Cirurgia Geral › Cirurgia Vascular
Pisar na própria ferida
Pé diabético e úlceras de membros inferiores
Avaliar neuropatia, perfusão e infecção; retirar pressão da úlcera, reconhecer urgências e participar do planejamento de preservação do membro e prevenção de recorrência.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026. Torna pública a decisão de atualizar, no âmbito do SUS, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2. Anexo: PCDT Diabete Melito Tipo 2. Relatório de Recomendação Conitec nº 1074, dezembro de 2025.
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IWGDF/IDSA 2023 — infecção do pé relacionada ao diabetes [Acessar fonte](https://www.idsociety.org/practice-guideline/diabetic-foot-infections/)
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Mulher de 79 anos, diabetes há trinta anos e doença renal crônica, apresenta necrose seca e bem delimitada da metade distal do terceiro dedo do pé direito há duas semanas, sem eritema, secreção ou odor. Dorme sentada por dor no pé. Os pulsos do pé não são palpáveis, o sinal ao Doppler é monofásico e a pressão da tibial posterior é de 42 mmHg. A equipe de enfermagem pergunta se pode desbridar a necrose hoje. Qual é a conduta adequada?
O paciente que você vai ver
Domingo, 14h10, pronto-socorro de um hospital geral de médio porte. Entre a dor abdominal e a criança com febre, três fichas trazem a mesma palavra anotada pela triagem — "pé" — e as três receberam a cor de menor prioridade, porque nenhum dos três donos daqueles pés está sentindo dor.
Isaltino Goulart tem 61 anos, 84 quilos, diabetes tipo 2 há dezenove anos, e dirigiu ônibus por trinta. Veio porque a esposa viu a meia manchada de amarelo e sentiu o cheiro. Há três semanas ele comprou um sapato social para o casamento da filha e dançou a noite inteira. Não sentiu nada, nem na festa nem depois, e continuou indo a pé à padaria todas as manhãs. A vizinha, que trabalha em farmácia, passou uma pomada de antibiótico e cobriu com esparadrapo. Embaixo da cabeça do primeiro metatarso direito há um anel grosso de calo amarelado e, no centro dele, uma ferida que sangra quando o calo é tocado. A glicemia capilar da triagem foi de 312 mg/dL. Ele está afebril e quer saber se ainda dá tempo de ver o jogo em casa.
Zulmira Ribeirinho tem 77 anos, diabetes há vinte e cinco, hipertensão e doença renal crônica. Veio trazida pelo filho porque o segundo dedo do pé esquerdo "ficou preto". O dedo está seco, duro, bem delimitado e sem cheiro. Ela conta que há dois meses dorme sentada na poltrona, com a perna pendurada, porque deitada o pé dói. A técnica de enfermagem já separou o material para "limpar a necrose".
Cacilda Galvão tem 54 anos, diabetes há quinze, e é costureira. O pé direito está vermelho, quente e inchado há dez dias, sem ferida nenhuma. Na primeira ida à unidade básica ouviu "celulite" e saiu com cefalexina; na segunda, "pode ser gota", e saiu com anti-inflamatório. Ela lembra que torceu o pé ao descer do ônibus, "mas nem doeu tanto". O pé esquerdo está normal, e a diferença de temperatura entre os dois se sente com o dorso da mão.
São três pés, três mecanismos e três urgências diferentes, e nenhum deles vai se anunciar pela dor. No primeiro, a ferida é reaberta a cada passo, e o antibiótico que ele vai receber hoje não fecha coisa nenhuma se ele continuar pisando nela. No segundo, a necrose seca é, por ora, a única proteção de um dedo sem sangue, e desbridá-la antes de alguém avaliar a circulação pode transformar a perda de um dedo na perda do pé. No terceiro não há infecção: há um pé que está se desmontando por dentro enquanto recebe o terceiro tratamento errado, e o que o protege é parar de pisar nele hoje.
Este capítulo é o dono da úlcera do pé da pessoa com diabetes, da primeira olhada até a segunda úlcera, que não pode vir. Ele ensina a classificar a ferida pela régua que o protocolo federal adotou em 2026, a graduar a infecção e decidir onde e com o que tratá-la, a tirar o peso do pé com o que o serviço tem, a reconhecer o pé de Charcot antes da deformidade, a decidir quando e em que nível amputar, e a organizar a vida depois da cicatrização — quando o pé não está curado, está em remissão.
Quem adoece disso
Comece pelo número brasileiro que mais se aproxima da unidade básica. A Pesquisa Nacional de Saúde, citada pelo Manual do Pé Diabético do Ministério da Saúde de 2016, registra ferida nos pés em 5% das pessoas com diagnóstico de diabetes há menos de dez anos e em 5,8% das que têm o diagnóstico há mais de dez; a amputação aparece em 0,7% e 2,4%, respectivamente. A conta que importa é a segunda: com o tempo de doença, a proporção de feridas sobe 16%, mas a de amputação multiplica-se por 3,4. A ferida é quase tão comum no começo quanto no fim; o que muda com os anos é a capacidade de o pé sobreviver a ela.
Quando se olha para quem já está com o pé em risco, os números mudam de escala. O estudo BRAZUPA, descrito na diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético, avaliou 1.455 pacientes em 19 centros brasileiros, com média de 57 anos: 18,6% tinham úlcera ativa, 25,3% já tinham tido úlcera e 13,7% já tinham sofrido amputação. Traduzido em pessoas, são cerca de 271 úlceras abertas, 368 cicatrizes de úlcera e 199 amputados numa única amostra. É uma população de centros especializados, e não serve como prevalência na população diabética geral; serve para mostrar que o pé em risco no Brasil é de gente em idade de trabalho.
A tendência também está registrada. Um levantamento das 27 capitais entre 2008 e 2018, citado pela mesma diretriz, contou 45.095 complicações do pé diabético e mostrou a taxa subir de 5,68 para 17,68 por 100 mil habitantes. A razão entre os dois valores é 3,1: em dez anos, a complicação registrada triplicou nas capitais.
O risco de ter a primeira úlcera aparece com três números diferentes nos documentos brasileiros, e vale saber de onde cada um vem. O Manual de 2016 fala em incidência anual de 2% e risco de 25% ao longo da vida. O capítulo de prevenção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes traz 2% ao ano e de 19% a 34% ao longo da vida. A diretriz vascular de 2023 escreve cerca de 34% ao longo da vida e 2,5% ao ano. Não são contraditórios: descrevem populações e épocas diferentes. O que o interno leva é a ordem de grandeza — entre uma em cada cinco e uma em cada três pessoas com diabetes vai ter uma úlcera no pé em algum momento.
O que acontece depois é o que justifica a pressa. A diretriz vascular associa ao aparecimento da úlcera uma mortalidade de 5% em um ano e de 42% em cinco anos, e cerca de 20% de úlceras ainda abertas um ano após o diagnóstico. Na úlcera infectada, o capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, na edição de 2026, descreve um grande estudo prospectivo em que, ao fim de um ano, 46% haviam cicatrizado, 15% haviam morrido e 17% haviam sido amputados. A soma dá 78%; se as categorias forem exclusivas, o que o texto não esclarece, os 22% restantes seguem vivos, sem amputação e com a ferida aberta.
A úlcera cicatrizada não encerra a história. O mesmo capítulo de 2026 estima recorrência em cerca de 40% no primeiro ano, 60% em três anos e 65% em cinco. É por isso que os documentos atuais chamam o pé que fechou de pé em remissão, e não de pé curado: a pergunta, depois da cicatrização, deixou de ser se a úlcera vai voltar e passou a ser quando, e o que se faz para adiar esse dia.
Por fim, a amputação. O Manual de 2016 e o protocolo federal de diabetes tipo 2 de 2026 atribuem às complicações do pé diabético de 40% a 70% das amputações não traumáticas de membro inferior, e o Manual acrescenta que 85% das amputações em pessoas com diabetes são precedidas de úlcera. Somem-se dois dados de infecção do capítulo de 2026 — de 50% a 60% das úlceras se infectam, e de 20% a 60% dessas infecções envolvem osso — e o caminho fica desenhado: de cada cem úlceras, entre dez e trinta e seis chegam ao osso. A amputação quase nunca começa na sala de cirurgia; começa numa ferida pequena que alguém mandou para casa sem tirar o peso de cima dela.
Por que acontece o que acontece
A neuropatia do diabético desliga três sistemas do pé, e cada um contribui com uma peça. O sensitivo tira o alarme: é a perda da sensibilidade protetora, o estado em que um prego no sapato, uma bolsa de água quente ou um sapato dois números menor deixam de ser percebidos. O motor enfraquece a musculatura intrínseca, os dedos se retraem em garra ou martelo, e as cabeças dos metatarsos passam a receber a carga que antes era dividida com os dedos. O autonômico seca a pele, que racha, e abre comunicações entre artérias e veias que deixam o pé quente e com veias cheias — um pé que parece bem perfundido mesmo quando não está, como registra a diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular.
O caminho até a ferida é mecânico e repetitivo, e o resumo prático do International Working Group on the Diabetic Foot o descreve assim: a sensibilidade perdida, a deformidade e a mobilidade articular limitada produzem carga anormal em pontos do pé; o tecido responde engrossando, e o calo que se forma aumenta ainda mais a pressão no mesmo ponto; sob o calo aparece hemorragia subcutânea, e o passo seguinte é a pele abrir. Quem já viu uma úlcera neuropática reconhece a assinatura: um anel de calo em volta de um centro que sangra ao ser tocado.

Duas coisas decidem que a ferida não feche. A primeira é continuar andando sobre ela: qualquer que tenha sido a causa da abertura, pisar com o pé insensível impede a cicatrização, e é essa frase do resumo prático do IWGDF que sustenta o bloco de conduta inteiro deste capítulo. A segunda é o evento que abriu a pele, e ele quase sempre existe — sapato mal ajustado, andar descalço, uma queimadura térmica. O mesmo documento manda procurá-lo sempre, inclusive nas úlceras puramente isquêmicas, porque é dele que depende a prevenção da próxima.
A isquemia entra por outra porta. Até 50% de quem tem úlcera no pé diabético também tem doença arterial periférica, e nessa população ela tem padrão próprio: difusa, multissegmentar, predominante abaixo do joelho, com oclusões longas, pouca circulação colateral e calcificação extensa. A maior parte das úlceras é puramente neuropática ou neuroisquêmica, a combinação das duas; a úlcera puramente isquêmica é minoria, costuma doer e acompanha um trauma pequeno. O ponto que muda conduta é que, na neuroisquêmica, a neuropatia apaga o sintoma da isquemia grave. E a microangiopatia, que ainda é invocada para explicar a ferida que não fecha, não explica, sozinha, nem o aparecimento da ferida nem o atraso em fechar: a diretriz vascular recomenda expressamente não presumir que ela explique o atraso.
A infecção vem depois, pela pele aberta, e encontra um pé com as defesas comprometidas pela neuropatia, pela doença arterial e pela disfunção imune associada ao diabetes. Superficial, ela é quase sempre causada por Staphylococcus aureus, isolado ou acompanhado; crônica ou grave, costuma ser polimicrobiana, com bacilos gram-negativos, sobretudo em climas quentes, e anaeróbios obrigatórios junto dos cocos gram-positivos. O perigo está na anatomia: a infecção profunda caminha pelas fáscias e bainhas tendíneas dos compartimentos do pé, sobe, eleva a pressão dentro deles e necrosa por falta de perfusão. É por isso que uma infecção que parece pequena na pele pode estar extensa por baixo, e que os sinais clássicos podem ser discretos: a neuropatia apaga a dor e a isquemia apaga o rubor.
O pé de Charcot é o terceiro caminho, e não tem bactéria nenhuma. A neuro-osteoartropatia de Charcot ativa é um processo inflamatório estéril do pé neuropático que lesa ossos, articulações e partes moles. A diretriz vascular descreve duas explicações que se somam: a neurovascular, em que a disautonomia aumenta o fluxo sanguíneo e estimula a reabsorção óssea, e a neurotraumática, em que microtraumas repetidos, que ninguém sente, se acumulam sem consolidar. O gatilho costuma ser banal, como a torção de Cacilda ao descer do ônibus. Sem descarga, a inflamação produz fraturas e luxações em série, o arco desaba, e o pé em mata-borrão ganha pontos novos de pressão onde a próxima úlcera vai nascer.
O mecanismo explica também por que a úlcera volta. Cicatrizar não devolve a sensibilidade, não desfaz a deformidade e não muda o sapato que a pessoa usa. O capítulo de prevenção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes reúne os preditores de recorrência que os estudos encontraram — localização da úlcera anterior, osteomielite, hemoglobina glicada acima de 7,5% e, com a associação mais forte, as lesões pequenas pré-ulcerativas — e registra que calçados que reduziram o pico de pressão plantar em 30% ou mais, comparados ao calçado terapêutico em uso, preveniram a recorrência. A lógica é a mesma da primeira úlcera: onde a pressão continua, a pele volta a abrir.
Como se apresenta de verdade
O pé diabético chega de quatro jeitos, e nenhum deles depende de queixa: a ferida que o paciente não sentiu, o dedo que escureceu, o pé que infectou e o pé que inchou sem ferida. A regra que atravessa as quatro apresentações é a mesma e custa um minuto: tire os dois sapatos e as duas meias, olhe a planta, os calcanhares e o espaço entre os dedos, e olhe dentro do sapato.
O resumo prático do International Working Group on the Diabetic Foot de 2023 separa a úlcera em três tipos pelo que existe por baixo dela: neuropática, se a sensibilidade protetora se perdeu e as artérias estão boas; isquêmica, se as artérias estão doentes e a sensibilidade está preservada; e neuroisquêmica, se as duas coisas acontecem juntas. Dar o tipo não é detalhe de nomenclatura — é o que decide se a ferida pode ser desbridada hoje, se o pé pode ser engessado e se o telefonema para o cirurgião vascular é para amanhã ou para agora.
A úlcera neuropática: indolor, no ponto de apoio, com calo em volta
A úlcera neuropática nasce onde a carga se concentra: sob as cabeças dos metatarsos, sob o hálux, na ponta e no dorso dos dedos em garra que roçam o sapato, e no calcanhar de quem fica deitado. O aspecto é o da figura do bloco anterior — um anel espesso de calo, às vezes com sangue antigo por baixo, e um centro que sangra quando a borda é aparada. O pé costuma estar quente, com a pele seca e rachada, pulsos palpáveis e dedos deformados. O que falta é a dor: o paciente fala da ferida como se falasse do pé de outra pessoa.
A anamnese tem três perguntas obrigatórias, e a primeira é sobre o evento que abriu a pele. O resumo prático do IWGDF manda procurá-lo sempre, e ele costuma estar num sapato novo, num chinelo de sola fina, numa caminhada descalço na areia ou numa bolsa de água quente. A segunda é quanto a pessoa anda por dia, porque é a medida do que vai ter de mudar. A terceira é há quanto tempo a ferida existe, e a resposta honesta muitas vezes é que ninguém sabe, porque ninguém olha a planta de um pé que não dói.
No Brasil há uma segunda doença que produz exatamente a mesma úlcera plantar indolor sobre o pé insensível: a hanseníase. Mancha hipocrômica com alteração de sensibilidade, nervo periférico espessado ao exame e úlcera plantar em quem não tem diabetes, ou em quem tem diabetes recente demais para ter neuropatia, obrigam a pensar nela. O diagnóstico, a poliquimioterapia e o autocuidado do pé anestesiado pela hanseníase são do capítulo Hanseníase: formas clínicas, diagnóstico e poliquimioterapia, na apostila de Dermatologia; a descarga e o calçado, que são os mesmos, se aprendem aqui.
A neuroisquêmica e a isquêmica: nos dedos, na borda, com o pé que engana
A úlcera isquêmica acomete sobretudo o antepé e os dedos, segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, mas outras áreas adoecem quando há neuropatia, deformidade ou biomecânica alterada. O leito é pálido, com pouca granulação, a borda é bem marcada, a pele em volta é fina e sem pelos, e a necrose seca de polpa digital é a apresentação mais comum depois da própria úlcera. A dor, quando existe, piora deitado e alivia com a perna pendurada — que é por que Zulmira dorme na poltrona há dois meses. Na neuroisquêmica, essa dor pode simplesmente não existir.
