Cirurgia Geral › Cirurgia do Aparelho Digestivo
A virilha se examina de pé
Hérnia inguinal e femoral: anatomia, técnica e encarceramento
Examinar a virilha, distinguir hérnia redutível e irredutibilidade aguda e reconhecer suspeita de isquemia que exige intervenção urgente.
Claus CMP, Oliveira FMM, Furtado ML, Azevedo MA, Roll S, Soares G, Nacul MP, Rosa ALM, Melo RM, Beitler JC, Cavalieri MB, Morrell AC, Cavazzola LT. Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia (SBH) para o manejo das hérnias inguinocrurais em adultos. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. 2019;46(4):e20192226. DOI 10.1590/0100-6991e-20192226. Licença Creative Commons Atribuição 4.0
HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia. 2018;22(1):1-165. DOI 10.1007/s10029-017-1668-x. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial 4.0 Internacional
Stabilini C, van Veenendaal N, Aasvang E, et al. Update of the international HerniaSurge guidelines for groin hernia management. BJS Open. 2023;7(5):zrad080. DOI 10.1093/bjsopen/zrad080. Licença Creative Commons Atribuição 4.0
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral Adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 07 de dezembro de 2020. Publicado ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Portaria SAES/MS nº 3.245, de 9 de setembro de 2025, e seu Anexo I. Diário Oficial da União, publicado em 10/09/2025, Edição 172, Seção 1, página 182
São Paulo (município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenação Municipal de Regulação, Avaliação e Controle, Gerência de Regulação. Protocolo de Acesso — Cirurgia de Hérnia. 4 páginas, sem data impressa no documento; obtido no repositório de documentos da Biblioteca Virtual em Saúde
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional
Fitzgibbons RJ Jr, Ramanan B, Arya S, Turner SA, Li X, Gibbs JO, Reda DJ; Investigators of the Original Trial. Long-term results of a randomized controlled trial of a nonoperative strategy (watchful waiting) for men with minimally symptomatic inguinal hernias. Annals of Surgery. 2013;258(3):508-515
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 7.266, de 18 de junho de 2025, que institui o Programa Agora Tem Especialistas; e Lei nº 15.233, de 7 de outubro de 2025
HerniaSurge. Update of the international guidelines for groin hernia management, 2023. [Acessar fonte](https://academic.oup.com/bjsopen/article/7/5/zrad080/7325871)
Responda antes de ler
Paciente retorna dez dias após herniorrafia inguinal aberta com tela, referindo um abaulamento na virilha operada. Ao exame, trata-se de tumefação mole, indolor, sem sinais flogísticos, sem impulso à tosse e sem febre. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira. Você é o interno da cirurgia geral de um hospital de ensino que atende a região inteira, e o seu dia tem duas metades que parecem não ter nada a ver uma com a outra. De manhã, ambulatório. À noite, plantão no pronto-socorro. As duas metades vão ser sobre a mesma coisa, e você só vai perceber isso perto das duas da manhã.
Nove e dez. Pelagio Ubaitaba, 58 anos, motorista de caminhão, entra na sala 4 com um envelope de exames debaixo do braço e uma pergunta pronta: doutor, isso aqui vai estourar? Ele descreve um caroço na virilha direita que apareceu há três anos, que some quando ele deita e volta quando ele levanta, que incomoda no fim do dia e nas subidas com carga, e que nunca doeu de verdade. Foi encaminhado pela unidade básica há catorze meses e está esperando. Trouxe uma ultrassonografia que a unidade pediu e que diz o que ele já sabia: hérnia inguinal à direita.
Você examina Pelagio deitado e não acha grande coisa. Pede que ele fique de pé. O abaulamento aparece antes mesmo de você mandar tossir, ocupa a região acima e medialmente ao tubérculo púbico, é mole, reduz com dois dedos e volta assim que ele tosse de novo. Ele pergunta duas coisas: quanto tempo mais, e se pode continuar trabalhando. As duas respostas estão neste capítulo, e nenhuma delas é vamos ver.
Vinte e três e quarenta. Ninfa Abranches, 79 anos, viúva, mora sozinha, 46 quilos, chega ao pronto-socorro trazida pela vizinha por vômitos que começaram no fim da tarde e por uma dor abdominal em cólica que agora não passa mais. Não elimina gases desde a hora do jantar. Está lúcida, seca, com frequência cardíaca de 104 e pressão arterial de 108 por 62. A triagem escreveu vômitos, investigar. O abdome está distendido e difusamente doloroso, sem defesa. Não há cicatriz nenhuma na parede.
É aqui que o dia de Pelagio e a noite de Ninfa se encontram. A causa da obstrução dela não está dentro do abdome: está numa saliência de dois centímetros, tensa e dolorosa, abaixo do ligamento inguinal direito e lateralmente ao tubérculo púbico — o lugar exato onde ninguém olha quando o motivo da consulta foi vômito. Ela nunca soube que tinha aquilo, porque aquilo nunca doeu. Nas próximas horas alguém vai ser tentado a empurrar aquele caroço para dentro, e essa é a pior coisa que se pode fazer com ele.
Este capítulo é sobre as duas cenas. A primeira ensina o que se faz com a hérnia que espera: como se examina, o que se escreve no encaminhamento, o que se responde sobre trabalho, tela e cirurgia, e por que a fila em que Pelagio está não é um detalhe administrativo. A segunda ensina a hora em que a hérnia deixa de esperar: como se reconhece, por que a femoral chega assim com muito mais frequência, o que muda entre encarcerar e estrangular, e o que exatamente se perde ao reduzir uma alça que já não é viável.
Quem adoece disso
A hérnia da virilha é a doença cirúrgica mais banal que existe, e é essa banalidade que produz os erros deste capítulo. A diretriz internacional de 2018 estima a ocorrência ao longo da vida em 27% a 43% nos homens e em 3% a 6% nas mulheres. A Sociedade Brasileira de Hérnia, em 2019, cita o risco nas mulheres como 3% — o piso da faixa que o documento internacional dá, e que a própria brasileira toma como referência. A diferença não muda conduta, mas explica por que os dois textos parecem discordar quando lidos lado a lado.
A assimetria entre os sexos é enorme, e ela é a origem do ponto cego. Segundo a Sociedade Brasileira de Hérnia, o reparo cirúrgico é oito a dez vezes mais comum em homens, e apenas 8% a 9% de todas as correções de hérnia inguinal e crural são feitas em mulheres. Um interno que passa seis meses na cirurgia geral vê dezenas de virilhas masculinas e talvez três femininas. Quando a quarta chega, ela chega às onze da noite, com vômito, e com a hérnia que ele nunca viu.
A hérnia crural, ou femoral, é rara em números absolutos e desproporcional em consequência. Ela ocorre cerca de quatro vezes mais em mulheres do que em homens, e é a razão pela qual as mulheres têm mais recorrência depois de reparo aberto anterior: em cerca de 40% das reoperações após tela anterior ou reparo sem tela, o que se encontra é uma recorrência crural — quer dizer, uma hérnia femoral que já estava lá e não foi vista, ou que passou a existir sob a tela que não cobria aquele orifício.
Os números que interessam ao plantão são estes, todos da Sociedade Brasileira de Hérnia citando os registros nacionais sueco e dinamarquês: 36% a 39% das hérnias crurais são operadas em caráter de emergência, contra 5% das inguinais. Vinte e três por cento dos pacientes submetidos a reparo de urgência de hérnia crural precisam de ressecção intestinal, contra cerca de 5% dos que fazem reparo de urgência de hérnia inguinal. E a mortalidade em 30 dias, que no reparo eletivo de crural é comparável à da população geral de mesma idade e sexo — abaixo de 0,1% —, sobe para 3,8% quando o mesmo reparo é feito de emergência. É o mesmo defeito anatômico, na mesma paciente, com dois desfechos separados por algumas horas e por uma decisão.
Vale olhar esses três números juntos, porque eles se restringem uns aos outros. O mesmo documento diz que 17% das mulheres com hérnia inguinocrural precisam de reparo de urgência, contra 5% dos homens. Se a crural opera de urgência em 36% a 39% dos casos e a inguinal em 5%, então para que a média das mulheres dê 17% seria preciso que entre 35% e 39% das hérnias operadas em mulheres fossem crurais. É uma fração alta, que o documento não afirma em lugar nenhum, e o leitor precisa saber que ela é uma consequência aritmética das três frases, não um dado publicado. A conta está feita por extenso nas notas de auditoria.
Do lado do sistema, o Brasil opera muita hérnia e não consegue contar quantas são femorais. A Tabela de Procedimentos do SUS, na versão anexa à Portaria SAES/MS nº 3.245, de setembro de 2025, tem um único código para hernioplastia inguinal e crural unilateral. Inguinal e femoral entram no mesmo lançamento. Isso quer dizer que a produção hospitalar nacional, que é a base de qualquer estatística brasileira sobre o assunto, não separa a hérnia que quase nunca estrangula da hérnia que estrangula em mais de um terço dos casos. O país não mede, no seu próprio faturamento, exatamente a quantidade da qual depende a recomendação da sua própria sociedade de especialidade.
Este capítulo não abriu o banco de dados de morbidade hospitalar do Ministério da Saúde e por isso não afirma nenhum número de herniorrafias por ano no Brasil. Circulam estimativas em periódicos que não foram lidos no original; ficam de fora. O que se pode afirmar, porque foi lido, é que a herniorrafia inguinal está no rol de procedimentos do programa federal de redução de fila cirúrgica, com valores de tabela que a seção de critérios examina — e que o desenho desses valores tem consequências que ninguém escreveu de propósito.
Por que acontece o que acontece
A virilha tem um buraco que a evolução não fechou. Ele se chama orifício miopectíneo, é delimitado acima pelos músculos oblíquo interno e transverso, abaixo pelo ramo púbico e pelo ligamento pectíneo, medialmente pela borda do reto abdominal e lateralmente pelo músculo iliopsoas, e por ele passam tudo o que precisa sair do abdome e descer para a coxa e para a bolsa escrotal: o funículo espermático ou o ligamento redondo, e os vasos femorais. O que segura a parede ali não é osso nem músculo contínuo: é fáscia. Toda hérnia da virilha é uma falha em algum ponto desse mesmo orifício, e é por isso que o reparo por via posterior, que cobre o orifício inteiro com uma tela só, resolve os três tipos de uma vez.
Cortando esse orifício de fora a fora corre o ligamento inguinal, e ele reparte a região em dois pisos. No piso de cima nascem as hérnias inguinais. No de baixo, num espaço apertado entre esse mesmo ligamento, o ligamento lacunar, o ligamento pectíneo e a veia femoral, existe um anel estreito e duro por onde a hérnia femoral se enfia. Guardar essa geometria é o que permite examinar a virilha com sentido, em vez de apalpar por hábito.
As inguinais são de dois tipos, e o que as separa é a artéria epigástrica inferior. A indireta entra pelo anel inguinal profundo, lateralmente aos vasos epigástricos, e percorre o canal inguinal como se fosse um trilho pronto — é o trajeto do testículo na vida fetal, e o processo vaginal que devia ter se fechado é a razão de ela ser a hérnia dos jovens e das crianças. A direta empurra a parede posterior do canal medialmente aos vasos epigástricos, num triângulo de fáscia enfraquecida, e por isso não tem saco verdadeiro: o que abaula é a própria fáscia transversal frouxa, com gordura pré-peritoneal atrás. A direta é doença de parede envelhecida; a indireta é defeito de fechamento.
Essa distinção vale muito na mesa e quase nada à beira do leito. As manobras clássicas de ocluir o anel profundo com o dedo e mandar tossir, para ver por onde o abaulamento vem, têm desempenho ruim e não mudam o que você vai fazer: o encaminhamento é o mesmo, a urgência é a mesma e a técnica quem escolhe é o cirurgião com a virilha aberta. Um interno perde tempo tentando decidir direta contra indireta e não perde um minuto perguntando se o caroço reduz — que é a pergunta que decide o destino do paciente naquela noite.
A femoral estrangula mais porque o anel por onde ela passa é o único dos três cujas bordas não cedem. Acima está o ligamento inguinal, medialmente o ligamento lacunar, com borda cortante, atrás o ligamento pectíneo sobre o osso púbico e lateralmente a veia femoral, que colaba mas não abre espaço. É um anel estreito, de bordas fibrosas e ósseas, num compartimento que não se distende. Quando uma alça entra ali e edemacia, ela não consegue voltar, e a pressão do próprio anel fecha primeiro a drenagem venosa. A alça fica congesta e roxa, o edema aumenta, e o aumento aperta ainda mais o mesmo anel — um ciclo que se fecha sozinho. Só quando o edema vence também a pressão de entrada é que o suprimento arterial falha e a parede morre. Da primeira congestão até a necrose de espessura total passam-se horas — não dias, e não uma tarde de espera.
