Cirurgia Geral › Cirurgia do Aparelho Digestivo
Hemorragia digestiva alta
Reconhecer hemorragia e hipoperfusão, iniciar ressuscitação e tratamento da causa provável e organizar hemostasia e prevenção de ressangramento.
Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes — Hemorragias Digestivas. Autoria: Federação Brasileira de Gastroenterologia. Ferreira RPB, Eisig JN. Elaboração final: 17 de abril de 2008
Bittencourt PL, Strauss E, Farias AQ, Mattos AA, Lopes EP. Variceal bleeding: update of recommendations from the Brazilian Association of Hepatology. Arquivos de Gastroenterologia. 2017;54(4):349-369
Gralnek IM, Stanley AJ, Morris AJ, et al. Endoscopic diagnosis and management of nonvariceal upper gastrointestinal hemorrhage (NVUGIH): European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline — Update 2021. Endoscopy. 2021;53(3):300-332
Laine L, Barkun AN, Saltzman JR, Martel M, Leontiadis GI. ACG Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding. American Journal of Gastroenterology. 2021;116(5):899-917
Villanueva C, Colomo A, Bosch A, et al. Transfusion strategies for acute upper gastrointestinal bleeding. New England Journal of Medicine. 2013;368(1):11-21
Chavez-Tapia NC, Barrientos-Gutierrez T, Tellez-Avila F, et al. Meta-analysis: antibiotic prophylaxis for cirrhotic patients with upper gastrointestinal bleeding — an updated Cochrane review. Alimentary Pharmacology & Therapeutics. 2011;34(5):509-518
HALT-IT Trial Collaborators. Effects of a high-dose 24-h infusion of tranexamic acid on death and thromboembolic events in patients with acute gastrointestinal bleeding (HALT-IT): an international randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2020;395(10241):1927-1936
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024, instituída pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 136 p. ISBN 978-85-334-2161-5
Pereira GAS, Silva MLBF, Silva AAF, et al. Changing patterns in the epidemiology of acute gastrointestinal bleeding in Brazil over the last 12 years. Arquivos de Gastroenterologia. 2026;63:e25064
Stanley AJ, Laine L, Dalton HR, et al. Comparison of risk scoring systems for patients presenting with upper gastrointestinal bleeding: international multicentre prospective study. BMJ. 2017;356:i6432
Yen HH, Wu PY, Wu TL, et al. Forrest Classification for Bleeding Peptic Ulcer: A New Look at the Old Endoscopic Classification. Diagnostics. 2022;12(5):1066
Brzdęk M, Dobrowolska K, Janczura J, et al. Advances in portal hypertension management: Evolution of the Baveno guidelines. World Journal of Gastroenterology. 2025;31(35):110241
de Franchis R, Bosch J, Garcia-Tsao G, Reiberger T, Ripoll C; Baveno VII Faculty. Baveno VII — Renewing consensus in portal hypertension. Journal of Hepatology. 2022;76(4):959-974
Tergly (acetato de terlipressina) — bula do profissional de saúde. Volpharma Distribuidora. Registro MS nº 1.97357.0006. Bula harmonizada conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 20/10/2017
Octride (acetato de octreotida) 0,1 mg/mL — bula do profissional de saúde. Sun Farmacêutica do Brasil. Registro MS nº 1.4682.0020
Omeprazol sódico pó liofilizado para solução injetável 40 mg — bula do profissional de saúde. Laboratório Cristália. Frasco-ampola acompanhado de ampola-diluente de 10 mL
ACG. Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding, 2021. [Acessar fonte](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33929377/)
Responda antes de ler
Homem de 54 anos, cirrótico alcoólico conhecido, chega às 3h40 com duas hematêmeses volumosas em casa e uma terceira na sala. Pressão arterial 88x54 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, saturação 94% em ar ambiente. Está lúcido, lentificado, ictérico, com ascite. Toque retal com melena. Hemoglobina 7,8 g/dL. O endoscopista de sobreaviso chega em cerca de duas horas. Qual a conduta agora?
O paciente que você vai ver
São 3h40 quando o Genivaldo entra na sala vermelha empurrado pela esposa e por um maqueiro. Ele tem 54 anos, é pedreiro, e vomitou sangue vermelho vivo duas vezes em casa — a segunda encheu a pia. Chegou andando, o que é enganoso. Está pálido, suado, com a camisa manchada e um cheiro adocicado que já entrega o resto da história. A esposa fala antes que alguém pergunte: ele tem problema no fígado, faz uns três anos, e parou de beber há oito meses. Toma um comprimido para pressão que ela não sabe o nome.
Pressão 88 por 54. Frequência 118. Frequência respiratória 26. Saturação 94% em ar ambiente. Ele está lúcido, mas responde devagar e se perde no meio da frase. Escleras amareladas, abdome volumoso com macicez que muda de lugar quando ele vira, cacifo até a metade da tíbia. Enquanto você conta os dedos que ele levanta, ele vira a cabeça e vomita de novo — dessa vez sangue com coágulos.
A sala reage do jeito que costuma reagir: alguém grita para chamar a endoscopia. E é aqui que a noite se decide, porque a endoscopia não vai chegar em cinco minutos, e nos próximos cinco minutos o que existe é você. Dois acessos estão sendo puncionados. Um litro de soro fisiológico já começou a correr, porque alguém abriu no máximo assim que viu a pressão. O residente pede quatro bolsas de concentrado de hemácias, urgentes, sem tipagem. Ninguém falou em antibiótico. Ninguém falou em droga vasoativa.
Você é o interno. Sabe que ele provavelmente está sangrando por varizes de esôfago — hepatopatia conhecida, icterícia, ascite, hematêmese volumosa. Provável, porém, não é certo: em três de cada dez cirróticos que sangram, a fonte é outra coisa, e o tratamento das duas hipóteses não é o mesmo. A dúvida parece paralisar. Não deveria: as duas primeiras drogas que este paciente precisa receber são compatíveis com a dúvida, e nenhuma delas depende do laudo da endoscopia.
As perguntas que decidem a madrugada dele, na ordem em que precisam ser respondidas, são: ele consegue proteger a via aérea enquanto vomita sangue? A partir de que número eu transfundo? Que drogas entram agora, antes de qualquer laudo? E daqui a seis horas, quando ele estiver na enfermaria e parecer melhor, como eu vou saber que voltou a sangrar antes de a pressão cair de novo?
Quem adoece disso
Numa coorte brasileira de 2.145 internações por hemorragia digestiva num hospital terciário da Bahia, acompanhada entre 2012 e 2023, a mortalidade hospitalar global foi de 12,4%. Traduzido para o plantão: a cada oito pacientes que entram pela porta com sangramento digestivo, um sai morto do hospital. Não é uma condição em que se possa esperar para ver, e a impressão de que o paciente que chega andando está bem se desfaz contra esse número.
A mesma coorte separa o risco por origem, e a separação é o eixo deste capítulo. A mortalidade foi de 19,1% na hemorragia alta varicosa, 14,6% na alta não varicosa e 7,2% na baixa. Quem sangra de varizes morre com quase o triplo da frequência de quem sangra de uma origem baixa — e isso acontece com apenas 14,4% das internações, contra 37,5% de altas não varicosas e 40,3% de baixas. A consequência prática é uma pergunta que precisa ser feita nos primeiros dois minutos: este sangramento é alto? E se for alto, existe hepatopatia? As duas respostas mudam a droga, o destino e o prognóstico.
O perfil de quem adoece disso no Brasil é idoso e vem envelhecendo: idade média de 70 anos, com desvio de 16, que subiu de 68,7 no primeiro período da coorte para 71 no segundo, e proporção de homens que subiu de 54,1% para 59,7%. Idoso muda três coisas ao mesmo tempo: tolera menos anemia, costuma usar antiagregante ou anticoagulante, e frequentemente toma betabloqueador — o que apaga a taquicardia que seria o primeiro aviso. Quem espera taquicardia para acreditar em hemorragia vai acreditar tarde.
Há uma notícia boa dentro dos mesmos dados, e ela também é uma instrução. A mortalidade caiu de 14,2% no período de 2012 a 2017 para 10,1% no de 2018 a 2023, com significância estatística. Os autores atribuem a queda à adoção generalizada de estratégias baseadas em evidência — que são exatamente as deste capítulo: transfundir menos, começar a droga certa antes do laudo, dar antibiótico ao cirrótico e organizar o momento da endoscopia. Nenhuma delas é tecnologia cara. Todas dependem de alguém, na sala, lembrar de fazê-las na primeira hora.
Por que acontece o que acontece
Comece pelo que o sangue faz quando cai dentro do tubo digestivo, porque isso explica quase todos os sinais que você vai usar. Sangue é proteína. Uma perda de meio litro para dentro do estômago é uma refeição proteica que o intestino delgado digere e absorve, e o nitrogênio dessa carga chega ao fígado para virar ureia. Some a isso a queda de perfusão renal do paciente hipovolêmico, que reduz a depuração, e o resultado é uma ureia que sobe rápido enquanto a creatinina fica quase parada. É por isso que uma relação alta entre ureia e creatinina, num paciente com melena, aponta para uma origem acima do ângulo de Treitz: o sangue percorreu intestino suficiente para ser absorvido.
O mesmo trânsito explica a melena. Fezes pretas, brilhantes e de odor característico são hemoglobina degradada por ácido e por bactérias, e isso exige tempo dentro do tubo: bastam 50 a 100 mL de sangue para escurecê-las, e o escurecimento persiste por dias depois que o sangramento parou — melena hoje não prova sangramento agora. Na direção oposta, um sangramento alto muito rápido não dá tempo de degradar nada e sai vermelho pelo ânus; hematoquezia com instabilidade hemodinâmica é sangramento alto até prova em contrário, e essa inversão é a que mais atrasa diagnóstico no pronto-socorro.
A hemoglobina da chegada engana pelo motivo mais simples: na hemorragia aguda perde-se plasma e hemácia na mesma proporção, e só depois que o interstício e o soro infundido diluem o compartimento é que o número cai — o que leva de uma a duas horas. Um paciente que sangrou dois litros nos últimos vinte minutos pode ter hemoglobina de 13. Hemoglobina normal na primeira hora não exclui sangramento grave, e hematócrito é pior, porque desce pelo mesmo mecanismo com o mesmo atraso.
Agora a fisiopatologia que separa as duas doenças que as primeiras horas tratam como uma só. Na hemorragia não varicosa — úlcera péptica, na maioria — o que sangra é uma artéria erodida no fundo de uma cratera, com pressão sistêmica dentro dela e um coágulo frágil por cima. Abaixo de pH 6 a agregação plaquetária fica prejudicada, e abaixo de pH 4 a pepsina se ativa e dissolve o coágulo já formado. É a única razão pela qual um antissecretor entra numa hemorragia: não para tratar a úlcera, e sim para criar o ambiente químico em que o coágulo sobrevive às 72 horas que separam o paciente do ressangramento.