Três armadilhas do exame físico estão escritas na mesma diretriz. A primeira é o pé quente: a disautonomia e as comunicações arteriovenosas aquecem um pé mal perfundido e mascaram a isquemia. A segunda é o pulso palpável, que não exclui doença arterial no diabético — a palpação dos pulsos do pé teve sensibilidade de 55% e especificidade de 60% numa revisão sistemática citada ali. A terceira é a posição: examinar o paciente sentado com a perna pendurada engana sobre a perfusão, e a diretriz recomenda não fazê-lo. Palidez à elevação com rubor ao pendurar e enchimento capilar acima de cinco segundos somam a favor da insuficiência arterial.
O que se faz com essa suspeita não é deste capítulo: a medida das pressões, o índice tornozelo-braquial, o que fazer quando ele mente e a decisão de revascularizar pertencem ao capítulo Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação, desta apostila, cujo título é A dor que só existe andando. O que é deste capítulo é a consequência imediata para a ferida, e ela cabe em três frases. Úlcera com sinais de isquemia grave e sem infecção não se desbrida. Necrose seca não se remove antes de alguém avaliar a circulação. E úlcera com doença arterial é caso de urgência vascular, porque a mesma diretriz registra que, quando a revascularização demora mais de duas semanas depois de a úlcera ser diagnosticada, a chance de perder o membro cresce muito.
A infecção: dois sinais, a profundidade e o paciente inteiro
Toda úlcera do pé diabético está colonizada, e isso não é infecção. Infecção é inflamação: o resumo prático do IWGDF a diagnostica por pelo menos dois sinais ou sintomas inflamatórios — vermelhidão, calor, endurecimento, dor ou sensibilidade ao toque — ou por secreção purulenta. As tabelas de classificação usadas no Brasil contam o pus como um dos cinco sinais, dos quais se exigem dois, e o bloco de critério registra o que essa diferença de redação muda. O que as duas leituras compartilham é mais importante: cheiro, esfacelo e exsudato abundante, sozinhos, não são critério de infecção.
Os sinais podem ser discretos exatamente onde a infecção é mais perigosa. A neuropatia apaga a dor, a isquemia apaga o rubor, e febre, calafrio e leucocitose frequentemente faltam nas infecções leves e moderadas, como adverte o mesmo documento. Por isso a gravidade não se lê só na pele: lê-se na profundidade da ferida, na extensão do eritema medido a partir da borda, no que a sonda encontra e no paciente inteiro. Uma glicemia que descompensou sem mudança de dieta nem de remédio é um dos sinais de infecção que o próprio paciente pode notar, e o IWGDF inclui a piora da hiperglicemia entre os sinais que ele deve aprender a reconhecer e relatar.
A graduação que manda na conduta é a do sistema IWGDF/IDSA, com quatro graus — sem infecção, leve, moderada e grave — e a letra O acrescentada quando há osteomielite, e ela está desdobrada no bloco de critério. A ideia central cabe numa linha: leve fica na pele e no subcutâneo, moderada passou deles ou se estendeu por mais de dois centímetros a partir da borda, e grave é a que já tem repercussão sistêmica. Quando há osso — sonda que toca osso, osso visível no fundo, dedo em salsicha —, o diagnóstico e o tratamento da osteomielite passam ao capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, na apostila de Ortopedia.
Há um pé que precisa do cirurgião hoje, e ele se reconhece pelo que não é compatível com infecção superficial: crepitação ou gás, necrose úmida, bolhas, flutuação na planta, linfangite subindo pela perna, dor desproporcional ao que se vê ou progressão medida em horas. O capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, na edição de 2026, reúne esse pé e outros dois sob o nome de ataque do pé diabético: a infecção grave de evolução rápida para necrose, a isquemia crítica aguda e o Charcot agudo — três quadros em que o tempo decide o membro, e em que o erro mais comum é mandar para casa com antibiótico oral e retorno.
O pé vermelho, quente e inchado sem ferida
Em qualquer pessoa com diabetes e um pé vermelho, quente e inchado, o Charcot ativo deve ser considerado — é a primeira frase do resumo prático do IWGDF sobre o assunto. A diretriz vascular descreve a forma aguda com eritema, edema, dor e aumento de temperatura, e escreve a regra de boa prática que Cacilda não recebeu: diante de edema, dor e eritema do pé sem lesão de pele, a hipótese de artropatia de Charcot aguda deve ser sempre considerada, inclusive na ausência de dor. A mesma diretriz pede atenção ao diabético com fratura no pé, porque ela pode evoluir para Charcot — e uma torção banal, como a de Cacilda, é exatamente o tipo de trauma que a pessoa sem sensibilidade trata como nada.
O atraso é a regra, e a diretriz o mede: em até 79% dos casos o primeiro diagnóstico está errado, e o certo pode demorar até sete meses, porque o quadro é confundido com celulite, gota, entorse ou trombose venosa profunda. A incidência entre pessoas com diabetes varia de 0,1% a 13% e chega a 29% entre as que já têm neuropatia. O acometimento típico é do mediopé, do retropé e do tornozelo. Uma diferença de temperatura de 2 °C em relação ao mesmo ponto do outro pé tem sido usada como limiar de atividade, e a diretriz adverte que a elevação de temperatura isolada é sensível mas não específica: não diagnostica nem exclui a doença.
Duas pistas separam Charcot de infecção à beira do leito, e nenhuma é definitiva. A primeira é a porta de entrada: a maioria das infecções do pé diabético começa numa úlcera, e um pé inflamado com a pele inteira pede que o Charcot seja pensado antes — sem esquecer que o Manual do Pé Diabético de 2016 lembra que celulite e até fasciíte necrosante podem aparecer sem úlcera. A segunda é o paciente: o pé inflamado de uma pessoa bem, afebril, com neuropatia e trauma banal recente puxa para Charcot, e o exame de sangue não resolve a dúvida — a diretriz vascular sugere não usar proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, hemograma ou fosfatase alcalina para diagnosticar ou excluir Charcot ativo com pele intacta. Quando as duas coisas coexistem, um Charcot com úlcera, a distinção passa a depender de imagem e às vezes de biópsia, e o paciente precisa de serviço especializado. A diretriz de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes acrescenta a advertência simétrica: infecção não se diagnostica apenas pela temperatura do pé.
A úlcera da perna e do pé que não é de pé diabético
O tema deste capítulo inclui as úlceras de membros inferiores, e o primeiro trabalho diante de qualquer uma delas é dar o nome certo, porque cada nome tem um tratamento que as outras não têm. A úlcera venosa fica no terço distal da perna, em geral acima do maléolo medial, é rasa, exsudativa, cercada de pigmentação e edema, e melhora com a perna elevada; ela é do capítulo Insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores, desta apostila, cujo título é A perna que incha há anos, e que ensina a medir a circulação arterial antes de comprimir. A úlcera arterial do não diabético é do capítulo de doença arterial obstrutiva periférica. A lesão por pressão do paciente acamado, inclusive a do calcanhar, é do capítulo Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.
O diabético pode ter as três, e frequentemente tem mais de uma. O Manual do Pé Diabético de 2016 lembra que a insuficiência venosa não faz parte do espectro do pé diabético, mas é comorbidade frequente na pessoa com diabetes, predispõe a úlcera e, pelo edema, atrapalha a cicatrização. A consequência prática é que a ferida do diabético na perna, acima do tornozelo, com edema e pigmentação, deve ser lida como venosa ou mista, e o raciocínio de compressão com medida arterial prévia daquele capítulo é o que vale — com a ressalva, que o próprio capítulo de insuficiência venosa discute, de que no diabético o índice tornozelo-braquial pode mentir para cima.
E há a úlcera que não se comporta como nenhuma das anteriores: em local que não recebe pressão nem é distal, com borda elevada ou vegetante, violácea ou descolada, que cresce rápido, dói muito sem isquemia, ou que não responde depois de semanas de tratamento correto da causa presumida. Nessa ferida o problema deixou de ser de curativo e passou a ser de diagnóstico — neoplasia sobre ferida crônica, vasculite, doença inflamatória da pele e infecções de curso crônico entram na lista —, e a biópsia da borda é o exame que a responde. O que o interno não pode fazer é trocar a cobertura pela quarta vez esperando que o nome apareça sozinho.
O que este capítulo assume, e o que cede pelo nome
Este capítulo assume a úlcera do pé da pessoa com diabetes como entidade, e os capítulos vizinhos que tocam o assunto mandam o leitor para cá pelo nome. Nesta apostila, são Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação, que fica com a perfusão, Insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores e Oclusão arterial aguda de membro (6 P) e embolia; fora dela, Cicatrização de feridas e fases (queloide, cicatriz hipertrófica), na apostila de Cirurgia Plástica, e Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, na de Ortopedia, que fica com o osso. Quem chegar a este assunto por qualquer desses caminhos está no capítulo certo.
O que é assumido aqui, e declarado: a classificação da úlcera; a distinção entre neuropática, neuroisquêmica e isquêmica; a graduação da infecção do pé e a antibioticoterapia da infecção do pé, da empírica à duração, enquanto a infecção for de partes moles; o alívio de pressão, que os documentos chamam de descarga; o desbridamento do calo e do tecido inviável da úlcera; o reconhecimento e a descarga imediata da neuroartropatia de Charcot, com o seguimento ortopédico a partir daí; a decisão de amputar e em que nível; e a prevenção da segunda úlcera, que inclui a estratificação de risco do pé, o calçado terapêutico e a periodicidade de retorno depois da cicatrização.
O que é cedido, pelo nome, e não se repete aqui: o diagnóstico e o tratamento da osteomielite, desde que a sonda ou a imagem mostrem osso acometido, ao capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, na Ortopedia, que assume o que acontece quando a úlcera virou osso; o índice tornozelo-braquial, a avaliação de perfusão e a revascularização ao capítulo Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação, cujo resultado este capítulo usa; o exame anual com monofilamento e o controle glicêmico na atenção primária ao capítulo Diabetes mellitus tipo 2: diagnóstico e tratamento na APS, na Endocrinologia; a escolha da cobertura pelo leito e pelo exsudato e as contraindicações gerais ao desbridamento ao capítulo Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo; os retalhos e enxertos ao capítulo Retalhos e enxertos de pele (princípios), na Cirurgia Plástica; o pacote da sepse ao capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, em Medicina Intensiva e Emergências; a insulina do paciente internado ao capítulo Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção; o descalonamento e a suspensão do antibiótico ao capítulo Antibioticoterapia na enfermaria: escolha, descalonamento e duração; e a profilaxia do tétano ao capítulo Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, na Infectologia.
Dois assuntos vizinhos não são assumidos aqui, porque não são a úlcera: o tratamento da dor neuropática do diabético, que é do capítulo Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré, da apostila de Neurologia, e a reabilitação da pessoa amputada, com a prótese e o treino de marcha, que fica registrada como sem dono no nível. O que deste capítulo toca os dois está dito onde eles aparecem: a dor neuropática não é argumento para adiar a descarga, e a pessoa amputada que tem neuropatia ou doença arterial — quase todas — passa a ter o outro pé na categoria mais alta de risco.
Como fechar o diagnóstico
Quase toda a investigação da úlcera do pé diabético acontece na maca, com lâmina de bisturi, régua, sonda romba, monofilamento e Doppler portátil. O laboratório e a imagem respondem perguntas que o exame já formulou: há abscesso escondido, há osso, há Charcot, há artéria para revascularizar. Pedir exame antes de formular a pergunta é o jeito mais comum de atrasar a descarga e o antibiótico.
O roteiro abaixo segue a ordem em que as decisões acontecem, e não a ordem de um livro de semiologia: primeiro o que se vê depois de aparar o calo, depois a circulação, a sensibilidade, a infecção e, por último, a imagem.
Primeiro, desbridar para poder enxergar
A profundidade de uma úlcera coberta de calo ou de tecido necrótico é desconhecida, e a gravidade depende dela. O resumo prático do International Working Group on the Diabetic Foot manda desbridar, na primeira avaliação ou assim que possível, toda úlcera neuropática ou neuroisquêmica cercada de calo ou com tecido necrótico, e registra que a neuropática costuma dispensar anestesia local. A mesma frase traz a exceção que protege Zulmira: não se desbrida úlcera não infectada com sinais de isquemia grave.
O desbridamento do calo e do tecido inviável é feito de preferência com instrumento cortante, como pede o mesmo documento, e revela três coisas que mudam a conduta: o tamanho real da ferida, que é quase sempre maior do que o anel sugeria; o que há no fundo — subcutâneo, tendão, cápsula, osso —; e se existe coleção ou trajeto por baixo do calo. O Manual do Pé Diabético de 2016 registra quem pode fazê-lo: o enfermeiro tem competência legal para o desbridamento de pele e subcutâneo, e o método cirúrgico é ato do médico.
Depois de aparar, meça. Comprimento e largura com régua encostada na pele, nas maiores dimensões, profundidade com a sonda, localização descrita pela região do pé e pela face — plantar, dorsal, medial, lateral, interdigital — e o tecido do leito. É a primeira medida que permitirá dizer, daqui a quatro semanas, se o tratamento está funcionando, e o bloco de critério mostra por que o jeito de transformar comprimento e largura em área muda a pontuação da úlcera.
O SINBAD como roteiro do exame da ferida
O protocolo federal de diabetes tipo 2, atualizado em fevereiro de 2026, nomeia o escore SINBAD para avaliar a gravidade das feridas, e o resumo prático do IWGDF o coloca como primeiro passo da avaliação de toda úlcera. A sigla vem do inglês e cada letra é um item do exame: local, isquemia, neuropatia, infecção bacteriana, área e profundidade. Cada item vale zero ou um, e a soma vai de zero a seis. A utilidade dele não é dar prognóstico individual — os documentos desaconselham usar qualquer classificação para isso —, e sim fazer com que dois profissionais que nunca se viram descrevam a mesma ferida com as mesmas seis informações.
Na prática, o SINBAD é a lista do que não pode faltar no prontuário. Local: antepé pontua zero, mediopé e retropé pontuam um, e o IWGDF sugere descrever também a face do pé em que a ferida está. Isquemia: fluxo preservado, com pelo menos um pulso palpável no pé, pontua zero; evidência clínica de fluxo reduzido pontua um. Neuropatia: sensibilidade protetora preservada é zero, perdida é um. Infecção bacteriana: ausente ou presente pelos critérios clínicos. Área: menor que 1 cm² é zero, 1 cm² ou mais é um. Profundidade: restrita a pele e subcutâneo é zero, chegando a músculo, tendão ou mais fundo é um.
Isaltino, depois do desbridamento, tem úlcera no antepé, pulsos presentes, sensibilidade protetora perdida, infecção presente, área acima de 1 cm² e profundidade no subcutâneo: SINBAD de três. O número não diz o que fazer; o que diz o que fazer são os itens que pontuaram. A infecção manda graduar, a neuropatia manda descarregar, e a ausência de isquemia libera o desbridamento e, mais adiante, a bota que não se tira. A graduação da infecção e a classificação da isquemia, quando ela existe, se fazem com instrumentos próprios, que o SINBAD não substitui.
Perfusão: o resultado que decide o destino
Toda pessoa com úlcera no pé precisa de avaliação objetiva da perfusão, e não apenas da palpação de pulsos — o resumo prático do IWGDF escreve isso para qualquer úlcera. A técnica das pressões, o índice tornozelo-braquial e o que fazer quando ele mente são do capítulo Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação; este capítulo usa o resultado. Pelo documento internacional de 2023, a doença arterial fica menos provável quando três achados se somam: onda trifásica ou bifásica ao Doppler nas artérias do pé, índice dedo-braço de 0,70 ou mais e índice tornozelo-braquial de 0,9 a 1,3.
