Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Onde a bile para

Icterícia obstrutiva e abordagem diagnóstica

Localizar obstrução biliar, reconhecer colangite e lesão pós-operatória e planejar investigação e intervenção com a equipe hepatobiliar.

Fontes deste capítulo

Bittencourt PL, Couto CA (organizadores). Manual de condutas em doenças colestáticas e autoimunes do fígado. DOC Content; 2019. Capítulo 1: Introdução e abordagem inicial da colestase (Carvalho EMO, Ferraz MLCG); capítulo 3: Colangite esclerosante primária (Carvalho Filho RJ, Silva AEB); glossário.

Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos 2026: Tumores do trato gastrointestinal superior — Vias biliares. Comitê de Tumores do Trato Gastrointestinal Superior; colaboração do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais. São Paulo: SBOC; 2026. Data de publicação impressa: 29/04/2026.

Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de acesso e classificação de risco: colangiopancreatografia endoscópica retrógrada (CPRE) — adulto. Florianópolis: SES-SC; sem data impressa.

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto. 3ª edição. Porto Alegre: UFRGS; 2025.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, para estabelecer a Política Nacional de Doação e Transplantes e definir o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Diário Oficial da União, republicação em 21/01/2026, edição 14, seção 1, p. 78.

01

Responda antes de ler

Homem de 67 anos, internado há 12 horas, com icterícia indolor e progressiva há quatro semanas, prurido, colúria, acolia e perda de 6 kg. Está afebril, sem calafrios e hemodinamicamente estável. Bilirrubina total de 12,4 mg/dL, com fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase muito elevadas. A ultrassonografia mostra dilatação acentuada das vias biliares intra-hepáticas nos dois lobos, colédoco de 5 mm e vesícula biliar colapsada, sem cálculos; o pâncreas foi visualizado sem alterações. O plantonista solicitou colangiopancreatografia retrógrada endoscópica urgente para diagnóstico e drenagem. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, sete e cinquenta da manhã, enfermaria de clínica cirúrgica de um hospital regional de cento e trinta leitos. O hospital tem tomógrafo, ultrassonografista de segunda a sábado e um cirurgião geral por plantão. Não tem ressonância magnética, não tem endoscopista que faça colangiopancreatografia retrógrada e não tem radiologista intervencionista. O hospital estadual que tem os três fica a duzentos e dez quilômetros, e a vaga se pede pela central de regulação.

Venâncio Lara tem 67 anos, dirigiu ônibus intermunicipal por trinta anos e internou ontem à noite pelo pronto-socorro. Há quatro semanas a esposa reparou que os olhos dele estavam amarelos; há três, a urina ficou cor de chá e as fezes clarearam; há duas, começou uma coceira que o acorda de madrugada e deixou riscos de unha nos antebraços. Ele não teve dor em momento nenhum, não teve febre, não teve calafrio. Perdeu seis quilos desde o Natal sem fazer regime. Nunca operou a vesícula e nunca fez endoscopia.

Na folha da entrada estão bilirrubina total de 12,4 miligramas por decilitro, com direta de 10,1; fosfatase alcalina de 612 e gama-glutamiltransferase de 890, com limites superiores de 120 e de 60; alanina aminotransferase de 148; leucócitos de 8.200; razão normalizada internacional de 1,4; creatinina de 0,9. A ultrassonografia feita às onze da noite descreve dilatação acentuada das vias biliares intra-hepáticas nos dois lobos, colédoco de 5 milímetros, vesícula biliar colapsada e sem cálculos, e pâncreas visualizado sem alterações.

Na prescrição, o plantonista da noite escreveu a caneta: solicito colangiopancreatografia retrógrada endoscópica para diagnóstico e drenagem, via central de regulação, urgente. O pedido entrou no sistema às duas da manhã. Às oito, na passagem de plantão, a conversa gira em torno de uma pergunta logística — se a vaga sai hoje ou amanhã.

O que ninguém disse em voz alta é o que a ultrassonografia está dizendo. Árvore biliar dilatada dentro do fígado com colédoco fino embaixo quer dizer que a bile está parando acima do ponto em que o ducto cístico desemboca: no hilo hepático, ou logo abaixo dele. A vesícula murcha conta a mesma história pelo outro lado — ela não enche porque a bile não chega até ela. Nessa altura, a lista de causas é outra. Saem de cena o cálculo encravado no colédoco distal e o tumor da cabeça do pâncreas, que dilatariam o colédoco inteiro e distenderiam a vesícula. Entram o tumor da confluência dos ductos hepáticos, o câncer da vesícula que invade o hilo, a compressão por linfonodos, a estenose que sobra de uma cirurgia — que ele não fez — e a colangite esclerosante.

E nessa altura o procedimento pedido às duas da manhã é o que mais atrapalha o que vem depois. Uma endoscopia que injeta contraste num hilo obstruído, sem saber quais setores do fígado ainda funcionam e quais estão atrofiados, opacifica ductos que depois não consegue drenar; a colangite de um setor contaminado e não drenado é complicação conhecida desse procedimento no hilo, e nasce do procedimento, não do tumor. A diretriz norte-americana de 2023 sobre estenoses biliares escreve que a endoscopia no hilo começa pela revisão da tomografia ou da ressonância, e que o plano de drenagem sai dessa leitura. O mapa vem antes do toque. Venâncio não tem colangite, e o que ele precisa hoje não é uma vaga de endoscopia: é uma colangiorressonância e uma tomografia com contraste, pedidas com a hipótese escrita.

Este capítulo é sobre as quarenta e oito horas em que um ictérico ainda não tem nome. A contribuição do interno cabe em poucos gestos e pesa muito: ler a ultrassonografia pela altura em que a via para, pedir o exame que responde a pergunta daquela altura, segurar o procedimento que atrapalha, tratar desde já o que não depende do diagnóstico, e escrever um encaminhamento que chegue ao serviço certo com o mapa na mão.

As duas causas mais frequentes de icterícia obstrutiva no adulto têm dono no nível e entram aqui só como ponto de partida. O cálculo no colédoco e a colangite aguda — reconhecer, graduar pela régua de Tóquio e drenar no prazo do grau — pertencem ao capítulo Bile sob pressão, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; a vesícula, a colecistite e o momento da colecistectomia pertencem a A mesma pedra, três destinos, na mesma apostila. O câncer da cabeça do pâncreas e os tumores periampulares, incluído o colangiocarcinoma do colédoco distal, a tomografia com protocolo de pâncreas, a ressecabilidade e a duodenopancreatectomia pertencem a A icterícia que não dói, nesta apostila. A leitura do padrão laboratorial de lesão pertence a Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. O hepatocarcinoma é de A agulha que não precisa entrar, nesta apostila; a icterícia do recém-nascido é de A hora antes da cor, na Neonatologia; a colestase da gestação é de Uma coça, a outra vomita, na Obstetrícia.

O que não tinha dono, e este capítulo assume declarando que assume: a sequência diagnóstica que liga essas causas antes de se saber qual delas é; o colangiocarcinoma do hilo e o de dentro do fígado; o câncer da vesícula enquanto causa de icterícia; a síndrome de Mirizzi; a lesão da via biliar na colecistectomia e a estenose benigna que ela deixa; e, da colangite esclerosante primária, o que o cirurgião precisa saber — a estenose dominante e o câncer que ela pode esconder. O capítulo Bile sob pressão assume o tumor de via biliar enquanto causa de obstrução e de colangite e registra que o estadiamento e o tratamento desses tumores estavam sem capítulo: o tumor do hilo e o de dentro do fígado passam a tê-lo aqui, e o do colédoco distal fica com A icterícia que não dói. O capítulo de doença inflamatória intestinal, A diarreia que não é infecciosa, cita a colangite esclerosante como risco de câncer e não a trata; o seguimento clínico de longo prazo dessa doença é da hepatologia, e este capítulo não o cobre.

Vale dizer desde já qual régua o Brasil usa, porque ela explica metade das decisões. Para a sequência de exames da colestase, a referência nacional é um manual de condutas da Sociedade Brasileira de Hepatologia, de 2019; não há protocolo clínico federal para icterícia obstrutiva. Para o tumor de via biliar, é a diretriz de tratamentos oncológicos da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, na edição publicada em abril de 2026. Para a lesão da via biliar na colecistectomia, a régua em uso é internacional: a diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência, publicada em 2021. O acesso aos procedimentos é regulado por estado, e o capítulo usa o protocolo da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina para a colangiopancreatografia retrógrada como exemplo do que a regulação pede. E a norma federal de transplantes de 2025 abre lista de espera de fígado para a colangite esclerosante primária, e não abre para o colangiocarcinoma.

03

Quem adoece disso

Icterícia obstrutiva não tem número nacional, e o motivo é de construção: ela é uma síndrome, e a estatística brasileira de câncer é organizada por órgão. A estimativa oficial do Instituto Nacional de Câncer, que cobre de 2026 a 2028, apresenta 21 localizações selecionadas. Entre elas estão o fígado e as vias biliares intra-hepáticas, com o código C22, e o pâncreas, com o C25. Não estão a vesícula biliar, código C23, nem as demais partes da via biliar, código C24 — que é onde moram o colangiocarcinoma do hilo e o do colédoco distal. Esses tumores ficam dentro de outras localizações, uma rubrica que soma 71.030 casos novos por ano e não os separa de nada.

A consequência prática é que o interno não tem um número brasileiro para ancorar a suspeita do tumor do hilo. Não é que ele seja raro demais para importar: é que ninguém o conta à parte. Quem estima incidência nessa rubrica está supondo, e quem escreve que o colangiocarcinoma é raro no Brasil está afirmando algo que a estimativa oficial não mede.

O que a estimativa conta é o C22: 12.350 casos novos por ano, 7.340 em homens e 5.010 em mulheres, com risco de 5,78 por 100 mil habitantes. Pelo próprio documento, algo entre 75% e 85% desses casos são carcinoma hepatocelular. A sobra é conta simples: entre 15% e 25% de 12.350 são de 1.850 a 3.090 casos por ano que não são hepatocarcinoma. O colangiocarcinoma intra-hepático está dentro dessa sobra, junto com outros tipos, e o documento não diz quanto dela ele ocupa. A consequência vem da norma: as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma Hepatocelular no Adulto excluem expressamente, nos critérios de exclusão, os tumores primários que não são hepatocarcinoma, e citam o colangiocarcinoma pelo nome. O paciente com nódulo hepático que a biópsia chama de colangiocarcinoma sai da diretriz federal que o laudo de imagem parecia prometer.

Sem número nacional, o dado que mais orienta o raciocínio é de proporção, e vem de séries internacionais reunidas pela diretriz norte-americana de 2023. Numa série grande de pacientes com icterícia obstrutiva por estenose extra-hepática encaminhados para punção guiada por ecoendoscopia, 73% tinham câncer. Em duas revisões sistemáticas de estudos que compararam métodos de amostragem, a proporção de câncer foi de 74% a 87%. Entre estenoses que já tinham tido uma primeira amostragem negativa, ainda eram malignas 54%. E entre as operadas por suspeita, de 80% a 95%. O documento adverte que essas séries escolhem pacientes com suspeita maior, e mesmo assim conclui que a estenose biliar do adulto é mais provavelmente maligna do que benigna, com exceção de cenários bem definidos — como a estenose depois de cirurgia, a síndrome de Mirizzi ou o pseudocisto que comprime o colédoco.

Traduzido para a enfermaria: o ictérico com via dilatada e sem causa benigna evidente é tratado como câncer até que a investigação diga outra coisa. Isso não autoriza dizer a palavra ao paciente antes do laudo — autoriza pedir os exames na ordem e no prazo de quem tem hipótese de neoplasia, com essa hipótese escrita no pedido.

A causa benigna mais importante para o cirurgião é a que ele mesmo pode produzir. A diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência registra lesão da via biliar em 0,4% a 1,5% das colecistectomias laparoscópicas, contra 0,2% a 0,3% das abertas; em números inteiros, uma lesão a cada 67 a 250 operações por vídeo. A mortalidade chega a 3,5%, e lesão associada da artéria hepática direita é reconhecida em 25% dos casos. A maioria é percebida na própria operação ou nos primeiros dias, nos dois cenários mais comuns — bile vazando ou bile parada —, mas uma parte só aparece semanas ou anos depois, como estenose. A consequência para o interno está no denominador: a colecistectomia está entre as operações mais feitas do mundo, e uma taxa pequena sobre um denominador enorme põe esse paciente em toda enfermaria de cirurgia geral.

A colangite esclerosante primária é a terceira população deste capítulo. O manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia descreve predomínio em homens, na proporção de dois para um, média de idade de 40 anos ao diagnóstico e associação com doença inflamatória intestinal em cerca de 70% dos casos, mais frequentemente com a retocolite ulcerativa. As estenoses dominantes — o estreitamento de maior calibre, na via biliar extra-hepática, que provoca icterícia e colangite — aparecem em 10% a 30% dos pacientes. E a doença é pré-maligna: aumenta o risco de colangiocarcinoma, de adenocarcinoma da vesícula e, em quem tem doença inflamatória intestinal, de câncer colorretal. A consequência é de endereço: o interno encontra essa doença no ambulatório de retocolite, numa fosfatase alcalina que sobe num paciente jovem, e não na enfermaria de cirurgia.

Juntos, esses números desenham três perfis que valem mais do que qualquer tabela de frequência. O adulto mais velho, ictérico, sem dor e emagrecendo, com via dilatada e sem pedra, é um câncer até prova em contrário — e a altura da obstrução diz qual. Quem operou a vesícula, há dias ou há anos, e amarelou, tem uma lesão de via biliar até prova em contrário. E o jovem com retocolite e colestase tem colangite esclerosante até prova em contrário, com a lembrança de que essa doença é terreno de câncer.

04

Por que acontece o que acontece

Toda a lógica deste capítulo sai de uma encruzilhada anatômica. Os ductos hepáticos direito e esquerdo se juntam na confluência, no hilo do fígado, e formam o ducto hepático comum. Alguns centímetros abaixo, o ducto cístico traz a vesícula para dentro do sistema, e daí para baixo o cano se chama colédoco, que atravessa a cabeça do pâncreas até a papila. A vesícula, portanto, fica pendurada no meio do caminho. Quando a obstrução está abaixo da entrada do cístico, a vesícula está a montante do bloqueio, recebe bile sob pressão e distende, e o colédoco inteiro alarga. Quando a obstrução está acima, a vesícula está a jusante, deixa de receber bile e murcha, e o colédoco fica fino. Dois achados que qualquer ultrassonografia registra — o calibre do colédoco e o volume da vesícula — dizem, juntos, a altura da obstrução.

Duas árvores biliares esquemáticas comparam obstrução distal, dilatação a montante e possível distensão vesicular com obstrução hilar e via distal sem dilatação obstrutiva.
O nível da obstrução influencia quais segmentos biliares se dilatam. Na obstrução distal, a dilatação pode incluir a via extra-hepática e a vesícula; na hilar, o segmento distal pode manter calibre não dilatado. São padrões típicos, não obrigatórios. O tamanho da vesícula isoladamente não confirma nem exclui malignidade.

