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Cirurgia GeralCirurgia Vascular

O mesmo laudo, duas doenças

Doença carotídea e estenose de carótida

A estenose de carótida que alguém achou: sintomática ou assintomática, o grau que muda a conduta e a régua que o mediu, quem opera e quantos dias depois do sintoma, endarterectomia ou stent, e o que se prescreve enquanto a cirurgia não vem

Fontes deste capítulo

VON BUETTNER RISTOW, A.; MASSIÈRE, B.; MEIRELLES, G. V. et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular para o tratamento da doença cerebrovascular extracraniana. Jornal Vascular Brasileiro, v. 23, e20230094, 2024. DOI 10.1590/1677-5449.202300941.

ALBRICKER, A. C. L.; FREIRE, C. M. V.; SANTOS, S. N. et al. Atualização da Recomendação para Avaliação da Doença das Artérias Carótidas e Vertebrais pela Ultrassonografia Vascular: DIC, CBR, SBACV – 2023. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 120, n. 10, e20230695, 2023. DOI 10.36660/abc.20230695.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC) no adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 52 p. ISBN 978-85-334-2859-1.

BRASIL. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neurologia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 31 p. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada; v. 16). ISBN 978-65-5993-237-5.

NAYLOR, R.; RANTNER, B.; ANCETTI, S. et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2023 Clinical Practice Guidelines on the Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery, v. 65, n. 1, p. 7-111, 2023. DOI 10.1016/j.ejvs.2022.04.011.

01

Responda antes de ler

Homem de 72 anos, hipertenso e ex-tabagista, procura o ambulatório com um Doppler de carótidas feito numa clínica particular. Há quatro dias, a mão direita perdeu a força e ele não conseguiu falar por cerca de dez minutos, com recuperação completa; na unidade de pronto atendimento, a tomografia de crânio foi normal e ele recebeu alta com ácido acetilsalicílico e pedido de Doppler eletivo. Hoje o exame neurológico é normal e a pressão é de 168 por 94 mmHg. O laudo descreve estenose de 70 a 79% da carótida interna esquerda, com pico sistólico de 260 cm/s. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 8h20, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino que recebe pacientes regulados de onze municípios. Três prontuários da manhã trazem anexado o mesmo tipo de exame — um Doppler de carótidas —, e os três laudos terminam com uma frase parecida sobre estenose da carótida interna. A preceptora pede que você veja os três antes dela.

Emerenciana Pinheiro tem 74 anos, é professora aposentada, diabética e hipertensa, e veio renovar receitas. O exame foi pedido há dois meses num check-up de clínica particular, numa lista que incluía ecocardiograma e teste ergométrico. O laudo descreve estenose de 70 a 79% da carótida interna direita. Ela nunca teve fraqueza, dormência, alteração da fala ou da visão. Uma vizinha operou a carótida no ano passado, e a primeira pergunta de Emerenciana é quando vai ser a cirurgia dela.

Osmarina Moraes tem 66 anos, é costureira, hipertensa e fuma meio maço por dia. No domingo e de novo na terça da semana passada, sentiu "uma cortina" descer sobre a visão do olho direito, de cima para baixo, por uns dois minutos, sem dor, e depois subir. Na unidade básica, o médico pediu o Doppler e a encaminhou à neurologia pela regulação. O laudo mostra estenose de 50 a 59% da carótida interna direita. A guia está na fila, e a previsão da central é de quatro meses.

Sabino Maia tem 72 anos, é marceneiro aposentado, hipertenso, e parou de fumar há dois anos, depois de quarenta de cigarro. Há quatro dias, às sete da manhã, a mão direita largou a xícara e, por uns dez minutos, ele não conseguiu dizer o nome do neto que estava na sala. Voltou tudo. Na unidade de pronto atendimento, a tomografia de crânio veio normal, e ele saiu no mesmo dia com ácido acetilsalicílico e um pedido de Doppler "eletivo". A filha pagou o exame numa clínica particular. O laudo descreve estenose de 70 a 79% da carótida interna esquerda, com velocidade de pico sistólico de 260 cm/s. Ele veio de ônibus, sozinho, "só para mostrar o exame", e diz que está ótimo.

Os três laudos dizem quase a mesma coisa, e são três doenças com três relógios. Sabino tem dias: a placa que fechou por minutos uma artéria do hemisfério esquerdo está no período em que mais repete, e a cirurgia que a retira protege mais quanto mais cedo é feita. Osmarina também é sintomática — a cortina no olho é um ataque isquêmico transitório da retina —, e a guia dela entrou numa fila que não foi desenhada para a pressa: quatro meses consomem justamente as semanas em que operar valeria mais. Emerenciana não tem pressa nenhuma. O que ela tem é um marcador de risco cardiovascular, uma receita a acertar e uma pergunta que o grau sozinho não responde: se a cirurgia evitaria um AVC ou arriscaria provocar um que ela não teria.

Este capítulo é o dono da estenose de carótida que foi achada. Ensina a separar sintomática de assintomática pela pergunta certa, a ler o número do laudo sabendo que régua o mediu, a confirmar o grau antes de operar, a decidir quem vai para a endarterectomia, quem vai para o stent e quem fica no tratamento clínico, a contar os dias depois do sintoma e depois da trombólise, a prescrever a antiagregação com data para acabar e a vigiar as primeiras horas depois da cirurgia. O reconhecimento do déficit na porta, a trombólise e a anticoagulação da fibrilação atrial têm capítulos próprios, nomeados adiante.

03

Quem adoece disso

Nenhum dos documentos que orientam esse cuidado no Brasil traz número nacional de prevalência de estenose carotídea ou de endarterectomias realizadas. A Linha de Cuidado do AVC no adulto, de 2020, o volume de neurologia dos protocolos federais de encaminhamento, de 2022, a recomendação brasileira de ultrassonografia vascular de 2023 e a diretriz da SBACV sobre doença cerebrovascular extracraniana, de 2024, dizem como investigar, para onde encaminhar e quem operar, e os números que usam vêm de coortes e ensaios estrangeiros. A consequência é prática: a decisão sobre a estenose se faz pelo risco do paciente que está à frente, estimado com esses números, e não por uma frequência brasileira que os documentos não trazem.

O primeiro número diz por que vale procurar a estenose em quem teve sintoma. A diretriz europeia de 2023 estima que cerca de 15% dos AVC isquêmicos sejam causados por estenose de 50 a 99% ou oclusão da carótida do mesmo lado. Numa série de 883 pacientes com sintomas de território carotídeo que ela cita, 12,5% tinham estenose ipsilateral de 50 a 99% e outros 5,2%, oclusão. Traduzido para a enfermaria: de cada oito pessoas com AIT ou AVC de território carotídeo, uma tem uma estenose que pode ser operada — e a única forma de saber qual é pedir o exame antes da alta.

O segundo diz por que a pressa. Nos estudos de história natural reunidos pela mesma diretriz, depois de um AIT com estenose de 50 a 99%, o AVC acontece em 5 a 8% dos pacientes em 48 horas, em 8 a 22% em sete dias e em 11 a 25% em catorze dias. A diretriz brasileira de cirurgia vascular cita uma metanálise com 6,4% em dois a três dias, 19,5% em sete e 26,1% em catorze — mais de um em cada quatro até o fim da segunda semana. É esse o intervalo que a fila ambulatorial costuma consumir.

O terceiro diz quanto a cirurgia rende, e ele depende do dia. Na análise conjunta dos ensaios clássicos de estenose sintomática de 50 a 99%, reproduzida pela diretriz europeia, operar nas duas primeiras semanas reduziu o AVC ipsilateral em cinco anos em 18,5 pontos percentuais — um AVC evitado a cada cinco operações. Entre duas e quatro semanas a redução caiu para 9,8 pontos, um a cada dez; entre quatro e doze semanas, para 5,5, um a cada dezoito; depois de doze semanas, para 0,8, um a cada 125. A mesma operação, na mesma placa, rende 25 vezes menos quando é feita três meses depois.

Do outro lado está a estenose sem sintoma, que na população geral é rara. Em 23.706 pessoas de quatro coortes populacionais, a prevalência de estenose assintomática acima de 50% foi de 2% e acima de 70%, de 0,5%; entre os homens de 70 a 79 anos, 6% e 2,1%, e entre as mulheres da mesma idade, 3,6% e 1%. É por isso que o rastreamento indiscriminado produz mais alarme falso que doença: com a sensibilidade de 94% e a especificidade de 92% que a diretriz europeia atribui ao Doppler, examinar 100 mil adultos numa prevalência de 1% encontra 940 estenoses verdadeiras e 7.920 falsas — só um em cada nove laudos positivos é verdadeiro.

E o risco de quem tem a estenose sem sintoma caiu. A diretriz europeia registra, numa metanálise de seis ensaios e 35 coortes, taxa de AVC ipsilateral de 2,3 por 100 pessoas-ano nos estudos que terminaram de recrutar antes de 2000 e de 1,0 por 100 pessoas-ano nos de 2000 a 2010, queda atribuída ao tratamento clínico e ao abandono do tabagismo. Um risco de cerca de 1% ao ano é a conta que a cirurgia do assintomático precisa vencer, e é por isso que o risco aceitável para operá-lo é a metade do aceito no sintomático: 3% contra 6% de AVC ou morte em 30 dias.

04

Por que acontece o que acontece

A doença carotídea deste capítulo é a aterosclerose, e ela tem endereço. A diretriz da SBACV registra que mais de 80% das placas de ateroma da carótida ficam na bifurcação da carótida comum, estendendo-se ao segmento inicial da carótida interna, o bulbo carotídeo. A placa cresce devagar, ocupando a luz ao longo de anos, mas não em linha reta: episódios de crescimento rápido acontecem quando algo muda dentro dela, como uma hemorragia intraplaca ou uma necrose. Dissecção, arterite, displasia fibromuscular e trauma também estreitam a carótida, mas são outras doenças, com outras condutas.

A placa causa sintoma de três maneiras, e a mais comum não é o estreitamento em si. A ruptura lança o conteúdo da placa na corrente; a ulceração da superfície forma trombo que se solta; nos dois casos o êmbolo segue pela carótida interna até um ramo do cérebro ou até a artéria oftálmica, e o resultado é um déficit focal ou a perda visual de um olho. A terceira maneira é a oclusão da carótida, por hemorragia intraplaca ou por progressão até a suboclusão, com trombose. Mais raramente o mecanismo é de fluxo: a diretriz europeia descreve, na estenose grave com reserva vascular cerebral esgotada, AITs com tremor de um membro. Por isso a maioria dos sintomas carotídeos é negativa — falta força, sensibilidade, fala ou visão —, e por isso a perda global e breve da consciência não é sintoma de estenose de carótida.

Ilustração da bifurcação carotídea com placa no bulbo e origem da carótida interna, pequeno trombo aderido e fragmento embólico na luz acima da placa.
A placa aterosclerótica pode estreitar a luz e apresentar superfície trombogênica, favorecendo embolização para a circulação intracraniana. A figura mostra um mecanismo possível com canal residual patente. Nem toda estenose é sintomática; a interpretação depende do território dos sintomas, da imagem vascular e do contexto clínico.

O sintoma muda a biologia da conversa. As características que a diretriz da SBACV lista para a placa vulnerável — núcleo lipídico grande, capa fibrosa fina, inflamação, hemorragia intraplaca e neovascularização — descrevem uma placa que se complicou, e o AIT é a prova de que isso aconteceu. A diretriz europeia mostra essa atividade de forma direta: pacientes com estenose sintomática têm microêmbolos detectáveis ao Doppler transcraniano, e no ensaio CARESS a associação de ácido acetilsalicílico com clopidogrel reduziu, em sete dias, a proporção dos que continuavam embolizando de 72,7% para 43,8%. O risco de novo evento se concentra nos primeiros sete a catorze dias, e a mesma diretriz registra que o tratamento clínico instituído rapidamente depois do AIT reduz essa recorrência precoce. É por isso que a antiagregação e a estatina começam no dia zero, sem esperar a cirurgia.

O benefício da cirurgia cai com o tempo porque o risco que ela remove cai com o tempo. A endarterectomia não trata a aterosclerose; ela retira a fonte de êmbolos daquela bifurcação. À medida que as semanas passam e o tratamento clínico age, a operação encontra cada vez menos AVC para evitar, enquanto o risco da própria operação continua o mesmo — é a conta que transforma um AVC evitado a cada cinco operações nas duas primeiras semanas em um a cada 125 depois de doze. A diretriz da SBACV lembra que classicamente se esperava um mês para operar; a diretriz europeia recomenda operar o mais cedo possível, de preferência em até 14 dias do sintoma.

O grau importa de forma diferente em cada lado da doença. No sintomático, o benefício sobe com o grau: na análise conjunta dos ensaios, a endarterectomia não trouxe benefício abaixo de 50%, reduziu o AVC em cinco anos em 7,8 pontos percentuais entre 50 e 69% e em 15,6 pontos entre 70 e 99%. A exceção é a suboclusão: quando a carótida interna depois da placa colapsa e vira um fio, com o hemisfério suprido pelas colaterais do polígono de Willis, o benefício da cirurgia desaparece — a diferença foi de menos 0,1 ponto — e o próprio método de medida falha, porque o diâmetro distal que serve de denominador encolheu junto. No assintomático, a relação entre grau e AVC é disputada: nos ensaios, a estenose de 80 a 99% não teve mais AVC que a abaixo de 80%, e as diretrizes procuram outros marcadores, na placa e no cérebro, para saber quem de fato está em risco.

Do lado do cérebro, o perigo é reperfundir tecido recém-infartado. Quando a estenose é removida, o território infartado volta a receber fluxo pleno, e um infarto grande pode transformar-se em hemorragia ou edema. É por isso que a diretriz europeia recomenda adiar a intervenção no AVC incapacitante, no infarto maior que um terço do território da cerebral média e na alteração de consciência. A diretriz da SBACV descreve uma série de 646 pacientes, 367 deles operados antes de 14 dias: nenhum dos que tinham infarto pequeno ou ausente piorou depois da cirurgia, e 12 dos 101 com infarto acima de 4 cm³ pioraram ou morreram. Depois da trombólise o risco é outro: os produtos de degradação da fibrina aumentam a permeabilidade da barreira vascular por muito mais tempo que a meia-vida da alteplase, e isso sustenta a espera de seis dias para revascularizar.

Depois da cirurgia, dois reflexos explicam as horas seguintes. O primeiro é o barorreflexo: sem a placa rígida que amortecia o pulso, os barorreceptores do seio carotídeo passam a receber toda a pressão de pulso, e o resultado pode ser bradicardia e hipotensão — numa metanálise citada pela diretriz europeia, 12% dos pacientes submetidos a stent foram tratados por hipotensão e 12% por bradicardia. O segundo é a síndrome de hiperperfusão: um hemisfério que viveu anos atrás de uma estenose grave recebe de repente fluxo pleno. Ela atinge cerca de 1% das endarterectomias e 3% dos stents, começa em média 12 horas depois e pode aparecer até quatro semanas após, com cefaleia, confusão, convulsão e hipertensão; sem tratamento, progride de edema a hemorragia. A alavanca, nos dois reflexos, é a pressão arterial.

