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Cirurgia GeralCirurgia Vascular

Trombose venosa profunda

Estimar a probabilidade, escolher e interpretar a imagem, avaliar sangramento e organizar anticoagulação e acompanhamento sob supervisão. A demora do exame faz parte da decisão sobre o tratamento provisório.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular — Sobreira ML, Marques MA, Paschoa AF, et al. Diretrizes sobre trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. J Vasc Bras. 2024;23:e20230107. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202301071

Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Colégio Brasileiro de Radiologia, Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular e Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear — Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857. https://doi.org/10.36660/abc.20220213

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

European Medicines Agency. Eliquis (apixabano): resumo das características do medicamento (informação do produto em português). Autorização EU/1/11/691

Schouten HJ, Geersing GJ, Koek HL, et al. Diagnostic accuracy of conventional or age adjusted D-dimer cut-off values in older patients with suspected venous thromboembolism: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2013;346:f2492. https://doi.org/10.1136/bmj.f2492

01

Responda antes de ler

Mulher de 34 anos com panturrilha direita vermelha, quente e dolorosa há dois dias, com fissura interdigital descamativa no mesmo pé. Não tem câncer, não teve cirurgia nem imobilização, não ficou acamada e nunca teve trombose. Há dor à palpação da panturrilha e cacifo apenas do lado direito; não há edema de todo o membro nem veias colaterais. As panturrilhas medem 36 cm à direita e 35 cm à esquerda, dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia. Qual o escore de Wells e a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, enfermaria de clínica médica, dez e meia da manhã. Duas pernas esperam por você, e as duas incham.

A primeira é a do leito 7. Dona Sueli tem 34 anos, entrou ontem à noite pelo pronto-socorro e a panturrilha direita dela está vermelha, quente, brilhante e dolorida há dois dias. Ela pisa e faz careta. O plantonista da noite escreveu na evolução "suspeita de TVP — solicito Doppler" e sublinhou duas vezes. A enfermeira já colocou a perna elevada em dois travesseiros e disse à paciente que ela não pode levantar. A mãe está do lado da cama e pergunta se é aquilo que mata.

A segunda é a do leito 12, e ninguém escreveu nada sobre ela. Dona Cleuza tem 68 anos, 74 quilos, adenocarcinoma de cólon em quimioterapia, e está internada há quatro dias para controlar náusea e desidratação depois do último ciclo. A coxa esquerda dela está maior que a direita. Não está vermelha, não está quente, e ela não reclamou — reclamou de "peso na perna", que numa paciente em quimioterapia com náusea há uma semana soa como mais um sintoma de estar mal. A filha comentou de passagem que a calça do pijama está apertando de um lado só. Quando você mede as duas panturrilhas com a fita, dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia, a esquerda tem quatro centímetros e meio a mais.

Este capítulo é sobre a distância entre essas duas pernas. A do leito 7 tem tudo o que se aprende a associar à trombose e provavelmente não é trombose. A do leito 12 não tem quase nada disso e é. E o que separa uma da outra não é um exame: é uma conta que você faz antes de pedir qualquer exame, com dados que já estão na sua mão.

Existe uma ordem, e ela não é negociável. Primeiro se estima a probabilidade de a doença estar ali. Só depois se escolhe o exame — porque qual exame pedir depende dessa estimativa. E só então se interpreta o resultado — porque o mesmo resultado significa coisas opostas conforme a probabilidade de onde ele partiu. Um dímero-D negativo em dona Sueli encerra a investigação. O mesmo dímero-D negativo em dona Cleuza não vale nada, e pedi-lo só adiaria o ultrassom em algumas horas — horas em que o trombo continua subindo pela veia femoral. Inverter essa ordem é o erro que produz, ao mesmo tempo, o paciente anticoagulado sem doença e o paciente que vai para casa com trombo.

Ao fim do capítulo você vai ter feito, nas duas pacientes, exatamente o que o interno faz de verdade: somar o escore com os dados que você mesmo colheu, pedir o exame certo na ordem certa, checar contraindicação antes da primeira dose, prescrever com dose calculada pelo peso e volume conferido na seringa, dizer o que fazer com a perna e com a caminhada, e marcar o retorno que vai decidir por quanto tempo essa pessoa toma anticoagulante.

03

Quem adoece disso

O primeiro número que muda o seu comportamento não é de incidência — é de confirmação. Em 489 pacientes consecutivos avaliados por suspeita clínica de trombose venosa profunda num serviço universitário brasileiro, a doença foi confirmada em 39,1%. Seis em cada dez pernas que fizeram alguém escrever "suspeita de TVP" no prontuário não tinham trombose. Isso não é falha de quem suspeitou: é a natureza do problema. Dor, edema, calor e empastamento são a resposta final de uma perna a muitas agressões diferentes, e a trombose é só uma delas. Daí a consequência prática: a suspeita clínica isolada não autoriza tratar, e também não autoriza dispensar. Ela autoriza calcular.

O mesmo estudo brasileiro mostra o que a conta faz com esses 39%. Estratificados pelo escore de Wells, os pacientes de baixa probabilidade tiveram trombose em 6,1% dos casos, os de probabilidade moderada em 26,9% e os de alta probabilidade em 79,5%. Uma casuística polonesa de 1.048 pacientes na atenção primária encontrou a mesma escada com degraus ainda mais separados: 0,15% na baixa probabilidade, 6,29% na moderada e 40% na alta. Em qualquer dos dois cenários, o mesmo quadro clínico bruto se desdobra em três populações distintas — e é por isso que o exame que serve para uma delas é inútil nas outras.

A doença que se está procurando não é benigna. Entre 5% e 15% dos pacientes com trombose venosa profunda não tratada morrem de embolia pulmonar, e o risco de recorrência ao longo do tempo chega a 25%. Em membros inferiores estão 80% a 95% dos casos. A divisão topográfica que importa é simples: proximal quando acomete veia ilíaca, femoral ou poplítea; distal quando fica abaixo da poplítea. A proximal embolia mais e deixa mais sequela — mas até 20% das distais progridem para segmento proximal, o que faz com que o diagnóstico e o tratamento de uma se pareçam com os da outra.

No Brasil, o número registrado depende de quem procura. Um levantamento em base do DATASUS entre 2011 e 2014 comparou sete estados do Nordeste com três do Sul e encontrou medianas de 0,53 caso por 100.000 habitantes no Nordeste contra 2,82 por 100.000 no Sul — cinco vezes mais em regiões mais frias, com correlação estatisticamente significativa com temperaturas mais baixas. Os dois números ficam ordens de grandeza abaixo da estimativa populacional de 2 casos por 1.000 indivíduos ao ano que a diretriz brasileira cita, e essa distância entre o esperado e o registrado tem um nome clínico: subdiagnóstico. A leitura de beira de leito é direta — se a trombose aparece pouco no seu serviço, a hipótese mais provável não é que ela não aconteça ali; é que as pernas do leito 12 não estão sendo medidas.

Um último dado desloca a suspeita para dentro do hospital, e não para fora. A incidência de tromboembolismo venoso em pacientes hospitalizados sem tromboprofilaxia é de 14,9%. Quem adoece disso, portanto, está com frequência deitado a três leitos de você, internado por outra coisa, com uma perna que ninguém desnudou desde a admissão. Câncer em atividade, idade acima de 65 anos, cirurgia recente, imobilização, gravidez e puerpério, uso de estrogênio, obesidade, síndrome nefrótica, doenças mieloproliferativas e trombofilias hereditárias ou adquiridas compõem a lista de risco — e cada um desses itens é uma pergunta de anamnese, não um exame.

04

Por que acontece o que acontece

Três coisas fazem trombo em veia, e as três estão na tríade que Virchow descreveu: estase do sangue, lesão do endotélio e hipercoagulabilidade. Não é decoração histórica — é a régua que transforma a história do paciente em probabilidade. A viagem de ônibus de vinte e seis horas é estase. O cateter na veia é lesão endotelial. O adenocarcinoma é hipercoagulabilidade, porque a célula tumoral expressa fator tecidual e micropartículas pró-coagulantes que ligam a cascata sem que haja ferida nenhuma. Quando você pergunta por imobilidade, por acesso venoso e por câncer, está medindo os três vértices, um a um.

O trombo venoso começa nos bolsos das válvulas, onde o fluxo redemoinha e fica mais lento, e é rico em fibrina e hemácias — vermelho, e não branco como o trombo arterial de plaqueta. Essa composição explica duas coisas do capítulo inteiro. Explica por que o tratamento é anticoagulante e não antiagregante: o alvo é a cascata da coagulação, não a plaqueta. E explica por que o dímero-D existe: à medida que a plasmina começa a digerir a fibrina já estabilizada, ela libera fragmentos com ligação cruzada, e o dímero-D é a medida desses fragmentos no plasma.

Daí vem a virtude e o defeito do exame na mesma frase. A virtude: praticamente toda trombose aguda em atividade está degradando fibrina, então a sensibilidade fica em torno de 95%, e um valor baixo é difícil de conciliar com trombo grande e recente. O defeito: qualquer outra situação que faça e desmanche fibrina também eleva o marcador — cirurgia, trauma, infecção, gestação, câncer, inflamação, internação. A especificidade cai para a faixa de 40%. E como a fibrina fisiológica de reparo aumenta com a idade, o corte fixo perde utilidade justamente em quem mais tem trombose: acima dos 80 anos, o corte de 500 mcg/L tem especificidade de 14,7%, o que significa que quase todo idoso testado sai com exame alterado.

A perna incha porque o retorno venoso foi obstruído, não porque "há inflamação". Com a via de drenagem fechada, a pressão sobe a montante, o gradiente de filtração capilar se inverte e o líquido vai para o interstício. É por isso que o edema é depressível, é por isso que ele é unilateral e é por isso que a diferença de circunferência entre as duas panturrilhas — medida com fita, dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia — é um dado objetivo e não uma impressão. A dor vem da distensão e da inflamação da parede venosa. As veias superficiais dilatadas e não varicosas que aparecem na coxa são a rede colateral abrindo para desviar o sangue do segmento ocluído: um sinal tardio, e por isso mesmo específico.

A embolia pulmonar é o mesmo trombo em outro lugar. O fragmento que se solta segue a corrente pela ilíaca, pela cava e pelo coração direito até encravar na artéria pulmonar. O calibre do vaso de origem decide o tamanho do êmbolo, e é essa a razão de a trombose proximal ser mais perigosa que a distal — e de o achado de trombo flutuante em ilíaca ou femoral mudar o tom da conversa. Quando a embolia obstrui território suficiente, a resistência vascular pulmonar sobe, o ventrículo direito, que é uma câmara de parede fina feita para trabalhar contra pressão baixa, dilata e falha; o débito do ventrículo esquerdo cai por falta de enchimento, e a queda de pressão reduz a perfusão coronariana do próprio ventrículo direito, que falha mais. É esse círculo que mata em minutos, e é por isso que dispneia súbita, dor pleurítica, taquicardia inexplicada, síncope ou hipoxemia num paciente com perna inchada não são "mais um sintoma": são a mudança de urgência.

No outro extremo do espectro, quando a oclusão é maciça e toma todo o eixo de drenagem do membro, a pressão venosa sobe tanto que passa a se opor à entrada do sangue arterial. O membro fica tenso, cianótico, com bolhas, e a perfusão arterial começa a falhar dentro de uma doença que é venosa — a flegmasia cerúlea dolens. A sequência é hipertensão venosa maciça, colapso da microcirculação, isquemia e gangrena venosa, com sequestro de volume suficiente para produzir choque. Entender esse mecanismo é o que impede o erro de tratar uma perna azul, tensa e gelada como "trombose comum" e deixá-la para o Doppler de amanhã.

Por fim, o mecanismo que explica a sequela e, com ela, metade das orientações de alta. O trombo organiza e recanaliza de forma incompleta; as válvulas do segmento acometido são destruídas no processo. O resultado é um sistema que soma obstrução residual e refluxo, com hipertensão venosa crônica ao ficar de pé — dor, edema que piora ao longo do dia, pigmentação ocre e, na ponta pior, úlcera. É a síndrome pós-trombótica, que aparece em 30% a 50% dos pacientes, sendo grave em 5% a 10%. Ela também esclarece por que o anticoagulante não é um dissolvente: ele impede que o trombo cresça e que novos se formem, enquanto a fibrinólise endógena faz o trabalho de desmanchar o que já existe. Quem espera o edema sumir em 48 horas com heparina está esperando de uma droga algo que ela não faz.

Ilustração longitudinal de veia profunda com trombo aderido próximo às valvas; pequeno painel localiza a veia entre tecidos da perna.
O trombo venoso pode se iniciar em regiões de estase junto aos seios valvares e se estender ao longo da veia. A figura ilustra um mecanismo possível e sua localização, sem afirmar que todo trombo tenha a mesma origem ou direção de crescimento. Não é exame diagnóstico.
05

Como se apresenta de verdade

O livro descreve dor, edema, empastamento, calor, cianose e dilatação venosa superficial. A enfermaria entrega esses achados picados, incompletos e trocados de lugar. Nenhuma avaliação clínica isolada diagnostica nem descarta trombose — os achados se correlacionam com a doença em cerca de metade dos casos —, e é essa taxa de acerto que obriga a somar o quadro num escore em vez de decidir pelo olho.

Cena simulada de comparação das panturrilhas com fitas colocadas na mesma altura anatômica, sem valores numéricos legíveis.
A comparação exige o mesmo ponto de referência e técnica nos dois membros. No escore de Wells, a medida é feita 10 cm abaixo da tuberosidade tibial; diferença de pelo menos 3 cm é um dos critérios. Esta imagem simulada não comprova essa diferença nem diagnostica TVP isoladamente.