Acima da confluência, o fígado deixa de ser um saco único e passa a ser uma soma de setores, cada um com seu ducto. A diretriz norte-americana de 2023 sobre estenoses biliares usa a divisão que interessa à drenagem: o setor anteromedial direito, dos segmentos V e VIII, o posterolateral direito, dos segmentos VI e VII, e o setor esquerdo, dos segmentos II e III, respondem cada um por cerca de 30% do volume hepático, e os segmentos I e IV pelos 10% restantes. Um tumor que cresce na confluência e avança pelos ductos de segunda ordem separa esses setores uns dos outros, e cada prótese passa a drenar só o setor em que foi colocada. Daí a meta que o mesmo documento fixa para o tumor do hilo: drenar mais da metade do fígado que funciona, o que exige ao menos dois setores não atrofiados. Um único setor, de 30%, somado aos segmentos I e IV, chega a 40% e não basta.

É também por isso que o contraste é perigoso no hilo obstruído. A bile retida atrás de uma estenose é um líquido parado num espaço fechado. O procedimento endoscópico leva germes do duodeno para dentro da árvore biliar, e o contraste injetado sob pressão num ducto que não vai ser drenado deixa esses germes num compartimento sem saída: é a colangite do setor opacificado e não drenado. O mesmo raciocínio vale para o setor atrofiado — o lobo que perdeu irrigação portal ou ficou obstruído por tempo longo não contribui para depurar bilirrubina, e drená-lo acrescenta risco de infecção sem acrescentar função. A diretriz de 2023 escreve as três consequências com todas as letras: planejar a drenagem pela imagem antes do procedimento, não opacificar o que não será drenado nem o que está atrofiado, e dar antibiótico quando o contraste não escoa bem.

O colangiocarcinoma do hilo tem uma biologia que explica a dificuldade de prová-lo. Ele é desmoplásico — muito estroma fibroso e poucas células — e tende a crescer ao longo da parede, por baixo do epitélio, e não para dentro da luz. A escova que raspa a luz traz poucas células malignas: numa metanálise de 1.556 pacientes citada pela diretriz, a sensibilidade do escovado foi de 41,6%, e a combinação de escovado com biópsia por pinça subiu a 59% numa outra, com 730 pacientes. O falso-positivo é incomum; o falso-negativo é a regra do jogo. Por isso o laudo negativo de uma amostra de via biliar não afasta câncer, e a diretriz recomenda, com força forte, colher por mais de um método já no primeiro procedimento. E por isso não se punciona a lesão primária através do peritônio — nem por agulha percutânea, nem por ecoendoscopia: numa série da Clínica Mayo, 5 de 6 pacientes com biópsia transperitoneal positiva desenvolveram metástase peritoneal. O tamanho real desse risco é discutido — outro estudo grande não encontrou pior sobrevida depois da punção —, mas a maioria dos protocolos de transplante para colangiocarcinoma trata a punção transperitoneal prévia como critério de exclusão absoluta, e a precaução se mantém.

A síndrome de Mirizzi é a obstrução do hilo que vem de fora. Um cálculo encravado no infundíbulo da vesícula ou no ducto cístico, com a inflamação em volta, comprime o ducto hepático comum que corre colado a ele. O paciente amarela sem pedra nenhuma dentro do colédoco: a imagem mostra ductos dilatados acima do cálculo e colédoco normal abaixo, exatamente o padrão de uma obstrução alta. Com o tempo, a pressão do cálculo sobre as duas paredes pode necrosá-las e abrir uma fístula entre a vesícula e a via biliar. O perigo cirúrgico decorre do mesmo mecanismo: o triângulo formado pelo cístico, pelo ducto hepático e pelo fígado desaparece na fibrose, e a estrutura tubular que o cirurgião vê pode ser o ducto hepático comum puxado para dentro da inflamação.

A lesão da via biliar na colecistectomia nasce, na maioria das vezes, de uma identificação errada: o colédoco confundido com o cístico, clipado ou seccionado. Soma-se a lesão térmica, que não se vê no dia e vira estenose meses depois, e a lesão vasculobiliar, em que a artéria hepática direita é atingida junto e o ducto sofre também por isquemia. A diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência descreve as duas apresentações pelo que acontece com a bile. Se ela vaza, há dor, distensão, febre, bile no dreno ou coleção, e a icterícia costuma faltar ou ser discreta, porque a bile sai e não se acumula. Se ela para, os sintomas atrasam e o quadro é de icterícia colestática com colúria, acolia e prurido, e a colangite de repetição é a principal consequência da estenose. A prevenção tem nome — a visão crítica de segurança — e é técnica de quem opera; a primeira recomendação daquele documento é usá-la com seus três componentes e, quando ela não é alcançável, recorrer a um procedimento de saída, como a colecistectomia subtotal. A conversão para cirurgia aberta fica para quando o cirurgião não consegue prosseguir por vídeo, e o mesmo documento registra que falta evidência de que ela, por si, reduza a lesão.

Na colangite esclerosante primária, a inflamação imunomediada e a fibrose atingem a árvore biliar em vários pontos, dentro e fora do fígado, e o resultado são estreitamentos múltiplos intercalados com dilatações segmentares. A estenose dominante é o estreitamento que passa a mandar no quadro, com icterícia e colangite. O mesmo terreno inflamatório que produz as estenoses produz o câncer, e atrapalha a prova dele: a diretriz de 2023 registra que o desempenho da hibridização fluorescente in situ, o teste cromossômico que ajuda a achar malignidade no escovado, piora na colangite esclerosante, presumivelmente pela inflamação. No outro extremo está a colangite associada à IgG4, que desenha estenoses parecidas, predomina em homens mais velhos, costuma vir com pancreatite autoimune e responde a corticoide — o diferencial que troca uma hepatectomia por um comprimido. O que a bile parada faz ao resto do corpo — o prurido, a má absorção de gordura, a vitamina K — está explicado em A icterícia que não dói e vale igual para qualquer causa.

05

Como se apresenta de verdade

O espectro deste capítulo não se organiza por doença, e sim pela pergunta que o paciente traz para a beira do leito. Quase todos chegam com a mesma cor, e o que os separa são quatro dados de história que custam cinco minutos: se houve dor e febre, se houve cirurgia ou procedimento na via biliar, se há doença inflamatória intestinal, e se o peso caiu. Cada seção abaixo é um desses pacientes.

Antes da imagem: as perguntas que decidem de quem é o paciente

A primeira pergunta é se existe colestase, e ela se responde no laboratório, não na cor da esclera. O manual de condutas da Sociedade Brasileira de Hepatologia define a colestase laboratorial por fosfatase alcalina acima de 1,5 vez o limite superior da normalidade com gama-glutamiltransferase acima de 3 vezes, e lembra que a icterícia não é obrigatória para o diagnóstico: muita colestase é descoberta só pelas enzimas. A tríade clássica — icterícia, colúria e hipocolia ou acolia fecal — continua valendo como pista de beira de leito. A leitura completa do padrão, com as razões entre as enzimas e as armadilhas da obstrução muito recente, pertence ao capítulo Provas hepáticas, e não é repetida aqui.

A segunda pergunta é se há dor e febre. Febre com calafrio num ictérico é colangite até prova em contrário, e muda o relógio de dias para horas: o reconhecimento, a graduação e o prazo da drenagem são de Bile sob pressão. Dor em cólica que vai e volta, com icterícia que sobe e desce, aponta para cálculo que se move, e também é daquele capítulo. O que fica aqui é o ictérico sem dor, ou com dor contínua e discreta, sem febre — e o que teve colangite, foi drenado e melhorou, mas continua sem causa definida.

A terceira pergunta é sobre a via biliar do passado. Colecistectomia, mesmo antiga, põe a lesão de via biliar e a estenose na lista; prótese biliar coloca a oclusão da prótese; anastomose entre via biliar e intestino coloca a estenose da anastomose e muda as bactérias da colangite. Esses dados raramente aparecem na folha de encaminhamento e quase sempre estão na memória do paciente ou na cicatriz do abdome.

A quarta pergunta é sobre o que mais o paciente tem. Doença inflamatória intestinal coloca a colangite esclerosante no topo da lista. Pancreatite crônica coloca a estenose do colédoco distal. Câncer tratado de cólon, mama ou rim coloca a compressão do hilo por linfonodo ou metástase. E o manual brasileiro manda perguntar pelos medicamentos usados até seis semanas antes do início do quadro, porque a colestase por fármaco não dilata a via biliar e não é deste capítulo: é intra-hepática, e a sua investigação segue em Provas hepáticas. Perda de peso não intencional, quantificada, empurra tudo para neoplasia.

O tumor do hilo: a icterícia sem dor e o colédoco que não alarga

O colangiocarcinoma peri-hilar, que a literatura ainda chama de tumor de Klatskin, apresenta-se como Venâncio: icterícia progressiva e indolor, prurido, colúria, fezes claras e emagrecimento. Sem manipulação prévia da via biliar, colangite é incomum na obstrução maligna. A diretriz norte-americana de 2023 usa esse dado, no paciente com massa pancreática, para justificar que quem está pouco sintomático espere um procedimento único e bem planejado em vez de uma drenagem apressada; a leitura deste capítulo é que o argumento vale ainda mais no hilo, onde o procedimento mal planejado custa mais. A febre, quando aparece depois de uma endoscopia ou de uma drenagem, deve ser lida como complicação do procedimento até que se prove outra coisa.

O exame físico ajuda pelo que não encontra. A vesícula palpável e indolor, que no capítulo A icterícia que não dói empurra a hipótese para obstrução distal maligna, falta aqui por definição: com a obstrução acima do cístico, a vesícula está vazia. Hepatomegalia pode existir, e um lobo atrofiado não se palpa. O resto do exame procura o que muda o destino — ascite, linfonodo supraclavicular, estado nutricional e capacidade funcional, que é a frase que o serviço de referência mais precisa e menos recebe.

A classificação de Bismuth-Corlette descreve até onde o tumor sobe na árvore biliar e é a língua em que o laudo, o endoscopista e o cirurgião vão conversar. No tipo 1, a estenose fica no ducto hepático comum, abaixo da confluência; no tipo 2, atinge a confluência sem entrar nos ductos de cada lado; no tipo 3, avança pela confluência e por um dos lados, o direito no 3a e o esquerdo no 3b; no tipo 4, alcança os dois lados. Quanto mais alto o tipo, mais difícil é drenar por endoscopia, mais setores ficam isolados uns dos outros, e maior é o fígado que uma ressecção precisa levar. A diretriz de oncologia brasileira descreve a cirurgia do tumor hilar com essa consequência: retirada da via biliar extra-hepática, ressecção hepática ampliada e linfadenectomia.

O colangiocarcinoma de dentro do fígado se apresenta de outro modo. Ele cresce no parênquima como massa, e costuma chegar como nódulo hepático num exame pedido por outra razão, ou por dor e emagrecimento; a icterícia só aparece quando a massa alcança o hilo. O paciente com fígado sem cirrose e massa hepática sólida não é, por padrão, um hepatocarcinoma. A diretriz brasileira de oncologia fixa a hepatectomia parcial como a cirurgia padrão desse tumor, e a diretriz federal do hepatocarcinoma o exclui do seu escopo — a mesma diretriz inclui, por outro lado, o tumor misto, carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma combinados. O nódulo no fígado cirrótico continua sendo de A agulha que não precisa entrar.

O colangiocarcinoma do colédoco distal comprime o mesmo cano que o tumor da cabeça do pâncreas, dilata o colédoco inteiro, distende a vesícula e é operado da mesma forma, por duodenopancreatectomia. Ele é um dos quatro tumores periampulares, e a sua condução pertence a A icterícia que não dói. O que este capítulo guarda dele é só a leitura da altura: colédoco largo até embaixo manda para aquele capítulo, colédoco fino com ductos intra-hepáticos dilatados fica aqui.

Quando a vesícula é o tumor

O câncer da vesícula biliar entra neste capítulo pela icterícia, e a icterícia no câncer da vesícula costuma ser sinal de doença avançada: ela aparece quando o tumor invade o ducto hepático comum ou o hilo por contiguidade, ou quando linfonodos do pedículo comprimem a via biliar. Delmira Castelo, 69 anos, é o retrato: três semanas de icterícia, dor surda e contínua no hipocôndrio direito, sete quilos a menos, e uma ultrassonografia que descreve a vesícula substituída por uma massa sólida, com dilatação das vias intra-hepáticas. O padrão de imagem é o de obstrução alta — com uma vesícula que, em vez de murcha, está tomada.

Dois grupos merecem atenção antes da icterícia. O paciente com colangite esclerosante primária, porque o manual brasileiro registra risco aumentado de adenocarcinoma da vesícula nessa doença. O paciente cuja colecistectomia por pedra volta com carcinoma no laudo da peça, porque aí a decisão depende da profundidade: pela diretriz brasileira de oncologia, o tumor restrito à lâmina própria, o T1a, é tratado pela colecistectomia simples que já foi feita, e a partir da invasão da camada muscular, o T1b, a indicação passa a ser colecistectomia radical com linfadenectomia.

A diretriz brasileira de oncologia recomenda colecistectomia radical com linfadenectomia para os tumores T2 e T3, com ou sem linfonodos comprometidos, e quimioterapia adjuvante com capecitabina por oito ciclos depois da ressecção, com nível de evidência moderado e força forte — a mesma adjuvância que ela recomenda para os colangiocarcinomas intra-hepático, hilar e distal ressecados. Nada disso é prescrição do interno. O que é dele é reconhecer que a vesícula com massa e icterícia não é colecistite nem pedra, e que ela vai para o serviço de cirurgia hepatobiliar e de oncologia com a mesma pressa e o mesmo pedido de mapa que o tumor do hilo.

Síndrome de Mirizzi: icterícia com pedra, mas sem pedra no colédoco

Ruperto Andrada, 71 anos, conhece a vesícula há uma década: crises de dor depois de feijoada, nunca operadas porque ele tinha medo de anestesia. Desta vez a dor não passou em dois dias, veio febre baixa, e no terceiro dia a filha viu o amarelo. A ultrassonografia mostra um cálculo grande encravado no infundíbulo da vesícula, parede espessada, ductos intra-hepáticos e ducto hepático comum dilatados até a altura do cálculo, e colédoco de calibre normal abaixo dele. Não há pedra dentro do colédoco.

Esse desenho é o que distingue a síndrome de Mirizzi da coledocolitíase. Na coledocolitíase, a pedra está dentro do colédoco e a dilatação vai até ela, geralmente embaixo; na síndrome de Mirizzi, a pedra está fora da via biliar principal, e a via se estreita por compressão e inflamação na altura do cístico. O outro diagnóstico diferencial é o que mais importa não perder: o câncer da vesícula que invade o hilo faz um desenho parecido, com vesícula doente e obstrução alta, e a inflamação crônica da síndrome pode esconder um tumor.

