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Cirurgia GeralCirurgia Vascular

A dor que só existe andando

Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação

Relacionar dor ao esforço, perfusão e risco cardiovascular; reconhecer ameaça ao membro e construir, com o paciente, tratamento clínico e caminhada estruturada.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular — Erzinger FL, Polimanti AC, Pinto DM, et al. Diretrizes sobre doença arterial periférica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202300591

Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular — Duarte Junior EG, Lopes CF, Gaio DRF, et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético 2023. J Vasc Bras. 2024;23:e20230087. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202300871

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: prevenção de eventos cardiovasculares e pancreatite. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 36 p. ISBN 978-85-334-2807-2. Conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.

01

Responda antes de ler

Paciente com claudicação e índice tornozelo-braquial inicial de 0,64 retorna após três meses de caminhada estruturada, três vezes por semana, trinta minutos por sessão. Relata que a distância até a dor passou de 150 para 320 metros. O índice, repetido com a mesma técnica, permanece 0,63. Como interpretar e conduzir?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, unidade básica de saúde de um bairro que termina numa subida. A agenda da manhã tem quinze nomes e dois deles trazem a mesma queixa escrita pela recepção com a mesma caneta: dor na panturrilha ao caminhar. As duas fichas foram feitas com dois minutos de diferença, porque as duas pessoas desceram do mesmo ônibus.

O senhor Nivaldino Valverde tem 64 anos, 78 quilos, 1,72 m, e é feirante. Monta a barraca às quatro da manhã, empurra o carrinho da van até o ponto, e diz que há uns oito meses precisa parar no meio do caminho. Não é sempre no mesmo lugar: é sempre na mesma distância. Ele já contou — dá para andar até o poste da terceira casa depois da padaria, aí a batata da perna direita endurece, ele encosta, conta até vinte, e segue. Fuma desde os dezessete. A esposa mandou vir porque ele começou a chegar tarde na feira.

Dona Etelvina Tibau tem 68 anos e também para de andar. A dor dela desce da lombar para as duas coxas e para as duas panturrilhas, começa depois de uns duzentos metros, e some quando ela senta. Não some quando ela fica em pé parada: ela precisa sentar, ou se curvar sobre o carrinho de compras. No supermercado ela anda o corredor inteiro sem dor, empurrando o carrinho — e é essa frase, dita de passagem, que decide o capítulo dela.

Os dois vão sair desta consulta com condutas que não se parecem. Um vai sair com um exame que você mesmo faz, na maca, em dez minutos, com um aparelho do tamanho de um controle remoto. A outra vai sair com um encaminhamento e sem esse exame, porque nela ele não responde a pergunta que interessa. E o que separa os dois não é nada que o laboratório saiba: é a história e um par de pulsos.

Este capítulo é sobre artéria. A perna que dói andando e melhora parando tem sangue chegando de menos. A perna que incha, aquece e dói parada tem sangue saindo de menos — essa é do capítulo de trombose venosa profunda, o primeiro desta apostila, e é para lá que vai tudo o que diz respeito a veia: escore de Wells, dímero-D, eco-Doppler venoso, anticoagulação de trombose. Aqui não se mede panturrilha com fita. Aqui se mede pressão no tornozelo.

E há uma terceira perna que este capítulo precisa que você reconheça sem nunca tê-la visto: a que ficou branca e fria em seis horas. Essa não entra na agenda da manhã. Essa chega pela porta da urgência, e a única coisa que o interno faz de errado com ela é achar que tem uma manhã inteira para pensar.

03

Quem adoece disso

O primeiro número desmonta a expectativa de quem vai procurar claudicação nos livros e depois no corredor. A diretriz brasileira estima a prevalência da doença arterial periférica em torno de 12% da população adulta — e, na mesma diretriz, informa que apenas 5 a 10% desses pacientes apresentam os sintomas clássicos de claudicação intermitente. Junte as duas frases e o resultado é desconfortável: a maioria absoluta das pessoas que têm a doença não vai chegar dizendo a frase que você aprendeu a esperar. Vai chegar com desconforto vago na nádega, com cansaço na perna que ela atribui à idade, ou sem nada — e é por isso que a doença é descrita no mesmo documento como frequentemente assintomática, subdiagnosticada e subtratada.

O segundo número muda o que a consulta é. No seguimento de Framingham, 75% dos pacientes com doença arterial periférica morreram de eventos cardiovasculares, e a mortalidade dos que tinham claudicação intermitente foi duas a três vezes maior. Isso reposiciona o problema: a perna é o sintoma, e o coração e o cérebro são o desfecho. Quando você encontra uma artéria entupida na panturrilha, você não achou uma doença de perna — achou um marcador de que as coronárias e as carótidas do mesmo paciente têm a mesma placa, e a conduta que salva mais vida nessa consulta não é a que salva a perna.

O terceiro número é o que acalma o paciente e o interno na mesma frase. Depois do primeiro ano de diagnóstico, o claudicante tem risco anual de 2 a 3% de progredir para isquemia crônica, e risco anual de amputação de cerca de 1%. Composto ano a ano, 1% ao ano dá 4,9% em cinco anos e 9,6% em dez; e 2,5% ao ano de progressão dá 11,9% em cinco anos. Ou seja: a perna do claudicante típico raramente é o que o mata, e raramente é o que ele perde. Nove em cada dez chegam à década seguinte com a perna. Isso não é motivo para não tratar — é o motivo pelo qual o tratamento inicial é clínico, e o motivo pelo qual apressar uma cirurgia num claudicante é trocar um risco de 1% ao ano por um risco cirúrgico concentrado numa tarde.

O quarto número é o de quem já passou dessa fase. Na isquemia crônica que ameaça o membro — a que dói em repouso, a que tem úlcera, a que tem gangrena —, a taxa de amputação maior em um ano chega a 22% quando não se revasculariza; e quando o evento adverso grave acontece no membro, a mortalidade associada gira em torno de 50% em um ano. É a mesma doença dos parágrafos anteriores, com outro relógio. A diferença entre a agenda da manhã e a urgência não é de gravidade da placa: é de quanto tempo ainda existe.

E há a epidemiologia do diabético, que é a razão de este capítulo insistir num exame de dez minutos. A doença arterial periférica é altamente prevalente no diabético: as diretrizes brasileiras sobre pé diabético trazem prevalência de 20 a 50% em diabéticos contra 10 a 26% em não diabéticos, afetam até 50% dos pacientes com úlcera de pé, e registram que a coexistência de diabetes com índice tornozelo-braquial abaixo de 0,9 associa-se a mortalidade duas a quatro vezes maior. O diabético é ao mesmo tempo quem mais tem a doença, quem menos a sente — pela neuropatia — e aquele em quem o exame mais mente. Três motivos para o exame ser feito, e não pedido.

04

Por que acontece o que acontece

A placa aterosclerótica que estreita uma artéria da perna é a mesma que estreita uma coronária. Muda o calibre, muda o comprimento do vaso e muda a consequência imediata, mas o processo é um só: acúmulo de lipídio na parede, inflamação, fibrose, calcificação, redução progressiva da luz. A diretriz brasileira descreve, nesses pacientes, ativação plaquetária aumentada, alteração do fibrinogênio e geração aumentada de trombina e fibrina — a parede doente não só estreita como convida à trombose, o que explica por que uma artéria que vinha estreitando devagar pode fechar de uma vez.

O que torna a artéria da perna diferente da coronária é o repouso. O músculo da panturrilha em repouso consome pouco oxigênio, e uma artéria com 60 ou 70% de estreitamento entrega o suficiente. Quando a pessoa anda, a demanda do músculo pode subir muitas vezes; a artéria saudável responde dilatando e recrutando fluxo, e a artéria estreitada não responde. A diferença entre o que o músculo pede e o que chega é a dor. Por isso a claudicação tem três marcas que a diretriz lista: é dor muscular, tipicamente na panturrilha ou na nádega, distal à obstrução; aparece só com o exercício; e desaparece em geral em até dez minutos depois que a pessoa para.

A distância é reprodutível porque a conta é física. Para uma dada obstrução, existe uma carga de trabalho a partir da qual a entrega não cobre a demanda — e o corpo chega a essa carga sempre no mesmo ponto, se o terreno e o passo forem os mesmos. É por isso que Nivaldino consegue apontar um poste. E é por isso que a distância encurta na subida e no passo apressado: mais carga, mesma entrega, o limite chega antes. A pergunta clínica que separa a claudicação de quase tudo não é "dói?" — é "dói sempre na mesma distância, e passa quando o senhor para de andar, mesmo sem sentar?".

A localização da dor aponta o andar da obstrução. Dor na nádega e na coxa sugere doença acima do ligamento inguinal, no setor aorto-ilíaco; dor na panturrilha sugere doença femoropoplítea; dor no pé é de doença mais distal, infrapoplítea. Não é regra de ferro, porque a doença costuma ser multinível, mas serve de mapa mental para o exame físico: você vai procurar o ponto em que o pulso some, e o pulso some abaixo da obstrução.

A circulação colateral é a razão de a doença ser lenta e a razão de a piora ser abrupta. Ao longo de anos, o organismo abre desvios em torno da estenose, e esses desvios entregam o bastante para o repouso e não o bastante para a caminhada. Enquanto a colateral aguenta, o paciente claudica e vive. Quando a colateral é insuficiente — porque a obstrução avançou, porque um segundo andar arterial fechou, ou porque um trombo se formou sobre a placa —, a entrega deixa de cobrir até o repouso, e a dor aparece deitado, à noite, no antepé. É a dor de repouso: o paciente pendura a perna para fora da cama porque a gravidade ajuda o pouco fluxo que resta, e conta isso como se fosse mania de dormir sentado.

A partir daí a pele deixa de ter margem. Um trauma mínimo — o sapato apertado, a unha cortada rente, a pedra dentro do chinelo — abre uma solução de continuidade que não tem fluxo para cicatrizar. É esse o estado que os documentos atuais chamam de isquemia crônica que ameaça o membro, e que os livros antigos chamavam de isquemia crítica: dor isquêmica em repouso, perda de tecido ou gangrena. A mudança de nome não é cosmética. "Crítica" descreve a artéria; "que ameaça o membro" descreve o desfecho — e desfecho é o que decide se você liga para o cirurgião vascular hoje ou marca retorno em trinta dias.

A isquemia aguda tem outro mecanismo e outro relógio. Ali não houve tempo para colateral: ou um êmbolo veio de longe e alojou-se numa bifurcação, ou um trombo fechou de uma vez uma artéria que já estava doente. O território distal perde perfusão em horas, e a sequência de perdas segue a sensibilidade dos tecidos ao oxigênio — nervo antes de músculo, músculo antes de pele. Por isso a perda de sensibilidade e a perda de força não são detalhes do exame: são o cronômetro. Perna dolorosa, pálida e sem pulso, mas com sensibilidade e força preservadas, é diferente de perna sem pulso com dormência e paresia, e a diferença entre as duas se mede em horas.

Falta uma peça, e é a que faz o exame mentir. Ao lado da aterosclerose da íntima existe outro processo, a calcificação da média — a esclerose de Mönckeberg —, associada à neuropatia autonômica do diabético, à doença renal crônica e à idade avançada. Ela não estreita a luz: enrijece o tubo. Uma artéria enrijecida não colaba sob o manguito, e a pressão que você lê no tornozelo não é a pressão que existe dentro do vaso: é a pressão que foi preciso fazer para amassar um cano. O índice sobe, e sobe justamente em quem mais tem a doença. É a única armadilha deste capítulo que não se resolve pensando melhor — resolve-se medindo outra coisa.

Duas cenas simuladas de obtenção de pressões com manguito e Doppler portátil: no tornozelo sobre artéria do pé e no braço sobre artéria braquial.
A figura demonstra locais de aquisição de pressão para o índice tornozelo-braquial. O exame completo envolve os dois braços e, em cada tornozelo, as artérias apropriadas, com cálculo e interpretação padronizados. As cenas não são imagens ultrassonográficas e não mostram resultados medidos.
05

Como se apresenta de verdade

O livro descreve claudicação intermitente, dor de repouso, palidez, ausência de pulso e gangrena. O ambulatório entrega outra coisa: gente que anda menos e acha que engordou, gente que atribui a perna à coluna, gente que já não sente o pé e por isso não sente a dor que faria o diagnóstico. As seções abaixo são as apresentações que de fato chegam, em ordem de frequência e não de gravidade — e a última delas é a que não pode esperar a próxima seção.

A claudicação clássica, que é a minoria

É a apresentação do enunciado de prova e de uma minoria dos pacientes: dor em cãibra ou em aperto no músculo da panturrilha, que começa depois de uma distância previsível de caminhada, obriga a parar, e passa em menos de dez minutos de repouso — sem precisar sentar, sem precisar mudar de posição. Volta a aparecer na mesma distância quando o paciente recomeça. Piora na subida e no passo rápido, porque a carga sobe e a entrega não.

Vale insistir no que "parar" significa. O claudicante melhora ficando em pé parado. Ele não precisa sentar e não precisa se curvar. Essa frase, sozinha, faz metade do diagnóstico diferencial mais comum deste capítulo, e é gratuita: basta perguntar, e perguntar com essas palavras, porque o paciente que senta no meio-fio para descansar vai dizer que senta se você perguntar "o senhor precisa parar?" sem qualificar como.

