidiana e função hepática; eletrocardiograma de 12 derivações em repouso; e radiografia simples de tórax. Com recomendação classe IIa entra a cinética de ferro — ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina —, porque deficiência de ferro na insuficiência cardíaca tem tratamento próprio mesmo sem anemia, e é achado frequente que ninguém procura.
Cada um responde a uma pergunta diferente. A função renal e o potássio não são exames de diagnóstico: são a linha de base contra a qual você vai comparar a creatinina que subir daqui a duas semanas, e sem eles a titulação fica cega. A função tireoidiana procura causa reversível; o hemograma, anemia, que descompensa e piora sintoma. A radiografia procura cardiomegalia e congestão, com sensibilidade limitada — disfunção sistólica significativa pode ocorrer com área cardíaca normal —, e seu maior rendimento é achar a causa pulmonar da dispneia que você atribuiu ao coração.
A leitura sistemática do traçado é assunto do capítulo de eletrocardiograma na prática. Aqui interessam três coisas: a largura e a morfologia do QRS, porque bloqueio completo de ramo esquerdo com QRS de 150 ms ou mais, em paciente sintomático com fração de ejeção de 35% ou menos apesar de terapia otimizada, é indicação classe I de ressincronização; a fibrilação atrial, que muda o controle de frequência e abre a discussão da anticoagulação; e a documentação de arritmia ventricular ou bloqueio, que pesa na avaliação de dispositivo e é particularmente frequente na cardiopatia chagásica.
A pergunta que o interno esquece: por que este coração falhou
O paciente descongesta com furosemida qualquer que seja a causa, e é por isso que a investigação etiológica morre na enfermaria. Procure de propósito o que tem tratamento próprio: doença coronariana, valvopatia com indicação cirúrgica, doença de Chagas, álcool, hipertensão não controlada, taquiarritmia sustentada que produziu taquicardiomiopatia, disfunção tireoidiana, cardiotoxicidade por quimioterápico, cardiomiopatia periparto. Algumas revertem a disfunção quando tratadas, e nenhuma se revela sozinha.
Vale a mesma disciplina para o que descompensou este paciente agora, porque o fator precipitante é o que mais prevê se ele volta — e a lista brasileira começa em má aderência ao tratamento. Some a ela os medicamentos que retêm sal ou deprimem o miocárdio, de uso banal e contraindicados na insuficiência cardíaca com recomendação classe III: anti-inflamatórios não esteroides, glitazonas, verapamil, diltiazem, nifedipino, propafenona, antidepressivos tricíclicos e quimioterápicos cardiotóxicos. Perguntar o que ele tomou para a dor no joelho é investigação etiológica.
Quando o fator precipitante é a aderência, o achado não é repreensão: é o diagnóstico. Descubra qual das quatro possibilidades está em jogo — o paciente não entendeu, não conseguiu comprar, não conseguiu retirar na farmácia, ou sentiu efeito adverso e parou por conta própria —, porque cada uma tem conduta diferente e nenhuma delas é a frase que se costuma escrever no prontuário.
Por fim, o que existe no SUS. Ecocardiograma e peptídeos natriuréticos estão disponíveis pelo sistema e são pedidos pela Atenção Primária; o gargalo é fila, não incorporação. O peptídeo tem ainda função administrativa: é um dos exames exigidos para autorizar sacubitril valsartana pelo Componente Especializado. Se o seu paciente for candidato, pedir BNP ou NT-proBNP ainda na internação economiza meses.
Duas perguntas diante de qualquer receita de insuficiência cardíaca: quais classes faltam, e qual está subdosada
Use as quatro classes como um plano de cuidado que precisa ser iniciado, tolerado e acompanhado. Em cada retorno, relacione sintomas, congestão, pressão, frequência, potássio, função renal e acesso aos medicamentos. A dose-alvo orienta a titulação; a maior dose tolerada exige uma justificativa clínica documentada, e não apenas a repetição da receita anterior. A insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida é a doença crônica em que a conferência de uma receita rende mais tempo de vida por minuto investido. São quatro classes que reduzem mortalidade, cada uma com dose inicial, passo de titulação e dose-alvo definidos, e um quinto medicamento — o diurético — que trata o sintoma e não entra nessa conta. Diante da prescrição, corra a lista de classes primeiro e as doses depois: falta uma classe inteira é um erro maior do que estar em metade da dose.
- 1Confirme a fração de ejeção, com número e data. Na classificação clínica, FE ≤40% corresponde à ICFEr; de 41% a 49%, à fração levemente reduzida; ≥50%, à preservada, sempre no contexto da síndrome de insuficiência cardíaca. Critérios específicos de acesso a medicamentos pelo PCDT devem ser conferidos separadamente. Sem eco recente, peça o exame, sem adiar o tratamento da congestão.
- 2Corra as quatro classes na receita, em voz alta: IECA ou BRA (ou sacubitril valsartana no lugar deles); betabloqueador da insuficiência cardíaca, que no SUS é carvedilol ou succinato de metoprolol; espironolactona; dapagliflozina. Cada classe ausente é uma linha nova na prescrição, e a decisão de não incluir precisa de motivo escrito.
- 3Confira a dose de cada uma contra a dose-alvo da tabela e anote em que degrau da escada ela está. Dose inicial há mais de dois meses sem motivo registrado é achado clínico, e vai no prontuário como tal.
- 4Antes de subir qualquer dose, verifique as três travas: pressão arterial com o paciente sintomático ou não, frequência cardíaca, e potássio e creatinina recentes. Cada trava tem régua própria — nenhuma delas, por si só, autoriza suspender uma classe inteira.
- 5Comece o betabloqueador apenas com o paciente compensado e sem congestão. As demais classes não esperam a compensação completa; o betabloqueador, sim.
- 6Marque o que vem depois com data no papel: potássio e creatinina em 1 a 2 semanas após iniciar ou aumentar IECA, BRA ou espironolactona; retorno em 7 a 14 dias após a alta; reavaliação dos sintomas 4 semanas depois de otimizar a dose do último fármaco; ecocardiograma em 3 a 6 meses de terapia otimizada, para decidir dispositivo.
- 7Ensine o peso diário e o plano de ação antes de o paciente sair do leito, e escreva o plano na receita, não só no prontuário.
Betabloqueador durante a internação — 57,1%
Pouco mais da metade dos 1.263 pacientes internados por descompensação no registro brasileiro estava recebendo betabloqueador. É a classe que mais reduz morte súbita nesta doença, e quase metade dos internados não a tinha na prescrição.
IECA ou BRA durante a internação — 42,2%
Menos de metade estava com bloqueio do sistema renina-angiotensina, no mesmo registro em que 89,8% recebiam diurético de alça. Quase todo mundo recebia o que alivia o sintoma; a minoria recebia o que muda a sobrevida.
Morte durante essa internação — 12,6%
Cerca de um em cada oito internados morreu na internação, contra aproximadamente 3,5% no registro norte-americano ADHERE e 5,5% no europeu. A diferença é grande demais para caber só na gravidade.