É essa sequência que explica a regra mais importante deste capítulo. Quando alguém empurra para dentro do abdome uma alça que já passou da congestão, o abaulamento some, a dor local melhora por alguns minutos e o paciente parece ter melhorado. O que aconteceu foi o contrário: uma alça de viabilidade duvidosa, que estava visível, palpável e localizada, foi devolvida para dentro da cavidade, onde ninguém vai encontrá-la. Se ela perfurar, perfura livre no peritônio. Existe ainda uma variante em que o saco e seu conteúdo são empurrados em bloco, com o anel constritor junto, de modo que o caroço desaparece da virilha e a alça continua estrangulada lá dentro — a redução foi só do que se via.
Duas apresentações particulares fecham o mecanismo, e as duas enganam. Na hérnia de Richter, apenas uma parte da circunferência da alça entra no anel e sofre: a luz intestinal continua pérvia, o paciente continua eliminando gases e fezes, não há distensão, e a única coisa que existe é dor local e, depois, uma parede necrosada. Ela é mais comum justamente nos anéis pequenos, o que quer dizer femoral. Na hérnia deslizante, uma víscera retroperitoneal — cólon, bexiga — forma parte da própria parede do saco; ela importa ao aluno menos pelo diagnóstico e mais porque explica por que ninguém deve fazer manobras enérgicas de redução: o que se está empurrando pode ser a bexiga.
Por fim, o que faz a hérnia aparecer. A pressão intra-abdominal empurra; a resistência da fáscia segura. Tudo o que aumenta a pressão de forma repetida — tosse crônica, constipação, esforço para urinar em quem tem próstata grande, obesidade, ascite — e tudo o que enfraquece o colágeno — idade, tabagismo, desnutrição — desloca esse equilíbrio. A diretriz internacional trata o levantamento de peso como fator que pode predispor à formação da hérnia, e é explícita em classificar essa evidência como moderada a baixa. Isso é uma frase pequena com consequência grande, e a seção de conversa volta a ela: entre dizer que o trabalho pesado causa hérnia e dizer que ele pode contribuir há uma distância que muda o que você escreve no prontuário.
Como se apresenta de verdade
Antes de descrever a doença, as fronteiras deste capítulo, para você saber o que ele faz e o que ele manda buscar em outro lugar. Ele assume, por inteiro, a hérnia inguinal e a femoral do adulto: o exame da virilha, a diferenciação à beira do leito, a decisão entre operar hoje, entrar em fila ou não operar, o que o interno precisa saber de técnica para conversar com o paciente, e o pós-operatório. Assume também três assuntos que não têm dono em nenhum capítulo deste nível e que ficariam órfãos se ele os cedesse: a hérnia inguinal da criança, no que ela muda a decisão; a hérnia na gestante; e a dor inguinal crônica depois do reparo.
Cede, e cede por inteiro: a obstrução intestinal depois de instalada — a sonda, o jejum, a prova terapêutica não operatória, o seguimento radiológico — é do capítulo A pergunta não é se obstruiu; a dor abdominal ainda sem nome, na porta, é do capítulo Dor abdominal no pronto-socorro; as cinco síndromes do abdome agudo e a sua separação são do capítulo Cinco relógios diferentes; o escroto agudo, com torção testicular e epididimite, é do capítulo Escroto agudo; a retenção urinária aguda e a hiperplasia prostática são do capítulo O alívio é a parte fácil e a técnica da sondagem é do capítulo Sondagem vesical; a avaliação pré-operatória e a estratificação de risco são do capítulo A avaliação pré-operatória; a profilaxia de tromboembolismo venoso é do capítulo Duas contas que não se somam; a antibioticoprofilaxia cirúrgica e a classificação de feridas são do capítulo Sessenta minutos, e nem um dia a mais; o lactente que chora, vomita e encolhe as pernas é do capítulo Invaginação intestinal do lactente; e o nexo causal com o trabalho, a comunicação de acidente e a notificação são do capítulo Em que o senhor trabalha.
Uma dessas fronteiras se inverte agora, e é justo dizê-lo com todas as letras. O capítulo de obstrução intestinal declara que, como não havia capítulo de hérnias da parede abdominal neste nível, ele assumia o mínimo indispensável: procurar a hérnia no exame de todo abdome distendido e tratar hérnia irredutível e dolorosa em quem não elimina gases como indicação cirúrgica. Esse mínimo continua certo e continua lá. O que este capítulo faz é assumir o resto — o exame completo da virilha, a separação entre inguinal e femoral, os graus entre redutível e estrangulada, a conduta eletiva e o pós-operatório. Do abdome distendido para dentro, o dono continua sendo aquele capítulo.
1. O caroço que reduz — a apresentação de nove entre dez
A queixa típica não é dor: é presença. O paciente descreve algo que aparece quando ele fica de pé, quando tosse, quando levanta peso ou no fim do dia, e que some quando ele deita. Muitos empurram sozinhos, há anos, e chamam isso de colocar no lugar. O desconforto, quando existe, é um peso ou um puxão na virilha, às vezes irradiado para a raiz da coxa ou para o testículo, que piora com o dia de trabalho e melhora com o repouso.
Há três informações da anamnese que valem mais do que o resto. Há quanto tempo existe, porque uma hérnia que apareceu há três semanas num idoso pede que você pergunte o que mudou — tosse nova, esforço para urinar, constipação nova, perda de peso. Se reduz sozinho ou se precisa de manobra, porque a hérnia que só reduz deitado e com manobra está a caminho de não reduzir mais. E se já houve algum episódio de dor forte com o caroço preso que passou sozinho, porque isso é encarceramento transitório e muda a prioridade do encaminhamento — o protocolo de regulação brasileiro dá preferência explícita a quem tem complicação prévia.
O exame se faz com o paciente de pé, e essa é a frase que dá título ao capítulo. Deitado, muitas hérnias somem e o exame vira falso-negativo. De pé, o abaulamento se apresenta sozinho na maioria dos casos; quando não se apresenta, pede-se que o paciente tussa ou faça força, e observa-se primeiro, antes de tocar. Só depois vem a palpação, com o paciente ainda de pé, mão espalmada sobre a virilha, sentindo o impulso da tosse. Por fim, deita-se o paciente, tenta-se a redução com pressão suave e contínua, e observa-se se o abaulamento reaparece à manobra de esforço. Um exame feito só deitado, ou só de pé, deixa metade da informação na sala. A avaliação de redutibilidade descrita é para quadro não complicado e com manobra delicada; dor aguda, suspeita de isquemia ou deterioração impedem transformar esse passo em tentativa obrigatória.
Nas mulheres, o mesmo exame tem um detalhe a mais: a virilha se examina com a paciente de pé e também em decúbito, e a região abaixo do ligamento inguinal se palpa deliberadamente, não de passagem. É uma área pequena, de dois a três centímetros, medial aos vasos femorais, que se perde quando a mão varre a virilha inteira de uma vez. Numa mulher magra e idosa, um abaulamento de dois centímetros ali é o achado que separa a alta com antiemético da cirurgia da madrugada.

2. O caroço que não reduz — encarcerada e estrangulada não são a mesma coisa
Uma hérnia encarcerada é uma hérnia que não volta. O conteúdo ficou preso no anel e a redução não é possível, mas a irrigação do que está lá dentro ainda funciona. O paciente tem dor local, o abaulamento está tenso e doloroso, e pode ou não haver obstrução intestinal associada — depende de o conteúdo ser alça, epíplon ou gordura. O protocolo brasileiro de regulação define exatamente assim, e com essas palavras: hérnia dolorosa e não redutível.
Uma hérnia estrangulada é uma hérnia encarcerada cuja irrigação falhou. É diagnóstico de sofrimento de alça, e o que o denuncia não é o caroço: é o conjunto. Dor desproporcional e contínua, que deixou de ser em cólica; pele da virilha eritematosa ou arroxeada sobre o abaulamento; dor à palpação que não cede com analgesia adequada; sinais sistêmicos — taquicardia que não corrige com volume, febre, hipotensão. O protocolo de regulação descreve o estrangulamento pelos sintomas de obstrução intestinal — náusea, vômito, dor abdominal, ausência de eliminação de flatos, distensão —, acrescentando os sistêmicos quando já há necrose.
A distinção importa pouco para o destino e muito para a pressa. Encarcerada e estrangulada vão as duas para o centro cirúrgico; a estrangulada vai antes, com ressuscitação correndo em paralelo, e a suspeita de necrose muda o que se planeja fazer com a tela. O que não se faz, em nenhuma das duas, é esperar exame para confirmar o que a mão já disse.
Duas armadilhas invertem esse quadro. A primeira é a hérnia de Richter, em que só parte da parede da alça está presa: o paciente elimina gases, não distende, não vomita, e tem apenas dor local — o quadro parece brando e a alça está morrendo. A segunda é a analgesia mal interpretada: prescrever analgesia é obrigação e não estraga o exame cirúrgico; mas quando um opioide em dose cheia não alivia, isso não é falta de remédio, é sinal de alarme. Repetir a dose no automático troca um aviso por uma sedação.
3. Inguinal ou femoral, à beira do leito — e a honestidade sobre o que o exame não faz
A referência anatômica é o tubérculo púbico, e ele se acha com o polegar correndo a borda superior do púbis para fora da linha média até topar num ressalto ósseo. Colocado o dedo ali, a regra é geométrica: o colo da hérnia inguinal está acima e medialmente ao tubérculo púbico; o colo da hérnia femoral está abaixo e lateralmente a ele. Não é o ponto onde o caroço abaula que interessa — uma hérnia femoral grande pode dobrar para cima e parecer inguinal —, é de onde ele sai.
Ajudam ainda o tamanho e a consistência. A femoral costuma ser pequena, de um a três centímetros, mais firme, e frequentemente não tem impulso à tosse, porque o anel apertado não deixa a pressão passar. A inguinal costuma ser maior, mais mole, com impulso à tosse evidente, e nos homens pode descer para a bolsa escrotal, o que praticamente exclui femoral. Se o abaulamento é claramente inguinoescrotal, é inguinal indireta.
E agora a parte que os livros costumam omitir. A Sociedade Brasileira de Hérnia afirma, sem meio-termo, que nem o exame físico nem os exames de imagem conseguem distinguir de forma confiável a hérnia inguinal da crural. A mesma diretriz que ensina a região dá a sensibilidade de 74,5% e a especificidade de 96% para a associação de história e exame no diagnóstico de hérnia — quer dizer, para dizer que existe hérnia, não para dizer qual. Isso não torna o exame inútil; torna a conclusão condicional. O que a mão decide com segurança é se reduz, se dói e se há sinal sistêmico. Onde a mão ajuda mas não fecha é no tipo.
A consequência prática é direta e é a razão de este parágrafo existir. Numa mulher com tumoração inguinocrural, você não pode afastar hérnia femoral pelo exame; tem de mantê-la na hipótese e escrever isso no encaminhamento, porque o protocolo brasileiro de regulação dá preferência no encaminhamento a quem tem hérnia femoral. Uma linha no papel muda o lugar da paciente na fila, e essa linha depende de você não ter descartado o que não dava para descartar.
4. O que mais pode ser aquele caroço
O diferencial da tumoração inguinocrural se organiza por três perguntas: pulsa, transilumina, e reduz. O que pulsa de forma expansiva é aneurisma ou pseudoaneurisma de artéria femoral — e nesse caso a pior conduta possível é a manobra de redução. O que transilumina e é mole é coleção líquida: hidrocele, hidrocele do cordão, cisto do canal de Nuck na mulher. O que reduz e volta com o esforço é hérnia, até prova em contrário.
Fora dessas três, o que mais aparece: linfonodomegalia inguinal, que é firme, móvel, não reduz e não tem impulso, e cuja pesquisa obriga a examinar o território de drenagem inteiro — perna, pé entre os dedos, períneo, região perianal, genitália; lipoma da virilha, mole, indolor, que não reduz e não muda com a tosse, e que na mesa cirúrgica é confundido com hérnia mais vezes do que se admite; varizes da safena na crossa, que somem ao deitar, têm frêmito à tosse e são o grande imitador da femoral em quem tem insuficiência venosa; abscesso, inclusive o abscesso do psoas que aponta abaixo do ligamento inguinal; e testículo ectópico ou criptorquídico, que se descarta contando os testículos na bolsa antes de qualquer outra coisa.
Nas mulheres em idade fértil, dois itens entram e um deles é frequente: variz do ligamento redondo do útero, que na gestação é mais provável do que hérnia, e endometriose do canal inguinal, que dói de forma cíclica. Nos homens jovens com dor inguinal sem caroço, a dor inguinal do atleta e a osteíte púbica entram no diferencial, e a ressonância é o exame que os separa da hérnia — a Sociedade Brasileira de Hérnia registra essa vantagem expressamente.