A forma que se reconhece

Edema unilateral de instalação em dias, com aumento mensurável da circunferência, dor que piora ao ficar de pé e ao caminhar, empastamento da musculatura da panturrilha à palpação e, quando há oclusão proximal extensa, edema que sobe até a raiz da coxa e veias superficiais dilatadas não varicosas. O membro esquerdo é acometido com mais frequência que o direito, e há uma razão anatômica: a veia ilíaca comum esquerda passa por baixo da artéria ilíaca comum direita e pode ser comprimida contra a coluna — a síndrome de May-Thurner. Quando a trombose é iliofemoral esquerda numa mulher jovem sem outro fator de risco, essa compressão entra na lista.

O que essa forma típica não faz é aparecer com frequência. Ela é a apresentação de uma minoria de casos, e todo o resto do bloco é sobre as outras.

A perna que engana para mais

É a do leito 7. Vermelhidão intensa, calor local, dor à palpação, edema — e uma porta de entrada cutânea, febre baixa ou linfangite que ninguém procurou porque a palavra "trombose" já tinha sido dita. Celulite e erisipela produzem exatamente esse quadro, e produzem também elevação de dímero-D, o que fecha o círculo se o exame for pedido sem escore. O cisto de Baker roto faz o mesmo com um detalhe a mais: a dor começa atrás do joelho e desce, e costuma haver artrose ou artrite naquele joelho. A ruptura de fibras do gastrocnêmio tem início súbito durante esforço, com equimose que aparece no tornozelo dois ou três dias depois.

O item do escore que existe justamente para essas pernas é o último: diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto trombose, que retira dois pontos. Ele não é uma cortesia — é o mecanismo pelo qual o escore desce de moderado para baixo e libera o dímero-D a fazer o que ele faz bem.

A perna que engana para menos

É a do leito 12. Edema discreto, indolor ou quase, sem calor e sem rubor, num paciente que já tem cinquenta motivos para estar mal. Em quem tem câncer em atividade, a trombose costuma se apresentar assim — e é exatamente nesse paciente que ela é mais provável e mais grave. Em quem está internado por outra causa, o edema entra na conta do repouso, do soro e da hipoalbuminemia. Em quem já tem insuficiência venosa crônica, a perna "sempre incha", e a pergunta que resolve é comparativa: incha assim, deste lado só, desde quando?

No idoso, some a dor e sobra a mudança funcional: parou de caminhar até a cozinha, ficou com a perna mais pesada, começou a arrastar o pé. No paciente com déficit neurológico, o membro parético incha por desuso e por trombose com a mesma cara, e a assimetria de circunferência pode ser antiga. Em qualquer um deles, o gesto que desempata é o mesmo e custa trinta segundos: descobrir as duas pernas, comparar e medir com fita.

Gestante e puérpera

A gestação reúne os três vértices da tríade — estase por compressão da cava e da ilíaca comum esquerda pelo útero, hipercoagulabilidade por aumento dos fatores VII, VIII e X e do fibrinogênio com queda da proteína S, e lesão endotelial na nidação e no delivramento. O risco sobe cinco a dez vezes na gravidez e cerca de trinta e cinco vezes no puerpério, com pico nas primeiras seis semanas.

Duas consequências mudam a conduta. A primeira: o dímero-D sobe fisiologicamente ao longo da gestação, e usar o corte de 500 mcg/L nela é garantir exame alterado sem informação; os valores de referência propostos por trimestre são 0,75 mg/L no primeiro, 1 mg/L no segundo e 1,5 mg/L no terceiro. A segunda: anticoagulante oral direto está contraindicado na gestação e na amamentação, e o tratamento é com heparina — de baixo peso molecular de preferência, ou não fracionada. A varfarina é teratogênica entre a sexta e a décima segunda semana e é segura na amamentação.

As localizações que mudam a conversa

Trombose distal isolada, restrita às veias abaixo da poplítea, embolia menos e dá menos sequela — mas até 20% progridem para segmento proximal, e é essa progressão que faz o diagnóstico e o tratamento se aproximarem dos da proximal. Trombose de membro superior costuma estar associada a cateter venoso central, marca-passo ou esforço repetitivo, e o eco-Doppler tem menor acurácia ali do que nos membros inferiores.

Trombose recorrente no mesmo membro é a situação em que tudo o que se aprendeu vale menos. O escore perde desempenho, e existe uma versão modificada com ponto extra para trombose prévia justamente por isso. O dímero-D perde valor de exclusão. E o ultrassom encontra veia com parede espessada e lúmen reduzido de um evento antigo, o que obriga a critérios específicos para dizer que há trombo novo: aumento de pelo menos 4 mm no diâmetro do mesmo segmento, aumento de 9 cm na extensão do trombo, ou trombo em segmento diferente do acometido antes. Sem exame anterior para comparar, essa distinção fica difícil — e é por isso que o laudo do primeiro episódio precisa ser guardado pelo paciente.

As duas apresentações que não esperam

A primeira é a embolia pulmonar em curso. Dispneia de início súbito, dor torácica pleurítica, tosse, hemoptise, taquicardia, taquipneia, hipoxemia, síncope ou hipotensão num paciente com perna inchada mudam a ordem inteira dos acontecimentos: a perna deixa de ser o problema principal. Em paciente estável, a probabilidade pré-teste de embolia se estima por escore — Wells ou Genebra — e se combina com dímero-D e angiotomografia, cintilografia ou ecocardiograma conforme o resultado. Em paciente instável, o ecocardiograma à beira do leito é obrigatório para avaliar o ventrículo direito, e o caminho é o do choque obstrutivo. O manejo detalhado da dispneia aguda e da instabilidade nos primeiros minutos tem capítulo próprio nesta coleção; aqui o que precisa ficar é o gatilho e a primeira decisão.

A segunda é a flegmasia. Na forma alba dolens, o membro está muito edemaciado e pálido, com pulsos ainda presentes. Na cerúlea dolens, a oclusão é total ou quase total do eixo de drenagem: o membro fica tenso, arroxeado, com bolhas, dor desproporcional ao exame e comprometimento arterial secundário à hipertensão venosa, com sequestro de volume capaz de produzir choque. Os números explicam o tom: gangrena venosa em 40% a 60%, embolia pulmonar em cerca de metade, amputação em 10% a 25% — chegando a 20% a 50% se houver gangrena — e mortalidade de 20% a 40% quando a gangrena se instala. Uma perna azul, tensa e fria com pulso duvidoso não é uma trombose para investigar amanhã; é um telefonema para a cirurgia vascular agora.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno raramente erra por não saber o que é trombose venosa profunda. Erra por pedir o exame errado na hora errada — e a hora errada quase sempre significa antes de ter estimado a probabilidade. O que segue é a ordem, e a ordem é a matéria deste bloco.

A regra que organiza tudo cabe numa frase da diretriz brasileira: em probabilidade clínica alta, o dímero-D não exclui trombose, qualquer que seja o valor, e a conduta segue direto para a imagem. A recíproca também é regra: em probabilidade baixa, um dímero-D negativo exclui, e o ultrassom pode ser dispensado. O exame não tem significado próprio; ele tem significado condicionado ao que você já achava antes de pedi-lo.

Fluxograma de suspeita de TVP que relaciona probabilidade pré-teste, dímero-D e ultrassonografia venosa.
Em adultos, a probabilidade clínica orienta a sequência de exames. Dímero-D negativo pode excluir TVP em contexto validado de baixa probabilidade; resultado positivo isolado não confirma o diagnóstico. A ultrassonografia deve ser interpretada com a probabilidade e a técnica utilizada, considerando repetição ou outras medidas conforme protocolo.

1. O primeiro exame não é exame: é o escore

O modelo de predição clínica mais estudado para trombose venosa profunda é o escore de Wells. Ele soma sinais, sintomas, fatores de risco e — este é o item que quase ninguém preenche — a existência de um diagnóstico alternativo. Todos os dados saem da anamnese e do exame físico que você já ia fazer, e a única coisa que ele exige a mais é uma fita métrica.

Este capítulo usa a versão dicotomizada, com dez itens: câncer em atividade (tratamento em curso, nos últimos seis meses ou paliativo); paralisia, paresia ou imobilização gessada recente de membro inferior; acamado por mais de três dias ou cirurgia de grande porte nas últimas doze semanas; dor localizada ao longo do trajeto do sistema venoso profundo; edema de todo o membro; panturrilha mais de três centímetros maior que a contralateral, medida dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia; edema depressível restrito ao membro sintomático; veias superficiais colaterais não varicosas; trombose venosa profunda prévia documentada. Cada um desses vale um ponto. O décimo item subtrai dois: diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto a trombose.

A leitura é binária. Dois pontos ou mais: trombose provável. Um ponto ou menos: trombose improvável. Nas casuísticas que validaram esse corte, o grupo improvável carrega risco em torno de 6% e o provável, em torno de 28%.

Existe uma versão anterior, de três categorias, que ainda circula: baixa probabilidade com zero ou menos, moderada com um a dois, alta com três ou mais — com prevalências de 5%, 17% e 53% respectivamente. Ela não tem o item de trombose prévia e conta quatro semanas, e não doze, para a cirurgia recente. As duas versões são defensáveis, e este capítulo escolhe a dicotomizada por três razões concretas: é a que a Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso adota, é a que se encaixa na decisão que você precisa tomar (pedir dímero-D ou pedir ultrassom, e não há terceira opção) e é a que resolve o pior ponto cego da outra — o paciente de categoria moderada, no qual um dímero-D negativo não é seguro e a versão de três categorias não diz o que fazer.

Duas armadilhas na hora de somar. A primeira: "diagnóstico alternativo pelo menos tão provável" não é um item de dúvida, é um item de compromisso — você precisa nomear o outro diagnóstico. Se não consegue dizer qual é, não marque. A segunda: a diferença de circunferência é medida, não estimada. Fita métrica, dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia, nos dois lados, com o paciente na mesma posição. Olhar de longe e achar que "parece igual" já custou pontos que mudariam a categoria.

2. Escore improvável: o dímero-D e o que ele exclui

Com escore de um ponto ou menos, o exame que resolve é o dímero-D — e a força dele está no valor preditivo negativo. A sensibilidade fica em torno de 95%, de modo que a ausência de elevação afasta o diagnóstico em 97% a 98% dos casos. Combinando escore de Wells menor ou igual a um com dímero-D negativo, a probabilidade de trombose fica abaixo de 2%, o que autoriza excluir com segurança e não pedir ultrassom.

Os valores de referência usados na diretriz brasileira separam três faixas: negativo abaixo de 350 ng/mL, intermediário entre 351 e 500 ng/mL e positivo acima de 500 ng/mL. Na prática, o corte operacional é 500 mcg/L — que é a mesma coisa que 500 ng/mL — e a faixa intermediária é um aviso de que o resultado está encostado no limite.

Acima dos cinquenta anos, o corte fixo precisa ser ajustado, porque a especificidade despenca com a idade. A fórmula é a idade em anos multiplicada por 10 mcg/L. Aos 55 anos, o corte vira 550 mcg/L. Aos 72, vira 720. Aos 88, vira 880. O ganho é grande e mensurado: entre 71 e 80 anos, a especificidade sobe de 24,5% para 44,2%; acima de 80, de 14,7% para 35,2% — com a sensibilidade se mantendo acima de 97% em todas as faixas. Traduzindo: um valor de 640 mcg/L num paciente de 72 anos é negativo pelo corte ajustado e positivo pelo corte fixo, e é essa diferença que separa mandar o paciente para casa de mandá-lo para um ultrassom que a fila do serviço não tem.

Uma trava importante: o ajuste por idade foi validado em pacientes com probabilidade clínica não alta. Ele não é uma licença para aplicar dímero-D em quem tem escore provável.

E duas exceções fecham a seção. Mesmo com escore improvável e dímero-D negativo, a exclusão não é segura em duas populações: pacientes com câncer e pacientes com trombose recorrente. Nesses dois, o caminho é a imagem, independentemente do dímero-D.

3. Escore provável: o eco-Doppler, e o que ele confirma

Com dois pontos ou mais, o exame é o eco-Doppler colorido venoso com manobra de compressão de todo o trajeto venoso troncular do membro. É o exame de escolha, com sensibilidade de 96% e especificidade de 98% a 100%, e substituiu a flebografia na prática. O critério que confirma é a ausência de compressibilidade da veia — a veia normal colaba sob a pressão do transdutor, a veia com trombo não colaba —, somada à ecogenicidade intraluminal e à análise do fluxo.

O exame de todo o membro é preferível ao exame segmentar e ao ultrassom à beira do leito de duas regiões. Isso importa na sua rotina: um ultrassom rápido de compressão femoral e poplítea feito no plantão é uma ferramenta útil para acelerar decisão, mas ele não é o exame que exclui trombose distal, e um resultado negativo dele em paciente com escore provável não encerra nada.

Existe uma situação clássica em que o exame negativo não resolve: escore de alta probabilidade, eco-Doppler negativo e dímero-D positivo. Aí o exame deve ser repetido em três a sete dias, porque a hipótese de trombo distal em progressão continua de pé. Registre a data do reexame na alta, com o pedido em mãos — o "volte se piorar" é o que perde esse paciente.

O padrão-ouro histórico continua sendo a flebografia, hoje reservada aos casos em que os outros métodos não definem o diagnóstico: custo, desconforto, reação ao contraste, radiação, contraindicação na insuficiência renal e acurácia limitada na recorrência tiraram-na da rotina. A angiotomografia tem sensibilidade e especificidade semelhantes às do eco-Doppler, mas não é a modalidade inicial; ela ganha espaço quando o eco-Doppler é tecnicamente inviável, quando se suspeita de trombo em veias pélvicas ou cava — território mal visto pelo ultrassom — ou quando é preciso enxergar compressão extrínseca por massa pélvica ou pela artéria ilíaca. A angiorressonância entra no eco-Doppler inconclusivo e é o método que melhor separa trombo novo de antigo na suspeita de recorrência.