| Classe e fármaco no SUS | Dose inicial | Passo e intervalo | Dose-alvo | Quantos comprimidos, na apresentação do SUS |
|---|---|---|---|---|
| IECA — maleato de enalapril (comprimidos de 5, 10 e 20 mg) | 2,5 mg de 12 em 12 horas | Dobrar a cada 2 semanas, com potássio e creatinina antes de cada aumento | 10 a 20 mg de 12 em 12 horas | Início: meio comprimido de 5 mg, duas vezes ao dia. Alvo: 1 comprimido de 20 mg, duas vezes ao dia. Três duplicações separam um do outro — cerca de 6 semanas |
| IECA — captopril (comprimido de 25 mg) | 6,25 mg de 8 em 8 horas | Dobrar a cada 2 semanas | 50 mg de 8 em 8 horas | Início: um quarto de comprimido, três vezes ao dia. Alvo: 2 comprimidos, três vezes ao dia, ou 6 comprimidos por dia, longe das refeições. Onde houver enalapril, prefira enalapril — duas tomadas em vez de três |
| BRA — losartana potássica (comprimido de 50 mg), só se houver intolerância ao IECA por tosse ou angioedema | 25 mg por dia | Dobrar a cada 2 a 4 semanas | 150 mg por dia, em dose única ou dividida em duas tomadas | Início: meio comprimido por dia. Alvo: 3 comprimidos por dia. Não se associa BRA a IECA |
| Betabloqueador — carvedilol (comprimidos de 3,125, 6,25, 12,5 e 25 mg) | 3,125 mg de 12 em 12 horas, com o paciente compensado | Dobrar a cada 2 semanas, vigiando bradicardia e piora dos sintomas | 25 mg de 12 em 12 horas | Início: 1 comprimido de 3,125 mg, duas vezes ao dia. Alvo: 1 comprimido de 25 mg, duas vezes ao dia. Três duplicações — no mínimo 6 semanas |
| Betabloqueador — succinato de metoprolol de liberação prolongada (comprimidos de 25, 50 e 100 mg) | 12,5 a 25 mg uma vez ao dia, com o paciente compensado | Dobrar a cada 2 semanas | 200 mg uma vez ao dia | Início: meio comprimido de 25 mg. Alvo: 2 comprimidos de 100 mg. De 12,5 mg a 200 mg são quatro duplicações — no mínimo 8 semanas. Comprimido de liberação prolongada não se tritura |
| Antagonista da aldosterona — espironolactona (comprimidos de 25 e 100 mg) | 12,5 a 25 mg uma vez ao dia | Aumentar após checar potássio, com dosagem na 1ª semana, no 1º mês e a cada 1 a 4 meses | 25 a 50 mg uma vez ao dia | Início: meio comprimido a 1 comprimido de 25 mg. Alvo: 1 a 2 comprimidos de 25 mg. É a classe com o menor caminho até o alvo — e a mais esquecida |
| Inibidor de SGLT2 — dapagliflozina (comprimido de 10 mg) | 10 mg uma vez ao dia | Sem titulação | 10 mg uma vez ao dia | 1 comprimido por dia, do primeiro ao último. Dose inicial e dose-alvo são a mesma — é a única das quatro classes que não precisa ser subida |
| Sacubitril valsartana (comprimidos de 50, 100 e 200 mg), em substituição ao IECA ou BRA | 50 mg de 12 em 12 horas; 100 mg de 12 em 12 horas se vinha de dose alta de IECA ou BRA e a sistólica está acima de 100 mmHg | Aumentar a cada 2 a 4 semanas, monitorando função renal, eletrólitos e hipotensão | 200 mg de 12 em 12 horas | Alvo: 1 comprimido de 200 mg, duas vezes ao dia. Jamais junto com IECA ou BRA, e com intervalo mínimo de 36 horas depois da última dose do IECA |
| Diurético de alça — furosemida (comprimido de 40 mg), apenas se houver congestão | 20 a 40 mg uma vez ao dia | Ajustar pelo peso diário e pelos sinais de congestão, não por rotina | 40 a 240 mg por dia, na menor dose que mantenha o paciente seco | Não tem dose-alvo a perseguir: tem dose mínima eficaz. Não reduz mortalidade e não substitui nenhuma das quatro classes |
O que trava a titulação, e a régua de cada trava
| O achado | O que NÃO é motivo para parar | A conduta |
|---|---|---|
| Creatinina subiu depois de iniciar ou aumentar IECA, BRA ou sacubitril valsartana | Aumento de até 50% da creatinina basal, ou valor absoluto de até 3 mg/dL, ou clearance estimado acima de 25 mL/min por m², não exige reduzir a dose. A elevação costuma ser inferior a 10% a 20% e não progressiva | Manter a dose e vigiar de perto função renal e potássio. Considerar suspensão apenas se a creatinina passar de 3,5 mg/dL ou o clearance cair abaixo de 20 mL/min por m². Revisar antes o diurético: azotemia pré-renal por depleção é causa frequente e se trata reduzindo a furosemida, não o IECA |
| Potássio elevado | Potássio até 5,0 mmol/L não impede nada; entre 5,0 e 5,5 mmol/L pede cautela e nova dosagem, não suspensão automática | Acima de 5,5 mEq/L, considerar suspender IECA ou BRA. Para a espironolactona, evitar o uso com potássio persistentemente acima de 5,9 mmol/L ou creatinina acima de 2,5 mg/dL, e reduzir a dose para 12,5 mg por dia ou em dias alternados diante de potássio alto. Rever suplemento de potássio, sal light e anti-inflamatório antes de mexer nas classes |
| Pressão arterial baixa | Pressão baixa em paciente assintomático é tolerada e não deve motivar redução de dose nem interrupção do betabloqueador | Se houver tontura ou hipotensão postural, redistribua os horários das doses antes de reduzi-las, revise o diurético e retire outras drogas hipotensoras sem benefício de sobrevida. Só depois disso considere reduzir a classe que muda mortalidade |
| Frequência cardíaca baixa | Frequência baixa em paciente assintomático é tolerada, pela mesma regra | Diante de bloqueio atrioventricular, reduza ou suspenda primeiro os outros fármacos que agem no nó — digoxina e amiodarona — antes de mexer no betabloqueador |
| O paciente piorou funcionalmente logo depois de iniciar o betabloqueador | Piora funcional discreta nas fases iniciais é esperada, e o paciente deve ser orientado sobre isso de antemão | Ajustar diurético e vasodilatador primeiro; só depois considerar reduzir ou suspender o betabloqueador. Iniciar sempre com o paciente compensado, nunca congesto |
| Tosse seca com IECA | Tosse não é motivo para abandonar o bloqueio do eixo | Trocar por losartana, que é o BRA disponível no SUS. Atenção: quem foi intolerante ao IECA por hipercalemia ou perda de função renal não é candidato ao BRA — nesses, a alternativa é hidralazina com nitrato |
| Ginecomastia ou mastalgia com espironolactona | É efeito de classe conhecido, não sinal de dano | Reduzir a dose e reavaliar; se persistir e for incapacitante, suspender e registrar o motivo. A classe não tem substituto disponível no SUS |
Onde cada medicamento mora no SUS — e o que isso muda na alta
| Medicamento | Componente e grupo | O que o paciente precisa fazer para conseguir |
|---|---|---|
| Captopril, enalapril, losartana, carvedilol, succinato de metoprolol, espironolactona, furosemida, hidroclorotiazida, digoxina, hidralazina, mononitrato e dinitrato de isossorbida | Componente Básico da Assistência Farmacêutica | Retira na farmácia da unidade básica, com a receita. Sem processo, sem laudo, sem prazo. São doze dos catorze medicamentos citados neste capítulo |
| Dapagliflozina 10 mg | Componente Especializado, grupo de financiamento 2, tendo o PCDT da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida como documento norteador | Processo administrativo. O paciente sai da consulta com o Laudo para Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamentos do Componente Especializado (LME) preenchido, a prescrição e os documentos exigidos pelo PCDT, além de cópia do Cartão Nacional de Saúde, documento de identidade e comprovante de residência. Os estados exigem ainda o ecocardiograma e o Termo de Esclarecimento e Responsabilidade assinado |
| Sacubitril valsartana 50, 100 e 200 mg | Componente Especializado, grupo de financiamento 1B | Mesmo processo, com exigências clínicas adicionais do PCDT — idade abaixo de 75 anos, classe funcional NYHA II, fração de ejeção reduzida, BNP acima de 150 pg/mL ou NT-proBNP acima de 600 pg/mL, tratamento otimizado e sintomas — e, nos estados, exames de ecocardiograma, ureia, creatinina, potássio e peptídeo natriurético |
Critérios de Framingham para o diagnóstico de insuficiência cardíaca
| Critérios maiores | Critérios menores |
|---|---|
| Dispneia paroxística noturna | Edema de tornozelos bilateral |
| Turgência jugular | Tosse noturna |
| Cardiomegalia à radiografia de tórax | Dispneia a esforços ordinários |
| Edema agudo de pulmão | Hepatomegalia |
| Terceira bulha (ritmo de galope) | Derrame pleural |
| Aumento da pressão venosa central acima de 16 cm H2O no átrio direito | Diminuição da capacidade funcional em um terço da máxima registrada previamente |
| Refluxo hepatojugular | Taquicardia acima de 120 bpm |
| Perda de peso acima de 4,5 kg em 5 dias em resposta ao tratamento | O diagnóstico exige 2 critérios maiores, ou 1 maior e 2 menores |
O texto do protocolo nacional traz o esquema da digoxina como doses baixas de 0,125 pg/mL em dias alternados. A unidade está trocada: picograma por mililitro é unidade de concentração sérica, não de comprimido. O Quadro 5 do mesmo documento traz a posologia correta — 0,125 mg em dias alternados até 0,25 mg uma vez ao dia, com o comprimido disponível de 0,25 mg.