Um detalhe do mesmo documento muda o número no diabético. Para diagnosticar doença arterial, o apêndice do IWGDF de 2023 calcula o índice de cada perna dividindo a menor das pressões do pé — pediosa ou tibial posterior — pela maior das pressões braquiais, e não a maior, como se fazia tradicionalmente. A razão declarada é a doença abaixo do joelho, que pode poupar uma das tibiais. Numa perna com pediosa de 90 mmHg, tibial posterior de 130 mmHg e braquial de 140 mmHg, o índice é 0,93 pelo cálculo tradicional e 0,64 pelo cálculo do diabético. É a diferença entre uma perna normal e uma perna com doença arterial.
Os limiares que mandam pedir imagem vascular urgente e avaliar revascularização, pelo IWGDF de 2023, são pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg ou índice abaixo de 0,4, e também pressão de dedo abaixo de 30 mmHg ou oximetria transcutânea abaixo de 25 mmHg. Acima desses números a revascularização ainda pode ser considerada quando a perda de tecido é extensa ou há infecção, e a úlcera que não mostra sinais de cicatrização em quatro a seis semanas de tratamento ótimo pede angiografia independentemente dos testes. A diretriz brasileira de 2023, que foi escrita sobre a versão de 2019 do documento internacional, usa números diferentes em dois desses cortes, e o bloco de critério registra a conta.
Quando há doença arterial, a classificação que o cirurgião vascular vai usar é o WIfI, que combina o grau da ferida, o da isquemia e o da infecção para estimar o risco de amputação maior em um ano e o benefício da revascularização. A diretriz vascular recomenda estratificar por ele todo paciente com úlcera e doença arterial, e o protocolo federal de 2026 o nomeia para avaliar o risco de amputação. O que o interno leva para o telefonema são os dados de que o WIfI é feito: a descrição da ferida com profundidade e exposição de estruturas, as pressões medidas e a graduação da infecção.
Neuropatia: confirmar a perda da sensibilidade protetora nos dois pés
Na pessoa com úlcera, a perda de sensibilidade protetora quase sempre está lá, mas precisa ser documentada nos dois pés, porque ela pontua no SINBAD e define a categoria de risco do pé que ainda não abriu. O exame anual e a técnica de rastreamento são do capítulo de diabetes tipo 2 na atenção primária; aqui basta saber aplicar e ler. O protocolo federal de 2026 pede pelo menos dois testes, um deles obrigatoriamente o monofilamento de 10 g, e o segundo de preferência o diapasão de 128 Hz.
O apêndice do IWGDF de 2023 descreve o monofilamento em detalhes que evitam falso resultado: demonstrar antes na mão, testar três pontos em cada pé sem que o paciente veja, aplicar perpendicular até o fio curvar, em cerca de dois segundos, duas vezes no mesmo ponto intercalando uma aplicação simulada; a sensibilidade está presente no ponto com duas respostas certas em três. Nunca sobre úlcera, calo, cicatriz ou necrose. O filamento perde força com o uso: o documento sugere descansá-lo por 24 horas depois de 10 a 15 pacientes e trocá-lo depois de 70 a 90. Sem monofilamento nem diapasão, o toque leve com a ponta do indicador sobre o primeiro, o terceiro e o quinto dedos dos dois pés, por um a dois segundos, sugere perda de sensibilidade quando não é percebido em dois ou mais pontos.
Infecção: o que colher, o que pedir e o que não pedir
Cultura só se colhe de ferida clinicamente infectada, e nunca por swab. O resumo prático do IWGDF, o Manual de 2016 e o capítulo de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 dizem a mesma coisa com palavras diferentes: limpe e desbride antes, e colha tecido da base da úlcera por curetagem ou biópsia; o Manual acrescenta a aspiração por agulha fina como alternativa e pede Gram e culturas aeróbia e anaeróbia. O swab da superfície cultiva o que coloniza a ferida, e a ferida não infectada também está colonizada.
Há uma exceção aceita pelos documentos brasileiros: infecção leve, aguda, em quem não usou antibiótico recentemente e não tem fator de risco para germe resistente pode ser tratada empiricamente sem cultura, com coleta diante de qualquer evolução desfavorável ou de desbridamento cirúrgico. A diretriz vascular dá a essa sugestão classe IIa e nível C, e o Manual de 2016 escreve que, na infecção leve, em geral não é necessário colher cultura.
Os marcadores inflamatórios servem quando o exame físico e a radiografia deixam dúvida, e nunca sozinhos — são as recomendações R2 e R3 do capítulo de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes. O mesmo texto relata uma metanálise em que a proteína C reativa teve o melhor desempenho para as úlceras de grau 2, com área sob a curva de 0,893, sensibilidade de 77,4% e especificidade de 84,3%, e a procalcitonina para as de grau 3, com área de 0,844, sensibilidade de 85,5% e especificidade de 68,9% no corte de 0,33 ng/mL. O capítulo desaconselha diagnosticar infecção pela temperatura do pé ou por microbiologia quantitativa, e não recomenda as técnicas moleculares como primeira linha.
Os demais exames respondem ao paciente e não à ferida: glicemia, função renal para ajustar dose, hemograma, e, na infecção grave, o que o capítulo de sepse manda colher antes da primeira dose. Na pessoa que chega com glicemia muito alta, a pergunta de cetoacidose ou estado hiperosmolar é feita antes de qualquer outra, e a conduta da cetoacidose é do capítulo Cetoacidose diabética, na Endocrinologia.
Imagem: a radiografia quando a ferida passou da pele, a ressonância quando a pergunta é abscesso ou Charcot
O resumo prático do IWGDF manda radiografar o pé quando a úlcera é mais profunda que a pele, quando há gás nos tecidos ou suspeita de corpo estranho. A radiografia procura gás, corpo estranho, deformidade e alteração óssea. Se a sonda toca osso e a radiografia mostra alteração, a osteomielite é provável, e a partir daí o capítulo de osteomielite assume a investigação e a duração do tratamento.
O abscesso profundo é a coleção que a pele não mostra. O mesmo documento o torna mais provável quando há febre ou proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação elevadas, avisa que valores normais não o excluem, e manda fazer ressonância quando houver dúvida. A diretriz vascular acrescenta que a tomografia detecta gás e abscessos pequenos ou profundos que a radiografia não mostra. Nenhum desses exames deve atrasar a exploração cirúrgica quando o pé tem crepitação, necrose ou flutuação.
No pé suspeito de Charcot, a diretriz vascular recomenda radiografias dos dois pés, com carga sempre que possível, nas incidências anteroposterior, oblíqua e perfil, porque o desalinhamento aparece melhor em pé. Radiografia normal não afasta a doença, que no início não altera o filme; mantida a suspeita, a ressonância é o passo seguinte, com a ressalva de que suas alterações podem ser indistinguíveis das de osteomielite. Quando não há ressonância, o IWGDF de 2023 aceita tomografia ou cintilografia, e, sem nenhuma imagem avançada disponível, manda tratar como Charcot ativo provável. Em nenhum desses cenários a imagem vem antes da imobilização: a diretriz vascular recomenda iniciar a descarga já na suspeita clínica, enquanto os exames são feitos.
A imagem arterial — ultrassonografia duplex, angiotomografia, angiorressonância ou arteriografia — é decisão de quem vai revascularizar, e a diretriz vascular dedica a ela um capítulo próprio. O que cabe ao interno é não pedi-la no lugar do telefonema: numa úlcera com doença arterial, o exame vem da decisão do cirurgião vascular, e não o contrário.
As réguas que decidem: a ferida, a infecção, o risco depois da cicatrização e o que o SUS entrega
O pé precisa ser avaliado por quatro perguntas simultâneas: há infecção, há sangue suficiente, há perda de proteção e como retirar a pressão da lesão?
- 1Descubra ambos os pés e avalie estado geral, glicemia e sinais de infecção profunda ou isquemia. Sepse, necrose úmida, abscesso profundo ou déficit agudo de perfusão exigem contato cirúrgico imediato.
- 2Avalie pulsos, Doppler e pressões antes do desbridamento eletivo e do dispositivo fechado. Nenhum exame isolado exclui DAOP no diabetes; índice aparentemente normal pode ser enganoso.
- 3Descreva ferida, profundidade e sinais inflamatórios. Desbridamento e sondagem são feitos por profissional capacitado, com analgesia conforme sensibilidade e procedimento. Necrose seca isquêmica sem infecção aguarda estratégia vascular.
- 4Infecção é diagnóstico clínico. Cultura de tecido pode orientar; osso exposto ou probe-to-bone positivo elevam suspeita de osteomielite e devem ser integrados a imagem e outros achados, não tratados como prova isolada.
- 5Infecção grave ou moderada com comorbidade importante/necessidade cirúrgica favorece internação. Nos casos leves selecionados, tratamento oral e retorno próximo; eritema >2 cm isoladamente não torna obrigatória a via IV.
- 6Infecção e isquemia associadas pedem decisão conjunta de drenagem e revascularização. Foco séptico não pode esperar investigação eletiva; não adiar toda revascularização até uma resolução completa e abstrata da sepse.
- 7Escolha descarga conforme localização, gravidade de infecção/isquemia, necessidade de inspeção e segurança ao caminhar. O dispositivo precisa ser usado e reavaliado, com proteção também do pé contralateral.
- 8Reveja infecção em 48–72 horas ou antes se piora, e acompanhe cicatrização com medidas consistentes. Após fechar, trate como remissão: calçado adequado, autocuidado e seguimento conforme risco.
O SINBAD à beira do leito: o que pontua e onde o registro costuma falhar
| Item | Pontua zero | Pontua um | Onde o registro costuma falhar |
|---|---|---|---|
| Local | Antepé | Mediopé ou retropé | Não anotar a face do pé — plantar, dorsal, medial, lateral ou interdigital —, que o IWGDF pede e que orienta a escolha da descarga |
| Isquemia | Fluxo preservado, com pelo menos um pulso palpável no pé | Evidência clínica de fluxo reduzido | Pontuar pelo pulso e ignorar a onda ao Doppler; a tradução brasileira escreve fluxo ausente onde o original fala em fluxo reduzido |
| Neuropatia | Sensibilidade protetora preservada | Sensibilidade protetora perdida | Testar só o pé da úlcera, ou aplicar o monofilamento sobre calo, cicatriz ou necrose |
| Infecção bacteriana | Ausente pelos critérios clínicos | Presente pelos critérios clínicos | Contar odor, esfacelo ou exsudato como sinal; o grau da infecção vem do sistema IWGDF/IDSA, e não do SINBAD |
| Área | Menor que 1 cm² | Igual ou maior que 1 cm² | Medir antes de desbridar o calo, e não registrar como a área foi calculada |
| Profundidade | Pele e subcutâneo | Músculo, tendão ou estrutura mais profunda | Não sondar; sonda que toca osso transfere o diagnóstico e o tratamento ao capítulo de osteomielite |
Gravidade da infecção pelo sistema IWGDF/IDSA e o que cada grau muda hoje
| Grau | O que define | Onde tratar e por que via | Cobertura empírica de partida e o que a Rename 2024 oferece |
|---|---|---|---|
| Sem infecção | Nenhum sinal inflamatório e nenhuma secreção purulenta | Ambulatorial, sem antibiótico; cuidado da ferida e descarga | Nenhuma: antibiótico sistêmico ou tópico em úlcera não infectada não acelera a cicatrização e está desaconselhado nos documentos de 2023 e 2026 |
| Leve | Ao menos dois sinais inflamatórios, com eritema de mais de 0,5 até 2 cm a partir da borda, restrita a pele e subcutâneo, sem resposta sistêmica | Ambulatorial, por via oral, com desbridamento no mesmo dia e retorno em 48 a 72 horas | Cocos gram-positivos: cefalexina, no Componente Básico. Antibiótico recente: amoxicilina com clavulanato, no Básico. Alergia a betalactâmico: clindamicina ou sulfametoxazol com trimetoprima, no Básico; doxiciclina e fluoroquinolonas respiratórias só no Estratégico |
| Moderada | Eritema de mais de 2 cm a partir da borda ou acometimento de estruturas profundas — abscesso, osteomielite, artrite séptica, fasciíte —, sem resposta sistêmica | Internação quando há comorbidade relevante, isquemia importante, necessidade de cirurgia ou falha ambulatorial; a não complicada e pouco extensa pode começar por via oral | Gram-positivos e gram-negativos: amoxicilina com clavulanato ou ceftriaxona, no Básico. Anaeróbios quando há isquemia, necrose, gás ou odor fétido: metronidazol ou clindamicina, no Básico, associados à cefalosporina |
| Grave | Infecção local com dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica | Internação, antibiótico parenteral e avaliação cirúrgica urgente, com drenagem idealmente em até 24 horas; pacote de sepse pelo capítulo próprio | Amplo espectro para gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios, revisto pela cultura; piperacilina com tazobactam e carbapenêmicos citados pelos documentos não constam da Rename 2024 e dependem do elenco do hospital |
Com que frequência ver o pé em risco: a régua de 2026 e a de 2016, perfil a perfil
| Perfil do pé | Régua de 2026: PCDT de diabetes tipo 2, Quadro S1, igual ao IWGDF 2023 | Régua de 2016: Manual do Pé Diabético, Quadros 3.1 e 4.1 | O que muda na agenda |
|---|---|---|---|
| Sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial | Categoria 0, uma vez por ano | Grau 0, anual | Nada |
| Perda de sensibilidade, sem deformidade e sem doença arterial | Categoria 1, a cada 6 a 12 meses | Grau 1, a cada 3 a 6 meses | A régua de 2016 pede o dobro de consultas: duas a quatro por ano, contra uma a duas |
| Perda de sensibilidade com deformidade, sem doença arterial | Categoria 2, a cada 3 a 6 meses | Grau 1, a cada 3 a 6 meses | Nada |
| Doença arterial sem perda de sensibilidade e sem deformidade | Categoria 1, a cada 6 a 12 meses | Grau 2, a cada 2 a 3 meses | A régua de 2016 é de duas a seis vezes mais frequente: quatro a seis consultas por ano, contra uma a duas |
| Perda de sensibilidade e doença arterial | Categoria 2, a cada 3 a 6 meses | Grau 2, a cada 2 a 3 meses | A régua de 2016 encurta o intervalo máximo de 6 para 3 meses |
| Úlcera ou amputação prévia, com perda de sensibilidade ou doença arterial | Categoria 3, a cada 1 a 3 meses | Grau 3, a cada 1 a 2 meses | Quase nada; a régua de 2016 fecha o intervalo em 2 meses |
| Úlcera prévia sem perda de sensibilidade e sem doença arterial | Categoria 0, uma vez por ano, porque a categoria 3 exige perda de sensibilidade ou doença arterial | Grau 3, a cada 1 a 2 meses | A maior diferença da tabela: uma consulta por ano contra seis a doze |
| Doença renal em estágio terminal, com perda de sensibilidade ou doença arterial | Categoria 3, a cada 1 a 3 meses | Grau 1 ou 2, conforme o achado; a diálise aparece como fator de risco, mas não muda a categoria | A régua de 2026 sobe a categoria pela doença renal terminal |
Antimicrobianos orais prescritos no capítulo: mg, unidades e mL no adulto de 84 kg, recalculados contra a apresentação da Rename 2024
| Fármaco e apresentação | Dose adotada e fonte | Por dia | Em 84 kg | Curso de 7 dias | Curso de 14 dias | Sem conseguir engolir |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cefalexina, cápsula ou comprimido de 500 mg, Componente Básico | 500 mg a cada 6 horas, Manual do Pé Diabético de 2016, na infecção leve | 4 unidades, 2.000 mg | 23,8 mg/kg/dia, mas a dose do adulto é fixa e não se calcula por peso | 28 unidades, 14 g | 56 unidades, 28 g | Suspensão de 50 mg/mL da Rename: 10 mL por dose, 40 mL por dia |
| Amoxicilina com clavulanato de potássio, comprimido de 500 mg + 125 mg, Componente Básico | 1 comprimido a cada 8 horas, Manual do Pé Diabético de 2016 | 3 comprimidos, 1.500 mg de amoxicilina e 375 mg de clavulanato | 17,9 mg/kg/dia de amoxicilina, dose fixa de adulto | 21 comprimidos, 10,5 g de amoxicilina e 2,625 g de clavulanato | 42 comprimidos, 21 g de amoxicilina e 5,25 g de clavulanato | Suspensão de 50 mg + 12,5 mg/mL da Rename: 10 mL por dose, 30 mL por dia |
| Clindamicina, cápsula de 300 mg, Componente Básico | 300 mg a cada 8 horas, Manual do Pé Diabético de 2016, que a indica quando o MRSA local passa de 10% | 3 cápsulas, 900 mg | 10,7 mg/kg/dia, dose fixa de adulto | 21 cápsulas, 6,3 g | 42 cápsulas, 12,6 g | Não há forma oral líquida de clindamicina na Rename 2024 |
