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Cirurgia GeralColoproctologia

Câncer colorretal

O tumor é achado por quem procura, e as três portas de entrada são banais: anemia sem causa, sangue nas fezes chamado de hemorroida, hábito intestinal que mudou. Rastrear e investigar são coisas diferentes — e confundi-las adia diagnóstico.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde. Conitec — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto (CCR). Relatório de recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública nº 20. Brasília, março de 2026

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Cólon e Reto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25, de 17 de novembro de 2025

Ministério da Saúde. Portaria SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de 2026 — inclui a pesquisa de sangue oculto nas fezes por teste imunoquímico fecal (FIT) na Tabela de Procedimentos, Medicamentos, Órteses, Próteses e Materiais Especiais do SUS

Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica)

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. 72 p. ISBN 978-65-88517-22-2 (versão eletrônica)

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos procura a unidade básica para atestado por dor no ombro. Durante a consulta, relata que há oito meses o hábito intestinal mudou — antes evacuava diariamente, agora alterna três dias sem evacuar com dias de várias evacuações, com fezes mais finas. Refere sangramento vermelho vivo no papel, intermitente, que atribui a hemorroidas de longa data. Perdeu 7 kg, que credita ao trabalho pesado. Qual a conduta mais adequada nesta consulta?

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O paciente que você vai ver

Seu Genésio tem 58 anos, é pedreiro, e veio à unidade básica porque a esposa insistiu. A queixa que ele traz é outra: quer atestado para uma dor no ombro. No meio da consulta, quando você pergunta como andam as coisas, ele diz que há uns oito meses o intestino "desregulou" — antes ia todo dia de manhã, agora passa três dias sem ir e depois vai três vezes num dia, com fezes finas. Perdeu peso, mas atribui ao trabalho pesado. E, sim, sai sangue às vezes. Sangue vivo, no papel. "Isso é hemorroida, doutor, eu tenho desde novo."

Genésio pode ter hemorroidas e outra doença ao mesmo tempo. Sangramento associado a mudança persistente do hábito intestinal e perda de peso exige investigação. Aceitar a explicação sem examinar e sem acompanhar os resultados pode atrasar um diagnóstico tratável. A consulta precisa acolher a queixa do ombro e acrescentar o problema intestinal ao plano.

O que acontece depois é que, dezoito meses adiante, seu Genésio volta ao pronto-socorro com o abdome distendido e parado de eliminar fezes e gases há dois dias. A tomografia mostra uma massa no sigmoide obstruindo a luz e três nódulos hepáticos. Ele vai para a cirurgia de urgência, sai com uma colostomia e um estádio IV. E a única diferença entre esse desfecho e o outro — o do tumor ressecado numa cirurgia eletiva, com margem livre, sem estoma — foi um toque retal e um pedido de colonoscopia numa consulta de quatro minutos, um ano e meio antes.

Câncer colorretal quase nunca chega com o rótulo. Chega como anemia sem causa em quem não menstrua, como sangue nas fezes que "é hemorroida", como intestino que mudou e foi chamado de prisão de ventre. As três portas de entrada são banais, e é exatamente por isso que elas funcionam: uma queixa banal encontra uma explicação banal, e a explicação fecha a consulta. O tumor é achado por quem procura. Ninguém tropeça nele.

O interno não opera câncer de cólon — não vai operar tão cedo, e talvez nunca. Mas é ele quem atende esse paciente cinco anos antes de qualquer cirurgião. É ele quem pergunta sobre hábito intestinal na anemia, quem faz o toque retal que ninguém faz, quem escreve o encaminhamento que a regulação vai ler. A decisão de investigar não é uma decisão de especialista. É a decisão que ele toma, sozinho, num consultório de atenção primária ou num plantão, com um paciente que veio por outro motivo.

03

Quem adoece disso

Não é doença rara, e essa é a primeira coisa a desmontar. A Estimativa 2026 do INCA projeta 53.810 casos novos de câncer de cólon e reto por ano no Brasil para cada ano do triênio 2026-2028 — cerca de 147 diagnósticos por dia —, com risco estimado de 25,11 casos por 100 mil habitantes: 26.270 casos em homens (25,16 por 100 mil) e 27.540 em mulheres (25,07 por 100 mil). Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o terceiro câncer mais frequente do país e o segundo em cada sexo isoladamente. Homens e mulheres adoecem praticamente na mesma proporção, e isso importa na prática: a suspeita não se restringe a nenhum dos dois.

A distribuição é desigual e muda a probabilidade a priori de quem atende. As taxas são maiores no Sul e no Sudeste — 35,44 por 100 mil homens no Sul e 33,41 no Sudeste — e menores no Norte, 8,24 por 100 mil homens. Um mesmo quadro de hábito intestinal alterado em Porto Alegre e em Macapá não carrega o mesmo risco de base, embora a conduta diante do sintoma seja a mesma nos dois lugares: quem tem sintoma investiga.

A mortalidade dá a dimensão do que se perde no caminho. Em 2023 morreram 23.953 pessoas de câncer de cólon e reto no Brasil, 12.094 homens e 11.859 mulheres — cerca de 66 mortes por dia. Colocado ao lado dos casos novos, isso dá uma razão de aproximadamente 0,45 óbito para cada caso novo estimado, num tumor que o protocolo nacional descreve como tratável e frequentemente curável quando o diagnóstico é feito com a doença limitada ao intestino. A distância entre "frequentemente curável" e quase uma morte a cada dois diagnósticos é o espaço que este capítulo ocupa.

O que explica boa parte dessa distância é o estádio em que o paciente chega. Numa série hospitalar brasileira de 585 casos de câncer colorretal, colhida do registro hospitalar de câncer de um serviço do Espírito Santo entre 2010 e 2017, 60% estavam em estádio III ou IV no momento do diagnóstico, e 65% dos tumores eram de cólon. É uma série de um serviço só, não um retrato nacional — mas a ordem de grandeza bate com o motivo pelo qual o Ministério da Saúde instituiu, em 2023, um grupo de trabalho coordenado pelo INCA para fortalecer prevenção, detecção precoce e tratamento desse câncer. Se essa proporção valesse para o país inteiro, mais de 32 mil brasileiros por ano estariam recebendo o diagnóstico já com linfonodo acometido ou metástase.

A conclusão clínica dessa aritmética é direta: diante de anemia ferropriva sem causa, sangramento retal ou mudança persistente de hábito intestinal num adulto, câncer colorretal não é uma hipótese remota que se cita para parecer completo. É a hipótese que organiza a investigação até ser afastada.

04

Por que acontece o que acontece

Quase todo câncer colorretal começa como uma lesão benigna e demora muito para virar câncer. Cerca de 75% dos casos surgem de pólipos adenomatosos pela chamada via adenoma-carcinoma, cuja evolução pode levar mais de 20 anos; outros 12% a 15% vêm de pólipos serrilhados, pela via serrilhada, que tende a crescer mais rápido e é mais difícil de enxergar na colonoscopia. A maioria dos pólipos nunca vira câncer. Os que preocupam são os avançados: 10 milímetros ou mais, com componente viloso ou displasia de alto grau.

Essa lentidão é a razão de tudo o que se faz aqui. Uma janela de duas décadas entre a lesão precursora e o carcinoma invasor significa que existe um período longo em que a doença é detectável e ainda não é doença — e que uma estratégia de detecção repetida de dois em dois anos passa dez a doze vezes pela mesma janela. Nenhum outro tumor sólido comum oferece isso. É também por isso que a colonoscopia não é apenas exame diagnóstico: ao retirar o pólipo, ela interrompe a história natural. O exame que procura o câncer é o mesmo que o previne.

O segundo mecanismo que explica a clínica é o sangramento. À medida que crescem, pólipos e tumores sofrem erosão da superfície e sangram pouco, de forma intermitente, misturado às fezes. Pouco sangue, de forma crônica, não muda a cor das fezes e não é percebido pelo paciente — mas consome ferro todos os dias. Esse é o elo que liga este capítulo ao da anemia ferropriva: no adulto que não menstrua, o corpo praticamente não perde ferro por conta própria, e uma perda de poucos mililitros por dia num tumor de cólon direito produz, ao longo de meses, exatamente um paciente cansado com hemograma microcítico e nenhuma outra queixa. É a apresentação mais silenciosa e a mais recuperável.

O mesmo sangramento explica por que o teste de sangue oculto funciona como estratégia de detecção em quem não tem sintoma. O teste imunoquímico fecal usa anticorpo contra a globina humana, o que traz duas consequências práticas: não sofre interferência da dieta, porque não reage com hemoglobina de outros animais, e é mais específico para sangramento do trato gastrointestinal inferior, já que a globina é degradada por enzimas digestivas quando o sangramento vem de cima. Um teste positivo não diz onde nem o quê; diz que houve sangue e que alguém precisa olhar o cólon.

A terceira consequência mecânica é a topografia, e ela governa a apresentação. O cólon direito é largo, e o conteúdo que passa por ali ainda é líquido: um tumor pode crescer muito antes de obstruir e antes que o sangue apareça, porque a hemoglobina é degradada ao longo do trajeto. O cólon esquerdo e o sigmoide são estreitos e o conteúdo já está formado: o mesmo volume tumoral estreita a luz, muda o calibre das fezes, alterna constipação com diarreia de escape e sangra com sangue mais visível. O reto acrescenta os sintomas de contiguidade — tenesmo, urgência, sensação de evacuação incompleta, dor. Um mesmo tumor, em três alturas do mesmo tubo, produz três doenças clinicamente diferentes, e é por isso que "não tem sangramento" nunca exclui e "parece hemorroida" nunca explica sozinho.

Por fim, o mecanismo que define o prognóstico. O tumor cresce da mucosa para fora, atravessando submucosa, muscular própria e serosa, e ganha acesso a linfáticos e vasos nessa travessia — é essa profundidade, não o diâmetro, que o T do estadiamento mede. Enquanto está confinado à parede, a ressecção com margem e a retirada do território linfático correspondente removem a doença inteira. Depois que atravessa, o que a cirurgia remove é apenas parte do problema, e o tratamento passa a precisar de terapia sistêmica. O tempo entre esses dois estados é o que se ganha ou se perde na consulta de quatro minutos.

Esquema da via adenoma-carcinoma com mucosa normal, adenoma pequeno, adenoma avançado e invasão das camadas da parede.
A via adenoma-carcinoma é uma das formas de desenvolvimento do câncer colorretal. A progressão não é inevitável e não tem duração universal. Invasão além da muscular da mucosa alcança a submucosa; a histologia define o diagnóstico e a profundidade.
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Como se apresenta de verdade

A lista oficial de sinais e sintomas suspeitos de adenocarcinoma de cólon e reto, no protocolo nacional, tem seis itens e nenhum deles é específico: mudanças de hábito intestinal, perda inexplicável de peso, anemia por deficiência de ferro, fezes escuras ou com sangue visível, massa abdominal e dor abdominal persistente. Nenhum serve para fechar diagnóstico. Todos servem para abrir investigação, e é esse o uso correto deles.

O que atrapalha não é a inespecificidade — é que cada um desses seis tem um diagnóstico banal concorrente, mais frequente, mais simpático e mais rápido de tratar. Hábito intestinal alterado tem síndrome do intestino irritável e constipação funcional. Sangue nas fezes tem doença hemorroidária e fissura. Anemia tem "alimentação ruim". Dor abdominal tem gastrite. Perda de peso tem "anda trabalhando muito". O erro raramente é não pensar em câncer; é aceitar o concorrente sem ter examinado.

Mapa frontal do cólon com regiões direita, esquerda e retal, acompanhado de tendências de apresentação clínica.
A localização pode influenciar a apresentação: anemia e sangramento oculto, alterações do hábito e obstrução, ou sangramento vivo e tenesmo. Há sobreposição, e nenhum desses achados é específico. O toque avalia apenas a porção alcançável; o desenho não mede altura tumoral.

Cólon direito: a anemia que chega sozinha

É a apresentação sem sintoma digestivo. O paciente vem por cansaço, falta de ar aos esforços, tontura ao levantar, queda de cabelo, ou vem por outro motivo qualquer e o hemograma de rotina mostra anemia microcítica. Não há dor, não há sangue visível, não há mudança de hábito intestinal — o cólon direito é largo e o conteúdo é líquido, então o tumor cresce sem obstruir, e o sangue se degrada no trajeto.

A régua aqui é aritmética, não intuitiva: o adulto que não menstrua não perde ferro por conta própria. Homem adulto e mulher na pós-menopausa com ferropenia estão perdendo sangue por algum lugar, e a lista curta começa e termina no trato digestivo. É por isso que os protocolos de regulação colocam a anemia por deficiência de ferro sem causa definida — hemoglobina abaixo de 13 g/dL em homens e abaixo de 12 g/dL em mulheres, sem outros sinais que orientem a investigação inicial — como condição que indica colonoscopia, e não apenas endoscopia digestiva alta. A avaliação é bidirecional: as duas pontas do tubo, no mesmo pedido.

A investigação da própria anemia — o painel de ferro, os cortes de ferritina e de saturação da transferrina, a diferença com a anemia de doença crônica e com a talassemia — pertence ao capítulo de anemia ferropriva, e é lá que ela é feita. O que este capítulo assume é o passo seguinte: uma vez que a ferropenia esteja confirmada e não haja explicação suficiente para o tamanho da perda, o cólon precisa ser visto, e visto por colonoscopia.

Cólon esquerdo e sigmoide: o hábito intestinal que mudou

Aqui a luz é estreita e as fezes já estão formadas. O tumor se manifesta pelo que faz com a passagem: constipação que não existia, alternância entre constipação e diarreia, fezes afiladas, esforço evacuatório novo, cólica em cólica de aumento de peristalse contra um obstáculo. O paciente descreve como "intestino preso" — e prisão de ventre é o diagnóstico mais comum do mundo, o que torna esse o disfarce mais eficaz.

A palavra que separa é persistente, e a segunda é mudou. Constipação de vinte anos em pessoa de 60 é constipação. Constipação de oito meses em quem sempre foi regular é mudança de hábito intestinal, e mudança persistente de hábito intestinal em adulto é uma das manifestações clínicas suspeitas listadas nos protocolos. Não é preciso que haja sangue, dor ou emagrecimento junto; a mudança sozinha, mantida por semanas, já basta para abrir a investigação.

Sangramento nesse território costuma vir misturado às fezes, mais escuro que o do sangramento orificial, às vezes com muco. Não é regra confiável — sangue de sigmoide pode chegar vermelho vivo —, mas quando aparece misturado, e não apenas no papel ou pingando no vaso, a explicação orificial perde força.

Reto: o sangramento que "é hemorroida"

O tumor de reto sangra vermelho vivo, ao evacuar, exatamente como hemorroida. Acrescenta, quando cresce, os sintomas de contiguidade: tenesmo, urgência, sensação de evacuação incompleta, e dor retal que costuma ser neuropática. Massa palpável ao toque e úlcera anal persistente entram na mesma lista de suspeição.