05

Como se apresenta de verdade

A estenose de carótida não tem quadro clínico próprio. Ela chega por dois caminhos: pelo sintoma que causou — e então é sintomática, e o paciente está com pressa —, ou por um exame pedido por outro motivo — e então é assintomática, e o que está em jogo é outra conta. Classificar certo é a primeira decisão do capítulo, e ela depende de três perguntas feitas antes de olhar o laudo: qual foi o sintoma, de que lado e quando.

As seções seguem essas perguntas: a definição de sintomático, o sintoma que não conta, a amaurose fugaz, o paciente que não melhora ou que não para de ter episódios, o achado sem sintoma e, por fim, as fronteiras com os capítulos vizinhos.

Sintomático é o sintoma certo, do lado certo, nos últimos seis meses

A diretriz da SBACV chama de doença carotídea sintomática a do paciente que teve um ou mais eventos isquêmicos no território carotídeo nos seis meses anteriores. O protocolo federal de encaminhamento de 2022 usa a mesma janela — AVC ou AIT nos últimos seis meses —, e a diretriz europeia lembra de onde ela vem: foi o critério de inclusão dos ensaios que mostraram o benefício da endarterectomia. Depois de seis meses sem evento, a SBACV passa a considerar o paciente assintomático.

Os sintomas de território carotídeo, pela lista da diretriz europeia, são a disfunção cortical — afasia, dificuldade para escrever, apraxia, alteração visuoespacial, defeito de campo visual —, a amaurose fugaz, a fraqueza ou a alteração sensitiva de face, braço ou perna, a falta de destreza de um membro, a disartria e a disfagia, que também aparecem na isquemia vertebrobasilar, e os AITs com tremor de membro da estenose grave. O lado importa. A fraqueza da mão direita e a afasia de Sabino são do hemisfério esquerdo e combinam com a estenose da carótida interna esquerda. A cortina no olho direito de Osmarina combina com a carótida interna direita, porque é para o olho do mesmo lado que a carótida manda os êmbolos, como descreve a SBACV. Sintoma sem correspondência com o lado da estenose não torna aquela estenose sintomática: os protocolos federais falam em obstrução ipsilateral à lesão cerebral.

A definição de AIT varia entre os documentos, e convém saber em qual régua o prontuário foi escrito. A Linha de Cuidado do AVC no adulto, de 2020, define AIT como episódio único de déficit focal com recuperação completa em menos de uma hora e diz que a tomografia normal confirma o diagnóstico. A diretriz da SBACV registra a definição da Organização Mundial da Saúde, com duração menor que 24 horas, e a da associação americana, baseada na imagem, em que AIT é o episódio sem infarto agudo no exame. Para a estenose a diferença pesa menos do que parece — AIT e AVC não incapacitante são ambos sintomas —, mas pesa no calendário, porque é o tamanho do infarto na imagem, e não o nome dado ao episódio, que decide quando operar.

Anote a data e a hora de cada episódio, e não só do primeiro. A SBACV separa evento inicial, evento índice — o que levou o paciente a procurar atendimento —, evento recorrente e evento mais recente, e o registro precisa permitir reconstruir essa sequência: dois episódios em dias diferentes, como os de Osmarina, e três episódios em 36 horas não são o mesmo paciente.

O sintoma que não conta: síncope, tontura e cefaleia

Anacleto Vilhena, 61 anos, perdeu a consciência por poucos segundos numa fila de banco, em pé, e acordou no chão sem nenhum déficit. Na investigação ambulatorial da síncope, alguém pediu Doppler de carótidas, que mostrou estenose de 60 a 69% da carótida interna esquerda. Ele nunca teve fraqueza, alteração de fala ou de visão. A estenose dele é assintomática.

A diretriz europeia chama de sintomas não hemisféricos a síncope isolada, a pré-síncope, a tontura isolada, a diplopia isolada, o zumbido e a vertigem isolada, e registra que não há evidência de benefício de intervenção carotídea nesses pacientes, a menos que o sintoma venha junto de um sintoma focal. O protocolo federal de 2022 diz o mesmo com outras palavras: vertigem, síncope e cefaleia usualmente não caracterizam sintomas de estenose de carótida. A síncope de Anacleto é investigada pelo capítulo Síncope: estratificação de risco e quem interna, que também explica por que o Doppler de carótidas não entra de rotina nessa investigação; a estenose que apareceu fica com este capítulo, como achado assintomático.

A tontura ao virar a cabeça pede a mesma cautela. A diretriz europeia recomenda não atribuir vertigem ou tontura desencadeada pela rotação do pescoço à compressão das artérias vertebrais sem imagem vascular que mostre a interrupção do fluxo durante o movimento.

A amaurose fugaz é um AIT que acontece no olho

A diretriz da SBACV define amaurose fugaz como perda indolor e temporária da visão de um olho, de etiologia vascular, e lembra que a perda pode ser permanente quando ocorre oclusão da artéria central da retina. O relato típico é o de Osmarina: uma cortina que desce, dura minutos e sobe. A mesma diretriz inclui a disfunção retiniana na definição de AIT, e a estenose que explica a amaurose é sintomática, com a mesma janela de seis meses e a mesma pressa do AIT hemisférico.

O benefício da cirurgia é real e menor que no déficit hemisférico. Nas análises dos ensaios reproduzidas pela diretriz europeia, a endarterectomia reduziu o AVC ipsilateral em cinco anos em 5 pontos percentuais nos pacientes com sintoma ocular — um AVC evitado a cada 20 operações —, contra 15 pontos no AIT hemisférico e 18 no AVC. Isso não tira a amaurose da lista de sintomas; entra na conta de quem opera, ao lado do grau, do sexo, da idade e do tempo desde o episódio.

Há uma amaurose fugaz que não é carotídea. Acima dos 50 anos, a perda visual transitória com cefaleia nova, claudicação de mandíbula, dor no couro cabeludo ou sintomas constitucionais aponta para arterite de células gigantes, e essa conduta, que começa por proteger o outro olho, é do capítulo Perda visual sem olho vermelho: acuidade, defeito pupilar aferente, catarata, glaucoma crônico e retinopatia diabética. A amaurose fugaz como evento embólico de território carotídeo — a investigação da carótida e a decisão de operá-la — é deste capítulo.

A diretriz europeia acrescenta a síndrome isquêmica ocular crônica, com perda visual progressiva, vasos conjuntivais ou episclerais dilatados e artérias da retina estreitadas: com estenose ipsilateral de 50 a 99%, a endarterectomia ou o stent devem ser considerados para impedir nova isquemia da retina.

Quando o sintoma não passa ou não para de voltar

A diretriz da SBACV define AIT em crescendo como múltiplos AITs em curto período, com recuperação completa entre eles, sem número exato de episódios definido, e o AVC em evolução, ou flutuante, como déficit que varia sem recuperação plena. O prognóstico dos dois só com tratamento farmacológico é muito ruim, e as duas diretrizes mudam o relógio: a europeia recomenda considerar endarterectomia urgente, de preferência em até 24 horas; a da SBACV recomenda dupla antiagregação imediata e cirurgia o mais rápido possível, de preferência antes de 24 horas — as duas com classe IIa e nível C. Nesse subgrupo, a SBACV aceita risco acumulado de AVC e morte de até 6%, porque o risco sem intervenção é muito maior.

No outro extremo está o paciente que não melhorou. Com AVC incapacitante — Rankin modificado de 3 ou mais —, infarto maior que um terço do território da cerebral média ou alteração de consciência, as duas diretrizes recomendam adiar a intervenção até a melhora neurológica, para não transformar o infarto em hemorragia. Com Rankin 4 ou 5, a SBACV considera que não há candidato à cirurgia, e o tratamento clínico é definitivo; com Rankin 3, a decisão é individual e pesa o grau da estenose, a placa e o estado da carótida do outro lado.

O que separa esses pacientes do AIT comum é a pergunta feita na chegada: é o primeiro episódio ou é o terceiro desde ontem? E o déficit está igual ao da chegada ou oscila? A resposta muda a data da cirurgia de dias para 24 horas, ou de dias para semanas.

O achado sem sintoma: o laudo pedido por outro motivo

A diretriz europeia chama de estenose assintomática a encontrada em quem não tem história de AVC, AIT ou outro sintoma neurológico atribuível às carótidas. É o caso de Emerenciana e de Anacleto. O laudo costuma vir de check-up, da investigação de outra queixa ou do pré-operatório de outra cirurgia, e o protocolo federal de 2022 abre o capítulo de AVC dizendo que a ecografia de carótidas não se recomenda como rastreamento de rotina para doença cardiovascular.

O exame que não precisava ter sido pedido não se desfaz, e o achado tem de ser conduzido. A estenose assintomática não cria urgência. Ela cria quatro tarefas: acertar o tratamento clínico, que é o que reduz o risco dela e o risco cardiovascular inteiro; procurar os marcadores que mudam o risco de AVC no tratamento clínico, descritos na investigação; a partir de 70%, levar a conversa sobre a revascularização à cirurgia vascular, com a pessoa decidindo e o grau confirmado por um segundo exame; e combinar a vigilância por imagem, que só faz sentido para quem aceitaria uma intervenção no futuro.

Os capítulos Dislipidemias e prevenção cardiovascular / risco global e Síncope: estratificação de risco e quem interna já dizem que o Doppler de carótidas não é exame de rotina nas suas investigações. Este capítulo começa onde eles terminam: no laudo que existe.

Onde este capítulo começa e onde termina

Este capítulo assume a estenose aterosclerótica da carótida extracraniana depois de achada: a classificação em sintomática ou assintomática, a leitura e a confirmação do grau, a indicação e o momento da endarterectomia e do stent, a antiagregação específica — a do sintomático que espera cirurgia, a do perioperatório, a do stent e a de quem não será revascularizado —, os cuidados das primeiras horas e a vigilância depois do procedimento. Assume também a amaurose fugaz como evento embólico de território carotídeo: o capítulo Perda visual sem olho vermelho: acuidade, defeito pupilar aferente, catarata, glaucoma crônico e retinopatia diabética a remete aos capítulos AVC isquêmico: janela terapêutica, trombólise e trombectomia e Déficit neurológico focal agudo: a janela e o relógio, e nenhum dos dois conduz a investigação da carótida que ela exige.

O capítulo Déficit neurológico focal agudo: a janela e o relógio reconhece o AIT na porta e escreve que quem melhorou não recebe alta e segue para investigação e prevenção urgentes. O capítulo AVC isquêmico: janela terapêutica, trombólise e trombectomia pede ecodoppler de carótidas na investigação etiológica e menciona a dupla antiagregação de curta duração sem dose nem prazo. A decisão sobre a estenose que esse exame encontra — operar ou não, quando e como — e a antiagregação que acompanha essa decisão são assumidas aqui.

Ficam com os vizinhos, nomeados, e não se repetem neste texto: o reconhecimento do déficit focal agudo e a janela do plantão, ao capítulo Déficit neurológico focal agudo: a janela e o relógio; a trombólise, a trombectomia e o manejo do AVC isquêmico nas primeiras 24 horas, ao capítulo AVC isquêmico: janela terapêutica, trombólise e trombectomia; a indicação e a escolha do anticoagulante na fibrilação atrial, ao capítulo Fibrilação atrial: controle de ritmo/frequência e anticoagulação (CHA2DS2-VASc); a meta de LDL e a escolha da estatina, ao capítulo Dislipidemias e prevenção cardiovascular / risco global; as metas de pressão arterial de longo prazo, ao capítulo Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA; a estratificação do risco cardiovascular antes da cirurgia, ao capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico; a lesão traumática da carótida, ao capítulo Trauma de pescoço (zonas de Monson); e a síncope, ao capítulo Síncope: estratificação de risco e quem interna.

Dois vizinhos ficam no mínimo. A doença da artéria vertebral não é o tema deste capítulo, e dela se registra só o que evita dano: a estenose vertebral assintomática não se trata com procedimento, pelas duas diretrizes, e o stent vertebral de rotina não é recomendado depois de evento vertebrobasilar, pela diretriz europeia. A dissecção espontânea da carótida, que o capítulo de AVC isquêmico lembra como diagnóstico perdido no adulto jovem, não é doença aterosclerótica, não entra nas indicações de endarterectomia deste capítulo e não é assumida aqui.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da estenose tem duas velocidades. No sintomático, é urgência: o exame que decide a cirurgia precisa sair em horas ou dias, porque a janela de benefício fecha em semanas. No assintomático, é eletiva, e a primeira pergunta é se o exame deveria ter sido pedido.

O roteiro segue a ordem das decisões: o que se pede no sintomático, como ler o número, como confirmá-lo, o que procurar no assintomático, quando não pedir e o número que o serviço precisa ter antes de operar.

No sintomático, o Doppler é exame de internação

A Linha de Cuidado do AVC no adulto, de 2020, manda iniciar o tratamento do AIT e realizar o mais breve possível — em no máximo seis dias — a ecografia de carótidas e vertebrais com Doppler, o ecocardiograma, o eletrocardiograma e os exames laboratoriais, e manda agendar consulta no ambulatório neurovascular em até sete dias depois da alta. Somados os dois prazos máximos, são 13 dias antes de o paciente chegar à consulta que o encaminharia ao cirurgião, contra a recomendação europeia de operar de preferência em até 14 dias do sintoma. As duas regras não disputam o mesmo momento: a da Linha fixa o teto de cada etapa, a europeia fixa o prazo do conjunto. Esta apostila adota a leitura que as torna compatíveis: no AIT de território carotídeo, o Doppler e a imagem do encéfalo saem durante a internação, e a conversa com a cirurgia vascular acontece antes da alta.

O eco-Doppler colorido é o exame inicial de escolha pela diretriz da SBACV: amplamente disponível, feito à beira do leito, sem radiação nem contraste, com sensibilidade de 85 a 92% e especificidade de 84% nas mãos de examinador experiente e dentro de critérios estabelecidos. A diretriz europeia recomenda Doppler, angiotomografia ou angiorressonância para avaliar a extensão e a gravidade da estenose. No AVC agudo, a SBACV registra que a maioria dos pacientes já faz tomografia e angiotomografia na chegada; quando isso aconteceu, a angiotomografia é o primeiro exame, e o Doppler pode ser o segundo.

O encéfalo precisa de imagem própria. A tomografia sem contraste exclui hemorragia com segurança, mas tem sensibilidade baixa para isquemia precoce — por volta de 64% nas primeiras seis horas, pela SBACV —, e por isso uma tomografia normal não mede o infarto que decide a data da cirurgia. A ressonância com difusão mostra o volume do infarto, e é esse volume que as diretrizes usam: abaixo de 4 cm³, a cirurgia precoce foi segura na série descrita pela SBACV; acima de um terço do território da cerebral média, a intervenção se adia. O eletrocardiograma e a monitorização do ritmo procuram fibrilação atrial, que muda a pergunta: a diretriz europeia recomenda discussão em equipe para decidir entre revascularizar e apenas anticoagular quando AIT ou AVC menor, fibrilação atrial e estenose ipsilateral de 50 a 99% coexistem.