4. O que não pedir, e o que custa pedir

Dímero-D em paciente com escore provável. É o pedido mais comum e o mais caro em tempo. Ele não vai excluir nada — em probabilidade alta nem o ensaio de alta sensibilidade serve para descartar — e vem alterado em praticamente todos, porque câncer, cirurgia, infecção e internação já o elevam sozinhos. O custo é o intervalo entre a coleta e o laudo, e nesse intervalo o trombo pode subir da poplítea para a femoral.

Coagulograma de triagem. Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada não diagnosticam nem excluem trombose e não decidem se pode anticoagular. Eles têm utilidade quando existe história de sangramento, hepatopatia, uso de anticoagulante ou doença hematológica — ou seja, quando o pedido responde a uma pergunta feita antes. O valor basal de TTPa é necessário, isso sim, se a escolha for heparina não fracionada endovenosa, porque o alvo é uma razão em relação ao basal.

Painel de trombofilia na fase aguda. O evento agudo e o próprio anticoagulante alteram vários dos ensaios — proteína C, proteína S, antitrombina e os testes funcionais de anticoagulante lúpico —, e o resultado não muda nada do tratamento agudo. A pesquisa, quando indicada, se faz depois, com o paciente fora da anticoagulação e com uma pergunta clínica definida. Pedir na internação gasta dinheiro, gera laudo que ninguém sabe interpretar e às vezes cria diagnóstico de trombofilia onde só havia o efeito da heparina.

Dímero-D para decidir quando parar o anticoagulante. Escores prognósticos, dímero-D e ultrassom de trombo residual não são recomendados de rotina para guiar a duração do tratamento no tromboembolismo não provocado. Dosar o marcador um mês depois da suspensão tem valor de risco de recorrência — quem mantém o dímero-D elevado recorre em torno de 8,9% ao ano contra 3,5% de quem o normaliza —, mas isso informa a conversa, não substitui a decisão clínica.

Ultrassom de controle para "ver se melhorou". Trombo residual é regra, não exceção, e a persistência dele nas primeiras semanas não indica falha de tratamento nem justifica trocar de droga. O acompanhamento é clínico e laboratorial, não de imagem.

5. O diferencial mora aqui dentro

O exame que confirma uma hipótese é o mesmo que exclui a outra, e por isso o diferencial não é um bloco à parte. Diante de um membro que incha, quatro perguntas separam quase tudo. É uma perna só ou as duas? É aguda ou é antiga? Tem sinal inflamatório de pele ou não? A perna está quente ou está fria?

Bilateral e simétrico aponta para causa sistêmica: insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, hipoalbuminemia, uso de bloqueador de canal de cálcio. Trombose bilateral existe, mas é a exceção, e costuma vir com trombo em cava.

Unilateral com pele quente, vermelha e dolorosa, com porta de entrada, febre ou linfangite: celulite ou erisipela. Convivem com trombose e podem coexistir com ela, mas quando o quadro inflamatório explica sozinho o achado, ele vale os dois pontos negativos do escore.

Unilateral com início súbito durante esforço, dor na transição musculotendínea e equimose tardia no tornozelo: ruptura de fibras do gastrocnêmio. Unilateral com dor iniciada na fossa poplítea, joelho com derrame ou artrose: cisto de Baker roto — que o próprio eco-Doppler identifica, junto com adenopatia inguinal, abscesso e hematoma.

Unilateral crônico, com pele espessada, ausência de cacifo e história de erisipelas de repetição: linfedema. Unilateral com varizes, hiperpigmentação ocre e edema que melhora à noite: insuficiência venosa crônica, que pode agudizar sem trombose nenhuma.

E o desvio de rota que muda de especialidade: perna fria, pálida ou marmórea, com dor intensa, ausência de pulsos distais e alteração de sensibilidade ou motricidade. Isso é território arterial, e a conduta é outra — a doença arterial obstrutiva periférica tem capítulo próprio nesta apostila. Vale a mesma advertência para a perna azulada e tensa da flegmasia, em que o problema começou venoso e terminou arterial: as duas exigem avaliação vascular imediata, não Doppler agendado.

6. O que existe de fato no SUS

Exame que não se consegue não é conduta, e o desenho da investigação muda conforme o que o seu serviço tem à mão.

O eco-Doppler venoso está disponível na rede, mas raramente vinte e quatro horas por dia. O ponto de decisão prático é este: se a suspeita é provável e o exame só sai amanhã, a conduta correta não é esperar — é anticoagular hoje, com a contraindicação checada, e fazer o exame quando ele existir. A recomendação de iniciar o anticoagulante enquanto se aguarda a confirmação, na alta suspeita e sem contraindicação, está escrita na diretriz brasileira, e ela existe justamente para o serviço que não tem ultrassom no plantão.

O dímero-D é barato e amplamente disponível, e é isso que o torna perigoso: ele é fácil de pedir por reflexo. O uso correto dele é estreito — escore improvável, paciente sem câncer e sem trombose prévia — e nesse recorte ele economiza um exame de imagem inteiro.

Angiotomografia e angiorressonância existem em serviços de maior porte, com fila. São exceções indicadas, não alternativas de conveniência.

Do lado do tratamento, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista três anticoagulantes: heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL solução injetável e varfarina sódica em comprimidos de 1 mg e 5 mg, ambas no Componente Básico, e enoxaparina sódica 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL no Componente Especializado, vinculada ao protocolo de prevenção de tromboembolismo venoso em gestantes com trombofilia. Rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, edoxabana e fondaparinux estão fora da lista: a relação de anticoagulantes da Rename 2024 se esgota naquelas três moléculas. A consequência para a sua prescrição é direta e precisa ser dita na admissão, e não na alta: o esquema padrão do SUS é heparina seguida de varfarina com controle de RNI, e é sobre esse esquema que o paciente precisa ser orientado. Prescrever rivaroxabana na alta de quem não tem plano de saúde nem condição de comprar é escrever uma receita que vira suspensão de tratamento em duas semanas.

07

A investigação em oito passos, e as tabelas que se abrem no meio dela

A probabilidade clínica orienta o teste; a imagem pode confirmar ou refutar a hipótese. A segurança depende também da gravidade, da qualidade do exame, da função renal e de um plano de retorno.

  1. 1Comece por embolia pulmonar instável, sangramento e flegmasia: acione imediatamente o supervisor e a equipe de emergência. No membro ameaçado, envolva a cirurgia vascular em paralelo ao suporte.
  2. 2No paciente estável, registre o Wells com os achados reais e o diagnóstico alternativo. O escore não substitui julgamento e tem limitações em hospitalizados, câncer, gestação e recorrência.
  3. 3Probabilidade baixa: dímero-D de alta sensibilidade pode excluir TVP em estratégia validada; positivo indica imagem. Ajuste etário apenas com método, unidades e protocolo compatíveis.
  4. 4TVP provável: priorize ultrassom compressivo. Se o resultado não estiver disponível rapidamente, avalie anticoagulação terapêutica provisória com o supervisor, considerando demora e sangramento. Como referência operacional, o NICE usa 4 horas para resultado e, quando necessário, tratamento provisório com imagem em até 24 horas.
  5. 5Colha hemograma, função renal/hepática, TP e TTPa basais. A coleta e a revisão dos resultados integram o plano; resultados pendentes não devem atrasar tratamento provisório indicado sem suspeita específica de contraindicação.
  6. 6Ultrassom negativo: diferencie exame proximal de exame completo e exame adequado de limitado. No algoritmo proximal, dímero-D positivo pede repetição em 6–8 dias. Suspeita ilíaca, piora ou exame limitado exigem discussão antes desse prazo.
  7. 7TVP confirmada: registre extensão, risco de sangramento, interações e esquema. Câncer ativo requer escolha individual; lesão gastrointestinal com risco hemorrágico pode favorecer HBPM. Filtro não é resposta automática a suspeita sem diagnóstico.
  8. 8Combine acesso ao medicamento, técnica de administração, sinais de retorno e data de revisão. Na alta, registre a duração planejada e o motivo de continuar ou suspender, sem depender da persistência de trombo residual.

Escore de Wells para trombose venosa profunda — versão dicotomizada

ItemPontosComo se checa à beira do leito
Câncer em atividade+1Tratamento em curso, tratamento nos últimos 6 meses ou cuidado paliativo. Pergunte pelo ciclo mais recente, não pelo diagnóstico
Paralisia, paresia ou imobilização gessada recente de membro inferior+1Inclui órtese e tala que impeçam a marcha; olhe o membro, não o prontuário
Acamado por mais de 3 dias ou cirurgia de grande porte nas últimas 12 semanas+1"Ficou de cama" precisa de número de dias; cirurgia precisa de data e de porte
Dor localizada ao longo do trajeto do sistema venoso profundo+1Palpe a goteira medial da coxa e a face posterior da panturrilha, comparando com o outro lado
Edema de todo o membro+1Todo o membro, e não só a panturrilha — é o item que aponta para oclusão proximal
Panturrilha mais de 3 cm maior que a contralateral+1Fita métrica, 10 cm abaixo da tuberosidade da tíbia, mesma altura nos dois lados
Edema depressível restrito ao membro sintomático+1Cacifo de um lado só; edema com cacifo dos dois lados fala contra
Veias superficiais colaterais não varicosas+1Rede visível na coxa e no abdome inferior, sem história de varizes — sinal tardio e específico
Trombose venosa profunda prévia documentada+1Documentada, com laudo. Relato de "já tive trombose" sem exame não vale ponto
Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto trombose−2Só marque se conseguir NOMEAR o outro diagnóstico: celulite, cisto de Baker roto, ruptura de fibras, linfedema
LEITURA≥ 2 provável · ≤ 1 improvávelRisco em torno de 28% no grupo provável e de 6% no improvável

O mesmo resultado, duas leituras: o que fazer com o dímero-D

Probabilidade pré-testeDímero-D negativoDímero-D positivo
Improvável (Wells ≤ 1), sem câncer e sem trombose préviaExclui. Probabilidade abaixo de 2%. Não peça ultrassom; explique e liberePeça eco-Doppler. O valor alterado não confirma nada sozinho
Improvável, mas COM câncer em atividade ou trombose préviaNÃO exclui. Siga para o eco-Doppler assim mesmoPeça eco-Doppler
Provável (Wells ≥ 2)NÃO exclui. Nem o ensaio de alta sensibilidade descarta em probabilidade altaNão muda nada — o exame já estava indicado. Foi tempo perdido
GestanteInterprete pelo corte do trimestre: 0,75 mg/L no 1º, 1 mg/L no 2º, 1,5 mg/L no 3ºEco-Doppler; anticoagulante oral direto está contraindicado na gestação

Corte do dímero-D ajustado pela idade (idade × 10 mcg/L, acima dos 50 anos)

IdadeCorte ajustadoEspecificidade do corte fixo → ajustado
Até 50 anos500 mcg/L (não se ajusta)51-60 anos: 57,6% → 62,3%
55 anos550 mcg/L61-70 anos: 39,4% → 49,5%
72 anos720 mcg/L71-80 anos: 24,5% → 44,2%
88 anos880 mcg/LAcima de 80 anos: 14,7% → 35,2%
ValidadeSó em probabilidade clínica NÃO altaSensibilidade acima de 97% em todas as faixas

Antes da primeira dose: o que precisa ser checado

O que checarOnde se achaO que fazer se estiver presente
Sangramento ativo incontrolávelExame físico, história, aspirado gástrico, toque retal se indicadoNão anticoagule. Estabilize primeiro; trombose proximal com contraindicação formal é indicação de filtro temporário de veia cava
Hemorragia intracraniana recente ou lesão cerebral de alto risco de sangrarHistória, tomografia recente, prontuárioNão anticoagule sem discutir com a neurocirurgia
Plaquetopenia grave ou distúrbio de coagulação conhecidoHemograma com contagem de plaquetas, história de sangramentoCorrija e reavalie; a decisão passa a ser compartilhada com a hematologia
Cirurgia de urgência prevista que exija interromper a anticoagulaçãoConversa com a equipe cirúrgicaAlinhe o momento da primeira dose com o da operação
Peso aferido hojeBalança, não estimativaSem peso não há dose por quilo — e dose por quilo errada é sangramento ou subtratamento
Creatinina e depuração estimadaBioquímica, Cockcroft-Gault com o peso aferidoDepuração abaixo de 30 mL/min muda a escolha da droga
Hemoglobina e plaquetas basaisHemogramaÉ a referência para reconhecer sangramento e plaquetopenia por heparina depois

Quanto tempo anticoagular — a decisão que o paciente leva para casa

CenárioDuraçãoPor quê
Provocada por fator de risco transitório maior (cirurgia de grande porte, politrauma, internação clínica), primeiro episódio3 a 6 meses, e paraRisco de recorrência baixo, abaixo de 3% ao ano, depois que o fator sumiu. Tratamento de 3 a 6 meses foi comparado ao de 6 a 12 e a diferença não compensa o sangramento
Provocada por fator menor (cirurgia pequena, viagem longa, estrogênio, gravidez e puerpério, doença inflamatória intestinal, trombofilia que não seja síndrome antifosfolipídeo)3 a 6 meses; estender se o risco de sangramento for baixoRisco intermediário, de 3% a 8% ao ano. Quem trombosa com estímulo fraco tende a repetir
Não provocada, primeiro episódio, sem alto risco de sangramentoIndefinida, com reavaliação periódicaRecomendação de anticoagulação por tempo indeterminado após o tratamento inicial. Manter reduz recorrência de forma expressiva, ao custo de mais sangramento
Recorrente com fator de risco persistente, ou recorrente sem fator identificávelIndefinidaRisco alto, acima de 8% ao ano
Câncer em atividadeEnquanto houver câncer ativo, doença metastática ou quimioterapia em cursoRisco alto de recorrência. Suspende-se quando o risco deixa de ser alto ou nas últimas semanas de vida
Síndrome antifosfolipídeo triplo-positivaIndefinida, com antagonista da vitamina KAnticoagulante oral direto é inferior nesse grupo; a varfarina foi superior no desfecho combinado
Dose na fase indefinida (fora do câncer)Rivaroxabana 10 mg/dia ou apixabana 2,5 mg de 12/12 h; onde só há varfarina, RNI 2 a 3Dose reduzida do oral direto é preferível a dose plena, a antagonista da vitamina K ou a ácido acetilsalicílico na profilaxia secundária