A distância importa duas vezes. A primeira, como diagnóstico: distância reprodutível é sinal de mecanismo mecânico e não de dor neuropática ou articular. A segunda, como linha de base: é o único parâmetro que vai dizer, daqui a três meses, se o tratamento funcionou. Escrever "claudicação em pequenas distâncias" no prontuário é jogar essa medida fora. Escrever "para no poste da terceira casa depois da padaria, cerca de 150 metros, sempre no mesmo ponto" é criar um instrumento.

O Questionário de Claudicação de Edimburgo, na versão em português trazida pela diretriz brasileira, organiza exatamente essas perguntas — se dói ao caminhar, se dói parado ou sentado, se dói na subida ou no passo rápido, se dói no plano e no ritmo habitual, o que acontece ao parar, e onde dói —, e foi validado com sensibilidade de 91,3% e especificidade de 99,3%. Ele não substitui o índice tornozelo-braquial: organiza a conversa antes dele.

A apresentação atípica, que é a maioria

A diretriz brasileira é explícita ao dizer que apenas 5 a 10% dos pacientes apresentam os sintomas clássicos, e que os demais trazem desconforto inespecífico nas costas, nas nádegas ou nas pernas — quando trazem alguma coisa. Um grande contingente é assintomático não por não ter doença, mas por ter parado de fazer o esforço que revelaria a doença. O aposentado que não caminha mais de um quarteirão não claudica; ele apenas encolheu a vida até o tamanho da artéria.

Por isso a pergunta útil no ambulatório não é "o senhor tem dor na perna quando anda?". É "o senhor anda hoje o que andava há dois anos?" — e, se a resposta for não, "o que o impede?". Cansaço, peso, formigamento, fraqueza e "a perna fica dura" são todos descritores que pacientes usam para claudicação, e nenhum deles é a palavra dor.

Uma armadilha específica é a comorbidade que impede o esforço. A própria diretriz registra que cerca de metade dos pacientes com doença arterial periférica tem distúrbio ortopédico, neurológico ou limitação cardiopulmonar concomitante. Quem não consegue andar por causa do joelho não vai claudicar por causa da artéria — e continua tendo a artéria doente, com o mesmo risco de infarto e de acidente vascular cerebral.

Consequência prática: em quem tem fator de risco e não anda, o sintoma não vai fazer o diagnóstico. O exame precisa fazer.

O pé do diabético, que não dói

No diabético com neuropatia, o sinal que deveria abrir o quadro está desligado. A dor de repouso pode não aparecer, a claudicação pode não aparecer, e a primeira manifestação da doença arterial é uma úlcera que não fecha — ou um dedo escurecido que o paciente descobre ao tirar a meia. As diretrizes brasileiras sobre pé diabético registram que a doença arterial periférica afeta até metade dos pacientes com úlcera de pé e piora o prognóstico, com amputação em 5 a 24% e recorrência frequente.

Isso inverte a ordem de investigação. No não diabético, o sintoma leva ao exame. No diabético, a inspeção do pé leva ao exame — e a inspeção do pé é do exame físico de rotina, não de uma consulta especializada. Pé sem pelos, unhas espessadas, pele fina e brilhante, atrofia do coxim plantar, dedo com necrose seca, úlcera em ponto de pressão que não cicatriza em quatro semanas: qualquer um desses obriga a avaliar a perfusão antes de discutir curativo.

Este capítulo assume do pé diabético o mínimo que a sua decisão exige, e declara o que assume: quando avaliar a perfusão do pé, como o índice tornozelo-braquial se comporta no diabético e o que fazer quando ele mente. O resto é cedido pelo nome. A úlcera do pé da pessoa com diabetes, como entidade, é do capítulo Pé diabético e úlceras de membros inferiores, desta apostila, cujo título é Pisar na própria ferida: a classificação da úlcera, a graduação da infecção do pé e a antibioticoterapia da infecção do pé enquanto a infecção for de partes moles, o alívio de pressão, que os documentos chamam de descarga, o reconhecimento e a descarga imediata da neuroartropatia de Charcot, a decisão de amputar e em que nível, e a prevenção da segunda úlcera. Aquele capítulo usa o resultado do que fica aqui — o índice tornozelo-braquial, a avaliação de perfusão e a revascularização. A escolha da cobertura pelo leito e pelo exsudato é do capítulo Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, e o diagnóstico e o tratamento da osteomielite, do capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, na apostila de Ortopedia.

O controle glicêmico em si é do capítulo de diabetes tipo 2, da apostila de Endocrinologia. O que fica aqui é a fatia vascular da decisão: rastrear doença arterial em todo diabético, escolher o antidiabético olhando para o membro, e não deixar o exame de imagem com contraste passar sem a pausa da metformina.

A dor de repouso e a úlcera — a isquemia que ameaça o membro

Aqui o sintoma muda de natureza. A dor deixa de depender do esforço e passa a existir deitado, tipicamente à noite e no antepé, aliviando quando o paciente pendura a perna para fora da cama ou dorme na poltrona. É comum o paciente não relatar isso como dor de perna: relata como insônia, como "não consigo mais deitar", ou como um hábito novo de dormir sentado.

Os outros dois portais de entrada da mesma categoria são a perda de tecido e a gangrena: úlcera que não cicatriza no pé ou no terço distal da perna, necrose de polpa digital, dedo escuro e seco. A diretriz brasileira nomeia esse estado como isquemia crônica que ameaça o membro, descreve história natural pior que a da claudicação, e é aqui que ela usa a palavra urgência.

A conduta muda de categoria junto com o sintoma. Para o claudicante, a recomendação nacional é tratamento inicial clínico e não cirúrgico, com grau forte. Para a isquemia que ameaça o membro, a recomendação é encaminhamento com urgência ao especialista vascular para consideração de revascularização — e o número que justifica a pressa é a amputação maior de 22% em um ano quando não se revasculariza.

Para o interno, a fronteira operacional é simples de enunciar e difícil de respeitar num ambulatório cheio: dor que só existe andando entra na fila normal; dor que existe parado, ou pele aberta, sai da fila.

A perna aguda — o quadro que interrompe a leitura

Dor súbita e intensa, palidez, esfriamento, ausência de pulso, formigamento e fraqueza num membro que estava bem algumas horas antes é isquemia arterial aguda até prova em contrário. Não é a doença crônica deste capítulo com um dia ruim: é outra apresentação, com outro relógio, e o interno é a pessoa que a encontra primeiro porque é quem examina o paciente inteiro.

O exame que decide não é de imagem: é o par sensibilidade e força. Perna sem pulso, dolorosa e fria, com sensibilidade e força preservadas, é uma situação. Perna sem pulso com perda de sensibilidade no antepé, ou com dificuldade de mover os dedos, é outra — e a segunda não sobrevive a um turno de espera. Documente os dois em toda perna sem pulso, com hora, porque a evolução entre uma reavaliação e a seguinte é a informação que o cirurgião vascular vai pedir ao telefone.

Três atos do interno enquanto o telefone toca do outro lado: manter o membro em posição neutra ou levemente pendente, nunca elevado; manter aquecido sem calor direto — nada de bolsa de água quente ou compressa quente sobre pele isquêmica e possivelmente insensível; e suspender a dieta, porque a chance de esse paciente ir para uma sala de procedimento nas próximas horas é alta.

Uma advertência documental que o leitor precisa ter: a diretriz brasileira de doença arterial periférica exclui explicitamente do seu escopo as emergências, o trauma e a oclusão arterial aguda — está escrito na seção de metodologia e repetido no objetivo. O consenso da regional paulista da mesma sociedade também não trata do tema. Ou seja, não há documento nacional vigente de sociedade vascular fixando a conduta da isquemia arterial aguda; o reconhecimento e a comunicação imediata são do interno, e a decisão de anticoagular e a via de revascularização são do cirurgião vascular e do protocolo do serviço.

O exame físico que cabe em quatro minutos

Descubra as duas pernas até a virilha, tire as duas meias, e olhe os dois pés. A comparação lado a lado é o que dá sentido a quase tudo aqui: pele, pelos, unhas, temperatura, cor, coxim plantar, espaços interdigitais e calcâneo. O espaço entre os dedos e a região do calcâneo são os dois lugares que o paciente não vê e que o examinador esquece.

Palpe os quatro pulsos de cada perna na mesma ordem, sempre: femoral, poplíteo, tibial posterior e dorsal do pé. Registre presença e simetria, não intensidade em cruzes — a graduação em cruzes é pouco reprodutível entre examinadores, e o que decide conduta é a comparação com o outro lado e com o pulso mais proximal do mesmo lado. Um femoral cheio com poplíteo ausente localiza o andar da obstrução melhor do que qualquer adjetivo.

Ausculte as femorais e a região periumbilical à procura de sopro; um sopro femoral em paciente com queixa de perna é achado que vale a pena registrar. E olhe o abdome do paciente com aterosclerose difusa — a mesma doença dilata a aorta em alguns pacientes enquanto obstrui as ilíacas em outros. O aneurisma de aorta abdominal é do capítulo Aneurisma de aorta abdominal (rastreamento, rotura), desta apostila, cujo título é A doença que não dói, e o dia em que dói, e não é assumido aqui; o que fica é a obrigação de não ignorar uma massa pulsátil quando ela aparece na palpação de um paciente que você está examinando por outro motivo.

Por fim, a pergunta que fecha o exame físico e abre a investigação: a artéria dorsal do pé pode estar ausente por variação anatômica numa minoria de pessoas saudáveis, e a tibial posterior é o pulso mais confiável dos dois. Pulso duvidoso não se resolve palpando de novo com mais fé — resolve-se com o Doppler portátil, que é o próximo bloco.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo é curta e tem uma peculiaridade rara na enfermaria: o exame que confirma o diagnóstico não é pedido, é feito. Não existe fila para ele, não existe laudo para esperar, não existe janela do laboratório. Existe um aparelho de Doppler portátil que costuma estar na sala de curativo, um esfigmomanômetro, gel, e dez minutos.

Por isso a ordem aqui é diferente da dos outros capítulos: as seções abaixo vão do exame que você faz para os exames que você pede, e a última delas trata do que não pedir. A parte mais cara da investigação da doença arterial periférica costuma ser o que se solicita antes de medir.

O índice tornozelo-braquial, passo a passo

O paciente deita em decúbito dorsal e fica em repouso alguns minutos antes da medida — se ele acabou de subir a rampa da unidade, espere. Manguito de tamanho adequado ao membro, gel, e a sonda do Doppler inclinada em ângulo agudo contra o sentido do fluxo, procurando o som e não o ponto anatômico.

Meça a pressão sistólica dos dois braços sobre a artéria braquial. Meça a pressão sistólica de cada tornozelo, em cada perna, sobre a artéria dorsal do pé e sobre a tibial posterior — insufle até o som sumir, desinsufle devagar, e anote o valor em que o som reaparece. Não há fase diastólica aqui: o único número que interessa é o retorno do sinal.

O índice de cada perna é a maior pressão daquele tornozelo dividida pela maior pressão braquial. São seis medidas — dois braços, dois tornozelos, duas artérias em cada tornozelo — e dois índices, um por perna. Anote as seis, não só o resultado: quem repetir o exame daqui a seis meses precisa saber de qual artéria veio o número.

Uma nota de leitura para quem for ao documento original: a descrição do cálculo na diretriz brasileira é ambígua, porque manda dividir a maior pressão do tornozelo pela maior pressão aferida no braço direito e depois no esquerdo, o que geraria dois índices por perna em vez de um. O procedimento que a própria diretriz assume no restante do texto, e que a tabela de graus de isquemia pressupõe, é um índice por perna, com o maior valor braquial no denominador.

Quando o índice em repouso é normal e a história é convincente, existe o teste de esteira: protocolo padronizado, e o achado diagnóstico é queda da pressão sistólica no tornozelo maior que 30 mmHg após o exercício, ou queda do índice maior que 20%. Na falta de esteira ajustável, a diretriz aceita carga fixa com inclinação positiva de 12 graus a 3,2 km/h. É um exame de serviço, não de consultório, e é o caminho correto para o paciente com sintoma clássico e índice em repouso de 0,95.

Ler o número — e as quatro faixas

Índice abaixo de 0,90 sugere doença arterial periférica: é o corte que a diretriz brasileira usa para o diagnóstico. Abaixo de 0,40, a perfusão é ruim o bastante para entrar no grau mais alto de isquemia da classificação usada na decisão de revascularizar.

Índice entre 0,90 e o limite superior é a zona em que o exame não decide sozinho. As diretrizes brasileiras sobre pé diabético são explícitas: um índice acima de 0,9 não exclui a doença. A combinação que torna a doença menos provável, pela atualização de 2023 do resumo prático do International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF), é índice entre 0,9 e 1,3, índice dedo-braço maior ou igual a 0,70 e onda ao Doppler trifásica ou bifásica. A diretriz brasileira de pé diabético, escrita sobre a versão de 2019, ainda pede 0,75 e só a onda trifásica; esta apostila adota os cortes de 2023, que são os mais novos.

Índice alto demais é o sinal de alarme silencioso deste capítulo. Artéria calcificada não colaba, o número sobe, e o paciente com a artéria mais doente pode ter o melhor índice da sala. Aqui os dois documentos brasileiros da mesma sociedade divergem no corte, e a divergência está no bloco próprio: a diretriz de doença arterial periférica fala em valor superior a 1,4 como sinal de artéria pouco compressível, e a diretriz de pé diabético manda medir pressão do dedo ou oximetria transcutânea quando o índice é incompressível acima de 1,3.