O mesmo protocolo define a fração de ejeção exigida para sacubitril valsartana como menor ou igual a 35% na seção de critérios de inclusão, e como menor que 35% na seção do medicamento e na nota do fluxograma. O paciente com fração de exatamente 35% fica de fora por uma leitura e dentro pela outra. Como o ensaio que sustenta a droga incluiu pacientes com fração de até 35%, este capítulo adota o corte inclusivo, e recomenda anexar o laudo do ecocardiograma ao processo — a decisão administrativa é de quem autoriza.
A dose-alvo do carvedilol diverge entre os dois documentos brasileiros de referência, e a diferença é de duas vezes: o protocolo nacional traz 25 mg de 12 em 12 horas; a diretriz de sociedade traz 50 mg de 12 em 12 horas. Os ensaios que sustentam a droga titularam até 25 mg duas vezes ao dia, reservando 50 mg duas vezes ao dia a pacientes acima de 85 kg — qualificação que a tabela da diretriz não reproduz. Este capítulo adota 25 mg de 12 em 12 horas como alvo, com 50 mg de 12 em 12 horas apenas acima de 85 kg, que é também o que a apresentação do SUS torna praticável: o comprimido maior é de 25 mg.
A mesma tabela agrupa, na linha dos nitratos, dinitrato e mononitrato de isossorbida sob uma única faixa de 10 a 20 mg três vezes ao dia até 40 mg três vezes ao dia. O dinitrato disponível no SUS é comprimido sublingual de 5 mg, apresentação de uso agudo. Na prática, o nitrato oral da associação com hidralazina é o mononitrato, em comprimidos de 20 e 40 mg.
Empagliflozina, bisoprolol e ivabradina aparecem nas diretrizes de sociedade e não constam da relação nacional de medicamentos essenciais vigente. Isso não muda a régua clínica — muda a receita. Diante de indicação de inibidor de SGLT2, o fármaco a prescrever pelo SUS é a dapagliflozina; de betabloqueador, carvedilol ou succinato de metoprolol. Propranolol e atenolol não são intercambiáveis com estes: não foram adequadamente avaliados na insuficiência cardíaca e seu uso não é preconizado.
A conduta, hora a hora
O que segue é a linha do tempo de Nivaldo, contada em semanas em vez de minutos: 63 anos, 71 kg, fração de ejeção de 28% num ecocardiograma de sete meses atrás, quarto dia de internação por descompensação, agora compensado, sem dispneia, com ausculta limpa e edema resolvido. Pressão 118 por 74 mmHg, frequência 78 bpm, creatinina 1,2 mg/dL, potássio 4,3 mmol/L. A prescrição na mão tem enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas e carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas, ambos na dose de partida há sete meses.
O manejo da fase aguda desta internação — o diurético endovenoso, o suporte ventilatório, a decisão de terapia intensiva — pertence aos capítulos de insuficiência cardíaca aguda descompensada e de edema agudo de pulmão. O que se descreve aqui começa no dia em que o paciente parou de estar agudo, e é o pedaço do tratamento que produz sobrevida.
Dia 0 do trabalho crônico — a conferência da receita
O paciente está compensado: é agora que o tratamento que muda mortalidade entra ou é subido. Corra as quatro classes com a prescrição na mão e escreva o resultado no prontuário, com a dose de cada uma e o degrau em que ela está. No caso de Nivaldo faltam duas classes inteiras — espironolactona e dapagliflozina — e as duas presentes estão na dose de partida.
Prescrição- Confirmar insuficiência cardíaca e FE ≤40% para a classificação clínica de ICFEr. Verificar individualmente indicação, contraindicações e critérios do PCDT de cada medicamento; a definição clínica não equivale a autorização automática para toda prescrição. Sem eco recente, solicitar, sem esperar por ele para tratar a congestão.
- Maleato de enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas até 10 a 20 mg de 12 em 12 horas; ou captopril 6,25 mg de 8 em 8 horas até 50 mg de 8 em 8 horas. Losartana 25 mg até 150 mg por dia apenas em intolerância por tosse ou angioedema, e nunca associada ao IECA (PCDT, Quadro 5 e item 6.2.3; Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, SBC, 2018, Tabela 7.1)
- Carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas até 25 mg de 12 em 12 horas, ou succinato de metoprolol de liberação prolongada 12,5 a 25 mg por dia até 200 mg por dia, iniciados apenas com o paciente compensado e não congesto (PCDT, itens 6.2.2 e 6.4)
- Espironolactona 12,5 a 25 mg por dia até 25 a 50 mg por dia, indicada em classe funcional II a IV associada a IECA ou BRA e betabloqueador nas maiores doses toleradas (PCDT, item 6.2.4)
- Dapagliflozina 10 mg uma vez ao dia, sem titulação, associada à terapia padrão em adulto com classe funcional NYHA II a IV, fração de ejeção abaixo de 40% e sintomas (PCDT, item 6.2.6; Atualização de Tópicos Emergentes, SBC, 2021, Tabela 7.3, classe I nível A)
- Furosemida 20 a 40 mg por dia, ajustada pela congestão e sem indicação em paciente sem sinal ou sintoma congestivo. Não substitui nenhuma das quatro classes (PCDT, item 6.2.5)
- Retirar da prescrição o que retém sal ou deprime o miocárdio: anti-inflamatórios não esteroides, glitazonas, verapamil, diltiazem, nifedipino, propafenona, tricíclicos (Diretriz da SBC, 2018, recomendação classe III nível B)
Dias seguintes, ainda internado — o que se inicia antes da alta
Internação é a melhor janela de titulação que este paciente vai ter no ano: ele está sob observação, com laboratório disponível e ninguém precisa marcar consulta para reavaliá-lo. Iniciar as classes que faltam agora, e dar o primeiro passo de dose nas que já existem, é o que separa uma internação que resolveu o episódio de uma internação que mudou o prognóstico.
Prescrição- Iniciar espironolactona 25 mg por dia com potássio de 4,3 mmol/L e creatinina de 1,2 mg/dL, ambos dentro da faixa que permite. Dosar potássio na primeira semana de uso (PCDT, item 6.2.4)
- Iniciar dapagliflozina 10 mg por dia, já na dose final. Orientar higiene genital e sinais de infecção urinária e genital, que são os eventos adversos mais comuns junto com depleção de volume (PCDT, itens 6.2.6 e Termo de Esclarecimento e Responsabilidade)
- Subir o enalapril de 2,5 mg para 5 mg de 12 em 12 horas, primeiro dos três degraus até o alvo (PCDT, Quadro 5)
- Subir o carvedilol de 3,125 mg para 6,25 mg de 12 em 12 horas, com o paciente já sem congestão e com frequência de 78 bpm (PCDT, item 6.2.2; SBC, 2018, item 7.2)
- Converter a furosemida da via endovenosa para a via oral e reduzir à menor dose que mantenha o paciente seco. Estabilidade clínica e hemodinâmica por pelo menos 48 horas e medicações em regime oral por pelo menos 24 horas são pré-requisitos da alta (SBC, 2018, Figura 3.1)
- Solicitar BNP ou NT-proBNP ainda na internação se o paciente puder vir a ser candidato a sacubitril valsartana — o exame é exigido para autorizar a droga pelo Componente Especializado (PCDT, item 4; orientações de acesso ao CEAF)
- Solicitar cinética de ferro: ferritina abaixo de 100 ng/mL, ou entre 100 e 299 ng/mL com saturação de transferrina abaixo de 20%, indica reposição intravenosa de carboximaltose férrica mesmo sem anemia (Atualização de Tópicos Emergentes, SBC, 2021, Tabela 7.6, classe IIa)
O dia da alta — a receita, o peso e a data
A alta da insuficiência cardíaca é um procedimento, e tem checklist. Se uma linha só puder ser cumprida, que seja a última: a data do retorno. Titulação sem retorno marcado não acontece, e o paciente que sai com a receita perfeita e sem data volta com a mesma receita seis meses depois.
