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Cirurgia GeralColoproctologia

O exame que ninguém quer fazer

Doença anorretal benigna: hemorroidas, fissura, abscesso e fístula

Examinar com consentimento, distinguir causas de dor e sangramento e reconhecer quando drenagem, biópsia ou encaminhamento não podem esperar.

Fontes deste capítulo

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto (Estratégia RegulaSUS). Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, versão digital 2021. Nove protocolos: hemorroidas, fissura anal, fístula anal, doença pilonidal, condiloma, suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior, ostomias, diarreia e constipação

Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Hemorróida: Diagnóstico. Projeto Diretrizes, Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 31 de janeiro de 2005. Participantes: Moreira JPT, Araújo SEA, Oliveira Jr O

Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Hemorróida: Manejo Não-Cirúrgico. Projeto Diretrizes, AMB/CFM. Elaboração final: 31 de janeiro de 2006. Participantes: Oliveira Jr O, Moreira JPT, Araújo SEA

Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Hemorróida: Tratamento Cirúrgico. Projeto Diretrizes, AMB/CFM. Elaboração final: 31 de janeiro de 2006. Participantes: Moreira JPT, Araújo SEA, Oliveira Jr O

Sociedade Brasileira de Coloproctologia; Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Fissura Anal: Manejo. Projeto Diretrizes, AMB/CFM. Elaboração final: 5 de março de 2008. Participantes: Araújo SEA, Oliveira Jr O, Moreira JPT, Salles RRV

01

Responda antes de ler

Segundo o protocolo brasileiro de regulação ambulatorial em Proctologia, qual destas situações indica encaminhamento imediato à Proctologia, sem exigir período prévio de tratamento clínico otimizado?

02

O paciente que você vai ver

Dez e vinte de uma terça-feira. A unidade fica num bairro que cresceu ao redor de uma olaria desativada. A sala 2 é sua hoje, com dezoito fichas e a preceptora atendendo na sala ao lado com a porta entreaberta. A ficha que está na sua mão diz, na letra da recepção: "hemorroida — retorno". É a terceira vez que essas duas palavras aparecem no prontuário do seu Eustáquio em oito meses, sempre escritas por médicos diferentes, sempre sem uma linha de exame físico embaixo.

Seu Eustáquio tem 61 anos, foi porteiro de escola por vinte e dois anos e hoje faz bicos consertando telhado. Ele entra devagar, senta-se de lado na cadeira, com o peso todo numa nádega só, e começa a conversa por onde não se esperava: "doutor, o sangue eu já me acostumei. O que eu não aguento mais é a dor."

A dor é o que mudou. O sangue, ele conta, apareceu no ano passado: vivo, avermelhado, marcando o papel e às vezes gotejando quando ele termina; jamais misturado à massa fecal, jamais escuro. Foi assim que ganhou o nome que trouxe hoje. Nas duas consultas anteriores saiu com pomada e com a orientação de comer mais fibra, e as duas vezes melhorou um pouco. Mas há cinco dias apareceu uma dor que não tem hora: não vem só na evacuação, não passa depois, não deixa ele sentar direito e ontem à noite não deixou dormir. Ele tomou dipirona de seis em seis horas e não resolveu.

Você olha a ficha de novo. Pressão 148 por 88, temperatura 37,8 °C, e um campo em branco onde deveria estar o exame. Nos três atendimentos, ninguém olhou. O rótulo atravessou oito meses de prontuário sem nunca ter sido conferido — e não porque alguém tenha sido negligente, mas porque o exame que confere esse rótulo é o exame que todo mundo adia: exige tirar a roupa de quem não quer tirar, fechar a porta, achar uma luz e pedir uma posição constrangedora. É mais rápido escrever a palavra.

E aqui está o que este capítulo vai defender, do começo ao fim: o rótulo "é hemorroida" não é errado com frequência. Seu Eustáquio provavelmente tem hemorroida mesmo. O problema é que a hemorroida interna, que é a que sangra, não dói — e a dor contínua que trouxe ele hoje pertence a outra lista, curta e específica, em que estão a trombose, a fissura e uma coisa que não pode ir para casa com receita: o abscesso perianal.

03

Quem adoece disso

Doença anorretal benigna é, ao mesmo tempo, altíssima em frequência e baixíssima em registro. O número de prevalência que circula em português vem de um estudo americano de 1990 citado pelo Projeto Diretrizes brasileiro: cerca de 4,4% da população geral com doença hemorroidária sintomática, com pico entre 45 e 65 anos, queda depois dos 65, e apresentação incomum antes dos 20. Nenhum dos documentos brasileiros lidos para este capítulo traz prevalência nacional. Quando alguém disser a você um percentual de brasileiros com hemorroida, vale perguntar de onde ele saiu.

O que muda conduta não é a prevalência, é a coincidência. O mesmo Projeto Diretrizes registra que a doença orificial — hemorroida, fissura, fístula, abscesso e condiloma — coexiste com lesões neoplásicas benignas e malignas do cólon e do reto em até 9,8% das vezes. Isto é: em cerca de um a cada dez pacientes que chegam com doença orificial, achar a doença orificial e parar ali significa deixar outra coisa para trás. Não é que a hemorroida esconda o tumor; é que os dois moram juntos com frequência suficiente para que encontrar um não seja resposta sobre o outro.

O sangramento hemorroidário quase nunca é volumoso. Isso importa por uma razão prática: quando aparece anemia no hemograma de alguém com doença orificial, a hemorroida é uma explicação estatisticamente ruim. O Projeto Diretrizes de 2005 tenta dar esse recado citando a incidência de anemia por sangramento hemorroidário, mas erra a escala em cem vezes ao reproduzir o número — a conta está aberta na nota de auditoria mais adiante. Corrigida, a incidência sustenta a regra que interessa: anemia em portador de hemorroida é motivo para investigar o cólon, não para culpar a hemorroida.

A fissura anal acomete adultos jovens, homens e mulheres em proporção semelhante, e localiza-se predominantemente na linha média posterior. Isso tem consequência de exame: a fissura típica está exatamente onde você vai olhar por último se afastar o glúteo com pressa. Fissura fora da linha média, múltipla, indolor ou sem hipertonia é outra história e vai para outra investigação.

Há um dado de processo que vale mais do que qualquer prevalência para o interno: a doença anorretal benigna é, no fluxo do SUS, uma condição de porta de entrada com desfecho quase inteiramente decidido na atenção primária. Os critérios brasileiros de encaminhamento exigem dois meses de tratamento clínico otimizado antes de a hemorroida e a fissura chegarem ao proctologista, o que significa que, para a maioria dos pacientes, o médico que vai tratar a doença é o que está na frente dele agora. Isso muda o peso da consulta: não é uma triagem para outra pessoa resolver, é o tratamento.

Sobre o abscesso anorretal e a fístula, o levantamento de fontes deste capítulo esbarrou num silêncio que é, ele mesmo, um achado: não há documento brasileiro em uso — nem do Ministério da Saúde, nem do Projeto Diretrizes — dedicado ao abscesso anorretal. O protocolo de regulação de Proctologia do RegulaSUS, de 2021, tem nove protocolos e nenhum deles é o abscesso anorretal; ele aparece só como pista de fístula e dentro do protocolo da doença pilonidal, que é a lesão de menor gravidade das duas. A regra brasileira que diz o que fazer com o abscesso perianal está num caderno de procedimentos da atenção primária, de 2011, e cabe em quatro linhas. Este capítulo as leva a sério.

04

Por que acontece o que acontece

Toda a semiologia deste capítulo cabe numa fronteira anatômica de poucos milímetros: a linha pectínea. Acima dela, o epitélio é colunar ou transicional e a inervação é visceral autônoma; abaixo, o epitélio é escamoso e a inervação é somática, rica em fibras de dor, temperatura e tato. É por isso que a mesma doença, um centímetro acima ou um centímetro abaixo, produz duas queixas completamente diferentes — e é por isso que a palavra "dor" é, no ânus, um dado topográfico antes de ser um sintoma.

O plexo hemorroidário interno fica acima da linha pectínea, é irrigado pela artéria retal superior e drena para o sistema porta pela veia mesentérica inferior. A maioria das pessoas tem três mamilos hemorroidários internos, nas posições anterior direita, posterior direita e lateral esquerda, o que segue as ramificações da artéria retal superior. Como a inervação ali é visceral, o paciente sente desconforto anal localizado, peso, sensação de esvaziamento incompleto — raramente dor com nome e endereço.

O plexo externo fica abaixo da linha pectínea, é irrigado pela artéria retal inferior, ramo da pudenda interna, e drena para as ilíacas internas e daí para a cava. Está em território somático. Uma trombose aqui dói de verdade, e a pele que a recobre transmite a dor com a mesma fidelidade com que a pele do dorso da mão transmitiria. Guarde a consequência de exame: quando o paciente aponta o dedo para um ponto e diz "é aqui", ele está descrevendo território somático, que fica abaixo da linha; quando descreve peso, incômodo difuso ou a sensação de não ter esvaziado tudo, está descrevendo território visceral, que fica acima. A precisão com que o paciente localiza o sintoma é, sozinha, um dado topográfico — e é de graça.

O mecanismo da doença hemorroidária propriamente dita é menos consensual do que os manuais sugerem, e o documento brasileiro exibe as duas leituras na mesma página sem escolher entre elas. Ele define hemorroida como dilatação varicosa das veias anorretais submucosas por pressão venosa persistentemente elevada — um modelo vascular — e, algumas linhas adiante, explica o prolapso como consequência do relaxamento do tecido conjuntivo entre a mucosa e a camada muscular do reto — um modelo mecânico, de coxim que desliza. Não são a mesma coisa: no primeiro, o alvo do tratamento é a pressão; no segundo, é a fixação. Boa parte da confusão terapêutica que o interno encontra vem daí.

A fissura anal começa como trauma direto: fezes endurecidas rompendo o canal anal distal, na linha média posterior, que é a região com menor reserva de perfusão. A fissura aguda é superficial, cerca-se de inflamação e a hipertonia do esfíncter que a acompanha é apenas secundária à dor. É aí que o ciclo se fecha sozinho: a dor contrai o esfíncter, o esfíncter reduz a perfusão da própria ferida, a ferida não cicatriza, e a evacuação seguinte rompe de novo. A fissura crônica é a que resiste às medidas higiênico-dietéticas por mais de seis semanas — úlcera de bordos irregulares, base endurecida e fibrosa, às vezes com as fibras circulares do esfíncter interno à mostra no fundo, e com dois acompanhantes que denunciam o tempo de doença: o plicoma sentinela na borda e a papila anal hipertrófica dentro do canal.

Entender esse ciclo é entender por que o tratamento tópico da fissura crônica não é analgésico. Nifedipina, diltiazem, dinitrato de isossorbida e trinitrato de glicerina, aplicados sobre a fissura e no canal anal, não são pomadas para aliviar: são relaxantes do esfíncter anal interno — uma esfincterotomia química, reversível, que devolve perfusão à ferida e permite que a fezes passe sem rasgar de novo. Anestésico tópico isolado alivia e não cicatriza; o próprio protocolo brasileiro registra que as medidas iniciais dão resultado clínico superior ao uso isolado de lidocaína 2% ou de corticoide tópico.

O abscesso anorretal tem origem nas glândulas do canal anal, cujos ductos desembocam na altura das criptas, junto à linha pectínea. Obstruído o ducto, a glândula infecta, e a coleção caminha pelos planos que encontrar: para fora, chegando ao subcutâneo perianal, onde é visível e palpável; para os lados, ocupando a fossa isquiorretal; ou para cima, entre os esfíncteres e acima do elevador, onde a pele externa continua absolutamente normal e a única pista é dor desproporcional e um toque retal doloroso de um lado só. A fístula é o que sobra quando esse trajeto epiteliza: um túnel entre a cripta de origem e a pele, que drena para sempre e não fecha com antibiótico. Nenhum documento brasileiro lido fixa uma classificação dos abscessos anorretais; a descrição acima é anatomia, e é assim que este capítulo a trata.

É por causa desses planos que o abscesso perianal não se comporta como o abscesso do braço. Na coxa, esperar a flutuação custa alguns dias de dor. No períneo, a mesma espera dá tempo à infecção de descolar fáscia, e a fasciite necrotizante que resulta — a gangrena de Fournier — tem uma característica traiçoeira descrita no manual de microbiologia do Ministério da Saúde: no início, o tecido que recobre a pele parece normal, tornando-se vermelho-azulado só conforme a doença progride. Quer dizer que a pele mente cedo. O que não mente é a dor desproporcional ao que se vê, a toxemia, a taquicardia, a crepitação e a evolução em horas. Diante disso, o exame não é para confirmar: é para levantar o telefone. Vale saber o que a microbiologia diz sobre esse quadro, porque explica por que antibiótico isolado não resolve: os agentes envolvidos são vários ao mesmo tempo — Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, Proteus mirabilis, enterococos e anaeróbios estritos —, e o pus pode drenar pela pele dos flancos ou por partes da ferida original, longe do ponto de partida. Uma infecção que caminha por planos e sai onde não entrou não se controla por via oral: controla-se removendo tecido.