A regra que sobrevive às duas versões é comportamental, e é o que o interno deve levar: índice normal ou alto acompanhado de onda monofásica amortecida ao Doppler é suspeito de falso normal. As diretrizes sobre pé diabético relatam que a pressão de tornozelo e o índice normais por engano se comportaram como preditor independente de perda maior do membro — o número que tranquiliza é o número que anuncia.

Quando o índice mente: o dedo e a onda

As artérias digitais costumam ser poupadas da calcificação extensa que atinge as tibiais, e por isso a pressão medida no hálux reflete melhor a perfusão do pé no diabético. A diretriz brasileira de pé diabético é direta: a pressão sistólica do dedo deve ser medida em pacientes com diabetes e prevalece sobre o índice tornozelo-braquial quando os dois discordam.

A medida exige manguito próprio de dedo e sensor adequado, o que nem toda unidade tem. Onde não há, restam a oximetria transcutânea, a pressão de perfusão da pele e o registro de volume de pulso — recursos de laboratório vascular, e por isso a alternativa realista da unidade básica é a onda.

A onda é gratuita e mora no mesmo aparelho que já está na sua mão. Onda trifásica ao Doppler portátil é a evidência mais forte de ausência de doença que o exame de beira de leito oferece. Onda monofásica amortecida num paciente com índice normal é o padrão que deve fazer você desconfiar do índice, e não do paciente. Escute, não só meça.

Uma observação de leitura sobre os dois documentos brasileiros, porque o aluno que abrir os dois vai tropeçar: a diretriz de doença arterial periférica chama a medida do dedo de índice hálux-braço e usa o corte abaixo de 0,60 para diagnóstico; a diretriz de pé diabético chama a mesma medida de índice dedo-braquial e usa 0,75 como valor que torna a doença menos provável — o corte da versão de 2019 do IWGDF, que a de 2023 baixou para 0,70, o número que esta apostila adota. São dois nomes e dois números para a mesma grandeza, e entre 0,60 e 0,69 o índice já é anormal pelos documentos de pé diabético sem alcançar o corte diagnóstico da diretriz de doença arterial periférica.

O que o laboratório acrescenta, e o que ele não faz

Nenhum exame de sangue diagnostica doença arterial periférica. O laboratório entra por outra porta: mapear o risco global e viabilizar o tratamento que muda desfecho. Isso significa perfil lipídico, glicemia e hemoglobina glicada, creatinina com estimativa de filtração glomerular, e hemograma.

A creatinina não é formalidade. Ela entra três vezes: porque a doença renal crônica é uma das causas de artéria incompressível e de índice falsamente alto; porque a função renal condiciona o exame de imagem com contraste que talvez venha depois; e porque a filtração glomerular estimada é uma das condições de alto risco que o documento brasileiro de dislipidemia de 2025 usa para classificar o paciente.

O perfil lipídico não serve para decidir se trata — a doença arterial periférica manifesta já decide isso —, mas serve para saber onde o paciente começou, e a diretriz vascular brasileira condiciona um dos seus alvos ao valor pré-tratamento. Colher antes de iniciar a estatina, portanto, não é preciosismo: é a única chance de ter a linha de base.

A hemoglobina glicada aparece aqui com um papel vascular: a diretriz nacional fixa meta abaixo de 7% para o diabético tipo 2 com isquemia crônica que ameaça o membro, e admite metas menos rígidas, da ordem de 8%, para quem tem complicações vasculares ou expectativa de vida limitada. A escolha do esquema antidiabético é do capítulo de diabetes tipo 2; o que este capítulo assume é a leitura vascular do número.

Imagem: quem precisa, e por quê

Imagem arterial não é para fazer diagnóstico. O diagnóstico foi feito pelo índice e pela história. Imagem é para planejar procedimento, e por isso quem indica a imagem é, na prática, quem vai operar ou intervir.

Isso reorganiza a conduta do interno: o claudicante que ainda não fez tratamento clínico otimizado nem programa de caminhada não precisa de angiotomografia hoje, porque o resultado dela não muda nada do que vai ser feito nos próximos três meses. Já o paciente com dor de repouso, úlcera ou gangrena precisa do cirurgião vascular hoje, e a imagem virá da decisão dele.

Um dado documental que vale registrar, porque explica por que este bloco é curto: a diretriz brasileira de doença arterial periférica não traz capítulo de diagnóstico por imagem. Ela vai do índice tornozelo-braquial e do teste de esteira diretamente ao manejo, e a única afirmação sobre método de imagem aparece num comentário de recomendação, ao dizer que a arteriografia segue sendo o padrão-ouro para definir as obstruções, sobretudo infrageniculares.

Se houver angiotomografia programada em paciente que usa metformina, a diretriz considera razoável suspender o fármaco por 24 a 48 horas antes e depois do contraste iodado, pelo risco de acidose láctica em quem tem função renal alterada — e ela mesma registra que o assunto é objeto de debate contínuo.

O diagnóstico diferencial que o índice não resolve

Índice normal em paciente com dor na perna ao caminhar não encerra a consulta: transfere a pergunta. A diretriz brasileira organiza as causas de dor nas pernas em vasculares, neurogênicas, musculoesqueléticas e outras, e a tabela existe porque a maioria dos pacientes com essa queixa não tem doença arterial.

A confusão mais frequente e mais consequente é com a estenose do canal vertebral lombar. As duas doem ao andar; as duas melhoram ao parar. A diferença está em como se para: o claudicante melhora em pé, parado; o portador de estenose de canal precisa da flexão do tronco — sentar, curvar-se sobre o carrinho de supermercado, apoiar-se no balcão. A pergunta "o senhor consegue empurrar um carrinho de compras por mais tempo do que consegue andar de mãos livres?" separa os dois de graça. O manejo dessa hipótese é dos capítulos de lombalgia e hérnia de disco e de dor lombar aguda, e é para lá que este capítulo a manda.

Do lado venoso, o dolorimento em peso que piora ao fim do dia, melhora com elevação e vem com edema vespertino e alterações de pele no terço distal da perna é insuficiência venosa crônica — quadro que é do capítulo Insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores, desta apostila, e que aqui só entra para dizer o que ele não é: não dói na mesma distância, não melhora ficando parado em pé, e piora, e não melhora, quando a perna fica pendente. A perna que incha, aquece e dói em repouso, com início em dias, é do capítulo de trombose venosa profunda.

Restam a neuropatia periférica, que dói em repouso e à noite e queima nos dois pés simetricamente, e a artrose de quadril e de joelho, que dói na articulação e nos primeiros passos, melhora ao aquecer e piora ao fim do dia. Nenhuma das duas produz distância reprodutível, e é essa a pergunta que continua sendo a mais barata do capítulo.

07

A consulta em oito passos, e as quatro tabelas que se abrem no meio dela

Classifique a apresentação antes de escolher o exame. O tratamento da aterosclerose e a melhora funcional acontecem em paralelo, com metas acompanhadas ao longo do tempo.

  1. 1Dor súbita, perda de sensibilidade ou força: emergência vascular. Dor de repouso, úlcera ou gangrena com suspeita de isquemia: avaliação vascular urgente, sem exigir ITB baixo para encaminhar.
  2. 2Na claudicação estável, descreva localização, distância e alívio; examine coluna, articulações, pulsos e pés. Claudicação vascular e doença neurológica podem coexistir.
  3. 3Meça ITB com técnica correta: maior pressão de cada tornozelo dividida pela maior braquial. ≤0,90 é anormal; 0,91–0,99 limítrofe; 1,00–1,40 usualmente normal; >1,40 sugere incompressibilidade.
  4. 4ITB alto ou discordante, especialmente em diabetes/DRC: avaliar pressão digital, índice dedo-braquial e formas de onda. Suspeita persistente com ITB normal/limítrofe pode exigir ITB após exercício.
  5. 5Inicie conjuntamente cessação do tabagismo, atividade estruturada, estatina de intensidade adequada, controle de pressão/diabetes e antitrombótico indicado. Avalie riscos e acesso sem transformar listas de fornecimento em contraindicações clínicas.
  6. 6Para sintomas estáveis, estabeleça programa de exercício e meta funcional. Cilostazol pode ser discutido para claudicação, mas é contraindicado na insuficiência cardíaca. Anticoagulação em dose plena não trata DAOP isolada.
  7. 7Revascularização é discutida na limitação funcional persistente apesar de tratamento adequado ou na ameaça ao membro. Imagem anatômica responde a uma pergunta concreta; não é obrigatória a cada diagnóstico de claudicação.
  8. 8Reveja adesão, distância, feridas, sintomas novos e controle de risco. O retorno deve ser antecipado se surgir dor em repouso ou lesão; melhora da caminhada com ITB semelhante é possível.

As faixas do índice tornozelo-braquial e o que cada uma obriga

Faixa do índiceO que ela significaO que o interno faz com elaDocumento brasileiro que fixa o corte
Abaixo de 0,40Perfusão gravemente reduzida; corresponde ao grau mais alto de isquemia da classificação usada para decidir revascularizaçãoProcure ativamente dor de repouso, úlcera e gangrena; se houver qualquer um deles, é isquemia que ameaça o membro e o encaminhamento é hojeDiretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024, Tabela 3
0,40 a 0,59Isquemia moderadaDoença estabelecida; tratamento clínico completo e programa de caminhada, com reavaliação do sintoma em três mesesDiretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024, Tabela 3
0,60 a 0,79Isquemia leveMesmo tratamento clínico completo; a distância de caminhada é o parâmetro de respostaDiretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024, Tabela 3
0,80 a 0,89Abaixo do corte diagnóstico, ainda que fora do grau de isquemiaDoença arterial periférica confirmada pelo corte da diretriz; trate como doença, mesmo em quem não claudicaDiretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024 — corte diagnóstico de 0,9
0,90 a 1,30Faixa em que o exame não exclui a doençaSe a história é convincente, siga para teste de esteira. Doença fica menos provável quando se somam índice dedo-braço maior ou igual a 0,70 e onda trifásica ou bifásica, cortes do IWGDF de 2023; a diretriz de pé diabético ainda escreve 0,75 e só onda trifásica, cortes de 2019Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético, 2023, classe I e nível de evidência C
Acima de 1,30 ou acima de 1,40Artéria pouco compressível ou incompressível; o número não representa a pressão intra-arterialMeça pressão sistólica do dedo ou oximetria transcutânea. No diabético, a pressão do dedo prevalece sobre o índice quando os dois discordamDois cortes diferentes: 1,3 na diretriz de pé diabético de 2023 e 1,4 na de doença arterial periférica de 2024
Normal, com onda monofásica amortecidaSuspeita de falso normal por calcificação da médiaNão se tranquilize com o número: pressão de tornozelo e índice normais por engano se comportaram como preditor independente de perda maior do membroDiretrizes da SBACV sobre o pé diabético, 2023

Dor na perna ao caminhar: as quatro perguntas que separam as três causas mais comuns

Pergunta feita na macaDoença arterial periféricaEstenose do canal lombarInsuficiência venosa crônica
Dói sempre na mesma distância?Sim, e encurta na subida e no passo rápidoVariável; costuma piorar em pé e ao estender o troncoNão; piora ao longo do dia, independente da distância
Como o senhor precisa parar para melhorar?Em pé, parado, sem mudar de posição; alivia em até dez minutosPrecisa sentar ou curvar o tronco para a frentePrecisa elevar a perna, e melhora deitado
Empurrando um carrinho o senhor anda mais?Não mudaAnda bem mais, porque a flexão do tronco alarga o canalNão muda
Como fica a perna pendurada para fora da cama à noite?Alivia — e isso já é dor de repouso, categoria de urgênciaIndiferentePiora; o alívio dela é a elevação
O que o exame físico mostraPulsos distais reduzidos ou ausentes, pele fina, ausência de pelos, unhas espessadas, pé frioPulsos presentes e simétricos; achados neurológicos por dermátomoPulsos presentes, edema vespertino, hiperpigmentação e endurecimento no terço distal
Para onde vai a hipóteseFica aqui: índice tornozelo-braquial na macaCapítulos de lombalgia e hérnia de disco e de dor lombar agudaCapítulo de insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores, desta apostila

O grau de perfusão e o que ele muda para quem não vai operar

Grau de isquemiaÍndice tornozelo-braquialPressão do dedo ou oximetria transcutâneaO que muda na conduta do interno
Grau 0Maior ou igual a 0,80Maior ou igual a 60 mmHgPerfusão suficiente para cicatrizar; uma ferida que não fecha aqui pede outra explicação além da artéria
Grau 10,60 a 0,7940 a 59 mmHgTratamento clínico e caminhada; sem indicação de revascularização por si só
Grau 20,40 a 0,5930 a 39 mmHgSe houver ferida ou infecção, o risco de amputação sobe e o especialista precisa ver
Grau 3Menor ou igual a 0,39Menor que 30 mmHgPerfusão insuficiente para cicatrização; com dor de repouso ou perda de tecido, encaminhamento urgente