Na hemorragia varicosa nada disso importa, porque o que sangra é uma veia sob pressão anormal. A cirrose aumenta a resistência ao fluxo dentro do fígado e, ao mesmo tempo, dispara vasodilatação no território esplâncnico por mediadores como o óxido nítrico. O resultado é uma circulação hiperdinâmica com volume arterial efetivo baixo: o cirrótico tende a ser hipotenso de base, e há mais sangue chegando ao sistema porta ao mesmo tempo em que há mais resistência para sair dele. A pressão portal sobe, o sangue busca desvios, e as veias submucosas do esôfago distal viram colaterais. Quando o gradiente ultrapassa 12 mmHg, elas podem romper; acima de 20 mmHg à admissão, a chance de o tratamento falhar aumenta.
Daí sai a regra mais contraintuitiva do manejo, e a que mais salva vida. Encher o cirrótico de cristaloide ou de sangue não corrige a hipotensão dele como corrigiria a de um politraumatizado, porque o volume oferecido se redistribui preferencialmente para o leito esplâncnico. O que sobe não é a pressão arterial: é a pressão portal — e pressão portal maior significa tensão maior na parede da variz que acabou de parar de sangrar. Reposição generosa em hipertensão portal produz ascite, edema e ressangramento, e é por isso que o gatilho transfusional aqui é mais baixo do que a intuição pede.
Falta o mecanismo que explica o antibiótico, e ele é o menos óbvio. A hemorragia aumenta a translocação de bactérias do lúmen intestinal para a circulação, num paciente cuja imunidade já está comprometida pela cirrose. A infecção que se instala — peritonite bacteriana espontânea em metade dos casos, urinária e respiratória em um quarto cada — não é só complicação paralela: as endotoxinas circulantes agravam a disfunção da coagulação e aumentam a pressão portal, fechando o círculo. É por isso que dar antibiótico a um cirrótico que sangra reduz ressangramento, e não apenas infecção — e é por isso que reduz mortalidade.
Por fim, o mecanismo que mata sem que ninguém registre no prontuário como causa. Sangue no esôfago em quem tem consciência rebaixada por encefalopatia hepática, por álcool ou por hipoperfusão é sangue que vai para a árvore respiratória. A aspiração não aparece na sala: aparece seis horas depois, como febre, hipoxemia e infiltrado.

Como se apresenta de verdade
Hematêmese é a apresentação que assusta e a que menos precisa ser reconhecida, porque se reconhece sozinha. O trabalho de verdade está nas outras: o paciente que só tem melena, o que só tem sangue vermelho pelo ânus, o que só tem síncope, e o cirrótico que sangra por uma úlcera. Cada um deles tem um jeito próprio de atrasar a decisão certa.
As três exteriorizações, e o que cada uma esconde
Hematêmese é vômito de sangue vivo ou em borra de café, e indica sangramento proximal ao ângulo de Treitz. A borra de café não é um sangramento menor: é sangue que ficou tempo suficiente em contato com o ácido. Serve para dizer que o sangramento talvez tenha desacelerado, jamais para dizer que parou.
Melena é fezes pretas, pastosas, brilhantes e de odor característico — não são fezes escuras. A distinção importa porque sulfato ferroso, bismuto, beterraba e carvão escurecem as fezes sem torná-las brilhantes nem fétidas daquele jeito, e a cada plantão alguém interna um paciente que apenas começou ferro na semana passada. O toque retal com inspeção da luva resolve a dúvida em trinta segundos e é o exame mais barato do capítulo. Do outro lado, melena verdadeira pode persistir por vários dias após a hemostasia, de modo que uma evacuação preta no terceiro dia de internação não é, por si só, ressangramento.
Melena é fezes pretas, pastosas, brilhantes e de odor característico — não são fezes escuras. A distinção importa porque sulfato ferroso, bismuto e beterraba escurecem sem tornar brilhante nem fétido, e o toque retal com inspeção da luva resolve a dúvida em trinta segundos. Do outro lado, melena verdadeira pode persistir por vários dias após a hemostasia: uma evacuação preta no terceiro dia de internação não é, por si só, ressangramento.
Hematoquezia é sangue vermelho ou vinhoso pelo ânus e costuma indicar origem baixa. A exceção é a que mata: sangramento alto de grande volume acelera o trânsito e sai vermelho. O separador não é a cor, é a hemodinâmica — sangue vermelho pelo ânus em paciente taquicárdico ou hipotenso deve ser tratado como sangramento alto até a endoscopia dizer o contrário, porque investigar o cólon primeiro perde horas no paciente que menos as tem.
Antes de tratar qualquer um deles como sangramento digestivo, confirme que o sangue veio de dentro do tubo. Epistaxe posterior volumosa, extração dentária recente e sangramento de orofaringe produzem hematêmese verdadeira com sangue vindo de fora; hemoptise se confunde com hematêmese em paciente confuso; e alimentos, ferro e bismuto escurecem fezes sem torná-las brilhantes nem fétidas. Narinas, orofaringe, ausculta e toque retal resolvem os três em poucos minutos.

A suspeita de varizes se levanta na anamnese, não na endoscopia
O dado que muda a prescrição das primeiras horas é histórico, e custa uma pergunta. Hepatopatia crônica conhecida, hepatite viral tratada ou não, uso pesado de álcool, internação prévia por ascite ou por confusão mental, sangramento digestivo anterior, plaquetopenia em exame de rotina. Qualquer um deles levanta a hipótese de hipertensão portal, e a hipótese basta: com ela entram droga vasoativa e antibiótico, e ambas entram antes de qualquer laudo.
O exame confirma sem provar: icterícia, telangiectasias em aranha, eritema palmar, ginecomastia, circulação colateral abdominal, ascite com macicez móvel, esplenomegalia, atrofia muscular temporal, contratura de Dupuytren, flapping. Nenhum deles é sensível o bastante para excluir quando ausente, e é por isso que o peso recai sobre a história.
O contrapeso é igualmente importante e frequentemente esquecido: ter cirrose não garante que a fonte seja varicosa. Cerca de 70% dos pacientes com hipertensão portal que sangram sangram por varizes — o que deixa quase um terço sangrando por úlcera péptica, gastropatia hipertensiva portal, laceração de Mallory-Weiss ou neoplasia. A conduta que resolve a ambiguidade é simples: no cirrótico com sangramento alto, trate como varicoso desde já e deixe a endoscopia reclassificar. O custo de tratar um cirrótico com úlcera como se fosse variz por seis horas é baixo; o do inverso é alto.
O idoso, o anticoagulado e o betabloqueado
A idade média dos pacientes internados com hemorragia digestiva no Brasil é de 70 anos, e o idoso desmonta três dos sinais em que o interno aprendeu a confiar. Ele pode não taquicardizar, porque toma betabloqueador ou porque a resposta cronotrópica está reduzida. Ele pode estar hipotenso em 118 por 70, se a pressão habitual dele é 160. E descompensa órgãos antes de descompensar números: confusão, queda, oligúria e angina aparecem primeiro que a hipotensão.
Antiagregante e anticoagulante complicam a decisão de suspender, e a regra não é intuitiva: o ácido acetilsalicílico usado como prevenção secundária de evento cardiovascular não se interrompe, enquanto o de prevenção primária se interrompe. As condutas detalhadas, com prazos de reintrodução, estão na linha do tempo.
E existe o oposto do idoso frágil: o adulto jovem que vomitou várias vezes por gastroenterite ou por libação alcoólica e, na última golfada, viu raias de sangue. Costuma ser laceração de Mallory-Weiss, costuma parar sozinho, e é o paciente que mais se interna sem necessidade — se os números permitirem, ele vai para casa com endoscopia ambulatorial.
Quando a via aérea é o problema principal
Há um subgrupo em que a decisão mais importante das primeiras horas não é sobre sangue nem sobre droga: é sobre tubo. Intubação profilática de rotina antes da endoscopia piora desfecho e está desaconselhada. Reservada aos pacientes certos, salva.
Os pacientes certos são três, e vale saber os três de cor: hematêmese ativa em curso, em volume que impede limpar a via aérea entre uma golfada e outra; agitação que impede o exame de forma segura; e encefalopatia — hepática, alcoólica ou por hipoperfusão — em grau que impede proteger a via aérea. A régua brasileira da hepatologia acrescenta a insuficiência respiratória instalada e cita a encefalopatia graus III e IV.
O raciocínio é o mesmo em todos: a endoscopia digestiva alta introduz sedação, distende o estômago com ar e ocupa a boca do paciente por vinte minutos, num campo cheio de sangue. Quem já não consegue proteger a via aérea acordado não vai conseguir sedado. Decidir intubar antes é decidir com tempo; decidir durante é decidir com o paciente já broncoaspirando.
A contrapartida também precisa ser dita: intubar todo mundo aumenta pneumonia associada à ventilação e tempo de internação, sem ganho. O critério é funcional, não numérico — consegue falar frases inteiras, deglutir a própria saliva e virar a cabeça para o lado quando vomita? Então provavelmente não precisa. A sequência técnica da intubação pertence ao capítulo de manejo de via aérea; o que pertence a este é a indicação.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta deste bloco tem uma inversão em relação a quase todos os outros capítulos. Aqui o diagnóstico etiológico não precisa vir primeiro, porque o tratamento das primeiras horas é o mesmo para as duas grandes causas. O que os exames respondem, nesta ordem, é: quanto sangue este paciente já perdeu, este sangramento é alto, ele precisa ficar internado, e em quantas horas a endoscopia precisa acontecer.
Há uma segunda regra que organiza tudo o que vem abaixo: nenhum exame de imagem antecede a estabilização, e nenhum exame laboratorial atrasa a droga. Se a decisão de prescrever depende do resultado, ela já está errada.
O que colher na primeira punção, e o que cada tubo responde
Colha tudo na mesma punção em que passa o acesso. Hemograma completo, que dá a hemoglobina de partida — referência das próximas — e a contagem de plaquetas, que aponta hipertensão portal quando está baixa sem outra explicação. Tipagem com prova cruzada e reserva de concentrado de hemácias na agência transfusional antes de precisar: reservar é diferente de transfundir, e reservar cedo é o que compra tempo depois.
Ureia e creatinina no mesmo tubo, e as duas juntas — a ureia sozinha não diz nada. Coagulograma, que aqui estima função hepática e orienta reversão em quem usa antagonista da vitamina K, e não decide o momento da endoscopia. Bilirrubinas, albumina e transaminases, que compõem a gravidade da hepatopatia. Sódio e potássio. Gasometria com lactato, o melhor marcador precoce de hipoperfusão em quem ainda tem pressão compensada. Eletrocardiograma acima de 50 anos ou com dor torácica, porque anemia aguda em coronariopata produz isquemia por demanda.
O que a hemoglobina de chegada não responde é justamente a pergunta que todo mundo faz a ela: ela não mede o volume perdido. Uma hemoglobina de 12,8 em quem vomitou sangue há vinte minutos é compatível com perda grave. Ela só se torna útil na segunda medida, comparada com a primeira, e o que informa é a velocidade da queda.
A conta que separa alto de baixo, e a armadilha de unidade
Sangue absorvido no delgado eleva a ureia sem elevar a creatinina na mesma proporção, e a relação entre as duas vira uma pista barata de que a origem é alta. A literatura internacional expressa essa relação em nitrogênio ureico dividido por creatinina, com cortes em torno de 30. O laboratório brasileiro reporta ureia, e os dois números diferem por um fator fixo de 60 dividido por 28, ou seja 2,14 — a razão entre a massa molar da ureia e a massa dos dois nitrogênios que ela carrega.