O problema clínico é que doença hemorroidária é comum, coexiste, e sangra do mesmo jeito. O paciente frequentemente tem as duas coisas. Por isso a régua dos protocolos de regulação de proctologia não é "tem hemorroida ou tem tumor": é que, no paciente com hemorroidas que apresenta qualquer sintoma sugestivo de malignidade — sangramento crônico não atribuível à doença orificial, anemia ferropriva sem causa definida, massa abdominal ou retal, alteração persistente do hábito intestinal, dor abdominal ou retal, tenesmo, febre persistente, emagrecimento, história familiar de neoplasia colorretal —, o caso deixa de ser conduzido como doença orificial e passa a ser conduzido como suspeita de neoplasia.

As condições que, por si, indicam colonoscopia são objetivas e vale decorá-las: hematoquezia persistente não atribuível a doença orificial; hematoquezia em paciente acima de 50 anos; hematoquezia com qualquer sinal de alarme; episódio de melena depois de excluída origem alta; anemia ferropriva sem causa definida após a investigação inicial. A idade sozinha, acima de 50 anos, já converte um sangramento retal em indicação de colonoscopia — mesmo que haja hemorroida visível.

O manejo clínico da doença hemorroidária em si, com sua classificação por graus e o tratamento conservador, pertence ao capítulo de doença hemorroidária. O que interessa aqui é a fronteira: hemorroida é diagnóstico de exclusão anatômica, feito depois de ver, não antes.

As apresentações que já são urgência

Uma parte dos pacientes não chega ao ambulatório. Chega ao pronto-socorro com obstrução intestinal — parada de eliminação de fezes e gases, distensão, vômitos, dor em cólica — porque o tumor fechou a luz, tipicamente no cólon esquerdo ou no sigmoide. Chega com perfuração e peritonite, quando a parede rompe acima da estenose ou no próprio tumor. Chega, mais raramente, com hemorragia digestiva baixa volumosa.

Nessas três situações o diagnóstico oncológico é feito, mas não é o problema do momento: o problema é a urgência cirúrgica, e o manejo dela pertence aos capítulos de obstrução intestinal e de abdome agudo. Duas informações, porém, mudam o que se faz no dia seguinte e cabem aqui. A primeira: obstrução ou perfuração ao diagnóstico é, ela própria, fator de mau prognóstico que faz um estádio II passar a ter indicação de quimioterapia adjuvante. A segunda: o estadiamento por imagem deve ser feito, sempre que possível, antes de qualquer intervenção terapêutica — cirurgia, quimioterapia ou radioterapia —, porque intervenção mudada altera o que a imagem mostra e pode alterar a conduta. Na urgência isso nem sempre é possível, e o protocolo nacional prevê expressamente o diagnóstico feito pela análise direta do tumor após ressecção em caráter de urgência, nos casos sem diagnóstico prévio.

O paciente que sai de uma cirurgia de urgência sem estadiamento pré-operatório precisa dele depois — e é frequentemente o interno quem percebe que ninguém pediu.

Quem foge do padrão

O idoso apresenta menos dor e mais anemia, e a mudança de hábito intestinal é atribuída a imobilidade, a medicação e à própria idade. Confusão mental de início recente, queda e astenia podem ser a manifestação de uma anemia grave de origem tumoral. A régua não muda: a queixa inespecífica em idoso exige mais investigação, não menos.

O paciente jovem é o oposto: tem sintoma e não é levado a sério. As diretrizes internacionais registram tendência de aumento da incidência abaixo dos 50 anos; no Brasil, até 2025 a tendência apontada é de estabilidade nessa faixa, e o próprio documento nacional determina que esses dados sejam monitorados. A consequência prática independe da tendência: rastreamento tem faixa etária, investigação de sintoma não tem. Um paciente de 34 anos com hematoquezia persistente e emagrecimento investiga igual, porque ele está fora do rastreamento e dentro do diagnóstico precoce.

Quem tem risco aumentado muda de régua e de porta de entrada: história familiar de câncer colorretal em parente de primeiro grau, polipose adenomatosa familiar, síndrome de Lynch, doença inflamatória intestinal, história pessoal de pólipos adenomatosos ou serrilhados avançados. Essas pessoas estão explicitamente fora da população-alvo do rastreamento de risco padrão e seguem esquemas próprios, de colonoscopia e não de teste fecal, com idade de início e periodicidade determinadas pelo tipo e pela idade do familiar acometido.

E há o paciente com doença hemorroidária, doença diverticular ou intestino irritável já diagnosticados. Ter um desses não protege de nada e é a situação em que o atraso mais acontece, porque existe um rótulo pronto para receber qualquer sintoma novo. Diagnóstico antigo explica sintoma antigo; sintoma novo precisa de avaliação nova.

06

Como fechar o diagnóstico

Existem duas perguntas diferentes neste capítulo, e quase todo atraso de diagnóstico nasce de responder uma com o instrumento da outra. A primeira é: como se procura câncer em quem não tem sintoma nenhum? A segunda é: o que se faz quando alguém tem um sintoma que pode ser câncer? A primeira chama-se rastreamento; a segunda, diagnóstico precoce. Elas têm população-alvo diferente, exame diferente, prazo diferente e lógica diferente.

A frase que resolve o dia a dia cabe numa linha: quem tem sintoma não faz teste de sangue oculto — faz colonoscopia. O documento nacional de rastreamento é explícito ao dizer que suas recomendações não se aplicam a casos sintomáticos, que podem estar relacionados a câncer avançado, e que pessoas sintomáticas devem ser avaliadas para excluir essa possibilidade e encaminhadas ao serviço especializado, independentemente do intervalo desde o último exame de rastreamento. Um sangue oculto negativo pedido a um paciente com hematoquezia não é um exame ruim: é um exame fora de indicação, cujo único efeito previsível é produzir uma falsa tranquilidade documentada em prontuário.

Fluxograma separado de rastreamento de assintomáticos e investigação de pessoas com sintomas suspeitos, com seguimento dos resultados.
Rastreamento de risco padrão e investigação diagnóstica respondem a perguntas diferentes. A faixa etária do programa não limita a avaliação de sintomas. FIT positivo exige investigação, e FIT negativo não deve encerrar sintomas persistentes nem atrasar colonoscopia já indicada.

Rastrear: quem, com quê, de quanto em quanto tempo

Rastreamento é oferecer exame a quem não tem queixa. A população-alvo, no documento nacional, são adultos assintomáticos de ambos os sexos com risco padrão — definido como quem não tem diagnóstico prévio de câncer colorretal, pólipos adenomatosos ou doença inflamatória intestinal, nem história pessoal ou familiar de síndromes genéticas de predisposição, como síndrome de Lynch e polipose adenomatosa familiar. Quem sai desse retângulo sai do rastreamento e entra em esquemas próprios.

O método recomendado é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, e entre os testes disponíveis o imunoquímico fecal — o FIT — é o preferido sobre o teste baseado em guaiaco. O motivo é medida, não opinião: na revisão sistemática usada como base, a sensibilidade para detecção de câncer colorretal foi de 89% para o FIT contra 59% para o guaiaco, com especificidade semelhante. Some-se a isso que o FIT dispensa restrição alimentar, exige uma única amostra e é mais específico para sangramento do trato gastrointestinal inferior.

O ponto de corte recomendado é 50 ng/mL, equivalente a aproximadamente 10 µg de hemoglobina por grama de fezes. É a escolha deliberada por sensibilidade: nessa faixa a sensibilidade para câncer é de 80% e a especificidade, 91% — cortes mais altos ganham especificidade e perdem casos. A idade de início recomendada é 50 anos, a de término, 75, e a periodicidade é bienal. Um FIT positivo é indicação de colonoscopia, que é o padrão-ouro para a avaliação diagnóstica.

Há uma regra de intervalo que se esquece com frequência: se a colonoscopia foi completa e de qualidade — visibilidade adequada, bom preparo, pólipos retirados quando presentes —, a recomendação é repeti-la apenas depois de 10 anos, desde que a pessoa permaneça assintomática e sem novos fatores de risco. E, durante esses 10 anos, não há indicação de fazer o teste de sangue oculto: o FIT destina-se a quem ainda não foi submetido à colonoscopia ou a quem participa de programa populacional baseado em método não invasivo. Pedir FIT anual a quem colonoscopou há dois anos é gerar colonoscopia sem indicação.

Vale entender o custo aritmético dessa escolha, porque ele explica a fila que vem depois. Com especificidade de 91%, a cada 100 mil pessoas rastreadas cerca de 9 mil terão FIT positivo — e a esmagadora maioria delas não tem câncer. Cada uma dessas pessoas precisa de colonoscopia, sedação, preparo e vaga. É por isso que o próprio documento nacional trata a capacidade de oferta de colonoscopia como o fator que pode reajustar o ponto de corte, e é por isso que a implantação precisa ser gradual: um programa de rastreamento que consome as vagas de colonoscopia da rede prejudica exatamente o paciente sintomático, que é quem tem a maior probabilidade de ter a doença.

O que o Brasil de fato oferece — e o que mudou agora

Durante muito tempo a régua nacional foi outra, e é preciso conhecê-la para entender a rede em que se trabalha. A publicação do INCA sobre detecção precoce, de 2021, registra que o rastreamento de cólon e reto é recomendado para pessoas de 50 a 75 anos com sangue oculto, colonoscopia ou sigmoidoscopia, mas que, diante de incertezas de custo-efetividade e sustentabilidade, orientava-se priorizar ações de diagnóstico precoce e abordagem personalizada para situações de alto risco. Essa é a posição oficial brasileira que vigorou por mais de uma década: o país não organizou programa populacional; organizou o reconhecimento de sinais e sintomas e o encaminhamento ágil.

Isso está mudando enquanto esta geração de internos se forma. Em novembro de 2023 o Ministério da Saúde instituiu um grupo de trabalho coordenado pelo INCA para fortalecer prevenção, detecção precoce e tratamento do câncer de cólon e reto. Em março de 2026 a Conitec submeteu a consulta pública as Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, com as oito recomendações descritas acima, elaboradas pelo INCA e com parecer favorável do Comitê de PCDT. E em 6 de agosto de 2026 a Portaria SAES/MS nº 4.642 incluiu a pesquisa de sangue oculto por teste imunoquímico fecal na Tabela de Procedimentos do SUS, com vigência a partir de 10 de agosto de 2026, destinada exclusivamente ao rastreamento bienal de homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos.

Duas leituras práticas saem daí. A primeira: existir na tabela de procedimentos não é o mesmo que existir na porta da unidade. A oferta se constrói ao longo do tempo, e o interno que atende hoje trabalha numa rede em transição, onde o FIT pode ou não estar disponível no seu município. A segunda, mais importante: nada disso muda a conduta diante de sintoma. O procedimento incorporado é para assintomático. O paciente com queixa continua sendo caso de diagnóstico precoce, e o instrumento dele continua sendo a colonoscopia.

Para quem tem risco aumentado, a régua também é outra e independe de programa populacional. Quem tem familiar de primeiro grau com câncer colorretal diagnosticado aos 60 anos ou mais começa colonoscopia entre 40 e 50 anos, ou 10 anos antes da idade do familiar mais jovem ao diagnóstico — o que vier antes —, repetindo a cada 5 a 10 anos. Se o familiar tinha menos de 60 anos ao diagnóstico, ou se há dois familiares de primeiro grau acometidos, o início é aos 40 anos ou 10 anos antes, com repetição a cada 5 anos. Em polipose adenomatosa familiar confirmada em familiar, o rastreamento começa aos 10 anos de idade, a cada 1 a 2 anos. Perguntar por história familiar leva quinze segundos e muda a década em que aquela pessoa começa a ser examinada.

Investigar: o exame é a colonoscopia, e ela é o primeiro

Diante de sintoma suspeito, o exame que responde à pergunta é a colonoscopia. Ela examina todo o intestino grosso, permite biópsia e permite remover a maioria dos adenomas e alguns cânceres no próprio ato. É o padrão-ouro para o diagnóstico e o único exame que, além de encontrar, trata.

A retossigmoidoscopia flexível é um exame menor, e é bom saber exatamente quanto menor: alcança a região onde ocorrem 55% a 60% dos cânceres colorretais e adenomas avançados, e não vê o resto. Numa análise agrupada de ensaios, a colonoscopia proporcionou redução adicional de 6,9% na incidência e de 7,6% na mortalidade em comparação com a retossigmoidoscopia. Ela tem lugar como exame de acesso mais fácil em situações específicas, mas não substitui a colonoscopia na investigação de sintoma cujo território possível é o cólon inteiro.

Tomografia de abdome não é exame de investigação de sangramento ou de mudança de hábito intestinal. Ela enxerga massa grande e perde exatamente a lesão pequena e curável que se está procurando. A tomografia tem um papel definido e essencial neste capítulo — o estadiamento, depois do diagnóstico confirmado —, e usá-la antes, no lugar da colonoscopia, é trocar o exame que faz diagnóstico e trata por um exame que só descreve o que já é grande.

O CEA não é exame diagnóstico. É marcador prognóstico e de monitorização: valor acima de 5 mcg/L no pré-operatório indica pior prognóstico, exceto quando normaliza após a cirurgia, e serve para acompanhar eficácia de quimioterapia na doença metastática. CEA normal não afasta câncer colorretal e CEA elevado não fecha diagnóstico. Pedi-lo para "triar" quem merece colonoscopia é um erro de categoria.

O diagnóstico, em qualquer cenário, é feito pelo estudo anatomopatológico de amostra do tumor primário ou de lesão metastática relacionada — obtida por biópsia endoscópica, por agulha guiada por imagem, ou pela análise direta da peça nos casos operados de urgência sem diagnóstico prévio. Colonoscopia com lesão de aspecto neoplásico é suspeita; laudo de anatomopatológico é diagnóstico. E é a data desse laudo que faz correr o prazo legal de tratamento.

O toque retal: o exame que o interno pode fazer e não faz

Metade dos cânceres colorretais localiza-se no reto e no sigmoide, segundo o material do INCA sobre detecção precoce. O reto tem cerca de 15 centímetros e é dividido em terços: distal, até 5 cm da margem anal; médio, de 5 a 10 cm; e proximal, de 10 a 15 cm. O dedo alcança o terço distal e parte do médio. É um exame de um minuto, sem custo, sem preparo e sem agendamento, que examina justamente o segmento onde a decisão cirúrgica é mais dura.

O que se faz: paciente em decúbito lateral esquerdo com os joelhos fletidos, ou em posição genupeitoral, com privacidade garantida e o procedimento explicado antes de começar. Primeiro a inspeção da região perianal, com o paciente em repouso e depois fazendo esforço evacuatório — plicomas, fissura, fístula, mamilos hemorroidários exteriorizados, lesão vegetante ou ulcerada. Depois, luva e lubrificante abundante, dedo apoiado no ânus por alguns segundos até o esfíncter relaxar, e introdução lenta, sem forçar. Percorre-se toda a circunferência, girando o dedo, e avança-se o máximo possível pedindo que o paciente faça força para baixo, o que traz mais alguns centímetros de reto ao alcance. Ao retirar, olha-se a luva.