O que a Rename 2024 entrega para este paciente — e o que ela não entrega

Fármaco e apresentação realDose citada nos documentos brasileirosContas do dia e do mêsComponente e o que isso significa na prática
Ácido acetilsalicílico 100 mg comprimido80 a 100 mg por dia nas recomendações; o texto da diretriz registra 75 a 150 mg por dia com a mesma eficácia de doses maiores e menos sangramento100 mg por dia = 1 comprimido; 30 comprimidos por mêsComponente Básico — sai da farmácia da unidade básica hoje. É o antiagregante que o interno prescreve
Sinvastatina 10, 20 e 40 mg comprimidoDose inicial de 20 mg e máxima de 80 mg por dia no protocolo ministerial40 mg por dia = 1 comprimido de 40 mg, ou 2 de 20 mg; 30 a 60 comprimidos por mês. A dose máxima de 80 mg exige 2 comprimidos de 40 mgComponente Básico — é a estatina que sai da unidade. A nota do próprio protocolo diz que 80 mg por dia associa-se a risco aumentado de toxicidade
Atorvastatina cálcica 10, 20, 40 e 80 mg comprimidoDose inicial de 10 mg e máxima de 80 mg por dia no protocolo ministerial, que registra em nota que a máxima é restrita a casos especiais e que 10 mg é a dose usual40 mg por dia = 1 comprimido de 40 mg; 30 comprimidos por mêsComponente Especializado, sob o PCDT da Dislipidemia — exige abertura de processo, não sai da unidade básica na mesma consulta
Pravastatina sódica 10, 20 e 40 mg comprimidoDose inicial de 20 mg e máxima de 40 mg por dia no protocolo ministerial40 mg por dia = 1 comprimido de 40 mg; 30 comprimidos por mêsComponente Especializado, mesmo PCDT. É a estatina de escolha do protocolo para quem usa antirretroviral
Bissulfato de clopidogrel 75 mg comprimido75 mg por dia nos estudos citados pela diretriz vascular75 mg por dia = 1 comprimido; 30 comprimidos por mêsComponente Especializado, e o documento norteador é o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas — a via de acesso existe para a coronária, não para a perna
Cilostazol 100 mg comprimido100 mg duas vezes ao dia, pelo menos 30 minutos antes ou 2 horas depois do café da manhã e do jantar200 mg por dia = 2 comprimidos; 60 comprimidos por mêsAusente da Rename 2024 em todos os componentes, conferido termo a termo no texto sem acento, espaço nem hífen. É compra do paciente
Pentoxifilina 400 mg comprimido de liberação prolongadaSem indicação para claudicação: o consenso brasileiro de 2019 registra que a efetividade não foi comprovada e que ela não é recomendadaNão se aplica a este capítuloComponente Estratégico — está na relação por outro programa, e não para a perna do claudicante
Nicotina adesivo de 7, 14 e 21 mg, goma e pastilha de 2 mg; bupropiona 150 mg de liberação prolongadaA recomendação nacional cita aconselhamento intensivo, reposição de nicotina, bupropiona e vareniclina, com grau forte e nível de evidência altoDepende do esquema do programa de tabagismo, que é da atenção primáriaComponente Estratégico, pelo programa de controle do tabagismo. A vareniclina, citada na mesma recomendação, não consta na Rename 2024
Rivaroxabana 2,5 mg, ticagrelor, ezetimiba, empagliflozina, liraglutida, naftidrofurilaRivaroxabana 2,5 mg duas vezes ao dia com ácido acetilsalicílico aparece em três recomendações condicionais da diretriz vascularNão se aplica na rede públicaNenhum dos seis aparece na Rename 2024, conferido um a um no texto sem acento, espaço nem hífen

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fecha, e por isso vale registrar: as quatro faixas de índice tornozelo-braquial da tabela de graus de isquemia da diretriz brasileira cobrem a reta sem sobreposição e sem vão. Grau 0 começa em 0,80 e grau 1 termina em 0,79; grau 1 começa em 0,60 e grau 2 termina em 0,59; grau 2 começa em 0,40 e grau 3 termina em 0,39. A diferença entre o piso de uma classe e o teto da seguinte é 0,01 em todos os três degraus — a menor unidade com que o índice é reportado. As faixas de pressão do dedo e de oximetria transcutânea da mesma tabela também fecham, e as de pressão de tornozelo igualmente: 0 é acima de 100, 1 é 70 a 100, 2 é 50 a 69 e 3 é abaixo de 50, de modo que 100, 70, 69 e 50 pertencem cada um a uma classe só. É o oposto do defeito mais comum em tabela de escore, e merece ser dito.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas diretrizes da mesma sociedade, publicadas no mesmo volume do mesmo periódico, usam cortes diferentes para dizer que o índice tornozelo-braquial não vale. A diretriz de doença arterial periférica de 2024 fala em valor superior a 1,4 como sinal de artéria pouco compressível; a diretriz de pé diabético de 2023 manda medir pressão do dedo ou oximetria transcutânea quando o índice é incompressível acima de 1,3. A diferença de 0,1 tem consequência real: um diabético com índice de 1,35 é um exame confiável por um documento e um exame a ser substituído pelo outro — e é exatamente o perfil de paciente em que a calcificação da média é mais provável.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A mesma grandeza tem dois nomes e dois números nos dois documentos. A diretriz de doença arterial periférica chama de índice hálux-braço e registra que o valor abaixo de 0,60 é o mais comumente aceito para o diagnóstico; a diretriz de pé diabético chama de índice dedo-braquial, considera anormal o valor abaixo de 0,7 e usa 0,75 como o valor que, somado a índice de 0,9 a 1,3 e onda trifásica, torna a doença menos provável. O 0,75 e a exigência de onda trifásica são da versão de 2019 do resumo prático do IWGDF, que a diretriz de pé diabético cita no mesmo parágrafo; a atualização de 2023, que declara substituir as anteriores, usa 0,70 nos dois sentidos — abaixo dele, anormal; a partir dele, doença menos provável — e aceita onda trifásica ou bifásica. Esta apostila adota os cortes de 2023, que são os mais novos, e isso muda duas frestas. A interna da diretriz de pé diabético, que deixava os valores de 0,70 a 0,74 fora da frase do anormal e da do tranquilizador, fecha. E a faixa entre o corte diagnóstico de um documento e o tranquilizador do outro encolhe de 0,60 a 0,74, com largura de 0,15, para 0,60 a 0,69, com largura de 0,10: nela o índice já é anormal pelos documentos de pé diabético e ainda não alcança o corte diagnóstico da diretriz de doença arterial periférica. Some-se a isso a legenda da Tabela 9 do documento de pé diabético, que usa quatro siglas para duas grandezas — índice tornozelo-braquial e a sigla inglesa do mesmo índice, pressão sistólica do dedo e a sigla inglesa da mesma pressão — sendo que duas delas não são definidas na própria legenda.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A recomendação 14 da diretriz brasileira de doença arterial periférica oferece uma alternativa que não alivia ninguém dentro da faixa que ela mesma nomeia. Ela manda reduzir o LDL para 70 mg/dL ou reduzi-lo em 50% quando o valor pré-tratamento estiver entre 70 e 135 mg/dL. A conta: metade de 135 é 67,5; metade de 130 é 65; metade de 100 é 50; metade de 80 é 40. Em toda a faixa declarada, o braço da redução percentual é mais exigente que o alvo fixo de 70. O ponto em que os dois se igualam é um LDL basal de 140 mg/dL — fora da faixa. Quem lê o "ou" como permissão de escolher o caminho mais fácil escolhe o alvo de 70 sempre, e a segunda metade da recomendação nunca se aplica a ninguém.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A recomendação 16 da mesma diretriz fixa meta pressórica abaixo de 140/90 mmHg para hipertensos de risco cardiovascular baixo ou moderado e abaixo de 130/80 mmHg para os de risco alto. Dentro de uma diretriz de doença arterial periférica, o primeiro ramo não tem sujeito: o próprio documento afirma que pacientes com doença arterial periférica dos membros inferiores têm alto risco de eventos cardiovasculares adversos graves, e o documento brasileiro de dislipidemia de 2025 classifica a doença arterial periférica sintomática como evento cardiovascular aterosclerótico maior. Na população da diretriz, a meta operacional é uma só.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A régua de força das recomendações não acompanha as palavras em cinco das recomendações numeradas. A metodologia declarada é o sistema GRADE, em que grau 1 é recomendação forte e grau 2 é condicional. A recomendação 3 abre com "sugerimos" e carrega grau 1. As recomendações 10 e 60 usam obrigação — "deverá ter como meta" e "exige pré-dilatação como recomendação padrão" — e carregam grau 2. As recomendações 29 e 47 são proibições — "não são recomendados" e "não se recomenda" — e também carregam grau 2, enquanto proibições redigidas da mesma forma nas recomendações 17, 21 e 42 carregam grau 1. Ou seja, a mesma construção negativa aparece com 1A, 1B, 2A e 2B ao longo do documento. Isso importa para o interno porque a recomendação 17, que proíbe antitrombótico de rotina na doença assintomática isolada, e a recomendação 47, que desaconselha revascularizar o membro de risco muito baixo, parecem igualmente terminantes na página e não carregam a mesma confiança.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A escala de qualidade da evidência da mesma diretriz atribui a mesma letra a duas classes diferentes. A metodologia define alta qualidade como A, moderada como B e baixa como C — e, na frase seguinte, diz que a categoria de muito baixa qualidade também foi enquadrada como C. Um leitor que veja "1C" não tem como saber se está diante de evidência de baixa ou de muito baixa qualidade, e treze das recomendações numeradas carregam justamente essa letra com grau 1.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas diretrizes da mesma sociedade, no mesmo volume do mesmo periódico, graduam recomendações em sistemas incompatíveis. A diretriz de doença arterial periférica de 2024 usa GRADE, com grau 1 ou 2 e nível A, B ou C. A diretriz de pé diabético de 2023 usa o sistema da Sociedade Europeia de Cardiologia, com classe de recomendação I, IIa, IIb ou III e nível de evidência A, B ou C. Um "nível C" significa a mesma coisa nos dois; um "1" e um "I" não. Quem lê os dois documentos em sequência para cuidar do mesmo pé precisa saber que a moeda mudou no meio do caminho.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A frase de abertura da introdução junta dois números que não fecham entre si. A diretriz estima prevalência de aproximadamente 12% na população adulta e, na mesma sentença, diz que a doença acomete mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A conta: 12% da população adulta mundial, tomada como cerca de 5,8 bilhões de pessoas com 20 anos ou mais, dá aproximadamente 700 milhões. Para que 200 milhões correspondessem a 12%, a população de referência teria de ser de 1,67 bilhão de adultos — pouco menos de um terço do total. Os dois números provavelmente vêm de fontes diferentes e medem coisas diferentes; lidos juntos, como estão, um deles está no lugar errado.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O medicamento que a diretriz nacional recomenda para o sintoma não existe na relação nacional, e o que existe na relação nacional é o que o consenso brasileiro desaconselha. A recomendação 37 orienta considerar cilostazol no claudicante quando a qualidade de vida está substancialmente limitada e o treino de caminhada é inviável ou ineficaz; conferida termo a termo na Rename 2024, com acento, espaço e hífen removidos antes da comparação, a palavra cilostazol não aparece. A pentoxifilina 400 mg de liberação prolongada consta, no Componente Estratégico — e o consenso brasileiro de 2019 registra que sua efetividade na claudicação não foi comprovada e que ela não é recomendada para isso. Naftidrofurila, citada no mesmo consenso como fármaco de uso europeu, também não consta.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O antiagregante que a diretriz vascular prefere existe no SUS por outra porta. A recomendação 19 registra que o clopidogrel pode ser preferível à aspirina na doença arterial periférica sintomática; na Rename 2024, o bissulfato de clopidogrel 75 mg está no Componente Especializado e o documento norteador declarado é o Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas. Não há, na mesma relação, protocolo norteador de doença arterial periférica para esse item. O resultado prático é que o antiagregante que o interno consegue entregar na unidade é o ácido acetilsalicílico 100 mg do Componente Básico.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A estatina de alta intensidade que a diretriz vascular pede e a estatina que o protocolo do SUS entrega não são a mesma coisa. A diretriz de 2024 afirma que pacientes com doença arterial periférica são de alto risco e devem receber tratamento intensivo com estatina. O PCDT da Dislipidemia, que é o documento norteador da atorvastatina na Rename 2024, fixa na Tabela 1 dose inicial de 10 mg e máxima de 80 mg de atorvastatina, com a nota de rodapé de que a máxima é restrita a casos especiais e que 10 mg é a dose usual — e sugere que os candidatos a dose alta sejam avaliados em serviços de atenção terciária. A mesma tabela fixa a máxima da sinvastatina em 80 mg e, na nota seguinte, adverte que 80 mg por dia se associam a risco aumentado de toxicidade. As duas doses máximas do protocolo vêm com a própria contraindicação anexada.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Os três documentos brasileiros que se pronunciam sobre o colesterol deste paciente dão três respostas diferentes, e o intervalo entre elas basta para mudar a receita. O protocolo ministerial vigente, cujo conteúdo é o da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019, afirma que o tratamento será baseado no paciente sob risco e não na busca de LDL alvo, e registra que a terapia agressiva com alvo de 70 mg/dL não demonstrou benefício sobre mortalidade. A diretriz vascular de 2024 fixa alvo de 70 mg/dL com grau forte e nível de evidência alto. A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 classifica a doença arterial periférica sintomática como evento cardiovascular aterosclerótico maior e fixa alvo de 50 mg/dL para risco muito alto e de 40 mg/dL para risco extremo, sendo risco extremo um evento maior somado a duas ou mais condições de alto risco. Para o senhor Nivaldino — 64 anos, hipertenso, tabagista atual, com claudicação —, tabagismo e hipertensão já são duas condições de alto risco, o que o coloca em risco extremo: alvo de 40 mg/dL por um documento, 70 mg/dL por outro, e nenhum alvo pelo terceiro, que é justamente o que autoriza a dispensação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Três documentos brasileiros também definem de três maneiras quem tem doença arterial periférica. A diretriz vascular de 2024 usa índice abaixo de 0,90. A diretriz de dislipidemias de 2025 define doença arterial periférica sintomática como claudicação com índice abaixo de 0,85, revascularização ou amputação prévias. O protocolo ministerial de dispensação não menciona índice nenhum: inclui o paciente com evidência de doença arterial periférica manifestada por claudicação intermitente ou história de revascularização — a busca por "tornozelo" no texto normalizado do protocolo devolve zero. Um paciente com claudicação típica e índice de 0,87 tem a doença pela diretriz vascular, não preenche a definição da diretriz de dislipidemias, e é incluído no protocolo do SUS pelo sintoma, sem que o número seja pedido.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A régua de risco que autoriza a estatina no SUS não é a mesma que a cardiologia brasileira usa hoje. O protocolo ministerial estrutura seus critérios de inclusão sobre o Escore de Risco de Framingham, com corte de risco superior a 10% em 10 anos para risco moderado a alto e superior a 20% para muito alto. A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 registra que não existe escore de risco derivado de dados da população brasileira, aponta calibrações como as da Organização Mundial da Saúde e do Globorisk-LAC, e estrutura a própria estratificação em categorias que não passam por Framingham. Para este capítulo a diferença é menor do que parece, porque o claudicante entra pelo critério de doença aterosclerótica manifesta e não pelo escore — mas quem for aplicar o protocolo a um assintomático precisa saber que a ferramenta obrigatória ali é a de 2019.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Nenhum documento brasileiro vigente de sociedade vascular adota a classificação de Fontaine. Na diretriz de doença arterial periférica de 2024, a palavra não aparece uma única vez, conferida com acento, espaço e hífen removidos; na diretriz de pé diabético de 2023, as seis ocorrências são todas o sobrenome de um autor na lista de referências. Rutherford aparece três vezes na diretriz de 2024, e nas três como desfecho de estudo citado, nunca como régua de conduta. O único documento brasileiro dos consultados que nomeia as duas classificações é o consenso da regional paulista de 2019, e ele as nomeia para dizer que a dificuldade de analisar resultados com esses sistemas foi o que levou a Society for Vascular Surgery a criar o WIfI. As classificações que os documentos brasileiros vigentes efetivamente usam são o WIfI, para a gravidade da ameaça ao membro, e o GLASS, para o padrão anatômico.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A diretriz nacional de doença arterial periférica não cobre a isquemia arterial aguda, e diz isso duas vezes. Na seção de objetivo, declara que as emergências ficam de fora, nomeando entre elas a oclusão arterial aguda e a lesão traumática; na metodologia, registra que foram excluídas as emergências, o trauma e a oclusão arterial aguda. As menções à isquemia aguda no corpo do texto são desfechos de ensaios clínicos sobre antitrombóticos, e não conduta. O consenso da regional paulista de 2019 também não trata do tema. Para o interno, a consequência é concreta: a conduta da perna aguda não tem régua nacional de sociedade vascular, e o protocolo do serviço é o documento que vale.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O consenso brasileiro de 2019 e a diretriz nacional de 2024 leem a mesma revisão sistemática sobre cilostazol e chegam a graus opostos. O consenso registra que o cilostazol melhorou a distância de deambulação sem alterar sobrevida nem complicações cardiovasculares e lhe atribui grau de recomendação 1A. A diretriz de 2024, citando a revisão Cochrane mais recente, registra que os participantes caminharam distância maior até o início da dor, mas que não houve evidência robusta de melhora na qualidade de vida, e condiciona a indicação à limitação substancial da qualidade de vida com treino de caminhada inviável, com grau 1B, acrescentando a obrigação de suspender o fármaco se não houver melhora em três meses. Vale notar a formulação do consenso de 2019, que arrola entre os achados favoráveis o fato de o fármaco não diminuir a qualidade de vida em comparação com placebo — ausência de dano lida ao lado de benefícios, dentro da justificativa de um grau 1A.