A perna que incha: o diferencial em quatro perguntas

PerguntaResposta que aponta para tromboseResposta que aponta para outra coisa
Uma perna ou as duas?Uma só, com diferença mensurável de circunferênciaAs duas, simétricas: insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, hipoalbuminemia, bloqueador de canal de cálcio
Aguda ou antiga?Dias a poucas semanas, com mudança clara em relação ao habitualMeses a anos, estável: linfedema, insuficiência venosa crônica, lipedema
Tem sinal inflamatório de pele?Pode ter calor discreto e cianose, sem porta de entradaRubor intenso, calor, porta de entrada, linfangite, febre: celulite ou erisipela
A perna está quente ou fria?Quente ou de temperatura normal, com pulsos presentesFria, pálida ou marmórea, sem pulso, com déficit sensitivo ou motor: oclusão arterial — outra especialidade, outra urgência
Extra: dor começou onde?No trajeto venoso profundo, goteira medial da coxa ou panturrilha posteriorNa fossa poplítea, com derrame articular: cisto de Baker roto. Na transição musculotendínea durante esforço: ruptura de fibras

O que o interno confere antes da alta

ItemRegistro necessário
TratamentoIndicação, peso, função renal, dose e apresentação efetivamente dispensada.
SegurançaSangramento, interações e instrução para dose esquecida específica do fármaco.
ContinuidadeQuem acompanha, próximo exame quando indicado e data da revisão da duração.
RetornoDispneia, síncope, sangramento relevante ou piora importante do membro.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A ordem dos passos não é estética. Escore antes de exame porque o exame só tem significado dentro de uma probabilidade; contraindicação antes de dose porque a dose é irreversível por horas; duração escrita antes da alta porque ninguém decide isso depois — e o paciente que não sabe quando parar, não para.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois pontos do escore de Wells dependem de você ter uma fita métrica no bolso e ter descoberto as duas pernas. Nenhum exame de imagem recupera o dado que não foi colhido.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Toda vez que a suspeita for provável e o exame demorar, a pergunta certa não é "posso esperar?" e sim "há alguma contraindicação para eu começar agora?". A resposta a essa segunda pergunta cabe em cinco linhas de anamnese e um hemograma.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular de 2024 prescreve a apixabana, na fase aguda do tromboembolismo venoso, em 10 mg duas vezes ao dia por 5 dias, seguidos de 5 mg duas vezes ao dia. O resumo das características do medicamento, na seção de posologia, dá 10 mg duas vezes ao dia durante os primeiros 7 dias, e 7 dias é também o esquema do estudo AMPLIFY, o programa clínico do tratamento descrito no mesmo documento. Conta: 5 × 2 = 10 tomadas de ataque contra 7 × 2 = 14; pela diretriz, o paciente perde quatro tomadas de 10 mg e recebe 20 mg a menos nos dias 6 e 7 — 10 mg por dia em vez de 20 mg em cada um deles. O esquema de 5 dias não é o estudado nem o do documento regulatório, e a bula brasileira que o fabricante hospeda é de 2015 e não traz a indicação de tratamento. Pelo defeito demonstrável da diretriz no ponto em disputa, esta apostila prescreve os 7 dias, como faz Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, da apostila de Pneumologia.

08

A conduta, hora a hora

O relógio deste capítulo começa no momento em que você mede a segunda panturrilha. O que segue é dona Cleuza: 68 anos, 74 quilos aferidos hoje na balança, adenocarcinoma de cólon irressecável em quimioterapia paliativa, internada há quatro dias por náusea e desidratação. Creatinina de 1,3 mg/dL. Pressão de 118 por 72 mmHg, frequência de 92 batimentos por minuto, saturação de 96% em ar ambiente, sem dispneia, sem dor torácica. Coxa e panturrilha esquerdas maiores, panturrilha esquerda com 4,5 cm a mais que a direita, cacifo do lado esquerdo apenas, dor à palpação da goteira medial da coxa, sem rubor e sem porta de entrada.

O escore de Wells dela soma 5: câncer em atividade, dor no trajeto venoso profundo, edema de todo o membro, panturrilha mais de 3 cm maior e cacifo restrito ao lado sintomático. Nenhum diagnóstico alternativo é tão provável quanto trombose, então não há desconto. Cinco pontos é trombose provável — e, na versão de três categorias, alta probabilidade. Com esse número a investigação inteira já está desenhada, e nenhum exame foi pedido ainda.

A depuração de creatinina estimada por Cockcroft-Gault, com o peso aferido: ((140 − 68) × 74) ÷ (72 × 1,3) × 0,85 = (5.328 ÷ 93,6) × 0,85 = 56,9 × 0,85 = 48 mL/min. Acima de 30, portanto: heparina de baixo peso molecular em dose plena está liberada, com atenção à função renal ao longo do tratamento.

  1. Hora 0 — a conta e a checagem, antes de qualquer prescrição

    Cinco linhas de anamnese e dois exames que ela já tem no prontuário decidem se a primeira dose pode ser dada hoje. Isso vem antes da dose e não depois: anticoagulante dado sem essa checagem é a única parte deste capítulo que não tem volta em poucas horas.

    Prescrição
    • Registrar o escore de Wells por extenso: "Wells = 5 (câncer ativo, dor no trajeto profundo, edema de todo o membro, panturrilha +4,5 cm, cacifo unilateral) — trombose PROVÁVEL" (Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso 2022; corte ≥2)
    • Checar contraindicação absoluta à anticoagulação: sangramento ativo incontrolável, alto risco de sangramento maior (defeito de coagulação, plaquetopenia grave, hemorragia intracraniana recente ou lesão cerebral de alto risco) e cirurgia de urgência que exija interromper a anticoagulação (SBACV 2024)
    • Pesar na balança e anotar o peso — 74 kg. Anotar creatinina e depuração estimada: 1,3 mg/dL, 48 mL/min por Cockcroft-Gault
    • Colher hemograma com plaquetas e função renal/hepática, TP e TTPa basais. Rever resultados prontamente, em até 24 horas se anticoagulação provisória já iniciada; não aguardar exames por rotina quando isso adiar tratamento indicado. Suspeita de sangramento, trombocitopenia grave ou outra contraindicação exige decisão individual imediata.
    • Não pedir painel de trombofilia na fase aguda por rotina. O dímero-D não deve ser usado isoladamente para excluir TVP de alta probabilidade; pode integrar a decisão de repetir ultrassom proximal inicialmente negativo.
  2. Hora 0 — decidir tratamento provisório conforme a demora e o risco

    Na alta probabilidade, confirme quando a imagem ficará pronta e avalie contraindicações com o supervisor. Se houver demora relevante, inicie anticoagulação terapêutica provisória conforme protocolo; não é obrigatório dar uma dose antes de um exame imediatamente disponível. No caso de Cleuza, a demora até o fim do dia e o câncer ativo sustentam tratar enquanto se investiga, após a avaliação de sangramento. No tumor gastrointestinal intraluminal não ressecado, a HBPM pode ser preferida ao anticoagulante oral direto pelo perfil hemorrágico individual.

    Prescrição
    • Enoxaparina sódica 74 mg por via subcutânea de 12 em 12 horas — cálculo: 1 mg/kg × 74 kg = 74 mg por dose; todas as seringas de 20 a 100 mg são de 100 mg/mL, então 74 mg = 0,74 mL. Usa-se a seringa de 80 mg/0,8 mL e despreza-se 0,06 mL antes de aplicar (SBACV 2024, que registra a dose terapêutica de 1 mg/kg de 12 em 12 horas; ASH 2021 para tromboembolismo associado ao câncer)
    • Alternativa de dose única diária, quando a adesão exige: enoxaparina 1,5 mg/kg × 74 kg = 111 mg por via subcutânea uma vez ao dia = 1,11 mL na concentração de 100 mg/mL, ou 0,74 mL da seringa de 120 mg/0,8 mL, que é de 150 mg/mL (ASH 2021)
    • Se a depuração fosse menor que 30 mL/min: enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea UMA vez ao dia — metade da dose diária, mesmo volume por aplicação. Na insuficiência renal grave a diretriz brasileira sugere heparina não fracionada em vez de heparina de baixo peso molecular (SBACV 2024)
    • Se a equipe optar por HNF intravenosa: exemplo de nomograma, bolus 80 UI/kg = 5.920 UI e infusão inicial 18 UI/kg/h = 1.332 UI/h, com ajuste por TTPa calibrado ou anti-Xa do serviço. Conferir uma apresentação autorizada para IV; não extrapolar a ampola subcutânea de 5.000 UI/0,25 mL. Em solução IV confirmada de 5.000 UI/mL, o bolus calculado corresponde a 1,184 mL antes da diluição prescrita. Em volume FINAL de 250 mL contendo 25.000 UI, a concentração é 100 UI/mL e a bomba inicia em 13,32 mL/h. Dupla checagem de concentração, dose, diluição e bomba.
    • Não prescrever repouso no leito. Não prescrever ácido acetilsalicílico como "reforço" — na profilaxia secundária do tromboembolismo, o ácido acetilsalicílico é inferior ao anticoagulante, com mais embolia pulmonar e mais trombose (SBACV 2024, Recomendação 12)
  3. Hora 2 a 24 — o exame que confirma, e o que o laudo precisa dizer

    Pedido feito com a pergunta certa. "Doppler de membro inferior esquerdo" não é pedido; é bilhete. O que muda conduta é a topografia, a extensão e o segmento mais proximal acometido.

    Prescrição
    • Eco-Doppler colorido venoso de membro inferior esquerdo, com manobra de compressão de TODO o trajeto venoso troncular — exame de escolha, com sensibilidade de 96% e especificidade de 98% a 100% (SBACV 2024)
    • No pedido, escrever a pergunta: "Wells 5, alta probabilidade. Definir topografia (proximal ou distal), extensão, segmento mais proximal acometido e presença de trombo flutuante"
    • Ultrassom proximal negativo com dímero-D positivo: organizar repetição em 6–8 dias pelo algoritmo NICE. Exame de todo o membro adequadamente negativo pode seguir estratégia diferente; laudo limitado ou suspeita pélvica precisa de investigação complementar. Piora exige reavaliação imediata, sem esperar a data.
    • Se o eco-Doppler for tecnicamente limitado, houver suspeita de trombo em veia ilíaca ou cava, ou suspeita de compressão extrínseca: angiotomografia venosa, que avalia pelve e veia cava — território mal visto pelo ultrassom (SBACV 2024)
  4. Dia 1 — o laudo na mão: o que se decide e o que se desprescreve

    Eco-Doppler mostra trombose oclusiva das veias femoral comum, femoral e poplítea à esquerda, sem extensão para ilíaca, sem trombo flutuante. É proximal. Duas prescrições habituais caem agora, e as duas caem por evidência.

    Prescrição
    • Liberar deambulação assim que a dor permitir, com o membro elevado quando em repouso. Sob anticoagulação adequada, a deambulação precoce não aumentou embolia pulmonar, progressão do trombo nem mortalidade em metanálise de 13 estudos e 3.269 pacientes, e melhorou mais a dor de quem tinha dor moderada a intensa (diferença média padronizada 0,42; IC95% 0,09 a 0,74; p = 0,01)
    • Meia elástica de compressão: não prescrever de rotina para prevenir síndrome pós-trombótica. A recomendação vigente é condicional CONTRA o uso rotineiro, inclusive em quem tem maior risco de síndrome pós-trombótica, com a ressalva explícita de que a meia pode ser considerada para ALÍVIO SINTOMÁTICO em pacientes selecionados (ASH 2020). Se prescrever por sintoma, escreva que é por sintoma
    • Manter enoxaparina 74 mg por via subcutânea de 12 em 12 horas (0,74 mL)
    • Analgesia simples: dipirona 1 g por via oral de 6 em 6 horas se dor. Evitar anti-inflamatório não esteroidal — o uso concomitante de antiplaquetários ou anti-inflamatórios consta entre os fatores de risco de sangramento sob anticoagulação (SBACV 2024, Tabela 9)
    • NÃO indicar remoção precoce do trombo. Em trombose de veias femorais, poplíteas ou de panturrilha, a remoção precoce não é recomendada (SBACV 2024, Recomendação 19). A estratégia de remoção precoce é para trombose ilíaco-femoral sintomática selecionada, com baixo risco de sangramento (Recomendação 18)
    • NÃO indicar filtro de veia cava. O filtro é para quem tem contraindicação formal à anticoagulação — em paciente anticoagulado ele não entra (SBACV 2024, Recomendações 15 e 16)
  5. Dia 1 a 5 — a decisão de manutenção, e a que o SUS sustenta

    A escolha de manutenção precisa ser clinicamente adequada e viável. Discuta com farmácia clínica e oncologia o acesso local a HBPM, anticoagulante oral direto ou varfarina. Uma lista nacional e sua edição não comprovam o estoque nem esgotam os caminhos de fornecimento. Documente risco gastrointestinal, interações, função renal, preferência e plano de monitorização; a varfarina é uma alternativa quando apropriada e acompanhada, não uma conclusão automática sobre todo o SUS.