O que se descreve — e essa descrição vale mais no encaminhamento que qualquer adjetivo: tônus esfincteriano; presença ou ausência de lesão palpável; se há lesão, a distância estimada da margem anal em centímetros, a posição na circunferência, o tamanho estimado, se é móvel ou fixa aos planos profundos, se é endurecida, vegetante ou ulcerada, e se o dedo consegue ultrapassá-la; presença de sangue, muco ou fezes na luva; e, quando pertinente, a próstata. "Toque retal sem alterações" é uma frase que só informa se as alterações procuradas foram nomeadas.

Por que essa medida importa mais do que parece: no adenocarcinoma de reto, a mensuração exata da distância entre a extremidade inferior do tumor e a margem anal é descrita no protocolo nacional como crucial, sobretudo nos tumores de reto inferior, porque impacta diretamente na decisão de realizar a amputação retal e a colostomia definitiva. O toque não substitui a colonoscopia, a ressonância de pelve ou a medida do endoscopista — mas é a primeira estimativa dessa distância, e é feita por quem viu o paciente primeiro.

Por que pular é o erro mais comum aqui: porque o exame é constrangedor para os dois lados, porque a consulta está atrasada, porque "a colonoscopia vai ver mesmo" e porque ninguém cobra. O resultado é um paciente encaminhado com "sangramento retal" e nada mais, cujo tumor palpável a 4 cm da margem anal só será descoberto meses depois, quando a fila chegar. Os protocolos de regulação fecham essa porta pelo lado administrativo: tanto no encaminhamento por suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior quanto no encaminhamento por doença hemorroidária, o conteúdo descritivo mínimo exige que se descrevam a inspeção anal e o toque retal. Sem isso, o pedido está incompleto — e pedido incompleto é pedido que volta ou que espera.

O diferencial mora aqui: o que compete com o câncer e como não perder

Doença hemorroidária é a competidora número um, e é competidora legítima: sangramento vermelho vivo, ao evacuar, no papel ou pingando, com prurido e desconforto anal. O que a torna perigosa é a frequência com que coexiste. A régua para não aceitar: sangramento que não se atribui à doença orificial ao exame, sangramento em paciente acima de 50 anos, qualquer sinal de alarme associado, anemia ferropriva, alteração persistente de hábito intestinal, emagrecimento ou história familiar. Nessas situações o paciente pode ter hemorroida e ainda assim precisar de colonoscopia — e precisa. O manejo da hemorroida em si é assunto do capítulo próprio.

Doença diverticular compete pelo sangramento e pela dor em fossa ilíaca esquerda, e tem a agravante de ser um achado radiológico comum em quem tem mais de 60 anos: encontrar divertículos numa tomografia não explica um sangramento nem uma perda de peso. Tumor e divertículos habitam o mesmo território e coexistem com frequência. O diagnóstico de doença diverticular tem capítulo próprio; aqui interessa apenas que ele não encerra a investigação de um sintoma suspeito.

Síndrome do intestino irritável compete pela alteração de hábito intestinal, e o critério de separação é a ausência de sinais de alarme: quando há emagrecimento, anemia, sangue, febre ou início dos sintomas em idade mais avançada, o rótulo não se aplica. Doença inflamatória intestinal compete por diarreia com sangue, muco e tenesmo, costuma vir com sintomas sistêmicos e provas inflamatórias alteradas — e, por si, é fator de risco para câncer colorretal, não uma explicação que o exclua.

Hemorragia digestiva alta compete quando o sangramento se apresenta como melena. A regra prática é sequencial: melena investiga-se primeiro pelo trato superior, e o episódio de melena após exclusão de origem alta é, ele próprio, indicação de colonoscopia. Sangramento agudo com repercussão hemodinâmica sai desta via inteiramente e entra na da hemorragia digestiva, com endoscopia de urgência e não de agenda.

Um princípio fecha o bloco: nenhum desses diagnósticos é excludente de câncer, e todos são mais prováveis que ele. É exatamente por serem mais prováveis que funcionam como anestesia clínica. O raciocínio correto não é "qual é o mais provável", é "qual é o que eu não posso deixar passar, e o que custa afastá-lo".

O encaminhamento e o pedido de exame, campo a campo

Aqui a prescrição do capítulo não é uma droga: é um texto. Quem decide se aquele paciente vai colonoscopar em três semanas ou em oito meses é a regulação, e o que a regulação lê é o que está escrito no pedido. Um encaminhamento sem informação clínica é classificado como rotina — não por má-fé, mas porque não há como classificá-lo de outro jeito.

A lei dá a esse texto um peso que quase ninguém usa. O § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012, incluído pela Lei nº 13.896/2019, determina que, nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de 30 dias — e o texto legal condiciona isso a "solicitação fundamentada do médico responsável". Ou seja: a fundamentação escrita é o que aciona o prazo legal. Escrever "colonoscopia" e assinar não aciona nada.

O conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento por suspeita de neoplasia de cólon e reto, nos protocolos de regulação ambulatorial, tem seis campos, e eles são a estrutura do texto: 1) sinais e sintomas, incluindo exame físico abdominal e toque retal; 2) resultado de hemograma, com data — e, se houver anemia, hemoglobina, volume corpuscular médio, ferritina e índice de saturação da transferrina; 3) resultado da pesquisa de sangue oculto nas fezes, se realizada, com data; 4) laudo de exame de imagem anexado, preferencialmente, ou descrito na íntegra, com data; 5) laudo de colonoscopia e de anatomopatológico anexados, preferencialmente, ou descritos na íntegra, com data; 6) história de câncer colorretal em familiar de primeiro grau e, se houver, a idade do familiar ao diagnóstico.

Repare no campo 3: o sangue oculto entra como informação, se foi feito. Ele não é pré-requisito e sua ausência não invalida o pedido — em quem tem sintoma, a indicação de colonoscopia já está dada pela clínica. A frase que resume o campo é: sangue oculto não é filtro de entrada para colonoscopia em paciente sintomático.

Mal escrito, um pedido real fica assim: "Solicito colonoscopia. Paciente com queixas intestinais. Grato." Não há idade, não há duração, não há exame físico, não há hemograma, não há hipótese. A regulação recebe isso e não tem elemento algum para priorizar — nem para saber se o exame certo é colonoscopia. Este pedido entra na fila de rotina e o paciente espera meses.

Bem escrito, o mesmo paciente vira outro pedido: "Solicito colonoscopia com prioridade. Homem, 58 anos. Alteração persistente do hábito intestinal há 8 meses, com fezes afiladas e alternância de constipação e diarreia; hematoquezia intermitente há 6 meses; emagrecimento de 7 kg no período, não intencional. Exame físico: abdome flácido, sem massas palpáveis; inspeção anal com plicomas, sem lesões; toque retal com lesão endurecida, vegetante, a cerca de 5 cm da margem anal, ocupando a parede posterior, móvel, com sangue na luva. Hemograma de 04/08/2026: Hb 9,8 g/dL, VCM 74 fL, ferritina 8 ng/mL, saturação de transferrina 9%. Sangue oculto não realizado. Pai com câncer de cólon aos 62 anos. Hipótese principal: neoplasia de reto. Solicitação fundamentada nos termos do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012."

A diferença entre os dois textos é de dois minutos de digitação e de vários meses de fila. E há um detalhe operacional que economiza uma dessas filas: no paciente com lesão retal palpável e suspeita de neoplasia de reto, os protocolos indicam encaminhamento direto ao serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia — não é preciso esperar a colonoscopia para começar a andar, porque suspeita de massa anal ou retal já é critério de encaminhamento com preferência.

Registre no prontuário, na mesma consulta, três coisas: a data em que o pedido foi emitido, a hipótese diagnóstica escrita por extenso e a data de retorno para conferir se o exame foi agendado. A pendência que não tem data de conferência é a pendência que se perde.

Depois do laudo: o estadiamento e o que ele responde

Com diagnóstico anatomopatológico confirmado, o passo seguinte é mapear a extensão da doença — local e à distância. O estadiamento clínico é feito por tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve, e esses exames devem ser feitos, sempre que possível, antes de qualquer intervenção terapêutica, porque cirurgia, quimioterapia e radioterapia mudam o que a imagem mostra e podem mudar a conduta. Em quem não pode receber contraste iodado, ou quando a tomografia com contraste traz achados duvidosos quanto a lesões metastáticas, acrescenta-se ressonância magnética de abdome superior.

No tumor de reto há um exame a mais e ele não é opcional: a ressonância magnética de pelve, que avalia risco de invasão e comprometimento da fáscia mesorretal, vasos e linfonodos mesorretais — informação que define se o paciente vai receber tratamento antes da cirurgia ou vai direto para a mesa. O PET-TC não é recomendado de rotina para estadiamento nem para seguimento; tem lugar em casos selecionados, quando há metástase exclusivamente hepática e potencialmente ressecável.

Os exames laboratoriais do diagnóstico confirmado são hemograma completo, bioquímica, função renal, enzimas hepáticas e canaliculares, bilirrubinas totais e frações, e CEA. Recomenda-se ainda teste imuno-histoquímico da amostra tumoral para avaliar a proficiência das enzimas de reparo em todos os pacientes; se o perfil for instável, avalia-se a presença de síndrome de Lynch — o que tem consequência para o paciente e para a família inteira.

O que existe no SUS, e o que isso muda na conduta

Colonoscopia existe na rede pública e é o gargalo do capítulo. Tomografia de tórax, abdome e pelve existem. Ressonância de pelve existe, com fila maior. Anatomopatológico e imuno-histoquímica existem nos serviços habilitados em oncologia. O FIT passou a constar da tabela de procedimentos em agosto de 2026, para rastreamento de assintomático. Nada disso é distribuído de forma homogênea pelo país, e a conduta tem de contar com isso.

O protocolo nacional define onde o paciente deve ser tratado: em hospitais habilitados em oncologia, com porte tecnológico suficiente para diagnosticar, tratar e acompanhar. Quem tem adenocarcinoma de cólon ou de junção retossigmoide pode ser atendido em hospital habilitado com ou sem serviço de radioterapia; quem tem adenocarcinoma de reto deve ser tratado, preferencialmente, em hospital habilitado que tenha radioterapia — porque a radioterapia neoadjuvante faz parte do tratamento curativo do reto médio e baixo localmente avançado. Encaminhar um tumor de reto para um serviço sem radioterapia é criar um segundo encaminhamento no meio do tratamento.

E existem dois prazos legais que valem como instrumento de trabalho, não como curiosidade. Trinta dias para os exames de elucidação, quando a hipótese principal é neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada. Sessenta dias para o início do primeiro tratamento, contados do dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológico — considerando-se efetivamente iniciado o tratamento com a realização de cirurgia ou o início de radioterapia ou quimioterapia. Somados, o teto legal entre a suspeita fundamentada e o início do tratamento é de 90 dias, e o descumprimento sujeita os gestores a penalidades administrativas.

Que esses prazos não se cumprem sozinhos, a literatura brasileira mostra. Na série de 585 casos de câncer colorretal de um registro hospitalar do Espírito Santo, 71% receberam o primeiro tratamento em até 60 dias — quase um terço, portanto, fora do prazo. E os tempos médios do percurso somam mais que o próprio teto: 51,06 dias entre o laudo histopatológico e a primeira consulta, mais 30,10 dias entre a primeira consulta e o primeiro tratamento, o que dá 81,16 dias de média para um limite de 60. A leitura dos dois números juntos é útil: a média estourada convive com 71% dentro do prazo porque uma minoria de percursos muito longos puxa a média — e é essa minoria que o acompanhamento ativo do médico assistente evita.

Daí a conduta prática: anote no prontuário a data do laudo patológico, porque é dela que corre o prazo, e trate o encaminhamento como algo que se acompanha, não como algo que se emite. Ligar para a regulação, reemitir pedido, conferir agendamento e registrar a pendência em toda evolução são atos clínicos neste capítulo, não burocracia.

07

Fluxos e tabelas

O percurso principal do internato é reconhecer suspeita, investigar, acompanhar o resultado e organizar cuidado. Rastreamento de assintomáticos tem critérios próprios; sinais de alarme exigem avaliação independentemente da faixa etária de rastreamento. O detalhamento de TNM, esquemas oncológicos e incorporação de tecnologias é material de consulta, não requisito para iniciar a investigação de Genésio.

  1. 1Adulto com qualquer um destes: alteração persistente do hábito intestinal, sangramento retal, anemia ferropriva sem causa definida, emagrecimento não explicado, massa abdominal ou retal, dor abdominal ou retal persistente, tenesmo. Este paciente saiu do rastreamento e entrou na investigação.
  2. 2Anamnese dirigida: há quanto tempo, o que mudou exatamente, calibre das fezes, se o sangue vem no papel, pingando ou misturado, se há muco, peso perdido e em quanto tempo, uso de anti-inflamatório e anticoagulante, e história familiar de câncer colorretal com a idade do familiar ao diagnóstico.
  3. 3Examine abdome e região anal com consentimento, privacidade e supervisão. Toque retal informa lesões acessíveis, mas não exclui doença proximal. Dor intensa ou condição que impeça exame exige justificativa e avaliação apropriada, não insistência traumática.
  4. 4Hemograma. Se houver anemia microcítica, complete o painel de ferro conforme o capítulo de anemia ferropriva; ferropenia sem explicação suficiente é, por si, indicação de avaliação bidirecional — endoscopia digestiva alta e colonoscopia.
  5. 5Solicite a colonoscopia com prioridade, fundamentando o pedido nos seis campos do conteúdo descritivo mínimo e registrando a hipótese de neoplasia por extenso. Não peça sangue oculto para decidir: em quem tem sintoma, ele não é filtro.
  6. 6Se houver massa anal ou retal palpável, ou úlcera anal persistente, encaminhe em paralelo ao serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia — essa suspeita tem preferência e não espera o exame.
  7. 7Colonoscopia com lesão suspeita: biópsia e anatomopatológico. O diagnóstico é o laudo, e a data dele é a que faz correr o prazo de 60 dias para o primeiro tratamento.
  8. 8Após confirmação, organizar estadiamento com a equipe: TC de tórax, abdome e pelve, RM de pelve no reto, dados laboratoriais e avaliação molecular/histológica pertinente. Obstrução, perfuração ou sangramento importante exige tratamento urgente e não deve aguardar todo o estadiamento eletivo.
  9. 9Encaminhe ao hospital habilitado em oncologia — com serviço de radioterapia, se for tumor de reto. Registre a data do laudo no prontuário e acompanhe o agendamento até ele acontecer.
  10. 10Colonoscopia normal e completa, com bom preparo, num paciente sintomático: a investigação continua. Reveja o preparo e se o exame alcançou o ceco, considere o trato digestivo alto, e reveja o diagnóstico. Exame normal não encerra sintoma persistente.
EstádioTNMO que isso significa na conversa e na conduta
0TisN0M0Carcinoma in situ ou intramucoso. Ressecado por via endoscópica com todos os critérios favoráveis no anatomopatológico, é considerado curado.
IT1 ou T2N0M0Invade submucosa ou muscular própria, sem linfonodo. Cirurgia isolada; não necessita de tratamento adjuvante. Estádio I de cólon dispensa até o seguimento clínico trimestral, mantendo a colonoscopia.
IIAT3N0M0Atravessa a muscular própria até os tecidos pericólicos, sem linfonodo. Cirurgia; adjuvância só se houver fator de mau prognóstico.
IIBT4aN0M0Perfura o peritônio visceral, sem linfonodo. T4 é fator de mau prognóstico e indica discutir adjuvância.
IICT4bN0M0Invade diretamente órgãos ou estruturas vizinhas. Exige ressecção em bloco da estrutura acometida para garantir margens livres.
IIIQualquer TN1 ou N2M0Há linfonodo acometido. Ainda é doença tratável com intenção curativa, e é o estádio em que a quimioterapia adjuvante tem indicação estabelecida após a cirurgia.
IVAQualquer TQualquer NM1aMetástase em um órgão, sem doença peritoneal. Metástase não contraindica por si cirurgia radical com intenção curativa: depende da extensão, do sítio e da ressecabilidade.
IVBQualquer TQualquer NM1bMetástase em dois ou mais órgãos, sem doença peritoneal.
IVCQualquer TQualquer NM1cMetástase peritoneal, com ou sem outros órgãos. Citorredução pode beneficiar quando o índice de carcinomatose é baixo ou há chance de ressecção completa.