Sala preparada para exame proctológico, com privacidade, maca coberta, iluminação e materiais organizados.
Privacidade, explicação, consentimento, posicionamento e iluminação fazem parte do exame. O preparo inclui os materiais necessários e a presença de acompanhante ou profissional de apoio conforme preferência e protocolo; o tempo do exame varia.
05

Como se apresenta de verdade

Quatro doenças moram no mesmo palmo de corpo e chegam com queixas que se sobrepõem: sangue, dor, secreção, coceira, caroço. Separá-las é quase inteiramente clínico, e a chave é a mesma linha pectínea do bloco anterior — qual queixa domina, e se dói.

Uma advertência que vale para as seis seções seguintes: nenhuma delas encerra a pergunta sobre o cólon. Achar a hemorroida explica o sangue daquele dia; não explica o sangue de oito meses em quem tem mais de 40 anos, nem anemia, nem hábito intestinal que mudou. Essa fronteira tem dono e está declarada na quinta seção do bloco seguinte.

A hemorroida interna: sangra e não dói

O sangramento hemorroidário tem assinatura: vermelho vivo, ao final da evacuação, no papel, escorrendo pelo vaso ou pingando, não misturado às fezes, intermitente, em pequena quantidade. Quem descreve sangue escuro, misturado à massa fecal, ou com muco e urgência, está descrevendo outra coisa e você já saiu deste capítulo.

A doença hemorroidária interna se classifica em quatro graus pelo comportamento do prolapso, e essa classificação não é acadêmica: é ela que o protocolo de regulação pede escrito no encaminhamento. Grau I sangra sem prolapsar; grau II prolapsa à evacuação e volta sozinho; grau III prolapsa e precisa de redução manual; grau IV está sempre prolapsado e a redução manual não funciona. Duas tabelas brasileiras em uso descrevem esses mesmos quatro graus com palavras diferentes, e a diferença cria um paciente sem classe — a conta está na tabela e na nota de auditoria do bloco de critérios.

Há ainda a divisão por localização — interna, externa ou mista — que também vai escrita no encaminhamento. A hemorroida externa fica abaixo da linha pectínea, é visível à inspeção e dói quando complica. A mista é o achado mais comum, e o tratamento se orienta pelo componente que predomina.

O que a hemorroida interna não faz é doer. Ela dá desconforto, peso, sensação de esvaziamento incompleto, prurido por umidade e muco. Se o paciente traz dor como queixa principal, o Projeto Diretrizes é explícito: atenção especial para a possibilidade de uma complicação — trombose hemorroidária aguda, fissura anal associada, ou o surgimento de um abscesso perianal. Essa frase é a espinha dorsal da consulta do seu Eustáquio.

O documento brasileiro fecha a seção do diagnóstico com uma lista de diferenciais que vale decorar, porque todos eles sangram, prolapsam ou coçam como hemorroida: neoplasia retal, sendo o adenocarcinoma a mais frequente; neoplasia do canal anal, principalmente o carcinoma epidermoide e o melanoma; condiloma acuminado perianal; pólipo retal, que pode sangrar e prolapsar; papila anal hipertrófica, que dá sangramento, prolapso e desconforto; prolapso retal, com desconforto, prurido e sangramento; fístula anorretal, com secreção e prurido; e fissura anal aguda ou crônica. Repare que nada nessa lista se resolve por interrogatório: todos exigem que alguém olhe.

Um caso à parte é a gestação e o puerpério, em que a doença hemorroidária sintomática aparece com frequência alta e costuma ser tratada com meia-atenção, tanto por quem faz o pré-natal quanto por quem atende a puérpera. O tratamento clínico otimizado é o mesmo e é justamente o que menos oferece risco: banho de assento, água, fibra, manejo da constipação e abolição do papel higiênico. O que muda é o cuidado com a prescrição — tópicos com corticoide e venoativos orais não têm respaldo para uso indiscriminado nesse contexto, e qualquer decisão de procedimento se adia, na maioria das vezes, para depois do parto, porque boa parte dos sintomas regride. Trombose hemorroidária no pós-parto imediato, com dor intensa e nas primeiras 48 a 72 horas, é a exceção em que a avaliação cirúrgica não espera.

Quando a hemorroida dói: trombose e a janela que se fecha

A trombose hemorroidária externa é um nódulo que aparece de uma hora para outra, geralmente depois de esforço evacuatório, de um dia de trabalho pesado ou de um parto. É tenso, arroxeado, extremamente doloroso ao toque e à pressão da cadeira, e a dor tem um comportamento característico: é máxima nos primeiros dias e depois cede sozinha, porque o coágulo organiza e reabsorve. É por isso que existe uma janela.

O protocolo brasileiro trata a trombose com banhos de assento, analgesia — incluindo anti-inflamatório não esteroidal, se não houver contraindicação —, suplementação de fibras e agentes tópicos. E acrescenta a exceção que vale a pena saber fazer: se os trombos forem grandes e muito dolorosos, cabe a incisão sob anestesia para retirá-los, e o próprio protocolo diz que o procedimento pode ser realizado na atenção primária, se o médico se sentir confortável e apto. Essa ressalva é honesta e deve ser lida como está: é permissão condicionada à competência, não convite.

A janela importa porque a excisão só compensa enquanto a dor está no auge. Depois que a dor começou a ceder espontaneamente, cortar troca uma dor que já está passando por uma ferida que vai doer. E há uma situação em que a decisão não é sua: necrose do mamilo trombosado manda encaminhar para avaliação com especialista em caráter de urgência.

A crise hemorroidária — o quadro agudo de prolapso doloroso, edemaciado, com trombose de múltiplos mamilos — segue a mesma lógica: analgesia oral com anti-inflamatório e banhos de assento, e encaminhamento urgente se durar muitos dias ou não aliviar nada com o tratamento clínico. A hemorroida encarcerada é a única condição hemorroidária que o protocolo manda direto para urgência ou emergência, sem tentativa clínica prévia.

A fissura: a dor que tem hora marcada

A fissura anal é a única das quatro em que a dor tem relógio. Ela vem durante a evacuação e continua depois dela, por minutos a horas, e os pacientes a descrevem quase sempre com a mesma imagem: vidro moído, lâmina, rasgo. Vem acompanhada de sangramento em pequena quantidade, nas fezes ou no papel — o que faz muita fissura ser batizada de hemorroida na primeira consulta.

O prurido anal é queixa frequente na fissura e é secundário à descarga de muco sobre a ferida perianal. Vale registrar porque o paciente às vezes chega falando só da coceira, e a coceira, sozinha, não sugere fissura a ninguém.

Aguda ou crônica é uma distinção de tempo e de aparência, e ela decide o tratamento. A aguda é uma solução de continuidade superficial, com inflamação ao redor, e a hipertonia esfincteriana que a acompanha é apenas secundária à dor. A crônica tem bordos irregulares, base endurecida e fibrosa, com as fibras circulares do esfíncter interno expostas no fundo, e costuma trazer plicoma sentinela e papila anal hipertrófica. O documento brasileiro define a crônica pelo relógio: a que se mantém resistente às medidas higiênico-dietéticas por mais de seis semanas.

A fissura atípica é a que muda de investigação: múltipla, localizada fora da linha média anterior ou posterior, sem hipertonia esfincteriana ou sem dor. Diante dela, o documento brasileiro manda pensar em doença de Crohn, retocolite ulcerativa, tuberculose, HIV, infecções sexualmente transmissíveis e carcinoma da borda anal, e investigar com exames endoscópicos, biópsia da lesão e sorologias. A doença perianal do Crohn e a fístula da doença inflamatória intestinal não são deste capítulo: são do capítulo de doença inflamatória intestinal, na apostila de Gastroenterologia. O que fica aqui é a obrigação de reconhecer a fissura que não parece fissura e mandá-la para lá.

Duas populações concentram fissura e costumam sair da consulta sem diagnóstico. A primeira é a puérpera: a fissura do pós-parto é comum, dói exatamente quando a mulher está com menos disponibilidade para se queixar, e some no meio das outras dores do período. A segunda é a criança, em que a fissura resulta de trauma direto pela evacuação de fezes endurecidas ou de prurido, secundário ou não a oxiuríase — e em que a queixa que chega é choro ao evacuar ou retenção voluntária, não dor anal. Em ambas, o exame é o mesmo, com a mesma exigência de dignidade e, na criança, com a presença do responsável.

Há ainda uma armadilha de sequência que vale isolar. Um paciente pode ter fissura e hemorroida ao mesmo tempo, e isso não é raro; a hemorroida é o que ele já sabia que tinha e a fissura é o que está doendo. Se você encerrar a inspeção no primeiro achado que reconhece, sai da sala com o diagnóstico que ele já trazia e sem o que explica a queixa de hoje. Percorra a circunferência inteira antes de nomear qualquer coisa, e descreva os dois achados separadamente no prontuário.

O abscesso: a única que não espera

A dor do abscesso anorretal não tem hora. É contínua, progressiva, piora dia a dia, não melhora depois de evacuar e não cede com analgésico comum. Pode vir com febre, com mal-estar e com retenção urinária. O paciente não consegue sentar, dorme mal e anda diferente. Essa descrição, colocada ao lado da dor da fissura, separa as duas em uma pergunta: a dor tem relação com a evacuação?

À inspeção, o abscesso perianal clássico é uma tumoração quente, endurecida, dolorosa, com rubor, às vezes já com descarga purulenta espontânea. Esse é o fácil. O difícil é o abscesso interesfincteriano ou supraelevador, em que a pele externa está normal e o único achado é dor intensa ao toque retal, tipicamente de um lado só, com abaulamento palpável na parede do canal. Quando a dor é grande e a inspeção é limpa, o dedo é o que salva o diagnóstico.

Flutuação é sinal tardio, e no períneo esperar por ela é erro. O Caderno de Atenção Primária n. 30 diz isso com todas as letras: na região perianal a drenagem se faz com urgência, não se espera apresentar sinal de flutuação, porque o risco de fasciite necrotizante é elevado; e, na dúvida quanto ao diagnóstico, encaminha-se com urgência para avaliação de um cirurgião. É a frase mais importante deste capítulo e ela vem de um documento nacional de 2011.

Antibiótico não trata abscesso. Ele não penetra a coleção, não a esvazia e, pior, melhora o aspecto externo o suficiente para comprar mais três dias de espera. O paciente que chega no quarto dia de cefalexina com a dor pior não falhou o antibiótico: ele recebeu o tratamento errado. O tratamento de escolha para abscesso, diz o mesmo caderno, independentemente da localização, é a drenagem cirúrgica.

Gangrena de Fournier é o desfecho que este capítulo existe para evitar, e o reconhecimento é do interno. Procure a desproporção: dor muito maior do que o achado visível, toxemia, taquicardia, febre alta, e a evolução em horas em vez de dias. Procure crepitação à palpação e área de anestesia cutânea sobre a lesão. Lembre que a pele, no início, pode parecer normal, e que ela se torna vermelho-azulada só quando a doença já progrediu. Diabetes, imunossupressão e neutropenia são os terrenos. Reconhecida a suspeita, o caminho é a sala de cirurgia: a incisão, o antimicrobiano e a primeira hora da gangrena de Fournier estão no capítulo de infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e o pacote de sepse é do capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. O que é seu é chegar à suspeita cedo e não perder tempo pedindo exame.

Vale saber onde a coleção pode estar, porque isso explica por que alguns abscessos são óbvios e outros passam despercebidos por dias. O perianal, logo abaixo da pele junto à borda anal, é o mais comum e o mais visível: abaulamento, rubor, calor, dor exquisita ao toque na pele. O isquiorretal ocupa a fossa lateral ao reto e dá um quadro mais difuso — uma nádega mais cheia que a outra, dor mal localizada, febre alta, e uma pele que demora a mudar de cor porque a coleção está funda. O interesfincteriano fica entre os esfíncteres, não faz abaulamento externo nenhum e se anuncia apenas por dor anal contínua e intensa com toque retal muito doloroso. O supraelevador, acima do músculo elevador do ânus, pode chegar a se apresentar como dor pélvica ou retenção urinária, com o períneo absolutamente normal. Quanto mais profunda a coleção, mais limpa é a inspeção e mais tarde vem o diagnóstico.

Duas consequências práticas dessa geografia. A primeira: dor anal contínua e intensa com inspeção normal não afasta abscesso — obriga ao toque retal, que é onde o abscesso alto aparece. A segunda: os abscessos profundos não são para drenar na unidade básica. O que se drena com anestesia local é a coleção superficial, bem delimitada, em paciente estável; o resto é centro cirúrgico, e reconhecer a diferença é parte do exame.