Aplicando a conversão ao Genivaldo, com ureia de 96 mg/dL e creatinina de 1,1 mg/dL: o nitrogênio ureico correspondente é 96 dividido por 2,14, ou 44,8 mg/dL, e a relação com a creatinina é 44,8 dividido por 1,1, igual a 40,7. Bem acima de 30, e coerente com sangramento alto. Se alguém tivesse dividido a ureia bruta pela creatinina, teria obtido 87 e concluído a mesma coisa por acaso — mas em valores mais baixos o acaso deixa de funcionar, e é aí que a armadilha morde.
A mesma armadilha reaparece, mais cara, no escore de risco: a tabela do Glasgow-Blatchford lista os cortes em nitrogênio ureico — 18,2, 22,4, 28,0 e 70,0 mg/dL —, que em ureia brasileira correspondem a cerca de 39, 48, 60 e 150 mg/dL. Quem digita a ureia numa calculadora que espera nitrogênio ureico infla o escore, e dois pontos a mais no paciente que estaria elegível para alta são a diferença entre uma internação e uma consulta ambulatorial.

O escore que decide se ele fica, calculado em três pacientes
Entre os escores disponíveis, o de Glasgow-Blatchford é o que melhor prevê a necessidade de intervenção hospitalar ou morte: numa coorte prospectiva internacional com 3.012 pacientes, a área sob a curva foi 0,86, contra 0,70 do Rockall completo, 0,69 do PNED, 0,68 do AIMS65 e 0,66 do Rockall de admissão. A consequência prática é escolher um e usá-lo bem. Ele soma pontos por nitrogênio ureico, hemoglobina — com faixas diferentes por sexo —, pressão sistólica, frequência acima de 100, melena, síncope, hepatopatia e insuficiência cardíaca. Nenhuma variável depende de endoscopia, e é essa a razão de ele existir: decidir destino antes do exame.
Genivaldo, homem, ureia 96 mg/dL, hemoglobina 7,8 g/dL, pressão sistólica 88 mmHg, frequência 118, melena, síncope na chegada e hepatopatia conhecida, soma 19 pontos — a conta está aberta passo a passo no caso resolvido. O índice de choque, que é frequência dividida por pressão sistólica, dá 1,34. Este paciente não é candidato a nada que não seja leito monitorizado.
Dona Neide, 68 anos, diclofenaco há três semanas, melena há dois dias, hemoglobina 9,4 g/dL e ureia 62 mg/dL, com pressão e frequência que não pontuam, soma 11 — a conta está aberta no caso para completar. Índice de choque de 0,78. Ela parece bem e não está.
E o terceiro, o que muda a rotina do serviço: homem de 26 anos que vomitou seis vezes por gastroenterite e na última viu raias de sangue. Pressão 124 por 78, frequência 76, hemoglobina 14,8 g/dL, ureia 28 mg/dL, sem melena, sem síncope, sem hepatopatia. Nitrogênio ureico de 13,1, abaixo de 18,2 — e nenhum item pontua. Escore zero. Com corte igual ou menor que 1, ele vai para casa com endoscopia ambulatorial, orientado sobre os sinais que o trazem de volta. A sensibilidade desse corte para prever quem precisará de intervenção ou morrerá é de 98,6%, com especificidade de 34,6%: erra pouco para menos e bastante para mais, que é o perfil de erro aceitável numa decisão de alta.
A endoscopia: quando, e por que não antes
As definições são fixas e vale usá-las com precisão ao telefone: urgente é até 12 horas da chegada, precoce é até 24 horas, tardia é depois de 24 horas. Para a hemorragia não varicosa, a recomendação é endoscopia precoce, depois da ressuscitação, com recomendação explícita contra a de urgência e contra a de emergência em até 6 horas, que se associou a desfechos piores. O motivo é intuitivo: quem entra na sala hipovolêmico, com estômago cheio de sangue e sem via aérea protegida, corre riscos que a hemostasia precoce não paga.
Há duas exceções, e são elas que fazem a decisão do interno: o paciente que segue instável apesar da ressuscitação adequada, em quem a endoscopia é o tratamento e acontece assim que a equipe estiver pronta; e a suspeita varicosa, para a qual a régua brasileira e o consenso internacional convergem em até 12 horas. É por isso que a pergunta sobre hepatopatia, feita no primeiro minuto, muda o horário que você negocia.
A eritromicina IV antes da endoscopia pode melhorar a visualização em pacientes selecionados com sangramento importante ou persistente. A equipe define indicação, infusão e momento do exame, verifica QT, interações e alergia e confirma disponibilidade hospitalar da apresentação IV. A atualização ESGE de 2026 sugere metoclopramida IV quando eritromicina IV não está disponível, com evidência menos robusta; essa recomendação não é da ESGE de 2021. Considerar contraindicações e o uso fora da indicação de bula em decisão especializada. Não se trata de prescrição rotineira para todo sangramento ou para obstrução mecânica.
O que não se faz antes: tomografia de abdome de rotina, arteriografia de rotina e sondagem nasogástrica de rotina. A sonda merece um parágrafo próprio porque ainda se passa por hábito — ela não decide se a origem é alta, já que aspirado limpo não exclui sangramento duodenal com piloro fechado, dói, provoca vômito em quem já vomita e pode lacerar mucosa esofágica em quem tem varizes. Onde ela ainda tem uso é como via de medicação em paciente já intubado. E o que não se faz depois: endoscopia de revisão de rotina no dia seguinte, que não está recomendada como conduta padrão.
O diferencial dentro do exame, e o que fazer quando a fonte não aparece
A endoscopia digestiva alta faz três coisas ao mesmo tempo, e é isso que a torna insubstituível: identifica a fonte, trata a fonte e classifica o risco de ressangramento. As causas não varicosas mais frequentes são úlcera péptica gástrica e duodenal, lesão aguda de mucosa, laceração de Mallory-Weiss, esofagite e neoplasia; as menos frequentes incluem lesão de Dieulafoy, angiodisplasia e fístula aortoentérica. As varicosas são varizes esofágicas, varizes gástricas e gastropatia hipertensiva portal — esta última sangra em porejamento difuso e não tem alvo para clipar. Úlcera perfurada com pneumoperitônio e isquemia mesentérica entram como diferencial de dor abdominal e têm capítulos próprios; nenhuma das duas se apresenta primariamente como hematêmese.
Na úlcera, a classificação de Forrest, descrita em 1974, traduz o achado em decisão: sangramento ativo em jato (Ia) e em porejamento (Ib), vaso visível não sangrante (IIa), coágulo aderido (IIb), mancha plana pigmentada (IIc) e base limpa (III). O risco de ressangrar e a conduta de cada classe estão na tabela adiante.
Quando a endoscopia é normal e o paciente continua sangrando, o raciocínio muda de andar. Repita o exame se a visualização foi ruim — sangue no estômago esconde lesão, e é para isso que a eritromicina existe. Se a repetição também for normal, o próximo passo depende da estabilidade: no instável com sangramento ativo, angiotomografia seguida de arteriografia com embolização, lembrando que a arteriografia só localiza o que sangra acima de mais ou menos meio mililitro por minuto e precisa ser feita com o paciente sangrando. No estável, colonoscopia para excluir origem baixa e, se normal, investigação do intestino médio com cápsula endoscópica ou enteroscopia.
O que existe no serviço muda esse algoritmo mais do que qualquer preferência. Endoscopia de urgência com endoscopista habilitado em hemostasia e enfermagem treinada 24 horas por dia é o padrão recomendado, e é o que muitos hospitais brasileiros não têm à noite; arteriografia com embolização exige hemodinâmica de plantão; e o TIPS é descrito pela própria régua nacional como indisponível na maioria dos centros do país. Saber disso antes do plantão define se o seu paciente precisa ser transferido às 4h da manhã ou às 10h — e transferência combinada cedo chega viva.
Estabilizar, prescrever na dúvida, endoscopar, decidir onde ele dorme
O quadro clínico orienta a ressuscitação antes de a hemoglobina refletir toda a perda. Limiares restritivos se aplicam principalmente a pacientes estabilizados, não substituem decisão em hemorragia ameaçadora.
- 1Reconhecer sangramento provável e repercussão pela história, exame e evolução; não aguardar presenciar sangue ou realizar toque para iniciar suporte necessário.
- 2Acionar equipe, monitorizar, obter acessos e amostras e preparar sangue. Avaliar proteção de via aérea e necessidade de operador habilitado, sem intubação rotineira de todos.
- 3Na hemorragia importante com choque ou perda em curso, transfundir pela fisiologia e urgência, mesmo antes de Hb cair a sete; seguir protocolo de hemorragia maciça quando indicado.
- 4Após estabilização, preferir estratégia restritiva em geral, individualizando por doença cardiovascular, isquemia, idade e sangramento. Na suspeita varicosa, evitar sobretransfusão, sem aceitar hipoperfusão para obedecer a um alvo.
- 5Iniciar tratamento da fonte provável: vasoativo esplâncnico e profilaxia antimicrobiana na suspeita varicosa; IBP conforme hipótese não varicosa e protocolo, sem atrasar endoscopia.
- 6Organizar endoscopia após ressuscitação inicial, em geral até 12 horas na suspeita varicosa e até 24 horas na não varicosa, antecipando conforme gravidade e equipe.
- 7Interpretar achados e risco de ressangramento, garantindo tratamento apropriado, vigilância e estratégia de resgate se a hemostasia falhar.
- 8Na alta, tratar a causa e prevenir recorrência: H. pylori e medicamentos quando pertinentes, ou plano da hipertensão portal; explicar sinais de retorno e seguimento.
Forrest Ia — jato arterial
Sangue saindo em jato pulsátil de uma artéria erodida. É o achado de maior risco da escala. Recebe adrenalina somada obrigatoriamente a um segundo método, térmico ou mecânico.
Forrest Ib — porejamento
Sangue escorrendo continuamente da base, sem jato. Trata igual ao Ia: adrenalina nunca sozinha, sempre com um segundo método.
Forrest IIa — vaso visível
Nenhum sangramento agora, e um coto vascular saliente no fundo da cratera. Parece resolvido e não está — recebe hemostasia como se estivesse sangrando.
Forrest IIb — coágulo aderido
Coágulo grudado que resiste à irrigação. Tenta-se remover para ver o que há embaixo; se aparecer Ia, Ib ou IIa, trata-se. Se o coágulo ficar, o inibidor de bomba em dose alta entra do mesmo jeito.
Forrest IIc — mancha plana
Mancha pigmentada plana, no nível da mucosa. Terapia endoscópica está desaconselhada: manipular só acrescenta dano.