Rastrear × investigar: duas perguntas que não se misturam

RastreamentoInvestigação diagnóstica
A quem se destinaAdulto assintomático, de risco padrão, 50 a 75 anosQualquer pessoa com sinal ou sintoma suspeito, em qualquer idade
Pergunta que respondeExiste doença em quem não tem queixa?O que explica esta queixa?
Exame de entradaTeste imunoquímico fecal (FIT), corte 50 ng/mLColonoscopia
PeriodicidadeA cada 2 anos, dos 50 aos 75 anosNão se aplica: é evento único, motivado pelo sintoma
Papel do sangue ocultoÉ o próprio métodoNenhum como filtro; entra no encaminhamento apenas como informação, se já foi feito
Se o resultado for negativoReconvocar em 2 anosNão existe resultado negativo de FIT que encerre a investigação de sintoma
Depois de colonoscopia completa e de qualidadeRepetir em 10 anos, sem FIT no intervaloSe o sintoma persiste, a investigação continua por outra via
PrazoProgramático, por rodadaExames de elucidação em até 30 dias quando a hipótese principal é neoplasia maligna, com solicitação fundamentada

Conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento por suspeita de neoplasia de cólon e reto

CampoO que escreverPor que a regulação precisa disso
1. Sinais e sintomasQuais, há quanto tempo, com que evolução — e o exame físico abdominal e o toque retal descritosÉ o que caracteriza a suspeita e define a prioridade; sem toque descrito, o pedido está incompleto
2. Hemograma, com dataHemoglobina, e se houver anemia também VCM, ferritina e saturação da transferrinaAnemia ferropriva sem causa definida é, por si, indicação de colonoscopia
3. Sangue oculto nas fezes, se realizado, com dataO resultado, se existirÉ informação, não pré-requisito: em quem tem sintoma a indicação já está dada
4. Exame de imagemLaudo anexado, de preferência, ou descrito na íntegra, com dataMassa em topografia colônica muda o destino do encaminhamento
5. Colonoscopia e anatomopatológico préviosLaudos anexados, de preferência, ou descritos na íntegra, com dataEvita repetir exame e define se o caso vai para colonoscopia ou já para oncologia
6. História familiar de primeiro grauSe há, e a idade do familiar ao diagnósticoMuda a idade de início e o intervalo de rastreamento de toda a família

Rastreamento de quem tem risco aumentado por história familiar

Situação do familiar de primeiro grauIdade de inícioIntervalo
Câncer colorretal diagnosticado aos 60 anos ou maisAos 40-50 anos, ou 10 anos antes da idade do familiar mais jovem ao diagnóstico — o que vier antesColonoscopia a cada 5 a 10 anos
Câncer colorretal diagnosticado antes dos 60 anosAos 40 anos, ou 10 anos antes da idade do familiar mais jovem ao diagnóstico — o que vier antesColonoscopia a cada 5 anos
Dois familiares de primeiro grau acometidos, em qualquer idadeAos 40 anos, ou 10 anos antes da idade do familiar mais jovem ao diagnóstico — o que vier antesColonoscopia a cada 5 anos
Polipose adenomatosa familiar confirmada em familiarA partir dos 10 anos de idadeColonoscopia a cada 1 a 2 anos, ajustada por exames prévios, idade e tipo de mutação

O agrupamento por estádio da tabela principal segue a classificação da União Internacional Contra o Câncer, 8ª edição, como adotada pelo protocolo nacional. O estádio II tem uma subdivisão a mais que quase ninguém decora e que muda conduta: IIA é T3, IIB é T4a e IIC é T4b — e qualquer T4 já é fator de mau prognóstico que faz discutir quimioterapia adjuvante num estádio que, de outro modo, seria só cirúrgico. Os demais fatores de mau prognóstico do estádio II, no protocolo nacional, são obstrução ou perfuração intestinal ao diagnóstico, margem cirúrgica inadequada ou indeterminada, peça com menos de 12 linfonodos ressecados, histologia pouco diferenciada, invasão de vasos sanguíneos ou linfáticos e invasão perineural.

O N tem uma categoria que confunde e vale nomear: N1c são linfonodos negativos, mas com depósitos tumorais na subserosa, no mesentério ou no tecido pericólico, perirretal ou mesorretal não peritonealizado. É doença estádio III sem linfonodo acometido — o que explica por que um laudo pode dizer "0 de 18 linfonodos comprometidos" e o paciente ainda assim receber quimioterapia.

A contagem de linfonodos na peça não é detalhe de patologista: menos de 12 linfonodos ressecados é, ao mesmo tempo, indicador de qualidade da cirurgia e fator de mau prognóstico que muda a indicação de adjuvância no estádio II. Quando o interno lê um laudo de peça cirúrgica, esse é um dos números a procurar.

A tabela de rastrear × investigar tem uma linha que resolve a maior parte das dúvidas de plantão: não existe resultado negativo de teste de sangue oculto que encerre a investigação de um paciente com sintoma. A recíproca também vale — não existe sintoma que se resolva pedindo rastreamento.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo deste capítulo não é de horas — é de semanas e meses, e é justamente por isso que ela se perde. Ninguém esquece de dar antibiótico em quatro horas na sepse; todo mundo esquece de conferir se a colonoscopia pedida em março aconteceu. Os marcos abaixo são os pontos em que alguém precisa fazer alguma coisa, e o interno aparece em quase todos.

Duas datas organizam o relógio jurídico e clínico. A do pedido fundamentado, que aciona o prazo de até 30 dias para os exames de elucidação quando a hipótese principal é neoplasia maligna. E a do laudo patológico, a partir da qual correm os até 60 dias para o início do primeiro tratamento — considerado efetivamente iniciado com a realização de cirurgia ou o início de radioterapia ou quimioterapia. Anote as duas no prontuário, com dia, mês e ano.

Na visita ou consulta, o interno transforma a suspeita em acompanhamento: verifica se a colonoscopia foi marcada, se o preparo é viável, quem receberá a histologia e quando o paciente retornará. Distensão progressiva, vômitos e interrupção de gases mudam o caminho para avaliação de obstrução; sangramento com repercussão pede estabilização. Depois da cirurgia, relacionar ressecção, trânsito, alimentação e eventual estomia ao plano diário. O capítulo de estomias desta apostila ensina débito, pele, hidratação e sinais de retorno.

  1. Consulta índice — dia 0

    É a consulta em que o paciente veio por outro motivo. Tudo o que decide o desfecho acontece aqui, e nada disso depende de recurso: uma pergunta, um exame de um minuto, um hemograma e um texto bem escrito. Se você fizer só uma coisa neste capítulo, faça esta consulta inteira.

    Prescrição
    • Anamnese dirigida: há quanto tempo o hábito intestinal mudou e o que mudou exatamente; calibre das fezes; se o sangue vem no papel, pingando ou misturado; muco; tenesmo e urgência; peso perdido e em quanto tempo; uso de anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico e anticoagulante; e câncer colorretal em familiar de primeiro grau, com a idade do familiar ao diagnóstico
    • Exame físico: abdome (massa, visceromegalia, timpanismo), inspeção anal em repouso e ao esforço evacuatório, e toque retal — descrevendo tônus, lesão palpável, distância estimada da margem anal em centímetros, posição na circunferência, mobilidade e conteúdo da luva
    • Hemograma completo. Se houver anemia microcítica, complete o painel de ferro segundo o capítulo de anemia ferropriva; ferropenia sem explicação suficiente indica avaliação bidirecional (endoscopia digestiva alta e colonoscopia), e não apenas a alta
    • Solicitação de colonoscopia com os seis campos do conteúdo descritivo mínimo preenchidos, hipótese de neoplasia escrita por extenso e a menção expressa à solicitação fundamentada do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012 (protocolos de regulação ambulatorial; Lei nº 12.732/2012)
    • Se houver massa anal ou retal palpável ou úlcera anal persistente: encaminhamento paralelo, na mesma consulta, ao serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia — essa suspeita tem preferência de encaminhamento e não espera o exame (protocolos de regulação ambulatorial de proctologia)
    • Não solicitar pesquisa de sangue oculto nas fezes para decidir se investiga: em paciente com sintoma, ela não é filtro de entrada
    • Registrar no prontuário: data de emissão do pedido, hipótese diagnóstica e data de retorno para conferir o agendamento
  2. Dias 1 a 30 — a janela legal dos exames

    Este é o marco que não tem consulta marcada e por isso desaparece. O prazo legal só existe se alguém o cobrar, e quem cobra é o médico que pediu. Uma ligação para a central de regulação, com o número do pedido em mãos, resolve mais casos do que qualquer recurso administrativo.

    Prescrição
    • Conferir, por telefone ou pelo sistema, se o pedido foi recebido, classificado e agendado; anotar a data prevista
    • Se o pedido voltou por informação insuficiente, reemitir no mesmo dia com o campo faltante preenchido — na prática, o campo que mais falta é a descrição do toque retal
    • Orientar o paciente sobre o preparo e sobre por que a qualidade do preparo importa: colonoscopia com preparo ruim é colonoscopia que vai precisar ser repetida, e repetir significa voltar para a fila
    • Registrar em toda evolução, enquanto não resolver: 'colonoscopia pendente, pedido de [data], hipótese de neoplasia colorretal'
  3. Colonoscopia realizada — o exame e o que sai dele

    A colonoscopia responde três coisas ao mesmo tempo: se há lesão, onde ela está e, quando é pólipo, resolve. Lesão de aspecto neoplásico — não pedunculada, com depressão, margens irregulares, área ulcerada ou estenosante — é biopsiada e o paciente entra em outra via. Pólipo ressecado entra no esquema de seguimento, que depende do número, do tamanho e da histologia.

    Prescrição
    • Ler o laudo procurando quatro informações: se o exame foi completo até o ceco, se o preparo foi adequado, a distância da lesão à margem anal e se houve biópsia
    • Lesão suspeita: garantir que o anatomopatológico foi solicitado e acompanhar a data de liberação do resultado — é essa data que faz correr o prazo de 60 dias
    • Pólipos ressecados, sem câncer: seguimento conforme achado — 1 a 4 adenomas menores que 10 mm com displasia de baixo grau, repetir em 10 anos; adenoma de 10 mm ou mais, repetir em 3 anos; 5 ou mais adenomas, adenoma com displasia de alto grau ou ressecção em partes de adenoma de 20 mm ou mais, seguimento em serviço especializado (protocolos de regulação ambulatorial, Quadro 11)
    • Colonoscopia normal e completa em paciente com sintoma persistente: a investigação continua por outra via; não encerre o caso
  4. Dia do laudo patológico — o relógio dos 60 dias começa aqui

    Este é o dia em que o paciente deixa de ser suspeito e passa a ser paciente oncológico, com direitos e prazos definidos em lei. É também o dia da conversa mais difícil do capítulo, e ela não deve esperar a próxima vaga da agenda.

    Prescrição
    • Anotar no prontuário, em destaque, a data em que o diagnóstico foi firmado em laudo patológico — é dela que correm os até 60 dias para o início do primeiro tratamento (Lei nº 12.732/2012, art. 2º)
    • Comunicar o diagnóstico presencialmente, com a técnica do capítulo de comunicação de más notícias, e com o próximo passo já marcado
    • Solicitar o estadiamento no mesmo dia: tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve — e, se for tumor de reto, também ressonância magnética de pelve (PCDT Adenocarcinoma de Cólon e Reto, 2025)
    • Solicitar hemograma completo, bioquímica, função renal, enzimas hepáticas e canaliculares, bilirrubinas totais e frações, e CEA (PCDT Adenocarcinoma de Cólon e Reto, 2025)
    • Encaminhar a hospital habilitado em oncologia — com serviço de radioterapia, se for adenocarcinoma de reto (PCDT Adenocarcinoma de Cólon e Reto, 2025)
    • Solicitar, junto ao serviço, o teste imuno-histoquímico para proficiência das enzimas de reparo na amostra tumoral, recomendado para todos os pacientes; perfil instável leva a avaliar síndrome de Lynch, o que muda o seguimento da família (PCDT Adenocarcinoma de Cólon e Reto, 2025)
  5. Semana seguinte ao laudo — estadiamento antes de qualquer tratamento

    A regra é simples e frequentemente violada: os exames de estadiamento devem ser feitos, sempre que possível, antes de cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, porque a intervenção altera o que a imagem mostra e pode alterar a conduta. Um paciente operado sem tomografia prévia perdeu a chance de saber se já tinha metástase hepática ressecável no momento em que a estratégia estava sendo desenhada.

    Prescrição
    • Tomografia de tórax, abdome e pelve com contraste. Em quem não pode receber contraste iodado, ou quando a tomografia traz achados duvidosos quanto a metástase, acrescentar ressonância magnética de abdome superior (PCDT, 2025)
    • Tumor de reto: ressonância magnética de pelve, para avaliar invasão e comprometimento da fáscia mesorretal, vasos e linfonodos mesorretais — é ela que define se haverá tratamento neoadjuvante (PCDT, 2025)
    • Não solicitar PET-TC de rotina: não é recomendado para estadiamento nem para seguimento; cabe em casos selecionados de metástase exclusivamente hepática e potencialmente ressecável (PCDT, 2025)
    • CEA pré-operatório: valor acima de 5 mcg/L denota pior prognóstico, exceto quando normaliza após a cirurgia (PCDT, 2025)
  6. Adenocarcinoma de cólon — a cirurgia, pela ótica de quem acompanha

    A cirurgia é o pilar central do tratamento curativo. O interno não a executa, mas precisa saber o que se espera dela, porque é isso que ele vai ler no laudo da peça, explicar ao paciente e conferir no pós-operatório.