Ler o laudo: que régua mediu o número

O número de uma estenose depende do denominador. O método do ensaio norte-americano, o método NASCET, divide o diâmetro da luz residual pelo diâmetro da carótida interna normal acima da placa; o do ensaio europeu, o ECST, divide pelo diâmetro estimado do bulbo no ponto da placa, que é maior. O mesmo estreitamento dá números diferentes: pela diretriz europeia, 50% pelo método NASCET correspondem a 75% pelo ECST, e 70%, a 85%. Todos os números de benefício deste capítulo estão no método NASCET, e a diretriz europeia recomenda que o laudo diga qual método usou.

A recomendação brasileira de ultrassonografia vascular de 2023 gradua a estenose da carótida interna em decis pelo método NASCET, com critérios hemodinâmicos, e reserva o critério anatômico local — a redução do diâmetro no ponto da placa, na lógica do ECST — para as estenoses abaixo de 50%. A armadilha do laudo nasce aí: uma redução de 60% pelo critério local corresponde, na tabela de correspondência da mesma recomendação, a uma estenose de 30 a 39% pelo método NASCET, abaixo da faixa em que a endarterectomia traz benefício. Número acima de 50% escrito pelo critério local não é número de decisão.

A régua de velocidades da recomendação brasileira é multiparamétrica, e a velocidade de pico sistólico na carótida interna é o critério de maior acurácia. Abaixo de 140 cm/s, a estenose é menor que 50%; de 140 a 230 cm/s, de 50 a 69%, com a razão entre as sistólicas da carótida interna e da comum de 2,0 a 4,0; acima de 230 cm/s, de 70% ou mais, com razão acima de 4,0; acima de 400 cm/s, a partir de 90%. Na suboclusão o fluxo é filiforme, e as velocidades podem ser altas, baixas ou indetectáveis; na oclusão não há fluxo, e a carótida comum mostra padrão de alta resistência. A velocidade diastólica e as razões ajudam quando a sistólica não representa o grau, e a razão de St. Mary's é o critério adicional de menor acurácia.

Duas situações enganam a velocidade. A placa calcificada com sombra acústica importante reduz a sensibilidade da velocidade de pico, e a SBACV cita um estudo em que a medida discordou da angiotomografia nesse cenário. E o Doppler acerta melhor a estenose acima de 70% que a de 50 a 69%: a recomendação brasileira cita uma série em que a sensibilidade foi de 35% na faixa moderada e de 81% na grave. É justamente na faixa moderada, a mais difícil de decidir no sintomático, que o segundo exame mais pesa.

Antes de operar, o número precisa de um segundo exame

A diretriz europeia recomenda, com classe I, que o grau estimado pelo Doppler seja confirmado por angiotomografia, angiorressonância ou um segundo Doppler feito por outro examinador antes da endarterectomia, e por angiotomografia ou angiorressonância antes do stent, que depende da anatomia do arco aórtico e da circulação intracraniana. A diretriz da SBACV diz o mesmo como regra geral: dois exames concordantes, e estudo do parênquima cerebral em quem teve sintoma.

A arteriografia saiu da investigação de rotina. No ensaio ACAS, a diretriz europeia registra que metade dos AVC perioperatórios foi atribuída à angiografia diagnóstica, e as duas diretrizes a reservam para os casos em que os métodos não invasivos discordam. Ela não se pede para confirmar um Doppler e uma angiotomografia que já concordam.

A suboclusão se confirma por imagem, e não pela velocidade. A recomendação brasileira de 2023 orienta que o Doppler a sugira pelo fluxo filiforme e que a dúvida vá para angiotomografia, angiorressonância ou angiografia. Na angiotomografia, a suboclusão aparece como colapso parcial, com lúmen residual menor que 1,3 mm, carótida interna distal menor que 3,5 mm, razão entre a carótida acometida e a contralateral menor que 0,87 e razão entre a carótida interna acometida e a externa do mesmo lado menor que 1,27; a oclusão aparece como colapso total. A suboclusão não se escreve em porcentagem, porque o denominador colapsou: o laudo a nomeia.

No assintomático, o que muda a conduta não é só o grau

As duas diretrizes procuram, no paciente sem sintoma, sinais de que o tratamento clínico não será suficiente. A diretriz europeia reúne os que foram validados em metanálises, estudos multicêntricos e subgrupos de ensaios: infarto silencioso ipsilateral na tomografia, com AVC ipsilateral de 3,6% ao ano contra 1,0% sem ele; progressão da estenose acima de 20%, com 2,0% ao ano contra 1,1%; AIT ou AVC do outro lado, com 3,4% contra 1,2%; placa predominantemente ecolucente ao Doppler, com 4,2% contra 1,6%; área de placa maior que 80 mm² e grande área escura junto à luz na análise computadorizada; hemorragia intraplaca na ressonância; reserva vascular cerebral reduzida; e microêmbolos espontâneos ao Doppler transcraniano.

Nem todos estão ao alcance do ambulatório comum. Os que saem de exames de rotina são o infarto silencioso na tomografia, a progressão comparada entre dois Doppler seriados, a história de evento do outro lado e a ecogenicidade da placa, que a recomendação brasileira pede que o laudo descreva. Área de placa, área escura junto à luz e reserva vascular exigem análise computadorizada ou Doppler transcraniano; hemorragia intraplaca exige ressonância.

O grau entra de modo disputado. O comitê da diretriz europeia votou, por 11 a 3, não incluir a estenose de 80 a 99% entre os marcadores, à espera dos dados do CREST-2; a diretriz da SBACV acrescentou o grau ao seu quadro de fatores de risco e recomenda considerar a revascularização acima de 70% mesmo sem marcador. A posição desta apostila está na divergência do capítulo.

A vigilância só faz sentido para quem aceitaria intervir. A SBACV recomenda Doppler a cada 6 a 12 meses nas estenoses assintomáticas acima de 50%; a diretriz europeia considera razoável a vigilância anual a partir de 50 a 60% em quem consideraria uma intervenção futura, e escreve que, se o paciente não aceitaria operação nenhuma, a vigilância não está indicada — basta orientá-lo a procurar atendimento imediato se tiver sintoma.

O Doppler que não se pede: rastreamento e pré-operatório

Rastreamento populacional de estenose carotídea não se faz. O protocolo federal de 2022 e a Linha de Cuidado de 2020 não recomendam a ecografia de carótidas como rastreamento de rotina, e as diretrizes europeia e da SBACV recomendam contra o rastreamento da população geral. As duas diretrizes admitem, com classe IIb, o rastreamento seletivo: a europeia em quem tem dois ou mais fatores de risco vascular, para otimizar o tratamento clínico e não para achar candidatos à cirurgia; a da SBACV acima de 55 anos com fatores de risco para aterosclerose. A conta da epidemiologia explica a cautela: numa prevalência de 1%, só um em cada nove laudos positivos é verdadeiro.

No pré-operatório de outra cirurgia, as duas diretrizes concordam no que decide a carótida. Quem teve AIT ou AVC nos seis meses anteriores faz imagem das carótidas antes da cirurgia eletiva, e a estenose sintomática de 50 a 99% é revascularizada antes dela, com classe I nas duas. A estenose assintomática encontrada no caminho segue a mesma indicação de quem não vai operar nada: a diretriz europeia recomenda não revascularizá-la só para proteger a outra cirurgia, e a da SBACV manda decidir como se a cirurgia eletiva não existisse.

Se o Doppler deve entrar de rotina na avaliação pré-operatória de quem nunca teve sintoma não é assumido aqui: é decisão da avaliação antes da cirurgia, o capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico não trata desse exame, e o assunto fica registrado como sem dono no nível.

O risco do procedimento é um número do serviço

O benefício da cirurgia só existe abaixo de um teto de complicação. A diretriz da SBACV recomenda endarterectomia no sintomático desde que o risco de AVC ou morte perioperatório seja menor que 6%, e registra que as metanálises só mostram benefício significativo abaixo desse valor; no assintomático, o teto é de 3%, pelas duas diretrizes. O número que entra na conta não é o dos ensaios: é o do serviço que vai operar, e a diretriz europeia recomenda avaliação neurológica independente antes e depois da intervenção para que ele seja auditado. Serviço que não conhece a própria taxa não sabe se a cirurgia que oferece traz benefício.

A idade escolhe a técnica. Na análise conjunta de quatro ensaios com pacientes sintomáticos, reproduzida pela diretriz europeia, a taxa de AVC ou morte em 30 dias depois do stent subiu com a idade — 3,2% abaixo de 60 anos, 12,1% entre 70 e 74 —, enquanto a da endarterectomia ficou entre 4,3% e 6,5% em todas as faixas. Daí as recomendações de classe I: a partir dos 70 anos, e em qualquer idade nos primeiros 14 dias depois do sintoma, endarterectomia, e não stent. Abaixo dos 70 anos e fora dessa janela, o stent pode ser alternativa, com classe IIb. A SBACV acrescenta que o stent teve resultado pior também em mulheres, em placas complexas e em pacientes com lesões de substância branca na ressonância.

Há pacientes para quem a endarterectomia é que é o risco maior. A SBACV lista como indicações aceitáveis de stent a lesão da carótida interna distal, na altura de C1 e C2, a reestenose depois de endarterectomia, o pescoço irradiado ou submetido a esvaziamento cervical, as deformidades da coluna cervical, a traqueostomia e as neoplasias cervicais, a lesão do laríngeo recorrente do outro lado, o risco anestésico elevado e a oclusão da carótida contralateral — e, no mesmo documento, afirma que doença pulmonar obstrutiva, oclusão contralateral e idade avançada não se sustentam como alto risco para endarterectomia. A diretriz europeia deixa a oclusão contralateral e a radioterapia cervical para escolha individual. A decisão é da equipe; o que cabe ao interno é trazer esses dados escritos para a discussão.

A estratificação do risco cardiovascular antes da operação segue o capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, que classifica a endarterectomia de carótida sintomática como cirurgia de risco intermediário. Um dado é específico deste capítulo: a SBACV recomenda não fazer a endarterectomia do outro lado em quem ficou com lesão permanente do nervo laríngeo recorrente, e por isso a voz do paciente operado é examinada e registrada antes de qualquer proposta de operar a outra carótida.

07

As réguas que decidem: o número do laudo, o relógio do sintomático, a exigência do assintomático e a receita

O sintoma, o território e o tempo vêm antes da porcentagem de estenose. Diferencie resposta ao AVC/AIT, prevenção secundária e avaliação eletiva do achado assintomático.

  1. 1Déficit focal atual ou novo: acione imediatamente o protocolo de AVC e a equipe neurológica. Estenose de carótida não substitui avaliação para reperfusão cerebral quando indicada.
  2. 2Sintoma resolvido: documente hora, duração e território. AIT e episódios recorrentes exigem avaliação urgente, mesmo com exame atual normal; coordene neurologia e vascular.
  3. 3Confirme lado e método do laudo. Sintomas hemisféricos/retinianos compatíveis podem tornar a lesão sintomática; tontura ou síncope isolada não são equivalentes.
  4. 4Imagem cerebral avalia infarto e hemorragia. Antes de revascularização, confirme grau e anatomia por exame concordante e método apropriado; velocidade Doppler isolada não deve comandar a operação.
  5. 5Inicie prevenção secundária com a equipe, considerando antitrombóticos, estatina e pressão. Dupla antiagregação e suas datas precisam combinar neurologia e cirurgia; não atrasar tratamento por indefinição de protocolo.
  6. 6Estenose sintomática relevante em paciente selecionado pode se beneficiar de endarterectomia precoce, usualmente até 14 dias; infarto extenso, incapacidade, hemorragia, trombólise recente e episódios em crescendo mudam o planejamento individual.
  7. 7No assintomático, tratamento clínico intensivo é indispensável. O grau isolado não determina cirurgia ou stent; discuta benefício absoluto contemporâneo, expectativa de vida, anatomia e risco auditado do centro.
  8. 8Depois da intervenção, monitore neurologia, pressão e pescoço. Déficit novo, cefaleia intensa, convulsão ou hematoma crescente exigem resposta imediata da equipe, com via aérea e imagem conforme a situação.

O número do laudo pela régua brasileira de ultrassonografia, e o que ele decide

Faixa pelo método NASCETO que o laudo precisa mostrar (recomendação DIC/CBR/SBACV, 2023)Com sintoma no território nos últimos seis mesesSem sintoma
Menor que 50%Pico sistólico na carótida interna abaixo de 140 cm/s e razão com a carótida comum abaixo de 2,0; só nesta faixa o laudo pode descrever a redução pelo critério anatômico localSem intervenção: a endarterectomia não trouxe benefício. Episódios recorrentes apesar do tratamento clínico vão à equipeTratamento clínico; os documentos só programam vigilância por imagem a partir de 50%
50 a 59%Pico sistólico de 140 a 230 cm/s, razão de 2,0 a 3,1 e diastólica de 40 a 69 cm/sCandidata à endarterectomia com risco do serviço abaixo de 6%; benefício menor que acima de 70%, maior no homem, acima de 75 anos, no AIT hemisférico e nas duas primeiras semanasTratamento clínico e Doppler a cada 6 a 12 meses, se a pessoa aceitaria intervenção no futuro
60 a 69%Pico sistólico de 140 a 230 cm/s, razão de 3,2 a 4,0 e diastólica de 70 a 100 cm/sMesma conduta da faixa anteriorTratamento clínico; intervenção só com marcador de risco, expectativa de vida acima de cinco anos e risco do serviço abaixo de 3%
70 a 99%Pico sistólico acima de 230 cm/s — acima de 400 cm/s a partir de 90% —, razão acima de 4,0 e diastólica acima de 100 cm/sEndarterectomia recomendada com risco do serviço abaixo de 6%, o mais cedo possível e de preferência em até 14 diasTratamento clínico; revascularização discutida com a cirurgia vascular se o risco do serviço for menor que 3% e a expectativa de vida, maior que cinco anos — ver a terceira divergência
SuboclusãoFluxo filiforme ao Doppler colorido, com velocidades altas, baixas ou indetectáveis; confirmar por angiotomografia, angiorressonância ou angiografia, sem porcentagemEndarterectomia e stent não recomendados com colapso distal; sintoma recorrente apesar do tratamento clínico vai à equipeTratamento clínico
OclusãoAusência de fluxo, com padrão de alta resistência na carótida comumTratamento clínico; a ponte extra-intracraniana não é recomendadaTratamento clínico