Uma regra de sequência que economiza erro: em todo homem e todo menino com dor abdominal baixa ou dor inguinal, exponha e examine a bolsa escrotal antes de concluir qualquer coisa. Quando o achado for testículo doloroso e retraído, o assunto deixa de ser este capítulo e passa a ser o capítulo Escroto agudo, onde o relógio é ainda mais curto. Quando o achado for uma massa que se prolonga pelo canal inguinal e não reduz, o assunto é aqui.
5. As populações em que a decisão muda
Mulher. Toda mulher com hérnia inguinocrural tem indicação cirúrgica, sintomática ou não. Essa é a recomendação da Sociedade Brasileira de Hérnia, e a razão é a que a seção de epidemiologia deu: a chance de a hérnia ser femoral, e a chance de a femoral chegar de emergência. A mesma diretriz recomenda que, na mulher, se prefiram os reparos pré-peritoneais, em especial as técnicas videoendoscópicas, porque a via anterior tem mais reoperação por recorrência crural. Reparo por via anterior numa mulher exige que o cirurgião procure ativamente o anel femoral antes de fechar.
Gestante. Tumoração na virilha durante a gestação é, mais frequentemente, variz do ligamento redondo do útero, e não hérnia; a formação de hérnia inguinocrural na gestação é estimada em uma em duas mil. A confirmação se faz por ultrassonografia com Doppler colorido, e as varizes regridem depois do parto. A conduta recomendada é observação ativa, e a cirurgia fica reservada ao encarceramento ou ao estrangulamento. O protocolo brasileiro de regulação diz a mesma coisa pelo outro lado: o reparo eletivo em gestantes é contraindicado, e o encaminhamento eletivo se faz depois da resolução da gestação. Este capítulo assume esse tema porque nenhum capítulo de obstetrícia do nível o declara seu.
Criança. A hérnia inguinal do lactente é quase sempre indireta, por persistência do processo vaginal, e o encarceramento é comum e precoce — o capítulo Invaginação intestinal do lactente já registra o essencial: nos primeiros seis meses de vida nenhuma outra causa obstrui tanto quanto a hérnia presa, e o ultrassom de abdome de rotina não a mostra. O que este capítulo assume, porque aquele capítulo não o assume, é o que vem depois de reconhecer: hérnia inguinal em criança tem indicação cirúrgica, e a conduta expectante do adulto não se transfere para ela. O motivo é a taxa de encarceramento, e não o incômodo. E a diferença que o interno precisa saber: no menino, o encarceramento ameaça também a gônada, porque o cordão espermático está dentro do mesmo anel comprimido.
Idoso frágil. Aqui está a única indicação de observação que a diretriz brasileira aceita, e ela é estreita: homem, com comorbidades que aumentem o risco cirúrgico, e hérnia pouco sintomática ou assintomática. Observar não é abandonar — é combinar o que fazer quando doer, escrever isso, e reavaliar. E é honesto dizer ao paciente que a maior parte dos observados acaba operando; a divergência sobre em quanto tempo está tratada nas notas de auditoria e no bloco de divergências.
6. As hérnias que chegam sem caroço, e o abdome que chega sem cicatriz
Uma parte das hérnias da virilha nunca se apresenta como caroço na consulta: apresenta-se como obstrução no pronto-socorro, com o caroço esperando para ser encontrado. É a cena de Ninfa. Uma paciente idosa, magra, com vômito e parada de eliminação de gases, e nenhuma cicatriz no abdome, tem uma probabilidade alta de hérnia de parede como causa, porque a causa mais comum — a brida de cirurgia anterior — está descartada pela pele.
A regra que sai daí é de ordem, não de conhecimento: em todo abdome distendido, palpe as duas regiões inguinais e as duas regiões femorais antes de pedir imagem, com o paciente deitado e, se ele conseguir, de pé. O achado positivo dispensa a tomografia para indicar a cirurgia. O achado negativo, escrito no prontuário com essas palavras, vale muito mais do que o achado negativo presumido — e é ele que permite ao próximo plantonista confiar no que já foi feito.
Existem ainda dois cenários silenciosos. A hérnia oculta, que causa dor inguinal sem abaulamento palpável e que a imagem pode encontrar — é a situação em que a ultrassonografia e, na dúvida persistente, a ressonância, ganham indicação. E a hérnia que já foi operada e volta: a recidiva, que se apresenta como abaulamento novo sobre a cicatriz e que a Sociedade Brasileira de Hérnia recomenda tratar por via diferente da anterior — anterior depois de posterior, posterior depois de anterior.
Fecha esta seção uma transição de fronteira. Quando a hérnia obstruiu e a decisão já foi tomada, tudo o que vem em seguida — descompressão, jejum, balanço, prova terapêutica, seguimento — é do capítulo A pergunta não é se obstruiu, e este capítulo não repete o que está lá. Quando o quadro chega como dor abdominal ainda sem nome, a porta é o capítulo Dor abdominal no pronto-socorro. O que fica aqui é o momento em que a mão na virilha transforma uma dor abdominal indeterminada num diagnóstico com indicação cirúrgica.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da hérnia da virilha é curta, e essa é a informação principal: na maioria esmagadora dos casos o exame já fechou o diagnóstico, e o que sobra é decidir o destino. A diretriz internacional diz que história e exame clínico costumam bastar; a brasileira diz que o diagnóstico deve ser feito pelo exame clínico e que imagem só se pede diante de dúvida diagnóstica. Pedir ultrassonografia para confirmar o que a mão já viu não muda conduta, atrasa o encaminhamento e ocupa uma vaga de exame.
O que a investigação faz de fato, no adulto com hérnia evidente, é outra coisa: separar quem vai para a mesa hoje de quem entra em fila, e produzir o documento que faz o encaminhamento andar. As seções abaixo estão nessa ordem — primeiro o que decide a pressa, depois o que decide o exame, e por fim o que decide a fila.
1. Os cinco minutos que decidem a pressa
Diante de um caroço na virilha, cinco perguntas resolvem o destino, e todas se respondem sem aparelho. Reduz? Dói? Há sinal sistêmico — taquicardia, hipotensão, febre? Há sinal de obstrução — vômito, parada de eliminação de gases e fezes, distensão? Há sinal local de sofrimento — pele eritematosa ou arroxeada, dor desproporcional, dor que não cede à analgesia?
A combinação decide. Reduz e não dói: eletivo. Não reduz e dói: encaminhamento à urgência, com a palavra encarcerada escrita, porque é assim que o protocolo brasileiro de regulação define a condição que abre a porta da emergência. Não reduz, dói e tem sinal de obstrução ou sinal sistêmico: estrangulamento presumido, centro cirúrgico, e a ressuscitação corre em paralelo, não antes.
Um ponto de calibragem para quem está começando. Uma hérnia irredutível e indolor, de longa data, num paciente sem sintomas — a hérnia crônica que o paciente já nem tenta reduzir — não é encarceramento agudo. Não é emergência; é encaminhamento eletivo com prioridade, porque é uma hérnia que já perdeu a capacidade de voltar. O que caracteriza o encarceramento agudo é a mudança: reduzia e parou de reduzir, ou passou a doer.
Nesta janela, ainda no primeiro contato, vale sempre a mesma frase de exame: a virilha das duas pernas, e não só a do lado da queixa. Hérnias bilaterais são comuns, o achado contralateral muda a conversa sobre técnica e sobre número de cirurgias, e o custo do exame é de quinze segundos.
2. Quando pedir imagem, e qual
As indicações de imagem são três, e cabem numa linha: dor inguinal sem abaulamento palpável; história compatível com exame vago ou duvidoso; e suspeita de diagnóstico diferencial que a imagem resolva — linfonodomegalia, hidrocele, coleção, aneurisma.
A ultrassonografia é o primeiro exame: barata, disponível e feita com manobra dinâmica, com o paciente em pé e em Valsalva, que é o que a torna útil. O desempenho relatado varia muito, e a razão é que ele depende de quem faz e de como faz. A Sociedade Brasileira de Hérnia registra a ressonância magnética como o exame de maior acurácia na região, com sensibilidade de 94,5% e especificidade de 96,3%, e superior à tomografia quando a dúvida persiste — sobretudo por identificar os diferenciais de dor inguinal do atleta e osteíte púbica.
Fora dessas situações, a imagem não acrescenta e tira. Ela não distingue de forma confiável inguinal de femoral — a própria diretriz brasileira afirma isso de exame físico e de imagem na mesma frase —, e não decide urgência: no paciente com hérnia irredutível e dolorosa, a indicação cirúrgica já existe e esperar o tomógrafo é trocar tempo de alça por informação que não muda a decisão. No caso femoral obstruído apresentado, a avaliação cirúrgica é urgente. Em outros pacientes com irredutibilidade aguda sem suspeita de isquemia, a equipe pode selecionar redução delicada e observação, conforme HerniaSurge 2023; não generalizar que toda dor isolada determina a mesma estratégia.
Um caso em que a imagem muda mesmo a conduta: a suspeita de aneurisma de artéria femoral ou de pseudoaneurisma pós-punção. Ali, o ultrassom com Doppler é obrigatório antes de qualquer manipulação, e o assunto passa a ser vascular. Vale a mesma lógica na gestante com tumoração inguinocrural, em que o Doppler colorido é o que separa a variz do ligamento redondo — mais provável — da hérnia.
3. O que o laboratório diz, e o que ele não diz
Não existe exame de sangue que diagnostique hérnia, e não existe exame de sangue que exclua estrangulamento. Isso precisa ser dito de forma direta, porque a tentação de esperar o lactato para decidir é real e custa horas.
O que o laboratório faz, no paciente que vai para a mesa, é medir o dano sistêmico e preparar a operação: hemograma, eletrólitos, função renal, gasometria com lactato, coagulograma e tipagem. Lactato normal nas primeiras horas de uma alça que ainda não infartou é exatamente o esperado, e um lactato alterado já indica lesão avançada. Ele serve para acompanhar resposta ao volume, não para autorizar a cirurgia.
No paciente eletivo, não há exame de rotina que a hérnia peça. O que existe é a avaliação pré-operatória, que é do capítulo A avaliação pré-operatória e não se reescreve aqui; e há um detalhe de regulação que vale conhecer: o protocolo brasileiro de encaminhamento afirma que exames complementares não são obrigatórios onde não houver recurso e que a sua falta não impede a solicitação de consulta especializada. Segurar um encaminhamento porque falta um exame é, à luz da própria norma, um erro de processo.
4. As comorbidades que o protocolo manda tratar em paralelo
O protocolo brasileiro de regulação nomeia quatro condições como contraindicação relativa ao procedimento cirúrgico: obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30 kg/m², diabetes descompensado, hipertensão descompensada e tabagismo ativo. E acrescenta a instrução que muda a prática: identificadas essas condições, o manejo na atenção primária deve ocorrer concomitantemente ao encaminhamento.
A leitura errada dessa lista é a que mais aparece: tratar a contraindicação relativa como pré-requisito, mandar o paciente perder peso ou parar de fumar antes de encaminhar, e recomeçar a fila depois. A norma diz o contrário — encaminha e trata ao mesmo tempo. Numa fila que se conta em meses, a diferença entre encaminhar hoje e encaminhar depois de seis meses de tentativa de cessação é, muitas vezes, a diferença entre operar eletivo e operar de emergência.
Vale nomear o que essas quatro condições fazem tecnicamente, porque isso é o que você vai explicar ao paciente. Obesidade e tabagismo aumentam infecção de sítio cirúrgico e recidiva; o tabagismo age sobre a cicatrização do colágeno, que é justamente o tecido que falhou; diabetes descompensado aumenta infecção, e infecção sobre tela é um problema de outra ordem de grandeza. Não são formalidades administrativas: são as variáveis que decidem se a tela vai integrar.
5. O papel que faz a fila andar
O encaminhamento é um ato clínico, e o protocolo brasileiro especifica o conteúdo descritivo mínimo que ele deve ter. Para hérnia de parede: o quadro clínico com sinais e sintomas associados, os achados de exame físico, história de complicações, ocorrência de recidiva e comorbidades; e o resultado de exames de imagem, quando realizados. O protocolo municipal de acesso de São Paulo é ainda mais específico e pede a descrição do tipo de hérnia, o tamanho do anel herniário, o diâmetro do saco quando visível, a informação de se o paciente é virgem de tratamento ou recidivado, e o registro da anuência do paciente ao tratamento cirúrgico.