    Prescrição
    • Caminho A — manter HBPM em dose terapêutica ajustada ao peso e à função renal, com treinamento e acesso assegurado. No câncer ativo, revisar periodicamente recorrência, sangramento e necessidade de continuidade; não prometer duração indefinida sem reavaliação. Verificar os caminhos locais de fornecimento.
    • Caminho B — varfarina sódica 5 mg por via oral uma vez ao dia, iniciada NO MESMO DIA da heparina, com RNI alvo entre 2,0 e 3,0. Comprimidos de 1 mg e de 5 mg, Componente Básico da Rename 2024 (SBACV 2024 para o esquema; Rename 2024 para a apresentação)
    • Regra de saída da heparina, no caminho B: manter a enoxaparina por NO MÍNIMO 5 dias E até que o RNI esteja entre 2 e 3 em DOIS dias consecutivos. As duas condições, não uma. Se o RNI entra na faixa no 3º dia e se mantém no 4º, a heparina ainda assim segue até o 5º; se o RNI só entra no 7º, a heparina segue até o 8º (SBACV 2024)
    • Nunca iniciar tratamento de trombose só com varfarina, sem heparina: associa-se a alta taxa de recorrência sintomática e a risco de necrose cutânea (SBACV 2024)
    • Caminho C — anticoagulante oral direto, se o paciente tiver como comprar: rivaroxabana 15 mg por via oral de 12 em 12 horas por 21 dias, seguidos de 20 mg por via oral uma vez ao dia; ou apixabana 10 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias, seguidos de 5 mg de 12 em 12 horas (resumo das características do medicamento; a SBACV 2024 escreve 5 dias, e o defeito está nas notas do critério). Nenhum dos dois precisa de ponte parenteral. Dabigatrana 150 mg de 12/12 h e edoxabana 60 mg/dia só entram APÓS pelo menos 5 dias de heparina (SBACV 2024). Nenhum consta da Rename 2024
    • RNI de controle a partir do 3º dia no caminho B, depois conforme a estabilidade. Hemograma com plaquetas periodicamente enquanto durar a heparina
  6. Alta — o que o paciente leva escrito

    A alta de trombose venosa profunda é quase toda informação. O tratamento inicial pode ser domiciliar: em trombose não complicada, o tratamento em casa é sugerido sobre o hospitalar. O que decide se isso dá certo é a folha que sai com o paciente.

    Prescrição
    • Receita com a dose por extenso, a via e o horário, e a DATA da primeira e da última dose prevista. Número de dias na cabeça do paciente vira erro de contagem; data escrita, não
    • Se varfarina: a data do próximo RNI, o valor alvo (entre 2 e 3), o telefone do serviço, e a lista do que muda o RNI — antibiótico, anti-inflamatório, mudança grande na quantidade de verdura escura, álcool em excesso, chá e suplementos
    • Sinais de alarme para voltar HOJE, escritos com as palavras do paciente: falta de ar que apareceu do nada, dor no peito ao respirar fundo, desmaio, tosse com sangue; perna que fica roxa, muito dura, gelada ou que perde a força; sangramento que não para, sangue na urina, fezes pretas, vômito com sangue, dor de cabeça forte e diferente das outras
    • Deambular todos os dias, com o membro elevado quando estiver sentada ou deitada. Sem repouso no leito
    • Consulta de reavaliação em 3 meses, marcada antes da alta, com a finalidade escrita no encaminhamento: "reavaliar duração da anticoagulação"
    • Registrar na alta, em linha própria: "Trombose venosa profunda proximal em paciente com câncer ativo. Duração planejada: enquanto houver câncer em atividade, doença metastática ou quimioterapia em curso, com reavaliação a cada 3 a 6 meses do risco de recorrência e do risco de sangramento" (ASH 2021)
  7. A qualquer momento — o que interrompe tudo

    Três situações tiram este plano da linha do tempo e o colocam na urgência. Elas não são raras o suficiente para caberem numa nota de rodapé.

    Prescrição
    • Suspeita de embolia pulmonar: dispneia súbita, dor torácica pleurítica, hipoxemia, taquicardia inexplicada, síncope ou hipotensão. Conduta agora: monitorização, oxigênio se hipoxemia, acesso venoso, eletrocardiograma, e anticoagulação plena mantida ou iniciada se ainda não estava. Em paciente estável, angiotomografia de tórax; em paciente instável, ecocardiograma à beira do leito para avaliar o ventrículo direito, e a via passa a ser a do choque obstrutivo (Diretriz Conjunta 2022)
    • Flegmasia: membro tenso, arroxeado, com bolhas, dor desproporcional, pulso duvidoso. Conduta agora: elevação do membro, reposição volêmica, anticoagulação plena e acionamento IMEDIATO da cirurgia vascular para trombólise dirigida por cateter ou trombectomia. Gangrena venosa em 40% a 60% dos casos, amputação em 10% a 25% e mortalidade de 20% a 40% quando a gangrena se instala (Cureus 2021; Diretriz Conjunta 2022)
    • Trombose ilíaco-femoral extensa e sintomática em paciente com baixo risco de sangramento: discutir estratégia de remoção precoce do trombo com a cirurgia vascular, que nesse subgrupo é recomendada (SBACV 2024, Recomendação 18) — reduziu síndrome pós-trombótica em 14,4% em dois anos no CaVenT, com aumento de sangramento maior no ATTRACT (1,7% contra 0,3%; p = 0,049)
    • Sangramento maior sob anticoagulação: suspender o anticoagulante, avaliar volemia e hemoglobina, identificar o sítio. Reversão conforme a droga — protamina para heparina, vitamina K e concentrado de complexo protrombínico para varfarina, idarucizumabe para dabigatrana, andexanet alfa para os inibidores do fator Xa (SBACV 2024). A reposição volêmica e de hemocomponentes segue o capítulo de choque hemorrágico; se o sangramento for digestivo alto, o capítulo próprio. Resolvido o risco, a anticoagulação é reiniciada — inclusive em quem recebeu filtro de veia cava como alternativa temporária (SBACV 2024, Recomendação 17)
  8. 3 meses — a consulta que define a duração

    É a consulta que mais dura na vida do paciente, e a que mais frequentemente não acontece. Nela se responde a uma pergunta só: o que provocou isto ainda está aqui?

    Prescrição
    • Reclassificar o evento: provocado por fator transitório maior, provocado por fator menor, não provocado, associado a câncer ou recorrente. Essa classificação — e não o exame de imagem — é o que define a duração
    • Provocado por fator transitório maior, primeiro episódio: suspender após 3 a 6 meses (SBACV 2024, Recomendação 7)
    • Não provocado: manter por tempo indeterminado, com reavaliação periódica, se o risco de sangramento for baixo (SBACV 2024, Recomendações 9 e 10). Na fase estendida, dose reduzida do oral direto — rivaroxabana 10 mg/dia ou apixabana 2,5 mg de 12/12 h — é preferível a dose plena, a antagonista da vitamina K ou a ácido acetilsalicílico (Recomendação 11)
    • Recorrente com fator persistente: tempo indeterminado (SBACV 2024, Recomendação 8)
    • Câncer ativo: manter enquanto o câncer estiver ativo, com reavaliação periódica do risco de recorrência e de sangramento (ASH 2021)
    • Síndrome antifosfolipídeo confirmada, com qualquer perfil de anticorpos: profilaxia secundária com antagonista da vitamina K, e não com anticoagulante oral direto (SBACV 2024, Recomendação 13; SBPT 2025) — o texto da SBACV restringe à tripla positividade, a recomendação não; a conta está em Trombofilias e tromboembolismo venoso, na apostila de Hematologia e Hemoterapia
    • Escrever no prontuário a data em que a decisão foi tomada, o cenário que a justifica e a data da próxima reavaliação. "Anticoagulação perene" é termo a evitar: a manutenção se reavalia periodicamente, pesando recorrência contra sangramento (SBACV 2024)
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Como saber se está funcionando

Trombose venosa profunda tem um problema de reavaliação que não é comum às outras doenças da enfermaria: o desfecho que mais importa não aparece na perna. A perna vai melhorar devagar, com ou sem tratamento correto. O que o tratamento previne — o êmbolo que não sai, o trombo que não cresce, a recorrência que não acontece — é invisível por definição. Isso desloca o acompanhamento para outro lugar: em vez de perguntar "está funcionando?", pergunta-se "a droga certa está entrando na dose certa, e o preço dela está sob controle?".

Uma consequência prática, que quase todo interno aprende do jeito difícil: edema que persiste em duas semanas não é falha de tratamento. O anticoagulante não dissolve trombo; ele impede que o trombo cresça e que outros se formem, enquanto a fibrinólise endógena faz o resto, em semanas a meses. Trocar de anticoagulante porque "a perna não desinchou" é trocar por nada e reiniciar a curva de risco de sangramento.

A perna — dor e circunferênciaTodo dia enquanto internada, com fita métrica na mesma altura; depois, na consulta de retorno

Esperado: Dor em queda progressiva a partir de 48 a 72 horas, e circunferência que cai devagar ao longo de semanas. A deambulação melhora a dor, sobretudo em quem começou com dor moderada a intensa — não a piora.

Se não melhora: Piora rápida da dor, aumento da tensão do membro, cianose ou surgimento de bolhas mudam o diagnóstico de rota: é flegmasia até prova em contrário, e o telefonema para a cirurgia vascular é agora. Piora com a perna quente, vermelha e febre sugere infecção de pele associada, que se trata sem parar o anticoagulante. Perna que esfria e perde pulso é território arterial. E dor que só melhora e volta a piorar depois de melhorar pede reavaliação do trombo, não aumento de analgesia.

RNI, quando a manutenção for varfarinaA partir do 3º dia de varfarina, depois a cada 2 a 3 dias até estabilizar, e mensalmente quando estável

Esperado: Entre 2,0 e 3,0, em dois dias consecutivos, antes de suspender a heparina — e nunca antes de completados 5 dias de heparina.

Se não melhora: RNI que não sobe depois de 5 a 7 dias: confira se o paciente está realmente tomando, se alguém suspendeu por conta própria, e se há dieta com muita verdura escura ou uso de medicamento que induz o metabolismo. Aumente a dose diária em incrementos pequenos, e não dobre. RNI acima de 4,5 sem sangramento: suspender a dose e reavaliar em 24 a 48 horas, sem vitamina K de rotina. RNI acima de 4,5 COM sangramento, ou qualquer sangramento maior: suspender, vitamina K e concentrado de complexo protrombínico conforme a gravidade. E não esqueça o efeito de retirada: se o paciente parou a heparina antes das duas condições, ele passou dias descoberto.

PlaquetasBasal antes da primeira dose e depois periodicamente enquanto durar a heparina, com atenção especial entre o 5º e o 10º dia

Esperado: Estáveis em relação ao valor de admissão. A diretriz brasileira recomenda hemograma com contagem de plaquetas mesmo dispensando o controle rotineiro de anti-fator Xa nas heparinas de baixo peso molecular.

Se não melhora: Queda expressiva das plaquetas entre o 5º e o 10º dia de heparina, ou trombose nova sob anticoagulação adequada, levanta plaquetopenia induzida por heparina. É um quadro em que o paciente trombosa apesar de estar anticoagulado, e em que a conduta NÃO é aumentar a heparina: suspende-se toda heparina, inclusive a do lavado de cateter, e a decisão passa a ser compartilhada com a hematologia. Sem plaquetas basais, você não consegue nem começar essa conversa — é por isso que o hemograma vem antes da primeira dose.

Sangramento — o preço do tratamentoTodo dia, na visita, com pergunta ativa; hemoglobina conforme o quadro

Esperado: Ausência de sangramento maior. Equimose no local da aplicação e gengivorragia discreta são esperadas e não motivam suspensão.

Se não melhora: Sangramento maior — queda de hemoglobina, instabilidade, sangramento em sítio crítico, necessidade de transfusão — manda suspender o anticoagulante, identificar o sítio e reverter conforme a droga: protamina para heparina, vitamina K e concentrado de complexo protrombínico para varfarina, idarucizumabe para dabigatrana, andexanet alfa para os inibidores do fator Xa. A reposição volêmica e de hemocomponentes segue o capítulo de choque hemorrágico, e o sangramento digestivo alto tem capítulo próprio. Resolvido o risco, a anticoagulação é reiniciada, e não abandonada: a trombose não deixou de existir porque o paciente sangrou.

Função renalNa admissão e periodicamente, sobretudo com depuração próxima de 30 mL/min, idade avançada, desidratação ou uso de contraste

Esperado: Depuração estável na faixa que sustenta a droga escolhida.

Se não melhora: Queda da depuração para abaixo de 30 mL/min com heparina de baixo peso molecular em dose plena significa bioacumulação e sangramento. A conduta é reduzir para uma aplicação diária ou trocar por heparina não fracionada, que é o que a diretriz brasileira sugere na insuficiência renal grave. Abaixo de 15 mL/min, heparinas de baixo peso molecular, fondaparinux e anticoagulantes orais diretos saem de cena e a heparina não fracionada com varfarina é o caminho. O método de recalcular dose por função renal está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática.

Sintomas respiratórios novosPergunta ativa em toda visita, e orientação escrita na alta

Esperado: Ausência de dispneia, dor pleurítica, tosse, hemoptise, taquicardia ou queda de saturação.

Se não melhora: Qualquer um desses num paciente com trombose confirmada é embolia pulmonar até prova em contrário, e a investigação não espera o horário comercial: monitorização, oxigênio se hipoxemia, eletrocardiograma, anticoagulação plena mantida, angiotomografia se estável e ecocardiograma à beira do leito se instável. O manejo da dispneia aguda e dos primeiros minutos do paciente grave tem capítulo próprio nesta coleção.