A fístula: a secreção que não fecha

A fístula anal é a sequela crônica do abscesso, e a história costuma vir pronta: "drenou faz oito meses, cicatrizou, e depois começou a sair uma secreção que não para". A queixa é secreção perianal persistente ou intermitente, mancha na roupa íntima, desconforto local, prurido, e episódios de dor que aumentam até drenar de novo — o abscesso que se repete no mesmo lugar.

À inspeção, procura-se o orifício externo: um ponto único ou múltiplo na pele perianal, às vezes com tecido de granulação, do qual se exprime secreção seropurulenta. O trajeto às vezes é palpável como um cordão sob a pele em direção ao ânus.

O critério brasileiro de encaminhamento é curto e generoso: caso suspeito — secreção perianal persistente ou abscessos anorretais recorrentes — ou confirmado de fístula anal vai para a Proctologia. Não há tratamento clínico a esgotar antes, ao contrário da hemorroida e da fissura: a fístula é cirúrgica desde o primeiro encaminhamento. E fístula anal com abscessos de repetição está na lista curta de condições que o protocolo manda priorizar na fila, à frente das outras condições proctológicas.

Duas coisas ficam de fora daqui e você deve dizer isso ao paciente e ao papel: fístula no contexto de doença inflamatória intestinal é do capítulo de doença inflamatória intestinal, e fístula colovesical de doença diverticular também tem outro dono. Sua obrigação é reconhecer o trajeto, escrever o que viu e não prometer que a pomada resolve.

Prurido anal, e o que não é doença orificial nenhuma

O prurido anal chega como queixa isolada com mais frequência do que se imagina, e quase sempre já vem com três pomadas na história. Ele é sintoma, não diagnóstico: pode ser secundário a fissura, a doença hemorroidária com umidade e muco, a fístula, a condiloma, a dermatite de contato pelo próprio tratamento, a oxiuríase em criança, e a incontinência de pequeno volume que ninguém contou.

Aqui mora uma armadilha terapêutica que o protocolo brasileiro sinaliza e que vale repetir: entre as formulações tópicas disponíveis, o protocolo prefere a que não contém corticoide, justamente porque o uso indiscriminado de corticoide pode acarretar outros problemas perianais. Um paciente que passa corticoide na região perianal por meses acaba com pele atrófica, dermatite e prurido pior — e com a certeza de que o problema é a hemorroida, porque foi para ela que a pomada foi prescrita.

Feita a inspeção, o toque e a anuscopia, se houver, sobram três destinos que não são deste capítulo, e cada um tem endereço. Sangramento com anemia, mudança persistente de hábito intestinal, emagrecimento, massa abdominal, tenesmo ou história familiar de neoplasia colorretal vão para o raciocínio do capítulo de câncer colorretal, que é o primeiro desta apostila. Sangue digerido, melena, vômito com sangue ou instabilidade vão para hemorragia digestiva alta, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. Dor abdominal com sinais de irritação peritoneal, distensão e parada de eliminações vão para o mapa do abdome agudo, em Urgência e Emergência Cirúrgica — o ânus não é a resposta para o abdome.

E há a fronteira menos óbvia: o paciente acamado, com constipação por imobilidade, que desenvolve fecaloma e sangra ao esforço. O manejo da constipação do paciente internado e o fecaloma são do capítulo sobre repouso e imobilismo, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. O que fica com você é a doença anorretal que aquele esforço produziu.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da doença anorretal benigna é quase toda física, e o exame que decide custa dois minutos, uma luva e uma luz. Nenhum dos quatro diagnósticos deste capítulo precisa de exame complementar para ser feito. O que precisa de exame complementar é a outra pergunta, a do cólon, e ela tem seção própria aqui embaixo.

Por isso a ordem das seções abaixo é a ordem real da consulta: primeiro montar o exame, depois olhar, depois tocar, depois decidir se o caso ainda precisa de anuscopia, depois decidir se precisa de colonoscopia, e por último saber quais exames não decidem nada.

Montar o exame — e a parte que é conteúdo, não etiqueta

O exame proctológico é o exame que o interno mais adia e é, quase sempre, o que resolve a consulta. A razão do adiamento raramente é técnica: é constrangimento, do paciente e do examinador. Tratar isso como boa educação é subestimar o problema. Conduzir o exame com dignidade é o que faz o exame acontecer — e um exame que não acontece não diagnostica nada.

A montagem cabe em cinco itens e nenhum depende de recurso: porta fechada e, se houver, biombo; um foco de luz que se possa dirigir, ou a lanterna do celular na mão de quem ajuda; um lençol ou campo para cobrir tudo o que não está sendo examinado; luva e gel lubrificante; e a oferta de um acompanhante ou de um profissional presente na sala, oferta que se faz e se registra, para o conforto do paciente e para a sua segurança.

Explique antes de tocar, e explique inteiro: o que você vai fazer, em que ordem, por que, quanto tempo leva e que ele pode pedir para parar a qualquer momento. Peça autorização em voz alta e espere a resposta. Depois, mantenha um fio de narração durante o exame — "agora vou afastar, agora vou pedir que faça força como se fosse evacuar" — porque o silêncio, num exame como este, é o que produz a sensação de invasão.

A posição de escolha na atenção primária é o decúbito lateral esquerdo com os quadris e joelhos fletidos, que é a mais fácil de assumir, a que menos expõe e a que qualquer maca comporta. A posição genupeitoral abre melhor a região posterior, mas é humilhante de pedir e desnecessária na maioria dos casos. Descubra apenas a região glútea, mantendo o resto coberto, e cubra de novo assim que terminar — antes de começar a falar sobre o achado, e nunca com o paciente ainda exposto.

Nem todo paciente consegue assumir a posição, e a saída não é desistir do exame. Quem tem obesidade importante, prótese de quadril, dor lombar aguda ou usa cadeira de rodas costuma conseguir o decúbito lateral com o quadril de cima menos fletido, com um travesseiro entre os joelhos, ou com um segundo profissional afastando a nádega superior enquanto você examina. Em quem não sai da cadeira, examina-se em decúbito lateral na própria maca com transferência assistida — e, se nada disso for possível naquele dia, isso vira o motivo escrito do encaminhamento, não um campo em branco.

Duas frases práticas fecham a montagem. A primeira: se o paciente recusa, isso é um dado e não um fim — registre a recusa, explique o que fica sem resposta sem o exame e ofereça de novo no retorno. A segunda: se o exame não foi feito, escreva que não foi feito e por quê. Prontuário com o campo de exame em branco é o que permitiu o rótulo do seu Eustáquio atravessar três consultas — e é, segundo o próprio protocolo de regulação, o conteúdo mínimo sem o qual o encaminhamento volta.

Inspeção: o que se vê afastando o glúteo

Afaste as nádegas com as duas mãos, sem pressa, e percorra a circunferência inteira do ânus como se fosse um relógio, começando pela posterior — que é onde está a fissura e é onde a pressa faz olhar por último. Depois peça um esforço evacuatório leve: é o que exterioriza o prolapso hemorroidário e o que abre a fissura o suficiente para vê-la.

O que a inspeção resolve sozinha: hemorroida externa e plicoma, hemorroidas internas prolapsadas, o nódulo tenso e arroxeado da trombose, a fissura na linha média, o orifício externo da fístula com secreção, o condiloma, a tumoração quente e endurecida do abscesso perianal, e a área de necrose ou de crepitação que muda o dia inteiro. Boa parte do capítulo termina aqui.

O que a inspeção não resolve: hemorroida interna não prolapsada, que não se vê; e abscesso interesfincteriano ou supraelevador, em que a pele está limpa. Nos dois casos a resposta está no passo seguinte.

Uma regra de ouro que vem do documento brasileiro e que evita fazer o paciente sofrer à toa: diante de lesão dolorosa, o exame digital deve ser evitado — o texto cita expressamente a fissura anal e a trombose hemorroidária aguda com flebite. Se você já viu a fissura e ela explica a dor, você já tem o diagnóstico; enfiar o dedo ali só confirma que dói. Adie o toque para o retorno, quando a dor tiver cedido, e escreva no prontuário que ele foi adiado e por quê.

O dedo: as quatro perguntas que ele responde, e a que ele nunca responde

Com luva e gel abundante, apoie a polpa do indicador sobre o ânus e espere alguns segundos antes de introduzir: o esfíncter relaxa sozinho se você não forçar, e forçar é o que produz dor e resistência. Entre lentamente, na direção do umbigo, e depois percorra a circunferência.

O toque responde quatro perguntas que valem a consulta. Primeira: tônus — de repouso e à contração voluntária. Hipertonia dolorosa aponta fissura; hipotonia num paciente que se queixa de escape aponta para incontinência, que é outra história. Segunda: massa e estenose — lesão vegetante, endurecimento, irregularidade, estenose. Terceira: dor localizada e abaulamento, que é como o abscesso alto se apresenta quando a pele está normal. Quarta: o que sai na luva — sangue vivo, sangue escuro, muco, pus, ou fezes de aspecto normal.

E aqui está a frase que mais muda o raciocínio do interno, e que está escrita no Projeto Diretrizes: hemorroidas internas assintomáticas não são diagnosticadas pelo toque retal, porque a mucosa anal tem consistência aveludada e o mamilo não faz relevo palpável. Ou seja: "toque retal sem alterações" não afasta hemorroida interna, e "toquei e senti a hemorroida" quase sempre é outra coisa — um pólipo, uma papila hipertrófica, um plicoma empurrado para dentro, ou um tumor.

Quando o esfíncter não relaxa, quase nunca é anatomia: é dor e é medo. Recue o dedo, espere, peça ao paciente que solte o ar devagar e que faça uma força evacuatória leve no momento da entrada — o reflexo de evacuar relaxa o esfíncter externo e transforma um exame impossível num exame desconfortável. Use mais gel do que parece necessário. Se ainda assim doer de forma desproporcional, isso deixou de ser dificuldade técnica e virou achado: hipertonia dolorosa aponta fissura, e dor intensa e lateralizada aponta abscesso alto. Registre o que impediu o exame com essas palavras, e não como "exame prejudicado".

Nos homens, o mesmo dedo alcança a próstata e é razoável descrevê-la, já que o exame está sendo feito. Isso não transforma a consulta em avaliação urológica: hiperplasia prostática benigna e sintomas do trato urinário inferior têm capítulo próprio na apostila de Urologia, e o que se registra aqui é apenas o achado.

Anuscopia: quem faz, e por que a fila importa

Hemorroidas internas são adequadamente visualizadas durante a anuscopia — é assim que o documento brasileiro fecha o assunto. O anuscópio é barato, o procedimento é rápido e não precisa de anestesia, mas ele não está na maioria das unidades básicas e não é habilidade que se improvise. Na prática do interno, a anuscopia é o que o especialista faz, e a consequência disso é que o grau da hemorroida interna, na atenção primária, é inferido pela história do prolapso e pela inspeção sob esforço, não visto.

Isso não é um detalhe burocrático, porque o protocolo de regulação pede a classificação escrita no encaminhamento — interna, externa ou mista, e o grau de I a IV para as internas. Escreva o que a história e a inspeção sustentam, com as palavras do próprio protocolo ("prolapso à evacuação com redução espontânea"), em vez de escrever um algarismo romano que você não pôde verificar.

Há um lugar onde a exigência de anuscopia deixa de fazer sentido, e é bom saber reconhecê-lo: o documento do Ministério da Saúde que regula o acesso à consulta especializada nos hospitais federais do Rio de Janeiro sugere, como exames complementares de encaminhamento, anuscopia e retossigmoidoscopia para todos os motivos coloproctológicos — inclusive para o abscesso perianal, ao lado de hemograma, coagulograma, bioquímica e exame de urina. Um paciente com abscesso perianal agudo não tolera anuscopia sem anestesia, e o tempo gasto tentando marcá-la é tempo que a coleção usa para caminhar. Se o seu serviço trabalha com uma lista assim, o caminho não é cumpri-la: é chamar o cirurgião.

Retossigmoidoscopia flexível e colonoscopia não são exames de doença orificial. Elas respondem à pergunta da seção seguinte.

Quando o exame local não encerra a pergunta do cólon

Esta é a fronteira mais importante do capítulo e ela é dividida com o vizinho. Rastreamento de câncer colorretal, indicação e intervalo de colonoscopia, estadiamento e cirurgia são do capítulo "Câncer colorretal", que é o primeiro desta apostila. O que fica aqui é uma decisão anterior e mais banal: a de não fechar a consulta no rótulo antes de olhar para cima.