Duas palavras nesse papel mudam a posição do paciente na fila, e são gratuitas. A primeira é femoral: o protocolo de regulação dá preferência no encaminhamento a pacientes com hérnia femoral. A segunda é complicação prévia: a mesma preferência vale para hérnia inguinal ou de parede abdominal com complicação prévia. Se a paciente já teve um episódio de dor com o caroço preso que passou sozinho, isso é complicação prévia e precisa estar escrito com essas palavras — não como incômodo ocasional.
O que o encaminhamento não deve fazer é afirmar o que o exame não pode afirmar. Se você não consegue distinguir inguinal de femoral — e a diretriz brasileira diz que muitas vezes não se consegue —, escreva a tumoração inguinocrural com a localização em relação ao tubérculo púbico e ao ligamento inguinal, e diga que hérnia femoral não pode ser afastada. É mais honesto e, na regulação, é mais eficaz do que um diagnóstico assertivo errado.
Uma nota sobre codificação, porque o interno assina pedidos. O protocolo municipal usa a CID-10 na seleção: K40 para inguinal, K41 para femoral, K42 para umbilical e K43 para ventral, com os subcódigos sem obstrução ou gangrena para o eletivo. A distinção entre o subcódigo com e sem obstrução ou gangrena não é burocracia: é o que separa, na estatística e no faturamento, o caso eletivo do caso complicado.
6. O que o interno precisa saber de técnica — e por quê
O interno não opera hérnia, mas conversa sobre ela todos os dias, e reconhece complicação em quem já operou. Por isso o mínimo técnico aqui é o que dá conta dessas duas tarefas, e não a descrição do ato cirúrgico.
Tela é uma trama sintética que se coloca sobre o defeito para reforçar a parede, porque suturar tecido enfraquecido a tecido enfraquecido tem recidiva alta. A Sociedade Brasileira de Hérnia recomenda tela em todo reparo de hérnia inguinocrural do adulto, especifica tela plana de polímero monofilamentar com gramatura entre 30 e 140 g/m² e poro maior que 1 mm, e avisa que a tela contrai pelo menos 20% depois de incorporada — razão pela qual ela é sempre maior do que o buraco. A tela não é rejeitada como um enxerto; ela é colonizada por tecido fibroso, e é essa fibrose que segura.
Há duas grandes famílias de reparo. Na aberta, por inguinotomia, a técnica de escolha é a de Lichtenstein, que apoia a tela sobre a parede posterior por via anterior; a diretriz brasileira relata que ela recidiva em menos de 4% quando o cirurgião faz poucas hérnias por ano, e em menos de 2% nas mãos de quem opera muitas. Na videolaparoscópica, o reparo é feito por trás, pelo espaço pré-peritoneal, com uma tela grande que cobre o orifício miopectíneo inteiro — e é por isso que ela cobre de uma vez a inguinal, a direta e a femoral. As duas variantes se chamam TAPP, que entra pela cavidade e depois abre o peritônio, e TEP, que não entra na cavidade.
A escolha entre elas não é do interno, mas o raciocínio que a governa é ensinável e vale ser dito ao paciente. A atualização internacional de 2023 recomenda a via laparoendoscópica na hérnia primária unilateral, para qualquer sexo, por menos dor pós-operatória e menos dor crônica — e condiciona a recomendação, com todas as letras, à existência de cirurgião com experiência específica e de recursos suficientes. A diretriz brasileira recomenda especificamente a via pré-peritoneal nas mulheres, pelo risco de recorrência crural. Onde não há laparoscopia nem cirurgião treinado, Lichtenstein bem feito é um reparo excelente; a pior escolha é a técnica que o serviço não domina.
Existe ainda o reparo sem tela, do qual o Shouldice é o representante recomendado. A diretriz brasileira o reserva a cirurgiões e serviços com experiência, e a atualização internacional lhe atribui recidiva de 9,7% em vinte anos. Ele volta à conversa em duas situações concretas: recusa do paciente à tela, e campo contaminado. E é aqui que vale a regra mais importante do bloco: em hérnia encarcerada ou estrangulada com ferida limpa, a tela está recomendada; quando há contaminação do campo por perfuração de alça, peritonite ou abscesso, a tela deve ser evitada. É contaminação que contraindica, não urgência.
As três perguntas que decidem, e as contas que os documentos não fecharam
Primeiro determine gravidade; depois descreva anatomia. O exame em pé é útil no ambulatório, mas não é requisito para examinar um paciente agudamente doente.
- 1Avaliar dor, vômitos, trânsito, perfusão e evolução; examinar ambas as regiões inguinais e femorais, em posição segura e com privacidade.
- 2No quadro eletivo, examinar em pé e deitado, descrevendo localização, redutibilidade, sintomas e impacto funcional.
- 3Irredutibilidade de início recente exige avaliação cirúrgica urgente. Obstrução pode coexistir sem isquemia estabelecida; sofrimento intestinal é suspeitado pelo conjunto e pode preceder sinais cutâneos ou laboratoriais.
- 4Diante de suspeita de estrangulamento, peritonite ou deterioração, não tentar redução forçada nem atrasar tratamento por imagem desnecessária.
- 5Em irredutibilidade aguda sem sinais de isquemia, redução manual pode ser considerada por equipe experiente, em ambiente com analgesia, monitorização, resgate e observação; não é manobra independente do interno.
- 6Após redução, dor persistente, obstrução ou piora exigem reavaliação por possível redução em bloco ou lesão intestinal; sumir o abaulamento não encerra o caso.
- 7Em mulheres, procurar hérnia femoral e evitar extrapolar observação de homens com hérnia inguinal pouco sintomática. Crianças e gestantes seguem percursos próprios.
- 8No tratamento eletivo, discutir sintomas, risco e preferência, otimizar comorbidades em paralelo ao encaminhamento e dar sinais de retorno.
1. Inguinal ou femoral: o que a mão pergunta na virilha
| O que se procura | Fala a favor de inguinal | Fala a favor de femoral | O que fazer com a resposta |
|---|---|---|---|
| Posição do colo em relação ao tubérculo púbico | Acima e medialmente ao tubérculo | Abaixo e lateralmente ao tubérculo | É o achado de maior valor; ache o tubérculo com o polegar antes de concluir qualquer coisa |
| Tamanho e consistência do abaulamento | Maior, mole, redutível com facilidade | Pequeno, de um a três centímetros, firme e tenso | Femoral pequena numa idosa magra é o achado mais perdido de todos |
| Impulso à tosse | Presente e evidente | Frequentemente ausente, porque o anel é estreito | Ausência de impulso não afasta hérnia; presença não define o tipo |
| Descida para a bolsa escrotal | Presente na indireta grande, até inguinoescrotal | Não desce para a bolsa | Abaulamento inguinoescrotal é inguinal indireta, e encerra a pergunta |
| Sexo e biotipo do paciente | Homem, qualquer idade | Mulher, sobretudo magra e idosa; quatro vezes mais em mulheres | Em mulher, mantenha femoral na hipótese mesmo quando o exame sugerir inguinal |
| Grau de certeza que o exame permite | Alto para dizer que existe hérnia | Baixo para dizer qual das duas é | A diretriz brasileira afirma que exame e imagem não separam de forma confiável inguinal de crural: escreva a dúvida no encaminhamento |
2. Os quatro estados da mesma hérnia, e o destino de cada um
| Estado | O que o paciente conta | O que a mão encontra | Destino |
|---|---|---|---|
| Redutível | Aparece de pé e ao esforço, some deitado; peso no fim do dia | Abaulamento mole que reduz com pressão suave e volta à tosse | Encaminhamento eletivo à Cirurgia Geral; sem pressa e sem exame de confirmação |
| Irredutível crônica e indolor | Não volta mais para dentro há meses ou anos; não dói | Abaulamento que não reduz, sem dor, sem sinal local nem sistêmico | Encaminhamento eletivo com prioridade; não é emergência, mas é hérnia que perdeu a via de volta |
| Encarcerada | Reduzia e parou de reduzir hoje; dói no caroço | Abaulamento tenso, doloroso, irredutível, sem sinal sistêmico | Encaminhamento à urgência agora; é a definição literal do protocolo brasileiro de regulação |
| Estrangulada | Dor contínua e forte, vômito, parou de eliminar gases; às vezes febre | Abaulamento tenso e muito doloroso, pele eritematosa ou arroxeada, taquicardia, dor que não cede à analgesia | Centro cirúrgico, com ressuscitação em paralelo; nenhum exame precisa vir antes da indicação |
3. O que a Tabela de Procedimentos do SUS paga por cada reparo (Anexo I da Portaria SAES/MS nº 3.245, de 09/09/2025)
| Código SIGTAP | Procedimento | Valor na Tabela do SUS | Fração do reparo inguinal/crural unilateral aberto |
|---|---|---|---|
| 0407040102 | Hernioplastia inguinal / crural (unilateral) | R$ 637,97 | 100,0% — é a referência da coluna |
| 0407040099 | Hernioplastia inguinal (bilateral) | R$ 610,06 | 95,6% — duas hérnias pagam R$ 27,91 a menos que uma |
| 0407040110 | Hernioplastia recidivante | R$ 596,33 | 93,5% — a reoperação paga R$ 41,64 a menos que a primária |
| 0407040137 | Herniorrafia inguinal videolaparoscópica | R$ 376,95 | 59,1% — a via que a diretriz recomenda na mulher paga R$ 261,02 a menos |
| 0407020292 | Herniorrafia com ressecção intestinal (hérnia estrangulada) | R$ 378,69 | 59,4% — a operação de emergência é a mais barata das da virilha |
| 0407040064 | Hernioplastia epigástrica | R$ 801,73 | 125,7% — a estrangulada com ressecção paga 47,2% desta |
| 0407040129 | Hernioplastia umbilical | R$ 434,99 | 68,2% |
| 0407040080 | Hernioplastia incisional | R$ 539,92 | 84,6% |
4. Conversão de dose num adulto de 70 quilos, contra a apresentação real da Rename 2024
| Fármaco e apresentação | Situação na Rename 2024 | Dose do exemplo | Volume correspondente | Em ampolas |
|---|---|---|---|---|
| Dipirona 500 mg/mL solução injetável, ampola de 2 mL | Consta, componente Básico | 1.000 mg por via intravenosa | 2,00 mL | 1,00 ampola de 2 mL |
| Dipirona 500 mg/mL solução injetável, ampola de 5 mL | Consta, componente Básico | 1.000 mg por via intravenosa | 2,00 mL | 0,40 da ampola de 5 mL — o resto se despreza |
| Sulfato de morfina 10 mg/mL solução injetável, ampola de 1 mL | Consta, componente Especializado | 2 mg por via intravenosa, titulados | 0,20 mL | 0,20 da ampola; diluir 1 mL em 9 mL e usar 2 mL da diluição |
| Cloridrato de lidocaína 10 mg/mL (1%) sem vasoconstritor | Consta, componente Básico | Teto: 4,5 mg/kg dá 315 mg em 70 kg, mas o teto absoluto de 300 mg manda | 30,0 mL de solução a 1% | O teto absoluto passa a valer a partir de 66,7 kg |
| Cloridrato de lidocaína 10 mg/mL (1%) com epinefrina 1:200.000 | A associação consta, componente Básico | Teto: 7 mg/kg dá 490 mg em 70 kg, abaixo do teto absoluto de 500 mg | 49,0 mL de solução a 1% | O teto absoluto passa a valer a partir de 71,4 kg |
| Cloridrato de bupivacaína 5 mg/mL (0,5%) sem vasoconstritor | Consta, componente Básico | Teto: 2 mg/kg dá 140 mg em 70 kg, abaixo do teto absoluto de 175 mg | 28,0 mL de solução a 0,5% | O teto absoluto passa a valer a partir de 87,5 kg |
| Cefazolina 1 g pó para solução injetável | NÃO consta na Rename 2024; cefalotina, cefuroxima e ampicilina também não | É a cefalosporina de primeira geração que a diretriz brasileira sugere considerar no ASA 3 e 4 | Sem apresentação na lista nacional | Ver a nota de auditoria correspondente |
Três situações da hérnia na prática
| Situação | Interpretação e próximo passo |
|---|---|
| Redutível, estável | Avaliar sintomas e impacto; discutir conduta eletiva e retorno. |
| Irredutibilidade aguda | Avaliação cirúrgica urgente; investigar obstrução e isquemia. Redução é decisão de equipe experiente em casos selecionados. |
| Suspeita de estrangulamento | Tratar como ameaça intestinal; suporte e cirurgia sem tentativas forçadas de redução ou atraso desnecessário. |
Os documentos citados atribuem a migração de cerca de 70% dos pacientes em observação para cirurgia a prazos diferentes: dois anos nas orientações brasileiras e aproximadamente sete anos no resumo internacional de 2023. O ensaio primário não foi consultado nesta análise. Ao orientar o paciente, evite apresentar o percentual sem período; explique que sintomas e preferência podem mudar e combine seguimento.