Prescrição- Critérios de alta: fator precipitante resolvido, volemia ajustada, estabilidade clínica e hemodinâmica há pelo menos 48 horas, medicações orais há pelo menos 24 horas, medicações modificadoras da doença iniciadas e otimizadas, controle satisfatório de frequência, pressão, função renal e eletrólitos (Diretriz da SBC, 2018, Figura 3.1)
- Retorno ambulatorial em 7 a 14 dias, com data, serviço e horário escritos na receita — o primeiro acompanhamento em até 7 dias após a alta se associa à redução das readmissões em 30 dias (SBC, 2018, itens 3.3.1 e 3.3.2)
- Receita com as quatro classes, a dose atual de cada uma e, ao lado, a dose-alvo — para que o médico do retorno saiba em que degrau parar de subir
- Peso diário em jejum, na mesma balança e com a mesma roupa, anotado num caderno, com plano de ação escrito para ganho de 2 kg em 3 dias ou piora da dispneia
- Dieta normossódica, com cerca de 7 g de sal por dia: restrição abaixo de 5 g por dia mostrou piores resultados. Restrição hídrica de 1,5 a 2 litros por dia apenas em congestão persistente, classe funcional III ou IV, ou hiponatremia (PCDT, item 6.1.2)
- Vacinação anual contra influenza, mais pneumocócica e covid-19 (PCDT, item 6.1.4)
- Exercício aeróbico progressivo, com alvo de 25 a 60 minutos por dia pelo menos 3 vezes por semana, contraindicado em classe funcional IV, arritmia não controlada, doença valvar grave e descompensação (PCDT, item 6.1.1)
- Abrir o processo do Componente Especializado para a dapagliflozina antes da alta: LME preenchido, prescrição, Termo de Esclarecimento e Responsabilidade assinado, laudo do ecocardiograma e cópias de Cartão Nacional de Saúde, identidade e comprovante de residência (Ministério da Saúde, orientações do CEAF)
- Orientar por escrito que anti-inflamatórios comprados na farmácia descompensam a doença (SBC, 2018, Figura 3.1)
Semana 1 a 2 — o primeiro retorno, que é de exame e não de conversa
O retorno precoce existe por dois motivos: conferir se o paciente conseguiu comprar e tomar tudo o que foi prescrito, e medir o que a nova prescrição fez com o rim e com o potássio. Sem esses dois números, a titulação para.
Prescrição- Dosar potássio e creatinina 1 a 2 semanas após iniciar ou aumentar IECA, BRA, sacubitril valsartana ou espironolactona, e sempre após aumento de dose (PCDT, itens 6.2.1 e 6.2.4)
- Reavaliar creatinina e potássio após introdução ou aumento do bloqueio do sistema renina-angiotensina. Uma elevação inicial limitada pode ser hemodinâmica e não exige suspensão automática, mas a interpretação depende da variação relativa, tendência, volemia, pressão, potássio, interações e doença intercorrente. Os limites de tolerância do documento de 2018 não autorizam ignorar uma piora progressiva ou uma intercorrência. Discutir ajustes e intervalo de nova coleta com a equipe; ver também ajuste de dose na disfunção renal e hepática.
- Conferir o caderno do peso e a caixa de comprimidos, uma a uma. Perguntar o que ele não conseguiu retirar na farmácia — é informação clínica, não administrativa
- Subir uma dose por consulta, sem congestão e sem trava ativa: enalapril de 5 para 10 mg de 12 em 12 horas; carvedilol de 6,25 para 12,5 mg de 12 em 12 horas (PCDT, Quadro 5)
Semana 2 a 12 — a titulação, que é o tratamento
Do início ao alvo, cada droga tem um número fixo de degraus, e ele é curto: enalapril, carvedilol e losartana têm três duplicações; succinato de metoprolol tem quatro; espironolactona tem uma, e a dapagliflozina, nenhuma. A dois passos por mês, o paciente chega ao alvo em seis a oito semanas. A dois passos por ano, ele nunca chega — e é isso que acontece.
Prescrição- Dobrar a dose a cada 2 semanas enquanto não houver trava, monitorando bradicardia e piora de sintomas no caso do betabloqueador (SBC, 2018, item 7.2)
- Diante de piora funcional com o betabloqueador, ajustar diurético e vasodilatador antes de considerar reduzir a dose; diante de bloqueio atrioventricular, reduzir ou suspender primeiro digoxina e amiodarona. Pressão e frequência baixas em paciente assintomático são toleradas e não motivam redução nem interrupção (SBC, 2018, item 7.2; PCDT, item 6.2.2)
- Reavaliar os sintomas 4 semanas após a otimização da dose do último fármaco — é esse o intervalo que define se o tratamento padrão foi suficiente (PCDT, Figura 2, nota b)
- Persistindo sintomas com a tríplice otimizada e o paciente cumprindo os critérios: acrescentar dapagliflozina, se ainda não estiver em uso; e, se cumprir também os critérios do sacubitril valsartana, substituir o IECA ou BRA pelo sacubitril/valsartana, sem associá-los entre si — iniciando com 50 mg de 12 em 12 horas, subindo a cada 2 a 4 semanas até 200 mg de 12 em 12 horas, e nunca antes de 36 horas da última dose do IECA (PCDT, itens 6.2.6 e 6.2.7)
- Encaminhar ao serviço especializado: classe funcional III ou IV apesar de tratamento otimizado; internação por insuficiência cardíaca no último ano; disfunção ventricular grave candidata a dispositivo ou transplante; fibrilação atrial; suspeita de fração de ejeção preservada; ou candidatura a sacubitril valsartana (PCDT, Quadro 6)
Mês 3 a 6 — o ecocardiograma que decide o que vem depois do comprimido
Depois de meses com as quatro classes nas maiores doses toleradas, o coração de alguns pacientes remodela ao contrário e a fração de ejeção sobe. Nos que continuam com 35% ou menos, abre-se a conversa de dispositivo — e ela só existe se alguém repetir o exame.
Prescrição- Repetir o ecocardiograma 3 a 6 meses após o tratamento com as medicações que modificam o prognóstico, para avaliar remodelamento reverso e estratificar o prognóstico (SBC, 2018, item 4.2.3)
- Terapia de ressincronização cardíaca com recomendação classe I nível A: sintomático, fração de ejeção de 35% ou menos, ritmo sinusal, morfologia de bloqueio completo de ramo esquerdo e QRS de 150 ms ou mais, apesar de terapêutica otimizada. Com QRS entre 130 e 150 ms, classe IIa (SBC, 2018, item 9.1)
- Cardiodesfibrilador implantável em prevenção primária, classe I nível A, na disfunção sistólica com fração de ejeção de 35% ou menos, classe funcional II a III, etiologia isquêmica, pelo menos 40 dias após o infarto e 90 dias após revascularização cirúrgica, com terapêutica otimizada e boa expectativa de vida em 1 ano. Na etiologia não isquêmica com mais de 6 meses de evolução, classe IIa (SBC, 2018, item 9.2)
- Persistindo sintomas em classe III ou IV apesar de tudo otimizado: associar hidralazina 12,5 a 25 mg de 8 em 8 horas até 50 a 100 mg de 8 em 8 horas com nitrato, recomendação especialmente respaldada na população negra; e considerar digoxina em dose baixa, 0,125 mg em dias alternados até 0,25 mg por dia, para reduzir sintomas e hospitalizações (PCDT, itens 6.2.8 e 6.2.9; SBC, 2018, itens 7.6 e 7.8)
Depois — o que se mantém, e por quanto tempo
Não há alta de tratamento na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. Melhora de sintoma e recuperação da fração de ejeção são resultado do tratamento, não motivo para suspendê-lo, e a suspensão devolve o remodelamento. O que muda com o tempo é o diurético, que sobe e desce conforme a congestão; as quatro classes ficam.