O sintomático: o que muda a data e a técnica

SituaçãoCondutaPrazoForça e documento
AIT ou AVC não incapacitante com estenose de 50 a 99% e indicação de intervençãoRevascularizarO mais cedo possível, de preferência em até 14 dias do sintomaDiretriz europeia, recomendação 44, classe I, nível A; nenhuma recomendação numerada da SBACV fixa o prazo
Revascularização nos primeiros 14 diasEndarterectomia, e não stentDiretriz europeia, recomendação 45, I/A
70 anos ou maisEndarterectomia, e não stentDiretriz europeia, recomendação 42, I/A; stent com resultado pior acima de 70 anos também pela SBACV
Menos de 70 anos, fora dos primeiros 14 diasStent pode ser alternativa à endarterectomia, com risco documentado abaixo de 6%Diretriz europeia, recomendação 43, IIb/A
AIT em crescendo ou AVC flutuanteEndarterectomia urgente; dupla antiagregação imediata pela SBACVDe preferência em até 24 horasDiretriz europeia, recomendação 47, IIa/C; SBACV, recomendação 4.1.1.4, IIa/C
Rankin de 3 ou mais, infarto maior que um terço da cerebral média ou alteração de consciênciaAdiar a intervenção até a melhora neurológica; Rankin 4 ou 5, tratamento clínicoSemanasDiretriz europeia, recomendação 46, I/C; SBACV, recomendações 4.1.1.3, I/C, e 4.3, IIa/C
Depois de trombólise venosaSem heparina e sem antiagregante por 24 horas; antiagregante iniciado antes da intervenção; controle rigoroso da pressãoRevascularizar a partir do sexto dia depois da infusãoSBACV, recomendações 4.1.4.1 a 4.1.4.3, I/C e IIa/C; diretriz europeia, recomendações 48, I/C, e 49, IIa/B
Fibrilação atrial com estenose ipsilateral de 50 a 99%Equipe decide entre revascularizar e só anticoagular; evento recorrente sob anticoagulação plena indica revascularização; depois da intervenção, anticoagular o mais cedo possívelDiretriz europeia, recomendações 63 e 64, I/C; SBACV, recomendação 4.1.2, I/C
Alto risco para endarterectomia: pescoço irradiado ou esvaziado, lesão acima de C2, reestenose, paralisia do laríngeo recorrente do outro ladoStent deve ser considerado, com risco documentado abaixo de 6%Diretriz europeia, recomendação 55, IIa/B; SBACV, recomendações 4.1.6 e 4.9, IIb

O assintomático: o que cada documento exige antes de pensar em intervenção

ExigênciaSBACV, 2024Diretriz europeia, 2023Protocolo federal de encaminhamento, 2022Esta apostila
GrauAcima de 70% na recomendação 3.4.2 (I/B); 60 a 99% com fator de risco na 3.4.1 (IIa/B)60 a 99%, recomendação 19 (IIa/B)Maior que 70% vai à neurologia70 a 99% pelo método NASCET, confirmado por segundo exame; 60 a 69%, só com marcador
Marcador de risco de AVC no tratamento clínicoNão exigido na 3.4.2; um ou mais na 3.4.1; mais de um critério de imagem na 3.6.1Um ou maisNão trataProcurado sempre; exigido só de 60 a 69%
Risco de AVC ou morte em 30 dias no serviçoMenor que 3%Até 3%Não trataMenor que 3%, com o número auditado do serviço
Expectativa de vidaMaior que cinco anosMaior que cinco anosNão trataMaior que cinco anos
Quem decideIndividualizar, com a preferência do pacienteEquipe multidisciplinarA neurologia avalia riscos e benefícios e encaminha à cirurgiaA pessoa, com a cirurgia vascular; no SUS, pela via da neurologia
TécnicaEndarterectomia de escolha (IIa/B); stent como alternativa com anatomia favorável (IIb/B)Endarterectomia; stent como alternativa (IIb/B) ou no alto risco cirúrgico (IIb/B)Não trataEndarterectomia; stent quando a endarterectomia é de alto risco

Antiagregantes do capítulo: mg e comprimidos no adulto de 78 kg, recalculados contra a Rename 2024

Esquema e documentoFármaco e apresentação na Rename 2024DoseComprimidosPor quilo em 78 kgTotal do esquema
Monoterapia do sintomático que vai à endarterectomia, diretriz europeia, recomendação 28Ácido acetilsalicílico 100 mg, comprimido, Componente Básico300 mg ao dia por 14 dias; depois 75 a 162 mg ao dia3 ao dia; depois 1 ao dia3,85 mg/kg/dia no início; dose fixa de adulto, que não se calcula por peso42 comprimidos nos 14 dias; depois 30 por mês
Manutenção do AIT e depois da endarterectomia, Linha de Cuidado de 2020 e diretriz europeia, recomendação 26Ácido acetilsalicílico 100 mg, comprimido, Componente Básico100 mg ao dia, por tempo indefinido1 ao dia1,28 mg/kg/dia; dose fixa30 por mês
Dupla de 21 dias no sintomático que não será revascularizado, diretriz europeia, recomendação 23; ataque de 300 mg como no ensaio CARESSÁcido acetilsalicílico 100 mg, Básico, e bissulfato de clopidogrel 75 mg, comprimido, Componente Especializado, norteado pelo Protocolo de Síndromes Coronarianas AgudasClopidogrel 300 mg no primeiro dia e 75 mg ao dia; ácido acetilsalicílico 100 mg ao dia; no 22º dia, suspender o ácido acetilsalicílico e manter o clopidogrelClopidogrel 4 no primeiro dia e 1 ao dia; ácido acetilsalicílico 1 ao diaClopidogrel 3,85 mg/kg no ataque e 0,96 mg/kg/dia; doses fixas24 comprimidos de clopidogrel e 21 de ácido acetilsalicílico nos 21 dias
Preparo e pós-stent, diretriz europeia, recomendação 31, e SBACV, recomendações 6.1.2 a 6.1.4Os mesmos doisClopidogrel 75 mg ao dia desde pelo menos três dias antes, ou 300 mg em dose única na urgência; os dois por pelo menos quatro semanas depois; então um só, de preferência clopidogrel, por tempo indefinido1 de cada ao dia; ataque de 4 de clopidogrel na urgênciaDoses fixasProgramado: 31 de cada até o fim da quarta semana; urgente: 32 de clopidogrel e 28 de ácido acetilsalicílico
Intolerância ou alergia ao ácido acetilsalicílico, Linha de Cuidado de 2020 e SBACV, recomendação 3.3.2Bissulfato de clopidogrel 75 mg, Componente Especializado300 mg no primeiro dia no AVC agudo, depois 75 mg ao dia4 no primeiro dia; depois 1 ao dia0,96 mg/kg/dia; dose fixa30 por mês

Aprofundamento documental — leitura complementar. Sinal invertido no Rankin que decide a data da cirurgia, na diretriz da SBACV. A Recomendação 4.1.1.1 manda operar o mais cedo possível quem tem déficit recente 'classificação eRm ≥ 2' e infarto menor que 4 cm³; a 4.1.1.2 descreve o mesmo grupo operado cedo como 'mRs 2 ou menos'; a 4.1.1.3 manda esperar a estabilização com 'mRs 3 ou mais'; e o texto que as antecede fala em Rankin 'de mais de 3'. Um paciente com Rankin 3 pertence ao grupo que se opera logo (2 ou mais) e ao que espera (3 ou mais). A leitura que fecha a 4.1.1.2 com a 4.1.1.3 — até 2 opera cedo, 3 ou mais espera — é a da Recomendação 46 da diretriz europeia, e é a deste capítulo; que o sinal da 4.1.1.1 esteja trocado é leitura desta apostila.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Braços trocados no quadro que mede o benefício da endarterectomia. O Quadro 8 da diretriz da SBACV atribui à endarterectomia 17%, 23% e 39% e ao tratamento clínico 11%, 6% e 8% na linha de comorbidades. A Tabela 19 da diretriz europeia, com os mesmos números e a mesma origem no NASCET, dá o contrário: 17%, 23% e 39% são o risco de AVC ipsilateral em dois anos no tratamento clínico, com 0 a 5, 6 e 7 ou mais comorbidades, e 11%, 6% e 8%, o risco com endarterectomia. Lido como está, o quadro brasileiro diz que operar quem tem sete comorbidades leva o AVC de 8% para 39%, quando o dado mostra queda de 39% para 8%. Na mesma tabela, a linha de doença oclusiva intracraniana, que é risco em três anos no tratamento clínico, aparece como redução de risco.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Faixa sem teto na régua de velocidades, na diretriz da SBACV. O Quadro 5 dá à estenose de 50 a 69% pico sistólico 'maior que 125 ou maior que 140' cm/s, sem o limite superior de 230 cm/s da Tabela 2 da recomendação brasileira de ultrassonografia de 2023; com isso, 300 cm/s cabe ao mesmo tempo em 50 a 59% e em 70 a 79% — a fronteira em que a indicação da cirurgia muda. O mesmo quadro põe na linha de 80 a 89% uma razão entre as sistólicas da carótida interna e da comum 'entre 4 e 5' que a tabela de 2023 não tem, sobreposta ao 'maior que 4' da linha anterior: a razão de 4,5 cabe em 70 a 79% e em 80 a 89%. Este capítulo usa a tabela de 2023.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Razão de risco lida como risco anual, e o mesmo risco com dois valores, no quadro de fatores de risco do assintomático. O Quadro 6 da diretriz da SBACV declara ter sido modificado da diretriz europeia. A progressão de dois graus de estenose, que a Tabela 8 europeia traz como razão de risco de 4,7 (intervalo de 2,3 a 9,6), virou '4,7%' na coluna de risco anual de AVC ipsilateral, um valor que por si só pesaria a favor de operar. E o item de grau de estenose, que a tabela europeia não tem, dá '1% / 5 anos' para 50 a 69%, enquanto o texto da mesma seção dá 5% em cinco anos para a estenose moderada: cinco vezes menos risco no quadro que no texto.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Benefício do assintomático com o braço trocado. Na seção de doença assintomática, a diretriz da SBACV escreve que o risco de AVC e óbito em dez anos no ACST-1 foi de 13,4% no tratamento clínico e de 7,6% nos operados; duas páginas depois, 13,3% na endarterectomia e 17,9% no tratamento clínico. A Tabela 7 da diretriz europeia fecha a conta: qualquer AVC, incluído o perioperatório, em dez anos, 13,4% com endarterectomia e 17,9% com tratamento clínico — redução absoluta de 4,5 pontos (17,9 menos 13,4) e um AVC evitado a cada 22 operações (100 dividido por 4,5). A primeira passagem põe o 13,4% no braço errado e inventa um benefício de 5,8 pontos; este capítulo usa o da tabela.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Classe invertida para o paciente da terceira divergência, na diretriz da SBACV. A Recomendação 3.4.2 dá classe I a considerar a revascularização em qualquer assintomático com estenose acima de 70%, risco cirúrgico menor que 3% e expectativa de vida acima de cinco anos; a 3.4.1 dá classe IIa ao grupo de 60 a 99% com fator de risco; e a 3.6.1, também IIa, condiciona a endarterectomia de 70 a 99% a mais de um critério de imagem. O grupo mais restrito, contido no mais amplo, recebe a classe mais fraca, e a 3.4.2 usa 'deve ser considerada', que no Quadro 1 da própria diretriz é o verbo da classe IIa. Este capítulo segue a direção da 3.4.2 e a ensina como indicação a discutir com a pessoa, e não como recomendação forte.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Rastreamento sem número mínimo de fatores, contra o limiar do próprio texto. A diretriz da SBACV escreve que o rastreamento parece justificável nos subgrupos com prevalência de estenose acima de 20% e, no mesmo parágrafo, que dois, três ou quatro fatores de risco levam a prevalência de estenose de 50% ou mais a 14%, 16% e 67%: pela régua do texto, só quem tem quatro fatores passaria do limiar. A Recomendação 3.1.2, porém, manda rastrear acima de 55 anos quem apresenta 'os seguintes fatores' de uma lista de dez, sem número mínimo, com o verbo 'deve ser recomendado' numa classe IIb. Este capítulo segue o rastreamento seletivo como possibilidade, e não como regra.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Frase que admite a leitura oposta no prazo que mais decide. A diretriz da SBACV escreve que classicamente o sintomático só seria operado após um mês e que 'um limite de pelo menos 14 dias é o mais preconizado na literatura'. Ao pé da letra, a frase manda esperar pelo menos 14 dias; o parágrafo seguinte, com recorrência de 26,1% em 14 dias, e a Recomendação 44 da diretriz europeia, que manda operar de preferência em até 14 dias, dizem o contrário, e nenhuma recomendação numerada da SBACV fixa o prazo. O Quadro 7 da mesma diretriz ainda põe o fim da segunda semana em duas classes — agudo 'até 2 semanas' e recente '2 semanas a 6 meses' —, justamente no dia que divide o benefício. Este capítulo usa a leitura europeia.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois antitrombóticos para o mesmo paciente, na mesma seção da diretriz da SBACV. Para o AIT em crescendo e o AVC em evolução, o texto manda empregar heparina associada a ácido acetilsalicílico antes da intervenção urgente; a Recomendação 4.1.1.4, logo abaixo, manda dupla antiagregação imediata. Este capítulo segue a recomendação numerada, que coincide com a Recomendação 27 da diretriz europeia sobre a dupla perioperatória iniciada depois de a imagem afastar hemorragia.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Texto contradizendo quadro na indicação do stent, na diretriz da SBACV. Na seção sobre o alto risco para endarterectomia, o texto afirma que doença pulmonar obstrutiva, oclusão da carótida contralateral e idade avançada não se sustentam como critérios, porque a cirurgia pode ser feita sob bloqueio cervical e com derivação temporária. Adiante, o Quadro 9 e a Recomendação 4.9 listam como indicações de stent o risco anestésico elevado, com doença pulmonar obstrutiva como exemplo, e a oclusão contralateral. A diretriz europeia, na Recomendação 54, deixa a oclusão contralateral e a radioterapia cervical para escolha individual entre as duas técnicas, e este capítulo segue essa formulação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois preparos para o mesmo stent, na diretriz da SBACV. Na seção de doença sintomática, o texto diz que os especialistas preferem dose de ataque de ácido acetilsalicílico de 325 a 650 mg 'ou' de clopidogrel de 150 a 300 mg antes do procedimento; na seção de técnica endovascular, as Recomendações 6.1.2 e 6.1.3 mandam ácido acetilsalicílico 'e' clopidogrel, este iniciado pelo menos três dias antes ou em dose única de 300 mg. A Recomendação 31 da diretriz europeia fica com a associação, e este capítulo também.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois limiares para tratar a mesma hipotensão, na diretriz da SBACV. A Recomendação 6.1.6 manda tratar farmacologicamente a sistólica menor que 100 mmHg depois do stent; o capítulo de complicações da mesma diretriz manda usar vasopressor para manter a sistólica acima de 90 mmHg, que é o alvo da Recomendação 94 da diretriz europeia. Entre 90 e 100 mmHg, uma regra trata e a outra não; este capítulo usa o alvo europeu. As duas diretrizes listam a dobutamina entre os vasopressores dessa hipotensão, que a própria diretriz europeia atribui à queda da resistência vascular periférica — e a dobutamina é inotrópico, não vasoconstritor.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Teto de risco com e sem infarto, na diretriz da SBACV. O texto afirma que a endarterectomia só tem benefício quando AVC, infarto e óbito somam menos de 6%; a Recomendação 4.4 põe o teto em AVC e óbito, sem o infarto. Um serviço com 4% de AVC ou óbito e 3% de infarto passa pela recomendação e reprova pelo texto. Este capítulo usa AVC ou morte, que é também a medida da diretriz europeia.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Faixa sem classe, prazo que não cabe na janela e critério no lugar errado, nos documentos federais. O protocolo de encaminhamento de 2022 e a Linha de Cuidado de 2020 mandam à cirurgia vascular a estenose sintomática 'maior ou igual a 70%' e à neurologia a assintomática 'maior que 70%': um laudo de estenose assintomática de 70% não cabe em linha nenhuma. Na Linha de Cuidado, os critérios de encaminhamento da estenose carotídea só aparecem na seção de AVC crônico, definido por sintomas estáveis há mais de 30 dias; a seção de AIT dá até 6 dias para o Doppler e até 7 dias depois da alta para o ambulatório neurovascular — 13 dias (6 mais 7) antes da consulta que encaminharia ao cirurgião, contra a endarterectomia de preferência em até 14 dias —, e nenhum dos dois documentos fala em prazo para a cirurgia.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Definição que exclui o paciente de maior risco, na Linha de Cuidado de 2020. Ela define AIT como 'episódio único' de déficit focal com recuperação completa em menos de uma hora e diz que a tomografia normal confirma o diagnóstico. Pela letra, o AIT em crescendo — vários episódios em horas ou dias, o subgrupo que as diretrizes mandam operar em até 24 horas — não é AIT. E a tomografia normal não afasta infarto: a SBACV registra sensibilidade por volta de 64% para isquemia nas primeiras seis horas. Este capítulo trata a repetição dos episódios como agravante, e não como exclusão.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O que o SUS fornece para a receita deste capítulo, pela Rename 2024, consultada por busca exata com reconferência das ausências no texto bruto. No Componente Básico: ácido acetilsalicílico 100 mg, sinvastatina 10, 20 e 40 mg e, injetáveis, protamina, norepinefrina e atropina. No Componente Especializado: atorvastatina de 10 a 80 mg e bissulfato de clopidogrel 75 mg, este no grupo 2, com o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas como documento norteador. Não constam ticagrelor, dipiridamol, pantoprazol, nitroprusseto, nitroglicerina, labetalol, esmolol e clonidina; hidralazina e metoprolol constam só em comprimido. Duas consequências: a dupla antiagregação que as diretrizes prescrevem — e que a própria Linha de Cuidado de 2020 prescreve — depende de um clopidogrel que o elenco federal vincula a outra doença, e o acesso precisa ser confirmado antes da alta; e o critério escrito para tratar a hipertensão depois da endarterectomia tem de ser montado com o que o hospital padroniza, porque os anti-hipertensivos venosos de titulação rápida não estão na Rename.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Qual régua o Brasil usa, e desde quando. Para a indicação e a técnica, a diretriz da SBACV publicada em 2024, sucessora da de 2015; para a graduação do Doppler, a recomendação conjunta de ultrassonografia vascular de 2023, que atualiza a de 2015; para o caminho no SUS, o protocolo federal de encaminhamento de 2022 e a Linha de Cuidado de 2020. O protocolo federal do AVC isquêmico agudo, de 2023, é de fase aguda e não trata de estenose carotídea, endarterectomia nem dupla antiagregação. Nenhum desses documentos brasileiros fixa em recomendação o prazo entre o sintoma e a cirurgia; o de 14 dias, neste capítulo, vem da diretriz europeia de 2023, com classe I e nível A.