    Prescrição
    • O que se espera da ressecção: margens de aproximadamente 5 cm e linfadenectomia adequada, com ligadura dos vasos nutridores na origem e amostragem mínima de 12 linfonodos (PCDT, 2025)
    • Vias minimamente invasivas podem ser empregadas sempre que possível: menor tempo de internação, menos analgésico, menos perda sanguínea, com sobrevida global e sobrevida livre de doença semelhantes à cirurgia convencional (PCDT, 2025)
    • Estádios 0 e I ressecados por via endoscópica são considerados curados quando o anatomopatológico traz todos os critérios favoráveis: invasão de até 1.000 micra da submucosa, ausência de invasão angiolinfática, histologia bem diferenciada, ausência de tumor budding e margens livres (PCDT, 2025)
    • Tumores que invadem órgãos adjacentes (T4b) exigem ressecção em bloco da estrutura acometida por contiguidade, para garantir margens livres (PCDT, 2025)
    • Radioterapia não é recomendada rotineiramente no tratamento adjuvante do cólon (PCDT, 2025)
    • Na doença metastática irressecável, a ressecção paliativa do tumor primário pode ser indicada para controle de sintomas — sangramento, obstrução ou perfuração (PCDT, 2025)
  7. Adenocarcinoma de reto — por que aqui o tratamento começa antes da cirurgia

    O reto tem cerca de 15 cm e é dividido em terços a partir da margem anal: distal até 5 cm, médio de 5 a 10 cm, proximal de 10 a 15 cm. Tumores do reto alto são intraperitoneais; os do reto médio e baixo, extraperitoneais. Essa geografia governa tudo — a técnica, a indicação de radioterapia e a chance de o paciente ficar com estoma definitivo.

    Prescrição
    • Técnica preconizada no reto extraperitoneal: excisão total do mesorreto, com dissecção no plano avascular entre a fáscia mesorretal e a fáscia endopélvica, ressecando o estojo mesorretal íntegro. Nos tumores intraperitoneais, excisão mesorretal parcial, englobando 5 cm distais ao tumor (PCDT, 2025)
    • Estádio inicial (T1-T2, N0, M0) e tumores de reto alto: radioterapia neoadjuvante não é recomendada (PCDT, 2025)
    • T3-T4 e/ou N1-3 localmente avançado no reto baixo ou médio: o tratamento curativo consiste em radioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia; a neoadjuvante é preferível à adjuvante por melhor adesão, menor toxicidade e maior eficácia no controle local (PCDT, 2025)
    • Quimiorradioterapia de curso longo: 1,8 a 2 Gy por fração, por 5 a 6 semanas, dose total de 45 a 50,4 Gy, concomitante a fluorouracila em infusão contínua ou capecitabina oral. Em idosos ou em quem não tolera cirurgia, radioterapia definitiva com doses maiores, como 54 Gy (PCDT, 2025)
    • Radioterapia de curta duração: 25 Gy em 5 frações de 5 Gy ao longo de uma semana, com ou sem quimioterapia concomitante (PCDT, 2025)
    • Preservação nervosa pélvica é passo fundamental da técnica: a lesão do plexo autonômico pélvico produz sequelas urinárias e sexuais (PCDT, 2025)
    • Resposta clínica completa após neoadjuvante em tumor de reto inferior pode permitir não operar, com preservação de órgão — apenas quando há garantia de acesso a protocolo de controle rígido, com exames de acompanhamento frequentes (PCDT, 2025)
  8. Pós-operatório — os dias 1 a 5, e o que é ostomia

    É aqui que o interno de fato trabalha. O pós-operatório de cirurgia colorretal tem um problema previsível e um assunto difícil, e os dois se manejam melhor com informação antecipada.

    Prescrição
    • Íleo metabólico pós-operatório ocorre em cerca de 30% dos pacientes, adiando o início da dieta e prolongando a internação. Para minimizá-lo, reduzir o volume de hidratação venosa no intra e no pós-operatório — o que também diminui o uso de opioides, que potencializam o íleo (PCDT, 2025)
    • Abreviação de jejum pré e pós-operatório é procedimento seguro, modula a resposta inflamatória por reduzir a resistência insulínica, é mais confortável e tem poucas contraindicações (PCDT, 2025)
    • Avaliação nutricional: parcela significativa desses pacientes tem risco nutricional, e ele deve ser avaliado formalmente (PCDT, 2025)
    • Ostomia: quando o tumor é do reto distal e a distância da margem anal não permite manter o trânsito, a amputação retal com colostomia definitiva é a única opção oncologicamente adequada — e é por isso que a mensuração dessa distância é descrita como crucial (PCDT, 2025)
    • Explique a diferença entre estoma temporário e definitivo antes da alta, porque é a primeira pergunta do paciente e a maioria das ostomias de proteção é temporária
    • Reversão de ileostomia ou colostomia: o fechamento deve ser adiado até que a condição de base esteja resolvida, o estado de saúde recuperado e a necessidade de desvio do trânsito não exista mais; a reversão faz-se preferencialmente no serviço que operou (protocolos de regulação ambulatorial de proctologia, 2021)
    • A referência para o cuidado continuado da pessoa ostomizada é pactuada regionalmente; a secretaria municipal de saúde identifica o serviço de referência do município (protocolos de regulação ambulatorial de proctologia, 2021)
  9. Após a cirurgia — a decisão de quimioterapia adjuvante, idealmente em até 12 semanas

    A adjuvância não é automática: depende do risco de recidiva estimado pelas características clínico-patológicas e pelo perfil de instabilidade de microssatélites. Ler o laudo da peça é o que permite antecipar a conversa com o paciente.

    Prescrição
    • Têm indicação: estádio clínico III; e estádio II quando presente pelo menos um fator de mau prognóstico — tumor T4, obstrução e/ou perfuração intestinal ao diagnóstico, margem cirúrgica inadequada ou indeterminada, peça com menos de 12 linfonodos ressecados, histologia pouco diferenciada, invasão de vasos sanguíneos ou linfáticos, invasão perineural (PCDT, 2025)
    • Não têm indicação: estádio I. E o estádio II de risco habitual com deficiência das enzimas de reparo / instabilidade de microssatélites, que confere melhor prognóstico — nesse caso, acompanhamento vigilante (PCDT, 2025)
    • Elegibilidade: capacidade funcional ECOG 0 ou 1, expectativa de vida maior que 24 meses e, idealmente, início em até 12 semanas do procedimento cirúrgico; duração de três a seis meses (PCDT, 2025)
    • Esquemas disponíveis no SUS para adjuvância no cólon: oxaliplatina com ácido folínico e fluorouracil; capecitabina com oxaliplatina; capecitabina isolada; fluorouracil com ácido folínico. Preferir esquema com oxaliplatina no estádio III e no estádio II com múltiplos fatores de risco (PCDT, 2025)
    • Em idosos acima de 70 anos com baixa capacidade funcional (ECOG maior que 2), preconiza-se preferencialmente capecitabina por seis meses (PCDT, 2025)
    • No reto, a quimioterapia prévia (neoadjuvante) cabe nos estádios II ou III, associada ou não à radioterapia; ela não é preconizada no adenocarcinoma de cólon (PCDT, 2025)
  10. Doença metastática — o que ainda é tratamento com intenção curativa

    Estádio IV não é sinônimo de paliação exclusiva, e essa é uma das informações que mais mudam a conversa com a família. O que define a estratégia é a extensão, o sítio e a ressecabilidade da doença metastática.

    Prescrição
    • A presença de doença metastática não contraindica, por si, cirurgia radical com intenção curativa; a indicação depende da extensão, do sítio e da ressecabilidade das metástases (PCDT, 2025)
    • Metástase hepática irressecável, ou ressecável com alto risco cirúrgico: a ablação térmica foi incorporada ao SUS, para pacientes entre 18 e 80 anos, com capacidade funcional da Organização Mundial da Saúde menor ou igual a 1, medula, fígado e rins adequados, até 10 metástases hepáticas de até 4 cm, com envolvimento hepático de até 50% e possibilidade de tratar todas as lesões (PCDT, 2025)
    • Doença peritoneal: a citorredução cirúrgica pode beneficiar quem tem índice de carcinomatose peritoneal baixo (menor que 10) ou possibilidade de ressecção completa. A hipertermia intraperitoneal pós-citorredutora não é preconizada pelo protocolo nacional (PCDT, 2025)
    • Quimioterapia paliativa: indicada na doença recidivada inoperável ou no estádio IV ao diagnóstico, com capacidade funcional ECOG 0, 1 ou 2 e expectativa de vida maior que seis meses. Primeira linha em ECOG 0-1: fluoropirimidina associada a oxaliplatina e/ou irinotecano; em ECOG 2, preferencialmente capecitabina ou fluorouracil com ácido folínico (PCDT, 2025)
    • Quimioterapia de conversão nos casos de metástase hepática potencialmente ressecável (PCDT, 2025)
    • Capacidade funcional 3 ou 4: priorizar o suporte clínico especializado. O manejo da doença avançada, incluindo dor oncológica, é assunto do capítulo de cuidados paliativos (PCDT, 2025)
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Como saber se está funcionando

A pergunta "como sei se está funcionando" tem, neste capítulo, duas camadas que precisam ser olhadas lado a lado. A primeira é se o sistema está andando: se o exame foi feito, se o laudo saiu, se o tratamento começou dentro do prazo. A segunda é se a doença está respondendo. As duas falham por motivos diferentes e as duas matam.

A camada do sistema é a que o interno controla, e é onde ele agrega mais valor. Um paciente com hipótese de câncer colorretal e colonoscopia não agendada não é um caso encaminhado — é um caso parado. A pendência precisa de dono, de data e de linha no prontuário.

Agendamento do exame solicitadoDentro de 7 dias da emissão do pedido, e depois a cada retorno até o exame acontecer

Esperado: Pedido recebido, classificado e com data marcada; exames de elucidação realizados em até 30 dias, quando a hipótese principal é neoplasia maligna e a solicitação foi fundamentada.

Se não melhora: Conferir se o pedido voltou por informação insuficiente — o campo que mais falta é a descrição do toque retal — e reemitir no mesmo dia com o campo preenchido. Ligar para a central de regulação com o número do pedido. Se houver massa retal palpável, encaminhar em paralelo ao serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia, que tem preferência e não depende do resultado do exame. Registrar cada tentativa em evolução, com data.

Início do primeiro tratamentoContado a partir da data em que o diagnóstico foi firmado em laudo patológico

Esperado: Cirurgia realizada, ou radioterapia ou quimioterapia iniciada, em até 60 dias — ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário.

Se não melhora: Documentar a data do laudo e as datas de cada encaminhamento e contato. Acionar a regulação e a direção clínica do serviço; o descumprimento sujeita os gestores a penalidades administrativas. Não existe versão em que o médico assistente encerre a responsabilidade emitindo o encaminhamento: numa série brasileira de 585 casos, quase um terço dos pacientes ficou fora do prazo, e o percurso médio somou 81 dias para um teto de 60.

Sintoma que motivou a investigação, após colonoscopia normalNa consulta seguinte ao exame

Esperado: Sintoma explicado por outra causa identificada, ou resolvido.

Se não melhora: Colonoscopia normal não encerra sintoma persistente. Reveja três coisas no laudo, nesta ordem: se o exame foi completo até o ceco, se o preparo foi adequado e se houve área de visualização prejudicada. Depois, considere o trato digestivo alto e o delgado, e reveja o diagnóstico. Sintoma que persiste com exame normal é indicação de repensar, não de tranquilizar.

Resposta ao tratamento neoadjuvante, no adenocarcinoma de retoAo final do esquema, com a data da reavaliação cirúrgica alinhada à da radioterapia

Esperado: Redução tumoral que permita cirurgia com margens adequadas; em parte dos pacientes de reto inferior, resposta clínica completa.

Se não melhora: A data da radioterapia e a da reavaliação cirúrgica devem estar sempre alinhadas para a melhor resposta ao tratamento — desalinhamento é causa evitável de perda de janela cirúrgica. Resposta clínica completa só autoriza vigilância ativa em vez de cirurgia quando confirmada por avaliação clínica, radiológica e histológica e quando há garantia de acesso a protocolo de controle rígido.

Toxicidade da quimioterapia — oxaliplatinaA cada ciclo

Esperado: Ausência de neuropatia sensitiva progressiva; sensibilidade, propriocepção de mãos e pés e motricidade fina preservadas.

Se não melhora: Perguntar ativamente sobre grau e persistência da neuropatia e fazer exame neurológico sucinto, incluindo tarefas de motricidade fina como abotoar a camisa e amarrar cadarços. Diante de alteração no exame neurológico, a dose de oxaliplatina deve ser reduzida em 15% a 20%; se os sintomas persistirem no ciclo seguinte, o medicamento deve ser interrompido.

Toxicidade da quimioterapia — irinotecano e capecitabinaA cada ciclo, e o irinotecano especialmente a partir de uma semana da infusão

Esperado: Sem diarreia significativa; sem síndrome mão-pé.

Se não melhora: Diarreia por irinotecano: loperamida, 4 a 24 mg por dia; se persistir apesar do uso adequado do sintomático, reduzir a dose de irinotecano. Novo ciclo não deve ser iniciado até granulócitos acima de 1.500 células/mm³, plaquetas acima de 100.000/mm³ e resolução completa da diarreia. Síndrome mão-pé por capecitabina: interromper temporariamente, usar corticosteroide tópico e emoliente até melhora e reintroduzir com redução de dose.

CEA no seguimento pós-operatórioA cada visita clínica, durante cinco anos, nos estádios II e III

Esperado: Valores estáveis ou normalizados após a cirurgia.

Se não melhora: CEA elevado tem baixa especificidade: colher nova amostra em um mês. Se a elevação persistir, solicitar tomografia de tórax, abdome e pelve para avaliar recidiva. Elevação isolada, sem confirmação por imagem, não é indicação de mudar tratamento.

Colonoscopia de seguimentoUm ano após o tratamento cirúrgico, em todos os pacientes com diagnóstico de adenocarcinoma de cólon e reto

Esperado: Ausência de pólipos ou pólipos de baixo grau — nesse caso, repetir em três a cinco anos.

Se não melhora: Se a colonoscopia mostrar pólipos adenomatosos de alto grau, repetir em um ano. Pacientes com adenocarcinoma retal submetidos à ressecção endoscópica ou transanal que não tenham feito radioterapia fazem retossigmoidoscopia a cada três a seis meses, associada a ressonância de reto, por dois anos após a excisão e, depois, a cada seis meses até o quinto ano.

Vigilância clínica e por imagemConsulta a cada três meses por dois anos e semestral entre o terceiro e o quinto ano; imagem a cada 6 a 12 meses por três anos e depois anual até completar cinco anos, nos estádios II e III

Esperado: Ausência de sinais e sintomas de recidiva; imagem sem lesões novas.

Se não melhora: As consultas de acompanhamento devem procurar ativamente sinais de recidiva, conferir os exames, reforçar orientações de hábito de vida e monitorar eventos adversos persistentes pós-tratamento — em especial neuropatia pós-oxaliplatina e alterações de evacuação secundárias à cirurgia ou à radioterapia, que são a queixa mais comum e a menos perguntada. Pacientes com adenocarcinoma de cólon estádio I seguem apenas as recomendações de colonoscopia.