08

A conduta, hora a hora

O relógio deste capítulo não começa numa emergência. Começa numa consulta de vinte minutos, e a primeira coisa que ele mede é se essa consulta vai ser a que reduz o risco de infarto deste homem ou a que preenche um pedido de exame.

O que segue é o senhor Nivaldino Valverde: 64 anos, 78 quilos aferidos hoje na balança da unidade, 1,72 m, feirante, tabagista de 40 anos com cerca de um maço por dia, hipertenso em uso irregular de losartana, sem diagnóstico de diabetes. Claudicação da panturrilha direita há oito meses, sempre na mesma distância, cerca de 150 metros, aliviando em pé em menos de cinco minutos. Sem dor de repouso, sem ferida.

Os marcos abaixo são de uma consulta e dos três meses seguintes. A parte que muda desfecho cabe quase inteira no primeiro dia, e quase nada dela depende de vaga, de fila ou de laudo.

  1. Minuto 0 — a triagem de tempo, antes do exame

    Antes de qualquer medida, decida em que categoria de urgência este paciente está, porque é isso que define se a consulta continua. Três perguntas e uma inspeção resolvem: dói parado ou deitado? Existe ferida aberta ou dedo escuro? A perna esfriou de repente nos últimos dias? Nivaldino responde não às três, e os dois pés estão íntegros. A consulta segue no ritmo ambulatorial. Se qualquer resposta fosse sim, o resto deste marco seria substituído por um telefonema.

    Prescrição
    • Registrar por extenso, no prontuário: "claudicação de panturrilha direita, distância reprodutível de cerca de 150 metros, alívio em pé em menos de 5 minutos, sem dor de repouso, sem perda de tecido — categoria: doença arterial periférica sintomática estável".
    • Registrar a inspeção dos dois pés incluindo espaços interdigitais e calcâneo, mesmo sem queixa: "pés íntegros bilateralmente, sem úlcera, sem necrose".
  2. Minuto 5 — os quatro pulsos, e o índice na maca

    Pulsos femorais cheios e simétricos, poplíteo direito reduzido, tibial posterior e dorsal do pé direitos não palpáveis; à esquerda, todos presentes. Isso já localiza o andar da obstrução à direita, abaixo do femoral. O Doppler portátil da sala de curativo faz o resto: com manguito no tornozelo, o sinal da tibial posterior direita reaparece a 92 mmHg e o da dorsal do pé a 88; à esquerda, 138 e 132. Os braços dão 148 e 144. O índice direito é 92 dividido por 148, ou seja, 0,62; o esquerdo é 138 sobre 148, ou seja, 0,93. As ondas à direita são monofásicas.

    Prescrição
    • Anotar as seis pressões e as duas artérias de origem, não só os índices: "braço direito 148, braço esquerdo 144; tornozelo direito — tibial posterior 92, dorsal do pé 88; tornozelo esquerdo — tibial posterior 138, dorsal do pé 132".
    • Anotar o som: "ondas monofásicas à direita, trifásicas à esquerda".
    • Registrar ITB direito 0,62: anormal e compatível com DAOP. À esquerda, 0,93: limítrofe, não prova ausência de doença. Não transferir automaticamente graus de isquemia usados em classificações de ameaça ao membro para a claudicação sem contexto.
  3. Minuto 10 — a conversa que vale mais que o exame

    É aqui que a consulta muda de assunto. O achado não é uma perna: é aterosclerose sistêmica com uma manifestação visível. A diretriz nacional recomenda a cessação do tabagismo com grau forte tanto para prevenir a doença quanto para prevenir os eventos cardiovasculares e os eventos do membro, e recomenda com grau forte e nível de evidência alto as intervenções que vão do aconselhamento intensivo à reposição de nicotina, à bupropiona e à vareniclina. Nicotina e bupropiona constam na Rename 2024 pelo Componente Estratégico; a vareniclina, citada na mesma recomendação, não consta. O encaminhamento ao programa de tabagismo da própria unidade é conduta desta consulta, não da próxima.

    Prescrição
    • Encaminhar ao grupo de cessação do tabagismo da unidade, com data marcada e não com orientação genérica.
    • Registrar no prontuário a frase que dá sentido ao resto: "paciente informado de que o mesmo processo que fechou a artéria da perna está nas coronárias e nas carótidas, e de que parar de fumar é a medida com maior efeito sobre a perna e sobre o resto".
    • A escolha do fármaco de apoio e a duração do acompanhamento são do programa de tabagismo da atenção primária; a diretriz vascular registra que as intervenções devem durar no mínimo 6 meses.
  4. Minuto 12 — a prescrição que sai da farmácia hoje

    Duas linhas mudam desfecho e as duas estão no Componente Básico. O antiagregante entra porque o paciente é sintomático: a diretriz recomenda inibidor da agregação plaquetária para prevenção secundária na doença sintomática com grau forte e nível alto, e proíbe, com o mesmo grau forte e nível alto, o antitrombótico de rotina na doença assintomática isolada dos membros inferiores. A estatina entra porque a diretriz a recomenda para todos os que a toleram, com grau forte e nível alto, e porque o protocolo ministerial inclui expressamente o paciente com doença arterial periférica manifestada por claudicação entre os que têm evidência clínica de doença aterosclerótica. Na leitura atual, mantenha estas medidas em paralelo. A sinvastatina da lista de dispensação não equivale à estratégia preferencial de alta intensidade. Terapia combinada AAS + rivaroxabana 2,5 mg duas vezes ao dia pode beneficiar pacientes selecionados, com avaliação explícita de sangramento; não é anticoagulação plena nem prescrição automática para todo claudicante.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 100 mg, 1 comprimido por via oral uma vez ao dia, contínuo — 30 comprimidos por mês, Componente Básico.
    • Priorizar estatina de alta intensidade ou a máxima tolerada: por exemplo, atorvastatina 40–80 mg/dia ou rosuvastatina 20–40 mg/dia, após avaliação de interações e condições clínicas. Sinvastatina 40 mg é intensidade moderada; pode ser alternativa quando indicada por tolerância/acesso, com plano explícito para avaliar resposta e intensificar. Colher perfil lipídico basal sem atrasar desnecessariamente o tratamento.
    • AAS ou clopidogrel são opções de antiagregação simples na DAOP sintomática; escolher segundo contraindicações, risco, interações e acesso verificado. A via de fornecimento em uma edição da Rename não define sozinha elegibilidade clínica.
    • Cilostazol não substitui prevenção cardiovascular nem exercício. Considerá-lo quando a limitação funcional justificar, após excluir insuficiência cardíaca e revisar interações. Não concluir disponibilidade ou indisponibilidade local apenas pela Rename citada.
  5. Minuto 15 — a caminhada, prescrita como remédio

    O tratamento com maior efeito sobre o sintoma não é comprimido. A diretriz recomenda treino com exercício supervisionado com grau forte e nível alto; recomenda o esquema de no mínimo 3 vezes por semana, no mínimo 30 minutos, por no mínimo 3 meses; e recomenda o treino não supervisionado quando o supervisionado não é viável ou disponível. Estudos controlados descritos no documento mostraram aumentos de até 200% na distância de caminhada em 12 semanas. Duas advertências que o interno precisa dar junto: a dor durante a caminhada faz parte do treino e não é sinal de dano, e o exercício não melhora o índice tornozelo-braquial — o exame de controle daqui a três meses é a distância, não o número.

    Prescrição
    • Prescrever por escrito, com as três variáveis: "caminhar 3 vezes por semana, 30 minutos por sessão, por 3 meses, andando até sentir a dor, parando até passar e recomeçando".
    • Verificar programa supervisionado; se indisponível, organizar exercício domiciliar ou comunitário ESTRUTURADO, com objetivos, acompanhamento e revisão. A orientação solta para caminhar não equivale a esse programa.
    • Registrar a linha de base que vai ser comparada: "distância atual até a dor: cerca de 150 metros, no plano, em ritmo habitual".
  6. Minuto 18 — o resto do risco, e para onde ele vai

    Falta o que este capítulo não trata mas não pode deixar cair. A pressão arterial de Nivaldino é 148 por 88 em uso irregular de losartana; a diretriz vascular fixa a meta de menos de 130 por 80 mmHg para o hipertenso de risco cardiovascular alto, e ele é de risco alto por definição. O ajuste do anti-hipertensivo e a técnica de aferição são do capítulo de hipertensão arterial sistêmica; a estratificação de risco global e a discussão de meta lipídica além do que a Rename entrega são do capítulo de dislipidemias e prevenção cardiovascular. O rastreamento de diabetes entra porque muda o rastreamento vascular: a diretriz recomenda com grau forte que todo paciente com diabetes seja rastreado para doença arterial periférica.

    Prescrição
    • Solicitar glicemia de jejum e hemoglobina glicada, creatinina com estimativa de filtração glomerular e perfil lipídico.
    • Reforçar a losartana em uso e agendar o retorno de pressão com a equipe de enfermagem, encaminhando o ajuste ao capítulo e à consulta próprios.
    • Registrar a meta pressórica no prontuário como número, e não como adjetivo: "meta de pressão arterial abaixo de 130 por 80 mmHg (risco cardiovascular alto)".
  7. Semana 12 — a reavaliação que decide o que vem depois

    Nivaldino volta em três meses com 21 dias sem fumar, aderência boa ao ácido acetilsalicílico e à sinvastatina, e caminhando quase todos os dias. Diz que agora passa da padaria e chega à esquina — algo em torno de 300 metros. O índice, medido de novo, continua 0,63 à direita. Os dois dados juntos são o desfecho esperado, e não um resultado contraditório: a distância dobrou e o índice não mexeu, exatamente como a diretriz descreve. Se, em vez disso, a distância tivesse encurtado, ou tivesse aparecido dor à noite, a consulta mudaria de categoria.