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A conduta, hora a hora

A conduta acompanha Sabino Maia, 72 anos, 78 quilos, hipertenso e ex-tabagista, com AIT do hemisfério esquerdo há quatro dias e Doppler particular mostrando estenose de 70 a 79% na carótida interna esquerda. Ele chegou ao ambulatório "só para mostrar o exame". Os marcos vão do minuto em que você lê a data do sintoma até o primeiro retorno depois da cirurgia.

Antes do primeiro marco, duas coisas. Uma: o relógio que manda neste paciente é o do sintoma, e não o da agenda cirúrgica — a diretriz europeia recomenda operar o mais cedo possível, de preferência em até 14 dias, e cada semana perdida aumenta o número de operações necessárias para evitar um AVC. Outra: nenhuma prescrição daqui substitui a endarterectomia, e a endarterectomia não substitui nenhuma prescrição daqui.

Os marcos não usam a mesma unidade de tempo: começam em minutos e horas de um único atendimento, passam aos dias que antecedem a cirurgia e às horas que a seguem, e terminam nos anos em que as duas carótidas continuam vigiadas.

  1. Minuto 0 — a data do sintoma, antes do número do laudo

    Antes de ler a porcentagem, você pergunta o que aconteceu, de que lado e quando. Sabino conta a xícara que caiu da mão direita e o nome do neto que não saiu, por uns dez minutos, há quatro dias, com recuperação completa. Você pergunta se houve outro episódio desde então — não houve — e se alguma vez perdeu a visão de um olho — nunca. A fraqueza da mão direita com afasia é do hemisfério esquerdo e combina com a carótida interna esquerda do laudo: a estenose é sintomática, no quarto dia. O exame neurológico de agora é normal, e a pressão é de 168 por 94 mmHg. A decisão deste minuto é de caminho: Sabino não volta para casa com uma guia de encaminhamento, porque a fila ambulatorial consumiria as duas semanas em que a cirurgia rende mais, e o protocolo federal não fixa prazo para ela.

    Prescrição
    • Registrar data, hora e duração do episódio, os déficits — fraqueza da mão direita e dificuldade para nomear, por cerca de 10 minutos, há quatro dias — e a recuperação completa
    • Registrar a ausência de novos episódios e de amaurose fugaz, e o exame neurológico da chegada com a escala do NIH
    • Registrar a classificação: estenose sintomática da carótida interna esquerda, 70 a 79% pelo Doppler, quarto dia do sintoma
    • Acionar neurologia/equipe de AVC e cirurgia vascular no mesmo dia; definir internação ou percurso urgente efetivo. Se houver déficit novo ou persistente, tratar como emergência neurológica, sem aguardar consulta vascular eletiva.
  2. Hora 1 — o encéfalo, o ritmo e o segundo exame

    A tomografia da unidade de pronto atendimento foi normal, mas tomografia normal não mede infarto pequeno; se o hospital tem ressonância com difusão, ela entra para medir o volume, porque é ele que autoriza operar cedo. O eletrocardiograma mostra ritmo sinusal, e a monitorização segue durante a internação: fibrilação atrial mudaria a pergunta para revascularizar ou anticoagular. O Doppler descreve pico sistólico de 260 cm/s, compatível com 70% ou mais pela régua brasileira, mas a decisão de operar pede um segundo exame concordante. A angiotomografia do arco aórtico às artérias intracranianas confirma o grau pelo método NASCET, afasta a suboclusão e mostra a altura da bifurcação.

    Prescrição
    • Imagem cerebral urgente conforme equipe de AVC. RM com difusão pode esclarecer lesões pequenas e extensão; TC também identifica infarto extenso e hemorragia. Ausência de RM não significa ausência total de avaliação do encéfalo nem justifica adiar o percurso urgente.
    • Angiotomografia do arco aórtico às artérias intracranianas
    • Eletrocardiograma de 12 derivações e monitorização do ritmo durante a internação
    • Hemograma, creatinina, glicemia, sódio, potássio e perfil lipídico
  3. Hora 2 — a receita do dia zero

    Sabino toma ácido acetilsalicílico desde a unidade de pronto atendimento, e ele não será suspenso para a cirurgia: a diretriz europeia recomenda antiagregação durante o perioperatório e no longo prazo, com classe I. Se o serviço tem protocolo de dupla antiagregação perioperatória — a mesma diretriz recomenda que neurologia e cirurgia vascular o combinem localmente, para não atrasar a cirurgia —, o clopidogrel entra depois de a imagem afastar hemorragia; se não tem, fica o ácido acetilsalicílico. A estatina começa antes da operação, pelas duas diretrizes; a dose e a meta são do capítulo de dislipidemias, e no elenco federal a sinvastatina está no Componente Básico e a atorvastatina, no Especializado. A pressão de 168 por 94 mmHg não se derruba: com a estenose ainda no lugar, a diretriz europeia pede cautela ao baixar a pressão rapidamente logo depois do sintoma, e tratamento quando ela passa de 180 por 90 mmHg.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 100 mg, 1 comprimido por via oral uma vez ao dia, mantido até a cirurgia e depois dela
    • Clopidogrel apenas se o protocolo perioperatório do serviço o prevê, iniciado depois de a imagem afastar hemorragia
    • Estatina iniciada hoje e mantida por tempo indefinido, com dose e meta pelo capítulo Dislipidemias e prevenção cardiovascular / risco global
    • Individualizar controle de pressão com neurologia e vascular, evitando queda abrupta que comprometa perfusão. O limiar citado em diretriz perioperatória não é regra universal para AVC agudo, trombólise, trombectomia ou emergência hipertensiva.
  4. Dia 1 — a decisão em equipe e o consentimento

    A angiotomografia confirma estenose de 75% pelo método NASCET, sem suboclusão, com a bifurcação na altura habitual e sem pescoço hostil. A equipe de cirurgia vascular e neurologia decide pela endarterectomia: estenose sintomática de 70 a 99%, dentro dos 14 dias, em homem de 72 anos, idade em que a diretriz europeia recomenda endarterectomia, e não stent. No consentimento, você ajuda a traduzir os números. O benefício: na análise conjunta dos ensaios, operar nas duas primeiras semanas evitou um AVC a cada cinco operações em cinco anos. Os riscos: o de AVC ou morte em 30 dias do próprio serviço, que precisa estar abaixo de 6%; a lesão de nervo craniano, em torno de 5% e quase sempre transitória; o hematoma cervical que exige reoperação, em torno de 2%; e a síndrome de hiperperfusão, em torno de 1%. Os números dos ensaios históricos descrevem populações e contextos específicos; não são benefício individual garantido nem devem ser transportados para estenose assintomática. A recomendação para Sabino depende da concordância entre sintomas, anatomia, imagem cerebral e risco do procedimento.

    Prescrição
    • Registrar a decisão da equipe: endarterectomia da carótida interna esquerda, com data dentro dos 14 dias do sintoma
    • Registrar no consentimento a taxa de AVC ou morte em 30 dias do serviço e as complicações específicas: lesão de nervo craniano, hematoma cervical e síndrome de hiperperfusão
    • Registrar voz, deglutição, mobilidade da língua e simetria da boca antes da cirurgia, para comparação
    • Estratificar o risco cardiovascular pelo capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, sem adiar a data por exame que não mude a conduta
  5. Dia 3 — a endarterectomia

    A escolha da anestesia, geral ou locorregional, é da equipe cirúrgica e anestésica, pelas duas diretrizes, e o uso de derivação durante o pinçamento fica a critério do cirurgião. O fechamento é com remendo ou pela técnica de eversão, e não com sutura primária, com classe I nas duas diretrizes; a heparina é revertida com protamina antes do fechamento, que a SBACV recomenda de rotina e a diretriz europeia manda considerar. O que cabe ao interno está na saída da sala: o paciente deve acordar antes de deixar o centro cirúrgico, e déficit neurológico ao fim da operação se corrige ali. Se a cirurgia foi sob anestesia locorregional e o déficit apareceu quando o fluxo foi liberado, a reexploração é imediata.

    Prescrição
    • Conferir, na passagem da sala para a recuperação, o exame neurológico ao despertar registrado pelo cirurgião
    • Conferir o alvo de pressão arterial escrito pela equipe para as primeiras 24 horas
  6. Horas 0 a 6 depois — pressão, pescoço e voz

    As primeiras horas concentram três riscos, e cada um tem um sinal que se vigia à beira do leito. A pressão oscila: a exposição dos barorreceptores ao pulso pode trazer bradicardia e hipotensão, e a hipertensão não tratada precede a maior parte dos hematomas e da hiperperfusão. O pescoço pode crescer: a maioria dos hematomas aparece nas primeiras seis horas, e o hematoma que cresce ameaça a via aérea antes de ameaçar a ferida. E o cérebro pode dar sinal: déficit novo depois de despertar normal pede eco-Doppler à beira do leito — carótida ocluída volta à sala; carótida pérvia vai à angiotomografia, que separa trombose distal, embolia, edema, hiperperfusão e hemorragia. Sabino passa essas horas com sistólica entre 130 e 150 mmHg, voz normal e pescoço sem aumento de volume.

    Prescrição
    • Pressão intra-arterial e exame neurológico contínuos por 3 a 6 horas na recuperação; depois, pressão e exame neurológico de hora em hora até completar 24 horas
    • Hipotensão: cristaloide primeiro; sem resposta, vasopressor titulado para manter a sistólica acima de 90 mmHg
    • Hipertensão: tratar pelo critério escrito da equipe, sem deixar a sistólica sustentada acima do alvo
    • Pescoço inspecionado a cada avaliação; hematoma crescente, estridor ou dificuldade para engolir: cirurgião imediatamente
    • Déficit neurológico novo: acionar imediatamente cirurgião e equipe de AVC; organizar avaliação vascular e imagem cerebral/angiográfica urgente. Não aguardar Doppler indisponível antes de avançar na investigação e no tratamento.
  7. Dia 1 depois — a cefaleia que não é enxaqueca, e a alta

    Na manhã seguinte você procura o que a noite pode ter escondido. Sabino não tem cefaleia, confusão ou convulsão; a voz está normal, a língua sai na linha média e a boca está simétrica. A síndrome de hiperperfusão começa em média 12 horas depois e pode aparecer até quatro semanas após, e por isso a orientação de alta fala dela: dor de cabeça forte e diferente, confusão ou convulsão levam de volta ao hospital no mesmo dia, e o tratamento começa por baixar a pressão, não por analgésico. Na receita, o ácido acetilsalicílico segue por tempo indefinido e a dupla antiagregação de longo prazo não entra: a diretriz europeia a contraindica depois da endarterectomia, com classe III, salvo indicação cardíaca ou vascular. Se o protocolo perioperatório usou clopidogrel, a receita diz o dia de parar.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 100 mg ao dia, por tempo indefinido
    • Se houve clopidogrel perioperatório: data de suspensão escrita na receita
    • Estatina mantida; pressão arterial pelas metas do capítulo Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA
    • Orientação escrita: voltar no mesmo dia se houver dor de cabeça forte, convulsão, confusão, fraqueza, alteração da fala ou inchaço no pescoço
  8. Semana 4 em diante — a outra carótida, a reestenose e a pressão de todo dia

    No retorno de quatro semanas, a cirurgia vascular examina a ferida, a voz, a língua e a pressão arterial. A diretriz europeia não recomenda vigilância por Doppler de rotina em todos os operados; considera razoável vigiar até dois anos os grupos com mais reestenose — diabetes, doença renal crônica, mulheres e fumantes — e vigiar a carótida do outro lado quando ela tem estenose acima de 50%. Qualquer novo sintoma do território operado leva a Doppler no mesmo dia, porque a reestenose de 50 a 99% com sintoma é indicação de nova intervenção pelas duas diretrizes. E o risco maior que Sabino carrega agora não é o da carótida operada: é o cardiovascular inteiro, que se trata na atenção primária com pressão, lipídios, glicemia e a decisão de não voltar a fumar.