Adesão e continuidade — o parâmetro que ninguém medeNa alta, em 7 dias por telefone se possível, e em toda consulta

Esperado: O paciente sabe o nome da droga, a dose, o horário, a data do próximo controle e por quanto tempo vai tomar.

Se não melhora: Se ele não sabe responder a essas cinco perguntas, o tratamento já falhou e ainda não deu sintoma. As causas mais comuns são as mais banais: receita de droga que ele não consegue comprar, RNI marcado num serviço distante, medo de sangrar depois de uma equimose, e a suspensão por conta própria porque "a perna já desinchou". Cada uma delas se resolve com uma frase dita na alta — e nenhuma se resolve com exame.

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Onde o erro machuca

Pedir dímero-D em paciente com escore provável

O dano: Atraso puro. Em probabilidade clínica alta, nem um ensaio de alta sensibilidade serve para descartar tromboembolismo venoso, e a diretriz brasileira manda seguir direto para a imagem qualquer que seja o valor. Como câncer, cirurgia, infecção, trauma, gestação e a própria internação elevam o marcador, o resultado volta alterado quase sempre — e o que se ganhou foram as horas entre a coleta e o laudo, durante as quais o trombo continua propagando de poplítea para femoral. No cenário oposto, um resultado negativo dá uma falsa tranquilidade que já mandou paciente para casa com trombose: a série publicada inclui uma mulher de 43 anos com Wells 2 e dímero-D negativo que tinha trombose ao ultrassom.

Como pegar a tempo: Some o escore ANTES de abrir o pedido de exames. Se der 2 ou mais, o campo do dímero-D fica em branco e o pedido é de eco-Doppler. Uma regra de bolso que funciona no plantão: se você já sabe que vai pedir o ultrassom de qualquer jeito, o dímero-D não tem função nenhuma naquele paciente.

Excluir trombose com dímero-D negativo em paciente com câncer ou com trombose prévia

O dano: A combinação de escore menor ou igual a 1 com dímero-D negativo leva a probabilidade para abaixo de 2% em diferentes grupos de pacientes — com exceção explícita de duas populações: câncer e trombose venosa profunda recorrente. Nessas duas, a regra de exclusão não vale, e usá-la assim mesmo produz o pior desfecho possível do capítulo: alta com trombo. No paciente com câncer, além disso, o marcador já vem elevado pela doença de base, e o valor "normal" é ainda mais improvável — quando ele aparece, a tentação de acreditar é maior.

Como pegar a tempo: Trate câncer em atividade e trombose prévia no mesmo membro como duas chaves que desligam o dímero-D. Nesses pacientes, o exame de escolha é o eco-Doppler, independentemente de escore e de marcador. Escreva o motivo no pedido — isso protege o próximo profissional de repetir o raciocínio errado.

Esperar o exame para começar a anticoagular — ou anticoagular sem checar contraindicação

O dano: São dois erros opostos com a mesma raiz: não separar as duas perguntas. Esperar o Doppler de amanhã num paciente com escore provável deixa desprotegido alguém com quase 30% de chance de ter trombo, e o intervalo é justamente quando o trombo pode alcançar segmento proximal ou embolizar. Do outro lado, dar a primeira dose sem checar sangramento ativo, plaquetopenia grave, hemorragia intracraniana recente ou cirurgia iminente transforma uma conduta correta em hemorragia — e anticoagulante, diferentemente de quase tudo que se prescreve na enfermaria, não tem como ser desfeito nas horas seguintes.

Como pegar a tempo: Faça as duas perguntas em sequência fixa, e sempre nessa ordem: primeiro "a suspeita é provável?", depois "há contraindicação?". Se as respostas forem sim e não, a dose sai hoje — a recomendação de iniciar o anticoagulante enquanto se aguarda a confirmação está escrita na diretriz brasileira. Se houver contraindicação e a trombose for proximal, o caminho não é a inércia: é discutir filtro temporário de veia cava.

Prescrever repouso no leito e meia elástica por reflexo

O dano: Repouso não previne embolia. Metanálise de 13 estudos e 3.269 pacientes não encontrou aumento de embolia pulmonar, progressão de trombo ou mortalidade com a deambulação precoce sob anticoagulação — e encontrou melhora superior da dor em quem tinha dor moderada a intensa. O que o repouso produz de verdade é o que o repouso sempre produz num paciente internado: perda de massa muscular, delirium, lesão por pressão e mais estase. Já a meia elástica de rotina não passou no teste que lhe pediram: a recomendação vigente é condicional CONTRA o uso rotineiro para prevenir síndrome pós-trombótica, inclusive nos pacientes de maior risco, com a ressalva de que ela pode ser considerada para alívio sintomático.

Como pegar a tempo: Escreva na prescrição "deambulação liberada conforme a dor", em vez de deixar o repouso implícito — a enfermagem segue o que está escrito, e o que não está escrito vira repouso. Se prescrever meia, escreva ao lado a indicação: alívio de sintoma, e não prevenção de síndrome pós-trombótica. E converse: o paciente que ouviu a vida inteira que quem tem trombose não pode levantar precisa ouvir de você o contrário, com o motivo.

Calcular a dose com peso estimado, ou confundir dose profilática com dose terapêutica

O dano: As duas doses de enoxaparina que mais circulam na enfermaria são 40 mg por dia e 1 mg/kg de 12 em 12 horas, e elas servem a finalidades diferentes por um fator de três ou quatro. Num paciente de 74 kg, a dose terapêutica é de 148 mg por dia contra 40 mg da profilática: prescrever a profilática para tratar uma trombose instalada é deixar o trombo crescer sob a aparência de tratamento. No sentido inverso, calcular 1 mg/kg sobre um peso "de olho" que errou 15 quilos para cima entrega 15 mg a mais por dose, duas vezes ao dia, a um paciente que talvez também tenha função renal ruim.

Como pegar a tempo: Peso na balança, hoje, escrito no prontuário, e a conta feita na frente de alguém. Escreva na prescrição a dose em miligramas E o volume em mililitros — 74 mg, 0,74 mL da seringa de 100 mg/mL —, porque quem administra confere volume, não aritmética. E leia em voz alta a indicação junto com a dose: "enoxaparina em dose de TRATAMENTO, 1 mg por quilo, de 12 em 12 horas".

Dar alta sem escrever por quanto tempo, e sem marcar quem decide isso

O dano: É o erro mais silencioso do capítulo, e o de efeito mais longo. O paciente sai com receita de trinta dias e nenhuma frase sobre duração. Duas coisas acontecem: ou ele para sozinho quando a caixa acaba e a perna já desinchou — e a recorrência de tromboembolismo venoso chega a 25% —, ou ele toma anticoagulante por anos sem que ninguém tenha reavaliado o risco de sangramento, que sobe com a idade, com a queda da função renal e com cada anti-inflamatório que ele passa a usar. As duas pontas do erro custam internação.

Como pegar a tempo: Escreva a duração planejada e o cenário que a justifica em linha própria da alta — provocada por fator transitório, provocada por fator menor, não provocada, associada a câncer ou recorrente. Marque a consulta de 3 meses ANTES da alta, com a finalidade escrita no encaminhamento: "reavaliar duração da anticoagulação". E evite o termo "anticoagulação perene": a manutenção se reavalia periodicamente, pesando recorrência contra sangramento.

Prescrever na alta um anticoagulante que o paciente não vai conseguir

O dano: A receita de rivaroxabana entregue a quem depende da rede pública é uma prescrição que dura o tempo da primeira caixa. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista heparina sódica, enoxaparina — esta apenas no Componente Especializado, vinculada ao protocolo de gestantes com trombofilia — e varfarina em comprimidos de 1 mg e 5 mg no Componente Básico. Os anticoagulantes orais diretos ficaram de fora: a relação de anticoagulantes daquele documento se esgota nessas três moléculas. O desfecho previsível é a suspensão em duas a quatro semanas, sem que ninguém saiba — que é a mesma coisa que não ter tratado.

Como pegar a tempo: Pergunte na admissão, e não na alta: onde a senhora retira os remédios? A resposta muda a escolha da droga, e não só a receita. Se o caminho for varfarina, a alta precisa sair com a data do primeiro RNI, o serviço onde ele será colhido e a orientação alimentar — porque varfarina sem controle de RNI é pior que não anticoagular, e é isso que acontece quando a decisão de droga é tomada sem perguntar quem paga.

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O que dizer ao paciente e à família

Três informações precisam sair desta conversa dentro da cabeça do paciente, e só três: o que ele tem, o que pode acontecer que exija voltar correndo, e por quanto tempo isso vai durar. Todo o resto é conforto — importante, mas não é o que o protege.

Duas armadilhas de linguagem valem ser nomeadas. A primeira é a palavra "trombose", que na boca do paciente já vem com uma história de família e um desfecho: quase todo mundo conhece alguém que morreu disso. A segunda é o silêncio sobre o sangramento — quem não foi avisado de que pode sangrar interpreta a primeira equimose como erro médico e para a medicação sozinho. Diga o preço antes de o preço aparecer.

E a prova de que a informação chegou não é a cara de quem entendeu: é o paciente contando de volta, com as próprias palavras e com as datas.

Explicando o diagnóstico e o que o remédio faz — e o que ele não faz

A senhora tem um coágulo dentro de uma veia funda da perna. O remédio que eu vou começar hoje não desmancha esse coágulo; quem desmancha é o seu próprio corpo, e ele leva semanas. O que o remédio faz é impedir que o coágulo cresça e que apareçam outros — e é isso que protege o seu pulmão. Por isso eu não quero que a senhora se assuste se a perna continuar inchada daqui a uma semana: é assim mesmo. O que eu quero é que a senhora não pare o remédio por causa disso.

Não diga: Vamos dissolver esse coágulo. Cria a expectativa de uma perna normal em dois dias, e quando ela não vem, o paciente conclui que o tratamento falhou — e a conclusão seguinte costuma ser parar ou trocar por conta própria.

Quando o exame não vai ser feito, e o paciente esperava o exame

Eu entendo que a senhora tenha vindo esperando o ultrassom, e vou explicar por que não vamos fazer. Existe uma conta que a gente faz com o que a senhora contou e com o que eu examinei, e ela dá a chance de isto aqui ser uma trombose. Na senhora, essa chance é baixa — e o exame de sangue que eu pedi voltou negativo. Quando as duas coisas andam juntas, chance baixa e exame negativo, a possibilidade de ser trombose fica abaixo de dois em cem, e o ultrassom não muda nada. O que essa vermelhidão parece é uma infecção de pele, e é isso que eu vou tratar. Agora, se em dois ou três dias a perna inchar mais, ficar mais dura ou aparecer falta de ar, a senhora volta — e aí sim a conta muda.

Não diga: Não precisa de exame, não é nada. "Não é nada" tira do paciente exatamente o gatilho que faria ele voltar, e transforma um plano de segurança numa dispensa.

Avisando do sangramento antes que ele aconteça

Este remédio deixa o sangue mais fino, e isso tem um preço que eu preciso combinar com a senhora agora. Manchas roxas onde a agulha entra, gengiva sangrando um pouquinho ao escovar, corte de barbear que demora mais para parar: isso é esperado e não é motivo para parar nada. O que É motivo para voltar no mesmo dia: sangue na urina, fezes pretas como borra de café, vômito com sangue, sangramento que não para de jeito nenhum, ou uma dor de cabeça forte e diferente de todas as suas. Vou escrever essa lista neste papel. A senhora pode ler para mim o que está escrito, para eu ver se ficou claro?

Não diga: Qualquer sangramento a senhora volta. Sem separar o esperado do grave, o paciente ou volta ao pronto-socorro por uma equimose ou fica em casa com melena achando que é normal.

Quando o paciente pergunta por quanto tempo vai tomar

Vou responder o que eu sei hoje, e o que ainda vai ser decidido. O tratamento tem um período inicial de pelo menos três meses, e isso não muda. O que vai ser decidido em três meses é se a senhora para ali ou continua — e quem decide isso é o motivo que fez o coágulo aparecer. Se ele apareceu por causa de uma coisa que já passou, a gente para. Se apareceu sem motivo nenhum, ou por causa de algo que continua, a tendência é continuar, e a gente refaz essa conversa a cada seis meses. Por isso essa consulta de três meses já está marcada aqui no papel, e ela não é uma consulta de rotina: é a consulta que decide isso.

Não diga: Por enquanto toma e depois a gente vê. Vira o paciente que toma anticoagulante há quatro anos sem que ninguém tenha reavaliado, ou o que parou sozinho no terceiro mês.

Trombose em paciente com câncer — a conversa que junta duas doenças

A senhora está tratando um câncer, e o coágulo apareceu por causa dele: o tumor deixa o sangue mais propenso a coagular. Isso quer dizer duas coisas. A primeira é que não foi culpa de nada que a senhora fez ou deixou de fazer. A segunda é que, enquanto o câncer estiver em tratamento, o remédio para o sangue continua — não é um tratamento de três meses, é um tratamento que acompanha o outro. Isso soma injeção e comprimido a uma rotina que já está cheia, e eu sei disso. Vamos escolher junto o esquema que a senhora consegue manter, porque o melhor remédio do mundo não serve se ele não for tomado.

Não diga: É comum ter trombose com câncer, não se preocupe. Normaliza sem informar, e não abre a decisão que a paciente precisa tomar com você — qual esquema ela consegue sustentar.