A diretriz de lesão de via biliar da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência nomeia a síndrome de Mirizzi, ao lado da colecistite escleroatrófica, entre as condições de risco em que uma investigação pré-operatória exaustiva é obrigatória antes da colecistectomia, para pesar riscos e benefícios da operação. A razão é o mecanismo: é a vesícula em que o triângulo cirúrgico desaparece e em que o ducto que parece o cístico pode ser o hepático comum. O exame que responde é o mapa — a colangiorressonância —, e o procedimento endoscópico entra quando há colangite para drenar ou quando é preciso mostrar se existe fístula entre a vesícula e a via biliar.

O plano cirúrgico — até onde dissecar, quando parar numa colecistectomia subtotal, como reconstruir uma fístula — é do cirurgião que vai operar, e não se decide na enfermaria. O momento da colecistectomia no paciente com pedra, a colecistite e a graduação pela régua de Tóquio pertencem a A mesma pedra, três destinos. O que este capítulo pede é que o diagnóstico de síndrome de Mirizzi, ou a suspeita dela, esteja escrito antes de o paciente entrar na sala: é a frase que muda a operação.

A colecistectomia que não evoluiu bem: lesão da via biliar

A lesão da via biliar tem duas apresentações, e o interno encontra as duas na enfermaria de cirurgia geral. A precoce é a do paciente que não se recupera como deveria depois de uma colecistectomia por vídeo, que em tese daria alta no dia seguinte. A diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência recomenda investigar prontamente quem não se recupera rápido, e lista os sinais de alarme: febre, dor abdominal, distensão, icterícia, náusea e vômitos. Bile saindo pelo dreno ou pela incisão é o sinal visível do vazamento; sem dreno, a bile forma uma coleção em volta do fígado, um abscesso ou uma peritonite biliar.

Os dois quadros precoces se comportam de forma oposta quanto à cor. No vazamento, a icterícia costuma faltar ou ser discreta, porque a bile sai e não se acumula; o paciente está doente, distendido e febril, e anictérico. Na obstrução — o clipe no colédoco —, a icterícia com colúria e acolia aparece nos primeiros dias com um abdome relativamente tranquilo. Os dois cenários podem coexistir, e os dois evoluem para sepse e disfunção de órgãos se não forem reconhecidos. A leitura do líquido do dreno, com a bilirrubina dosada no líquido comparada com a do sangue, é ensinada em Cento e vinte, sem febre, na apostila de Pré e Pós-operatório, que é dono da fístula pós-operatória em geral; o que é específico da via biliar fica aqui.

A apresentação tardia é a estenose. Semanas, meses ou anos depois da operação, o paciente amarela, coça, tem colangites de repetição, e às vezes ninguém liga o quadro à colecistectomia antiga. A diretriz registra o que acontece quando a lesão não é reconhecida ou é mal reparada: evolução insidiosa com dor recorrente, colangite e coleções, e, no limite, cirrose biliar secundária com hipertensão portal, insuficiência hepática e morte. A cirrose biliar secundária está entre as condições que a norma federal de transplantes de 2025 aceita para inscrição em lista de fígado.

A gravidade se descreve pela classificação de Strasberg, que a diretriz recomenda conhecer. As lesões menores, das classes A a D, são o vazamento pelo coto do cístico ou por ductos pequenos do leito da vesícula, a oclusão ou a secção de um ducto hepático direito aberrante, e a lesão lateral do ducto principal sem perda de continuidade. As lesões maiores são a classe E, em que a via biliar principal foi seccionada ou ocluída, subdividida de E1 a E5 pela altura da lesão: do coto de ducto hepático comum maior que 2 centímetros, no E1, à destruição do teto da confluência, no E4, e à lesão que soma um ducto direito isolado, no E5. A distinção entre menor e maior não é acadêmica: ela decide se o tratamento é drenagem percutânea e endoscopia ou se o paciente precisa de um cirurgião hepatobiliar.

Cirila Veiga, cuja história está no caso resolvido deste capítulo, é o exemplo do quadro misto: operada por vídeo numa quinta-feira, de volta no domingo com dor, distensão e febre, e com a bilirrubina subindo na segunda. A conversa com ela e com a família sobre o que aconteceu na operação é revelação de evento adverso, e a técnica — quem conta, em que ordem, o que se registra e se notifica — pertence a A hora seguinte, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.

Colangite esclerosante, IgG4 e as estenoses que se parecem

A colangite esclerosante primária chega ao interno por dois caminhos. No ambulatório de retocolite, como fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase elevadas num homem de 30 ou 40 anos sem sintoma nenhum, porque, como descreve o manual brasileiro, muitos pacientes são diagnosticados assim, nos exames de rotina. Na enfermaria, como icterícia, prurido, dor no hipocôndrio direito e febre com calafrio, que o mesmo documento aponta como os achados mais comuns de quem tem sintomas. O manual descreve que a doença pode se complicar com estenoses dominantes na via biliar extra-hepática, com estase e colangite; icterícia nova num paciente com colangite esclerosante levanta essa hipótese.

O diagnóstico é de imagem. O manual define a colangite esclerosante primária pela colestase clínica ou laboratorial associada a colangiorressonância ou colangiografia endoscópica que mostre estreitamentos multifocais e dilatações segmentares nos ductos de dentro ou de fora do fígado. Autoanticorpos podem estar presentes sem significado clínico, e as bilirrubinas costumam ser normais no diagnóstico. Quando a colangiografia é normal e a suspeita persiste, entra a biópsia hepática, pela hipótese de doença de pequenos ductos. E como a associação com doença inflamatória intestinal é forte, o mesmo manual manda pedir colonoscopia com múltiplas biópsias na avaliação inicial de todo paciente, mesmo sem sintoma intestinal; a vigilância da colite é de A diarreia que não é infecciosa.

Para o cirurgião, duas coisas definem a doença. A primeira é que a estenose dominante é tratável: o manual indica tratamento endoscópico quando ela é sintomática, com melhora clínica e bioquímica em cerca de 80% dos pacientes sem cirrose, e os que mais se beneficiam são os ictéricos com piora progressiva, os que têm colangites de repetição e os que têm estenose dominante fora do fígado. A segunda é que a estenose dominante pode ser um colangiocarcinoma, e nada na imagem dá essa resposta com segurança. O transplante hepático é tratamento eficaz: o manual cita sobrevida de 93% em um ano e 86% em cinco anos, com recorrência da doença no enxerto em cerca de 20% em até cinco anos.

O diferencial que mais muda a conduta é a colangite associada à IgG4. Ela desenha estenoses parecidas com as da colangite esclerosante e com as do tumor do hilo, predomina em homens mais velhos, costuma vir acompanhada de pancreatite autoimune e de IgG4 sérica elevada, e responde bem a corticoide. Um homem de 68 anos com estenose hilar e pâncreas aumentado de forma difusa na tomografia é um candidato a essa pergunta antes de ser um candidato a ressecção hepática.

O resto da lista cabe numa frase de cada. A pancreatite crônica estreita o colédoco que atravessa a cabeça do pâncreas fibrosada, e a estenose é distal. Linfonodos metastáticos no pedículo hepático, de câncer de cólon, de mama ou de rim, comprimem o hilo e imitam o colangiocarcinoma. A biliopatia portal, a compressão e a deformação da via biliar pelas veias colaterais de uma trombose portal antiga, aparece no paciente com hipertensão portal pré-hepática. A colangite piogênica recorrente, a lesão isquêmica e a estenose da anastomose depois de transplante hepático completam a lista de estenoses benignas da diretriz norte-americana, junto com a síndrome de Mirizzi e a lesão da colecistectomia.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo responde cinco perguntas, e a ordem delas não é pedagógica: é de segurança. Existe colestase? A via biliar dilatou? Em que altura ela para? O que está parando a bile? E dá para tocar na via biliar sem estragar o que vem depois? As três primeiras se respondem com sangue e ultrassonografia no primeiro dia. A quarta pede o mapa — colangiorressonância e tomografia — e às vezes a ecoendoscopia. A quinta só se responde depois das outras, e é nela que entram os procedimentos: a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, a drenagem percutânea e a punção.

O manual de condutas da Sociedade Brasileira de Hepatologia desenha a mesma sequência para a colestase em geral: ultrassonografia primeiro, para identificar ou excluir dilatação; diante de ductos dilatados, colangiorressonância, que o documento chama de opção segura e de maior sensibilidade para avaliar a árvore biliar, ou ecoendoscopia como alternativa para a obstrução distal; e o procedimento endoscópico reservado aos casos duvidosos ou aos que precisam de desobstrução. A diretriz norte-americana de 2023 acrescenta a regra do hilo: a imagem seccional é obtida e revisada antes da endoscopia, e o plano de drenagem sai dela.

Primeiro exame: a ultrassonografia lida pela altura

A ultrassonografia é o exame do primeiro dia porque responde, sem contraste e sem agendamento, as duas perguntas que mudam o raciocínio: se a via dilatou e em que altura ela para. O pedido deve dizer o que se quer saber — calibre do colédoco, dilatação intra-hepática e de que lado, volume e parede da vesícula, cálculo no infundíbulo, massa no hilo ou na vesícula, aspecto do fígado e do pâncreas —, porque o exame feito às onze da noite, sem pergunta escrita, volta com a palavra colestase e mais nada.

A leitura pela altura tem quatro desenhos. Colédoco dilatado até embaixo, com vesícula distendida, é obstrução distal: cálculo encravado, tumor periampular, estenose por pancreatite crônica — e o paciente pertence, na maior parte das vezes, a Bile sob pressão ou a A icterícia que não dói. Ductos intra-hepáticos dilatados nos dois lobos com colédoco fino e vesícula murcha é obstrução na confluência ou logo abaixo dela: tumor do hilo, câncer da vesícula que invade, linfonodos, lesão da colecistectomia, colangite esclerosante. Dilatação de um lado só, ou de um setor, é obstrução acima da confluência, e costuma significar tumor que já subiu por um dos ductos, ou atrofia do lado oposto. E ductos dilatados até a altura de um cálculo encravado no infundíbulo, com colédoco normal abaixo, é o desenho da síndrome de Mirizzi.

A ultrassonografia sem dilatação não encerra a investigação, e aqui o capítulo se divide. Na maioria das vezes, a colestase sem dilatação é intra-hepática, e o algoritmo do manual brasileiro segue por autoanticorpos, pela história de medicamentos e, se necessário, por biópsia hepática — caminho que pertence a Provas hepáticas. Mas o mesmo algoritmo põe a colangiorressonância nesse ramo, depois dos autoanticorpos negativos, justamente para procurar as áreas de estenose e dilatação da colangite esclerosante, que nem sempre dilata a árvore de modo visível. E a obstrução muito recente ainda pode não ter dilatado nada: com clínica forte, a imagem normal não afasta obstrução.

O que a ultrassonografia não responde é a causa no hilo. O tumor da confluência costuma ser pequeno, infiltrativo e difícil de ver; o laudo que diz dilatação intra-hepática sem causa identificada não é um exame negativo, é um exame que achou a altura e parou. É por isso que o passo seguinte não é a endoscopia, e sim o mapa.

O mapa: colangiorressonância e tomografia, cada uma com a sua pergunta

A colangiorressonância desenha a árvore biliar inteira sem contraste iodado e sem instrumentar nada. Ela mostra onde a via para e até onde a estenose sobe — é dela que sai o tipo de Bismuth-Corlette —, quais ductos de segunda ordem estão comprometidos, se há estreitamentos múltiplos com dilatações segmentares, como na colangite esclerosante, se o cálculo está fora do colédoco, como na síndrome de Mirizzi, e se existe um lado atrofiado. É o exame que responde à pergunta do endoscopista e do radiologista intervencionista antes que eles toquem no paciente: quais setores drenar.

A tomografia com contraste responde a outra pergunta: o que o tumor já tocou fora da via biliar. Ela mostra a massa, a relação com a veia porta e com a artéria hepática — que é o que separa, no estadiamento do tumor peri-hilar, a invasão de ramos de um lado, T3, da invasão da veia porta principal ou dos seus ramos dos dois lados, ou da artéria hepática comum, T4 —, a atrofia lobar, as metástases hepáticas, os linfonodos, o peritônio e o tórax. A diretriz brasileira de oncologia recomenda tomografia de abdome e de tórax para todos os pacientes com tumor de via biliar, com nível de evidência moderado e força forte.

Na mesma tabela, a diretriz brasileira dá à colangiorressonância e à ressonância de abdome o nível de evidência mais alto de todos os exames de estadiamento, com força forte — e escreve, na coluna de indicação, conforme disponibilidade. A tomografia, com evidência moderada, é para todos. A colangiopancreatografia retrógrada é para casos selecionados, e é a única linha da tabela sem nível de evidência e sem força de recomendação. O PET-CT entra conforme disponibilidade em casos selecionados, com força fraca. O desenho resume o problema do hospital regional brasileiro: o exame com a melhor evidência é o único que a régua não garante. O bloco de divergências trata do que fazer quando ele não existe na sua cidade.

Os dois pedidos saem juntos, no mesmo dia, com a hipótese diagnóstica escrita por extenso: estenose biliar peri-hilar com suspeita de neoplasia maligna, com os dados que a sustentam. A redação importa também por um motivo que não é clínico: o capítulo Quando ele conta, já está estreito, nesta apostila, mostra como o pedido fundamentado com hipótese de neoplasia maligna faz andar o prazo legal dos exames de elucidação, e como se conta o prazo do tratamento. Aqui basta datar o pedido e guardar a data.

Ecoendoscopia: a obstrução baixa e o linfonodo do hilo

A ecoendoscopia é o exame da parte de baixo da árvore biliar. Na estenose extra-hepática com massa pancreática aparente ou suspeita, a diretriz norte-americana de 2023 recomenda, com força forte e evidência moderada, a ecoendoscopia com punção em vez da colangiopancreatografia retrógrada para procurar malignidade. Os números explicam: numa metanálise de 2018, a sensibilidade da punção guiada por ecoendoscopia foi de 75% contra 49% da amostragem pela via endoscópica retrógrada, e noutra, de procedimentos feitos na mesma sessão, a diferença entre pacientes com massa pancreática foi de 75% contra 47%. Nas estenoses extra-hepáticas sem massa, o documento manda seguir o mesmo raciocínio da estenose peri-hilar.

No paciente pouco sintomático com massa pancreática, a mesma diretriz prefere ecoendoscopia e colangiopancreatografia na mesma anestesia, num centro que faça as duas, a uma colangiopancreatografia isolada com escovado e prótese plástica: o escovado tem rendimento baixo, a maioria dos pacientes com massa pancreática não é operada sem diagnóstico tecidual, e o caminho isolado obriga a um segundo procedimento para puncionar e, se o câncer se confirma, a um terceiro para trocar a prótese. A condução desse paciente, com a tomografia de protocolo de pâncreas, é de A icterícia que não dói.

No hilo, a ecoendoscopia muda de papel. Ela serve para examinar e puncionar os linfonodos regionais, e a diretriz recomenda puncioná-los qualquer que seja o aspecto, porque a morfologia não prevê o comprometimento — e o linfonodo positivo é, por si, contraindicação ao transplante, de modo que a punção dele não fecha porta nenhuma. O que não se punciona é a lesão primária do hilo, nem por ecoendoscopia nem por agulha percutânea, pelo risco de semeadura no trajeto descrito no bloco de mecanismo. A exceção vem escrita no mesmo documento: a estenose indeterminada do colédoco extra-hepático pode ser puncionada diretamente, porque o trajeto da agulha fica dentro do campo da ressecção, como na cabeça do pâncreas, e o paciente que não é candidato a transplante pode ter a lesão primária amostrada.