As fontes relatam maior proporção de reparos de urgência em mulheres e nas hérnias femorais. Esses percentuais vêm de grupos que não devem ser combinados para estimar uma prevalência não publicada. A aplicação clínica é procurar componente femoral e considerar o risco de complicação na avaliação da mulher com hérnia da virilha.
As estimativas sobre razão entre sexos e participação feminina nas operações não coincidem exatamente nas orientações citadas. Use-as como descrição aproximada da população, sem exigir equivalência entre números possivelmente derivados de séries distintas. A diferença não altera a avaliação individual da hérnia.
Na lista de nervos do reparo posterior, a expressão correta é ramo femoral do nervo genitofemoral. A referência a “ramo femoral do nervo femoral” é um erro de redação. Diferencie também os nervos envolvidos no acesso anterior e no posterior ao estudar as áreas de risco.
A fonte internacional apresenta risco de hérnia inguinocrural ao longo da vida de 3%–6% nas mulheres e 27%–43% nos homens. A orientação brasileira cita apenas 3% para mulheres. Mantenha a faixa e sua origem quando discutir magnitude, sem interpretar o limite inferior como estimativa universal.
O canal femoral é o compartimento medial da bainha femoral e contém gordura e linfáticos. A artéria ocupa o compartimento lateral da bainha; o nervo femoral está fora dela, lateralmente. Essa anatomia ajuda a distinguir hérnia e lesão vascular. Massa pulsátil e expansiva exige avaliação vascular e não deve ser submetida a tentativa de redução.
As fontes brasileiras citadas descrevem frequência de hérnia femoral três ou quatro vezes maior em mulheres. A diferença não modifica a necessidade de pesquisar esse diagnóstico. Ao usar o número em discussão epidemiológica, mantenha a fonte e a população correspondentes.
A tabela administrativa de 2025 citada atribui valores diferentes aos códigos unilateral, bilateral e recidivante, sem relação proporcional com o número de hérnias ou a dificuldade técnica. Esses valores descrevem a tabela daquele período; não medem custo total, qualidade ou benefício clínico de cada reparo.
O valor atribuído ao código videolaparoscópico na tabela citada é inferior ao do reparo aberto unilateral. Isso pode ser relevante à organização do serviço, mas não demonstra a causa da disponibilidade de técnicas nem define a melhor opção para o paciente. Separe discussão de financiamento e indicação cirúrgica.
O código de reparo com ressecção intestinal por hérnia estrangulada também tem valor inferior ao de alguns reparos eletivos na tabela histórica. A gravidade do quadro decorre de obstrução, isquemia e condição do paciente, e não da remuneração do procedimento. Suspeita de estrangulamento mantém prioridade de urgência.
O código unilateral citado reúne hérnias inguinais e crurais. Estatísticas baseadas apenas nesse código não distinguem os dois tipos. Ao interpretar dados administrativos, verifique se há informação anatômica adicional antes de atribuir um resultado especificamente às hérnias femorais.
A disponibilidade hospitalar de cefazolina e alternativas deve ser confirmada na farmácia, sem inferi-la apenas pela Rename citada. A indicação, o momento e a duração da antibioticoprofilaxia são desenvolvidos no capítulo correspondente de Pré e Pós-operatório. A escolha da técnica de hérnia não dispensa esse planejamento.
Calcule anestésico local pelo peso e pelo teto absoluto, usando o menor limite aplicável. No exemplo de 70 kg, lidocaína sem vasoconstritor a 4,5 mg/kg resultaria em 315 mg, mas o teto apresentado é 300 mg, equivalentes a 30 mL a 1%. Com epinefrina, 7 mg/kg corresponde a 490 mg, abaixo do teto de 500 mg. Para bupivacaína, confira o limite específico e todas as doses administradas.
Irredutibilidade dolorosa exige avaliação urgente. Sinais de obstrução, isquemia ou repercussão sistêmica aumentam a preocupação com estrangulamento. A classificação deve orientar o destino e a rapidez do atendimento; não espere necrose ou todos os sinais para comunicar a suspeita.
A cópia oficial do protocolo de encaminhamento consultada para este capítulo mantém a redação datada de dezembro de 2020. Essa é a versão identificada nas fontes. A disponibilidade de um documento antigo não dispensa verificar sua compatibilidade com o fluxo de acesso do serviço.
A conduta, hora a hora
O que segue é a noite de Ninfa Abranches, hora a hora. Cada decisão vem nomeada e com a procedência à vista — norma brasileira, diretriz de sociedade, ou leitura própria deste texto —, e onde for leitura própria isso aparece escrito. As doses são para uma paciente de 46 quilos, e por isso não coincidem com as da tabela de conversão, que usa um adulto de 70.
Os marcos 1 a 5 valem para qualquer hérnia da virilha que chega irredutível e dolorosa; os marcos 6 a 8 são o pós-operatório e a alta, e valem também para quem operou eletivo. Onde a conduta for do capítulo vizinho, a passagem está dita pelo nome.
Minuto 0 a 5 — o exame que muda o destino, feito na ordem certa
Ninfa chega por vômito. A tentação é pedir a tomografia e ir cuidar do próximo. Antes de qualquer pedido: paciente despida da cintura para baixo, com a acompanhante presente ou fora da sala conforme ela preferir, e as duas regiões inguinais e as duas femorais palpadas com ela deitada. Só então o abdome, o toque retal e o resto. Nesta paciente, o achado está abaixo do ligamento inguinal direito e lateralmente ao tubérculo púbico: dois centímetros, tenso, doloroso, irredutível. O achado nomeia a doença: hérnia femoral presa, obstruindo delgado. A indicação de operar nasce aqui, neste minuto, sem que nenhuma imagem precise chegar antes.
Prescrição- Exame das duas regiões inguinais e das duas femorais com a paciente despida — antes do pedido de qualquer exame
- Ausculta, percussão e palpação abdominal, com registro do perímetro abdominal aferido com fita e do ponto onde foi medido
- Toque retal, com o resultado registrado mesmo quando negativo
- Dieta zero a partir de agora, incluindo água
- Registro no prontuário com as palavras hérnia femoral direita irredutível e dolorosa, e não apenas abaulamento em virilha
Minuto 5 a 20 — o que corre em paralelo, sem esperar o cirurgião
Chamar a cirurgia não é uma etapa que substitui as outras: é uma etapa que corre junto. Duas veias periféricas boas, com cateter curto e grosso, entregam volume mais depressa do que um cateter central, e se conseguem em poucos minutos. A paciente está seca de vômito e de sequestro para dentro da alça, e a taquicardia de 104 num peso de 46 quilos é hipovolemia até prova em contrário. Analgesia agora, e sem medo: analgesia adequada não apaga o exame cirúrgico — ela relaxa a parede e permite examinar de verdade.
Prescrição- Dois acessos venosos periféricos curtos e calibrosos
- Cloreto de sódio 0,9% 500 mL por via intravenosa em 30 a 60 minutos, com reavaliação de perfusão, frequência cardíaca e diurese ao fim
- Dipirona 1 g por via intravenosa — 2 mL da solução a 500 mg/mL, diluídos e infundidos lentamente
- Sulfato de morfina 2 mg por via intravenosa, titulados: diluir 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de água para injeção e administrar 2 mL
- Sonda nasogástrica aberta se houver vômito repetido ou distensão importante
- Cabeceira elevada, monitorização não invasiva, glicemia capilar
- Acionar a cirurgia agora, com a hipótese dita ao telefone: hérnia femoral encarcerada com obstrução
Minuto 5 a 20 — o que NÃO se faz, e é a regra mais importante do capítulo
Ninfa tem quadro agudo preocupante, com dor contínua, obstrução e provável hérnia femoral. Precisa de avaliação cirúrgica urgente e não deve sofrer tentativas forçadas ou repetidas de redução pelo interno. Sinais de isquemia, peritonite ou deterioração contraindicam a tentativa e orientam intervenção. Obstrução e estrangulamento não são sinônimos. Em outro paciente, com irredutibilidade recente e sem suspeita de isquemia, a equipe experiente pode considerar redução manual monitorada conforme protocolo. Depois, observação e reexame são necessários; dor persistente ou sintomas apesar de abaulamento reduzido levantam preocupação com redução em bloco ou lesão intestinal. Analgesia adequada continua indicada e não deve substituir a decisão cirúrgica nem ser proibida como princípio.
Prescrição- Não tentar redução diante de suspeita de isquemia, peritonite, alteração cutânea importante ou deterioração. No caso de Ninfa, acionar cirurgia e evitar tentativas pelo interno.
- Manter analgesia titulada e monitorizada, com reavaliação; dor persistente exige investigação e decisão, sem ciclos de medicação que atrasem o tratamento.
- PROIBIDO: massa inguinocrural pulsátil e expansiva sob manobra de redução — nesse caso é hipótese vascular, e o exame é Doppler
- Não atrasar cirurgia por TC quando a avaliação já estabelece indicação urgente; se houver dúvida e condições seguras, a equipe define imagem útil à decisão.
- Se a redução for tentada em outro cenário e o abaulamento sumir, a paciente NÃO recebe alta: fica em observação com reexame seriado
Minuto 20 a 60 — o preparo, e o exame que só se pede se não atrasar
A partir daqui o objetivo é entregar a paciente ao centro cirúrgico corrigida do que dá para corrigir em uma hora, e não esperar que ela fique perfeita. O laboratório mede o dano e prepara a operação; ele não autoriza nem desautoriza a cirurgia. A tomografia só entra se a dúvida for real — e nesta paciente, com a hérnia palpada, ela não é. Se a suspeita fosse de obstrução sem hérnia palpável, o assunto passaria a ser do capítulo A pergunta não é se obstruiu, e a imagem teria outro peso.
Prescrição- Hemograma, eletrólitos com sódio, potássio e magnésio, ureia e creatinina, gasometria com lactato, coagulograma, tipagem sanguínea
- Eletrocardiograma em paciente com mais de 60 anos ou com comorbidade cardiovascular
- Reposição de potássio conforme o resultado, com o magnésio conferido quando a hipopotassemia for refratária
- Manter cloreto de sódio 0,9% em infusão, ajustada à resposta, com diurese como parâmetro
- Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o capítulo Duas contas que não se somam — não se reescreve aqui
- Antibioticoprofilaxia conforme o capítulo Sessenta minutos, e nem um dia a mais — o momento e a droga são de lá
- Termo de consentimento com a explicação de que pode ser necessária ressecção de alça
Hora 1 a 3 — a mesa, e o que o interno precisa entender do que vai acontecer
O cirurgião abre o anel, avalia a alça e decide. Alça viável volta para dentro e o defeito é reparado. Alça inviável é ressecada, com anastomose no mesmo tempo ou não, conforme as condições. A decisão sobre a tela segue a regra da diretriz brasileira: em hérnia encarcerada ou estrangulada com ferida limpa a tela está recomendada; havendo contaminação por perfuração de alça, peritonite ou abscesso, a tela deve ser evitada, e o reparo se faz sem prótese. É contaminação que contraindica, não urgência — e essa é a frase que o interno precisa carregar, porque a confusão entre as duas leva a reparos frágeis sem necessidade.
Prescrição- Registro do horário de início dos sintomas e do horário da indicação — é o dado que permite auditar o intervalo depois
- Comunicar à família, antes da cirurgia, a possibilidade de ressecção intestinal e de estoma
- Anotar a lateralidade em prontuário e confirmá-la com a paciente acordada antes da indução
- Se a hérnia reduzir espontaneamente durante a indução, comunicar o cirurgião imediatamente — a alça precisa ser inspecionada
Pós-operatório imediato — as primeiras doze horas
O pós-operatório da hérnia da virilha é curto, e é justamente por isso que as complicações passam despercebidas. O que se vigia nas primeiras horas é dor desproporcional, retenção urinária, sangramento e, em quem teve ressecção, o retorno da função intestinal. A infiltração da ferida com anestésico local está recomendada pela diretriz brasileira e reduz dor — vale conferir se foi feita e registrar.
Prescrição- Dipirona 1 g por via intravenosa de 6/6 h nas primeiras 24 horas, com reavaliação da necessidade a cada turno
- Sulfato de morfina 2 mg por via intravenosa, titulada, se dor não controlada — e reexame da ferida antes da segunda dose
- Vigilância ativa de retenção urinária: perguntar ativamente se já urinou e, passadas 6 horas sem micção, medir o volume vesical antes de indicar sonda
- Deambulação precoce assim que a paciente tolerar
- Reintrodução de dieta conforme a decisão do cirurgião; em quem teve ressecção, seguir o critério do capítulo A pergunta não é se obstruiu
- Inspeção da ferida e da virilha em cada turno, com registro do aspecto e da presença de abaulamento
Alta — o que se explica, e o que se escreve
A alta é o momento em que a maior parte da informação se perde. Três blocos precisam sair escritos: o que é normal, o que é sinal de retorno imediato, e o que fazer com o corpo. A diretriz brasileira é explícita sobre este último: o paciente retoma as atividades assim que se sentir apto, o que costuma acontecer entre dois e sete dias, e evita esforço e pesos acima de 10 kg por quatro a seis semanas; e não há relação demonstrada entre retomada precoce de atividade e recidiva quando se usou tela.