Explicando por que ela vai levantar da cama, contra o que todo mundo diz

A senhora vai ouvir de muita gente que quem tem trombose não pode levantar. Isso já foi verdade e não é mais. Estudaram milhares de pacientes que levantaram cedo e milhares que ficaram de repouso, e não houve mais embolia entre os que caminharam — e a dor melhorou mais neles. O que faz mal é ficar parada: parada a senhora perde músculo, fica mais confusa, corre risco de ferida nas costas e o sangue circula ainda menos. Então o combinado é: caminhar todos os dias, dentro do que a dor deixar, e manter a perna elevada quando estiver sentada.

Não diga: Pode levantar, sim. A permissão sem o motivo não vence a orientação contrária que a família vai dar em casa — e é a família que está com a paciente vinte e três horas por dia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Probabilidade moderada com dímero-D negativo: dispensar a imagem ou fazer assim mesmo

Pode dispensar o ultrassom

Escore de Wells de moderada ou baixa probabilidade associado a dímero-D sérico normal permite prescindir do eco-Doppler para exclusão diagnóstica. O argumento se apoia na sensibilidade do marcador — entre 94% e 100%, de modo que a ausência de elevação afasta o diagnóstico em 97% a 98% dos casos — e no dado de que, com escore menor ou igual a 1 e dímero-D negativo, a probabilidade cai abaixo de 2%. Em serviço com fila de ultrassom, dispensar exame em quem tem menos de 2% de chance libera vaga para quem tem 28%.

SBACV — Diretrizes sobre trombose venosa profunda, J Vasc Bras. 2024;23:e20230107, Recomendação 3 (Classe II, nível C)

Escore 2 já é "provável" e vai para a imagem

O modelo simplificado adotado pela diretriz conjunta brasileira dicotomiza em dois grupos, com corte em 2 pontos: 2 ou mais é trombose provável, 1 ou menos é improvável. Nessa leitura, o paciente que a versão de três categorias chamaria de "moderado" com 2 pontos está no grupo provável e segue para a ultrassonografia — porque probabilidade clínica alta não é excluída por dímero-D, qualquer que seja o valor. A casuística de apoio é desconfortável: o grupo de probabilidade moderada teve trombose confirmada em 26,9% dos pacientes numa série brasileira de 489 casos, e há descrição de trombose ao ultrassom em paciente com Wells 2 e dímero-D negativo.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022 (DIC/SBC, CBR, SBACV, SBMN), Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857; casuística de Fortes VB et al., J Vasc Bras. 2007;6(1):3-12; caso descrito em Al-Khafaji RA, Schierbeck L, J Blood Med. 2020;11:173-84

Como decidir

A divergência é sobre o paciente com exatamente 2 pontos, e ela some se você mudar a pergunta: quanto custa errar aqui, para este paciente? Se o escore chegou a 2 pontos por dois itens frouxos — dor difusa e um cacifo discreto — e existe um diagnóstico alternativo que você consegue nomear, some os dois pontos negativos e o paciente cai para improvável: aí o dímero-D negativo resolve. Se os 2 pontos vieram de itens duros — panturrilha medida com 3,5 cm de diferença e edema de todo o membro —, você já está diante de uma perna objetivamente diferente da outra, e nenhum exame de sangue explica isso: peça a imagem. Três coisas empurram sempre para a imagem, mesmo com dímero-D negativo: câncer em atividade, trombose prévia no mesmo membro e impossibilidade de reavaliar o paciente em poucos dias. E se você dispensar o ultrassom, a decisão tem uma segunda metade obrigatória: retorno combinado em 48 a 72 horas se a perna piorar, com a data escrita — porque o que torna seguro excluir com 2% de probabilidade é a rede que pega os 2%.

Remoção precoce do trombo na trombose ilíaco-femoral sintomática

Remover o trombo cedo em pacientes selecionados

Em pacientes selecionados com trombose ilíaco-femoral aguda e sintomática, especialmente os de baixo risco de sangramento, recomenda-se a utilização de estratégias precoces de remoção do trombo. O apoio vem do CaVenT, que mostrou redução absoluta de 14,4% na síndrome pós-trombótica em 24 meses, subindo para 28% em 5 anos, com o número necessário para tratar caindo de sete para quatro; e da análise por segmento do ATTRACT de fase III, em que a trombose poplíteo-femoral teve menos síndrome pós-trombótica aos 6 meses com trombectomia farmacomecânica (21,7% contra 40,8%; p = 0,01), além de melhora de qualidade de vida e de sintomas aos 30 dias.

SBACV — Diretrizes sobre trombose venosa profunda, J Vasc Bras. 2024;23:e20230107, Recomendação 18 (Classe II, nível B)

Anticoagulação isolada, sem trombólise de rotina

A abordagem preferencial na trombose proximal é a anticoagulação como tratamento primário, em vez de combiná-la com terapia trombolítica. Os números que sustentam essa posição são os desfechos duros: o ATTRACT não encontrou diferença na proporção de síndrome pós-trombótica em 24 meses (47% contra 48%; p = 0,56) e produziu mais sangramento maior em 10 dias (1,7% contra 0,3%; p = 0,049); o CAVA, restrito à trombose fêmoro-ilíaca, não mostrou diferença em 12 meses (29% contra 35%; p = 0,42); e a revisão sistemática Cochrane encontrou mais complicações hemorrágicas com trombólise (6,7% contra 2,2%; RR 2,45; IC95% 1,58-3,78) para uma redução modesta de síndrome pós-trombótica.

SBACV — Diretrizes sobre trombose venosa profunda, J Vasc Bras. 2024;23:e20230107, Recomendação 5 (Classe II, nível C); e American Society of Hematology 2020, Blood Adv. 2020;4(19):4693-738 (recomendação condicional por anticoagulação isolada, baixa certeza)

Como decidir

Repare que a mesma diretriz sustenta as duas posições, e isso não é contradição: uma vale para a trombose proximal em geral, a outra para um subgrupo estreito. A decisão à beira do leito passa por quatro perguntas objetivas, e você é quem colhe as respostas. O trombo é ILÍACO-femoral, e não apenas femoral ou poplíteo? Abaixo da ilíaca, a remoção precoce não é recomendada. Os sintomas são graves e recentes — membro muito edemaciado, dor limitante, menos de 14 dias de evolução? Quanto mais tarde, menos trombo passível de remoção. O risco de sangramento é baixo — sem câncer avançado, sem sangramento recente, sem plaquetopenia, sem cirurgia próxima? É o preço da intervenção, e ele é real. E qual é a expectativa funcional deste paciente: uma pessoa de 30 anos com trombose iliofemoral que vai conviver quarenta anos com uma perna decide diferente de uma pessoa de 80 anos com múltiplas comorbidades. Fora do quadro de flegmasia — em que a remoção deixa de ser opção e vira urgência —, a decisão é da cirurgia vascular, e o seu papel é fazer a ligação com os quatro dados na mão, e não com "trombose extensa, avaliar".

Qual anticoagulante no tromboembolismo associado ao câncer

Heparina de baixo peso molecular como primeira linha

As diretrizes recomendam a heparina de baixo peso molecular como terapia de primeira linha na trombose associada ao câncer, por ser superior aos antagonistas da vitamina K quanto à recorrência de tromboembolismo e semelhante quanto a sangramento. A ressalva metodológica que sustenta a cautela com as alternativas orais é que a evidência inicial dos anticoagulantes orais diretos nesse grupo vinha de análises de subgrupo de estudos de fase III desenhados contra antagonistas da vitamina K, e não de comparações diretas contra a heparina de baixo peso molecular, que era o padrão.

Yoshida WB. Anticoagulantes orais diretos no tratamento do tromboembolismo venoso em pacientes com câncer. J Vasc Bras. 2016;15(4):263-4

Anticoagulante oral direto, com exceções nomeadas

A régua mais recente inverte o padrão e coloca o anticoagulante oral direto como preferido na maior parte dos pacientes com câncer, reservando a heparina de baixo peso molecular para três situações nomeadas: tumor gastrointestinal ou geniturinário intraluminal não ressecado, absorção gastrointestinal comprometida ou ressecção intestinal prévia, e interação medicamentosa relevante com o oral direto. A duração, em ambos os cenários, deixa de ser contada em meses: a anticoagulação se mantém enquanto houver câncer ativo, doença metastática ou quimioterapia em curso, e se suspende quando o risco de recorrência deixa de ser alto ou nas últimas semanas de vida.

American Society of Hematology 2021 — Lyman GH, Carrier M, Ay C, et al., Blood Adv. 2021;5(4):927-74, e o guia de bolso derivado (Lauw MN, Gangaraju R, Carrier M, outubro de 2023)

Como decidir

No Brasil a decisão tem uma terceira variável que não aparece em nenhuma das duas posições: nenhum anticoagulante oral direto integra a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, e a enoxaparina consta apenas no Componente Especializado, vinculada ao protocolo de gestantes com trombofilia. Para o paciente que depende da rede pública, a escolha efetiva costuma ficar entre heparina que o hospital fornece durante a internação e varfarina depois — e ignorar isso não é neutralidade, é prescrever um tratamento que não vai acontecer. As perguntas que resolvem: o tumor é gastrointestinal ou geniturinário intraluminal não ressecado, ou há vômito, mucosite, síndrome de má absorção ou ressecção intestinal? Se sim, a heparina de baixo peso molecular tem vantagem clínica clara, e vale a pena brigar pelo acesso, envolvendo a farmácia e a equipe de oncologia. O paciente está em terapia oral com inibidores ou indutores da glicoproteína P? Também empurra para a heparina. Ele consegue e tolera injeção subcutânea duas vezes ao dia, todos os dias, por meses? Se não consegue — e muitos não conseguem —, um esquema oral que ele mantenha vale mais que um esquema superior que ele abandone. Escreva no prontuário qual foi a razão da escolha; a próxima equipe precisa saber se a decisão foi clínica ou logística.

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O raciocínio, em voz alta

Volte à terça-feira de manhã, com as duas pernas. Leito 7: dona Sueli, 34 anos, panturrilha direita vermelha, quente e dolorida há dois dias, com um pedido de Doppler já escrito e sublinhado. Leito 12: dona Cleuza, 68 anos, 74 kg, adenocarcinoma de cólon irressecável em quimioterapia, internada por náusea, com a coxa esquerda maior e nenhuma anotação a respeito. Acompanhe o raciocínio, em voz alta.

  1. começo pela perna que já tem pedido de exame, e a primeira coisa que faço é medir

    Descubro as duas pernas de dona Sueli. A direita está vermelha do tornozelo ao terço médio da perna, quente, com bordas mal definidas, e há uma fissura interdigital com descamação — porta de entrada. Meço as panturrilhas dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia: 36 cm à direita e 35 cm à esquerda. Um centímetro de diferença não pontua. Somo o escore: câncer não; paralisia ou gesso não; acamada mais de três dias ou cirurgia em doze semanas não; dor no trajeto venoso profundo, sim, 1; edema de todo o membro não; panturrilha mais de 3 cm maior não; cacifo restrito ao lado sintomático, sim, 1; colaterais não varicosas não; trombose prévia não. E o item que ninguém marca: existe diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto trombose? Existe, e eu consigo nomeá-lo — erisipela, com porta de entrada visível. Menos 2. Total: zero. Trombose improvável.

  2. com escore improvável, o exame que decide é o de sangue, e não o de imagem

    Peço dímero-D. Ela tem 34 anos, então o corte é o fixo de 500 mcg/L, sem ajuste por idade. Volta 210 mcg/L. Escore menor ou igual a 1 com dímero-D negativo leva a probabilidade para abaixo de 2%, e ela não está em nenhuma das duas exceções — não tem câncer e não tem trombose prévia. O eco-Doppler é dispensado. Cancelo o pedido escrito pelo plantonista e escrevo o motivo na evolução, porque pedido cancelado sem justificativa volta a ser pedido na próxima passagem de plantão. Trato a erisipela, retiro o repouso prescrito pela enfermagem e combino retorno em 48 a 72 horas se a perna inchar mais ou se aparecer falta de ar — com a data no papel. Levei onze minutos e não gastei um ultrassom.

  3. agora o leito 12, e aqui a conta anda para o outro lado

    Dona Cleuza não reclamou de nada além de "peso na perna". Descubro as duas: a esquerda está maior da raiz da coxa ao tornozelo, sem rubor, com temperatura igual à da outra. Meço: 39,5 cm à esquerda contra 35 cm à direita — 4,5 cm de diferença. Cacifo à esquerda apenas. Dor à palpação da goteira medial da coxa. Somo: câncer em atividade, 1; dor no trajeto venoso profundo, 1; edema de todo o membro, 1; panturrilha mais de 3 cm maior, 1; cacifo unilateral, 1. Nenhum diagnóstico alternativo que eu consiga nomear, então não há desconto. Cinco pontos. Trombose provável. Repare no contraste que organiza o capítulo: a perna que gritava valia zero e a perna calada vale cinco.

  4. não peço dímero-D, e sei exatamente por quê

    Com escore 5, o dímero-D não pode excluir nada — em probabilidade alta nem o ensaio de alta sensibilidade descarta. E ela tem câncer em atividade, que é uma das duas exceções em que nem o corte de exclusão vale. Além disso, o resultado voltaria alterado de qualquer jeito, pela quimioterapia e pela internação. Peço eco-Doppler colorido com compressão de todo o trajeto venoso do membro inferior esquerdo, e escrevo a pergunta no pedido: definir topografia, extensão, segmento mais proximal e presença de trombo flutuante. O ultrassom do serviço só tem vaga para o fim da tarde.