Colangiopancreatografia retrógrada e drenagem percutânea: procedimentos com pergunta escrita

A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica não é o exame que descobre a causa; é o procedimento que desobstrui e, de passagem, colhe material. Quando ela é feita numa estenose peri-hilar suspeita, a diretriz norte-americana recomenda, com força forte, amostragem por mais de um método já no procedimento índice, e não o escovado isolado: escovado com biópsia por pinça, biópsia dirigida por colangioscopia, hibridização fluorescente in situ. Cada uma acrescenta rendimento, e o documento defende três ou quatro modalidades quando podem ser feitas com segurança. Se duas sessões de amostragem vierem negativas com suspeita mantida, o caso vai para discussão multidisciplinar e avaliação cirúrgica.

A drenagem hilar deve ser planejada por equipe experiente após revisar imagem seccional. Definir quais ductos drenam fígado viável, quais setores estão atrofiados e qual seria o remanescente de eventual ressecção. Buscar volume funcional suficiente, sem substituir volumetria e anatomia por uma contagem fixa de dois setores. Evitar opacificar sistemas que não poderão ser drenados e planejar drenagem dos sistemas opacificados. Antimicrobiano e urgência dependem de infecção, risco de drenagem incompleta e contexto; o interno deve entender e comunicar o plano, não improvisar a distribuição das próteses.

Duas decisões de material têm consequência para quem recebe o paciente de volta. A prótese metálica não recoberta se incorpora à parede do ducto e não sai mais; por isso o diagnóstico de câncer deve estar confirmado antes de ela ser colocada, porque o CA 19-9 pode estar muito elevado só pela icterícia, e colangite com abscesso hepático pode ser confundida com metástase. E no tumor peri-hilar de tipo II a IV, se a escolha for prótese metálica, o documento sugere provar primeiro, com prótese plástica, que o posicionamento drena volume suficiente para resolver a icterícia, porque até 40% das drenagens iniciais são inadequadas e a metálica não se reposiciona.

Entre a via endoscópica e a percutânea trans-hepática no tumor peri-hilar, a diretriz declara evidência insuficiente para recomendar uma sobre a outra, seja a drenagem pré-operatória ou paliativa, e manda decidir caso a caso, pela prática local e pela preferência do paciente. Os dois ensaios randomizados disponíveis somam 108 pacientes e apontam em direções diferentes. Quando a colangiopancreatografia está indicada e falha — a canulação da via biliar não é obtida em até 8% dos procedimentos —, a diretriz sugere drenagem guiada por ecoendoscopia em vez da percutânea, desde que feita por endoscopista com experiência substancial nessa técnica, e lembra que repetir a colangiopancreatografia outro dia resolve a maioria dos casos que não precisam de descompressão urgente.

Nem todo tumor peri-hilar precisa ser drenado. No paciente ictérico e assintomático que não é candidato a tratamento adicional, ou que o recusou, a diretriz registra que a drenagem paliativa não é obrigatória e deve ser decidida caso a caso, depois de conversar com o paciente e com a família sobre o que ela pode dar — prevenção de prurido e de colangite, talvez sobrevida e qualidade de vida — e o que ela custa: risco de colangite e de sepse, procedimentos repetidos de troca, mais tempo dentro do hospital no fim da vida.

O pedido do procedimento é um documento de regulação, e o protocolo de acesso à colangiopancreatografia retrógrada da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina mostra o que a regulação pede: a história com idade, sintomas, evolução, doenças associadas e medicamentos em uso, e os laudos dos exames já realizados, com data — ultrassonografia, colangiorressonância, e laboratório com tempo de protrombina e plaquetas. O mesmo documento classifica a prioridade por cores, e a forma como o pedido é escrito decide a cor. O bloco de critérios mostra por que essa classificação precisa ser lida com cuidado.

O laboratório que prepara o procedimento, e o marcador que não decide

O sangue do dia do mapa serve mais à segurança do procedimento do que ao diagnóstico. Tempo de protrombina com razão normalizada internacional e contagem de plaquetas são exigidos pela regulação e pelo endoscopista; função renal importa para o contraste da tomografia; hemograma, função hepática e função renal são recomendados para todos pela diretriz brasileira de oncologia. Razão normalizada internacional alargada em obstrução prolongada é, na maioria das vezes, deficiência de vitamina K por má absorção de gordura: o raciocínio, a reposição e o fato de a fitomenadiona não constar da Rename 2024 estão em A icterícia que não dói, que é dona desse cuidado para qualquer obstrução.

O CA 19-9 não faz diagnóstico de tumor de via biliar. A diretriz norte-americana registra que marcadores como o CA 19-9 e o CEA são ainda menos acurados que a imagem para dizer se uma estenose é maligna, e que o CA 19-9 pode estar muito elevado só pela icterícia ou pela colangite. A diretriz brasileira de oncologia recomenda CA 19-9 e CEA para todos os pacientes com tumor de via biliar, com uma nota de rodapé que resolve o uso: preferencialmente após a normalização das bilirrubinas. As duas réguas não brigam; elas descrevem momentos. Se o encaminhamento exigir o valor antes da desobstrução, colha, escreva a bilirrubina do mesmo dia ao lado e deixe registrado que ele deve ser repetido depois da drenagem.

A IgG4 sérica entra quando o desenho sugere a colangite associada à IgG4 — estenoses múltiplas ou hilares num homem mais velho, sobretudo com pâncreas aumentado ou pancreatite autoimune na tomografia. Faz sentido tê-la antes da discussão cirúrgica, e não depois dela, porque é a pergunta que pode tirar o paciente de uma ressecção hepática.

Depois da colecistectomia: o exame que acha a coleção e o que desenha a lesão

Depois de uma colecistectomia por vídeo sem intercorrência, exame de sangue de rotina não é necessário, e a diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência explica por quê: elevações discretas a moderadas das enzimas hepáticas são frequentes no pós-operatório e não têm significado patológico, e o pneumoperitônio com gás carbônico parece ser a principal causa. O exame passa a ser necessário quando a operação foi difícil ou quando o paciente não evolui bem, e o painel sugerido inclui bilirrubinas direta e indireta, aminotransferases, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e albumina, com proteína C reativa, procalcitonina e lactato no paciente grave.

O laboratório engana nos dois sentidos. No vazamento, a bilirrubina pode não subir ou subir pouco, por absorção peritoneal da bile; na obstrução, ela sobe. E, no início do pós-operatório, a fosfatase alcalina e a bilirrubina total não são sensíveis. Um painel normal no primeiro dia não afasta lesão num paciente que está distendido e febril.

A tomografia trifásica de abdome é o primeiro exame de imagem sugerido pela diretriz, com recomendação fraca e evidência moderada: ela encontra coleções perto e dentro do fígado, ascite, dilatação a montante de uma obstrução, as sequelas de uma estenose antiga — atrofia lobar e sinais de cirrose biliar secundária — e lesão associada da artéria hepática direita, e é ela que define qual coleção precisa de drenagem. O que nem a tomografia nem a ultrassonografia fazem é distinguir bile de sangue, pus ou líquido seroso, nem localizar o ponto do vazamento.

Para desenhar a lesão, o documento complementa com a colangiorressonância, que o texto trata como o padrão para a avaliação morfológica completa da árvore biliar; com contraste hepatoespecífico, na fase hepatobiliar, ela mostra a bile saindo do ducto, localiza o vazamento e permite classificar a lesão — e a classificação é o que planeja o tratamento. A cintilografia hepatobiliar é mais sensível e específica que a ultrassonografia e a tomografia para confirmar vazamento ativo, mas localiza mal. A colangiopancreatografia retrógrada e a colangiografia percutânea mostram a anatomia exata e tratam ao mesmo tempo, com o custo de serem invasivas; a percutânea é tecnicamente difícil justamente aqui, porque nesse cenário os ductos intra-hepáticos costumam não estar dilatados.

07

Fluxos, tabelas e contas

O nível da obstrução muda o exame e a intervenção. Infecção e deterioração podem mudar a sequência; planejamento anatômico não deve atrasar controle urgente de foco.

  1. 1Confirmar padrão de colestase e avaliar febre, calafrios, dor, perfusão, consciência e função renal, além de operação ou procedimento recente.
  2. 2Suspeitar colangite mesmo sem tríade completa. Antimicrobianos, suporte e drenagem indicada são organizados precocemente com a equipe.
  3. 3Em paciente estável, usar ultrassom para localizar dilatação e complementar com TC, colangiorressonância ou ecoendoscopia conforme nível e hipótese.
  4. 4Obstrução distal direciona a avaliação de cálculo, pâncreas e região periampular; obstrução hilar pede mapa dos ductos, vasos e parênquima funcional antes de intervenção eletiva.
  5. 5Ausência de dilatação não exclui obstrução recente, incompleta ou lesão com vazamento; interpretar com clínica e evolução.
  6. 6Na suspeita de lesão após colecistectomia, procurar coleção, vazamento e obstrução, controlar infecção e comunicar centro especializado precocemente.
  7. 7Selecionar amostragem e drenagem pelo plano definitivo. Na lesão hilar, evitar punção transperitoneal do primário sem discussão, especialmente se houver possibilidade de transplante.
  8. 8Enviar imagens, descrição operatória, culturas, anatomia suspeita e suporte em curso; reparo especializado deve ser coordenado sem tentativas locais inadequadas.

O mapa antes do toque

No ictérico com obstrução alta e sem colangite, nenhum procedimento na via biliar — colangiopancreatografia retrógrada, drenagem percutânea ou punção — antes de a colangiorressonância e a tomografia com contraste estarem feitas e revisadas por quem vai drenar. O mapa diz quais setores funcionam, quais estão atrofiados e até onde o tumor subiu, e é dele que sai o plano de drenar ao menos dois setores. Contraste injetado num setor que não será drenado é colangite contratada. Com colangite, a regra se inverte: drena-se no prazo do grau, pelo capítulo Bile sob pressão, e o mapa vem logo depois.

A altura da obstrução na ultrassonografia, e o que ela muda

Desenho na ultrassonografiaOnde a bile paraCausas que entram na listaExame que responde a seguirCapítulo e serviço
Colédoco dilatado até a porção distal, vesícula distendidaAbaixo da entrada do ducto císticoCálculo encravado; tumor da cabeça do pâncreas, da ampola, do colédoco distal ou do duodeno; estenose por pancreatite crônicaTomografia com protocolo de pâncreas; ecoendoscopia com punção se houver massa; colangiorressonância se a dúvida for cálculoA icterícia que não dói ou Bile sob pressão; a via endoscópica resolve a maior parte
Ductos intra-hepáticos dilatados nos dois lobos, colédoco fino, vesícula murchaNa confluência ou logo abaixo dela, acima do císticoColangiocarcinoma peri-hilar; câncer da vesícula invadindo o hilo; linfonodos do pedículo; lesão ou estenose depois de colecistectomia; colangite esclerosante; colangite associada à IgG4Colangiorressonância e tomografia com contraste, antes de qualquer procedimento na via biliarEste capítulo; centro com cirurgia hepatobiliar, endoscopia avançada e radiologia intervencionista
Dilatação de um lado só ou de um setor, às vezes com lobo menorAcima da confluência, num ducto de segunda ordemTumor que subiu por um dos lados; atrofia do lado oposto; colangiocarcinoma intra-hepático alcançando o hiloColangiorressonância para o mapa dos setores; tomografia para veia porta e artéria hepáticaEste capítulo; drenagem planejada por setor, e não por lado
Ductos dilatados até um cálculo encravado no infundíbulo, colédoco normal abaixoCompressão externa do ducto hepático comum na altura do císticoSíndrome de Mirizzi; câncer da vesícula com cálculoColangiorressonância antes da colecistectomia; procedimento endoscópico se houver colangite ou suspeita de fístulaEste capítulo para o diagnóstico; A mesma pedra, três destinos para a colecistectomia
Sem dilataçãoColestase intra-hepática, obstrução de poucos dias ou estenoses difusasFármaco; colangite biliar primária; hepatites; sepse; colangite esclerosante; obstrução muito recenteAutoanticorpos e história de medicamentos; colangiorressonância se negativos, se houver doença inflamatória intestinal ou se a clínica for forteProvas hepáticas; este capítulo se a colangiorressonância mostrar estenoses

Lesão da via biliar na colecistectomia: o momento do reconhecimento decide o que se faz, e onde

Momento do reconhecimentoLesão menor (classes A a D de Strasberg)Lesão maior (classe E de Strasberg)O que faz o hospital sem cirurgião hepatobiliar
Na própria operaçãoReparo direto, com ou sem dreno em T, pode ser consideradoHepaticojejunostomia é o tratamento de escolha; reparo precoce só com indicação e experiência hepatobiliar; lesão vasculobiliar complexa não se repara na mesma operaçãoNão dissecar o hilo nem tentar reparo; deixar dreno no quadrante superior direito e transferir; não converter só para confirmar ou classificar a lesão
Nas primeiras 72 horas depois da operaçãoCom dreno e bile saindo: observação e manejo não operatório nas primeiras horas; sem dreno: drenagem percutânea da coleção; sem melhora: colangiopancreatografia com papilotomia e próteseEncaminhar a centro com experiência hepatobiliar, onde a hepaticojejunostomia em Y de Roux pode ser feita com urgênciaAntibiótico na primeira hora se houver fístula, biloma ou peritonite; drenar a coleção; transferir com os exames e a descrição da operação
Entre 72 horas e 3 semanasO mesmo escalonamento: drenagem percutânea e, se necessário, tratamento endoscópicoDrenar coleções, antibiótico dirigido e suporte nutricional; colangiopancreatografia ou drenagem percutânea podem aliviar; hepaticojejunostomia depois de no mínimo 3 semanas, com a fase aguda resolvidaDrenar, tratar a infecção, nutrir e transferir; não operar a lesão
Tardio, como estenoseTratamento endoscópico da estenose com próteses, por mesesHepaticojejunostomia em Y de RouxLigar a colecistectomia antiga à icterícia, pedir o mapa e encaminhar
Peritonite biliar difusa, a qualquer momentoControle do foco por lavagem e drenagem, pelo mesmo princípioLavagem e drenagem da cavidade com urgência como primeiro passo, para controle do focoLavar e drenar é do cirurgião de plantão; o reparo da via biliar não é