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Onde o erro machuca

Aceitar "é hemorroida" sem ter olhado

O dano: É o erro-assinatura deste capítulo, e ele é elegante porque quase sempre a hemorroida existe mesmo. O paciente sai com pomada e com o rótulo carimbado no prontuário; nas consultas seguintes, o mesmo sangramento é lido como recidiva do problema já conhecido. Enquanto isso o tumor de reto — que sangra igual, vermelho vivo, ao evacuar — avança de T2 para T3 e ganha linfonodo. Metade dos cânceres colorretais está no reto e no sigmoide, e uma parte deles é palpável pelo dedo na consulta em que o diagnóstico foi trocado.

Como pegar a tempo: Trate hemorroida como diagnóstico de exclusão anatômica: só depois de inspeção anal e toque retal descritos. E memorize as portas de saída objetivas — hematoquezia persistente não atribuível à doença orificial, hematoquezia em paciente acima de 50 anos, hematoquezia com qualquer sinal de alarme, anemia ferropriva, alteração persistente de hábito intestinal, emagrecimento, história familiar. Qualquer uma delas converte o caso em suspeita de neoplasia, mesmo com hemorroida visível.

Pedir pesquisa de sangue oculto nas fezes em paciente com sintoma

O dano: É o erro que produz o pior tipo de dano: um exame negativo que documenta tranquilidade. O documento nacional de rastreamento é explícito ao dizer que suas recomendações não se aplicam a casos sintomáticos, e mesmo no rastreamento o teste erra: com o ponto de corte recomendado, a sensibilidade para câncer é de 80%. Num paciente que já tem hematoquezia, o exame não acrescenta informação — a indicação de colonoscopia já estava dada — e subtrai urgência, porque um resultado negativo vira argumento para adiar.

Como pegar a tempo: Uma regra e nenhuma exceção: sintoma vai direto à colonoscopia. No encaminhamento, o sangue oculto entra apenas como informação já existente, com data, nunca como pré-requisito. Se alguém pedir o exame antes de liberar a colonoscopia, a resposta é o texto do próprio pedido: hipótese principal de neoplasia maligna, solicitação fundamentada.

Não fazer o toque retal

O dano: Perde-se o tumor palpável, perde-se a estimativa da distância da margem anal — que o protocolo nacional descreve como crucial na decisão de amputação retal e colostomia definitiva — e perde-se a prioridade do encaminhamento, porque o conteúdo descritivo mínimo exige a descrição do toque. O paciente sai com um pedido genérico, entra na fila de rotina, e o exame que teria durado um minuto é substituído por meses de espera.

Como pegar a tempo: Faça e descreva. Tônus, presença de lesão, distância estimada em centímetros, posição, mobilidade, aspecto e conteúdo da luva. Se o paciente recusar, registre a recusa e a orientação dada, e reofereça no retorno — recusa registrada é diferente de exame não pensado. E lembre que a inspeção anal, feita em repouso e ao esforço, faz parte do mesmo exame.

Chamar de "prisão de ventre" a mudança de hábito intestinal

O dano: Constipação é banal e verdadeira na maior parte das vezes, e o rótulo absorve o sintoma sem deixar rastro. O que se perde é a informação temporal: mudança persistente de hábito intestinal em adulto é uma das manifestações clínicas suspeitas de neoplasia de cólon e reto, e é a apresentação típica do tumor de cólon esquerdo e sigmoide, onde a luz é estreita e as fezes já estão formadas. O desfecho previsível é o mesmo paciente voltando meses depois com obstrução — e obstrução ao diagnóstico é, por si, fator de mau prognóstico que muda a indicação de quimioterapia adjuvante.

Como pegar a tempo: Pergunte sempre "mudou?" antes de "como é?". Constipação de vinte anos é constipação; oito meses de mudança em quem era regular é sinal de alarme. Registre a duração em semanas ou meses, não em adjetivos, e some ao quadro o calibre das fezes e a presença de alternância.

Escrever "solicito colonoscopia" e nada mais

O dano: O pedido sem informação clínica é classificado como rotina, porque não há como classificá-lo de outro jeito, e o paciente espera meses. Pior: a lei condiciona o prazo de até 30 dias para os exames de elucidação à solicitação fundamentada do médico responsável — sem fundamentação escrita, o prazo legal não se aciona. É o único erro deste capítulo em que o dano é integralmente produzido por duas linhas de texto ausentes.

Como pegar a tempo: Preencha os seis campos do conteúdo descritivo mínimo: sinais e sintomas com exame abdominal e toque retal; hemograma com data e, se houver anemia, VCM, ferritina e saturação da transferrina; sangue oculto se realizado; laudos de imagem; laudos de colonoscopia e anatomopatológico prévios; e história familiar de primeiro grau com a idade do familiar ao diagnóstico. Escreva a hipótese por extenso e mencione o dispositivo legal.

Pedir tomografia no lugar da colonoscopia

O dano: A tomografia é mais fácil de conseguir em muitos serviços, e essa facilidade é a armadilha. Ela enxerga massa grande e perde exatamente a lesão pequena e curável que se procura, além de não biopsiar e não ressecar pólipo. Um paciente com tomografia normal e sintoma persistente sai com a investigação declarada feita e o cólon nunca visto.

Como pegar a tempo: Guarde a tomografia para a função que ela tem: estadiamento, depois do diagnóstico confirmado — e, aí sim, de tórax, abdome e pelve, antes de qualquer tratamento. Para investigar sintoma de cólon e reto, o exame é a colonoscopia. Se a colonoscopia não está disponível na sua unidade, a conduta é encaminhar para gastroenterologia por impossibilidade de realizar o exame, não trocar de exame.

Emitir o encaminhamento e considerar o caso resolvido

O dano: É o modo mais comum de perder um paciente sem nunca errar visivelmente. Cada passo do prontuário está correto e ninguém está acompanhando o conjunto. Na série brasileira de 585 casos, 71% receberam o primeiro tratamento em até 60 dias — quase um terço, portanto, não recebeu; e os tempos médios somam 81 dias entre o laudo e o tratamento, para um teto legal de 60. A diferença entre os que ficam dentro e fora do prazo é, com frequência, alguém que ligou.

Como pegar a tempo: Trate o encaminhamento como conduta que se acompanha. Marque retorno com data, registre em toda evolução a pendência com a data do pedido, e confira o agendamento no sistema ou por telefone. Anote a data do laudo patológico em destaque, porque é dela que corre o prazo legal.

Operar antes de estadiar, ou não estadiar quem foi operado de urgência

O dano: Os exames de estadiamento devem ser feitos, sempre que possível, antes de qualquer intervenção terapêutica, porque cirurgia, quimioterapia e radioterapia alteram o que a imagem mostra e podem alterar a conduta. Quem opera sem tomografia prévia pode descobrir depois uma metástase hepática que teria mudado a estratégia inteira — inclusive a possibilidade de quimioterapia de conversão. E o paciente operado em caráter de urgência, sem diagnóstico prévio, com frequência sai do hospital sem que ninguém tenha solicitado o estadiamento, porque a urgência consumiu a atenção de todos.

Como pegar a tempo: Na eletiva, estadiamento antes do tratamento, sem exceção evitável. Na urgência, coloque o estadiamento na prescrição de alta e no encaminhamento: tomografia de tórax, abdome e pelve, CEA, e ressonância de pelve se o tumor era de reto. Confira, ao ler a evolução de um pós-operatório de urgência por obstrução, se alguém pediu.

Encaminhar tumor de reto para serviço sem radioterapia

O dano: No reto médio e baixo localmente avançado, o tratamento curativo consiste em radioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia — e a neoadjuvante é preferível à adjuvante por melhor adesão, menor toxicidade e maior eficácia no controle local. Encaminhar esse paciente a um serviço sem radioterapia significa que ele será reencaminhado no meio do caminho, com perda de semanas na janela em que o tratamento deveria estar começando.

Como pegar a tempo: Separe no encaminhamento: adenocarcinoma de cólon ou de junção retossigmoide pode ir a hospital habilitado em oncologia com ou sem radioterapia; adenocarcinoma de reto deve ir, preferencialmente, a hospital habilitado que tenha serviço de radioterapia. A distância medida no toque retal, escrita no pedido, é o que permite a quem regula fazer essa triagem.

Tratar estádio IV como sentença e parar de oferecer tratamento

O dano: O paciente e a família ouvem "metástase" e entendem "acabou", e às vezes a equipe reforça isso ao encaminhar direto para cuidado de fim de vida. O protocolo nacional é claro em sentido contrário: a presença de doença metastática não contraindica, por si, cirurgia radical com intenção curativa, e a indicação depende da extensão, do sítio e da ressecabilidade. Há ainda quimioterapia de conversão para metástase hepática potencialmente ressecável e ablação térmica incorporada ao SUS para metástase hepática irressecável ou de alto risco cirúrgico.

Como pegar a tempo: Antes de conversar sobre prognóstico, saiba responder três perguntas: onde estão as metástases, quantas são e se são ressecáveis. Encaminhe a discussão para equipe multidisciplinar em serviço habilitado. Cuidado paliativo entra em paralelo, desde o início e independentemente da intenção curativa — não como a alternativa a ter parado de tratar.

Usar rastreamento como resposta a sintoma, ou negar investigação a quem está fora da faixa etária

O dano: São os dois lados do mesmo desentendimento. De um lado, o paciente de 45 anos com hematoquezia persistente que ouve "você ainda não tem idade de rastrear" — e a resposta correta é que ele não está sendo rastreado, está sendo investigado, e investigação não tem idade mínima. De outro, o paciente de 60 anos com sintoma a quem se oferece o teste de sangue oculto porque "está na faixa do rastreamento". Nos dois casos o instrumento errado atrasa o diagnóstico.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta de triagem antes de qualquer outra: esta pessoa tem sintoma? Se tem, é investigação — colonoscopia, sem faixa etária, com pedido fundamentado. Se não tem, é rastreamento — FIT bienal entre 50 e 75 anos, se for de risco padrão, ou colonoscopia em esquema próprio se houver risco aumentado.

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O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem três conversas difíceis, e elas acontecem em momentos diferentes: convencer alguém sem queixa nenhuma a fazer um exame desagradável; contar que o exame achou câncer; e responder "tem cura?" sem mentir e sem destruir. A técnica de comunicar má notícia — o ambiente, o aviso prévio, o silêncio depois da frase — é assunto do capítulo de comunicação de más notícias. O que segue são as falas específicas deste diagnóstico.

Uma advertência que vale para as três: a maior parte do dano na conversa vem de prometer prazo. "Vai sair rápido", "em duas semanas você faz" e "o SUS resolve isso logo" são frases que o médico não controla e que custam a confiança do paciente na primeira vez que não se cumprem. Prometa o que você faz — pedir hoje, acompanhar, ligar, reemitir — e não o que o sistema entrega.

Ele diz que é hemorroida e não quer fazer colonoscopia

"O senhor pode estar certo, e é bem possível que a hemorroida esteja sangrando mesmo. O problema é que ela não é a única coisa que sangra desse jeito, e as duas podem existir ao mesmo tempo. O que eu não posso é decidir sem olhar por dentro. O exame que olha é a colonoscopia, e ela é a única que, se encontrar um pólipo, já tira ali. Se estiver tudo bem, o senhor sai com a resposta e a gente trata a hemorroida em paz."

Não diga: Não use medo como argumento ("pode ser câncer, o senhor quer arriscar?"), porque medo produz adesão frágil e ressentimento. E não diga "é só um exame simples": o preparo é desagradável, o paciente vai descobrir isso sozinho e vai lembrar que você minimizou.

Ele pergunta se dói e como é o preparo

"O exame em si o senhor não sente, porque é feito com sedação — a maior parte das pessoas dorme e acorda quando acabou. A parte chata é o dia anterior: precisa tomar uma solução que provoca diarreia até as fezes ficarem claras como água. É ruim, mas é a parte que faz o exame valer: se o preparo for mal feito, o médico não enxerga direito e o exame precisa ser repetido — e aí o senhor volta para a fila. Então o preparo bem feito é o que evita fazer duas vezes."

Não diga: Não entregue apenas o papel do preparo. Confirme se ele sabe ler, quem vai comprar a solução, se tem banheiro em casa e quem vai acompanhá-lo — porque exame desmarcado por preparo mal feito é, na prática, exame perdido.

Contar o resultado: o laudo confirmou adenocarcinoma

"Seu Genésio, o resultado da biópsia chegou e ele não é bom: confirmou que aquela lesão do intestino é um câncer. [pausa] Eu sei que é muito para ouvir de uma vez. O que eu posso dizer agora é o que já está decidido: hoje eu já vou pedir os exames que mostram se ele está só ali ou se se espalhou, porque é isso que define o tratamento. E hoje mesmo o senhor entra no serviço de oncologia. A partir de agora existe um prazo em lei: o tratamento tem que começar em até sessenta dias contados do dia deste laudo, e eu vou acompanhar isso com o senhor."

Não diga: Não diga "deu uma alteraçãozinha" nem "apareceu uma coisinha" — o eufemismo adia a compreensão e obriga a uma segunda conversa pior. Não entregue o laudo pelo telefone nem pelo balcão. E não prometa nada sobre cura antes do estadiamento: você ainda não sabe.

"Tem cura, doutor?" — antes do estadiamento

"Essa é a pergunta certa, e a resposta honesta é que eu ainda não sei — e não sei porque falta um exame, não porque estou escondendo. O que decide isso é se o tumor está limitado ao intestino ou se já se espalhou. É exatamente para responder essa pergunta que estou pedindo a tomografia. Quando ela ficar pronta, a gente senta e eu respondo com o que estiver escrito ali. O que eu posso adiantar é que esse é um câncer que, quando está limitado ao intestino, é tratável e frequentemente curável."

Não diga: Não diga "vamos ser otimistas" nem "vai dar tudo certo": é uma promessa sem base que corrói a confiança quando o estadiamento vem ruim. E não descarregue estatística de sobrevida em quem acabou de receber o diagnóstico — número sem contexto é ruído, e o paciente ainda não perguntou isso.

"Tem cura?" — depois do estadiamento, doença localizada

"A tomografia mostrou que o tumor está no intestino e não apareceu em outros órgãos. Isso é a melhor notícia que a gente podia ter hoje. O tratamento principal é a cirurgia, que tira o pedaço do intestino com o tumor e os gânglios daquela região. Depois da cirurgia, o exame da peça vai dizer se o senhor precisa também de quimioterapia — isso depende de o tumor ter chegado ou não aos gânglios. Não dá para prometer cura, mas dá para dizer que estamos tratando com a intenção de curar, e é isso que muda tudo."

Não diga: Não confunda "não apareceu metástase na tomografia" com "não tem gânglio comprometido": o N só se conhece depois da peça. Prometer que não vai precisar de quimioterapia antes do laudo é a promessa que mais cria conflito depois.

"Tem cura?" — doença metastática

"A tomografia mostrou que o tumor mandou células para o fígado. Isso muda o plano: não é um caso em que a cirurgia sozinha resolve. Mas eu preciso dizer uma coisa que muita gente não sabe: mesmo assim existe tratamento com intenção de curar em parte dos casos, e isso depende de quantas lesões são, onde estão e se dá para tirar ou destruir todas. Quem decide isso é a equipe do serviço de oncologia, com todo mundo junto. O que eu não vou fazer é dar um número de tempo de vida agora, porque esse número seria um chute, e um chute errado tira do senhor decisões que são suas."