Prescrição- Manter as quatro classes nas maiores doses toleradas indefinidamente, com dosagem periódica de potássio e creatinina a cada 1 a 4 meses e após cada mudança posológica maior (PCDT, itens 6.2.4 e 7)
- Reduzir o diurético à menor dose necessária, orientando o paciente a ajustar conforme o peso diário e os sinais de congestão; inexistem evidências para o seu uso em paciente sem sintoma ou sinal congestivo (PCDT, item 6.2.5)
- Acompanhamento preferencial na Atenção Primária para classe funcional I e II e para quem está em otimização, com telemonitoramento por suporte telefônico considerado nos de maior risco de desestabilização, sobretudo após alta hospitalar (PCDT, itens 7 e 7.1)
- Para fins previdenciários, informar no relatório o tempo de doença, a classe funcional NYHA, a presença de disfunção ventricular e o tratamento em uso — o código da doença, isoladamente, não configura cardiopatia grave (PCDT, item 8)
Como saber se está funcionando
Em quase todo o resto da medicina de urgência, saber se funcionou é olhar o paciente. Aqui não: o paciente melhora com o diurético e continua melhorando por semanas, independentemente de você ter ou não iniciado o que muda a sobrevida. Existe um conjunto pequeno de parâmetros que separa tratamento de alívio, e nenhum deles é como o paciente diz que está se sentindo hoje.
Esperado: Peso estável no domicílio depois de atingido o peso seco. Na internação, queda progressiva enquanto houver congestão e estabilização quando o paciente estiver seco.
Se não melhora: Ganho de 2 kg em 3 dias, ou reaparecimento de edema, ortopneia ou dispneia paroxística noturna, é congestão voltando: o paciente aumenta o diurético conforme o plano escrito e procura atendimento. O erro inverso também tem sinal — peso que continua caindo depois de resolvida a congestão, com sede, hipotensão postural e creatinina em ascensão, é depleção iatrogênica, e o que se reduz é o diurético, nunca o IECA.
Esperado: Elevação pequena da creatinina, geralmente inferior a 10% a 20% e não progressiva, logo após iniciar o bloqueio do eixo. Potássio estável abaixo de 5,0 mmol/L. Cerca de 6,4% dos pacientes desenvolvem potássio acima de 5,5 mEq/L com IECA, mais frequentemente entre os que já têm creatinina elevada.
Se não melhora: Creatinina que sobe além de 50% do basal, ou passa de 3 mg/dL, pede investigação antes de qualquer redução: revise depleção por diurético, contraste recente, anti-inflamatório e doença renovascular. Considere suspender o IECA ou o BRA apenas com potássio acima de 5,5 mEq/L, creatinina acima de 3,5 mg/dL ou clearance abaixo de 20 mL/min por m². Para a espironolactona, reduza a 12,5 mg por dia ou em dias alternados diante de potássio alto, e evite o uso com creatinina acima de 2,5 mg/dL ou potássio persistentemente acima de 5,9 mmol/L.
Esperado: Progressão de um degrau a cada 2 semanas enquanto não houver trava, com chegada à dose-alvo ou à maior dose tolerada em 6 a 8 semanas para IECA e betabloqueador. Reavaliação formal dos sintomas 4 semanas após a otimização da dose do último fármaco.
Se não melhora: Se a dose não subiu, a pergunta é por quê, e a resposta tem nome: trava clínica registrada, falta do medicamento, efeito adverso, ou ninguém tentou. Escrever no prontuário a maior dose tolerada e o motivo do limite transforma o problema em informação para o próximo médico. Sem esse registro, quem vier depois assume que aquela é a dose que ele suporta, e a receita congela.
Esperado: Melhora progressiva da classe funcional ao longo de semanas a meses. Piora funcional discreta nas primeiras semanas do betabloqueador é esperada e não é falha do tratamento.
Se não melhora: Persistindo classe III ou IV apesar de terapia otimizada, o paciente deixa de ser da Atenção Primária e vai ao serviço especializado. Antes de rotular como refratário, confira o óbvio: ele está tomando o que foi prescrito, na dose escrita? Há fibrilação atrial nova, anemia, disfunção tireoidiana, deficiência de ferro, apneia do sono, isquemia? Insuficiência cardíaca que não responde costuma ser insuficiência cardíaca com um segundo problema em cima.
Esperado: Aumento da fração de ejeção por remodelamento reverso em parte dos pacientes. O ecocardiograma não é exame de rotina em paciente estável fora desses momentos.
Se não melhora: Fração de ejeção que permanece em 35% ou menos, com o paciente sintomático e a terapia otimizada, é o cenário em que se discute dispositivo — ressincronização diante de bloqueio de ramo esquerdo com QRS largo, cardiodesfibrilador conforme etiologia e tempo de evolução. Deixar de repetir o exame é deixar de fazer a pergunta: o paciente não perde só um exame, perde a indicação inteira. E, diante de reinternação nos 30 dias, o parâmetro a auditar é o plano de alta e não a doença: a receita saiu com data de retorno? ele conseguiu retirar tudo? o processo do Componente Especializado foi aberto? alguém explicou o peso diário?
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central desta doença e o mais fácil de cometer, porque nada nele parece errado: a receita tem os nomes certos, o paciente está bem e o leito é necessário. O dano aparece meses depois, num paciente que passou o ano inteiro em um oitavo da dose testada nos ensaios e voltou a internar. Titulação sem data marcada não é adiada — ela não acontece, porque cada médico que recebe a receita assume que a dose escrita é a dose que aquele paciente tolera.
Como pegar a tempo: Escreva na receita, ao lado de cada droga, a dose atual e a dose-alvo, e marque o retorno em 7 a 14 dias com data, serviço e horário. Antes disso, use a internação para dar o primeiro passo de dose: é a melhor janela de titulação que ele terá no ano.
O dano: Um aumento de 25% da creatinina após iniciar ou aumentar o bloqueio do eixo é efeito farmacológico esperado, e a régua nacional aceita até 50% de aumento sobre o basal, ou valor absoluto de até 3 mg/dL, sem reduzir a dose. Suspender ali retira a classe com maior evidência de redução de mortalidade por causa de um número que ia estabilizar sozinho — e o registro dessa suspensão vira rótulo de intolerância que acompanha o paciente por anos e impede qualquer médico seguinte de tentar de novo.
Como pegar a tempo: Antes de mexer no IECA, revise as causas de azotemia pré-renal, e a primeira delas é a sua própria furosemida. Reduza o diurético, hidrate se estiver depletado, repita o exame em uma semana. Só considere suspender com potássio acima de 5,5 mEq/L, creatinina acima de 3,5 mg/dL ou clearance abaixo de 20 mL/min por m². E, se suspender, escreva o valor exato que motivou a decisão — não a palavra intolerância.
O dano: A regra dos documentos nacionais é direta e contraintuitiva: níveis pressóricos e frequência cardíaca baixos, desde que o paciente esteja assintomático, são tolerados e não devem ser motivo para redução de dose ou interrupção do betabloqueador. Quem corta a dose por causa do número está trocando o desfecho pelo conforto de quem lê o sinal vital, e o betabloqueador é justamente a classe cujo benefício aparece tarde e pode levar mais de doze meses.
Como pegar a tempo: Pergunte o sintoma antes de olhar o monitor: tontura ao levantar, escurecimento visual, queda. Sem sintoma, mantenha. Com sintoma, redistribua os horários das doses, revise o diurético e retire drogas hipotensoras sem benefício de sobrevida antes de tocar no betabloqueador. Na presença de bloqueio atrioventricular, reduza ou suspenda primeiro digoxina e amiodarona.