Forrest III — base limpa
Cratera de fundo limpo, sem estigma nenhum. O menor risco da escala, e o paciente que mais se interna sem necessidade.
| Decisão da primeira hora | Se a suspeita é úlcera | Se a suspeita é variz | Por que difere |
|---|---|---|---|
| Gatilho de hemácias | Transfundir com hemoglobina igual ou abaixo de 7 g/dL, alvo 7 a 9. Com doença cardiovascular, gatilho 8 e alvo igual ou acima de 10 | Mesmo gatilho de 7 g/dL, alvo mais estreito entre 7 e 8 | Volume oferecido ao cirrótico vira pressão portal, não pressão arterial. O ganho da estratégia restritiva foi maior em Child-Pugh A e B |
| Cristaloide | Bolus pequenos, com alvo de perfusão | O mínimo possível, só até a hemácia chegar | Cristaloide não repõe transportador de oxigênio e, na hipertensão portal, forma ascite sem elevar pressão arterial |
| Droga que entra antes do laudo | Inibidor de bomba endovenoso | Inibidor de bomba mais droga vasoativa esplâncnica, assim que a suspeita existir | As duas terapias são compatíveis: a dúvida não justifica adiar nenhuma |
| Antibiótico | Sem indicação profilática | Ceftriaxona 1 g endovenosa por dia, na admissão, por até 7 dias | Na cirrose reduz infecção, ressangramento e mortalidade geral, com risco relativo de 0,79 para morte |
| Prazo da endoscopia | Precoce, até 24 horas, depois da ressuscitação | Até 12 horas da chegada | A hemostasia da variz é o próprio tratamento, e o ressangramento se concentra nos primeiros dias |
Forrest: o achado, o risco de ressangrar e onde o paciente dorme
| Classe | O que o endoscopista vê | Ressangramento sem terapia | Destino, dieta e alta |
|---|---|---|---|
| Ia | Sangramento em jato arterial | 55% a 90% | Leito monitorizado; dose alta de inibidor de bomba por 72 h; alta não antes de 72 h |
| Ib | Sangramento em porejamento | cerca de 30% | Leito monitorizado; dose alta por 72 h; dieta conforme evolução |
| IIa | Vaso visível não sangrante | cerca de 43% | Leito monitorizado; dose alta por 72 h; parece estável e não é |
| IIb | Coágulo aderido resistente à irrigação | cerca de 22% | Enfermaria com monitorização de sinais; dose alta por 72 h |
| IIc | Mancha plana pigmentada | baixo | Enfermaria; inibidor de bomba por via oral; dieta precoce; alta antecipada possível |
| III | Base limpa, sem estigma | o mais baixo da escala | Enfermaria ou alta precoce em paciente selecionado; inibidor de bomba por via oral |
Glasgow-Blatchford: o que soma ponto, com a ureia já convertida
| Item | Faixa (nitrogênio ureico, como na tabela original) | Equivalente em ureia brasileira | Pontos |
|---|---|---|---|
| Nitrogênio ureico | 18,2 a menos de 22,4 mg/dL | cerca de 39 a 48 mg/dL | 2 |
| Nitrogênio ureico | 22,4 a menos de 28,0 mg/dL | cerca de 48 a 60 mg/dL | 3 |
| Nitrogênio ureico | 28,0 a menos de 70,0 mg/dL | cerca de 60 a 150 mg/dL | 4 |
| Nitrogênio ureico | 70,0 mg/dL ou mais | cerca de 150 mg/dL ou mais | 6 |
| Hemoglobina | 12,0 a menos de 13,0 em homens; 10,0 a menos de 12,0 em mulheres | mesmo valor | 1 |
| Hemoglobina | 10,0 a menos de 12,0 em homens | mesmo valor | 3 |
| Hemoglobina | abaixo de 10,0 nos dois sexos | mesmo valor | 6 |
| Pressão sistólica | 100-109 / 90-99 / abaixo de 90 mmHg | — | 1 / 2 / 3 |
| Frequência cardíaca | 100 bpm ou mais | — | 1 |
| Melena / síncope | presente | — | 1 / 2 |
| Hepatopatia / insuficiência cardíaca | presente | — | 2 / 2 |
As três drogas vasoativas esplâncnicas: dose, apresentação e a conta
| Droga | Dose de consenso | Apresentação registrada no Brasil | A conta feita | Onde ela costuma estar |
|---|---|---|---|---|
| Terlipressina | 2 mg em bolus, depois 1 a 2 mg de 4/4 h por 48 h e 1 mg de 4/4 h até 5 dias | Frasco-ampola de 1 mg de acetato, reconstituído com 5 mL de cloreto de sódio a 0,9%, resultando em 0,2 mg/mL | 2 mg = 10 mL = 2 frascos; 1,5 mg = 7,5 mL; 1 mg = 5 mL. Com 2 mg de 4/4 h, são 12 mg e 12 frascos por dia | Fora da relação nacional de medicamentos essenciais — depende de compra do hospital. É a única com redução de mortalidade demonstrada isoladamente |
| Octreotida | 50 a 100 mcg em bolus, depois 50 mcg/h em infusão contínua por 5 dias | Ampola de 1 mL com 0,1 mg/mL, ou seja 100 mcg por ampola | Bolus de 50 mcg = 0,5 mL. Infusão: 5 ampolas (500 mcg) em 95 mL de soro fisiológico dão 100 mL a 5 mcg/mL — 50 mcg/h a 10 mL/h. São 12 ampolas por dia e 60 em 5 dias | Na relação nacional pelo Componente Especializado, mas vinculada ao protocolo da acromegalia; o uso aqui depende do estoque hospitalar |
| Somatostatina | 250 mcg em bolus endovenoso, seguidos de 250 mcg/h por 5 dias | Sem apresentação de circulação corrente no país | — | Citada nos consensos e raramente disponível na prática brasileira |
Os prazos da endoscopia, e para quem vale cada um
| Prazo | Definição | Para quem | O que sustenta |
|---|---|---|---|
| Imediata | Assim que a equipe estiver pronta | Instabilidade hemodinâmica que persiste apesar de ressuscitação adequada | Nesse paciente a hemostasia endoscópica é o próprio tratamento, e adiar é escolher continuar perdendo sangue |
| Urgente | Até 12 horas da chegada | Suspeita de sangramento varicoso | Convergência entre a régua brasileira da hepatologia e o consenso internacional de hipertensão portal |
| Precoce | Até 24 horas da chegada | Hemorragia alta não varicosa, depois da ressuscitação | Recomendação forte, evidência de alta qualidade: menor mortalidade hospitalar e menor tempo de internação |
| Antes de 6 horas | Emergente | Ninguém, como rotina | Recomendação explícita contra: os desfechos não melhoram e podem piorar |
| Ambulatorial | Nos dias seguintes, com o paciente em casa | Escore de Glasgow-Blatchford igual ou menor que 1 | Sensibilidade de 98,6% para prever quem sobrevive sem precisar de intervenção hospitalar |
A referência de 2008 traz “microgramas” em uma linha de terlipressina que deveria estar em miligramas. O esquema apresentado no capítulo, sustentado pelas fontes de hepatologia e pela bula citadas, usa 1–2 mg por administração. Confira sempre a unidade: micrograma e miligrama diferem por um fator de mil.
A formulação disponível determina como administrar o inibidor de bomba. A apresentação de omeprazol citada restringe reconstituição e via e não deve ser adaptada automaticamente para infusão contínua. O pantoprazol apresentado permite diluição para esse uso. Quando a formulação não comportar a infusão, considere o regime intermitente previsto no percurso, com a equipe e a farmácia.
Confira a quantidade de octreotida em cada ampola. Para preparar 0,5 mg com ampolas de 0,1 mg, são necessárias cinco. A palavra “uma” na instrução de diluição citada não corresponde a essa apresentação. Registre quantidade total, volume final e velocidade para entregar a dose prescrita.
O percurso não indica ácido tranexâmico para hemorragia digestiva. O ensaio citado com 12.009 pacientes não mostrou redução de morte por sangramento em cinco dias e encontrou mais eventos tromboembólicos venosos. Não transfira automaticamente o esquema do trauma para esse cenário.
No sangramento varicoso, o percurso desaconselha plasma fresco e fator VIIa recombinante para corrigir isoladamente o coagulograma. Na cirrose, esse exame não traduz sozinho o equilíbrio hemostático, e a expansão com plasma pode aumentar a pressão portal. Avalie a situação clínica e siga a estratégia específica de hemostasia.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do Genivaldo — 54 anos, cirrótico, hematêmese volumosa, pressão 88 por 54 —, mas os marcos valem para qualquer sangramento alto. Onde a conduta se bifurca entre varicoso e não varicoso, os dois caminhos estão escritos, porque a bifurcação real só acontece depois do laudo e antes dela é preciso cobrir as duas.
Minuto 0 a 5 — reconhecer, acessar, e decidir sobre a via aérea
Os primeiros cinco minutos não têm droga nenhuma. Têm três decisões: confirmar com os próprios olhos que existe sangue e de onde ele sai, incluindo toque retal; garantir dois acessos calibrosos com coleta na mesma punção; e decidir a via aérea, que é a que mais se adia. Quem não consegue limpar a boca entre uma golfada e outra precisa ser intubado antes da endoscopia, não durante.
Prescrição- Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com coleta na mesma punção: hemograma, tipagem com prova cruzada e reserva de concentrado de hemácias, ureia e creatinina, coagulograma, bilirrubinas, albumina, transaminases, sódio, potássio e gasometria com lactato
- Monitorização contínua de pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória e oximetria; decúbito elevado a 30 graus; aspirador montado e testado à beira do leito
- Oxigênio suplementar por cateter nasal a 2 a 4 L/min se a saturação estiver abaixo de 94%
- Dieta zero por via oral
- Intubação orotraqueal antes da endoscopia apenas se houver hematêmese ativa em curso que impeça proteger a via aérea, agitação incontrolável ou encefalopatia com incapacidade de proteger a via aérea; a intubação profilática de rotina está desaconselhada (ESGE, Endoscopy 2021, recomendações 16 e 17; SBH, Arq Gastroenterol 2017, que acrescenta encefalopatia graus III e IV e insuficiência respiratória)
Minuto 5 a 20 — reposição por gatilho, não por reflexo
A estratégia restritiva reduz transfusões desnecessárias em pacientes adequadamente avaliados, mas não é uma exigência de aguardar anemia laboratorial durante hemorragia grave. Na perda aguda, a hemoglobina inicial pode subestimar a gravidade. Genivaldo tem hematêmese em curso e hipotensão: sangue e hemostasia são decididos pela fisiologia, enquanto se evita reposição excessiva após estabilizar. Uma unidade costuma elevar Hb em cerca de 1 g/dL apenas em condições sem perda ativa importante; não é previsão confiável neste momento. Quantidade, velocidade e reavaliação dependem do sangramento e da resposta.
Prescrição- Soro fisiológico a 0,9% ou solução balanceada, 250 a 500 mL em bolus endovenoso, repetidos conforme a resposta de perfusão — e não para normalizar o número do manguito (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008, que recomenda o mínimo possível de cristaloide na suspeita varicosa)
- Em paciente estabilizado, estratégia restritiva em geral com limiar próximo de Hb 7 g/dL e reavaliação individual. Em sangramento ameaçador, choque ou perda persistente, não aguardar esse limiar: transfundir conforme fisiologia e protocolo.
- Na doença cardiovascular ou isquemia, individualizar limiar e alvo com a equipe, frequentemente considerando limiar mais alto que sete. Não impor Hb ≥10 a toda cardiopatia estável como regra universal.