O Projeto Diretrizes de 2005 dá quatro balizas que o interno pode carregar. Primeira: todo paciente acima de 40 anos com sangramento retal deve ser submetido a sigmoidoscopia flexível ou colonoscopia, para afastar tumores colorretais benignos ou malignos, doença inflamatória intestinal e doença diverticular. Segunda: abaixo de 40, a colonoscopia pode ser justificada, porque achados endoscópicos significativos aparecem em até 21% dos pacientes jovens com sangramento retal. Terceira: acima de 60 anos com sangramento retal, a investigação da origem do sangramento é obrigatória. Quarta, e a mais desconfortável: a ausência de sangramento retal não é fator preditivo da inexistência de câncer.

O protocolo do RegulaSUS chega ao mesmo lugar por outro caminho, e o faz numa caixa de advertência colocada no topo do protocolo das hemorroidas: diante de sangramento intestinal crônico que não decorra de doença orificial, anemia por deficiência de ferro sem causa definida, massa abdominal de topografia colônica ou retal, alteração persistente de hábito intestinal, dor abdominal ou retal, tenesmo, febre persistente, emagrecimento ou história familiar de neoplasia colorretal, sai-se do protocolo de hemorroidas e entra-se no de suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior. Repare na formulação: "sangramento não decorrente de doença orificial" — o que exige, para ser aplicada, que alguém tenha examinado a região orificial.

A síntese operacional cabe numa frase: achar a hemorroida não é resposta sobre o cólon; é resposta sobre o ânus. Os dois achados convivem em até 9,8% dos casos, e a consulta que termina com "é hemorroida mesmo" e nada mais é a consulta que este capítulo existe para não repetir.

Exames que não decidem nada aqui

Hemograma não faz nem afasta nenhum dos quatro diagnósticos. Ele serve a uma pergunta só, e é uma pergunta boa: há anemia? Se houver, a hemorroida é uma explicação estatisticamente frágil e a investigação do cólon deixa de ser opcional. Pedir hemograma "para ver a hemorroida" é gasto; pedir hemograma para checar anemia em quem sangra há meses é raciocínio.

Coagulograma aparece na lista de exames sugeridos do documento de 2015 para praticamente todos os motivos coloproctológicos, inclusive o abscesso. Ele não muda a indicação de drenagem de um abscesso perianal, não muda a urgência e não deve atrasá-la. Faz sentido pedi-lo em quem usa anticoagulante, em hepatopata e no pré-operatório programado; não faz sentido como condição para atender uma coleção que está progredindo.

Ultrassonografia transretal e ressonância magnética da pelve são exames de mapeamento de trajeto fistuloso e pertencem à decisão cirúrgica do especialista. Não cabe ao interno solicitá-los para "confirmar" uma fístula que o orifício externo e a história já anunciam, nem para decidir encaminhar — o critério de encaminhamento é clínico e aceita o caso apenas suspeito.

Cultura da secreção do abscesso não muda a conduta imediata, que é drenar. Ela tem lugar no imunossuprimido, na recidiva e quando se suspeita de agente incomum. E antibiótico também não é exame: o Caderno n. 30 reserva a antibioticoterapia para celulite coexistente, imunossupressão ou corpo estranho — e mesmo aí, ao lado da drenagem, nunca no lugar dela.

Há dois exames que valem a pena e que quase ninguém pede na hora certa. O primeiro é a glicemia, em todo abscesso perianal: diabetes é o terreno clássico da progressão para fasciite, a hiperglicemia piora a resposta imune local e o achado muda tanto o destino do paciente quanto o cuidado no pós-procedimento. Pedir glicemia capilar leva um minuto e não atrasa nada. O segundo é a investigação de imunossupressão — incluindo teste rápido para HIV, com aconselhamento — diante de abscesso anorretal recorrente, extenso ou em paciente jovem sem fator de risco aparente; a oferta do teste segue as regras do protocolo de infecções sexualmente transmissíveis e não substitui a conduta cirúrgica.

A regra geral que fecha a seção: exame que não muda o que você vai fazer hoje não é exame, é adiamento. Faça o teste antes de assinar: diga em voz alta qual seria o seu plano com o laudo alterado, e depois qual seria com o laudo limpo. Planos idênticos significam pedido dispensável — e, num quadro que caminha em horas, dispensável é pouco: é nocivo.

07

Fluxos, tabelas e o que não fecha nos documentos

Compare hemorroidas, fissura, abscesso e fístula pela relação com evacuação, evolução da dor, sangramento e secreção. Primeiro reconheça a urgência; depois examine com respeito e defina tratamento e retorno. As tabelas de comparação apoiam essa decisão, enquanto diferenças administrativas e apresentações comerciais ficam como consulta complementar.

  1. 1Queixa anorretal na porta: sangue, dor, secreção, coceira ou caroço. Antes de qualquer coisa, pergunte se há dor e como ela se comporta.
  2. 2A dor é contínua, progressiva, sem relação com a evacuação, e há febre ou toxemia? Trate como abscesso até prova em contrário e vá para o passo 3. Se não, siga para o passo 4.
  3. 3Suspeita de abscesso: avaliação e drenagem oportunas por profissional habilitado. A apresentação superficial pode ser clínica; dor profunda, exame inconclusivo, recorrência ou suspeita de doença complexa pode exigir imagem. O interno participa sob supervisão direta. Suspeita de infecção necrosante exige acionamento cirúrgico imediato.
  4. 4Monte o exame: porta fechada, luz dirigida, lençol, luva e gel, acompanhante oferecido. Decúbito lateral esquerdo com quadris e joelhos fletidos.
  5. 5Inspecione a circunferência inteira, começando pela posterior, e depois com esforço evacuatório leve. Nomeie o que viu.
  6. 6Toque e anuscopia dependem de consentimento e tolerância. Se a dor impedir exame adequado, não forçar; registrar e organizar analgesia, avaliação especializada ou exame sob anestesia conforme hipótese. Lesão dolorosa não pode servir de motivo para abandonar a investigação.
  7. 7Feche o diagnóstico local pela tabela das quatro doenças, e escreva no prontuário o que a inspeção e o toque mostraram, com essas palavras.
  8. 8Pergunte separadamente sobre o cólon: idade acima de 40 anos com sangramento, anemia sem causa, hábito intestinal que mudou, emagrecimento, massa, tenesmo, história familiar. Se qualquer resposta for sim, a investigação do cólon corre em paralelo — e ela é do capítulo de câncer colorretal.
  9. 9Prescreva o tratamento clínico otimizado que couber e marque o retorno com data. Fibras, água, banho de assento, abolição do papel higiênico, e o tópico que o caso pede.
  10. 10Tratamento clínico deve ter retorno definido. Persistência, diagnóstico duvidoso, sangramento relevante, lesão suspeita ou complicação permite antecipar encaminhamento; dois meses não constituem espera obrigatória. Fístula precisa de avaliação especializada, com urgência se houver abscesso ou repercussão sistêmica.

As quatro doenças no mesmo palmo: o que separa

DoençaA dorO sangueO que a inspeção mostraO que decide
Hemorroida internaNão dói. Dá peso, desconforto e sensação de esvaziamento incompletoVermelho vivo, ao final da evacuação, no papel ou pingando, não misturado às fezesNada, se não prolapsa; mamilo exteriorizado ao esforço, se prolapsaHistória do prolapso e inspeção sob esforço; anuscopia confirma
Hemorroida externa trombosadaDói muito, súbita, máxima nos primeiros dias, depois cede sozinhaPouco ou nenhum; pode sangrar se ulcerarNódulo tenso, arroxeado, muito doloroso ao toque, abaixo da linha pectíneaInspeção. A decisão é sobre a janela de excisão, não sobre o diagnóstico
Fissura analDói durante e depois de evacuar, por minutos a horas; descrita como vidro moído ou lâminaPequena quantidade, no papel ou raiando as fezesSolução de continuidade na linha média posterior; na crônica, bordos fibrosos, plicoma sentinelaInspeção com esforço leve. Toque adiado se a lesão dói
Abscesso anorretalDói continuamente, piora dia a dia, sem relação com a evacuação, não cede com analgésicoAusente em geral; pode haver secreção purulentaTumoração quente, endurecida, com rubor; ou pele NORMAL, se o abscesso é altoInspeção e, quando a pele está limpa, o toque retal doloroso de um lado só
Fístula analDói só quando o trajeto obstrui e reforma abscessoAusente; o que sai é secreção seropurulentaOrifício externo perianal, às vezes com granulação; cordão palpávelInspeção e história de abscesso prévio ou de secreção persistente
Prurido analNão dói; coça, e coça mais à noiteAusente, ou pequeno por escoriaçãoPele perianal escoriada, liquenificada ou atrófica pelo corticoide usado por conta própriaProcurar a causa: as cinco linhas acima, dermatite de contato, oxiuríase, escape fecal

Hemorroida interna: as duas tabelas brasileiras em uso não dizem a mesma coisa

GrauProjeto Diretrizes SBCP/AMB/CFM, 2005RegulaSUS Proctologia Adulto, 2021
IOcorre apenas o sangramento anal, sem prolapsoSangramento, sem prolapso durante a evacuação
IISangramento e prolapso, com redução espontâneaProlapso à evacuação, com redução espontânea para o canal anal
IIISangramento e prolapso, com redução manualProlapso à evacuação, com necessidade de redução manual para o canal anal
IVSangramento e prolapso irredutívelSempre prolapsadas, redução manual inefetiva
Origem declaradaDennison et al., 1989Duncan et al., Medicina ambulatorial, 4. ed., 2013
O paciente que prolapsa e NÃO sangraNão tem classe: os quatro graus exigem sangramentoClassifica-se normalmente pelo comportamento do prolapso

Apresentações e acesso aos medicamentos para doença anorretal — Rename 2024

O que o protocolo brasileiro prescreveConsta na Rename 2024?Componente e forma
Lidocaína gel isolada, 3 a 4 vezes ao dia (a saída 'se recursos limitados')SimBásico — cloridrato de lidocaína 20 mg/g (2%) gel
Suplementação de fibras, 20 a 35 g por diaSimBásico — plantago (Plantago ovata Forssk.), 3 a 30 g dose diária, pó para dispersão oral, granulado ou pó efervescente
Manejo da constipação associadaSimBásico — lactulose 667 mg/mL xarope; glicerol 120 mg/mL solução retal e supositório de 81 e 92 mg; óleo mineral para uso oral
Cinchocaína + policresuleno (a formulação que o protocolo PREFERE, por não ter corticoide)NãoNenhuma das duas substâncias consta
Lidocaína + fluocortolona, ou lidocaína + hidrocortisona, uso perianalNãoFluocortolona não consta; hidrocortisona consta só como creme dermatológico 1% e como succinato injetável
Diosmina 450 mg + hesperidina 50 mg, 12/12 h (venoativos)NãoNenhuma das duas substâncias consta
Nifedipina tópica 0,2 a 0,3%, para fissura crônicaNão, na forma prescritaNifedipino consta só como cápsula e comprimido de 10 mg, via oral
Diltiazem tópico 2%, para fissura crônicaNãoDiltiazem não consta em nenhuma forma
Dinitrato de isossorbida 1% intra-anal, para fissura crônicaNão, na forma prescritaConsta só como comprimido sublingual de 5 mg
Trinitrato de glicerina 0,2% intra-anal, para fissura crônicaNãoNão consta em nenhuma forma
Toxina botulínica no esfíncter, para fissura crônica refratáriaSim, mas não para esta indicaçãoEspecializado — toxina botulínica A 100 U e 500 U, com documentos norteadores de distonias e espasmo hemifacial e de espasticidade
Analgesia, incluindo anti-inflamatório não esteroidalSimBásico — dipirona, paracetamol, ibuprofeno
Antibiótico, quando indicado ao lado da drenagemSimBásico — metronidazol 250 e 400 mg, ciprofloxacino 250 e 500 mg, amoxicilina + clavulanato 500 + 125 mg
Anestésico local para a drenagemSimBásico — cloridrato de lidocaína 1% e 2% injetável; bupivacaína 0,25% e 0,5% injetável

mg ↔ mL ↔ frasco e comprimido, num adulto de 70 kg — recalculado contra a apresentação de bula

PrescriçãoConcentração realA contaEquivale a
Lidocaína 1% sem vasoconstritor, infiltração para drenar abscesso — teto de bula10 mg/mLteto de 300 mg ÷ 10 mg/mL = 30 mL1,5 frasco-ampola de 20 mL
A mesma infiltração, se seguida a dose de 7 a 10 mg/kg do Caderno n. 3010 mg/mL490 a 700 mg ÷ 10 mg/mL = 49 a 70 mL2,45 a 3,5 frascos-ampola de 20 mL — 1,6 a 2,3 vezes o teto da bula
Lidocaína 2% sem vasoconstritor — mesmo teto de 300 mg20 mg/mL300 mg ÷ 20 mg/mL = 15 mL0,75 frasco-ampola de 20 mL
Lidocaína gel 2% perianal, bisnaga de 30 g20 mg/g30 g × 20 mg/g = 600 mg na bisnagacerca de uma bisnaga por semana, em 3 a 4 aplicações diárias finas
Metronidazol 400 mg, 3 vezes ao dia por 7 dias (analgesia pós-hemorroidectomia aberta)400 mg/comprimido1.200 mg/dia × 7 dias = 8.400 mg21 comprimidos de 400 mg no curso
Diosmina 450 + hesperidina 50, 1 comprimido 12/12 h500 mg/comprimido2 comprimidos/dia = 1.000 mg/dia60 comprimidos por mês — fora da Rename, custo do paciente
O mesmo, na crise, 1 comprimido 6/6 h500 mg/comprimido4 comprimidos/dia = 2.000 mg/diadobro do consumo, mesma ausência de cobertura
Lactulose 667 mg/mL, 15 mL667 mg/mL15 mL × 667 mg/mL = 10.005 mgcerca de 10 g de lactulose por dose
Nifedipina tópica 0,2% manipulada, pote de 30 g2 mg/g30 g × 2 mg/g = 60 mg no potemanipulação — não há apresentação industrial nem cobertura pela Rename
Diltiazem tópico 2% manipulado, pote de 30 g20 mg/g30 g × 20 mg/g = 600 mg no potemanipulação — a substância não consta da Rename em forma alguma

Anemia e sangramento. A incidência de anemia importante atribuída à doença hemorroidária é baixa na referência citada. A presença de hemorroida não encerra a investigação da anemia. Não use uma transcrição de incidência com denominador diferente para apresentar esse achado como esperado.