    Prescrição
    • Repetir a medida da distância nas mesmas condições da primeira e anotá-la ao lado da anterior.
    • Repetir o índice tornozelo-braquial e o perfil lipídico; manter a caminhada como prescrição contínua.
    • Registrar explicitamente a leitura: "melhora funcional com índice inalterado — resposta esperada ao treino, sem indicação de imagem arterial".
  8. Quando a categoria muda — o marco que não tem data

    Este é o marco que o interno guarda para qualquer retorno, e vale mais que o cronograma. Dor que passou a existir em repouso, sobretudo à noite e no antepé, com alívio ao pendurar a perna; ferida no pé ou na perna que não fecha; dedo escurecido; ou índice que caiu junto com piora clínica: qualquer um deles retira o paciente da rotina ambulatorial. A diretriz recomenda que todos os pacientes com isquemia crônica que ameaça o membro sejam encaminhados com urgência ao especialista vascular para consideração de revascularização, e o número que justifica a palavra urgência é a amputação maior de 22% em um ano nos que não são revascularizados. E, um degrau acima, a perna aguda: dor súbita com palidez, frio, ausência de pulso, dormência ou fraqueza é contato imediato, e não pedido de exame.

    Prescrição
    • Na isquemia que ameaça o membro: contato com a referência vascular no mesmo dia, com o índice medido e a descrição da lesão no encaminhamento.
    • Na perna aguda: telefonar antes de examinar de novo; manter o membro em posição neutra ou levemente pendente, nunca elevado; aquecer o ambiente sem calor direto sobre a pele; suspender a dieta.
    • Documentar sensibilidade e força do antepé com hora, e repetir o registro a cada reavaliação — é a informação que o cirurgião vascular vai pedir.
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Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo tem uma inversão que confunde quem vem da enfermaria: o parâmetro que responde ao tratamento não é o do exame. O índice tornozelo-braquial não melhora com caminhada — a diretriz brasileira afirma isso com todas as letras —, e mesmo assim a distância de caminhada pode dobrar. Quem controla pelo número conclui que falhou; quem controla pelo sintoma vê o que aconteceu.

A segunda inversão é de prazo. Quase tudo aqui se julga em três meses, e não em dias: três meses é o mínimo do programa de exercício, três meses é o prazo depois do qual a diretriz manda suspender o fármaco sintomático se não houver melhora, e três meses é o intervalo que faz sentido para repetir o perfil lipídico. Em compensação, um parâmetro se julga em horas — e é o único que não espera retorno marcado.

Distância até a dorNa primeira consulta, e a cada retorno, sempre nas mesmas condições — plano, ritmo habitual, sem carrinho e sem apoio

Esperado: Aumento progressivo a partir de 4 a 6 semanas de caminhada regular; a diretriz descreve aumentos de até 200% em 12 semanas em estudos controlados. É o parâmetro principal de resposta.

Se não melhora: Antes de concluir falha, confira a execução: frequência mínima de 3 vezes por semana, 30 minutos, e caminhada até sentir a dor, não até antes dela. Se a execução estava correta e não houve ganho em três meses, o caso passa a discutir fármaco sintomático e avaliação vascular — a diretriz recomenda a revascularização do claudicante quando há falha do tratamento clínico com sintomas graves e impacto significativo na qualidade de vida.

Índice tornozelo-braquialNa primeira consulta e a cada 6 a 12 meses, ou sempre que o sintoma piorar

Esperado: Estável. O exercício não melhora o índice, e a estatina e o antiagregante não foram feitos para isso. Índice igual com distância maior é sucesso, e precisa ser escrito no prontuário como sucesso, ou o próximo médico vai desfazer a conduta.

Se não melhora: Queda do índice acompanhada de piora clínica indica progressão e muda a categoria do paciente. Queda do índice sem piora clínica pede que a medida seja repetida com técnica cuidadosa antes de virar conduta. Índice que sobe muito, em diabético ou renal crônico, é suspeita de calcificação e não de melhora.

CigarroEm toda consulta, com a pergunta feita em número e não em adjetivo

Esperado: Redução e cessação. É a medida com maior efeito conjunto sobre a perna, o coração e o cérebro, e a diretriz a recomenda com grau forte para prevenir tanto os eventos cardiovasculares quanto os eventos do membro.

Se não melhora: Recaída é regra e não fracasso: a própria diretriz registra taxas de abandono modestas e variáveis, e recomenda que as intervenções durem no mínimo 6 meses. Reencaminhar ao programa, e não substituir o encaminhamento por conselho.

Perfil lipídicoAntes da primeira dose de estatina e cerca de 8 a 12 semanas depois, e daí conforme o serviço

Esperado: Queda substancial do LDL. O alvo é a divergência declarada deste capítulo: 70 mg/dL pela diretriz vascular de 2024, 50 ou 40 mg/dL pela diretriz de dislipidemias de 2025 conforme a categoria de risco, e nenhum alvo pelo protocolo ministerial que autoriza a dispensação.

Se não melhora: Primeiro confira a aderência e a dose, e só então discuta troca. A estatina de maior potência disponível na rede é do Componente Especializado e exige processo; o pedido é feito com o critério de inclusão explícito no encaminhamento — doença arterial periférica manifestada por claudicação intermitente é um deles.

Pés — inspeçãoEm toda consulta no diabético; a cada retorno nos demais

Esperado: Pele íntegra, sem lesão em ponto de pressão, sem maceração interdigital, sem necrose de polpa digital. No diabético a inspeção substitui o sintoma, porque a neuropatia desliga a dor que faria o diagnóstico.

Se não melhora: Ferida no pé em paciente com doença arterial muda a categoria: passa a ser perda de tecido, e a combinação ferida mais isquemia é o que a classificação usada nos documentos brasileiros usa para estimar risco de amputação. Nesse ponto o paciente precisa do especialista vascular, e o índice deve ser refeito e enviado junto.

Dor em repousoPerguntada ativamente em toda consulta, com as palavras do paciente

Esperado: Ausente. Pergunte pelo comportamento e não pelo sintoma: "o senhor tem dormido com a perna para fora da cama?", "tem dormido na poltrona?", "acorda de noite com dor no pé?".

Se não melhora: O aparecimento de dor de repouso é, sozinho, critério para isquemia crônica que ameaça o membro, e a diretriz recomenda encaminhamento urgente ao especialista vascular. Não espere o retorno marcado e não peça imagem antes de falar com quem vai decidir.

Sensibilidade e força do antepé na perna sem pulsoEm toda avaliação de perna aguda, com hora anotada, e repetida a cada reavaliação

Esperado: Preservadas. Numa perna sem pulso, dolorosa e fria, sensibilidade e força preservadas descrevem uma situação diferente da mesma perna com dormência ou paresia.

Se não melhora: Perda de sensibilidade ou de força que aparece entre duas avaliações é a informação mais importante do plantão e precisa ir ao telefone imediatamente. Este é o único parâmetro do capítulo cujo intervalo de reavaliação se mede em horas, e o único cuja piora não admite ser registrada para discussão na visita da manhã.

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Onde o erro machuca

Pedir eco-Doppler arterial ou angiotomografia antes de medir o índice na maca

O dano: Atraso e custo sem mudança de conduta. O diagnóstico é feito por um exame que o interno faz em dez minutos; a imagem existe para planejar procedimento, e no claudicante que ainda não fez tratamento clínico nem caminhada não há procedimento a planejar. Enquanto o pedido dorme na fila, o paciente segue fumando sem estatina e sem antiagregante — que é o que de fato muda a mortalidade dele.

Como pegar a tempo: Regra de bolso: nenhum exame de imagem arterial é solicitado antes de o índice estar escrito no prontuário, e nenhum é solicitado por quem não vai intervir. A diretriz brasileira sequer traz capítulo de diagnóstico por imagem — vai do índice e do teste de esteira direto ao manejo.

Aceitar índice normal ou alto em diabético ou renal crônico como prova de artéria boa

O dano: É o erro que custa membro. A calcificação da média enrijece a artéria, o manguito não a colaba, e o número sobe justamente em quem mais tem doença. As diretrizes brasileiras sobre pé diabético relatam que a pressão de tornozelo e o índice normais por engano se comportaram como preditor independente de amputação maior.

Como pegar a tempo: Escute a onda, não só o número. Índice normal com onda monofásica amortecida é suspeito. Nesse caso, meça pressão sistólica do dedo — que, no diabético, prevalece sobre o índice quando os dois discordam — ou oximetria transcutânea. E lembre-se de que um índice acima de 0,9 não exclui a doença.

Prescrever antiagregante para achado de índice baixo em paciente assintomático, sem doença em outro território

O dano: Expõe a sangramento sem benefício demonstrado. A diretriz brasileira é explícita, com grau forte e nível de evidência alto: terapia antitrombótica de rotina, antiplaquetária ou anticoagulante, não é recomendada para pacientes com doença arterial periférica assintomática isolada de membros inferiores. O documento descreve estudos em que o ácido acetilsalicílico não reduziu eventos nesse perfil, inclusive em diabéticos.

Como pegar a tempo: Antes de escrever, responda a duas perguntas: este paciente tem sintoma de perna, e este paciente tem doença aterosclerótica em outro território? Se as duas respostas forem não, o antiagregante não entra — e a estatina, a cessação do tabagismo e o controle pressórico entram do mesmo jeito. Antes ainda: reconheça que "assintomático" é um rótulo perigoso, porque sintoma atípico é comum e quem não anda não claudica.

Tratar a distância que não melhora como falha do exercício, sem conferir como o exercício foi feito

O dano: Troca-se um tratamento eficaz e barato por fármaco que não está na relação nacional, ou por um encaminhamento cirúrgico que a diretriz reserva para a falha do tratamento clínico. A recomendação nacional é de tratamento inicial clínico e não cirúrgico para o claudicante, com grau forte e nível alto.

Como pegar a tempo: Confira as três variáveis antes de concluir qualquer coisa: no mínimo 3 vezes por semana, no mínimo 30 minutos, por no mínimo 3 meses. E confira a instrução: caminhar até sentir a dor, parar até passar, recomeçar. Paciente que caminha até antes da dor, para não sentir dor, não está fazendo o tratamento.

Registrar "claudicação a pequenas distâncias" em vez do número

O dano: Destrói o único parâmetro de resposta que o capítulo tem. Sem a distância inicial, o retorno de três meses não consegue dizer se o paciente melhorou, e a decisão seguinte — insistir no clínico, considerar fármaco sintomático ou encaminhar — passa a ser tomada por impressão. O mesmo vale para "pulsos diminuídos": presença, ausência e o andar em que o pulso some são reprodutíveis; cruzes não são.

Como pegar a tempo: Escreva metros ou pontos de referência que o paciente reconheça, e escreva as seis pressões do índice com a artéria de origem de cada uma. Quem repetir o exame daqui a seis meses precisa medir a mesma coisa no mesmo lugar.

Elevar a perna, aquecer com bolsa quente ou pedir exame antes de telefonar, na perna aguda

O dano: Elevar reduz ainda mais a perfusão de um território que já não tem margem. Calor direto sobre pele isquêmica e possivelmente insensível queima sem que o paciente reclame. E o tempo gasto num pedido de exame é tempo de músculo e nervo, que são os tecidos que se perdem primeiro. A janela aqui se conta em horas.

Como pegar a tempo: Na perna que ficou pálida, fria e sem pulso: telefone primeiro. Enquanto isso, membro em posição neutra ou levemente pendente, ambiente aquecido sem calor direto sobre a pele, dieta suspensa, e sensibilidade e força do antepé documentadas com hora. A conduta definitiva não tem régua nacional de sociedade vascular — a diretriz de doença arterial periférica exclui a oclusão arterial aguda do próprio escopo —, e por isso o protocolo do serviço e o cirurgião vascular decidem.

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O que dizer ao paciente e à família

Três informações precisam sair desta consulta dentro da cabeça do paciente, e só três: que a doença não é da perna, que o tratamento principal é o que ele faz e não o que ele toma, e o que o obriga a voltar sem esperar a data marcada.

A dificuldade específica desta conversa é que ela pede duas coisas contraditórias na aparência. De um lado, é preciso assustar o suficiente para que o cigarro pare e a caminhada comece. Do outro, é preciso tranquilizar o suficiente para que o paciente não saia achando que vai perder a perna — porque ele provavelmente não vai, e porque o medo da amputação é o que faz alguém aceitar cirurgia que a diretriz não indica.

As falas abaixo são para o claudicante estável, exceto as duas últimas.

Explicando o que o exame mostrou, sem transformar o número em sentença

Eu medi a pressão no seu braço e no seu tornozelo, dos dois lados, e comparei. Do lado esquerdo está igual, o que é o normal. Do lado direito, a pressão que chega ao pé é bem menor que a do braço: chega cerca de 60% do que deveria. Isso quer dizer que tem uma artéria estreitada nessa perna. Não é entupimento total, e não é o tipo de coisa que se resolve hoje nem se perde amanhã.

Não diga: Evite "o senhor tem 62% de circulação", que soa a percentual de perna restante. E evite dizer que a artéria está "entupida" sem qualificar — a palavra que o paciente entende é a mesma que ele usa para o infarto do vizinho.