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e a que mais pode mudar uma decisão de plantão. O Quadro 1 do capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição de 2026, define infecção grave por "pelo menos 2 ou mais" itens de uma lista que separa em itens distintos a frequência respiratória acima de 20 e a PaCO2 abaixo de 32 mmHg, separa em três itens a leucocitose acima de 12.000, a leucopenia abaixo de 4.000 e a presença de mais de 10% de formas imaturas, e ainda inclui a própria síndrome da resposta inflamatória sistêmica como item da lista que a define. Na síndrome, como a Tabela 10 da diretriz vascular de 2023 a transcreve, frequência respiratória ou PaCO2 formam um único critério, e leucócitos altos, baixos ou com formas jovens formam outro. A conta: uma pessoa afebril, com frequência cardíaca de 84, leucócitos de 13.000 e 12% de bastões soma dois itens na lista de 2026 e seria infecção grave; na contagem da síndrome soma um critério, e a infecção é leve ou moderada conforme a extensão local. A diferença decide internação e via venosa. Este capítulo conta os critérios como a Tabela 10.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, dentro da diretriz vascular de 2023, e sobre a mesma palavra. A Tabela 7 define infecção grave como infecção em paciente com toxemia ou instabilidade metabólica e dá exemplos — febre, calafrios, taquicardia, hipotensão, confusão, vômito, leucocitose, acidose, hiperglicemia grave ou azotemia —, sem nenhum corte numérico e sem número mínimo de achados. A Tabela 10, do mesmo capítulo, define infecção grave por dois ou mais critérios numéricos da síndrome da resposta inflamatória sistêmica. Uma pessoa com vômitos e glicemia de 480 mg/dL, afebril, com frequência cardíaca de 88 e leucócitos normais é grave pela Tabela 7 e não é grave pela Tabela 10. O Manual do Pé Diabético de 2016 usa a redação da Tabela 7.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Glosa que muda a régua, na mesma Tabela 7 da diretriz vascular. Entre as manifestações de inflamação que definem a infecção, a tabela escreve "exsudato" onde a Tabela 10 do mesmo documento escreve "secreção purulenta", e onde o resumo prático do IWGDF de 2023 escreve "purulent secretions"; a primeira linha da Tabela 7 também define a úlcera não infectada como "sem exsudato". Toda úlcera aberta tem exsudato. Lida ao pé da letra, uma úlcera exsudativa com leve eritema soma dois sinais e vira infecção leve, com antibiótico; pelas outras duas redações, o exsudato que não é pus não conta.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas redações sobre o pus, e a leitura que este capítulo adota. O resumo prático do IWGDF de 2023 diagnostica infecção por pelo menos dois sinais inflamatórios "ou" secreção purulenta, e o Manual de 2016 escreve "exsudato purulento e/ou dois ou mais sinais" — nas duas, o pus sozinho basta. As tabelas de classificação da diretriz vascular, na Tabela 10, e do capítulo da SBD de 2026, no Quadro 1, põem o pus como um de cinco sinais, dos quais se exigem dois. A diferença só pesa na úlcera com pus e mais nada, que é rara. Este capítulo segue as tabelas, que são o instrumento de graduação, e registra que é escolha desta apostila: pus sem nenhum outro sinal pede desbridamento, cultura de tecido e reavaliação em 48 horas, e não necessariamente antibiótico no primeiro dia.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e é de farmacologia. Na linha "Úlcera macerada ou clima quente" da Tabela 2 do capítulo de infecção da SBD de 2026, cujos patógenos-alvo declarados são bacilo gram-negativo e Pseudomonas, a célula oferece, ao lado da piperacilina com tazobactam, da ceftazidima e do meropeném, "cefalosporina de 2a ou 3a geração (cefuroxima, cefotaxima, ceftriaxona)". Nenhuma das três tem atividade contra Pseudomonas aeruginosa, e a própria tabela o reconhece: quando quer cefalosporina antipseudomonas, escreve ceftazidima em separado, e usa exatamente as três na linha "sem complicações", onde Pseudomonas não é alvo. Quem escolher ceftriaxona por essa linha para uma úlcera macerada terá prescrito a cobertura da linha de cima.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, no Manual do Pé Diabético de 2016. Para a infecção moderada tratada na atenção básica, o Manual exige que o antibiótico cubra gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios e, na mesma frase, oferece como alternativa o "tratamento injetável com ceftriaxona", sem associação e sem dose. A ceftriaxona sozinha não cumpre a exigência de anaeróbios que a frase acabou de fazer: a diretriz vascular de 2023 e o capítulo da SBD de 2026, quando usam cefalosporina de terceira geração em pé isquêmico, necrótico ou com gás, a associam a clindamicina ou metronidazol. O Manual também não dá dose para a fluoroquinolona nem para a ceftriaxona, e fixa duração de 14 a 21 dias para a moderada, contra uma a duas semanas, prolongáveis a três ou quatro, nos documentos de 2023 e 2026.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, entre duas tabelas do mesmo Manual de 2016. O Quadro 2.2, que organiza a rede, lista "infecções leves e moderadas" entre as condições de cuidado preferencialmente realizado na atenção básica. O Quadro 4.6, que orienta a conduta, manda que, na infecção moderada, "na maioria dos casos", se encaminhe para avaliação por especialista em regime de urgência. O mesmo documento dá destinos opostos para a mesma pessoa, e só o segundo quadro diz o que fazer.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e explica por que a régua de risco mudou. O Quadro 3.1 do Manual de 2016 define grau 0 como "neuropatia ausente", grau 1 como neuropatia com ou sem deformidade, grau 2 como doença arterial com ou sem neuropatia e grau 3 como história de úlcera ou amputação. Lido ao pé da letra, um diabético com doença arterial e sem neuropatia está nos graus 0 e 2 ao mesmo tempo, e um com úlcera prévia e sem neuropatia está nos graus 0 e 3. O Quadro 4.1 do mesmo Manual corrige o grau 0 para "sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial", mas troca neuropatia por perda de sensibilidade protetora no grau 1, e as duas coisas não são sinônimas: há neuropatia dolorosa com o monofilamento ainda percebido. O Manual declara que a classificação vem do Caderno de Atenção Básica nº 36, de 2013.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou, com uma ressalva de leitura que vale para as duas pontas. O Quadro S1 do protocolo federal de diabetes tipo 2 de 2026 reproduz sem alteração a Tabela 1 do IWGDF de 2023: mesmas quatro categorias, mesmas definições, mesmas frequências e a mesma nota de que as frequências são opinião de especialistas. A ressalva: a categoria 1 é "perda de sensibilidade ou doença arterial" e a categoria 2 começa por "perda de sensibilidade mais doença arterial"; com o ou inclusivo, quem tem as duas cabe na 1 e na 2, e quem tem úlcera prévia com neuropatia cabe na 1 e na 3. Nenhum dos dois documentos escreve a regra que desfaz a sobreposição, e este capítulo aplica a leitura evidente, declarando que é leitura: vale a categoria mais alta que a pessoa preencher. A diretriz vascular, que reproduz a versão de 2019, escreve a categoria 0 como "sem PSP ou DAP", que admite ser lida como sem perda de sensibilidade ou com doença arterial; a redação do protocolo de 2026, "sem PSP e sem DAP", fecha essa porta.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A tabela de risco do pé não depende do tipo de diabetes, e esta apostila aplica a de 2026 também à pessoa com diabetes tipo 1. O protocolo federal de diabetes tipo 1, que compreende o conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019, e foi editado em 2020, ainda imprime a régua anterior no Quadro 2 do Apêndice E: categoria 0 sem perda de sensibilidade protetora e sem doença arterial, anual; 1 com perda de sensibilidade, com ou sem deformidade, a cada seis meses; 2 com doença arterial, com ou sem perda de sensibilidade, a cada três meses; 3 com úlcera ou amputação prévia, a cada dois meses. O quadro declara ser adaptado do Manual do Pé Diabético de 2016, e nada nele se justifica pelo tipo 1: a adaptação só ficou com o limite mais longo de cada intervalo do Manual — seis meses onde o Manual dá três a seis, três onde dá dois a três, dois onde dá um a dois. As duas tabelas vêm de documentos escritos para o pé de qualquer pessoa com diabetes, o Manual e o IWGDF, e nenhuma foi ajustada a um tipo; empatado o escopo, decide a data. Vale para os dois tipos a tabela do IWGDF de 2023, que o protocolo de diabetes tipo 2 de 2026 adotou, e a de 2020 fica registrada como régua anterior.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, no protocolo federal de 2026. O parágrafo sobre a síndrome do pé diabético atribui à referência 143, o Manual do Pé Diabético de 2016, a incidência de ferida de 19% a 34% e a recorrência de 40% no primeiro ano e 65% em três anos. O Manual não traz nenhum desses números: escreve incidência anual de 2% e risco de 25% ao longo da vida, e não dá taxa de recorrência. Os números coincidem com os do capítulo de prevenção da SBD — que o protocolo lista duas vezes, como referências 142 e 144, com autores, título e ano idênticos.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, entre dois capítulos da mesma diretriz de sociedade. O capítulo de prevenção da SBD, com última revisão registrada em 13/10/2022, escreve recorrência de 40% em um ano e 65% em três anos. O capítulo de infecção, da edição de 2026, escreve cerca de 40% em um ano, 60% em três e 65% em cinco. Os mesmos 65% estão em três anos num texto e em cinco no outro, e o protocolo federal de 2026 reproduz a primeira versão. Este capítulo usa a da edição mais nova, que é também a única com três pontos no tempo.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e é de escala. No capítulo de prevenção da SBD, o ensaio com 173 pessoas com úlcera prévia relata úlcera em 8,5% do grupo com termometria domiciliar, 29,3% do tratamento padrão e 30,4% do exame estruturado, e conclui que os dois últimos grupos "tiveram risco 4,37 e 4,71 vezes maior". Com as proporções do próprio parágrafo, a razão de riscos é 29,3 ÷ 8,5 = 3,45 e 30,4 ÷ 8,5 = 3,58. Os números citados correspondem à razão de chances, que, recalculada com as mesmas proporções, dá 4,46 e 4,70. Chamar razão de chances de risco vezes maior infla o efeito em cerca de 30% quando o desfecho é frequente, e aqui ele é: 4,46 ÷ 3,45 = 1,29.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou pela metade, no mesmo capítulo. Os dois ensaios de termometria usaram como gatilho uma diferença de 4 °F entre os pés, que o texto converte corretamente em 2,2 °C — diferença de temperatura se converte multiplicando por 5/9, sem o desconto de 32: 4 × 5/9 = 2,22. A regra prática extraída, porém, manda procurar ajuda quando "temperaturas maiores que 2 °C" forem observadas por dois dias. Há dois deslizes: o texto diz temperaturas onde é diferença de temperatura entre os pés, e o gatilho de 2,0 °C é mais sensível que o testado, porque uma diferença de 2,1 °C dispara a regra e não dispararia o protocolo dos estudos.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, na diretriz vascular de 2023. A Tabela 5 numera as opções de descarga da úlcera neuropática plantar do antepé e do mediopé em ordem de escolha: a bota removível na altura do joelho é a segunda escolha, com classe IIb, e o dispositivo removível na altura do tornozelo é a terceira, com classe IIa. A terceira opção recebeu recomendação mais forte que a segunda. O resumo prático do IWGDF de 2023 desfaz a hierarquia: quando o dispositivo não removível na altura do joelho é contraindicado ou não tolerado, considera o removível na altura do joelho ou do tornozelo, sem ordem entre os dois.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e muda a data do encaminhamento vascular. No capítulo 4 da diretriz vascular, o texto recomenda imagem e revascularização quando a úlcera com doença arterial progride ou não reduz o tamanho em cerca de 50% dentro de 4 a 6 semanas. A Tabela 13, que resume o mesmo capítulo, escreve úlcera que não está cicatrizando ou não cicatriza em 4 a 6 semanas. São gatilhos diferentes: uma úlcera que encolheu 60% em cinco semanas, sem fechar, cumpre o da tabela e não cumpre o do texto. O IWGDF de 2023 fala em úlcera que não mostra sinais de cicatrização. Este capítulo usa a redução de metade da área em quatro semanas como marca de resposta e a ausência dela como gatilho de reavaliação, inclusive vascular.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, e é de versão. A diretriz vascular de 2023 foi construída sobre o documento internacional de 2019 e herdou dois cortes que a atualização de 2023 mudou: o índice dedo-braço que torna a doença arterial menos provável é 0,75 ou mais na diretriz brasileira e 0,70 ou mais no IWGDF de 2023, e o índice tornozelo-braquial que manda imagem urgente é abaixo de 0,5 na brasileira e abaixo de 0,4 na internacional. A atualização fecha também uma fresta interna da brasileira, que chama de anormal o índice dedo-braço abaixo de 0,7 e de tranquilizador o de 0,75 ou mais, deixando os valores de 0,70 a 0,74 fora das duas frases; no IWGDF de 2023 o corte é o mesmo nos dois sentidos. O capítulo de doença arterial desta apostila adota o 0,70 de 2023 e registra o 0,75 como corte da versão de 2019.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, entre o texto e a tabela da diretriz vascular, no Charcot. A imobilização na altura do joelho iniciada imediatamente na suspeita de Charcot ativo com pele intacta recebe classe IIa e nível C no texto do capítulo 6 e classe I e nível C na Tabela 17, que resume o mesmo capítulo. Aqui a conduta não muda — imobilizar na suspeita é o que as duas versões mandam —, mas quem citar a força da recomendação vai citar números diferentes conforme a página.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Sigla glosada errado, na legenda da Tabela 14 da diretriz vascular: "ESBL: organismo produtor de Betalactamase". A sigla é de betalactamase de espectro estendido, e o adjetivo que falta muda a população: produzir betalactamase é o que faz a maioria dos Staphylococcus aureus resistir à penicilina, e isso não indica carbapenêmico; produzir betalactamase de espectro estendido é o que indica. O capítulo da SBD de 2026 escreve a expressão inteira. Na mesma tabela, a infecção leve com risco de MRSA recebe linezolida, vancomicina e daptomicina — duas delas só existem por via venosa, para uma infecção que o resumo prático do IWGDF e o capítulo da SBD de 2026 tratam por via oral; a tabela da SBD de 2026 lista para o mesmo cenário opções orais.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas regras de via para a infecção moderada, e a que este capítulo segue. O resumo prático do IWGDF de 2023 agrupa moderada e grave e manda iniciar antibiótico parenteral de amplo espectro, com cobertura de anaeróbios obrigatórios. O capítulo de infecção da SBD de 2026 manda tratar por via oral, inicialmente, todas as infecções leves e a maioria das moderadas não complicadas, reserva a via parenteral a todas as graves e lista no Quadro 2 quando a moderada interna. O Manual de 2016 fica entre os dois: encaminha a maioria das moderadas para avaliação de urgência e aceita tratamento ambulatorial nas selecionadas e pouco extensas. Este capítulo segue a SBD de 2026, documento brasileiro mais novo e escrito para a infecção do pé, e reserva a via venosa, na moderada, à comorbidade relevante, à isquemia importante, à necessidade de cirurgia e à falha ambulatorial.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fechou, na Tabela 11 da diretriz vascular, que reproduz a classificação PEDIS. No grau 4 de infecção, a lista de critérios de resposta sistêmica salta do item 3 para o item 5 e omite a leucopenia: fica "contagem de leucócitos > 12.000/mm", sem o expoente e sem o "ou menor que 4.000" que a Tabela 10 do mesmo documento traz. Uma pessoa com 3.000 leucócitos cumpre um critério pela Tabela 10 e nenhum pela Tabela 11. Na mesma tabela, a extensão da úlcera é "medida em centímetros", quando o que se mede é área, em centímetros quadrados, como a Tabela 6 do mesmo documento faz com o SINBAD.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Glosa que muda a pontuação do SINBAD. No item de isquemia, a Tabela 6 da diretriz vascular pontua um para "fluxo ausente". O resumo prático do IWGDF de 2023 pontua a evidência clínica de fluxo reduzido e define fluxo preservado como pelo menos um pulso palpável. Um pé sem pulsos palpáveis e com onda monofásica ao Doppler tem fluxo reduzido, e não ausente: pontua um pela régua internacional e, lida ao pé da letra, zero pela tradução.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Lacuna que muda a pontuação: nenhum dos documentos citados neste capítulo diz como transformar comprimento e largura em área, e o item de área do SINBAD tem corte em 1 cm². Multiplicar comprimento por largura superestima a área de uma ferida ovalada; a fórmula da elipse, π ÷ 4 × comprimento × largura, fica mais perto dela. Numa úlcera de 1,2 por 1,0 cm, o retângulo dá 1,20 cm² e pontua um; a elipse dá 0,94 cm² e pontua zero. Na de Isaltino, de 2,2 por 1,6 cm, o retângulo dá 3,52 cm² e a elipse 2,76 cm², as duas acima do corte. Escolha um método, escreva qual no prontuário e use o mesmo em todas as medidas, porque o que interessa é a comparação.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Lacuna que muda a classe do WIfI. A Tabela 9 da diretriz vascular gradua a isquemia pelo índice tornozelo-braquial — 0,80 ou mais, grau 0; de 0,60 a 0,79, grau 1; de 0,40 a 0,59, grau 2; 0,39 ou menos, grau 3 — sem dizer se o índice se calcula com a maior ou com a menor pressão do tornozelo, e o apêndice do IWGDF de 2023 manda usar a menor no diabético. As faixas fecham entre si, sem valor órfão com duas casas decimais; o que não fecha é o numerador. No caso resolvido deste capítulo, com pediosa de 60 mmHg, tibial posterior de 45 mmHg e braquial de 150 mmHg, o índice é 60 ÷ 150 = 0,40 pelo cálculo tradicional, grau 2, e 45 ÷ 150 = 0,30 pelo do IWGDF, grau 3. A mesma perna muda de grau conforme a divisão; anote as pressões, e não só o índice.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Divergência de duração que toca a amputação menor, e cuja decisão é do capítulo de osteomielite. Com cultura positiva na margem óssea depois de ressecção, a diretriz vascular de 2023 mantém seis semanas de antibiótico; o capítulo da SBD de 2026 tem recomendação específica para a amputação menor com margem positiva e fixa três semanas, e cinco dias depois de ressecção óssea completa. São documentos brasileiros de mesmo escopo, com três anos de diferença, e a diferença é de metade do tratamento. O capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético adota as três semanas de 2026, pela data, e faz a conta de uma recomendação do mesmo capítulo da SBD que destoa delas: a R17, que manda mais seis semanas quando o osso adjacente ao ressecado cresce agente.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Defeitos editoriais pequenos e verificáveis. No Manual de 2016, o Quadro 3.5, da classificação da Universidade do Texas, atribui a fonte a Armstrong e colaboradores, 1998, e a lista de referências do mesmo capítulo registra o artigo como de 1993, no volume 21 do periódico, com o título do periódico grafado "Diabete Care". No capítulo de infecção da SBD de 2026, o consenso internacional aparece duas vezes como "IWGDA/IDSA".