- Na hemorragia varicosa após estabilização, buscar reposição conservadora, frequentemente Hb de 7–8 g/dL, considerando idade, cardiopatia, perfusão e sangramento em curso. Não interromper ressuscitação necessária apenas para preservar esse número.
- Tempo de infusão de 60 a 120 minutos por unidade fora da instabilidade franca, com nova dosagem de hemoglobina 1 a 2 horas após o término (Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2015)
Minuto 20 a 60 — as drogas que a dúvida permite
Este é o marco que define o capítulo. Não é preciso saber a causa para prescrever certo. O inibidor de bomba entra em todos, para criar o pH em que um coágulo de úlcera sobrevive. Havendo qualquer suspeita de hepatopatia, entram mais duas: a droga vasoativa esplâncnica e o antibiótico profilático — que é a intervenção com o maior efeito documentado em mortalidade e, invariavelmente, a mais esquecida da lista.
Prescrição- Omeprazol 80 mg por via endovenosa em dose de ataque — dois frascos de 40 mg, cada um reconstituído com os 10 mL do diluente próprio, totalizando 20 mL, injetados lentamente a 2,5 a 4 mL/min, o que leva de 5 a 8 minutos (bulas Cristália e Blau; dose de ataque conforme AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008 e ESGE, Endoscopy 2021, rec. 9)
- Seguido de omeprazol 40 mg por via endovenosa a cada 12 horas, o que entrega 80 mg por dia e cumpre a definição de dose alta usada nos ensaios; o esquema intermitente é aceito como equivalente ao contínuo (ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 13; ESGE, Endoscopy 2021, rec. 9b)
- Havendo suspeita de hepatopatia — terlipressina 2 mg por via endovenosa em bolus lento, o que corresponde a 2 frascos de 1 mg reconstituídos com 5 mL de cloreto de sódio a 0,9% cada, totalizando 10 mL a 0,2 mg/mL; manutenção de 1 a 2 mg a cada 4 horas por 48 horas e depois 1 mg a cada 4 horas até completar 5 dias, com ajuste por peso (1 mg até 50 kg, 1,5 mg de 50 a 70 kg, 2 mg acima de 70 kg) (SBH, Arq Gastroenterol 2017; bula Tergly, reg. MS 1.97357.0006)
- Alternativa à terlipressina — octreotida 50 mcg por via endovenosa em bolus, o que corresponde a 0,5 mL da ampola de 0,1 mg/mL, seguidos de infusão contínua de 50 mcg/h por 5 dias: 5 ampolas, ou 500 mcg em 5 mL, diluídas em 95 mL de soro fisiológico a 0,9% para 100 mL a 5 mcg/mL, correndo em bomba a 10 mL/h (dose conforme SBH, Arq Gastroenterol 2017; apresentação e estabilidade conforme bula Octride, reg. MS 1.4682.0020)
- Havendo suspeita de hepatopatia — ceftriaxona 1 g por via endovenosa a cada 24 horas, diluída em 100 mL de soro fisiológico a 0,9% e infundida em 30 minutos, iniciada na admissão e preferencialmente antes da endoscopia, por até 7 dias (SBH, Arq Gastroenterol 2017; Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025; AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008)
- Em pacientes selecionados com sangramento alto importante ou persistente, discutir eritromicina 250 mg IV antes da endoscopia, em infusão e intervalo definidos pelo protocolo, avaliando QT, interações e alergia. A atualização ESGE de 2026 sugere metoclopramida IV como alternativa quando eritromicina IV não está disponível, nesse contexto selecionado e com evidência menos robusta. É uma decisão da equipe de endoscopia, com conferência de contraindicações e do uso fora da indicação de bula; não extrapolar para abdome agudo ou obstrução mecânica.
Hora 1 a 6 — organizar a endoscopia sem entrar nela às cegas
Esta é a janela em que o interno faz a coisa mais valiosa do plantão: manter a reavaliação de pé enquanto negocia o horário do exame. A ordem certa é ressuscitar, depois olhar; a exceção é quem não estabiliza apesar da reposição adequada. O telefonema precisa levar cinco informações: nome e idade, o que exteriorizou e há quanto tempo, os sinais vitais atuais, se há hepatopatia, e se a via aérea está protegida.
Prescrição- Ácido acetilsalicílico em prevenção secundária de evento cardiovascular: manter; se já suspenso, reintroduzir em 3 a 5 dias. Em prevenção primária: suspender e reavaliar a indicação depois. Em dupla antiagregação: manter o ácido acetilsalicílico e suspender o segundo agente, reintroduzindo-o preferencialmente em até 5 dias, com avaliação da cardiologia (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 5 a 7)
- Nenhum valor de razão normalizada internacional é usado para definir o momento da endoscopia (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 5 do bloco pré-endoscópico)
Hora 6 a 24 — a endoscopia, e o laudo lido como decisão de destino
O exame faz três coisas ao mesmo tempo: acha, trata e classifica. Na úlcera, quem transforma o achado em conduta é a classificação de Forrest — e o interno precisa saber ler o laudo, porque quem escreve a prescrição da enfermaria é ele. A combinação de terapia endoscópica com droga vasoativa é superior a qualquer uma das duas isolada, e é por isso que a droga entrou seis horas antes.
Prescrição- Forrest Ia e Ib — injeção de adrenalina combinada obrigatoriamente a um segundo método, térmico de contato ou mecânico; adrenalina isolada está proscrita (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 5; ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 10)
- Forrest IIa — terapia térmica de contato ou sem contato, terapia mecânica, ou injeção de esclerosante, isoladas ou combinadas com adrenalina (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 6)
- Forrest IIb — irrigação vigorosa para remover o coágulo; o que aparecer embaixo é tratado conforme a classe correspondente (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 9)
- Forrest IIc e III — sem terapia endoscópica; a manipulação acrescenta risco sem ganho (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 10)
- Varizes esofágicas — ligadura elástica como primeira escolha, escleroterapia quando a ligadura for inviável; varizes gástricas — adesivo tecidual (SBH, Arq Gastroenterol 2017; Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025)
- Pesquisa de Helicobacter pylori na própria endoscopia índice em todo paciente com úlcera, com tratamento quando positiva, reteste quando negativa e documentação da erradicação (ESGE, Endoscopy 2021, recomendações 7 a 9 do bloco pós-endoscópico)
- Limites técnicos que definem quando parar: mais de 30 mL de adrenalina a 1/10.000, mais de 2 mL de álcool absoluto ou aplicações térmicas repetidas carregam risco sério de perfuração (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008)
Dia 1 a 3 — sustentar o coágulo, ou sustentar a queda da pressão portal
A partir daqui os dois caminhos se separam de vez. Na úlcera de alto risco, o objetivo é manter o pH gástrico alto o bastante para o coágulo sobreviver às 72 horas em que o ressangramento se concentra; na variz, é manter a pressão portal baixa e impedir a infecção que a faz sangrar de novo. A dieta acompanha: volta cedo na úlcera de baixo risco, e no cirrótico cerca de 24 horas depois de estabilizado o sangramento.
Prescrição- Úlcera Forrest Ia, Ib, IIa ou IIb — inibidor de bomba em dose alta por 72 horas, contínuo ou intermitente: omeprazol 40 mg por via endovenosa a cada 12 horas, ou pantoprazol 80 mg em bolus seguido de 8 mg/h em infusão (ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 13; ESGE, Endoscopy 2021, rec. 9)
- Úlcera Forrest IIc ou III — inibidor de bomba por via oral, omeprazol 20 mg a cada 12 horas, e dieta liberada precocemente (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008; ESGE, Endoscopy 2021, rec. 10)
- Cirrose — manter a droga vasoativa por até 5 dias contados do início: terlipressina 1 mg por via endovenosa a cada 4 horas, ou octreotida 50 mcg/h em infusão contínua (SBH, Arq Gastroenterol 2017; Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025, que fixa o teto de 5 dias)
- Cirrose — completar ceftriaxona 1 g por via endovenosa a cada 24 horas até 7 dias no total (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008; SBH, Arq Gastroenterol 2017)
- Cirrose com sinais clínicos de encefalopatia — lactulose por via oral titulada para 2 a 3 evacuações pastosas por dia; sem indicação profilática em quem não tem encefalopatia (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008)
- Cirrose — realimentação por via oral cerca de 24 horas após a estabilização do sangramento, com restrição de proteína animal apenas enquanto houver encefalopatia (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008)
- Reintrodução de anticoagulante assim que o sangramento estiver controlado, preferencialmente em até 7 dias ou logo depois, conforme o risco tromboembólico e considerando o início rápido de ação dos anticoagulantes orais diretos (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 11 do bloco pós-endoscópico)
Quando volta a sangrar — a escada de resgate
Ressangramento é sangramento que reaparece depois de hemostasia inicialmente bem-sucedida. Acontece em 10% a 20% dos cirróticos apesar do tratamento correto, e 40% dos ressangramentos varicosos se concentram nos cinco primeiros dias. Cada degrau tem indicação e ordem — improvisar a ordem custa tempo que o paciente não tem.
Prescrição- Primeiro degrau, úlcera — nova endoscopia com hemostasia; falhando esta segunda tentativa, considerar clipe over-the-scope, depois embolização arterial transcateter, e cirurgia quando a embolização for indisponível localmente ou tiver falhado (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 8; ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 12)
- Primeiro degrau, variz — segunda tentativa de terapia endoscópica (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008)
- Segundo degrau, variz — balão de Sengstaken-Blakemore por no máximo 24 horas, apenas como ponte, com via aérea protegida; a mortalidade associada chega a 20% por aspiração, migração, necrose e perfuração esofágica. Prótese metálica autoexpansível recoberta é alternativa mais segura onde houver (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008; SBH, Arq Gastroenterol 2017)
- Terceiro degrau, variz — TIPS com prótese recoberta de politetrafluoretileno como resgate, e TIPS precoce em até 72 horas nos de alto risco, definidos como Child-Pugh C de 10 a 13 pontos ou Child-Pugh B com sangramento ativo à endoscopia (SBH, Arq Gastroenterol 2017; Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025). A régua brasileira registra que a estratégia é indisponível na maioria dos centros do país, o que torna a decisão de transferir parte da conduta
- Falha terapêutica no sangramento varicoso é definida como falta de controle do sangramento ou ressangramento nos primeiros 5 dias (Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025)
A alta — o que se prescreve para que ele não volte pela mesma porta
A alta é o marco que o interno mais escreve e menos pensa, e é onde o episódio deixa de ser evento e vira doença crônica tratada ou não tratada. O paciente com úlcera sai com antissecretor, com o fator causal removido e com a erradicação do Helicobacter pylori programada — o esquema e a prova de cura estão no capítulo de doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia; o cirrótico sai com profilaxia secundária. O manejo crônico da hepatopatia pertence ao acompanhamento ambulatorial.