Não diga: Não use "é paliativo" como sinônimo de "não tem mais nada a fazer" — são coisas diferentes, e a confusão faz famílias recusarem cuidado que melhora a vida do paciente. E não dê prognóstico em meses quando não foi perguntado; quando for perguntado, responda em faixas e com incerteza explícita.

Ele quer saber se vai ficar com bolsa

"Essa é a pergunta que quase todo mundo faz, e ela tem uma resposta que depende de onde exatamente está o tumor. Quanto mais perto da saída, maior a chance de precisar de uma bolsa. Muitas vezes ela é temporária, colocada só para o intestino descansar enquanto cicatriza, e depois é fechada numa segunda cirurgia. Em alguns casos, quando o tumor está muito baixo, ela é definitiva — e nesse caso a gente conversa com calma antes, com a equipe da cirurgia, para o senhor saber o que esperar e como é o dia a dia com ela."

Não diga: Não afirme que a bolsa será temporária antes de o cirurgião ter medido a distância e definido a técnica — é uma das promessas que mais destroem confiança quando não se cumprem. E não trate o assunto como detalhe técnico: para o paciente, ele é frequentemente maior que o câncer.

A família pergunta, no corredor, se o paciente pode saber

"Eu entendo o cuidado de vocês, e ele vem de amor. Mas quem decide o que quer saber é ele. O que eu faço é perguntar a ele o quanto ele quer saber e no ritmo dele — tem gente que quer todos os detalhes, tem gente que prefere que a família participe das decisões. Se ele disser que prefere que vocês saibam primeiro, eu respeito. O que eu não posso é mentir para ele, porque é ele quem vai decidir sobre a cirurgia e o tratamento, e ninguém decide sobre o que não sabe."

Não diga: Não aceite o pacto de silêncio nem o rompa por decreto. E não converse sobre diagnóstico em corredor: leve a família para uma sala, mesmo que a sala seja improvisada.

Orientar os filhos do paciente sobre o risco deles

"Tem uma coisa que vale para vocês, filhos: ter um pai ou uma mãe com câncer de intestino muda a idade em que vocês precisam começar a se examinar. Não é para se assustar, é para se programar. Como o diagnóstico dele foi aos 62 anos, vocês devem começar a colonoscopia entre os 40 e os 50 anos, ou dez anos antes da idade que ele tinha — o que vier primeiro —, e repetir a cada cinco a dez anos. Anotem a idade dele hoje, porque é esse número que o médico de vocês vai pedir."

Não diga: Não diga apenas "vocês têm risco aumentado" e mude de assunto: sem a idade de início e o intervalo, a informação não vira conduta. E não estenda a orientação a parentes de segundo grau sem avaliação — a régua citada é de familiar de primeiro grau.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Aos 45 ou aos 50 anos? A idade de início do rastreamento em quem tem risco padrão

Começar aos 50 anos

O documento nacional recomenda o início do rastreamento aos 50 anos, com recomendação condicional baseada em evidência de certeza moderada e em viabilidade. O argumento é o tamanho do efeito absoluto: todos os cinco ensaios clínicos randomizados selecionados avaliaram indivíduos de 50 a 74 anos, e nenhum estudo comparou diretamente diferentes idades de início. Numa revisão sistemática com metanálise, o número necessário a rastrear com pesquisa de sangue oculto foi de 2.655 entre 45 e 59 anos e de 492 entre 60 e 80 anos — o benefício absoluto cresce com a idade. Das 23 diretrizes internacionais identificadas, apenas três preconizam início antes dos 50 anos. Pesa ainda o custo de oportunidade: a população brasileira entre 45 e 49 anos era estimada pelo IBGE em 15.296.989 habitantes para 2025, e rastreá-la consumiria recursos do grupo em que o benefício foi demonstrado.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, Recomendação 5 (relatório de recomendação submetido à Consulta Pública nº 20, março de 2026). A mesma posição, com recomendação forte para 50-75 anos, consta do guia da sociedade americana de gastroenterologia citado no documento.

Começar aos 45 anos

As diretrizes da NCCN e da Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos recomendam o rastreamento a partir dos 45 anos. Na formulação da força-tarefa americana de 2021, o rastreamento de 50 a 75 anos é recomendação de grau A e o de 45 a 49 anos é grau B, com extensão seletiva entre 76 e 85 anos como grau C. O argumento é a tendência internacional de aumento da incidência abaixo dos 50 anos. O próprio documento nacional registra que a recomendação americana é, em parte, baseada em modelagem feita para a população dos Estados Unidos, e que o guia da sociedade americana de gastroenterologia classifica a faixa de 45 a 49 anos como recomendação condicional baseada em evidência de certeza muito baixa.

US Preventive Services Task Force, Screening for Colorectal Cancer — Recommendation Statement, JAMA 2021;325(19):1965-1977, e NCCN Guidelines Insights: Colorectal Cancer Screening, versão 1.2024, ambas citadas e discutidas na Recomendação 5 do documento nacional; a formulação por graus A, B e C consta também do livro Detecção precoce do câncer, INCA, 2021.

Como decidir

Primeiro, diferencie rastreamento de investigação de sintomas e reconheça o risco familiar. A discussão entre iniciar aos 45 ou aos 50 anos refere-se ao assintomático de risco padrão. Nesse grupo, considere a estratégia adotada, a oferta de exames e a possibilidade de completar o percurso. Explique benefícios e limitações e registre a decisão compartilhada. Sintomas e risco aumentado exigem os caminhos próprios descritos no capítulo.

Entrar pelo teste de fezes ou direto pela colonoscopia?

Entrar pelo FIT, com colonoscopia só nos positivos

O documento nacional recomenda o teste imunoquímico fecal como método de entrada, com colonoscopia reservada à avaliação diagnóstica dos positivos. A razão declarada não é superioridade diagnóstica, e o documento é transparente quanto a isso: no ensaio que comparou as duas estratégias, a colonoscopia teve maior eficácia na detecção de câncer que o FIT anual. O que decide é adesão e viabilidade — nesse mesmo estudo a adesão foi de 99,3% no grupo FIT contra 42,3% no grupo designado à colonoscopia. O FIT é barato, não invasivo, dispensa preparo e sedação, e não expõe assintomáticos aos riscos do exame endoscópico; a colonoscopia usada como método de rastreamento exige infraestrutura muito maior do que quando usada apenas para confirmação diagnóstica.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, Recomendações 1, 2 e 8, e a Comparação 1 do relatório (Consulta Pública nº 20, março de 2026), que cita o ensaio TARGET-C (Xu et al., World J Gastrointest Surg 2024) com razão de chances de 1,30 (IC 95% 1,01-1,65) favorecendo a colonoscopia na detecção.

Entrar pela colonoscopia

A colonoscopia é o padrão-ouro para o diagnóstico do câncer colorretal, examina todo o intestino grosso e é o único método que, ao encontrar o pólipo, o remove no mesmo ato — interrompendo a história natural em vez de apenas detectá-la. O FIT não detecta pólipo e todo positivo precisa de colonoscopia depois. Em análise por protocolo de um ensaio populacional de rastreamento com colonoscopia, estimou-se redução de 31% na incidência e de 50% na mortalidade por câncer colorretal. E, feita de forma completa e de qualidade, ela compra dez anos de intervalo, contra uma rodada a cada dois anos.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto (Consulta Pública nº 20, março de 2026), Recomendação 8 e a discussão do estudo NordICC (Bretthauer et al., JAMA Intern Med 2016); o próprio documento registra que a colonoscopia é considerada padrão-ouro e que não foram identificados ensaios randomizados de rastreamento com colonoscopia, sendo a evidência indireta.

Como decidir

Sintomas, história familiar, doença inflamatória intestinal e pólipos prévios modificam o percurso e devem ser reconhecidos antes de escolher um teste de rastreamento. No assintomático de risco padrão, considere a estratégia disponível e a adesão. O teste inicial precisa estar ligado ao exame confirmatório quando indicado. Depois de colonoscopia completa e de qualidade, siga o intervalo descrito, evitando acrescentar teste fecal sem finalidade definida.

O Brasil deve ter programa de rastreamento populacional, ou concentrar esforço no diagnóstico precoce?

Priorizar o diagnóstico precoce — a régua brasileira até 2026

A posição oficial brasileira que vigorou por mais de uma década tem uma particularidade que surpreende quem só conhece as diretrizes americanas: o país não recomendava programa de rastreamento populacional de câncer colorretal. O material do INCA sobre detecção precoce registra que a publicação nacional sobre rastreamento afirma que ele é recomendado dos 50 aos 75 anos com sangue oculto, colonoscopia ou sigmoidoscopia, mas que, diante de incertezas de custo-efetividade e sustentabilidade, orienta-se priorizar ações de diagnóstico precoce e abordagem personalizada para situações de alto risco. O mesmo material invoca a orientação da Organização Mundial da Saúde de que países sem infraestrutura e recursos humanos suficientes para o rastreamento populacional priorizem esses recursos para facilitar a investigação diagnóstica dos casos sintomáticos suspeitos. O protocolo terapêutico nacional de novembro de 2025 mantinha a avaliação da incorporação de um programa de rastreamento expressamente fora do seu escopo.

INCA — Detecção precoce do câncer, Rio de Janeiro, 2021, capítulo 2.4; e Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Cólon e Reto, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25, de 17 de novembro de 2025, item 3.1.

Implantar rastreamento organizado com FIT bienal

Em novembro de 2023 o Ministério da Saúde instituiu grupo de trabalho coordenado pelo INCA para fortalecer prevenção, detecção precoce e tratamento do câncer de cólon e reto. Em março de 2026 a Conitec submeteu a consulta pública as Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, que recomendam rastreamento organizado com FIT bienal dos 50 aos 75 anos, ponto de corte de 50 ng/mL e colonoscopia nos positivos, com parecer favorável do Comitê de PCDT. O documento sustenta que o modelo organizado é mais eficiente que o oportunístico, maximiza efetividade, minimiza riscos e reduz iniquidades de acesso — no modelo oportunístico é comum o rastreamento excessivo de quem tem menor risco junto com a desassistência de quem mais se beneficiaria. Em 6 de agosto de 2026 a Portaria SAES/MS nº 4.642 incluiu o teste imunoquímico fecal na Tabela de Procedimentos do SUS, com vigência a partir de 10 de agosto de 2026, destinado exclusivamente ao rastreamento bienal de assintomáticos de 50 a 75 anos.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, seção 1.3 e Recomendações 1 a 8 (Consulta Pública nº 20, março de 2026), elaboradas a partir da Portaria GM/MS nº 1.929, de 23 de novembro de 2023; e Portaria SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de 2026.

Como decidir

A implantação do rastreamento depende da organização local, mas não deve atrasar a investigação do sintomático. Na unidade, identifique a oferta de FIT, a faixa atendida e a capacidade de realizar a colonoscopia indicada por resultado positivo. Continue perguntando sobre sintomas e risco familiar. Se a nova demanda dificultar o acesso de quem apresenta sinais de alarme, comunique o problema à equipe responsável pela organização do serviço.

Até quando rastrear, e de quanto em quanto tempo

Encerrar aos 75 anos, com FIT bienal

O documento nacional recomenda encerrar o rastreamento aos 75 anos, em recomendação condicional baseada em evidência de certeza moderada e viabilidade, e usar periodicidade bienal, em recomendação condicional baseada em evidência de certeza baixa. Para o limite superior, o argumento é o risco: metanálise de estudos observacionais mostrou, acima de 75 anos, aumento do risco de complicações da colonoscopia — necessidade de atendimento em emergência com razão de chances de 2,01 (IC 95% 1,65-2,45), hospitalização 3,08 (IC 95% 2,44-3,89), perfuração 5,25 (IC 95% 1,77-15,62) e sangramento 2,07 (IC 95% 1,80-2,38). Um estudo prospectivo de base populacional não encontrou diferença significativa de risco entre rastreados e não rastreados acima dos 75 anos. Para a periodicidade, o documento registra que não foram identificados ensaios ou revisões comparando FIT anual com bienal e que as principais evidências de eficácia vêm de ensaios que adotaram periodicidade bienal.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, Recomendações 6 e 7 (Consulta Pública nº 20, março de 2026).

Individualizar acima dos 75 anos e considerar periodicidade anual

O mesmo documento nacional registra que, segundo diretrizes internacionais, a extensão do rastreamento pode ser considerada até os 85 anos em casos individualizados, especialmente em idosos com boa condição funcional, ausência de comorbidades significativas, expectativa de vida igual ou maior que 10 anos e que não tenham sido rastreados previamente. Quanto à periodicidade, o único ensaio que comparou diretamente anual e bienal com teste baseado em guaiaco mostrou, na periodicidade anual, risco relativo de 0,81 (IC 95% 0,71-0,93) para incidência e de 0,68 (IC 95% 0,56-0,82) para mortalidade, contra 0,85 (IC 95% 0,74-0,96) e 0,78 (IC 95% 0,65-0,93) na bienal.

Conitec/INCA — Diretrizes Brasileiras do Rastreamento do câncer de cólon e reto, Recomendações 6 e 7 (Consulta Pública nº 20, março de 2026), que citam a Força-Tarefa Canadense de Cuidados Preventivos em Saúde (CMAJ 2016) e a atualização de 2018 da American Cancer Society para a individualização acima dos 75 anos.

Como decidir

Considere tempo para benefício, condição funcional, comorbidades, histórico de rastreamento e possibilidade de realizar o exame confirmatório. A idade isolada não descreve esses fatores. A decisão sobre iniciar ou continuar precisa incluir o que será feito diante de um teste positivo. Quanto à periodicidade, siga a estratégia adotada e organize a adesão, evitando exames avulsos sem acompanhamento.

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O raciocínio, em voz alta

Dona Ivone, 66 anos, aposentada, vem à consulta de rotina trazendo exames que pediu por conta própria numa campanha do sindicato. Está bem, sem queixas. O hemograma mostra hemoglobina 9,7 g/dL, volume corpuscular médio 71 fL, RDW 18%. Menopausa aos 51 anos. Não usa anti-inflamatório, não fuma, faz caminhada. Diz que o intestino é "normal, o de sempre", e que nunca viu sangue nas fezes.

  1. O que penso agora

    Anemia microcítica com RDW alto, em mulher de 66 anos na pós-menopausa. O padrão é de ferropenia, e é isso que o painel de ferro vai confirmar ou afastar — essa parte pertence ao capítulo de anemia ferropriva e eu a conduzo por lá. O que a torna um problema deste capítulo é a aritmética do ferro: mulher na pós-menopausa não tem perda fisiológica de sangue. Se o estoque acabou, ela está perdendo por algum lugar, e no adulto que não menstrua a lista curta começa e termina no trato digestivo. A frase "o intestino é normal" não me tranquiliza: é exatamente assim que se apresenta o tumor de cólon direito, que sangra pouco, de forma crônica, sem dor e sem sangue visível.