    Prescrição
    • Retorno em quatro semanas com a cirurgia vascular: ferida, voz, língua, simetria da boca e pressão arterial
    • Doppler da carótida do outro lado, se houver estenose acima de 50%, para vigilância
    • Novo sintoma focal ou retiniano: emergência neurológica no mesmo momento, com comunicação vascular e imagem apropriada; não limitar a resposta a agendar Doppler.
    • Contrarreferência à atenção primária com o diagnóstico, a data da cirurgia e a receita completa
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Como saber se está funcionando

Na estenose carotídea, reavaliar é vigiar três coisas em três tempos: o cérebro, a pressão e o pescoço nas primeiras horas; a pressão e a cefaleia nas primeiras semanas; e a carótida — a operada e a outra — nos anos seguintes. Cada parâmetro abaixo tem um valor esperado e uma conduta para quando ele falha.

Antes da cirurgia, a reavaliação tem outra função: descobrir o paciente que mudou de categoria. O AIT que se repete vira crescendo e muda a data para 24 horas; o déficit que piora vira AVC em evolução; a fibrilação atrial que aparece no monitor muda a pergunta para anticoagular ou revascularizar.

Exame neurológicoNa chegada, a cada avaliação até a cirurgia, ao despertar da anestesia, de hora em hora nas primeiras 24 horas e a cada 4 a 6 horas até a alta

Esperado: Igual ao da chegada, sem episódio novo antes da cirurgia e sem déficit novo depois dela.

Se não melhora: Antes da cirurgia, episódio repetido ou déficit que oscila muda a indicação para cirurgia em até 24 horas. Depois dela, déficit ao fim da operação se corrige antes de sair da sala; déficit depois de despertar normal pede eco-Doppler à beira do leito — carótida ocluída volta à sala, carótida pérvia vai à angiotomografia.

Pressão arterial antes da cirurgiaA cada aferição da internação, até a endarterectomia

Esperado: Abaixo de 180 por 90 mmHg, sem quedas bruscas provocadas por prescrição.

Se não melhora: Acima de 180 por 90 mmHg, trate sem derrubar a pressão: a diretriz europeia pede cautela ao reduzi-la rapidamente logo depois do sintoma, com a estenose ainda no lugar. Queda brusca depois de anti-hipertensivo novo pede revisão da prescrição e da hidratação.

Pressão arterial depois do procedimentoContínua por 3 a 6 horas na recuperação, de hora em hora até 24 horas e por 24 horas no stent que teve instabilidade

Esperado: Dentro do alvo escrito pela equipe, com sistólica acima de 90 mmHg e sem hipertensão sustentada.

Se não melhora: Hipotensão: cristaloide e, sem resposta, vasopressor titulado para sistólica acima de 90 mmHg. Hipertensão: tratar pelo critério escrito, porque ela se associa a AVC, hematoma, hiperperfusão e hemorragia intracraniana depois da endarterectomia e do stent.

PescoçoA cada avaliação nas primeiras 6 horas e depois a cada troca de plantão até a alta

Esperado: Sem aumento de volume, sem desvio da traqueia, com voz e deglutição preservadas.

Se não melhora: O hematoma que cresce ameaça a via aérea antes de ameaçar a ferida: chame o cirurgião para reexploração imediata. A maioria surge nas primeiras seis horas, depois de hipertensão não tratada, e a reexploração por hematoma se associou a mais AVC, infarto e morte no hospital.

Nervos cranianosNo primeiro dia depois da cirurgia e em cada retorno até a resolução

Esperado: Voz igual à de antes da cirurgia, língua na linha média ao ser exteriorizada, boca simétrica e deglutição sem engasgo.

Se não melhora: Rouquidão sugere lesão do laríngeo recorrente; desvio da língua, do hipoglosso; desvio da comissura labial, do ramo marginal da mandíbula. A maioria regride em semanas a meses, mas a SBACV contraindica a endarterectomia do outro lado enquanto houver lesão permanente do laríngeo recorrente.

Cefaleia, confusão e convulsãoNas primeiras 24 horas e, pela orientação de alta, até quatro semanas depois

Esperado: Ausentes.

Se não melhora: Pense em síndrome de hiperperfusão, que começa em média 12 horas depois e pode surgir até quatro semanas após: meça a pressão e reduza-a com urgência, controle a convulsão e peça imagem do encéfalo. Analgésico sozinho não trata, e a hemorragia intracraniana, que é o desfecho da síndrome sem tratamento, mata mais da metade dos que a têm, pela SBACV.

Antiagregação e sangramentoNa alta, no retorno de quatro semanas e em cada consulta

Esperado: Ácido acetilsalicílico diário tomado; dupla antiagregação só com data de término escrita e com o clopidogrel efetivamente obtido.

Se não melhora: Dupla antiagregação sem data é encerrada no prazo do esquema que a indicou. Paciente sem acesso ao clopidogrel precisa de plano antes de a receita acabar. Sangramento digestivo sob antiagregante pede proteção gástrica: com clopidogrel, as diretrizes preferem o pantoprazol, que não está na Rename 2024; o omeprazol, que está, é o de interação discutida.

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Onde o erro machuca

Dar alta ao AIT com um pedido de Doppler eletivo

O dano: O AVC depois de um AIT com estenose de 50 a 99% acontece em 11 a 25% dos pacientes em 14 dias, e o benefício da cirurgia cai de um AVC evitado a cada cinco operações nas duas primeiras semanas para um a cada 18 entre a quarta e a décima segunda, e um a cada 125 depois disso. A rota ambulatorial — até seis dias para o exame, até sete para o ambulatório neurovascular e depois a fila da cirurgia — consome exatamente essa janela.

Como pegar a tempo: No AIT de território carotídeo, Doppler, imagem do encéfalo e eletrocardiograma saem durante a internação, e a cirurgia vascular é chamada antes da alta. Se o paciente chegou com o laudo pronto, como Sabino, a pergunta é a data do sintoma, e não a data da próxima vaga.

Chamar síncope, tontura ou cefaleia de sintoma carotídeo

O dano: O paciente com estenose assintomática passa a ser tratado como sintomático e é exposto a uma cirurgia avaliada contra o teto de risco do sintomático, de 6%, quando o dele deveria ser 3% e quando não há evidência de benefício de intervenção para sintoma não hemisférico. E a causa real da síncope — frequentemente cardíaca — fica sem investigação enquanto se discute a carótida.

Como pegar a tempo: Pergunte pelo sintoma focal do território da carótida estenosada: déficit motor ou sensitivo, afasia, defeito de campo visual, amaurose fugaz. Síncope se investiga pelo capítulo Síncope: estratificação de risco e quem interna, e a estenose achada no caminho é assintomática.

Decidir pelo número do laudo sem saber que régua o mediu

O dano: Uma redução de 60% pelo critério anatômico local corresponde a 30 a 39% pelo método NASCET, faixa em que a endarterectomia não trouxe benefício na análise conjunta dos ensaios; operar esse paciente é expô-lo ao risco cirúrgico sem nada a ganhar. No sentido oposto, a placa calcificada com sombra acústica pode subestimar a velocidade e esconder uma estenose grave.

Como pegar a tempo: Exija o grau pelo método NASCET, com as velocidades da recomendação brasileira de 2023, e confirme com um segundo exame antes de operar. Número acima de 50% pelo critério local, ou velocidade discordante da imagem, vai para angiotomografia ou angiorressonância.

Revascularizar cedo demais quem tem infarto grande ou trombólise recente — ou pôr stent em quem tem mais de 70 anos nos primeiros 14 dias

O dano: Reperfundir um infarto grande pode transformá-lo em hemorragia ou edema: na série descrita pela SBACV, 12 de 101 pacientes com infarto acima de 4 cm³ pioraram ou morreram depois da cirurgia precoce. E, na análise conjunta dos ensaios, o AVC ou morte em 30 dias depois do stent entre 70 e 74 anos foi de 12,1%, contra 6,0% depois da endarterectomia.

Como pegar a tempo: Rankin de 3 ou mais, infarto maior que um terço da cerebral média ou alteração de consciência adiam a intervenção; depois de trombólise, espera-se seis dias. A partir dos 70 anos e em qualquer idade nos primeiros 14 dias, a técnica é a endarterectomia.

Prescrever dupla antiagregação sem data para acabar

O dano: Nos ensaios de dupla antiagregação iniciada logo depois de AIT ou AVC menor, a recorrência se concentrou nos primeiros 10 a 21 dias, enquanto o sangramento continuou crescendo nos 90 dias; por isso a diretriz europeia limita a dupla a 21 dias quando não há revascularização e a contraindica no longo prazo depois de endarterectomia ou stent. A receita sem data vira dupla indefinida — e, se não diz como o paciente vai obter o clopidogrel, vira interrupção não planejada.

Como pegar a tempo: Escreva o dia de parar: 21 dias no sintomático que não será revascularizado, pelo menos quatro semanas depois do stent, e ácido acetilsalicílico isolado depois da endarterectomia, salvo protocolo perioperatório com data. Antes da alta, confirme como o clopidogrel vai chegar ao paciente.

Tratar a dor de cabeça do operado com analgésico e o pescoço inchado com curativo

O dano: A síndrome de hiperperfusão progride de edema a hemorragia intracraniana, que a SBACV registra com mortalidade acima de 50%. E o hematoma cervical ameaça a via aérea: no registro norte-americano citado pela diretriz europeia, os pacientes reexplorados por hematoma tiveram AVC em 3,7% contra 0,8%, e morte em 2,5% contra 0,2%.

Como pegar a tempo: Cefaleia forte depois da endarterectomia ou do stent é medida da pressão, redução urgente e imagem do encéfalo. Pescoço que cresce é chamada imediata do cirurgião. E a equipe precisa ter critério escrito para tratar a hipertensão pós-operatória antes que ela aconteça.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa sobre a estenose carotídea tem uma dificuldade própria: o paciente sintomático está bem e não sente pressa, e o assintomático está assustado e quer operar. As duas falas erradas mais comuns são as mesmas com sinais trocados — "como passou, podemos marcar com calma" e "com esse número, precisa operar".

As falas abaixo são para dizer, e cada uma traz o que evitar. Os números entram quando mudam uma decisão, e sempre traduzidos para pessoas.

Explicar a Sabino por que ele não vai para casa, se está ótimo

"Seu Sabino, o que aconteceu na segunda foi um aviso. Um pedaço da placa que o senhor tem na carótida do lado esquerdo do pescoço entupiu por alguns minutos um vaso do cérebro, e a mão e a fala pararam. Passou, mas a placa continua lá, e ela está mais perigosa agora do que vai estar daqui a alguns meses: é nas próximas duas semanas que acontece a maior parte dos derrames depois de um aviso assim. A cirurgia que tira essa placa protege mais quanto mais cedo é feita. Por isso eu quero que o senhor fique, termine os exames e converse com o cirurgião nesta internação."

Não diga: Evite "foi só um susto" e "como passou, podemos marcar com calma". As duas frases dão ao paciente o prazo que ele não tem.

Contar o benefício e o risco da cirurgia sem assustar e sem vender

"Vou lhe dar os números como eles são. Quando a gente opera nas duas primeiras semanas depois de um aviso como o seu, a cada cinco pessoas operadas uma deixa de ter o derrame que teria nos anos seguintes. A cirurgia também tem risco: aqui, de cada cem pessoas operadas, tantas têm derrame ou morrem no primeiro mês — e esse número precisa ser menor que seis para valer a pena. Pode haver rouquidão ou a língua um pouco torta por alguns dias ou semanas, e raramente um sangramento no pescoço que obriga a voltar à sala."

Não diga: Não diga "a cirurgia é simples" nem "sem cirurgia o senhor vai ter um derrame". Nenhuma das duas frases é verdadeira, e o consentimento obtido com uma delas não vale. Diga o número do seu serviço, e não o dos ensaios.

Dizer a Emerenciana que não há pressa, e que a cirurgia é uma decisão a conversar

"Dona Emerenciana, o exame mostrou um estreitamento importante na carótida direita, e isso é real. Como a senhora nunca teve nenhum aviso, não há urgência: com os remédios certos, o risco de derrame fica perto de um em cada cem por ano. A cirurgia pode baixar esse risco um pouco mais ao longo dos anos, mas tem o risco dela, no dia da operação. Então vamos fazer três coisas: acertar hoje os remédios da pressão, do açúcar e do colesterol; confirmar o grau com outro exame e procurar alguns sinais que aumentam o risco; e marcar uma conversa com o cirurgião vascular, em que a senhora decide com ele, conhecendo os números do serviço."

Não diga: Evite "precisa operar" e "não é nada". A primeira transforma uma decisão de ganho pequeno e risco real em obrigação; a segunda apaga um marcador de risco que precisa de tratamento. E não compare com a cirurgia da vizinha: se ela teve sintoma, era outra doença, com outro relógio.

Ensinar os sinais de alarme ao paciente e à família

"Se voltar a fraqueza, a dificuldade de falar, a boca torta ou a cortina no olho, mesmo que passe em minutos, não esperem passar e não esperem a consulta: liguem 192 ou venham ao pronto-socorro na hora, e digam que ele tem uma estenose de carótida esperando cirurgia. Um aviso novo pode mudar a data da operação para o mesmo dia."

Não diga: Evite "se piorar, volte". Quem teve um AIT que passou sozinho tende a esperar o próximo passar também; a instrução precisa dizer que o sintoma que passa é motivo para vir, e não para ficar.

Explicar a dupla antiagregação a quem não vai ser operado

"A senhora vai tomar dois remédios que dificultam a formação de coágulos por 21 dias, e depois fica só com um. O calendário está escrito nesta receita, com o dia de parar. Não pare antes por conta própria e não continue os dois depois da data: nas primeiras semanas, os dois juntos protegem mais do que fazem sangrar; depois, o sangramento cresce e a proteção extra não. Antes de sair, vamos confirmar onde a senhora vai pegar o segundo remédio."

Não diga: Evite "tome para sempre" e "se sangrar a gengiva, pare os dois". A primeira transforma um esquema de três semanas em sangramento sem prazo; a segunda interrompe a proteção justamente no período de maior risco. Sangramento leve se conversa com o médico, sem suspensão por conta própria.