Números do capítulo que precisam de conta antes de decidir

NúmeroNa unidade do laudo ou do documentoA contaOnde aparece e para que serve
Bilirrubina de 2 mg/dL2 mg/dL2 × 17,1 = 34,2 µmol/LQueda até 2 mg/dL, ou de 50%, depois da prótese associou-se a sobrevida maior no tumor peri-hilar, em estudo retrospectivo citado pela diretriz norte-americana
Bilirrubina de 2,5 a 3,5 mg/dL2,5 a 3,5 mg/dL42,8 a 59,9 µmol/LFaixa típica em que a quimioterapia pode ser dada com segurança; é uma das metas da drenagem
Bilirrubina de 14 mg/dL14 mg/dL239,4 µmol/LCom bilirrubina mantida nesse valor ou acima, a qualidade de vida não melhorou depois da drenagem, no estudo citado pela mesma diretriz
Bilirrubina de 14,6 mg/dL14,6 mg/dL14,6 × 17,1 = 249,7 µmol/L, praticamente 250Critério de exclusão do principal ensaio sobre drenagem pré-operatória: o resultado não se aplica a quem está acima
Volume por setor hepáticoCerca de 30% por setor; segmentos I e IV, 10%A conta 3 × 30 + 10 = 100 é um modelo anatômico simplificado; dois setores não equivalem necessariamente a 60% de volume funcional no paciente real.Planejar drenagem por volume de fígado viável, atrofia, comunicação ductal e eventual remanescente cirúrgico. A contagem de dois setores não garante suficiência em toda obstrução hilar.
Lesão de via biliar na colecistectomia por vídeo0,4% a 1,5%1 ÷ 0,015 = 67 e 1 ÷ 0,004 = 250Uma lesão a cada 67 a 250 operações por vídeo; 0,2% a 0,3% na cirurgia aberta
Colestase laboratorial pelo manual brasileiroFosfatase alcalina acima de 1,5 vez e gama-GT acima de 3 vezes o limite superiorCom limites de 120 e 60 U/L: fosfatase acima de 180 e gama-GT acima de 180; Venâncio tem 612 (5,1 vezes) e 890 (14,8 vezes)Define a síndrome; o critério de encaminhamento do protocolo gaúcho é outro, como mostram as notas
Fígado e vias biliares intra-hepáticas que não são hepatocarcinoma15% a 25% de 12.350 casos por ano1.852,5 a 3.087,5, que arredondados a dezenas, como faz a estimativa, dão 1.850 e 3.090Sobra em que está o colangiocarcinoma intra-hepático, sem que a estimativa diga quanto dela ele ocupa
Janela do reparo da lesão maiorNo mínimo 3 semanas no enunciado; 2 a 3 meses no texto, se o diagnóstico atrasou uma semanaDe 21 a 90 dias: 90 ÷ 21 = 4,3Decisão da equipe hepatobiliar; no intervalo, drenar, tratar infecção e nutrir

Mapa clínico da obstrução e da lesão biliar

Padrão provávelPergunta que orienta o próximo passo
DistalHá cálculo, lesão pancreática ou periampular? Caracterizar causa e relação com a via distal.
HilarQuais ductos e setores estão comprometidos, qual parênquima funciona e como se relacionam vasos e lesão? Planejar antes de drenar eletivamente.
Após operaçãoHá coleção, vazamento, obstrução ou lesão vascular? Recuperar descrição e controlar foco em conjunto com centro hepatobiliar.
Com infecção ou disfunçãoQue intervenção controla a fonte com segurança agora? Suporte, antibiótico e drenagem não esperam terminar um plano eletivo completo.

O protocolo de acesso citado usa categorias que se sobrepõem em estenose, icterícia e suspeita de neoplasia. Descreva a hipótese verdadeira e os achados que a sustentam, além de sinais infecciosos e repercussão. A equipe de regulação aplica a prioridade, e urgência clínica não deve depender de escolher uma cor pela redação isolada.

O protocolo não apresenta claramente data, versão ou ato de aprovação. A data de criação do arquivo não comprova vigência. Use-o como referência do fluxo descrito e confirme sua aplicação local; a sequência clínica depende da anatomia e da condição do paciente.

CPRE significa colangiopancreatografia retrógrada endoscópica. Ela é diferente de colangiorressonância, que usa ressonância magnética. A mistura dos nomes no glossário é um erro editorial. Registre corretamente o exame solicitado para distinguir investigação anatômica e procedimento invasivo.

Colangite biliar primária é o nome usado no texto atualizado, enquanto um quadro mantém “cirrose biliar primária”. Reconheça que se trata da mesma referência histórica de nomenclatura, sem pressupor cirrose em todo paciente com a doença.

Anticorpos ajudam na investigação de colangite biliar primária, mas não confirmam nem excluem colangite esclerosante. Nesta, a avaliação da via biliar por imagem tem papel central no percurso. Colestase com doença inflamatória intestinal deve ser descrita no encaminhamento, sem esperar uma sorologia resolver a suspeita.

O manual e o protocolo de acesso usam limiares de fosfatase alcalina e GGT para finalidades diferentes: caracterizar colestase e orientar encaminhamento. Registre valores e limites do laboratório. Não aplique um corte de fila como definição completa da síndrome nem ignore suspeita relevante por diferença pequena no limite.

A tabela de colangiocarcinoma distal repete uma combinação já contida em outra linha do mesmo estádio. A repetição não cria novo grupo. Confirme localização, edição e componentes TNM ao interpretar o laudo, pois tumores de diferentes segmentos têm classificações próprias.

A tabela de estadiamento destaca ressonância e colangiorressonância e reserva CPRE a casos selecionados. A disponibilidade do exame precisa ser articulada ao planejamento anatômico. Antes de instrumentar o hilo, a equipe deve definir a informação necessária e como obtê-la com segurança.

Os intervalos de sensibilidade, especificidade e acurácia citados podem reunir análises de causas e grupos diferentes. Não trate seus extremos como medidas de uma única tabela diagnóstica. A utilidade da imagem depende da indicação, técnica e pergunta clínica, além do percentual resumido.

Os prazos de reconstrução da lesão biliar maior variam conforme fase inflamatória, momento do diagnóstico e condição clínica. A equipe hepatobiliar define o retorno definitivo. Enquanto isso, controle coleções e infecção e organize suporte nutricional; aguardar reconstrução não significa deixar o foco sem manejo.

A escolha de antimicrobianos para vazamento ou infecção biliar deve considerar gravidade, exposições prévias, culturas e padronização hospitalar. A Rename citada não fornece um inventário completo desses agentes. Acione a equipe e o controle de infecção sem atrasar tratamento necessário ou drenagem indicada.

A norma de transplantes citada usa requisitos de refratariedade com redações diferentes em situações especiais. Documente episódios, gravidade e tratamentos efetivamente realizados, com resposta e limitações. A equipe de transplante deve avaliar o enquadramento; não resuma a história a um conectivo ou a uma expressão de falha.

As condições listadas na norma citada incluem doenças biliares específicas, enquanto a possibilidade de transplante em alguns tumores é discutida em referência estrangeira. Indicação clínica selecionada e acesso administrativo são decisões relacionadas, mas distintas. Encaminhe a questão ao centro especializado, sem prometer elegibilidade a partir de uma única fonte.

O planejamento de drenagem hilar considera volume funcional e setores a tratar. O esquema aproximado de três setores de 30% e segmentos restantes de 10% ilustra por que um único setor pode ser insuficiente. Use a anatomia e a atrofia reais do paciente, sem aplicar a divisão como volumetria individual.

O limiar de bilirrubina de 14,6 mg/dL no ensaio citado equivale a aproximadamente 250 micromol/L. Pacientes acima desse valor foram excluídos daquela comparação. Não extrapole automaticamente o resultado do estudo para eles nem transforme o critério de exclusão em indicação isolada de drenagem.

A estimativa citada reúne 7.340 casos masculinos e 5.010 femininos, totalizando 12.350. Esse agrupamento epidemiológico precisa ser identificado antes de usar o número para um tumor específico da via biliar. Contagens agregadas não substituem incidência por subtipo e localização.

08

A conduta, hora a hora

Nas primeiras quarenta e oito horas de Venâncio, quase nada do que muda o desfecho é fármaco. É a ordem dos exames, um procedimento segurado, um telefonema com as palavras certas e um relatório que viaja com ele. Os marcos abaixo seguem um hospital regional sem ressonância e sem endoscopia avançada, cenário comum para o interno brasileiro. Onde houver colangiorressonância na casa, os marcos 3 e 5 se encurtam; a ordem não muda.

Na obstrução hilar, não reduzir a adequação da drenagem à contagem fixa de dois setores. A equipe considera volume de fígado viável drenado, atrofia, comunicação entre ductos, infecção e plano de ressecção ou transplante. Em Cirila, o problema pós-operatório pode envolver vazamento e obstrução simultâneos; ausência de defesa generalizada ou de dilatação marcada não exclui lesão relevante.

  1. Hora 0 — a passagem de plantão e o pedido que já está na central

    Antes de discutir a vaga, releia a ultrassonografia pela altura: ductos intra-hepáticos dilatados nos dois lobos, colédoco de 5 milímetros e vesícula colapsada são obstrução alta. Examine com essa pergunta na cabeça — febre, calafrio, dor à palpação do hipocôndrio, vesícula palpável, fígado, ascite, linfonodo supraclavicular, escoriações — e faça as quatro perguntas da história. Venâncio não tem colangite. Isso transforma o pedido da madrugada de urgência em erro de sequência: no hilo, o procedimento endoscópico sem mapa contamina setores que depois não serão drenados. A decisão de trocar o pedido é da equipe, e a sua parte é levar a leitura ao cirurgião responsável com os achados na mão; como se sustenta uma discordância clínica sem transformá-la em conflito está em Dois planos para o mesmo paciente, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.

    Prescrição
    • Registrar na evolução: icterícia obstrutiva sem colangite, com padrão de obstrução alta à ultrassonografia — ductos intra-hepáticos dilatados bilateralmente, colédoco de 5 mm, vesícula colapsada
    • Temperatura axilar de 6 em 6 horas, com orientação escrita à enfermagem para comunicar calafrio mesmo sem febre medida
    • Peso aferido na balança da enfermaria, com o peso referido de antes e o percentual perdido anotados
    • Levar ao cirurgião responsável a proposta de substituir o pedido de colangiopancreatografia por colangiorressonância e tomografia, antes de qualquer procedimento na via biliar
  2. Hora 2 — o sangue que prepara o procedimento

    Os exames desta hora não servem para descobrir a causa: servem para que ninguém descubra no dia do procedimento que ele não pode ser feito. A regulação da colangiopancreatografia pede tempo de protrombina e plaquetas com data; a tomografia pede função renal; o serviço de destino vai querer albumina e hemograma. O CA 19-9 não entra para decidir nada. Se o serviço de referência exigir o valor antes da desobstrução, ele é colhido com a bilirrubina do mesmo dia escrita ao lado, porque um marcador elevado pela icterícia não é argumento de gravidade nem de diagnóstico. A razão normalizada internacional de 1,4 de Venâncio é compatível com deficiência de vitamina K por má absorção, e a reposição, com a advertência de que a fitomenadiona não consta da Rename 2024, é conduzida pelo capítulo A icterícia que não dói.

    Prescrição
    • Hemograma, tempo de protrombina com razão normalizada internacional, contagem de plaquetas, ureia, creatinina, albumina, bilirrubinas com frações, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase e aminotransferases, com data e hora da coleta
    • CA 19-9 somente se exigido pelo serviço de referência antes da drenagem, com a bilirrubina do mesmo dia registrada ao lado do resultado
    • Razão normalizada internacional alargada: reposição de vitamina K pelo capítulo A icterícia que não dói, conferindo hoje com a farmácia se o medicamento existe no hospital
  3. Dia 1, manhã — pedir o mapa, com a hipótese escrita

    Os dois exames do mapa saem no mesmo dia, cada um com a sua pergunta. A tomografia existe na casa e responde o que o tumor tocou fora da via biliar: veia porta, artéria hepática, atrofia, linfonodos, metástases e tórax. A colangiorressonância não existe na casa e vai pela central de regulação, com a hipótese de neoplasia maligna escrita por extenso e os dados que a sustentam: idade, quatro semanas de icterícia indolor, acolia, prurido, seis quilos perdidos, e o padrão de obstrução alta na ultrassonografia. O pedido com essa redação é o que o capítulo Quando ele conta, já está estreito ensina a usar para fazer o prazo legal dos exames andar; data e hora ficam registradas.

    Prescrição
    • Tomografia computadorizada de abdome e tórax com contraste venoso, com aquisição arterial e venosa portal e reconstrução fina do hilo hepático, com a pergunta escrita: altura e extensão da estenose, relação com veia porta e artéria hepática, atrofia lobar, linfonodos e metástases
    • Colangiorressonância pela central de regulação, com a hipótese diagnóstica principal: estenose biliar peri-hilar com suspeita de neoplasia maligna, seguida dos dados clínicos e da ultrassonografia que a sustentam
    • Registrar no prontuário data e hora dos dois pedidos
    • Manter hidratação adequada antes do contraste, com volume e solução pelo capítulo Hidratação venosa: manutenção e reposição, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
  4. Dia 1, tarde — tratar o que não espera o diagnóstico

    O prurido de Venâncio acorda-o três vezes por noite e já produziu escoriações, e ele vai perguntar por que ninguém faz nada. Três coisas começam hoje e nenhuma depende do laudo: o controle possível do prurido, a nutrição e a explicação de por que a espera é tratamento. O prurido e a nutrição do ictérico obstruído, com o que o elenco nacional oferece e o que não oferece, estão em A icterícia que não dói, e valem igual para a obstrução alta. O que muda no hilo é uma coisa só: prurido intenso pode indicar drenagem, mas a drenagem por sintoma também precisa do mapa, porque uma prótese no setor errado não baixa a bilirrubina e ainda pode infectar.

    Prescrição
    • Prurido: medidas gerais e opções do elenco pelo capítulo A icterícia que não dói, com registro diário da intensidade, dos despertares noturnos e das escoriações
    • Dieta oral livre e fracionada, com registro de aceitação e peso a cada 3 dias
    • Não indicar drenagem biliar por prurido antes da revisão do mapa por quem vai drenar
  5. Dias 2 a 4 — a tomografia chega antes, e é lida pela pergunta do mapa

    O laudo descreve espessamento infiltrativo da confluência dos ductos hepáticos, estendendo-se ao ducto hepático direito, com dilatação das vias intra-hepáticas dos dois lados, lobo direito de volume reduzido e ramo direito da veia porta envolvido; ramo portal esquerdo e artéria hepática própria sem sinais de invasão; linfonodo de 12 milímetros no pedículo; sem lesões hepáticas focais, sem ascite, tórax sem nódulos. Leia pelo que decide. A estenose sobe pela direita: é provável um tipo 3a de Bismuth-Corlette, a confirmar na colangiorressonância. O lado direito está atrofiado e com ramo portal comprometido, o que, pelo estadiamento do tumor peri-hilar da diretriz brasileira de oncologia, é invasão de ramo unilateral da veia porta — categoria T3. O fígado que funciona está à esquerda: é o alvo provável de uma drenagem e seria o fígado remanescente de uma eventual hepatectomia direita ampliada. Nada disso é decisão sua; é o que o seu telefonema precisa dizer.