Aprofundamento documental — leitura complementar. O que o SUS fornece, conferido por busca exata no texto normalizado da Rename 2024. No Componente Básico: cefalexina 500 mg e suspensão de 50 mg/mL; amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg e suspensão de 50 mg + 12,5 mg/mL; clindamicina 150 e 300 mg; sulfametoxazol com trimetoprima 400 mg + 80 mg; ciprofloxacino 250 e 500 mg; metronidazol 250 e 400 mg; ceftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g. A Rename registra que a compra federal da clindamicina 300 mg é exclusiva para hidradenite supurativa moderada, e que a aquisição do Componente Básico cabe a estados e municípios. Só no Componente Estratégico: doxiciclina 100 mg, levofloxacino 250 e 500 mg, moxifloxacino 400 mg e linezolida 600 mg. Com zero no índice e zero no texto bruto — ausência verdadeira, e não problema de nome: piperacilina com tazobactam, ampicilina com sulbactam, ticarcilina com clavulanato, oxacilina, cloxacilina, cefuroxima, ceftazidima, ertapeném, meropeném, imipeném, vancomicina, teicoplanina e daptomicina. A Rename não explica esses zeros; a consequência prática é que o esquema parenteral da infecção grave internada depende do elenco do hospital.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferências que fecharam. O Quadro 2.1 e o Quadro 4.1 do Manual de 2016 dão as mesmas frequências de retorno para as mesmas categorias. Na diretriz vascular, as classes do SINBAD para comunicação, I e nível B, e para auditoria, IIa e nível C, são as mesmas no texto e na Tabela 12. O limiar de 2 °C da mesma diretriz fecha nas duas pontas do Charcot — aumento de 2 °C para atividade, diferença inferior a 2 °C para resolução —, sem valor que fique sem classe, embora o IWGDF de 2023 afirme que não há corte absoluto para definir remissão. A duração do antibiótico na infecção de partes moles é a mesma nos três documentos que a dão: uma a duas semanas, prolongáveis na infecção extensa, lenta ou com doença arterial grave. E as apresentações que o Manual de 2016 usa na infecção leve — cefalexina 500 mg, amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg e clindamicina 300 mg — são exatamente as da Rename 2024, o que a tabela de conversão acima confirma unidade por unidade.
A conduta, hora a hora
A conduta acompanha Isaltino Goulart, 61 anos, 84 quilos, diabetes tipo 2 há dezenove anos, com úlcera plantar sob a cabeça do primeiro metatarso direito aberta há três semanas por um sapato novo, infecção leve e glicemia de 312 mg/dL. Ele é o caso comum de propósito: é a úlcera que chega todos os dias, e é a que mais vira amputação quando recebe só antibiótico e curativo.
Duas advertências antes do primeiro marco. A primeira: a descarga é o tratamento da úlcera neuropática, e o antibiótico trata apenas a infecção — um sem o outro não fecha a ferida. A segunda: o prazo de 48 a 72 horas para rever a infecção leve é escolha deste capítulo, dentro da orientação do Manual do Pé Diabético de que a pessoa com úlcera instalada pode precisar de acompanhamento semanal ou até diário; nenhum dos documentos fixa o dia do primeiro retorno.
O tempo muda de unidade ao longo dos marcos: os primeiros são minutos do mesmo atendimento, os do meio são dias e semanas, e o último é o resto da vida daquele pé.
Minuto 0 — os dois pés descobertos, o sapato na mão e o evento que abriu a ferida
Você pede que ele tire os dois sapatos e as duas meias e deite na maca. O esparadrapo sai com a pomada e um pouco de secreção amarelada. No pé direito, o anel de calo sob a primeira cabeça metatarsiana cerca uma ferida que você ainda não consegue medir, porque o calo cobre a borda. No pé esquerdo não há ferida, mas há uma calosidade espessa no mesmo ponto e os dedos estão em garra nos dois lados; a pele das plantas é seca e o calcanhar tem fissuras. Você pede o sapato social: bico fino, palmilha dura, uma costura interna exatamente onde a ferida está. Pergunta como ele anda em casa — descalço ou de chinelo de dedo — e quanto caminha por dia: a padaria fica a oitocentos metros, ida e volta todas as manhãs. Temperatura de 36,8 °C, frequência cardíaca de 88, respiratória de 16, pressão de 146 por 88 mmHg. Ele está alerta, sem vômitos e sem dor abdominal, o que não afasta mas torna menos provável que os 312 mg/dL sejam uma crise hiperglicêmica — e essa pergunta vem antes de qualquer outra numa pessoa com diabetes e infecção.
Prescrição- Registrar: úlcera plantar sob a cabeça do primeiro metatarso direito, com calo em anel, aberta há três semanas após o uso de sapato social novo, indolor
- Registrar o pé esquerdo: calosidade sob a primeira cabeça metatarsiana, dedos em garra bilaterais, pele seca e fissuras no calcanhar, sem ferida
- Registrar sinais vitais e glicemia capilar, e perguntar ativamente por vômitos, dor abdominal e sonolência antes de atribuir a hiperglicemia apenas à infecção
- Separar o sapato que abriu a ferida e dizer ao paciente e à esposa que ele não volta ao pé
Minuto 10 — a perfusão, antes de qualquer lâmina
Antes de encostar a lâmina no calo, você precisa saber se esse pé tem sangue para cicatrizar, porque é isso que autoriza o desbridamento. Pediosa e tibial posterior são palpáveis nos dois pés, e o enchimento capilar é rápido. Pulso palpável não exclui doença arterial no diabético, então você usa o Doppler portátil da unidade: ondas bifásicas nas duas artérias do pé direito. As pressões são 150 mmHg na pediosa, 156 mmHg na tibial posterior e 142 mmHg na maior braquial. Pelo cálculo que o apêndice do IWGDF de 2023 usa no diabético, a menor pressão do tornozelo sobre a maior braquial, o índice é 150 ÷ 142 = 1,06. Onda bifásica e índice entre 0,9 e 1,3 tornam a doença arterial menos provável, e você escreve a conclusão por extenso. A técnica e a interpretação dessas medidas são do capítulo de doença arterial desta apostila; o que se leva daqui é que, sem esse registro, o desbridamento e a bota fechada seriam aposta. Para relacionar com o capítulo de DAOP: o ITB convencional usa a maior pressão do tornozelo e seria 156/142 = 1,10. O valor 1,06 acima usa explicitamente a menor pressão, como descrito no contexto específico da referência do pé diabético. Registre numeradores, denominador e método; não misture os dois cálculos nas comparações seriadas.
Prescrição- Palpar pediosa e tibial posterior nos dois pés e registrar a presença ou a ausência de cada pulso
- Registrar a onda ao Doppler nas artérias do pé e as pressões medidas, com o índice calculado pela menor pressão do tornozelo sobre a maior braquial
- Registrar: achados tornam DAOP menos provável, com predomínio neuropático da úlcera; não equivalem a exclusão definitiva. Reavaliar perfusão se a lesão não evoluir como esperado.
Minuto 20 — desbridar, medir, sondar, colher e classificar
Com a perfusão registrada, você apara o anel de calo e o tecido inviável com instrumental apropriado, por profissional capacitado, após testar sensibilidade e definir analgesia; ausência de dor referida não dispensa essa avaliação. A ferida real aparece: 2,2 por 1,6 cm, com fundo no subcutâneo, granulação em cerca de dois terços e esfacelo no resto, sem tendão nem cápsula à vista. A sonda romba estéril desliza pelo fundo e não toca osso nem articulação. Há eritema que se estende 1,5 cm a partir da borda medial, calor e uma pequena quantidade de pus depois do desbridamento; não há linfangite, crepitação nem flutuação. São três sinais inflamatórios com eritema de até 2 cm, restritos a pele e subcutâneo, sem resposta sistêmica: infecção leve, grau 2. Você limpa a base e colhe um fragmento de tecido por curetagem. O monofilamento não é percebido em nenhum dos três pontos do pé direito e em um dos três do esquerdo, e a vibração do diapasão está ausente nos dois háluxes: perda de sensibilidade protetora bilateral. Como a ferida é mais profunda que a pele, vai radiografia, que não mostra gás, corpo estranho nem alteração óssea.
Prescrição- Desbridamento por profissional capacitado após avaliar perfusão, extensão e necessidade de analgesia/anestesia. Neuropatia pode reduzir dor, mas não permite presumir ausência de sensibilidade em todo tecido.
- Medida após o desbridamento: 2,2 × 1,6 cm, profundidade até o subcutâneo; área pela fórmula da elipse, 2,76 cm², com o método escrito no prontuário
- Sondagem com sonda romba estéril: sem contato com osso ou articulação
- Fragmento de tecido da base da úlcera por curetagem, após limpeza, para Gram e cultura; não colher swab
- Monofilamento de 10 g em três pontos de cada pé e diapasão de 128 Hz no hálux, com resultado registrado por pé
- Radiografia simples do pé direito
- Registrar: infecção leve pelo sistema IWGDF/IDSA; SINBAD 3, com pontos em neuropatia, infecção e área
Hora 1 — onde ele vai ser tratado, e com qual antibiótico
A decisão de lugar é a que mais se discute neste caso, e o bloco de divergências a expõe inteira: o protocolo federal de 2026 manda a úlcera infectada para serviço de urgência, e o capítulo de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 aceita tratar a infecção leve em ambulatório. Isaltino já está no serviço de urgência, foi avaliado, desbridado, sondado e radiografado, e preenche as condições que este capítulo exige para voltar para casa: infecção leve, sem doença arterial, sem resposta sistêmica, com quem o ajude a não pisar, entendendo os sinais de retorno e com retorno garantido. O antibiótico da infecção leve sem uso recente de antibiótico sistêmico mira cocos gram-positivos, e a cefalexina está no Componente Básico da Rename 2024, na mesma dose que o Manual de 2016 prescreve. A pomada da vizinha sai: antibiótico tópico não trata infecção de ferida, e os documentos de 2023 e 2026 o desaconselham. A glicemia é problema real e tem capítulo próprio; ele sai com o registro do que usa e com revisão agendada na unidade básica.
Prescrição- Cefalexina 500 mg, 1 cápsula por via oral a cada 6 horas, por 7 dias, com reavaliação em 48 a 72 horas e extensão até 14 dias conforme a resposta
- Suspender a pomada de antibiótico e não aplicar antimicrobiano tópico na ferida
- Conferir o cartão vacinal e conduzir a profilaxia do tétano pelo capítulo próprio
- Registrar os antidiabéticos em uso e agendar revisão do esquema na unidade básica na mesma semana
- Orientar retorno imediato se houver febre, vermelhidão que avança, dor nova, secreção que aumenta, cheiro, pé frio ou glicemia muito acima do habitual
Hora 1 — tirar o peso do pé antes de ele descer da maca
Para a úlcera neuropática plantar do antepé, a primeira escolha de descarga é o dispositivo não removível na altura do joelho — o gesso de contato total ou a bota de descarga pré-fabricada tornada irremovível por quem a coloca —, com classe I e nível A na diretriz vascular e como preferência no resumo prático do IWGDF de 2023. A diretriz vascular admite considerá-lo mesmo com infecção leve, com classe IIb. Este capítulo escolhe a cronologia: hoje, bota removível na altura do joelho, usada o tempo todo, porque a infecção vai ser revista em 48 a 72 horas e a cultura está pendente; no retorno, com a infecção em resposta, a descarga passa a não removível. É escolha desta apostila, e a razão é poder olhar a ferida no terceiro dia. O que não é escolha: ele não volta para casa de sapato, sandália ou chinelo, porque o calçado convencional não é tratamento de descarga, e a diretriz vascular só o admite, com espuma feltrada, quando nenhum dispositivo existe.