Conversar com a família sobre a dor de cabeça depois da cirurgia

"A cirurgia correu bem. Nas próximas horas e semanas, o cérebro desse lado vai receber mais sangue do que estava acostumado. Em poucas pessoas isso dá dor de cabeça forte, confusão ou convulsão, e o tratamento começa por baixar a pressão. Se ele tiver uma dor de cabeça diferente em casa, meçam a pressão se puderem e venham ao pronto-socorro no mesmo dia — não resolvam com analgésico."

Não diga: Evite "dor de cabeça depois de cirurgia é normal". Depois da endarterectomia, a dor de cabeça forte e diferente é o primeiro sinal de uma complicação que se trata com pressão, e não com remédio para dor.

Explicar a rouquidão ou a língua desviada depois da cirurgia

"A voz rouca vem de um nervo que passa colado na carótida e foi afastado durante a operação. Na maioria das pessoas isso melhora em semanas ou meses, e vamos acompanhar a cada retorno. Uma coisa fica anotada desde já: se um dia for preciso operar a carótida do outro lado, antes vamos confirmar que esse nervo voltou a funcionar."

Não diga: Evite "isso é para sempre" e também "isso não é nada". A primeira frase é falsa para a maioria; a segunda apaga uma informação que muda uma cirurgia futura.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Por quanto tempo manter a dupla antiagregação na estenose carotídea sintomática

Clopidogrel associado ao ácido acetilsalicílico, sem data para acabar — Linha de Cuidado do AVC no adulto, Ministério da Saúde, 2020

Na seção de AIT, a Linha de Cuidado manda iniciar clopidogrel 75 mg ao dia associado ao ácido acetilsalicílico nos pacientes com evidência de doença aterosclerótica carotídea. Na seção de AVC crônico, que ela define por sintomas estáveis há mais de 30 dias, repete a associação para quem tem obstrução da carótida ipsilateral maior que 50%, e também para quem teve o AVC já em uso de ácido acetilsalicílico. Nenhuma das duas passagens diz quando a associação termina, e a prescrição chega à atenção primária como uso contínuo.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC) no adulto. Brasília, 2020. ISBN 978-85-334-2859-1. Seções de AIT e de AVC crônico.

Dupla com data para acabar, e um antiagregante só no longo prazo — diretriz europeia de cirurgia vascular, 2023, e diretriz da SBACV, 2024

A diretriz europeia recomenda, depois de AIT ou AVC menor com estenose sintomática que não será revascularizada, ácido acetilsalicílico com clopidogrel por 21 dias e depois clopidogrel isolado, com classe I e nível A, porque nos ensaios a recorrência se concentrou nos primeiros 10 a 21 dias e o sangramento continuou crescendo até 90. Na endarterectomia, a dupla perioperatória deve ser considerada, por protocolo local; depois do stent, dura pelo menos quatro semanas; e a dupla de longo prazo depois de endarterectomia ou stent não é recomendada, com classe III e nível A, salvo indicação cardíaca ou vascular. A diretriz da SBACV prescreve a dupla imediata no AIT em crescendo, deixa o acréscimo perioperatório à equipe cirúrgica, limita a dupla do stent a pelo menos quatro semanas, com um antiagregante por tempo indefinido depois, e registra que não há benefício da dupla no assintomático.

Naylor R et al. ESVS 2023 Clinical Practice Guidelines on the Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2023;65(1):7-111, recomendações 23, 27, 31 e 32; von Buettner Ristow A et al. Diretrizes da SBACV para o tratamento da doença cerebrovascular extracraniana. J Vasc Bras. 2024;23:e20230094, recomendações 4.1.1.4, 4.8 e 6.1.4.

Como decidir

Esta apostila adota a dupla antiagregação com data para acabar, escrita na receita: 21 dias no sintomático que não será revascularizado, seguidos de um antiagregante; o período perioperatório pelo protocolo do serviço, com data de suspensão; pelo menos quatro semanas depois do stent; e um antiagregante por tempo indefinido depois de qualquer revascularização. Antes de desempatar, a pergunta da cronologia resolve metade: nos primeiros dias depois do sintoma, os três documentos usam a dupla, e não há conflito. O conflito é a duração. A régua decide no segundo degrau. Pelo escopo há empate, porque a Linha de Cuidado tem uma linha escrita exatamente para o paciente com aterosclerose carotídea; pela data, a diretriz europeia, de 2023, e a da SBACV, de 2024, vêm depois da Linha, de 2020, e as duas limitam a dupla. O lado perdedor fica no texto porque a receita sem data vai chegar à enfermaria e ao ambulatório: quem a encontra não a renova por inércia, escreve a data de término e confirma como o paciente obtém o clopidogrel, que a Rename 2024 põe no Componente Especializado vinculado ao protocolo de síndromes coronarianas agudas.

Estenose sintomática de 50 a 69%: encaminhar à neurologia ou avaliar para endarterectomia

Neurologia, e cirurgia vascular ou neurocirurgia só a partir de 70% — protocolos federais de encaminhamento, 2022, e Linha de Cuidado do AVC, 2020

O volume de neurologia dos protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada manda à neurologia o AVC isquêmico ou AIT com obstrução ipsilateral entre 50 e 69%, e à cirurgia vascular ou à neurocirurgia só a estenose sintomática de 70% ou mais que não foi operada no diagnóstico. A Linha de Cuidado repete os critérios na seção de AVC crônico. Nenhum dos dois documentos fixa prazo para a consulta. O mesmo protocolo manda a suspeita de AVC ou AIT agudo ao serviço de urgência e emergência.

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neurologia adulto. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 16. Brasília, 2022, Protocolo 6; Brasil. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do AVC no adulto. Brasília, 2020.

Endarterectomia para a estenose sintomática acima de 50%, com risco do serviço abaixo de 6% — diretriz da SBACV, 2024, e diretriz europeia, 2023

A diretriz da SBACV recomenda endarterectomia ipsilateral na estenose acima de 50% com sintomas nos seis meses precedentes, desde que o risco perioperatório de AVC ou óbito seja menor que 6%, com classe I e nível A, e pede que a decisão seja individualizada pela redução de risco esperada. A diretriz europeia recomenda considerar a endarterectomia na estenose de 50 a 69% com o mesmo teto, com classe IIa e nível A, e fazê-la de preferência em até 14 dias do sintoma. Na análise conjunta dos ensaios que ela reproduz, a cirurgia reduziu o AVC em cinco anos em 7,8 pontos percentuais nessa faixa: um AVC evitado a cada 13 operações.

von Buettner Ristow A et al. Diretrizes da SBACV para o tratamento da doença cerebrovascular extracraniana. J Vasc Bras. 2024;23:e20230094, recomendações 4.4 e 4.5; Naylor R et al. ESVS 2023. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2023;65(1):7-111, recomendações 41 e 44 e Tabela 18.

Como decidir

Esta apostila adota a avaliação para endarterectomia: a estenose sintomática de 50 a 69% nos seis meses anteriores é discutida com a cirurgia vascular, junto com a neurologia, e dentro das duas primeiras semanas pela via de urgência. A cronologia resolve o paciente recente: o próprio protocolo federal manda o AIT agudo à urgência, e ali os documentos convergem. O conflito sobra para quem está entre duas semanas e seis meses do sintoma e chega à atenção primária com o laudo. Pelo escopo há empate — os dois documentos têm uma linha escrita para esse paciente —, e a data decide: a diretriz da SBACV, de 2024, é posterior ao protocolo de 2022. Na prática, o que muda para o paciente é o que acompanha a guia: o sintoma, a data de cada episódio, a palavra sintomática e os dados que mudam o benefício. Nas análises dos ensaios, operar evitou um AVC a cada 36 operações nas mulheres e a cada 9 nos homens, a cada 20 no sintoma ocular e a cada 7 no AIT hemisférico, a cada 5 nas duas primeiras semanas e a cada 18 entre a quarta e a décima segunda. O lado perdedor fica no texto porque é o critério que a central de regulação usa: a guia para a neurologia continua existindo, e quem a escreve precisa saber que, nessa faixa, ela não pode ser o fim do caminho.

Estenose assintomática de 70 a 99% sem marcador de risco: considerar a revascularização ou só o tratamento clínico

Intervenção só com pelo menos um marcador de risco de AVC no tratamento clínico — diretriz europeia de cirurgia vascular, 2023

A diretriz europeia recomenda considerar a endarterectomia na estenose assintomática de 60 a 99% em pacientes de risco cirúrgico habitual somente na presença de uma ou mais características clínicas ou de imagem associadas a mais AVC tardio — infarto silencioso, progressão, placa ecolucente, hemorragia intraplaca, reserva vascular reduzida, microembolia, evento do outro lado —, com AVC ou morte em 30 dias de até 3% e expectativa de vida acima de cinco anos, com classe IIa e nível B. O argumento é a queda do risco no tratamento clínico, para cerca de 1 AVC por 100 pessoas-ano, e a seleção por marcadores, presentes numa minoria. O comitê votou por 11 a 3 não incluir a estenose de 80 a 99% entre os marcadores, à espera do CREST-2.

Naylor R et al. ESVS 2023 Clinical Practice Guidelines on the Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2023;65(1):7-111, recomendação 19, seções 3.5 e 3.6 e Tabela 8.

Considerar a revascularização acima de 70% com risco cirúrgico abaixo de 3% e expectativa de vida acima de cinco anos — diretriz da SBACV, 2024

A diretriz da SBACV recomenda considerar a revascularização carotídea no assintomático com estenose acima de 70%, risco cirúrgico menor que 3% e expectativa de vida maior que cinco anos, levando em conta as necessidades e as preferências de cada paciente, com classe I e nível B; estende a indicação à faixa de 60 a 99% quando há um ou mais fatores de elevação de risco, com classe IIa; e põe a endarterectomia como procedimento de escolha. Apoia-se nos ensaios que mostraram benefício da endarterectomia sobre o tratamento clínico e nos estudos de história natural citados por ela, com AVC ipsilateral de 15% em cinco anos entre 70 e 89% e de 20% entre 90 e 99%, contra 5% entre 60 e 69%, e escreve que não é prudente menosprezar o grau em favor de marcadores parcialmente validados.

von Buettner Ristow A et al. Diretrizes da SBACV para o tratamento da doença cerebrovascular extracraniana. J Vasc Bras. 2024;23:e20230094, recomendações 3.4.1, 3.4.2 e 3.5.1.

Como decidir

Esta apostila adota a posição da SBACV: na estenose assintomática de 70 a 99%, confirmada por um segundo exame, com risco de AVC ou morte do serviço abaixo de 3% e expectativa de vida acima de cinco anos, a revascularização é discutida com a cirurgia vascular e decidida com a pessoa, mesmo sem marcador; entre 60 e 69%, só com marcador. Pelo escopo há empate, porque as duas diretrizes foram escritas para esse paciente, e o protocolo federal só o encaminha à neurologia, sem decidir a indicação. A data decide: a diretriz da SBACV foi publicada em 2024, discute expressamente a europeia de 2023 e manteve a indicação acima de 70%. O lado perdedor fica no texto, e com função: os marcadores são o que separa quem ganha mais com a cirurgia, e por isso continuam sendo procurados — infarto silencioso na tomografia, progressão entre dois Doppler, placa ecolucente, evento do outro lado. O ganho é pequeno e distante, e é isso que a pessoa precisa ouvir: no ensaio ACST-1, dez anos depois, qualquer AVC ocorreu em 13,4% dos operados e em 17,9% dos tratados clinicamente — um evitado a cada 22 operações. Sem número auditado do serviço, com risco acima de 3% ou com expectativa de vida curta, a indicação não existe em nenhum dos dois documentos. A incoerência de classes das recomendações da SBACV sobre esse mesmo paciente está nas notas de auditoria; ela muda a força da indicação, não a direção.

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O raciocínio, em voz alta

Osmarina Moraes, 66 anos, 64 quilos, costureira, hipertensa e fumante de meio maço por dia há quarenta anos. Chega ao ambulatório do hospital numa terça-feira, trazida pela nora, com a guia de encaminhamento à neurologia que a unidade básica emitiu e a previsão de quatro meses da central de regulação. No domingo e na terça-feira da semana anterior — há nove e há sete dias — sentiu uma cortina descer sobre a visão do olho direito, de cima para baixo, por cerca de dois minutos, sem dor, e depois subir. Nega fraqueza, dormência, alteração da fala, cefaleia, dor ao mastigar, dor no couro cabeludo e emagrecimento. Usa losartana e nenhum antiagregante. O exame neurológico e a acuidade visual estão normais; a pressão é de 152 por 88 mmHg e o pulso é regular. O Doppler de carótidas, feito há cinco dias, descreve placa heterogênea no bulbo direito, com pico sistólico de 180 cm/s na carótida interna e razão de 2,6 com a carótida comum, estenose de 50 a 59%, e carótida esquerda sem estenose.

  1. o que eu pergunto antes de olhar o número

    Pergunto o que ela viu, de que olho, quanto durou e quando aconteceu, e anoto as duas datas. Uma perda indolor e transitória da visão de um olho, de etiologia vascular, é amaurose fugaz, e a diretriz da SBACV a inclui entre os eventos isquêmicos que tornam a estenose sintomática. O lado confere: olho direito, carótida direita. Pergunto também o que tiraria a carótida da história — cefaleia nova, claudicação de mandíbula, dor no couro cabeludo, sintomas constitucionais —, porque acima dos 50 anos essa companhia aponta para arterite de células gigantes. Não há. Escrevo: estenose sintomática da carótida interna direita, amaurose fugaz em dois episódios, sétimo dia do último.

  2. por que ela não volta para a fila

    A guia está certa na letra: pelo protocolo federal de encaminhamento, estenose sintomática de 50 a 69% vai à neurologia. Mas quatro meses consomem as semanas em que a cirurgia rende mais — na análise conjunta dos ensaios, um AVC evitado a cada cinco operações nas duas primeiras semanas e a cada 125 depois de doze. O mesmo protocolo manda o AIT agudo à urgência, e é essa a via que uso: discuto com a cirurgia vascular e a neurologia do hospital no mesmo dia, e a divergência deste capítulo explica por que a faixa de 50 a 69% é avaliada para endarterectomia. O prazo que escrevo no prontuário é o 14º dia depois do último episódio: daqui a uma semana.

  3. o que o número do Doppler vale

    Pico sistólico de 180 cm/s com razão de 2,6 fica, na tabela da recomendação brasileira de 2023, na faixa de 50 a 59% pelo método NASCET. É justamente a faixa em que o Doppler acerta menos — numa série citada pela mesma recomendação, a sensibilidade foi de 35% entre 50 e 69%, contra 81% acima de 70% —, e nenhuma decisão de cirurgia se toma sobre ele sozinho: a diretriz europeia pede, com classe I, confirmação por angiotomografia, angiorressonância ou segundo Doppler por outro examinador. Peço angiotomografia do arco aórtico às artérias intracranianas nesta semana, e não arteriografia, que fica para exames que discordem.