Lidocaína sem vasoconstritor. A bula citada limita a dose individual a 4,5 mg/kg, em geral sem ultrapassar 300 mg. Na solução a 1%, 300 mg correspondem a 30 mL. Calcule o limite em miligramas e só depois converta para o volume da apresentação disponível.

Concentração e volume. Sessenta mililitros a 0,5% contêm 300 mg; o mesmo volume a 1% contém 600 mg. Um volume de uma linha de tabela não pode ser aplicado indistintamente a duas concentrações. Inclua o total de anestésico no planejamento do procedimento.

Abscesso perianal. Ausência de flutuação não justifica adiar a avaliação do quadro descrito. Uma técnica geral de drenagem de abscesso superficial não resolve sozinha a abordagem de toda infecção perianal. Reconheça a extensão, a repercussão e os limites do local de atendimento.

Graduação da doença hemorroidária. Descreva o comportamento do prolapso e o sangramento separadamente. Isso permite compreender o caso mesmo quando classificações transcritas usam formulações diferentes. O encaminhamento deve apresentar o achado, além do grau atribuído.

Fissura aguda e crônica. Taxas de cicatrização dependem do grupo e do tratamento estudados. Não combine a resposta de fissuras agudas e crônicas em uma previsão única. Registre aspecto, duração, tratamento realizado e evolução, para que o resultado possa ser interpretado.

Prazos de tratamento e encaminhamento. Seis semanas, oito semanas e dois meses aparecem em contextos diferentes nas referências. A data inicial, o aspecto da fissura e a adequação do tratamento ajudam a interpretar esses marcos; o calendário não substitui a avaliação clínica.

Localização. Percentuais de fissura posterior e anterior podem vir de populações com distribuição diferente por sexo. Use a localização para descrever a lesão e organizar a avaliação, sem somar faixas de origens distintas.

Leitura da prescrição. Diosmina de 450 mg e hesperidina de 50 mg totalizam 500 mg na apresentação citada. Metronidazol de 400 mg três vezes ao dia por sete dias corresponde a 21 comprimidos. A conta ajuda a conferir a receita quando o regime tiver indicação; não cria indicação por si só.

Acesso à urgência. Protocolos de consulta e técnicas de procedimentos têm finalidades diferentes. A ausência do abscesso numa lista de encaminhamentos eletivos não modifica a necessidade de avaliar e tratar a urgência apresentada no capítulo.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo tem duas velocidades, e a primeira decisão da consulta é escolher entre elas. A pergunta é sobre a dor: se ela é contínua, progressiva e não tem relação com a evacuação, o caso é de hoje. Todo o resto tem semanas.

Os marcos abaixo seguem a consulta do seu Eustáquio, que chegou com as duas coisas ao mesmo tempo: uma doença hemorroidária de oito meses nunca examinada e uma dor de cinco dias que não pertencia a ela.

  1. Consulta índice — os primeiros cinco minutos

    Antes de qualquer exame, a anamnese dirigida separa as duas velocidades. Pergunte como a dor se comporta em relação à evacuação, se há febre, se piorou dia a dia, e se está pior hoje do que ontem. Pergunte pelo sangue: cor, momento, se está misturado às fezes. Pergunte pelo prolapso: sai? volta sozinho? você empurra? fica fora? Pergunte pelo hábito intestinal, por perda de peso e por história familiar. Esses três blocos de pergunta decidem, respectivamente, se o caso é de hoje, qual é o grau que vai no encaminhamento, e se a pergunta do cólon está aberta.

    Prescrição
    • Registrar em texto livre: comportamento da dor em relação à evacuação; presença de febre; velocidade de piora
    • Registrar: cor do sangue, momento em relação à evacuação, se está ou não misturado às fezes
    • Registrar: prolapso — ausente, reduz espontaneamente, reduz manualmente, irredutível
    • Registrar: alteração persistente de hábito intestinal, emagrecimento, história familiar de neoplasia colorretal
  2. Consulta índice — o exame, ainda hoje

    Monte e faça. Porta fechada, luz dirigida, lençol, luva, gel, acompanhante oferecido, decúbito lateral esquerdo. Inspecione a circunferência inteira, depois com esforço evacuatório leve. Toque retal, exceto se houver lesão dolorosa visível. No caso do seu Eustáquio, a inspeção encontra plicomas e um mamilo que exterioriza ao esforço e volta sozinho — e, na posição lateral esquerda, uma tumoração endurecida, quente e exquisitamente dolorosa a três centímetros da borda anal, sem flutuação. Não é a hemorroida que dói.

    Prescrição
    • Descrever a inspeção anal em palavras, não em rótulo: o que se vê, onde, e o que aparece ao esforço
    • Descrever o toque retal: tônus de repouso e de contração, massa, dor localizada, conteúdo da luva
    • Se o toque foi adiado por lesão dolorosa, escrever que foi adiado e por quê
    • Nomear o achado dominante e o achado secundário separadamente
  3. Consulta índice — a bifurcação

    Com uma tumoração perianal quente, endurecida e dolorosa, com febre de 37,8 °C, o caso saiu do trilho ambulatorial. Não se pede exame para confirmar abscesso perianal, não se espera flutuação e não se prescreve antibiótico para reavaliar em uma semana. A decisão é sobre onde drenar, não sobre se drena. Coleção superficial, bem delimitada, em paciente estável, e médico apto: drena-se na unidade. Coleção extensa, mal delimitada, paciente diabético descompensado, imunossuprimido, toxêmico, ou qualquer dúvida diagnóstica: cirurgião, com urgência, hoje. Há uma terceira saída, e é a mais honesta quando cabe: não estou seguro do diagnóstico, e por isso encaminho. O caderno nacional autoriza essa saída expressamente, e usá-la é melhor do que tentar um procedimento acima da própria mão — drenagem insuficiente é pior do que nenhuma, porque compra a mesma demora com aparência de tratamento feito. O que não é saída, em nenhuma das três hipóteses, é mandar para casa com receita.

    Prescrição
    • Não solicitar anuscopia, retossigmoidoscopia ou coagulograma como condição para drenar
    • Aferir glicemia capilar e sinais vitais completos antes de decidir o local do procedimento
    • Se houver dor desproporcional ao achado, crepitação, necrose ou toxemia: acionar cirurgia e transporte imediatamente
    • Registrar a hora da decisão e o nome de quem foi acionado
  4. Consulta índice — a drenagem, se for na unidade

    A técnica do Caderno de Atenção Primária n. 30 é a referência nacional e cabe resumi-la pelo que ela decide: antissepsia, campo estéril, bloqueio de campo regional a cerca de 1 cm do perímetro da lesão e ao longo da linha de incisão projetada, incisão longa e profunda o bastante para drenagem espontânea, quebra das loculações com pinça hemostática, irrigação com soro fisiológico e dreno de Penrose ou gaze deixando 1 a 2 cm para fora, para impedir que a incisão sele. Incisão pequena é a causa número um de recidiva. Atenção à dose do anestésico: use o teto da bula, não o número do caderno — a conta está na nota de auditoria. Duas advertências de execução completam a técnica. A primeira: a anestesia local é para a pele, para permitir a abertura, e não para dentro da cavidade — anestésico injetado no meio do pus não anestesia e espalha. A segunda: depois que o pus sai espontaneamente, não esprema a pele em volta, porque isso empurra a infecção para o subcutâneo adjacente; a limpeza se faz quebrando as loculações com a pinça e irrigando, não comprimindo. E oriente o retorno ativo: o paciente precisa saber quais sinais o trazem de volta antes da data marcada, e ouvir isso em palavras que ele repetiria para alguém de casa.

    Prescrição
    • Lidocaína 1% sem vasoconstritor, teto de 300 mg no adulto, o que corresponde a 30 mL da solução a 1%
    • Incisão longa sobre a área de maior abaulamento, seguida de quebra digital ou instrumental das loculações
    • Irrigação com soro fisiológico 0,9% e colocação de dreno de Penrose com 1 a 2 cm exteriorizados
    • Curativo com gaze; retorno em 24 a 48 horas para retirada do dreno e reavaliação da ferida
    • Antibiótico apenas se houver celulite coexistente, imunossupressão ou corpo estranho — nunca no lugar da drenagem
  5. Consulta índice — a doença hemorroidária, que continua existindo

    Resolvido o que era urgente, o que era crônico não desaparece. O tratamento clínico otimizado que o protocolo brasileiro define tem quatro itens e nenhum é medicamento: banhos de assento em água morna por 10 a 15 minutos, 2 a 4 vezes ao dia e após evacuar; ingesta hídrica de 1,5 a 2 litros por dia; 20 a 35 g de fibra por dia; e abolição do papel higiênico, com limpeza por água morna e sabonete neutro. O tópico entra como sintomático, e o protocolo prefere a formulação sem corticoide; onde o recurso é limitado, lidocaína gel isolada, 3 a 4 vezes ao dia conforme necessidade — que é, aliás, a única dessas opções que a Rename cobre.

    Prescrição
    • Banho de assento em água morna, 10 a 15 minutos, 2 a 4 vezes ao dia e após cada evacuação
    • Água: 1,5 a 2 litros por dia, com a quantidade escrita e não apenas 'beber bastante'
    • Fibra: 20 a 35 g por dia; plantago 3 a 30 g por dia em dose diária dividida está na Rename, componente básico
    • Abolir papel higiênico; limpeza com água morna e sabonete neutro
    • Lidocaína gel 2%, aplicação fina perianal, 3 a 4 vezes ao dia conforme a dor
    • Manejar a constipação, se presente: lactulose 667 mg/mL ou supositório de glicerol, ambos na Rename
  6. Retorno em 24 a 48 horas — quem drenou

    Reavalie dor, febre, eritema e drenagem e procure cavidade residual ou extensão. Se foi colocado dreno, a retirada depende do tipo, do objetivo e do plano do responsável, não de rotina no dia seguinte. Piora exige avaliação de controle do foco; ajustes antimicrobianos podem acompanhar essa avaliação, mas não substituem drenagem adequada.

    Prescrição
    • Marcar a borda do eritema com caneta na primeira avaliação, para comparar objetivamente no retorno
    • Retirar o dreno de Penrose e inspecionar se a cavidade esvaziou
    • Orientar compressas mornas por 15 minutos, 4 vezes ao dia, e troca diária do curativo
    • Reencaminhar imediatamente se houver avanço do eritema, dor crescente, febre nova ou crepitação
  7. Semana 2 a 8 — o relógio do tratamento clínico

    É aqui que a consulta seguinte se prepara. Para a doença hemorroidária, o protocolo brasileiro exige tratamento clínico otimizado por dois meses antes de encaminhar — e é obrigação sua garantir que esses dois meses tenham sido de fato de tratamento, e não de espera. Para a fissura, as medidas iniciais e, na crônica ou na que não melhora, o tópico relaxante do esfíncter: nifedipina 0,2 a 0,3% duas a quatro vezes ao dia, ou diltiazem 2% três vezes ao dia, ou dinitrato de isossorbida 1% duas vezes ao dia, ou trinitrato de glicerina 0,2% duas vezes ao dia, todos por oito semanas e todos por manipulação — nenhum deles tem apresentação industrial coberta pela Rename. Diga isso na hora de entregar o papel; deixar que ele descubra no balcão custa o tratamento inteiro. Para a trombose hemorroidária, o relógio é outro e mais curto: a dor é máxima nos primeiros dias e cede sozinha à medida que o coágulo organiza, de modo que a excisão só compensa enquanto a dor está no auge. Passado esse ponto, cortar troca uma dor que já está passando por uma ferida que vai doer — e o tratamento clínico com banho de assento, analgesia e tópicos leva ao mesmo lugar em algumas semanas.