Prescrição- Úlcera — omeprazol 20 mg por via oral uma vez ao dia por 8 semanas; nos pacientes de alto risco que receberam hemostasia endoscópica, manter 20 mg duas vezes ao dia nas duas primeiras semanas após a endoscopia e depois reduzir (AMB/CFM, Projeto Diretrizes 2008; ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 14)
- Úlcera — retirada do fator precipitante: suspensão do anti-inflamatório não esteroidal, revisão da indicação do ácido acetilsalicílico, e tratamento do Helicobacter pylori com documentação da erradicação (ESGE, Endoscopy 2021, recomendações 7 a 9 do bloco pós-endoscópico)
- Quem segue em dupla antiagregação após o episódio — inibidor de bomba como coterapia enquanto durar a dupla antiagregação (ESGE, Endoscopy 2021, rec. 10 do bloco pós-endoscópico)
- Cirrose — propranolol por via oral, 20 a 40 mg duas vezes ao dia, titulado até 160 a 320 mg/dia para frequência de 55 a 60 bpm com pressão sistólica acima de 90 mmHg; com ascite, teto de 160 mg/dia, e suspensão se surgir ascite volumosa ou refratária. Com comprimidos de 40 mg, 160 mg/dia são 4 comprimidos (SBH, Arq Gastroenterol 2017; apresentação conforme Rename 2024)
- Cirrose — ligadura elástica a cada 2 a 4 semanas até a erradicação das varizes, com endoscopia de controle 3 meses após a erradicação e depois a cada 6 a 12 meses, agendada antes da alta (SBH, Arq Gastroenterol 2017)
- Suspensão do inibidor de bomba no cirrótico sem indicação específica após a endoscopia, evitando a prescrição por inércia (Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025)
- Ajuste de dose das medicações de uso contínuo conforme função renal e hepática antes de imprimir a receita, tema do capítulo próprio
Como saber se está funcionando
Ressangramento é diagnóstico de beira de leito. Ele se define como sangramento que reaparece depois de uma hemostasia inicialmente bem-sucedida, e quem o percebe primeiro quase nunca é o laboratório: é quem entra no quarto, olha a comadre, conta a frequência e compara com o número da rodada anterior. A hemoglobina confirma horas depois — e horas depois é tarde para o paciente que voltou a perder meio litro.
Por isso a reavaliação aqui tem um formato próprio. Cada parâmetro precisa de um horário escrito ao lado, porque o que informa não é o valor isolado e sim a série. Pressão 104 por 68 não quer dizer nada; pressão 104 por 68 às 8h20 depois de 126 por 78 às 6h50 quer dizer que alguma coisa mudou nos últimos noventa minutos, e essa é a frase que autoriza mudar a conduta.
Esperado: Nenhuma nova hematêmese, nenhuma evacuação com sangue vivo, sinais vitais estáveis em relação à rodada anterior e paciente que se mantém orientado. Melena residual sem repercussão hemodinâmica é esperada por dias e, sozinha, não configura ressangramento.
Se não melhora: Nova hematêmese, melena com queda de pressão ou taquicardia nova, ou queda de hemoglobina sem outra explicação, definem ressangramento e disparam a escada de resgate. Náusea, vômito ou dor epigástrica intensa quando a dieta é reintroduzida entram na mesma lista de alarme, e acrescentam estenose e perfuração pós-terapia endoscópica ao diferencial.
Esperado: Abaixo de 1,0 e caindo. Na chegada, Genivaldo tinha 118 dividido por 88, ou 1,34; depois de duas unidades de hemácias e da vasoativa, espera-se algo em torno de 0,8.
Se não melhora: Índice que sobe depois de ter caído é a assinatura do ressangramento antes de a pressão despencar, e vale mais que qualquer número isolado. Índice que nunca cai, apesar de reposição adequada, indica sangramento ativo não controlado e transforma a endoscopia em conduta imediata, independentemente do horário combinado. No idoso betabloqueado o índice perde sensibilidade, e o substituto é a série de pressão de pulso, enchimento capilar e diurese.
Esperado: Subida de cerca de 1 g/dL por unidade transfundida, e depois um platô. Com hemoglobina de 6,4 g/dL, uma unidade leva a cerca de 7,4 e já cumpre o alvo; duas levam a 8,4.
Se não melhora: Hemoglobina que não sobe o esperado depois da transfusão significa que o paciente continua perdendo enquanto você repõe, e a conduta muda de categoria: não é mais quantidade de hemácia, é controle da fonte. Hemoglobina que cai depois de ter subido é ressangramento até prova em contrário. E hemoglobina acima de 9 g/dL no cirrótico é sinal de que se transfundiu demais.
Esperado: Acima de 0,5 mL/kg/h. É o marcador de perfusão que mais resiste a interpretação errada, porque não depende de manguito nem de betabloqueador.
Se não melhora: Oligúria persistente com pressão aparentemente aceitável significa perfusão insuficiente e antecede a queda de pressão. No cirrótico, oligúria com creatinina em elevação levanta síndrome hepatorrenal e obriga a rever a reposição — que precisa ser adequada, e não mínima, quando o rim está sofrendo. Sondagem vesical apenas se a medida horária for necessária, e a técnica pertence ao capítulo próprio.
Esperado: Estável ou melhorando. Sangue no tubo digestivo é carga proteica e precipita encefalopatia no cirrótico, de modo que a piora nas primeiras 48 horas é previsível e tratável.
Se não melhora: Rebaixamento novo obriga a reavaliar três coisas ao mesmo tempo: ressangramento com hipoperfusão, encefalopatia hepática e infecção. Instituir lactulose titulada, corrigir os precipitantes corrigíveis — desidratação, hipoglicemia, distúrbio eletrolítico, sedativos — e reconsiderar a proteção da via aérea, porque quem rebaixa com sangue no estômago aspira.
Esperado: Sem febre, sem dor abdominal nova, sem piora da função renal. A profilaxia antibiótica iniciada na admissão reduz a infecção bacteriana com risco relativo de 0,35, mas reduz — não elimina.
Se não melhora: Febre, dor abdominal, piora renal ou piora da encefalopatia em cirrótico com ascite pedem paracentese diagnóstica para investigar peritonite bacteriana espontânea, cujo manejo tem capítulo próprio. Febre nas primeiras 24 horas em quem vomitou sangue também levanta pneumonia por aspiração, e a radiografia de tórax responde barato.
Esperado: Boa tolerância. A terlipressina costuma produzir palidez, elevação de pressão e bradicardia leves — efeito esperado da vasoconstrição, não motivo para suspender.
Se não melhora: Dor precordial, arritmia, alteração isquêmica no eletrocardiograma, palidez com dor em extremidade ou necrose no local da injeção obrigam a suspender a terlipressina e trocar por octreotida. Hiponatremia é frequente e decorre do efeito antidiurético: dosar o sódio diariamente e controlar o balanço hídrico. Doença coronariana conhecida, doença vascular periférica grave e hipertensão não controlada são contraindicações práticas, e nesses pacientes a octreotida entra como primeira escolha.
Onde o erro machuca
O dano: O paciente entra na sala de exame hipovolêmico, sedado, com o estômago cheio de sangue e a via aérea desprotegida. A sedação derruba a pressão que já estava no limite, o exame é interrompido no meio, e a chance de aspiração é máxima justamente quando ninguém está olhando para a saturação. A recomendação contra a endoscopia emergente até 6 horas existe porque os desfechos pioraram nesse cenário.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem mentalmente: ressuscitar, depois olhar. A endoscopia imediata é para quem não estabiliza apesar da reposição adequada — e nesse caso ela é o tratamento, com equipe completa e via aérea decidida antes. Para todo o resto, o prazo é 12 horas na suspeita varicosa e 24 horas no restante, e esse prazo é tempo para trabalhar, não para esperar.
O dano: Transfundir liberalmente aumentou mortalidade em 6 semanas (9% contra 5%), ressangramento (16% contra 10%) e eventos adversos (48% contra 40%) num ensaio com 921 pacientes. No cirrótico o mecanismo é direto: o volume redistribui para o leito esplâncnico, a pressão portal sobe, e a variz que tinha acabado de parar volta a sangrar.
Como pegar a tempo: Reserve cedo e transfunda tarde: reservar hemácias é conduta de minuto zero, transfundir é conduta de gatilho. Uma unidade por vez, com reavaliação entre elas, gatilho de 7 g/dL e alvo de 7 a 9 — mais estreito, de 7 a 8, no cirrótico. O gatilho sobe para 8 g/dL, com alvo igual ou acima de 10, apenas em quem tem doença cardiovascular. E este gatilho é diferente do que se usa no choque hemorrágico do trauma, onde o protocolo é outro e o capítulo é outro.
O dano: É a omissão mais frequente e a mais cara em desfecho duro. A profilaxia antibiótica reduz mortalidade geral com risco relativo de 0,79, mortalidade por infecção com 0,43, infecção bacteriana com 0,35 e ressangramento com 0,53. Sem ela, metade das infecções que aparecem é peritonite bacteriana espontânea, e a endotoxemia agrava a coagulopatia e a hipertensão portal.
Como pegar a tempo: Amarre o antibiótico à mesma decisão que dispara a droga vasoativa: se a suspeita de hepatopatia basta para prescrever terlipressina, basta para prescrever ceftriaxona 1 g por via endovenosa por dia. Escreva as duas na mesma linha da prescrição, na admissão, antes da endoscopia. Ceftriaxona está no Componente Básico da relação nacional de medicamentos essenciais em frasco de 1 g — ela costuma existir onde a terlipressina não existe.
O dano: A combinação de droga vasoativa com terapia endoscópica aumenta o controle inicial do sangramento e reduz o ressangramento precoce — e o efeito depende de a droga estar circulando quando o endoscopista chega. Adiar quatro horas para ter certeza do diagnóstico é abrir mão do único ganho que a associação oferece, num paciente cuja mortalidade por sangramento varicoso é de 19%.
Como pegar a tempo: Trate a suspeita, não a certeza. Hepatopatia conhecida, estigmas ao exame ou história de álcool pesado bastam para iniciar. A droga vasoativa não faz mal a quem acabou sangrando por úlcera, e o inibidor de bomba não faz mal a quem sangrou por variz — é exatamente por isso que a dúvida não justifica adiar nenhuma das duas.
O dano: Na hemorragia aguda perde-se plasma e hemácia na mesma proporção, e a diluição que revela a perda leva de uma a duas horas. Uma hemoglobina de 12,8 em quem sangrou dois litros há vinte minutos é fisiologicamente esperada. Quem lê esse número como tranquilizador libera o leito, cancela a reserva de hemácias e descobre o erro quando a pressão cai — normalmente depois da passagem de plantão.
Como pegar a tempo: Use a hemoglobina como primeira medida de uma série, nunca como veredito. O que decide na primeira hora é hemodinâmica: frequência, pressão, pressão de pulso, enchimento capilar, lactato e índice de choque. Repita a hemoglobina em 6 horas mesmo que a primeira tenha vindo normal, e trate o hematócrito com a mesma desconfiança.
O dano: Aspiração maciça durante a endoscopia ou durante um vômito no corredor. O dano não aparece na sala: aparece seis horas depois como febre, hipoxemia e infiltrado, e entra na estatística como pneumonia, não como hemorragia. Em cirrótico com encefalopatia, o rebaixamento pode acontecer em minutos, e quem não conseguia proteger a via aérea acordado não vai conseguir sedado.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta funcional em voz alta antes de o endoscopista chegar: ele consegue limpar a boca entre uma golfada e outra, deglutir a própria saliva e obedecer a comando? Não em qualquer das três, intubar antes é a conduta. Sim nas três, a intubação profilática de rotina piora desfecho e fica de fora.