O dano: A expressão tratamento otimizado tem definição precisa: doses máximas toleradas dos medicamentos preconizados. Escrever otimizado numa prescrição com enalapril 2,5 mg e carvedilol 3,125 mg tem duas consequências. O próximo médico não vai subir nada, porque o prontuário diz que já está no teto. E tratamento otimizado é critério de inclusão para sacubitril valsartana e critério de encaminhamento ao serviço especializado — o paciente rotulado como otimizado no papel e subdosado na prática fica preso entre os dois.
Como pegar a tempo: Não escreva otimizado; escreva a dose. Enalapril 5 mg de 12 em 12 horas, alvo 20 mg de 12 em 12 horas, subindo. Se houver limite, escreva o limite e o motivo: maior dose tolerada por hipotensão sintomática, ou por potássio de 5,4 mmol/L. Isso é informação; a palavra otimizado não é.
O dano: O diurético é a droga que produz melhora visível, e por isso é a que se mexe. Nenhum ensaio clínico demonstrou aumento de sobrevida com diurético na insuficiência cardíaca crônica ambulatorial, e estudos observacionais sugerem efeitos deletérios do uso crônico e continuado sobre o eixo neuro-humoral. Uma consulta em que a furosemida subiu e nenhuma das quatro classes se mexeu é uma consulta em que o paciente saiu mais confortável, com o mesmo prognóstico e com azotemia pré-renal a caminho.
Como pegar a tempo: Trate a furosemida como sintomático: menor dose que mantenha o paciente seco, ajustada pelo peso diário, sem alvo a perseguir. Se em duas consultas seguidas a única mudança foi no diurético, volte à tabela das quatro classes.
O dano: Doze dos catorze medicamentos citados neste capítulo estão no Componente Básico e saem com a receita na farmácia da unidade. A dapagliflozina e o sacubitril valsartana estão no Componente Especializado, e exigem laudo próprio preenchido, prescrição, termo assinado, exames, documentos pessoais e tempo de análise. Quem prescreve sem abrir o processo entrega uma receita que não vira comprimido, e a diferença aparece meses depois rotulada como má aderência — que é o principal fator de descompensação registrado no país.
Como pegar a tempo: Abra o processo antes da alta, com o paciente e o acompanhante à mão: laudo do Componente Especializado, prescrição, termo de esclarecimento assinado, laudo do ecocardiograma e cópias de Cartão Nacional de Saúde, identidade e comprovante de residência. Confira no primeiro retorno se a droga foi retirada, com a mesma seriedade com que confere o potássio.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas desta doença têm uma dificuldade específica: você está pedindo a alguém que tome quatro remédios por muitos anos, alguns dos quais não fazem diferença nenhuma na forma como ele se sente. Nenhuma delas funciona sem que essa contradição seja dita em voz alta. As falas abaixo são para dizer em português comum.
Explicar por que o remédio que salva não é o que alivia
“Seu Nivaldo, o senhor vai sair daqui com cinco caixas, e elas fazem coisas diferentes. Uma delas é a do inchaço — essa o senhor sente funcionando, faz urinar, tira o peso e a falta de ar. As outras quatro não vão fazer o senhor se sentir melhor amanhã, e é normal que uma delas até incomode um pouco no começo. Elas trabalham devagar: seguram o coração para ele não ir aumentando e fazem o senhor viver mais anos. Quem toma só a do inchaço fica bem por um tempo e volta para cá. Quem toma as quatro é quem não volta.”
Não diga: Dizer só que são remédios do coração. O paciente decide o que continuar tomando pela sensação que cada comprimido produz, e o que não produz sensação é o primeiro a ser abandonado quando a caixa acaba ou o dinheiro aperta.
Ensinar o peso diário e o plano de ação
“Todo dia de manhã, antes de comer, o senhor sobe na balança com a mesma roupa e anota o número num caderno. É o exame mais importante que o senhor vai fazer, e é de graça. Se em três dias o peso subir dois quilos, ou se voltar a inchar o pé ou a acordar de noite sem ar, o senhor faz o seguinte, que eu vou escrever aqui na receita, e procura a unidade sem esperar a consulta. O peso avisa uma semana antes de a falta de ar chegar.”
Não diga: Entregar a orientação só verbalmente, ou escrevê-la apenas no prontuário. O plano precisa sair do hospital dentro do bolso do paciente, escrito, com um número e uma ação.
Explicar por que a dose vai subir mesmo com o paciente se sentindo bem
“Na consulta do mês que vem a gente provavelmente vai aumentar dois desses comprimidos. Não é porque o senhor piorou — é o contrário: essa dose que o senhor está tomando é a dose de começar, que a gente usa para o corpo ir se acostumando. A dose que faz o efeito de verdade é maior, e a gente sobe aos poucos, medindo o exame de sangue no meio do caminho. Se alguém disser que o senhor está no remédio certo, o senhor pode perguntar se está na dose certa. São coisas diferentes.”
Não diga: Deixar a impressão de que o aumento é sinal de agravamento. Sem essa frase, o paciente que se sente bem interpreta a subida de dose como má notícia e reduz por conta própria.
Responder honestamente à pergunta se vai curar
“Curar, no sentido de o coração voltar a ser como era, é pouco provável. Mas isso não é o que decide a vida do senhor daqui para frente. Com o tratamento completo, muita gente melhora bastante a força do coração ao longo de meses, volta a fazer as coisas do dia a dia e passa anos sem internar. É um tratamento que não tem alta: ele funciona enquanto for tomado, e se parar, o coração volta a piorar. Daqui a uns quatro a seis meses a gente repete o exame do coração para ver o quanto melhorou, e aí converso com o senhor com número na mão.”
Não diga: Prometer cura ou, no extremo oposto, entregar sobrevida em porcentagem para quem não pediu. A pergunta que o paciente costuma estar fazendo é se vai voltar a trabalhar e a andar, e é essa que se responde primeiro.
Quando a família pergunta se ele pode parar algum remédio agora que melhorou
“Ele está bem justamente por causa deles: aqui a melhora é o resultado do tratamento, não o sinal de que pode parar. Se parar, o coração volta a dilatar e os sintomas voltam em algumas semanas ou meses. O único que a gente ajusta para cima e para baixo é o do inchaço, conforme o peso. Os outros quatro ficam.”
Não diga: Dizer apenas que não pode parar. A família precisa saber qual comprimido pode variar e quais não podem, porque na prática alguém vai ajustar alguma coisa em casa quando a caixa acabar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Régua restritiva, com critérios administrativos explícitos
A substituição de IECA ou BRA por sacubitril valsartana está indicada em adultos com idade inferior a 75 anos, classe funcional NYHA II, fração de ejeção reduzida, BNP acima de 150 pg/mL ou NT-proBNP acima de 600 pg/mL, em tratamento otimizado com doses máximas toleradas de IECA ou BRA, betabloqueador e espironolactona, e sintomáticos. A prescrição inicial deve ser feita preferencialmente por médico especialista.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS nº 10, de 13 de setembro de 2024)
Régua ampla, sem teto de idade e sem exigir peptídeo
Sacubitril-valsartana em substituição ao IECA ou BRA para disfunção de ventrículo esquerdo sintomática já em uso de terapêutica otimizada com terapia tripla, para reduzir morbidade e mortalidade, tem recomendação classe I nível B. Além disso, o início do tratamento com sacubitril-valsartana no lugar de IECA ou BRA, sem uso prévio dessas classes, e o uso em pacientes hospitalizados com insuficiência cardíaca descompensada após estabilização, são recomendações classe IIa, apoiadas nos estudos PIONEER-HF e TRANSITION.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021, Tabela 7.2
As duas posições descrevem a mesma droga e discordam sobre quem tem direito a ela porque respondem a perguntas diferentes: a primeira define uma população reprodutível para autorizar dispensação num sistema de 200 milhões de pessoas; a segunda descreve para quem há evidência de benefício. Para o paciente à sua frente, a decisão prática não é qual régua está certa, e sim o que existe. Se ele cumpre os critérios do protocolo, encaminhe e abra o processo — e lembre que a exigência de peptídeo natriurético significa pedir o exame com antecedência. Se não cumpre, porque tem 78 anos ou está em classe III, o erro é usar isso como motivo para não fazer nada: ele continua candidato às quatro classes do Componente Básico, e é a otimização delas que muda a sobrevida dele. A pergunta útil na enfermaria não é se ele merece o sacubitril, e sim se já está na dose-alvo do enalapril, do carvedilol e da espironolactona — porque essa é a condição para ele sequer ser elegível.