    Prescrição
    • Fissura aguda: apenas as medidas iniciais, com retorno marcado em 3 semanas
    • Fissura crônica ou persistente: acrescentar um relaxante tópico do esfíncter interno por 8 semanas
    • Avisar por escrito que o tópico da fissura é manipulado e não está na Rename; oferecer alternativa se o custo inviabilizar
    • Advertir sobre cefaleia como efeito adverso esperado dos doadores de óxido nítrico
    • Marcar retorno com data, não 'se piorar'
  8. Mês 2 — o encaminhamento, se ainda for preciso

    O encaminhamento é a prescrição final deste capítulo e o protocolo brasileiro diz exatamente o que ele deve conter. Para hemorroidas: sinais e sintomas com descrição da inspeção anal e do toque retal, classificação em interna, externa ou mista, grau de I a IV das internas, e os tratamentos já realizados com tempo de duração. Para fissura: os mesmos dois primeiros itens, mais a presença de comorbidade orificial, a presença de alteração de hábito intestinal e os tratamentos realizados. Para fístula, o encaminhamento é imediato, sem tratamento clínico a esgotar, e o caso apenas suspeito já basta. E escreva a expectativa: o protocolo pede que o médico assistente diga o que espera do encaminhamento, e "avaliação de ligadura elástica" ou "avaliação de esfincterotomia" informa a regulação de um jeito que "avaliar" não informa. Por fim, oriente o paciente a levar à primeira consulta especializada o documento de referência, as receitas do que está usando e os exames recentes — é uma instrução do próprio protocolo e evita que a consulta conquistada em dois meses se gaste em recontar a história.

    Prescrição
    • Hemorroidas: encaminhar após 2 meses de tratamento clínico otimizado sem resposta
    • Fissura: encaminhar se recorrente ou refratária a 2 meses de tratamento otimizado, ou se houver fístula associada
    • Fístula anal suspeita ou confirmada: encaminhar de imediato, e sinalizar prioridade se houver abscessos de repetição
    • Hemorroida encarcerada: urgência ou emergência, no mesmo dia
    • Preencher o campo de exame físico com a descrição da inspeção e do toque — é o campo que mais falta e o que mais devolve pedido
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Como saber se está funcionando

Reavaliar doença anorretal benigna é, na maior parte das vezes, reavaliar sintoma. Mas há quatro parâmetros que não são sintoma e que mudam decisão sozinhos: a extensão do eritema perianal marcada a caneta, a hemoglobina de quem sangra há meses, o cumprimento real do tratamento otimizado e a data de retorno que foi ou não marcada.

A pergunta silenciosa que atravessa todos eles é a mesma da consulta índice: alguma coisa aqui ainda pertence ao cólon?

Extensão do eritema e da induração perianal, depois de drenadoMarcada a caneta no dia da drenagem; reavaliada em 24 a 48 horas e depois a cada 48 horas até resolver

Esperado: Eritema estacionário ou retraído em relação à marca, dor em queda a partir das primeiras 12 horas, cavidade que esvaziou, sem febre nova

Se não melhora: Eritema além da marca, dor que volta a subir depois de ter caído, febre nova ou crepitação significam drenagem insuficiente ou progressão para plano profundo. Reencaminhar para reabordagem cirúrgica no mesmo dia. Trocar de antibiótico sem reabordar a coleção é o erro que transforma abscesso em fasciite. E há um seguimento que quase ninguém marca: parte dos abscessos drenados evolui para fístula, de modo que o paciente deve ser revisto algumas semanas depois da cicatrização, com uma pergunta única — a ferida fechou e parou de sair secreção? Secreção perianal que persiste ou reaparece depois de cicatrizada já é caso suspeito de fístula, e caso suspeito basta para o encaminhamento imediato, sem prazo a cumprir

Dor da fissura na evacuaçãoEm 3 semanas para a fissura aguda; em 8 semanas para a crônica em tratamento tópico

Esperado: Queda progressiva da dor, com evacuações menos temidas e sangramento que desaparece antes da dor. A fissura aguda cicatriza com o regime conservador em três semanas numa parcela expressiva dos casos

Se não melhora: Conferir primeiro a adesão às medidas iniciais e ao manejo da constipação, que é onde a falha costuma estar. Depois estender o tópico além das oito semanas ou trocar a classe — nitrato por bloqueador de canal de cálcio, ou o contrário. Se a fissura é atípica, refratária, múltipla ou fora da linha média, a investigação muda de rumo e a doença perianal do Crohn é do capítulo de doença inflamatória intestinal

Cefaleia em quem usa doador de óxido nítricoPerguntar ativamente no primeiro retorno após iniciar dinitrato de isossorbida ou trinitrato de glicerina tópicos

Esperado: Ausente, ou leve e tolerável com analgésico simples, sem interromper o tratamento

Se não melhora: Cefaleia é o principal efeito colateral dos nitratos tópicos e pode ocorrer em parcela substancial dos pacientes, sendo significativamente mais frequente do que com bloqueador de canal de cálcio. Se limitar o uso, trocar de classe em vez de abandonar o tratamento — a troca de classe está prevista no próprio protocolo

Sangramento e hemoglobina em quem sangra há mesesHemograma na consulta índice se houver sangramento crônico, palidez ou sintomas de anemia; repetido conforme o resultado

Esperado: Hemoglobina normal. Sangramento hemorroidário quase nunca é volumoso, e anemia importante por essa causa é evento raro

Se não melhora: Anemia ferropriva sem causa definida em portador de doença orificial não é explicada pela doença orificial. Abrir a investigação do cólon em paralelo, sem esperar o resultado do tratamento da hemorroida. O rastreamento, a indicação de colonoscopia e o que fazer com o resultado são do capítulo de câncer colorretal

Cumprimento real do tratamento clínico otimizadoA cada retorno, e obrigatoriamente antes de assinar o encaminhamento aos dois meses

Esperado: Banho de assento feito na frequência prescrita, água e fibra na quantidade prescrita, papel higiênico abolido, constipação manejada, tópico usado como orientado

Se não melhora: Dois meses de espera não são dois meses de tratamento otimizado, e encaminhar sem eles devolve o pedido. Perguntar item por item, porque 'segui tudo' quase sempre significa que o paciente comprou a pomada e não mudou o resto. Se o obstáculo é custo do tópico manipulado, isso é informação clínica e vai escrita no encaminhamento

Prolapso: mudou de comportamento?A cada retorno, com a mesma pergunta em três partes

Esperado: Estável ou em redução, com o mesmo vocabulário em todas as consultas. O grau escrito no prontuário deve ser o de hoje, não o da primeira consulta — e deve usar as palavras do protocolo, e não um algarismo romano que ninguém verificou

Se não melhora: Progressão para redução manual necessária, ou para prolapso irredutível, é argumento objetivo para o encaminhamento e deve ir escrito com essas palavras. Prolapso irredutível, doloroso e edemaciado configura hemorroida encarcerada e vai para urgência no mesmo dia, não para a fila

Data do retorno e da consulta especializadaVerificada ao final de cada consulta, antes de o paciente sair da sala

Esperado: Retorno com data marcada no sistema, não 'se piorar'; encaminhamento emitido com todos os campos preenchidos e com número de protocolo

Se não melhora: Se o pedido voltou, o campo que costuma faltar é a descrição da inspeção anal e do toque retal — o mesmo campo em branco que deixou o rótulo do paciente atravessar três consultas. Reemitir no mesmo dia com o campo preenchido, em vez de devolver o paciente à fila do zero

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Onde o erro machuca

Aceitar a dor como parte da hemorroida

O dano: É o erro-assinatura deste capítulo. A hemorroida interna, que é a que sangra, não dói — a inervação acima da linha pectínea é visceral. Quando o paciente com rótulo de hemorroida chega com dor, a dor pertence a outra lista: trombose, fissura associada ou abscesso perianal. Tratar a dor como agravamento da hemorroida prescreve pomada para quem precisava de bisturi, e o preço é medido em esfíncter.

Como pegar a tempo: Faça da dor uma pergunta topográfica antes de ser um sintoma. Pergunte se ela tem relação com a evacuação: se tem hora, pense em fissura; se não tem hora e piora dia a dia, pense em abscesso; se apareceu de repente e é máxima, pense em trombose. E lembre que o Projeto Diretrizes manda explicitamente procurar complicação quando a dor é a queixa principal. Um atalho de prontuário ajuda: escreva a dor sempre com o mesmo par de atributos — relação com a evacuação e velocidade de piora. Quem escreve assim não consegue registrar "dor anal" sem ter perguntado as duas coisas.

Esperar a flutuação para drenar o abscesso perianal

O dano: Flutuação é sinal tardio, e no períneo a espera dá tempo para a infecção descolar fáscia. O Caderno de Atenção Primária n. 30 diz, em uma frase, que ali a drenagem se faz com urgência e não se espera flutuação, porque o risco de fasciite necrotizante é elevado. O agravante é que a técnica do próprio caderno começa mandando verificar flutuação — quem seguir a técnica sem ter lido a indicação faz exatamente o oposto do que o documento determina.

Como pegar a tempo: Trate a região perianal como exceção declarada da regra geral dos abscessos. Diante de tumoração perianal quente, endurecida e dolorosa, o achado que decide é a induração, não a flutuação. E se houver dúvida diagnóstica, o mesmo caderno já resolveu por você: encaminhe com urgência ao cirurgião.

Prescrever antibiótico e marcar retorno em uma semana

O dano: Antibiótico não penetra a coleção, não a esvazia e melhora o aspecto externo o bastante para comprar mais alguns dias de espera. O paciente volta no quarto dia de cefalexina com a dor pior e sai com a impressão, e às vezes com o registro, de que o antibiótico falhou — quando o que houve foi tratamento errado desde o primeiro dia. Em diabético e em imunossuprimido, esses dias são o intervalo em que a gangrena de Fournier se instala.

Como pegar a tempo: Fixe a regra: o tratamento de escolha do abscesso, independentemente da localização, é a drenagem cirúrgica. Antibiótico entra ao lado dela, quando há celulite coexistente, imunossupressão ou corpo estranho, e nunca no lugar dela. Se você não pode drenar hoje, o encaminhamento é hoje. E, se o paciente já chega em uso de antibiótico prescrito por outro serviço, resista à leitura mais confortável: a piora sob antibiótico não é resistência bacteriana nem indicação de trocar de classe, é a prova de que havia uma coleção o tempo todo.

Registrar 'toque retal sem alterações' e concluir que não há hemorroida

O dano: Hemorroidas internas assintomáticas não são diagnosticadas pelo toque retal, porque a mucosa anal tem consistência aveludada e o mamilo não faz relevo. O toque normal não afasta hemorroida interna — e o inverso também vale: quando alguém 'sente a hemorroida' ao toque, quase sempre está sentindo outra coisa, um pólipo, uma papila hipertrófica ou um tumor. As duas leituras erradas do mesmo exame levam ao mesmo lugar: parar de investigar cedo demais.

Como pegar a tempo: Saiba o que cada parte do exame responde. A inspeção sob esforço mostra o prolapso; a anuscopia mostra o mamilo interno; o toque responde tônus, massa, estenose, dor localizada e o que sai na luva. Escreva os três achados separadamente, com palavras, e nunca use um deles para responder à pergunta de outro.

Pedir exame antes de examinar

O dano: É a versão institucional do primeiro erro. O documento de acesso ambulatorial de 2015 sugere anuscopia, retossigmoidoscopia, hemograma, coagulograma, bioquímica e urina para praticamente todos os motivos coloproctológicos, inclusive o abscesso perianal. Cumprir essa lista antes de agir custa dias no caso em que dias importam, e num paciente com abscesso agudo a anuscopia sem anestesia é impraticável. O exame complementar vira, aqui, o mecanismo pelo qual a espera ganha aparência de rigor.

Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas. Para o diagnóstico local, nenhum dos quatro quadros deste capítulo precisa de exame complementar: precisa de luz, luva e dois minutos. Para a pergunta do cólon, o exame tem indicação própria e corre em paralelo — nunca como condição para resolver o que está doendo hoje. E vale a pergunta que desarma o pedido automático: este resultado, seja qual for, muda alguma coisa no que farei ainda hoje? Quando a resposta é não, o pedido virou adiamento com aparência de rigor.