Prescrição- Bota de descarga removível na altura do joelho, com palmilha de interface, usada o tempo todo, inclusive dentro de casa e para ir ao banheiro
- Muletas ou andador, com carga mínima no pé direito, e cadeira de rodas para distâncias
- Sem serviço que forneça dispositivo: espuma feltrada recortada sob a úlcera, dentro de calçado adequado, e o menor número de passos possível até o retorno
- No retorno de 48 a 72 horas, com a infecção em resposta: gesso de contato total por profissional treinado ou a mesma bota tornada irremovível com atadura ou gesso ao redor
- Encaminhar ao serviço de referência que confecciona gesso de contato total, se a unidade não o fizer
Dia 3 — a infecção respondeu, e agora a bota não sai
Isaltino volta no terceiro dia, de muletas. O eritema recuou para 0,5 cm da borda, não há pus, ele não teve febre e a glicemia da manhã está em 210 mg/dL. A cultura de tecido cresceu Staphylococcus aureus sensível a oxacilina. É a resposta esperada, e a conduta é manter o que funciona e fechar a bota. Se a resposta não tivesse vindo, a ordem de perguntas seria esta: ele usou a bota e tomou o antibiótico? existe coleção, osso ou outro germe? a infecção passou a moderada? E a resposta, conforme o caso, seria rever adesão, sondar de novo, pedir imagem, ajustar pela cultura ou internar para via venosa — nunca apenas trocar o antibiótico oral por outro mais largo.
Prescrição- Manter cefalexina até completar 7 dias, porque o eritema regrediu e não há secreção purulenta; estender até 14 dias se a resposta tivesse sido parcial
- Manter o antibiótico que a cultura confirma, sem ampliar espectro
- Aplicar gesso de contato total ou tornar a bota irremovível, com troca semanal e exame da pele do pé e da perna a cada troca
- Reclassificar se houver eritema >2 cm, extensão profunda ou falha. Internar diante de gravidade sistêmica, comorbidade relevante, isquemia, necessidade cirúrgica ou impossibilidade de cuidado ambulatorial; infecção moderada selecionada não exige automaticamente via IV.
Semanas 1 a 4 — a ferida, uma vez por semana
A cada semana o gesso é retirado, a ferida é limpa, o calo que tenta voltar à borda é aparado e a medida é refeita com o mesmo método. A cobertura é escolhida pelo leito e pelo exsudato, e essa escolha é ensinada no capítulo de lesão por pressão; o que é específico do pé diabético está no resumo prático do IWGDF: coberturas que controlem o excesso de exsudato e mantenham o leito úmido, lavar o pé sem deixar de molho, e não usar antissépticos tópicos nem coberturas antimicrobianas como rotina para cicatrizar. Na quarta semana a ferida mede 1,3 por 1,1 cm, com área de 1,12 cm² pela elipse: redução de 59% em relação aos 2,76 cm² iniciais, acima da marca de metade que o capítulo usa. Se não tivesse passado da metade, antes de trocar qualquer produto, a pergunta seria se a descarga está de fato no pé, se há infecção ou osso, e se a perfusão continua a mesma.
Prescrição- Troca semanal do gesso, com limpeza, desbridamento do calo e do esfacelo e medida pelo mesmo método
- Cobertura escolhida pelo leito e pelo exsudato, sem cobertura antimicrobiana de rotina
- Orientar lavar o pé sem deixar de molho
- Na semana 4, registrar a redução percentual da área; abaixo de 50%, rever descarga, infecção, osso e perfusão antes de trocar o curativo
Cicatrização e o resto da vida — o pé em remissão
Na nona semana a ferida está epitelizada. O resumo prático do IWGDF escreve a frase que organiza este marco: a pessoa com úlcera cicatrizada tem o maior risco de ulceração, e o pé deve ser considerado em remissão, com prevenção por toda a vida. Isaltino tem perda de sensibilidade e úlcera prévia: categoria 3 pela régua de 2026, exame dos pés a cada um a três meses. O calçado deixa de ser conselho e passa a ser prescrição: para úlcera plantar cicatrizada, calçado terapêutico com efeito demonstrado de alívio da pressão plantar durante a marcha, que o capítulo de prevenção da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda com classe I e informa ser oferecido pelo SUS mediante relatório do profissional e encaminhamento pela unidade básica — registrando também que a tecnologia para verificar a eficácia do calçado ainda não está disponível no SUS. A calosidade do pé esquerdo é lesão pré-ulcerativa e é tratada agora.
Prescrição- Registrar: pé direito em remissão, categoria de risco 3; primeiro retorno em 1 mês e exame dos pés pelo menos a cada 3 meses
- Relatório para calçado terapêutico e palmilha sob medida com alívio de pressão sob as cabeças metatarsianas, entregue à unidade básica
- Remoção da calosidade do pé esquerdo e tratamento das fissuras por profissional capacitado
- Educação com a esposa presente: inspeção diária das plantas e entre os dedos, nunca descalço nem só de meias, água abaixo de 37 °C, sem bolsa de água quente e sem calicida
- Se houver termômetro infravermelho em casa, orientar a medida diária e a procura da unidade quando a diferença entre pontos iguais dos dois pés passar de 2 °C por dois dias seguidos
Como saber se está funcionando
A úlcera do pé diabético se reavalia por comparação, e comparação exige a mesma régua: medida pelo mesmo método, localização descrita do mesmo jeito, fotografia do mesmo ângulo quando o serviço permite. Uma anotação como "ferida em melhora" não serve ao plantonista seguinte; "1,3 × 1,1 cm, elipse 1,12 cm², 59% menor que na primeira medida" serve.
Os parâmetros respondem em tempos diferentes. A infecção responde em dias, a área em semanas e a remissão em anos, e cada um tem a sua pergunta de falha. A marca que este capítulo usa para dizer que a ferida está respondendo é a redução de metade da área em quatro semanas, derivada do texto da diretriz vascular; ela não é prazo para trocar produto, é prazo para revisar a descarga, a infecção, o osso e a perfusão.
Esperado: Eritema recuando a partir da borda, com a medida anotada em centímetros; secreção purulenta ausente; calor e endurecimento diminuindo.
Se não melhora: Pergunte primeiro se o antibiótico foi tomado e se o pé ficou sem carga, porque infecção que não responde com o paciente andando sobre a ferida não é falha de antibiótico. Depois sonde de novo, procure coleção e osso — radiografia e, na dúvida de abscesso, ressonância — e ajuste pela cultura de tecido. Eritema além de 2 cm da borda, coleção ou estrutura profunda transformam a infecção em moderada: interne se houver comorbidade, isquemia ou necessidade cirúrgica.
Esperado: Afebril, sem critérios de resposta inflamatória sistêmica, glicemia capilar em queda em relação à da chegada.
Se não melhora: Dois critérios de resposta inflamatória sistêmica, contados como na Tabela 10 da diretriz vascular, fazem da infecção grave: internação, antibiótico parenteral, avaliação cirúrgica e pacote de sepse pelo capítulo próprio. Glicemia que sobe sem mudança de dieta ou de medicação deve fazer procurar infecção não controlada antes de mexer na insulina, e o IWGDF inclui a piora da hiperglicemia entre os sinais que o próprio paciente deve aprender a relatar.
Esperado: Redução de pelo menos metade da área em quatro semanas, medida pelo mesmo método; bordas avançando sobre o leito.
Se não melhora: Antes de trocar a cobertura, percorra quatro perguntas na ordem: a descarga esteve de fato no pé todos os dias? há infecção persistente? há osso? a perfusão mudou? Úlcera com doença arterial que não mostra sinais de cicatrização em quatro a seis semanas de tratamento ótimo pede angiografia, independentemente dos testes, pelo IWGDF de 2023. Sem infecção e sem isquemia grave, depois de quatro a seis semanas, o mesmo documento admite considerar tratamentos adjuvantes onde houver recursos, como a cobertura impregnada de octassulfato de sacarose na úlcera neuroisquêmica.
Esperado: Borda sem calo novo espesso; pele do dorso, dos maléolos, do calcanhar e da perna sem lesão atribuível ao dispositivo.
Se não melhora: Calo que volta à borda em uma semana é a prova de que a carga continua: o paciente está pisando, o dispositivo foi retirado ou não está distribuindo a pressão. Refaça a conversa sem julgamento e reavalie o dispositivo. Lesão nova sob o gesso é complicação do tratamento, e não motivo para abandoná-lo: proteja o ponto, refaça o gesso e reduza o intervalo de troca.
Esperado: Pulsos e ondas ao Doppler iguais aos registrados na chegada; sem dor em repouso, sem necrose nova, pé com a mesma temperatura.
Se não melhora: Pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, índice tornozelo-braquial abaixo de 0,4, pressão de dedo abaixo de 30 mmHg ou oximetria transcutânea abaixo de 25 mmHg mandam imagem vascular urgente e avaliação de revascularização pelo IWGDF de 2023, com o capítulo de doença arterial desta apostila. Dor súbita com palidez, frio e perda de pulso é outra doença, a oclusão arterial aguda, e o próximo passo é o telefone.
Esperado: Diferença de temperatura em relação ao mesmo ponto do outro pé caindo, edema diminuindo, sem fratura ou luxação nova ao filme.
Se não melhora: Mantenha a imobilização: enquanto houver inflamação clínica, a descarga continua, e isso pode levar muitos meses. A diretriz vascular usa a diferença inferior a 2 °C como marca de resolução; o IWGDF de 2023 afirma que não há corte absoluto e manda somar temperatura, edema e imagem antes de concluir remissão. Tire o dispositivo só com as três concordando, e aumente a carga aos poucos, porque a reativação é real.
Esperado: Calçado terapêutico prescrito em uso dentro e fora de casa, sem lesão pré-ulcerativa, sem calo espesso, pés inspecionados diariamente pelo paciente ou pela família.
Se não melhora: Lesão pré-ulcerativa — calo com sangue por baixo, bolha, fissura, unha encravada — é tratada no mesmo dia e encurta o intervalo de retorno. Calçado prescrito que não é usado não é falha do paciente até que se descubra por quê: machuca, é feio, não serve para o trabalho, não chegou. Úlcera nova reinicia o bloco de conduta desde o primeiro marco, incluindo a perfusão.
Onde o erro machuca
O dano: O swab da superfície cultiva o que mora na ferida, e toda úlcera aberta está colonizada. O resultado vem com três ou quatro germes, o esquema é ampliado para cobrir todos, e a pessoa acumula antibiótico, efeito adverso e resistência sem que a ferida mude, porque o que a mantinha aberta era a carga sobre ela. Na úlcera sem infecção, o antibiótico sistêmico ou tópico não acelera a cicatrização: os documentos de 2023 e 2026 o desaconselham com todas as letras.
Como pegar a tempo: Decida primeiro se há infecção, pelos sinais clínicos, antes de pensar em exame. Havendo, limpe, desbride e colha tecido da base por curetagem ou biópsia. Não havendo, não prescreva antibiótico, nem sistêmico nem tópico, e escreva no prontuário por que não prescreveu — é o que protege a próxima consulta de repetir o erro.
O dano: É o erro que mais produz meses de ferida aberta. Qualquer que seja a causa da úlcera, continuar andando sobre o pé insensível impede a cicatrização, como resume o IWGDF. A ferida encolhe na semana de repouso e reabre na semana de trabalho, a infecção volta pelo mesmo buraco, e o osso é alcançado sem que ninguém tenha errado o antibiótico.
Como pegar a tempo: Prescreva a descarga no mesmo dia em que prescreve o antibiótico, e com a mesma precisão: qual dispositivo, desde quando, para usar em que situações. Na úlcera neuropática plantar sem infecção moderada ou grave e sem isquemia grave, a primeira escolha é o dispositivo não removível na altura do joelho. Calçado convencional ou sandália não são tratamento de descarga.
O dano: No pé sem fluxo, a necrose seca e contida é, por ora, a única cobertura de um tecido que não tem como granular. Removê-la expõe um leito que não recebe sangue suficiente para granular e que agora recebe bactérias — e é assim que a perda de um dedo vira perda do antepé. Pela diretriz vascular, desbridamento extenso e amputação parcial do pé não devem ser feitos antes da revascularização no paciente com isquemia avançada, perda tecidual grave e sem infecção.
Como pegar a tempo: Perfusão antes da lâmina, sempre. Úlcera não infectada com sinais de isquemia grave não se desbrida, pelo IWGDF de 2023: mantenha a necrose seca e protegida e fale com o vascular. A exceção é a infecção grave: gangrena úmida, abscesso ou resposta sistêmica pedem drenagem e desbridamento de urgência antes da revascularização, que vem assim que a sepse estiver controlada.
O dano: A diretriz vascular registra erro diagnóstico em até 79% dos casos e atraso de até sete meses. Cada semana andando sobre o pé inflamado é uma semana de fraturas e luxações que não doem, e o resultado é o pé em mata-borrão, com proeminências ósseas novas onde as próximas úlceras vão nascer. Os ciclos de antibiótico ainda somam efeito adverso a uma doença que não tem bactéria.
Como pegar a tempo: Pé vermelho, quente e inchado, sem ferida, em pessoa com diabetes e neuropatia é Charcot ativo provável, e se imobiliza como tal enquanto outra hipótese não se confirma. Imobilize na altura do joelho na suspeita, antes de qualquer exame; peça radiografia dos dois pés, com carga quando possível, e ressonância se o filme for normal e a suspeita persistir. Não use proteína C reativa, hemossedimentação ou hemograma para confirmar ou excluir Charcot com pele intacta.
O dano: São dois erros de sequência com o mesmo desfecho. No pé isquêmico sem infecção grave, amputar acima do tornozelo sem estudar a circulação pode tirar uma perna que, revascularizada, cicatrizaria com uma amputação de dedo ou sem amputação. No pé com infecção grave, esperar a arteriografia para drenar deixa a infecção subir pelos compartimentos e troca a amputação menor possível hoje por uma maior amanhã.
Como pegar a tempo: Guarde a ordem das duas situações. Infecção grave, sobretudo com resposta sistêmica: drenagem e desbridamento de urgência, idealmente em até 24 horas, preservando toda pele viável; depois, estudo arterial e revascularização assim que houver estabilidade; por fim, a cirurgia definitiva. Isquemia sem infecção grave: revascularizar antes de desbridamento extenso ou amputação parcial, e, se se cogita amputação maior, considerar primeiro a revascularização, como manda o IWGDF de 2023.
O dano: A úlcera volta em cerca de 40% das pessoas no primeiro ano, 60% em três e 65% em cinco anos, pela estimativa do capítulo de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026. A pessoa que ouviu "curou" volta ao sapato que abriu a ferida, deixa de olhar a planta do pé e só retorna com a segunda úlcera, frequentemente mais funda que a primeira.
Como pegar a tempo: Use a palavra remissão, e explique o que ela quer dizer. Registre a categoria de risco 3, marque retorno de um a três meses, prescreva calçado terapêutico com alívio de pressão para a úlcera plantar cicatrizada, trate no mesmo dia qualquer lesão pré-ulcerativa e ensine a inspeção diária a quem mora com a pessoa.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo a conversa carrega metade do tratamento, porque a descarga, o calçado e a inspeção diária acontecem longe de quem prescreve. A pessoa que sai sem entender por que a bota não pode sair tira a bota na primeira noite, e a pessoa que ouve "curou" volta ao sapato que abriu a ferida.
Uma ideia atravessa as sete falas abaixo, e vale dizê-la com as palavras do paciente: o pé não avisa, então alguém precisa olhar por ele, e alguém precisa tirar o peso de cima dele.
Explicar por que a ferida não doeu
“"Seu Isaltino, o senhor não sentiu essa ferida porque o diabetes, com os anos, desligou o aviso de dor da planta do pé. Não é descuido: é que o pé parou de reclamar. Por isso uma costura do sapato conseguiu abrir a pele numa noite de festa sem o senhor perceber, e por isso o senhor continuou andando em cima dela três semanas. A partir de hoje, quem avisa são os olhos — os seus e os da sua esposa —, todo dia, olhando a sola e entre os dedos."”
Não diga: Evite "o senhor foi descuidado" e "é só uma feridinha". A primeira frase transforma um sintoma da doença em culpa, e culpa não faz ninguém usar bota. A segunda desmonta, logo no início, a urgência que o resto da conversa precisa sustentar.