25 mg de 12 em 12 horas
O esquema de administração do carvedilol tem dose inicial de 3,125 mg duas vezes ao dia e dose-alvo de 25 mg duas vezes ao dia, com apresentações disponíveis de 3,125, 6,25, 12,5 e 25 mg.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida (2024), Quadro 5
50 mg de 12 em 12 horas
A tabela de doses iniciais e doses-alvo dos medicamentos para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida traz carvedilol com dose inicial de 3,125 mg duas vezes ao dia e dose-alvo de 50 mg duas vezes ao dia.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda (2018), Tabela 7.1
A diferença entre as duas posições é de duas vezes, e ela é real: 25 mg duas vezes ao dia é um comprimido de 25 mg pela manhã e outro à noite; 50 mg duas vezes ao dia são quatro comprimidos por dia. Os ensaios que sustentam o carvedilol na insuficiência cardíaca titularam até 25 mg duas vezes ao dia, reservando os 50 mg duas vezes ao dia a pacientes de maior peso corporal — qualificação que a tabela de sociedade não reproduz e que a apresentação disponível no SUS torna pouco prática. Para o paciente à sua frente, a decisão é sobre quando parar de subir: chegue a 25 mg de 12 em 12 horas e considere o alvo atingido; acima de 85 kg, e com o paciente tolerando bem, subir até 50 mg de 12 em 12 horas é defensável. O que não é defensável, e é o que acontece na prática, é usar a divergência como razão para parar em 6,25 mg — a distância entre 6,25 e 25 mg é maior que a distância entre 25 e 50 mg, e é a que muda o desfecho.
Sim, com recomendação favorável
Ivabradina para disfunção de ventrículo esquerdo sintomática, em paciente com terapêutica otimizada, em ritmo sinusal e com frequência cardíaca acima de 70 bpm, para redução de hospitalização, morte cardiovascular e morte por insuficiência cardíaca, tem recomendação classe IIa nível B, mantida em 2021.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda (2018), item 7.5; e Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021, Tabela 7.1
Não está incorporada ao sistema público
De acordo com a recomendação da Conitec de 2016, a ivabradina não está incorporada ao SUS, uma vez que as evidências demonstraram que o efeito do medicamento é restrito à diminuição de internações, com aumento de risco de fibrilação atrial. O medicamento não integra o elenco da relação nacional de medicamentos essenciais vigente.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida (2024), item 6.2; e Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, RENAME 2024, 2ª edição
As duas posições estão certas dentro do que cada uma responde: uma julga eficácia, a outra julga o que o sistema compra diante do risco de fibrilação atrial. Para o paciente à sua frente, a sequência que evita o beco sem saída é esta. Primeiro, tenha certeza de que a frequência alta não é falta de dose: confirme a dose real do betabloqueador contra a dose-alvo, porque a maioria dos pacientes com frequência acima de 70 bpm em ritmo sinusal está em dose submáxima, e a solução é titular. Segundo, confirme que o ritmo é sinusal — em fibrilação atrial a ivabradina não se aplica e a conduta é outra. Terceiro, procure o que acelera o coração por fora da insuficiência cardíaca: anemia, hipertireoidismo, dor, febre, hipovolemia. Se depois disso a frequência continuar alta com o betabloqueador no máximo tolerado, diga ao paciente com clareza que existe uma medicação com recomendação favorável e sem fornecimento pelo sistema público, e registre a conversa. Prometer uma droga que não vai chegar é pior que não citá-la; deixar de citar quando ela mudaria a decisão também é.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Nivaldo. 63 anos, 71 kg, motorista de ônibus aposentado, quarto dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada, agora sem dispneia, sem edema, ausculta limpa, quatro quilos a menos que na admissão. Pressão 118 por 74 mmHg, frequência 78 bpm, creatinina 1,2 mg/dL, potássio 4,3 mmol/L, hemoglobina 12,8 g/dL. Ecocardiograma de sete meses atrás com fração de ejeção de 28% e alteração segmentar de contração em parede anterior; infarto há quatro anos. Prescrição atual: furosemida 40 mg endovenosa de 8 em 8 horas, maleato de enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas, carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas, ácido acetilsalicílico 100 mg, sinvastatina 40 mg. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que penso ao ler a prescrição
Fração de ejeção de 28% é insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, e é o único grupo em que quatro classes reduzem mortalidade. Corro as quatro: IECA presente, betabloqueador presente, antagonista da aldosterona ausente, inibidor de SGLT2 ausente. Metade da terapia que muda sobrevida não está prescrita. E as duas que estão, estão na dose de partida — enalapril 2,5 mg de 12 em 12 horas é um oitavo do alvo de 20 mg de 12 em 12 horas; carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas é um oitavo de 25 mg de 12 em 12 horas. Isso não é tratamento otimizado com efeito colateral: é o primeiro degrau de uma escada que ninguém subiu.
a informação que a receita antiga entrega
A receita da alta de sete meses atrás traz exatamente as mesmas doses, e isso me diz duas coisas. Não houve trava clínica: se tivesse havido hipotensão, hipercalemia ou bradicardia, alguém teria escrito. E não houve retorno — a alta anterior dizia retorno ambulatorial, sem data. O fator precipitante desta internação provavelmente não é a doença progredindo: é uma prescrição que ficou parada.
as três travas, antes de escrever qualquer coisa
Pressão 118 por 74 mmHg, com o paciente sem tontura: não trava nada. Frequência 78 bpm, sem bloqueio no eletrocardiograma: não trava o betabloqueador. Potássio 4,3 mmol/L e creatinina 1,2 mg/dL: abaixo de 5,0 e bem longe dos limites de suspensão, então a espironolactona pode entrar e o IECA pode subir. E ele está compensado, sem congestão — condição específica para mexer no betabloqueador, que é a única classe que não se inicia nem se aumenta com o paciente congesto.
o que escrevo hoje
Espironolactona 25 mg por dia, com potássio marcado para daqui a uma semana. Dapagliflozina 10 mg por dia, que é dose inicial e dose-alvo ao mesmo tempo — nada a titular. Enalapril de 2,5 para 5 mg de 12 em 12 horas, primeiro dos três degraus. Carvedilol de 3,125 para 6,25 mg de 12 em 12 horas, também o primeiro dos três. Furosemida convertida para via oral e reduzida à menor dose que o mantenha seco, porque agora ela é sintomático e não alvo. Peço BNP, porque se ele evoluir para classe II sob terapia otimizada com fração de ejeção baixa, o exame será exigido para autorizar sacubitril valsartana — e pedir depois custa meses de fila.
a conta que faço antes de assinar
Do que ele toma hoje até o alvo: enalapril precisa de três duplicações, 5, 10 e 20 mg de 12 em 12 horas; carvedilol precisa de três, 6,25, 12,5 e 25 mg de 12 em 12 horas. A dois passos por mês, ele chega ao alvo das duas em cerca de seis semanas. Na apresentação do SUS isso é praticável: o alvo do enalapril é um comprimido de 20 mg duas vezes ao dia, e o do carvedilol é um comprimido de 25 mg duas vezes ao dia. Se o serviço só tivesse captopril, o alvo seriam dois comprimidos de 25 mg três vezes ao dia, seis por dia longe das refeições — mesma classe, adesão muito pior. Onde houver enalapril, enalapril.
a parte da alta que não é remédio
Abro o processo do Componente Especializado para a dapagliflozina com ele ainda internado: laudo preenchido, prescrição, termo assinado, cópia do ecocardiograma e os documentos pessoais, que peço à filha trazer amanhã. Escrevo na receita, ao lado de cada droga, a dose atual e a dose-alvo. Marco o retorno com data, serviço e horário para daqui a dez dias, com potássio e creatinina colhidos antes. E ensino o peso diário com a balança da enfermaria na frente dele, pedindo que ele repita para mim o que vai fazer se subir dois quilos em três dias.
o que fica marcado para depois de mim
No resumo de alta escrevo três datas que não são minhas: potássio e creatinina em uma a duas semanas; reavaliação formal dos sintomas quatro semanas depois de otimizada a dose do último fármaco; e ecocardiograma em três a seis meses de terapia otimizada. Esse último é o que mais se perde e o que mais decide — se a fração de ejeção continuar em 35% ou menos com ele sintomático e tudo no máximo tolerado, abre-se a discussão de cardiodesfibrilador, que na etiologia isquêmica dele, quatro anos após o infarto, tem recomendação classe I. Sem repetir o exame, ninguém sequer faz a pergunta.