Prescrever corticoide tópico perianal por tempo indeterminado

O dano: O protocolo brasileiro prefere explicitamente a formulação sem corticoide e adverte que o uso indiscriminado pode acarretar outros problemas perianais; o Projeto Diretrizes lista, entre os riscos das medicações tópicas, as sequelas do uso de longo prazo de esteroides e o atraso da investigação diagnóstica. Na prática, o paciente que passa corticoide por meses chega com pele atrófica, dermatite de contato e prurido pior — e com a certeza de que o problema é a hemorroida, porque foi para ela que a receita foi feita.

Como pegar a tempo: Prescreva tópico com data de término e com finalidade declarada — sintomático, por poucos dias. Prefira a formulação sem corticoide quando houver escolha e lembre que, dentro do elenco da Rename, a única opção tópica disponível é a lidocaína gel isolada. E, quando o prurido persistir apesar do tratamento, procure a causa em vez de aumentar a potência da pomada.

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O que dizer ao paciente e à família

Este é o capítulo em que a conversa faz parte do diagnóstico, e não é figura de linguagem: um exame que o paciente recusa é um diagnóstico que não acontece. O que vem a seguir são falas para os pontos exatos em que a consulta emperra.

A regra que atravessa todas elas: fale o que vai acontecer antes de acontecer, e nunca dê a notícia com o paciente ainda descoberto.

Pedir o exame proctológico a quem já demonstrou constrangimento

"Seu Eustáquio, para eu responder de onde vem essa dor eu preciso olhar. É um exame rápido, de uns dois minutos. O senhor vai deitar de lado, virado para a parede, com os joelhos dobrados, e fica coberto o tempo todo — eu descubro só o necessário e cubro de novo antes de a gente conversar. Vou avisando cada coisa antes de fazer, e o senhor pode me pedir para parar a qualquer momento. Quer que alguém fique na sala com a gente?"

Não diga: Não peça o exame com pressa nem com meia frase ("deixa eu dar uma olhadinha"), porque a informalidade aumenta o constrangimento em vez de reduzi-lo. Não negocie para depois ("na próxima a gente vê") — a próxima é como este caso chegou à terceira consulta. E não faça o exame sem dizer o que está fazendo: o silêncio é o que produz a sensação de invasão.

O paciente recusa o exame

"Tudo bem, é um direito seu e eu não vou insistir. Só quero que o senhor saia daqui sabendo o que fica sem resposta: sem olhar, eu não consigo diferenciar as quatro coisas que podem estar causando essa dor, e uma delas precisa de tratamento hoje. Vou anotar que o senhor preferiu não fazer agora, vou tratar o que dá para tratar e marcar o retorno. Se a dor piorar, se der febre ou se o senhor mudar de ideia, é só voltar — não precisa esperar a data."

Não diga: Não use medo como alavanca ("pode ser câncer, o senhor quer arriscar?"), porque produz adesão frágil e ressentimento. Não registre apenas 'paciente recusou': registre o que ficou sem resposta. E não deixe a consulta sem tratamento nenhum só porque o exame não foi feito.

Dizer que é hemorroida — e que ainda assim vai investigar o intestino

"O senhor está certo, tem hemorroida sim, eu vi. E ela pode muito bem estar sangrando. O que eu não consigo garantir olhando só o ânus é o que acontece mais para cima, e nessa idade sangue nas fezes tem outras causas possíveis. Não é que eu ache que o senhor tem alguma coisa grave: é que hemorroida e outras coisas convivem com frequência, e achar uma não responde pela outra. Então vamos tratar a hemorroida agora e, em paralelo, pedir o exame do intestino."

Não diga: Não diga "é só hemorroida" antes de ter examinado, e não diga "é só hemorroida" depois de examinar, porque a palavra 'só' fecha a pergunta do cólon. Não apresente a colonoscopia como castigo por desconfiança, e não prometa que o exame vai ser normal.

Explicar que o abscesso precisa ser drenado hoje

"Essa dor não é da hemorroida. O que o senhor tem aqui é uma coleção de pus, e isso não sara com remédio — o antibiótico não entra dentro dela. O tratamento é abrir e esvaziar, com anestesia local, e isso precisa ser hoje. Nessa região, esperar amadurecer é justamente o que a gente não pode fazer, porque a infecção corre por dentro. Vou explicar como é o procedimento e o senhor me diz se pode ficar agora."

Não diga: Não ofereça a opção de "tentar o antibiótico primeiro", porque ela parece razoável ao paciente e não é. Não descreva o procedimento como "uma picadinha", porque a expectativa quebrada custa a confiança. E não mande para casa com receita e retorno em uma semana quando você não conseguiu drenar — mande para o cirurgião hoje.

A receita do tópico da fissura, que a farmácia do posto não tem

"Essa pomada é diferente das outras: ela não é para aliviar, é para relaxar o músculo do ânus e deixar a ferida cicatrizar. Ela é manipulada, precisa ser feita em farmácia de manipulação e não sai na farmácia da unidade. Quero que a senhora me diga agora se isso é possível para a senhora, porque, se não for, eu prefiro saber hoje e pensar em outra coisa a descobrir daqui a dois meses que a receita ficou na bolsa."

Não diga: Não entregue a receita sem dizer que é manipulada e que tem custo, porque o paciente descobre na farmácia e some. Não trate a impossibilidade de comprar como falta de adesão. E não substitua o relaxante por anestésico tópico fingindo que é a mesma coisa — o próprio protocolo registra que as medidas iniciais superam o anestésico isolado.

O paciente quer operar a hemorroida logo, e o protocolo pede dois meses

"Eu entendo, e não é enrolação. A regra de acesso é essa mesma: dois meses de tratamento bem feito antes de o senhor entrar na fila da proctologia. Mas repare que 'bem feito' é o que vale — se o senhor passar dois meses só esperando, a gente chega lá sem argumento e o pedido volta. Então vamos combinar item por item o que o senhor vai fazer nesses dois meses, eu anoto tudo, e no dia do encaminhamento eu escrevo o que foi tentado e por quanto tempo."

Não diga: Não culpe a fila nem o sistema na frente do paciente como quem se descola da decisão. Não prometa data de cirurgia. E não deixe implícito que o tratamento clínico é formalidade para conseguir a vaga — para uma parte importante dos pacientes, ele é o tratamento definitivo.

Falar de incontinência com quem vai ser operado do esfíncter

"Antes de a senhora ir para a consulta com o especialista, quero que a senhora saiba de uma coisa para poder perguntar lá. As cirurgias que cortam o músculo do ânus resolvem bem a fissura, mas podem deixar algum grau de dificuldade de segurar gases ou fezes, e isso é mais provável em quem já teve partos, em quem tem diabetes ou em quem já operou a região antes. Não estou dizendo para não operar: estou dizendo para a senhora fazer essa pergunta ao cirurgião com essas palavras."

Não diga: Não minimize ("é raro, não acontece") nem amplifique o risco para desencorajar. Não faça essa conversa no lugar do cirurgião: o seu papel é garantir que a pergunta chegue lá. E não a faça com a paciente ainda deitada na maca.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O abscesso perianal: procedimento de hoje ou consulta especializada com exames?

É procedimento, e é hoje, na atenção primária quando possível

O tratamento de escolha para o abscesso, independentemente da localização, é a drenagem cirúrgica; na região perianal a drenagem se faz com urgência e não se espera sinal de flutuação, pelo risco elevado de fasciite necrotizante; na dúvida quanto ao diagnóstico, encaminha-se com urgência para avaliação de um cirurgião. O documento descreve a técnica passo a passo, lista o material e situa o procedimento entre os que a atenção primária deve assumir.

Ministério da Saúde. Procedimentos. Cadernos de Atenção Primária n. 30, Brasília, 2011, seção 2.1

É motivo de consulta especializada, com exames complementares sugeridos

Abscesso perianal aparece como motivo de encaminhamento para coloproctologia em todos os casos, com prioridade máxima de regulação, e com anuscopia, retossigmoidoscopia, hemograma, coagulograma, bioquímica e exame de urina listados como exames complementares sugeridos. O achado de exame físico que dispara o encaminhamento é tumoração quente e dolorosa com descarga purulenta, tenesmo, toxemia e febre.

Ministério da Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro, Brasília, 2015, seção Coloproctologia, p. 32-33

Não tem protocolo próprio

O protocolo de regulação ambulatorial de Proctologia Adulto tem nove protocolos e nenhum é o abscesso anorretal: ele aparece só como critério de suspeita de fístula, quando recorrente. O mesmo documento dá instrução explícita para o abscesso pilonidal — drenagem cirúrgica na atenção primária com anestesia local, sem necessidade de encaminhamento na maioria dos casos, e urgência apenas se muito extenso.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital 2021, protocolos 3 e 4

Como decidir

O abscesso perianal exige uma decisão no atendimento atual. Coleção superficial e bem delimitada em paciente estável pode ser tratada por profissional habilitado no local adequado. Extensão, limites pouco claros, toxemia, diabetes descompensado, imunossupressão ou dúvida diagnóstica exigem avaliação cirúrgica. O protocolo de acesso à consulta não deve criar uma espera por exames eletivos antes de resolver a urgência.

Ligadura elástica: primeira linha para grau I a III, ou recurso depois de dois meses de tratamento clínico?

Primeira linha, com grau A de recomendação

Em metanálise de 18 ensaios clínicos randomizados, a ligadura elástica sobressaiu-se como a melhor forma de tratamento não-cirúrgico da doença hemorroidária, pela menor ocorrência de recidiva, e está indicada para o tratamento inicial de todos os casos de hemorroidas internas de grau 1 a 3. Antes de indicar cirurgia em grau II ou III, deve-se considerar primeiro a ligadura elástica, que tem pouca dor e permite retorno precoce ao trabalho.

Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Hemorróida: Manejo Não-Cirúrgico. Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2006

Só depois de dois meses de tratamento clínico otimizado

O encaminhamento para Proctologia está indicado para hemorroida interna, externa ou mista que persista sintomática após tratamento clínico otimizado por dois meses, sendo tratamento otimizado definido como suplementação de fibras, aumento da ingesta hídrica, banho de assento e abolição do papel higiênico. Como a ligadura elástica é procedimento de consultório especializado, ela só é alcançável depois de vencido esse prazo.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital 2021, protocolo 1

Como decidir

Diferencie oportunidade clínica de organização do acesso. Um prazo administrativo não exige aguardar diante de sofrimento importante, falha terapêutica ou suspeita diagnóstica. Otimize consistência das fezes e hábitos, acompanhe a resposta e encaminhe com história e exame documentados. A escolha de procedimento depende do tipo de doença e das preferências, discutidas com a equipe.

Quando a fissura anal deixa de ser da atenção primária: seis semanas ou dois meses?

Seis semanas definem a cronicidade, e a cronicidade já muda o tratamento

A fissura anal crônica define-se como aquela que se mantém resistente ao tratamento com medidas higiênico-dietéticas por mais de seis semanas. E o tratamento clínico com relaxantes dos esfíncteres deve ser oferecido como manejo inicial de todos os pacientes com fissura anal crônica, em especial naqueles em que a secção cirúrgica do esfíncter interno teria repercussão — multíparas, diabéticos, portadores de síndrome do intestino irritável, operados prévios do reto ou do ânus.

Sociedade Brasileira de Coloproctologia e Colégio Brasileiro de Cirurgiões. Fissura Anal: Manejo. Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008

Dois meses de tratamento otimizado antes de encaminhar, com oito semanas de tópico dentro

O encaminhamento para Proctologia está indicado para fissura anal recorrente ou refratária ao tratamento clínico otimizado por dois meses, e o quadro auxiliar do mesmo protocolo prescreve, para fissuras crônicas ou persistentes, tópico relaxante por oito semanas, aplicado depois das medidas iniciais — com nota de rodapé autorizando estender além das oito semanas ou trocar a classe da medicação em caso de melhora parcial.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital 2021, protocolo 2 e quadro 3

Como decidir

Registre quando começaram os sintomas e as medidas iniciais. Se a primeira consulta já mostra fissura de aspecto crônico, considere o tratamento tópico descrito junto das demais medidas, sem esperar o calendário para reconhecer esse aspecto. A reavaliação e o encaminhamento devem informar o tratamento efetivamente realizado, a duração e a resposta.

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O raciocínio, em voz alta

Joaquina tem 31 anos, é auxiliar de cozinha e chega ao ambulatório com uma queixa que ela hesita em nomear. Diz que "vai ao banheiro com medo" há uns dois meses. A dor vem no momento da evacuação, como se fosse cortada, e continua depois — às vezes por uma hora, às vezes a manhã inteira. Vê sangue vivo no papel, pouco. Está evitando comer para não precisar evacuar e já perdeu dois quilos por isso. Passou uma pomada de hemorroida da irmã por três semanas, sem melhora. Não tem febre, não tem secreção, não tem diarreia. Última gestação há quatro anos, parto normal, sem laceração relatada.