Explicar a bota que não pode sair
“"O remédio cuida da infecção. Quem fecha a ferida é tirar o peso de cima dela. Cada passo que o senhor dá com esse pé no chão reabre o que tentou fechar durante a noite. Por isso a bota fica o tempo todo, inclusive dentro de casa e para ir ao banheiro de madrugada — é justamente nesses passos curtos, que parecem não contar, que a ferida abre de novo. Daqui a três dias, se a infecção estiver melhor, a gente troca por uma que não sai, e eu vou explicar o motivo."”
Não diga: Não diga "evite andar" nem "ande o mínimo possível": para quem não sente dor, ir à padaria é o mínimo possível. Diga o que usar, quando e onde. Também não prometa data de cicatrização; prometa a data da próxima medida.
Aposentar o sapato que abriu a ferida
“"Esse sapato não volta para o seu pé, nem para uma festa. Não é o preço dele, é o formato: o bico apertou os dedos e a costura ficou em cima do ponto que mais pisa. Quando a ferida fechar, o senhor vai precisar de um calçado feito para o seu pé, com palmilha que tire o peso daquela região, e eu vou fazer o relatório para a unidade básica encaminhar. Até lá, nada de chinelo de dedo e nada de andar só de meia."”
Não diga: Não diga "use um sapato confortável". Para um pé sem sensibilidade, confortável é o sapato apertado que não dói. Troque o adjetivo pela prescrição concreta: comprimento, largura, profundidade, palmilha e o que fazer até o calçado chegar.
O dia em que a ferida fecha
“"Fechou, e isso é muito trabalho seu. Mas eu não vou escrever que curou. Vou escrever que o pé está em remissão, porque ele continua sem sentir dor e com os mesmos pontos de pressão. Os estudos mostram que perto de quatro em cada dez pessoas voltam a ter ferida no primeiro ano. O que diminui essa conta é o calçado certo todos os dias, o olhar diário e a volta aqui a cada um a três meses, mesmo sem nada doendo — principalmente sem nada doendo."”
Não diga: Evite "agora está resolvido" e "pode voltar à vida normal". Evite também o número como ameaça: ele é dito para justificar o calçado e o retorno, e vem junto com o que a pessoa pode fazer para não fazer parte dele.
Dizer a Cacilda que não é infecção e que o pé vai ficar imobilizado
“"Dona Cacilda, os dois remédios não resolveram porque o problema não é infecção. Os ossos do meio do seu pé estão inflamados e frágeis, e, como o pé não sente dor direito, a senhora continua pisando neles. Se isso continuar, eles podem se deslocar e o pé perde o formato — e é aí que nascem as feridas. Por isso a sua perna vai ficar imobilizada até o joelho a partir de hoje, antes mesmo de todos os exames. E vou ser honesto: isso costuma levar meses, e a gente vai medir a temperatura do pé toda semana para saber a hora de tirar."”
Não diga: Não diga "é só uma inflamação" nem "em quinze dias melhora". A primeira frase autoriza a pessoa a continuar pisando, e a segunda produz o abandono da imobilização no primeiro mês, exatamente quando ela mais protege o pé.
Explicar a Zulmira e ao filho por que não mexer no dedo preto hoje
“"Esse dedo escuro e seco está, neste momento, protegendo o resto do pé. A senhora dorme sentada porque falta sangue no pé, e um pé com pouco sangue não tem como fechar uma ferida. Se a gente tirar essa parte preta agora, abre uma ferida que pode não fechar e pode infeccionar. Então hoje eu não vou cortar nada: vou proteger o dedo, manter seco, e pedir que o cirurgião vascular veja a senhora com urgência, para saber quanto sangue chega e se dá para melhorar isso antes de qualquer cirurgia."”
Não diga: Evite "vai ter que amputar" e "isso não tem jeito". A decisão sobre o dedo depende de uma avaliação que ainda não foi feita, e a frase dita antes dela é a que a família vai repetir. Evite também deixar a técnica limpar a necrose por boa vontade: diga em voz alta, na frente de todos, que ela não deve ser removida.
Falar da amputação menor que preserva o pé
“"A cirurgia que o cirurgião está propondo tira o dedo e o pedaço de osso que já morreu, e só isso. O objetivo é que o resto do pé continue vivo e que a senhora continue andando com ele. Esperar, nesse caso, não guarda o dedo: deixa a infecção ou a necrose subir. Depois da cirurgia, o outro pé passa a ser o pé mais importante da casa, e a gente vai cuidar dele como cuidamos deste."”
Não diga: Evite "mutilação", "perder o pé" e qualquer frase que confunda amputação de dedo com amputação da perna. Evite também decidir o nível pela família ou pela paciente: quem define onde cortar é o cirurgião, com a paciente, a partir da perfusão e da infecção; o seu papel é que ela entenda a proposta e as alternativas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Classificação da Universidade do Texas — Manual do Pé Diabético, Ministério da Saúde, 2016
O Manual recomenda o sistema da Universidade do Texas, que gradua a ferida de 0 a III pela profundidade — lesão epitelizada, superficial, com tendão ou cápsula, com osso ou articulação — e acrescenta os estágios A a D pela presença de infecção, de isquemia ou das duas, apoiado nas diretrizes canadense de 2013 e britânica de 2015. Registra que o sistema de Wagner, amplamente usado no passado, é desaconselhado pela diretriz britânica por ser simples demais. E usa os estágios e graus do Texas para organizar a rede: úlcera de estágio A, graus 0 a 2, na atenção básica; estágio C compartilhado com o cirurgião vascular; grau 3 com internação.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético: estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica. Brasília, 2016. ISBN 978-85-334-2361-9. Quadros 2.2 e 3.5.
SINBAD para descrever, IWGDF/IDSA para a infecção e WIfI com doença arterial — PCDT de diabetes tipo 2, 2026, e diretriz vascular, 2023
O protocolo federal de 2026 nomeia o escore SINBAD para avaliar a gravidade das feridas e o sistema WIfI para avaliar o risco de amputação em um ano, ao lado da estratificação de risco do IWGDF. A diretriz vascular de 2023 recomenda o SINBAD para classificar e comunicar entre equipes, com classe I e nível B; o sistema IWGDF/IDSA ou o WIfI para orientar a decisão clínica; o WIfI para estratificar risco de amputação e benefício de revascularização na úlcera com doença arterial, com classe I e nível B; e nenhuma classificação para prognóstico individual. Nenhum dos dois documentos adota o Texas como régua clínica, e nenhum adota o Wagner; o Texas sobrevive dentro do WIfI, cujo componente de ferida parte dele.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026, cuidado com os pés; Duarte Junior EG et al. Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023. J Vasc Bras. 2024;23:e20230087, Capítulo 3 e Tabelas 12 e 13.
Esta apostila adota o SINBAD com os seis itens escritos, a graduação IWGDF/IDSA para a infecção e o WIfI quando há doença arterial, e a régua de desempate decide sem precisar do terceiro degrau. Pelo escopo, os dois lados empatam: ambos foram escritos para a pessoa com diabetes e úlcera no pé. Pela data, o protocolo de 2026 vem dez anos depois do Manual. Pela natureza, se ainda houvesse empate, o protocolo é norma e o Manual é material de apoio. O lado perdedor fica no texto por dois motivos concretos: encaminhamentos antigos, prontuários e questões de prova ainda chegam escritos em Texas ou Wagner, e é preciso lê-los; e o Texas carrega uma informação útil, a exposição de tendão, cápsula ou osso, que o interno deve continuar descrevendo. O que muda na cabeceira é o que o prontuário precisa conter: o SINBAD obriga a registrar neuropatia, área e local, três dados que o Texas não pede e que são justamente os que decidem a descarga e o prognóstico da ferida. Com doença arterial, escreva também a profundidade, as pressões e o grau da infecção, que é o que o WIfI do cirurgião vascular vai precisar.
Encaminhar à urgência — PCDT de diabetes tipo 2, 2026
O protocolo determina que pacientes com úlcera infectada, infecção em processo de expansão, isquemia crítica do membro, gangrena, suspeita de artropatia de Charcot aguda ou edema e rubor não explicados do pé sejam encaminhados para a urgência de serviços com atenção imediata. O texto não gradua a infecção: a úlcera infectada, qualquer que seja o grau, está na lista. Acrescenta que a pessoa com úlcera do pé deve ser encaminhada a um nível mais especializado quando a atenção primária não dispuser de profissionais capacitados ou de equipamentos e materiais para o tratamento.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026, parágrafo sobre úlcera do pé diabético.
Tratar a leve em ambulatório — capítulo de infecção da SBD, 2026, e Manual do Pé Diabético, 2016
O capítulo de infecção da Sociedade Brasileira de Diabetes afirma que pessoas com infecção leve e moderada podem ser tratadas em ambiente ambulatorial, recomenda internação para as graves e para as moderadas com comorbidades relevantes, lista as indicações de hospitalização no Quadro 2 e manda tratar todas as infecções leves e a maioria das moderadas não complicadas, inicialmente, por via oral. O Manual de 2016 prevê, para a infecção leve, tratamento ambulatorial com antibiótico oral ou intramuscular na atenção básica.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico e tratamento da infecção no pé de pessoas com diabetes. Diretriz Oficial, edição 2026, DOI 10.29327/5881296.2026-9, recomendação R9 e Quadro 2; Manual do pé diabético, Ministério da Saúde, 2016, Quadro 4.6.
Esta apostila adota o tratamento ambulatorial da infecção leve, e a decisão vem do primeiro degrau da régua, o escopo. O capítulo da Sociedade Brasileira de Diabetes foi escrito para a infecção do pé da pessoa com diabetes, que é o paciente à sua frente; o protocolo de diabetes tipo 2 foi escrito para a doença inteira, e as regras de encaminhamento do pé ocupam um parágrafo dele. Régua específica vence régua geral, por mais federal que a geral seja. Há também uma leitura que aproxima os dois: o próprio protocolo condiciona o encaminhamento da úlcera à falta de profissional capacitado ou de material, e a lista de urgência funciona como porta para quem não pode graduar, desbridar, sondar e reavaliar. Por isso esta apostila escreve as condições: a infecção foi graduada como leve por quem desbridou e sondou; a perfusão está registrada e não há isquemia grave; não há critério de resposta sistêmica; a pessoa consegue ficar sem carga no pé e tomar o antibiótico oral; e o retorno em 48 a 72 horas está marcado. Faltando qualquer uma delas, vale a regra do protocolo e a pessoa vai para a urgência — e moderada com comorbidade, isquemia importante ou necessidade de cirurgia interna nas duas leituras.
Cobrir em clima tropical e na úlcera macerada — diretriz vascular, 2023
Segundo a diretriz, as diretrizes do IWGDF mandam que o esquema empírico tenha atividade contra Pseudomonas aeruginosa "para todos os países de clima tropical", porque ela aparece com frequência nas culturas desses lugares — sobretudo se a ferida esteve em contato repetido com umidade. A Tabela 14 dá, para infecção moderada ou grave com úlcera macerada ou clima quente, betalactâmico com inibidor de betalactamase, penicilina resistente à penicilinase associada a ceftazidima ou a ciprofloxacino, ou carbapenêmico; a Tabela 15 manda considerar a associação para Pseudomonas nas moderadas e graves.
Duarte Junior EG et al. Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023. J Vasc Bras. 2024;23:e20230087, Capítulo 5, Tabelas 14 e 15.
Cobrir quando já foi isolada, na recidiva, ou com exposição frequente a meio úmido — capítulo de infecção da SBD, 2026
O capítulo manda considerar, na escolha empírica, a terapia antibiótica prévia, a presença de bacilos gram-negativos em cultura anterior recente, a exposição frequente a meio úmido, associada à Pseudomonas aeruginosa, e o ambiente de origem com germes resistentes. Na recidiva de infecção de partes moles, recomenda considerar tratamento dirigido a Pseudomonas se ela já tiver sido isolada em processo anterior recente. A Tabela 2 do mesmo capítulo, porém, mantém uma linha "úlcera macerada ou clima quente", como a tabela vascular.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico e tratamento da infecção no pé de pessoas com diabetes. Diretriz Oficial, edição 2026, DOI 10.29327/5881296.2026-9, recomendação R10, Nota importante 6 e Tabela 2.
Esta apostila adota a regra do texto da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026, por dois degraus da régua. Pelo escopo, os dois documentos empatam: ambos tratam da infecção do pé diabético. Pela data, o de 2026 é três anos mais novo e prevalece. E o quarto degrau reforça a escolha dentro do próprio documento vencedor: a linha "clima quente" da Tabela 2, lida no Brasil, põe cobertura antipseudomonas em quase todo paciente e contradiz o texto do mesmo capítulo, e a mesma célula oferece contra Pseudomonas três cefalosporinas sem atividade contra ela, como o bloco de critério demonstra. A consequência na cabeceira: na infecção moderada ou grave, inclua cobertura contra Pseudomonas quando ela tiver sido isolada em cultura recente daquele pé, quando a infecção de partes moles for recidiva com esse isolamento, ou quando a úlcera estiver macerada numa pessoa com exposição frequente à água — quem trabalha molhado, quem deixa o pé de molho. Clima, sozinho, não é indicação. Em qualquer dos casos a cultura de tecido colhida antes da primeira dose decide o ajuste, e o esquema parenteral depende do elenco do hospital, porque as opções antipseudomonas venosas dos dois documentos não constam da Rename 2024.
O raciocínio, em voz alta
Zulmira Ribeirinho, 77 anos, 58 quilos, diabetes tipo 2 há vinte e cinco anos, hipertensão, doença renal crônica e tabagismo até os 60 anos. Chega ao pronto-socorro trazida pelo filho porque a metade distal do segundo dedo do pé esquerdo escureceu nas últimas três semanas. Há dois meses dorme sentada na poltrona, com a perna pendurada, porque deitada o pé dói; de dia anda dentro de casa. A necrose é seca, preta, dura, bem delimitada, com cerca de 1,5 por 1,2 cm, sem secreção, sem cheiro e sem vermelhidão em volta. Temperatura de 36,4 °C, frequência cardíaca de 76. A técnica de enfermagem já abriu o material de desbridamento.
o que eu faço antes de encostar em qualquer coisa
Peço que o material seja fechado e explico por quê, na frente da técnica e da família: essa necrose é seca, está contida e é, por ora, a única cobertura de um tecido que talvez não tenha sangue para cicatrizar. O resumo prático do IWGDF de 2023 é direto — úlcera não infectada com sinais de isquemia grave não se desbrida —, e a diretriz vascular acrescenta que desbridamento extenso e amputação parcial do pé não devem ser feitos antes da revascularização no paciente com isquemia avançada, perda tecidual grave e sem infecção. Antes de decidir qualquer coisa sobre o dedo, preciso saber quanto sangue chega ao pé.
o que eu vejo e o que eu apalpo, com ela deitada
Examino com ela deitada, e não sentada com a perna pendurada, porque a diretriz vascular avisa que a posição pendente engana sobre a perfusão. O pé esquerdo é mais frio que o direito, sem pelos, com unhas espessas; o enchimento capilar do hálux leva cerca de seis segundos; o pé empalidece quando levanto a perna e fica arroxeado quando ela a pendura. Os pulsos femorais são palpáveis, e os pedioso e tibial posterior esquerdos não. Não há ferida além do dedo, não há eritema, flutuação ou secreção. O monofilamento não é percebido em nenhum dos pontos dos dois pés: há também perda de sensibilidade protetora.
o que o Doppler e as pressões dizem
O Doppler mostra sinal monofásico na pediosa e na tibial posterior esquerdas. As pressões são 60 mmHg na pediosa, 45 mmHg na tibial posterior e 150 mmHg na maior braquial. Pelo cálculo que o IWGDF de 2023 usa no diabético, a menor pressão do tornozelo sobre a maior braquial, o índice é 45 ÷ 150 = 0,30; pelo cálculo tradicional, com a maior pressão do tornozelo, seria 60 ÷ 150 = 0,40. Aqui a diferença não muda a decisão, porque os dois critérios já disparam sozinhos: a pressão de tornozelo de 45 mmHg está abaixo de 50, que é o corte de imagem vascular urgente e avaliação de revascularização tanto no IWGDF de 2023 quanto na diretriz vascular de 2023.