    Prescrição
    • Registrar na evolução a leitura da tomografia pelas perguntas do mapa: altura e lado da estenose, atrofia, vasos, linfonodos e metástases
    • Telefonar ao serviço de cirurgia hepatobiliar de referência com esses dados, pedir que a colangiorressonância seja feita antes de qualquer procedimento se ainda não tiver saído, e registrar nome, função e horário de quem recebeu o caso
    • Com o cirurgião responsável, atualizar na central de regulação o pedido de colangiopancreatografia da madrugada, registrando o motivo
  6. A qualquer momento — se aparecer febre, a regra se inverte

    Febre com calafrio num paciente com obstrução alta é colangite até prova em contrário, e a partir daí o relógio é o da gravidade: hemoculturas, antibiótico, graduação pela régua de Tóquio e drenagem no prazo do grau, pelo capítulo Bile sob pressão. A espera pelo mapa deixa de valer, porque a infecção não espera. O que o mapa parcial já oferece continua útil e deve ir no telefonema: quem vai drenar em urgência precisa saber que o lobo direito está atrofiado e que o sistema esquerdo é o que funciona.

    Prescrição
    • Febre ou calafrio: hemoculturas, antibiótico e graduação da colangite pelo capítulo Bile sob pressão, com contato imediato com o serviço que drena
    • Informar ao serviço de drenagem a tomografia disponível: lobo direito atrofiado, sistema esquerdo como alvo provável
  7. Dia 5 — a transferência e o relatório que vai junto

    O relatório é o produto do trabalho desses cinco dias. Ele precisa permitir que o serviço de destino decida sem repetir exame, e precisa carregar três informações que se perdem no caminho: que a via biliar não foi instrumentada, que nenhuma lesão foi puncionada, e quais setores parecem atrofiados. O protocolo de acesso à colangiopancreatografia de Santa Catarina dá o mínimo que a regulação pede — história com idade, sintomas, evolução, doenças associadas e medicamentos; laudos datados de ultrassonografia e colangiorressonância; tempo de protrombina e plaquetas —, e o capítulo acrescenta o que o cirurgião hepatobiliar vai querer: a capacidade funcional numa frase observada e as imagens em mídia, porque laudo sem imagem obriga a repetir o exame.

    Prescrição
    • Relatório de transferência com a hipótese diagnóstica principal por extenso; início da icterícia, do prurido e da acolia, em semanas; peso atual, peso anterior e percentual perdido; capacidade funcional em frase observada; comorbidades e medicamentos em uso
    • Laudos datados de ultrassonografia, tomografia e colangiorressonância, se houver, com as imagens em mídia
    • Tempo de protrombina, razão normalizada internacional e plaquetas, com data
    • Em destaque: via biliar não instrumentada; nenhuma punção realizada; sem colangite até a data da transferência
    • Cópia do relatório entregue ao paciente, com as datas dos pedidos
  8. Semana 2 em diante — o que acontece no centro, e o que volta para você

    No centro, a colangiorressonância fecha o tipo de Bismuth-Corlette, a amostragem é feita por mais de um método, e a drenagem, quando indicada antes de uma operação ou por sintoma, mira o fígado que funciona e o que sobraria numa ressecção. Se o tumor for ressecável e o paciente operável, a cirurgia descrita pela diretriz brasileira de oncologia retira a via biliar extra-hepática com ressecção hepática ampliada e linfadenectomia, seguida de capecitabina adjuvante por oito ciclos. Se não for, a drenagem planejada de volume suficiente de fígado viável, conforme anatomia e objetivo e o tratamento sistêmico — gencitabina com cisplatina, com imunoterapia quando elegível, pela mesma diretriz — são o plano; e, no paciente assintomático que não fará tratamento, a drenagem paliativa deixa de ser obrigatória e é decidida em conversa. Nenhum dos três quimioterápicos citados consta da Rename 2024, e o capítulo não tira desse zero conclusão sobre acesso: o paciente é tratado num serviço habilitado em oncologia. O transplante, que a diretriz norte-americana descreve como opção potencialmente curativa para parte desses pacientes, não tem entrada na lista federal para colangiocarcinoma. O que volta para você é a prótese: febre, calafrio, volta da icterícia ou do prurido num paciente drenado é oclusão ou colangite até prova em contrário.

    Prescrição
    • Na contrarreferência, registrar tipo de prótese ou dreno, data, setores drenados e plano de troca
    • Orientar por escrito que febre, calafrio, volta da icterícia ou da coceira significam procurar o hospital no mesmo dia
    • Dor oncológica e cuidados paliativos, quando indicados, pelo capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila de Geriatria
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo acompanha dois pacientes diferentes: o que ainda espera o mapa, em quem o que se vigia é a infecção que não deveria aparecer, e o que já foi drenado ou tratado, em quem o que se vigia é se a drenagem de fato drenou. Os parâmetros abaixo servem aos dois, e os três últimos são dos pacientes da lesão de via biliar e da colangite esclerosante.

Temperatura e calafrio, com pergunta ativaDe 6 em 6 horas durante a internação, e com pergunta direta sobre calafrio nas 72 horas seguintes a qualquer colangiopancreatografia, drenagem percutânea ou troca de prótese

Esperado: Afebril e sem calafrio. Calafrio conta mesmo quando o termômetro, naquele momento, está normal.

Se não melhora: Febre com calafrio depois de procedimento no hilo é colangite do setor opacificado e não drenado até prova em contrário. Hemoculturas, antibiótico e contato com quem drenou no mesmo turno, porque a resposta pode ser drenar outro setor; a graduação e o prazo seguem o capítulo Bile sob pressão.

Bilirrubina total depois da drenagem, com a data da prótese ao ladoA cada 48 a 72 horas na primeira semana depois da drenagem; depois, em cada consulta e antes de cada troca de prótese

Esperado: Queda progressiva. A diretriz norte-americana cita estudo retrospectivo em que a queda até 2 mg/dL, ou de pelo menos 50% do valor anterior à prótese, se associou a sobrevida maior no tumor peri-hilar, e registra 2,5 a 3,5 mg/dL como a faixa típica para permitir quimioterapia.

Se não melhora: Bilirrubina que não cai é drenagem insuficiente até prova em contrário: prótese em setor atrofiado, setor funcionante sem drenagem, ou oclusão. Peça a imagem e fale com quem drenou. O mesmo documento registra que até 40% das drenagens iniciais com prótese metálica no hilo são inadequadas, e que a qualidade de vida não melhorou quando a bilirrubina ficou em 14 mg/dL ou mais.

Débito, cor e aspecto do dreno biliar externoVolume de cada turno somado em 24 horas, com anotação de cor e aspecto, enquanto o dreno estiver aberto

Esperado: Bile de cor amarelo-esverdeada, sem sangue, com volume estável e icterícia em regressão.

Se não melhora: Débito que cai de repente com volta da icterícia ou febre sugere obstrução ou deslocamento do dreno: não se lava às cegas, chama-se quem colocou. Sangue no dreno pode ser hemobilia, que a diretriz lista entre as complicações de procedimento no hilo, e exige contato imediato. Débito alto e persistente cobra reposição de volume e de eletrólitos, calculada pelo capítulo Hidratação venosa: manutenção e reposição.

Creatinina e volume urinárioAntes e 48 horas depois do contraste da tomografia, e diariamente enquanto houver dreno biliar externo com débito alto

Esperado: Creatinina estável e diurese preservada.

Se não melhora: Creatinina subindo num ictérico com dreno externo pode ser perda de volume pela bile somada ao contraste. Corrija o volume, reveja nefrotóxicos e adie contraste novo; se não houver resposta, a investigação da lesão renal segue fora deste capítulo.

Peso e aceitação da dietaPeso a cada 3 dias na internação e em toda consulta; aceitação da dieta registrada por refeição

Esperado: Peso estável e aceitação da maior parte do que é oferecido.

Se não melhora: Perda contínua de peso piora a tolerância a qualquer operação e a qualquer quimioterapia. A escolha da via e o cálculo pertencem a A linha que ninguém revisa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; registre o peso com data, porque é ele que o serviço de destino vai usar para decidir se o paciente é operável.

Débito de bile depois de lesão menor tratada no pós-operatório da colecistectomiaDiariamente, pelo dreno cirúrgico ou percutâneo, a partir do diagnóstico

Esperado: Queda progressiva do débito, com o paciente sem febre, sem distensão e com dieta aceita.

Se não melhora: Pela diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência, lesão menor que não melhora ou piora durante a observação depois da drenagem percutânea torna obrigatório o tratamento endoscópico, com papilotomia e prótese. Débito que persiste mesmo depois dele, ou bilirrubina que sobe, obriga a pensar em lesão maior não reconhecida: colangiorressonância e contato com o centro hepatobiliar.

Fosfatase alcalina, bilirrubina e episódios de colangite na colangite esclerosante, depois do tratamento da estenose dominanteA cada consulta, com o registro de cada internação por colangite com data

Esperado: Melhora clínica e bioquímica, que o manual brasileiro descreve em cerca de 80% dos pacientes sem cirrose tratados por via endoscópica.

Se não melhora: Estenose dominante que volta ou não responde precisa de nova amostragem, porque pode ser colangiocarcinoma; depois de duas sessões negativas com suspeita mantida, a diretriz norte-americana manda discutir o caso em reunião multidisciplinar. Colangites de repetição com hospitalização, em seis meses, estão entre as situações especiais da lista de fígado na norma federal de transplantes, e o registro com datas é o que comprova o agravo.

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Onde o erro machuca

Mandar o ictérico com obstrução alta para colangiopancreatografia retrógrada antes do mapa

O dano: É o erro da cena deste capítulo, e ele parece zelo. No hilo, o procedimento sem plano opacifica setores que depois não consegue drenar, e a colangite que nasce ali é produzida pelo procedimento, não pelo tumor. Quando a prótese entra no setor atrofiado, a bilirrubina não cai e o paciente fica com o risco sem o benefício. E cada procedimento a mais é uma internação, uma recuperação e uma nova imagem para ler antes de alguém conseguir decidir se o tumor sai.

Como pegar a tempo: Leia a ultrassonografia pela altura antes de pedir qualquer coisa. Com ductos intra-hepáticos dilatados e colédoco fino, sem colangite, o pedido do dia é colangiorressonância e tomografia com contraste, com a hipótese de neoplasia escrita, e o procedimento só entra depois que quem vai drenar tiver revisado as duas. Com febre e calafrio, a regra se inverte e a drenagem segue o prazo do grau.

Ler colédoco de calibre normal como ausência de obstrução

O dano: O paciente com tumor da confluência tem colédoco fino por definição. Se o laudo que diz colédoco de 5 milímetros é lido como via biliar normal, a icterícia vira hepatite a esclarecer, o pedido segue para sorologias e autoanticorpos, o retorno é marcado para um mês, e o pedido de imagem sai sem a palavra neoplasia — que é a palavra que faz o prazo legal andar. O tempo perdido é o tempo em que o tumor sobe para os ductos de segunda ordem e muda de tipo.

Como pegar a tempo: Leia sempre três achados juntos: calibre do colédoco, dilatação dos ductos dentro do fígado e volume da vesícula. Ductos intra-hepáticos dilatados com colédoco fino e vesícula murcha são obstrução alta até prova em contrário, e isso vai escrito na evolução com essas palavras.

Puncionar a lesão do hilo através do peritônio para chegar ao centro com diagnóstico

O dano: A punção percutânea ou por ecoendoscopia da lesão primária peri-hilar leva o risco de semear o tumor no trajeto da agulha. Na série da Clínica Mayo citada pela diretriz norte-americana, 5 de 6 pacientes com biópsia transperitoneal positiva tiveram metástase peritoneal, e a maioria dos protocolos de transplante para colangiocarcinoma exclui quem foi puncionado assim. O tamanho real do risco é discutido, mas a punção fecha portas que o hospital de origem não tem como reabrir.

Como pegar a tempo: Não peça biópsia percutânea nem punção por ecoendoscopia da lesão do hilo antes da discussão no centro hepatobiliar. O diagnóstico tecidual se busca por dentro do ducto, com amostragem por mais de um método no procedimento índice, e os linfonodos podem ser puncionados por ecoendoscopia sem esse problema, porque linfonodo positivo já é, por si, contraindicação ao transplante.

Tentar reparar a lesão maior da via biliar no hospital onde ela aconteceu, sem cirurgião hepatobiliar

O dano: O reparo feito por quem não tem experiência hepatobiliar é o que transforma uma lesão reparável numa estenose de repetição. A diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência registra, numa metanálise de estudos de baixa qualidade, falha de 60% no reparo feito na mesa contra 34,1% no reparo pós-operatório, diferença que não atingiu significância, e, numa coorte de 200 pacientes, o reparo na mesa por não especialista como fator independente de colangite recorrente, estenose, reoperação e morbidade. A referência precoce ao centro hepatobiliar reduziu complicações e estenoses. E a dissecção do hilo por quem não vai reconstruir dificulta a reconstrução de quem vai.

Como pegar a tempo: Na operação, sem experiência hepatobiliar: não dissecar o hilo, deixar dreno no quadrante superior direito e transferir; não converter só para confirmar ou classificar a lesão. No pós-operatório: antibiótico na primeira hora se houver fístula, biloma ou peritonite, drenagem das coleções e transferência. A conversa com a paciente sobre o que aconteceu é revelação de evento adverso, pelo capítulo A hora seguinte.

Tratar a estenose dominante da colangite esclerosante como benigna sem amostra — ou o contrário, operar como tumor uma colangite por IgG4

O dano: Os dois erros nascem da mesma confiança na imagem. A colangite esclerosante é doença pré-maligna, e o colangiocarcinoma que cresce numa estenose dominante tem a mesma cara da estenose benigna ao lado; tratado só com dilatação e prótese, o câncer pode ser descoberto tarde demais para ressecar. No sentido oposto, a colangite associada à IgG4 desenha estenoses parecidas com as do tumor do hilo e responde a corticoide, e um homem mais velho com estenose hilar e pancreatite autoimune pode perder parte do fígado por uma doença que um comprimido trataria.

Como pegar a tempo: Estenose dominante nova ou que muda de comportamento pede amostragem por mais de um método no procedimento, lembrando que a hibridização fluorescente in situ rende menos na colangite esclerosante; duas sessões negativas com suspeita mantida vão para discussão multidisciplinar. E, diante de estenose hilar em homem mais velho, sobretudo com pâncreas alterado na tomografia, a IgG4 sérica é pedida antes da discussão cirúrgica.

Encaminhar a icterícia do paciente com pedra na vesícula como coledocolitíase sem olhar a altura

O dano: A síndrome de Mirizzi é a icterícia com pedra e sem pedra no colédoco. Se o laudo com ductos dilatados até o infundíbulo e colédoco normal abaixo é lido só como litíase com icterícia, o paciente entra na sala para uma colecistectomia comum, e o cirurgião encontra o triângulo apagado pela fibrose e o ducto hepático comum puxado para dentro da inflamação — o cenário da lesão de via biliar. A diretriz de lesão de via biliar trata a síndrome como condição de risco em que a investigação pré-operatória exaustiva é obrigatória.

Como pegar a tempo: Leia a altura também no paciente com pedra. Dilatação que termina no infundíbulo com colédoco normal abaixo é suspeita de síndrome de Mirizzi, e a suspeita vai escrita no pedido de colangiorressonância e no encaminhamento cirúrgico, antes de o paciente entrar na sala. O momento e a técnica da colecistectomia seguem A mesma pedra, três destinos.