Prescrição- Analgesia oral programada: dipirona 1 g de 6/6 h por 3 a 5 dias, com paracetamol como alternativa
- Explicar que abaulamento mole e indolor na virilha nas primeiras semanas costuma ser seroma, não recidiva — seroma ocorre em cerca de 7% e hematoma em cerca de 8%
- Sinais de retorno imediato escritos no papel: febre, secreção pela ferida, dor crescente, vermelhidão que aumenta, abaulamento novo e doloroso, ausência de micção
- Retomada de atividades quando não doer, tipicamente entre dois e sete dias; sem esforço e sem peso acima de 10 kg por quatro a seis semanas
- Retorno ambulatorial marcado, com data escrita e não com a instrução de procurar a unidade
- Atestado, quando indicado, dimensionado pela função que o paciente exerce e não pelo procedimento — motorista de caminhão e escriturário não têm a mesma restrição
A outra trajetória — o que se faz com Pelagio, que está na fila
O paciente eletivo tem uma conduta própria, e ela não é esperar. Confirmado o diagnóstico clínico, o encaminhamento se escreve com o conteúdo descritivo mínimo, e as comorbidades descompensadas se tratam em paralelo, não antes — a norma brasileira de regulação diz isso literalmente. Enquanto espera, o paciente precisa saber o que fazer se a hérnia mudar de comportamento, porque é essa instrução que transforma uma emergência de madrugada em uma vinda a tempo.
Prescrição- Encaminhamento à Cirurgia Geral com quadro clínico, achados de exame físico, história de complicações, recidiva e comorbidades
- Escrever a palavra femoral quando ela não puder ser afastada, e a expressão complicação prévia quando houver — as duas dão preferência na fila
- Manejo simultâneo de tabagismo, obesidade, diabetes e hipertensão descompensados, sem segurar o encaminhamento
- Tratar o que aumenta a pressão intra-abdominal: constipação, tosse crônica, sintomas urinários obstrutivos
- Instrução escrita de retorno imediato: caroço que não volta mais, caroço que dói, vômito com parada de eliminação de gases
- Combinar e registrar que o paciente NÃO deve forçar a redução se o caroço estiver doloroso
Como saber se está funcionando
A reavaliação da hérnia tem dois relógios muito diferentes. No paciente internado com hérnia encarcerada ou operado de urgência, ela se conta em horas e mede sofrimento de alça e resposta ao volume. No paciente eletivo em fila, ela se conta em meses e mede uma coisa só: se a hérnia deixou de ser eletiva. Os dois relógios estão abaixo, misturados de propósito, porque o mesmo paciente troca de relógio sem aviso.
Uma regra que vale para os dois: comparar vale mais do que medir. Uma frequência cardíaca de 104 diz pouco; uma frequência que era 88 há duas horas e agora é 104, na mesma paciente e depois de volume, diz muito.
Esperado: Hérnia que reduzia continua reduzindo com pressão suave e sem dor
Se não melhora: Perda da redutibilidade é a mudança de estado que tira o paciente da fila e o coloca na urgência. Registre a data em que reduzia e a data em que parou; é essa comparação que caracteriza o encarceramento agudo e que separa dele a hérnia crônica irredutível e indolor, que não é emergência.
Esperado: Dor que cede a uma dose adequada de analgésico e permite examinar a virilha relaxada
Se não melhora: Opioide em dose cheia que não alivia é isquemia até prova em contrário. Nada de segunda dose no automático: reexamine a virilha e a barriga, refaça a contagem do pulso e da respiração, e ponha o estrangulamento de volta na mesa. Insistir no analgésico apaga o único aviso que chega antes de qualquer alteração no exame ou no laboratório.
Esperado: Pele de cor normal, sem calor local e sem edema que avance
Se não melhora: Eritema, coloração arroxeada, calor ou edema que progride sobre a hérnia são sinais locais de sofrimento e antecipam a cirurgia. Descreva a cor e a extensão por escrito, com horário — é a comparação entre duas descrições que mostra a progressão, e a memória não faz isso.
Esperado: Queda da frequência cardíaca depois de reposição adequada, com frequência respiratória abaixo de 22
Se não melhora: Pulso que segue alto mesmo com o volume já reposto deixou de ser hipovolemia e virou sinal de doença sistêmica. Uma respiração acima de 22, em pulmão sadio, é o corpo compensando acidose — e ela aparece no exame antes de o lactato voltar do laboratório. Numa virilha discreta e num abdome ainda suportável, esses dois números juntos são o que se subestima e o que mata.
Esperado: Volta a soltar gases — o que acontece antes de voltar a evacuar
Se não melhora: Ausência mantida de gases num paciente que não piora ainda cabe dentro da evolução esperada, e o manejo a partir daqui é do capítulo A pergunta não é se obstruiu. Duas ressalvas locais: na hérnia de Richter o paciente continua eliminando gases e a alça está morrendo, de modo que eliminação preservada não tranquiliza; e o retorno da eliminação depois de uma redução não autoriza alta, porque a alça reduzida pode estar inviável dentro da cavidade.
Esperado: Micção espontânea, com volume compatível e sem dor suprapúbica
Se não melhora: Ausência de micção em 6 horas com desejo miccional e bexiga palpável ou medida é retenção urinária pós-operatória, e ela é mais frequente depois de bloqueio do que depois de anestesia geral ou local — a diretriz brasileira registra que a anestesia local é a de menores índices de retenção. Antes de passar sonda, comprove que há urina retida — o capítulo O alívio é a parte fácil insiste, com razão, que bexiga vazia significa que o rim parou de produzir, e sonda não resolve isso. A decisão sobre como esvaziar e o manejo da próstata pertencem àquele capítulo; a técnica da sondagem é do capítulo Sondagem vesical.
Esperado: Nenhum abaulamento; edema e endurecimento discretos regridem em semanas
Se não melhora: Abaulamento mole, indolor e que apareceu nas primeiras semanas costuma ser seroma — cerca de 7% dos operados —, e o paciente frequentemente o confunde com recidiva precoce. Seroma não se drena de rotina, e dreno não melhora o desfecho. Abaulamento que aparece meses depois, redutível, com impulso à tosse, é recidiva: encaminhamento, e a diretriz brasileira recomenda tratá-la por via diferente da usada antes.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que troca um diagnóstico visível por uma catástrofe invisível. A alça de viabilidade duvidosa volta para dentro da cavidade, o abaulamento some, a dor local cede por minutos e o quadro parece ter melhorado. Se aquela alça perfurar, perfura livre no peritônio, e a peritonite vai ser procurada horas depois, do zero, num paciente que já tinha recebido alta ou que já tinha sido tirado da lista cirúrgica. Existe ainda a redução em bloco, em que o saco e o anel constritor descem juntos e a alça segue estrangulada lá dentro sem nenhum sinal externo.
Como pegar a tempo: Não realizar redução forçada ou repetida, nem tentar diante de suspeita de isquemia, peritonite ou deterioração. Na irredutibilidade aguda sem suspeita de isquemia, equipe experiente pode considerar redução delicada após avaliação, analgesia e preparo, com observação e plano cirúrgico. Persistência de dor após desaparecimento do abaulamento exige procurar redução em bloco ou alça comprometida. Massa pulsátil segue avaliação vascular, sem manobra de redução.
O dano: Boa parte das hérnias redutíveis desaparece em decúbito, e o exame vira falso-negativo. O paciente sai da consulta com a hipótese descartada, volta ao encaminhamento zero e retorna meses depois, às vezes pela emergência. No sentido inverso, examinar só de pé perde a informação de redutibilidade, que é justamente a que decide o destino naquele dia.
Como pegar a tempo: Examinar ambas as virilhas de pé e deitado, quando a condição permitir, com inspeção e palpação. Avaliar redutibilidade apenas em cenário apropriado, sem tornar tentativa de redução parte obrigatória de todo exame, especialmente se houver dor aguda ou suspeita de isquemia. Registrar posição e achados.
O dano: É o cenário de maior letalidade deste capítulo. Numa senhora magra, a femoral presa costuma medir dois centímetros, não dói longe do próprio caroço e não aparece para quem palpa só a barriga. É causa de obstrução, opera na hora, e o diagnóstico se faz com a mão. As consequências estão medidas: 36% a 39% das crurais são operadas em emergência contra 5% das inguinais, 23% das crurais de urgência precisam de ressecção intestinal, e a mortalidade em 30 dias sobe de menos de 0,1% no eletivo para 3,8% na emergência.
Como pegar a tempo: Em todo abdome distendido, e principalmente naquele sem cicatriz nenhuma, palpe as duas regiões inguinais e as duas femorais antes de pedir imagem. Ache o tubérculo púbico com o polegar e procure deliberadamente abaixo e lateralmente a ele. E registre o resultado por escrito também quando não houver nada: anotar que as duas virilhas foram examinadas e estavam livres é o que permite ao próximo plantonista aproveitar o seu exame em vez de refazê-lo.
O dano: O paciente perde meses de fila por uma leitura errada da norma. Obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30, diabetes e hipertensão descompensados e tabagismo ativo são contraindicações RELATIVAS ao procedimento, e o próprio protocolo brasileiro de regulação manda que o manejo dessas condições ocorra concomitantemente ao encaminhamento. Numa fila contada em meses, adiar o encaminhamento é aumentar a chance de o paciente operar de emergência.
Como pegar a tempo: Encaminhe hoje e trate em paralelo. Escreva no encaminhamento quais comorbidades existem e que estão em manejo — isso é conteúdo descritivo mínimo, não observação. E explique ao paciente que parar de fumar melhora o resultado da cirurgia dele, sem transformar isso em condição para entrar na fila.
O dano: Ocupa uma vaga de exame, atrasa o encaminhamento em semanas e não muda nada. Pior: cria a ilusão de que o exame decide o tipo. Nem o exame físico nem a imagem separam de forma confiável a hérnia inguinal da crural — é a própria diretriz brasileira que afirma isso —, e um laudo dizendo hérnia inguinal não autoriza afastar femoral numa mulher.
Como pegar a tempo: Imagem tem três indicações: dor inguinal sem abaulamento palpável, história compatível com exame vago, e suspeita de diferencial que a imagem resolva. Fora delas, escreva o diagnóstico clínico e encaminhe. E quando a dúvida persistir depois da ultrassonografia, o exame de maior acurácia na região é a ressonância, não a tomografia.
O dano: Cria uma expectativa que a estatística não sustenta e destrói a confiança quando a realidade chega. Dor crônica moderada a grave depois de herniorrafia ocorre em cerca de 10% a 12% dos operados; seroma em cerca de 7% e hematoma em cerca de 8%; a recidiva com Lichtenstein fica abaixo de 4% em cirurgião de menor volume. Quem não foi avisado interpreta o seroma como recidiva, a dor de três meses como erro, e a restrição de peso como exagero.
Como pegar a tempo: Diga os três números antes da cirurgia, com palavras simples: a maioria fica bem; cerca de um em dez fica com alguma dor persistente; um inchaço mole na virilha nas primeiras semanas quase sempre é líquido e não é a hérnia voltando. E combine explicitamente o que fazer se cada um deles acontecer.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa mais importante deste capítulo não é a da madrugada. É a do ambulatório, com o paciente que vai esperar meses e que precisa sair da sala sabendo três coisas: o que fazer se a hérnia mudar, o que ele pode continuar fazendo, e por que a espera não significa que ninguém se importa. É essa conversa que determina se ele volta a tempo.
Uma advertência de linguagem que atravessa todas as falas abaixo: a diretriz internacional classifica o levantamento de peso como fator que PODE predispor à formação da hérnia, com nível de evidência que ela mesma declara moderado a baixo. Dizer que o trabalho causou é afirmar mais do que a fonte permite; dizer que não tem nada a ver é afirmar menos. A formulação honesta está na quinta fala.
Ao paciente que pergunta se a hérnia vai estourar
“Hérnia não estoura. O que pode acontecer é a alça de intestino ficar presa no buraco e não voltar mais — e aí, se ela ficar presa a ponto de o sangue não circular direito, vira cirurgia de urgência. Isso não é comum, mas acontece. O senhor não vai conseguir prever o dia. O que o senhor consegue é reconhecer na hora: o caroço para de voltar para dentro, ou começa a doer, ou o senhor passa a vomitar e para de soltar gases. Qualquer uma dessas três, o senhor vem para o pronto-socorro no mesmo dia, e não espera amanhecer.”