Dizendo por que a consulta mudou de assunto

O que mais me preocupa aqui não é a sua perna. É que essa mesma placa que estreitou a artéria da perna está nas artérias do coração e do pescoço. Quem tem isso na perna tem mais chance de infartar e de ter derrame do que de perder a perna. Por isso os dois remédios que eu vou passar hoje não são para a dor de andar: são para o coração e para a cabeça.

Não diga: Evite terminar aí. Sem a frase seguinte, sobre o prognóstico da perna, essa informação vira medo sem destino.

Devolvendo o tamanho do risco da perna

Sobre a perna, o senhor merece um número honesto: em cada cem pessoas com o seu quadro, cerca de uma por ano chega a precisar de amputação. Em dez anos, isso dá menos de dez em cem. Não é zero, e é por isso que a gente vai acompanhar. Mas está longe de ser o destino da maioria — e cai mais ainda se o cigarro parar.

Não diga: Evite arredondar para "é raro" ou para "não se preocupe". O paciente que sente que o médico minimizou não volta com a dor de repouso — volta com a ferida.

Prescrevendo a caminhada como tratamento, e não como conselho

O tratamento que mais melhora a sua distância não é comprimido: é caminhar. Três vezes por semana, meia hora de cada vez, por três meses no mínimo. E é diferente do que o senhor está fazendo hoje: eu quero que o senhor ande até sentir a dor, pare até ela passar, e recomece. A dor da caminhada não estraga nada. Ela é o próprio remédio funcionando, porque é ela que faz o corpo abrir caminhos novos em volta do estreitamento.

Não diga: Evite "procure caminhar mais". Sem as três variáveis e sem a instrução de andar até a dor, a prescrição não é executável, e o retorno de três meses vira uma conversa sobre boa vontade.

O cigarro, sem sermão e sem barganha

Eu não vou pedir que o senhor diminua. Diminuir não resolve isso. O que muda a sua perna e o seu coração é parar, e parar é difícil o bastante para ter tratamento próprio: tem grupo aqui na unidade, tem adesivo e tem comprimido, e a maioria das pessoas precisa de mais de uma tentativa. Eu já marquei a sua primeira ida no grupo. Se o senhor voltar tendo recaído, a gente recomeça — recaída faz parte, desistir de tentar é que não.

Não diga: Evite condicionar o resto do tratamento à parada do cigarro. Estatina, antiagregante e caminhada entram hoje, fumando ou não.

Ensinando o que obriga a voltar antes da data

Tem três coisas que fazem o senhor voltar sem esperar a data. Primeira: dor no pé quando o senhor está parado, principalmente de noite, daquelas que melhoram se pendurar a perna para fora da cama. Segunda: qualquer ferida no pé ou na perna que não fecha, ou um dedo que escureça — mesmo pequena, mesmo sem doer. Terceira, e essa é para vir correndo: se a perna esfriar, ficar branca e dormente de uma hora para outra. Essas três não esperam consulta.

Não diga: Evite listar sinais sem dizer o que fazer com cada um. E não use "procure atendimento" para as três: a terceira é serviço de urgência no mesmo dia, e isso precisa ser dito com essas palavras.

Explicando ao paciente com dor de repouso ou ferida por que hoje é diferente

O que o senhor está me contando mudou o plano que a gente tinha. Dor no pé parado, e essa ferida que não fecha, querem dizer que o sangue que chega já não é suficiente nem para o pé descansando. Isso não se resolve com caminhada nem esperando a fila normal. Eu vou falar hoje com o cirurgião vascular, e o senhor vai ser visto por ele o quanto antes — não porque piorou de repente, mas porque a partir daqui o tempo conta.

Não diga: Evite prometer que a revascularização vai acontecer, e evite a palavra amputação como argumento para conseguir adesão. O que é preciso dizer é que a avaliação é urgente; a decisão do procedimento é de quem vai fazê-lo.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que valor o índice tornozelo-braquial deixa de ser confiável: 1,3 ou 1,4

Acima de 1,4 — diretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024

O documento nacional de doença arterial periférica descreve a calcinose da média como mais prevalente em diabéticos, renais crônicos e idosos, registra que ela torna as artérias pouco compressíveis, e situa em valor superior a 1,4 o ponto em que o índice pode estar falsamente normalizado ou artificialmente elevado, tornando o teste menos confiável. Nesse ponto sugere o índice hálux-braço como adjuvante, com o valor abaixo de 0,60 como o mais aceito entre os estudos.

SBACV — Erzinger FL, et al. Diretrizes sobre doença arterial periférica da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 (seção de diagnóstico e Quadro 1, recomendação 3).

Acima de 1,3 — diretrizes da SBACV sobre o pé diabético, 2023

O documento nacional de pé diabético, da mesma sociedade e publicado no mesmo volume do mesmo periódico, fixa a incompressibilidade acima de 1,3 e, a partir dela, manda medir pressão sistólica do dedo ou oximetria transcutânea. Trabalha também com a faixa de 0,9 a 1,3 como aquela em que a doença é menos provável quando somada a índice dedo-braço maior ou igual a 0,75 e onda trifásica — cortes da versão de 2019 do IWGDF, que a atualização de 2023 mudou para 0,70 e onda trifásica ou bifásica —, e afirma que a pressão do dedo prevalece sobre o índice no diabético quando os dois discordam.

SBACV — Duarte Junior EG, et al. Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023. J Vasc Bras. 2024;23:e20230087 (Capítulo 4, Tabela 9 e seção do índice tornozelo-braquial).

Como decidir

A faixa em disputa é estreita — de 1,30 a 1,40 — e nela cabe exatamente o paciente em que a calcificação é mais provável. Para o paciente à sua frente, a decisão não depende de escolher o corte: depende de para quem o número vai servir. Se o índice cair nessa faixa num diabético, num renal crônico ou num idoso, trate-o como não confiável, independentemente do documento, e busque a segunda medida — pressão do dedo onde houver manguito próprio, oximetria transcutânea onde houver laboratório vascular, e a morfologia da onda em qualquer lugar que tenha Doppler portátil. Um índice de 1,35 com onda trifásica em paciente sem sintoma e com pés íntegros permite seguir observando; o mesmo 1,35 com onda monofásica, ou com pé em risco, obriga a não parar aí. E, nos dois casos, escreva no prontuário o valor, a onda e a razão pela qual você confiou ou não confiou no número — porque o próximo médico vai ler o índice sem ouvir a onda.

Medir o índice em quem não tem sintoma nenhum

A favor de rastrear — diretriz de doença arterial periférica da SBACV, 2024

O documento nacional de doença arterial periférica sugere usar o índice para triagem de adultos assintomáticos com mais de 50 anos que tenham fatores de risco, como tabagismo ou diabetes, e recomenda, com grau forte, que pacientes com diabetes sejam rastreados para doença arterial periférica. O argumento é que a doença é frequentemente assintomática, subdiagnosticada e subtratada, e que o paciente com índice baixo tem risco aumentado de eventos cardiovasculares e de eventos do membro, ainda que sem sintomas — informação que reposiciona todo o cuidado preventivo daquela pessoa.

SBACV — Erzinger FL, et al. Diretrizes sobre doença arterial periférica da SBACV. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 (Quadro 1, recomendação 1, grau 2C; Quadro 4, recomendação 6, grau 1B).

Contra rastrear de rotina — a mesma diretriz na recomendação 17, e a diretriz brasileira de dislipidemias de 2025

A recomendação de maior força do mesmo documento vai em sentido contrário quanto à consequência: terapia antitrombótica de rotina não é recomendada na doença arterial periférica assintomática isolada de membros inferiores, com grau forte e nível de evidência alto, e o texto registra estudos em que o ácido acetilsalicílico não reduziu eventos nesse perfil, inclusive em diabéticos. Do lado da cardiologia, a diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 constrói toda a estratificação do assintomático sobre outros marcadores de aterosclerose subclínica — placa carotídea, escore de cálcio, placas na angiotomografia de coronárias e aneurisma de aorta abdominal — e não inclui o índice tornozelo-braquial entre eles: a única menção ao índice no documento inteiro está na definição de doença arterial periférica sintomática.

SBACV — Erzinger FL, et al. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 (Quadro 7, recomendação 17, grau 1A); SBC — Rached FH, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640 (Tabelas 4.1 e 4.2 e Figura 4.1).

Como decidir

Decida pela pergunta que o resultado vai responder na consulta de hoje. Antes de medir um assintomático, pergunte-se o que muda se der 0,7. Se o paciente já vai receber estatina e controle pressórico por outro critério e não vai receber antiagregante por ser assintomático isolado, o número não altera prescrição nenhuma — e o tempo do exame rende mais em inspecionar os pés e conferir aderência. Se, ao contrário, o número for reclassificar alguém que hoje não recebe nada, ou se o paciente for diabético — em quem a diretriz recomenda o rastreio com grau forte e em quem a neuropatia esconde o sintoma —, meça. E, medindo, meça de verdade: um índice colhido às pressas em quem acabou de subir a rampa da unidade produz um número que vai ser tratado como verdade por anos.

Cilostazol para claudicação: primeira linha farmacológica ou último recurso

Grau 1A — Consenso da SBACV regional São Paulo, 2019

O consenso da regional paulista da sociedade descreve o cilostazol como inibidor da fosfodiesterase III com atividade vasodilatadora, apoia-se numa revisão sistemática de 15 estudos duplos-cegos com 3.718 pacientes, e conclui que ele é efetivo para diminuir sintomas e melhorar a distância de deambulação no claudicante, atribuindo grau de recomendação 1A. Entre os achados que arrola em favor está o de que o fármaco não diminui a qualidade de vida em comparação com placebo. O mesmo documento recusa a pentoxifilina para claudicação por falta de efetividade comprovada. Duas ressalvas de leitura que a própria publicação declara: ela circula sob patrocínio de laboratório e contém publicidade de medicamentos sujeitos a prescrição.

Burihan MC, Campos Júnior W, eds. Consenso e Atualização no Tratamento da Doença Arterial Obstrutiva Periférica. SBACV-SP. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019 (seção de abordagem medicamentosa).

Grau 1B condicionado, com data de validade — diretriz nacional da SBACV, 2024, e a Rename 2024

A diretriz nacional condiciona o cilostazol ao claudicante cuja qualidade de vida esteja substancialmente limitada e cujo treino de caminhada seja restrito, inviável ou ineficaz, com grau 1B, e acrescenta a obrigação de suspender o tratamento se os sintomas não melhorarem após 3 meses, com grau 1C. No corpo do texto registra que há pouca evidência em estudos randomizados desse benefício e que a revisão Cochrane mais recente, embora tenha mostrado maior distância até o início da dor, não trouxe evidência robusta de melhora na qualidade de vida. A esse quadro soma-se um fato de disponibilidade: conferida termo a termo na Rename 2024, com acento, espaço e hífen removidos antes da comparação, a palavra cilostazol não aparece em qualquer componente.

SBACV — Erzinger FL, et al. J Vasc Bras. 2024;23:e20230059 (Quadro 14, recomendações 37 e 38); Brasil, Ministério da Saúde. Rename 2024.

Como decidir

A ordem das medidas não está em disputa nos dois documentos: os dois põem a cessação do tabagismo, o controle dos fatores de risco e o exercício antes do fármaco sintomático. Então decida pelo lugar do paciente nessa fila, e não pelo grau. Enquanto ele não tiver feito três meses de caminhada estruturada — 3 vezes por semana, 30 minutos, com a instrução de andar até a dor —, a discussão sobre cilostazol é prematura pelos dois lados. Depois desses três meses, se a limitação persistir e for substancial para a vida dele, o fármaco entra como tentativa com prazo: reavalie em 3 meses e suspenda se não houver ganho de distância, que é o que a diretriz nacional determina. E diga ao paciente, antes de escrever a receita, que ele vai comprar — porque o medicamento não está na relação nacional, e uma receita que ele não pode pagar produz abandono silencioso de todo o resto da prescrição.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira, mesma unidade básica, agenda da tarde. Seu Sinval Perpétuo tem 59 anos, 84 quilos, diabetes tipo 2 há catorze anos, hipertensão, creatinina de 1,6 mg/dL na última coleta. Veio para renovar receita. Enquanto ele fala, você repara que ele tirou o sapato para se coçar e não voltou a calçar — e que há um curativo improvisado com esparadrapo no primeiro pododáctilo direito. Perguntado, ele diz que "deu uma bolha" num sapato novo há umas cinco semanas e que não dói nada. Ele não claudica: diz que anda tudo o que precisa, o que hoje é da casa até o portão.

  1. tiro o esparadrapo antes de qualquer outra coisa, e olho os dois pés

    Sob o curativo há uma úlcera de cerca de 1,5 cm na face medial da cabeça do primeiro metatarso, com fundo pálido e bordas espessas, sem secreção, sem eritema perilesional e sem odor. O pé direito é frio ao dorso da minha mão comparado ao esquerdo, sem pelos, com unhas espessadas. Olho também o espaço entre os dedos e o calcâneo, dos dois lados — é onde o paciente não vê e o examinador esquece. Registro que ele não sente dor na lesão: isso não me tranquiliza, é justamente o que a neuropatia faz.

  2. coloco a ausência de claudicação no lugar certo

    Ele não claudica, e isso não afasta nada. A diretriz nacional registra que apenas 5 a 10% dos pacientes têm sintomas clássicos, e as diretrizes sobre pé diabético registram que a doença arterial periférica afeta até metade dos pacientes com úlcera de pé. Além disso, quem anda da casa até o portão não impõe carga suficiente para revelar a doença. Ausência de sintoma aqui é ausência de esforço somada a ausência de sensação.