  4. o encéfalo, o ritmo e a receita de hoje

    Peço tomografia de crânio — ressonância com difusão, se conseguir nesta semana —, eletrocardiograma e hemograma, creatinina, glicemia e perfil lipídico; fibrilação atrial mudaria a pergunta para anticoagular ou revascularizar. Ela não usa antiagregante, e começo hoje: ácido acetilsalicílico, porque é candidata à cirurgia e o antiagregante segue no perioperatório; se o serviço tiver protocolo de dupla perioperatória, o clopidogrel entra por ele, depois de a imagem afastar hemorragia. A estatina começa hoje, com a meta do capítulo de dislipidemias. A pressão de 152 por 88 mmHg fica como está: com a estenose no lugar, não se reduz rapidamente, e só se trata acima de 180 por 90. E digo, com todas as letras, que o cigarro precisa parar agora.

  5. o que o segundo exame mostra

    A angiotomografia, no nono dia depois do último episódio, mostra estenose de 65% pelo método NASCET na carótida interna direita, com superfície irregular, sem suboclusão, com a bifurcação na altura habitual e sem estenose significativa do outro lado. Os dois exames concordam na faixa de 50 a 69%. A tomografia de crânio é normal e o eletrocardiograma está em ritmo sinusal. A pergunta agora não é mais o que ela tem: é quanto a cirurgia vale para ela.

  6. a conta que a equipe faz

    A indicação existe nas duas diretrizes: endarterectomia recomendada acima de 50% pela SBACV e a ser considerada entre 50 e 69% pela europeia, com risco do serviço abaixo de 6%. O benefício é que varia, e levo os modificadores escritos para a discussão, com os números de redução absoluta do AVC ipsilateral em cinco anos das análises dos ensaios. Pesam contra: mulher, com um AVC evitado a cada 36 operações; sintoma ocular, a cada 20. Pesam a favor: operar nas duas primeiras semanas, a cada 5; placa irregular, a cada 6. A idade, entre 65 e 75 anos, fica no meio, a cada 12. O serviço informa AVC ou morte em 30 dias de 2,1% nas endarterectomias sintomáticas do último ano. A equipe oferece a endarterectomia, e se ela aceitar, a data é o 12º dia; como está dentro das duas primeiras semanas, a técnica é a endarterectomia, e não o stent, pela diretriz europeia.

  7. a conversa e a decisão

    Explico a Osmarina e à nora, com os números traduzidos: a cortina foi um aviso de que a placa solta pedaços; a cirurgia retira a placa; operar agora evita um derrame em algumas de cada cem mulheres como ela nos próximos anos, e o próprio serviço tem cerca de dois casos de derrame ou morte a cada cem operações. Digo que não operar também é uma escolha possível, com remédios e acompanhamento de perto, e que nova cortina ou fraqueza muda tudo no mesmo dia. Ela escolhe operar. Registro no consentimento a taxa do serviço, a lesão de nervo craniano, o hematoma cervical e a síndrome de hiperperfusão, e anoto a voz, a língua e a simetria da boca antes da cirurgia.

  8. o que fica escrito para depois

    A endarterectomia é feita no 12º dia, com remendo, e as primeiras 24 horas passam sem hipotensão, sem hematoma e sem cefaleia. Na alta, a receita traz ácido acetilsalicílico por tempo indefinido, a estatina e a data de suspensão do clopidogrel perioperatório, porque dupla de longo prazo depois da endarterectomia não é recomendada. A orientação escrita manda voltar no mesmo dia se houver dor de cabeça forte, convulsão, confusão, fraqueza, alteração da fala, nova cortina ou inchaço no pescoço. A contrarreferência à unidade básica diz o diagnóstico, a data da cirurgia, a receita com as datas e o que ninguém pode esquecer: o cigarro, a pressão e o colesterol são agora o tratamento principal. A guia da neurologia é cancelada, com a justificativa escrita.

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Faça você

Parmênio Zamboni, 76 anos, 81 quilos, carpinteiro aposentado, diabético e hipertenso, usa ácido acetilsalicílico 100 mg há anos por conta própria. Chega ao pronto-socorro às 19h de uma quinta-feira porque, desde a manhã da quarta, teve três episódios de fraqueza do braço esquerdo com a fala arrastada, de dez a vinte minutos cada, com recuperação completa entre eles; o último terminou às 16h. Agora o exame neurológico é normal. A pressão é de 176 por 96 mmHg, a frequência cardíaca é de 78 batimentos por minuto e a glicemia capilar é de 164 mg/dL. A tomografia de crânio é normal e o eletrocardiograma está em ritmo sinusal. O Doppler feito à beira do leito mostra placa no bulbo direito com pico sistólico de 330 cm/s na carótida interna e razão de 4,8 com a carótida comum, e carótida esquerda com estenose menor que 50%. O serviço faz endarterectomia e informa AVC ou morte em 30 dias de 2,8% nas cirurgias de urgência.

  1. que doença é esta, e por quê

    Classifique a estenose, dizendo que território explica os sintomas e o nome que as diretrizes dão a três episódios em 36 horas com recuperação completa entre eles.

  2. quanto tempo ele tem

    Diga o prazo para a revascularização, com a recomendação de cada diretriz, e o que muda em relação ao AIT de episódio único.

  3. o que falta antes da sala, sem perder o prazo

    Diga que faixa a velocidade indica pela régua brasileira e que exame confirma o grau antes da operação, e por que a arteriografia não entra.

  4. a prescrição e a pressão das próximas horas

    Diga que antitrombótico começa agora, depois de qual condição, e o que fazer com a pressão de 176 por 96 mmHg antes da cirurgia.

  5. endarterectomia ou stent

    Escolha a técnica e justifique pela idade e pelo tempo desde o sintoma, com a força das recomendações.

  6. a manhã seguinte

    Operado às 11h da sexta, Parmênio acorda sem déficit. À 1h do sábado refere dor de cabeça forte do lado direito, está confuso e a pressão é de 198 por 104 mmHg, sem aumento de volume no pescoço. Diga a principal hipótese, o primeiro exame e a primeira conduta.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Relacione o episódio de Sabino ao território carotídeo e redija uma passagem de caso que inclua tempo, neurologia atual, imagem e tratamento recebido.

  8. Questão integrativa 1

    Sabino chega hoje com afasia persistente. O primeiro passo é marcar endarterectomia em 14 dias?

  9. Questão integrativa 2

    Tontura isolada transforma uma estenose carotídea em sintomática?

  10. Questão integrativa 3

    Por que confirmar uma porcentagem antes de operar?

  11. Questão integrativa 4

    Um paciente assintomático com 75% precisa obrigatoriamente de procedimento?

  12. Questão integrativa 5

    Dupla antiagregação pode ser mantida indefinidamente por rotina após endarterectomia?

  13. Questão integrativa 6

    Cefaleia intensa, confusão e hipertensão após a cirurgia podem esperar o retorno?

Ver como fecharíamos

Passo 1. É uma estenose sintomática da carótida interna direita: fraqueza do braço esquerdo com disartria é disfunção do hemisfério direito, território dessa carótida, e os eventos aconteceram nos últimos seis meses. Três episódios em 36 horas, com recuperação completa entre eles, são um AIT em crescendo, que a diretriz da SBACV define como múltiplos AITs em curto período, sem número exato fixado. Passo 2. O prazo é de horas: a diretriz europeia recomenda considerar endarterectomia urgente, de preferência em até 24 horas, com classe IIa e nível C, e a SBACV recomenda dupla antiagregação imediata e cirurgia o mais rápido possível, de preferência antes de 24 horas, também IIa e C. No AIT de episódio único, o prazo seria o mais cedo possível, de preferência em até 14 dias. Passo 3. Pico sistólico acima de 230 cm/s com razão acima de 4,0 corresponde a 70% ou mais pela tabela da recomendação brasileira de 2023, e 330 cm/s ainda não chega aos 400 cm/s da faixa acima de 90%. Antes da endarterectomia, a diretriz europeia pede confirmação por angiotomografia, angiorressonância ou segundo Doppler por outro examinador; a angiotomografia pode confirmar anatomia e grau; o tempo real depende do serviço, e a imagem cerebral precisa seguir protocolo adequado, não ser presumida de qualquer exame de carótidas. A arteriografia fica reservada para exames que discordem, porque a própria angiografia diagnóstica causa AVC. Passo 4. Com a tomografia sem hemorragia, a equipe de neurologia e vascular combina a estratégia de antiagregação sem atrasar a intervenção. Um esquema possível, conforme esse protocolo, é dupla antiagregação: ele já usa ácido acetilsalicílico 100 mg, que continua, e recebe clopidogrel 300 mg — quatro comprimidos de 75 mg — seguido de 75 mg ao dia, lembrando que o clopidogrel está no Componente Especializado da Rename. A pressão de 176 por 96 mmHg não se reduz rapidamente com a estenose no lugar; a meta é definida pela equipe conforme perfusão cerebral, contexto agudo e procedimento previsto, sem transformar 180/90 em corte universal. Passo 5. Endarterectomia, e não stent, por duas razões com classe I e nível A na diretriz europeia: ele tem mais de 70 anos, faixa em que o AVC ou morte em 30 dias depois do stent chegou a cerca do dobro do da endarterectomia, e está dentro dos primeiros 14 dias depois do sintoma. O risco do serviço, 2,8%, está abaixo do teto de 6% do sintomático. Passo 6. Cefaleia forte do lado operado, confusão e pressão de 198 por 104 mmHg 14 horas depois da cirurgia são síndrome de hiperperfusão até prova em contrário; ela começa em média 12 horas depois. O primeiro exame é o Doppler à beira do leito, que afasta a oclusão da carótida operada — carótida ocluída volta à sala —, seguido da angiotomografia, que separa hiperperfusão, edema, hemorragia e embolia: é a sequência que a SBACV recomenda para a alteração neurológica que surge horas depois de um despertar normal. A primeira conduta não espera a imagem: reduzir a pressão com urgência, pelo critério escrito da equipe, e controlar convulsão se houver. Analgésico sozinho não trata, porque a síndrome sem controle da pressão progride para hemorragia intracraniana. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. É acionar a resposta ao AVC agudo e avaliar reperfusão cerebral. O planejamento carotídeo vem integrado ao tratamento do evento atual. 2. Não por si só. É preciso evento focal cerebral ou retiniano compatível com o território; investigar outras causas e não atribuir todo sintoma ao laudo. 3. Métodos e critérios diferentes podem produzir números não equivalentes. A decisão exige grau, anatomia e correlação clínica, com imagem concordante quando indicada. 4. Não. Todos precisam de tratamento clínico intensivo; a intervenção é discutida individualmente à luz da evidência contemporânea, risco do centro, expectativa de vida e preferências. 5. Não. A indicação e a duração devem estar explícitas, com revisão de outras indicações cardíacas ou vasculares. Sem isso, aumenta-se sangramento sem objetivo definido. 6. Não. Exigem avaliação imediata para hiperperfusão, hemorragia, isquemia e outras complicações, com controle monitorizado e imagem orientados pela equipe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Fraqueza da mão direita com afasia é sintoma do hemisfério esquerdo, território da carótida estenosada: a estenose é sintomática, no quarto dia. Na estenose sintomática de 70 a 99%, a endarterectomia é recomendada com risco do serviço abaixo de 6%, e a diretriz europeia de 2023 recomenda fazê-la o mais cedo possível, de preferência em até 14 dias, porque o benefício cai com o tempo: um AVC evitado a cada cinco operações nas duas primeiras semanas e a cada 125 depois de doze. O grau precisa ser confirmado por um segundo exame antes de operar, e a partir dos 70 anos a técnica é a endarterectomia, e não o stent. A fila ambulatorial consome justamente a janela de maior benefício.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, guarde a pergunta, o relógio e as travas. A pergunta vem antes do laudo: qual foi o sintoma, de que lado e quando — déficit focal ou amaurose fugaz do território da carótida estenosada, nos últimos seis meses, faz a estenose sintomática; síncope, tontura isolada e cefaleia, não. O relógio: no sintomático com estenose de 50 a 99%, revascularizar o mais cedo possível, de preferência em até 14 dias; no AIT em crescendo, em até 24 horas; depois de trombólise, a partir do sexto dia; com Rankin de 3 ou mais ou infarto maior que um terço da cerebral média, esperar a melhora. As travas: o Doppler do AIT sai na internação, e não numa guia; o grau vale pelo método NASCET e se confirma com um segundo exame antes de operar; a partir dos 70 anos e nos primeiros 14 dias, a técnica é a endarterectomia; a dupla antiagregação tem data para acabar; e dor de cabeça forte depois da cirurgia é pressão a baixar e imagem a fazer, não analgésico. Guarde também os números da régua brasileira: pico sistólico abaixo de 140 cm/s, menos de 50%; acima de 230 cm/s, 70% ou mais; teto de AVC ou morte de 6% no sintomático e de 3% no assintomático.

Em 30 dias

Trinta dias depois, guarde de onde vem cada régua e o que ela perdeu. A indicação e a técnica vêm da diretriz da SBACV de 2024; a graduação do Doppler, da recomendação conjunta de ultrassonografia vascular de 2023; o caminho no SUS, do protocolo federal de encaminhamento de 2022 e da Linha de Cuidado de 2020; o prazo de 14 dias, da diretriz europeia de 2023, porque nenhum documento brasileiro o fixa em recomendação. Três escolhas desta apostila, pela régua de desempate: a dupla antiagregação dura 21 dias no sintomático que não será operado, pelo menos quatro semanas depois do stent e não se prolonga depois da revascularização, contra a Linha de Cuidado sem prazo; a estenose sintomática de 50 a 69% é avaliada para endarterectomia, e não só encaminhada à neurologia; e a assintomática de 70 a 99%, com risco do serviço abaixo de 3% e expectativa de vida acima de cinco anos, tem a revascularização discutida com a cirurgia vascular mesmo sem marcador, pela diretriz da SBACV, contra a europeia, que exige marcador. Refaça de cabeça a conta do benefício pelo tempo — um AVC evitado a cada 5 operações nas duas primeiras semanas, a cada 10 entre duas e quatro, a cada 18 até a décima segunda e a cada 125 depois — e diga por que a suboclusão com colapso distal não se opera. Por fim, repita a orientação de alta de um operado, com a dor de cabeça e o pescoço; se ela não sair inteira em trinta segundos, releia a conversa.

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Agora atenda

Na estação, você recebe uma pessoa que traz um Doppler de carótidas com estenose da carótida interna e diz que está bem. Antes de comentar o número, pergunte o que aconteceu, de que lado e quando, e anote a data de cada episódio; pergunte pela cortina no olho e pelos sintomas que apontariam para arterite. Diga em voz alta se a estenose é sintomática ou assintomática e por quê. Leia o laudo procurando o método de medida e a velocidade, e diga que segundo exame pediria antes de qualquer cirurgia. Se for sintomática, diga o prazo e por que a pessoa não sai com uma guia; se for assintomática, diga o que muda a conta e que conversa marcaria. Prescreva o antiagregante com a data de término, se houver dupla, e não saia da sala sem ensinar o que fazer se o sintoma voltar.

Doença carotídea e estenose de carótida – O mesmo laudo, duas doenças — Internato | OsceLabs