  5. antes de esperar o exame, faço a segunda pergunta

    A primeira pergunta era "é provável?", e a resposta foi sim. A segunda é "há contraindicação?". Reviso: sem sangramento ativo, sem melena, sem hematúria, sem sangramento gengival espontâneo; sem hemorragia intracraniana ou lesão cerebral; hemograma de ontem com hemoglobina de 10,8 g/dL e plaquetas de 212.000; sem cirurgia programada. Nenhuma contraindicação. Então a primeira dose sai agora, antes do exame — é o que a diretriz brasileira recomenda na alta suspeita sem contraindicação, e a razão é aritmética: quase 30% de chance de trombo, mais oito horas de espera, é tempo de o trombo subir.

  6. calculo a dose com o peso da balança e escrevo o volume

    Peso aferido hoje: 74 kg. Creatinina 1,3 mg/dL; depuração por Cockcroft-Gault: ((140 − 68) × 74) ÷ (72 × 1,3) × 0,85 = 48 mL/min. Acima de 30, então heparina de baixo peso molecular em dose plena está liberada. Enoxaparina 1 mg/kg de 12 em 12 horas: 1 × 74 = 74 mg por dose. As seringas de 20 a 100 mg são todas de 100 mg/mL, então 74 mg são 0,74 mL — uso a seringa de 80 mg/0,8 mL e desprezo 0,06 mL. Prescrevo assim, com miligrama e mililitro na mesma linha, porque quem administra confere volume. E prescrevo mais duas coisas que valem tanto quanto: deambulação liberada conforme a dor, e nada de meia elástica para prevenir síndrome pós-trombótica.

  7. com o laudo, decido o que fica e o que sai

    Às dezoito horas o exame mostra trombose oclusiva de veias femoral comum, femoral e poplítea à esquerda, sem extensão ilíaca e sem trombo flutuante. É proximal, e não é ilíaco-femoral: remoção precoce do trombo não está indicada nesse território. Ela está anticoagulada, então filtro de veia cava também não. Mantenho a enoxaparina. E aí vem a decisão que mais dura: ela tem câncer irressecável em quimioterapia, e a heparina de baixo peso molecular é a preferida nesse cenário — ainda mais com tumor gastrointestinal intraluminal não ressecado. Só que ela retira medicação na farmácia básica, e a enoxaparina não está disponível ali para essa indicação. Chamo a farmácia clínica e a oncologia no mesmo dia, com a pergunta específica: existe caminho para manter a enoxaparina? Se não existir, o esquema é varfarina 5 mg iniciada hoje, com heparina mantida por no mínimo 5 dias E até RNI entre 2 e 3 em dois dias consecutivos. Escrevo qual foi a razão da escolha.

  8. fecho pela linha que decide o resto da vida dela

    Na evolução e na alta, em linha própria: "Trombose venosa profunda proximal (femoral comum, femoral e poplítea à esquerda) em paciente com adenocarcinoma de cólon irressecável em quimioterapia. Wells = 5. Duração planejada: enquanto houver câncer em atividade, doença metastática ou quimioterapia em curso, com reavaliação a cada 3 a 6 meses do risco de recorrência e de sangramento." Marco a consulta de reavaliação antes da alta, com a finalidade escrita no encaminhamento. Entrego a lista de sinais de alarme e peço que a filha leia em voz alta para mim. E aviso, com essas palavras: a perna vai continuar inchada por semanas, e isso não é o remédio falhando.

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Faça você

Agora é seu Adão, 58 anos, 96 kg, 1,78 m. Fez artroplastia total de joelho direito há 12 dias e recebeu alta no 3º dia de pós-operatório. Voltou ao pronto-socorro hoje porque a perna direita inteira inchou nas últimas 48 horas e dói na panturrilha ao apoiar. Não tem câncer, nunca teve trombose, não usa anticoagulante. Sem dispneia, sem dor torácica, saturação de 97% em ar ambiente. Panturrilha direita com 42 cm e esquerda com 38 cm, medidas dez centímetros abaixo da tuberosidade da tíbia. Cacifo à direita apenas. Ferida operatória limpa e seca, sem rubor, sem secreção, sem febre. Creatinina 0,9 mg/dL. Hemoglobina 12,4 g/dL, plaquetas 265.000.

  1. o que somo antes de pedir qualquer coisa

    Escore de Wells: cirurgia de grande porte nas últimas 12 semanas, 1; dor localizada no trajeto venoso profundo, 1; edema de todo o membro, 1; panturrilha 4 cm maior que a contralateral, 1; cacifo restrito ao lado sintomático, 1. Câncer não, paralisia ou gesso não, colaterais não varicosas não, trombose prévia não. Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto trombose: a ferida está limpa, sem rubor e sem febre, então não consigo nomear um — sem desconto. Total: 5 pontos. Trombose provável.

  2. qual exame, e qual exame não

    Com escore provável, o exame é o eco-Doppler colorido com compressão de todo o trajeto venoso do membro. Dímero-D não entra: não excluiria nada em probabilidade alta, e ainda estaria elevado por uma artroplastia de 12 dias. O ultrassom do plantão está disponível e mostra trombose oclusiva de veias poplítea e femoral à direita, sem extensão para ilíaca e sem trombo flutuante — trombose proximal.

  3. o que verifico antes da primeira dose

    Sem sangramento ativo, sem hemorragia intracraniana ou lesão cerebral recente, plaquetas de 265.000, sem cirurgia de urgência programada, ferida operatória seca. Nenhuma contraindicação. Peso aferido na balança: 96 kg. Depuração de creatinina por Cockcroft-Gault, homem: ((140 − 58) × 96) ÷ (72 × 0,9) = 7.872 ÷ 64,8 = 121 mL/min. Função renal preservada.

  4. o que a topografia e o cenário me dizem sobre intervenção

    É trombose femoral e poplítea, e não ilíaco-femoral: remoção precoce do trombo não é recomendada nesse território. Ele está anticoagulado e sem contraindicação, então filtro de veia cava não entra. Deambulação liberada conforme a dor, com o membro elevado no repouso — o que a reabilitação da artroplastia já pedia. Meia elástica não é prescrita para prevenir síndrome pós-trombótica; se ele referir alívio, escreve-se que é por sintoma.

  5. conduta: escreva a prescrição inicial com a dose calculada e o volume, e escreva a duração planejada com a justificativa

    — sua vez —

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Compare as duas pacientes da abertura, apresente ao supervisor o plano de investigação e redija uma alta que a família consiga executar.

  7. Questão integrativa 1

    Cleuza terá ultrassom apenas à noite. Que informações permitem discutir a anticoagulação provisória?

  8. Questão integrativa 2

    Um ultrassom proximal negativo encerra toda investigação?

  9. Questão integrativa 3

    Por que TP e TTPa normais não significam baixo risco de sangramento?

  10. Questão integrativa 4

    A seringa disponível tem concentração diferente da do exemplo. Pode copiar o volume?

  11. Questão integrativa 5

    A perna continua inchada após uma semana. Isso prova falha terapêutica?

  12. Questão integrativa 6

    Qual é a pergunta principal no retorno de três meses após TVP provocada por cirurgia?

Ver como fecharíamos

A prescrição inicial é enoxaparina em dose de tratamento: 1 mg/kg × 96 kg = 96 mg por via subcutânea de 12 em 12 horas. As seringas de 20 a 100 mg são todas de 100 mg/mL, então 96 mg equivalem a 0,96 mL — usa-se a seringa de 100 mg/1 mL e desprezam-se 0,04 mL. Na prescrição vão as duas informações na mesma linha, miligrama e mililitro, porque quem administra confere volume. A alternativa de dose única diária seria 1,5 mg/kg × 96 = 144 mg, o que na concentração de 100 mg/mL dá 1,44 mL, e na seringa de 150 mg/mL dá 0,96 mL. Se a função renal fosse ruim, com depuração abaixo de 30 mL/min, a dose passaria a 1 mg/kg uma vez ao dia — 96 mg, 0,96 mL, metade da dose diária — ou se trocaria por heparina não fracionada; não é o caso, com 121 mL/min. Se a escolha fosse heparina não fracionada endovenosa: bolus de 80 U/kg = 7.680 UI, que, em apresentação confirmada para uso IV de 5.000 UI/mL, correspondem a 1,536 mL antes da diluição prescrita; não usar a apresentação subcutânea concentrada como padrão para IV, seguidos de infusão de 18 U/kg/h = 1.728 UI/h, ajustada para TTPa entre 1,5 e 2,5 vezes o basal. Uma opção de manutenção, após verificar adequação e acesso local com a equipe, é varfarina 5 mg por via oral uma vez ao dia iniciada NO MESMO DIA, com alvo de RNI entre 2 e 3; a enoxaparina só sai depois de no mínimo 5 dias E de RNI na faixa em dois dias consecutivos — as duas condições, não uma. Quanto à duração, este é um tromboembolismo provocado por fator de risco transitório maior — cirurgia de grande porte — em primeiro episódio, sem trombofilia conhecida e sem câncer: anticoagulação por 3 a 6 meses e depois suspensão, sem profilaxia secundária. O tratamento estendido de 6 a 12 meses foi comparado ao curto e não compensou o sangramento adicional nesse cenário. O que precisa estar escrito na alta, em linha própria: o cenário ("provocado por cirurgia de grande porte, primeiro episódio"), a duração planejada com a data prevista de suspensão, a data do primeiro RNI e a consulta de reavaliação em 3 meses já marcada. E uma última coisa que não é dose: seu Adão vai perguntar se pode continuar a fisioterapia do joelho. Pode, e deve — a deambulação precoce sob anticoagulação não aumentou embolia, progressão de trombo nem mortalidade, e melhorou a dor. Se o paciente é candidato a tratamento domiciliar, a alta depende também de estabilidade, suporte, compreensão e acesso real à anticoagulação. Reavaliar cedo a tolerância e adesão, além da revisão da duração aos três meses. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Probabilidade e gravidade, previsão real do exame, sangramento e contraindicações, peso, função renal e tratamento em uso. No caso, a demora e a alta probabilidade favorecem iniciar sob supervisão; a dose não é automática apenas por haver edema. 2. Não. É preciso conhecer a qualidade e o território examinado. Dímero-D positivo nesse algoritmo exige exame seriado; suspeita ilíaca ou piora pede discussão imediata. Um exame completo negativo tem interpretação diferente. 3. Não medem todas as causas de sangramento nem substituem história, plaquetas, função renal, lesão gastrointestinal e interações. Servem como dados basais e podem orientar drogas específicas. 4. Não. Recalcule volume = dose/concentração e confira a via autorizada do produto. Na HNF, uma apresentação SC concentrada não deve ser adotada como referência para preparo IV. 5. Não. Edema pode persistir. Verifique tendência, adesão e dose; piora ou novos sintomas exigem reavaliação e investigação de recorrência, extensão ou outro diagnóstico. Não acrescentar antiagregante por conta do edema. 6. Se o fator transitório cessou e se o benefício de prolongar tratamento supera o sangramento. Registrar a decisão e a data de suspensão ou revisão. Trombo residual isolado não determina tratamento vitalício.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Somam dois itens de um ponto: dor localizada no trajeto do sistema venoso profundo e edema depressível restrito ao membro sintomático. A diferença de circunferência é de apenas 1 cm, abaixo dos 3 cm exigidos, e por isso não pontua — é justamente por isso que a medida com fita precisa ser feita, e não estimada. E há o item que quase ninguém marca: diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto a trombose, que subtrai 2 pontos e só pode ser marcado quando se consegue nomear o outro diagnóstico. Aqui ele é nomeável: erisipela, com porta de entrada visível. Total de 1 + 1 − 2 = 0 ponto, trombose improvável. Nesse grupo, e apenas nesse, o dímero-D tem a função que faz bem: escore menor ou igual a 1 com dímero-D negativo leva a probabilidade para abaixo de 2%, e o ultrassom pode ser dispensado — desde que o paciente não tenha câncer nem trombose prévia, e desde que se combine retorno se a perna piorar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva os dez itens do escore de Wells com a pontuação de cada um, incluindo o que subtrai dois pontos, e diga o corte que separa provável de improvável. Depois pegue os dois últimos pacientes com queixa de perna inchada que você atendeu e some o escore de cada um retrospectivamente — e confira três coisas no prontuário: alguém mediu as duas panturrilhas com fita? O dímero-D foi pedido em quem tinha escore provável? Existe uma linha dizendo por quanto tempo o anticoagulante vai ser mantido? Corrija o que faltar no paciente que ainda estiver internado.

Em 30 dias

Pegue dona Cleuza e mude um dado por vez, escrevendo o que muda na conduta. E se ela tivesse 45 anos e nenhum câncer, com o mesmo escore? E se o dímero-D dela tivesse voltado 620 mcg/L — muda alguma coisa? E se o ultrassom mostrasse trombo em veia ilíaca externa esquerda? E se a creatinina fosse 2,8 mg/dL? E se ela pesasse 110 kg? E se as plaquetas caíssem de 212.000 para 78.000 no sétimo dia de heparina? E se ela chegasse com a perna arroxeada, tensa e com bolhas? E se ela tivesse tido hemorragia digestiva alta há duas semanas? Para cada cenário, escreva qual anticoagulante, qual dose em miligramas e em mililitros, e por quanto tempo.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 62 anos que chega ao pronto-socorro com a perna esquerda inchada há quatro dias, dor para caminhar e a queixa de que "o pé não entra mais no sapato". Fez uma viagem de ônibus de 22 horas na semana passada, tem hipertensão, usa terapia hormonal e teve um irmão que "morreu de coágulo no pulmão". Conduza: descubra as duas pernas e meça as panturrilhas, colha os itens do escore em voz alta e some o total, decida qual exame pedir e diga por que o outro não, cheque as contraindicações antes de prescrever, calcule a dose pelo peso dizendo o volume que vai na seringa, oriente sobre caminhar e sobre os sinais que a fazem voltar no mesmo dia, e explique a ela por quanto tempo isso vai durar e quem decide isso.

Trombose venosa profunda — Internato | OsceLabs