  3. palpo os quatro pulsos de cada lado antes de pegar o aparelho

    Femorais cheios e simétricos; poplíteos presentes; tibial posterior direito duvidoso e dorsal do pé direito não palpável. À esquerda, todos presentes. Pulso duvidoso não se resolve palpando de novo com mais fé, e a artéria dorsal do pé pode faltar por variação anatômica numa minoria de pessoas saudáveis. O aparelho decide.

  4. faço o índice, e ele me dá um número bom demais

    Braços: 152 e 148. Tornozelo direito: tibial posterior 196, dorsal do pé sem sinal audível. Tornozelo esquerdo: tibial posterior 158, dorsal do pé 150. O índice direito é 196 sobre 152, ou seja, 1,29; o esquerdo é 158 sobre 152, ou seja, 1,04. Escrevo as seis medidas com a artéria de origem de cada uma. E escrevo o som, que é o que muda tudo: à direita a onda é monofásica e amortecida; à esquerda, trifásica.

  5. leio o 1,29 pela onda, e não pela tabela

    Pelo corte da diretriz de pé diabético, 1,29 ainda está dentro da faixa de 0,9 a 1,3 — mas essa faixa só torna a doença menos provável quando vem com índice dedo-braço maior ou igual a 0,70 e onda trifásica ou bifásica, pelos cortes de 2023, ou com 0,75 e onda trifásica, pelos de 2019 que a diretriz brasileira reproduz — e a onda aqui é monofásica, o que não passa em nenhuma das duas versões. Pelo corte da diretriz de doença arterial periférica, o valor só seria pouco compressível acima de 1,4. Os dois documentos divergem no número, e nenhum dos dois me manda ignorar a onda: as diretrizes sobre pé diabético dizem para suspeitar de falso normal exatamente quando o índice está próximo ou dentro da normalidade e a onda é monofásica amortecida, e relatam que esse normal por engano se comportou como preditor independente de perda maior do membro. Um diabético de catorze anos com creatinina de 1,6 reúne as duas causas clássicas de calcificação da média.

  6. peço a medida que prevalece

    As diretrizes brasileiras de pé diabético são explícitas: a pressão sistólica do dedo deve ser medida no paciente com diabetes e prevalece sobre o índice tornozelo-braquial quando os dois discordam, porque as artérias digitais costumam ser poupadas da calcificação extensa das tibiais. A unidade não tem manguito de dedo. Isso não vira desculpa: vira o motivo pelo qual o encaminhamento sai hoje, e não o motivo para esperar. Onde houver laboratório vascular, a alternativa é a oximetria transcutânea.

  7. classifico o paciente pela categoria de tempo, que é o que decide

    Ele tem perda de tecido — uma úlcera que não fecha em cinco semanas — num pé com sinais de isquemia e com onda monofásica. Isso é isquemia crônica que ameaça o membro, independentemente do número do índice. A diretriz nacional recomenda que todos esses pacientes sejam encaminhados com urgência ao especialista vascular para consideração de revascularização, e o número que sustenta a palavra urgência é a amputação maior de 22% em um ano nos não revascularizados. Escrevo isso no encaminhamento com essas palavras, junto com as seis pressões, a descrição da onda e a medida da úlcera.

  8. e faço, na mesma consulta, o que não depende de vaga

    Ácido acetilsalicílico 100 mg por dia e sinvastatina 40 mg à noite, os dois do Componente Básico — ele é sintomático no sentido que importa, porque tem perda de tecido, e o protocolo ministerial inclui expressamente a doença arterial periférica entre as evidências clínicas de doença aterosclerótica. Reforço a meta pressórica abaixo de 130 por 80. Anoto a hemoglobina glicada com a leitura vascular: meta abaixo de 7% na isquemia que ameaça o membro, e a escolha do esquema antidiabético fica com o capítulo de diabetes tipo 2. E deixo escrito, para o caso de programarem angiotomografia, que a metformina deve ser suspensa 24 a 48 horas antes e depois do contraste iodado. O curativo em si, o alívio de pressão e a conduta da infecção não são deste capítulo; a fonte nacional está na lista de fontes.

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Faça você

Sábado, 4h50, pronto-socorro de hospital geral do interior. Herculano Solano tem 71 anos, é aposentado, tem fibrilação atrial conhecida e parou de tomar a varfarina há dois meses porque "não conseguiu marcar o exame do sangue". Chegou trazido pelo filho por dor intensa na perna esquerda que começou por volta das 23h, do nada, e não passa com nada. Ao exame: perna esquerda pálida e visivelmente mais fria que a direita a partir do terço médio da coxa, dor à palpação da panturrilha, pulso femoral esquerdo presente e nenhum pulso distal audível ao Doppler abaixo dele; à direita, todos os pulsos presentes. Ele diz que o pé está "dormente igual quando a gente senta em cima da perna" e move os dedos com dificuldade. O cirurgião vascular do hospital de referência fica a 140 quilômetros. Escreva a sua conduta antes de ler a resposta.

  1. 1. Nomeie o quadro e diga o que o define

    Qual é a categoria deste paciente, e quais dois achados do exame — não do exame de imagem — decidem que ela é a mais grave possível? Diga também por que a história da varfarina interrompida importa para o mecanismo.

  2. 2. Ordene os três primeiros atos

    Escreva, em ordem, o que você faz nos primeiros dez minutos. Diga onde entra o telefone e onde entra o exame de imagem.

  3. 3. Posicione o membro e justifique

    Elevado, neutro ou pendente? Aquecido como? Escreva a justificativa fisiológica de cada escolha, e diga o que você proíbe a equipe de fazer.

  4. 4. Escreva o que vai no prontuário e o que vai no telefonema

    Liste os dados que o cirurgião vascular vai pedir e que só existem se você os anotar agora, com hora.

  5. 5. Diga qual documento brasileiro governa a sua conduta aqui

    E, se não houver um, diga isso e diga quem decide no lugar dele.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Reescreva a prescrição de Nivaldino com prevenção cardiovascular, tratamento funcional e data de acompanhamento, explicando a diferença entre intensidade de estatina e acesso ao produto.

  7. Questão integrativa 1

    O ITB de 1,55 em um diabético com ferida é tranquilizador?

  8. Questão integrativa 2

    A distância de caminhada dobrou, mas o ITB quase não mudou. O tratamento falhou?

  9. Questão integrativa 3

    Precisa parar de fumar antes de receber estatina ou antiagregante?

  10. Questão integrativa 4

    Qual achado muda uma consulta de rotina para avaliação urgente?

  11. Questão integrativa 5

    Por que não trocar AAS por anticoagulante em dose plena para melhorar a claudicação?

  12. Questão integrativa 6

    O que precisa constar de um programa domiciliar de caminhada?

Ver como fecharíamos

1. É isquemia arterial aguda de membro inferior esquerdo, e os dois achados que a colocam na categoria mais grave são a perda de sensibilidade no pé e a dificuldade de mover os dedos — nervo e músculo são os tecidos que perdem primeiro, e por isso sensibilidade e força são o cronômetro, não a cor nem a temperatura. O nível do esfriamento, a partir do terço médio da coxa com femoral presente, sugere obstrução femoropoplítea alta. A fibrilação atrial com anticoagulação interrompida há dois meses aponta para mecanismo embólico, que é o que produz exatamente este quadro: perna previamente sem sintoma, oclusão súbita e ausência de circulação colateral desenvolvida. 2. Primeiro, telefonar para a referência vascular — antes de pedir qualquer imagem, porque o tempo aqui se conta em horas e a imagem será solicitada por quem vai intervir. Segundo, garantir acesso venoso, analgesia, monitorização e coleta de exames pré-operatórios, incluindo função renal, hemograma e coagulograma. Terceiro, suspender a dieta, porque a probabilidade de sala nas próximas horas é alta. A imagem entra depois do telefonema e conforme a orientação de quem vai receber o paciente. 3. Membro em posição neutra ou levemente pendente, nunca elevado: elevar reduz ainda mais a pressão de perfusão de um território que já não tem margem. Aquecimento ambiente, com o membro protegido — e proibido calor direto: bolsa de água quente, compressa quente ou qualquer fonte térmica sobre pele isquêmica e insensível queima sem que o paciente reclame. Proibir também compressão do membro e punção arterial de conveniência naquele lado. 4. No prontuário e no telefonema: hora de início da dor, referida como por volta das 23h; hora do seu exame; quais pulsos estão presentes e a partir de onde somem, incluindo o resultado do Doppler; e, o dado mais importante, sensibilidade e força do antepé documentadas com hora, para que a próxima medida diga se piorou. Acrescente a fibrilação atrial, a suspensão da varfarina e o intervalo desde a última dose, a função renal se já disponível, as comorbidades e a hora da última refeição. 5. Não há documento brasileiro vigente de sociedade vascular que fixe a conduta da isquemia arterial aguda: a diretriz de doença arterial periférica da SBACV de 2024 exclui explicitamente do escopo as emergências, o trauma e a oclusão arterial aguda, e diz isso duas vezes — no objetivo e na metodologia; o consenso da regional paulista de 2019 também não trata do tema. As menções à isquemia aguda dentro da diretriz de 2024 são desfechos de ensaios clínicos de antitrombóticos, e não conduta. Na prática, quem governa é o protocolo do serviço, e a decisão de anticoagular, de operar e por qual via é do cirurgião vascular. O papel do interno está inteiro nos itens 1 a 4: reconhecer, não atrasar, não piorar o membro e entregar a informação que decide. A decisão supervisionada inicial inclui HNF prontamente quando indicada e sem contraindicação; não se aguarda indefinidamente a resposta de um especialista distante para que o médico responsável inicie o protocolo de emergência. Este caso deve ser ligado ao capítulo de oclusão arterial aguda para acompanhar reperfusão e síndrome compartimental. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sugere artéria incompressível. Investigue perfusão por pressão digital/ondas e encaminhe conforme a ameaça clínica; o valor alto não exclui isquemia. 2. Não. O treino pode melhorar eficiência e função sem alterar a pressão medida. Avalie o objetivo funcional e o risco cardiovascular, além do número. 3. Não. As intervenções começam em paralelo; a dificuldade em uma não retira as outras. Combine apoio concreto e metas com o paciente. 4. Dor de repouso, ferida isquêmica ou gangrena indicam possível ameaça crônica. Início súbito com déficit sensitivo ou motor exige emergência. O exame de imagem não deve atrasar o contato. 5. A fisiopatologia e a evidência não sustentam anticoagulação plena para DAOP isolada, e o sangramento aumenta. Anticoagulação por fibrilação atrial é outra indicação; a dose vascular baixa combinada com AAS também é outra estratégia. 6. Frequência, duração, progressão, pausas por claudicação e acompanhamento. Defina sinais para interromper e procurar atendimento, como dor torácica, dispneia incomum ou dor persistente em repouso; adapte a capacidade e comorbidades.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A diretriz brasileira afirma diretamente que o exercício não melhora o índice tornozelo-braquial, e ao mesmo tempo descreve, em estudos controlados, aumentos de até 200% na distância de caminhada em doze semanas de treino. O mecanismo do ganho não é a abertura da artéria doente: é a soma de circulação colateral, eficiência metabólica do músculo e melhora do padrão de marcha. Distância maior com índice estável é, portanto, o desfecho que se espera — e precisa ser registrado no prontuário como sucesso, com os dois números lado a lado, ou o próximo médico desfaz a conduta. Encaminhar para revascularização é para falha do tratamento clínico com sintomas graves e impacto significativo na qualidade de vida, o que não é o caso de quem dobrou a distância. Fármaco sintomático é reservado a quem não obteve ganho, e não foi feito para mexer no índice. E imagem de controle não muda nada em quem está melhorando.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as seis pressões que compõem o índice tornozelo-braquial, diga qual entra no numerador e qual no denominador de cada perna, e diga o que você faria com um resultado de 0,62, de 0,88, de 1,05 com onda monofásica e de 1,45. Depois escreva as três perguntas que separam claudicação de estenose do canal lombar — pela distância, pelo modo de parar e pelo carrinho de supermercado — e diga, de memória, quais dois medicamentos deste capítulo saem hoje da farmácia da unidade básica e em que apresentação.

Em 30 dias

Volte ao senhor Nivaldino e troque um dado de cada vez, anotando o efeito de cada troca sobre a conduta. E se ele tivesse diabetes de quinze anos e o índice desse 1,38? E se não claudicasse, e o índice de 0,78 tivesse aparecido num rastreio, sem doença em nenhum outro território? E se, no retorno de três meses, a distância tivesse dobrado e o índice continuasse 0,62 — o que você escreve no prontuário? E se ele voltasse contando que passou a dormir na poltrona porque o pé dói deitado? Para cada versão, diga também qual documento brasileiro você usou, e onde dois deles dariam respostas diferentes.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 66 anos, tabagista, que chega à unidade básica dizendo que "a perna cansa" e que precisa parar duas vezes no caminho da parada de ônibus até em casa. Ele acha que é da idade e veio buscar receita de pressão. Conduza a consulta: descubra as duas pernas e os dois pés, palpe os quatro pulsos de cada lado, pergunte pela distância e pergunte como ele precisa parar para melhorar, e faça o índice tornozelo-braquial na maca antes de solicitar qualquer exame. Decida a categoria de tempo antes de prescrever, e escreva a prescrição que sai da farmácia da unidade hoje.

Doença arterial obstrutiva periférica e claudicação – A dor que só existe andando — Internato | OsceLabs