Não diga: Pode estourar a qualquer momento, tem que operar já. Ou o oposto: relaxa, isso aí não dá nada.
Ao paciente que pergunta quanto tempo ainda vai esperar
“Eu não sei a data, e não vou inventar uma. O que eu posso fazer é o que depende de mim: escrever no encaminhamento tudo o que aumenta a sua prioridade — que o senhor já teve um episódio de dor com o caroço preso, que ele incomoda no trabalho, e as suas comorbidades. E posso ligar para a regulação e registrar isso no prontuário. O que eu preciso do senhor é que fique com este papel, com os três sinais escritos, e que não deixe de vir se algum aparecer. Enquanto espera, o senhor não está sem plano; está com um plano que inclui a possibilidade de mudar de fila.”
Não diga: Está na fila, é assim mesmo. Ou: qualquer coisa o senhor volta aqui.
Ao paciente que pergunta o que é a tela e se o corpo rejeita
“A tela é uma trama fina de material sintético que o cirurgião coloca por cima do ponto fraco da parede. Ela não substitui músculo: ela serve de andaime para o seu próprio tecido crescer por cima e endurecer ali. O corpo não rejeita como se rejeita um transplante — ele incorpora. A tela existe porque costurar tecido fraco em tecido fraco tem chance maior de a hérnia voltar. Ela não passa pelo detector do aeroporto, não precisa ser trocada e não tem prazo de validade.”
Não diga: É uma telinha, não precisa se preocupar com isso. Ou usar a palavra prótese sem explicar.
Ao paciente que pergunta quando volta a trabalhar e quando pode pegar peso
“Duas coisas diferentes. Voltar à vida normal é quando não doer mais para fazer a coisa, e isso costuma ser entre dois e sete dias — não existe motivo para o senhor ficar parado em casa esperando um prazo. Pegar peso é outra história: esforço grande e peso acima de dez quilos ficam fora por quatro a seis semanas. E uma informação que costuma aliviar: com tela, voltar cedo à atividade normal não aumenta a chance de a hérnia voltar. O que eu preciso saber do senhor, para escrever o atestado certo, é o que exatamente o senhor faz no serviço.”
Não diga: Trinta dias de atestado para todo mundo. Ou: pode fazer tudo, está liberado.
Ao paciente que pergunta se foi o trabalho que causou a hérnia
“A resposta honesta é: pode ter contribuído, e ninguém consegue provar que causou. O que se sabe é que esforço repetido e levantar peso aumentam a pressão dentro da barriga e podem favorecer o aparecimento — e as próprias diretrizes dizem que a evidência disso é fraca. Também pesam a idade, o tabagismo, a tosse crônica, o intestino preso. Eu vou registrar no prontuário exatamente o que o senhor faz no trabalho e há quanto tempo, porque isso é informação clínica. Se o senhor quiser levar isso adiante como questão trabalhista, existe um caminho próprio, e eu te explico para onde ir.”
Não diga: Foi o trabalho, sim, isso é doença ocupacional. Ou: não tem nada a ver com o trabalho.
À família, antes da cirurgia de urgência, quando pode haver ressecção de alça
“A dona Ninfa tem uma hérnia na virilha que prendeu um pedaço do intestino. A operação é agora, e não dá para esperar. Eu preciso ser claro sobre uma possibilidade: quando o cirurgião abrir, ele vai olhar aquele pedaço de intestino e decidir se ele está bom ou não. Se estiver bom, volta para dentro e ele fecha. Se não estiver, é preciso retirar aquele pedaço e emendar as duas pontas — e em algumas situações a emenda não pode ser feita na hora. Eu não sei ainda qual dos dois vai ser, e vou avisar vocês assim que souber.”
Não diga: É uma cirurgia simples, de rotina. Ou entrar em detalhes de técnica que a família não pediu.
Ao paciente que volta com dor na virilha três meses depois da cirurgia
“Essa dor tem nome e tem gente que estuda ela: acontece em cerca de um em cada dez operados, e não quer dizer que a cirurgia deu errado nem que a hérnia voltou. Hoje eu vou fazer duas coisas. Primeiro examinar para ver se tem hérnia de novo, que é outra coisa e se trata diferente. Segundo, mapear com o senhor exatamente onde dói, com o dedo, porque a região tem três nervos e o lugar da dor ajuda a saber qual deles está envolvido. O tratamento começa por medicação e, se não bastar, existem bloqueios. Cirurgia para dor é o último recurso e só depois de bastante tempo.”
Não diga: Já operou, não tem mais o que fazer. Ou: é psicológico.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Cerca de 70% precisam de cirurgia em dois anos
O documento brasileiro escreve que cerca de 70% dos pacientes em observação desenvolverão sintomas e solicitarão cirurgia em um período de dois anos de observação, e apoia a frase no ensaio de longo prazo de Fitzgibbons e colaboradores, de 2013. Nessa leitura, a observação é uma janela curta: quem entra nela deve ser informado de que a maioria vai operar dentro de dois anos, e o argumento pende para indicar a cirurgia já em quem tem condição clínica de operar.
Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2019
Cerca de um terço em um ano e meio a três anos; 70% em torno de sete anos
A atualização internacional resume o mesmo corpo de evidência dizendo que cerca de um terço dos pacientes migra da conduta expectante para a cirurgia entre um ano e meio e três anos, e que cerca de 70% o fazem em torno de sete anos a contar da consulta inicial. Nessa leitura, a observação é uma estratégia de médio prazo: dois terços dos observados ainda não operaram aos três anos, o que dá espaço real para adiar a cirurgia no paciente de risco elevado.
Atualização das diretrizes internacionais HerniaSurge, BJS Open, 2023
A decisão entre operar e observar depende de sintomas, risco cirúrgico, tipo de hérnia e preferência. No homem selecionado com poucos sintomas, organize seguimento e sinais de retorno imediato. Explique que muitos pacientes inicialmente observados acabam operando, sem prometer um prazo baseado em percentuais de janelas diferentes. Sintomas relevantes ou mudança do quadro exigem nova avaliação.
Existe: o homem pouco sintomático com risco cirúrgico aumentado pode ser observado
A diretriz de sociedade afirma que a observação pode ser uma alternativa segura para pacientes do sexo masculino com comorbidades que aumentem o risco cirúrgico e para aqueles com hérnia pouco sintomática ou assintomática, e vai além ao dizer que o motivo para definir o momento da cirurgia não é o risco de encarceramento ou estrangulamento, e sim o prejuízo de qualidade de vida que a hérnia causa. Nessa leitura, decidir não encaminhar é uma decisão clínica legítima e documentável.
Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, 2019
Não existe: toda hérnia inguinal entra na lista de encaminhamento
O Protocolo 3 lista, entre as condições que indicam encaminhamento à Cirurgia Geral, a hérnia inguinal — sem qualquer qualificador de sintoma —, ao lado da umbilical apenas se sintomática. E oferece observação clínica expressamente para hérnia umbilical ou incisional minimamente sintomática ou assintomática, especialmente em idosos com comorbidades que aumentem o risco cirúrgico ou que não desejem operar. A hérnia inguinal fica de fora dessa oferta. Nessa leitura, o médico da atenção primária que não encaminha uma hérnia inguinal está fora do protocolo que rege a sua regulação.
Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral Adulto, TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, elaborado em 07/12/2020 e ainda distribuído nessa redação
Encaminhamento para avaliação cirúrgica e decisão de operar são etapas distintas. Registre sintomas, repercussão no trabalho, redutibilidade, comorbidades e preferência do paciente. Isso permite discutir observação ou reparo com o cirurgião e justificar prioridade. Sinais de complicação mudam o destino para urgência, em vez de seguirem a fila eletiva.
Laparoendoscópica de preferência, para qualquer sexo, se houver expertise e recursos
A atualização internacional recomenda, para pacientes de qualquer sexo com hérnia inguinal primária unilateral, uma técnica laparoendoscópica, por menor incidência de dor pós-operatória e redução da dor crônica — e condiciona a recomendação, no texto da própria recomendação, à disponibilidade de um cirurgião com expertise específica e de recursos suficientes. A mesma atualização registra que a curva de aprendizado da via laparoscópica é mais longa que a da aberta.
Atualização das diretrizes internacionais HerniaSurge, BJS Open, 2023
Lichtenstein como procedimento de escolha entre as abertas; via posterior indicada nominalmente à mulher e à recidiva
A diretriz brasileira chama a técnica de Lichtenstein de procedimento de escolha e a considera padrão-ouro entre as abertas, com recidiva em menos de 4% nas mãos de quem opera pouca hérnia por ano e em menos de 2% nas de quem opera muita. Recomenda os reparos pré-peritoneais, em especial TAPP e TEP, nominalmente para as mulheres, pelo risco de recorrência crural, e recomenda para a recidiva uma via diferente da anterior. Para o homem com hérnia primária unilateral, ela não declara preferência de via, e diz que a escolha deve se basear em habilidade, formação e experiência do cirurgião.
Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, 2019
A equipe escolhe a via conforme características da hérnia, operação prévia, experiência e recursos. Em mulher, bilateralidade ou recidiva, confira a recomendação de acesso posterior apresentada e, na recidiva, o plano já abordado. A técnica deve ser dominada pelo operador e viável no serviço. Explique as opções disponíveis e seus motivos sem transformar o valor de uma tabela administrativa em indicação.
O raciocínio, em voz alta
Ninfa Abranches, 79 anos, 46 quilos, viúva, mora sozinha e cuida da própria casa. Chega ao pronto-socorro às 23h40 de uma terça, trazida pela vizinha, com vômitos que começaram no fim da tarde e dor abdominal em cólica que virou dor contínua. Não elimina gases desde o jantar. Está lúcida, com mucosas secas, frequência cardíaca 104, pressão arterial 108 por 62, temperatura 36,8 °C, saturação 96% em ar ambiente. Abdome distendido, difusamente doloroso, sem defesa, ruídos hidroaéreos aumentados e metálicos. Nenhuma cicatriz na parede abdominal. A triagem escreveu: vômitos, investigar. Você é o interno e é o primeiro a examiná-la.
o exame que ninguém fez, e leva quarenta segundos
Antes de qualquer pedido, você despe a paciente da cintura para baixo com a vizinha do lado de fora e a acompanhante da enfermagem dentro, e palpa as duas regiões inguinais e as duas femorais. Acha o tubérculo púbico direito com o polegar e encontra, abaixo do ligamento inguinal e lateralmente ao tubérculo, uma saliência de dois centímetros, endurecida, dolorosa ao toque e que não volta para dentro — algo que ela nunca percebeu, porque até hoje não incomodava. O nome disso é hérnia femoral presa obstruindo delgado, e a partir deste minuto a cirurgia está indicada. A causa mais comum de obstrução — brida de cirurgia anterior — estava descartada pela pele antes de você tocar nela.
o que se escreve, com estas palavras
No prontuário: hérnia femoral direita irredutível e dolorosa, com obstrução intestinal; regiões inguinais e femoral esquerda livres; ao toque, reto vazio e colabado, luva limpa. Escrever hérnia femoral, e não abaulamento em virilha, é o que faz o cirurgião entender o telefonema em dez segundos. E o achado negativo escrito — a virilha esquerda livre, o toque retal — vale muito mais do que o achado negativo presumido: é ele que permite ao plantonista das sete da manhã confiar no exame já feito em vez de recomeçar.
o que corre em paralelo, antes de o cirurgião chegar
Dieta zero. Dois acessos periféricos curtos e calibrosos. Cloreto de sódio 0,9% 500 mL em 30 a 60 minutos, com reavaliação de perfusão, frequência cardíaca e diurese ao fim — nesta paciente de 46 quilos, esse volume já é uma expansão significativa e precisa ser reavaliado, não repetido no automático. Dipirona 1 g por via intravenosa, que são 2 mL da solução a 500 mg/mL, diluídos e lentos. Sulfato de morfina 2 mg por via intravenosa titulados: 1 mL da ampola de 10 mg/mL diluído em 9 mL, e 2 mL da diluição. Sonda nasogástrica aberta pelos vômitos repetidos. Eletrólitos, função renal, hemograma, lactato, coagulograma e tipagem colhidos. Cabeceira elevada. Cirurgia acionada com a hipótese dita ao telefone.
a decisão que o residente de plantão propõe, e a resposta
Neste caso, hérnia femoral tensa e dolorosa, obstrução e contexto de evolução sustentam preocupação com comprometimento da alça. A equipe decide pela abordagem urgente e não pela redução para adaptar a cirurgia à agenda. Isso não proíbe redução manual em todo cenário: casos selecionados sem suspeita de isquemia podem ser avaliados por equipe experiente, com analgesia, técnica delicada e observação. O interno não realiza tentativas repetidas por conta própria.