Faça você
Agora é Dona Terezinha, no ambulatório da unidade básica, três semanas depois. 71 anos, 54 kg, viúva, mora com a filha. Insuficiência cardíaca de etiologia hipertensiva, fração de ejeção de 32% num ecocardiograma de cinco meses atrás. Nunca internou. Diz que anda bem, mas conta que deixou de ir à igreja a pé porque cansa na subida — antes ia. Está em uso de maleato de enalapril 5 mg de 12 em 12 horas, carvedilol 6,25 mg de 12 em 12 horas, furosemida 40 mg pela manhã e sinvastatina. Ao exame: pressão 104 por 64 mmHg sem tontura ao levantar, frequência 58 bpm, ausculta pulmonar limpa, sem edema, jugulares planas, peso estável há dois meses no caderno que ela trouxe. Exames desta semana: creatinina 1,3 mg/dL (era 1,1 mg/dL há cinco meses), potássio 4,9 mmol/L, hemoglobina 11,9 g/dL, ferritina 62 ng/mL. Eletrocardiograma em ritmo sinusal, QRS de 100 ms.
o que a fração de ejeção autoriza
Fração de ejeção de 32% é insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, e todo o arsenal que reduz mortalidade se aplica. As quatro classes: IECA presente, betabloqueador presente, antagonista da aldosterona ausente, inibidor de SGLT2 ausente. As duas presentes estão no segundo degrau de três, não no alvo.
a classe funcional real
Ela diz que anda bem, e o dado que importa é o outro: deixou de subir a ladeira da igreja por cansaço, coisa que fazia. Isso é limitação às atividades habituais, e não ausência de sintoma. Ela é classe funcional II autolimitada, não classe I — e essa diferença muda tanto a indicação de espironolactona e de dapagliflozina quanto a elegibilidade futura a outras terapias.
as travas, uma a uma
Pressão de 104 por 64 mmHg sem tontura, frequência de 58 bpm em paciente assintomática, creatinina que subiu de 1,1 para 1,3 mg/dL — um aumento de cerca de 18% sobre o basal —, potássio de 4,9 mmol/L. Hemoglobina de 11,9 g/dL com ferritina de 62 ng/mL. Cada um desses números tem uma régua própria, e nenhum deles é o que parece à primeira vista.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A conduta é acrescentar as duas classes que faltam, subir as duas que existem e não recuar em nada por causa dos números. Primeiro, o que nenhuma das travas trava: pressão de 104 por 64 mmHg e frequência de 58 bpm em paciente assintomática são explicitamente toleradas e não motivam redução nem interrupção do betabloqueador — o critério é sintoma, não número. A creatinina subiu de 1,1 para 1,3 mg/dL, cerca de 18%, dentro da tolerância de até 50% sobre o basal ou até 3 mg/dL sem reduzir o IECA; o valor pede repetição e vigilância, não recuo. O potássio de 4,9 mmol/L está abaixo de 5,0 mmol/L e permite iniciar espironolactona com monitoramento. Segundo, o que entra: espironolactona 25 mg por dia, com potássio dosado na primeira semana, no primeiro mês e depois a cada 1 a 4 meses; e dapagliflozina 10 mg por dia, indicada em classe funcional II a IV com fração de ejeção abaixo de 40% e sintomas, sem titulação — dose inicial e dose-alvo são a mesma. A dapagliflozina exige processo do Componente Especializado, então laudo próprio, termo de esclarecimento, prescrição, laudo do ecocardiograma e documentos pessoais saem preenchidos desta consulta; receita sem processo não vira comprimido. Terceiro, o que sobe: enalapril de 5 para 10 mg de 12 em 12 horas e carvedilol de 6,25 para 12,5 mg de 12 em 12 horas, um degrau cada, com nova consulta em duas semanas e potássio e creatinina antes — resta mais um degrau em cada até os alvos de 20 mg e 25 mg de 12 em 12 horas. Quarto, o que a ferritina acrescenta: 62 ng/mL está abaixo de 100 ng/mL e caracteriza deficiência de ferro, com indicação classe IIa de carboximaltose férrica intravenosa mesmo sem anemia, para melhorar capacidade de exercício e qualidade de vida e reduzir hospitalização — o que exige encaminhamento, porque a reposição é endovenosa. Quinto, o que não se faz: aumentar a furosemida. Ela está sem edema, com jugulares planas e peso estável há dois meses; diurético sem congestão não tem indicação, e subir a dose produziria exatamente a azotemia pré-renal que depois seria atribuída ao enalapril — o candidato a redução aqui é a furosemida, não o IECA. Sexto, o que fica marcado com data: retorno em duas semanas com potássio e creatinina; reavaliação formal dos sintomas quatro semanas após a última otimização; e ecocardiograma em três a seis meses de terapia otimizada. O QRS de 100 ms, por ora, afasta a discussão de ressincronização, que exige bloqueio completo de ramo esquerdo com QRS de 130 ms ou mais.
Com os alvos especificados, ambos exigem três duplicações: enalapril 2,5 → 5 → 10 → 20 mg a cada 12 horas e carvedilol 3,125 → 6,25 → 12,5 → 25 mg a cada 12 horas. Se cada aumento ocorrer após duas semanas e houver tolerância, são seis semanas. Diretrizes admitem enalapril-alvo de 10–20 mg a cada 12 horas; por isso era necessário explicitar qual extremo a conta pretende atingir. A titulação clínica depende de pressão, frequência, sintomas, volemia, função renal e potássio, sem obrigar todo paciente a atingir a dose máxima.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique, sem consultar, qual problema cada classe modificadora da doença enfrenta e por que o diurético não substitui essas classes. Depois consulte a receita de Nivaldo e prepare uma tabela pessoal com medicamento, finalidade, dose atual, próximo passo e exame ou sintoma que limita esse passo. Confira na seção de conduta os intervalos de monitorização. Não é necessário decorar o número de duplicações: é necessário reconhecer quando iniciar, quando titular e quando pedir avaliação por possível intolerância.
Em 30 dias
Simule o primeiro retorno de Nivaldo após a alta. Ele traz o peso, a caixa de medicamentos e o laboratório. Compare três possibilidades: melhora clínica com discreta mudança renal; tontura, bradicardia e queda; congestão persistente. Em cada uma, formule uma hipótese para o que aconteceu, proponha ao supervisor o ajuste e marque o prazo da nova avaliação. Antes de encerrar, explique ao paciente o que cada comprimido faz e peça que ele repita quando deve procurar ajuda. Sua resposta deve incluir tolerância, acesso, sinais de alarme e data de retorno, além das doses conferidas.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 68 anos, em consulta de retorno na unidade básica após internação por insuficiência cardíaca descompensada há três semanas, trazendo uma sacola com as caixas de remédio e a receita da alta. Ele diz que está bem melhor e que parou de tomar um dos comprimidos porque estava fazendo ele urinar de madrugada. Conduza a consulta inteira: descubra qual comprimido ele parou e por quê, confira a receita contra as quatro classes, decida o que sobe e o que entra hoje, e explique em voz alta — para ele e para a filha que veio junto — por que os remédios que não fazem diferença na forma como ele se sente são justamente os que ele não pode parar.