  2. O que pergunto antes de pedir qualquer coisa

    Pergunto o que ela não contaria espontaneamente porque não parece relevante: se o intestino mudou em relação ao que era antes, se as fezes ficaram mais finas, se apareceu qualquer sangue ou muco, se emagreceu sem querer, se sente cansaço maior que o habitual ou falta de ar ao subir escada. E pergunto história familiar por extenso: pai, mãe, irmãos, com câncer de intestino, e com que idade cada um teve. Ela diz que emagreceu uns quatro quilos no último ano, mas atribui à caminhada. Uma irmã teve "câncer de intestino" aos 58 anos.

  3. O exame que muitos pulam aqui

    Examino o abdome — flácido, sem massas, sem visceromegalia. E faço o toque retal, que é o exame que quase ninguém faz numa consulta que começou como "trazer exames de rotina". Explico antes o que vou fazer e por quê. Inspeção anal sem lesões, sem plicomas, sem fissura. Toque com tônus preservado, sem lesão palpável, ampola vazia, sem sangue na luva. Registro assim, com os achados nomeados — porque "toque retal normal" não informa se as alterações procuradas foram procuradas. Um toque sem lesão não exclui nada: o dedo alcança uns poucos centímetros de um tubo de mais de um metro. Mas se houvesse lesão a 5 cm, eu teria mudado tudo hoje.

  4. O que peço, e o que deliberadamente não peço

    Peço o painel de ferro para confirmar a ferropenia, conforme o capítulo de anemia. E, na mesma consulta, sem esperar o resultado, peço a avaliação bidirecional: endoscopia digestiva alta e colonoscopia. Não peço pesquisa de sangue oculto nas fezes. Ela tem sintoma — emagrecimento não intencional e anemia ferropriva — e, em quem tem sintoma, o teste de fezes não é filtro de entrada; a indicação de colonoscopia já está dada pela clínica. Também não peço tomografia de abdome: ela enxerga massa grande e perde justamente a lesão pequena e curável que estou procurando.

  5. Como escrevo o pedido

    Escrevo com prioridade e com os seis campos preenchidos: mulher de 66 anos, pós-menopausa; anemia com hemoglobina 9,7 g/dL e volume corpuscular médio 71 fL, de 03/08/2026; emagrecimento de 4 kg em um ano, não intencional; abdome sem massas; inspeção anal sem lesões e toque retal sem lesão palpável, sem sangue na luva; sangue oculto não realizado; irmã com câncer colorretal aos 58 anos. Hipótese principal: neoplasia de cólon e reto. E acrescento a frase que aciona o prazo: solicitação fundamentada nos termos do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012, que assegura a realização dos exames de elucidação em até 30 dias quando a hipótese principal é neoplasia maligna. Marco retorno em três semanas com a finalidade explícita de conferir o agendamento, e escrevo na evolução: colonoscopia pendente, pedido de hoje.

  6. Como a resposta muda o que penso

    Ferritina 6 ng/mL e saturação da transferrina 8%: ferropenia confirmada, e nenhuma explicação alternativa. Isso não muda minha conduta — ela já estava pedida —, mas fecha a lógica: perda crônica, e o trato digestivo é o lugar. A colonoscopia sai em 26 dias e mostra lesão vegetante e ulcerada no cólon ascendente, de aspecto neoplásico, com biópsia colhida; exame completo até o ceco, preparo adequado. A endoscopia alta é normal, com gastrite leve — e eu registro que gastrite aqui não é diagnóstico, é coincidência, porque o cólon já explicou a perda.

  7. O dia do laudo

    Adenocarcinoma. Anoto a data do laudo em destaque no prontuário, porque é dela que correm os até 60 dias para o início do primeiro tratamento. Chamo dona Ivone e a filha presencialmente, conto o que o exame mostrou sem eufemismo, e explico que ainda falta saber a extensão. No mesmo dia peço tomografia de tórax, abdome e pelve — antes de qualquer tratamento, porque intervenção altera o que a imagem mostra —, hemograma, função renal e hepática, bilirrubinas e CEA, e encaminho ao hospital habilitado em oncologia. Como é tumor de cólon, e não de reto, o serviço não precisa necessariamente ter radioterapia.

  8. O que ainda faço, mesmo com o caso já encaminhado

    Três coisas. Peço que o serviço solicite o teste imuno-histoquímico para proficiência das enzimas de reparo, recomendado para todos os pacientes — se o perfil for instável, avalia-se síndrome de Lynch, o que muda o seguimento da família inteira. Oriento os filhos: com uma tia e agora a mãe, a régua deles muda, e vão precisar começar colonoscopia mais cedo, com a idade de cada familiar ao diagnóstico anotada. E acompanho o prazo: ligo para a regulação, confiro a data da consulta com a oncologia e registro cada tentativa. Encaminhamento emitido não é caso resolvido; é caso em andamento com dono.

  9. O que eu teria perdido se tivesse feito o óbvio

    O óbvio, aqui, era prescrever sulfato ferroso e marcar retorno em três meses. Funciona: a hemoglobina sobe, dona Ivone melhora, e volta dizendo que está ótima — e o tumor de cólon direito segue crescendo, agora sem nem o hemograma alterado que denunciava sua existência. Esse é o mesmo erro que o capítulo de anemia ferropriva descreve pelo outro lado, e a régua é a mesma nos dois: repor ferro e investigar a causa acontecem no mesmo dia, não em sequência.

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Faça você

Seu Waldemar, 54 anos, motorista de ônibus, chega ao ambulatório com um envelope de receitas antigas. Refere sangramento ao evacuar há cerca de dez meses: sangue vermelho vivo, no papel e às vezes pingando no vaso. Já foi atendido três vezes por isso — em duas recebeu pomada e orientação sobre fibras, e na terceira, no pronto-socorro, o registro diz "doença hemorroidária, tratamento conservador". Melhora um pouco e volta. Nas últimas semanas nota que precisa fazer mais força, que as fezes estão mais finas e que sente vontade de evacuar de novo logo depois de ter evacuado. Perdeu 6 kg em oito meses, o que atribui a "comer mal na estrada". Nega uso de anti-inflamatório. O pai morreu de "problema no intestino", não sabe qual, com uns 70 anos. Ao exame: corado a menos, abdome flácido, indolor, sem massas. Na inspeção anal, mamilos hemorroidários internos exteriorizados ao esforço, que reduzem espontaneamente, sem trombose e sem fissura. Hemograma trazido de fora, de duas semanas atrás: hemoglobina 10,9 g/dL, volume corpuscular médio 76 fL.

  1. O que o caso já resolveu por você

    Ele tem hemorroida — está visível na inspeção, exteriorizando ao esforço. O rótulo dos três atendimentos anteriores não era invenção de ninguém: era o achado verdadeiro, e é isso que faz esse caso funcionar como armadilha.

  2. O que você já sabe fazer

    Listar o que, neste quadro, não é atribuível à doença orificial: dez meses de sangramento, fezes afiladas, tenesmo, emagrecimento de 6 kg, anemia microcítica e história familiar imprecisa de "problema no intestino".

  3. Onde o caso para

    Falta o passo que os três atendimentos anteriores pularam — e falta escrever o que você vai fazer hoje, na ordem, para que este quarto atendimento seja diferente dos outros três.

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome Genésio ao discutir cada etapa e conecte o tratamento cirúrgico ao cuidado pós-operatório e às estomias quando presentes.

  5. Questão integrativa 1

    A presença de hemorroidas explica todo o quadro de Genésio?

  6. Questão integrativa 2

    Por que não aplicar apenas a faixa etária do rastreamento?

  7. Questão integrativa 3

    Toque normal exclui câncer colorretal?

  8. Questão integrativa 4

    O que muda se surgirem vômitos e parada de gases?

  9. Questão integrativa 5

    Qual informação do tumor retal muda o planejamento?

  10. Questão integrativa 6

    Quando a tarefa do interno termina após solicitar o exame?

Ver como fecharíamos

O passo que faltou nos três atendimentos é o toque retal, e ele se faz agora, antes de qualquer pedido. Inspeção anal já está descrita; o dedo é o que examina o segmento onde metade dos cânceres colorretais se localiza, e é a primeira estimativa da distância da lesão à margem anal — medida que o protocolo nacional descreve como crucial porque decide amputação retal e colostomia definitiva. Descreva com achados nomeados: tônus, presença ou ausência de lesão, distância estimada em centímetros, posição na circunferência, tamanho, se é móvel ou fixa, se é endurecida, vegetante ou ulcerada, se o dedo a ultrapassa, e o conteúdo da luva. Feito isso, a decisão já está tomada e não depende do resultado: seu Waldemar tem hematoquezia persistente não atribuível à doença orificial, com sinais de alarme somados — emagrecimento, tenesmo, fezes afiladas, anemia ferropriva. Cada um desses, isoladamente, já é condição que indica colonoscopia; juntos, tornam a hemorroida uma comorbidade e não uma explicação. E não peça pesquisa de sangue oculto nas fezes para decidir: em quem tem sintoma ela não é filtro, e um resultado negativo só produziria um quarto atendimento tranquilizado. O que sai da consulta, hoje: primeiro, colonoscopia com prioridade, com os seis campos do conteúdo descritivo mínimo preenchidos — sinais e sintomas com exame abdominal e toque retal descritos; hemograma com data, e como há anemia, também volume corpuscular médio, ferritina e saturação da transferrina, que você solicita hoje; sangue oculto não realizado; laudos de imagem e de colonoscopia prévios, inexistentes neste caso; e a história familiar, registrando que o pai teve doença intestinal não esclarecida por volta dos 70 anos. Escreva a hipótese por extenso — neoplasia de cólon e reto — e a solicitação fundamentada nos termos do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012, que é o que aciona o prazo de até 30 dias para os exames de elucidação. Segundo: se o toque encontrar massa ou úlcera retal, encaminhe em paralelo, hoje, ao serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia, porque essa suspeita tem preferência e não espera o exame — e, se a lesão for de reto, o encaminhamento deve ser preferencialmente para hospital habilitado em oncologia com serviço de radioterapia, já que no reto médio e baixo localmente avançado o tratamento curativo começa com radioterapia neoadjuvante. Terceiro: complete o painel de ferro e trate a ferropenia em paralelo, conforme o capítulo de anemia ferropriva, sem que isso substitua a investigação. Quarto: trate a hemorroida sintomática, porque ela existe e incomoda — o manejo conservador é assunto do capítulo de doença hemorroidária —, deixando claro ao paciente que tratar a hemorroida e investigar o intestino são duas coisas que acontecem ao mesmo tempo, e que uma não cancela a outra. Quinto: marque retorno com data para conferir o agendamento e registre em toda evolução, com a data do pedido, que a colonoscopia está pendente. A frase que resume o caso e que vale levar para o plantão: hemorroida é diagnóstico de exclusão anatômica, feito depois de ver — e um paciente pode ter hemorroida e câncer ao mesmo tempo, que é justamente o motivo pelo qual a explicação fácil funciona por dez meses. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Doenças podem coexistir; mudança do hábito e emagrecimento exigem investigação do cólon. 2. Ele é sintomático. Critérios de rastreamento não funcionam como barreira para investigar sinais de alarme. 3. Não. Examina apenas a porção alcançável; lesões proximais exigem avaliação apropriada. 4. Suspeita de obstrução exige avaliação urgente e suporte; não se espera o caminho eletivo de colonoscopia e estadiamento. 5. Relação local com mesorreto, margens e estruturas adjacentes, entre outros dados de RM e estadiamento. A equipe define a sequência terapêutica. 6. Não termina no pedido. É preciso acompanhar agendamento, preparo, laudo, comunicação e encaminhamento, com responsável e retorno definidos.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O paciente reúne três manifestações clínicas suspeitas de neoplasia de cólon e reto: mudança persistente de hábito intestinal, sangramento retal e emagrecimento não explicado. Hematoquezia em paciente acima de 50 anos e hematoquezia com sinais de alarme são, cada uma isoladamente, condição que indica colonoscopia — ter hemorroida não cancela nenhuma delas, porque hemorroida coexiste e sangra do mesmo jeito. O toque retal é obrigatório e a sua descrição integra o conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, sendo o que permite à regulação priorizar. Sangue oculto nas fezes não é filtro de entrada em paciente sintomático: o documento nacional de rastreamento diz expressamente que suas recomendações não se aplicam a casos sintomáticos. Tomografia enxerga massa grande e perde a lesão pequena e curável. Adiar dois meses num quadro com sinais de alarme é adiar estádio.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Rastrear é buscar doença em quem não tem queixa; investigar é responder a uma queixa. No SUS, rastrear é FIT bienal, dos 50 aos 75 anos, em assintomático de risco padrão, com ponto de corte de 50 ng/mL e colonoscopia nos positivos. Investigar é colonoscopia direto, em qualquer idade, e nunca teste de sangue oculto. As três portas de entrada banais: anemia ferropriva sem causa em quem não menstrua, sangramento retal atribuído a hemorroida sem exame, e mudança persistente de hábito intestinal em adulto. Em toda uma dessas, faça o toque retal e descreva o que achou — tônus, lesão, distância da margem anal, mobilidade, conteúdo da luva — porque essa descrição é exigida no conteúdo mínimo do encaminhamento e é o que define a prioridade na regulação.

Em 30 dias

O encaminhamento é a prescrição deste capítulo: seis campos — sintomas com exame abdominal e toque retal; hemograma com data e, se houver anemia, VCM, ferritina e saturação; sangue oculto se realizado; laudos de imagem; laudos de colonoscopia e anatomopatológico; história familiar de primeiro grau com a idade ao diagnóstico. A fundamentação escrita é o que aciona os até 30 dias para exames de elucidação; a data do laudo patológico é o que faz correr os até 60 dias para o início do primeiro tratamento. Estadiamento por tomografia de tórax, abdome e pelve antes de qualquer tratamento, mais ressonância de pelve se for reto. No TNM, o que muda conduta: estádio I não recebe adjuvância; estádio II só recebe se houver fator de mau prognóstico (T4, obstrução ou perfuração ao diagnóstico, margem inadequada, menos de 12 linfonodos, histologia pouco diferenciada, invasão vascular, linfática ou perineural); estádio III tem indicação estabelecida; e estádio IV não exclui cirurgia com intenção curativa, que depende de extensão, sítio e ressecabilidade. Cirurgia de cólon: margens de cerca de 5 cm e mínimo de 12 linfonodos. Reto: excisão total do mesorreto, e a distância da margem anal decide amputação e colostomia definitiva.

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Agora atenda

Agora atenda o paciente que chega com a queixa fácil de acreditar. Ele traz um diagnóstico pronto — o dele ou o do último médico —, e vai oferecer a explicação de bandeja logo nos primeiros minutos. Seu trabalho é o mesmo do capítulo: perguntar o que ele não vai contar sozinho (o que mudou no hábito intestinal, há quanto tempo, quanto peso, quem na família), fazer a inspeção anal e o toque retal em vez de aceitar o rótulo, e sair da estação com o exame certo pedido e escrito de um jeito que consiga prioridade. Preste atenção em duas armadilhas: a tentação de pedir sangue oculto para quem já tem sintoma, e a de encerrar o caso quando o paciente disser que já tratou isso antes.

Câncer colorretal — Internato | OsceLabs