O dano: Os dois valores diferem por um fator de 2,14, e a diferença anda toda para o mesmo lado: infla o escore. Uma ureia de 30 mg/dL vale zero ponto quando convertida e 4 pontos quando lida como nitrogênio ureico. Num paciente que estaria com escore igual ou menor que 1 — elegível para endoscopia ambulatorial e alta —, quatro pontos a mais viram uma internação inteira.
Como pegar a tempo: Converta antes de pontuar: nitrogênio ureico é a ureia dividida por 2,14 — ou memorize os cortes já convertidos, cerca de 39, 48, 60 e 150 mg/dL de ureia. E confira uma vez, à mão, o escore de um paciente conhecido antes de confiar em qualquer aplicativo.
O que dizer ao paciente e à família
Há quatro conversas nesta noite, e três delas acontecem enquanto o paciente ainda sangra. A que mais falha não é com a família: é o telefonema para o endoscopista, porque ele decide quando o exame acontece. Com o paciente, a frase que resolve quase tudo é curta — o senhor está sangrando por dentro, a gente precisa olhar por dentro para fechar o ponto que sangra, e antes disso preciso repor o que o senhor perdeu, porque o exame é mais seguro assim.
O telefonema que aciona a endoscopia
“Doutor, aqui é o plantão da emergência. Paciente Genivaldo Ramos da Silva, 54 anos, cirrótico conhecido, hematêmese volumosa há uma hora, dois episódios. Pressão 88 por 54, frequência 118, hemoglobina 7,8, índice de choque 1,34. Já estão correndo terlipressina, ceftriaxona e omeprazol, dois acessos calibrosos instalados e duas unidades reservadas. Ele está lúcido e protege a via aérea por enquanto. Como é cirrótico, a régua é endoscopia em até 12 horas — se ele não estabilizar com a reposição, eu ligo de novo e aí é agora.”
Não diga: "Tem um paciente vomitando sangue aqui, dá para descer?" Sem idade, sem hepatopatia, sem sinais vitais e sem dizer o que já foi feito, o endoscopista não consegue priorizar entre o seu paciente e os outros três da lista. Dizer que ele é cirrótico é o que move o horário de 24 para 12 horas.
A família que pede mais sangue, e a decisão de transfundir menos
“Eu sei que parece pouco. A gente já repôs uma bolsa e a hemoglobina dele subiu para 7,4, que é onde a gente quer que ela fique agora. Em quem sangra por varizes do esôfago, colocar sangue demais aumenta a pressão dentro dessas veias e faz elas voltarem a sangrar — isso foi medido em estudo grande, e quem recebeu menos sangue viveu mais. Se ele piorar ou a hemoglobina cair, a gente transfunde na hora. Não é economia; é o que funciona melhor.”
Não diga: "O protocolo é assim." A família não tem obrigação de confiar em protocolo, e a frase soa a recusa administrativa. Dar o mecanismo em uma frase — mais sangue, mais pressão, mais sangramento — e prometer transfundir se ele piorar transforma a mesma decisão em cuidado explicado.
Você é o interno e acha que o paciente ressangrou
“Pressão 92 por 58 e frequência 124 agora, às 9h10. Às 7h30 estava 118 por 72 com 88. Índice de choque subiu de 0,75 para 1,35. Ele evacuou melena volumosa há dez minutos e está mais pálido. Não colhi hemoglobina ainda, mas acho que isso é ressangramento.”
Não diga: "Acho que ele piorou." Impressão sem números e sem horários é ouvida como impressão. Dois pares de sinais vitais com dois horários viram uma série, e série é o que autoriza reabrir a sala de endoscopia às nove da manhã. E não espere a hemoglobina para avisar.
Falar com a família do cirrótico sobre o que vem depois
“A gente conseguiu parar o sangramento desta vez. Preciso ser honesto sobre o que isso significa: quem sangra por varizes tem chance real de sangrar de novo nas próximas semanas. Ele vai sair daqui com um remédio para diminuir a pressão nessas veias e com data marcada para voltar e tratar as varizes por endoscopia, várias vezes, até elas sumirem. Se ele não vier nessas consultas, o risco volta a ser alto. Não dá para prometer que não vai acontecer de novo; dá para reduzir bastante, e o que reduz depende de vocês virem.”
Não diga: "Deu tudo certo, ele já pode ir para casa." É verdadeiro sobre o episódio e falso sobre a doença, e a família ouve a segunda parte. Prometer que não vai acontecer de novo é a promessa que mais volta contra quem a fez: o ressangramento em seis semanas chega a 30% a 40%.
Falar de álcool sem sermão, na alta
“Uma coisa que eu preciso perguntar e que muda muito o que vai acontecer com o senhor: como está a bebida hoje? Não estou perguntando para julgar, e sim porque parar de beber é o que mais muda o funcionamento do fígado e o risco de sangrar de novo — mais que qualquer remédio desta receita. Se o senhor quiser, eu marco atendimento com uma equipe que ajuda nisso. E se estiver difícil, isso é comum, e a gente trata como qualquer outra doença.”
Não diga: "O senhor precisa parar de beber." É verdade, todo mundo já disse, e a frase encerra a conversa em vez de abri-la. Perguntar antes de instruir, oferecer encaminhamento concreto e nomear a dificuldade como esperada é o que faz o paciente responder de verdade.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Iniciar antes, desde que não atrase nada
A sociedade europeia sugere considerar inibidor de bomba em dose alta antes do exame, com a ressalva expressa de que ele não deve retardar a endoscopia precoce. O argumento é o mecanismo somado ao dado disponível: elevar o pH estabiliza coágulo, e o ensaio dedicado mostrou menos estigma de alto risco encontrado e menos hemostasia necessária na endoscopia índice, com risco relativo de 0,73.
ESGE, Endoscopy 2021, rec. 19 do bloco pré-endoscópico
Sem recomendação a favor nem contra
A diretriz americana revisou os mesmos três ensaios e concluiu que não conseguia recomendar em nenhuma direção: o ensaio de referência não encontrou diferença em ressangramento (3,5% contra 2,5%) nem em mortalidade (2,5% contra 2,2%), e o único desfecho que se moveu não é desfecho de paciente. No cirrótico, o consenso de hipertensão portal vai além e recomenda descontinuar o inibidor de bomba depois da endoscopia, salvo indicação específica.
ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 4; Baveno VII, via World J Gastroenterol 2025
Considere o tempo até a endoscopia ao decidir sobre inibidor de bomba antes do exame, sem permitir que a administração o atrase. Após a endoscopia, revise a indicação e a intensidade do esquema conforme o achado e a hemostasia realizada. Lesões de alto risco seguem o tratamento de dose alta por 72 horas apresentado; os demais cenários exigem ajuste próprio.
Tentar remover e tratar o que aparecer
A sociedade europeia sugere considerar a remoção endoscópica do coágulo; uma vez removido, qualquer sangramento ativo ou vaso visível identificado embaixo recebe hemostasia. O raciocínio é que o coágulo esconde a lesão real, e cerca de 22% desses pacientes ressangram.
ESGE, Endoscopy 2021, rec. 9 do bloco endoscópico
Sem recomendação a favor nem contra
A diretriz americana avaliou a mesma pergunta e registrou que não conseguiu chegar a uma recomendação sobre terapia endoscópica em úlcera com coágulo aderido resistente à irrigação vigorosa. O contra-argumento é que remover o coágulo pode converter uma lesão que não sangra numa que sangra, dentro de uma sala onde nem sempre há o segundo método pronto.
ACG, Am J Gastroenterol 2021, rec. 7
Registre se o coágulo aderido foi mantido ou removido e se houve tratamento de vaso subjacente. Essa informação orienta vigilância e esquema de inibidor de bomba. A decisão endoscópica depende de estabilidade, experiência e material de hemostasia. O interno deve obter o relatório completo e confirmar o plano após o procedimento.
Vale para todos, e o ganho é maior justamente no cirrótico
No ensaio que fixou o gatilho de 7 g/dL, o subgrupo com cirrose Child-Pugh A ou B teve o maior benefício da estratégia restritiva, com razão de risco de morte de 0,30 (0,11 a 0,85). O mecanismo sustenta o achado: transfundir demais eleva a pressão portal e o ressangramento, e ressangramento prediz mortalidade nesse grupo.
Villanueva C et al., N Engl J Med 2013;368:11-21
No Child-Pugh C o benefício não apareceu, e o alvo é individual
No mesmo ensaio, o subgrupo Child-Pugh C não mostrou diferença entre as estratégias (razão de risco 1,04; 0,45 a 2,37). A régua brasileira da hepatologia aceita alvo de 7 a 9 g/dL e admite valores mais altos conforme idade, comorbidade e sangramento em curso, em vez de fixar um número único.
Villanueva C et al., N Engl J Med 2013; SBH, Arq Gastroenterol 2017
Aplique a estratégia restritiva principalmente após estabilização. Sangramento ativo não controlado, hipoperfusão e condições cardiovasculares exigem avaliação individual, sem esperar um corte isolado de hemoglobina. Documente o motivo de qualquer alvo diferente do percurso e reavalie entre unidades quando a situação permitir. Resultado inconclusivo de subgrupo não demonstra benefício de transfundir mais.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao Genivaldo: 54 anos, pedreiro, cirrose alcoólica há três anos, abstinente há oito meses, 78 kg. Chega às 3h40 com duas hematêmeses volumosas em casa e uma terceira na sala. Pressão 88 por 54, frequência 118, frequência respiratória 26, saturação 94% em ar ambiente. Lúcido, lentificado, ictérico, com ascite e edema. Toque retal com melena. Hemoglobina 7,8 g/dL, plaquetas 84.000, ureia 96 mg/dL, creatinina 1,1 mg/dL, razão normalizada internacional 1,6, albumina 2,7 g/dL, bilirrubina total 3,4 mg/dL. O hospital tem agência transfusional no prédio e endoscopista de sobreaviso, que chega em cerca de duas horas.
o que penso na porta, antes de qualquer laudo
Sangramento digestivo alto com repercussão hemodinâmica, em cirrótico. Índice de choque: 118 dividido por 88, ou 1,34. A hipótese mais provável é varicosa, mas quase um terço dos cirróticos que sangram sangram por outra coisa — e eu não preciso escolher, porque as duas terapias iniciais convivem. O que decide os próximos minutos não é o diagnóstico: é se ele protege a via aérea, quanto eu reponho e quais drogas entram agora.
a via aérea, decidida em voz alta
Ele está lúcido, responde a comandos, deglute a própria saliva e vira a cabeça quando vomita. Não indico intubação profilática — de rotina ela piora desfecho. Mas anoto o critério para não ter que redescobri-lo às pressas: se ele rebaixar, se agitar, ou se a hematêmese voltar em volume que impeça limpar a boca, a intubação acontece antes da endoscopia. Aspirador montado, cabeceira a 30 graus, carrinho de via aérea no quarto.