  1. O que penso agora

    A dor tem hora, e é a hora que decide. Dor durante e depois da evacuação, com sangramento pequeno no papel, é o padrão da fissura anal, e o comportamento alimentar dela — evitar comer para não evacuar — é a assinatura comportamental desse quadro. Hemorroida interna não daria essa dor. Abscesso daria dor contínua e sem relação com evacuar. Vou confirmar com a inspeção, e já sei que provavelmente vou adiar o toque.

  2. O que faço primeiro

    Monto o exame antes de pedir qualquer coisa: fecho a porta, ofereço acompanhante, explico a posição e o passo a passo, cubro o que não vou examinar. Decúbito lateral esquerdo, joelhos fletidos. Afasto as nádegas com cuidado, começando pela posterior, e peço um esforço evacuatório leve.

  3. O que encontro

    Na linha média posterior, uma solução de continuidade longitudinal com bordos já espessados, base esbranquiçada e fibrosa, e um plicoma pequeno na borda, logo abaixo. Nenhuma tumoração, nenhum orifício com secreção, nenhum calor local. O esfíncter contrai visivelmente à aproximação. Isso não é fissura aguda: os bordos fibrosos e o plicoma sentinela dizem que ela já passou das seis semanas.

  4. O que decido sobre o toque

    Adio. A lesão é dolorosa e visível, e o documento brasileiro orienta evitar o exame digital exatamente nessa situação. Escrevo no prontuário que o toque foi adiado pela dor da fissura e que será feito no retorno, quando a dor tiver cedido. O que eu perderia sem esse registro é a chance de alguém, dali a um mês, achar que o toque foi feito e foi normal.

  5. O que prescrevo hoje

    As medidas iniciais completas, com números: banho de assento em água morna, 10 a 15 minutos, 2 a 4 vezes ao dia e depois de cada evacuação; 1,5 a 2 litros de água por dia; 20 a 35 g de fibra por dia, e plantago está na Rename; abolir papel higiênico, lavando com água morna e sabonete neutro. E, como a fissura já é crônica, acrescento o relaxante tópico do esfíncter interno desde já, sem esperar seis semanas para chamá-la pelo nome que ela já tem.

  6. O que digo sobre a receita

    Digo que a pomada é manipulada, que precisa de farmácia de manipulação e que tem custo, e pergunto ali mesmo se isso é possível para ela. Explico que ela não é analgésico: relaxa o músculo para a ferida cicatrizar, e por isso não pode ser trocada por pomada de anestésico. Aviso da cefaleia, se for um doador de óxido nítrico. E digo o prazo: oito semanas, com retorno marcado antes disso.

  7. O que faço com a pergunta do cólon

    Faço a pergunta e registro a resposta. Ela tem 31 anos, sem alteração persistente de hábito intestinal, sem massa, sem história familiar de neoplasia colorretal, sem anemia clínica, e a perda de dois quilos tem explicação declarada — ela parou de comer por medo. O sangramento é pequeno e está explicado pela lesão que eu vi. Não abro investigação de cólon agora, e escrevo por que não abri.

  8. O retorno

    Marco com data, em três semanas, não 'se piorar'. No retorno vou fazer três coisas: perguntar item por item o que ela conseguiu cumprir, fazer o toque retal que ficou adiado, e reinspecionar a fissura. Se estiver melhor, mantenho até completar as oito semanas. Se estiver igual, confiro a constipação antes de trocar de medicamento — é ali que a falha costuma estar.

  9. O que registro, e por quê

    Escrevo a inspeção em palavras — localização, aspecto dos bordos, presença do plicoma —, escrevo que o toque foi adiado e o motivo, escrevo a prescrição com números e escrevo a data do retorno. Não escrevo "fissura anal" e ponto: dali a dois meses, quando eu ou outra pessoa formos preencher o encaminhamento, o campo que o protocolo exige é exatamente a descrição da inspeção anal e do toque retal. Prontuário bem escrito hoje é o que impede o pedido de voltar depois — e é o que impede alguém de repetir nela o que fizeram três vezes com o seu Eustáquio.

  10. Quando isso deixa de ser meu

    Se, ao final do tratamento otimizado, a fissura persistir ou recorrer, o encaminhamento para Proctologia está indicado e vai com os cinco campos que o protocolo pede, inclusive a descrição da inspeção e do toque. E há um atalho: se eu encontrasse uma fístula associada, o encaminhamento seria imediato, sem esperar prazo nenhum. Se a fissura fosse atípica — múltipla, fora da linha média, sem hipertonia —, a investigação seria outra, e a doença perianal do Crohn tem capítulo próprio, em Gastroenterologia.

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Faça você

Vanderlei tem 54 anos, é motorista de van escolar e vive com diabetes tipo 2 há nove anos, em uso irregular de metformina. Chega ao pronto-atendimento no quarto dia de cefalexina, prescrita numa unidade básica com o diagnóstico de "abscesso perianal — aguardar amadurecer". Diz que a dor não passou: piorou. Não consegue sentar, dormiu sentado na cadeira da sala, e hoje sentiu calafrio. Temperatura 38,4 °C, frequência cardíaca 112, pressão 118 por 70, glicemia capilar 348 mg/dL. À inspeção, área endurecida e quente na região perianal à direita, com cerca de seis centímetros, eritema que se estende em direção à raiz da coxa, muito dolorosa à palpação — e sem flutuação.

  1. O que o caso já resolveu por você

    O diagnóstico está feito e não depende de mais nenhum dado: é abscesso perianal. A dor contínua e progressiva, sem relação com a evacuação, a tumoração quente e endurecida e a febre bastam. Você não precisa de anuscopia, não precisa de retossigmoidoscopia e não precisa de coagulograma para saber disso.

  2. O que já se sabe que não funcionou

    Quatro dias de antibiótico oral com piora. Isso não é falha do antibiótico: é tratamento errado desde o primeiro dia, porque antibiótico não penetra nem esvazia uma coleção. A orientação de 'aguardar amadurecer' é o erro que o documento nacional proíbe expressamente na região perianal, e os quatro dias perdidos são exatamente o intervalo em que a fasciite se instala no diabético descompensado.

  3. O que falta decidir

    Falta responder três coisas, nesta ordem, e a primeira delas tem menos de um minuto: este quadro é apenas um abscesso, ou já é gangrena de Fournier? Onde este abscesso vai ser drenado? E o que se faz enquanto isso acontece?

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Siga Eustáquio do exame ao controle da dor e ao retorno; confronte a hipótese local com a necessidade de investigar o cólon.

  5. Questão integrativa 1

    Por que Eustáquio precisa ser examinado antes de receber outra pomada?

  6. Questão integrativa 2

    A falta de febre exclui abscesso?

  7. Questão integrativa 3

    O que fazer se o toque for intolerável?

  8. Questão integrativa 4

    Quando a imagem pode ajudar?

  9. Questão integrativa 5

    Fístula e abscesso têm o mesmo grau de urgência?

  10. Questão integrativa 6

    Dois meses de tratamento devem ser aguardados diante de lesão suspeita?

Ver como fecharíamos

Primeiro, a pergunta que muda o dia: procure ativamente os sinais de fasciite necrotizante antes de qualquer outra coisa — dor desproporcional ao que se vê, crepitação à palpação, área de anestesia cutânea sobre a lesão, coloração vermelho-azulada ou acinzentada, bolhas, e a velocidade de progressão em horas. Vanderlei reúne terreno (diabetes descompensada, glicemia 348 mg/dL), tempo perdido (quatro dias), resposta inflamatória sistêmica (38,4 °C e 112 bpm) e eritema que já ultrapassou a região perianal em direção à coxa. Isso é suspeita de gangrena de Fournier até prova em contrário, e a prova não se faz na sala de exame: faz-se no centro cirúrgico. Segundo, o destino: este abscesso não é para ser drenado na unidade básica nem no consultório. É coleção extensa, mal delimitada, em paciente diabético descompensado e toxêmico — a exata combinação em que o próprio caderno do Ministério manda encaminhar com urgência ao cirurgião. Acione a cirurgia agora, pelo telefone, e registre a hora. Terceiro, o que se faz enquanto isso: acesso venoso, coleta de exames sem que eles atrasem nada, correção da hiperglicemia, analgesia, e antibiótico de amplo espectro iniciado precocemente ao lado do encaminhamento cirúrgico, nunca no lugar dele. O pacote de sepse propriamente dito — metas de ressuscitação, escolha e escalonamento do antibiótico, vasopressor — é do capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva; o que é seu aqui é não deixar o paciente esperando exame e não aceitar mais um dia de observação. E a ausência de flutuação, que foi o argumento usado para mandá-lo para casa, é justamente o que o documento nacional diz para ignorar: na região perianal a drenagem se faz com urgência e não se espera sinal de flutuação, pelo risco elevado de fasciite necrotizante. Se você levar uma frase deste capítulo para o plantão, que seja essa. Duas notas finais sobre este caso, porque elas voltam sempre. A primeira: não use a glicemia de 348 mg/dL como razão para adiar a cirurgia — a hiperglicemia se corrige junto com a abordagem, não antes dela, e o diabetes descompensado é argumento a favor da urgência, não contra. A segunda: quando for entregar o caso ao cirurgião ou ao serviço de destino, diga a hora em que o quadro começou, a hora em que o antibiótico foi iniciado e a hora em que o eritema alcançou a coxa. Numa infecção que se mede em horas, a linha do tempo é o dado clínico mais valioso que você tem para passar — e é o que quase nunca chega junto com o paciente. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Dor e sangramento têm causas diferentes; o rótulo anterior sem exame não identifica a lesão atual. 2. Não. Abscesso pode ter poucos sinais sistêmicos; localização, dor e evolução orientam a hipótese. 3. Interromper, documentar e organizar analgesia e avaliação apropriada, eventualmente sob anestesia; não forçar nem encerrar o caso. 4. Na suspeita de abscesso profundo, doença complexa, recorrente ou exame inconclusivo. Não é condição para drenar todo abscesso superficial evidente. 5. Não necessariamente. Fístula estável requer avaliação especializada; abscesso ativo ou infecção sistêmica exige atendimento urgente. 6. Não. Sinais de neoplasia, complicação ou falha relevante justificam antecipar investigação e encaminhamento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo trata a fístula anal de modo diferente da hemorroida e da fissura: não há tratamento clínico a esgotar antes, e o caso apenas suspeito — secreção perianal persistente ou abscessos anorretais recorrentes — já basta para o encaminhamento, assim como o caso confirmado. Para hemorroidas e para fissura, ao contrário, o critério exige persistência de sintomas após tratamento clínico otimizado por dois meses. O mesmo documento ainda coloca a fístula anal com abscessos de repetição na lista curta de condições que devem ter preferência na fila da Proctologia. À parte de tudo isso está a hemorroida encarcerada, que não vai para fila alguma: vai para urgência ou emergência.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Doença hemorroidária interna sangra e não dói — a inervação acima da linha pectínea é visceral. Dor em paciente rotulado como hemorroida pertence a outra lista: trombose, fissura ou abscesso. A dor da fissura tem hora (durante e depois de evacuar); a do abscesso não tem hora e piora dia a dia. Abscesso perianal se drena com urgência e não se espera flutuação — é a regra nacional do Caderno de Atenção Primária n. 30, e vale contra a técnica do próprio caderno. Antibiótico nunca substitui a drenagem. Toque retal normal não afasta hemorroida interna, porque a mucosa anal é aveludada e o mamilo não faz relevo.

Em 30 dias

O exame proctológico é o que decide, e ele exige montagem: porta fechada, luz dirigida, lençol, luva, gel, acompanhante oferecido, decúbito lateral esquerdo, narração do que se faz antes de fazer. Adie o toque diante de lesão dolorosa visível e registre o motivo. Escreva a inspeção e o toque em palavras no prontuário — é o campo que mais falta no encaminhamento e o que permitiu o rótulo atravessar três consultas. Os relógios do encaminhamento brasileiro: hemorroida e fissura, dois meses de tratamento clínico otimizado; fístula suspeita ou confirmada, imediato; hemorroida encarcerada, urgência hoje. E, no elenco da Rename, a única opção tópica coberta é lidocaína gel 2% — os quatro relaxantes tópicos da fissura são manipulados e nenhum consta, o que precisa ser dito na hora da receita.

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Agora atenda

Agora atenda o paciente que traz o diagnóstico pronto e a queixa que não combina com ele. Ele vai falar do sangue como quem já se acostumou, e a dor vai aparecer de passagem, quase como desabafo. O caso se resolve na hora em que você decide montar o exame — e o exame só acontece se você souber pedi-lo.

Doença anorretal benigna – O exame que ninguém quer fazer — Internato | OsceLabs