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O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem conversas de três tipos, e nenhuma delas é a de dar o diagnóstico de câncer, que acontece no serviço de referência e cuja técnica pertence a Comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. As daqui são as que o interno tem de fato: explicar por que se espera, falar antes de saber, pedir ajuda com as palavras certas, discordar de um colega e contar a um paciente que a operação dele deu errado. O que segue são as frases desta doença, na voz de quem as diz.

Explicar a Venâncio, que coça a noite inteira, por que ninguém vai colocar o tubo hoje

Seu Venâncio, eu sei que o senhor esperava sair daqui hoje com alguma coisa resolvida, e essa coceira não deixa ninguém ter paciência. Vou explicar por que a gente vai esperar dois ou três dias, porque essa espera faz parte do tratamento. O ultrassom mostrou que a bile está parando lá em cima, dentro do fígado, perto de onde os canais se juntam. Nesse lugar, se alguém entrar com a endoscopia sem saber quais canais estão funcionando, pode levar infecção para um canal que depois não consegue desentupir. Por isso vêm antes dois exames que desenham os canais sem encostar neles. Enquanto isso eu cuido da coceira e da comida. E se o senhor sentir calafrio, mesmo sem febre, chame na hora, porque aí o plano muda no mesmo dia.

Não diga: Evite dizer que é só a vaga que não saiu: ele vai entender que está perdendo tempo, quando está sendo protegido de uma complicação. E evite prometer que o tubo resolve a coceira no dia seguinte.

A filha pergunta no corredor, antes de qualquer laudo, se é câncer

Isolina, eu vou ser honesto com você, e por isso vou separar o que a gente sabe do que ainda não sabe. O que a gente sabe é que existe uma obstrução no caminho da bile, dentro do fígado, e que nesse lugar, na idade dele e com esse emagrecimento, a causa mais comum é um tumor. É por isso que os exames foram pedidos com prioridade. O que a gente ainda não sabe é se é mesmo isso, até onde vai e o que dá para fazer, e essas respostas saem dos exames desta semana. Eu prefiro que vocês ouçam o resultado juntos, com quem vai explicar o tratamento. Se você quiser, a gente conversa hoje sobre como ele gostaria de receber essa notícia.

Não diga: Evite o fica tranquila que não deve ser nada, e evite o é câncer, sim. As duas frases prometem o que você não sabe. Falar com a família antes do diagnóstico, sem esconder e sem antecipar, está em O que se diz quando não se sabe.

Telefonar ao serviço de cirurgia hepatobiliar de referência

Boa tarde, sou interno da enfermaria de cirurgia do hospital regional e falo em nome do cirurgião responsável. Tenho um homem de 67 anos com icterícia obstrutiva indolor há quatro semanas, bilirrubina total de 12,4, seis quilos perdidos, sem colangite. A ultrassonografia mostra ductos intra-hepáticos dilatados dos dois lados, colédoco de 5 milímetros e vesícula murcha. A tomografia de hoje mostra espessamento na confluência estendendo-se para a direita, lobo direito reduzido com ramo portal direito envolvido, ramo esquerdo e artéria hepática própria livres, um linfonodo de 12 milímetros no pedículo e nenhuma metástase. A via biliar não foi instrumentada e nada foi puncionado. Aqui não temos ressonância. Preciso de duas coisas: que ele seja avaliado pelo serviço, e que a colangiorressonância seja feita antes de qualquer procedimento. Posso mandar as imagens ainda hoje.

Não diga: Evite abrir a ligação pedindo vaga de endoscopia. O serviço decide pela anatomia: quem liga pedindo procedimento recebe procedimento, e quem liga com o mapa recebe um plano.

O plantonista que pediu a colangiopancreatografia de madrugada questiona a mudança

Doutor, eu li a sua indicação e entendo o raciocínio: ele está muito ictérico e a gente quer resolver rápido. O que me fez trazer a questão foi o desenho da ultrassonografia. Colédoco de 5 com intra-hepáticas dilatadas e vesícula murcha põe a obstrução no hilo, e a diretriz de estenoses biliares de 2023 pede que a imagem seja revisada antes da endoscopia nessa altura, porque contraste num setor que não vai ser drenado dá colangite. Ele está sem febre. A minha proposta é trocar hoje o pedido por colangiorressonância e tomografia, e deixar a endoscopia para quando o serviço de referência tiver o plano. Se o senhor vê outro motivo para drenar agora, eu queria entender.

Não diga: Evite corrigir o colega diante da equipe ou do paciente, e evite a frase o protocolo manda. A discordância se sustenta pelo achado e por uma pergunta aberta, como ensina Dois planos para o mesmo paciente.

Contar a Cirila Veiga, no quarto dia depois da colecistectomia, que a via biliar foi lesada

Dona Cirila, eu preciso conversar com a senhora sobre o que está acontecendo, e o cirurgião que a operou está aqui comigo. Os exames mostraram que, durante a cirurgia da vesícula, o canal principal que leva a bile do fígado para o intestino foi lesado. É por isso que a senhora amarelou e que a barriga está inchada. É uma complicação conhecida dessa cirurgia, e tem tratamento, mas o tratamento precisa ser feito por uma equipe especializada nesse tipo de reconstrução, que este hospital não tem. Nós já falamos com o hospital de referência e a senhora vai ser transferida. Até lá, a senhora recebe antibiótico, e o líquido que se acumulou vai ser drenado. Pode me perguntar o que quiser, agora ou mais tarde.

Não diga: Evite a palavra intercorrência e evite explicar a técnica da cirurgia. Diga o que aconteceu, o que muda e o que vai ser feito. Quem conta, em que ordem, o que se registra e o que se notifica está em A hora seguinte.

Explicar a Argemiro Cotrim, com retocolite e colangite esclerosante, por que a estenose nova precisa de amostra

Argemiro, a colangite esclerosante estreita os canais da bile em vários pontos, e a maior parte desses estreitamentos é da própria doença. Só que essa doença também aumenta o risco de um tumor dos canais, e o tumor pode aparecer justamente num estreitamento parecido com os outros. O exame de imagem não separa um do outro com segurança. Por isso, quando aparece um estreitamento que passa a mandar no quadro, como agora, a gente colhe material por mais de um método durante a endoscopia. Se vier negativo e a dúvida continuar, repete; e se continuar depois disso, o seu caso vai para uma reunião com cirurgiões e oncologistas. Não é desconfiança do resultado anterior. É o jeito de não deixar passar o que importa.

Não diga: Evite dizer que é só a doença de sempre, e evite falar em câncer como se fosse o mais provável. Diga o risco do tamanho que ele tem e o que se faz para vigiá-lo.

A família de Venâncio pergunta sobre o transplante que leu na internet

Vocês leram certo: em alguns países, o transplante de fígado é usado para um grupo selecionado de pacientes com esse tipo de tumor. No Brasil, a norma federal que organiza a lista de transplante de fígado não inclui esse tumor entre as doenças que podem entrar na lista. Eu não quero que vocês construam uma esperança em cima de um caminho que hoje não está aberto aqui. O que está aberto é a avaliação no serviço de referência: ver se o tumor pode ser operado e, se não puder, como aliviar a icterícia e que tratamento oferecer. É isso que a gente está preparando.

Não diga: Evite dizer que não existe transplante para isso em lugar nenhum, e evite prometer que o serviço vai conseguir. Diga o que a norma brasileira permite e o que de fato vai acontecer.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Colangiopancreatografia retrógrada diante de suspeita de neoplasia: é a porta de entrada do diagnóstico, ou o procedimento que vem depois do mapa?

A régua de acesso põe a suspeita de neoplasia no topo da fila do procedimento

Lista entre os critérios de encaminhamento para o procedimento o diagnóstico de neoplasia de papila, pâncreas ou ductos biliares e as estenoses benignas ou malignas dos ductos biliares, e classifica a suspeita de neoplasia na faixa vermelha, a de maior prioridade. Pede os laudos de ultrassonografia e de colangiorressonância já realizados, com data, mas não condiciona o pedido à existência deles.

Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, protocolo de acesso à colangiopancreatografia endoscópica retrógrada em adulto — sem data impressa; arquivo digital de 30/08/2019

A régua clínica põe o procedimento depois da imagem que o planeja

O manual brasileiro manda, diante de ductos dilatados, colangiorressonância ou ecoendoscopia, e reserva a colangiografia endoscópica para os casos duvidosos ou que precisam de desobstrução. A diretriz norte-americana recomenda a ecoendoscopia com punção, e não a colangiopancreatografia, para investigar malignidade na estenose com massa pancreática, e escreve que, no hilo, a imagem seccional é obtida e revisada antes do procedimento, que a drenagem se planeja por setores e que o antibiótico entra quando o contraste não escoa.

Sociedade Brasileira de Hepatologia, Manual de condutas em doenças colestáticas e autoimunes do fígado, 2019, capítulo 1; American College of Gastroenterology, diretriz de estenoses biliares, Am J Gastroenterol 2023, recomendação 1 e conceitos-chave 2 e 10

Como decidir

Use a condição clínica e a anatomia para decidir o procedimento e o protocolo de acesso para organizar o encaminhamento. Sem colangite, a obstrução alta exige imagem e planejamento antes da instrumentação eletiva. Com infecção ou deterioração, acelere o controle do foco. O pedido deve conter hipótese, achados, exames e urgência reais.

Tumor do hilo num hospital sem ressonância: a colangiorressonância é condição para o procedimento eletivo, ou basta a tomografia?

A régua oncológica garante a tomografia e condiciona a ressonância à disponibilidade

Recomenda tomografia de abdome e tórax para todos os pacientes, com evidência moderada e força forte, e colangiorressonância ou ressonância de abdome conforme disponibilidade, com evidência alta e força forte. A colangiopancreatografia retrógrada fica para casos selecionados, sem nível de evidência nem força atribuídos. O documento não trata da drenagem nem do preparo do procedimento.

Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Diretrizes de tratamentos oncológicos, capítulo Vias biliares, data de publicação 29/04/2026, tabela de exames para estadiamento

A régua do procedimento pede o desenho da árvore biliar antes de tocar no hilo

O manual brasileiro apresenta a colangiorressonância como opção segura e de maior sensibilidade para avaliar a árvore biliar diante de ductos dilatados. A diretriz norte-americana aceita tomografia com contraste ou ressonância com colangiorressonância como imagem prévia ao procedimento no hilo, mas exige que o plano saia dela: drenar ao menos dois setores, não opacificar áreas em que a prótese não entrará, não drenar setores atrofiados.

Sociedade Brasileira de Hepatologia, Manual de condutas em doenças colestáticas e autoimunes do fígado, 2019, capítulo 1; American College of Gastroenterology, diretriz de estenoses biliares, 2023, conceitos-chave 10 e 11

Como decidir

Na obstrução hilar sem urgência infecciosa, organize tomografia e colangiorressonância e encaminhe as imagens ao centro que planejará a drenagem. Se a ressonância não puder ser obtida, a equipe de referência deve avaliar se a informação disponível permite prosseguir. Colangite muda a prioridade: controle urgente com o melhor planejamento possível, sem atraso indevido para completar exames.

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O raciocínio, em voz alta

Segunda-feira, oito da manhã, enfermaria de cirurgia do mesmo hospital regional de Venâncio. Cirila Veiga, 44 anos, costureira, foi operada por vídeo na quinta-feira à tarde, de forma eletiva, por colelitíase sintomática. A descrição cirúrgica registra processo inflamatório crônico, dissecção trabalhosa do triângulo, sem intercorrências, e nenhum dreno. Recebeu alta na sexta pela manhã. Voltou no domingo à noite com dor abdominal difusa, distensão, náusea e febre de 38,3 graus, e foi internada com o diagnóstico de íleo pós-operatório. Hoje: pressão arterial de 118 por 74, frequência cardíaca de 104, temperatura de 38,1 graus; abdome distendido e doloroso de forma difusa, sem defesa generalizada; escleras levemente amarelas. Exames da noite: leucócitos 15.800; bilirrubina total 3,6 com direta 2,9; fosfatase alcalina 290 e gama-glutamiltransferase 410, com limites de 120 e de 60; aminotransferases no dobro do limite; proteína C reativa 18; lactato 1,6; creatinina 1,0. A ultrassonografia de ontem descreve líquido livre em moderada quantidade no espaço sub-hepático e na goteira parietocólica direita, e discreta dilatação das vias biliares intra-hepáticas.

  1. 8h00 — dar nome ao que está acontecendo

    Uma paciente que deveria ter tido alta definitiva no dia seguinte a uma colecistectomia por vídeo voltou em três dias com febre, dor, distensão e icterícia. São exatamente os sinais de alarme que a diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência lista para investigar prontamente lesão de via biliar. A combinação desta paciente tem os dois cenários ao mesmo tempo: líquido livre, que é bile vazando, e dilatação intra-hepática com bilirrubina de 3,6, que é bile parando. Íleo pós-operatório não explica icterícia, não explica dilatação e não explica líquido livre em moderada quantidade. Na evolução, com essas palavras: suspeita de lesão de via biliar pós-colecistectomia, com sinais de resposta inflamatória sistêmica.

  2. 8h15 — a primeira hora é da infecção

    Frequência de 104, temperatura de 38,1 e 15.800 leucócitos numa paciente com coleção de bile provável põem a sepse na mesa. O reconhecimento e o pacote da primeira hora — hemoculturas, volume, reavaliação do lactato — pertencem a Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. O que é específico daqui vem do enunciado 5.3 da diretriz de lesão de via biliar: com fístula biliar, biloma ou peritonite biliar, antibiótico em até 1 hora. Os betalactâmicos que o enunciado lista não constam da Rename 2024, como mostram as notas do bloco de critérios, e a escolha sai da lista do hospital, com a lógica de O antibiótico que ninguém para. O horário da primeira dose vai escrito, porque o centro de destino vai precisar dele.

  3. 9h00 — a tomografia trifásica, pedida com a pergunta

    A diretriz sugere a tomografia trifásica de abdome como primeiro exame de imagem para achar coleções e dilatação. O pedido diz o que se procura: coleção perto do fígado, dilatação da via biliar e até onde ela vai, posição dos clipes, artéria hepática direita. O laudo chega às onze: coleção líquida de 9 centímetros no espaço sub-hepático, com líquido na goteira direita; vias biliares intra-hepáticas dilatadas até a confluência; clipes metálicos na altura esperada do ducto hepático comum; colédoco distal não caracterizado; artéria hepática direita contrastada na fase arterial; sem pneumoperitônio desproporcional.

  4. 11h15 — o que a imagem sugere, e o que ela não prova

    Clipes na altura do ducto hepático comum, dilatação a montante e coleção sugerem lesão maior: a via principal clipada e, provavelmente, seccionada, com bile vazando do coto proximal — uma lesão de classe E pela classificação de Strasberg. A tomografia não prova isso. Ela não distingue bile de sangue ou de pus, e não mostra de onde a bile sai. A classificação que planeja o reparo sai da colangiorressonância com contraste hepatoespecífico ou da colangiografia, e esses exames serão feitos no centro. O que a tomografia já decidiu é suficiente para o hospital de origem: há coleção a drenar, e há lesão provavelmente maior a transferir. Vale registrar também que a artéria hepática direita está contrastada, porque lesão vasculobiliar muda o momento do reparo.