Reposição guiada por perfusão, perda e evolução
Dois acessos calibrosos, coleta, reserva e acionamento de sangue e endoscopia em paralelo. Hemoglobina de 7,8 não impede transfusão diante de hematêmese em curso e choque. Inicio reposição necessária com a equipe e reavalio continuamente a perfusão e a perda; se houver hemorragia ameaçadora, sigo o protocolo apropriado. Não prevejo Hb de 8,8 após uma unidade enquanto ele continua sangrando. Após estabilizar, uso estratégia conservadora para evitar sobretransfusão e organizo controle definitivo.
as três drogas, e por que nenhuma espera o laudo
Omeprazol 80 mg por via endovenosa em bolus — dois frascos de 40 mg reconstituídos com 10 mL cada, 20 mL correndo em 5 a 8 minutos —, depois 40 mg de 12/12 h. Terlipressina 2 mg por via endovenosa em bolus, que são dois frascos reconstituídos, 10 mL a 0,2 mg/mL; ele tem 78 kg, então a manutenção será de 2 mg de 4/4 h nas primeiras 48 horas. E ceftriaxona 1 g por via endovenosa por dia, iniciada agora e antes da endoscopia — é a prescrição desta hora com o maior efeito documentado em mortalidade, e a que mais se esquece.
o escore, calculado, e o horário que ele negocia
Glasgow-Blatchford: ureia de 96 mg/dL corresponde a nitrogênio ureico de 44,8, faixa de 4 pontos. Hemoglobina abaixo de 10, 6 pontos. Pressão abaixo de 90, 3. Frequência acima de 100, 1. Melena, 1. Síncope na chegada, 2. Hepatopatia, 2. Total 19 — paciente de leito monitorizado, não de decisão de alta. Ligo para o endoscopista dizendo que é cirrótico, porque isso move a régua de 24 para 12 horas, e aviso que, se ele não estabilizar com a reposição, o exame passa a ser imediato.
o que a endoscopia responde, e como ela muda o que eu penso
Às 6h20, com pressão 108 por 66 e frequência 96 depois de uma unidade e da terlipressina, ele desce estável. O exame mostra varizes de esôfago de grosso calibre com sinais vermelhos e sangramento ativo em cordão do terço distal, tratado com ligadura elástica de quatro bandas; não há úlcera. Isso reorganiza a prescrição: mantenho a terlipressina por 5 dias contados do início, completo os 7 dias de ceftriaxona, e o inibidor de bomba perde a indicação que tinha — no cirrótico sem úlcera, o consenso de hipertensão portal recomenda descontinuar depois do exame.
o que eu escrevo para as próximas 72 horas
Leito monitorizado. Sinais vitais com índice de choque anotado a cada 4 horas. Hemoglobina em 6 e em 12 horas. Sódio diário, porque a terlipressina causa hiponatremia. Pressão e frequência antes de cada dose, com suspensão se houver dor precordial ou isquemia de extremidade. Dieta zero por 24 horas e depois realimentação. Lactulose apenas se aparecer encefalopatia. E a linha que fecha o plano: propranolol e programa de ligadura agendados antes da alta, porque 30% a 40% ressangram em seis semanas.
Faça você
Agora é outra paciente, no mesmo plantão. Dona Neide, 68 anos, hipertensa e artrósica, em uso de diclofenaco 50 mg de 8/8 h há três semanas. Chega com melena há dois dias e fraqueza progressiva, sem hematêmese e sem dor abdominal. Nega hepatopatia, álcool e sangramento prévio. Pressão 118 por 72, frequência 92, frequência respiratória 18, saturação 97% em ar ambiente. Mucosas descoradas 2 cruzes, sem icterícia, sem estigmas de hepatopatia, abdome indolor. Toque retal com melena francamente enegrecida e brilhante. Hemoglobina 9,4 g/dL, plaquetas 265.000, ureia 62 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL, razão normalizada internacional 1,0. Eletrocardiograma sem alterações isquêmicas.
por que os sinais vitais dela não tranquilizam
Pressão 118 por 72 numa hipertensa de longa data pode ser hipotensão relativa, e frequência de 92 numa idosa pode ser a taquicardia possível para ela. O índice de choque é 92 dividido por 118, ou 0,78 — a favor. Mas ela tem dois dias de perda contínua, mucosas descoradas e hemoglobina de 9,4, e essa hemoglobina já teve tempo de equilibrar: ao contrário do sangramento de vinte minutos, aqui o número reflete a perda real.
o escore, calculado passo a passo
Ureia de 62 mg/dL dividida por 2,14 dá nitrogênio ureico de 28,9 mg/dL, que cai na faixa de 28,0 a 70,0 e vale 4 pontos. Hemoglobina de 9,4, abaixo de 10, vale 6 em qualquer sexo. Pressão sistólica de 118 e frequência de 92 não pontuam. Melena vale 1. Sem síncope, sem hepatopatia, sem insuficiência cardíaca. Total: 11. Muito acima do corte de 1 que autorizaria manejo ambulatorial. E a relação entre nitrogênio ureico e creatinina é 28,9 dividido por 0,9, ou 32 — acima de 30, coerente com origem alta apesar de ela nunca ter vomitado sangue.
o que ela não vai receber, e por quê
Sem hepatopatia e sem estigmas, não há indicação de droga vasoativa esplâncnica nem de antibiótico profilático — as duas entram pela suspeita de hipertensão portal, e ela não a tem. Também não entra ácido tranexâmico. E, com hemoglobina de 9,4, ela está acima do gatilho de 7: hemácias ficam reservadas, não infundidas, e o diclofenaco é suspenso agora.
conduta
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
Explique por que a transfusão de Genivaldo é guiada pela perda e pelo choque, e como o objetivo muda após controlar a hemorragia.
Questão integrativa 1
Hb de 7,8 impede transfundir Genivaldo em choque?
Questão integrativa 2
Uma unidade garante aumento de 1 g/dL enquanto ele sangra?
Questão integrativa 3
A meta conservadora da hemorragia varicosa autoriza deixar o paciente hipoperfundido?
Questão integrativa 4
Todo paciente com hematêmese deve ser intubado?
Questão integrativa 5
É preciso confirmar varizes por endoscopia antes de iniciar tratamento da suspeita?
Questão integrativa 6
O que evita outra internação depois da hemostasia?
Ver como fecharíamos
A conduta é internar, prescrever inibidor de bomba endovenoso, reservar hemácias sem transfundir e programar endoscopia digestiva alta em até 24 horas — o prazo de 12 horas vale para a suspeita varicosa, que aqui não existe. Escreva: dieta zero; dois acessos periféricos; tipagem com prova cruzada e reserva de duas unidades; soro fisiológico em manutenção; omeprazol 80 mg por via endovenosa em bolus, seguidos de 40 mg de 12/12 h; suspensão imediata do diclofenaco; sinais vitais de 4 em 4 horas com índice de choque anotado; e nova hemoglobina em 6 horas. Transfunda apenas se a hemoglobina cair a 7 g/dL ou se surgir repercussão hemodinâmica — ela é hipertensa, mas não tem doença cardiovascular estabelecida, então o gatilho de 8 g/dL não se aplica. Considere eritromicina 250 mg por via endovenosa antes do exame, pelo ganho de visualização, se a apresentação injetável existir no serviço. Depois do laudo, a classificação de Forrest decide o resto: Ia, Ib ou IIa recebem terapia endoscópica e inibidor de bomba em dose alta por 72 horas em leito monitorizado; IIc ou III dispensam terapia, recebem inibidor de bomba por via oral, dieta precoce e podem ter alta antecipada. Em qualquer cenário, pesquise Helicobacter pylori na própria endoscopia, documente a erradicação depois, e troque a analgesia do joelho por algo que não seja anti-inflamatório não esteroidal — porque o que a trouxe aqui foi o diclofenaco, e mantê-lo é garantir a volta. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Perda ativa e hipoperfusão orientam a decisão antes de a Hb refletir toda a hemorragia. 2. Não. Essa é uma estimativa para condições sem perda ativa importante; acompanhar resposta e exames. 3. Não. Evitar excesso e tratar choque são objetivos simultâneos. 4. Não. Avaliar proteção, ventilação, sangramento e procedimento com equipe habilitada. 5. Não. Suspeita consistente permite iniciar medidas indicadas enquanto se organiza endoscopia. 6. Tratamento da causa, revisão de medicamentos, prevenção específica, orientação de retorno e seguimento.
As duas terapias iniciais são compatíveis com a dúvida, e é por isso que não se espera o laudo. O inibidor de bomba cria o pH em que um coágulo de úlcera sobrevive; a droga vasoativa reduz a pressão portal; e o antibiótico é a prescrição desta hora com o maior efeito documentado em mortalidade na cirrose que sangra, com risco relativo de 0,79 para morte, além de reduzir infecção e ressangramento. Transfundir até 10 g/dL é dano ativo: o volume redistribui para o leito esplâncnico, sobe a pressão portal e faz a variz voltar a sangrar — no ensaio de referência, a estratégia liberal teve mais morte e mais ressangramento. Sonda nasogástrica não exclui sangramento alto, porque aspirado limpo é compatível com sangramento duodenal com piloro fechado, e pode lacerar mucosa em quem tem varizes.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reescreva de memória, sem consultar: as seis classes de Forrest com o risco de ressangramento e quais recebem terapia endoscópica; as três drogas que entram antes do laudo e em quem; o gatilho transfusional e o alvo, com a exceção da doença cardiovascular; e os três prazos da endoscopia com o paciente de cada um. Depois calcule o Glasgow-Blatchford de dois pacientes que você atendeu esta semana, convertendo a ureia do laboratório para nitrogênio ureico antes de pontuar. E confira quatro coisas que dependem só do seu serviço: se há terlipressina ou octreotida no estoque, se há eritromicina injetável, qual é o telefone do endoscopista de sobreaviso à noite, e quanto tempo leva a primeira bolsa de hemácias da agência transfusional até o leito.
Em 30 dias
Refaça os dois casos mudando um dado por vez e veja onde a decisão quebra: e se o Genivaldo estivesse com Glasgow 11 e agitado; e se a hemoglobina dele fosse 5,9 em vez de 7,8; e se ele fosse coronariopata; e se o hospital não tivesse terlipressina. E se a Dona Neide tomasse rivaroxabana; e se a ureia dela fosse 30 em vez de 62; e se a endoscopia dela viesse normal e a melena continuasse. Depois pegue o último paciente que você viu internar por hemorragia digestiva e responda por escrito: ele era cirrótico, e recebeu antibiótico? Quantas bolsas recebeu, e qual foi a hemoglobina que justificou cada uma? Quantas horas separaram a chegada da endoscopia? E o que estava escrito na receita de alta?
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 61 anos, trazida pelo filho às 5h da manhã com dois episódios de vômito com sangue vivo e um desmaio no banheiro. Ela tem hepatite C tratada há dez anos, usa naproxeno por conta própria para dor lombar, e o filho não sabe dizer se ela bebe. Você tem monitor, dois acessos, laboratório que devolve em quarenta minutos, agência transfusional no prédio e um endoscopista que só chega às 8h. Conduza da porta ao destino: diga o que confirma antes de tratar, decida a via aérea em voz alta, prescreva o que a dúvida permite, calcule o escore com a ureia que vier, negocie o horário do exame e diga como saberá, às 7h, se ela voltou a sangrar.