que pé é este, e como eu o escrevo
É um pé neuroisquêmico, com perda de sensibilidade e doença arterial, e com perda de tecido. Não há infecção: nenhum dos sinais inflamatórios está presente, e a necrose seca e sem cheiro não é critério. A dor noturna que alivia com a perna pendurada, há mais de duas semanas, com pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg, preenche a definição de dor isquêmica em repouso que a diretriz vascular usa. Pelo WIfI, a gangrena limitada aos dedos é ferida de grau 2 e a ausência de infecção é grau 0. A isquemia depende do cálculo: a tabela reproduzida na diretriz vascular gradua pelo índice sem dizer como calculá-lo, e o índice de 0,30 é grau 3, enquanto o de 0,40 seria grau 2. Escrevo as pressões e o cálculo usado, para que quem ler faça a mesma conta. O capítulo de doença arterial desta apostila chama esse estado de isquemia crônica que ameaça o membro, e é ele que decide a pressa do que vem a seguir.
o que eu não faço hoje, e o que faço
Não desbrido, não amputo e não prescrevo antibiótico, porque não há infecção para tratar. Protejo o dedo com cobertura seca e não aderente, separando-o dos vizinhos, e oriento o filho a não molhar, não aquecer e não apertar o pé. Como ela vai passar mais tempo deitada, protejo os calcanhares, que o IWGDF manda proteger em quem fica acamado, ainda que por pouco tempo. Trato a dor com o que ela tolera e ajusto pela função renal — a analgesia e a escolha dos fármacos seguem os capítulos próprios —, porque dor em repouso não tratada é o que a mantém sentada com a perna pendurada e edemaciada.
o telefonema, e o que vai nele
Ligo para o cirurgião vascular hoje. A diretriz vascular recomenda tratar a úlcera com doença arterial em caráter de urgência e lembra que cada semana além de duas, entre achar a úlcera e revascularizar, pesa contra o membro. No telefonema vão os dados de que o WIfI é feito — gangrena seca da metade distal do segundo dedo, pressões de 60 e 45 mmHg com braquial de 150, sinal monofásico, ausência de infecção —, a dor em repouso há dois meses e a doença renal crônica com a creatinina do dia, porque o exame de imagem arterial que eles escolherem pode usar contraste. A escolha do exame e do método de revascularização é deles.
o que acontece se a circulação puder ser restaurada
O objetivo da revascularização, pela diretriz vascular, é restaurar fluxo direto para ao menos uma artéria do pé, de preferência a que irriga a região da lesão, e a eficácia se confere com medida objetiva — pressão de dedo acima de 30 mmHg, oximetria transcutânea acima de 25 mmHg ou pressão de perfusão cutânea acima de 40 mmHg, a oximetria preferencialmente uma a três semanas depois. Com o fluxo restaurado, a amputação do dedo necrosado é planejada no nível que a nova perfusão permitir cicatrizar, porque a perfusão é o principal parâmetro para escolher o nível. Depois, o pé esquerdo passa à categoria de risco 3, com retorno a cada um a três meses e calçado que acomode o pé sem o dedo, e o direito ganha a mesma atenção.
o que acontece se não houver revascularização possível
A diretriz vascular registra que cerca de 25% das pessoas com úlcera isquêmica não têm opção de revascularização, com amputação maior em 25% a 50% delas, e também que até metade das pessoas com úlcera e doença arterial pode cicatrizar sem revascularizar. Ela lista quem não é candidato — fragilidade importante, baixa expectativa de vida, estado funcional ruim, acamado, destruição de tecido que torna o pé inviável, incapacidade de reabilitação — e manda decidir entre amputação primária e abordagem paliativa junto com a paciente e a equipe multidisciplinar. Essa decisão não é do interno. O que é dele é garantir que a dor esteja controlada, que o dedo continue protegido e que Zulmira e o filho saibam que há uma decisão sendo tomada com eles, e não por eles.
Faça você
Miguelina Bomfim, 58 anos, 92 quilos, diabetes tipo 2 há doze anos, em uso de insulina NPH. Trabalha numa lavanderia industrial, com calçado de borracha que passa o dia molhado. Há duas semanas tem uma ferida macerada entre o quarto e o quinto dedos do pé direito, que tratou com talco. Há três dias o pé inchou; hoje o dorso está vermelho até o tornozelo, a 9 cm da borda da ferida, há uma bolha escura no dorso do quarto dedo, secreção acinzentada e fétida, e a palpação do dorso do antepé crepita. Temperatura de 38,9 °C, frequência cardíaca de 118, respiratória de 24, pressão de 96 por 58 mmHg. Leucócitos de 19.800, com 14% de bastões; glicemia de 486 mg/dL; creatinina de 1,6 mg/dL. Pediosa e tibial posterior são palpáveis, com sinal bifásico ao Doppler, e o monofilamento não é percebido nos dois pés. A radiografia mostra gás em partes moles do dorso e da planta do antepé, sem destruição óssea visível.
que grau de infecção é este, e por quê
Conte os critérios de resposta inflamatória sistêmica como a Tabela 10 da diretriz vascular os conta — frequência respiratória ou PaCO2 como um critério, leucócitos altos, baixos ou com formas jovens como outro — e diga quantos ela tem.
o que o gás e a crepitação mudam no relógio
Diga quem precisa ser chamado agora, em quanto tempo a diretriz vascular quer a drenagem, e por que nenhum exame deve ficar na frente disso.
o que conferir antes do centro cirúrgico, sem atrasar o centro cirúrgico
Três perguntas cabem na mesma meia hora: há doença arterial que mude a ordem das coisas? há uma crise hiperglicêmica escondida atrás da glicemia de 486? o que precisa ser colhido antes da primeira dose?
que antibiótico começa, e com que cobertura
Decida a via, o espectro, se há indicação de cobrir anaeróbios e Pseudomonas pela régua deste capítulo, e o que a Rename 2024 oferece para isso.
o que a primeira cirurgia faz, e o que ela ainda não decide
Separe o objetivo da operação de hoje da decisão sobre o nível definitivo, e diga que pele deve ser poupada.
o que vem depois que a infecção estiver controlada
Ordene a transição do antibiótico, a duração, a cobertura da ferida, a descarga do pé operado e o que muda na vida desse pé e do outro.
Continuidade do caso e prática do internato
Apresente Isaltino e Miguelina com os mesmos quatro eixos — infecção, perfusão, proteção e pressão — e explique por que o local e a urgência do cuidado diferem.
Questão integrativa 1
A úlcera é indolor. Isso reduz sua gravidade?
Questão integrativa 2
Pulsos palpáveis e ITB normal excluem DAOP no diabetes?
Questão integrativa 3
Toda cultura positiva justifica antibiótico?
Questão integrativa 4
Eritema passou de 1,5 para 2,5 cm, sem instabilidade. A via IV é obrigatória?
Questão integrativa 5
Necrose seca e isquemia, sem infecção, devem ser desbridadas imediatamente na consulta?
Questão integrativa 6
A lesão fechou após descarga. Por que o acompanhamento continua?
Ver como fecharíamos
Passo 1. É infecção grave. Ela tem febre acima de 38 °C, frequência cardíaca acima de 90, frequência respiratória acima de 20 e leucócitos acima de 12.000 com formas jovens — quatro critérios de resposta inflamatória sistêmica contados como a Tabela 10 os conta, quando dois bastariam. Com a hipotensão, é também uma pessoa com suspeita de sepse, e o pacote inicial é conduzido pelo capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais. Passo 2. Crepitação e gás na radiografia são infecção profunda com necrose até prova em contrário, e a decisão que salva o pé e a vida é cirúrgica. O cirurgião é chamado agora. A diretriz vascular quer a drenagem e a descompressão de urgência, idealmente em até 24 horas, e neste pé, com gás, sepse e progressão em três dias, o prazo é o do centro cirúrgico disponível mais cedo. Nenhum exame fica na frente disso: tomografia ou ressonância para mapear o gás não mudam a indicação e só atrasam. Passo 3. A perfusão já está registrada: pulsos palpáveis e sinal bifásico, sem doença arterial evidente, e por isso não há motivo para esperar avaliação vascular antes de drenar — se houver isquemia associada, chamar também o vascular para coordenar a sequência. O controle urgente do foco não espera exames eletivos, mas a avaliação para revascularização começa em paralelo e o momento é individualizado. A glicemia de 486 com frequência respiratória de 24 obriga a procurar cetoacidose antes de atribuir tudo à sepse — gasometria e cetonemia, com a conduta do capítulo Cetoacidose diabética — e a insulina da internação segue o capítulo de hiperglicemia hospitalar. As hemoculturas são colhidas antes da primeira dose se isso não causar atraso relevante no tratamento, e as culturas de tecido profundo e de osso, se houver, são colhidas no centro cirúrgico; swab da secreção não serve. Passo 4. Via venosa e amplo espectro para gram-positivos, gram-negativos e anaeróbios obrigatórios, como pede o IWGDF de 2023 para a infecção profunda ou extensa: há necrose, gás e secreção fétida, e anaeróbio é alvo certo. A necessidade de cobrir Pseudomonas depende de culturas prévias, exposição, gravidade e epidemiologia local; maceração e clima isolados não são uma regra universal. O esquema empírico deve ser revisto com a comissão de infecção e descalonado pelo resultado e pela evolução. As opções venosas com esse espectro que os documentos listam — piperacilina com tazobactam, carbapenêmicos — têm acesso e apresentação que devem ser conferidos com a farmácia hospitalar; o esquema é definido com a comissão de controle de infecção, com dose ajustada à creatinina e revisão pela cultura em 48 a 72 horas. Passo 5. A primeira cirurgia é de controle da infecção: abrir os compartimentos acometidos, drenar, remover todo tecido necrótico e infectado — incluindo o dedo e o osso que estiverem inviáveis — e deixar a ferida aberta. A diretriz vascular pede que se preserve toda a pele viável, mesmo em posição não anatômica, porque ela pode cobrir a ferida numa operação futura. O nível definitivo não se decide hoje: decide-se quando a infecção estiver controlada, pelo tecido que sobrou e pela perfusão, que é o principal parâmetro para escolher o nível. Amputação maior não é o objetivo desta operação num pé bem perfundido, e, se um dia for cogitada, o IWGDF manda considerar antes a revascularização. Passo 6. Com a febre cedendo, o eritema recuando e a pessoa estável, o antibiótico passa para a via oral pela cultura. Na infecção de partes moles a duração é de uma a duas semanas, prolongável a três ou quatro se a infecção for extensa ou lenta; se houver osso, a duração e a leitura da margem óssea são do capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético. A ferida operatória limpa segue o raciocínio de cobertura do capítulo de lesão por pressão, e o fechamento, com retalho ou enxerto quando necessário, o do capítulo Retalhos e enxertos de pele (princípios); o IWGDF considera a terapia por pressão negativa para ajudar a cicatrizar a ferida pós-operatória. O pé operado não pisa: a descarga continua depois da cirurgia. E, ao fim, Miguelina sai com duas mudanças que não são opcionais: o pé direito, com amputação e perda de sensibilidade, entra na categoria de risco 3, com retorno a cada um a três meses e calçado que acomode o pé operado; e o calçado de borracha molhado deixa de ser o calçado de trabalho, o que exige relatório para o trabalho, e não só para a farmácia. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A neuropatia retira a proteção da dor. Perfusão, profundidade, infecção e estado geral determinam risco e urgência. 2. Não. Integre ondas, pressões digitais e evolução. A calcificação pode elevar o índice; uma ferida que não cicatriza exige nova avaliação mesmo após exame inicial favorável. 3. Não. Úlcera sem infecção clínica não deve receber antibiótico apenas por colonização. Nos casos infectados, amostra de tecido apropriada ajuda a escolher e reduzir espectro. 4. Não automaticamente. Reclassifique como possível infecção moderada, procure profundidade, abscesso, isquemia, comorbidades e falha de acesso/adesão; esses dados orientam internação e via. 5. Não. Proteja e discuta perfusão e estratégia vascular. O caso é diferente de necrose úmida ou foco séptico que exige controle urgente. 6. A neuropatia e a distribuição de pressão permanecem. Calçado terapêutico, inspeção, cuidado profissional dos calos e retorno programado reduzem recorrência; a cicatrização representa remissão.
É um pé neuroisquêmico com perda de tecido e dor em repouso, e a pressão de tornozelo de 42 mmHg, abaixo de 50, é critério de imagem vascular urgente e avaliação de revascularização tanto no IWGDF de 2023 quanto na diretriz vascular brasileira. Úlcera ou necrose sem infecção com sinais de isquemia grave não se desbrida: o IWGDF escreve isso na avaliação inicial, e a diretriz vascular acrescenta que desbridamento extenso e amputação parcial do pé esperam a revascularização quando há isquemia avançada e perda tecidual sem infecção. Não há sinal inflamatório, e necrose seca sem odor não é critério de infecção, por isso não há antibiótico a iniciar. A imagem arterial vem da decisão do cirurgião vascular, e não na frente do contato com ele; o atraso de mais de duas semanas entre o diagnóstico e a revascularização aumenta o risco de perder o membro.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, guarde a ordem e as três travas. A ordem: dois sapatos e duas meias fora; procurar o ataque do pé; perfusão antes da lâmina; desbridar, medir e sondar; graduar a infecção; escrever o SINBAD com os seis itens; decidir o lugar; tirar o peso do pé no mesmo dia; marcar os retornos. As travas: úlcera sem infecção com sinais de isquemia grave não se desbrida; úlcera neuropática não se trata sem descarga, e calçado convencional não é descarga; e pé vermelho, quente e inchado, sem ferida, em quem tem neuropatia, é Charcot provável e se imobiliza na suspeita. Guarde também os números que mudam a hora: dois critérios de resposta inflamatória sistêmica fazem a infecção grave; eritema a mais de 2 cm da borda ou estrutura profunda a fazem moderada; índice menor que 0,4, pressão de tornozelo menor que 50 mmHg, oximetria transcutânea menor que 25 mmHg ou pressão de dedo menor que 30 mmHg pedem o vascular com urgência; e metade da área em quatro semanas é a marca de resposta.
Em 30 dias
Trinta dias depois, guarde as réguas e o que elas substituíram. Para descrever a ferida, o protocolo federal de diabetes tipo 2 de 2026 nomeia o SINBAD e o WIfI; o Texas do Manual de 2016 e o Wagner dos livros antigos ficam para ler encaminhamentos, não para escrever prontuário. Para o pé em risco, a tabela do IWGDF de 2023, adotada pelo mesmo protocolo, substitui a do Manual: categoria 3, com úlcera ou amputação prévia e perda de sensibilidade ou doença arterial, volta a cada um a três meses pela vida inteira. Depois, faça um exercício com cinco prontuários de pessoas com úlcera no pé atendidas no seu serviço e responda, para cada um: há registro de perfusão antes do desbridamento? o SINBAD tem os seis itens? a cultura foi de tecido ou de swab? havia descarga prescrita com nome e tempo de uso? depois da cicatrização, alguém escreveu a categoria de risco e fez o relatório do calçado? O número de respostas negativas é o tamanho do trabalho do seu serviço.
Agora atenda
Agora vá para a estação e receba uma pessoa com diabetes que veio por causa de uma ferida no pé que não dói. Antes de qualquer pergunta sobre a ferida, peça que ela tire os dois sapatos e as duas meias, e diga em voz alta o que procura: planta, calcanhares, espaço entre os dedos e o interior do sapato. Pergunte pelo evento que abriu a pele e por quanto ela anda. Avalie a perfusão antes de propor desbridamento, e diga o que faria se os pulsos não estivessem palpáveis. Gradue a infecção pelos sinais e pela profundidade, e descreva a ferida pelos seis itens do SINBAD. Decida onde ela será tratada e justifique. E, na hora de orientar, não saia da sala sem prescrever a descarga com o mesmo cuidado com que prescreveu o antibiótico — e sem explicar por que o sapato que abriu a ferida não volta ao pé.