  5. 11h30 — o relógio da diretriz e o que ele manda fazer

    Cirila foi operada na quinta à tarde e o diagnóstico está sendo feito na segunda de manhã: são cerca de 88 horas, já fora das primeiras 72. Para a lesão maior reconhecida entre 72 horas e 3 semanas, o enunciado 7.4 manda drenar as coleções, dar antibiótico dirigido e suporte nutricional, admite colangiopancreatografia ou drenagem percutânea para aliviar a pressão na via biliar, e deixa a hepaticojejunostomia para depois de no mínimo 3 semanas, com a fase aguda resolvida. Ou seja: hoje não é dia de reconstruir nada, em hospital nenhum. O hospital regional não tem radiologista intervencionista, e a drenagem guiada da coleção é mais um motivo para transferir agora, e não amanhã. Se, antes da transferência, o abdome evoluir para peritonite difusa, o enunciado 7.6 manda lavar e drenar a cavidade com urgência — isso é do cirurgião de plantão; o reparo da via biliar não é.

  6. 12h00 — o telefonema e o relatório

    A ligação para o centro hepatobiliar leva a operação e o tempo: colecistectomia por vídeo eletiva, dissecção difícil registrada, sem dreno, alta no primeiro dia, retorno no terceiro dia com febre, distensão e icterícia, diagnóstico no quarto; a tomografia com coleção de 9 centímetros, clipes na altura do hepático comum e dilatação até a confluência; a artéria hepática direita contrastada; antibiótico iniciado às 8h40; nenhuma drenagem, nenhuma endoscopia e nenhuma tentativa de reparo feitas. O relatório repete isso por escrito, com a descrição cirúrgica anexada e as imagens em mídia. A diretriz registra, a partir de estudos comparativos, que a referência precoce a centro hepatobiliar reduz complicações e estenoses em relação à referência tardia — e é esse o ato que o hospital de origem ainda pode fazer bem.

  7. 14h00 — a conversa com Cirila

    Antes da transferência, a equipe conversa com Cirila e registra o que está confirmado e o que ainda é suspeita: há sinais de obstrução e vazamento biliar após a operação, com preocupação de lesão importante da via principal. Explicar os achados, as medidas já iniciadas, a necessidade de definir a anatomia e o motivo de transferir a um centro especializado. Não anunciar clipagem e secção como demonstradas antes da confirmação, nem ocultar a suspeita até a transferência. A conversa deve ser feita prontamente pelo responsável, com espaço para perguntas e atualização conforme os exames.

  8. Semanas depois — o que ela vai encontrar

    No centro, a coleção é drenada, a colangiorressonância com contraste hepatoespecífico classifica a lesão, e o antibiótico é ajustado pelas culturas. Confirmada a lesão maior, a reconstrução é a hepaticojejunostomia em Y de Roux, feita quando a inflamação tiver cedido — no mínimo três semanas pelo enunciado, e às vezes bem mais, como o próprio texto da diretriz admite quando o diagnóstico atrasou. A vida depois dela tem dois riscos que voltam para a atenção primária e para a enfermaria de qualquer cidade: a estenose da anastomose, que se anuncia por icterícia e por colangites de repetição, e, quando a obstrução se prolonga, a cirrose biliar secundária — que está entre as condições aceitas para lista de transplante de fígado pela norma federal de 2025. Na alta do centro, o que precisa estar escrito na contrarreferência é o tipo de lesão, o tipo de reconstrução e os sinais que obrigam a voltar.

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Faça você

Argemiro Cotrim, 37 anos, professor de educação física, tem retocolite ulcerativa extensa há nove anos, em remissão com mesalazina. Há dois anos a fosfatase alcalina começou a subir nos exames de rotina, e a colangiorressonância da época mostrou estreitamentos multifocais com dilatações segmentares nos ductos de dentro e de fora do fígado: o diagnóstico de colangite esclerosante primária está escrito no prontuário desde então. Há seis semanas ele começou a coçar; há dez dias, a urina escureceu; há quatro dias, teve febre de 38,6 graus com tremedeira, tratada com antibiótico no pronto-atendimento, e melhorou. Hoje, no ambulatório, está afebril, ictérico e sem dor. Bilirrubina total de 6,8 com direta de 5,4; fosfatase alcalina 7 vezes o limite superior e gama-glutamiltransferase 9 vezes; albumina de 3,9; plaquetas de 210.000; razão normalizada internacional de 1,1. A colangiorressonância nova mostra, além do padrão antigo, uma estenose longa no ducto hepático comum logo abaixo da confluência, com dilatação a montante que não existia no exame anterior. O CA 19-9, pedido no pronto-atendimento durante a febre, veio em 212 U/mL.

  1. 1. O que mudou

    Diga, com o vocabulário do manual brasileiro, o nome do que apareceu na colangiorressonância e por que a icterícia nova e a febre com tremedeira não são só a doença de sempre.

  2. 2. As hipóteses e o marcador

    Diga as duas hipóteses que essa estenose obriga a considerar e se o CA 19-9 de 212 ajuda a separá-las — justificando pelo momento em que foi colhido.

  3. 3. O pedido

    Diga que procedimento se pede, com que finalidade dupla, como a amostra deve ser colhida, e que frase vai escrita no pedido para a regulação.

  4. 4. O tratamento da estenose

    Diga o que o manual brasileiro indica para a estenose dominante sintomática, quem mais se beneficia e com que taxa de melhora, e o que nos exames de hoje sugere que Argemiro está no grupo favorável.

  5. 5. Se as amostras vierem negativas

    Diga o que acontece depois de duas sessões de amostragem negativas com a suspeita mantida, e por que a punção transperitoneal dessa estenose não é decisão do ambulatório.

  6. 6. A porta do transplante

    Diga o que a norma federal de transplantes abre para a doença dele, que situação especial pode se aplicar, o que precisa estar registrado para comprová-la, e o que muda nessa porta se o colangiocarcinoma se confirmar.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Use o mapa para diferenciar a obstrução hilar de Venâncio da suspeita de lesão pós-operatória de Cirila e explique como infecção modifica as prioridades.

  8. Questão integrativa 1

    A tríade febre, dor e icterícia precisa estar completa para suspeitar colangite?

  9. Questão integrativa 2

    Via biliar sem dilatação exclui lesão depois da colecistectomia?

  10. Questão integrativa 3

    Qual a diferença prática entre obstrução distal e hilar?

  11. Questão integrativa 4

    Drenar dois setores garante drenagem adequada de toda obstrução hilar?

  12. Questão integrativa 5

    É adequado tentar reparar lesão maior sem experiência antes de transferir?

  13. Questão integrativa 6

    O que acompanha Cirila ao centro hepatobiliar?

Ver como fecharíamos

1. É uma estenose dominante: o estreitamento que passa a mandar no quadro, na via biliar extra-hepática, com estase e colangite. O manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia descreve essa complicação no curso da colangite esclerosante e a associa a episódios de colangite supurativa. A dilatação a montante que não existia antes, a icterícia com bilirrubina de 6,8 e a febre com tremedeira há quatro dias são o retrato dela. Não é a doença de sempre porque a doença de sempre tinha bilirrubina normal e nenhuma dilatação nova. 2. As duas hipóteses são a estenose dominante benigna da própria doença e o colangiocarcinoma, porque a colangite esclerosante é pré-maligna e o câncer pode crescer justamente numa estenose com a mesma aparência das outras. O CA 19-9 de hoje não separa nada: foi colhido com bilirrubina alta e durante uma colangite, e a diretriz norte-americana registra que ele pode estar muito elevado só pela icterícia ou pela colangite, além de ser menos acurado que a imagem. A diretriz brasileira de oncologia pede o marcador preferencialmente depois da normalização das bilirrubinas. Ele deve ser repetido depois da desobstrução, com a bilirrubina do dia ao lado. 3. Pede-se colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, com dupla finalidade: tratar a estenose e colher material. A amostra deve ser colhida por mais de um método no mesmo procedimento — escovado com biópsia, e colangioscopia onde houver —, e é bom saber que a hibridização fluorescente in situ rende menos na colangite esclerosante. O mapa já existe, que é a colangiorressonância nova, e ele vai junto. No pedido: estenose dominante em colangite esclerosante primária, com suspeita de colangiocarcinoma — no protocolo de acesso de Santa Catarina, por exemplo, é a suspeita de neoplasia que dá a faixa de maior prioridade. 4. O manual brasileiro indica tratamento endoscópico para a estenose dominante sintomática, que ocorre em 10% a 30% dos pacientes; beneficiam-se mais os ictéricos com piora bioquímica progressiva, os que têm colangites de repetição e os que têm estenose dominante fora do fígado, e a melhora clínica e bioquímica chega a cerca de 80% dos pacientes sem cirrose. Argemiro é ictérico, teve colangite e tem estenose no hepático comum; albumina de 3,9, plaquetas de 210.000 e razão normalizada internacional de 1,1 não mostram sinal laboratorial de cirrose — o que não a exclui, mas o põe, pelos exames de hoje, no grupo que mais responde. 5. Depois de duas sessões negativas com a suspeita mantida, a diretriz norte-americana manda levar o caso a reunião multidisciplinar e à avaliação cirúrgica, com as opções adicionais selecionadas pelo contexto. A punção transperitoneal de uma estenose logo abaixo da confluência não é decisão do ambulatório: ela carrega risco de semeadura, e Argemiro é, pela própria colangite esclerosante, um candidato potencial a transplante — decisão que pertence ao centro hepatobiliar. 6. A Portaria GM/MS nº 8.041, de 2025, lista a colangite esclerosante primária entre as condições aceitas para inscrição em lista de espera de fígado, e as colangites de repetição entre as situações especiais; uma das alíneas pede doença biliar refratária ao tratamento associada a dois ou mais episódios de colangite aguda com hospitalização em seis meses. Por isso cada episódio precisa estar registrado com data, internação, cultura e tratamento feito — o episódio de quatro dias atrás, tratado no pronto-atendimento sem internação, não conta para essa alínea, e é exatamente o tipo de registro que decide se a próxima conta. Se o colangiocarcinoma se confirmar, a porta muda de natureza: a norma federal não inclui o colangiocarcinoma entre as condições de inscrição, e a discussão passa a ser oncológica e cirúrgica. A colonoscopia com biópsias que a doença exige segue pelo capítulo A diarreia que não é infecciosa. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Apresentação incompleta e disfunção podem justificar avaliação e tratamento urgente. 2. Não. Vazamento, obstrução recente ou incompleta podem ocorrer sem dilatação evidente. 3. Mudam as causas prováveis, os exames e o planejamento dos segmentos a drenar ou preservar. 4. Não. Considerar parênquima viável, atrofia, anatomia e objetivo terapêutico. 5. Não. Priorizar suporte e controle indicado e coordenar avaliação especializada, evitando tentativas que dificultem o reparo. 6. Descrição operatória, cronologia, imagens e laudos, hipóteses, exames, culturas, antimicrobianos e resposta, além do plano de suporte e contato receptor.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O desenho da ultrassonografia localiza a obstrução: ductos dilatados dentro do fígado com colédoco fino e vesícula murcha significam que a bile para acima da entrada do cístico, no hilo. Nessa altura e sem colangite, o procedimento endoscópico feito sem mapa pode opacificar setores que depois não serão drenados e provocar colangite, e a diretriz norte-americana de estenoses biliares de 2023 manda revisar a imagem seccional antes da endoscopia no hilo e planejar a drenagem por setores. Por isso o passo de hoje é o mapa: colangiorressonância, que desenha a árvore biliar e mostra até onde a estenose sobe, e tomografia com contraste, que mostra vasos, atrofia, linfonodos e metástases, pedidas com a hipótese de neoplasia escrita. Bilirrubina alta, isoladamente, não indica drenagem urgente; febre com calafrio indicaria e mudaria o plano. Colédoco de calibre normal não afasta obstrução quando ela é alta. E a lesão primária do hilo não se punciona através do peritônio, pelo risco de semeadura no trajeto.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, e só então confira: os três achados da ultrassonografia que, lidos juntos, dizem a altura da obstrução, e o que cada combinação põe na lista de causas; a pergunta que a colangiorressonância responde e a que a tomografia responde; a meta de drenagem do tumor do hilo, com a conta dos setores; por que não se punciona a lesão primária do hilo através do peritônio, e o que pode ser puncionado; o que o hospital sem cirurgião hepatobiliar faz diante de uma lesão maior de via biliar reconhecida na operação, nas primeiras 72 horas e entre 72 horas e 3 semanas; e o que o manual brasileiro exige para diagnosticar colangite esclerosante, com a razão pela qual antimitocôndria e fator antinuclear não bastam.

Em 30 dias

Recupere os números que sustentam as decisões: sensibilidade de 41,6% do escovado e de 59% com escovado e biópsia; punção por ecoendoscopia com 75% contra 49% da via endoscópica retrógrada; lesão de via biliar em 0,4% a 1,5% das colecistectomias por vídeo, uma a cada 67 a 250; estenose dominante em 10% a 30% da colangite esclerosante, com melhora endoscópica em cerca de 80% dos pacientes sem cirrose; 12.350 casos anuais de câncer de fígado e vias biliares intra-hepáticas, dos quais 1.850 a 3.090 não são hepatocarcinoma. Recupere também o que o capítulo apurou sobre o Brasil: a estimativa oficial não separa vesícula nem via biliar extra-hepática; a diretriz federal do hepatocarcinoma exclui o colangiocarcinoma; a lista federal de fígado inclui a colangite esclerosante e não inclui o colangiocarcinoma; a régua da lesão de via biliar é internacional; e o protocolo de acesso à colangiopancreatografia de Santa Catarina põe o mesmo paciente em três cores. Depois, separe dois laudos de ultrassonografia de pacientes ictéricos da sua enfermaria e escreva, para cada um, a altura da obstrução, o exame seguinte e o capítulo que é dono do paciente.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 58 anos chega ao pronto-socorro do hospital regional encaminhada da unidade básica com o pedido escrito como icterícia a esclarecer, solicito colangiopancreatografia. Operou a vesícula por vídeo há onze meses e diz que foi tudo bem. Há seis semanas tem coceira, urina escura e fezes claras, e em duas noites teve febre com tremedeira que passou sozinha. Está afebril agora. Traz bilirrubina total de 4,9, fosfatase alcalina quatro vezes o limite e uma ultrassonografia que descreve ductos intra-hepáticos dilatados, colédoco não caracterizado na porção distal e clipes cirúrgicos no leito da vesícula. O hospital tem tomografia e não tem ressonância, endoscopia avançada nem radiologia intervencionista. Decida o que provavelmente está acontecendo, o que se pede hoje e o que não se pede, o que muda se ela voltar a ter tremedeira, e para onde ela vai e com que relatório.

Icterícia obstrutiva e abordagem diagnóstica – Onde a bile para — Internato | OsceLabs