o exame que não se pede, e o motivo
A tomografia não é solicitada. Não porque tomografia seja ruim, mas porque nesta paciente ela não muda nada: a indicação cirúrgica já existe pelo achado da mão, e as duas horas até o tomógrafo ficar livre seriam duas horas a mais de intestino comprimido dentro de um anel que não cede. E a distância entre congestão e necrose se mede em horas. Se a hérnia não tivesse sido palpada e a hipótese fosse obstrução a esclarecer, a imagem teria outro peso — e a condução a partir daí seria a do capítulo A pergunta não é se obstruiu.
a conversa com a família antes da mesa
A filha chega às 00h50. Você explica: a dona Ninfa tem uma hérnia na virilha que prendeu um pedaço do intestino; a operação é agora e não dá para esperar; quando o cirurgião abrir, ele vai olhar aquele pedaço e decidir se está bom — se estiver, volta para dentro; se não estiver, é preciso retirar e emendar, e em algumas situações a emenda não pode ser feita na hora. Você diz que ainda não sabe qual dos dois será e que avisará assim que souber. Não promete cirurgia simples nem entra em detalhes de técnica que ninguém pediu.
o que aconteceu na mesa, e a decisão sobre a tela
O cirurgião encontra alça de delgado congesta que reperfunde depois de aberto o anel, e não há perfuração, peritonite nem abscesso — a ferida é considerada limpa. Nessa condição, a diretriz brasileira recomenda a tela, e é o que é feito. A regra a levar do caso é esta, na forma em que ela é útil: o que contraindica a tela na urgência é a CONTAMINAÇÃO do campo, não a urgência em si. Se houvesse alça perfurada, peritonite ou abscesso, o reparo seria feito sem prótese.
o pós-operatório, e a alta
Nas primeiras horas, quatro vigilâncias: dor desproporcional, sangramento, retorno da função intestinal e micção. Às cinco horas de pós-operatório ela ainda não urinou e refere desejo miccional; mede-se o volume vesical à beira do leito antes de encostar em qualquer sonda: se não houver urina retida, o problema é de produção e não de saída. A decisão sobre como esvaziar é do capítulo O alívio é a parte fácil, e a técnica é do capítulo Sondagem vesical. Na alta, o papel leva três coisas escritas: o que é normal, os sinais de retorno imediato, e o que fazer com o corpo — atividade quando não doer, sem peso acima de 10 kg por quatro a seis semanas. E uma frase que costuma evitar uma vinda desnecessária: um inchaço mole e indolor na virilha nas primeiras semanas quase sempre é líquido, e não a hérnia voltando.
Faça você
Sábado, 15h20, pronto-socorro de um hospital de médio porte. Lauriano Miracema, 41 anos, auxiliar de estoque, chega andando, pálido de dor, com a mão sobre a virilha esquerda. Ele tem um caroço ali há dois anos, que sempre voltou para dentro quando ele deitava. Hoje, às 10h, depois de empurrar um pallet, o caroço saiu e não voltou mais. Dói desde então, e a dor aumentou. Ele não vomitou, eliminou gases há uma hora e evacuou de manhã. Frequência cardíaca 96, pressão arterial 132 por 84, temperatura 36,5 °C. Abdome plano, sem distensão, doloroso apenas na região inguinal esquerda. Na virilha esquerda, acima e medialmente ao tubérculo púbico, um abaulamento de quatro centímetros, tenso, muito doloroso, que não reduz. A pele sobre ele está de cor normal. O plantonista diz: tenta reduzir aí, que a gente evita uma cirurgia de sábado.
o que já está decidido antes de qualquer manobra
Antes de discutir redução, três coisas já estão decididas pelo que está escrito na vinheta. Primeira: é hérnia inguinal, porque o colo está acima e medialmente ao tubérculo púbico. Segunda: é uma hérnia que reduzia e parou de reduzir HOJE, e é essa mudança que caracteriza o encarceramento agudo — a hérnia crônica irredutível e indolor é outra coisa e não é emergência. Terceira: pelo protocolo brasileiro de regulação, hérnia dolorosa e não redutível é encaminhamento à urgência, e ele já está na urgência.
os quatro dados que decidem se há sofrimento de alça
Antes de tudo, o que se procura ativamente: pele eritematosa ou arroxeada sobre o abaulamento — aqui, ausente; sinais sistêmicos, com taquicardia que não corrige, febre ou hipotensão — aqui, ausentes; sinais de obstrução, com vômito, distensão e parada de eliminação de gases — aqui, ausentes, e ele eliminou gases há uma hora; e resposta da dor a uma dose adequada de analgesia — ainda não testada, porque ninguém prescreveu nada. O quarto dado é o único que falta, e ele não se obtém esperando: obtém-se prescrevendo.
a resposta ao plantonista, e por que ela não é um não seco
A recusa não é à ideia de redução em abstrato; é à redução feita agora, às cegas, e por uma razão de agenda. O que se faz primeiro é analgesia adequada e reexame: dipirona 1 g por via intravenosa e morfina titulada, e reavaliação em 30 a 60 minutos. Analgesia não estraga o exame cirúrgico — ela solta a parede e deixa você examinar de verdade. E a própria resposta ao analgésico é dado: se o opioide em dose cheia não aliviar, o sofrimento de alça volta à mesa, e uma segunda dose no automático apagaria o único aviso que chega antes de qualquer alteração no exame ou no laboratório.
a cirurgia foi acionada, e a hérnia sumiu na maca
Às 16h10, depois da analgesia, o paciente relaxa e o abaulamento desaparece sozinho — nem foi preciso manobra. A dor melhora muito. O plantonista diz que agora é só encaminhar para o ambulatório. Aqui está a pergunta do caso, e ela é a única que importa: o que muda com o desaparecimento do abaulamento, e o que NÃO muda?
o que se combina com o paciente antes de qualquer alta
Independentemente da decisão sobre internar ou observar, três combinações precisam ser feitas por escrito e explicadas em voz alta: que ele não deve tentar reduzir sozinho se o caroço voltar doloroso; que ele volta ao pronto-socorro no mesmo dia se o caroço não reduzir, se doer, ou se ele vomitar e parar de soltar gases; e que ele agora tem uma complicação prévia registrada, o que muda a prioridade do encaminhamento. Escrever a expressão complicação prévia no encaminhamento é o que ativa a preferência que o protocolo brasileiro de regulação prevê.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare Ninfa, com urgência, ao paciente em fila eletiva. Explique por que a mesma palavra hérnia não determina a mesma conduta.
Questão integrativa 1
Ninfa precisa ficar de pé antes de você procurar a hérnia?
Questão integrativa 2
Obstrução equivale sempre a estrangulamento?
Questão integrativa 3
O interno deve tentar redução dolorosa repetidamente?
Questão integrativa 4
Sumir o abaulamento garante resolução?
Questão integrativa 5
É correto suspender toda analgesia para não mascarar a hérnia?
Questão integrativa 6
Qual hipótese merece destaque na mulher com massa inguinocrural?
Ver como fecharíamos
O que MUDA: a hérnia deixou de estar encarcerada neste momento, a dor cedeu e a indicação de operar nesta hora, em caráter de emergência, deixou de existir. O que NÃO muda, e é o ponto do caso: a alça que estava presa passou horas num anel apertado e voltou para dentro da cavidade. Ninguém a inspecionou. Uma alça que sofreu isquemia e foi reduzida pode evoluir para necrose e perfuração dentro do abdome — e, quando isso acontece, o quadro se apresenta como peritonite sem nenhum sinal na virilha, porque o abaulamento já sumiu. Existe ainda a possibilidade de redução em bloco: o saco e o anel constritor descem juntos, o caroço desaparece e a alça continua estrangulada, sem sinal externo nenhum. Por isso a conduta correta NÃO é alta. Lauriano fica em observação hospitalar por pelo menos 12 a 24 horas, com dieta zero enquanto a decisão não estiver tomada, exame abdominal seriado a cada duas horas por médico, frequência cardíaca e frequência respiratória registradas, e reavaliação imediata se a dor voltar, se aparecer defesa, se ele vomitar ou se parar de eliminar gases. A cirurgia continua acionada, agora não como emergência mas como avaliação: quem decide se aquela alça precisa ser vista é o cirurgião, e a redução espontânea depois de horas de encarceramento é justamente a situação em que muitos serviços operam no mesmo internamento, em caráter de urgência diferida, em vez de mandar para casa. Registre-se, com honestidade, que os dois documentos brasileiros lidos para este capítulo — as Orientações da Sociedade Brasileira de Hérnia, de 2019, e o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS, de 2020 — NÃO descrevem a manobra de redução nem dizem o que fazer com a hérnia que reduziu espontaneamente depois de encarcerar. A conduta de observar em vez de dar alta é leitura deste capítulo a partir do mecanismo, e não citação de norma brasileira. Quanto à origem do quadro: Lauriano tem uma hérnia inguinal com complicação prévia agora documentada, o que lhe dá preferência no encaminhamento eletivo; e o esforço com o pallet é fator que pode ter contribuído, não fator que comprovadamente causou — a própria diretriz internacional classifica a evidência sobre levantamento de peso como moderada a baixa. Se ele quiser levar isso adiante como questão trabalhista, o caminho é o do capítulo Em que o senhor trabalha, e a obrigação clínica aqui é registrar no prontuário, com detalhe, o que ele faz no serviço e há quanto tempo. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Examinar em posição segura; o exame em pé é recurso eletivo, não requisito no quadro agudo. 2. Não. A primeira é interrupção do trânsito; o segundo envolve comprometimento vascular. Ambos exigem avaliação e podem coexistir. 3. Não. Suspeita de isquemia impede tentativa; reduções selecionadas cabem a equipe experiente e monitorada. 4. Não. Dor ou obstrução persistentes exigem reavaliação por lesão intestinal ou redução em bloco. 5. Não. Tratar a dor e reavaliar, sem usar melhora ou doses repetidas para adiar a decisão necessária. 6. Hérnia femoral, pela importância clínica e risco; examinar e comunicar explicitamente a suspeita.
Tumefação mole, indolor e sem impulso à tosse nas primeiras semanas é seroma, que ocorre em cerca de 7% dos operados — hematoma, em cerca de 8% — e que o paciente frequentemente confunde com recidiva precoce. A diretriz brasileira registra que seromas costumam evoluir bem sem descompressão e que o uso rotineiro de drenos não melhora o desfecho. Recidiva se apresenta como abaulamento redutível e com impulso à tosse, em geral meses depois. Antibiótico sem sinal de infecção não previne nada, expõe o paciente e não tem indicação neste quadro.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Pratique o exame das duas regiões inguinais sob supervisão e com consentimento: localização, mudança com posição e esforço, dor, pele e sinais de complicação. Não tente reduzir sistematicamente qualquer massa; explique quando o exame permite avaliação delicada e quando a suspeita de isquemia exige cirurgia.
Em 30 dias
Volte ao caso de Ninfa Abranches e troque um dado por vez, verbalizando qual passo da conduta se desloca com aquela troca e por qual razão — fisiológica ou normativa. Ela tem 34 anos e está grávida de 22 semanas. A pele sobre o abaulamento está arroxeada. O abaulamento está acima e medialmente ao tubérculo púbico, e não abaixo e lateralmente. Ela continua eliminando gases normalmente e o abdome não está distendido. O abaulamento reduziu sozinho enquanto você examinava. Ela tem 79 anos, o mesmo abaulamento, e ele é indolor e está assim há quatro anos. Na mesa, encontra-se alça perfurada com peritonite. Ela é homem, tudo o mais igual. No mesmo mês, faça uma segunda tarefa, que é de sistema e não de beira de leito: pegue os últimos cinco encaminhamentos de hérnia que saíram do seu serviço ou da unidade em que você passa, e confira se cada um traz o conteúdo descritivo mínimo — quadro clínico, achados de exame, história de complicações, recidiva e comorbidades — e se as palavras femoral e complicação prévia aparecem onde deveriam aparecer. Leve o resultado à reunião de equipe, e não ao plantão.
Agora atenda
Você acabou de ler o capítulo. Agora atenda: uma pessoa com um caroço na virilha, e você não sabe de antemão se ela é a que espera ou a que não espera. Cobre de si mesmo, no atendimento, as quatro coisas que o texto pediu e que se perdem sob pressa: examinar de pé e depois deitado, achar o tubérculo púbico antes de descrever o achado, perguntar se reduzia e parou de reduzir hoje, e verbalizar em voz alta se há ou não sinal de sofrimento de alça antes de propor qualquer manobra. Se em algum momento você pensar em empurrar o caroço para dentro, pare e diga por que é seguro fazê-lo — e, se não conseguir dizer, não faça.
